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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

MADSON JOSÉ NASCIMENTO QUARESMA

USINA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE: Da modernização do território à reconfiguração das escalas de poder

NITERÓI/RJ

Setembro, 2016

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

MADSON JOSÉ NASCIMENTO QUARESMA

USINA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE: Da modernização do território à reconfiguração das escalas de poder

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Geografia, Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense, para a obtenção do grau de Mestre em Geografia. Área de Concentração:

Ordenamento Territorial Urbano-Regional

NITERÓI/RJ

Setembro, 2016

AGRADECIMENTOS:

Ao término de mais essa etapa, que pra mim transcendeu a questão do aprendizado acadêmico e me trouxe um amadurecimento pessoal e político, não poderia deixar de lembrar as pessoas que foram importantes em momentos difíceis (que foram muitos), mas também estiveram comigo partilhando de boas risadas.

Gostaria de começar os agradecimentos pelos meus pais Edson Quaresma e Maria de Jesus Quaresma, que além de todo amor e afeto que sempre dedicaram a mim e a meu irmão, novamente estiveram comigo e quando decidi me aventurar por terras cariocas me apoiaram e me incentivaram.

Aos amigos Mateus, Clédson e Jovenildo pelos momentos de descontração e pelos debates geográficos de sempre, Mauro com quem aprendo a cada dia mais sobre amizade, lealdade e política e ao Giovane Mota por sempre acreditar em mim e por ter mais uma vez me incentivado a encarar esse desafio do Mestrado.

Agradeço aos amigos que fiz durante essa caminhada cheia de frustações e conquistas e contribuíram para fazer da minha estada em Niterói um pouco mais leve: Antonella, Thiago, Aline, Humberto, Bruno, Isabel, Anderson, Eduardo, Vinícius, Marcos Vinícius, Leonardo e Marcela, sem vocês a adaptação teria sido muito mais difícil e muito menos divertida.

Aos amigos Daniel Sombra e Luís Villacís, companheiros de tantas coisas nos últimos tempos: crises, frustrações, “perrengues” da vida cotidiana e muitas alegrias. Creio que a alcunha “irmãos” seja a mais indicada para explicar o meu sentimento por vocês.

Agradeço aos membros do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, em especial, Mônica Brito e Antônia Melo, mulheres virtuosas a quem tenho como exemplo de luta. Pela ajuda quando estive em trabalho de campo e por terem possibilitado as entrevistas que ilustram este trabalho, meus agradecimentos.

Ao professor Gilberto Rocha, pelos diálogos sempre muito produtivos sobre a Amazônia e os Grandes Projetos na região.

A meu irmão Marcel Quaresma, sua esposa Marinilde Miranda e seu filho Gabriel, pelo acolhimento na sua residência em minha estada em Altamira e, pela ajuda no deslocamento pelas cidades que fazem parte deste estudo.

Ao Programa de Pós-Graduação em Geografia e aos professores Carlos Walter, Rogério Haesbaert, Flávia Martins, Ruy Moreira, Jorge Barbosa os quais tive o prazer de ter contato e que sempre foram muito atenciosos e solícitos comigo.

Ao Grupo NETAJ pelos debates e por me proporcionarem entrar em contato com outras perspectivas de mundo e outras narrativas.

Deixo um agradecimento em especial ao meu orientador Valter Cruz pelas lições, por ter me dado condições de entrar em contato com uma literatura que eu desconhecia a qual veio a enriquecer a minha dissertação e também contribuir para a minha formação pessoal. Para além de um orientador paciente e sensível as minhas dificuldades, foi também uma pessoa, juntamente com sua esposa Amélia Bezerra, pessoas que fizeram o possível para me ajudar nos momentos mais difíceis na adaptação em Niterói, fato que nunca esquecerei e sempre serei grato. Muito obrigado pelo afeto a mim dedicado e que possamos solidificar cada vez mais a nossa amizade.

A todos o meu muito obrigado.

Resumo:

O discurso da modernidade na Amazônia diz que as novas ações e novos objetos irão diminuir as desigualdades da região, tanto econômica quanto social. No entanto, o que se vê, na realidade, é a modernização da exploração, seja ela dos recursos ou da mão de obra. Mesmo com os indicadores sociais superestimados, a exploração da região segue orientada por processos exógenos, fato que amplia ainda mais a produção da mais-valia sobre a região. Assim sendo, a modernidade se impõe e ganha como suporte o apoio do poder local que vê seus lucros serem potencializados, o que tornam as alianças entre Estado, poder local e empresas internacionais mais fortalecidas na região. Na região de Integração do Xingu, nosso lócus de estudo, a ação desses três atores molda o território, que se encontra em mudança, com o início das obras da Hidrelétrica de Belo Monte. A região hoje vive um momento, no qual as empresas internacionais, o poder local e o Estado decidem o seu futuro e isso custa caro ao restante da população. Neste contexto, também se cria uma forte reação ao projeto por parte da sociedade civil. Assim sendo, graves conflitos que já existiam entre as elites locais e os chamados povos tradicionais da região, herança de outros momentos, se acentuam. Contudo, as experiências preteridas de enfrentamento levaram o povo a procurar formas concretas de organização a fim de instituir uma força capaz de mudar a forma que os sucessivos projetos de modernidade na região se estabelecem. Então, partimos da hipótese central de que a modernização do território do Xingu visa criar condições para a ampliação da reprodução do capital, utilizando os sistemas de objetos e dos sistemas de ações que serão instalados na região, com o objetivo de modernizar a exploração e maximizar ganhos, a partir das novas políticas territoriais que serão implantadas. Entretanto, com o refinamento da organização da sociedade civil na região esse processo passa a ocorrer com grande resistência não somente no âmbito local como era antigamente, mas agora abrangendo também ações nas escalas nacional e internacional, através da organização de políticas de escalas, fazendo com que essa população deixe de ser um sujeito passivo na produção do espaço regional e se torne um agente concreto na produção.

Palavras-Chaves: Movimentos Sociais, Território; políticas de escalas.

Abstract:

The Amazon modernity speech says that new actions and new objects will reduce inequalities in the region, both economically and socially. However, what it is saw, actually, it is the modernization of exploitation, whether of resources or manpower. Even with the overestimated social indicators, the exploitation of the region follows guided by exogenous processes, a fact that further expands the production of surplus value over the region. Thus, modernity imposes itself and gains support of local power that see their profits being leveraged, which makes the alliances between the state, local power and international companies stronger in the region. In the Xingu Integrated Region, our study locus, the action of these three actors shape the territory, this is changing, with the start of construction of the Belo Monte Dam. The region today is experiencing a moment, when international companies, local power and the State decide the future of the region and this have a cost to the rest of the population. In this context also it creates a strong reaction against the project by civil society. Thus, serious conflicts that existed between local elites and the so-called traditional peoples of the region, inheritance of other times are accentuated. Although, required experiences of struggle led people to seek concrete ways of organization in order to establish a force able to change the way that successive modern projects in the region are established. So we start from the central hypothesis that the modernization of the Xingu territory aims to create conditions for the expansion of the reproduction of capital, using the systems of objects and systems of actions that will be installed in the region, in order to modernize the exploitation and maximize gains from the new territorial policies to be implemented. Nevertheless, with the refinement of the regional civil society organization this process begins to occur with great resistance not only at the local level as it was before, but now also covering actions in the national and international level, by organizing scales policies, making this population ceases to be passive subject in the production of regional space and become a real agent in the production.

Key Words: Social Movements, Territory; scales policies.

LISTA DE FIGURAS:

Figura 1: Municípios Impactados pela Construção da UHE Belo Monte

1

Figura 2: I Congresso de Educação e Esporte Zico 10

80

Figura 3: Invasões em Vitória do Xingu

81

Figura 4:Jurisdição Territorial dos Municipios Paraenses

82

Figura 5: Ato popular contra o projeto de privatização da água em Altamira

94

Figura 6: Manifestação contra as condições de saneamento em

95

Figura 7: Inicio do desmatamento da Ilha

96

Figura 8: Animais procuram abrigo em áreas urbanas

96

Figura 9: Peixes encontrados mortos nas proximidades da UHE de Belo Monte

 

97

Figura 10: Manifestação contra o desmatamento na

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LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS:

BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico

BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

CEB’S – Comunidades Eclesiais de Base

CMXVPS Comitê Metropolitano Xingu Vivo Para Sempre

CNEC Consorcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A

Companhia de Saneamento do Pará COSANPA

CPT Comissão Pastoral da Terra

DNER Departamento Nacional de Estradas e Rodagem

EIA Estudo de Impacto Ambiental

ELETROBRAS Centrais Elétricas Brasileiras

ELETRONORTE Centrais Elétricas do Norte do Brasil

FAOR Fórum da Amazônia Oriental

FUNAI Fundação Nacional do Índio

FVPP Fundação Viver Produzir e Preservar

MPF Ministério Público Federal

MST Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra

MXVPS Movimento Xingu Vivo Para Sempre

NESA Norte Energia S/A

IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IDESP Instituto do Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará

INCRA Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária

IIRSA Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana

ITERPA Instituto de Terras do Pará

ISA Instituto Socioambiental

ONG Organização Não-Governamental

PAC Programa de Aceleração do Crescimento PNE 2010 Plano Nacional de Energia 2010 PND Plano Nacional de Desenvolvimento RIMA Relatório de Impacto Ambiental SAGRI Secretaria de Agricultura SDDH Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos SPVEA Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia SUDAM Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia UFPA Universidade Federal do Pará

Sumário

INTRODUÇÃO:

CAPÍTULO 1: TERRITÓRIO, POLÍTICAS DE ESCALA E MOVIMENTOS SOCIAIS: . 8

1

1.1 Conceituando o território: Apropriações, usos e desterritorialização

8

1.2 Escala: entre as escalas da política e as politicas das

18

1.2.1

A construção social da escala:

22

1.3

Movimentos sociais no Brasil: Gênese, políticas escalares e organização em

28

1.3.1 Organização, transformações e lutas da sociedade organizada no Brasil.

31

1.3.2 A importância de experiências pretéritas para a atual organização dos

movimentos sociais no país

34

1.3.3

Mobilizações e organizações em rede no século XXI:

37

1.4 Movimentos sociais e organização de políticas escalares na Amazônia:

40

1.5 Novas estratégias e novas

45

CAPÍTULO 2: AJUSTES ESPACIAIS E A MODERNIZAÇÃO DO TERRITÓRIO NA AMAZÔNIA:

48

2.1 Fases de ocupação e o Estado na Amazônia:

49

2.2 Grandes Projetos e intervenção estatal na região

55

2.3 A fronteira energética no Brasil e a importância da Amazônia no contexto:

64

2.4 Belo Monte e a reconfiguração do território, do poder e da política na região: 70

83

2.5 O Estado no centro do debate:

CAPÍTULO 3: LUTAS E RESISTÊNCIA NO XINGU: DA MOBILIZAÇÃO SOCIAL ÀS

ESTRATÉGIAS ESCALARES:

86

3.1 Origem e primeiras formas de

86

3.2 Ações afirmativas do

94

3.3 Organização e Modus Operandi do

99

3.4 As políticas de escalas enquanto instrumento de

114

Considerações Finais:

117

Bíbliografia:

123

1

INTRODUÇÃO:

I) Apresentação:

Localizada na mesorregião sudoeste do Estado do Pará, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte UHE de Belo Monte está sendo instalada na chamada “Volta Grande do Rio Xingu”. Segundo os Estudos de Impactos Ambientais, esta obra impactará diretamente na dinâmica dos municípios de Altamira, Senador José Porfírio, Anapu, Pacajá, Vitória do Xingu, Brasil Novo, Medicilândia, Gurupá, Uruará, Placas, Porto de Moz.

Figura 1: Municípios Impactados pela Construção da UHE de Belo Monte:

Impactados pela Construção da UHE de Belo Monte: Contestada por Movimentos Sociais, Ambientalistas e

Contestada por Movimentos Sociais, Ambientalistas e pesquisadores que afirmam serem os impactos sociais e ambientais da obra na região subestimados, além de apontarem uma possível ineficiência do projeto a

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construção da UHE de Belo Monte, inicialmente, tinha como previsão para seu funcionamento o ano de 2015, mas foi inaugurada em 2016. Esta obra é vista pelo Estado como um projeto prioritário às pretensões de crescimento industrial

e econômico do país para os próximos anos.

Além de estar voltada para o crescimento econômico Nacional, a construção da UHE de Belo Monte está diretamente ligada à Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana IIRS, que pretende desenvolver e interligar todo um sistema de infraestrutura por toda a América do Sul, importante área rica em recursos naturais no mundo, contudo ainda de difícil acesso devido a atual infraestrutura da região.

Criada em 2000, durante a Reunião dos Presidentes da América do Sul em Brasília, a IIRSA tem como coordenação operacional as entidades Corporação Andina de Fomento CAF, o Banco Interamericano de Desenvolvimento BID e o Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia da Prata FONPLATA, além de contar com grandes aportes vindos do Banco Nacional do Desenvolvimento Social e Econômico BNDES. Todo esse aporte de importantes instituições financeiras evidencia os reais motivos de tal integração e de como são orientados os seus 10 eixos de integração, os quais concentram ou possuem potencial para desenvolver grandes fluxos comerciais e criar importantes cadeias produtivas. Cabe aos Estados, principal agente dentro de seus limites territoriais, serem os agentes indutores dessa nova reconfiguração espacial.

De modo geral, um projeto como esse carrega consigo a missão não

somente de integração, mas se tratando de um projeto capitalista, também traz

a ideia de homogeneização produtiva. Isto, para a região, implica em aniquilar

ou ao menos submeter à diversidade produtiva e de modos de vida da região como um todo, à lógica capitalista e, a partir deste fato, gerar um processo de grande resistência ao projeto principalmente por parte de povos tradicionais de toda a América do Sul.

Especificamente no caso dos municípios na área de influencia da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, o empreendimento está sendo instalado em uma das regiões de maior sociobiodiversidade do Brasil e seus efeitos são

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catastróficos às comunidades que ali vivem e que da floresta tiram o seu sustento. Enquanto o projeto se mostra uma das principais saídas pensadas pelo Estado Nacional para impulsionar o crescimento econômico e a expansão do mercado brasileiro frente ao mercado externo, às famílias que ali vivem a reinserção da região nesse novo projeto de Brasil pensado no início do século XXI, lhes são apresentadas como velhas novidades, já que a condição de colônia da região é reforçada e a degradação das condições de vida se torna cada vez mais precária.

O discurso da modernidade na Amazônia diz que as novas ações e novos objetos irão diminuir as desigualdades da região, tanto econômica quanto social. No entanto, o que se vê, na realidade, é a modernização da exploração, seja ela dos recursos ou da mão de obra.

Mesmo com os indicadores sociais superestimados, a exploração da região segue orientada por processos exógenos, fato que amplia ainda mais a produção da mais-valia sobre a região. Assim sendo, a modernidade se impõe e ganha como suporte o apoio do poder local que vê seus lucros serem potencializados, o que torna a aliança entre empresas internacionais, Estado e poder local mais fortalecida na região.

Na região de Integração do Xingu, nosso lócus de estudo, a ação coordenada desses três atores molda o território, que se encontra em constante mudança, com o início das obras da Hidrelétrica de Belo Monte. A região, hoje, vive um momento, segundo o qual as empresas internacionais, o poder local e o Estado decidem o futuro da região e isso custa caro ao restante da população que vê mais uma vez as promessas da modernidade não se concretizarem.

Diante desse processo que leva a deterioração de modos de vida dissonantes da produção capitalista resta ao povo atingido por este buscar formas de enfrentamento para garantir a sua reprodução social.

Há anos os Movimentos Sociais na região do Xingu travam enfrentamento contra o Estado e os agentes que os representam, a fim de garantir o respeito aos seus direitos. No início do século XXI, a partir de novos

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contatos, o modus operandi dos Movimentos tem tomado outras dimensões. Estas parcerias lhes possibilitaram uma nova forma de organização e, consequentemente os levaram à ações mais efetivas na criação de estratégias contra-hegemônicas.

O surgimento de canais de diálogos no país com o inicio da abertura política, posteriormente ao avanço das tecnologias de informação e do próprio regime democrático no país no início dos anos 2000, tornam propício o ambiente para o aumento das conexões entre os diversos agentes sociais e também a busca, de maneira geral, da ampliação do direito e, a partir daí pensar-se num verdadeiro desenvolvimento social no país.

Cria-se, então, um campo de disputa entre os diferentes agentes representantes de projetos contraditórios na busca pelo efetivo controle sobre o território. De um lado, as forças hegemônicas representantes do Capital, buscam uma maior inserção produtiva da região dentro de um projeto Global de exploração e, de outro, as forças sociais por muito tempo inviabilizadas por esse processo exploratório, buscam resistir e manter o controle da sua força de trabalho e de sua reprodução social. Ambas desenvolvem estratégias com ações agregadoras de um maior número de campos e escalas, cada um ao seu modo, cada um com seu objetivo e, com a confiança de que o controle se dará por quem acionar políticas escalares com mais habilidade.

II)Objetivos:

O trabalho está dividido em três capítulos nos quais são discutidos, incialmente, as formas conceituais dos eventos que pretendemos demostrar no caso em questão. Faz-se um debate sobre o conceito de território na Geografia e sua importância na interpretação da formação social da Amazônia. Discute- se a questão da escala e como no atual mundo moderno os processos se configuram em formas escalares, sejam eles induzidos pelo Capital e orientado pelo Estado, ou a partir de estratégias de resistências criadas pelos Movimentos Sociais.

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Mostra-se como a organização da sociedade civil em rede se torna uma saída viável para grupos que têm os seus direitos desrespeitados por esses empreendimentos e, como na Amazônia essa forma de organização se reproduzem em vários lugares e em vários contextos, a exemplo dos seringueiros, passando pelas quebradeiras do coco babaçu, movimentos indígena e até os atingidos por barragens e tantos outros. Mostram-se, também, como as formas de luta desses grupos modificam-se no decorrer do tempo e como as suas lutas ganham nova dimensão quando esses grupos começam a acionar novas políticas de escalas, ao organizarem-se com ONG’s

e ao passarem a ter voz em importantes fóruns e organismos econômicos mundiais.

No segundo capítulo discute-se a formação territorial da Amazônia, políticas de desenvolvimento e suas fases de ocupação. Insere-se nessa discussão o quanto a malha técnica programada ajuda a entender a organização da Amazônia na atualidade. Sobre este tópico, mostra-se como a densidade técnica instalada na região cria uma reconfiguração política e orienta um grande fluxo migratório, a fim da ampliação da exploração dos recursos da região e, como tudo isso se configura em formas de organização escalares impostas à região pelo projeto de desenvolvimento capitalista.

Esse capítulo está subdividido em três momentos nos quais se discute

o que é o projeto de modernização da Amazônia, quais as linhas gerais dos

grandes projetos e quais são esses projetos na atualidade. Observam-se, ainda, como os projetos hidrelétricos, de mineração e outros não são isolados e

se reproduzem mutuamente sendo integrados dentro de uma perspectiva política e econômica do país.

No terceiro capítulo faz-se uma discussão em torno das estratégias de organização política dos movimentos sociais e sua reestruturação a partir da chegada de um empreendimento dessa magnitude no território. Discutem-se as formas de resistência da sociedade civil relacionadas a esses projetos e quais os tipos de políticas e ações coletivas são geradas. Busca-se mostrar também quais articulações esses movimentos organizados criaram em termos de políticas de escalas, denúncias em organismos nacionais e internacionais,

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criação de fóruns e etc. e quais as suas vitórias a partir desses novos tipos de articulação e organização. Mostra-se a modificação, no decorrer do tempo, do padrão de organização política e as proporções assumidas por esses grupos, graças às novas políticas de escalas por eles acionadas.

Como objetivo geral, mostram-se como nos dias atuais a capacidade de organização de ações em políticas de escalas constitui-se em importantes ferramentas para quem deseja manter ou tomar determinado controle territorial, devido às múltiplas variáveis que recortam um determinado evento. Dessa forma busca-se responder o seguinte questionamento: Como os Movimentos Sociais na Amazônia se redimensionam e reposicionam suas lutas a partir da compreensão das políticas de escala enquanto instrumento de poder?

III) Procedimentos Metodológicos:

Os procedimentos metodológicos de nosso trabalho foram desenvolvidos em quatro fases:

No primeiro momento foi realizada uma revisão bibliográfica dos conceitos chaves do trabalho, território, políticas de escalas e Movimentos Sociais.

No segundo momento foram analisadas as heranças deixadas no território, resultante das várias políticas de desenvolvimento e integração nacional e regional e quais foram os resultados das diferentes frentes de ocupação orientadas para a região na formação socioespacial do lugar. Neste momento foram realizadas pesquisas bibliográficas sobre os diferentes programas e planos criados pelo Estado para a Amazônia durante a história de sua ocupação (Programa de Integração Nacional PIN; Plano Nacional de Desenvolvimento PND; Programa de Polos Agropecuários e Agromineral da Amazônia POLAMAZÔNIA) e como estes influenciaram a formação dos municípios paraenses sob a tutela do Rio Xingu, e o que estes planos acarretaram, criaram e/ou instalaram os mais variados atores no palco de nosso estudo. Na terceira fase foram realizadas análises documentais específicas das políticas públicas atuais, todas vinculadas à construção da Hidrelétrica de

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Belo Monte para a região. As análises compreenderam, ainda, o modo de desenvolvimento dessas políticas, sua elaboração e a forma de compreensão do Estado sobre os variados usos dados ao território pela população. Nesta fase, diferentemente da primeira, focamos especificamente na análise documental das políticas criadas exclusivamente a partir da Hidrelétrica de Belo Monte. O quarto momento foi o de análise dos diferentes usos dados à terra, no município, pelos diferentes atores, pertencentes à região (indígenas, pescadores, posseiros, fazendeiros, etc.) e como o modo de vida dessas pessoas está e/ou será afetado pela construção da barragem, como se dá a intervenção do Estado para contornar estes problemas e quais as formas de reação que as comunidades atingidas criaram contra as ações que tanto lhes é prejudicial. Neste momento da pesquisa foram realizadas entrevistas com diferentes grupos que, de alguma forma, serão/foram afetados pela criação da hidrelétrica naquele local, membros de Movimentos Sociais como Xingu Vivo Para Sempre, pescadores e trabalhadores rurais desapropriados.

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CAPÍTULO 1: TERRITÓRIO, POLÍTICAS DE ESCALA E MOVIMENTOS SOCIAIS:

1.1 Conceituando o território: Apropriações, usos e desterritorialização.

O conceito de território tem origem no seu uso banal e cotidiano, assim

como todos os conceitos científicos. Haesbaert (2009) diz que podem ser duas

as origens filosóficas do conceito aqui evocado. Originária do léxico latino, tal

palavra pode ter sido derivada tanto da palavra “terra” (terrae), como da palavra

“terror” (terrorem). Apesar de não podermos confirmar com exatidão de qual

das palavras surgiu, ambas as raízes nos ajudam a compreender as

características centrais as quais o território está ligado. De um lado o substrato

material (recursos, terra, solo, determinada área) de um povo ou de uma

pessoa e do outro relacionado ao medo, posse, controle e violência muitas

vezes exercida quando a posse é violada por terceiros.

Entre as ciências, a primeira que usou o conceito de território foi a

biologia. Esta ciência relaciona espécies vegetais e animais e seus referidos

habitats a variados recursos determinantes para a consolidação e reprodução

das espécies, o que torna, a partir dessa interpretação, o território algo

essencial para tais grupos. Na geografia, o território é um conceito ligado, mas

não restrito, a geografia política. No inicio da geografia científica tal conceito

tinha um cunho bastante naturalista e muito próximo ao conceito oriundo da

biologia. Entretanto, nos dias de hoje, após inúmeras rupturas e avanços que

refinaram o conceito, o território acabou se tornando mais próximo do

conhecimento dito como de ciências humanas onde:

O território é o lugar em que desembocam todas as ações, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem plenamente se realiza a partir das manifestações de sua existência. A geografia passa a ser aquela disciplina tornada mais capaz de mostrar os dramas do mundo, da nação, do lugar (SANTOS, 2007, p13).

Haesbaert (2009) elabora um brilhante estudo sobre as variadas

classificações, sistematizações e análises das abordagens dadas ao território

9

na geografia e nas ciências sociais. Olhando principalmente para a década de 1990, momento em que se fala de vários “fins” nas ciências sociais (fim da história, fim dos territórios, fim da geografia) Haesbaert (2009) tenta entender a qual território cada um dos defensores da “desterritorialização” está se referindo. Visto que, o autor entende que a desterritorialização absoluta, como fim estrito do território, enquanto recurso explicativo continua sendo uma falácia, pois cada desterritorialização corresponderia a uma reterritorialização, ainda que essa se dê de forma precária (territorialização precária), como ocorrem com as pessoas que são atingidas direta ou indiretamente pelo projeto da Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, assunto que trataremos em capítulos posteriores.

Haesbaert (2009) contrapõe duas perspectivas acerca do território para chegar a sua conclusão, a dos que veem o território como absoluto e a dos que focam na carga relacional do território, onde ele é analisado a partir das suas relações históricas e sociais e nas suas relações de poder. Em Haesbaert (2009), o território é relacional não por esses conjuntos de relações, mas por não ser apenas uma coisa:

Nunca é demais lembrar o pressuposto básico de que o território, no sentido relacional com que trabalhamos, não é simplesmente uma “coisa” que se possui ou uma forma que se constrói, mas, sobretudo uma relação social mediada e moldada na/pela materialidade do espaço. Assim, mais importante do que as formas concretas que construímos são as relações com as quais nós significamos e “funcionalizamos” o espaço, ainda que num nível mais individual (HAESBAERT, 2009, p.64).

As dimensões sobre o território mais difundidas são as que enfocam a sua dimensão política e enfatizam as relações de poder aí existente. Haesbaert (2009) vê como uma das mais importantes contribuições deixadas ao entendimento do conceito de território a interpretação de Raffestin. Haesbaert (2009, p 82) acredita que Raffestin ao propor o território enquanto “um campo de ações de trunfos” frente ao espaço e o tempo, “trunfos” propriamente ditos, considera essencial ao território a sua dimensão relacional as relações de poder. O que para Haesbaert não implica, em ignorar a dimensão material, sob pena de cair em um sociologismo ou historicismo, o que seria tão grave quanto

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“erigir epistemologicamente em objetivo autômato o palco” (SOUZA, 1986, p

76).

Entendemos Raffestin (1993), considerando o espaço como um trunfo finito por este poder ser enclausurado, isto é, controlar os movimentos e também os recursos significa poder. Para Raffestin, o poder é exercido dentro das relações, onde toda relação social, mesmo as que nos pareçam mais simplórias, são imbuídas de relação de poder. Assim sendo toda relação social uma relação de poder. “Presente em cada relação, a curva de cada ação:

insidioso, ele se aproveita de todas as fissuras sociais para infiltrar-se até o coração do homem” (RAFFESTIN, 1993, p.52). Mas a ambiguidade está em que o poder está em relações institucionalizadas, principalmente através de superestruturas como o Estado.

As relações de poder compõem um vetor configurado entre dois eixos, energia e informação, onde tal relação é materializada através do trabalho, e, neste sentido, toda relação de produção também é uma relação de poder, sendo todo espaço social aí produzido pelos seres humanos um território, território este que será apropriado por algum determinado grupo, ou por alguém. Raffestin (1993) em seu raciocínio apresenta o espaço como um espaço social, que ao mesmo tempo se caracteriza por ter características simbólicas e também materiais. Sobre essas duas faces do espaço social de Raffestin, alguns autores apontam contradições em sua obra, quando o autor diferencia o espaço enquanto “prisão original” e território como “prisão que os homens constroem para si”.

Críticas à parte, pois não é o nosso foco principal, a rica contribuição dada por Raffestin vem do seu rico e abrangente conceito de poder que por ele é acrescentado na Geografia, onde o poder é sempre uma relação construída por trabalho humano e, originalmente, energia e informação estando disponíveis a todos os agentes sociais. Ressalta-se que para Raffestin (1993, p.56) é a “energia informada”, e, logo, “força dirigida, orientada e canalizada por um saber”.

Voltemos para Haesbaert (2009). O autor em sua tese afirma que o território não morreu e nem morrerá, enquanto existirem seres humanos, pois é

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de sua natureza encontrar formas de se territorializar. Quer seja como des- localização econômica, como diminuição do controle do Estado (ou como o seu aumento) ou com a hibridização cultural, isso tudo não seria uma desterritorialização absoluta em seu sentido pleno. Ser desterritorializado e desterritorializar-se deve ser compreendido como um processo histórico do ser humano. Haesbaert (2009) dá ao território igual valor tanto ao seu substrato material, quanto o substrato simbólico, não havendo apenas uma única escala a ser considerada como territorial, mas sim a reprodução dada na intersecção desses dois substratos.

Contribuindo para essa suposta “desterritorialização” dada nos dias de hoje em alguns recantos do mundo, as redes dinamizaram ainda mais os processos, tanto econômicos, como sociais. As redes, sempre existiram nos territórios, à medida que o território não é um ente, mas um entrelaçar de complexas relações sociais. São elas as responsáveis por articular as mais variadas escalas de poder no território. Ao longo do processo histórico e ao largo do espaço geográfico, criam-se estruturas que viabilizam fluxos, os quais dão uma dimensão material a algumas redes. Sobre redes, Raffestin (1993, p.200) já afirmava que seria um componente do território e não uma dimensão aterritorial, até porque, é possível territorializar-se no movimento e desterritorializar-se em repouso (caso dos Indígenas que tem seus limites dados impostos parques e reservas).

As redes, intensificadas pelo capitalismo, aparecem hegemônicas em algumas escalas do mundo. Entretanto, no mesmo sentido, há um fortalecimento do sentido tradicional do território em se tratando do controle por determinados sujeitos que passam a reproduzir a partir de então, suas ideias e objetos por meio do controle de uma determinada extensão geográfica e de seus movimentos.

Haesbaert (2009),ao final, propõe duas maneiras de compreender a questão do território, uma lógica pautada no controle de uma determinada área definida em sentido físico mesmo, uma questão pura de métrica, extensão e tamanho, onde, através desta, também um relativo controle dos movimentos e outra pautada no controle dos movimentos e através deste, também um

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controle relativo de certas áreas, sendo assim, uma lógica implica na outra, mas porque um modo de controle implica no outro.

Temos aí uma lógica zonal e uma lógica reticular. A lógica zonal tem como finalidade o controle material e simbólico dos sujeitos e objetos, tem como meio a afirmação do controle das entradas e saídas da área, enquanto que a lógica reticular, que também possui como fim o controle material e simbólico dos sujeitos e objetos, mas o executa a partir do meio de controle da intensidade e dos movimentos.

Por serem complexas e imbricadas, as duas lógicas seriam as ideais. Derivam-se delas, o território-zona e o território-rede, os quais seriam compostos simultaneamente pelas duas lógicas, sendo possível a partir do predomínio de uma sobre a outra, trabalhar com ambas as categorias, definindo-as ao menos no plano metodológico.

Teríamos então duas formas ou lógicas básicas de territorialização: uma, pela lógica zonal, de controle de áreas e limites ou fronteiras, outra, pela lógica reticular, de controle de fluxos e polos de conexões ou redes. A diferença entre zonas e

em duas concepções e práticas distintas

redes tem origem (

do espaço, uma que privilegia a homogeneidade e a exclusividade, outra que evidencia a heterogeneidade e a multiplicidade, inclusive no sentido de admitir sobreposições

No entanto, mais do que duas

espaços-temporais. (

concepções distintas e no mesmo plano de comparabilidade conceitual, trata-se aqui de mostrar que o território encontra-se em outro patamar de reflexão teórica, e que a rede pode

corresponder mesmo a um de seus momentos constituintes. “Assim, como já foi dito, território-zona e território-rede como espécies de ‘tipos ideais’, de fato nunca se manifestam de forma completamente distinta” (HAESBAERT, 2009. p. 290).

)

)

Porém, para Haesbaert (2009), ainda existe outro “tipo ideal” de território, o qual está ligado à dimensão mais empírica do fenômeno da desterritorialização, isto é, um processo, ou antes, uma fase do processo de des(re)territorialização. Contudo, segundo o autor, a dimensão mais marcante deste fenômeno não é analisada pelas varias teorias que pregam o fim dos territórios, trata-se da dimensão social. Com base nisso, Haesbaert (2009) afirma a existência dos “aglomerados de exclusão”.

Cabe aqui a discussão sobre “geometrias de poder” de Massey. O

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poder de territorializar-se no movimento de alguns agentes sociais, se dá a partir do momento que os outros agentes se desterritorializam. Esta desterritorialização não está ligada necessariamente a obrigatoriedade de ocorrer uma diáspora, como pode parecer. Pois, pode também ser uma desterritorialização na imobilidade dos agentes. Reduzir ou forçar os limites de determinada extensão geográfica pela ausência de potência de movimento, um determinado agente vê-se desterritorializado no lugar em que se encontra e no qual sempre esteve. Tal ausência de potência implica em sujeição às ordens externas, a um espaço e a um território ao qual o agente não se identifica. As relações persistem, pois, não se trata de um isolamento no sentido estrito desse agente, mas sim da inclusão na nova dinâmica, a qual lhe é estranha, de forma precária, mas nunca se trata de uma exclusão total.

Pode haver sim movimentos forçados, no sentido de criarem diásporas (dispersão forçada). Neste caso seriam migrações ao mesmo tempo forjadas e voluntárias de sujeitos, que agora em sua territorialização precária, não encontram sequer o mínimo para o sustento orgânico da família. Estes são desterritorializados também no movimento. Neste ambiente, tem-se o conceito de “aglomerados de exclusão” que Haesbaert (2009) diz que:

São frutos de uma condição social extremamente precarizada, onde a construção de territórios sob controle (termo redundante) ou “autônomos” se torna muito difícil, ou completamente subordinada a interesses alheios à população que ali se reproduz. A aparente desordem que rege esta condição, num sentido negativo de desordem, é fruto da não- identificação dos grupos com seu ambiente e o não-controle do espaço pelos principais ‘usuários’. De qualquer forma, é como se o ‘vazio de sentido’ contemporâneo reproduzido na abordagem sociológica pela controvertida noção de ‘massa’ tivesse sua contrapartida geográfica na noção de aglomerado de exclusão. Definir espacialmente os aglomerados de exclusão não é tarefa fácil, principalmente porque eles são, como a própria exclusão que os define, mais um processo – muitas vezes temporário – do que uma condição ou um estado objetiva e espacialmente bem definido. Se preferirmos, trata-se de uma condição complexa e dinâmica, mesclada sempre com outras situações, menos instáveis, através das quais os excluídos tentam a todo instante se firmar (se reterritorializar). (HAESBAERT, 2009, p. 327).

A lógica reticular e a lógica zonal, anteriormente demonstradas, estão presentes na territorialização precária, no que concerne condições mínimas de

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territorialidade, enquanto conforto material e simbólico. É importante deixar claro, que não se trata de formas definidas, mas de fases (ou faces) do mesmo evento que formam o processo social de territorialização.

A questão que irá se desenrolar aqui e nos próximos capítulos será a de como ao se apropriar do trabalho, uma classe que se faz hegemônica, na prática, o destrói em seu sentido construtor, pois como afirma Raffestin (1993, p.57) “apropriar-se do trabalho significa destruí-lo ou, mais exatamente, submetê-lo a uma dicotomia e separar energia da informação; apropriar-se de uma e da outra”. Sendo assim, o homem, perde sua capacidade de transformação (territorialização) para as organizações que passam a comandar

o trabalho e a ditar as orientações para a nova territorialização. Essa

separação entre trabalho manual (energia) e o trabalho intelectual (informação) alienam o homem da produção do seu próprio território e acabam por desterritorializá-lo, ao mesmo tempo em que o territorializar segundo a ordem e a orientação do outro.

Quando a separação entre energia e informação se dá, os grupos que se fazem hegemônicos desagregam também o poder material e o poder simbólico, confundindo significante e significado o que potencializa a exploração (RAFFESTIN, 1993, p.57). Porque ao potencializar-se a força

através do símbolo, é dizer o porquê de minimizarem-se as condições de interpretação do real, de quem produz e quem se apropria. Quando no auge desse processo, não se pode mais discernir realidade e representação, passando os homens a atuar mais sobre as imagens do território, do que sobre

as construções materiais do mesmo (RAFFESTIN, 1993, p.144 – 145).

A partir deste raciocínio, podemos dizer que a sociedade estruturada nos moldes capitalistas invertem valores reais e possibilita que os meios se convertam em fins, contexto no qual o dinheiro de equivalente geral se torna o equivalente realmente universal. Entretanto:

) (

Esse dinheiro global é o equivalente geral dele próprio. E por

isso ele funciona de forma autônoma e a partir de normas. Produzindo uma falsificação do critério, esse dinheiro autonomizado e em estado puro não existiria assim se as condições técnicas utilizadas pelas condições políticas que dominam o período histórico não contassem com a

esse dinheiro não é sustentado por um sistema ideológico.

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possibilidade de enviesar a informação (SANTOS, 2007, p. 17).

Assim, o poder sobre o território pode ser entendido a partir do controle da energia e da informação. Contudo, quando se criam novos usos do território, agora baseados no valor de troca e não mais em seu valor de uso, criam-se novos modos de vida e o que era ideologia torna-se cultura concreta e se autorrealiza em razão de que “hoje a ideologia tornou-se realidade” (SANTOS, 2007, p.18). Desse modo, reproduz-se a divisão técnica do trabalho.

É sempre pela socialização que se dá a produção do espaço, o indivíduo enquanto um ser sem relações sociais nada constrói. A própria existência do ser, somente é possível se dar coletivamente. Todo o aparato simbólico e material é uma construção coletiva, criada pelo sujeito social coletivo. Porém, a socialização nos moldes capitalista é diversa das anteriores. Primeiramente ela nega a apropriação privada, sendo que a produção do espaço é coletiva, produzida por quem agora não tem meio algum além da força de trabalho e assim posteriormente afirmar na apropriação privada.

A tarefa que se inculca é de identificar a produção do espaço como o processo contínuo de socialização capitalista, a qual, Santos (2009) afirma:

Entenda-se por socialização capitalista a criação de capitais comuns, de meios coletivos à disposição do processo produtivo. É socialização pelo fato de que não são os capitais individuais que a devem empreender diretamente; é capitalista porque os beneficiários são poucos, segundo uma hierarquia que vem do seu poder enquanto capitalista, isto é, de sua capacidade de utilizar a força produtiva e especulativamente as infraestruturas financiadas por meio de impostos com o esforço coletivo, isto é, mediante a contribuição social. A socialização capitalista é, pois, sobretudo, um processo de transferência de recursos da população como um todo para algumas pessoas e firmas. Trata-se (…) de processo seletivo, que atinge diferentemente os atores econômicos, o que faz do Estado um motor de desigualdades, já que, por esse meio, favorece concentrações e marginalizações (SANTOS, 2009, p. 118, grifos do autor.).

Quando construídos e beneficiados tais objetos são apropriados por um grupo que passa a se beneficiar da energia produzida em grande escala por tais objetos. Neste momento, parte dos agentes, que passam a ser

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hegemonizados por este processo, segue seu trabalho, este já fragmentado em trabalho intelectual e trabalho manual, deixando apenas o último precariamente com a massa hegemonizada, sendo explorado pela classe hegemônica.

Mas, para que esta socialização se reproduza nestes moldes, faz-se necessário um grandioso aparelho burocrático, imbuído de autoridade coercitiva, que com seu comando normatizem e sugestionem tais processos a serem tidos como “normais” (naturais) na sociedade e criados para um bem comum, desvirtuando assim o sentido de coletividade. Todo esse controle seja ele, material e/ou simbólico passa a ser aceito ou não como coletivo pelo Estado.

É pelo seu poder de controle das ações e das disposições dos objetos que o Estado captura a energia produzida pelos agentes sociais hegemonizados. Para que isso ocorra, é necessária a existência de um objeto jurídico-institucional específico. À vista disso, o Estado se converte em motor de desigualdades e irá legitimar as ações dos proprietários de terras e dos capitalistas (CORRÊA, 1989).

Cada vez mais os lugares se tornam nódulos funcionais do todo, e a regionalização se transforma em especialização produtiva como afirma Santos (2008, p.156). A socialização implica em cada agente ser responsável por uma determinada função específica, em que alguns produziam os objetos e os alimentos necessários à sobrevivência de todos os indivíduos do grupo social e outros realizavam atividades não produtivas. No sistema produtivo capitalista a cooperação e coordenação das atividades se convertem em eufemismo, onde o controle é a palavra factual (SANTOS, 2009, p.119) e os homens tornam-se apenas objetos que realizam ações no espaço.

Dito isso, pode-se afirmar que, o desenvolvimento econômico nem de longe pode ser considerado como sempre proporcional ao desenvolvimento social. Tal condição no sistema capitalista depende não somente da melhor maquina produtiva, mas também dependerá de acordos políticos (acordo de classes), talvez sendo estes acordos, até mesmo em certos casos, mais importantes do que as condições produtivas.

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As forças produtivas se desenvolvem mais depressa que as relações sociais; no capitalismo, a produção é social, mas a apropriação dos resultados é privada. Essa contradição fundamental anuncia o descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social (MARTINS, 2009, p. 80, grifos do autor).

Hoje, as condições espaciais de um determinado lugar não são mais exclusivas. Ainda assim, pode-se afirmar que, na sociedade capitalista a produção do espaço é sim socializada e, portanto, é uma produção coletiva, mas continua havendo uma apropriação privada do território por parte de poucos e uma desterritorialização para a grande maioria.

Anteriormente enfatizou-se que, os objetos são construídos pelas ações do trabalho coletivo. Entretanto, sua renovação ocorre de maneira mais lenta e algumas vezes, é necessária, a destruição de alguns destes objetos para que assim haja uma reprodução acelerada das demandas sociais (demanda dos grupos hegemônicos). Seria isso um dos chamados ajustes espaciais que Harvey (2005) nos mostra.

Tais ajustes são necessários para garantir a reprodução ampliada do capital e também expandir espaços, o que acontece via disputas territoriais, ora mais próximas do eixo de informação que são mais pacíficas, ora mais próximas do eixo da energia, este geralmente mais violento.

Há arranjos territoriais relacionados tanto às superestruturas como também às infraestruturas. Ambos possuem a função de conter revoltas inerentes às contradições criadas pelo próprio capitalismo. Contudo, o primeiro realiza tal controle por vias indiretas e o segundo o faz pelo controle político direto sobre os indivíduos.

Por causa das crises geradas pelo próprio capitalismo, há necessidade de criarem-se novos setores para a acumulação e por isso a ocorrência dos ajustes espaciais no âmbito da circulação, consumo e produção torna-se importante. Em paralelo a isso, surge contra a ordem hegemônica, vetor da precarização do território, o que Moreira (2007) chama de contra-espaço, que seriam uma criação dos que:

Os

que

não

se

identificam

com

ela

[ordem

burguesa]

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questionam a ordem de espaço instituído, respondendo com o contra-espaço. Multiplicam-se os movimentos de responder ao espaço do dominante num contra-espaço a afirmação do outro, do excluído do bloco histórico (MOREIRA, 2007, p.102 – 103).

O conceito de território aqui nos incita sistematicamente a abordarmos

mais de perto a questão do poder. Ou melhor, dos poderes, bem como o caminho para o estudo e a compreensão dos processos sociais. Inerente em todas as relações sociais, o poder imbricado à lógica territorial e aos sentidos que o trabalho assume na contemporaneidade, se faz um elemento fundamental que nos possibilitam avanços no desvendamento das formas de apropriação e produção do espaço na atualidade. Entretanto, para podermos fazer tal análise, necessitamos compreender como se articulam as forças que

criam e organizam as teias que constroem o mundo social dando amplos poderes sobre esse mundo para alguns grupos e aprisionando outros. É a partir de estratégias escalares que isso ocorre.

1.2 Escala: entre as escalas da política e as politicas das escalas.

O conceito de escala ganha destaque dentro da geografia no momento

em que o marxismo também ganha força nesta ciência. Neste momento inúmeros estudos surgem, e grandes rupturas na análise escalares emergem.

A primeira grande ruptura instaurada diz respeito à qualificação mesma do espaço e das escalas espaciais de que se fala. Trata-se agora, sem dúvida, do espaço sob capital, do espaço da acumulação do capital, e das escalas em que esse processo ocorre e as escalas que engendra. O espaço, assim como as escalas , nesse caso deixa de ser uma opção ou instrumento operacional do pesquisador, do planejador ou do chefe de Estado maior, para ser reconhecido como socialmente construído e, pour cause, historicamente determinado (VAINER, 2006. P.13).

Smith (1988), um dos grandes nomes da discussão sobre escalas aponta como essencial para se entender o desenvolvimento desigual que o capitalismo gera o entendimento da origem das escalas geográficas. Para ele, engana-se quando ainda hoje se leem as divisões do mundo em determinadas

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escalas como uma questão indiscutível, como algo dado. Segundo Smith, entendemos as escalas urbanas, regional, internacional, mas pouco se preocupa em explicar seu surgimento. O autor chega à conclusão de que a origem das escalas do capital está ligada à mesma lógica da acumulação do capital e de sua tendência para o desenvolvimento desigual.

Brenner (2013), afirma que a articulação entre escalas engendradas pelo capital, especialmente, as escalas do espaço urbano, a escala da Nação- Estado e do espaço global, criaram um reescalonamento na economia mundial que acelerou ainda mais o processo de mobilidade do capital, a partir de mais agressivas e cada vez mais institucionalizadas lógicas de competição entre os variados grupos econômicos:

Ao longo das últimas três décadas, o projeto geoeconômico do neoliberalismo com sua ênfase na mobilidade do capital, nas relações de mercado sem restrições, na mercantilização intensificada resultou em um enorme assalto contra as escalas estabelecidas de regulação sociopolítica e em uma tentativa agressiva de forjar novas hierarquias escalares mundiais nas quais a lógica da competição desenfreada possa ser institucionalizada. (BRENNER, 2013, p. 216).

Três escalas que seriam engendradas pelo desenvolvimento desigual do capital, suas funções dentro deste processo de acumulação são para Smith (1988), bastantes específicas, dentre as quais a escala urbana é a expressão necessária do capital produtivo e o lugar onde se concentra e atualiza os meios de produção e força de trabalho. A escala global será definida pelo capitalismo como a “escala geográfica global à sua própria imagem” Smith (1988, p.202). É a partir dela que o capital realiza suas homogeneizações pela relação capital trabalho e valor, inclusive quando as escalas nacionais urbanas tentam tencionar o processo de homogeneização. Já a escala Nação-Estado é entendida como uma escala de segunda ordem responsável apenas pela circulação do capital.

A proposta analítica de Smith é para nós uma nítida escolha da escala de ação política, orientada pela sua “filiação teórica” marxista que privilegia a escala global para desenvolver suas análises. Isto possibilita que as menores

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escalas sejam interpretadas, muitas vezes, como apenas um receptáculo de ordens, o que para nós parece ser bastante questionável.

Porém, não se pode esquecer que o trabalho de Smith (1988) se faz tão importante para os estudos geográficos quando passa a falar de escalas, que agora são tratadas como históricas e que datam da era do capital, embora a historicidade dessas escalas seja tratada apenas momentaneamente dentro do processo, pois as escalas tornam-se “expressão da estrutura do capital, da lógica imanente que se expressa no movimento de sua acumulação” (VAINER, 2006, p.15).

Em trabalhos posteriores Smith amplia o debate das escalas e passa a reconhecer a importância de um número maior delas nas relações sociais. Apesar disso, seus estudos continuam apresentando problemas de análise quando, reificam as escalas, desconsideram a complexidade histórica das diversas formações dos Estados nacionais e, quando consideram as escalas como recortes do espaço que contêm umas às outras, numa chamada “hierarquia sistêmica”.

Essa hierarquia sistêmica, na qual as escalas são perfeitamente encaixadas e ordenadas sob uma perspectiva ascendente, é confrontada por Wallerstein (1991). Este autor questiona a validade da forma de análise da origem da sociedade, onde a modernidade aparece como um processo contínuo, com rupturas é verdade. Segundo essa interpretação, as transformações da sociedade são mostradas de forma ascendente como se passassem do local, para o nacional até chegarem aos dias atuais no internacional/global.

Wallerstein contesta essa lógica organizada e encaixada de interpretação afirmando que antes mesmo de existirem “economias nacionais”, já existia uma economia-mundo invertendo assim a lógica da interpretação do desenvolvimento da sociedade moderna. Afirma ele:

A transição do feudalismo ao capitalismo envolveu primeiramente a criação de uma economia-mundo. Isto é, a divisão social do trabalho veio a existência através de transformação do comercio de longa distância, que era de bens de luxo, em comércio de bens essenciais ou de massa,

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vinculando processos que eram largamente dispersos em extensas cadeias mercantis. Tais cadeias já estavam lá no século XVI, antecedem qualquer coisa que pudesse ser chamado de “economias nacionais”. Por outro lado, estas cadeias somente poderiam estar seguras através da construção de um sistema interestatal coordenado com as fronteiras de divisão social do trabalho real, a economia-mundo capitalista. Os estados soberanos foram instituições criadas então, no âmbito desses (expansivo) sistemas interestatal, foram definidas por ele e derivaram sua legitimidade da combinação de auto-afirmação jurídica e reconhecimento pelo que é a essência do que quer dizer “soberania”. (WALLERSTEIN, 1991, p.73).

Wallerstein nos traz uma nova possibilidade de leitura escalar, em muitos momentos apresenta problemas muito próximos dos de Smith como, por exemplo, elevar as possibilidades de ação em determinadas escalas, porém, praticamente rebaixando outras escalas a um nível secundário nos processos sociais.

Deixando as críticas um pouco de lado, entende-se essa nova leitura escalar proposta por Wallerstein, não como sendo a mais correta em detrimento a proposta de Smith, mas concebe-se como uma nova possibilidade que se faz perceptível, quando se confrontam os dois modos de interpretações. Percebe-se que a tentativa de hierarquizar escalas de ação/intervenção de acordo com o seu tamanho é muito simplória, perto das verdadeiras articulações que essas escalas tomam em sua forma real e que moldam as relações sociais, políticas e econômicas no mundo.

Smith e Wallerstein reforçam a crítica de Lacoste sobre a falsa ingenuidade da escolha da escala de intervenção/ação o que nos mostra claramente que tal escolha tem sempre um fundo político como base e que:

Certamente, há uma relação estreita, e muitas vezes intencional instrumental, entre, de um lado, as narrativas escalares, para utilizar uma expressão já empregada por Swyngedouw (1997), isto é, análises das relações escalares involucradas em processos sociais, econômicos e políticos, e, de outro lado, as estratégias e propostas de intervenção/ação que privilegiam tais ou quais escalas (VAINER, 2006, p.17).

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A escolha da escala sempre será uma escolha política e terá interferência direta na forma que o planejamento irá tomar. Escolher uma escala como ponto de partida para a análise e/ou para ação no território é ocultar ou expor problemas em detrimentos de outros. É considerar problemas de primeira ordem como determinadas coisas e relegar a um segundo plano outras. É privilegiar um grupo em detrimento a outro.

1.2.1 A construção social da escala:

Dadas todas as questões sobre escalas, mencionadas anteriormente, entendem-se estas, não como dados, presentes antes mesmo de um acontecer social, mas criadas a partir de relações sociais e das forças que recortam um determinado campo inserido em uma trama social. Dito isso, referindo escalas como uma relação social, está-se afirmando, consequentemente, que a exemplo de toda relação social, a escala também é uma relação de poder por ser constituída dentro de um campo.

Outra proposta interessante sobre o debate das escalas voltada à construção social e que não poderíamos deixar de analisar é a perspectiva de Souza (2013) que subdivide a escala geográfica em três tipos, são elas: a escala do fenômeno, escala de análise e escala de ação. Sobre a escala de um fenômeno que corresponde a um objeto real e sua abrangência física no mundo pode ser um rio, um país, etc., porém quando analisados fenômenos sociais é necessário se interpretar algumas sutilezas:

Podemos estar nos referindo à abrangência de processos referentes a dinâmicas essencialmente “impessoais” (como a globalização) e as resultantes de desdobramentos não premeditados, ainda que muitas vezes previsíveis (a exemplo de uma catástrofe nuclear), ou ainda à abrangência de dinâmicas de ação coletiva programática ou consciente, como resistências, lutas e movimentos sociais; e podemos estar lidando com fenômenos que, ao menos à primeira vista, se deixam apreender como áreas e territórios contínuos (por exemplo, a escala de um país, em situações usuais) ou, diversamente, com fenômenos que demandam uma compreensão de sua estruturação em rede (como as redes do crime organizado) (SOUZA, 2013, p.143).

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Quanto à escala de análise, o autor afirma que ela tem ordem semelhante a que existe entre um objeto real e sua relação com o objeto conhecido, não se constituindo em uma relação “de espelho” entre ambos, mas em algo construído em uma relação dialética entre sujeito e objeto. E afirma:

A escala de análise é intelectualmente construída como um

nível analítico (ou, a rigor, um dos níveis analíticos) capaz de

nos facultar a apreensão de características relevantes de alguma coisa que estejamos investigando ou tentando elucidar,

a partir de uma questão ou de um problema que tenhamos formulado. (SOUZA, 2013, pág.182).

Sobre a escala de ação o autor diz que se refere principalmente a agentes/sujeito social e suas práticas pensadas estrategicamente, a fim de reorganizar uma referida questão social.

A escala de ação diz respeito a um aspecto específico e muito

diretamente político: aquele referente, em um raciocínio

eminentemente estratégico, à reflexão acerca do alcance

espacial das práticas dos agentes. É, portanto, um tipo de

escala que se refere a determinados fenômenos sociais,

concernentes a ações (em geral coletivas) e ao papel de

agentes/sujeitos. (SOUZA, 2013, pág. 182).

Ao entrar na discussão conflituosa que se instaurou entre os pensadores da questão da escala e seu debate ontológico de que há ou não de fato escalas no mundo real ou se são apenas constructos intelectuais que nos auxiliam a interpretar a realidade Souza (2013) afirma haver duas posições consagradas, que segundo Herod (2011) seriam a dos materialistas e as dos idealistas. Concorda-se com Souza (2013) quando ele afirma que se cria aí um antagonismo desnecessário, pois se acredita que, a validade de afirmar que determinados fenômenos conseguem estabelecer alcance espacial, independente da consciência de quem percebe este fenômeno, não impede de aceitar que esse mesmo observador possa criar recortes que lhe facilitem a percepção do aspecto interpretado.

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Todas as questões sobre a escala nos mostram a busca por parte dos agentes que se articulam dessa maneira em aumentar a amplitude de seu campo de ação, não apenas abranger as maiores, regional, nacional, global/internacional, mas também garantir a sua reprodução nas menores, na comunidade, no bairro, na rua e até mesmo no corpo. Esta interação entre as diversas possibilidades multiescalares, sem excluir nenhuma, cria uma força, seja de mudança ou permanência de uma situação capaz de criar espaços concisos e solidários ao propósito do agente.

Sendo assim, compreender as escalas de ação e intervenção como um campo em disputa e entender as diversas narrativas escalares que existem neste embate, se fazem necessário. Pois, assim entender-se-á a lógica de como ocorrem determinados processos de desterritorialização orientados pelo Estado, pelo capital e por grupos hegemônicos. Desta forma, distinguir-se-á, também, quais os grupos privilegiados e quais os grupos excluídos nesse processo, chamado de desenvolvimento, quando na verdade (des)envolvem o local e as pessoas que nele vivem.

Utilizaremos da categoria escala em nosso trabalho não como sendo algo fixo, certo, imóvel e muito menos reificado. Pretende-se trabalhar com tal categoria como sendo um campo em disputa no qual não apenas as lógicas econômicas ou apenas as heranças históricas por si mesmas determinam as escalas, mas a relação entre os diversos trunfos dentro do campo o faz.

Desta forma, pensa-se como Vainer (2006, p.17). Para este, as escalas não seriam uma categoria que partem de uma indeterminação absoluta como pode parecer e, sim a partir das contradições e conflitos engendrados nas relações sociais é que se dão as escalas dominantes.

Não se trata de sugerir que estaríamos diante de uma indeterminação total e absoluta, tão a gosto dos pós-modernos, impedimento de qualquer teoria abrangente. Certamente, há bases históricas e materiais, generalidades e dinâmicas que estruturam os processos e suas escalas; mas esses processos são também, necessariamente, processos contraditórios, conflituosos, determinados ou condicionados igualmente por embates em torno da legitimação e imposição (simbólica e política, econômica, cultural) de escalas dominantes (VAINER, 2006, p.17).

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E conclui o autor:

As escalas não são apenas socialmente construídas ou engendradas, como também, e, sobretudo, estão permanentemente em questão, campo e objeto de disputas e confrontos entre diferentes agentes que propõem diferentes escalas e em diferentes escalas se dispõem seja para conservar seja para transformar o mundo e as escalas que o organizam. (VAINER, 2006, p.17).

Por conseguinte, as escalas seriam assim como o capital, evidentemente estruturas estruturadas e estruturantes, pois fica claro para nós que as bases dos conflitos e confrontos sociais ocorridos no mundo são organizadas de forma escalar, porém, tais escalas são originárias de outros conflitos passados.

A perspectiva histórica se faz assim decisivamente enriquecida, pois além dos processos econômicos que subjazem à emergência e desenvolvimento da acumulação do capital e também do desenvolvimento desigual, agora é o próprio embate das escalas, tendo na sua gênese o conflito, que se mostra sendo um elemento decisivo.

Todos os debates sobre escalas que até hoje, se bem analisados, tiveram como propulsor o embate entre as correntes globalistas e localistas. A primeira privilegia a escala global e a segunda privilegia a escala local como a área nas quais as ações precisam ocorrer. Entretanto, é preciso lembrar que, apesar de tanto tempo de debate sobre a escala de intervenção continua-se, ainda, numa peleja intelectual muito próximo do lugar onde se estava no início do século XX.

Ambas as correntes tem em comum certo desprezo pela escala nacional relegando a ela um segundo plano. Mas como se pode renegar esta escala se, historicamente, esta é articulada por um agente soberano dentro de um país e cujas ações políticas da nação partem de dentro dele? E pensando assim, Vainer (1999) diz que, apesar das duas correntes terem sido as principais fontes dos debates, precisa-se, caso almeje-se um debate sério

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sobre escalas, considerar também uma terceira via que deposita grande relevância ao Estado-nação, segundo ele:

A revisão do debate sobre escalas da ação política não poderia completar-se, contudo, sem uma menção à resistência dos que reivindicam a centralidade da escala nacional como única capaz de propiciar resistência efetiva ao processo de dissolução das soberanias e, mais que isso, de dissolução cultural e societária a que parece nos condenar a globalização (VAINER, 1999, p.144).

Para estas correntes, tanto globalistas quanto localistas direta ou indiretamente fazem o jogo da globalização. Hoje, tais movimentos têm como ponto de ataque prioritariamente diminuir a força do Estado Nacional que, segundo eles, possuem condições de viabilizar a construção de alternativas viáveis ao capitalismo, simultaneamente globalitário e fragmentador.

porque

colocam a escala do Estado-nação no centro do debate:

Santos

(2000)

descreve

muito

bem

estes

“nacionalistas”

O que reclamar do poder local vistos os mitos de suas competências; que reivindicar aos estados federados; que solicitar eficazmente aos agentes econômicos globais, quando se sabe que estes podem encontrar satisfação aos seus apetites de sua operação? Para encontrar um começo de resposta, o primeiro passo é repassar às noções de nação, solidariedade nacional e Estado Nacional (SANTOS, 2000,

p.95).

O grupo de pensadores desta corrente considera a escala nacional como sendo a que consegue transitar entre a escala local e a escala global. Acreditam que o Estado Nacional é o agente que consegue dialogar com maior qualidade em uma forma interescalar, tanto com agentes locais quanto com agentes globais e, a partir destes diálogos o Estado consegue gerir as suas estratégias territoriais e criar sua espacialidade e sua divisão social (interna) do trabalho.

Acredita-se, também, ser imprescindível considerar a potência de articulação multiescalar que tem o Estado. Entretanto para que isso se realize, deve-se também considerá-lo um campo em disputa, o qual deve agir como um

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denominador comum das múltiplas narrativas escalares dos variados agentes envolvidos nas relações sociais. Brandão (2008), nos chama a atenção para termos o cuidado de interpretar os processos a partir de uma abordagem multiescalar, onde possamos tratar do máximo possível de elementos ali existentes evitando interpretações uni-escalares que por vezes acabam negligenciando articulações importantes dentro do território:

Todas as análises e possibilidades de construção de pactos e contratos territorializados devem conceber o território não como mera variável de análise, um dado da realidade ou um sítio fixado, mas como uma construção social, por natureza conflituosa; uma produção coletiva, dinâmica, multidimensional, com trajetória histórica em aberto. O território é unidade privilegiada de reprodução social, denominador comum, desembocadura, encarnação de processos diversos e manifestação de conflitualidades. É por isso que não se pode ter uma visão uni-escalar. A abordagem multiescalar provê enfoques de observação passíveis de revelar as articulações e mediações entre os cortes local, regional, nacional etc. Nesse sentido, selecionar a escala mais conveniente dos problemas faculta melhor diagnosticá-los e possibilita sugerir coalizões de poder e decisões estratégicas sobre como enfrentá-los (BRANDÃO, 2008, p.154).

Sendo assim, pensamos como Swyngedown quando este diz ser a reconfiguração das escalas de poder um elemento definidor da contemporaneidade e por isso, interpretar corretamente os embates ocorridos nessa arena é decisivo. Para isso, a interpelação entre as escalas, global, regional, local, nacional e todos os projetos existentes dentro de cada um deles é crucial. Pois se entende que o verdadeiro poder está hoje na capacidade que alguns agentes têm de articular o máximo possível das escalas e assim transcender os limites da articulação que cada escala possui e utilizar o que cada uma pode dar de melhor aglutinando essas características a estratégias políticas multiescalar.

Apesar do domínio das ações nesses níveis de recortes multiescalares por muito tempo terem sido acionadas, configuradas e reconfiguradas por grupos econômicos hegemônicos a fim de perpetuar o status quo, o uso desse instrumento não pode ser encarado como uma exclusividade desses grupos nem por pesquisadores e muito menos pelos movimentos sociais. A história

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das lutas dos Movimentos Sociais pelo mundo e na Amazônia não foi diferente. Ela nos mostra o quanto aprender a manusear estratégias escalares é importante para a resistência dos vários povos que aqui vivem sempre foram sufocados por políticas exploratórias.

É a partir do momento em que os movimentos conseguem estar como o capital, atuando em um maior número de frentes (Estado, mídia, Universidades, centro de pesquisas, ONG, fóruns econômicos e mundo afora) é que se podem estabelecer formas de enfrentamentos eficazes contra as desigualdades criadas pelo sistema, formas modernas de empates. Vejamos agora o que são e como se organizam os Movimentos Sociais a fim de criar estratégias para este combate.

1.3 Movimentos sociais no Brasil: Gênese, políticas escalares e organização em rede. Gohn (2000) ao discutir a questão das lutas sociais contemporâneas diz que existem neste debate duas grandes correntes de interpretação. O primeiro chamado de culturalista, afirma que com o avanço da globalização o conflito social sofre um deslocamento na sua raiz da esfera da produção para a esfera da cultura e que a partir daí as questões envolvendo raça, gênero, nacionalidade, etc., tornam-se elementos chaves na análise. O outro grupo é constituído por pensadores que acreditam serem relevantes os estudos dos conflitos culturais, mas também acreditam que na raiz dos problemas continuam os fatores econômicos como principais causadores dos problemas sociais no mundo. Apesar de reconhecer essas duas vertentes interpretativas como válidas a autora prefere tecer a sua própria forma de interpretar a problemática:

Defendemos uma terceira posição, que destaca a importância da cultura na construção da identidade de um movimento social, mas concebemos os movimentos segundo um cenário pontuado por lutas, conflitos e contradições, cuja origem está nos problemas da sociedade dividida em classes, com interesses, visões, valores, ideologias e projetos de vida diferenciados. Entendemos que a análise sobre os movimentos sociais não podem ser separados da análise da classe social,

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mas também não podemos resumir os movimentos a algo determinado pelas classes. (Gohn, 2000, p.11).

Antes de continuarmos, alguns esclarecimentos e diferenciações são necessários serem feitos ao falarmos de movimentos sociais. Precisamos primeiramente saber o que são grupos de interesses. Os interesses em comum de um grupo é um componente primordial. Entretanto, a ação desse grupo necessariamente precisa ser qualificada por uma série de parâmetros como, por exemplo, ser negro, mulher, trabalhador, atingido por um empreendimento, e tantos outros. Esses adjetivos é que darão ao movimento experiência e objetivos comuns a serem alcançados e todas “as inovações culturais, econômicas ou outro tipo de ação que vierem a gerar, partem do substrato em comum das carências ou demandas que reivindicam, articulados pelos legados da herança cultural que possuem” (Gohn, 2000, p 12).

Precisamos também compreender que modos de ação coletiva e movimentos sociais não são sinônimos. Um protesto pacífico (ou não) é um exemplo de uma ação coletiva que faz parte de uma estratégia de um movimento social, entretanto essa ação individualizada não pode ser caracterizada como um movimento social em si. E por fim, se faz necessário compreender o lugar onde ocorre a ação coletiva, este por sua vez sendo caracterizado como um lugar não institucionalizado e nem burocratizado pela esfera pública e muito menos pela esfera privada. Assim, os movimentos conseguem dar visibilidade às suas ações e não se submetem as amarras as quais o Estado podem lhe prender.

Dadas essas características podemos, e devemos compreender que os movimentos sociais referem-se à ação do homem na história, na produção de seus espaços de vivência. Envolve necessariamente uma ação, um fazer. Um fazer que surja do conjunto de ideias que motive e fundamente tal ação. Neste contexto, a construção de um movimento social exige uma práxis, pois é fruto do esforço de um determinado grupo em buscar formas de transformar as suas necessidades as quais são carentes e traduzi-las em demandas e materializá- las em forma de ações coletivas. É somente assim, que podemos afirmar a existência concreta de um movimento social.

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Seguindo tais características, Gohn, utiliza uma definição ampla sobre

o conceito de Movimentos Sociais que utilizaremos também em nosso trabalho:

Movimentos Sociais são ações coletivas de caráter sociopolítico, construído por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas sociais. Eles politizam suas demandas e criam um campo político de força social na sociedade civil. Suas ações estruturam-se a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em situações de conflito, litígios e disputas. As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses em comum. Esta identidade decorre da forçado principio da solidariedade e é construído a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo. (Gohn, 2000, p 13).

Devido a sua abrangência de escala de ação, hoje, esses Movimentos demandam um grande número de pessoas em sua organização, assessores, liderança. Estas pessoas assumem um importante papel ao estabelecerem diálogos com outras entidades, partidos políticos, ONG’s nacionais e internacionais, Ministério Público, imprensa, Universidades para que se estabeleça no Movimento o máximo de abrangência de ação escalar possível a partir da união de forças com agentes que tenham interesses em comum. Essas articulações geradas pelo Movimento são capazes de gerar uma série de inovações nas relações tanto na esfera pública quanto na esfera privada e

influenciar até mesmo na política interna de um país. Dessa contribuirão para um efetivo desenvolvimento, não somente das forças produtivas, mas também

a organização da sua sociedade civil.

Apesar de criar redes de solidariedade e objetivos comuns, não podemos afirmar que há internamente, nos Movimentos, sempre uma unidade. Ao contrário, um Movimento possui internamente várias diferenças e interesses divergentes de acordo com a abrangência de organização e aglutinação que atingem. Porém, isso também não quer dizer que os Movimentos possuem estruturas internas frágeis. Na verdade a amplitude das suas diferenças internas em muitos momentos causam frutíferos debates enriquecedores da luta. Apesar das diferenças, a forma de se apresentarem no espaço público, os discursos elaborados e as práticas que executam em eventos externos criam a

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unidade do grupo e é essa unidade que deve ser passada de maneira clara e objetiva para o imaginário social das pessoas alheias ao grupo.

A composição dos movimentos sociais, hoje, abrange uma rede complexa de entidades que transcende a esfera pública e privada e até mesmo classes sociais. Tal complexidade da rede, em algumas ocasiões, não conta com as classes socais como um empecilho as suas ações. Pois como já falamos anteriormente, a exigência para a organização de um Movimento Social é a realização de uma práxis e nem sempre essa práxis tem as diferenças econômicas como fator essencial de separação do grupo. Vejamos como no Brasil desde o início do século XX até os dias de hoje, a sociedade vem se organizando por várias questões e assim contribuindo para a manutenção e modificação das estruturas políticas e econômicas brasileira.

1.3.1 Organização, transformações e lutas da sociedade organizada no Brasil.

Nas três primeiras décadas de XX as questões sociais no Brasil já apareciam com força recorrente do período do início da República e, com a substituição da força de trabalho escrava pela assalariada composta naquele momento principalmente de migrantes. Este período se caracterizou por um aumento na industrialização do país, o que gerou o crescimento dos centros urbanos e a formação de uma massa de proletariado urbano ressentida por melhorias nas suas condições de moradias e emprego. O que fez com que essas pessoas começassem a procurar formas de organização para lutarem por suas demandas. Surgiram assim organizações em forma de ligas, uniões e outras. Esse período foi de grande agitação social principalmente nos dois maiores centros do país Rio de Janeiro e São Paulo. Mas essas agitações logo em seguida se espalharam de maneira quase sempre isolada por todo o território nacional em áreas urbanas e rurais.

Na década de 1930, por esses e outros fatores o Estado passa elaborar um efetivo planejamento Nacional. Naquele momento se davam características de unidade, mesmo que exploratória para alguns, dentro de uma estrutura econômica para o país. Foram criados Órgãos, Secretarias e

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Ministérios para atender especificamente questões sociais, que até aquele momento eram tratadas apenas como ações políticas deslocadas e sem organização. A partir daquele momento várias leis, entre elas a legislação trabalhista foram criadas.

Com o Estado Novo, grande parte dos movimentos sociais da época foi

reprimido, até mesmo com o uso da força, e os movimentos somente passaram

a atuar novamente por volta de 1942 com o surgimento de grupos, como os

Amigos dos Bairros, que priorizavam demandas de problemas de uma esfera local.

Ao término da 2ª Guerra Mundial e início da Guerra Fria o mundo dividido entre os conflitos ideológicos, de um lado o capitalismo e do outro lado

o socialismo foram responsáveis pelas mais variadas organizações políticas e

sociais no Brasil e mundo a fora. E o país ao fazer a sua escolha preparou o

terreno para a chegada de capital estrangeiro na economia local, surgindo assim incentivos, política energética e uma série dos mais variados objetos

eram instaladas no território nacional para a garantia da reprodução do capital

e da industrialização crescente.

Toda essa caminhada do Brasil rumo a um desenvolvimento industrial fez com que seguimentos organizados de trabalhadores de várias fábricas surgissem e se articulassem eclodindo nesse período várias greves por melhores condições de trabalho. Esse período animou várias outras lutas e contribuiu para várias organizações coletivas no país como as Ligas Camponesas, Movimento dos Agricultores Sem-Terra e o Movimento de Educação de Base. Nestas, as pessoas se organizavam para criar propostas, debatiam possibilidades e lutavam por um verdadeiro desenvolvimento nacional que não fosse tão dependente de condições externas, como o posto em prática pelo Estado.

No período de ditadura militar a grande maioria dos movimentos sociais surgiu e atuava na ilegalidade, ganhando formas revolucionárias, produziam ações de enfrentamento direto contra o governo. Foi um momento no qual o confronto capitalismo versus socialismo ganhou sua forma mais agressiva no país. A crise do petróleo em 1974 contribuiu para frear o chamado “Milagre

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Econômico” e diminuiu o poder aquisitivo das pessoas. A insatisfação com o governo militar passou a crescer e cooperou para a rearticulação dos movimentos sociais no país, agora com apoio maior da população em geral. Surgiram aí as Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s e, posteriormente, deram origem a várias outros movimentos com as mais variadas pautas reivindicatórias e que desencadearam grandes greves no Brasil nos anos de 1978 e 1979. Para muitos é nesse período que os Movimentos Sociais passam

a existir no Brasil de forma articulada e organizada. Antes disso eram considerados um embrião do que seriam tais associações.

Com as mudanças políticas no Brasil da década de 1980, os Movimentos Sociais se articularam e participaram ativamente da criação da nova constituinte. Foram responsáveis por conquistas sociais para os mais diferentes grupos, até então esquecidos pelas leis brasileiras como, os negros, mulheres, crianças, trabalhadores. Essa efetiva participação caracterizou como uma grande vitória para os Movimentos, há mais de uma década lutando por seus direitos.

Os anos 1990 chegam e se tornam difíceis. A crise do capitalismo daquela década modificou os postos de trabalho e tornou aquele período de lutas para manter os empregos o que causou a deterioração de postos de trabalho, mas que era a única solução para controlar o ritmo alarmante de desemprego. Se os movimentos urbanos sofriam com a desarticulação de suas forças, a luta no campo ganhava cada vez mais as manchetes nacionais e internacionais graças a ação de movimentos como o MST, originário da década anterior e filho da revolução na organização dos movimentos políticos encabeçados pelas CEB’s.

Com a estabilização monetária e o surgimento do Plano Real e a equiparação da moeda nacional ao dólar americano, o governo conseguiu

restaurar o poder de compra da classe média recuperou o apoio da população

o que lhes rendeu carta branca para bombardear o país de políticas

neoliberais. Políticas que começaram a dar sinais de desgaste no final da

década a economia voltaram a estagnar e o desemprego voltou a crescer.

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O momento vivido no final do século XX fez com que os Movimentos Sociais recuperassem força e se reerguessem depois de um período sabático. Estes passaram a se organizar em Fóruns, Comitês, e outras variadas formas participativas, experiências que já vinham dando certo com os movimentos sociais que lutavam pelo direito a terra e a proteção do meio ambiente como os Quilombolas, dos Índios, dos Seringueiros e outros que nos anos 2000 passaram a ter grande notoriedade graças ao grau de articulação que eles atingiram.

Nestes últimos 15 anos, os movimentos sociais voltaram a se articular com força nas mais variadas lutas e campos de ação, como por exemplo, nos casos dos Movimentos por educação, transporte público, grandes empreendimentos etc.

Percebe-se com esse breve histórico das lutas sociais no Brasil que organizações sociais sempre existiram na história do país, mas que elas se metamorfosearam conforme os períodos históricos que exigiam formas novas de articulação e que a partir do final da década de 1970 ganharam outras dimensões de organização. Incorporaram, também, novas estratégias associativas e novas parcerias criando-se redes sociais em prol de reivindicações. Vejamos agora quais as principais mudanças que propiciadoras do atual formação dos Movimentos Sociais contemporâneos no país.

1.3.2 A importância de experiências pretéritas para a atual organização dos movimentos sociais no país. Na virada da década de 70 para 80, no Brasil e na América Latina, as organizações sociais contrárias aos regimes militares, especialmente as organizações de base cristã influenciada pela Teologia da Libertação ganham força por todo o continente e influenciam a organização, direta ou indiretamente, de vários movimentos sociais, MST, PT e tantos outros. Mas com a queda dos governos militares na década de 80 esses movimentos começaram a retroagir. Especialistas apontam o declínio da ação desses movimentos, organizadores de várias passeatas no Brasil, aos esforços contra algo que começava a deixar de existir, que era a Ditadura. De fato esse pode

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ter sido um dos fatores que levaram ao enfraquecimento das ações dos movimentos neste período, entretanto, seria um equívoco apontar apenas tal motivo, como fator decisivo para esse recrudescimento.

O fato é que, os Movimentos desse período, mesmo contrários ao Estado contribuíram para a constituição e ocupação de importantes canais de diálogos entre o Estado e a sociedade civil organizada, assim como, para a criação de novas leis da Constituição de 1988 com múltiplos ganhos sociais.

Até o final da década de 80, os movimentos sociais eram organizados de maneira desconexa e com pouca integração entre as diversas organizações sociais e que, quando existiam se restringiam ao âmbito local. Já nos anos 90, os movimentos encontram outras frentes de ações e buscam criar institucionalidades para ampliar o debate tanto entre o movimento como também com as pessoas e entidades estranhas a eles. Surgem assim, os fóruns nacionais das mais variadas lutas, o que contribuiu para o estabelecimento de metas e objetivos comuns entre os movimentos, alargando assim a sua escala de ação e de lutas.

Ainda colhendo os frutos da articulação da sociedade civil com o Estado, essas experiências alargaram-se e deram margem para outras ações positivas. Neste sentido, citam-se a criação do orçamento participativo, Bolsa Escola entre outros. Mas não foi somente na relação com o Estado que os Movimentos conseguiram se organizar; também se criaram formas de diálogos entre os variados movimentos. Esse diálogo se tornou possível graças à criação da Central dos Movimentos Sociais, importantes à organização das práticas em escala nacional dos movimentos quanto, guardada as suas proporções, as CEB’s nos anos 70 – 80.

Em razão do avanço das políticas neoliberais pelo Estado Nacional, os Movimentos passaram a se organizar a fim de combatê-las. Criam-se movimentos contra as reformas estatais, catalizadoras das privatizações das empresas públicas, movimento contra a fome e contra o desemprego que eram crescentes na época. Todavia, outra frente de ação crescia nos anos 90 e se mostrava importante: o das lutas contra a discriminação de gênero e racial.

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A partir daí, Movimentos de mulheres, homossexuais e dos negros organizaram-se e criaram redes de conscientização de seus direitos.

Gohn (2011) afirma que três movimentos se tornaram muito importantes nesse período graças ao seu nível de articulação e atuação alcançado nos últimos anos do século XX no Brasil, são eles: o movimento dos indígenas; movimentos dos funcionários públicos, principalmente os ligados a educação e a saúde; e o movimento dos ecologistas. Segundo a autora esses movimentos tiveram como características:

Os primeiros cresceram em número e em organização na década, passando a lutar pela demarcação de suas terras e pela venda de seus produtos a preços justos e em mercados competitivos. Os segundos organizaram-se em associações e sindicatos contra as reformas governamentais que progressivamente retiram direitos sociais e reestruturam as profissões e arrocharam os salários em nome da necessidade de ajustes fiscais. Os terceiros, dos ecologistas proliferaram após a conferência ECO-92, dando origem a diversas organizações não governamentais (GOHN, 2011, p.343).

Percebe-se que, na verdade, os anos 90 constituíram-se em terreno fértil para o desenvolvimento dos movimentos sociais. Apesar de isso ter acontecido de uma forma dura já que esses movimentos cresceram e se tornaram dinâmicos a partir da reivindicação dos direitos civis e da luta por reconhecimento desses direitos esse momento de aproximação entre os diferentes grupos acabou se tornando também um momento de maior entendimento das diferenças internas do grupo dos explorados.

Na virada para o novo milênio, os movimentos sociais adquirem características sólidas dentro das suas variedades de lutas. Dentre elas Gohn (2013) destaca as lutas em defesa das culturas locais, as quais ajudam na formação da construção de um padrão civilizatório e visa o bem estar dos diferentes grupos e povos, em detrimento ao atual modelo neoliberal que prioriza o mercado sempre antes de tudo; as lutas de caráter ético político, as quais praticam a vigilância sobre a atuação dos governos, informam a população sobre o mau uso da máquina pública, sobre os impostos desviados ou mal geridos.

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Os movimentos sociais em sua grande maioria alcançaram grupos não atendidos por instituições e passaram a atender e dar voz a demandas relacionadas a valores, sexualidade, crenças. Esses contribuíram para um novo entendimento sobre a questão da autonomia, atualmente bastante diferente do concebido no inicio dos anos 80. Dessa forma, a autonomia deixou de ser uma questão de isolamento tanto do Estado como do que é/está instituído. É fundamentalmente ter e pensar projetos para o grupo, porém, de maneira a contemplar o interesse de todos os envolvidos e a universalizar as demandas particulares em busca da ampliação do direito à cidadania.

Os avanços da globalização e o acesso à informação, advindos da internet, contribuíram para o intercâmbio e para a aceleração do processo de autoconhecimento dos movimentos sociais e de suas demandas, o que passou a ramificar e ampliar as relações dos movimentos existentes.

A atuação de novos agentes nas relações com os movimentos (o caso das ONG’s principalmente) fizeram com que houvesse a necessidade de novas explicações, para o entendimento do que são na atualidade os Movimentos Sociais no século XXI, e qual o novo cenário político que está submetido. Buscar-se-á, neste momento, falar sobre essa nova configuração da sociedade civil organizada e suas múltiplas ações coletivas neste novo século.

1.3.3 Mobilizações e organizações em rede no século XXI:

A sociedade civil, hoje, se configura como um campo de forças heterogêneo, pois representa os mais diversificados segmentos sociais que compõem a sociedade. Entretanto, está diretamente relacionada à esfera da defesa da cidadania e suas respectivas formas de organização em torno de interesses públicos (SCHERER-WARREN, 2006), essa é uma prerrogativa importante da sociedade civil. Porém, por se tratar da organização em torno de interesses e pelo grau de heterogeneidade, a sociedade civil dificilmente será isenta de conflitos e relações de poder e disputas internas por hegemonia por representações sociais antagônicas que se encontrem na sociedade.

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É comum na atualidade encontrar pessoas relacionando a sociedade

civil ao chamado “terceiro setor”, termo que na verdade é usado para denominar organizações não governamentais e sem fins lucrativos com interesses públicos. Entretanto, essa é apenas uma das formas que o terceiro setor se apresenta, mas não é a única. Sociedade civil, na realidade refere-se à participação cidadã em um sentido mais amplo:

Pode-se, portanto, concluir que a sociedade civil é a representação de vários níveis de como os interesses e os valores da cidadania se organizam em cada sociedade para encaminhamento de suas ações em prol de políticas sociais e públicas, protestos sociais, manifestações simbólicas e pressões políticas (SCHERER-WARREN, 2006, p. 110).

Sobre os níveis citados pela autora e que estão presentes na sociedade brasileira na atualidade pode-se dizer que eles representam o nível do associativismo local que é voltado para causas comunitárias, sociais e/ou culturais do cotidiano. Para exemplificar têm-se as associações de bairros, núcleos dos movimentos de sem-terra, empreendimentos solidários. Esse é um tipo de associativismo a cada dia mais crescente no país e presente, sobretudo, nas periferias das grandes cidades.

O segundo nível é o das formas de articulação inter organizacionais, na

qual há o encontro de variadas organizações sociais. Nelas destacam-se os fóruns, as associações de ONG’s e até mesmo as redes de redes, todas elas com o objetivo de liderar frente aos mais variados temas pela sociedade civil. É a partir dessas formas de articulações que se dão as parcerias entre Estado e

sociedade.

O terceiro nível proposto está relacionado com a mobilização da esfera pública que seria resultante da articulação dos Movimentos Sociais localizados, dos fóruns, das redes e das ONG’s. Porém trata-se da organização de uma ação em lugares públicos e que possa chamar a atenção e atrair simpatizantes, além de pretender dar visibilidade às questões através das mídias. Como resultado, criam-se formas de pressões políticas no Estado para seus anseios. Alguns exemplos de ação nesse nível são a Marcha Nacional pela Reforma

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Agrária ocorrida em 2005 organizada pela CPT, MST, Via Campesina e outros grupos.

Os dois primeiros níveis citados são formas organizacionais e possuem determinada institucionalidade com seus registros legais e certificações. Ou ao menos com procedimentos internos próprios e normas reguladoras da atuação do referido associativismo. No entanto, o terceiro nível se estabelece por formas de protestos, geralmente com maiores alcances de mobilização na esfera pública, porém, este ocorre de maneira mais conjuntural.

Na articulação desses diversos níveis surge o que Scherer-Warren chama de rede de movimentos sociais, importante conceito para se entender as ações e práticas dos movimentos sociais no início do século XXI:

A ideia de rede de movimento social é, portanto, um conceito de referencia que busca compreender o porvir ou o rumo das ações de movimento, transcendendo as experiências empíricas, concretas, datadas, localizadas dos sujeitos/atores coletivos”. (SCHERER-WARREN, 2006, p.113).

Essa articulação em rede possibilita a união dos diferentes tipos de associativismos localizados, setorizados e os movimentos sociais de base local e o debate entre eles para que se estabeleça um consenso a fim de criar uma identidade política. Espera-se assim produzirem-se ações que deem visibilidade a estes movimentos e obtenham espaço no campo de poder da política e alcancem mais direitos de cidadania para esses grupos.

As redes possibilitam com que os movimentos atuem em várias frentes de ações ao mesmo tempo e criam formas de atingirem os mais variados espaços, antes não alcançados por tais grupos. As redes criam fóruns de debates com várias entidades representativas da sociedade, empresários, políticos, mídia, intelectuais, artistas formadores de opinião e tantos outros ao passo que também se articulam por representatividade dentro do Estado, criando esferas de legitimidade na relação entre os movimentos e a administração pública, buscando estreitar relações com esse aparelho, para a criação de políticas públicas populares.

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Na Amazônia grupos sociais encontraram nas organizações em rede forma e nas políticas de escalas formas de resistir ao projeto de desenvolvimento predatório orquestrado pelo capital e pelo Estado na região, vejamos agora um pouco sobre essas formas de organização dos Movimentos Sociais e suas peculiaridades quanto aos Movimentos emergentes no restante do país.

1.4 Movimentos sociais e organização de políticas escalares na Amazônia:

Almeida (2011) nos ajuda a entender um pouco sobre a composição dos novos movimentos sociais que se constituem a partir das lutas na Amazônia, assim como, a criação de uma identidade própria, diferente da organização das lutas urbanas nos grandes centros do país, mas que em muito também se diferencia das lutas do campo do restante do território nacional. Segundo o autor, atingir o atual estágio de desenvolvimento de organização desses Movimentos passou pela união entre “grupos sociais não homogêneos do ponto de vista econômico”. Para Almeida, “o valor da sua força de trabalho não constitui sua base racional declarada”, mas sim a forma que seus modos de vida foram atacados por formas produtivas exploratórias. Este é o elemento que os uniu e deixou a composição classista no primeiro momento em segundo plano na formação dos emergentes Movimentos. Com isso levou-se em conta agora os efeitos de uma determinada ação, como exemplo, “atingidos por barragens”, “reassentados”, atrelados a outras “de sentido permanente, como ribeirinhos”.

Ainda segundo o referido autor, os novos Movimentos Sociais na Amazônia se afastam cada vez mais da noção genérica de camponês que predomina desde os anos 1950 no campo brasileiro e que se reproduziu principalmente a partir das Ligas Camponeses. Contudo, Almeida (2011) ressalta que essas novas formas não surgem da oposição aos movimentos classistas, mas sim de um avanço na própria educação política dos grupos, que criam novas composições de lutas como o Conselho Nacional dos Seringueiros, União das Nações Indígenas, Comissão Nacional dos Atingidos

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por Barragens, entre outros. Esses grupos passam a se mobilizar baseando-se em lutas “localizadas e imediatas” através de diferentes núcleos como “comissões”, associações, conselhos, comunidades negras rurais, etc., unindo- se através das chamadas unidades de mobilizações que:

Tais unidades de mobilização podem ser interpretadas como potencialmente tendendo a se constituir em forças sociais. Nesta ordem, elas não representam apenas simples respostas a problemas localizados. Suas práticas alteram padrões tradicionais de relação política com os centros de poder e com instâncias de intermediação, possibilitando a emergência de lideranças que prescindem dos que detêm o poder local. Destaque-se, neste particular, que mesmo distante da pretensão de serem movimentos para a tomada do poder político, logram generalizar o localismo das reivindicações e, mediante estas práticas de mobilização, aumentam seu poder de barganha face ao governo e ao Estado. Para tanto, suas formas de ação transcendem as realidades localizadas e geram movimentos de maior abrangência, que agrupam as diferentes unidades, a saber: Comissões Regionais de Atingidos por Barragens, distribuídas por quase todo o país; Conselho Nacional dos Seringueiros, União dos Sindicatos e Associações de Garimpeiros da Amazônia Legal e Associação das Áreas de Assentamento do Maranhão (ALMEIDA, 2011 pág. 18).

Almeida (2011) afirma ainda que, apesar de frágeis, as unidades de mobilização têm mostrado uma impressionante capacidade de mobilização popular, indo na contra mão de outros movimentos sociais que sofrem com a perda dessa capacidade.

Às novas formas de associativismos que surgem na Amazônia, são acrescentadas novas formas de generalizações. Tal fato acontece a partir da pulverização de novos agentes e da ampliação das lutas localizadas com a criação dos chamados encontros, nos quais se passou a votar reivindicações e ações a serem realizadas em comum por todos os grupos.

Tais encontros se tornaram frequentes durante os primeiros meses de 1989, período subsequente à criação da Constituição de 1988 (ALMEIDA, 2011), entre eles o I Encontro dos Povos da Floresta, que ocorreu concomitantemente ao II Encontro Nacional dos Seringueiros onde ficou evidente a modificação na composição das lutas dos Movimentos na região. A

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partir daí o contato entre diferentes agentes exige melhores condições de trabalho, mas também, a garantia de direitos, sua reprodução produtiva e social no território, a fim de assegurar saúde e educação dos povos da floresta. Também devem ser garantidas demarcações de terras e reservas extrativistas nos moldes que beneficiassem os diferentes grupos.

O associativismo que nasce no bojo das unidades de mobilizações dos encontros, levou a um autoconhecimento dos próprios Movimentos. Tal acontecimento permitiu, a partir das decisões tomadas e expostas em forma de Carta Aberta ou de uma Declaração, que os diferentes grupos também vislumbrassem suas contradições e semelhanças e, assim tivessem a clareza das possibilidades e limites de seus movimentos em comum, cada um em seu campo específico de embate contra agentes hegemônicos e no debate com o Estado

Conformando aspectos consensuais de confrontos localizados e sem ser uma mera soma deles, estes novos organismos de representação lograram impor, aos aparatos de Estado, uma via única de interlocução, não lhes permitindo negociar por partes e forçando-os a uma negociação mais global, baseada em princípios gerais que orientam as políticas públicas. Os critérios locais de intervenção são relativizados. O caráter universal, que rompe com o localismo, é, pois, imposto pela própria dinâmica das mobilizações, que se estruturam a partir de lutas específicas e realidades localizadas. Universalizam e, concomitantemente, dialogam com os interlocutores oficiais, um a um, sem perder de vista o conjunto dos centros de poder. Há, assim, uma globalização de lutas localizadas, que num tempo único exigem interlocutores distintos, mas que simultaneamente tratam os aparatos de Estado em bloco e procuram ampliar suas redes de apoio e pressão (ALMEIDA, 2011, pág. 22).

Há uma inegável evolução nas estratégias de enfrentamento dos Movimentos Sociais, a partir de um refinamento no seu modus operandi no manuseio de estratégias de ação, nos quais passam a deter maior controle da sua forma ora universalizante, ora tomando para si aspectos de suas realidades localizadas. Com a inserção dessas estratégias, os Movimentos Sociais compreendem a necessidade de interpretação da escala da problemática a qual estão envolvidos para encontrar uma melhor forma de

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enfrentamento e, quais são seus principais adversários e quais são seus possíveis parceiros no meio da sociedade civil.

Intrínseco às lutas dos Movimentos Sociais na Amazônia há uma clara busca em romper com a histórica relação oligárquica de exploração, desenvolvidas pelas elites locais e que, até os dias de hoje se faz presente em todo o território, para isso os movimentos reivindicatórios buscam apoio em poderes externos:

Destaca-se que o movimento reivindicatório amplo busca poderes externos para se confrontar com os detentores do poder local, que impedem a emergência de lideranças camponesas ou indígenas, para continuar controlando clientelisticamente a situação (ALMEIDA, 2011, pág. 27).

Esses poderes externos chamados ao front foram constituídos por ONG’s, por parcela da sociedade civil organizada, pesquisadores, Universidades e até mesmo pelo Estado. O movimento de ruptura com o controle efetivo das elites locais na região ocorre há bastante tempo e é mediada principalmente por uma maior atuação do Estado Nacional na Amazônia. Por outro lado, a atuação desse agente submeteu os grupos, antes hegemonizados diretamente pelas elites locais, a uma nova condição de explorados, agora mediada pelo próprio Estado, este sob o controle de grupos ligado ao Capital Internacional.

Havia por parte dos Movimentos Sociais e do Estado um interesse convergente e contraditório na ruptura do poder que as elites locais ali exerciam, fato que levou a uma maior atuação do Estado na região e proporcionou a criação de aparelhos de diálogo entre a sociedade civil e o Estado. Contudo, abriram-se, também, lacunas para que novos agentes hegemônicos tomassem o controle da produção territorial. Esse é um fato que não se pode perder do horizonte da atual produção espacial da Amazônia.

Em meio aos novos associativismos, algumas dificuldades foram atestadas em meio a esse turbilhão de agendas emergentes nos Movimentos, o que apontou dificuldades em criar alguns grupos coesos, como no caso do ativismo indígena com o seu problema em compor uma unidade nacional de

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lutas devido suas múltiplas formas de representações, seja a partir de seus rituais culturais, nas suas questões produtivas e das suas múltiplas formas de relação com a natureza. Outra dificuldade que surgiu foi o diálogo com alguns movimentos de garimpeiros que possuem uma variada forma produtiva interna, além de entrar em choque por muitas vezes com os direitos indígenas e ambientais (ALMEIDA, 2011).

Para além desse problema, algumas críticas a essa forma de organização são feitas por pesquisadores e ativistas. Eles dizem que a “unidade de mobilização” é suscetível à desmobilização, pois são formadas por casos extraordinários e momentâneos, o que os fazem classificarem essa forma de mobilização como sendo um “movimento de circunstâncias”. Outra crítica diz respeito à ação desse tipo de mobilização sobre o poder do Estado, onde os críticos afirmam que esses movimentos não têm efeito sobre tal (ALMEIDA, 2011).

Pode-se até ponderar sobre a primeira crítica aqui citada e, realmente mais elementos precisam ser mostrados nesse tipo de estudo para poder afirmar com certeza ou não tal questionamento. Entretanto, não temos como concordar que os efeitos de uma ação efetiva criada por esses movimentos não atingem diretamente o Estado. Parece-nos óbvio que atingem sim. Talvez a falta de uma maior ação por parte do campo político oficial do Estado contribua para que tais forças reverberem com menos intensidade, mas antes deixam marcas na relação que o Estado exercerá em um determinado território.

Almeida (2011) chama a atenção justamente neste sentido. O autor afirma que, para além das críticas, o que realmente importa é o exemplo nesse novo momento dos movimentos sociais. Suas práticas surtem efeitos sobre os chamados “aparelhos de poder” no enfrentamento direto, no qual a partir das relações estabelecidas entre os mais variados movimentos é possível atuar sobre um determinado tema, em que um possa suprir as fragilidades do outro na luta contra um determinado agente opressor, fazendo permutas de experiências e de ações.

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Ao mesmo tempo em que os Movimentos ampliam e reconhecem suas próprias características, reafirmando-se a partir de suas diferenças e ganhando voz a partir daí, em um movimento contrário as forças hegemônicas buscam cada vez mais afunilar os espaços de diálogo fazendo com que o debate seja pautado não em uma busca por um consenso, mas seguindo diretrizes e normas impostos pelo próprio Estado e por suas necessidades econômicas. Ou seja, o Estado aceita o diálogo, mas os limites de o quê e onde se pode dialogar é posto pelo próprio Estado, de forma autoritária em um claro contra movimento aos avanços da sociedade. No momento em que novas demandas surgem o Estado passa a concentrar cada vez mais seus centros de diálogos. Consequentemente, a participação dos Movimentos Sociais é reduzida e, cada vez mais há diálogos com empresários e parcela das elites locais dispostas a se enquadrar no novo modelo proposto pelo Estado, que por sua vez mostra sua capacidade de mover-se escalarmente.

É possível afirmar que, a partir desta análise, os Movimentos Sociais com suas novas formas associativas e sua capacidade de compreensão escalar do evento a qual estão inseridos propiciaram grandes modificações na estrutura do Estado. Tais modificações referiam-se aos diálogos com as populações locais, como também às modificações estruturais em suas ações na Amazônia. Todos esses novos elementos contribuíram para que as elites locais buscassem formas de garantir representação nas novas relações de produção instaladas na região. Neste cenário, as elites acabaram por beneficiarem-se de forma direta ou mesmo de forma indevida da atuação do Estado na Amazônia através dos recursos públicos e incentivos fiscais e creditícios por ele criado.

1.5 Novas estratégias e novas práticas. Os movimentos sociais e outras formas de mobilização social foram se alterando com o passar do tempo, pelo fato de ser uma construção política que tendia ao amadurecimento no decorrer das experiências vividas pelo grupo. Do início da organização dos grupos sociais na Amazônia até os dias atuais, muita coisa mudou e a conjuntura política é outra completamente diferente do inicio

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da sua ocupação, salvo a Amazônia conservar a característica de colonialismo interno.

Contudo, os movimentos não são apenas sujeitos passivos na história, eles também contribuíram para as mudanças políticas nesse período. Assim, pode-se considerá-los também como agentes do processo histórico. Apesar de muitos estudiosos considerarem que os Movimentos perderam força na década de 90 com o avanço do neoliberalismo instalado no país, acredita-se que esses eventos fizeram com que os Movimentos tomassem uma postura mais ativo- propositivos (Gohn, 2013). Também passar a atuar em rede e em parceria com outros agentes, agora não mais à margem do Estado e apenas inseridos na sociedade, mas utilizam-se das duas vias para se reproduzirem; apesar da marginalidade também buscam um diálogo com a institucionalidade. Essa nova fase geraram práticas igualmente novas nos movimentos tanto urbanos como no campo:

No urbano os movimentos com matrizes político-partidários fortes se enfraqueceram, fortaleceram-se os movimentos com perfil de demandas mais universais, mais plurais em termos de composição social como os ecologistas e pela paz. No campo a luta social, os movimentos sociais com perfil de lutas de resistências cresceram e entraram no novo milênio um tano quanto desgastados, mas como parte da agenda dos conflitos sociais do país, a exemplo do MST (GONH, 2013, p.250).

O exercício de novas práticas trouxe um maior conhecimento sobre as políticas do Estado e sobre a máquina pública para os Movimentos Sociais, muito graças às estratégias em redes estabelecidas por eles, agora articulados com redes internacionais pelo direito à cidadania e à vida. Neste capítulo se fez importante elucidarem-se os conceitos de território, políticas de escalas e Movimentos Sociais para poder enfatizar nos próximos capítulos a maneira como a experiência dos conflitos sociais na Amazônia se desenvolveu. Importa também mostrar o valor da construção de políticas de escalas para a estratégia de ação dos diferentes agentes, seja no avanço do Capital sobre os modos de vida, e as territorialidades deles derivados, em uma tentativa de aniquilá-los ou submetê-los à produção capitalista, seja na organização de formas de resistência contra-hegemônicas na contenção do avanço do projeto capitalista, a desfiguração de seus modos de vida e na

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tentativa de garantir o controle sobre o seu próprio meio de produção e de sua realização social.

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CAPÍTULO 2: AJUSTES ESPACIAIS E A MODERNIZAÇÃO DO TERRITÓRIO NA AMAZÔNIA:

A formação econômica do Brasil é resultante de diferentes formas de desenvolvimento que geraram graves desigualdades sociais e que ainda hoje é perceptível, mesmo após inúmeras reformas nas diretrizes governamentais do país. Isso gerou uma alta concentração de terra, riqueza e renda no território nacional e que na Amazônia é bem mais perceptível. Tal processo de concentração de riquezas nos remete ao tema subdesenvolvimento, para entender a dinâmica da região e que para FURTADO (2002) não se pode interpretar como apenas uma fase do processo de formação das economias capitalistas, mas deve-se compreendê-la como uma situação particular, inserida no processo de expansão capitalista por áreas não capitalistas. Neste sentido, é perceptível que, nos países da América Latina há uma formação econômica diferenciada, orientada por um roteiro de problemas estruturais emergentes, a partir da dependência externa desses países e agravados pela exploração de seus recursos naturais.

As transformações viabilizadas, sobretudo por agentes internacionais na América Latina, começaram a ser elaboradas sob a égide do desenvolvimento e, no Brasil, principalmente, a partir de 1964 com a ditadura militar, a ideologia desenvolvimentista passa a ser amplamente divulgada. Esse movimento provocou a expansão do capital, motivado pela ampliação das fronteiras produtivas, criadas a partir da integração dependente de novas regiões à dinâmica nacional, sendo esta última, orientada pelas regiões centrais já submetidas à lógica capitalista.

Para entender-se a forma de constituição e modernização da região no século XXI e suas transformações são necessárias perceberem-se quais foram os caminhos traçados pelo agente regulador de todo o projeto classista indutor das transformações o Estado e quais foram os vieses de seu planejamento em seus vários enfoques. O que buscava o Estado? Quem estava subjacente a ele, com as várias rupturas criadas no espaço amazônico, quando da criação de rodovias e posteriormente com a introdução de projetos minero-industriais?

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Neste capítulo, tratar-se-á da atuação do Estado dentro da região Amazônica. Mostrar-se-á como ele se tornou um importante agente da produção do espaço regional e quais foram as diretrizes tomadas para realização dessa produção até o início do novo século. A partir daí, revela-se como a chegada de um empreendimento como a UHE de Belo Monte reconfigura a lógica da região, favorece o projeto ao qual está inserido, passa por reconfigurações na base material, mas também modifica sua forma política nas proximidades do rio Xingu, lugar de instalação da barragem.

2.1 Fases de ocupação e o Estado na Amazônia:

Becker (2001) afirma que é a partir do momento da formação do moderno aparelho estatal, em um período de grandes intervenções no território e na economia, tornou-se contínua a ocupação da região amazônica como projeto de Estado. Período que provocou uma eficiente relação de dominação entre a região e o centro do poder nacional, tornando a Amazônia efetiva no projeto global do capitalismo. Para demonstrar como ocorreu a atual formação territorial, a autora, divide em três grandes períodos as fases de constituição e ocupação da Amazônia.

Em referência à primeira fase, referente ao planejamento, Becker (2004) enfatiza que esse período correspondeu ao momento de implantação do Estado Novo por Getúlio Vargas. Ressalta ser este “um momento mais discursivo do que ativo”, um momento em que a Amazônia passou a ser uma preocupação para o Estado Brasileiro e, ao mesmo tempo, permitiu que ações concretas fossem pensadas para a dinâmica da região. Porém, somente no governo de Juscelino Kubitscheck essas ações foram colocadas em prática, na tentativa de unificar o mercado nacional, o que desencadeou várias modificações na estrutura da região, ao serem implantadas políticas públicas e das novas próteses instaladas na região, como o caso das rodovias Belém- Brasília e Brasília-Acre:

A “marcha para o oeste” e a criação da Fundação Brasil Central (1944), a inserção de um Programa de Desenvolvimento para a Amazônia na Constituição de 1946 e a delimitação oficial da região por critérios científicos foram

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marcas dessa fase, seguidos pela criação da Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia SPVEA, mas apenas revelam uma preocupação regional sem ações correspondentes. Somente no governo de Juscelino Kubistchek, calcado na “Energia e Transporte” e em “Cinquenta Anos em Cinco”, ações efetivas afetaram a região. (BECHER, 2004, p. 25).

Segundo Bertha Becker, há no período, por ela chamado de planejamento regional, dois subperíodos: o do planejamento, no qual se pensaram as ações prepositivas ao território e o segundo, correspondente ao inicio de uma efetiva produção do espaço pelo Estado Nacional. Esta última ocasionou o crescimento populacional da região e propiciou um salto da população de um milhão para cinco milhões de habitantes entre as décadas de 50 e 60 e, se mantém elevada desde então.

Foi no intervalo entre 1966 1985 que essa produção estatal, isto é, uma produção estatal-capitalista do espaço amazônico, ganhou força. Neste momento o Estado e seus parceiros iniciaram um grande ciclo modernizador da Amazônia que coadunavam com as novas políticas de modernização da sociedade e do território nacional.

Neste processo de modernização, que ocorria em todo o território nacional, a Amazônia se fez importante ao se mostrar como uma possível solução viável em vários sentidos, aos inúmeros problemas enfrentados pelo Estado naquele momento: desde grandes tensões por terra enfrentadas historicamente pelas regiões nordeste e sudeste e agravadas pela modernização do campo, aos possíveis focos de guerrilhas que poderiam surgir em um território de grandes dimensões e de difícil acesso.

Em um território tão vasto e tão distante da metrópole, distância em múltiplos sentidos, quer fossem no econômico, social ou cultural, tais preocupações se estendiam para escala continental, uma vez que poderiam surgir ameaças à soberania do território. Esses fatores ligados a distancia entre os grandes centros do Brasil e a proximidade dos grandes centros de países vizinhos poderiam ocasionar uma captura da Amazônia Brasileira para a órbita de projetos de outros países ligados ao Caribe e ao Pacífico.

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Em âmbito internacional havia a proposta do Instituto Hudson para transformar a Amazônia em um grande lago, com a possibilidade de transportar e explorar os recursos da região, plano que não se mostrava interessante ao projeto nacional pensado naquele momento (Becker, 1982). Hoje, é difícil afirmar se as estratégias atuais para a região, devido a implantação de uma vasta quantidade de barramentos e o surgimentos de hidrovias, não se mostram interessantes ao atual projeto de Estado vigente no país.

Nesse momento, várias ações do Estado deram suporte ao processo de ocupação e modernização do território e de instituições na Amazônia. O objetivo foi extinguir a possibilidade de perda de importantes áreas, tais como a mudança do Banco de Crédito da Borracha, alterado para Banco da Amazônia BASA, a SPVEA se transformou em Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia SUDAM, além da criação de um enclave industrial nas proximidades das fronteiras do norte. Surgia assim a Zona Franca de Manaus, importante estratégia territorial da região (BECKER, 2009). Todo esse aparato visava a fortalecer as novas conexões que passaram a se dar no território.

Para tanto, impõem sobre o território uma malha de duplo controle técnico e político constituído de todos os tipos de conexões e redes, capaz de controlar fluxos e estoques, e tendo as cidades como base logística para a ação. (BECKER, 2009, p.26).

No período entre 1968 e 1974 este tipo de malha, chamado de tecno- política, foi implantado na Amazônia, com o objetivo de ampliar a apropriação e o controle perante o território (Becker, 1990) e, suas características na Amazônia mostraram-se nas seguintes formas segundo a autora:

A implantação de redes de integração espacial que trata dos variados tipos de redes com investimentos públicos, rede rodoviária ampliada com a implantação dos eixos transamazônica, Perimetral Norte, Cuiabá Santarém e Porto-Velho Manaus, redes de telecomunicações para a difusão de “valores” modernos a partir da televisão, além das redes de telefonias, redes urbanas com base para as sedes de empresas estatais e privadas e a rede hidrelétrica para dar base de sustentação a esse novo período industrial; Subsídios ao

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fluxo de capital e indução dos fluxos migratórios que por um lado incentivou o fluxo de capitais do sudeste e do exterior através de mecanismos fiscais e creditícios do BASA e por outro atraiu a migração a fim de criar uma mão de obra local, tal indução se deu através de mecanismos como os vários projetos de colonização criados a partir de 1968; Superposições de territórios federais sobre os Estaduais a partir de estratégias que davam ao Estado Nacional a jurisdição absoluta ao governo federal de territórios pertencentes aos estados da região é que foi possível realizar os planos nacionais para a região. No ano de 1966 a SUDAM criou o território chamado Amazônia Legal que se superpôs a região norte, alguns anos depois o governo determinou que uma faixa de 100 km de ambos os lados das rodovias federais seriam de controle da Federação com a justificativa que seriam usados nos planos de colonização e assim distribuídos para os camponeses, no Estado do Pará, essa determinação significou mais de 65% do seu território passara ao controle exclusivamente federal (Becker, 2001).

Com as seguidas crises do Petróleo e a elevação das taxas de juros no mercado internacional (principal financiador do projeto nacional) e o descontrole no crescimento da dívida externa do Brasil este modelo de desenvolvimento acabou se esvaindo, entretanto, deixou um rastro de grandes desigualdades e problemas ambientais na região devida principalmente aos privilégios atribuídos aos grandes grupos hegemônicos que passaram a atuar na Amazônia. Conflitos sociais e degradação ambiental são as principais marcas desses tempos para a região.

Os planos e ações estatais deste período, baseados em uma implantação a qualquer custo da malha tecno-política, buscavam a construção de um espaço isotrópico e homogêneo em um território com grande variedade de gêneros de vida. A população que viviam na região com desrespeito, os tratando apenas como número, números de pessoas com possibilidades de serem revestidos em mão de obra barata para possíveis atividades que surgiriam a partir da indução criada pelo Estado nos chamados Grandes Projetos.

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Todas as ações dos grandes projetos na região tiveram como objetivo em sua criação espacial específica envolver o projeto de Amazônia em uma escala global, isolar e destituir as forças locais que estivessem desalinhadas ao novo projeto de exercer qualquer tipo de controle político sobre a área.

Após o esgotamento do chamado nacional desenvolvimentismo, Becker (2009) afirma que se inicia um novo período na formação territorial da Amazônia, denominada de Heartland, o qual tem inicio em 1985 e é marcado por dois fatores: a anteriormente citada falência do modelo vigente a época e o surgimento do Conselho Nacional dos Seringueiros, símbolo da luta dos expropriados da terra na Amazônia durante todo o período. O Conselho articulado com os movimentos ambientalistas nacionais crescia ao lado de outros movimentos em escala mundial que insurgiam em defesa dos grandes biomas localizados em áreas de países do chamado terceiro mundo. A forte pressão exercida sobre o modelo de desenvolvimento proporcionou o surgimento de modelos endógenos de desenvolvimento em suas várias formas que predominavam na dinâmica regional no período entre 1985 a 1996 (Becker

2000).

A endogenia ocasionada pela pressão da sociedade civil despertou a criação de políticas que levaram ao surgimento do chamado vetor tecno- ecológico (BECKER, 2009) o que deu à Amazônia características de fronteira socioambiental, resultado de a reconfiguração escalar das forças dos variados projetos advindos dos mais variados agentes. Inclui-se agora, neste campo, agentes afastados há tempos dos movimentos e que agora passaram a ter voz ativa dentro do processo de decisão na região.

Sobre o desempenho do vetor techno-ecológico, Becker (2009) indica pontos positivos e negativos dessa atuação:

Se a lição ensinada por esse vetor é sua positividade social e ambiental, há, contudo que se registrar dois problemas que impedem a sua plena expansão: a dificuldade de inserção nos mercados, em virtude de carências gerenciais, de acessibilidade e de competitividade, e a sua característica pontual, que não alcança escalas significativas de atuação em tão vasta região (BECKER, 2009, p.28-29).

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Para nós, os pontos negativos apontados por Becker são questionáveis. Afinal, o Estado deveria impulsionar essas questões e, se não as abolissem ao menos as amenizava, uma vez que questões de competitividade e de acessibilidade de mercadorias aos centros consumidores sempre foram solucionadas pelo Estado em prol de empresas do grande capital. Tais empresas operavam nas regiões mais “remotas” do país e a competitividade de seus produtos sempre foi solucionada com subsídios estaduais. Assim, por que então não usar os mesmos mecanismos que hoje são apropriados de maneira privada, para orientar a competitividade de pequenos produtores e das cooperativas? Não seria esse o grande avanço que o vetor tecno-ecológico poderia trazer? A apropriação e uso do Estado pelo povo?

A partir de 1996, as forças envolvidas nos projetos ambientalistas, as quais passaram a marcar forte posição entre os governos e economias mundiais, propuseram a formação de corredores ecológicos. Entretanto, nesse período as forças impulsionadoras de desenvolvimento exógeno retomam espaços dentro do governo federal com proposições, por meio do Programa Brasil em Ação. Tal programa retoma o planejamento territorial da União, a criação de corredores de desenvolvimento e o conflito entre os dois projetos voltam à tona e se ampliam ainda mais, com o fortalecimento do vetor termo industrial (VTI) e com o Programa Avança Brasil no ano de 1999 (BECKER,

2009).

O conflito instalado entre os grupos ambientalistas e desenvolvimentistas contribui para que a Amazônia seja elevada a uma escala de efetiva importância para o país. Isso ocorreu com uma eficaz integração via portos, redes de telecomunicações, rodovias e todos os mais variados sistemas de objetos que aqui passaram a existir, assim como também passou a fazer parte de projetos geopolíticos de diferentes grupos sociais fazendo com que o debate da natureza torne-se um debate político envolvendo as possibilidades de seu uso, assim reconhecendo as várias possibilidades dos projetos relacionados com o meio ambiente (BECKER, 1995). Todas essas frentes de ação emergentes desse debate político sobre a natureza e seu uso passam a se confrontar nas ruas e nos diferentes campos, inclusive dentro do Estado.

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Entretanto, para que o debate persistisse até o momento atual, em que vários grupos passam minimamente a interagir, foram necessárias várias ações na região. Vejamos, agora, como ocorreu essa produção da Amazônia através de forte intervenção do Estado.

2.2 Grandes Projetos e intervenção estatal na região. Aparelho responsável por regular os movimentos do capital e naturalizá-lo para a sociedade, o Estado, que para Hubermann (1986,p.229) “todo seu poderio é usado no interesse da classe dominante” atua na recriação das formas de contato, orientação e normatização do espaço vivido, e consequentemente transforma o significado do viver a partir do projeto de modernidade no qual este está inserido. É nesse sentido, necessário dizer que, a realidade amazônica atual é fruto das maciças intervenções realizadas sob o comando do Estado Nacional Brasileiro, sobretudo a partir dos anos 60 do século XX. Neste período as ações para a integração da Amazônia à economia nacional foram intensificadas, gerando grandes impactos ambientais e sociais para a região.

Como resultado, estas ações transformaram as formas de exploração dos recursos naturais, provocaram uma revolução no modo de vida local, onde agora diferentes agentes, sob a égide do Estado e diretrizes do Capital, entram em conflito a fim de impor uma nova lógica espacial para a região.

A elite da terra detém o monopólio do território durante as primeiras fases de ocupação da Amazônia. Mas, a forte intervenção do Estado com suas modernas políticas de ordenamento territorial, aplicadas na região em meados do século passado, esta elite passa a ter que adaptar-se às novas funcionalidades do território, para poder manter sua hegemonia. Assim sendo, suas necessidades adaptam-se às do Estado, o que lhes possibilita a manter o controle local, participando como importantes agentes locais para o projeto nacional. Essas transformações e adaptações das necessidades sempre foram vistas com naturalidade na formação histórica do Estado brasileiro.

À medida que se formava e desenvolvia o Estado nacional, organizava-se o aparelho estatal de modo a garantir o regime

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de trabalho escravo. Depois, à medida que o regime de trabalho escravo foi sendo substituído pelo de trabalho livre, os grupos e as camadas dominantes reorganizaram o aparelho estatal de modo a garantir o predomínio dos seus interesses, em detrimento de trabalhadores rurais e urbanos, negros, índios, imigrantes (IANNI, 1984, p.13).

O Estado faz valer sua função de regulador do território, fato que lhe confere um novo significado e abre caminho para a união entre as elites locais, que busca a manutenção do poder dentro de uma determinada área, e empresas capitalistas que chegam à região em busca de acumulação primitiva e de mais-valia absoluta. Os novos arranjos espaciais criados da união das necessidades desses dois grupos tornam a região submissa ao processo de acumulação de capital. A construção do espaço na Amazônia é fruto de um duplo movimento criado a partir daí, entre a força de trabalho e os donos dos meios de produção, entre uma frente pioneira e uma frente de expansão que se conflitam a todo o momento.

Estamos de fato diante de dois movimentos distintos e combinados de ocupação territorial, que ocupam de formas distintas e conflituosas entre si territórios, via de regra, já ocupados por sociedades tribais. Através do deslocamento de posseiros é que a sociedade nacional, isto é, branca, se expande sobre territórios tribais. Essa frente de ocupação territorial pode ser chamada de frente de expansão. Um segundo movimento é constituído pela forma empresarial e capitalista de ocupação do território é a grande fazenda, o banco, a casa de comercio, a estrada, o juiz, o Estado. É nessa frente que surge o que em nosso país se chama hoje, indevidamente de pioneiro. São na verdade os pioneiros das formas sociais e econômicas de exploração e dominação vinculadas às classes dominantes e ao Estado. Essa frente pioneira é essencialmente expropriatória porque está socialmente organizada com base numa relação fundamental embora não exclusiva, que é a de compradores e vendedores de força de trabalho. Quando se dá a superposição da frente pioneira sobre a frente de expansão é que surgem os conflitos pela terra (MARTINS, 1980. p.75).

A Amazônia é oriunda desse duplo movimento na fronteira, orientado pelo Estado, entre a frente de expansão e a frente pioneira, que se chocam e acentuam os conflitos de terra na região. Essa tensão ocorre, no contato

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conflitante entre os diferentes agentes, com seus diferentes modos de vida, que passam a ocupar os mesmos espaços na tentativa de cada um desses grupos em moldar o espaço cada qual tentando impor as suas formas. Desta maneira, as relações que ocorrem no lugar se fazem um híbrido entre as formas tradicionais de vida e as formas modernas capitalistas.

Foram vários os momentos como estes pelos quais passou a região em sua ocupação. Estes períodos são compreendidos desde a época da economia da borracha à construção das rodovias, dos projetos de colonização dirigida e ainda hoje são perceptíveis em projetos como o da UHE de Belo Monte e tantos outros. Todas essas modificações ocorridas no espaço geográfico trouxeram grandes transformações na estrutura social dos municípios.

Esses efeitos polarizadores que o empreendimento energético, mineiro ou industrial exerce transformam o padrão de

ocupação regional reorganizando o espaço anterior, já que, ao

se

implantarem, esses projetos alteram os padrões históricos

de

localização das atividades; grandes complexos hidrelétricos

e

obras de infraestruturas rompem com as formas de

organização que preexistem, provocando a desarticulação de sua estrutura socioeconômica, demográfica e espacial. Reorientam os fluxos migratórios, induzem o surgimento de novos sistemas de emprego e produção, provocam o êxodo rural e a urbanização, o desenvolvimento de novos padrões de consumo e promovem a integração e maior dependência regional com o exterior (ROCHA, 2008, p.36).

A construção da UHE de Belo Monte restaura os conflitos entre as duas diferentes frentes, contribuindo para que, mais uma vez, se ressignifique o local. Isto se deve à entrada de novos elementos tecnológicos de comunicação e de transferência de informação e a aproximação do município cada vez mais ao global, o que gera uma confusão entre as escalas de análise e de ação, ao que David Harvey chamou de compressão do espaço-tempo.

Todas essas transformações exigem uma nova reconfiguração do espaço, entendido por nós aqui como um “conjunto indissociável, solidário e também contraditório de sistemas de objetos e sistemas de ações, não consideradas isoladamente, mas como o quadro único onde a história se dá”

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(SANTOS 1997, p.51). A construção do espaço está relacionada ao complexo movimento dialético entre os sistemas de objetos e os sistemas de ações. Milton Santos desenvolve sua teoria social do espaço como uma teoria da ação, onde o espaço para ele é o resultado de objetos e ações articulados dialeticamente em um sistema, no qual os objetos têm a sua própria autonomia de existência, mas não possuem autonomia de significação. Significação esta que será dada pelas ações que se exprimem e se realizam no objeto. O que o objeto vem a ser tem em comum com a sua relação, com toda a articulação onde ele está inserido. Portanto, a ação impressa neste objeto é quem lhe dará essa ligação, dando-lhe intencionalidade, uma essencialidade portada pela técnica na forma da divisão do trabalho e que liga ação e objeto numa relação de sujeito-objeto. Com isso, ao criar novas ações e novos objetos o Estado moderniza as relações no local.

O Estado se faz importante neste momento, pois é ele quem irá consolidar a aliança entre as novas e as velhas elites, entre a elite da terra e os novos capitalistas que entram em cena na região. Caberá a ele ditar as bases para essa nova fase da exploração na região.

Diante desse processo de modernização capitalista, reconfiguração espacial, a sociedade civil e os povos tradicionais veem seus modos de vida se deteriorar pelas ações instituídas pelo Estado, ações estas, desprovidas de cuidado com a reprodução de modo de vida da população, já que estão à margem da reprodução do capital.

Toda essa mescla entre relações tradicionais e modernas de exploração traz a esses povos sofrimento com graves problemas sociais, os impedem de dar sustento as suas famílias. Por isso mesmo, buscam outros lugares para garantir seu amparo e, portanto migram (ou são expulsos) para a cidade a fim de vender a sua força de trabalho. É a partir das novas necessidades assimiladas por essas pessoas e, das novas relações estabelecidas em seu novo convívio que o capital tira proveito para a exploração de sua força de trabalho.

O capital tira, pois, vantagens comparativas do atraso social e econômico. Sobretudo tira vantagens do amortecimento da consciência de seus peões quando estes passam a usar como

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parâmetro para medir o valor de sua força de trabalho o complementar e, às vezes, o lúdico e o supérfluo (MARTINS, 2009. p.94).

Este processo de modernização do território diminui cada vez mais a parcela dos que podem fazer e podem criar seus espaços de vivência. Assim, pessoas são forçadas a mudar seu modo de vida e, por consequência, adentram no mundo moderno já sem poder e o controle da sua própria força de trabalho, as quais agora se tornam monopólio das classes hegemônicas no local, tornando majoritário seu controle na organização socioespacial não somente sobre o lugar, mas também ampliando seu controle sobre o outro.

Em 1973, com a crise do petróleo, o país passa por uma fase de desaceleração da sua economia. Neste período, cresce a dívida externa brasileira provocada por grave crise cambial e uma das soluções encontrada para diminuir os efeitos da crise insere a Amazônia no centro de uma possível reconfiguração econômica nacional e também mundial. Já para o país, sua função seria gerar recursos a partir de suas riquezas naturais; para a economia mundial, seria uma importante área para a expansão de seus investimentos neste difícil momento de reestruturação econômica e produtiva.

O primeiro choque dos preços do petróleo viria contribuir para aumentar ainda mais a importância da Amazônia no âmbito da economia mineral mundial. O encarecimento dos custos da geração de energia elétrica nas economias industrializadas do Ocidente levou a que alguns desses países voltassem suas atenções para o enorme potencial hidrelétrico e de biomassa (floresta para fabricação de carvão vegetal). A existência de abundantes jazidas minerais, aliada ao potencial energético, fariam com que a Amazônia passasse a apresentar uma série de atrativos para uma nova atividade: a transformação mineral (LOBO, 1996, p.95).

Este período coincide com o Plano Nacional de Desenvolvimento II PND II em que o processo de ocupação da Amazônia privilegiava o grande capital em empreendimentos conhecidos como “grandes projetos” e empresas multinacionais entraram na região interessadas nos possíveis recursos.

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Com a grave crise dos preços do petróleo da década de 1970 elevou- se o custo da energia elétrica, item importante na produção do alumínio primário. Isso provocou grandes modificações na organização da produção de alumínio pelo mundo e, as grandes empresas produtoras tiveram que procurar países onde as vantagens de locação fossem significativas e fizessem com que a margem de lucro voltasse à normalidade. Neste momento, países com grande quantidade de matérias primas, leis ambientais frágeis e principalmente, onde as empresas internacionais já tivessem um domínio político consolidado, foram as primeiras opções para a implantação do complexo industrial de sua produção. Para tal implantação, alguns pontos deveriam ser levados em considerações:

A escolha do ponto específico para a implantação de cada complexo industrial, não levou em consideração apenas a disponibilidade de recursos minerais, mas, aliado a este, uma série de outros fatores diretamente ligados não somente à exploração, como também a distribuição produtiva com os menores custos possíveis. Dentre estes fatores, destaca-se a localização geográfica, ou seja, um ponto específico do território que esteja próximo, tanto da fonte de recursos, quanto do porto, minimizando custos de deslocamento para a produção e escoamento. (CALANDRINE, 2011 pág.10).

A fim de consolidar a vinda do capital internacional para a Amazônia, via mineração, o governo Federal criou o Programa Grande Carajás PGC pelo decreto de lei nº 1.813, de 24.11.1980. Com a criação do referido programa, todos os projetos que pertencessem a ele teriam várias concessões e incentivos. Sobre a formulação do PGC, Oliveira (1990) afirma:

O Programa Grande Carajás foi formulado a partir do documento “Amazônia Oriental – Um projeto de exportação, elaborado pela Companhia Vale do Rio Doce CVRD, empresa estatal que, praticamente, é o elo estatal/nacional no processo de formação das multinacionais, que estão cumprindo à risca o processo de entrega dos recursos naturais do Brasil em geral, e da Amazônia em particular (OLIVEIRA, 1990. p.

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É importante deixar claro que, a mineração não começa com o Programa Grande Carajás, ela já ocorre na região amazônica há bastante tempo. Contudo, é a partir deste programa que se realiza de fato a integração econômica nacional a toda a exploração mineral na região que segue até hoje. Todavia, em meados dos anos 90, outros mecanismos começaram a ser planejados, visando um aprimoramento no uso dos recursos da região, ainda com finalidade de atender às demandas externas.

Mecanismos de promoção do crescimento econômico foram os assuntos do final do século XX e início do século XXI. Esses mecanismos direcionam o crescimento econômico, de acordo com as necessidades dos mercados externos e internos ao país, colocando o Estado sobre a luz do Paradigma do Estado Logístico.

Esse paradigma tem início no período do governo Fernando Henrique Cardoso (1995 2002). Porém, seus termos operacionais atingiram ponto ótimo no governo Lula (2003 2010) que aperfeiçoou o modelo logístico e retomou o poder planejador do Estado, inclusive ampliando-o para a América do Sul. Isso ocorre pelas tentativas de integração produtiva via infraestrutura e investimentos em escala global, reforçando o Brasil como agente hegemônico importante nessa escala.

Na realização desse novo momento do país duas fases importantes do planejamento surgem no governo FHC e são vitais para esse novo momento. O primeiro foi a proposta de uma iniciativa de integração da infraestrutura regional sul-americana que buscava criar condições favoráveis para investimentos do país no continente e a criação do Plano Plurianual PPA. Este se tornou um mecanismo de planejamento das ações, orçamentos e diretrizes do governo a serem seguidos por todas as administrações sejam elas estaduais, municipais ou federais.

Em 2003, no inicio do governo Lula, as formulações do PPA davam cada vez mais força ao paradigma do Estado Logístico e nos quatro anos seguintes, o PPA 2004 2007 pretendia estabilizar a economia e implantar um modelo que combinasse crescimento econômico e distribuição de rendas.

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O setor público pode e vai induzir a retomada do crescimento econômico. Mas a iniciativa privada terá um papel insubstituível. A força motriz desse processo deve ser a dinâmica das parcerias Estado-Sociedade, público-privado, governamental e não-governamental. Ao incorporar a voz da cidadania na formulação estratégica do futuro, o PPA tende a se afastar do autoritarismo estatal dos anos 70 como supera na prática a grave exclusão criada na década passada; a exclusão das prioridades nacionais (Plano Plurianual 2004 2007,

2003).

No segundo mandato de Lula e no novo PPA 2008 2011 passou-se a organizarem-se as ações governamentais em três principais eixos: o eixo “educação de qualidade” no qual surge o Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE; o eixo “agenda social” com foco na distribuição de renda principalmente aos grupos mais vulneráveis, buscando fortalecer a cidadania, cultura e os direitos humanos; e o eixo “crescimento econômico” que foi o grande propulsor do Programa de Aceleração do Crescimento PAC, lançado em 2007 (Plano Plurianual 2008 2011, 2007).

O PPA é o mecanismo que executa o plano orçamentário destinado aos eixos de desenvolvimento econômico, social e educacional. No eixo econômico os investimentos são feitos através do PAC seguindo tipologias infraestrutura logística, energética, social e urbano.

O PAC I (2007 2010) integrou o PPA e era responsável por coordenar as metas e prioridades do eixo crescimento econômico do Brasil (Plano Plurianual 2008 2011, 2007). As avaliações feitas sobre o programa apontam que ele seria um pacote de gastos públicos e também um ousado plano de desenvolvimento que aliava iniciativa pública e privada (FRISTCHTAK, 2007).

Direcionados para investimentos em infraestrutura logística, energética

e infraestrutura social e urbana as carteiras do PAC I privilegiavam:

Infraestrutura Logística: Investimentos em rodovias, ferrovias, portos hidrovias

e aeroportos; Infraestrutura Energética: Investimentos em geração e

transmissão de energia elétrica, petróleo e gás natural, além de refino, petroquímica e revitalização da indústria naval e combustíveis renováveis;

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Infraestrutura Social e Urbana: onde se desenvolve o programa “Luz para Todos”, investindo também em habitação, saneamento, recursos hídricos e na construção de metrôs. Todos esses investimentos previstos no PAC I orçamentaram 657,4 bilhões de reais. Todavia, o balanço emitido em 2010 afirma que apenas 619 bilhões seriam investidos até dezembro de 2010 (Plano de Aceleração do Crescimento 2007 2010, 2010).

Apesar de não ter conseguido investir o total planejado no inicio do Plano, o governo no balanço apresentado no final de 2010 afirma que, apesar da crise financeira que o mundo atravessava ter atrapalhado o programado, a meta de crescimento do PIB foi alcançada. As projeções iniciais do governo indicavam que a taxa anual de crescimento do PIB ao final do PA I alcançaria 7,5% e expansão média da economia brasileira alcançaria 4,6% no período entre os anos de 2007 e 2010, dados posteriormente confirmados pelo Ministério da Fazenda (2010).

O sucesso alcançado pelo PAC I levou ao lançamento do PAC II, formulado para o período de 2011 a 2014 no governo de Dilma Rousseff, dando continuidade aos projetos infraestruturais, porém agora buscando também priorizar os problemas das grandes cidades brasileiras.

Todos esses mecanismos de impulsão do crescimento econômico brasileiro, quando analisados em escala continental, são possíveis de visualizar que estão intrinsecamente ligados ao Plano IIRSA e, que o aperfeiçoamento logístico do território nacional brasileiro é de suma importância no crescimento regional como um todo. Tanto que os modelos de políticas do Brasil são seguidos grande parte pelos países que fazem parte da IIRSA.

Sendo assim, pode-se afirmar que, o atual momento do crescimento econômico interno do país está relacionado diretamente às condições externas ao território nacional e exige novamente da Amazônia uma nova configuração dentro do projeto de Brasil, pensado nessa virada de século e orientando a região em direção à fronteira energética.

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2.3 A fronteira energética no Brasil e a importância da Amazônia no contexto:

A dinâmica industrial inserida na Amazônia foi possibilitada por meio das reestruturações das políticas energéticas e no pensar a importância dessa agenda por parte do Estado nacional. Todo esse movimento, vale lembrar, foi induzido pelas dinâmicas da economia mundial e seus rebatimentos na política interna geraram essas modificações estruturais.

A política energética no país consiste em algumas fases ligadas diretamente à participação do estado no setor. Até o término da II Guerra Mundial, a geração de energia era decorrente de investimentos privados, que a partir da década de 1950 a economia Brasileira passou a ser amplamente estatizada e o setor elétrico se tornou um dos campos no qual mais ocorreu esse tipo de interferência estatal.

Os primeiros estados a se envolverem nesse processo e criarem empresas para cuidar da atividade foram Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná que criaram, respectivamente, Centrais Elétricas de Minas Gerais - CEMIG, Centrais Elétricas de São Paulo CESP, Companhia Estadual de Energia Elétrica - CEEE e a Companhia Paranaense de Energia Elétrica COPEL. Neste momento a responsabilidade do Estado Nacional passou a ser a criação das Usinas Hidrelétricas. As usinas de Paulo Afonso e Furnas são criadas nesse contexto (Rocha 2008).

As empresas responsáveis pelo setor elétrico passaram a se organizar em distribuição, transmissão e geração de energia conforme a sua abrangência espacial e, a partir da década de 1960, o Estado Nacional passa a agir também na atividade com a criação de empresas federais, o que levou a uma significativa ampliação da geração de energia. Segundo Rocha (2008) o envolvimento do Estado no setor se deu, pois:

No caso do Brasil, a presença do Estado tornou-se fundamental, já que a iniciativa privada, até então, mostrava-se frágil para atuar no setor, pois envolvia investimentos elevados que, na época, somente o Estado poderia custear (Rocha 2008, pág. 61).

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A partir da ampliação das ações do Estado Nacional nas atividades energéticas na década, ocorreram importantes reestruturações administrativas

e institucionais nas políticas, a fim de beneficiar o empresariado industrial, o qual o governo militar havia se aproximado. Neste contexto, o governo passou

a criar uma parcial federalização do setor através da criação das Centrais

Elétricas do Brasil ELETROBRÁS criando uma holding com controle das principais Centrais do país e anos mais tarde também controlaria as Centrais Elétricas do Norte do Brasil ELETRONORTE.

Todas essas práticas do Estado Nacional referentes ao setor energético estão diretamente ligadas ao período de crescente industrialização do país e tinha como objetivo impulsionar a atividade. Este objetivo foi

explicitado no Plano de Metas (1955 1960) e se fez necessário para a instalação da atividade industrial no Brasil, para uma boa geração e distribuição

de energia, o que naquele momento sem a participação do Estado se tornava

inviável.

No período militar o setor energético foi bastante fortalecido com os programas de desenvolvimentos econômicos, favorecedores de grandes projetos de importância estratégica geopolíticas para o Estado.

A federalização do setor elétrico deixou a cargo do governo a geração

e a transmissão de energia enquanto que, a distribuição ficou sob a

responsabilidade dos estados, onde “nesse aspecto não houve a prevalência de um sobre o outro federal ou o estadual antes, resultou em um modelo estatal híbrido federal e estadual” (Rocha, 2008, pág. 63).

Na virada da década de 1970 houve grandes modificações no planejamento das políticas energéticas do país, se comparar com o período das duas décadas anteriores referentes à centralização do setor elétrico na escala nacional, que anterior a esse momento era descentralizado e a passagem da responsabilidade do controle da atividade estava a cargo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico BNDE, para a recém-criada ELETROBRÁS.

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Surge uma nova forma de pensar a questão energética no Brasil, a partir da reformulação da agenda que começou a examinar a possibilidade de aproveitamento energético e econômico para a região centro-sul e também começara a planejar o programa de expansão para o atendimento da demanda energética no país até 1970. Esses estudos foram elaborados pelo governo brasileiro, Banco Mundial com o apoio do Fundo Especial das Nações Unidas. Percebe-se nesse momento que a questão energética no país já era observada de perto por agentes econômicos multinacionais. Ao final desses estudos ficou acertado que a ampliação da distribuição de energia elétrica no país, só seria possível caso fosse ampliada sua geração para além dos espaços locais. Isso fez com que mais investimentos fossem realizados a ampliação da capacidade geradora de algumas hidrelétricas e a criação de outras.

Durante a crise de 1973 foi lançado pelo governo brasileiro o II PND, plano que valorizava o desenvolvimento econômico nacional a partir da ampliação da industrialização, e que novamente levaria a uma ampliação do setor elétrico nacional. Nesse mesmo período foi lançado pela ELETROBRÁS o Plano 90, que consistia em elevar o crescimento econômico do país a

incríveis taxa superiores a 10% ao ano de meados de 1970 ao inicio dos anos

1990.

A partir desse plano foi viabilizada a construção de várias hidrelétricas por todo o país, Hidrelétricas como a UHE de Tucuruí, UHE de Itaipu, UHE de Sobradinho, UHE de Porto Primavera, entre outras. Além da criação de todas essas usinas a ELETROBRÁS projetou a interligação entre os sistemas elétricos Sul-Sudeste e Norte-Nordeste.

A ampliação do setor elétrico no país foi possível graças à captação de recursos externos advindos de organismos internacionais, sobretudo no período de 1974 a 1984, que levou posteriormente a um grave endividamento público.

Tomando-se como referência os anos de 1974 a 1984, verifica- se que no primeiro ano a captação de recursos externos brutos pelo setor elétrico correspondeu a 6% dos recursos conquistados pelo Brasil. Já em 1984, observa-se que a captação de recursos externos pelo setor correspondeu a cerca

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de 28,6% dos recursos que o Brasil conseguiu no exterior. (ROCHA, 2008, pág. 66).

A crise que esses empréstimos criaram, obrigaram o país a estabelecer uma nova estruturação do sistema produtivo industrial. O avanço industrial, e vale ressaltar, de base exportadora contribuiu para o consumo industrial de energia. Segundos dados da ELETROBRÁS (1988), em 1970 o consumo de energia por parte das indústrias de base exportadora e o consumo residencial eram próximos, com uma maior utilização relativa por parte das residências, eram consumidos respectivamente 30,7% e 34%. Contudo, já na metade da década de 1980 houve uma inversão neste consumo chegando a 40% de consumo industrial e 15,7% de consumo residencial. Sendo que grande parte dessa energia era gerada por hidroeletricidade (54,9%) mostrando a quais interesses a expansão do setor energético respondia.

É importante frisar que grande parte da ampliação da política energética no país foi criada pelo Plano 90 e destinada a fins industriais, no ano de 1986 chegou a 33% da energia gerada que foi consumida somente por essa atividade.

Os dados mostram que a preocupação com a energia elétrica no país, historicamente, é um processo ligado diretamente ao crescimento industrial nacional. Principalmente da indústria de base exportadora, como é o caso do minério onde o crescimento da produção de ferro no ano de 1973 que era de 83.837,9 toneladas/ano passou para 156.501,8 toneladas/ano em 1989. Entre outras produções que tiveram crescimentos vertiginosos e também foram influenciados pelo realocamento de atividades industriais dos países centrais para a periferia do mundo. Tais valores de produção só foram possíveis de ser atingidos graças ao significativo aumento da geração de energia no país (Rocha, 2008), e que para Berman (1990) indica a passagem do “modelo de substituição de importações” para o “modelo de exportação energética” no Brasil.

Na virada do século XX surgem projetos que objetivavam a retomada do crescimento econômico do país e toda a possibilidade de crescimento

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econômico a partir dos novos planos criados pelo Estado somente puderam ser concretizados a partir da ampliação da infraestrutura energética do país. Pois, para reativar a economia seria necessário reavivar a industrialização o qual não seria possível sem aumento na capacidade energética. Assim sendo, no PAC I foram disponibilizados 148,5 bilhões de reais para o setor energético dividido entre as matrizes, petróleo, gasodutos, gás natural liquefeito GNL, energia elétrica, transmissão de energia, estudos de viabilidade e inventários.

Segundo dados do Ministério de Minas e Energia 2011 a demanda de energia no Brasil no ano de 2010 cresceu 9,6%, impulsionado pela necessidade de combustíveis. Entretanto, o consumo de energia elétrica também apresentou significativo crescimento de 7,6%. A partir deste cenário os investimentos em transmissão e geração de energia elétrica englobaram grandes investimentos dentro do PAC I e PAC II, sendo considerados de fundamental importância para o crescimento econômico do Brasil.

Foram investidos no processo de transmissão de energia elétrica cerca de sete bilhões em interligações regionais e expansão das linhas de transmissão por 9.139 km até o ano de 2010 referentes ao PAC I. Enquanto que no PAC II a estimativa de investimentos nessa mesma área chegou a 26 bilhões até o ano de 2014 com mais um aporte de 10,8 bilhões após o referido ano. Todos esses investimentos objetivavam a ampliação e reforço do Sistema Integrado Nacional SIN para atender à crescente demanda energética nas cinco regiões do país e assim garantir o escoamento energético dos grandes empreendimentos hidrelétricos (Plano de Aceleração do Crescimento 2 2011 2014, 2011).

Dentre os investimentos em energia hidrelétrica estão a construção de inúmeras usinas pelo país, tendo a região sudeste um número significativo desses empreendimentos, mas é na região norte que estão os maiores projetos, entre eles o da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, localizada no Pará, estado com grande potencial hidrelétrico a ser explorado.

No Balanço Energético 2011 em dados do inicio do PAC II, o Pará se apresentava como o 5º maior gerador de energia elétrica do país, e segundo a

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mesma fonte, a região norte corresponde a 12,4% da geração de energia do país.

Reconhecendo toda essa potencialidade, o governo federal direciona investimentos para a área, por meio do PAC, à expansão da geração de energia nacional, priorizando as chamadas fontes renováveis.

Somente em rios paraenses estão planejados pelo PAC II a criação de 10 usinas, que atualmente trazem à tona um complexo debate ambiental, pois serão obras que reduzirão o tamanho de algumas áreas protegidas como é o caso da UHE de São Luiz do Tapajós que atingirá diretamente áreas do Parque Nacional da Amazônia, na Floresta Nacional Itaituba I e II, além da área de proteção Ambiental do Tapajós (ANGELO, 2012).

Todos os projetos de expansão energética dentro do Estado do Pará criam grandes debates sobre o tipo de desenvolvimento orientado pelo Estado

e sobre os impactos ambientais e políticos dentro do território e sobre o retorno do uso desse recurso para a população local. Uma vez que, grande parte da energia gerada no Pará, utilizada no Estado, é direcionada ao uso industrial, voltado principalmente para a mineração, enquanto que um quarto da população do estado ainda hoje vive sem acesso a energia elétrica (SILVA, 2014) fazendo nos questionar esse modelo nitidamente exógeno.

Na região, o aumento da geração de energia elétrica está ligado ao Plano Nacional de Mineração 2030 que tem como objetivo aumentar a produção de produtos de base mineral em até cinco vezes os números da produção atual até o ano de 2030 (Ministério de Minas e Energia, 2011).

Por estar voltado para o mercado, baseando-se suas ações apenas nas tendências do próprio mercado, criando expectativa para financeiras, empreiteiras e bancos que criam pressão dentro do Estado para que as ações ocorram (ou não) e não pautado na necessidade social dessa geração e distribuição que o atual modelo de planejamento do setor elétrico recebe várias críticas como apontam MACHADO; SOUZA (2007).

Ainda assim, estudos como os de Borges e Zouan (2010) apontam que

a energia hidráulica é a mais eficiente forma de geração de energia no Pará.

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Esses dados levam em consideração o grau de desempenho das fontes de geração e suas dimensões econômica, social, ambiental e técnica. Entretanto, os autores acreditam que poderia haver um maior investimento em outras formas de geração, como em energia solar, eólica e biomassa, o que poderia amenizar os problemas ambientais.

Além dos problemas ambientais, todos os sistemas de objetos e de ações que são introduzidos juntamente com o empreendimento modificam drasticamente a formação espacial vigente, causando ali uma ruptura entre as formas pré-existentes e as novas formas que a instalação de um projeto como o da UHE de Belo Monte exige. Contudo, tais transformações não são novidades em uma região afetada por esse tipo de ruptura, desde os primórdios de sua ocupação. Vejamos um pouco como a região que hoje é impactada por esse projeto energético foi construída a partir desse processo de rupturas e reconfigurações.

2.4 Belo Monte e a reconfiguração do território, do poder e da política na região:

A ocupação da região que hoje se encontra sobre os impactos da UHE de Belo Monte insere-se no contexto de ocupação inicial de toda a Amazônia, começando a partir da colonização pelas missões jesuítas, inicialmente nas cidades de Porto de Moz e Altamira, posteriormente com o Plano de Integração Nacional PIN e a partir da Abertura da Rodovia Transamazônica (Rodovia BR-230). Todos esses momentos históricos foram responsáveis pela reconfiguração do território e das estruturas de poder na região. Passam pelas oligarquias da terra, que controlavam diretamente a circulação, produção e a política local até a chegada de novos agentes políticos externos vindos à região por meio das mãos do governo em suas várias instituições criadas a partir dos planos de integração regional (Umbuzeiro, 2012). Vale ressaltar que, todas essas reconfigurações na escala de poder na região sempre tiveram como finalidade a reprodução do capital, mesmo em diferentes formas dessa reprodução no tempo.

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Segundo dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará FAPESPA (2015) a região de integração do Xingu tem uma população de 356.099 habitantes que representa 4% do total da população do Pará. A região tem um PIB de 2,3 bilhões de reais, correspondendo a 3% da participação do PIB do Pará, 57.149 empregos formais que representa 5% do total de empregos oferecidos no Estado. É o maior produtor de banana (36%) e de cacau (81%), o terceiro em produção bovina (15%) e o quinto em atividade madeireira (8%).

Apesar dos dados econômicos interessantes relativos à região e a uma boa representatividade econômica no Estado do Pará, os dados sociais não são tão animadores. A região ocupa a quinta colocação na taxa de pobreza do estado, é o quinto no ranking de mortalidade infantil e de analfabetismo entre pessoas com mais de 15 anos de idade. A partir desses dados é possível saber o porquê de muitas pessoas confiarem em melhorias de vida na implantação de um empreendimento da magnitude de uma hidrelétrica.

Hoje, o principal responsável pelas novas transformações socioespacial da região é a construção da UHE de Belo Monte, obra iniciada em junho de 2011 na região conhecida como Volta Grande do Xingu, no município de Vitória do Xingu, porém seus efeitos são sentidos diretamente em toda a região.

A organização das formas de atuação das elites locais na região do Xingu transforma-se e adapta-se conforme o adensamento da atuação de agentes que operavam apenas em outras escalas, fazendo com que esses grupos venham a se adaptar às novas formas de exploração manifestas na região.

No inicio, a ocupação da região que hoje se localiza a UHE de Belo Monte estava ligada à exploração da borracha, porém se encontrava em local de difícil acesso. A principal forma de acesso à região, que era o uso dos rios, constituía-se em barreira, quase intransponível, dada a dificuldade de navegação do rio Xingu. Essas barreiras apresentavam-se em várias corredeiras e regiões com grande quantidade de pedras, fato que dificultava o

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tráfego de embarcações de grande calado, além de ser uma região onde se localizavam várias tribos indígenas avessas ao contato com outros povos e que por isso se mostravam agressivos aos navegantes. Diante dos fatos citados, era preciso encontrar outras formas de se ter acesso aos seringais.

Buscou-se então a criação de uma rota alternativa através da floresta que pudesse chegar aos seringais e que mesmo com a demora do transporte, pudesse tornar a exploração da borracha viável. Por meio de Raymundo Gayoso, grande proprietário de terras da região, começou-se a criação de uma estrada para facilitar tal acesso. Contudo, a circulação por essa estrada era permitida com a cobrança de pedágios, o que dava a Gayoso o controle efetivo da produção na região e o tornasse um dos homens mais ricos do Pará. As poses de Raymundo Gayoso foram por muitas vezes relatadas nas expedições cientificas frequentes à época no Rio Xingu:

Como nós nos alegramos quando avistamos um dos

primeiros grandes barcos! Eles levam mercadorias para as pequenas casas dos seringais ao longo do rio. Os barcos, construídos em Santarém no Tapajós, tem um valor de 200 mil

réis, aqui custam 300 mil réis

já escureceu, quando

] [

finalmente chegamos à propriedade, situada num lugar magnífico, do homem mais rico do Alto Xingu, o Coronel Raymundo Gayoso, proprietário de vastas terras.

(STEINEN,1888, pag.275)

Por muito tempo o domínio da região esteve ligado ao controle da circulação de mercadorias através dessa estrada particular, fluxos de entrada e saída estavam intimamente ligados a essa condição.

Conforme o passar dos anos, as crises enfrentadas pela elite da região sejam causadas pela libertação dos escravos, que criou um custo a mais para a produção da borracha, seja nas várias crises enfrentadas pela produção da borracha, essas terras mudaram de mãos. Inicialmente por Agrário Cavalcante, que assume as terras após a retirada de Gayoso da região. No entanto, sem obter o lucro esperado também deixa a região, mas repassa suas terras ao sobrinho, José Porphírio de Miranda Júnior. Porphírio além de assumir o controle dos seringais e da circulação da produção na região, estava diretamente ligado à política da Província ao aliar-se ao grupo político de

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Antônio Lemos. Lemos dividia o poder no Pará com o grupo político Lauro Sodré, o que o levou a ocupar vários cargos políticos e aumentar ainda mais o seu controle sobre a região a partir de importantes conexões com o comando da província.

Com a derrota dos Lemistas, a fim de quebrar o monopólio político e econômico de José Porphírio, o Estado cria uma estrada pública na região, possibilitando que o tráfego de mercadorias e pessoas fosse realizado sem os custos adicionais que a estrada privada lhes dava, o que estabeleceu novas forças na região. Esse fator, aliado à crise de 1929, levou José Porpírio a se retirar da região, agora ocupada por outros coronéis. Neste, que caracterizamos como um primeiro momento da ocupação da região percebe-se que o controle territorial e o poder local da região estavam diretamente ligados aos que detinham o controle econômico e articulação política com a escala regional. Grupos ligados diretamente aos Lemistas e Lauristas, controladores do Grão-Pará confrontavam-se pela importância estratégica da região rica em seringais, e esses por sua vez estavam conectados diretamente com grupos políticos nacionais imprimindo uma composição rígida de escalas políticas organizadas em verdadeiros encaixes. Enquanto isso, a população local dependia dos movimentos desses grupos e restava-lhe somente reproduzirem-se a partir da relação coronelista com os grupos hegemônicos em conflito. Após um período no qual o abandono dos seringais favoreceu a perda da concorrência para os seringais da Malásia, a região passou por muitos problemas. Contudo, com o inicio da Segunda Guerra Mundial e com o Acordo de Washington, no qual o Brasil se comprometia a fornecer anualmente a quantia de 45 mil toneladas de látex aos americanos, a importância econômica na região do Xingu foi retomada. Para realizar esse aumento na produção era necessária mão de obra que a região não contava. Diante disso, o Estado interveio e incentivou a migração de pessoas para as regiões de seringais, como era o caso do vale do Xingu.

Esse fato trouxe novas dinâmicas para região e novos elementos sociais para a formação do território. Além disso, o Estado Nacional tornava-se

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um agente ativo na produção social da região, ao incentivar a migração e incentivar a produção de grandes seringais através da criação de órgãos federais como o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia SEMTA e também o Banco de Crédito da Borracha. Isso tudo aliado ao fato de que com o golpe de 1930 a região passou a ser administrada não mais em eleições, mas por interventores indicados pelo Estado Nacional. Essa ruptura quebra de vez a estrutura de poder organizada, mencionada anteriormente, conduz a uma repactuação entre o Estado Nacional e as elites locais, que passam a ter como mediador na construção da região o Estado sobre a figura dos novos agentes por ele instituídos. No momento em que o Estado Nacional atua de maneira efetiva na região com planos, projetos e programas de desenvolvimento e equipa o território, ocorrem modificações na sua estrutura política. Todos os prefeitos nas cidades próximas ao rio Xingu pós-período de intendentes indicados, foram pessoas ligadas, não mais às elites tradicionais da região, mas às pessoas que migraram para as regiões ligadas diretamente a órgãos como SAGRI Secretaria de Agricultura, ou de órgãos como o DNER Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, a SUDAM, que detinham o controle sobre a distribuição de terras (UMBUZEIRO, 2012). Parte desses políticos tornaram-se grandes proprietários e estão na região até hoje, alguns ainda são referências políticas desde aquela época. Atualmente há na região uma nova reformulação no campo de forças, uma repactuação que ocorre a partir de uma nova organização orientada pelo projeto nacional que se materializa na UHE de Belo Monte. Novamente veem- se fatores externos ao lugar conduzi-lo a um reordenamento e novamente, as elites locais buscam um novo encaixe no que virá a ser o produto final do projeto.

Não se está aqui lamentando pela inércia desses grupos diante desses processos, muito menos se quer fazer uma ode à articulação do capital nacional e internacional frente a esses grupos, mas pretende-se chamar a atenção para o grau de articulação engendrado por eles na Amazônia. A articulação de vários agentes em múltiplas escalas diferentes de ação, política, econômica, social facilmente desfigurou grupos com menos poder de articulação. Assim, fica implícito que para manter-se o efetivo controle, ou

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assumi-lo, é preciso uma forte carga de articulação entre os mais variados agentes que permeiam um determinado campo e, no caso, em específico esse campo é o Estado.

O Estado permitiu reconfigurar a partir dos seus órgãos, escalas de

poder e também redimensionaram o antigo poder local. Para isso reconfiguram alguns agentes e dizimam outros, mas a submissão deles passa a estar diretamente ligada ao Estado e indiretamente ligada aos grupos hegemônicos que controlam esse Estado. O antigo poder continua aí, mas agora reposicionado. Age até mesmo com ferocidade ou até de forma mais intensa, porém suas ações, em hipótese alguma, podem interferir no planejamento maior do verdadeiro Poder. É um ilusório poder local praticado por esses grupos econômicos locais, pois até suas ações estão delimitadas por forças externas de um Poder maior, esse sim o verdadeiro poder local, sem limites e que se apropria efetivamente do controle territorial. O Poder seja ele local, ou aquele que não está necessariamente ligado a limites geográficos é uma construção social que exige articulação e ação em múltiplas escalas, não apenas geográficas, mas também deve estabelecer um novo reescalonamento das forças criadoras do espaço social. O novo reescalonamento não deve partir apenas de critérios econômicos, como impõem historicamente o capitalismo, mas da efetiva necessidade dos indivíduos em coletividade. Segundo nosso entendimento é o que essa situação conflituosa na região do Xingu tem a nos ensinar. Hoje a força motriz da reconfiguração territorial e de poder na região está vinculado à implantação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte UHE de Belo Monte e as politicas territoriais a ela vinculada. Contudo, é necessário esclarecer que a tentativa de barramento do rio Xingu não é uma pratica recente. Inúmeras tentativas foram realizadas desde a época da ditadura militar até a atualidade, onde se vê a obrar andar. Retomemos um pouco dessa história para buscar a compreensão do atual conflito que dá origem a formação socioespacial da região.

O atual projeto da UHE de Belo Monte é uma releitura do projeto da

época da ditadura militar e adotava o nome de Kararaô, cujo planejamento tem

origem em meados da década de 1970 ainda no período de ditadura militar.

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Atrelada à recém-criada Eletronorte e com a finalidade de criar a fronteira hidrelétrica da região, surge o inventário sobre as potencialidades hidrelétricas na bacia hidrográfica do rio Xingu.

Neste trabalho localizaram-se áreas de possíveis instalações de barragens. Estes estudos ficaram a cargo da empresa Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A CNEC, ligada à empresa Camargo Correia, que a época já era considerada uma das principais empreiteiras que trabalhavam para o Estado brasileiro, esses estudos chegaram a estas conclusões no ano de 1980 (SWITKES; SEVÁ FILHO, 2005).

Em 1980, a Eletronorte passa a elaborar estudos de viabilidade técnica

e econômica para a criação do futuro complexo hidrelétrico, batizado a época

com o nome de complexo hidrelétrico de Altamira. O complexo de Altamira foi constituído pelas usinas Babaquara e Kararaô, responsáveis pela inundação de

uma área de 20 mil km² e abrangeria 12 territórios indígenas. No ano de 1986, a partir do Plano Nacional de Energia 2010 PNE

2010 foi proposta a construção de 40 usinas hidrelétricas na Amazônia Legal e

o próprio PNE apontava o rio Xingu como o possível alvo do principal projeto

hidrelétrico do país. A usina Kararaô representava a melhor opção para interligar as possíveis novas usinas da Amazônia ao Sistema Integrado Brasileiro (CORREA, 2014). Os nomes que parecem em um primeiro momento uma homenagem às tribos locais, não eram apropriadas, pois kararaô é um grito de guerra em dialeto dos índios Kayapós, uma das tribos que teriam suas terras submersas

com o empreendimento. Mesmo assim, no ano de 1988 o relatório final do inventário foi aprovado pelo Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica DNAEE, órgão já extinto e que naquela época regulava o setor elétrico.

O tema acabou repercutindo nacional e internacionalmente, por meio da iniciativa dos movimentos sociais e povos indígenas e a Universidade. Esses movimentos enviaram aos Estados Unidos, a um Simpósio que acontecia no Estado da Flórida sobre manejo adequado de florestas tropicais, um grupo formado por pesquisadores e indígenas para relatar o caso e

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denunciarem a ação, que seria toda financiada pelo Banco Mundial sem consulta aos povos atingidos.

O empreendimento seria responsável por desalojar pelo menos 13

tribos indígenas e inundaria milhões de hectares de terra no coração da Amazônia, fato considerado uma incoerência diante do momento histórico por qual o mundo passava, uma revolução do pensar o meio ambiente por parte da sociedade no mundo todo. A ação veio a surtir efeito e aliada à falta de recursos próprios para realização do empreendimento, as obras foram suspensas (CORREA, 2014).

Após várias mobilizações, as quais posteriormente serão relatadas, no ano de 1994, período em que o Estado Brasileiro passava por reformas

políticas, o projeto foi remodelado para amenizar os possíveis conflitos internos

e também evitar uma repercussão internacional negativa. Essa atitude tornou o

projeto menos difícil do que o projeto anterior, no que concerne a problemas ambientais e sociais. Nesse período são apresentadas reformulações no

projeto no intuito de reduzir o reservatório da usina para 400 km², o que evitaria

a inundação da Área Indígena Paquiçamba. Já no ano de 1996, a Eletrobrás

solicitou junto a Agência Nacional de Energia Elétrica Aneel em parceria com a Eletronorte desenvolvessem um estudo de complemento à viabilidade do

aproveitamento hidrelétrico para a criação da UHE de Belo Monte.

É importante destacar que, nesse novo momento, o setor elétrico

enfrentava uma série de privatizações e reformulações, assentando-se numa matriz “gerencialista” o qual no discurso oficial se dizia necessário para

promover a eficiência e modernização do Estado e retomar o crescimento econômico aliado, pelo menos em discurso, ao respeito ao meio ambiente (CORREA, 2014).

A proposta de uma nova UHE volta a ganhar força com a pressão

exercida pelo capital internacional para que as chamadas commodities e os

recursos naturais da região se tornassem mais produtivos, o que exigia uma nova retomada da expansão da fronteira energética no país a fim de minimizar

o risco dos apagões tão comuns naquele período. Nesse novo contexto a UHE de Belo Monte ressurge. A chegada do Partido dos Trabalhadores PT ao poder conduziu a hidrelétrica de Belo Monte a uma nova posição dentro do novo projeto de

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nação proposto pelo novo governo. Agora ela se posiciona como sendo um megaprojeto de infraestrutura energética e estratégica para o crescimento econômico da Amazônia e do Brasil subsidiada pelo PAC, mesmo inicialmente não fazendo parte do plano de ação do governo que inclusive sugeriria que a obra passasse novamente por uma reavaliação (HURWITZ et al.; 2011). Em 2006, com a autorização do Congresso em mãos é formalizada pela Eletrobrás o pedido junto ao IBAMA do processo de licenciamento ambiental prévio e iniciando de imediato o Estudo de Impacto Ambiental EIA. Porém no mesmo ano, o licenciamento ambiental é suspenso a partir de uma liminar da justiça. O projeto foi adiado até o ano de 2007, quando a liminar é derrubada pelo governo federal que já retoma de imediato o projeto dando prosseguimento ao licenciamento ambiental. Neste mesmo ano entra em vigor o PAC I, contando com a Amazônia como seu principal trunfo e a UHE de Belo Monte como propulsores da agenda política de desenvolvimento do país (CORREA, 2014). No ano seguinte é autorizado no EIA da UHE de Belo Monte a participação das empreiteiras, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Odebrecht. Para dar prosseguimento ao EIA o IBAMA realizou algumas avaliações técnicas na área onde seria implantado o projeto e, posteriormente, a isso aprovou o processo de licenciamento conduzindo o projeto a uma nova fase: a fase das audiências públicas, realizadas em setembro de 2009, nas cidades de Altamira, Belém, Brasil Novo e Vitória do Xingu. Em 1º de fevereiro de 2010 o IBAMA aprova e concede a licença prévia do projeto e em 18 de março é publicada pelo MME a portaria que marca o leilão do empreendimento para 20 de abril daquele ano. O leilão foi vencido pela Norte Energia S.A NESA que, no ano posterior, consegue a licença provisória para a implantação do canteiro do projeto. No dia 1 de Junho de 2011 foi concedida a licença de instalação da obra para a sua implantação completa e alguns dias depois as obras tiveram início.

Diferentemente dos Grandes Projetos do período da Ditadura Militar, no qual os impactos não eram motivos de preocupação para o Estado, a partir da abertura política e da Constituição de 1988 esse panorama mudou e Estudos de Impacto Ambientais EIA e medidas compensatórias para as

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regiões que sofrem impactos de grandes empreendimentos. As regiões impactadas passam a receber compensação financeira destinada a amenizar os problemas sociais e ambientais originadas pelos Projetos. São medidas paliativas com grandes problemas, mas, naquele momento significaram um grande avanço no pensar o desenvolvimento econômico e social do país.

A obrigatoriedade dos Estudos de Impactos Ambientais em obras

significou uma revolução na legislação brasileira, tanto em relação ao meio

ambiente, como em relação aos impactos sociais que as obras traziam. Foi a partir da criação do Artigo Nº 225 da Constituição Federal de 1988 que o Estado passou a liberar a construção de grandes empreendimentos apenas com a realização prévia de estudos de impactos ambientais e sociais que o projeto acarretaria para o local e para a região.

Contudo, o controle político da região atrelado ao controle de grupos econômicos contribuiu para que as medidas mitigatórias referentes às obras da UHE de Belo Monte facilmente acabassem. As medidas favoreceram várias pessoas e foram usadas em benefício próprio, assim como, beneficiaram em outros momentos, órgãos como o INCRA, SUDAM e outros, a fim de manter o controle da região. Dessa forma, abrem-se espaços para uma nova repactuação entre o grande capital e as elites locais, consequentemente, a população em geral é conduzida às péssimas condições sociais.

A partir do controle econômico e político praticado na região, alguns

grupos apropriam-se das medidas mitigatórias, utilizando-se dos recursos destinados aos municípios da região em favor de sua imagem política. Essa prática parecia conferir aos grupos beneficiados melhorias estruturais no município, em verdade, tais benefícios faziam parte das medidas compensatórias da instalação do empreendimento. Os delitos iam de extorsão aos cofres públicos, com suas empresas e parceiros no que concerne às obras, ou a criação de eventos desconectados da realidade e à necessidade dos municípios. Isso aumentou ainda mais o rastro de problemas gerados pelo empreendimento.

Um dos casos que mais chamaram a atenção foi o da realização no município de Vitória do Xingu do evento intitulado I Congresso de Educação e

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Copa Zico 10. Nesse evento, a empresa CFZ foi contratada sem licitação para proceder a inauguração de um estádio municipal moderno, com capacidade para um público de aproximadamente cinco mil pessoas (quase 40% o número de habitantes do município). O empreendimento custou 6,5 milhões de reais aos cofres do município, enquanto isso o número de moradores nas chamadas invasões, cresce drasticamente no município. O Ministério Público Federal e também o estadual ainda analisam o caso.

Figura 2: I Congresso de Educação e Esporte Zico 10

Público Federal e também o estadual ainda analisam o caso. Figura 2 : I Congresso de

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Figura 3: Invasões em Vitória do Xingu

81 Figura 3: Invasões em Vitória do Xingu Assim tem-se então a apropriação e o uso

Assim tem-se então a apropriação e o uso do Estado para a produção de projetos capitalistas e ao mesmo tempo a garantia da reprodução das elites locais na região, mesmo que, agora elas não estejam sob o controle da produção capitalista na região, já que esta agora está vinculada ao Capital internacional e ao Estado Nacional, entretanto garantem sua reprodução através da apropriação privada de recursos públicos em fins políticos e econômicos, apropriando-se em beneficio próprio, para isso precisam garantir a continuidade da barragem e do projeto de expansão capitalista na região se tornando dependentes desse movimento.

Figura 4:

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Figura 4: 82 Esse processo se tornou comum na Amazônia, desde o Golpe Militar, em que

Esse processo se tornou comum na Amazônia, desde o Golpe Militar, em que o avanço do Estado sobre o território na Amazônia retirou a autonomia das elites locais, além de abandonar o controle territorial para os grupos vinculados diretamente ao Estado Nacional. O controle sobre as elites locais se deram a partir de políticas de incentivos fiscais que, utilizadas como um “cala boca”, selam o pacto e encaixam as escalas de exploração que estão postas na região. Esta prática se reproduziu em todos os chamados Grandes Projetos na Amazônia e hoje o fato se repete com a UHE de Belo Monte.

Assim, a busca se dá pela formação espacial regional sobre ordens do Estado, consubstanciada pela aliança entre o Capital Internacional, representada pelo capital cosmopolita das grandes empresas envolvidas diretamente na construção do empreendimento, e pelas elites locais em suas

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formas fundiária e oligárquica que buscam a apropriação privada do território e manter seus privilégios, fundindo em um mesmo projeto os interesses de agentes hegemônicos internos e externos.

2.5 O Estado no centro do debate:

Para que os recursos da Amazônia fossem incorporados a esse novo momento, foi necessário romper com a lógica produtiva oligárquica instalada na região, ou ao menos fazer com que ela se tornasse funcional ao projeto capitalista em andamento.

Para isso retirou-se a autonomia das elites locais a partir de uma maior atuação do Estado na Amazônia com ações como a federalização de terras e a instalação de aparelhos Federais na região responsável pelo controle e distribuição de terras naquela área. Assim, o Estado fez valer seu poder sobre o território ao domar os grupos hegemônicos locais que, para manterem seus privilégios tiveram que passar a se adequar às ordens do Estado. Este por sua vez não se oporia ao modo que esses grupos empregassem na gestão do território, desde que, o controle da produção e a forma de exploração estivessem alinhados com as necessidades do próprio Estado.

O controle sobre as elites locais se deu a partir de políticas de incentivos fiscais que serviram como um “cala boca”, para selar o pacto e encaixar as escalas de exploração que estão postas na região. Reproduziu-se assim o mesmo modus operandi em todos os chamados Grandes Projetos na Amazônia e hoje o fato se repete com a UHE de Belo Monte. É deste modo que o Estado se torna o principal agente da produção do espaço regional, sendo responsável pelas novas diretrizes que irão legitimar a nova configuração do território e também garantirão a reprodução social dos grupos hegemônicos regionais.

Na região do entorno onde está sendo instalado a UHE de Belo Monte, apesar de estar ligada a outro momento e outro projeto nacional, a estratégia para a reprodução do projeto é a mesma. Apenas apresenta uma nova roupagem na realização da apropriação privada das compensações que deve

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beneficiar toda a população e, dessa forma, garante a função dada à região no novo projeto de Brasil que emergiu no início do século XXI.

A atuação do Estado em diferentes contextos evidencia como este se tornou importante em suas manifestações como escala de produção, como campo político e como agente da produção.

Torna-se escala de produção, quando toma para si o monopólio da produção da região, uma vez que se encontra hoje a serviço do capital cosmopolita, como já citamos anteriormente, e segue suas instruções. Contudo, é o Estado quem legitima as ações, por isso a importância do seu controle por representar no mundo moderno o abrigo do processo exploratório da sua ação e legitima a produção como uma produção coletiva.

O campo político é demonstrado no momento em que o Estado constitui-se em aparelho responsável pela coerção sobre os sujeitos sociais, detém o legítimo controle sobre os sistemas de objetos e o sistema de ações e torna-se responsável pela legitimação de um falso consenso.

Como agente da produção, o Estado encontra-se diretamente ligado à materialização da produção dos sistemas de objetos e sistemas de informações, produz efetivamente o espaço regional e atua a partir de financiamentos e da ação direta de empresas estatais.

Busca-se evidenciar neste capítulo a forma de como o Estado se posiciona no centro da formação espacial da Amazônia. De modo geral e de uma maneira mais específica, como este influencia na atual formação da configuração territorial dos municípios no entorno do empreendimento da UHE de Belo Monte.

Mostram-se as ações desenvolvidas pelo Estado ao constituir-se em elemento chave na formação espacial nos diferentes momentos, ao reordenar o território a partir de políticas de desenvolvimento e integração nacional. Mostram-se soluções para conectar a região a partir de sua função geradora de recursos, de fornecer bases para a moderna produção capitalista, de buscar a organização da formação espacial regional sobre ordens do Estado.

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Compreende-se que as ordens do Estado eram consubstanciadas pela aliança entre o Capital Internacional, representada pelo capital cosmopolita das grandes empresas envolvidas diretamente na construção do empreendimento,

e pelas elites locais em suas formas fundiária e oligárquica, que buscam a

apropriação privada do território e a manutenção de seus privilégios, fundindo

em um mesmo projeto os interesses de agentes hegemônicos internos e externos.

O encontro entre o Capital Internacional e agentes hegemônicos locais, tendo o Estado como elemento central nessa união, mostra a habilidade de

articulação de escalas por parte do Capital para realizar as suas ações por todo

o território e possibilitar que, tanto a reprodução ampliada do capital se dê de maneira efetiva, como também garantir a reprodução de pequenos grupos hegemônicos locais.

O uso de estratégias escalares permite também aos agentes do Capital ocultar grupos sociais do debate político e da produção social do próprio lugar onde habitam, inviabilizando todo e qualquer projeto alternativo de desenvolvimento. Nesse sentido, as estratégias escalares do Capital se tornam essenciais para a materialização do projeto de reprodução capitalista na Amazônia.

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CAPÍTULO 3: LUTAS E RESISTÊNCIA NO XINGU: DA MOBILIZAÇÃO SOCIAL ÀS ESTRATÉGIAS ESCALARES:

A história da ocupação predatória da Amazônia não ultrapassa somente os limites da exploração das condições físicas e ambientais da região, mas também atropela as populações que ali vivem, principalmente recaindo sobre os povos que originalmente atrelam sua reprodução social a floresta. Contudo, trazem graves problemas para os centros urbanos, que não estão preparados para receber as pessoas que se deslocam para eles, seja um deslocamento espontâneo, como é o caso do grupo que busca tarefas disponibilizadas por essa ocupação, seja remanejados ou expulsos de suas terras.

Tal processo ocorre com frequência, e já se pode afirmar que há em sua essência a fraude da capacidade produtiva individual das pessoas e o estabelecimento do controle da reprodução social no território. Assim como, o processo imprime à região uma lógica racional capitalista. Tudo isso oculto sob as falsas promessas de modernização do território.

Diante dos vários projetos de modernização instalados na Amazônia, os quais levaram à degradação dos modos de vida na região, coube à população buscar formas de criar um movimento contra-hegemônico que lhes garantam a resistência ao processo ao qual estão submetidos.

Essa organização social a cada dia ganha novas formas, elementos e personagens para sofisticar suas estratégias de resistência que, apesar de ainda muito incipiente demonstra um grande potencial de enfrentamento que ainda precisa de aprimoramento é verdade, porém com possibilidades concretas de ação.

3.1 Origem e primeiras formas de mobilização. Atualmente, o enfrentamento na região do Xingu gira em torno dos processos induzidos pela UHE de Belo Monte, porém este não é o primeiro momento que desperta para a luta por justiça social. As mobilizações e a

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tomada de consciência dos problemas que atingiam a população na Amazônia tiveram início em 1972, com o Encontro dos Bispos da Amazônia Brasileira, na cidade de Santarém. Foi a partir daí, que a Igreja tomou novas diretrizes em suas ações para a região, inaugurando novos tempos, onde as lideranças religiosas faziam mais que ministrar missas. Passaram também a orientar e organizar os grupos de agricultores em suas comunidades para que esses pudessem compreender um pouco mais sobre o processo em curso na região. Surgem aí as Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s, que mudariam de vez a história desse povo.

As CEB’s estão na raiz de vários movimentos sociais espalhados pelo país e na Amazônia não poderia ser diferente. Elas contribuíram com a formação de inúmeras lideranças sociais e políticas na região. A partir das CEB’S pessoas ditas leigas passaram a se empoderar e assumir grande participação nas lutas sociais na região. Após muito tempo de exploração surgia uma luz para o povo, e nascia a partir das igrejas, o povo organizado, articulado e conscientizado. Em 1984 foi realizada a Assembleia do Povo de Deus do Xingu. Nesse contexto renova-se a fé na igreja, mas também se discutiam os caminhos pelos quais a região seguia, essa reunião é realizada até hoje e ocorre de cinco em cinco anos. O ultimo encontro aconteceu em 2014 com o tema “O Povo de Deus no Xingu em Defesa da Vida e da Justiça” e em carta aberta ao final do evento deixa bastante clara a posição da Igreja diante dos atuais acontecimentos e lutas na região:

Defesa da Vida:

Assumimos a defesa da Vida humana em todas as suas fases e faixas etárias. Sabemos também que Deus confiou a Amazônia aos nossos cuidados. Contra todo o tipo de devastação defendemos este lar maravilhoso que Deus criou para todos nós e as gerações futuras.

Apoiamos os povos indígenas na sua luta pela sobrevivência física e cultural. Assinamos neste momento o abaixo-assinado em favor da Área Indígena do povo Arara.

Renovação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs):

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À luz da Palavra de Deus, queremos reavivar as nossas Comunidades Eclesiais de Base, sinais concretos do Reino de Deus já presente em nosso meio. Reafirmamos nossa opção pelas CEBs, esse jeito da igreja ser, o canteiro das pastorais e ministérios, abertas a todas e todos, cultivando a unidade na diversidade.

Juventude:

Decidimos mais uma vez apoiar a juventude nas organizações e associações de nossa Igreja, promovendo o seu protagonismo como pediu o Papa Francisco no Rio de Janeiro: ”Jovens, por favor, não se ponham na cauda da história. Sejam protagonistas. Construam um mundo melhor, um mundo de irmãos e irmãs, um mundo de justiça, de amor, de paz, de fraternidade, de solidariedade“.

Família:

Destacamos outra vez a importância da família “para a vida do mundo, para o futuro da humanidade” (Papa Francisco). Acreditamos na “Igreja Doméstica”, convictos de

que toda a catequese e formação cristã devem iniciar-se na família. Insistimos muito

na

presença das famílias na comunidade que é a família das famílias.

E,

por fim, como participantes da VII Assembleia do Povo de Deus no Xingu,

repetimos e reafirmamos o convite do próprio Jesus a todos os irmãos e irmãs a remarem na canoa de Deus e se comprometerem, cada vez mais, na luta em defesa

da vida e pela justiça, sinais visíveis e concretos da presença do Reino de Deus em

nosso meio.

Um forte e fraterno abraço a cada uma e cada um de nossos irmãos e irmãs em todas

as

comunidades do Xingu.

VII

Assembleia do Povo de Deus

13 a 16 de novembro de 2014 Bethânia Prelazia do Xingu

No final da década de 80, a Prelazia do Xingu se tornou atuante junto à sociedade local, denunciava abusos contra crianças e adolescentes que aconteciam nas áreas de influência da rodovia Transamazônica. Estiveram ligados às lutas contra a corrupção vários órgãos municipais, estaduais e federais responsáveis pela distribuição e venda de terras, contra a grilagem de terra e contra a extração ilegal de madeira. Aliou-se também à luta dos povos indígenas pelo seu direito de ações pastorais a proteção ao meio ambiente. Por essa postura sempre atuante na defesa dos direitos humanos, da preservação do meio ambiente e muitas vezes ser quem está na frente das mobilizações a Prelazia do Xingu sofre constantemente com ameaças e perseguições. Hoje a Prelazia continua na luta a favor dos movimentos sociais, sendo um dos fortes articuladores na luta contra a Hidrelétrica de Belo Monte.

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Em 2005, Dorothy Stang, religiosa ativa nas lutas no Xingu, por sua atuação ao lado dos trabalhadores rurais na Transamazônica, foi assassinada na cidade de Anapu, cidade vizinha a Altamira. Irmã Dorothy fazia parte da Comissão Pastoral da Terra - CPT e foi importante articuladora para o surgimento da escola de formação de professores em Anapu, projeto desenvolvido para atender à baixa demanda de professores na região e educar aquela população. As condições precárias de reprodução da vida e de trabalho as quais as pessoas que vivem na Transamazônica foram envolvidas motivaram a mobilização e a luta dessas pessoas por seus direitos. Foi a partir dessa mobilização que se possibilitou a criação de uma unidade entre os múltiplos sujeitos que agora realmente se apresentam como um sujeito coletivo, construído pelo cotidiano e marcados pelas desigualdades e injustiças que os levaram a possibilidade de criarem agendas de lutas coletivas e constituir um verdadeiro campo de resistência. A partir do start dado através das CEB’s, os coletivos e organizações no Xingu tem se multiplicado nas ultimas décadas, e hoje são muito bem articuladas entre si. As organizações têm consciência de sua unidade regional, mas também compreendem a necessidade de uma inserção nas dimensões nacionais e internacionais em seus enfrentamentos, o que tem possibilitado a eles reivindicar soluções para os mais variados problemas. Muitas dessas ações foram assuntos relevantes de estudos sobre Movimentos Sociais na região como os de Souza (2006), Silva (2008), Correia (2014) entre outras. Neste contexto, eclodem vários grupos que se articulam em prol dos seus direitos e realizam ações práticas como a retomada dos sindicatos de trabalhadores rurais, que estavam sob o controle dos “patrões”, por parte dos agricultores. Dentre os sindicatos que foram conquistados estava o Sindicato dos Trabalhadores Rurais STR. Por essa conquista foi possível a mobilização dos trabalhadores rurais e constituição de uma unidade de luta na região como nos conta um de nossos entrevistados atuante à época:

Aqui na cidade, conquistamos o sindicato que estava com os patrões, os trabalhadores ganharam. No municípios de Brasil Novo, que fica aqui na região, havia se emancipado e criou o seu sindicato rural e ficou do nosso lado também. Vitória do Xingu, a mesma coisa, e isso se estendeu a outros municípios. Todo mundo falava a mesma língua e reivindicava juntos, ai a

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gente começou a pesar. Quando nós tínhamos que ir em Brasília, criávamos caravanas e íamos gente de todas as cidades. (A.M, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

A partir dessas conquistas torna-se possível aos trabalhadores mobilizarem e exigirem direitos e políticas públicas diante do Estado, uma vez que, a articulação dos movimentos tomou grandes proporções nessa ação de resgate dos sindicatos e, portanto, não era mais possível ignorá-las. Dentre os principais articuladores do povo na região no momento de formação dos Movimentos Sociais está a figura do Partido dos Trabalhadores PT. Sua importância nos foi relatada por muitas pessoas. O PT passou a atuar na região em uma fusão da vontade coletiva, expressa por diferentes grupos. Dentre as principais lutas do PT estava a reivindicação por políticas publicas eficientes, a defesa da agricultura familiar e a luta contra Belo Monte. Em 1991, foi organizado pelos Movimentos Sociais e outras organizações atuantes na região o evento chamado “A Luta pela Sobrevivência na Transamazônia”. Neste evento foram denunciados os vários problemas enfrentados pelo povo na Transamazônica. Procuraram-se ali formas de visibilizar lutas em âmbito estadual, nacional e até mesmo internacional assim como mostrar o estado de abandono que se encontravam. Também nesse evento, discutiram-se temas como segurança, educação, saúde, meio ambiente, infraestrutura, crédito agrícola e as mais variadas questões pelas quais a população nunca foi assistida, efetivamente, por nenhum governo, seja ele municipal, estadual e federal. Neste momento, surge o movimento que uniria grande parcela das coletividades na região, nasce assim, o “Movimento pela Sobrevivência da Transamazônia” e que posteriormente veio a se tornar a Fundação Viver, Produzir e Preservar FVPP.

Em documento escrito pela FVPP (2006) é contada a história de luta dos movimentos na região e divide a articulação dos grupos em dois momentos. O primeiro com a articulação das CEB’s, no qual, de acordo com o documento foi constituído o embrião das novas organizações e corresponderia ao período de 1972 a 1986. O segundo período se dava a partir do ano de

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1987, marcado por novas estratégias nos Movimentos Sociais, estratégias estas que buscavam dar visibilidade nacional aos problemas pelos quais passavam os moradores da Transamazônica. Destarte, segundo o FVPP (2006), surge uma parceria sólida entre os trabalhadores do campo e as populações tradicionais (ribeirinhos e indígenas) para tentar frear o avanço das frentes agropecuárias, mineral e madeireira que atingia ambos os grupos. Esse momento também é identificado na história dos Movimentos por Henchen (2012) que afirma ter ocorrido a partir do “I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu”, que ocorreu no ano de 1989. Ao analisar-se o modo como surgem e se reproduzem as mais lutas na região da Transamazônica, pode-se dizer que a reivindicação coletiva nasceu dos encontros entre os mais diversificados problemas enfrentados pelos diferentes agentes. De seus diálogos surgem as agendas comuns de enfrentamento que o grupo, conciso e homogêneo, dentro das suas heteroneidades, irá combater. Pode-se inferir então, que é de pontos de encontros entre as problemáticas que cada grupo enfrenta, e que só pôde ser descoberto no diálogo entre os membros, é que reside a unidade deste grupo. Esta unidade os une na exploração e só se tornam perceptíveis no diálogo e só podem ser enfrentados por um embate efetivamente comum a todos. Concordamos assim com Correa (2014) que afirma:

É possível dizer que esse caleidoscópio de movimentos, organizações sociais e entidades de base democrático-popular na região floresceu como resultante de alguns desses pontos de partida, entroncamentos e nós, tornando-se diverso e mais complexo, e, também, tenso e conflitivo internamente. Esse conjunto heterogêneo de movimentos sociais do campo em particular, constitui-se, nesse processo histórico-social, numa forte expressão de resistência e elevação de pensamento e ação, demarcando um território de contradições e conflitos como face dos grandes projetos desenvolvimentistas para região (CORREA, 2014, p. 365).

Tal unidade fez a região enfrentar fortemente alguns de seus problemas. É o caso da Hidrelétrica de Belo Monte que há anos vem sendo planejada sua criação, mas graças às estratégias desses grupos somente muitos anos depois começou a ser realizada. Vejamos como vem se dando historicamente esse embate entre a hidrelétrica e movimentos sociais.

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Em meados da década de 1970, ainda dentro do período de ditadura militar, a recém-criada Eletronorte, cria um inventário sobre as potencialidades hidrelétricas na bacia hidrográfica do rio Xingu. Neste trabalho foram identificados locais possíveis de se criar barramentos. Estes estudos ficaram a cargo da empresa Camargo Correia, que a época já era uma das principais empreiteiras a serviço do Estado brasileiro.

Ao tomarem ciência do projeto para a região e como este os atingiria,

diversos grupos indígenas e membros da sociedade civil se opuseram ao projeto, procurando formas denunciar os crimes contra os povos tradicionais e

contra o meio ambiente, caso a obra tivesse prosseguimento.

O apoio de ONG’s e pesquisadores em diversas Universidades

ampliaram o nível da denúncia. Esse tema foi debatido nos Estados Unidos, em eventos sobre impactos ambientais. O assunto começa a tomar grandes proporções, mundialmente, devido às sucessivas crises econômicas e a forma destrutiva de exploração da natureza, que começava a apresentar graves efeitos sociais. Após o período de denuncias internacional sobre os impactos ambientais, outras entidades passam a se mobilizar juntamente ao Movimento em defesa do Xingu. Foi o caso do Centro Ecumênico de Documentação e

Informação o qual mobilizou a opinião pública sobre o tema e ajudou na defesa jurídica contra a repressão do Estado aplicada aos membros do Movimento.

A repercussão da resistência no Xingu levou grupos organizados de

outras regiões do país, que também eram acometidos pelos mais diversos

efeitos do capital a se aproximarem, levando a experiência das lutas a ganhar força em nível nacional. A partir desse momento surgiu a ideia de se fazer um encontro sobre os atingidos pelo projeto da UHE de Belo Monte, indígenas, movimentos sociais, organizações civis, local, nacional e internacional convidaram representantes do Estado para participarem do evento e esclarecer quais os seus planos para o rio Xingu. Em 1989 foi realizado em Altamira o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu.

A articulação de tantas entidades levou o encontro a ganhar grandes

proporções. Segundo dados do Instituto Socioambiental foram mais de três mil pessoas envolvidas entre elas indígenas do país todo, deputados, prefeitos, ativistas de movimentos ambientalistas nacionais e internacionais, jornalistas

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do mundo todo. Neste encontro, o então presidente da Eletronorte, em seu discurso sobre a construção da usina de Kararaô, é interrompido pela índia Tuíra que, em advertência ao empreendimento, encosta o facão no rosto do palestrante. Esta cena rodou o mundo todo e chamou ainda mais a atenção das pessoas para o debate. O encontro foi encerrado com a criação da Campanha Nacional em Defesa dos Povos e da Floresta Amazônica que exigiu a revisão total do projeto hidrelétrico pensado para o rio Xingu e sugeriu a aplicação de verdadeiras formas de desenvolvimento para a região e para as pessoas que ali viviam. Até hoje o evento é considerado um marco na história das lutas ambientais no país, pois foi a partir dali que se passou a vislumbrar um poder que poderia realmente emanar do povo. Após as ações aqui relatadas o projeto hidrelétrico para o rio Xingu sucumbiu aos anseios da população local e da opinião pública e acabou passando por grandes alterações em sua composição para atender as demandas exigidas. Isso levou o projeto a se arrastar por toda a década de 1990 somente apresentando a capacidade de voltar à tona no inicio dos anos 2000, primeiramente dentro do Plano Plurianual 2000-2003 nomeado de Avança Brasil dentro do governo Fernando Henrique Cardoso. Nesse momento o país enfrentava grave crise energética que culminou em vários “apagões” em todo o país e posteriormente volta com força no governo de Luís Inácio Lula da Silva.

A elucidação de alguns fatores é importante durante o processo inicial

das lutas contra a UHE de Belo Monte. Entre esses fatores está a capacidade de mobilização em outras escalas e em vários campos que aparecem dentro do Movimento e lhes permitem exceder limites de locais de interpretação e da ação política contra o projeto.

A possibilidade de construção social que a sociedade civil organizada

até então, sem esperanças, descobre ter, a partir de articulações multiescalares dão visibilidade aos seus anseios e mostra para o mundo que a Amazônia, não é um “vazio demográfico”, ela representa uma variedade cultural rica e forma o mosaico social que é a região. Em relação a este tema,

os movimentos sociais foram de suma importância, uma vez que, a vida se mostra difícil hoje para essas pessoas que são, diariamente, maltratadas por

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agentes econômicos que atuam na região em prol de um progresso. Caso a sociedade menos assistida não contasse com essa organização, a Amazônia seria hoje um grande buraco, sem vida, sem riquezas e sem esperança.

3.2 Ações afirmativas do MXVPS. Os Movimentos Sociais envoltos às questões referentes à criação da UHE Belo Monte continuam a gerar ações afirmativas bastantes eficazes nas áreas de influência direta do empreendimento e, mesmo após passados tantos anos, a sociedade civil realiza o enfrentamento direto contra o Estado e o consórcio responsável pelas obras.

Como exemplo, algumas ações recentes foram organizadas localmente, como a luta contra o polêmico projeto de privatização da água no município. Por meio da criação do projeto de Lei nº132, a prefeitura de Altamira decidiu tirar o controle da gestão da água e do saneamento do município das mãos da Companhia de Saneamento do Pará COSANPA. A Prefeitura afirma que a COSANPA não prestaria os serviços necessários à população e, por esse motivo transferiu as obras de saneamento para o município, este por sua vez contratou uma empresa privada para a realização da empreitada.

Figura 5: Ato popular contra o projeto de privatização da água em Altamira

privada para a realização da empreitada. Figura 5: Ato popular contra o projeto de privatização da

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Ao tomar ciência da tentativa de privatização do serviço, projeto sem consulta popular, e de que não teriam garantias de melhoras no atendimento, a sociedade civil e os movimentos sociais organizaram manifestações contra o projeto de lei. Por diversas vezes a população tentou participar das sessões na Câmara Municipal buscando esclarecimentos sobre questão.

Entretanto, a maioria dos vereadores insistia em aprovar o projeto de maneira impositiva, o que fez as sessões a contar com a presença da Tropa de Choque da polícia para impedir a entrada da população na Câmara Municipal. Essas ações impediram a votação por muito tempo e somente conseguiu dar- se prosseguimento quando ficou estabelecido que seriam realizadas palestras e debates junto à sociedade sobre a lei e seus objetivos.

Além do ato contra a privatização da água, inúmeras outras ações são realizadas quase diariamente na região exigindo melhorias condições de saneamento, inclusive em áreas nas quais as pessoas já foram remanejadas pelo projeto. Esse tipo de denuncia é constante, há denuncias onde pessoas afirmam que as casas foram entregues sem a ligação de tratamento de esgoto.

Figura 6: Manifestação contra as condições de saneamento em Altamira.

contra as condições de saneamento em Altamira. Denúncias de crimes ambientais e desmatamento irregular

Denúncias de crimes ambientais e desmatamento irregular também estão sempre em pauta.

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A visualização aérea de Altamira mostra a dimensão da tragédia ambiental com muitas áreas desmatadas.

Figura 7: Inicio do desmatamento da Ilha Arapujá.

Figura 7: Inicio do desmatamento da Ilha Arapujá. A empresa responsável pelo empreendimento diz que há

A empresa responsável pelo empreendimento diz que há esforços para diminuírem os impactos ambientais na região e que toda a fauna está sendo remanejada, mas não é o que se percebe. Vários animais podem ser vistos em áreas urbanas quase que diariamente, entre os quais cobras, tamanduás e até jacarés.

Figura 8: Animais procuram abrigo em áreas urbanas

que diariamente, entre os quais cobras, tamanduás e até jacarés. Figura 8: Animais procuram abrigo em

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A ilha Arapujá, conhecida como ilha do Capacete é uma dessas ilhas que irão ser “afogadas” pelas obras da UHE Belo Monte. Arapujá se localiza em frente à cidade de Altamira e, no século XIX, foi um reduto de seringueiros que extraiam dali o látex das árvores. Dentro da ilha há um grande lago que serve como criadouro de Tucunaré e Curimatã, peixes fadados a desaparecer da região.

São comuns os relatos de pescadores sobre a escassez de algumas espécies de peixes nos rios da região. É o que nos afirma um pescador expropriado de suas terras:

A gente pescava muita coisa, mas hoje tem peixe que a gente pega muito pouco, isso quando pega! Ali perto de Senador José Porfírio até filhote (espécie de peixe) a gente pegava, hoje sumiu! Hoje tá muito difícil pescar no Xingu, o pessoal ta indo cada vez mais lá pra fora tentar pegar alguma coisa. Ainda tem que aqui por perto vira e mexe aparece um monte de peixe morto, principalmente perto das barragens, mas mesmo assim eles dizem que não é culpa deles. (A.C, Pescador remanejado da comunidade Santo Antônio, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

Figura 9: Peixes encontrados mortos nas proximidades da UHE de Belo Monte

encontrados mortos nas proximidades da UHE de Belo Monte Apesar de vários pesquisadores do Painel de

Apesar de vários pesquisadores do Painel de Especialistas, do Instituto Socioambiental e da UFPA indicarem que a ilha Arapujá será “afogada” e que

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as consequências disso poderão ser catastróficas para o meio ambiente, a Norte Energia afirma que apenas parte da ilha será submersa, porém confirmam que o lago dentro da ilha irá desaparecer.

Para dar visibilidade ao fato, o MXVPS realiza algumas manifestações contra o desmatamento desse importante cartão postal e belíssimo reservatório da fauna e flora da região, como forma de chamar a atenção para mais esse processo de degradação do meio ambiente no qual está inserido o projeto.

Figura 10: Manifestação contra o desmatamento na região.

Figura 10: Manifestação contra o desmatamento na região. Atualmente as ações dentro de áreas de influência

Atualmente as ações dentro de áreas de influência direta do empreendimento são essenciais à luta dos Movimentos Sociais contra a UHE Belo Monte, pois são essas ações que mostram que, mesmo com o andamento das obras, grande parte da população não está satisfeita com a forma na qual o projeto vem sendo posto a população local.

É esse movimento local que indica o start para que outras ações sejam criadas em outras escalas. Constitui-se em grande diferencial a nova forma de atuação dos Movimentos Sociais, a sua capacidade de romper as fronteiras das práticas locais no exercício da resistência e o enfrentamento aos

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projetos de desenvolvimento norteado pelo Estado e pelo grande capital no século XXI.

3.3 Organização e Modus Operandi do MXVPS. Atualmente os Movimentos Sociais adquiriram uma complexa forma de organização a qual modificam suas ações segundo a complexidade dos processos no qual que estão inseridos.

Neste contexto, algumas frentes de ações são identificadas como essenciais para a resistência na região pelo MXVPS e a partir delas se organizam as ações do Movimento em diversos campos. São elas: a frente científica, que respalda e legitima a fala dos Movimentos aos moldes técnicos e mostra a partir dele a insustentabilidade econômica, ambiental e social da UHE Belo Monte; a frente jurídica que expõem as ilegalidades e os descumprimentos legais da obra; a frente de comunicação que permite às denúncias chegar ao povo em uma linguagem mais formal sobre todos os impactos da obra e seus abusos que acontecem sobre a ordem do Estado e do capital envolvido na obra, além dos casos de corrupção que envolve o empreendimento; e a frente política que é responsável por organizar as bases, orientando, deliberando e mobilizando as ações contra o projeto.

Antes de prosseguirmos devemos esclarecer que identificamos o termo frente de ação utilizado pelo autor Correa em sua tese de doutorado de 2014. Porém foi um termo corriqueiro nas falas das lideranças do Movimento por nós entrevistados, nos deixando a dúvida se foi um termo cunhado pelo autor e assimilado pelo Movimento ou se o autor identificou como usual na organização do MXVPS.

Há uma grande articulação entre todas as frentes e essas por sua vez são organizadas pelo diálogo dentro da frente política, contudo, todas possuem um relativo grau de independência e os membros atuantes em cada uma dessas ramificações, possuem conexões com outras redes de mobilizações. Vejamos como se organiza e como funciona a ação dentro desses frentes:

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A frente jurídica tem como responsabilidade vigiar os elementos judiciais referentes à obra, fiscalizar os direitos que o Estado deve garantir e que em muitos momentos não o faz. Também é sua função impetrar ações civis públicas para garantir a defesa da população afetada. Além da vigilância realizada por advogados ligados ao Movimento, o Ministério Público Federal MPF se mostra um importante parceiro nas lutas no campo judicial no qual vêm sendo realizadas.

Outros parceiros importantes atuantes juntos ao MXVPS são a Sociedade Paraense de Direitos Humanos, ativos dentro do Estado do Pará principalmente em casos de crimes contra trabalhadores rurais. Nacionalmente o Movimento conta também com o apoio da ONG, Justiça Global, esta envolvida também com outros movimentos sociais por toda a América Latina, o que possibilita a realização de encontros entre as diferentes lutas nas quais estes estão envolvidos, permitindo assim um intercâmbio nas diferentes experiências de luta.

Sobre a organização escalar dentro do campo jurídico nos foi relatado por uma liderança do MXVPS que atua na referida frente:

Nós conseguimos juntar muita gente nessa frente e foi muito bacana que a cada vez a frente foi expandindo, cada outro membro que se juntava trazia suas outras conexões e aí a organização e aí fomos crescendo a nossa atuação. Por exemplo, nós temos contato com várias entidades de advogados, tem a Justiça Global, a SDDH, a AINDA que é uma instituição estadunidense que também luta por justiça ambiental e sempre nos ajuda e insere no debate a Amazônia

lá nos Estados Unidos; temos também a ISA que é o nosso grande parceiro no país. Temos hoje muita parceria nos auxiliando juridicamente, temos hoje a certeza que essas parcerias são importantes, que temos que trabalhar em nível nacional e também internacional com ações judiciais até na

OEA, na ONU, na corte interamericana

não posso esquecer

também de destacar o trabalho que o MPF faz com a gente, eles tem sido um grande parceiro nessa luta que enfrentamos.

(A.M, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

A partir da fala dessa liderança pode-se perceber que o Movimento começa a entender a importância de firmar parcerias com agentes envolvidos em outras lutas sociais e com ação em outras escalas. Com isso, o MXVPS

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mostra a importância de enfrentamento para além da área de influência direta da barragem, demonstra uma preocupação não apenas com a escala local do evento, mas também o modo como este empreendimento se insere nas escalas nacional e internacional.

A respeito da frente de comunicação conversamos com um membro do Comitê Metropolitano Xingu Vivo CMXV que nos informou sobre a função da comunicação na estratégia dos embates do Movimento. De acordo com esse integrante, é a partir dessa frente que o Movimento divulga os acontecimentos na região consequentes da obra e que em sua grande maioria sequer ultrapassam os limites do município de Altamira. Se depender da imprensa dos maiores meios de comunicação, segundo a entrevistada, levar essas informações ao povo somente é possível com a contribuição de outros meios como a internet, por meios como o site criado pelo MXVPS, o www.xinguvivo.org, além de contar com o apoio de jornalistas em sua maioria independentes, entretanto nos é ressaltado as dificuldades e os riscos do trabalho desses profissionais.

Aqui na frente de comunicação é onde a gente consegue divulgar as ações e os atos que a gente organiza e também as denunciamos que fazemos já que a grande mídia não divulga, apesar de que em Altamira contamos com a presença das quatro grandes emissoras do país, nós criamos o nosso site para fazermos as nossas denúncias. Além disso, contamos com muitos colaboradores jornalistas que sempre estão em nosso apoio ajudando na divulgação. Temos colaboradores em Belém, mas também temos em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Recife e muitas cidades, pessoas que estão

envolvidas com jornais de boa circulação e blogs é por essas vias que conseguimos chamar a atenção para o que

acontece

daí se espalha pelas redes sociais, Twitter,

Facebook

e garantimos uma boa visibilidade. Mas o trabalho

não é tão simples, inclusive um jornalista que trabalhava e morava aqui em Altamira teve que se afastar da cidade porque as denúncias que ele fazia estava incomodando algumas pessoas e ele recebeu várias ameaças por causa disso. (D.M, Liderança do CMXVPS, Belém, entrevista em outubro de

2015).

A mídia é um importante campo para se construir uma legitimação social, ambiental, econômica e política, recurso que por muito tempo se constituiu num monopólio do grande capital e hoje continua a ser utilizado para

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legitimar o projeto de desenvolvimento orientado pelo empreendimento da UHE de Belo Monte. Contudo os Movimentos Sociais, a partir das chamadas “mídias alternativas” vem conseguindo ocupar espaços dentro do campo da mídia e tencionar o debate sobre a hidrelétrica trazendo outras visões sobre ela.

O atual momento das tecnologias da informação merece destaque aqui, pois é a partir delas que o monopólio midiático das informações é gradativamente superado. Em reportagem da revista EXAME em 2014, já se mostrava que 47% dos brasileiros tínhamos como principal fonte de informação a internet, isso mostra hoje a abrangência na qual os blogs e sites têm atualmente e como estes contribuem para a formação da opinião pública sobre diversos assuntos.

Esse momento de reconfiguração está sendo muito bem aproveitado por organizações e Movimentos Sociais que potencializam o enfrentamento nessa arena mostrando o que a grande mídia não mostra, expressam visões e posições dos fatos que em muitos momentos eram ocultados, mostram agora outros olhares sobre as manifestações protagonizadas pela Sociedade Civil Organizada.

O site criado pelo MXVPS é uma importante ferramenta de divulgação das ações do Movimento, lá é possível encontrar vários trabalhos acadêmicos, pesquisas, artigos documentos oficiais, fotos, vídeos e reportagens sobre Belo Monte e também sobre outros projetos que estão acontecendo na Amazônia.

A luz disso, vários documentos são produzidos pelos Movimentos Sociais para denunciar os abusos da UHE Belo Monte. O mais conhecido deles, “Belo Monte, anúncio de uma guerra” procura mostrar os grandes limites e as incógnitas que o projeto não consegue explicar para a população sobre seus verdadeiros efeitos.

Um grande apoio que essa frente de ação recebeu veio de James Cameron, cineasta americano que havia gravado o filme “Avatar”, com uma temática ambiental muito forte. O cineasta foi até Altamira conhecer os efeitos da barragem na região. O diretor participou também de mobilizações contra a UHE Belo Monte enquanto esteve no Brasil, foi até Brasília acompanhar os

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manifestantes dias antes de ocorrer o leilão da usina e levou até o Congresso americano os riscos ambientais para o mundo que representaria a liberação desse empreendimento.

O ator e ex-governador do Estado da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, que participava de um evento sobre sustentabilidade no Pará também foi à região do Xingu ouvir a posição dos indígenas sobre a barragem. Toda essa mobilização contribuiu para chamar a atenção e dar maior visibilidade internacional ao tema.

O trabalho do Movimento relacionado à frente de comunicação não eleva o campo da mídia a um monopólio dos Movimentos Sociais, e isso serve para as outras frentes também. O que ocorre é uma reconfiguração do campo com novos elementos que antes eram ocultados pelo capital.

Essa ação dos Movimentos geram movimentos de reação por parte das forças produtivas que estimulam o desenvolvimento capitalista na região e inúmeros blogs e sites surgem também em prol da defesa do projeto, falando sobre a sua importância para o país e as vantagens de se ter um projeto como este na região.

Dessa maneira, o campo da comunicação (ou mídia) se torna uma arena de embates sobre diferentes posicionamentos mostrando como esse campo também se caracteriza pela relação de poder que ela é envolvida para se constituir uma legitimação social, seja organizada pelas forças hegemônicas do capital, seja pelos Movimentos Sociais, seja pela relação conflitante e contraditória entre eles.

A atuação da frente científica nasce em um contraponto a matriz discursiva hegemônica existente nas ciências. A atuação nessa frente visa gerar a contradição dentro do referido campo a partir da atuação de várias Instituições no Brasil e no mundo que se uniram para criar um pensamento crítico ao projeto contestando a legitimidade e também a viabilidade do projeto de modernidade proposto pelo empreendimento.

Sobre a organização e a ação relacionadas com essa frente um membro do MXVPS nos diz que:

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Na nossa frente de atuação contamos com muitos pesquisadores e professores de vários lugares e instituições, tanto de universidades aqui do Pará, muita gente na UFPA aqui em Altamira mesmo nos procuram, além de instituições de fora do estado e até mesmo do país. Não sei se a gente em outro momento teve tão próximo dessas pessoas como estamos hoje, mas certamente não é a primeira vez que isso acontece, talvez não fosse com a intensidade de hoje. Todo dia vem gente do mundo todo aqui no nosso escritório, gente que nem fala português as vezes (risos). Mas sem dúvidas nenhuma o Painel de Especialistas é quem mais tem contribuído nesse sentido de uma informação mais técnica e científica de tudo que acontece aqui e do que poderá vim a acontecer caso Belo Monte comece a funcionar. (M.B, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

O caso da UHE Belo Monte realmente não é a primeira vez que a reunião de importantes pesquisadores contesta esse tipo de empreendimento. Outras hidrelétricas como Jirau e Santo Antônio também desenvolvem esse tipo de trabalho, porém a intensidade e o grau de organização em relação a Belo Monte chama a atenção por se tratar de uma rede bastante ampla em uma reunião de mais de 40 pesquisadores de todo o Brasil e de vários outros países, distribuídos em várias áreas como economia, biologia, antropologia, e muitos outros ramos de conhecimento. A união dessas pessoas possibilitou a criação de um rico e crítico estudo de impacto ambiental sobre o empreendimento.

Foi a partir de estudos elaborados por esse grupo que se mostrara as contradições no projeto mesmo quando estes apontavam “melhorias sociais” como, por exemplo, quando o tamanho do reservatório diminuiu de 1200 km² para 516 km². Em um primeiro momento esse fenômeno foi visto como um avanço, porém em estudos posteriores essa ação foi revelada por Berman (2012a) e Sevá Filho (2009) como uma forma encontrada pelo consórcio para poder desconsiderar duas áreas indígenas como atingidas, e evitar assim, que qualquer problema social e ambiental que ocorresse naquela área não fosse de responsabilidade do empreendimento.

Com essa estratégia o Estado poderia “fugir” do artigo 231 da Constituição Federal que impede a remoção das populações indígenas sem consulta prévia e sem a exigência de aprovação do Congresso Nacional (Sevá

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Filho, 2009), além de permitir a exploração em área indígena de ouro no que será a maior mina de ouro a céu aberto do país, produção maior inclusive do que a de Serra Pelada, e que será explorado pela empresa canadense Belo Sun.

As denuncias da frente científica contribuíram para o movimento se organizar e acompanhar melhor os impactos do projeto, mesmo em casos como os citados anteriormente que pareciam vitoriosos, mas na realidade não eram. Isso serviu para mostrar que a vigilância deve ser constante. Não se pode esquecer que é nesse contato direto com os Movimentos Sociais e com as pessoas que sofrem a violência do empreendimento que os pesquisadores também puderam ampliar a perspectiva da ciência sobre o fato estudado. Tal compreensão permitiu com que várias pesquisas promissoras saíssem desse lugar de encontro e se transformassem em artigos, monografias, dissertações e teses.

Além dessas três frentes já citadas o movimento conta também com a frente política. Esse campo está diretamente ligado às frentes jurídica, científica e comunicação sendo municiada por elas, mas também sendo a partir delas que se apontam as questões que precisam ser resolvidas. Em entrevista sobre a relação entre as frentes de atuação um membro do MXVPS nos explica:

A frente política talvez seja a mais complicada de tentar te explicar. Ela recebe as informações que o Painel de Especialistas desenvolve e das informações que a frente jurídica traz, daí a gente repassa para a frente de comunicação que torna pública as informações e as denuncias para a sociedade de uma forma mais formal. Daí a frente política faz o trabalho de base, mobiliza a população, cobram os governantes, as empresas, articulam as ações em outras cidades, porque dependendo do que nos é repassado a gente tem que mobilizar ações em outras cidades como já fizemos em Brasília, São Paulo e até em outros países. (A.M, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

Na elaboração das ações dentro da frente política há dois elementos na organização do Movimento que precisam ser mencionados para podermos entender o modus operandi do MXVPS, a coordenação e o colegiado

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(conselho), elementos que nos ajudam a compreender a estrutura democrática do Movimento.

Hoje existe uma coordenadora no movimento, entretanto as decisões ali são deliberadas entre os Movimentos Sociais e ONG’s que fazem parte do colegiado. Essas organizações participantes do colegiado se reúnem para deliberar sobre as futuras ações a serem tomadas de duas formas, presencialmente ou por vídeo conferência. Atualmente o colegiado é formado por membros do Comitê Xingu Vivo, Amazon Watch, SDDH e pela FAOR.

Pela atual formação do colegiado é possível ter a dimensão que o Movimento alcançou atualmente uma vez que cada um dos membros citados é também um “nó” de sua própria rede, onde cada um representa outras inúmeras entidades como nos é relatado em entrevista por membros do MXVPS:

Quando fazemos as nossas reuniões aqui geralmente nos reunimos entre 20 e 30 pessoas, representantes das organizações que formam o colegiado, mas geralmente também contamos com parceiros nessas reuniões. Temos muitos! Na capital (Belém) temos por volta de 40 entidades parceiras, sem contar o apoio que cada membro do colegiado tem que sempre que a gente precisa estão aí pra nos ajudar. A FAOR por exemplo, conta com mais de 250 instituições. Hoje essas ramificações que são ativas também na nossa luta fazem com que a gente tenha uma abrangência muito grande. (A.M, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

A fala do membro do Movimento nos mostra a atual dimensão escalar que a mobilização vem alcançando a partir da conexão com várias redes de Movimentos articulados. Mostra também como o MXVPS consegue mobilizar uma vasta heterogeneidade de grupos dentro de si, além de uma complexa rede de parceiros por toda a sociedade civil o que garante a ele uma maior legitimidade em suas ações contra a UHE Belo Monte seja na região do Xingu ou em outras partes do mundo envolvidas no processo de criação da barragem.

Toda organização do MXVPS mostrada até aqui nos remete ao modo pelo qual o Movimento encontrou para participar do processo de criação da

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hidrelétrica na região, mesmo que seja de uma forma indireta ao que propõem o Estado. Mais do que serem notados como participante do processo é a partir da estratégia de mobilização escalar que o MXVPS se torna um agente dentro do processo. Dessa forma, rearticula os principais campos acionados pelo empreendimento e transforma estes em campos em disputa, mesmo com todas as dificuldades impostas para que isso aconteça.

O campo científico que organiza de forma a legitimar as contradições sobre a égide da “verdade”, além do enfrentamento direto em oposição ao projeto de modernidade proposto pelo Estado enfrenta também, segundo membros do MXVPS, o descrédito criado pelas forças acionadas pelo capital que tentam invalidar o discurso dos especialistas. Muitas vezes deixam de lado inclusive as questões científicas e usam o discurso de que os cientistas estão fazendo não é um trabalho científico e isento, como a ciência deve fazer (ou pelo menos como o discurso diz que ela faz), mas que esses estão fazendo um discurso “ativista”, poluído de ideologia e sem validade.

Os pesquisadores vieram aqui, conversaram com os indígenas, com os movimentos sociais, com a população em geral, ixe! Fizeram muita coisa sabe?! Estudaram o EIA Rima do projeto, apontaram várias irregularidades seguindo os padrões e normas científicas e também as leis, mostraram a contradição das empresas que autorizaram o início da obra serem as mesmas que estavam interessadas em realiza-la. Foi a partir de todas essas informações que os pesquisadores criaram o Painel de Especialistas e identificaram centenas de irregularidades e apresentaram todas esses problemas em um documento oficial protocolado no MPF e entregue aos órgãos competentes, mas não nos deram muito ouvidos porque até hoje não obtivemos nenhuma resposta, mas é aquilo né?! Quando os pesquisadores se desgrudam um pouco de fazer a pesquisa que só interessa ao Estado e as grandes empresas eles logo dizem que o que estão fazendo não é ciência, que é militância de esquerda. Que é ideologia. Como se o trabalho de quem fica do lado das empresas também não fosse um tipo de ideologia. (M.B, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

Ainda sobre a atuação dos cientistas junto ao Movimento Social um dos membros que atuam na frente científica ressalta um grande cuidado que no geral os Movimentos precisam ter na relação com a ciência.

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a nossa relação com a academia e com os

pesquisadores de modo em geral sempre foi muito boa e todo o trabalho deles foi muito importante pra gente. Mas quando a gente tá enfrentando esses grupos que nós enfrentamos eles buscam de qualquer forma desqualificar os pesquisadores. Eles logo dizem: “ Ah! Eles falam essas coisas porque é militante” e acaba que desqualifica o trabalho. A gente aqui acha muito importante o trabalho do pesquisador, muito mesmo! Mas esse é um cuidado que a gente tem que ter pra não perder força, porque eles sempre desqualificam e fazem de tudo pra refutar a validade do papel da ciência que dialoga com os movimentos sociais e enfraquecer a nossa luta. (M.B, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

Olha

Ao assumir uma postura crítica, uma posição diferente do que a ciência usualmente produz, investigando, divulgando e produzindo outro olhar sobre projetos de desenvolvimento pautado no diálogo com os povos tradicionais e os Movimentos Sociais, os cientistas estão reconfigurando o campo científico, colocando novos elementos na sua composição, dando assim visibilidade a temas que são centrais a essas populações, mas que, no entanto estavam à margem dessa arena.

Todo o esforço dos Movimentos, aliado à contribuição valorosa dos cientistas possibilitam à sociedade tomar conhecimento sobre os acontecimentos e a atuação do Estado no planejamento e na realização desse empreendimento. O esforço de identificar as contradições da UHE Belo Monte originou vários debates públicos sobre o processo que vem acontecendo. Entretanto, segundo membros do MXVPS há por parte do Estado uma tentativa de esvaziar o debate, contribuindo para a desfiguração da esfera pública e a democracia na sociedade brasileira crescente nos últimos anos (MAGALHÃES; HERNÁNDEZ, 2011).

A atuação da ação conjunta entre os pesquisadores e os Movimentos Sociais faz com que esse campo deixe de ser, assim como os outros um monopólio dos interesses de empresários e do Estado, conduzindo à expansão do campo e permite que seja recriado em termos conflitantes em disputa.

Em nosso entendimento, a frente científica é responsável, por ser o elo entre a linguagem científica e a fala dos povos tradicionais que, embora sejam

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ricas em conhecimento são concebidas como um conhecimento menos valoroso, por não terem validação científica.

Desse modo, caberia à frente científica a função de fazer com que o conhecimento desses povos seja reconhecido como de cunho científico. Ela também é responsável por dar “retoques” ao discurso elaborado pelos povos tradicionais para que suas perspectivas de mundo usem a linguagem e os signos que a ciência exige. São movimentos contraditórios, porém complementares e assim de extrema importância para a reconfiguração do campo em disputa.

Na frente de comunicação do MXVPS nos são apresentados dados sobre a forma de organização e da tomada de decisões dentro do Movimento. Indicam-nos a complexidade de formas de pessoas que estão envolvidas e que

a unidade da luta vem se constituindo contra o modelo de desenvolvimento que

é imposto para a população.

Aqui no MXVPS temos a nossa forma de se organizar, o nosso jeito próprio, mas temos muitas ramificações que se organizam de maneira própria também. Essa liberdade faz com que a luta ganhasse ainda mais complexidade, fez com que muitos grupos passassem a existir como o Comitê Metropolitano Xingu Vivo que funciona em Belém, mas também temos em São Paulo e em outras partes do mundo, cada um com a sua forma de atuação. (A.M, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

A atuação de vários partidos políticos e suas diferentes e contraditórias formações político-ideológicos são postas como um desafio na busca de um consenso dentro do MXVPS. Entretanto, teria sido a relação entre essas diferentes perspectivas que possibilitou ao Movimento encontrar qual o eixo de luta une todos esses grupos.

O Comitê aqui em Belém é autônomo e tem características parecidas com o MXVPS lá em Altamira. É muito diversificado, sabe?! Tem muita gente de vários lugares. Aqui a gente tem participação de vários partidos políticos que se inseriram, muitos deles quebram o pau mesmo (risos)! Então só por aí você já percebe os conflitos internos que a gente tem. São várias as perspectivas que cada um desses grupos trazem pra gente. Isso enriquece o nosso debate, mas por outro lado torna as decisões um pouco mais complicadas de serem tomadas.

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As diferenças que todos esses partidos trouxeram para dentro do Movimento fez a gente perceber uma coisa interessante, que a nossa união, dentro de todas as nossas divergências não se dá propriamente em torno exclusivamente do projeto da Hidrelétrica, mas da imposição que nos é dado pelo Capital de aceitar essa concepção de mundo, nesse modelo de desenvolvimento que somos expostos, é contra isso que a gente luta, sabe? Entende? E é isso que nos dá unidade. (D.M, CXVPS, Belém, Entrevista em outubro de 2015).

Esse relato explicita como o Movimento atua para poder conciliar as várias lutas que surgem dentro do projeto e como eles buscam solucionar um fato que pode se tornar um grave problema e levar à fragmentação da luta. Quando se demarca a luta contra a imposição da forma de desenvolvimento se delimita a ação do grupo a fim de buscar sempre um consenso para melhor gestão dos conflitos internos e para a construção de uma agenda comum.

A frente de comunicação é responsável por passar todas as informações sobre a UHE Belo Monte para o Brasil e o Mundo, além de mobilizar ações, seminários, passeatas e protestos. Conta com a internet para fazer circular tais informações, via redes sociais que a cada dia alarga sua abrangência. Para viabilizar tudo isso, hoje o movimento conta com a ação do chamado “ativismo virtual”, o qual hoje é uma forma muito eficaz para divulgar causas, reivindicações e organizar e mobilizar protestos (MORAES, 2001).

A ação do Movimento via internet e outras formas de informação são medidas para a mobilização e organização, mas que precisam mostrar força nas ruas e reverberar verdadeiramente pela sociedade, transcendendo o plano das virtualidades. São mobilizações que necessitam tomar sentidos práticos, sob a forma de passeatas ou protestos e isso é reconhecido pelo Movimento, quando nos relatam a ação do chamado “dia internacional contra Belo Monte”:

Esse ativismo virtual tem sido bastante útil pra gente porque eles conseguem chamar as pessoas para as ações. Eles usam as redes sociais, todas as possíveis! Mandam e-mail e convocam as pessoas para ir para os lugares marcados e elas realmente vão. Olha só, a gente já fez ação em quase todas as capitais do país. Às vezes a gente marca umas coisas coordenadas e acontecem. Uma vez fizemos o “dia mundial de ação contra Belo Monte” e a gente recebeu apoio em muitos lugares pelo mundo! Foi uma coisa que nos impressionou e deixou feliz em saber que temos tanta gente assim do nosso

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lado. (A.M, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

A mobilização encontra muitas dificuldades uma vez que as grandes mídias poucas vezes dão ouvidos para a opinião e manifestação desses grupos, geralmente para conseguirem atenção os movimentos buscam medidas extremas como nos foi relatado.

A gente usa as redes sociais, os blogs e outras fontes

alternativas porque a mídia que nós temos no país de rádio, televisão, jornal, revistas, sempre que pautam uma reportagem sobre Belo Monte sempre procuram a empresa responsável pela obra. Aí você já viu né?! Tudo é lindo e tudo eles querem resolver e não é bem assim na verdade. Então quando queremos chamar a atenção desses grupos a gente faz alguma ação do tipo, ocupa a sede da ELETRONORTE, o canteiro das

obras e aí eles aparecem pra falar com a gente. Só quando radicalizamos. Poucas vezes, eu particularmente lembro de uma ou duas vezes, que eles procuram a gente pra ouvir o que temos a dizer sem a gente precisar usar dessas medidas drásticas. Quando fazemos essas ações a imprensa chega a gente sempre diz que não podemos falar o porquê da ação e

quem pode dar essas informações é o pessoal de Altamira,

eles ligam pro MXVPS de lá e aí a gente é escutado nas

nossas reivindicações. (D.M, CXVPS, Belém, Entrevista em

outubro de 2015).

Outra ação organizada por essa frente foi contra os bancos que financiam a UHE Belo Monte com a campanha “Belo Monte, com meu dinheiro não!”. Realizada através da internet foram levadas várias assinaturas de pessoas contra o uso do dinheiro de instituições financeiras nas obras devido os impactos sociais e ambientais que ela causa. A campanha visou a mostrar para as instituições financeiras como a imagem dos Bancos pode ficar manchada ao participar de empreendimentos sem responsabilidade social principalmente, em se tratando de uma área como a Amazônia e, como isso poderia representar negativamente para as ações das entidades financeiras e em seu valor na bolsa de valores.

Essa estratégia de dialogar com as instituições financeiras tem surtido efeito em empreendimentos pela Amazônia como no caso das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio no estado de Rondônia, quando o Banco

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Santander, um dos maiores bancos do mundo que financiava os empreendimentos no Rio Madeira desistiu de ter participação na obra. O banco alegou preocupação com os possíveis impactos e afirmou que só voltaria ao negócio caso novos estudos de impactos sociais e ambientais fossem realizados pelas autoridades brasileiras. Entretanto, o caso da UHE Belo Monte, apesar das manifestações, não tiveram os mesmo efeitos, uma vez que o Banco que financia as obras é o BNDES, banco estatal que responde antes às ordens políticas do planejamento neodesenvolvimentista do Estado Brasileiro.

A frente de comunicação apresenta inúmeras formas de ação praticada pelo Movimento, utilizam das modernas formas de divulgação como a internet para dar mais visibilidade à luta contra a UHE Belo Monte. Contudo, o Movimento deixa claro em seu discurso que entende esse como meio e não fins para suas ações, que estes são meios estratégicos muito importantes para poder inserir a sua perspectiva sobre o tema e contrapor esta contra a perspectiva hegemônica amplamente difundida.

A união entre o ativismo virtual e o ativismo de rua tem sido muito

relevante para recompor e alargar a esfera da informação, desvelando este terreno como um campo de poder, de conflito entre grupos sociais distintos. Assim, essa frente produz, reelabora e divulga discursos sob o ponto de vista dos atingidos, contrapondo não apenas visões diferentes sobre o empreendimento, mas confrontando perspectivas de desenvolvimento diferentes.

O campo jurídico, ao ser comparado às redes criadas a partir das

outras frentes, provavelmente, é o menos ramificado. Mas, se sua rede é menos complexa, não se pode dizer que a atuação dos agentes nessa frente é menos atuante do que as outras. Hoje, o Ministério Publico Federal MPF e o SDD, contribuem bastante para a luta e alcançam várias vitórias para o Movimento com a judicialização da luta.

Sobre essa “batalha judicial” travada em torno da UHE Belo Monte, um membro da SDDH nos relata como se deu o seu inicio.

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Quando o Estado colocou a construção da UHE Belo Monte como uma das mais importantes obras do PAC foi o momento que eles colocam a obra para funcionar a qualquer custo. Para que a Obra fosse iniciada precisava passar pelo Congresso porque ela fica em área indígena, foi nesse momento que o MPF entrou em cena, em um primeiro momento interessado apenas que fossem cumpridas as leis e seguidas e respeitadas as regularidades. (F.P, SDDH, Belém, Entrevista em outubro de 2015).

Toda a batalha judicial travada reflete as contradições do projeto de desenvolvimento nacional imposto às populações locais e o profundo desrespeito aos seus direitos, que tem sido postos de lado em detrimento ao discurso de que isso servirá a um “bem maior”, que seria o desenvolvimento das forças produtivas do país. Toda a opressão referente a este processo tem sido reconhecido por parcela da justiça como uma afronta aos direitos humanos, o que levou a várias paralisações das obras da UHE Belo Monte em diversos momentos.

A atuação dos agentes jurídicos em prol dos Movimentos Sociais incomodam as autoridades brasileiras responsáveis pelo empreendimento. As autoridades afirmam que todas as paralisações judiciais da obra geraram graves prejuízos ao país e um retardo à realização das obras infraestruturais de que o país necessita.

Até hoje já foram impetradas 25 ações contra UHE de Belo Monte. Esse dado mostra o quanto o campo jurídico é uma arena importante de disputa e mostra também o quanto a arena é feita de relações assimétricas, mas que o Movimento cada vez mais ocupa esse espaço que lhe era negado. O protagonismo do MPF tem ampliado consideravelmente a ação do MXVPS contra a Usina.

Além da atuação judicial outra atuação importante dos membros da frente jurídica está relacionada com a segurança proporcionada para o Movimento em momentos de mobilizações que em vários casos tornam-se perigosos para a integridade dos manifestantes.

Teve uma vez que a gente fechou o caminho pro Sítio Pimental e a ROTAM foi chamada para tirar a gente de lá, então chegou

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um Capitão deles lá e disse pra gente na frente de todo mundo que se a gente não saísse da estrada em meia hora que eles iam tirar a gente na base da porrada. A gente alegou que só sairíamos com um mandato e que sem isso a gente poderia continuar ali, ele retrucou, xingou e disse que o mandato era o cassetete dele. Aí já viu né?! Começou a discussão e quando os ânimos estavam se exaltando o carro do MPF chegou com o Doutor que ia nos acompanhar e o Capitão que tava ameaçando a gente sumiu! Ele literalmente sumiu (risos)! Ainda passamos mais de 24 horas obstruindo a passagem e sem eles poderem fazer nada já que o MPF estava lá com a gente, e eles ficaram lá nos acompanhando até a chegada do mandado. (A.M, Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Altamira, Entrevista em setembro de 2015).

A relação entre o MXVPS e agentes atuantes no campo jurídico como

o MPF e as ONG’s tem proporcionado a tentativa de ampliar a questão da democracia e da cidadania no país. Buscam reinventar a esfera pública para garantir direitos sociais e da cidadania, direitos que na história do Brasil tem se

caracterizado na verdade como privilégios.

A forma da organização do MXVPS em diversas frentes tem possibilitado não somente a resistência por parte do Movimento. Resistência no sentido de apenas se defenderem dos processos que tanto os atacam. Mas também tem possibilitado a eles organizar ações afirmativas, efetivamente propondo algo. Assim contribuem para a reconfiguração de campos que historicamente são usados como instrumental pelo grande Capital para a legitimação da exploração indiscriminada de recursos naturais e de pessoas. Isso faz com que seja modificada sua estrutura interna, permite a mudança de status de campo dominado por um agente para campo em disputa. Abre assim a possibilidade de uma construção efetivamente social e justa do lugar, por critérios que não levem em consideração apenas as questões econômicas, mas também uma efetiva possibilidade de melhoria nas condições de vida das pessoas que vivem na área de influencia da UHE de Belo Monte.

3.4 As políticas de escalas enquanto instrumento de resistência.

A capacidade de articulação escalar na construção dos processos foi

por muito tempo monopólio das forças produtivas do Capital que, desde suas

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origens, usam dessa forma de composição escalar em suas ações para se organizar ampliando sua reprodução e extraindo das pessoas e das regiões a mais-valia e a sua capacidade produtiva.

Contudo, atualmente verifica-se na sociedade civil organizada na Amazônia do inicio do século XXI, um amadurecimento na capacidade de se reerguer contra o projeto de dominação e subordinação impetrado historicamente pelo Capital para a região a partir do momento em que a habilidade de compreender e articular as múltiplas variáveis existentes dentro da problemática que estão envolvidos passa a fazer parte do modus operandi dos Movimentos Sociais, através das políticas de escalas, o tem ampliado a sua capacidade de ação.

Por meio das políticas de escalas, os Movimentos Sociais, como o MXVPS no caso específico de nosso estudo, não somente são ouvidos, como lhes garante, a partir da força e do tensionamento, a condição de intervir na organização territorial. As políticas elevam os Movimentos da condição de atingidos pelos impactos do projeto, para serem reconhecidos como agentes territoriais que buscam garantir a sua condição de existência e reprodução social.

O uso de políticas de escala na prática dos Movimentos é reconhecidamente uma importante estratégia que, ao se tornarem ações concretas, integram, além do local, os agentes atuantes nas escalas nacional e mundial, bem como situam os movimentos populares no debate. Isso tem possibilitado uma reconstrução dos Movimentos Sociais como paradigmas nas lutas, não só no campo, como também nos centros urbanos.

A atual organização das lutas do MXVPS aponta para uma resistência que não está somente circunscrita a enfrentamentos em ações locais espacialmente, como já foram no passado, mas também passaram a serem voltadas para questões mais amplas e estruturais que envolvem a construção da UHE de Belo Monte, questões ligadas a macropolítica e a bolsa de valores por exemplo.

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Ainda persiste uma preocupação por parte dos Movimentos em pensar o local, mas agora instrumentalizado por lógicas e dinâmicas inseridas num contexto nacional e mundial que carece de atenção. Isso não necessariamente leva a uma simples valorização de um local que se constitui como palco e condição/possibilidade para inserção no mundo da mercadoria e no processo de mundialização das relações sociais de produção, mas também a uma nova forma de pensar como se constitui o local.

Pode-se afirmar então que as políticas de escalas verificadas na prática do MXVPS, assim como o seu modus operandi foram aprimorados e que a simultaneidade das múltiplas ações coordenadas e, propiciada pela articulação em rede tornou-se um trunfo político fundamental para a realização dos seus objetivos.

Neste capítulo busca-se mostrar como na experiência dos conflitos sociais na Amazônia se dá a importância da construção de políticas escalares para a estratégia de ação na organização de formas de resistência contra- hegemônicas na contenção do avanço do projeto capitalista. Uma tentativa de resistir à desfiguração de seus modos de vida e na busca pela garantia do controle sobre o seu próprio meio de produção e de sua realização social.

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Considerações Finais:

As ações dos Movimentos Sociais permitiram-lhes ocupar espaços nos principais campos responsáveis por criar as bases, para que o direito à cidadania dos povos atingidos pela construção da UHE Belo Monte fosse reconhecido, ou para que esses povos fossem reconhecidos como cidadãos, e não serem postos à margem da sociedade, podendo reivindicar seus direitos. Esse é o grande objetivo de tensionar e ocupar espaços nos mais variados campos da sociedade. Com isso, o MXVPS contribui para a criação de espaços públicos de reivindicações que confrontem o atual modelo desenvolvimentista, reconfigure a esfera pública e possibilite condições para a criação de uma democracia brasileira que respeite diferentes valores.

Contudo, toda essa crítica não acontece sem resistência por parte das forças hegemônicas, que criaram e constituíram originalmente esses campos. Criam-se movimentos de contra-resistência por parte do status quo contrários à agenda dos novos agentes sociais, com o intuito de ocultar os problemas criados pelo empreendimento e a restauração dos campos para a sua forma de monopólio de um poder hegemônico econômico mundial onde a reprodução do capital pode se elevar a sua forma máxima de extração de mais-valia no lugar.

Podemos afirmar que o MXVPS contribui para a criação de uma nova face do debate sobre democracia e desenvolvimento dentro da esfera pública a partir de todo o processo que acontece na região do Xingu com a hidrelétrica. Nesta região, várias irregularidades e infrações foram apontadas evidenciando a contradição das políticas de Estado que, claramente, violam a uma agenda socioambiental de tratados internacionais e até mesmo da Constituição Federal em nome da retomada do crescimento econômico.

Não se trata apenas de um Movimento crítico e contestador, mas também de um movimento propositivo que tem como finalidade a elaboração de um projeto de desenvolvimento que reconheça a participação da população local e sua diversidade social, territorial, cultural e também sua relação com a natureza.

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A organização e as estratégias de ação do Movimento mobilizam a

criação de uma complexa rede de articulação, com uma grande variedade de agentes que contribuem para dar maior base e legitimidade às ações coletivas,

praticadas contra o projeto neodesenvolvimentista e seus efeitos nas populações locais. Criticam o projeto imposto à Amazônia e buscam caminhos

alternativos para o desenvolvimento da região, não apenas em aspectos econômicos, mas que esse esteja primeiramente posto de maneira a satisfazer

o bem estar coletivo.

É preciso uma distinção sobre as diferentes formas de organização

escalares em quais os Movimentos Sociais e o Capital estão envolvidos. Tal diferenciação é crucial para se entender o modo pelo qual os Movimentos se

tornam protagonistas no processo, no momento em que compreendem a importância de se reorganizar a fim de criar um confronto eficaz no combate aos processos hegemônicos, impostos à Amazônia.

O local para a grande maioria dos Movimentos Sociais na Amazônia

está ligado a uma concepção de vivência, de proximidade, de pertencimento, não apenas de uma localização geográfica, mas de toda uma necessidade de segurança e bem estar. Diz respeito a uma relação de empatia do homem com o ambiente em

sua volta, havendo assim uma relação de sentidos que liga por um elo afetivo e material o homem ao mundo em que vive. Ou como diz TUAN (1983) “todos os lugares são pequenos mundos” onde esses pequenos mundos respondem às mais variadas necessidades para a reprodução social que as pessoas que nele habitam necessitam. O local em seu sentido social é polissêmico e para defender e/ou resgatar essas várias determinações os Movimentos Sociais surgem, geralmente, em resposta a uma tensão criada pelo capital que afeta o modo de vida de uma determinada população como é o caso da UHE de Belo Monte. Enquanto que, o local, para o Capital está ligado exclusivamente à reprodução, a troca do supérfluo que não submete e nem determina está ligada

à totalidade da produção, essa por sua vez, deixa de ser realizada no local

para ser realizada na escala mundial em forma de mais-valia (MARX, 2011). Aqui o local deixa de existir em si e para si, deixa de ser dono da sua própria

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produção social e passa apenas a reproduzir as formas do Capital e seu efeito civilizador, buscando transformar as comunidades em meros trocadores de capital na forma de mercadorias. Dessa forma o capital retira do local, as condições de autoprodução e do trabalhador que ali vive e expropria o controle dos seus meios de produção. Cada local continua sendo um pequeno mundo, mas agora o é, não para a lógica de uma reprodução social, mas para a lógica de reprodução do Capital. Os Movimentos sempre entenderam, e a sua história reproduzida aqui mostra que, a sua luta foi construída sobre a pressão que se faz contra o seu modo de vida e que por isso havia a necessidade de se resistir a esse processo. A história mostra que os Movimentos na Amazônia foram se organizando, se legitimando, ocupando espaços e tensionando a estrutura social que lhes é imposta. Com as mudanças da atuação principalmente do Estado na região e a chegada de novos agentes, a luta por legitimação de sua reprodução social passou a sofrer novos ataques por parte de personagens que emergiam na região, simultaneamente às políticas desenvolvimentistas. Isso possibilitou que uma nova reconfiguração na estrutura de poder fosse elaborada. Nessa nova forma assumida pela região, o território é reinventado dentro da própria estrutura capitalista e as estruturas de comando se distanciam cada vez mais da base territorial física, deixando a ação no território sobre o controle do Estado e das elites locais transformadas em parceiros do novo projeto capitalista. Contudo, o centro de comando efetivo é transferido para o capital globalizando, respondendo às necessidades primeiras deste. Os Movimentos Sociais levaram um tempo para assimilar essa nova forma de atuação do capital na região e identificar a função de cada um desses agentes que surgiram e/ou que foram reposicionados dentro do campo que estão inseridos. Entretanto, ao identificarem-se as funções criaram-se mecanismos de ação muito interessantes, com articulação de ações a outros grupos anti- sistêmicos e contestatórios da atual forma de desenvolvimento orientados pelo Capital. Esses mecanismos conduziram os Movimentos a uma organização capaz de ampliar o seu horizonte de alcance de embates. Também mostraram novas vias de enfrentamentos, ao acionar múltiplas escalas e assim serem

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capaz de contestar o projeto instalado na região em seus centros de comando, como o mercado internacional. Ao mudar a sua forma de organização e ação fazendo com que ela passasse a atingir outras escalas, o MXVPS caminha em direção de encerrar o descompasso que havia entre a sua forma de resistência, caracterizada por um esforço de enfrentamento na escala local, e a atual organização espacial criada pelo Capital na qual a Amazônia está inserida. Dessa forma as ações do Movimento se tornaram contundentes, a ponto de efetivamente criar problemas â reprodução do projeto Capitalista imprimido pelo Estado e o levasse a encontrar formas de buscar dialogar com os Movimentos. Vale ressaltar que o Movimento não perdeu a sua característica originaria de reinvindicação e enfrentamento na escala local que garante a reprodução de seu modo de vida, sendo também esta escala o lugar que os processos lhes afetam de maneira efetiva. Contudo, ao realizar o enfrentamento das estruturas que dão origem a formação espacial no local onde vivem e ficar atrelados às ações no plano do município ou da região, em pouco ou nada as estruturas se mostram efetivas, a ponto de uma transformação. Isso é um fato, posto que a escala local só deva ser considerada dessa forma, a partir de elementos que permitam o controle da produção, fator que em empreendimentos como o da UHE Belo Monte não está necessariamente ligado à base territorial do evento. A relação dos Movimentos Sociais, com outros agentes envolvidos em várias ações contra o capital, e atuante em outras escalas, fez com que os Movimentos entendessem esse processo de distanciamento entre a esfera local e a produção permitindo com que a ação passasse a acontecer em múltiplas frentes de ações, passando pelas bases locais que o evento efetivamente transforma. No caso em questão, na própria região do Xingu como já acontecia, mas também nas que avançam sobre os lugares que ordenam a reconfiguração do território e que controlam a produção mundial. Assim, operam no Estado e até buscam influenciar as decisões no mercado mundial com ações práticas, com denuncias em tribunais internacionais e até mesmo com documentos mostrando os descasos para com a natureza e a população desses locais.

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A atual forma de organização dos Movimentos Sociais está ligada diretamente ao avanço do capitalismo. O mundo passa a ser organizado impositivamente em bases capitalistas, isto é, o mundo se torna capital! E assim, as relações se reproduzem a partir da forma capitalista. Qualquer que seja o movimento contrário a isso tende a ser eliminado por seus diversos agentes, caso entre no campo de interesses do Capital. Diante disso, o Capital recai sobre escalas menores transformando-as

e

fazendo-as subsumidas a condicionantes externos. Assim o capital comprime

o

lugar, rearticula a sua existência e colabora para que a produção desse

espaço não corresponda mais às necessidades das pessoas que ali habitam, mas sim corresponda às necessidades de reprodução do Sistema. Neste contexto, cabe aos Movimentos Sociais e à sociedade civil, encontrarem formas de resistência a esse processo a fim de retomar, se não o controle da produção de seus espaços, ao menos garantir com que seus espaços de vivência sejam respeitados e seus direitos sejam preservados, a fim de que sua inserção, de forma mais efetiva no mundo do Capital, aconteça de forma menos traumática. A construção da UHE Belo Monte é o encontro de duas formas de mundo e é nesse momento de atrito entre elas que se cria então uma relação conflitante entre os Movimentos Sociais, seus vários sentidos e usos do território versus o Capital e seu esforço de homogeneização do território e consequentemente da produção, através da ajuda do seu aparelho legitimador,

o Estado Nacional. Apesar de tantas lutas, paralisações, expropriação de várias pessoas de suas terras, além dos graves problemas ambientais que se alastra pela região, a UHE Belo Monte caminha em direção à conclusão. Realizar uma análise derrotista de todo esse processo é efetivar uma análise equivocada e não-histórica. Não apenas desse Movimento em si, mas também de toda a história de lutas que os Movimentos Sociais travam em todo o Brasil. Engana-se quem pensa que se trata de uma luta com a possibilidade

de um desfecho feliz ou triste, após a conclusão ou não da obra. O fato é que,

o Movimento evidencia lugares antes nunca ocupados, que incomodaram o

status quo. Considera-se, portanto, um avanço considerável para uma região

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que a pouco tempo apenas assistia passivelmente qualquer reconfiguração no seu espaço.

A UHE de Belo Monte começa aos poucos a gerar energia comercial,

mas isso não pode ser visto como uma derrota dos Movimentos Sociais. É preciso compreender que o Movimento existe e continua a operar, independente da concretização ou não do empreendimento. O MXVPS cumpre o seu papel histórico de enfrentamento, de não se omitir, de não se submeter à imposição. E, assim como em muitos momentos ele se reergueu sobre uma nova forma de atuação ele sobreviverá, se adaptará

às novas condições e continuará a sua luta.

O grande ensinamento trazido pelas novas formas de organização e

ação que os Movimentos Sociais da Amazônia no século XXI, em especial o MXVPS nos revela, são o caminho a ser percorrido no atual enfrentamento contra o Capital, na criação de um campo de resistência contra-hegemônico inovador. Livre de interpretações locais, mas preocupado em acionar uma grande variedade de escalas envolvidas no processo reconfigurando e atualizando assim “a guerra de posição” dentro da sociedade civil (GRAMSCI, 2011) para assim propor uma nova forma de desenvolvimento mais justo e que possam partir de interesses efetivamente sociais.

Assim como as escalas possibilitaram a criação de um sistema-mundo articulado, por meio da exploração do trabalho que foi, e continua sendo, base do atual projeto capitalista para a Amazônia, sob o controle dos Movimentos Sociais, elas nos apresentam hoje possibilidades de recusar a condição de explorados e de tomar as rédeas para conduzir nossas próprias vidas. Ainda assim, precisamos sofisticar nossas ações e práticas, pois o Capital também o faz, mas acredita-se que exemplos como o do MXVPS podem indicar o caminho correto.

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