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5/13/2017

Uma entrevista­aula com Antonio Candido na Flip 2011 | Prosa ­ O Globo

Uma entrevista­aula com Antonio Candido na Flip 2011

POR MIGUEL CONDE

06/07/2011 17:00

5/13/2017 Uma entrevista­aula com Antonio Candido na Flip 2011 | Prosa ­ O Globo Uma entrevista­aula
Foto | Arquivo
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Dizendo­se "um sobrevivente" e um homem "encalhado no passado", o crítico literário Antonio Candido deu uma inesperada entrevista coletiva no começo da tarde de quarta­feira em Paraty, horas antes de abrir a 9ª Flip com uma conferência sobre Oswald de Andrade, em companhia do ex­aluno e amigo José Miguel Wisnik. Sentado numa cadeira no jardim da pousada em que está hospedado, tratando sempre por "senhores" os repórteres décadas mais jovens espalhados no chão ao seu redor, Candido, de 92 anos e autor de clássicos como "Formação da literatura brasileira" e "Literatura e sociedade", passou 40 minutos cumprindo com desenvoltura um papel no limite entre entrevistado e professor. Após ter avisado que não falaria com a imprensa em Paraty, e embora tenha afirmado não gostar de entrevistas ("digo uma coisa, sai outra no jornal"), o crítico discorreu sobre quase tudo que lhe foi perguntado. Alternou análise e anedotas em seus comentários sobre Oswald, falou de sua formação como crítico na imprensa dos anos 1950 e até fez graça com seu bigode ("sou um homem conservador, uso bigode ainda. Os jovens usam barba"). Fundador do PT, Candido só não quis falar sobre a política brasileira atual ("não me provoque, eu sou Candido mas não cedo a provocações"), nem sobre literatura contemporânea,

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que afirmou não ler. Perguntado sobre e­books, disse que não sabe nem usar fax e que ainda escreve à máquina.

Leia abaixo os principais trechos da conversa:

CONVITE DA FLIP. Sou muito idoso, daqui a uns dias faço 93 anos. Considero minha vida intelectual completamente encerrada. Sou um sobrevivente. Não dou entrevista, não dou curso, não publico mais nada. Mas eu fui muito amigo do Oswald de Andrade, e me dei conta que provavelmente eu sou o último amigo vivo dele. Não sou da geração dele, sou 30 anos mais moço, quase. Achei que era uma espécie de obrigação contar como eu e minha geração víamos aquela personalidade vulcânica do Oswald de Andrade. Combinei com José Miguel Wisnik, meu aluno, meu grande amigo, que falará sobre como a geração dele viu Oswald. Só faltou uma pessoa da geração do Oswald de Andrade. Vim para dar o meu testemunho. Porque só quem conheceu Oswald de Andrade pessoalmente pode testemunhar sobre a personalidade raríssima que ele era.

FILOSOFIA DE OSWALD. Era um homem que tinha traços de gênio. Ele não lia muito, mas o que ele pegava era extraordinário. Há pessoas assim. Ele pegava. Eu vi um exemplar do Oswaldo (Candido alternou "Oswald" e "Oswaldo" durante a conversa) de um livro difícil de filosofia, que é "O ser e o nada", do Sartre. Estava anotado, mas havia páginas ainda fechadas. Ele pegava, pulava, depois voltava, mas sabia falar perfeitamente sobre "O ser e o nada". "A marcha das utopias" e "A crise da filosofia messiânica" eu acho livros muito interessantes. Oswald é um precursor. Sobre o papel da mulher, por exemplo. A visão que ele tem eu acho extraordinária. A ligação que ele faz da visão masculina com a propriedade privada. A mulher é fonte de vida, a mulher dá a vida, e não tem o senso de posse que o homem tem. Para o homem, tudo é dele: minha mulher, meu filho, minha casa, meu automóvel. A mulher é muito mais do nosso. Então ele dizia que a sociedade futura só será uma sociedade igualitária quando a mulher tiver predominância. Nós estamos caminhando para isso. Uma das coisas mais positivas do nosso tempo é a presença da mulher. Isso Oswaldo viu perfeitamente. Essa visão dele é muito bonita.

UMA ANEDOTA OSWALDIANA. Ele era muito inteligente. Fulgurante. Uma vez ele queria fazer um concurso de filosofia. Eu disse: "não faça isso Oswaldo, você não é filósofo". Ele: "por que não? Sou brasileiro, vacinado, maior de 21 anos, posso fazer". Eu falei: "esse negócio de existencialismo, fenomenologia hoje em dia tem uma terminologia muito complicada que você não domina. Certamente irá para a banca o professor Fulano de Tal, que te pega com uma pergunta complicada e você não sabe responder". "Então faça uma pergunta para mim". Eu disse: "não sei, não sou filósofo", e ele: "inventa, inventa uma complicada". Eu fiz então uma pergunta bem pernóstica, do tipo que poderiam fazer no exame: "Senhor candidato, diga­me vossa senhoria qual é a empostação hodierna da problemática ontológica". Ele respondeu assim: "Está vossa excelência muito atrasado. Na nossa era de devoração universal a problemática não é ontológica, é odontológica". Isso ele fazia assim na hora. Era genial.

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BRIGA E RECONCILIAÇÃO. Tínhamos boas relações depois escrevi uns artigos sobre ele que ele não gostou e ele desceu a lenha em mim ­ ele era terrível, me chamou de mineiro malandro ­, mas depois eu vi que tinha sido um pouco injusto nos artigos e fiz um ensaio maior (embora eu sempre tenha mantido a crítica severa que fiz sobre a última parte da obra dele. Acho que o comunismo fez muito mal para o Oswald de Andrade, ele quis fazer literatura política participante. Não era o gênero dele.) Ele gostou do ensaio, e aí ficamos amigos, mas muito amigos mesmo. Ele gostava muito de mim, e eu gostava muito dele. Como os senhores sabem, uma das coisas mais importantes na vida é a gente ter certeza que a pessoa gosta da gente. Saber que uma pessoa gosta realmente da gente é muito reconfortante. Ele tinha uma coisa extraordinária: não tinha rancor.

LITERATURA ATUAL. Estou completamente fora do mundo literário. Inclusive doei grande parte da minha biblioteca. Não sei nem quais são os autores atuais. Eu saio perdendo, evidentemente. Mas há cerca de vinte anos não leio coisa nova nenhuma nem do Brasil nem do estrangeiro. Eu leio coisas do passado, sobretudo. Autores como Dostoievski, Tolstói, Proust, Machado de Assis, Eça de Queirós. Não quer dizer que os atuais não sejam do mesmo nível. Só que eu não os conheço.

LIVROS DIGITAIS. É um mundo fechado para mim. Se os senhores prometerem não contar nada para ninguém, vou contar: eu escrevo ainda em máquina de escrever. Não sei o que é computador. As pessoas perguntam qual é meu email. Eu não sei o que é isso. Fax? Não sei o que é. Comigo não adianta perguntar coisa moderna, eu sou um homem do passado. Eu estou encalhado no passado.

LITERATURA E CRÍTICA NO BRASIL. O Brasil sempre foi um país de boa crítica literária. Se a gente pega a América Latina, não há nenhum país que tenha desde o romantismo tão boa crítica literária quanto o Brasil. Pessoalmente, tive uma sorte extraordinária porque fui crítico literário militante num tempo de esplendor da literatura brasileira. Às vezes brinco com alunos meus que são bons críticos: "tenho pena de vocês, que têm que escrever sobre os autores atuais. Por melhores que sejam, não são Mário de Andrade, não são Guimarães Rosa, não são Carlos Drummond de Andrade". Eu tinha que fazer para o jornal um artigo por semana sobre as novidades. Quais eram as novidades? Drummond, Murilo Mendes, Jorge Amado, José Lins do

Rego. "Acaba de publicar um livro o sr. Graciliano

Ramos..."

(risos) Tive a sorte de viver num

tempo de esplendor, mais ou menos até 1950 e poucos. Não quer dizer que seja má [depois

disso], mas não tem mais aquele esplendor.

IMPRENSA E UNIVERSIDADE. Costumo sempre dizer: eu sou um professor universitário muito defeituoso, porque fui professor de literatura e não sou formado em Letras. Tenho uma ignorância total de linguística, gramática, tudo isso. Sou formado em Ciências Sociais. Eu me fiz no jornal. Sou de um tempo em que a crítica literária era atividade jornalística. O Brasil só teve ensino superior de humanidades a partir de 1934. Eu passei para Letras já quarentão. Levei para a

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universidade a crítica jornalística. Hoje é o contrário. A universidade tomou conta da crítica e os professores vêm escrever no jornal. Eu não, fui do jornal para a faculdade.

CRÍTICA E RISCO. Antigamente alguns jornais tinham um crítico titular, que tinha muita autoridade, pois representava o veículo. Eu escrevia na "Folha da Manhã", atual "Folha de S. Paulo". Costumo dizer que a crítica literária naquele tempo era uma atividade de alto risco. O crítico literário arriscava sua reputação toda semana. Se começava a errar muito, o jornal mandava embora. Eu recebi um livro um dia: Clarice Lispector, "Perto do coração selvagem". [Pensei] "quem será? Deve ser pseudônimo, porque isso não é nome de gente, Lispector". Eu não sabia quem era. Tinha que dizer se era bom ou ruim. A crítica universitária é uma atividade extremamente segura, não tem risco nenhum. Os rapazes fazem tese sobre Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector, José Lins do Rego. Agora, a pessoa pegar o livro é dizer "esse é bom", "esse é ruim", isso acabou.

CRÍTICA NA UNIVERSIDADE. A crítica universitária não arrisca nada, o juízo já está feito. Ninguém vai fazer uma tese universitária sobre o jovem escritor Pedro de Araújo de Paraty, que escreveu um poema épico. Ninguém. Não é que seja mal, não é tarefa dela se arriscar. Na universidade houve sempre a seguinte tradição, no Brasil e fora: não se escreve sobre autor vivo, pois enquanto ele está vivo, pode mudar. Quando eu fui ensinar literatura na Universidade de São Paulo (USP) o último autor estudado era Luís de Azevedo. Fui a primeiro a dar um curso lá onde se falava de Drummond. Depois, minha mulher deu o primeiro curso sobre modernismo na USP. Hoje os jovens só querem fazer tese sobre autores atuais. Sobre a Lygia Fagundes Telles tem 40 ou 50 teses. É difícil falar, "estude Machado de Assis, estude Tomás Antônio Gonzaga". Mudou. Está um pouco exagerado, mas é uma conquista. A universidade está aplicando os métodos de pesquisa erudita à atualidade. Isso é muito bom. Cada época tem ser perfil, não é melhor nem pior.

ALUNOS. Admiro muito os jovens críticos brasileiros. Tive inclusive a sorte extraordinária, questão de pura sorte, de reunir em volta de mim um grupo dos melhores críticos do Brasil. Os senhores vão ver hoje à noite um deles, que é o José Miguel Wisnik. São os meus filhos. Costumo dizer sempre com muita sinceridade que a coisa mais importante que eu fiz na vida foi ter em volta de mim o grupo de jovens que eu tive. Isso foi a contribuição maior que eu dei para a cultura brasileira e para a Universidade de São Paulo. Roberto Schwarz, José Miguel Wisnik, João Lafetá,

Walnice Nogueira Galvão, Telê Ancona

Lopes...

São grandes críticos, de primeira categoria.

POLÍTICA. Fui ainda de uma geração muito engajada, como se dizia. Achávamos que era obrigação do intelectual participar da política. Eu participei. Não gosto de política e não tenho nenhuma vocação política, mas na minha geraçao havia essa ideia, talvez não fosse correta, de que o intelectual tinha obrigação de fazer isso.