Publicado em Anais do XXII Congresso Internacional da ABRAPLIP (Associação Brasileira

de Professores de Literatura Portuguesa), 2011, pp. 776-786
http://www.abraplip.org.br/wp-content/uploads/2015/01/Anais-XXII-Congresso-2009.pdf

O ROMANCE PORTUGUÊS DOS ANOS 1930: RETRATOS FEMININOS

Maria Helena Santana*

A história literária portuguesa tem concedido pouca atenção ao romance dos

anos 1930, década em que se publicaram as obras de que irei ocupar-me: Para Além do

Amor, de Maria Lamas; Sedução, de José Marmelo e Silva; Ana Paula, de Joaquim

Paço d’Arcos e Nome de Guerra, de Almada Negreiros. Todas elas surgiram na época

tardo-modernista (entre 1935 e 19381), e tiveram na altura certo impacto no meio

literário por diversos motivos, entre os quais a representação ousada das relações

amorosas. Posteriormente, à excepção de Nome de Guerra (o único romance do grupo

de Orpheu), foram ficando esquecidas, como em geral sucedeu ao romance de costumes

do século XX.

A relativa desatenção posterior explica-se em parte pela hierarquização do mapa

historiográfico: como sabemos a vanguarda modernista manifestou-se sobretudo ao

nível da poesia, que polarizou (justamente) os estudos literários de toda esta época. Por

norma, a produção narrativa da 1ª geração modernista, já de si escassa, é secundarizada,

e a da geração seguinte, mais significativa, apresenta-se demasiado circunscrita aos

autores presencistas (Régio, Branquinho da Fonseca, Torga e poucos mais). Por outro

lado, a emergência do neo-realismo, nos anos 40, veio criar uma outra polarização em

*
Professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra / Centro de Literatura Portuguesa.
torno deste movimento, e dificultar por consequência a “arrumação” de escritores que

não se enquadram bem na ortodoxia das nomenclaturas, ou de obras que, sendo

contemporâneas, figuram em categorias diferentes da cartografia literária. Assim se

verifica na História da Literatura Portuguesa de António J. Saraiva e Óscar Lopes,

nossa principal referência, em relação aos autores referidos: Almada Negreiros está

naturalmente incluído na secção dedicada à geração de Orpheu; J. Marmelo e Silva vem

associado ao neo-realismo; Maria Lamas e J. Paço d’Arcos encontram-se num capítulo

residual, intitulado “Novas tendências realistas” – a primeira integrada no romance

social de autoria feminina, o segundo entre os ficcionistas de orientação conservadora2.

Esta arrumação, porquanto discutível, afigura-se, em teoria, compreensível: não

só a história literária tem por dever de ofício sublinhar as rupturas e afinidades, como

também parece consensual sobrepor o critério estético ao cronológico no alinhamento

dos textos e autores. De facto trata-se de quatro escritores com formação, ideologias e

até idades diferentes3. Porém é igualmente legítimo confrontar outros factores no

processo de periodização – o género, a temática, a cronologia, por exemplo. Os

resultados desse confronto são por vezes interessantes, fazendo avultar coincidências e

contrastes imprevistos. É esse o exercício que seguidamente me proponho, ao trazer ao

mesmo plano um conjunto de obras que à partida teriam poucas relações entre si. Para

além de virem a público na mesma altura, o elemento que permite associar estes

romances é de ordem temática – o amor moderno – e prende-se, concretamente, com a

questionação da moral sexual nas primeiras décadas do século XX. Daí a importância

de que se revestem os retratos femininos, já que esta problemática envolve sobretudo a

representação e o papel das mulheres.
1. O ambiente sociocultural do pós-guerra, conhecido como “os loucos anos 20”,

propiciou transformações sensíveis na forma de encarar a vida, a convivialidade e as

relações amorosas. O decair do catolicismo, os movimentos feministas, o flirt, o

cinema, a modernidade, enfim, trouxeram às gerações que atravessaram esta época

frenética um sentimento correlato de libertação. A idade do jazz-band (título simbólico

duma conferência de António Ferro) anunciava uma mentalidade nova, distendida e

frívola, vivida ao ritmo do ‘charleston’ e do ‘fox-trot’. Nascia uma cultura juvenil

avessa à tradição, designadamente aos rituais preconceituosos do amor burguês: para

além do namoro puritano e da conjugalidade (o altar da virtude familiar), outros

modelos de comportamento se abriam aos jovens citadinos desejosos de imitar padrões

cosmopolitas; falava-se de amor livre, de intersexualidade, e, sobretudo, da “nova

mulher”, em dissídio com a imagem recatada e submissa das suas vitorianas avós4. Com

efeito, da Europa do Norte e da América chegavam, a partir dos anos 20, imagens

inusitadas de mulheres independentes, que adoptavam, quer na vida pública, quer ao

nível dos costumes, uma desenvoltura tipicamente masculina. As investidas feministas,

a crescente autonomia e liberdade das mulheres, a simples pose de segurança e altivez

constituíam uma novidade desconcertante – pitoresca enquanto manifestação exterior,

motivo de receio pelas implicações transgressoras que fazia adivinhar.

Portugal não ficou alheio ao novo espírito moderno, como se pode perceber

lendo as crónicas sociais ou folheando as revistas da moda, como a Ilustração ou a

ABC. Nas páginas ilustradas difunde-se a imagem-cliché da mulher moderna – de saias

curtas e cabelos à garçonne, fumando no café de perna traçada e meias de seda, ou de

chapéu de ‘cloche’ ao volante de um automóvel; os folhetinistas inventam-lhes vidas

soltas e indiferença às tradições5. Mas a idade do jazz-band e da auto-determinação

feminina é decerto mais imaginada do que vivida pelas portuguesas de então; na
realidade não representa senão uma reduzida franja mundana que pode dispor do seu

destino: ou a mademoiselle chic da elite lisboeta, ou, no outro extremo, a girl boémia da

noite – as frequentadoras dos night-clubs surgidos nesta altura, que davam um ar

cosmopolita à noite da capital6.

A menina burguesa vivia distante deste pequeno mundo, cujos ecos lhe

chegavam através dos “magazines”. Uma jovem da classe média tinha agora alguma

liberdade para conviver entre amigos da sua classe, andar na rua, frequentar cinemas, ir

aos bailes do casino ou namorar na Avenida. Começava também a poder almejar uma

carreira profissional (professora, enfermeira, secretária...7). Mas para a grande maioria,

o casamento continuaria a ser o horizonte de felicidade desejado, o único projecto de

emancipação de facto acessível. Os consultórios sentimentais das revistas demonstram

que o conseguimento do noivado feliz constituía a grande preocupação das meninas em

idade nupcial – as mesmas que as mães educavam nos manuais domésticos de Maria

Amália Amália Vaz de Carvalho, e que liam no quarto novelas cor-de-rosa e folhetins

libertinos, recheados de aventuras picantes8. Neste mundo real e sonhado,

reconhecemos mais facilmente as “burguesinhas do catolicismo”, de que falava Cesário

Verde, do que a vamp dos tempos modernos.

2. É com essa realidade contraditória que se depara o leitor dos romances que

vamos revisitar. Começo por Nome de Guerra, cuja história se reporta ainda aos loucos

anos 20. Antunes é o protagonista do romance, um rapaz provinciano recém-chegado à

capital; deixou noiva dedicada na terra e vem expressamente a Lisboa fazer a sua

iniciação viril9. A aprendizagem do “estreante” decorre num club nocturno pouco

recomendável, cujo ambiente debochado lhe provoca sentimentos desencontrados. As

raparigas que prestam serviços no clube chocam-no pela indignidade a que se sujeitam,
mas também o intimidam pela desinibição, em particular Judite, a que lhe é destinada,

livre e rebelde como nunca imaginara uma mulher. Antunes, educado à antiga

portuguesa, acostumara-se a manter uma distância respeitosa das meninas; o embaraço

paralisa-o quando se vê, sem preâmbulos, perante a imagem concreta dum corpo

feminino: «A realidade, por ironia, tinha posto uma mulher nua nos braços da sua

educação» (p.68). A descoberta é tão poderosa que bastaram poucos dias absorventes

passados num quarto alugado para que Judite anulasse a imagem da noiva virginal,

esquecida para sempre.

Judite não é uma prostituta vulgar, nem Antunes a trata como tal. Formam uma

espécie de casal em união livre, de que ela assume naturalmente o papel principal. À

vaga proposta de casamento do companheiro, ela responde sem romantismo: «Isso é que

era uma bofetada que eu dava em muita gente» (p. 112). Independente e cínica, está em

guerra com o mundo, o que a “masculinizou”. Isto mesmo conclui o rapaz, assim que

começa a conhecê-la: «Esta mulher não será de ninguém. É uma mulher que se entrega

aos seus inimigos para ir mais depressa na sua vingança» (p. 113); e quando tenta

domesticá-la, Judite faz-lhe ver o seu entendimento pragmático das relações homem-

mulher: «Ó filho, tu não percebes nada da vida! (...) Sou eu que tenho a culpa de que

haja alguém que precise de dar-me dinheiro? Ou que tenha a mania de gostar de mim?

(...) A ti não te peço nada, quero só a tua companhia. Sinto-me bem ao pé de ti.» (p.

133).

A indiferença moral de Judite não é tão consistente como à primeira vista possa

parecer. A ideia do casamento cedo fica esquecida, mas a força das convenções

burguesas está de tal modo impregnada nos costumes que até a própria prostituta a

interiorizou. Assim, em última instância chega a propor ao companheiro que vivam

exteriormente “como os outros”, retirando proveito mútuo da encenação: ela ensinava-o
a socializar-se, ele fornecia-lhe em troca o elemento respeitável: nas suas palavras,

«uma mulher vale mais por acompanhar um homem do que por ser livre» (p. 136).

Para além do amoralismo, outro aspecto inusitado merece realce no romance: a

quase total ausência de retórica amorosa. Tal como a linguagem inovadora da narração,

os diálogos entre os dois amantes são secos e directos, sem recurso aos rodeios

convencionais. Na verdade não há neles sequer sentimentalidade, o que constitui uma

ruptura com a tradição literária e cultural10: da mesma maneira que se amam também se

separam, sem complexos e sem dor, quando Antunes se apercebe de que nunca

passariam de instrumentos um do outro. O encontro gratificante constitui afinal ponto

de passagem mas não de chegada; serve para demonstrar a tese deste singular romance

de formação, a saber: o conhecimento da vida não deve tornar o indivíduo refém do

amor.

Para a generalidade das mulheres modernas, a liberdade individual reside

algures entre a afronta e o compromisso social. Judite é um caso-limite, porque a sua

independência advém do estatuto de outsider. Note-se porém que a marginalidade moral

não representa já uma condenação, como sucedia às “mulheres perdidas” do romance

oitocentista: pode constituir mesmo uma opção de autonomia, como nos dizem outros

romances desta época. Um caso exemplar pode ver-se em Depoimento, de José

Marmelo e Silva (1939), onde encontramos uma moça de cabaret que recusou

conscientemente o grilhão familiar: ganhando poder sobre si, é seguramente mais feliz

na marginalidade do que irmã virtuosa que ficou em casa, à espera do noivo que nunca

vem.

3. Sedução, do mesmo autor, apresenta-nos outras facetas menos visíveis do amor

feminino. O romance, um dos mais notáveis de toda esta época, faz contracenar também
duas realidades contrastantes: de um lado o narrador, um rapaz impetuoso que, por falta

de meios, vê morrer na aldeia as suas ambições; do outro a irmã mais velha, uma

professora e advogada bem vista na cidade, posição que a transforma em pilar

económico e moral da família. Na perspectiva do irmão ressentido, Noémia representa o

protótipo da solteirona reprimida e castradora, a mulher que se vinga do deserto

amoroso pelo exercício tácito do poder; Eduardo considera-a responsável pelo

confinamento intelectual em que vive e até pela privação sexual, limitado que está a

aventuras amorosas inconsequentes. A visita de Noémia à aldeia, acompanhada por uma

jovem discípula, causa grande expectativa ao rapaz, logo desfeita pelo estranho

desinteresse que a menina (Marta) manifesta por ele. A rejeição parece-lhe a princípio

evasiva: «Seria irrisório! Estar uma rapariga em minha casa e não a fazer gostar de

mim!» (p. 70). Mas nas palavras da jovem vê emergir uma «consciência desconhecida»,

uma vaga teoria feminista sobre a condição da mulher moderna que implica (se não

explica) a hostilidade ao amor:

Pode haver nas raparigas do campo problemas de ordem económica (...) mas nós, as
raparigas da Normal e da Faculdade, deparamos actualmente com problemas bastante mais
complexos por serem de ordem moral e metafísica. Que depois, aliás, se reflectem na vida
social... (p. 81).
Noutro tempo, os pais escolhiam, ou melhor, impunham o noivo às filhas, segundo os
seus miseráveis interesses, nada espiritualistas.(...) Hoje em dia, as raparigas, pelo menos as de
vanguarda, conseguiram uma espécie de emancipação: conseguem, enfim, ser elas mesmas a
decidir na escolha dos seus noivos; mas... que lhes adianta? Inexperientes, coitadas, cedem
exactamente aos ‘profissionais’ do amor, que são os mais arrojados, os menos escrupulosos...
(p. 97).

A frustração de Eduardo volve-se em revolta com a suspeita terrível da

homossexualidade feminina. Enquanto ele se desespera de ciúme, Marta e as outras

amigas da irmã convivem no quarto, bebem ponche, dançam ‘a carioca’ ou passeiam de

carro numa intimidade atrevida, indiferentes à maledicência geral; todas acatam a lição

da professora: «Alerta, meninas católicas, não se deixem iludir pelo capuchinho

vermelho de namoros aparentemente inocentes» (p. 149); e todas veneram Noémia,
ignorando ostensivamente o irmão. Humilhado e perplexo, o rapaz não encontra

explicação racional para o poder de atracção daquela mulher feia, insexuada, patética:

Haveria um segredo no sexo de Noémia? Uma força que atraía, irremediavelmente,
Marta, Celeste, Julinha?... Como poderia admitir-se encontrarem todas ali satisfatoriamente a
resposta a essa interrogação permanente da Natureza? Onde a justificação originária de que (...)
eu fosse para elas um inimigo perigoso, nada mais? (p. 156).

E o mesmo sentimento de exclusão o leva a vingar-se da irmã num gesto

homofóbico brutal, vendo nela o lobo demoníaco, mascarado de anjo protector. Esta

interpretação nunca fica desmentida no discurso da narrativa, muito embora outras

leituras freudianas se insinuem, como bem demonstrou E. Prado Coelho11. Sendo o

narrador parte interessada e por isso unreliable, será verdadeiro o seu testemunho auto-

indulgente? Estarão todas elas equivocadas? Certo é que ele se esforça por analisar o

fenómeno, tentando mesmo colocar-se no ponto de vista das mulheres, ou seja,

transferir-se «para o campo mental em que elas se agitam e procuram viver» (p. 151);

esforço vão, porque não consegue descentrar-se: prevalece sempre a óptica do homem

‘normal’ – ou seja, a do jovem provinciano cansado de seduzir a custo meninas

recatadas. Choca-o não só o lesbianismo em si, mas o facto de ser escamoteado por

todos, admitido até com relativa tolerância, enquanto o preconceito da virgindade

continua a impor-se às jovens dos anos 30, mesmo as que se dizem emancipadas; e

assim desloca a questão para a esfera moral, criticando a sociedade hipócrita que nega

às raparigas o amor natural mas lhes permite formas sofisticadas de perversão. Não lhe

ocorre que a recusa do corpo possa ser sentida como uma forma de defesa (de

libertação?) – em relação, ao assédio, à dominação, ao desprezo, enfim, aos regimes de

poder sexista instituídos. Falta-lhe capacidade para entender o que elas tentam a seu

modo, também equívoco, exprimir.

O realismo desassombrado de Sedução, a densidade psicológica e certa inovação

ao nível técnico surpreenderam os leitores coevos, pouco habituados a análises tão
desestabilizadoras da moral sexual através dos modelos literários vigentes. Isso mesmo

realçou Arnaldo Saraiva, ao recordar a recepção auspiciosa da obra e a sua novidade,

comparando-a justamente a Nome de Guerra12. Ambos os textos têm o mérito de trazer

a lume retratos consistentes de vivências alternativas, até então muito mitificadas pela

literatura, ora representadas em chave moralista, ora simplesmente evitadas por pudor

burguês. São retratos realistas, no sentido em que não escamoteiam a ambiguidade

moral. Mas a verdade sociológica de Judite e Noémia reside sobretudo nas suas facetas

contraditórias – a coragem de afrontar os costumes e o desejo simultâneo de os respeitar

– uma fingindo de senhora ao lado de Antunes, outra arvorando-se em guardiã da

pureza, «senhora do maior respeito e distinção». Eram estes os papéis em que

imaginariamente se reviam, projectando em si próprias um olhar convencional.

4. Vejamos agora dois outros retratos femininos, colhidos no lado respeitável do

espectro social. Os romances de Maria Lamas e Joaquim Paço d’Arcos incidem no

clássico tema do adultério, o que à partida lhes retira novidade literária. O interesse que

despertaram advém sobretudo do enfoque feminista da questão, se assim o podemos

designar. O desencanto vida conjugal é relatado sob o ângulo da esposa moderna, que já

não é a bovary do tempo de Eça, ansiosa por conhecer novas emoções. O problema da

mulher dos anos 30, mais pragmático, vem a ser o da prisão do casamento que se

revelou decepcionante para as suas expectativas de felicidade; o drama da mulher

dividida entre a educação convencional, que lhe exige fidelidade e resignação, e a

consciência dos seus direitos enquanto sujeito e objecto de desejo.

As protagonistas dos dois romances, mal-amadas pelos maridos ricos, são ambas

jovens, elegantes, cultas, e casaram por livre escolha, o que mais acentua o sentimento

de frustração. O estatuto de esposas não lhes preenche a existência, nem o amor dos
filhos, tradicional derivativo do desinteresse conjugal. Pertencem a uma geração que

considera ultrapassada a submissão e o conformismo social das mães.

Ouçamos Marta, narradora em 1ª pessoa de Para Além do Amor:

Riqueza, viagens, deslumbramentos e prazeres não chegam para encher o vácuo da
minha alma. Nem o casamento. Nem a maternidade.
Se eu revelasse a alguém esta verdade do meu sentir, seria julgada imoral ou, pelo
menos, desequilibrada. (...) Mas adivinho, tenho a certeza de que esta mesma insatisfação faz
sangrar milhões de almas de mulher, sem que elas tenham coragem de o confessar a si próprias.
Muitas nem chegam a ter a consciência da ansiedade latente que lhes anuvia o coração e as
algema ao marasmo duma tristeza humilde e resignada. (p. 44)

E (o narrador de) Ana Paula, heroína do romance homónimo de Paço d’Arcos:

Quando, após as mil e uma vicissitudes de uma vida conjugal infeliz, o amor (...) cede
lugar a esse misto de paixões mortas, de ressentimentos latentes, de ciúmes represos, de insultos
sofridos, de perdões concedidos (...) já há muito, na maioria dos casos, a vontade corroída
acabou por se extinguir. A alma obedece, o corpo entrega-se ao senhor que o domina (...). O
hábito completa a obra de aniquilamento da personalidade. (...) A vida mecaniza-se. Os
sentimentos perdem a intensidade; o próprio sofrimento abranda, desgastado pela monotonia do
que é sempre igual. (...) O combate é uma permanente rendição. E a mulher, cujo porte altivo e
enganador daria a estranhos a ideia errada dum absoluto domínio sobre a vida em redor, é no lar
um ente passivo, vergado a um destino injusto contra o qual não sabe lutar. (p.77-8)

A insatisfação é idêntica, as respostas diferentes, como veremos. Ambas as

personagens entrevêem a felicidade possível com um novo companheiro que as sabe

amar, mas para isso têm de enfrentar a barreira da separação conjugal. A decisão – hoje

quase banal – era extremamente difícil no contexto em que se movem estas mulheres.

Embora a lei republicana tivesse aligeirado o processo de divórcio, a opinião social

condenava-o: preferia-se a traição complacente, ou a versão sofisticada da entente

cordiale entre esposos desavindos. Mesmo havendo justa causa e meios económicos,

era necessária muita coragem para assumir a ruptura familiar e mais ainda para contrair

um novo casamento civil. Por outro lado, na altura em que estes romances se

escreveram e publicaram, o quadro ideológico-político alterou-se substancialmente, e

com ele a sensibilidade social. O recente “Estado Novo” de Salazar instituíra em 1933

um regime constitucional conservador, em que avultam os valores da família, da
religião, da ordem moral. A lei do divórcio não foi revogada, mas o número de

separações diminuiu no quinquénio seguinte, invertendo a tendência de crescimento

anterior13. A exaltação oficial da célula familiar, que viria a culminar na Concordata

com a Santa Sé, nos anos 40, produzia na prática os seus efeitos repressivos, ante o

conformismo geral.

Esta problemática, envolvendo a situação ambígua da mulher desquitada, é

equacionada nos dois romances de forma diversa, o que não surpreende em autores com

ideologias discordantes. Paço d’Arcos é um conservador, simpático ao regime; Maria

Lamas, senhora católica, directora de revistas femininas, abraçou a causa dos direitos

das mulheres, o que a conduziria à oposição e ao exílio. As suas personagens reflectem

em grande medida a sensibilidade dos criadores: Ana Paula é uma sofredora, Marta uma

lutadora. Desde logo, Marta não sente remorso por ser adúltera, nem a obrigação de

fidelidade ao marido: «Dei-lhe a minha mocidade e a minha fé na vida. O meu corpo

saciou o seu desejo. (...) E ele? fez-me mulher sem me revelar o amor» (p.113). Entende

que tem direito a ser feliz, a ter vida própria, e encara a separação como um dever de

consciência; e não hesita em propor o divórcio ao marido, sabendo que ele tentará por

todos os meios dissuadi-la. Mas uma reviravolta acontece: um incidente na fábrica do

marido vai levá-la a empenhar-se num projecto assistencial, destinado a melhorar as

condições de vida dos operários. A consciência política que adquiriu impede-a, em

última instância, de partir, pois descobriu um valor mais alto do que a liberdade

individual – dedicar-se à filantropia, educar o povo, contribuir para um mundo melhor.

Está explicado o título Para Além do Amor.

Alguns críticos da época reagiram, com razão, a esta inflexão moralista pouco

convincente14. Com efeito, o que começou por ser um romance feminista termina em

pura retórica de redenção social. Terá faltado coragem social a Maria Lamas, quando
lhe sobra coragem política? Seria a emancipação da mulher casada antipática à sua

formação tradicional? Ou, colocando a questão do lado dos leitores: teria sido aceitável

outro desenlace, em 1935?

O percurso de Ana Paula é muito mais convencional e também mais coerente, o

que explicará a boa recepção do romance. Depois de suportar sucessivas humilhações

do marido debochado, também ela recebe uma proposta de amor, vinda de um homem

da sua classe. Curiosamente, será ele o porta-voz do discurso progressista, admirado por

ver que «ela não reagia contra o destino do sexo, de humildade e servidão»; em

alternativa sugere-lhe o divórcio, «uma lei moderna, feita para remediar muitos males,

libertar do jugo muitas desgraçadas» (p. 170-1). O assunto é posteriormente discutido

entre os dois numa conversa definitiva15, ela recusando-se a aceitar o que chama «amor

livre», ele acusando-a de ter «ideias obsoletas». Cheia de tormentos morais, Ana Paula

resiste sempre à tentação do adultério. O seu secreto triunfo (bem pobre, na verdade)

consiste em ter a coragem de recusar também o assédio do marido, num momento de

fragilidade16. No entanto acabará por aceitá-lo de novo, em nome dos princípios

familiares e religiosos que perfilha. A renúncia à felicidade vem explicada numa carta

fatalista que faz lembrar as que eram escritas por heroínas românticas, cem anos atrás.

Não deixa de ser irónico (e sintomático) que Paço d’Arcos e Maria Lamas

tenham escolhido cenas finais coincidentes: Ana Paula, a caminho de África com a

família, olha Lisboa, a bordo do navio, onde ficou o amor perdido; Marta contempla da

praia outro navio, onde segue o amante desiludido. O cenário romântico, de recorte

kitsch, sublinha o valor simbólico do sacrifício. Ambas julgam ter tomado a decisão

acertada: ao prazer egoísta deve sobrepor-se o «ideal sagrado» do lar ou da

solidariedade humana. Os leitores decerto apreciaram a nobreza do gesto. Tratando-se
de mulheres e mães, a injunção tem um significado acrescido, traduzindo-se numa

epifania da abnegação maternal.

Este tipo de desfecho pode ler-se também pelo seu simbolismo histórico. Ao

longo da década de 1930, a sociedade portuguesa sofreu, como se disse, uma inflexão

conservadora, cuja repercussão se faz sentir na literatura. Boa parte da burguesia letrada

(a que escrevia e lia livros) acomoda-se à ideologia dominante, elegendo a Família

como pilar da estabilidade social. Poder-se-ia esperar outra atitude por parte da

literatura militante, mas quer a facção marxista quer a feminista, mantêm uma reserva

prudente no que respeita à vida privada – os seus combates travam-se de preferência na

arena política e pedagógica.

As quatro obras visitadas traduzem, simbolicamente, a curva ideológica da

primeira metade do século XX. Depois da secularização republicana e dos ventos

liberais do pós-guerra, o clima social dos anos 30 favorece o regresso da moral e dos

“bons costumes”. A partir do decénio seguinte não haverá grande espaço livre para

romances amorais, muito menos imorais. De certa maneira fechava-se um círculo:

passaram pouco mais de dez anos sobre a escrita de Nome de Guerra e o mundo

“moderno” ali representado parece já longínquo demais para ser português – se é que de

facto esse mundo existiu.

Notas

1
Maria Lamas, Para Além do Amor, 1935. Joaquim Paço d’Arcos, Ana Paula, 1938. Almada
Negreiros, Nome de Guerra, 1938. José Marmelo e Silva, Sedução, 1938. Note-se que o texto
de Almada, escrito em 1825, foi deixado inédito durante vários anos.
2
Saraiva & Lopes, 1996, pp. 994, 1029, 1031, 1041.
3
Almada Maria Lamas nasceram em 1893; J. Paço d’Arcos em 1908; Marmelo e Silva 1911.
4
Sobre a evolução dos costumes cf. Barreira, 1992, p. 109 ss.; Guinote, 1997, pp. 120-134.
5
Excerto de um diálogo entre marido e mulher, colhido numa crónica moderna: «Ela: Nós
temos o direito e ser livres como os homens. O monopólio masculino acabou com as aias de
cauda e com a valsa a dois tempos. Ele: Acabou? Ela: Decididamente. Desapareceram todas as
diferenças entre nós e vocês. (...) Já usamos cuecas. (...) Já andamos a cavalo. (...) Já
frequentamos os clubs.» Guimarães, s.d., p. 44.
6
Cf. França, 1992, cap. IV – “Lisboa dia e noite”.
7
Cf. Guinote, 1997, pp. 248-51.
8
Um cronista da época descreve em termos pitorescos estas leituras: «A literatura de amor é
toda aparentemente complicada por uma série de endróminas a que deram o nome de geral de
psicologia. As mulheres são todas casadas e descaradas. Os homens todos cínicos. Onde havia
prados verdes e boninas silvestres e meninas que desfolhavam malmequeres, há hoje abat-jours
cor de rosa e five o’clock tea e senhoras que flirtam». Brun, 1931, p. 13.
9
Nas palavras marialvistas do tio, o objectivo é fazer dele um homem, para “ficar pronto a
funcionar” (ed. cit., p. 43).
10
Na introdução ao romance de Almada, Alçada Baptista realça esta visão inovadora na nossa
literatura: «uma proposta nova que desloca o problema amoroso da relação homem-mulher para
a relação da pessoa consigo própria», rejeitando todos os modelos que a sociedade lhe oferece
como normais (“Nome de Guerra ou um outro amor em Portugal”, ed. cit., p. 15).
11
Cf. Coelho, 1984, pp. 185-95.
12
Cf. Arnaldo Saraiva, “Sedução de Marmelo e Silva: sua importância na modernidade”,
prefácio da edição cit., p. 14-15.
13
Entre 1930 e 1935 registaram-se 862 divórcios (a taxa mais elevada desde a República); entre
1935 e 1939 o número decresceu para 849. Cf. Guinote, 1997, p. 238 e ss.
14
Cf. Introdução de Eugénia Vasques à edição citada, p. 15 e ss.
15
O debate ideológico do texto, com a respectiva lição moral, é exposto neste longo diálogo de
ruptura (pp. 222-9).
16
«Não sabia que força a impelia; era a mulher dele e pertencia-lhe, devia-se-lhe entregar (...).
E, contudo, era superior a si aquela nova e invencível repugnância...» (p. 208). O episódio
passa-se durante uma visita ao forte militar onde o marido estava encarcerado por desfalque.

Resumo

Os anos 1930 constituem um período bastante contraditório na vida cultural portuguesa
que, em plena vigência da modernidade artística, se acomoda ao conservadorismo social do
regime salazarista: o espírito irreverente dos “loucos anos 20” estava ainda vivo na cultura
citadina quando, em 1933, entra em vigor a ordem constitucional do Estado Novo, elegendo a
Família e o Catolicismo como dois dos seus pilares ideológicos. O romance desta época
oferece-nos imagens também contraditórias da moral social vigente, em particular no que
respeita às relações amorosas.
Privilegiar-se-ão obras publicadas no final da década – de Almada, José Marmelo e
Silva, Maria Lamas, Joaquim Paço d’Arcos – que, por razões diferentes, tiveram algum impacto
no meio cultural português. Em todas elas sobressaem figuras paradigmáticas de mulheres
“modernas”, sugestivas das projecções conflituais do tempo: o desejo individual e a razão
colectiva, a convenção e a marginalidade, a ousadia e o conformismo.

Abstract

The 1930s were a contradictory decade for Portuguese cultural life: artistic modernity
coexisted with social conservatism, and the liberal spirit of the 20’s merged with moral virtue
praised by Salazar’s regime (family and catholic values became official ideology of “Estado
Novo” after 1933). Such contradictions can be found in many novels of the period, particularly
those concerning love and (im)moral behaviour.
The four novels selected – by Almada Negreiros, José Marmelo e Silva, Maria Lamas,
Joaquim Paço d’Arcos – had some resonance in Portuguese cultural milieu, for different
reasons. They all convey impressive portraits of “modern” women, dealing with the conflictive
moral values of their time: individual desire versus collective reason, convention versus
deviation, willingness versus conformity.

Palavras-chave / Key words
Romance português 1930; retratos femininos; mulher moderna
1930s Portuguese novel; women portraits; modern woman

Bibiografia

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