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ILA CoO MEL) Lemire i Pee a tg Se ee ee near ies! ae o7 INQUIETUDES NA POESIA DE DRUMMOND (..) le souci d’intervenir, d’opérer sur la matibre méme du language en obligeant les mots a livrer leur vie secréte et @ trahir le mystérieux commerce quwils entretiennent en dehors de leur sens. André Breton s dois primeiros livros de Carlos Drummond de Andrade sao construidos em torno de um certo reconhecimento do fato. O sentimento, os acontecimentos, o espetaculo mate- rial e espiritual do mundo sao tratados como se 0 poeta se limitasse a registra-los, embora 0 faca da maneira anticonvencional preconi- zada pelo Modernismo. Este tratamento, mesmo quando insélito, garantiria a validade do fato como objeto poético bastante em si, ni- velando fraternalmente o Eu e o mundo como assuntos de poesia. Trinta anos depois, no ultimo livro, Ligéo de coisas, volta o mesmo jo- go com o assunto, mas agora misturado a um jogo de maior requinte com a palavra. Em um e outro momento, o poeta parece relativamente sereno do ponto de vista estético em face da sua matéria, na medida em que nado poe em diivida (ao menos de maneira ostensiva) a integridade do seu ser, a sua ligagio com o mundo, a legitimidade da sua criagao. Mas de permeio, digamos entre 1935 e 1959, hd nele uma espécie de desconfianga aguda em relacgdo ao que diz e faz. Se aborda o ser, imediatamente lhe ocorre que seria mais valido tratar do mundo; se aborda o mundo, que melhor fora limitar-se ao modo de ser. E a poe- sia parece desfazer-se como registro para tornar-se um proceso, jus- tificado na medida em que institui um objeto novo, elaborado a cus- ta da desfiguragao, ou mesmo destruicdo ritual do ser e do mundo, para refazé-los no plano estético. Mas este distanciamento em re- lacdo ao objeto da criagdo agrava a duvida e conduz outra vez 0 po- eta a abordar o ser e o mundo no estado pré-poético de material bruto, que talvez pudesse ter mantido em primeiro plano, conser- vando 0 ato criador na categoria de mero registro ou notagio. VARIOS ESCRITOS 6k Tais perplexidades se organizam a partir de Sentimento do mundo e José, titulos que indicam a polaridade de sua obra madura; de un lado, a preocupa¢ao com os problemas sociais; de outro, com os pro blemas individuais, ambos referidos ao problema decisivo da expres sao, que efetua a sua sintese. O bloco central da obra de Drummon:! 6, pois, regido por inquietudes poéticas que provém umas das outras, cruzam-se e, parecendo derivar de um egotismo profundo, tem como conseqiiéncia uma espécie de exposicdo mitoldgica da personalidade. Isto parece contraditério, a respeito de um poeta que sublinha a prépria secura ¢ recato, levando a pensar numa obra reticente em fa ce de tudo que pareca dado pessoal, confissao ou crénica de experi éncia vivida, Mas é 0 oposto que se verifica. Hd nela uma constantc invasio de elementos subjetivos, e seria mesmo possivel dizer que toda a sua parte mais significativa depende das metamorfoses ou das projecées em varios rumos de uma subjetividade tirdnica, nao im porta saber até que ponto autobiogréfica.' Tiranica e patética, pois cada grao de egocentrismo é comprado pelo poeta com uma taxa de remorso e incerteza que o leva a querei escapar do eu, sentir e conhecer o outro, situar-se no mundo, a fim de aplacar as vertigens interiores. A poesia da familia ¢ a poesia social, muito importantes na sua obra, decorreriam de um mecanismo tin individual quanto a poesia de confissao e auto-andlise, enrolando-se tanto quanto elas num cu absorvente. ‘Trata-se de um problema de identidade ou identificagao do ser, «lc que decorre 0 movimento criador da sua obra na fase apontada, dando-lhe um peso de inquietude que a faz oscilar entre 0 eu, mundo e a arte, sempre descontente e contrafeita. A forca poética de Drummond vem um pouco dessa falta de natu ralidade, que distingue a sua obra, por exemplo, da de Manuel Ban deira. O modo espontaneo com que este fala de si, dos seus habitos. 11 Note-se que Drummond usa varias vezes o seu nome, Carlos, para indicar 0 pet sonagem dos poemas, prética bastante rara que, nele, talvez seja devida ao exemple de Mario de Andrade. Ver: PorMa DE SETE sACES - AP: © PASSARINIIO BELA ~ BAS Nike MATE - BA; CARREGO COMIGO ~ RP; Os ULTIMOS DIAS - RP. 69 INQUIETUDBS NA FOESLA DE DRUMMOND amores, familia, amigos, transformando qualquer assunto em poe- sia pelo simples fato de tocd-lo, talvez fosse uma aspira¢ao profunda de Drummond, para quem o eu é uma espécie de pecado poético inevitavel, em que precisa incorrer para criar, mas que o horroriza a medida que o atrai. O constrangimento (que poderia té-lo encurra- lado no siléncio) sé € vencido pela necessidade de tentar a expresso libertadora, através da matéria indesejada. Nao é de certo por gosto que o poeta morde esse fruto azedo, Na sua obra ha indicagdes de que lhe agradaria recuperar uma relativa eu- foria modernista, perdida depois de Brejo das almas, Ha, mesmo, a vontade tao freqiiente nos artistas de ver o mundo e as pessoas nos momentos de suspensio da pena e da angustia; momentos de “luxo, calma e deleite’, descritos por um grande torturado. Mas isso nao pa- rece possivel aos homens, t4o inexplicaveis, num poema seu, aos olhos tranqiiilos do boi que os observa da sua pastagem sem problemas. Frdgeis, agitados, constitufdos de pouca substancia, preocupados por coisas incompreensiveis, incapazes de viver em comunhao com a natureza, ficam tristes e, por isso, cruéis. Aderindo metaforicamente a visio do bicho, o poeta os vé quase como excrescéncias da ordem na- tural, que nao percebem, pois a inquietagao os dobra sobre si mesmos: ... Coitados, dir-se-ia que nao escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem nao enxergar o que é visfvel ecomum a cada um de nds no espago, (UM Bor VE Os Homes - CE)* Essa incapacidade de aderir 4 vida, acentuando as barreiras entre nés e ela, define o eu geralmente expresso pela primeira pessoa nos 2. Depois do titulo de cada poema citado, vem a sigla do livro ou coletanea a que per- tence, a saber: AP - Alguma poesia; BA - Brejo das almas, SM - Sentimento do mundo, J - José, RP - Rosa do pove; NP - Novos poemas, CE - Claro enigma; FA - Fazendeiro do ar, VB - Viola de bolso; VBE - Viola de bolso novamente encordoada; VPL - Vida passada a limpos LC ~ Ligao de coisas. VARIOS ESCRITOS versos de Drummond. Os homens que turbam a contemplagiu du boi sao, como aquele eu, “enrodilhados”, “tortos”, “retorcidos” - part usar os epitetos com que o poeta designa a inadequacao e, em con seqiiéncia, o movimento de volta sobre si. As inquietudes que tentaremos descrever manifestam o estado ik espirito desse “cu todo retorcido”, que fora anunciado por “um ijn torto” e, sem saber estabelecer comunicagio real, fica “torto no se! canto’, “ ‘torcendo-se calado”, com seus “pensamentos curvos” € 0 set “desejo torto’, capaz de amar apenas de “maneira torcida”’ Na obi de Drummond, essa torgio é um tema, menos no sentido trail! cional de assunto, do que no sentido especifico da moderna psicul gia literaria: um nucleo emocional a cuja volta se organiza a experi éncia poética. 2 Para sentir as inquietudes que este tema condiciona basta abrir um livre como Rosa do povo, onde as suas modalidades explodem, fundindo as perspectivas sociais de Sentimento do mundo e as pers pectivas mais pessoais de José - que parecem duas séries convel gentes, formando esta culminancia Irica. Tomemos, para fixar ain idéias, o poema VeRsos 4 BOCA DA NOITE ~ RP: Sinto que o tempo sobre mim abate sua mao pesada, A este encadeamento opressor de oclusivas, atuando com a dures do inevitavel, seguem dezesseis estrofes de quatro versos, com 111) verso final (como se se tratasse de terga-rima), Elas desenvolvem uni meditacao da idade madura sobre a insatisfagao do individuo con sigo mesmo, a nostalgia de um outro eu que nao pode ser ¢ a per 3.1 Us ru Topo REToxcin9 0 titulo geral com que o poeta reuniu na Antologia pacts ¢a, por ele organizada, os poemas de andlise da persomalidade. As demais expresso se encontram nos poemas seguintes: Pormas DE seve FACES - APs SECREDO - BAS O J; CANTO EsPONJOSO ~ NP5 Canta - CE, n INQUIETUDES NA POESIA DE DRUMMOND plexidade que leva a explorar o arsenal da meméria, a fim de ela- borar com ela uma expressao que, sendo uma espécie de vida alter- nativa, justificasse a existéncia falhada, criando uma ordem facil, uma regularidade que ela nao conheceu. Sentimos entdo um problema angustioso: se o alvo da poesia ¢ 0 proprio eu, pode esta impura matéria privada tornar-se, na sua con- tingéncia, objeto de interesse ou contemplagao, vilido para os ou- tros? A pergunta reaparece periodicamente na obra de Drummond. Aqui, desenvolve-se do modo seguinte: 0 eu que paderia ter sido nao foi. O passado, trazido pela meméria afetiva, oferece farrapos de seres contidos virtualmente no eu inicial, que se tornou, dentre tantos outros possfveis, apenas o eu insatisfatério que €. Ora, 0 pas- sado é algo ambiguo, sendo ao mesmo tempo a vida que se con- sumou (impedindo outras formas de vida) e © conhecimento da vida, que permite pensar outra vida mais plena. E portanto com os fragmentos proporcionados pela meméria que se torna possivel construir uma visdo coesa, que criaria uma razao de ser unificada, redimindo as limitagdes e dando impressio de uma realidade mais plena. Esta razdo de ser poderia consistir na elaboragao da obra de arte, que se apresenta como unidade alcangada a partir da variedade ¢ justifica a vida insatisfatéria, 0 sofrimento, a decep¢aa e a morte que aproxima: Que confusao de coisas ao creptisculo! Que riqueza! sem préstimo, é verdade. Bom seria capta-las e compé-las num todo s4bio, posto que sensivel: uma ordem, uma luz, uma alegria paixando sobre o peito despojado. B jd nao era o furor dos vinte anos nem a rentincia as coisas que elegeu, mas a penetragao de lenho décil, um mergulho em piscina, sem esforgo, VARIOS ESCRITOS um achado sem dor, uma fusao, tal uma inteligéncia do universo comprada em sal, em rugas e cabelo. Este poema foi escrito exatamente na fase em que o autor, procu- rando superar 0 lirismo individualista, praticou um lirismo social € mesmo politico de grande eficacia. E pois a fase em que questio nou com maior ansia a exploragdo da subjetividade. Tera o artista 0 direito de impor aos outros a sua emogao, os pormenores da sua vida? O “sentimento do mundo” néo exige a rentincia ao universo individual das lembrancas do passado e das emogdes do presente? Terdo elas justificativas se o poeta souber ordend-las numa estru- tura que ofere¢a aos outros uma visio do mundo, permitindo-lhes organizar a sua propria? Tais problemas passam em VERSOS A BOCA Da Noir, ligando mais dois temas ao da insatisfacao consigo mesmo: 0 da validade da poesia pessoal e o da natureza do verbo poético. Na obra de Drummond a inquietude com o eu vai desde as for- mas ligeiras do humor até a autonegacdo pelo sentimento de culpa — que nela é fundamental como tipo de identificagdo da per- sonalidade, manifestando-se por meio de tragos duma saliéncia baudelaireana: Tenho horror, tenho pena de mim mesmo e tenho muitos outros sentimentos violentos, (EstRaMBOTE MELANCOLICO - FA) As manifestacdes indiretas sao talvez mais expressivas, como a fre- qiiéncia das alusdes A nausea, A sujeira, ou o mergulho em estados angustiosos de sonho, sufocacao e, no caso extremo, sepultamento, 73 INQUIETUDES NA POESIA DE DEUMMOND chegando ao sentimento da inuma¢ao em vida.‘ Este tema, que se po- deria chamar de emparedamento, manifesta uma opressao do ser que chega a assumir a forma de morte antecipada, visivel na fase mais recente da sua obra.’ Em compensagio, pode dar lugar 4 exumagio do passado, transformando a meméria numa forma de vida ou de ressurreicao dum pretérito nela sepultado, como indica o movimen- to de redencdo pela poesia, assinalado em VERSOS A BOCA DA NOITE. E assim vemos a sua obra constituir-se na medida em que opera a fusio dos motivos de morte e criagao (negacao e afirmacao). Nao, todavia, sem passar por formas ainda mais drasticas do senti- mento de culpa, indo ao limite da negagao do ser, expressa pelo tema da automutilacao.’Esta parece atenuada no humorismo dcido a respeito da queda de dentes e cabelos (em Drntapuras DupLas - SM, por exem- plo); mas alcanga uma agressividade inquietadora em certos simbolos, como o brago decepado de MoviMENTo Da ESPADA - RP ou a mio suja: Minha mio est suja. Preciso corté-la. Nao adianta lavar. A Agua esta podre. Nem ensaboar. O sabao é ruim. A mao esta suja, suja hd muitos anos. (A MAO sua - J) Na sua impureza sem remédio, a “mao incurdvel” polui o ser, im- pede o contacto com o semelhante e cria a ansia de purificagao. Ao “sujo vil’, o 4 | Ver os poemas: NoTuRNa ovRIMTNO - Js PASSAGEM DA NOITE - RP3 UMA HORA E MAIS OUTRA - RP5 © POETA RSCOLUE 0 SEU TUMULO ~ RP; O ENTERRADO VIVO - FA; ELEGIA - FA. wo - FA; 0 ja citado Execia. 5 1 Ver, por exemplo, FRAGA £ SOMBRA - 61 Ver: DENTADURAS DUFLAS - SMj A mao sura - Jy Nosso TRMro - RP; UMA HOMA E Mats owTRa - RP; MOVIMENTO DA BsPADA - RP; INDICACOES - RP. VARIOS ESGRITOS rz) triste sujo feito de doenga e de mortal desgosto na pele enfarada. opde-se 0 “cristal ou diamante’, em que por maior contraste quisera tornd-la. Opée-se, principalmente, a limpeza natural das coisas, a normali dade das relagdes: uma simples mao branca, mao simples de homem, que se pode pegar e levar a boca ou prender a nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra... Deste estado de animo resulta um destaque da mAo-consciéncia que na tiltima estrofe aparece moralmente separada do Corpo, quase auténoma como num quadro surrealista, permitindo a imagem fi nal da substituicao, do advento de outra, sintética e limpa na sua ar tificialidade: Inttil reter aigndbil mao suja posta sobre a mesa. Depressa, cortd-la, fazé-la em pedagos ¢ jogd-la ao mar! Com o tempo, a esperanca "5 INQUIETUDES NA POESIA DE DRUMMOND e seus maquinismos, outra mao vird pura —, transparente — colar-se a meu brago. A redengao pela mutilagio de um eu insatisfatério aparece em tonalidade sangrenta e triunfal no citado MovimeNTo DA ESPADA, onde o sacrificio do eu culposo condiciona 0 acesso a solidariedade, que é a humanidade verdadeira: Estamos quites, irmao vingador. Desceu a espada e cortou o brago. Cé esta ele, molhado em rubro. Déi o ombro, mas sobre o ombro tua justiga resplandece. 4 ‘A consciéncia crispada, revelando constrangimento da personali- dade, leva o poeta a investigar a maquina retorcida da alma; mas tam- bém a considerar a sua relagdo com 0 outro, no amor, na familia, na sociedade. E as relagdes humanas lhe parecem dispor-se num mundo igualmente torto. ‘Talvez fosse excesso de fantasia dizer que as prdprias condigées de in- teligéncia do mundo —o tempo e oespaco — acompanham a deformacao do eu retorcido, em notagdes como: “ondas de éter / curvas, curvas’, “curva de um jardin’, “curva da noite’; “adunca pescaria’, “curva peri- gosa dos cingiienta’, “curva desta escada’, “linha curva que se estende’” Mas nao ha diivida de que para o poeta o mundo social ¢ torto de iniqiidade e incompreensao. Seja uma deformacao essencial, seja uma deformarao circunstancial (o poeta parece oscilar entre as duas possibilidades), 0 fato é que ela se articula com a deformagio do individuo, condicionando-a e sendo condicionada por ela. 7 | Respectivamente: Um HoMEM E Sev CARNAVAL = BA; VERSOS A BOCA DA NOITE - RP} O Lutapor - J; Domicti1o - FAs O Quarto Ew pesoRDEM - FAs Escana - FA; NUDEZ -VPL. VARIOS ESCRITOS vo Esta reciprocidade de perspectivas, para falar como os sociéloyi.. aparece, desde as manifestac6es iniciais e ainda indecisas do tema du mundo torto, em dois motivos tratados freqttentemente com humu rismo: 0 obstaculo e o desencontro. Para o jovem poeta de Alguma poesia, para o poeta mais maduro. de Brejo das almas, a sociedade oferece obstdculos que impedem « plenitude dos atos e dos sentimentos, como no poema que se tornou Paradigma, No MEIo DO CAMINHo - AP: No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. A leitura optativa a partir do terceiro verso (que se abre para os dois lados, sendo fim do segundo ou comego do quarto), confirma que o meio do caminho é bloqueado topograficamente pela pedr.i antes e depois, e que os obstaculos se encadeiam sem fim. Da barreirii que formam, vem de um lado a restrigao que o mundo opée ao eu « € uma das forgas que o levam a torcer; de outro lado, o desentendi mento entre os homens, cada um “torto no seu canto” (SEGREDO BA). J no primeiro livro, ainda em tonalidade humaristica, o poema Quaprittia - AP fala de amores nao correspondidos que se enc deiam numa série aberta sem reciprocidade: Joao amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que nao amava ninguém. Noutros poemas vemos relacdes mecdnicas manifestando-se por exemplo na visita burguesa convencional, episédio de uma rotina sem alma, de que ninguém gosta mas da qual ninguém escapa (So CIEDADE - AP). O obstaculo e o desencontro caracterizam uma espécie de mundo avesso, onde os atos no tém sentido ou se processam ao contrario, 7 INQUIETUDES NA POESIA DB DRUMMOND como no simbolo perverso de um Papai Noel que entra pelo fundo da casa e furta os brinquedos das criancas adormecidas (Psra1 NOEL As avessas - AP). Desde o inicio, pois, era visivel na poesia de Drummond a idéia de que, para usar a expresso de um personagem de Eca de Queirés, vi- vemos num “mundo muito mal feito”. Esta idéia vai aumentando, até que do mundo avesso do obstaculo e do desentendimento surja a idéia social do “mundo caduco’, feito de instituices superadas que geram o desajuste ea iniquidade, devido aos quais os homens se enro- ditham na solidao, na incomunicabilidade e no egoismo. A sufocagao do ser, que vimos sob as formas do emparedamento e da mutilagao no plano individual, aparece no plano social como medo — motivo importante na tomada de consciéncia do poeta em sua maturidade. © medo paralisa, sepulta os homens no isolamento, impede a queda das barreiras e conserva o mundo caduco. CONGRESSO INTERNACIONAL po MEDO - SM, construido segundo o mesmo processo de saturacao da palavra-chave empregado em No MELO DO CAMINHO, descreve essa paralisia que se estende a todos os niveis, todos os lugares, todos os grupos, para terminar na paralisia geral da morte: depois morreremos de medo e sobre nossos tumulos nascerao flores amarelas e medrosas. Mais tarde, 0 pocta chegara a representar um mundo fabulosa- mente construido com o temor, que se torna matéria das coisas e dos sentimentos, lei das agdes e ordem do universo: E foros educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos. (ou) Faremos casas de medo, duros tijolos de medo, VARIOS ESCRITOS mn medrosos caules, repuxos, Tuas s6 de medo e calma. () Nossos filhos tao felizes... Fiéis herdeiros do medo, cles povoam a cidade. Depois da cidade o mundo. Depois do mundo as estrelas, dangando o baile do medo. (© MEDO - RP} A consciéncia social, e dela uma espécie de militincia através da poesia, surgem para o poeta como possibilidade de resgatar a cons ciéncia do estado de emparedamento e a existéncia da situacao de pavor. No importante poema A FLOR E A NAUSEA - RP, a condicao in dividual e a condicao social pesam sobre a personalidade e fazem-na sentir-se responsavel pelo mundo mal feito, enquanto ligada a uma classe opressora. O ideal surge como forca de redengio e, sob a forma tradicional de uma flor, rompe as camadas que aprisionam, Apesar da distorgo do ser, dos obstdculos do mundo, da incomunicabili dade, a poesia se arremessa para a frente numa conquista, confundi da na mesma metéfora que a revolugao: Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, 6nibus, rio de ago do trafego. Uma flor ainda desbotada ilude a policia, rompe o asfalto, Facam completo siléncio, paralisem os negécios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor nao se percebe. Suas pétalas nao se abrem. Seu nome nao esté nos livros. E feia. Mas é realmente uma flor. 79 INQUIBTUDES NA POESIA DE DRUMMOND Sento-me no chao da capital do pais as cinco horas da tarde e lentamente passo a mao nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maci¢as avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em panico. E feia, Mas é uma flor. Furou o asfalto, 0 tédio, o nojo € 0 édio. Essa fungao redentora da poesia, associada a uma concepcao socia- lista, corre em sua obra a partir de 1935 e avulta a partir de 1942, como participacdo e empenho politico. Era o tempo da luta contra © fascismo, da guerra de Espanha e, a seguir, da Guerra Mundial — conjunto de circunstancias que favoreceram em todo 0 mundo o incremento da literatura participante. As convicgées de Drummond se exprimem com nitidez suscitando poemas admiraveis, alusivos tanto aos principios, simbolicamente tratados, quanto aos aconteci- mentos, que ele consegue integrar em estruturas poéticas de manei- ra eficaz, quase tinica no meio da aluvido de versos pereciveis que ento se fizeram. Mas do ponto de vista deste ensaio, a sua poesia social nao é devi- da apenas A convicco, pois decorre sobretudo das inquietudes que © assaltam. © sentimento de insuficiéncia do eu, entregue a si mes- mo, leva-o a querer completar-se pela adesdo ao préximo, substitu- indo os problemas pessoais pelos problemas de todos, No livro Sentimento do mundo, a mao, que simboliza a conscién- cia, aparece de inicio como algo que se completa, se estende para o semelhante e deseja redimi-lo. Como o poeta traz 0 outro no proprio ser carregado de tradicées mortas, a redengao do outro seria como a redencao dele préprio, justificado por essa adesao a algo exterior que ultrapassa a sua humanidade limitada. A poesia consistiria em trazer em si os problemas do mundo, manifestando-os numa espé- cie de aco pelo testemunho, ou de testemunho como forma de acao através da poesia, que compensa momentaneamente as fixagdes individualistas do “eu todo retorcido”. VARtos ESCRITOS Wo Tenho apenas duas mios € 0 sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembrangas escorrem € 0 corpo transige na confluéncia do amor. (SENTIMENTO DO MUNDO - SM) A idéia de escravo (de homem privado dos meios de humaniz.t se) combina-se com a idéia de rua, praca, cidade (isto 6, 0 espaco soc iui! em que se define a sua alienacao) e ambas convergem na idéia de “mundo caduco”, ELecta 1938 - SM — mundo cujas normas nao tem mais razao de ser. O poeta reage a esta série de constatages que ali mentam a tomada de consciéncia de Sentimento do mundo, recusan do os temas do lirismo tradicional e dispondo-se a partilhar, pelo espirito, da fabricagao prodigiosa de um mundo novo anunciady pelos acontecimentos, que descreve em poemas admiraveis, utili zando simbolos como as maos dadas, a aurora, a flor urbana, os ma tizes de vermelho, o sangue redentor, 0 operdrio que anda sobre © mar, manifestando uma era de prodigios. Assim, pode rever a escala da personalidade em relacao ao mundo; e desta verificagao resulta acréscimo de compreensao do eue domun do, inclusive da relagdo entre ambos, o que dara nova amplitude a sua poesia. Na fase mais estritamente social (a de Rosa do pove), notamos, por exemplo, que a inquietude pessoal, ao mesmo tempo que se aprofunda, se amplia pela consciéncia do “mundo caduco” pois o sentimento individual de culpa encontra, sendo consolo, av menos uma certa justificativa na culpa da sociedade, que a equilibra € talvez em parte a explique. O burgués sensivel se interpreta em fungao do meio que o formou e do qual, queira ou nao, é soliddrio. (“Assim nos criam burgueses”, diz o poema O Epo). O desejo de transformar 0 mundo, pois, é também uma esperanga de promover a modificagao do préprio ser, de encontrar uma desculpa para si mesmo. E talvez esta perspectiva de redencao simultinea explique a eficacia da poesia social de Drummond, na medida em que (Otto 81 INQUIETUDES NA POESIA DE DRUMMOND Maria Carpeaux ja o disse faz tempo) ela é um movimento coeso do ser no mundo, nao um assunto, mediante o qual um vé 0 outro. O seu cantar se torna realmente geral porque é, ao mesmo tempo, pro- fundamente particular. Isto nao aplaca a inquietude, mas favorece a nocdo de que o eu estrangulado é em parte conseqiiéncia, produto das circunstancias; se assim for, o eu torto do poeta ¢ igualmente uma espécie de subje- tividade de todos, ou de muitos, no mundo torto. Mesmo que nao contribua para redimir o personagem que fala na primeira pessoa, a destruigao do velho “mundo caduco” poderia arrastar consigo as condig¢Ges que geram consciéncias estranguladas, como a sua. Ent&o, meu cora¢do também pode crescer. Entre o amor e 0 fogo, entre a vida e o fogo, meu coragao cresce dez metros e explode. — © vida futura! nés te criaremos. (MUNDO GRANDE - SM) O advento da sociedade justa seria uma espécie de “toque real”, co- mo, num soneto contido e obscuro de W. H. Auden, o contacto mi- lagroso dos reis taumaturgos, curando as dores e mutilages do tem- po. Ends vemos que a destruicao do “mundo caduco” é nao apenas convicgao politica, mas um modo de manifestar 0 grande problema da “terra gasta’, que T. S. Eliot propés logo apés a Primeira Guerra Mundial e tem nutrido muito da arte contemporanea — até as for- mas mais agudas do desespero por esterilidade - na poesia, no ro- mance, no teatro e no cinema. A poesia social de Drummond deve ainda a sua eficdcia a uma es- pécie de alargamento do gosto pelo quotidiano, que foi sempre um dos fulcros da sua obra e inclusive explica a sua qualidade de excelente cronista em prosa. Ora, a experiéncia politica permitiu transfigurar © quotidiano através do aprofundamento da consciéncia do outro. Superando o quc ha de pitoresco ¢ por vezes anedético na fixagao da vida de todo o dia, ela agugou a capacidade de apreender o destino YARIOS ESC ‘os rr individual na malha das circunstincias e, deste modo, deu lupin a uma forma peculiar de poesia social, néo mais no sentido polftica, mas como discernimento da condic¢aéo humana em certos draniwa corriqueiros da sociedade moderna. A poesia fugiu dos livros, agora est nos jornais. (CarTA A SyALINGRADO - RP) Este verso manifesta a faculdade de extrair do acontecimento ain da quente uma vibrac4o profunda que o liberta do transitério, inn crevendo-o no campo da expressdo. E o que faz Drummond, iii apenas com os sucessos espetaculares da guerra e da luta social, nian com a morte do entregador de leite baleado pelo dono da casa, que o tomou por um ladrao (Mortz po LEITERRO - RP); com 0 antinen que pede noticias da moa desaparecida (DesaPARECIMENTO DF LUA Porro - NP); sobretudo com o homem da grande cidade que val cumprindo maquinalmente as obrigagSes do dia para morrer a noite, na maquina que o arrebatou (MorTE NO AVIAO - RP), Sob esse aspecto, a sua poesia difere da de outros modernistas, int clusive Mario de Andrade, que tentam fixar o quotidiano a fim de obterem um momento poético suficiente em si mesmo; ele, a6 con trario, procede.a uma fecundagao ea uma extensio do fato, para che gar a uma espécie de discreta epopéia da vida contemporanea. Ist talvez se ligue 4 capacidade de injetar fantasia nas coisas banais, a maneira do jovem que, no poema SENTIMENTAL - AP, escreve o nonw da namorada com as letras de macarrao da sopa; e também ao sexlu sentido que o faz traduzir a anedota na linguagem do mito edo nho, como a CANGAO DA MOGA FANTASMA DE BELO HORIZONTE - SM, inspirada numa historieta macabra muito corrente a certa altura. Alias, é através do sonho que 0 poeta nos introduz numa ouliin grande manifestacao de sta inquietude: a busca do passado através da familia e da paisagem natal: 03 INQUIETUDES NA FOBSIA DE DRUMMOND No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mao. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Nao era dia nem noite. Suspiro? V6o de passaro? Porém nada dizia. (VIAGEM NA PAMILIA - J) Este poema abre um ciclo anunciado por alguns poemas anterio- res e desenvolvidos paralelamente 4 poesia social, prolongando-se todavia depois dela, num ritmo de obsessao crescente. E é sem duvi- da curioso que o maior poeta social da nossa literatura contempo- ranea seja, ao mesmo tempo, o grande cantor da familia como gru- po e tradicao. Isto nos leva a pensar que talvez este ciclo represente na sua obra um encontro entre as suas inquietudes, a pessoal e a social, pois a familia pode ser explicacio do individuo por alguma coisa que o supera e contém. Além disso, se observarmos a cronolo- gia de sua obra, verificaremos que ¢ precisamente 0 agu¢amento dos temas de inquietude pessoal e o aparecimento dos temas sociais que o levam & sua peculiarissima poesia familiar, tio diversa, por exem- plo, da convivéncia lirica de Manuel Bandeira com a memédria dos avés, pais e parentes mortos. No primeiro livro, o poema inicial, jé citado, define o modo de ser constrangido, de alguém que “um anjo torto” mandou “ser gauche na vida’; j4 0 seguinte introduz a familia, apresentada num pequeno quadro evocative, um daqueles cromos tradicionais que os moder- nistas gostavam de refazer na chave do humorismo, do prosaismo ou do paradoxo (Inrancta - BA). Mas apenas no terceiro livro surge uma espécie de premonigao da sua futura poesia familiar, no poema Os MORTOS DE SOBRECASACA - SM: Havia a um canto da sala um album de fotografias intoleraveis, alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, VARIOS ESCRITOS ” em que todos se debrugavam na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes e roeu as paginas, as dedicatérias e mesmo a poeira dos retraten S6 nao roeu o imortal solugo de vida que rebentava que rebentava daquelas paginas. A hipérbole do segundo verso mostra que o album é ao mesinu tempo um jazigo, e a ambigtiidade se prolonga pela ac4o dos verin's na estrofe seguinte, resultando o sentimento de que os antepassitilan possuem uma humanidade que permanece viva, apesar da destrui g40 corporal. Entre eles e 0 poeta se esboga aqui um primeiro fren to misterioso, comunicando a vida com a morte, o descendente com 0 ascendente, de modo a estabelecer um sistema de relagGes e ante cipagGes que a poesia ulterior desenvolvera. A obsesso com os mortos aparecera no poema Os rosTos IMaV IN - J, do livro seguinte. Ao mesmo tempo se delineia a figura do put (que serd a obsessdo maxima deste ciclo) no poema Epiricro Esti 1 por - J, expandindo-se e combinando-se ao tema da cidade natal, ja manifestado anteriormente em V1AGEM NA FAMILIA. A partir daf o tema do pai avulta como fixagao, de sentido ao mes mo tempo psicolégico e social, tanto mais quanto nessa fase a mae sth aparece episodicamente duas vezes, transferindo-se a sua fungao para a casa ou a cidade. E tao viva esta presenca de cunho patriarcal, que uma balada como Caso po vestino - RP, completamente desligad. das lembrancas individuais e da poesia familiar, chega a parecer un..t espécie de micleo desse poderoso complexo. Das brumas de um liris mo quase folclorico, surge nela o patriarca devorador que esmaga seus e imp6e a propria veleidade como lei moral. Os outros poems em que aparece o pai, diretamente referido como o do poeta, lembram uma espécie de esconjuro, de rito péstumo, feito para ao mesmu tempo aplacar, humanizar e compreender este modelo extrenw. Tanto mais quanto, a certa altura, o pai individualizado vai cedenilo lugar a realidade maior que lhe da razo de ser e para a qual ia como 85 INQUIRTUDES NA POESIA DE DRUMMOND que arrastando o filho, isto é, 0 grupo familiar, dominado pelos an- cestrais, fundido na casa, na cidade, na provincia, na realidade dum passado que parece integro a distancia e compensa o ser dividido no mundo dividido. Esta busca é um dos alvos do poeta, embora nao deixe de ser paradoxal para quem dissera: O tempo é a minha matéria, 0 tempo presente, os homens presentes a vida presente. (MAos papas - SM) Todavia, é deste e outros paradoxos que se nutre a sua obra: a ob- sesso simultanea de passado e presente, individual e coletivo, iguali- tarismo e aristocracia. Sem o conhecimento do passado ele nao se si- tua no presente; a familia define e explica o modo de ser, como a ca- sa demarca e completa o individuo no meio dos outros: Uma parede marca a rua eacasa. E toda protegao, docilidade, afago. Uma parede se encosta em nés, e ao vacilante ajuda, ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite, o medo imemorial, os inspetores da penitencidria, os cagadores, os vulpinos. Mas a casa é um amor. Que paz nos méveis. (ONDE H& POUCO FALAVAMOS - RP) Sob este aspecto, o poema capital é Os BENS E 0 SANGUE - CE, que estabelece a ligacao entre o passado da familia e o presente do indi- viduo, através da forma altamente significativa de um testamento. Os antepassados fazem certos negécios que destruirao expressamente © patriménio familiar, para assim conformarem o destino do neto. VERSOS A BOCA DA NoITE estabelecia a hipdtese condicional de um outro eu que poderia ter sido, e cuja existéncia ficara como pura vir- tualidade no mundo da infancia, entre “os idolos de rosto carregado”, isto é, os maiores ¢ seus valores, a partir dos quais a vida se desenrolou. VARIOS scRITOS ry Em Os BENS E 0 SANGuE, parece confirmar-se que outro modo de ser te1 111 sido impossivel, pois o que existe jé fora predeterminado desde seny« ua propria natureza da famflia que o gerou. O extraordindrio poder i grupo familiar consistiria em excluir qualquer outro modo de ser p.u1.1 o descendente; consistiria numa imanéncia todo-poderosa que Ih. traca bitolas e explica por que ele precisa dela para compreender «1 «1 mesmo, na sua natureza e nas suas relagdes. Reciprocamente, 0 scur destino completa e explica o da familia, que também nao poderia tt sido outro, No citado poema, a peroracao coral dos antepassados fes o debate sobre o ser e o ndo-ser, que até entdo avultava na poesia ile Drummond, fechando 9 circuito do individuo e das suas origens: © desejado, 6 poeta de uma poesia que se furta ¢ expande 4 maneira de um lago de pez e residuos letais... Es nosso fim natural e somos teu adubo, tua explicacao e tua mais singela virtude... Pois carecia que um de nés nos recusasse para melhor servir-nos. Face a face te contemplamos, e é teu esse primeiro e timido beijo em nossa boca de barro e sarro. Ja ficou dito que todas essas inquietagdes (material sobre que tri balha o poeta) adquirem validade objetiva pelo fato de se vincul: yem a uma outra: a meditacao constante e por vezes nao meno. angustiada sobre a poesia. A natureza e situagio do ser, 0 problema do homem retorcido enrodilhado, que tenta projetar-se no mundo igualmente torto, ¢ grave pela paralisia que pode trazer, anulando a existéncia. O movi mento, isto é, a vida, estaria numa espécie de certeza estética, relati va a natureza do canto que redime; e que, no préprio fato de mani 87 INQUIRTUDES NA FORSIA DX DRUMMOND, festar o problema por intermédio de uma estrutura coerente, erige- se em objeto — alheio ao poeta, auténomo na sua possibilidade de fixar a atencdo e fazer vibrar 0 leitor, que é 0 outro, inatingivel no comércio da vida. Por isso, VeRsOs A BOCA DA NOITE termina por uma espécie de desejo de realizar algo completo em si, que fosse uma realizag4o nos dois sentidos: 6 psicolégico e a artesanal. Por meio do objeto poético institufdo, o eu do poeta se dissolve como psicologia, desfigurado pela transposicao criadora, a fim de propiciar um sis- tema expressivo, do qual foi apenas a semente. Mas ao longo da obra de Drummond, nao observamas a certeza estética, nem mesmo a esperanga disto, e sim a diivida, a procura, o debate. A sua poesia é em boa parte uma indagacao sobre 0 proble- ma da poesia, e é natural que esta indaga¢do encontre uma espécie de divisor de aguas em Sentimento do mundo, que também aqui marca os seus caminhos novos. No livro inicial, domina a idéia de que a poesia vem de fora, é dada sobretudo pela natureza do objeto poético, segundo a reconsideracao do mundo gracas 4 qual os modernistas romperam com as convengGes académicas. Drummond comega por integrar-se nesta orientacao, fazendo o valor da poesia confundir-se com o sentimento poético e reduzindo em conseqiiéncia o poema a um simples condutor: Gastei uma hora pensando um verso que a pena nao quer escrever. No entanto ele esté c4 dentro inquieto, vivo. Ele esta ci dentro endo quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. (Porsia - AP) A poesia parece (para usar uma definicao sua dessa fase) “aconte- cer” sob o estimulo do assunto, de tal maneira que lhe é coextensi- va; faz-se pelo simples registro da emo¢ao ou da percep¢io: VARIOS ESGRITOS HM Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida © mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem comego. A mio que escreve este poema nao sabe o que esta escrevendo mas € possivel que se soubesse nem ligasse. (POEMA QUE ACONTECEU - AP) No poema Exp1icacao - AP, a atividade poética chega a parecer uma espécie de desabafo que se justifica pelo prazer, 0 alivio oua ali vidade que proporciona. Essa indiscriminagao comega a ser posta em ditvida no pequeno poema Secrepo - BA, do segundo livro, em que a legitimidade da poesia é bruscamente questionada, como se a poeta descobrisse que os temas nao importam em si mesmos, destacados da palavra que os traz ao mundo do poema. E que, portanto, nao se trata apenas de encontrar a nota¢do adequada, mas de saber se ela se justifica por um outro sentido, que a contém e ocasiona uma expressao valida por si. O tema da inquietagao transporta-se para o dominio estéti- oO, € Os assuntos mais consagrados (o amor, a polis, o milagre, a re- dengao) parecem eventualmente nulos como fontes do poema, que daqui a pouco encontrar justificativa, para o poeta, ndo como referéncia a um objeto, mas como expresso que se torna ela propria uma espécie de objeto. A poesia é incomunicavel. Fique torto no seu canto. Nao ame. Ouco dizer que hd tiroteio ao alcance do nosso corpo. 89 INQUIETUDES NA POESIA DE DRUMMOND Ea revolugao? 0 amor? Nao diga nada. Tudo € possivel, s6 eu impossivel. O mar transborda de peixes. H4 homens que andam no mar como se andassem na rua. Nao conte. Suponha que um anjo de fogo varresse a face da terra € os homens sacrificados pedissem perdao. Nao pega. Neste poema, o “homem torto” manifesta o problema da incomu- nicabilidade, tanto no plano da existéncia quanto no da criagao. A partir dai observaremos uma dissociagio relativa dos dois planos, e 0 poeta aborda o problema de poesia de modo especial, numa posi- go que poderiamos chamar mallarmeana, porque vé no ato poético uma luta com a palavra, para a qual se deslocam a sua dtivida ea sua inquietagao de artista. E o que vem proposto de modo claro n’O w- TaDOR - J, cujo inicio parece, pelo ritmo e a entrada no assunto, uma espécie de transposicio irénica do hino escolar que abria o Segundo livro de leitura de Tomds Galhardo, usual na geracao de Drummond: Lutar com palavras éa luta mais va. Entanto lutamos mal rompe a manha. Sao muitas, eu pouco. Algumas, tao fortes como um javali. Nao me julgo louco. VARIOS ESCRITOS a Se o fosse, teria poder de encanté-las. Mas hicido e frio, apareco e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. As palavras parecem entidades rebeldes e multiplas, que o poeta procura atrair, mas que fogem sempre, quer ele as acaricie, quer as maltrate. E uma luta desigual e ingl6ria, contra objetos imponderdveis que se desfazem ao contacto, mas que fascinam, e aos quais 0 poet nao consegue renunciar. De tal modo que, terminado 0 dia e o“intiti! duelo’, “a luta prossegue / nas ruas do sono”. O drama desta pesquisa se desenrola de maneira mais completa em Procura Da porsta, de Rosa do povo, cujos cingiienta ¢ oito versos debatem o problema dos assuntos, para concluirem que em si cles nada so, 0 que é tanto mais significativo quanto o poeta vivia naquela altura a descoberta ¢ a pritica apaixonada da poesia social: Nao fagas versos sobre acontecimentos. Nao hé criagéo nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estitico, nao aquece nem ilumina, As afinidades, os aniversdrios, os incidentes pessoais nao contam. Nao fagas poesia com 0 corpo, esse excelente, completo e confortavel corpo, to infenso a efusao lirica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro sdo indiferentes. Nao me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equfvoco ¢ tentam a longa viagem. O que pensas ¢ sentes, isso ainda nao é poesia. oO INQUIETUDES NA POESIA DE DRUMMOND A pattir dai, o movimento negativo prossegue num crescendo que faz prever a mesma conclusdo dos pequenos versos secos € arrasa- dores de Secreno. Mas o poema gira sobre si e, numa segunda parte, expande a teoria do combate inutil mas inevitavel d’O Lutapor. A poesia esta escondida, agarrada nas palavras; o trabalho poético per- mitiré arranjé-las de tal maneira que elas a libertem, pois a poesia nao é a arte do objeto, como pareceria ao jovem autor de Alguma poesia, mas do nome do objeto, para constituir uma realidade nova. Com serena lucidez, o poeta renuncia a luta algo espetacular e & sua prépria veleidade, a fim de que esta possa renascer como palavra- poética: Penetra surdamente no reino das palavras. L4 est’io os poemas que esperam ser escritos. Estao paralisados, mas nao ha desespero, Ha calma e frescura na superficie intacta. Ei-los, s6s e mudos em estado de diciondrio. Este é 0 momento de mais profunda consciéncia estética em sua obra, o momento da clarividéncia em face de tudo que normalmen- te o angustia. Momento em que péde suscitar uma aventura mito- légica da criacdo, encarnando na palavra a imanéncia que a rege. E étal o fervor, que um verso como 0 tiltimo do trecho citado (“Ei-los, s6s e mudos em estado de dicion4rio”), arraigado nos hdbitos hu- moristicos do Modernismo brasileiro, ¢ aqui, todavia, severo e des- carnado, com uma verdade que faz a imagem parecer expressio direta. E esta entrada no mistério possui uma gravidade ritual que lembra a penetracdo em certos espagos mégicos e solenes de Murilo Mendes como 0 d@’Os aMANTES SUBMaRINOS (As metamorfoses): Esta noite eu te encontro nas solidées de coral Onde a forga da vida nos trouxe pela mao. Haveria paradoxo em negar preliminarmente os assuntos, para condluir que 0 objeto da poesia 6a manipulagao da palavra? Esta, nada VARIOS ESCRITOS a mais sendo que a indicacdo das coisas, dos sentimentos, das idcia, dos seres, nao existe separada da sua representagao; mas para o porl tudo existe antes de mais nada como palavra. Para ele, a experiénie iu nao é auténtica em si, mas na medida em que pode ser refeita nv universo do verbo. A idéia sé existe como palavra, porque s6 recelw vida, isto é, significado, gracas 4 escolha de uma palavra que a desigiin ea posicao desta na estrutura do poema. O trabalho poético prowl uma espécie de volta ou refluxo da palavra sobre a idéia, que entan ganha uma segunda natureza, uma segunda inteligibilidade, Tantu assim, que o poema é geralmente feito com o lugar-comum —a vellu pena, a velha alegria, a velha perplexidade do homem. No entanto, quando o lemos ele parece novo, e s6 numa segunda fase identili camos os objetos de sempre; ele entiéo completa a sua tarefa, ao parecer um enunciado muito mais claro e renovador daquilo que sentiamos e faziamos. Nas maos do poeta o Ingar-comum se tort revelacao, gracas 4 palavra na qual se encarnou. O trabalho necessério a isto é grande parte do que chamamos inspiracdo. Consiste na capacidade de manipular as palavras neu tras, “em estado de diciondrio” (que podem servir para compor uma frase técnica, uma indicacdo pratica ou um verso) e quebrar o seu estado de neutralidade pelo discernimento do sentido que adquirem quando combinadas, segundo uma sintaxe especial. Inicialmente, ¢ preciso rejeitar os sistemas convencionais, que limitam e mesmo esterilizam a descoberta dos sentidos possiveis. Dai a decisio de um poema anterior: Nao rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. Rimarei coma palavra carne ou qualquer outra, que todas me convém. As palavras nao nascem amarradas, elas saltam, se beijam, se dissolvem, no céu livre por vezes um desenho, s&o puras, largas, auténticas, indevassdveis. (CONSIDERAGAO DO POEMA - RP) 93 INQUIBTUDES NA POESIA DE DRUMMOND Trata-se da decisdo de usar a palavra com o senso das suas relacdes umas com as outras, pois a arte do poeta é por exceléncia a de or- denar estruturas; 0 tipo escolhido para associar os vocdbulos (talvez o “desenho no céu livre”) é que transforma o lugar-comum em re- velagio. Em PRocura DA PoEsia, a penetracao no reino das palavras consiste nessa atividade, ¢ 0 poeta se refere logo a seguir, ndo aos yocabulos, que séo um momento da pesquisa criadora, mas a per- cep¢io imediata da estrutura em que podem ser ordenados. E nés percebemos que a germinagao do poema como um todo é que o guia nessa aventura érfica: Convive com teus poemas, antes de escrevé-los. Tem paciéncia, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de siléncio. O poema é, para além das palavras, uma conquista do inexprimivel que elas nZo contém e diante do qual devem capitular, mas que pode manifestar-se como sugestio misteriosa nas ressondncias que elas des- pertam, uma vez combinadas adequadamente; e que, indo perder-se nas dreas de siléncio que as cercam ¢ se insinuam entre elas, sio uma propriedade do poema no seu todo. A obsessio mallarmeana da palavra como violagao de um estado absoluto, que seria a nao-palavra, a pagina branca, mas que ao mesmo tempo é nosso tinico recurso para evitar o naufragio no nada, se insinua neste poema decisivo e explica o recolhimento, a cautela com que o poeta segue na busca do equi- librio precdrio ¢ maravilhoso, 0 arranjo da estrutura poética, que s6 pode ser obtido ao fim de um empenho de toda a personalidade: Nao forces o poema a desprender-se do limbo. Nio colhas no chao o poema que se perdeu, Nao adules o poema. Aceita-o como ele aceitara sua forma definitiva e concentrada no espago. VARIOS ESCRITOS oO A “forma no espaco”, a configuragao objetiva que encerra 0 senti do global para que cada palavra contribuiu pela sua posigdo, depen de dessa paciéncia, complemento da luta inicial descrita em O Lua por. Como entidades isoladas, as palavras espreitam 0 poeta e po dem armar-the tocaias, Ele entao as propicia, renunciando ao senti mento bruto, a grafia espontanea da emogao, que arrisca confundi Jas num jorro indiscriminado; elas capitulam e deixam-se colher na rede que as organizaré na unidade total do poema. Obra dificil ¢ perigosa, pois essa exploragio depende da sabedoria do poeta, tnico juiz no ato de arranjé-les: Chega mais perto e contempia as palavras. Cada uma tem mil faces sectetas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrivel, que lhe deres: ‘Trouxeste a chave? Obra, além do mais, frégil e relativa, pois as palavras esto prontas a cada instante para escapar ao comando e se recolherem a auséncia de significado poético, ao limbo do quotidiano, onde s&o veiculos sem dignidade especial. Ou entdo a permanecerem no universo ini- cial do sonho e do inconsciente, onde prosseguia, nO Luravor, © combate infrutifero do poeta, que elas podem olhar como 2 quem falhou, a quem nao soube dispé-las na unidade expressiva. O gelo do malogro, na fimbria entre a deliberacao e 0 acaso, passa nos versos finais deste poema, um dos mais admirdveis da literatura contem- poranea: Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda timidas e impregnadas de sono, rolam num rio dificil e se transformam em desprezo. 95 INQUIRTUDES NA POESIA DH DRUMMOND 7 A obta de Drummond apresenta outros aspectos e, a partir de Claro enigma, uma inflexao dos que acabam de ser indicados. Assim, por exemplo, a crispagdo se atenua ou sublima, permitindo no ulti- mo livro, Ligéo de coisas, certa recuperacao do humorismo inicial e um interesse renovado pela anedota ¢ o fato corrente, tratados com relativa gratuidade. ‘Talvez seja mais importante a transformagio das inquietudes, ge- rando certa serenidade expressa nao apenas pelo significado da men- sagem, mas pela regularidade crescente da forma, a que o poeta pa- rece tender como fator de equilibrio na visao do mundo. Entretanto, essa. serenidade € também fruto de uma aceitagio do nada — da morte progressiva na existéncia de cada dia; da dissalugao do obje- to no ato poético até a negagéo da prépria poesia. E surgem versos smo mais afiado que nunca: de um ni Poesia, sobre os principios eos vagos dons do universo: em teu regaco incestuoso, 0 belo cancer do verso. (BRINDE NO BANQUETE DAs Musas - FA) Estas indicagdes (outras poderiam ser feitas) servem para definir o carater limitado do presente ensaio. Trata-se de uma anélise sobre- tudo descritiva, na medida em que identifica alguns temas e investi- ga a sua ocorréncia. Ao mesmo tempo, é voluntariamente parcial: abrange apenas certo mimero de temas, para analis4-los numa fase da obra do poeta, pressupondo que formem um todo e que esta fase seja decisiva, Além disso, sendo uma investiga¢ao temética, baseada na psicologia que circula nos poemas, deixa de lado a andlise formal que a completaria e 4 qual pretende ser uma espécie de introdugao necessaria. Na obra de Drummond, a forga dos problemas é tao intensa que © poemia parece crescer e organizar-se em torno deles, como arquite- VARIOS EScRITOS 90 tura que os projeta. Dai o relevo que assumem e a necessidade de identificd-los, através do sistema simbélico formado por eles. A par tir deles, por exemplo, ¢ que podemos compreender um dos aspec tos fundamentais de sua arte, a violéncia, que, partinde do prosafs mo € do anedético nos primeiros livros, se acentua ao ponto de exte tiorizar a compulsdo interna, num verdadeiro choque contra o leitor. A maneira de Graciliano Ramos no romance, Drummond, nu poesia, nao procura ser agradavel, nem no que diz, nem na maneira por que o diz: Eu quero compor um soneto duro come poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, dificil de ler. Quero que meu soneto, no futuro, nao desperte em ninguém nenhum prazer. E que, no seu maligno ar imaturo, ao mesmo tempo saiba ser, nao ser. Este meu verbo antipatico e impuro ha de pungir, ha de fazer sofrer, tendao de Vénus sob o pedicuro. Ninguém o lembraré: tiro no muro, cio mijando no caos, enquanta Arcturo, claro enigma, se deixa surpreender. (OFicINA TRRITADA - CE) Talver seja esta uma das causas que dao ao seu verso o aspecto seco e antimelédico. Mas é preciso considerar também que a sua maestria é menos a de um versificador que a de um criador de ima- gens, expressGes ¢ seqiiéncias, que se vinculam ao poder obscuro dos temas e geram diretamente a coeréncia total do poema, relegando quase para segundo plano o verso. como uma unidade auténoma, 97 INQUIBTUDES NA POFSIA DK DRUMMOND Ele reduz de fato esta autonomia, submetendo-o a cortes que o blo- queiam, a ritmos que o destroncam, a distensdes que o afogam em unidades mais amplas. Quando adota formas pré-fabricadas, em que o verso deve necessariamente sobressair, como 0 soneto, parece escorregar para certa frieza. Na verdade, com ele e Murilo Mendes 0 Modernismo brasileiro atingiu a superagio do verso, permitindo manipular a expresso num espaco sem barreiras, onde o fluido ma- gico da poesia depende da figura total do poema, livremente cons- trufdo, que ele entreviu na descida ao mundo das palavras. (1965)