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An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

Orlando Gomes

- Abril 2012 -

Abstract

Neste capÌtulo recorre-se ao modelo intertemporal de agente representativo para ex- plicar aspetos importantes das ÖnanÁas p˙blicas e do impacto destas sobre as decisıes dos agentes econÛmicos privados. Apresenta-se a restriÁ„o orÁamental din‚mica do Estado, debate-se o conceito de equivalÍncia Ricardiana, discute-se a implementaÁ„o de diferentes sistemas Öscais, desenvolvem-se algumas ideias sobre o Önanciamento da seguranÁa social e sobre a eÖc·cia das polÌticas de apoio social. Por Öm, È descrita com algum pormenor uma estrutura teÛrica na qual est„o presentes alguns dos elemen- tos fundamentais do modelo macroeconÛmico contempor‚neo de referÍncia (o modelo novo-Keynesiano), como a rigidez de preÁos ou a conduÁ„o da polÌtica monet·ria via regras de Taylor.

1 IntroduÁ„o

Este capÌtulo aborda a teoria das ÖnanÁas p˙blicas, recorrendo aos principais conceitos da an·lise din‚mica em economia. Num primeiro momento, È discutida a restriÁ„o orÁamental do Estado, a partir da qual se depreende que as contas do Estado tÍm uma natureza intertemporal, que se consub- stancia no desfasamento entre a contraÁ„o de despesa e a obtenÁ„o de receita. Em seguida veriÖca-se que, sob determinados pressupostos, esse desfazamento entre receita e despesa p˙blicas poder· n„o ter qualquer impacto sobre as decisıes de consumo e poupanÁa dos agentes privados; no entanto, restriÁıes ao crÈdito, impostos destorcedores e questıes lig- adas ‡ deÖniÁ„o do horizonte temporal relevante, podem enviesar esse resultado. … tambÈm assunto fundamental de an·lise a comparaÁ„o entre sistemas Öscais. Estes diferem no que toca ‡ maior ou menor progressividade dos impostos. Diferentes regimes Öscais exercem diferentes efeitos sobre a populaÁ„o, de modo que a preferÍncia por um dever· levar em linha de conta algum tipo de critÈrio de bem-estar social. A generalidade das funÁıes de bem-estar social construÌdas tendo em conta as preferÍncias dos diversos estratos sociais aponta para as virtudes da aplicaÁ„o de um sistema progressivo, semelhante ‡quele que encontramos aplicado na generalidade dos paÌses desenvolvidos.

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Procede-se ainda a uma an·lise integrada de diferentes tipos de impostos (sobre o trabalho, sobre o capital e sobre o consumo) recorrendo ao modelo din‚mico de agente representativo, o que permite uma vis„o de conjunto sobre os fatores que determinam a oferta de trabalho numa economia; regra geral, È verdade que cargas Öscais elevadas funcionam como um forte inibidor de uma elevada participaÁ„o da populaÁ„o em idade ativa no mercado de trabalho. Outro aspeto relevante, relativo ‡ intervenÁ„o do Estado na economia, relaciona-se com as prestaÁıes sociais ou transferÍncias do Estado para as famÌlias. A quest„o da eÖc·cia de um sistema p˙blico de seguranÁa social È abordada, concluindo-se que a segu- ranÁa social p˙blica funciona eÖcazmente em perÌodos de forte crescimento econÛmico e populacional. TambÈm se discute o papel de outras prestaÁıes sociais, nomeadamente do subsÌdio de desemprego, sublinhando-se, no caso, a necessidade de encontrar um equilÌbrio entre proteÁ„o em situaÁ„o de carÍncia e o evitar situaÁıes de risco moral. Por Öm, um modelo macroeconÛmico mais completo È descrito. A respetiva apresen- taÁ„o tem por base Christiano, Eichenbaum e Rebelo (2011), e integra, numa sÛ estrutura, as decisıes de consumo e investimento dos agentes privados, a polÌtica orÁamental e a polÌtica monet·ria, sendo esta ˙ltima introduzida para explicar como a decis„o do Banco Central em Öxar taxas de juro ináuencÌa as decisıes privadas de ÖxaÁ„o de preÁos. Este modelo È conhecido como modelo novo-Keynesiano, no sentido em que possibilita a fus„o entre algumas das fricÁıes de Ìndole Keynesiana, nomeadamente a rigidez de preÁos, e aquilo que È a vis„o neocl·ssica da economia, de acordo com a qual os agentes adotam um comportamento maximizador tendo presente um determinado horizonte temporal. De entre as referÍncias utilizadas para desenvolver a an·lise neste capÌtulo, destacam- se as seguintes: Turnovsky (2000), Diamond (2002), Walsh (2003), Heer and Maussner (2005), Krueger (2005), Romer (2005), Kopcke, Tootell e Triest (2006), Bertola e Bagliano (2007), Auerbach (2010) e Wickens (2012).

2 RestriÁ„o orÁamental p˙blica

As decisıes de consumo e poupanÁa das famÌlias, bem como as opÁıes de investimento das empresas, s„o diretamente ináuenciadas pela forma como o Estado gere as ÖnanÁas p˙blicas. A caracterizaÁ„o das contas do Estado passa pela consideraÁ„o de trÍs vari·veis:

Gastos do Estado, G t . Nesta vari·vel engloba-se a aquisiÁ„o de bens e serviÁos por parte do Estado e o pagamento de sal·rios, ou seja, o consumo p˙blico, e o investimento p˙blico;

Impostos lÌquidos, T t . Esta vari·vel corresponder· ‡ soma de impostos e con- tribuiÁıes para a seguranÁa social, ‡ qual se subtrai subsÌdios atribuÌdos ‡s empresas e transferÍncias para as famÌlias. Sendo um valor lÌquido, ele poder· ser positivo ou negativo.

2

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DÌvida p˙blica, B t . A acumulaÁ„o de dÌvida p˙blica resulta da ocorrÍncia de dÈÖces orÁamentais. No perÌodo de tempo t , o Estado paga os juros da dÌvida p˙blica em que incorreu em t 1 (por simpliÖcaÁ„o, admite-se que os tÌtulos de dÌvida p˙blica tÍm maturidade de um ano). Sendo r a taxa de juro, os juros pagos pelo Estado em t correspondem a J t = r:B t 1 .

As principais fontes de receita p˙blica s„o os impostos, as contribuiÁıes para a segu- ranÁa social e a emiss„o de dÌvida p˙blica (emiss„o de obrigaÁıes do Estado); o Estado

pode ainda imprimir moeda, cuja receita toma a designaÁ„o de ísenhoriagemí(esta parcela pode ser ignorada quando existe independÍncia entre polÌtica orÁamental e actuaÁ„o do banco central; uma polÌtica monet·ria independente È aquela que n„o ter· qualquer re- laÁ„o com o modo como a despesa p˙blica È Önanciada). A despesa do Estado destina-se

a Önanciar os gastos do Estado, as transferÍncias internas, os subsÌdios ‡s empresas e o pagamento dos juros da dÌvida p˙blica. Com base na informaÁ„o anterior, a restriÁ„o orÁamental do Estado pode ser escrita

como

(1)

G t + (1 + r ):B t 1 = T t + B t ; B 0

dado

Do lado esquerdo da equaÁ„o temos a despesa p˙blica realizada em t e o pagamento

da dÌvida p˙blica contraÌda no perÌodo anterior, incluindo juros. Do lado direito de (1), encontramos a receita p˙blica em t (incluindo a dÌvida contraÌda neste perÌodo).

A equaÁ„o (1) pode ser reescrita de modo a salientar a variaÁ„o na dÌvida p˙blica,

B t B t 1 = G t T t + r:B t 1

(2)

A diferenÁa entre as despesas correntes de investimento e as receitas Öscais ( G t T t )

È designada por dÈÖce prim·rio; È o dÈÖce p˙blico que ignora o pagamento de juros

sobre a dÌvida passada. Esta È uma medida de responsabilidade Öscal corrente, dado que

o pagamento de juros da dÌvida passada È herdado dos anos passados (e portanto dos

governos anteriores). O dÈÖce corrente total È a soma do dÈÖce prim·rio com os juros pagos sobre a dÌvida passada,

def t = G t T t + r:B t 1

(3)

Se existe um dÈÖce ( def t > 0 ), ent„o haver· um aumento na dÌvida p˙blica: B t > B t 1 .

A equaÁ„o recursiva (1) pode ser escrita para perÌodos de tempo consecutivos; tomando

os dois primeiros perÌodos, t = 0 e t = 1,

t

t

=

=

0 : G 0 = T 0 + B 0

1

+ (1 + r ):B 0 = T 1 + B 1

:

G

1

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Por eliminaÁ„o de B 0 ,

G 0 +

G

1

T

1

B

1

1 + r = T 0 + 1 + r + 1 + r

Juntando perÌodos adicionais, a restriÁ„o orÁamental p˙blica intertemporal pode ser

escrita como:

G 0 +

G

1

G

2

1 + r +

(1 +

r ) 2 + ::: +

G T

(1 + r ) T =

T 0 +

T

1

T

2

1 + r +

(1 + r ) 2 + ::: +

T

T

B

T

(1 + r ) T + (1 + r ) T

A data T ser· o ˙ltimo perÌodo considerado (se o horizonte for inÖnito, teremos T !

1 ). Assume-se que o Estado cumpre a condiÁ„o de transversalidade, o qu signiÖca que

no Önal do seu horizonte n„o ter· dÌvida, isto È, B T = 0.

A restriÁ„o orÁamental intertemporal do Estado pode ser ainda ser apresentada do

seguinte modo,

(4)

1

X

t=0

G

t

1

X

t=0

T

t

(1 + r ) t =

(1 + r ) t

A restriÁ„o orÁamental (4) diz que o valor presente descontado da despesa p˙blica

dever· igualar o valor presente descontado dos impostos. Isto signiÖca que a contraÁ„o

de dÌvida p˙blica permite um desfasamento entre receita e despesa p˙blica (adiando o

arrecadar da primeira), mas numa perspetiva intertemporal ter· de haver uma coincidÍncia

entre os recursos que s„o obtidos atravÈs de impostos e a despesa p˙blica concretizada.

3 EquivalÍncia Ricardiana

Como se referiu atr·s, h· duas formas de o Estado se Önanciar: cobrando impostos ou

emitindo dÌvida (a qual vai ter de ser paga no futuro com juros, o que sÛ pode ser feito com

impostos a cobrar no futuro). Quais as diferenÁas entre usar um ou o outro mecanismo

de Önanciamento? A equivalÍncia Ricardiana È uma proposiÁ„o que aÖrma n„o fazer

diferenÁa: taxar hoje ou emitir dÌvida para taxar amanh„ n„o altera a afetaÁ„o real de

recursos ou os preÁos na economia. Evidentemente, o facto de existir incerteza quanto ao

momento da morte e de na pr·tica o horizonte de avaliaÁ„o das decisıes n„o ser inÖnito,

leva a que os indivÌduos preÖram adiar o pagamento dos impostos.

Para comprovar a veracidade da equivalÍncia Ricardiana, comece-se por se admitir um

cen·rio com dois perÌodos de tempo. Seja t = 1 ; 2 e suponha-se que a despesa p˙blica

ocorre apenas em t = 1: G 1 > 0 ; G 2 = 0. Para abordar a equivalÍncia Ricardiana, coloca-

se a seguinte quest„o: faz diferenÁa, do ponto de vista do agente privado, recolher impostos

no perÌodo t = 1 ou, em alternativa, emitir dÌvida a ser paga em t = 2? Se os gastos do

Estado se encontram concentrados no perÌodo inicial, as restriÁıes orÁamentais p˙blicas

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nos dois perÌodos reduzem-se ‡s expressıes

t

=

1 : G 1 = T 1 + B 1

t

= 2

:

(1 + r ):B 1 = T 2

As duas polÌticas alternativas s„o:

- Impostos imediatos:

- Emiss„o de dÌvida:

T 1 = G 1 e B 1 = T 2 = 0

T 1 = 0 e B 1 = G 1 ; T 2 = (1 + r ):B 1

Observe-se que ambas as polÌticas satisfazem a restriÁ„o orÁamental intertemporal do

Estado:

G 1 = T 1 +

T 2

1 + r

e,

portanto, de um ponto de vista intertemporal elas s„o, para o Estado, idÍnticas. O que

se

pretende explorar È como, neste cen·rio, o comportamento privado se poder· modiÖcar

entre as duas polÌticas. Retome-se o problema do agente representativo. Este maximiza a

utilidade conjunta dos dois perÌodos, u (c 1 ) + :u (c 2 ), sujeita ‡ restriÁ„o orÁamental

c 1 +

c

2

1 +

r = y 1 +

y

2

1 +

r + Q

com y 1 , y 2 os rendimentos apÛs impostos. Estes deÖnem-se como y 1 = e 1 T 1 ; y 2 = e 2 T 2 ,

sendo que e 1 , e 2 representam os rendimentos antes de impostos, em cada um dos perÌodos.

A restriÁ„o orÁamental privada pode ser reescrita como

c 1 +

c

2

T

2

1 + r + T 1 + 1 + r = e 1 +

1 + r + Q

e

2

(5)

A equaÁ„o (5) indica que o agente gasta o seu rendimento e a sua riqueza de duas

formas: para consumir e para pagar impostos, em cada um dos perÌodos.

Recupera-se agora as duas polÌticas alternativas. Sob impostos imediatos (T 2 = 0),

r + Q. Em contrapartida, sob

r + Q. Como na

primeira possibilidade T 1 = G 1 , enquanto que na segunda T 2 = (1 + r ):B 1 e B 1 = G 1 , de

r = G 1 , ent„o as duas restriÁıes s„o idÍnticas. A conclus„o È que o ítimingí

dos impostos n„o È relevante, desde que o agente tenha plena consciÍncia da sua restriÁ„o

emiss„o de dÌvida (T 1 = 0), ter-se-· a igualdade c 1 +

a restriÁ„o orÁamental reduz-se a c 1 +

r + T 1 = e 1 +

2

1+

c

2

c

e

2

1+

T

2

1+ r + 1+

r = e 1 +

e

2

1+

modo que

T

2

1+

intertemporal.

Recorde-se que, no capÌtulo 1, se calculou a soluÁ„o do modelo de dois perÌodos do

agente privado, sob utilidade logarÌtmica. Os resultados obtidos s„o os que em seguida se

reapresentam.

c

c

1 =

1 + : y 1 + 1 +

1

y

2

r + Q

2 = : (1 + r ) 1 +

: y 1 +

r + Q

y

2

1 +

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s = 1 + :(y 1 + Q)

y 2

(1 + r ):(1 + )

Dada a deÖniÁ„o de rendimento apÛs impostos entretanto apresentada, modiÖcam-se

as expressıes anteriores, de modo a deixar explÌcito o modo como os impostos afetam o

comportamento Ûtimo do agente representativo,

c

c

1 =

1 + : e 1 + 1 +

1

e

2

r T 1 1 T + 2 r + Q

2 = : (1 + r ) 1 +

: e 1 +

r T 1 1 T + 2 r + Q

e

2

1 +

s = 1 + :(e 1 T 1 + Q)

e 2 T 2

(1 + r ):(1 + )

Sob a primeira alternativa de polÌtica apresentada, T 1 = G 1 ; T 2 = 0, os resultados

Ûtimos ser„o,

c

1

=

1 + : e 1 + 1 +

1

e

2

r G 1 + Q

c 2

= : (1 + r )

1 +

: e 1 +

r G 1 + Q

e

2

1

+

s = 1 + :(e 1 G 1 + Q)

e 2

(1 + r ):(1 + )

Para a segunda polÌtica, a de Önanciamento de despesa p˙blica corrente atravÈs da

r = G 1 , os nÌveis de consumo em cada perÌodo de tempo e o

emiss„o de dÌvida, T 1 = 0;

T 2

1+

valor da poupanÁa ser„o,

c

1

=

1 + : e 1 + 1 +

1

e

2

r G 1 + Q

c 2

= : (1 + r )

1 +

: e 1 +

r G 1 + Q

e

2

1

+

s 0 = 1 + :(e 1 + Q)

e

2

G

1

(1 + r ):(1 + ) + 1 +

Por observaÁ„o dos valores apresentados, constata-se que a escolha Ûtima de consumo

)

È igual para as duas polÌticas. No entanto, a poupanÁa n„o È igual; compare-se os dois

valores - a diferenÁa entre eles È:

intertemporal n„o se modiÖca, o que conÖrma a equivalÍncia Ricardiana. O par (c ; c

2

1

s 0 s =

G

1

1 + +

1

+ :G 1 = G 1

Conclui-se que sob a segunda polÌtica, os agentes privados poupam a mais, relativa-

mente ‡ primeira, o equivalente ‡ despesa p˙blica que o Estado efetua. Sob a polÌtica de

contraÁ„o de dÌvida, o agente poupa mais que sob a polÌtica de impostos imediatos. Esta

poupanÁa d· origem a um rendimento extra no segundo perÌodo que È o suÖciente para

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pagar os impostos que o Estado cobra para Önanciar a sua dÌvida. Os agentes privados

sabem que sob a polÌtica de endividamento os impostos v„o aumentar no futuro, ajustando ent„o a sua poupanÁa privada para os poder pagar.

O resultado da equivalÍncia Ricardiana pode ser generalizado para n perÌodos de tempo

e enunciado do seguinte modo: uma reforma de polÌtica que n„o modiÖca a despesa p˙blica

(G 0 ; G 1 ; :::) e que apenas muda o ítimingídos impostos, deixando inalterado o valor descon- tado dos impostos pagos, n„o tem qualquer efeito sobre a afetaÁ„o temporal do consumo do agente representativo. A equivalÍncia Ricardiana pode ser interpretada intertemporal-

mente tomando as restriÁıes intertemporais deÖnidas para os agentes privados e para o

Estado. Seja a t a riqueza de que o agente dispıe no perÌodo t ; esta ser· a soma da riqueza adquirida atravÈs de investimentos Önanceiros privados (a t ) com a poupanÁa aplicada em obrigaÁıes do Estado (B t ): a t = a t + B t .

A restriÁ„o privada pode ser apresentada da seguinte forma (por simpliÖcaÁ„o supıe-se

que os dois tipos de aplicaÁıes s„o remunerados ‡ mesma taxa),

0

0

0

a t = e t T t + (1 + r ):a

0

t 1 c t

enquanto que a restriÁ„o p˙blica toma a forma

B t B t 1 = G t T t + r:B t 1

Substituindo a restriÁ„o p˙blica na restriÁ„o privada, obtÈm-se:

a t + G t T t + (1 + r ):B t 1 =

e t T t + (1 + r ):a t 1 + (1 + r ):B t 1 c t ,

a t = e t G t + (1 + r ):a t 1 c t

Da express„o obtida conclui-se que o ˙nico elemento relevante para as decisıes privadas

È o consumo p˙blico em cada momento de tempo. As trajetÛrias de T t e B t s„o irrelevantes para as decisıes privadas de maximizaÁ„o intertemporal da utilidade do consumo.

A equivalÍncia Ricardiana È v·lida sob determinados pressupostos. Nomeadamente,

ela implica a inexistÍncia de limitaÁıes no acesso ao crÈdito, uma deÖniÁ„o clara dos perÌodos de tempo relevantes e que os impostos que est„o em causa tÍm caracterÌsticas especÌÖcas, nomeadamente que s„o impostos lump-sum, isto È, impostos que recaem so- bre o rendimento num qualquer montante Öxo. Neste sentido, È possÌvel identiÖcar trÍs constrangimentos ‡ veriÖcaÁ„o da equivalÍncia Ricardiana. 1) RestriÁıes ao crÈdito Na ausÍncia de possibilidade de recorrer ao crÈdito por parte do agente privado, qual- quer resultado Ûtimo que implique s < 0 n„o ser· atingÌvel e a soluÁ„o possÌvel ser·

c 1 = y 1 + Q; c 2 = y 2 ; s = 0

Com restriÁıes ao crÈdito, o momento de aplicaÁ„o dos impostos pode afetar o consumo

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privado e, nesse caso, a equivalÍncia Ricardiana n„o se veriÖcar·. Retome-se o impacto

das duas polÌticas sobre os nÌveis de consumo apresentados:

1) Impostos imediatos: c 1 = e 1 T 1 + Q; c 2 = e 2 :

2) Impostos diferidos: c 1 = e 1 + Q; c 2 = e 2 T 2 :

Observa-se que caso haja restriÁıes ao crÈdito e n„o exista poupanÁa, as polÌticas n„o

s„o equivalentes do ponto de vista da distribuiÁ„o intertemporal do consumo.

2) Horizonte Önito

Se o agente privado tem um horizonte Önito e a dÌvida È paga para alÈm do seu

horizonte de vida, as duas polÌticas n„o s„o equivalentes. Imagine-se um cen·rio em que o

agente vive 2 perÌodos mas que perante uma polÌtica de endividamento p˙blico, a dÌvida

Öca indeÖnidamente por pagar, pagando-se sÛ os juros. Neste caso, as duas alternativas

s„o,

Impostos imediatos: T 1 = G 1 ; B 1 = T 2 = T 3 = ::: = 0;

Emiss„o de

dÌvida: T 1 = 0; B 1 =

G 1 ; T 2 = rB 1 ; T 3 = rB 1 ; :::; T T = rB 1 :

Considerando os nÌveis de consumo Ûtimos apresentados atr·s para a primeira polÌtica,

È possÌvel compar·-los com o resultado Ûtimo do agente que vive 2 perÌodos e que sÛ paga

juros da dÌvida no segundo perÌodo,

c

0

1 =

1 + : e 1 + 1 + r

1

e

2

1 + r :G 1 + Q

r

0

c 2

= : (1 + r )

1 +

: e 1 +

e

2

1 + r

Efetuando as respetivas diferenÁas:

1 + r :G 1 + Q

r

c 0

1

c

1

0

c 2 c

2

=

=

1

(1 + ):(1 + r ) 1 + :G 1 > 0

:G 1 > 0

Conclui-se que o agente que vive num horizonte Önito vai entender sempre como preferÌvel

a emiss„o de dÌvida, porque ser„o as geraÁıes futuras a pagar parte dessa dÌvida, o que

possibilita nÌveis de consumo superiores ‡queles que existiriam caso fosse levantado um

imposto no perÌodo t = 1.

Este argumento foi desmontado por Barro (1974), que defendeu a ideia de que os

indivÌduos evidenciam um comportamento altruÌsta face ‡s geraÁıes futuras, que est·

patente no facto de deixarem heranÁas. Suponha-se que os indivÌduos vivem 1 perÌodo e

tÍm uma funÁ„o de utilidade

U (c 1 ) + :V (b 1 )

em que b 1 È a heranÁa deixada ‡ geraÁ„o futura, V ser· a utilidade da geraÁ„o futura,

e agora mede o altruÌsmo geracional. > 0 indica altruÌsmo; < 1 signiÖca que h·

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An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

preferÍncia pelo bem-estar dos descendentes mas n„o tanta como pelo nosso prÛprio bem-

estar. A restriÁ„o orÁamental do agente no seu perÌodo de vida (t = 1) È c 1 + b 1 = y 1 . A

funÁ„o de utilidade do descendente È U (c 2 ) + :V (b 2 ) e a respetiva restriÁ„o orÁamental,

em t = 2, vem c 2 + b 2

Notando que V (b 1 ) È o valor maximizado de U (c 2 ) + :V (b 2 ), veriÖca-se que esta

economia em que os agentes vivem 1 perÌodo e que est· ligada por dinastias È idÍntica

a uma economia onde as pessoas vivem num horizonte inÖnito e enfrentam restriÁıes ao

crÈdito (uma vez que b 1 0; b 2 0 ; :::). No entanto, recorde-se que com restriÁıes ao

crÈdito a equivalÍncia Ricardiana pode n„o se veriÖcar. Assim sendo, o resultado genÈrico

desta argumentaÁ„o È o seguinte: a equivalÍncia Ricardiana sÛ se veriÖca se

= y 2 + (1 + r ):b 1 .

a ) Os indivÌduos forem altruÌstas ( > 0).

b ) For Ûtimo do ponto de vista da utilidade deixar heranÁas positivas ( b t 0 ) aos

descendentes.

O ponto central È se os indivÌduos deixam heranÁas por razıes altruÌstas. Se tal

acontece, a equivalÍncia Ricardiana volta a fazer sentido.

3) Impostos destorcedores

Como referido, o tipo de impostos considerado para demonstrar a equivalÍncia Ricar-

diana corresponde a impostos n„o destorcedores ou impostos lump-sum, os quais correspon-

dem a uma soma Öxa que se subtrai ao nÌvel de rendimento. Com impostos destorcedores,

a a equivalÍncia Ricardiana n„o se veriÖcar·. Um imposto sobre o consumo a uma deter-

minada taxa È destorcedor. Em seguida, demonstra-se como um imposto destorcedor

perturba a equivalÍncia entre impostos presentes e impostos futuros.

Considere-se que determinada despesa p˙blica G 1 È Önanciada com um imposto sobre o

consumo no momento t = 2: T 2 = :c 2 . Neste caso, a restriÁ„o intertemporal do consumo

È

c 1 + (1 + ):c 2 1 + r

= I ; I := e 1 +

e

2

1 +

r + Q;

e 1 = y 1 ; e 2 = y 2 porque n„o h· impostos sobre o rendimento.

Assuma-se tambÈm uma funÁ„o de utilidade logarÌtmica, de modo que se maximiza

V 1 = ln I (1 + ):c 2 1 + r

+ : ln c 2

A condiÁ„o de Ûtimo vem:

dV 1

dc 2

= 0 ) ec 2 = : 1 1 + + r :ec

1

Substituindo esta condiÁ„o de Ûtimo na restriÁ„o orÁamental, È imediata a obtenÁ„o de

valores Ûtimos para o consumo em cada um dos perÌodos: ec 1 =

O imposto sobre o consumo serve para Önanciar a despesa p˙blica em t = 1, o que

1

1+ :I ; ec 2 =

1+

1+ : 1+

r

:I:

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An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

permite chegar ao valor da taxa de imposto,

G 1 = T 2 r , G 1 = :c 2 r , = (1 + r ): G 1

1 +

1 +

c

2

Para este nÌvel de taxa de imposto, pode reescrever-se ec

2

,

ec 2 = : (1 + r ) 1 +

:I (1 + r ):G 1

Estamos agora em condiÁıes de comparar estes valores Ûtimos de consumo com aqueles

obtidos para uma polÌtica de Önanciamento imediato da despesa p˙blica (T 1 = G 1 ) com

um imposto sobre o rendimento, ou seja,

c

1 =

1

1

1 + :I 1 + :G 1

c

Procedendo ‡s diferenÁas:

2 = : (1 + r ) :I : (1 + r )

1 +

1 +

:G 1

ec c

1

1

ec 2 c

2

1

+ 1 :G 1 > 0

1 + :G 1 < 0

=

= 1 + r

Observa-se que o Önanciamento da despesa p˙blica com um imposto sobre o consumo

em t = 2 implica um maior nÌvel de consumo em t = 1 e um menor nÌvel de consumo em

t = 2, em relaÁ„o ‡ situaÁ„o de Önanciamento direto por impostos. N„o existe, portanto,

equivalÍncia Ricardiana: o Önanciamento imediato da despesa com impostos produz um

plano de consumo diferente do Önanciamento futuro via imposto sobre consumo.

Resta saber qual das duas polÌticas È preferÌvel. Ser·, evidentemente, aquela que pro-

duz um maior nÌvel de utilidade. SÛ atravÈs de um exemplo numÈrico È possÌvel averiguar

qual a melhor polÌtica. Admita-se = 0:96 ; r = 0:05 ; G 1 = 250 ; I = 1000: Com estes

valores, c = 382; 65 ; c 2 = 385; 71 ; ec = 510; 2 ; ec 2 = 251; 79 . Os nÌveis de utilidade s„o:

1

1

V 1 = ln( c ) + : ln( c 2 ) = 11 ; 664

e

V 1 = ln(ec ) +

: ln(ec 2 ) = 11 ; 542

1

1

Constata-se que a primeira polÌtica (polÌtica de Önanciamento imediato da despesa

p˙blica com um imposto sobre o rendimento) È, para os valores considerados, preferÌvel ‡

segunda.

10

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

4 Impostos sobre o rendimento e sistemas Öscais

O Estado cobra impostos e taxas sob m˙ltiplas formas e por in˙meras vias. Uma das razıes mais Ûbvias para que exista tal dispers„o na cobranÁa de impostos diz respeito ‡ saliÍncia dos mesmos. A carga Öscal parecer· menos pesada se incidir simultaneamente sobre rendimentos do trabalho, bens de consumo, rendimentos do capital, propriedade de bens duradouros, transaÁıes Önanceiras entre outros, em alternativa a concentrar-se, por exemplo, apenas sobre os rendimentos do trabalho. No entanto, o imposto sobre o rendimento È aquele que melhor permite abordar as questıes ligadas ‡ equidade na distribuiÁ„o do esforÁo Öscal numa dada economia. Nesta secÁ„o, discute-se os diferentes cÛdigos Öscais que em teoria podem existir e apresentam-se argumentos em favor de um sistema Öscal progressivo. Considere-se uma funÁ„o de impostos, em que o respetivo montante È uma funÁ„o positiva do rendimento, T (y ), com dT (y )=dy > 0 . Esta funÁ„o deÖne um cÛdigo ou sistema Öscal. Para distinguir entre sistemas Öscais, deÖne-se taxa mÈdia de imposto por t (y ) = T ( y ) e taxa marginal de imposto por (y ) = dT (y )=dy . Tendo por base as deÖniÁıes anteriores, È possÌvel distinguir trÍs diferentes cÛdigos Öscais:

y

1. CÛdigo Öscal progressivo: um sistema Öscal È progressivo num intervalo (y l ; y h ) se t (y ) È estritamente crescente para todos os nÌveis de rendimento y 2 (y l ; y h ).

2. CÛdigo Öscal regressivo: um sistema Öscal È regressivo num intervalo (y l ; y h ) se t (y ) È estritamente decrescente para todos os nÌveis de rendimento y 2 (y l ; y h ).

3. CÛdigo Öscal proporcional: um sistema Öscal È proporcional num intervalo (y l ; y h ) se t (y ) È constante para todos os nÌveis de rendimento y 2 (y l ; y h ).

A distinÁ„o anterior pode ser ilustrada atravÈs de um conjunto de exemplos. Primeiro, seja T (y ) = T com T > 0 constante. Todos pagam um mesmo montante de impostos T , independentemente do seu rendimento. Este imposto È evidentemente regressivo: t (y ) = T =y . Num segundo exemplo, assuma-se T (y ) = :y , 2 [0; 1). Neste caso, t (y ) = e, portanto, o imposto È proporcional. Um terceiro exemplo assume que sÛ existe imposto para rendimentos acima do nÌvel d , de modo que

T (y ) = (

0; se y < d : (y d ); se y d

Neste caso, n„o h· lugar a pagamento de impostos se rendimento n„o excede nÌvel de isenÁ„o d , e paga-se uma fraÁ„o pelo rendimento acima de d . O imposto mÈdio ser·

t (y ) = (

0; se y < d : (1 d=y ); se y d

Dadas as deÖniÁıes, este imposto È progressivo para rendimentos acima de d .

11

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

Por Öm, considere-se um ˙ltimo exemplo, que toma m sistema Öscal em que a taxa de

imposto aumenta descontinuamente, do seguinte modo,

(y ) =

8 > 1 ; se 0 y < b 1

<

2 ; se b 1 y < b 2

> b 2 y < 1

: 3 ; se

Se as taxas de imposto s„o tais que 1 < 2 < 3 , ent„o este sistema Öscal È propor-

cional para y 2 [0; b 1 ) e progressivo para y > b 1 . Este È o tipo de sistema Öscal mais

aplicado na pr·tica.

Em termos gerais, um sistema Öscal caracterizado por um cÛdigo Öscal T (y ) È progres-

sivo se e sÛ se a taxa marginal de imposto T 0 (y ) È maior que a taxa mÈdia de imposto t (y )

para qualquer nÌvel de rendimento, T 0 (y ) > t(y ). Esta condiÁ„o signiÖca que um acrÈscimo

de rendimento sobre o rendimento j· anteriormente obtido vai ser mais fortemente taxado

que o anterior.

Qual o melhor sistema Öscal a aplicar? Obviamente que a resposta a esta quest„o

depende de quais os objetivos a atingir ao nÌvel da redistribuiÁ„o do rendimento. Ao Estado

interessa atingir um determinado nÌvel de receita Öscal, mas esta pode ser obtida por

diferentes vias, ou seja, taxando de modo uniforme toda a populaÁ„o ou, em alternativa,

penalizando mais determinados nÌveis de rendimento. Portanto, o sistema Öscal a adotar È

fruto de uma interpretaÁ„o normativa sobre qual o cÛdigo Öscal socialmente mais aceit·vel.

Em seguida, apresentam-se argumentos em favor de um sistema Öscal progressivo.

Considere-se dois agentes com nÌveis de rendimento anual distintos. Seja o rendimento

do agente 1 igual a 75.000 e e o rendimento do agente 2 igual a 25.000 e . Admita-se

tambÈm que os agentes partilham uma mesma funÁ„o de utilidade, u (c) = ln c, e que o

seu nÌvel de consumo corresponder· ao respetivo rendimento disponÌvel, c = y T (y ).

Admita-se que o Estado pondera adotar um de dois sistemas Öscais. O primeiro ser·

um sistema proporcional, em que se cobra impostos a uma determinada taxa ; o segundo

ser· um sistema progressivo como o seguinte:

(y ) =

8 > 0% ; se 0 y < 20 :000

< 25% ; se 20 :000 y < 40 :000

> : 40% ; se y 40 :000

Se o sistema progressivo for aplicado, as receitas Öscais cobradas pelo Estado nesta

economia s„o:

T (25:000) + T (75:000) =

0 ; 25 (25:000 20 :000)

+0; 25 (40:000 20 :000)

+0; 4 (75:000 40 :000)

= 1 :250 + 19 :000 = 20 :250 e

12

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

Neste caso, o consumo de cada famÌlia ser·:

c 1 =

c 2 = 75 :000 19 :000 = 56 :000 e

25 :000 1 :250 = 23 :750 e

No sentido de comparar os dois sistemas Öscais, È possÌvel determinar a taxa propor- cional que faz com que as receitas Öscais sejam idÍnticas entre os dois sistemas. Ela È:

20

:250

=

25 :000 + 75 :000

 

,

= 20; 25%

A taxa de imposto = 20; 25% È a que torna indiferente ao Estado utilizar esta polÌtica de imposto proporcional ou a polÌtica de imposto progressivo anteriormente caracterizada, uma vez que vai obter exatamente a mesma receita. A diferenÁa estar· nos nÌveis de consumo dos agentes privados. Sob o sistema Öscal proporcional como apresentado, o consumo dos dois agentes ser·:

c 1 = (1 0; 2025) 25 :000

c 2 = (1 0; 2025) 75 :000 = 59 :813

= 19 :938 e

e

Comparando os nÌveis de consumo numa e noutra alternativa em termos de cobranÁa de impostos, veriÖca-se que o sistema proporcional È preferÌvel para a famÌlia de mais alto rendimento, enquanto que o sistema Öscal progressivo È o mais favor·vel para a famÌlia com um menor rendimento antes de impostos. Para avaliar qual o melhor sistema Öscal sob o ponto de vista do bem-estar coletivo (ou seja, do conjunto das duas famÌlias) È necess·rio um critÈrio de equidade, que pode ser dado por uma funÁ„o de bem-estar social W (u (c 1 ); u (c 2 ; ):::; u (c N )), com N o n˙mero de indivÌduos na sociedade e W uma funÁ„o que revela o critÈrio de felicidade ou bem-estar social que se adota. A funÁ„o de bem-estar social pode assumir v·rias formas. Em primeiro lugar, considere-se uma funÁ„o de bem-estar social em que o indivÌduo i pode escolher o sistema Öscal e sÛ atribui valor ‡ sua prÛpria utilidade. Em termos formais,

W (u (c 1 ); u (c 2 ):::; u (c N )) = u (c i )

Nesta situaÁ„o, o sistema Öscal escolhido È aquele que beneÖcia o agente i. Apesar de indesej·vel, existem muitos exemplos na histÛria onde um critÈrio de bem-estar social como este ter· sido adotado. Em segundo lugar, È possÌvel conceber uma funÁ„o utilitarista de bem-estar social, de acordo com a qual a utilidade conjunta da sociedade corresponde ‡ soma das utilidades individuais

13

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

W (u (c 1 ); u (c 2 ; ):::; u (c N )) = u (c 1 ) + u (c 2 )::: + u (c N )

Neste cen·rio, a utilidade de todos os indivÌduos È ponderada exatamente da mesma forma. Podemos aplicar este critÈrio ao nosso exemplo,

W prog (u (c 1 ); u (c 2 )) =

W prop (u (c 1 ); u (c 2 )) = ln(19 :938) + ln(59 :813) = 20 ; 899

ln(23 :750) + ln(56 :000) = 21 ; 008

Como È evidente a partir do exemplo, no caso de se assumir uma funÁ„o de bem-estar social utilitarista, o sistema progressivo domina o sistema proporcional. Este resultado ser· obtido quaisquer que sejam os valores considerados, desde que se assuma uma funÁ„o de utilidade cÙncava, isto È, em que seja evidente a existÍncia de utilidade marginal de- crescente. Num terceiro caso, considera-se uma funÁ„o Rawlsiana de bem-estar social, a qual se pode formalizar do seguinte modo,

W (u (c 1 ); u (c 2 ; ):::; u (c N )) = min f u (c 1 ); u (c 2 ); :::; u (c N )g

i

Nesta especiÖcaÁ„o, o bem-estar social iguala a utilidade do membro da sociedade que se encontra em menos boa situaÁ„o. Esta funÁ„o baseia-se no pressuposto de ignor‚ncia acerca do rendimento a obter; nesta circunst‚ncia, cada indivÌduo aceitar· um sistema em que aquele com menor rendimento tenha acesso a um nÌvel de vida minimamente aceit·vel. De acordo com este critÈrio:

W prog (u (c 1 ); u (c 2 )) =

W prop (u (c 1 ); u (c 2 )) = min f ln( c 1 ); ln( c 2 )g = ln(c 1 ) = 9 ; 9004

min f ln( c 1 ); ln( c 2 )g = ln(c 1 ) = 10 ; 075

Como W prog > W prop , de acordo com a funÁ„o de bem-estar social Rawlsiana, o sistema progressivo domina o proporcional. O resultado global da an·lise È que, dada uma funÁ„o de utilidade cÙncava e igual para todos os agentes, quer a funÁ„o de bem-estar social utilitarista quer a funÁ„o de bem-estar social Rawlsiana, implicam que um sistema Öscal progressivo È mais desej·vel que um sistema Öscal proporcional. A intuiÁ„o para este resultado È simples: como a funÁ„o de utilidade È cÙncava, retirar aos que mais tÍm mais do que aos que menos tÍm faz aumentar utilidade conjunta e utilidade do que menos tem face ‡ situaÁ„o de imposto proporcional. Um aspeto importante e que n„o pode ser descurado a propÛsito dos sistemas de impostos progressivos È que resultados como o analisado se baseiam num pressuposto forte e diÖcilmente observ·vel na pr·tica: nomeadamente, que alteraÁıes na taxa de imposto n„o alteram os incentivos dos agentes para trabalhar, poupar ou gerar rendimento.

14

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

5 An·lise integrada de impostos sobre consumo, rendimen- tos do trabalho e rendimentos do capital

Nesta secÁ„o, reconsidera-se o modelo de agente representativo de dois perÌodos e integra- se nele as escolhas entre trabalho e lazer, de modo a se poder fazer uma an·lise conjunta do impacto de diversos tipos de impostos sobre as escolhas do agente. Nomeadamente, consideram-se impostos sobre o consumo (em ambos os perÌodos de tempo), sobre os rendimentos do trabalho e sobre os rendimentos do capital. Seja l a fraÁ„o de tempo dedicada ao trabalho em t = 1; 1 l ser· a fraÁ„o de tempo afeta ao lazer. E seja w o sal·rio real. Assume-se que no segundo perÌodo o agente se reforma e j· n„o trabalha. Supıe-se ainda que o agente recebe uma prestaÁ„o social b 0 no segundo perÌodo de vida. Sob este conjunto de pressupostos, o problema de maximizaÁ„o do agente vem

M ax ;s;l ln( c 1 ) + m: ln(1 l ) + : ln( c 2 )

c 1 ;c 2

sujeito

a: (1 + c 1 ):c 1 + s = (1 l ):w:l

(1 + c 2 ):c 2 = [1 + r: (1 s )] :s + b

No problema apresentado, c 1 , c 2 s„o taxas de imposto sobre o consumo, l È uma taxa de imposto sobre os rendimentos do trabalho e s È a taxa de imposto sobre os rendimentos da poupanÁa. O par‚metro m mede a valorizaÁ„o do lazer por parte do agente representativo face ao consumo. Observe-se que as vari·veis de controle do sistema, que o agente pode manipular, s„o quatro: os nÌveis de consumo (em cada um dos perÌodos) e poupanÁa e a fraÁ„o de tempo que decide afetar a atividades laborais. Para resolver o problema de otimizaÁ„o, consolida-se as restriÁıes orÁamentais numa ˙nica restriÁ„o intertemporal, atravÈs da eliminaÁ„o da vari·vel poupanÁa,

(1 + c 1 ):c 1 +

(1 + c 2 ):c 2

s ) + (1 l ):w:(1 l ) =

1 + r: (1

(1 l ):w +

b

1 + r: (1 s )

(6)

De acordo com a restriÁ„o (6), o rendimento do indivÌduo vem do sal·rio e da seguranÁa social; com estes recursos, o agente pode adquirir: consumo no primeiro perÌodo, consumo no segundo perÌodo e lazer (o preÁo do lazer È o custo de oportunidade de n„o trabalhar). Para resolver o problema de maximizaÁ„o, recorre-se ao mÈtodo de otimizaÁ„o est·tica,

15

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

isto È, escreve-se a funÁ„o Lagrangeana:

L = ln( c 1 ) + m: ln(1 l ) + : ln( c 2 ) +

: (1 l ):w +

b

1 + r: (1 s ) (1 + c 1 ):c 1

(1 + c 2 ):c 2

1 + r: (1

s ) (1 l ):(1 l ):w

com o multiplicador de Lagrange.

As condiÁıes de Ûtimo ser„o,

Dividindo (8) por (7),

Dividindo (9) por (7),

De acordo com (10):

L c 1 = 0 ) 1 1 = : (1 + c 1 )

c

L c 2 = 0 ) = :

c

2

(1 + c 2 )

1 + r: (1 s )

m

L l = 0 ) 1 l = : (1 l ):w

:c 1 = 1 + c 2

1

c 2

:

1 + c 1 1 + r: (1 s )

m:c 1 l = (1 l ):w

1

1 + c 1

(7)

(8)

(9)

(10)

(11)

1. Uma maior taxa de imposto sobre os rendimentos do capital reduz a taxa de juro

apÛs impostos, r: (1 s ), levando a que o consumo no primeiro perÌodo aumente

relativamente ao consumo no segundo perÌodo (o r·cio c 1 =c 2 aumenta).

2. Um aumento da taxa de imposto sobre o consumo no perÌodo 1 induz menor consumo

no primeiro perÌodo relativamente ao consumo no segundo perÌodo (o r·cio c 1 =c 2

diminui).

3. Um aumento da taxa de imposto sobre o consumo no perÌodo 2 induz mais consumo

no primeiro perÌodo relativamente ao consumo no segundo perÌodo (o r·cio c 1 =c 2

aumenta).

De acordo com (11):

1. Um aumento na taxa de imposto sobre o rendimento do trabalho l reduz o sal·rio

apÛs impostos e reduz o consumo relativamente ao lazer ( c 1 = (1 l ) diminui).

2. Um aumento na taxa de imposto sobre o consumo no primeiro perÌodo c 1 reduz o

consumo relativamente ao lazer ( c 1 = (1 l ) diminui).

16

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

Com as relaÁıes (10) e (11) e a restriÁ„o intertemporal, pode obter-se valores explÌcitos

para os valores Ûtimos de c 1 , c 2 e l . O valor da poupanÁa pode ent„o ser determinado a

partir da primeira restriÁ„o do problema de Ûtimo. A soluÁ„o explÌcita para o tempo de

trabalho ser·:

l =

1 +

1 + + m

(1 + + m ):(1 l ):w

[1 + r: (1 s )] :m

:b

m : quanto mais o agente valoriza

o lazer (maior o valor de m ), menor a fraÁ„o de tempo afeta ao trabalho no ponto Ûtimo.

Com b > 0 , quanto maiores os benefÌcios sociais na reforma, menor ser· a oferta de

trabalho na vida ativa.

A soluÁ„o para as outras vari·veis aparece de forma relativamente simples considerando

b = 0 :

Para b = 0 (ausÍncia de seguranÁa social), l =

1+

1+ +

c

1 =

1 l

(1 + + m ):(1 + c 1 ) :w

c

2 = : (1 l ): [1 + r: (1 s )] (1 + + m ):(1 + c 2 )

:w

s =

: (1 l )

1 + + m :w

Observe-se que os impostos sobre o rendimento do trabalho reduzem o consumo nos

dois perÌodos e tambÈm a poupanÁa. Os impostos sobre os rendimentos do capital apenas

reduzem o consumo no segundo perÌodo. Os impostos sobre o consumo reduzem o consumo

no respetivo perÌodo.

Uma quest„o importante do ponto de vista macroeconÛmico È a da relaÁ„o entre sis-

tema Öscal e competitividade da economia, a qual se reáete, entre outros aspetos, na

capacidade de a economia gerar emprego e crescer. A evidÍncia revela que as diferenÁas

encontradas no mundo desenvolvido no que respeita ao crescimento das economias se de-

vem n„o tanto a discrep‚ncias nos nÌveis de produtividade mas sobretudo ‡ diferenÁa no

n˙mero de horas trabalhadas. Nomeadamente, o n˙mero de horas de trabalho nos paÌses

europeus È, regra geral, inferior ao observado nos EUA e nos paÌses do sudeste asi·tico, o

que ter· relaÁ„o direta com as diferenÁas de crescimento observadas (com a economia eu-

ropeia a crescer menos, em mÈdia, que as outras economias referidas ao longo das ˙ltimas

duas a trÍs dÈcadas).

No sentido de equacionar esta quest„o ‡ luz do modelo de agente representativo,

. Considere-se tambÈm uma funÁ„o de

produÁ„o Cobb-Douglas, y = Ak l 1 . Num mercado concorrencial, o sal·rio ser· igual ‡

produtividade marginal do trabalho: w = (1 ): y . Substituindo o sal·rio conforme ap-

:(1 ): y . Por Öm, resolve-se esta

recupere-se a condiÁ„o de Ûtimo m:c 1

= (1 l ) :w 1+ c 1

1

l

l

resentado na condiÁ„o de Ûtimo, obtÈm-se m:c 1

1

l

= (1 l )

1+ c 1

l

equaÁ„o em ordem a l (como sÛ se est· a considerar um perÌodo, c 1 e c 1 representam-se

por c e c ),

(12)

1

1 + m:(1+ c ) 1 l

: c

y

l =

2 (0; 1)

17

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

Como referido, os dados empÌricos mostram que na Europa, face a outras regiıes do mundo, a populaÁ„o ativa È menor e o n˙mero de dias de trabalho por ano tambÈm È mais reduzido. As explicaÁıes para esta evidÍncia podem ser procuradas na equaÁ„o (12). TrÍs possÌveis causas emergem: (i ) a preferÍncia por lazer na Europa pode ser superior (m maior); ( ii ) o r·cio consumo-rendimento pode tambÈm ser de mais elevado montante nos paÌses europeus; (iii ) poder· existir, no velho continente, uma taxa de

imposto, = 1 1 c , mais elevada. A observaÁ„o empÌrica empurra-nos essencialmente

para o ˙ltimo fator. A conclus„o È que grande parte da diferenÁa nas horas trabalhadas

entre Europa e o resto do mundo desenvolvido encontra-se no montante global de impostos:

quanto maiores l e c , menor o n˙mero de horas que os indivÌduos escolhem trabalhar.

O que aconteceu na Europa nas ˙ltimas dÈcadas foram subidas sistem·ticas de impostos,

que deprimiram signiÖcativamente a oferta de trabalho, com consequÍncias nefastas ao nÌvel do crescimento econÛmico e da manutenÁ„o dos nÌveis de bem-estar.

l

1+

6 SeguranÁa social e o sistema pay-as-you-go. As prestaÁıes sociais

Fundamentalmente existem dois sistemas de seguranÁa social alternativos que os Estados podem adotar. No sistema ípay-as-you-goí, os impostos sobre os rendimentos presentes s„o utilizados diretamente para pagar as pensıes daqueles que j· est„o numa situaÁ„o de reforma. Este sistema opıe-se ‡quele em que as contribuiÁıes atuais s„o poupadas (pelos prÛprios agentes ou pelo Estado) com as pensıes futuras pagas atravÈs desta poupanÁa, incluindo juros acumulados. No sistema ípay-as-you-goí, as contribuiÁıes correntes s„o usadas para consumo corrente dos mais velhos, enquanto que com um sistema Önanciado atravÈs da poupanÁa existir· uma correspondÍncia intertemporal entre as contribuiÁıes e

as prestaÁıes efetuadas pelas famÌlias. Retome-se o modelo de 2 perÌodos e considere-se o segundo perÌodo como o perÌodo de reforma (y 2 = 0). O problema din‚mico que se pode admitir para abordar a quest„o do funcionamento do sistema de seguranÁa social ser·

 

M ax ;s ln( c 1 ) + : ln( c 2 )

c 1 ;c 2

sujeito a

:

c 1 + s

=

(1 ):y

c 2 = (1 + r ):s + b

O problema apresentado pressupıe que, apesar de o agente representativo n„o trabal- har no perÌodo t = 2, ele recebe uma prestaÁ„o social de montante b 0. Esta prestaÁ„o social È Önanciada atravÈs de um imposto sobre o rendimento do trabalho no perÌodo t = 1; este imposto È de montante y . Neste contexto, interessa admitir que a populaÁ„o cresce ‡ taxa n e que o rendimento cresce ‡ taxa g (se ambas as taxas forem positivas, as geraÁıes

18

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

mais novas ser„o mais numerosas e ter„o rendimentos mais elevados). Pressupıe-se ainda

que o sistema de seguranÁa social tem um orÁamento equilibrado, o que signiÖca que

b = (1 + n ):(1 + g ): :y

(13)

Com n; g > 0 , os beneÖci·rios da seguranÁa social beneÖciar„o do facto de a populaÁ„o

crescer e do rendimento per capita crescer, o que faz aumentar as pensıes a que tÍm

direito. Caso contr·rio, no cen·rio n; g < 0, as contribuiÁıes para a seguranÁa social dar„o

lugar a benefÌcios futuros de montante inferior.

Tendo em conta a restriÁ„o orÁamental da seguranÁa social, as restriÁıes orÁamentais

dos agentes privados ser„o:

c 1 + s = (1 ):y

c 2 = (1 + r ):s + (1 + n ):(1 + g ): :y

de onde se obtÈm a restriÁ„o orÁamental intertemporal:

c 1 +

c 2

1 +

r = (1 ):y + (1 + n ):(1 + g ): :y 1 + r

(14)

Seja I := (1 ):y + (1+n) : (1+ g ) : :y . O problema de maximizaÁ„o conduz aos seguintes

1+ r

resultados Ûtimos:

c

1 =

1

1 + :I

c

2 =

1 + :(1 + r ):I

s = (1 ):y

1

1 + :I

Para entender o impacto do sistema de seguranÁa social ípay-as-you-goísobre a poupanÁa,

note -se que:

s = 1 + y

(1 + n ):(1 + g ) + : (1 + r )

(1 + ):(1 + r )

: y

Este valor decresce com , o que signiÖca que quanto maior o sistema p˙blico de ípay-

as-you-goí, menores ser„o as poupanÁas privadas. A descida da poupanÁa vai fazer diminuir

o investimento, a acumulaÁ„o de capital e o crescimento, donde o sistema ípay-as-you-goí

tem efeitos negativos de longo prazo.

Quanto ‡s consequÍncias da seguranÁa social sobre o bem-estar, veriÖca-se que a se-

guranÁa social trar· benefÌcios se Özer crescer o rendimento conjunto dos dois perÌodos, o

qual pode ser escrito como,

I = y + (1 + n ):(1 + g ) 1 + r

19

1 : y

(15)

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

Este valor crescer· se (1 + n ):(1 + g ) > 1 + r que È, aproximadamente, equivalente a:

n + g > r

Assim, se a taxa de crescimento da populaÁ„o mais a taxa de crescimento do rendimento

excedem a taxa de rendimento da poupanÁa, ent„o o agente beneÖcia de um sistema

de seguranÁa social ípay-as-you-goí. Se o agente poupa para a sua prÛpria reforma, a

sua poupanÁa ser· 1 + r ; se poupa via sistema de seguranÁa social, o seu retorno ser·

(1 + n ):(1 + g ) (mais gente, com rendimentos mais elevados, pagar· as reformas). Assim,

um sistema ípay-as-you-goífaz sentido em paÌses com elevado crescimento populacional e

elevado crescimento econÛmico. Em paÌses em que a populaÁ„o n„o cresce e o crescimento

do PIB È fraco, este sistema n„o È sustent·vel.

O problema da transiÁ„o de um sistema ípay-as-you-goípara um sistema privado em

que cada um paga a sua reforma via poupanÁa È que isso faz falhar uma geraÁ„o: ao abolir

o

sistema ípay-as-you-goíou a populaÁ„o ativa paga o dobro, para os reformados de hoje

e

para si prÛprios, ou ent„o os reformados de hoje nada recebem.

O sistema de seguranÁa social fornece um seguro aos agentes, nomeadamente um seguro

em relaÁ„o ao risco de os agentes viverem mais do que o esperado. Este argumento

pode tambÈm ser ilustrado atravÈs da adaptaÁ„o do modelo de referÍncia atÈ ao momento

apresentado. Seja p a probabilidade de sobrevivÍncia apÛs o primeiro perÌodo e, por

simpliÖcaÁ„o, ignore-se o desconto intertemporal. O agente resolve agora

sujeito a

c 1 + s

c 2

M ax ;s ln( c 1 ) + p: ln( c 2 )

c 1 ;c 2

:

= y

= (1 + r ):s

Nesta situaÁ„o n„o h· seguranÁa social e o agente n„o È altruÌsta: se ele morre no Öm

do perÌodo 1, as poupanÁas perdem-se sem que se gere qualquer utilidade. A restriÁ„o

orÁamental intertemporal vem:

c 2

c 1 +

1 + r = y

e a soluÁ„o do problema ser·:

c

1 =

1

1 + p :y ; c

2 =

p

1 + p :(1 + r ):y

Considere-se agora o mesmo agente, na presenÁa de um sistema de seguranÁa social.

As restriÁıes orÁamentais s„o:

c 1 + s = (1 ):y

c 2 = (1 + r ):s + b

20

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

A diferenÁa em relaÁ„o ao cen·rio anterior, a restriÁ„o orÁamental da seguranÁa social

reáete agora o facto de sÛ serem pagas prestaÁıes sociais a uma fraÁ„o p da segunda

geraÁ„o (1 p j· morreram). A restriÁ„o orÁamental intertemporal vem:

c 1 +

r = y + (1 + n ):(1 + g ) p:(1 + r )

c

2

1 +

1 : y

Neste caso, o agente beneÖcia do sistema ípay-as-you-goíse:

1) (1 + n ):(1 + g ) > 1 + r , independentemente do valor de p .

2) (1 + n ):(1 + g )

1 + r , desde que (1+ n) : (1+ g ) >

p

1 + r .

(16)

Aqueles que sobrevivem recebem benefÌcios mais elevados, e os que morrem n„o se

v„o importar de n„o receber nada. Este resultado signiÖca que pode existir um mercado

privado de seguranÁa social, pois por um sistema de arbitragem, a taxa de juro oferecida

pelas poupanÁas tende a ser r = n + g , o que È sempre vantajoso enquanto sistema de

seguranÁa social desde que p < 1. A ausÍncia de um mercado privado de seguranÁa social

relaciona-se com um problema de informaÁ„o assimÈtrica, nomeadamente de seleÁ„o ad-

versa : os agentes tÍm mais informaÁ„o sobre a sua esperanÁa de vida que as seguradoras,

e sÛ aqueles que representam um maior risco para as seguradoras (os que vivem mais

tempo) v„o ter interesse em subscrever o seguro, o que faz aumentar os prÈmios cobrados

pela seguradora, o que por seu lado reduz ainda mais o n˙mero daqueles que tÍm interesse

em segurar-se. Nesta perspetiva, este mercado pode simplesmente extinguir-se.

Para alÈm da seguranÁa social que paga as reformas daqueles que j· n„o trabalham,

existe um conjunto de outras prestaÁıes sociais que se destinam a cobrir determinados

riscos: de desemprego, de doenÁa e outros que diminuem temporariamente ou permanen-

temente os rendimentos dos agentes. Foquemos a atenÁ„o no subsÌdio de desemprego.

TambÈm na quest„o do desemprego encontramos grandes diferenÁas entre EUA e Europa;

no velho continente, a generosidade dos benefÌcios sociais (nomeadamente, do subsÌdio de

desemprego) È muito superior, e as taxas de desemprego de longo prazo s„o tambÈm muito

maiores [ver, por exemplo, Ljungqvist e Sargent (1998)].

O subsÌdio de desemprego È um seguro social importante, mas reduz o incentivo para

procurar novo emprego. H· aqui um problema de risco moral : o Estado atribui o subsÌdio

porque o indivÌduo n„o tem emprego, e o indivÌduo n„o procurar· emprego porque tem o

subsÌdio). O dilema do desemprego europeu foi criado pelo sistema generoso de subsÌdios

e pelo facto de a economia se encontrar em crescente mudanÁa, que torna difÌcil um

desempregado voltar a encontrar um emprego t„o bem pago como o anterior no mesmo

sector de atividade.

Para ilustrar a quest„o do desemprego, considere-se um modelo em que se admite,

novamente, dois perÌodos de tempo. No primeiro perÌodo, o agente tem emprego e um

sal·rio y 1 . No segundo perÌodo, pode ter um emprego e ganhar y 2 ou n„o ter emprego.

21

An·lise Din‚mica das FinanÁas P˙blicas

Para simpliÖcar considere-se = r = 0. A funÁ„o de utilidade È

U (