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Alguém acima de nós – Pais e Deus nas histórias de

fantasia

David Gonçalves Nordon

As histórias de fantasia sempre possuem alguém que sabe mais do que


nós. É a figura paterna ou de Deus nas histórias, trazendo esta nossa
necessidade de segurança para o papel. Este artigo identifica tais
figuras nos livros O Senhor dos Anéis, Harry Potter e Desventuras em
Série.

Fantasy stories always have someone who knows more than us. It is
either a parent or God in the stories, who brings our so needed safety to
the paper. This article identifies such characters in The Lord of the Rings,
Harry Potter and A Series of Unfortunate Events.

Mini-curriculum:
Escritor, pesquisador, acupunturista formado pelo Colégio Brasileiro de
Acupuntura e acadêmico de Medicina da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo.

É lugar comum em diversas histórias de ficção aquele ser que tudo


sabe. Sempre existe alguém que, quando o protagonista mais precisa,
vem ajudá-lo. Tomemos como exemplo alguns dos livros mais presentes
na mídia, que acabaram, também, por se tornar filmes.
No clássico “O Senhor dos Anéis”, o pequeno Hobbit Frodo vê a
sua vida mudar quando se vê com a tarefa de levar O anel até Mordor.
E, embora não só Frodo como seus colegas – Samwise, Meriadoc e
Pippin – sejam já adultos, eles são tratados como crianças praticamente
o livro inteiro – especialmente devido a sua altura. Inicialmente, Frodo
vê como seu mentor seu tio de criação Bilbo, ser que tem todas as
respostas e diversas histórias de “Lá e de volta outra vez”. Entretanto,
quando Bilbo se vai, Frodo se encontra sozinho – e ele precisa crescer.
Isto, na nossa vida, é o momento em que percebemos, como diria Freud,
que nossos pais não são super-heróis, mas apenas “demasiadamente
humanos”.
Frodo recebe então a missão de Gandalf de levar O anel até
Valfenda – algo como se fosse um rito de passagem. E, no meio do
caminho, depois de muito sofrimento, quando ele e seus amigos já não
sabem mais o que fazer, encontram Passolargo, ou Aragorn, alguém que
poderia ser visto como um “mestre”, um exemplo para substituir o lugar
antes ocupado por Bilbo. Agora, com alguém portador de todas as
respostas, eles podem seguir em frente com segurança até Valfenda. E,
lá, candidatam-se para a terrível missão de levar O anel até Mordor.
Neste momento, forma-se a “Sociedade do Anel”, e Frodo tem
diversos exemplos para seguir – dentre eles, em especial, Gandalf, o
mago que sempre o fascinara, desde pequeno. Gandalf seria algo acima,
intangível, em comparação. Alguém que possuía absolutamente todas
as respostas. E isto se mostra especialmente não só para Frodo, mas
para Pippin, quando o mago toma o Palantir de suas mãos, mostrando-
lhe o quão “criança” ele ainda era.
Entretanto, em dado momento da estória, Gandalf morre – e é
neste ponto que Frodo, como todos os jovens, tem de se adaptar. Sem
aquele exemplo constante diante de si, o hobbit segue ainda Aragorn,
mas acaba, no começo do segundo livro, por se distanciar de todo o
grupo – e assumir a jornada de crescimento com seus próprios pés,
acompanhado apenas por seu fiel companheiro, Sam.
Ao final da estória, Frodo cumpre a sua missão; havia crescido.
Não era mais necessário andar sempre às costas dos seus exemplos –
ele se tornara o exemplo e ganhou o direito de ir para a Terra dos
Imortais, junto de Gandalf e Bilbo. Com isso, deixa o livro para ser
completado por Sam.
Um outro livro mais atual que também apresenta a mesma
estrutura é Harry Potter; neste caso, contudo, o herói é, de fato, um
garoto, que se encontra em uma dura batalha contra Lorde Voldemort, o
mago mais terrível de todos os tempos. Exemplos para ele seguir,
durante o livro, existem vários; no entanto, dois se mostram os maiores
durante toda a estória: seu padrinho, Sirius Black, que poderia ser visto,
talvez, da mesma forma que Aragorn, e Alvo Dumbledore, o diretor de
Hogwarts, portador de todas as respostas e, até aonde o imaginário de
Harry chega, praticamente imortal.
Mais uma vez, porém, a trama se repete; Sirius morre, e Harry se
vê em uma jornada praticamente sozinho, apenas com seus colegas; e,
ainda mais à frente, Dumbledore morre – é neste momento que Harry,
como Frodo, tem de tomar seu futuro em suas mãos e cuidar, por si
próprio, do futuro da humanidade.
Sim, até mesmo aqueles que tudo sabem morrem nestas histórias
– isto serve para provar que eles, também, são mortais. Gandalf, por si
próprio, passa por um processo de introspecção e crescimento; em
dúvida, ele busca seu superior, Saruman, mas descobre que não pode
confiar nele – neste momento, seu exemplo, como o dos outros, morre;
é como se ele perdesse a crença no “super-pai”. Em seguida, ele cai no
fosso com o Balrog, luta com ele até o topo da montanha, e lá fica, por
uma “eternidade”, até voltar com uma nova missão; ele cresce e se
torna o “Mago Branco”.
É interessante notar, em todos estes exemplos, como é
importante, para a natureza humana, a existência de algo superior,
alguém que sabe todas as respostas. Durante o início do nosso
desenvolvimento, os nossos pais são considerados os portadores de
todas as respostas. Contudo, em determinado momento, damo-nos
conta de que isto é falso – e passamos o resto de nossas vidas
procurando outros exemplos para seguir. Sempre haverá alguém, na
Terra, a quem poderemos olhar e seguir; contudo, para os momentos
em que não o temos, em que temos de caminhar sozinhos, buscamos
ainda alguém superior; alguém que está acima ainda de todos os
exemplos que temos para seguir – Deus.
Por isso é tão comum a existência de um ser que tenha todas as
respostas em histórias de ficção – elas, apesar de todo o seu ambiente
totalmente imaginativo, trazem à tona o que existe de mais primordial
de dentro de nós. E, às vezes, estórias que não possuem alguém que
sirva de exemplo podem soar bastante estranhas. A coleção
desventuras em série mostra exatamente isto. Os irmãos Baudelaire
ficam à deriva, servindo de exemplo apenas para si próprios, sem
ninguém para seguir, inconformados com a incompetência dos outros.
Talvez tenha sido assim que Harry se sentiu sem Dumbledore, Frodo,
sem Gandalf, e Gandalf, sem Saruman.
Soa estranho, mas é deste modo que todos nós nos sentimos,
quando estamos naquele momento de busca por alguém superior, com
todas as respostas – quando perdemos nossos pais, tios, avós, ou até
mesmo Deus. Neste momento, por mais desesperador que seja,
precisamos crescer – e é essencial acreditar, como nestas estórias, que,
mais à frente, haverá alguém com todas as respostas – mesmo que este
seja nós mesmos.