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ANDRE GIDE 05 motveiros Faisos TRADUGAO MARIO LARANJEIRA, ae ‘Titulo original: Les Fax Monnayeurs © Editions Gallimard, 1925, © Editora Estagio Liberdade, 2009, para esta tradugio Preparagio erevisio Joana Canédo e Leandro Rodeigues a Composigio Johannes C. Bergmann / Estacio Liberdade Sumério Capa Extagio Liberdade Imager da capa André Gide (1935). Phillipe Halsman/Magauum Photos/LatinStock PRIMEIRA PARTE Eaivores Angel Bojadsen e Eailberto F. Verea Paris I Ojardim do Luxembourg B ; II A familia Profitendiew 9 samen Aer rem ieee ML Bera «Olver cow o roo Do mnustEno FRaNcs nas HELaGOss XTERORES EEUROPEAS TV Nacasa do conde de Passavant 45 «cerns, ont ns scape wo ocean supe kta pensemnow V_ Vincent encontra Passavant na casa de lady Griffith 55 Cantos BRUNOND DE ANDRADE DE UAMMASHAME DE FRANCE AY Ant, RENEE DU | VI. Despertar de Bernard 65 SOUTIEN DU MIISTERE FANGS APPAR EYRANGHEES ET EUROPESNNES VIL Lady Griffith ¢ Vincent 9 VEIL Edouard volta a Paris. A carta de Laura 5 TX Edouard e Olivier se encontram 86 Tee meciclonszoa | X_ Bemard ea mala 0 XI Didrio de Edouard: Georges Molinier 94 XII de Edouard: O casamento de Laura 104 XU Diéirio de Edouard: Primeita visita a La Pétouse 128 XIV. Bernard e Laura B98 XV Olivier na case de Passavant 150 XVI Vincent com lady Griffith 137 XVII A noite em Rambouillet- 164 XVIII Difitio de Edouard: Segunda visita a La Pérouse 72, | SEGUNDA PARTE Saas-Fée I Carta de Bernard a Olivier 185 I Diario de Edouard: O pequeno Boris 191 S<458 XII XVL XVI XVII Edouard expe suas ideias sobre o romance Bemard e Laura Dititio de Edouard: Conversa com Sophroniska Carta de Olivier # Bernard O autor julga suas personagens ‘TERCEIRA PARTE Paris Diftio de Edouard: Oscar Molinier Dirio de Edouard: Na casa dos Vedel Disrio de Edouard: Terceira visita a La Pérouse Avvoltaas aulas ‘Berard encontra Olivier ao sait do exame Difrio de Edouard: Senhora Molinier Olivier vai encontrar-se com Armand Vedel O banquete dos argonautas Olivier quis se matar Convalescenca de Olivier. Difrio de Edouard Passavant recebe Edouard, depois Strowvilhou Diftio de Edouard: Edouard recebe Douviers, depois Profitendiew Bernard € 0 anjo Bernard na casa de Edouard Dio de Edouard: Quarta visita a La Pérouse, ‘A conversa com Georges Armand vai visitar Olivier A Confraria dos Homens Fortes O suicidio de Boris 23 23 230 29 245 256 267 205 282 297 304 312 328. 334 345 357 367 333 378 390 401 4ul A Roger Martin di Gard dedico meu printeiro romance em testemunbo de profunda amrizade. AG. PRIMEIRA PARTE Paris “B o momento de acreditar que ougo passos no corredor”, disse consigo Bernard, Engueu a cabeca e prestou atengio. Mas iio: 0 pai eo irmao mais velho estavam retidos no Palacio; a mae, em visita; a irma, num concerto; € quanto ao itmio mais novo, © pequeno Caloub, 2 cada dia ficava preso numa pensio apés a satda do liceu. Bernard Profitendieu ficara em casa estudando para o bacalaureato; s6 tinha trés semanas pela frente. A fa respeitava sua solidio; o deménio, nfo. Embora Bernard tivesse nada entrava a nio ser calor. Sua testa escortia. Uma gota de suor escortegow-lhe pelo nariz e foi cair em cima de uma carta que cle segurava: “Encena uma légrima”, pensou. “Mas é melhor suar do que chorar Sim, adata era peremptéria, Impossivel duvidar: era mesmo dele, de Bernard, que se tratava. A carta estava enderecada a sua mie; uma velha carta de amor de dezessete anos antes, nfo assinada. “Que significa esta inicial? Um V, que também pode ser um N... Convém interrogar minha mie?... Vamos confiar em seu bom gosto. Fico livre para pensar que é um principe. Belo avano B (05 MOEDEIOS FALSOS se vier a saber que sou filho de um pé-rapado! Nio saber quem € seu pai, é isso que cura © medo de se parecer com ele. Toda investigagZo compromete, Fiquemos s6 com a libertagao. Nao aprofundemos. Por hoje cheg: Bernard dobrou a carta, Ela tinka o mesmo formato das doze ‘outras do pacote. Uma fita cor-de-rosa as amarrava, a qual cle no precisou desatar; apenas a fez deslizar para envolver 0 mago como antes, Recolocou as cartas no cofrezinho e este na gaveta do con- sole. A gaveta nfo estava aberta; descobrira seu segredo pelo lado de cima. Bernard arrumou de volta as liminas separadas do forro de madeira, que uma pesada placa de dnix deveria encobrir, Bem deva- gar, com precaugio, ele fez com que esta recafsse, recolocou por cima dois candelabros de cristal e 0 volumoso rel6gio que acabara de consertar para se distrai. rel6gio soou quatro pancadas. Ele 0 acertara “O senhor juiz instrutor e o senhor advogado, seu filho, no estario de volta antes das scis horas. Tenho tempo de sobra. E preciso que o senhor juiz, 20 voltar, encontre sobre sua mesa a bela carta em que vou Ihe comunicar minha pactida, Mas, antes de cescrevé-la, sinto uma imensa necessidade de arejar um pouco meus pensamentos — e de ir ao encontro de meu caro Olivier, para ime garantis, provisoriamente pelo menos, um abrigo. Olivies, meu amigo, chegou para mim 0 tempo de colocar & prova a tua complacéncia e para ti de me mostrar o que vales. O que havia de belo em nossa amizade é que, até agora, nunca nos aproveitamos um do outro. Ora! Um servico divertido de prestar nao poderia set abortecido de pedir. O que atrapalha € que Olivier nfo estard sozinho, Azar! Eu saberei chamé-lo a parte. Quero assusté-lo com minha calma. E no extraordindtio que me sinto mais natural.” Arua de onde Bernard Profitendieu havia morado até entio, fica bem préxima ao jardim do Luxembourg. Ali, perto do 4 Paris chafariz de Médicis, na alameda que o circunda, tinham costume de encontrarse, toda quarta-feira, entre quatzo e seis horas, alguns companheiros seus. Conversava-se sobre arte, ilosofia, esportes, po- lticae literatura. Bemard caminhara muito depressa; mas, 20 passat a grade do jardim, avistou Olivier Moliniet ¢ logo reduziu 0 passo. Aassembleia, nesse dia, estava mais movimentada do que de costume, sem dtivida por causa do bom tempo. Bernard niio co- shecia ainda alguns dos que se haviam juntado ao grupo. Cada um daqueles rapazes, logo que se via diante dos outros, representava ama personagem e perdia quase toda a naturalidade. Olivier corou ao ver aproximar-se Bernatd e, deixando bastante bruscamente uma moga com quem conversava, afastou-se. Bernard «rao seu amigo mais intimo, de modo que Olivier tomava muito cui- dado para nfo parecer que o procurava; is vezes até fingia no vé-lo Antes de chegar até ele, Bemard devia passar por vitios grupos «¢, como ele préprio fingisse no procurat pot Olivier, retardava-se. Quatro de seus colegas cercavam um barbudinho de pince- -nez, um tanto mais velho do que eles, que segurava um livro, Era Dhurmer. — O que vocé quer? — dizia ele, disigindo-se em especial aum dos outros, mas manifestamente feliz por set ouvido por todos. — Fai até a pagina trinta sem encontrar uma tnica cor, uma tinica pa- Javza que pintasse. Fala de uma mulher; nem mesmo sei se o vestido dela é vermelho ou azul. Eu, quando niio hé cores, é muito simples, nio vejo nada, —E por necessidade de exagera, ainda mais por no sentir que o levavam a séto, insistia: — Absolutamente nada, Bernard jé nfo ouvia o discurso; julgava inadequado afastarse depressa demais, mas entretempo prestava atengio a outros que discutiam atrés dele e de quem Olivier se aproximara depois de tet deixado a jovem; um desses, sentado num banco, lia a Action franca. B (05 MOEDEIROS FaLsOs ‘Como Olivier Molinier, entre todos aqueles, parece sério! Eum dos mais jovens, no entanto. Seu rosto ainda quase infantil e seu olhar revelam a precocidade de seu pensamento. Ele cora facil- mente. E meigo. Por mais que se mostre afavel para com todos, io sei que estranha reserva, que pudor, mantém seus colegas a distancia, Ele sofre com isso. Sem Bernard, sofreria mais. Molinier estivera um instante, como faz Bernard agora, com cada um dos grupos; por complacéncia, mas nada do que ouve Ihe interessa Inclinava-se por sobre 0 ombro do leitor. Bernard, sem se virar, ouvia-o dizer: — Vocé faz mal em ler os jornais; isso da congestio. E 0 outro que responde com vor azeda: — Voeé, logo que se fala de Maurras, fica verde. Depois um terceiro, em tom zombeteiro, pergunta: — Vocé acha interessantes os artigos de Maurras? Eo primeiro responde: — Me enchem, mas acho que ele tem razio. Depois um quarto, cuja voz Bernard no reconhecia: — Voeé, tudo que nao 0 azuctina, vocé acha que nio tem profundidade. O primeiro retrucava: — Se acha que basta ser tolo para set engracado! — Venha — disse em voz baixa Bernard, pegando brusca mente Olivier pelo brago. Levou-o alguns passos mais longe: — Responda ripido, estou com pressa, Vocé me disse que néo dormia no mesmo pavimento que seus pais? — Eu lhe mostrei a porta do meu quatto; dé direto na escada, meio andar antes de chegar & nossa casa. — Vocé me disse que seu irmio também dormia lé? — 0 Georges, sim. 16 ais — Sio apenas voeés dois? — Sim. — O pequeno sabe ficar calado? — Se for preciso. Por qué? — Ouga, Eu saf de casa; ou pelo menos sairei esta noite. Ainda , voce pode me receber? nifo sei aonde ir. Por uma noi oO no conseguia olhar para Bernard. — Posso — disse ele, mas nao chegue antes das onze horas. Mamie desce pata nos dizer boa noite, e fecha nossa porta & chave. — Mas entao... 1 ficou bastante palido. Sua emogio era tio forte que Olivier sorriu. — Eu tenho outra chave. Vocé vai bater bem de leve para nio acordar © Georges se ele estiver dormindo. — O zelador me deixaré passat? — Euoavisarei. Oh! Nés nos damos muito bem. Foi ele que me deu a outra chave. Até mais tarde. Eles se separaram sem apertar as mos. E, enquanto Bernard escrever e que o se afastava, meditando sobre a carta que qu magistrado deveria encontrar a0 voltar, Olivier, que no queria que o vissem isolar-se apenas com Bernard, foi encontrar-se com Lucien Bercail, que 0s outros deixam um pouco sozinho. Olivier gostatia muito dele, se no preferisse Bernard. Tanto quanto Bernard é cheio de iniciativas, Lucien é timido. Sente-se que é fraco; parece s6 existir pelo coragio e pelo espftito. Raramente usa se aproximar, mas fica louco de alegria logo que vé se acercar vier. Que Lucien faga versos, todos desconfiam; entretanto, Olivier é, cteio, 0 nico a quem Lucien desvenda seus projetos. ‘Ambos se aproximaram da beira do terrago. — O que eu queria — dizia Lucien — era contar a historia, no de uma personagem, mas de um lugar — por exemplo, de uma v7 (05 MOEDEIROS FALSOS alameda de jardim, como esta, contar 0 que nela acontece— desde 4 manha até a noite. Primeiro viriam babs, amas de leite, com fi tas... Nao, nao... Primeiro pessoas cinzentas, sem sexo nem idade, para varrera alameda, regara grama, trocar as lores, enfim, 0 palco co cenario antes da abertura das grades, entende? Entio a entrada das amas. Fedelhos fazem bolinhos de areia, tagarelam; as amas «0s estapeiam. Depois hé a saida das escolas primarias, e depois as coperirias, Hé pobres que vém comer no banco, Mais tarde, jovens que se buscam; outros que se evitar; outros que se isolam, sonha- lores. E depois a multido, na hora da misica eda saida das ojos Estudantes, como agora. A tarde, amantes que se beijam; outros que se separam chorando. Enfim, ao pér-do-sol, um velho casal E, de repente, um rufar de tambor; estio fechando, Todos saem. Acabou a peca. Vocé entende: algo que desse a impress do fim de tudo, de morte... mas sem falar da morte, naturalmente, — Sim, vejo muito bem — diz Olivier, que pensava em Ber- nard e no ouviea nenhuma palavra — E isso nao € tudo; no é tudo! — retomou Lucien com ardor. — Eu gostaria, numa espécie de epilogo, de mostrar essa mesma alameda, a noite, depois que todos tivessem partido, de- serta, muito mais bela do que durante o dia; no grande silencio, a exaltagdo de todos os ruidos naturais: 0 ruido do chafavi, do vento nas folhas, € 0 canto de um passaro noturno. Eu tinha pensado primeiro em fazer circularem sombras, talvez estétuas.. mas creio que isso seria mais banal; 0 que vocé acha? — Nao, estétuas nfo, estituas nio — protestow distraida- mente Olivier; depois, sob o olhar triste do outro: — Pois bem, meu velho, se vocé conseguir isso, seré formidavel — exclamou calorosamente. 18 I Nao existem vestigios, nas cartas de Poussin, de enh 1a obrigacio que tives tido para com os ais. Mais tarde, nunce manifestou pesar por se ‘or afastado deles. Transplantado voluntariamente ara Roma, perdeu qualquer desejo de retorno, dir-se-ia até toda lembrana Paul Desjardins (Poussin) O senhor Profitendieu tinha pressa em voltar para casa ¢ achava que seu colega Molinier, que 0 acompanhava 20 longo do bulevat Saint-Germain, andava muito devagat. Albéric Profiten. dieu acabava de passar por um dia particularmente cheio no Pa- licio: inquietava-se por sentir certo peso do lado dircito; afadiga, nee, atingia 0 figado, que era um pouco delicado. Pensava no banho que tomaria; nada o descansava melhor das preocupaces do dia que um bom banho; prevendo isso ele no havia tomado lanche naquele dia, estimando que no era prudente entrar na gua, mesmo morna, senio com 0 estOmago vazio. Afinal, isso 9 (08 MOEDEIROS Fatsos talvez nfo fosse mais do que um preconceito; mas os preconceitos sao os pilares da civilizacio. Oscar Molinier apressava © passo 0 quanto podia e fazia esforco para acompanhar Profitendieu, mas era bem mais baixo ¢ tinha as coxas menos avantajadas; além disso, com 0 coragio ‘um pouco atingido pela gordura, esfalfava-se facilmente. Profi- tendieu, ainda jovial aos cinquenta e cinco anos, de peito largo e andar esperto, o tetia abandonado de bom grado; mas era muito cioso das formalidades; o colega era mais idoso do que ele, mais adiantado na catteira: devia-the respeito. Tinha, além disso, de fazer com que lhe perdoasse a fortuna que, desde a morte dos pais, de sua mulher, eta considerivel, ao passo que o senhor Molinier s6 tinha como bens os proventos de presidente da cimara, proventos itrisérios e desproporcionais & alta posigio que ocupava, com tal dignidade que disfarcava a sua mediocridade. Profitendiew dissimulava sua impaciéncia; voltava-se para Molinier e olhava este se enxugar; afinal, 0 que lhe dizia Molinier interessava-lhe muito; mas 0 ponto de vista deles nfo era o mesmo e a discussio cesquentava. — Mande vigiar a casa — dizia Molinier. — Ougao que dizem o zelador ea falsa emptegada, tudo vai muito bem. Mas cuidado, pois, se aprofundar demais essa pesquisa, o caso lhe escaparé.. Quero dizer que correo risco de que ela o arraste para muito mais Tonge do que pensava de inicio. — Essas preocupagées nada tém a ver com a justiga. — Ora! Ora, meu amigo; nés sabemos, o senhor e eu, o que deveria ser a justiga, € 0 que ela é. Fazemos 0 melhor possivel, esté entendido; mas, por melhor que facamos, s6 chegamos a algo aproximativo. O caso que o ocupa hoje é particularmente delicado: entre quinze acusados, ou que, a partir de uma palavra sua, pode- fo sé-lo amanh, ha nove menores. E alguns desses meninos, 0 20 Panis senhor sabe, so filhos de familias muito distintas. E por isso que considero, neste caso, qualquer mandado de prisio como uma in- signe falta de jeito, Os jornais de partido vio se apoderar do caso, eo senhor esté abrindo a porta a todas as chantagens, a todas as difamagdes. Faca 0 que fizer, apesar de toda a sua prudéncia, 0 senhor no impediré que nomes prdprios sejam pronunciados... Nio sou qualificado para Ihe dar um conselho, ¢ sabe quanto eu preferitia recebé-lo do senor, de quem sempre reconheci ¢ apre ciei as elevadas opinives, a lucidez, a etidao... Mas, em seu lugar, ‘veja como eu agiria: buscaria um meio de por fim a esse abominivel escindalo apossando-me dos quatro ou cinco instigadores... Sei que sio dificeis de pegar; mas que diabo, é o nosso trabalho. Eu mandaria fechar © apartamento, 0 teatro dessas orgias, e me ar- ranjaria de modo a avisar os pais desses jovens desavergonhados, com jeito, secretamente, ¢ simplesmente de maneira a impedir as recaidas. Ah! Por exemplo, mande trancafiar as mulheres! Isso, eu the dou de bandeja; parece que estamos lidando com algumas ctiaturas de insondavel perversidade e das quais é preciso limpar a sociedade. Mas, uma vez mais, nfo prenda as criangas; contente-se ‘em amedronté-las, depois cubra tudo isso com a etiqueta “tendo agido sem discernimento” e que fiquem por muito tempo espan: tados de se terem safado apenas com um tremendo susto, Pense que trés dentze eles nem sequer tm catorze anos € que os pais certamente 0$ consideram anjos de pureza e inocéncia. Mas na realidade, caro amigo, c& entre nds, ser que nessa idade ja pen- sévamos em mulheres? Ele tinha parado, mais esbaforido pela eloquéncia do que pela marcha, ¢ forgava Profitendieu, a quem segurava pela manga, a parar também... — Ou se penséssemos nelas — retomava ele —, era ideal- mente, misticamente, tligiosamente por assim dizer. Esses meninos a (05 MOEDEIROS FALSOS de hoje, esta vendo, esses meninos nifo tém mais ideal... A prop6- sito, como vio 0s seus meninos? Bem entendido, eu nfo estava di zendo tudo isso sobre eles, Sei que com eles sob a sua vigilancia, ¢ agragas & educagio que lhes deu, tais descaminhos nfo sao de temer. Com efeito, Profitendieu até entio s6 tivera motivos para se vvangloriar dos filhos; mas niio acalentava ilusées: a melhor edu- cagio do mundo nio prevalece contra os maus instintos; gragas a Deus, decerto seus filhos nao tinham maus instintos, tampouco 0s filhos de Molinier; assim protegiam-se por si mesmos das més companhias e das més leituras, Pois de que adianta proibir 0 que no se pode impedir? Os livros cuja leitura the proibem, 0 me- nino 1é as escondidas. Quanto a ele, seu sistema era bem simples: ao proibia a leitura dos maus livros; mas dava um jeito para que 608 filhos no tivessem nenhuma vontade de lé-los. Quanto a0 problema em pauta, refletiria mais ¢ prometia em todo caso nada fazer sem avisar Moliniet. Simplesmente continuaria a exercer ‘ume discreta vigilancia e, visto que o mal jé vinha durando havia 118s meses, bem que podia continuar por alguns dias ou algumas semanas. Além disso, as férias se encarsegariam de dispersar 03 delinguentes. Até a vista Profitendiew pdde finalmente apressar 0 passo, Logo que chegou a casa, correu para a sala de banho e abriu as tornciras da banheira. Antoine espreitava a volta do patrio forjou um encontro no corredor. Esse servo fiel estava na casa havia quinze anos; via cres- cerem as criangas. Péde ver muitas coisas; suspeitava de muitas ‘outras, mas aparentava no notar nada do que se pretendia escon- der dele; Bernard nio deixava de ter afeigio por Antoine. Nao qui- seta sait sem Ihe dizer adeus. E talvez por irtitagio contra a familia se comprazia em colocar um simples criado como confidente dessa partida que os seus parentes ignoravam: mas hd que se dizer afavor 2 Panis de Bernard que nenhum dos seus estava entio em casa. Além disso, Bernard nio teria podido dizer-lhes adeus sem que procurassem reté-1o, Ele temia dar explicagSes. A Antoine podia dizer simples- ‘mente: “Vou-me embora.” Mas, ao fazer isso, estendeuche a mao de modo tio solene que o velho criado se espantou. — Osenhor Bernard nio volta para jantar? — Nem para dormir, Antoine. —E, como 0 outro ficasse in. deciso, nio sabendo o que devia entender, nem se devia fazer mais perguntas, Bernard repetiu mais intencionalmente: — Vou-me embora. — Depois acrescentou: — Deixei uma carta sobre a es- ctivaninha de... — Nao conseguiu dizer: de papai, e retomou: — .sobre a mesa do escritério. Adeus. Ao apertar a miio de Antoine, ele estava comovido como se a0 ‘mesmo tempo se despedisse do passado; repetiu rapidamente adeus, depois saiu, antes de deixar explodir o grande solugo que lhe subia A garganta. Antoine se perguntava se ndo era uma grave responsabilidade deixé-lo ire assim, mas como poderia reté-lo? Que essa partida de Bernard fosse para toda a familia um acontecimento inesperado, monstruoso, Antoine o sentia, mas seu papel de perfeito servidor era o de no parecer espantarse com isso. Nao tinha de saber o que o senhor Profitendieu no sabia. Por certo poderia dizer simplesmente: “O senhor sabe que 0 senhor Bernard partiu?”, mas perdia assim toda vantagem € isso no era nada agradavel. Se esperava 0 patria com tanta impaciéncia, era pata Ihe informar, em tom neutro, deferente, e como um simples aviso que Bernard 0 encarregara de transmitir, esta frase que tinha preparado longamente: — Antes de partir, o senhor Bernard deixou uma carta para © senhor no escritério. — Frase to simples que corria 0 risco de passar despercebida; tinha inutilmente procurado algo maior, B | (05 MOEDEIROS FALSOS sem nada encontrar que fosse ao mesmo tempo natural. Mas como munca acontecia a Bernard de ausentar-se, o senhor Profitendieu, ‘que Antoine observava com 0 canto do olho, no péde reprimir tum sobressalto: — Como!... Antes de Logo caiu em si; nio tinha de deixar transparecer seu espanto diante de um subaltemo; o sentimento de sua superioridade no 0 abandonava. Tecminou em tom calmo, verdadeiramente magistral: — Esta bem. E enquanto se ditigia a0 escritério: — Onde voc’ disse que ela esté, aquela carta? — Em cima da eserivaninha do senhor. Profitendieu, logo que entrou no cémodo, vit de fato um envelope colocado de maneira bem visivel, & frente da poltrona onde costumava sentar-se para escrever; mas Antoine nao desistia, has da carta co senhor Profitendieu nem mesmo tinh lido duas quando ouviu baterem a porta. — Eu ia esquecendo de dizer ao senhor que hé duas pessoas a sua espera na saleta, — Que pessoas? — Nao sei. — Esto juntas? — Nio parece. — O que querem de mim? — Nio sei. Gostariam de ver 0 senhor. Profitendieu sentiu que a paciéncia the escapava, — Ji disse e repeti que ndo queria que viessem me perturbar aqui, principalmente a esta hora; tenho meus dias ¢ minhas horas de expediente no Palécio... Por que as deixou entrar? — As duas disseram que tinham algo de urgente para dizer a0 senhor. 4 ARs — Elas estio aqui ha muito tempo? — Fara logo ume hora. Profitendiet deu alguns passos no escrit6rio e passou uma das ios na testa; com a outra segurava a carta de Bernard. Antoine continuava diante da porta, digno, impassivel. Finalmente teve a alegria de ver o juiz perder a calma e de ouvi-lo, pela primeira vez na vida, batendo o pé, vociferar: — Deixem-me em paz! Deixem-me em paz! Diga-lhes que estou ocupado. Que voltem outro dia, Mal Antoine saira, Profitendieu correu para a porta: — Antoine! Antoinel... E depois va fechar as tomneiras da banheira ‘Ah! Se era ainda questo de um banho! Aproximou-se da janela e leu: Meu senhor, Comipreendi, logo apds certa descoberta que fiz por acaso esta tarde, que devo deixar de consideré-lo como meu pat, & isso é para mim un imenso alivio. Sentindo ent mim tio pouco amor pelo senbor, acreditei por muito tempo que era um filbo desnaturado; prefiro saber que nio sou de fato seu filbo. Talvex co senbor considere que devo reconbecimento por ter sido tratado pelo senbor como uns de seus filbos; mas primeiro, sempre sent entre elese mim, diferenca no seu tratamento, e depois, tudo oque 0 senor fez, conhego-o bastante para saber que foi por borror 120 escandalo, para esconder uma situagio que néo 0 bonrava muito—e finalmente porque o senbor ndo podia fazer de outra ‘maneira. Prefiro partir sens rever minha mae, porque eu temeria, dando-the 0 meu adeus definitivo, comover-me, e também por ‘que, diante de mim, ela poderia se sentir nunca situagéo falsa, 0 que me seria desagradével. Duvido que sua afeigdo por mint seja B (05 MOEDEIROS FALSOS ato intensa; como eu passed a maior parte do tenipo na pensio, ela ndo teve muito tempo para me conbecer, e como verme the Tembrava sem cessar de alguma coisa de sua vida que gostaria de pagar, acho que ela me verd partir com alivio e prazer. Diga-the, se tivercoragem, que nao a quero ral por nie ter feito bastardo; ao contririo, prefiro isso a saber que nasci do senbor. (Desculpe-me por falar assim; minha intengdo néo 6 escrever Ibe insultos; mas 0 que estou dizendo vai permitir que me despreze, e isso 0 aliviard.) Se desejar que eu guarde siléncio sobre as secretas raxies que ‘me fizeram abandonar o seu lar, rogo-lbe que nao procure fazer- me voltar a ele. A decisio que tomei de abandonar 0 senhor é irrevogivel. No sei quanto pade ter tbe custado 0 meu sustento até este dia; eu podia aceitar viver a suas expensas enquanto es- tava na ignorincia, mas é escusado dizer que prefiro nada receber do senor no futuro, A ideia de dever-the 0 que quer que seja Esme intolerdveleacredito que, se tivesse de recomecar, preferiria morrer de fonse a sentar-me d sua mesa. Felizmente parece que me lembro ter ouvido dizer que minha mile, quando se casa- ram, era mais rica do que o senor. Fico, pois, live para pensar que vivi apenas as expensas dela. Agradeco-lbe, considero-a quite para todo 0 resto, e peco-the que me esquega. O senbor hd de achar um jeito de explicar a minha partida junto aqueles que ‘poderiam estranhécla, Permito-lbe que me culpe (embora saiba ‘que néo esperaria minha permissdo para faxé-lo) Assino com o ridéculo nome que é 0 seu, que gostaria de poder devolverthe e que ja tardo em desonrar, Bernard Profitendiew PS. —Deixo em sua cata todos as meus pertences, que poderio servir mais legitimamente a Caloub, assin espero pelo senor. 26 PARIS O senhor Profitendieu alcangou, cambaleando, uma poltrona. ‘Tentava refletir, mas as ideias turbilhonavam confusamente em sua cabeca. Além disso, sentia uma pequena pontada do lado direit abaixo das costelas; nfo havia divida: era a crise de figado. Have ‘gua de Vichy na casa? Se pelo menos sua esposa estivesse de volt Coma ira avisi-la da fuga de Bernard? Deveria mostrarlhe a carta? Einjusta, essa carta, abominavelmente injusta. Ele deveria indignar-se com ela. Gostaria de tomar sua tristeza como indignacio. Respira fortemente ¢ a cada expiracZo exala um “Ah! Meu Deus!” répido e fraco como um suspiro. A dor do lado se confunde com sua tristeza, prova-a e localiza-a. Parece-lhe ter magoa no figado. Atira-se numa poltrona e relé a carta de Bernard, Ergue tristemente os ombros. E certamente cruel para ele essa carta; mas sente nela despeito, desafio, jactancia. Jamais nenhum de seus outros filhos, de seus verdadeiros filhos, seria capaz de escrever assim, como ele proprio também nio seria capaz; bem o sabe, pois nada hi neles que ni7o tenha conhecido em si proprio. Certamente ele sempre acreditara que devia censurar o que sentia de novo em Bernard, dé rude, de indo- mado; mas, por mais que ainda acredite, sente que era precisamente por causa disso que 0 amava como nunea amata 0s outros. Havia alguns instantes ouvia-se no cdmodo ao lado Cécile que, de volta do concerto, colocara-se a0 piano e repetia com obstinagao a mesma frase de uma barcarola. Finalmente Albéric Profitendieu nio aguentou mais. Entreabriu a porta do salo e, com vor queixosa, quase suplicante, pois a célica hepatica come- cava a fazé-lo sofrer cruelmente (para piorar, ele sempre fora um pouco timido com — Minha pequena Cécile, vocé poderia verificar se existe agua de Vichy em casa? Se niio houver, pode mandar buscat. E depois vocé seria boazinha se parasse um pouco o seu piano. 27 (05 MOEDEIROS FALSOS — Ossenhor esta se sentindo mal? — Nio, nio. Simplesmente preciso refletir um pouco até o jantar e sua miisica me perturba. E, por gentileza, pois o sofrimento o tornava meigo, ele acres- cento — E bem bonito isso que vocé tocava. O que é? ‘Mas saiu sem esperar a resposta. Alids, a filha, que sabia que cle no entendia nada de miisica e confundia Views Poupoule com a marcha de Tannhaiiser (pelo menos é 0 que ela diz), nfo tem a intengio de responder-the. Mas eis que ele volta a abrir a porta: — Sua mie nfo voltou? — Nio, ainda nao. £ absurdo. Ela voltaria tio tarde que ele nio teria tempo de Ihe falar antes do jantar. O que poderia inventar para explicar provisoriamente a auséncia de Bernard? Nao podia, entretanto, contar a verdade, entregar aos filhos o segredo do descaminho passageiro da mae deles. Ah! Tudo estava tio bem perdoado, es quecido, reparado. O nascimento de um tiltimo filho havia selado a reconciliagao. E de repente esse espectro vingador que ressurge do passado, esse cadaver que a onda traz de volta, ‘Vamos! O que é agora? A porta do escritétio se abriu sem ruido; rapido, cle enfia a carta no bolso interno do casaco; a cortina evanta-se bem devagar. E Caloub, — Papai, diga... O que quer dizer esta frase latina? Nao estou entendendo nada — Jé Ihe disse para nio entrar sem bater. E depois, eu no guero que vocé venha me perturbar assim por qualquer coisa Voc? esta pegando o costume de pedir ajuda e de se encostar nos |. Ontem, era o pro- outros em vez de fazer um esforco pes blema de geometria; hoje, € uma... de quem € essa frase latina? Caloub apresenta 0 caderno: 28 Panis — Ele nao disse para nés; mas, tome, olhe: 0 senhor vai reco- nhecer. Ele nos ditou, mas talvez eu a tenha escrito mal. Eu queria saber se pelo menos esté correto... senhor Profitendieu pega o caderno, mas esta com muita dor. Empurra suavemente o menino: — Mais tarde. Vamos jantar. Charles jé voltou? — Ele desceu aoescritério. (E no andar térreo que 0 advogado recebe sua clientela.) — Vi dizer-Ihe que venha ter comigo. Vi depressa. Um toque de campainha! A senhora Profitendiew final- mente chega, pede desculpas pelo atraso; teve de fazer muitas visitas. Fica triste por encontrar o marido adoentado. Que se pode fazer por ele? Ef verdade que ele est com aspecto muito ruim, Néo poder comer. Ponham-se mesa sem ele, Mas que depois da refeigao ela venha encontré-lo com as criangas. — Bernard? Ah! E verdade; seu amigo... vocé bem sabe, aquele com quem ele tinha aulas pasticulares de matemitica, veio buscé-lo para jantar. Profitendieu sentia-se melhor. De inicio teve medo de estar indisposto demais para poder falar. Entretanto, importava dar uma explicagio para o desaparecimento de Bernard. Sabia agora © que devia dizer, por mais doloroso que fosse. Sentia-se firme resoluto. Seu tinico temor era que a mulher o interrompesse com um pranto, com um grito; que ela se sentisse mal... ‘Uma hora mais tarde, ela entra com as trés criangas: aproxi- ma-se. Ele a faz sentar-se perto dele junto a sua poltrona. — Procure se segurar — disse-Ihe em voz baixa, mas num tom impetioso —;¢ nao diga nenhuma palavra, est me ouvindo? Conversaremos os dois mais tarde. E enquanto fala, mantém uma das mios dela entre as suas. 2 (0S MOEDEIROS FALSOS — Vamos, sentem-se, meus filhos. Incomoda-me vé-los ai, de pé & minha frente como para um exame. Tenho algo muito triste para lhes dizer. Bernard nos deixou ¢ no voltaremos a vélo... por algum tempo. Devo informé-los hoje de algo que Ihes havia escondido inicialmente, desejoso que estava de vé-los amar Bernard como a um irmio; pois a mae de vocés ¢ eu o amavamos como nosso filho, Mas ele no era nosso filo... e um tio dele, um irmao de sua verdadeira me que 0 havia confiado a nés ao morrer... veio buscé-lo hoje a tarde. Um siléncio penoso segue essas palavras ¢ ouve-se Caloub respirar forte, Todos ficam esperando, pensando que ele vai falar mais. Mas ele faz um gesto com a mio: — Podem ir agora, meus filhos. Preciso conversa com sua mie. Depois que eles sairam, o senhor Profitendieu fica um longo tempo sem dizer nada. A mio que a senhora Profitendieu deixa entre as dele esta como morta, Com a outta, ela Jevou o lengo aos olhos. Acotovelou-se & grande mesa, e desviou 0 rosto para chorar, Em meio aos solugos que a sacodiam, Profitendieu a ouve — Oh! vocé cruel... Oh! vocé o expulsou. Pouco antes, ele resolvera nfo Ihe mostrar a carta de Bernard; mas diante daquela acusagZo to injusta, estendeu-a para ela: — Tome: leia, — Nio posso. — E preciso que vocé leia, J ndo pensa mais em seu mal, Segue-a com os olhos, a0 longo de toda a carta, linha apés linha. Hé pouco, ao falar, tinha difi- culdade para reter as lagrimas; agora a propria emogio o abandons; olha para a mulher. O que ela pensa? Com a mesma voz queixosa, colugos, ela murmura ainda em meio aos mesmo: 30 Paris — Oh! Por que vocé falou com ele... Vocé no deveria ter Ihe dito — Mas voeé esté vendo que eu nao Ihe disse nada... Leia melhor a carta. — Eu li... Mas ento como ele descobriu? Quem Ihe disse?.. O qué! E nisso que ela esté pensando! E esse o cetne de sua tristeza! Esse luto deveria reuni-los. Que pena! Profitendiew sente confusamente os pensamentos dos dois tomarem diregdes divergentes. E enquanto ela se queixa, acusa, reivindica, ele tenta inclinar aquele espirito arredio para sentimentos mais piedosos. — Afestiia expiagio — diz ele. Ele se levantou, por instintiva necessidade de dominar; man- tém-se agora todo ereto, despreocupado ¢ esquecido de sua dor fisica, e pouse gravemente, carinhosamente, autoritariamente a mio no ombro de Marguerite. Bem sabe que ela se arrependeu apenas fem parte do que ele sempre considerou como uma fraqueza passa- geira; ele queria dizer-the agora que essa tristeza, essa provagio, poderé auxilié-la em sua remissio; mas busca em vio uma férmula que o satisfaga e que possa esperar fazer compreender, O ombto de Marguerite resiste i suave pressio de sua mio, Marguerite sabe bem que sempre, insuportavelmente, algum ensinamento moral deve sait, parido por ele, dos menores acontecimentos da vida; cle tudo interpreta e traduz segundo o seu dogma. Debruca-se em divegio a ela, Eis 0 que quisera dizer-he: — Minha pobre amiga, vocé esta vendo: nada de bom pode nascer do pecado. De nada serviu procurar encobrir seu erto, Pena! Eu fiz © que pude por esse menino; tratei-o como a meu préprio filho. Deus nos mostra agora que foi um erro pretender, ‘Mas & primeira frase cle para. E sem davida ela entende essas poucas palavras tio carregadas de sentido; sem diivide elas penetraram seu coracao, pois cla volta 31 (05 MOEDEIROS FAtsOS a solucas, com mais violencia do que antes, ela que desde alguns instantes jé no chorava mais; entdo se curva como se prestes a ajoelhar-se diante dele, que se inclina para ela ea segura. Que diz ela cem meio as lagrimas? Ele se debruca até seus labios. Ouve: — Vocé est vendo... Vocé est vendo... Ah! Por que me per- doou...? Ah! Eu nio deveria ter voltado! Ele quase é obrigado a adivinhar suas palavras. Depois cla se cala. E incapaz de dizer mais. Como lhe dizer que se sentia aptisionada naquela virtude que ele exigia dela, que sufocavas gue nio era tanto por seu erro que Iamentava agora, mas sim por ter-se arrependido dele, Profitendieu voltara a erguer-se: — Minha pobre amiga — disse em tom digno ¢ severo —, temo que vocé esteja um pouco inflexivel esta noite. E tarde. Fa- riamos melhor se fossemos deitar. Ele a ajuda a levantar-se, depois a acompanha até seu quarto, pousa os libios em sua fronte, em seguida volta para o escritério € se atira numa poltrona. Estranho, sua crise de figado se acalmou; mas sente-se esgotado, Fica com a cabega entre as mios, triste demais para chorar. Nao ouve baterem 3 porta, mas, ao ruido da porta que se abre, levanta a cabeca: é seu filho Charles — Vim lhe dizer boa noite. Charles aproxima-se. Entendeu tudo, Quer mostrar iss0 0 pai Gostaria de Ihe testemunhar sua piedade, sua ternura, sua devogio, ras, quem acreditaria nisso vindo de um advogado: ele é extrema- mente desajeitado para exprimir-se; ou talvez se torne desajeitado precisamente quando seus sentimentos sio sincetos. Beija 0 pai ‘A maneira insistente que tem de pousat, de apoiat a cabega no ombro do pai e de deixé-la por ali algum tempo persuade a este de que ele entendeu, Entendeu to bem que, levantando um pouco a cabega, pergunta, canhestramente, como tudo o que faz — mas est com 0 cotagio tio atormentado que nio pode evitar a pergunta: 32 aris — ECaloub? A pergunta é absurda, pois, tanto quanto Bernard diferia dos outros filhos, em Caloub o jeito da familia é sensfvel. Profitendiew bate no ombro de Charles: — Nio, nao, fique tranquilo. $6 Bernard. Entio Charles, sentenciosamente: — Deus expulsa o intruso para... Mas Profitendieu o interrompe; por que ele precisa falar assim? — Cale-se O pai € 0 filho nao tém mais nada a se dizer. Deixemo-los. Logo serio onze horas. Deixemos a senhora Profitendiew em seu quarto sentada numa cadeira reta pouco confortével. Ela nfo esté chorando; nao pensa em nada. Gostaria, também ela, de fugit; mas nio o faré, Quando estava com seu amante, 0 pai de Bernard, que no precisamos conhecer, ela se dizia: Vamos, por ais que vocé faga, nunca sera sendio uma mulher honesta. Tinha medo da liberdade, do crime, da facilidade; 0 que fez com que, ao cabo de clez dias, ela voltasse atrependida para o lar. Seus pais outrora tinham razio em dizer-the: Vooé nunca sabe 0 que quet. Deixemo-la, Cécile ja esta dormindo. Caloub considera com de sespero a sua vela; ela ndo duraré o bastante para lhe permitit que termine o livro de aventuras, que o distrai da partida de Bernard. Eu teria ficado curioso para saber 0 que Antoine contou 4 sua amiga cozinheira; mas no se pode ouvir tudo. E chegada ahora em que Bernard deve ir encontrar-se com Olivier. Nao sei bem onde jantou esta noite, nem mesmo se jantou, Passou sem problema diante da casa do zelador; sobe & sorrelfa a escadaria... 3 Tr Plenty and peace breeds cowards; hardness ever Of bardiness is mother Shakespeare Olivier se deitara para reeeber o beijo da mie, que vinha beijar seus dois filhos na cama todas as noites. Ele poderia terse vestido de novo para receber Bernard, mas ainda duvidava de sua vinda e temia acordar seu irmfozinho. Georges geralmente adormecia depressa e despertava tarde; talvez nem fosse perceber nada de insblito. ‘Ao ouvir uma espécie de arranhio discreto na porta, Olivier pulou da cama, enfiou as pressas os pés numas chinelas e foi correndo abrir. Nao era preciso acender a luz; o luar iluminava suficientemente o quarto. Olivier abragou Bernard. — Como eu esperava por vocé! Nao podia acreditar que viesse. Seus pais sabem que vocé nio vai dormir em casa esta noite? Bernard olhava diretamente para frente, no escuro. Levantou os ombros, 34 PARIS — Voce acha que eu deveria pedir-lhes autotizacio, hein? © tom de voz era tio friamente irénico que Olivier sentira logo 0 absurdo de sua pergunta. Ele ainda néo entendeu que Bernard sait de casa “para vales”; acha que tem a intencio de dormir fora s6 aquela noite e no consegue explicar 0 motivo de tal esca- pada, Interroga: Quando Bernard espera voltar? “Nunca!” A mente de Olivier se aclara. Tem grande cuidado para se mostrar & altura das circunstincias e nfo se deixar surpreender por nada; entretanto um “é gravissimo, isso que vocé esté fazendo” Ihe escapa. Nao desagrada a Bernard espantar um pouco o amigo; é prin- cipalmente sensfvel ao que transparece de admiragio nessa inter- jeigio; mas de novo ele ergue os ombros. Olivier pegou-lhe a mio; est muito sério; pergunta ansiosamente: — Mas... por que vocé esté indo embora? — Ab! Isso, meu velho, sio negécios de familia. No posso dizer. — E para nao ficar com um jeito muito sério, brinca, com a ponta do sapato, de derrubar os chinelos que Olivier balanca na ponta do pé, pois se haviam sentado a beira da cama. — Entao onde vocé vai viver? — Nio sei. — Ecom qué? — Isso a gente vai ver. — Vocé tem dinheizo? — Suficiente para almogar amanbi. — E depois? — Depois vai ser preciso arrumar. Bah! Acabarei encontrando alguma coisa. Vocé vai ver; eu Ihe contarei. Olivier admira imensamente o amigo, Sabe que tem um tem- peramento resoluto; entretanto, ainda duvida; sem recursos e logo pressionado pela necessidade, sera que nio vai tentar voltar para casa? Bernard 0 tranquiliza: tentara “qualquer coisa” antes de 35 (05 MOEDEIROS FALSOS voltar para junto dos seus. E como repete varias vezes ¢ sempre mais selvagemente esse “qualquer coisa”, uma angistia aperta 0 coracio de Olivier. Gostaria de falar, mas no ousa. Finalmente comeca, absixando a cabeca ¢ com vor pouco firme: — Bernard... afinal de contas, vocé nfo tem a intengio de... — Mas para, O amigo levanta os olhos e, sem enxergar bem Olives, percebe sua confusio. — De qué? — pergunta, — O que vocé quer dizer? Fale. De roubar? Olivier balanga a cabeca. Nao, néo é isso. De repente, explode em solugos; abraca convulsivamente Bernard, — Prometa que nfo vai se Bernard o beija, depois o afasta rindo. Ele entendeu: — Isso eu prometo. Nao vou virar rufifio. —E acrescenta: — Mas vocé hé de convir que isso seria 0 mais simples. — Porém, Olivier se sente tranguilizado; sabe que estas tltimas palavras s6 foram ditas por afetagio de cinismo. — E seu exame? — Sim, é isso o que me incomoda, Eu no queria ser repro- vado, no final das contas, Acho que estou pronto; é mais uma {questo de nio estar cansado no dia. Preciso resolver isso logo. # um pouco arriscado; mas... vou me dar bem; voce vai ver. Ficam em siléncio por um instante. O segundo chinelo caiu. Bernard: — Voce vai se resfriar, Volte a se deitar — Nido, é vocé que vai se deitar. — Est brincando! Vamos, depressa —e forga Olivier a entrar na cama desarrumada. — Mase vocé, onde vai dormir? — Em qualquer lugar. No cho, Num canto. Bu tenho de ir me acostumando. 36 — No, escute. Quero lhe dizer uma coisa, mas no posso se nao o sentir bem perto de mim. Venha para a minha cama. — E depois que Bernard, que num instante se despiu, juntou-se a cle: — Sabe, 0 que eu Ihe contei da outra vez... pronto... aconteceu. Bernard entende por meias palavras, Aperta contra si o amigo, que continua: — Pois bem, meu velho, é nojento, E horrfvel... Depois, eu tinha vontade de cuspir, de vomitar, de arrancar-me a pele, de me matat. — Vocé esta exagerando. — Oude maté-la, a ela... — Quem era? Vocé nio foi imprudente, pelo menos? — Nao, é uma garota que Dhurmer conhece bem; a quem cle me havia apresentado, Era sobretudo sua conversa que me cenojava. Ela ndo parava de falar. E como é burra! No entendo como a pessoa nio se cala nesses momentos. Eu tinha vontade de amordacé-la, de estrangulé-la.. — Meu pobre amigo! Vocé devia ter imaginado que Dhurmer 6 podia lhe oferecer uma idiota... Era bonita, pelo menos? — Se vocé acha que eu olhei para ela! — Vocé é um idiota. Vocé é um amor. Vamos dormir... Vocé pelo menos conseguiu. — Ora essa! E justamente isso que mais me enoja: € que cu consegui assim mesmo... como se eu a desejasse. — Pois bem! Meu velho, é fabuloso — Cale-se, Se éiss0 0 amor, jé me fartei por muito tempo. — Que infantil vocd esta sendo! — Gostaria de ver se fosse voed. — Ohi! Eu, vocé sabe, eu nao corro atris, Ja Ihe disse: espero a aventura, Assim, friamente, isso no me interessa, O que no impede que se eu... 7 (08 MOEDEIKOS FaLsos — Que se voeé...? — Que se ela... Nada; vamos dormir. — E bruscamente ele da as costas, afastando-se um pouco desse corpo cujo calor o in- comoda. Mas Olivier, ao cabo de um instante: — Diga... voeé acha que Barrés seré eleito? — Ora essa! Isso o preocupa? — Nao estou nem af! Diga... Escute um pouco... — Ele se apoia sobre o ombro de Bernard, que se volts. — Meu irmio tem ‘uma amante. — Georges? © pequeno, que finge dormir, mas que ouve tudo, alerta no escuro, 20 ouvir seu nome prende a respiracio. — Esté louco! Estou falando de Vincent. (Mais velho do que Olivier, Vincent acaba de concluir os primeiros anos de medicina,) — Ele lhe disse? — Nao. Fiquei sabendo sem que ele percebesse. Meus pais no sabem de nada. — O que eles disiam se descobrissem? — Nio sei. Mamie entraria em desespero. Papai lhe diria que rompesse ou que se casasse. — Puxa! Os burgueses honestos no compreendem que se possa ser honesto de maneira diferente da deles. Como vocé ficou sabendo? — Veja: hi algum tempo Vincent sai a noite, depois que os meus pais jé foram se deitar. Faz 0 menor barulho possfvel ao descer, mas reconhe¢o os passos dele na rua. Na semana passada, terca-feira, creio, a noite estava to quente que eu nao conseguia ficar deitado. Pus-me a jenela para respirar melhor, Ouvi a porta de baixo se abrir ¢ se fechar. Debrucei-me, e quando ele passou perto do lampiao, reconheci Vincent. Era mais de meia-noite. Era a primeira vez. Quero dizer: a primeira vez que eu o notava. 38 Mas, desde que descobri, eu 0 vigio— oh! sem querer... e quase todas as noites eu 0 ougo sais. Ele tem uma chave e meus pais lhe prepararam nosso antigo quarto, meu e de Georges, como con- sultério, para quando tiver clientela, O quarto dele fica ao lado, a esquerda do vestibulo, a0 passo que o resto do apartamento esté a direita, Pode sair entrar quando quer, sem que o saibam. Geralmente nifo o ouso voltar, mas anteontem, segunda-feira a noite, nao sei o que havia comigo; pensava no projeto da revista de Dhurmer... Nao conseguia adormecer. Ouvi vozes na escada; achei que fosse Vincent. — Que horas eram? — pergunta Bernard, nem tanto por desejo de saber quanto para marcar seu interesse — Trés horas da madrugada, creio, Levantei-me e coloquei o ouvido contra a porta, Vincent conversava com uma mulher. Ou melhor, s6 ela falava, — Entio como vocé sabe que era ele? Todos os inguilinos passam diante de sua porta — Chega mesmo a incomodar bastante as vezes: quanto mais tarde, mais barulho fazem ao subi; nfo dio a minima para as pessoas que estio dormindo!... S6 podia ser ele; eu ouvia a mulher repetir ‘onome dele, Ela the dizia... oh! me enoja repetir isso... — Continue. — Ela dizia: “Vincent, meu amante, meu amor, ah! No me deixe, senhor! — Ela dizia “senhor”? — Sim, Nao € curioso? — Conte mais. — “Agora niio tem mais o direito de me abandonar. O que o senhor quer que eu me tome? Aonde quer que eu v4? Diga alguma coisa. Oh! Fale comigo.” E ela o chamava novamente pelo nome e repetia: “Meu amante, meu amante”, com uma voz cada vez mais 39 (05 MOEDEIROS FaLSOS triste e cada vez mais baixa. E depois s6 ouvi um barulho (eles deviam estar nos degraus da escada), um barulho de algo que cai. Penso que ela se langou de joelhos. — Eele, no respondia nada? — Ele deve ter subido os tiltimos degeaus; ouvi a porta do apar- tamento quese fechava, Em seguida ela permaneceu muito tempo, bem perto, quase encostada i minha porta, Eu a ouvia solugas. — Vocé devia ter aberto a porta. — Nio tive coragem. Vincent ficaria furioso se soubesse que estou a par de seus casos. Depois, tive medo de que ea ficasse cons- trangida por ser surpreendida chorando, Nio sei o que lhe poderia haver dito. Bernard voltara-se para Olivier. — Se eu fosse voc’, teria aberto. — Ora essa! Vocé sempre tem coragem de fazer tudo. Tudo que Ihe passa pela cabeca vocé faz. — Vocé me reprova por isso? — Nido, eu o invejo. — Vocé imagina quem poderia ser essa mulher? — Como vocé quer que eu saiba? Boa noite. — Diga... Vocé tem certeza de que Georges nfo nos ouviu? —cochicha Bernard no ouvido de Olivier. Ficam & espreita por lum momento. — Nido, ele esté dormindo — retoma Olivier com voz natural; —e depois, ele nfo teria entendido. Vocé sabe o que ele perguntou, outro dia, a papai?... Por que os... Desta vez Georges nao aguenta mais; ergue-se um pouco na cama e, interrompendo o itmio: — Imbecil — grita. — Vocé entio nfio viu que eu favia de pro- pésito?... Légico que sim, ouvi tudo que voce disse hé pouco. Oh! Nio adianta se desesperar. A historia de Vincent eu jé conhecia 40 Panis h4 muito tempo. $6 que agora, meus garotos, tentem falar mais baixo, porque estou com sono. Ou calem-se. Olivier se vira para a parede, Bernard, que nfo dome, contem- pla o quarto. O luar o faz parecer maior. De fato, ele mal o conhece. Olivier nunca fica ali durante 0 dia; as raras vezes que recebeu Bernard, foi no andar de cima, © luar toca agora o pé da cama onde Georges finalmente adormeceus ele ouviu quase tudo que 0 irmio contous ele tem com que sonbar. Acima da cama de Georges, vé-se uma pequena estante com duas prateleiras onde esto os livros da escola, Sobre a mesa, perto da cama de Olivier, Bernard nota um livro de formato maior; estende 0 brago, pega-o para ver o titulo: Tocqueville; mas quando quer colocé-lo de volta sobre a mesa, 0 livro cai e o barulho acorda Olivier. — Vocé lé Tocqueville, agora? — E Dubac quem me emprestou isso. — Voce gosta? — £ um pouco chato. Mas tem coisas muito interessantes. — Escute. O que voce vai fazer amanha? No dia seguinte, quinta-feira, os sccundaristas estio livres. Bernard pensa em talvez encontrar de novo amigo. Esté com vontade de nio voltar mais ao liceu; tem a intencio de dispensar as tltimas aulas e preparar-se sozinho para o exame. — Amanha, — diz Olivier — vou as onze € meia & estacio -Lazate, para a chegada do trem de Dieppe, encontrar meu Sai tio Edouard gue volta da Inglaterra. A tarde, as trés horas, irei encontrar Dhurmer no Louvre. O resto do tempo, preciso estudar, — Osseu tio Edouard? — Sim, é um meio-irmao de mamie. Esté fora hd seis meses, € ‘eu mal o conheco; mas gosto muito dele. Ele no sabe que vou a0 seu encontro ¢ tenho medo de nao o reconhecer. Ele nfo se parece ‘em nada com 0 resto de minha familia; é uma pessoa otima, a (05 MOEDEIROS FALSOS — Oque ele faz? — Escreve. Li quase todos os livros dele; mas faz tempo que no publica nada. — Romances? — Sim; espécies de romances. — Por que voc? nunca me falou sobre isso? — Porque voc ia querer lé-los; ¢ se vocé nao gostasse.. — Pois bem! Termine. — Pois bem, isso me magoaria. E isso. = O que faz voc’ dizer que ele & 6timo? — Nio sei muito bem. Eu lhe disse que quase nio 0 conheco. E mais um pressentimento. Sinto que ele se interessa por muitas coi- sas que nfo interessam a meus pais, e que se pode falar de tudo com cle. Um dia, pouco antes de sua partida, ele almogou em nossa casa; enquanto conversava com meu pai, eu sentia que ele olhava constan temente paca mim e isso comegava a me incomodar; eu ia sair dali —eraa sala de jantar, onde a gente ficava depois do café —mas ele comegou a interrogar meu pai a meu respeito, o que me incomodou ainda mais; e de repente papai se levantou para ir buscar uns versos que eu acabara de fazer, e que eu fora idiota de Ihe mostrar. — Versos seus? — Sim. Vocé conhece; aqueles versos que vocé achava que se pareciam com o Baledo.* Eu sabia que eles no valiam nada ou quase nada, efiquei extremamente irritado por papai haver trazido isso & baila. Durante um instante, enquanto papai procurava os versos, ficamos ambos s6s na sala, 0 tio Edouard eeu, e senti que ceu estava ficando enormemente enrubescido; nfo achava nada para dizer; olhava para outro lado; ele também, aliés; comegou por enrolar um cigarro; depois, sem diivida para me deixar um pouco * Pocma de Charles Baudelaire, em Flores do mal INE) 2 Panis Avontade, pois certamente viu que eu enrubescia, levantou-se e se pés a olhar pela janela. Assoviava baixinho. De repente, disse-me: “*Bstou bem mais embaragado que voc8.” Mas ereio que foi por gentileza, Finalmente papai voltou: estendeu meus vetsos para o tio Edouard, que comegou a lélos. Eu estava tio enervado que, se me tivesse elogiado, acho que o teria xingado, Evidentemente, papai os esperava — clogios; ¢ como meu tio nfo dizia nada, ele perguntou: “Entio, o que acha?” Mas o meu tio Ihe disse, rindo: “Fico constran- gido de falar com ele na sua frente.” Entio papai saiu rindo também. E quando nos encontramos de novo a sés, disse-me que achava os ‘meus versos muito ruins; mas tive prazer em ouvi-lo dizer isso; € 0 «que me dew ainda mais prazer foi que, de repente, ele apontou com 0 dedo dois versos, 0$ tinicos dois que me agradavam no poema: olhou-me, sortindo, e disse: “Isto é bom.” Nao foi cotreto da parte dele? E se voc® soubesse o tom em que ele me disse isso! Eu o teria abragado, Depois me disse que o meu erro era partir de uma ideia, e que eu nio me deixava guiar pelas palavras. Nao entendi muito bem de inicio; mas creio que agora sei o que queria dizer: e que ele tem razio, Eu Ihe explicarel isso em outra ocastio. — Entendo agora que vocé queira estar presente & sua chegada. — Oh! O que estou lhe contando agora niio é nada, e nem sei por que estou Ihe contando. Conversamos ainda sobre muitas outras coisas. — As onze e meia, vocé diz? Como vocé sabe que ele chega rnesse trem? — Porque ele escreveu A mamie num cartio postal; ¢ depois verifiquei no indicador. — Vocé vai almogar com ele? — Oh! Nao, preciso estar aqui de volta ao meio-dia, Mal terei tempo para lhe apertar a mio; mas isso me basta... Ah! Diga mais uma coisa, antes que eu adormega: quando voltarei a ver vocé? B (05 MOEDEIROS FaLSoS — Nio antes de alguns dias. Nao antes que eu tenha resolvido problema, — Mas afinal de contas... se eu pudesse ajudé-lo. — Se vocé me ajudasse? Nao, Nao teria cabimento. Seria como se estivesse trapaceando, Durma bem, Iv Meu pai era uma besta, mas mrinba mae era es. pirituosa; ela era quietste; era uma mulberzinba suave que com frequéncia me divia: Mew filbo, vocé serd condenado, Mas isso ndo Ube facia mal. Fontenel Nio, nfo era 2 casa da amante que Vincent Molinier ia todas as noites, Embora ele ande depressa, sigamo-lo. Do alto da rua Notre-Dame-des-Champs, onde mora, Vincent desce até a rua Saint-Placide, sua continuagio; depois, rua du Bac, onde alguns burgueses retardatatios ainda circulam, Para na rua de Babylone, diante de um portio grande, que se abre. Cé esté cle na casa do conde de Passavant, Se nfo viesse aqui com tanta frequén- ia, nfo entratia tdo decididamente nesse faustoso palacete. O criado que lhe abre sabe muito bem 0 que se esconde de timidez debaixo dessa seguranca fingida. Vincent prefere niio lhe estender 0 chapéu que, de longe, langa sobre uma poltrona, No entanto, nao faz muito tempo que Vincent vem aqui, Robert de Passavant, que agora se diz ” (08 MOEDEIROS FALSOS amigo seu, € amigo de muita gente, Nao sei bem como Vincent e ele se conheceram. No colégio, provavelmente, embora Robert de Passavant seja sensivelmente mais velho que Vincent; perde- ram-se de vista durante alguns anos, depois, ha bem pouco tempo, tendo-se encontrado de novo, certa noite em que, extraordinaria- mente, Olivier acompanhava o irmio ao teatro; durante o intervalo, Passavant oferecera sorvete a ambos; ficou sabendo naquela noite gue Vincent acabava de terminar o extemato, que estava indeciso, no sabendo se iria se apresentar como residente; as ciéncias naturais, a bem dizer, atrafam-no mais do que a medicina; mas a necessidade de ganhar a vida... Em suma, Vincent aceitara de bom grado a proposta de semuneragio que Robert de Passavant Ihe fez pouco tempo depois, para vir toda noite cuidar de seu velho pai, que uma cicurgia bastante grave deixara muito abalado: tratava-se de trocar curativos, de sondas delicadas, de injegdes, enfim, de nao sei mais o qué que exigia mios experimentadas. Mas, além disso, 0 visconde tinha razées secretas para se aproximar de Vincent; ¢ este tinha ainda outras para aceitar. A razo secreta de Robert, tentaremos descobri-la a seguir; quanto & de Vincent, aqui esté: premia-o uma grande necessidade de dinheiro. Quando se tem um bom coragio ¢ uma si educagio Ihe inculcou logo cedo 0 senso das responsabilidades, nio se faz um filho numa mulher sem se sentir responsavel por ela, principalmente quando essa mulher abandonou 0 marido para seguir vocé. Vincent levara até entio uma vida bastante virtuosa, Sua aventura com Laura lhe parecia, conforme a hora do dia, monstruosa ou totalmente natural, Basta, muitas vezes, somar pequenos fatos, muito simples e naturais quando observados separadamente, para obter um resultado monstruoso. Ele repetia isso a si mesmo enquanto caminhava, ¢isso ni resolvia seu problema. Por certo nunca pensara em assumir definitivamente essa mulher, em desposé-la depois do divércio ou 46 Panis cem viver com cla sem se casar; tinha de confessar que nfo sentia por ela um grande amor; mas sabia que ela estava em Paris sem recursos; ele havia causado sua desgraca: devia-lhe, pelo menos, essa primeira e precaria assisténcia, que sentia grande dificuldade para Ihe garantir; hoje mais ainda do que ontem, mais que nesses ‘limos dias. Pois, na semana passada, ainda possufa os cinco nil francos que a mie havia paciente e penosamente poupado para facilitar-Ihe o inicio da carreira; esses cinco mil francos por certo tetiam bastado para o parto de sua amante, sua pensio numa clinica, os primeitos cuidados prestados & crianga. De que