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MANUAL DE

PSICOPATOLOGIA

Elie Cheniaux Jr.


M é d ic o .
D o u to r em P siq u iatria pela U n iv ersid a d e F ederal do R io de Ja n e iro (U F R J).
P ro fe sso r-A d ju n to de P siquiatria da F aculdade de
C iências M édicas (F C M ) da U n iv ersid a d e d o E stado do R io de Ja n e iro (U E R J).
P ó s -D o u to ra n d o n a Á rea de N e u ro c iê n c ia C o m p u ta c io n a l do
P ro g ra m a de E n g e n h a ria d e Sistem as e C o m p u ta ç ã o — C O P P E / U F R J .
C a n d id a to d o In stitu to de E n sin o de Psicanálise da
S o cied ad e P sicanalítica do R io de J a n e iro (S P R J).
S u p erv iso r de E q u ip e C lín ica d o In stitu to de P siq u iatria da
U n iv ersid a d e F ederal do R i o de Ja n e iro (IP U B -U F R J ).

GUANABARA^^/KO OGAN
NOTA DA EDITORA: A área da saúde é um campo em constante mudança. As normas
de segurança padronizadas precisam ser obedecidas; contudo, à medida que as novas
pesquisas ampliam nossos conhecimentos, tomam-se necessárias e adequadas modificações
terapêuticas e medicamentosas. O autor desta obra verificou cuidadosamente os nomes
genéricos e comerciais dos medicamentos mencionados, bem como conferiu os dados
referentes à posologia, de modo que as informações fossem acuradas e de acordo com os
padrões aceitos por ocasião da publicação. Todavia, os leitores devem prestar atenção às
informações fornecidas pelos fabricantes, a fim de se certificarem de que as doses
preconizadas ou as contra-indicações não sofreram modificações. Isso é importante,
sobretudo em relação a substâncias novas ou prescritas com pouca freqüência. O autor e a
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A g rad eço aos P rofessores A d e m ir P acelli F erreira, Iso J o rg e T eix eira,


J e rso n Laks, L e o p o ld o H u g o F rota, M arco A n tô n io A lves Brasil,
M ig u e l C h alu b e P au lo R o b e r to C haves P avão,
os quais m u ito g e n tilm e n te d eram ap o io à p u b licação desta obra.
Prefácio

Observa-se que boa parte dos psiquiatras, hoje em dia, parando-se os principais textos de psicopatologia, obser­
pouco se interessa p o r psicopatologia, apresentando um va-se, por exemplo, que: (1) um m esm o term o é utiliza­
raciocínio mais ou m enos assim: “E perda de tem po dis- do com diferentes sentidos pelos diversos autores; (2)
tinguir-se um a idéia delirante de um a idéia deliróide, ou determ inados conceitos são considerados p o r alguns au­
um a alucinação verdadeira de um a pseudo-alucinação, já tores, mas são ignorados p o r outros; e (3) um m esm o
que os antipsicóticos irão atuar sobre esses sintomas do conceito é designado p o r termos diferentes.
mesmo je ito .” Essa falta de consenso, que afeta alguns dos principais
Esse espírito parece refletir-se nos critérios diagnósticos tópicos em psicopatologia, irá, inevitavelm ente, refletir-
dos sistemas classificatórios psiquiátricos atuais — DSM -IV* se em qualquer discussão de um caso clínico, prejudicando
e CID -10.** Neles, embora sejam listadas as alterações ca­ qualquer argumentação, pela ausência de um a linguagem
racterísticas de cada transtorno mental, não há um a preocu­ com um . Isso é bastante nítido em sessões clínicas de ser­
pação em definir precisamente os sinais e sintomas, nem em viços de psiquiatria, com o as que tenho freqüentado nos
explicar como eles devem ser reconhecidos na prática. últimos anos: na U nidade Docente-Assistencial de Psi­
Todavia esse aparente descaso quanto à semiologia não quiatria da Universidade do Estado do R io de Janeiro
é exclusivo da psiquiatria, e o desenvolvim ento de m é­ (UERJ) e no Instituto de Psiquiatria da Universidade
todos com plem entares de investigação diagnostica cada Federal do R io de Janeiro (IPUB).
vez mais precisos talvez esteja entre as principais causas Este manual constitui um a proposta de síntese e revi­
disso. M uitos cardiologistas, p o r exemplo, já não auscul­ são dos conceitos da psicopatologia. Após o estudo dos
tam o coração de seus pacientes, pois consideram mais principais autores, procurou-se produzir um texto que
prático solicitar logo u m ecocardiograma. fosse um som atório de todos os outros textos, privilegi­
E m psiquiatria, na grande maioria dos casos, os exames ando-se, nos casos de divergência entre eles, as form ula­
complementares por enquanto são pouco úteis para a for­ ções mais comuns.
mulação do diagnóstico, que é eminentemente clínico. Daí E m cada capítulo, além da apresentação das alterações
a importância fundamental da semiologia psiquiátrica e da quantitativas e qualitativas de cada função psíquica, há
psicopatologia. Além disso, para a criação e utilização das um a introdução psicológica e um estudo de com o essas
escalas de sintomas, e para o emprego adequado dos crité­ alterações se manifestam nos principais transtornos m en­
rios diagnósticos, é necessário conhecer os conceitos psi- tais e, ainda, um estudo da técnica de exam e daquela
copatológicos e saber identificar as alterações nos pacientes. função psíquica. Inclui-se tam bém um a discussão sobre
P o r outro lado, faltam universalidade e uniform idade descobertas das neurociéncias e formulações teóricas da
aos conceitos e à term inologia em psicopatologia. C o m ­ psicanálise relacionadas à função psíquica estudada.
Este livro é dirigido a alunos — de graduação e pós-
graduação — e a profissionais de m edicina (particular­
* Q u a rta edição do sistema classificatório da A ssociação Psiquiátrica A m ericana.
* * D é cim a edição da Classificação In tern acio n al d e D o en ças, da O rganização
m ente psiquiatria), de psicologia e de outras áreas relaci­
M u n d ial da Saúde. onadas à saúde mental.
Conteúdo

1 P sico p a to lo g ia : Q u estões G erais, 1 Alterações Qualitativas, 26


Definição de Psicopatologia, 1 O Exam e da Atenção, 26
O M étodo Fenom enológico, 2 A Atenção nos Principais Transtornos Mentais, 27
Semiologia Psiquiátrica, 2 Contribuições da Psicanálise, 28
Contribuições das Neurociências e da Psicologia
2 E ntrevista e A n am n ese P siquiátrica, 5 Cognitiva, 28
A Entrevista Psiquiátrica: Aspectos Gerais, 5
Estrutura e C onteúdo da Anamnese Psiquiátrica, 5 7 S en sop ercep ção, 29
O Exam e Psíquico, 7 Introdução, 29
Súmula Psicopatológica, 8 Alterações Quantitativas, 30
O Exam e Físico, 8 Alterações Qualitativas, 30
Exames Com plementares, 8 O Exam e da Sensopercepção, 33
O Diagnóstico Psiquiátrico, 8 A Sensopercepção nos Principais Transtornos
Mentais, 33
3 A parência, 11 Contribuições da Psicanálise, 34
Introdução, 11 Contribuições das N eurociências e da Psicologia
Alterações na Aparência, 11 Cognitiva, 34
A Aparência nos Principais Transtornos Mentais, 11
/ 8 M em ória, 37
4 A titu d e, 13 Introdução, 37
Introdução, 13 Alterações Quantitativas, 39
Alterações da Atitude, 13 Alterações Qualitativas, 41
O Exame da Atitude, 14 O Exam e da M em ória, 42
A Atitude nos Principais Transtornos Mentais, 14 A M em ória nos Principais Transtornos Mentais, 42
Contribuições da Psicanálise, 44
5 C o n sciên cia (V igilân cia), 17 Contribuições das Neurociências, 45
Introdução, 17
Alterações Quantitativas Fisiológicas, 18 9 L in gu agem , 47
Alterações Quantitativas Patológicas, 18 - Introdução, 47
Alterações Qualitativas Fisiológicas, 19 Alterações da Linguagem, 47
Alterações Qualitativas Patológicas, 19 Alterações Quantitativas, 48
O Exam e da Consciência (Vigilância), 19 Alterações Qualitativas, 49
A Consciência (Vigilância) nos Principais O Exam e da Linguagem, 50
Transtornos M entais, 20 A Linguagem nos Principais Transtornos Mentais, 50
Contribuições da Psicanálise, 20 Contribuições da Psicanálise, 51
Contribuições das N eurociências e da Psicologia Contribuições das Neurociências e da Psicologia
Cognitiva, 21 Cognitiva, 51

6 A ten çã o , 25 10 P en sa m en to (E xceto D e lírio ), 53


Introdução, 25 Introdução, 53
Alterações Quantitativas, 25 Alterações do Pensam ento, 54
C on teú do xi

Alterações Quantitativas, 54 O Exam e da Psicom otricidade, 83


Alterações Qualitativas, 54 A Psicom otricidade nos Principais Transtornos
O Exam e do Pensam ento, 56 Mentais, 83
O Pensam ento nos Principais Transtornos Contribuições das Neurociências, 84
M entais, 56
C ontribuições da Psicanálise, 56 17 A fetivid ad e, 87
C ontribuições das Neurociências e da Psicologia Introdução, 87
Cognitiva, 57 Alterações Quantitativas, 88
Alterações Qualitativas, 89
11 D e lírio , 59 O Exam e da Afetividade, 90
Introdução, 59 A Afetividade nos Principais Transtornos Mentais, 90
Delírio Prim ário, Delírio Secundário e Idéia Contribuições da Psicanálise, 90
Sobrevalorada, 60 Contribuições das N eurociências e da Psicologia
Classificação, 61 Cognitiva, 91
O Exam e do Delírio, 62
O D elírio nos Principais Transtornos M entais, 62 18 O rien tação A lop síq u ica, 95
C ontribuições da Psicanálise, 63 Introdução, 95
C ontribuições das Neurociências e da Psicologia Alterações da O rientação Alopsíquica, 95
Cognitiva, 64 Alterações Quantitativas, 96
Alterações Qualitativas, 96
12 In telig ên cia, 65 O Exam e da O rientação Alopsíquica, 97
Introdução, 65 A O rientação Alopsíquica nos Principais
Alterações da Inteligência, 66 Transtornos Mentais, 97
O Exam e da Inteligência, 66 C ontribuições das Neurociências, 98
A Inteligência nos Principais Transtornos Mentais, 67
Contribuições das Neurociências, 68 19 C on sciên cia d o E u, 99
Introdução, 99
13 Im a g in a çã o, 69 Alterações da Consciência do Eu, 99
Introdução, 69 Alterações Quantitativas, 100
Alterações da Imaginação, 69 Alterações Qualitativas, 100
O Exam e da Imaginação, 69 O Exam e da Consciência do Eu, 101
A Imaginação nos Principais Transtornos Mentais, 70 A Consciência do E u nos Principais Transtornos
Contribuições da Psicanálise, 70 Mentais, 102
Contribuições da Psicanálise, 102
14 V o n ta d e, 71
Contribuições das N eurociências e da Psicologia
Introdução, 71
Cognitiva, 103
Alterações Quantitativas, 71
Alterações Qualitativas, 72 20 P ro sp ecçã o , 105
O Exam e da Vontade, 74
A V ontade nos Principais Transtornos Mentais, 74 21 C on sciên cia de M orbid ade, 107
C ontribuições da Psicanálise, 75 Introdução, 107
C ontribuições das Neurociências, 77 Alterações na Consciência de M orbidade, 107
O Exam e da Consciência de M orbidade, 107
15 P ra g m a tism o , 79 A Consciência de M orbidade nos Principais
Transtornos Mentais, 107
16 P sico m o tricid a d e , 81
Introdução, 81 BBibliografia,
ibliografia, 109
109
Alterações Quantitativas, 81
Alterações Qualitativas, 82 ín d ic e A lfa b ético , 113
MANUAL DE
PSICOPATOLOGIA
CAPÍTULO

PSICOPATOLOGIA: questões gerais

se baseia em critérios socioculturais arbitrários, os quais


D E F IN IÇ Ã O D E
podem variar de um local para outro e modificar-se atra­
P S IC O P A T O L O G IA vés do tem po.
O term o psicopatologia foi criado p o r Jerem y Benthan, A psicopatologia é um a ciência autônom a, e não m e­
em 1817. Psyché significa alma; páthos, sofrimento ou doen­ ram ente um ramo da psicologia. Enquanto esta tem sua
ça; e lógos, estudo ou ciência. N o entanto, E squirol e origem na filosofia, a psicopatologia nasce com a clínica
Griesinger, com seus trabalhos publicados, respectiva­ psiquiátrica. Os fenômenos mentais patológicos são m ui­
m ente, na França (em 1837) e na Alemanha (em 1845), tas vezes qualitativamente diferentes dos normais. Citando
é que são considerados os criadores da psicopatologia. novam ente Jaspers, “a psicopatologia investiga muitos
A psicopatologia é um a disciplina científica que estu­ fatos cujos correspondentes ‘norm ais’ ainda não foram
da a doença m ental em seus vários aspectos: suas causas, estabelecidos pela psicologia” , e “ é muitas vezes a visão
as alterações estruturais e funcionais relacionadas, os m é­ do anormal que ensina a explicar o norm al” .
todos de investigação e suas formas de manitestação (si­ A psiquiatria não é um a ciência e, sim, um a especiali­
nais e sintomas). C om portam ento, cognição e experiên­ dade médica, cujo fundam ento é a psicopatologia. A psi­
cias subjetivas anormais constituem as formas de m ani­ quiatria representa a aplicação prática da psicopatologia,
festação das doenças mentais. mas se utiliza tam bém de conhecim entos de outras dis­
Segundo Jaspers, “o objeto da psicopatologia é o fe­ ciplinas científicas.
nôm eno psíquico, mas só os patológicos” . C ontudo, a A psicopatologia, de um a forma geral, está relaciona­
distinção entre o norm al e o patológico em m edicina é da a múltiplas abordagens e referenciais teóricos. Para ser
bastante imprecisa. Podem os citar pelo m enos três crité­ preciso, não há apenas um a psicopatologia: são várias. D i­
rios de norm alidade, todos considerados insuficientes: o daticamente, as psicopatologias podem ser divididas em
T-subj-etiyo^o estatístico e o idealista. dois grupos: as explicativas e as descritivas. As psicopato­
D e acordo com o critério subjetivo de normalidade, logias explicatiyas_bas_elam -se em m o d elos teóricos ou
está doente quem sofre ou se sente doente. N a síndrome achados experimentais, e buscam esclarecimentos quan­
maníaca, contraditoriam ente, o paciente sente-se m uito to à etiologia dos transtornos mentais. Elas podem seguir
bem e, apesar disso, está enfermo. Pelo critério estatísti­ um a orientação psicodinâmica (como a psicanálise), cog­
co —ou quantitativo —, norm al é sinônim o de com um , nitiva, existencial, biológica ou social, entre outras. As
ou significaj>róxim o à média. E m contraposição a isso, no psicopatologias descritivas, por sua vez, consistem na des­
entanto, a cárie representa um a patologia m uito freqüen­ crição e na categorização precisas de experiências anor­
te; e um a pessoa que possui um quoeficiente intelectual mais, como informadas pelo paciente e observadas em seu
(QI) m uito alto não é considerada doente. Já segundo o com portam ento. Possuem um caráter semiológico e p ro­
critério idealista —ou qualitativo —, norm al é aquilo ade­ pedêutico em relação à psiquiatria clínica. Entre as psi­
quado a determ inado padrão funcional considerado óti­ cologias descritivas está a psicopatologia fenom enológi-
m o ou ideal. A crítica que se faz a esse critério é que ele ca. Explicação e descrição não se excluem; na verdade,
2 Psicopatologia: Q uestões G erais

com plem entam -se. Só é possível explicar o que foi an­ são entende-se a intuição do psiquismo do outro alcan­
teriorm ente descrito. çada no interior do próprio psiquismo. O m étodo feno­
m enológico utiliza com o instrum ento a m ente do entre­
vistador, sua experiência em ocional e cognitiva. Trata-
O M ÉTODO se de m étodo em pírico que enfoca dados subjetivos. As
vivências dos pacientes não podem ser percebidas dire­
F E N O M E N O L Ó G IC O
tam ente com o os fenôm enos físicos. Mas, após o relato
Para Descartes (1596—1650), a apreensão dos objetos do paciente (subjetivo), fazemos, p o r m eio da empatia,
percebidos passa necessariam ente pela consciência do um a analogia (comparação) com as nossas vivências, e
sujeito pensante. Im m anuel K ant (1724—1804), por sua assim podem os com preender a sua experiência subjeti­
vez, afirma que experim entam os apenas a superfície das va. A mera observação objetiva de seu com portam ento
coisas, isto é, os fenôm enos —o que está aparente —, mas não permitiria um m aior aprofundam ento no fenôm eno
não a verdadeira coisa em si. O conhecim ento é, então, psicopatológico. O toco da psicopatologia fenom enoló-
o resultado da atividade m ental, que organiza as sensa­ gica são, portanto, as vivências subjetivas —conscientes —
ções de acordo com categorias apriorísticas, tais com o dos pacientes, descritas pelos próprios. O que está incons­
espaço, tem po, etc. ciente não é objeto da fenomenologia. P or fim, a psico­
Foi Lambert, um m édico francês, quem , em 1764, patologia fenom enológica não busca explicações teóri­
criou a palavra fenomenologia, que designou com o “des­ cas para eventos psicológicos. Através da redução fenom e-
crição da aparência” . P araE dm und Husserl (1859—1938), nológica, os fenôm enos são colocados “entre parênteses” :
o criador da corrente filosófica denom inada fenom eno­ são descritas as vivências em si, sem a preocupação com
logia, o m éto do fenom enológico é puro, descritivo, as suas origens e conseqüências.
apriorístico e baseado na apreensão intuitiva dos fenô­
menos psíquicos, tais com o se dão na consciência. Tais
características m erecem maiores esclarecimentos. S E M IO L O G IA
Para a fenomenologia, tudo o que existe é fenôm eno
e só existem fenômenos. Fenôm eno é todo objeto apa­
P S IQ U IÁ T R IC A
rente, é o que se apresenta à nossa consciência. Esta pos­ D efine-se a semiologia com o a “ciência dos signos” .
sui um a intencionalidade, isto é, ela se m ove em direção Entende-se com o sinal qualquer estímulo em itido pelos
aos objetos para apreender o fenôm eno: é sempre cons­ objetos do m undo. Já o signo é um sinal provido de sig­
ciência de algo. A consciência é doadora de sentido às nificado, representa a ligação de u m significante a um
coisas, tem o poder de constituir e criar as essências. A significado.
fenom enologia descreve experiências psicológicas subje­ H á três tipos de signos: os ícones, os indicadores ou
tivas, e seu objeto é o que aparece na consciência; ela índices e os símbolos. N o caso do ícone, há um a seme­
centra-se na vivência das coisas pelo sujeito, e não nas lhança entre o significante e o significado; p o r exemplo,
coisas em si. O observador deve prestar atenção aos seus o mapa do Brasil representando o nosso País. O indica­
próprios pressupostos, deixando de lado todas as teorias, dor caracteriza-se pela existência de um a relação de con-
para evitar que distorçam a observação. A intuição, que tigüidade; por exem plo, fumaça significando fogo. Os
é o instrum ento por excelência da captação fenom eno- sinais e sintomas clínicos são tam bém indicadores: a fe­
lógica, consiste na com preensão empática das vivências; bre indica a presença de um a infecção. N o símbolo, no
empatia esta que representa a capacidade de sentir-se na entanto, a relação é convencional e arbitrária. P o r exem ­
situação de outra pessoa. plo, o nom e Brasil dado ao nosso País, a utilização do
A fenom enologia contrapõe-se ao em pirism o, que term o alucinação para designar determ inada alteração da
aceita que o espírito assimile passivamente os objetos, ou sensopercepção.
seja, que estes o im pressionem com o se ele fosse um a Semiótica ou semiologia m édica é o estudo dos sinais
tábua rasa. Já o positivismo, tam bém diferentem ente da e sintomas das enfermidades, estudo este que inclui a iden­
fenomenologia, negava qualquer importância à introspec­ tificação das alterações físicas e mentais, a ordenação dos
ção. Ele veio influenciar, mais recentem ente, a reflexo- lenôm enos observados e a formulação de diagnósticos.
logia e o behaviorismo. Os sinais e sintomas representam os signos da psico­
C oube aK arlJaspers (1883—1969), filósofo alemão, a patologia e da m edicina em geral. Os sintomas são sub­
aplicação do m étodo lenom enológico na investigação psi­ jetivos e aparecem nas queixas do paciente. D or, o sen­
quiátrica, a partir de 1913. Segundo ele, a psicopatologia tim ento de tristeza e a escuta alucinatória, po r exemplo,
representa um a descrição compreensiva. P or com preen­ são sintom as. Já os sinais são objetivos, ou seja, são
Psicopatologia: Q uestões G erais 3

verificáveis pela observação direta. Eles podem ser de­ term os fenom enológicos —por exemplo, delírio —, e o
tectados p o r outra pessoa, às vezes pelo próprio pacien­ conteúdo, ao “colorido” ou “recheio” da experiência —
te. A flexibilidade cerácea, um a fácies de tristeza e o so­ p o r exemplo, estar sendo perseguido p o r marcianos.
lilóquio são sinais. P or semiotécnica entendem os os procedim entos es­
U m a experiência psíquica anorm al possui tanto for­ pecíficos e sistematizados de observação e coleta dos si­
ma com o conteúdo. A forma se refere à estrutura em nais e sintomas, assim com o a interpretação destes.
CAPÍTULO

E N T R E V IS T A E A N A M N E S E P SIQ U IÁ T R IC A

— É preciso saber quando e com o interrom per o paci­


A E N T R E V IS T A P S IQ U IÁ T R IC A :
ente: sem cortar o fluxo da com unicação, mas sem
A S P E C T O S G E R A IS deixar que a minuciosidade ou a prolixidade prejudi­
A entrevista psiquiátrica possui três objetivos básicos: quem a obtenção da história clínica. Sempre contro­
a formulação de um diagnóstico, a formulação de um lar e dirigir a entrevista.
prognóstico e o planejamento terapêutico. E a partir da — As perguntas não devem ser formuladas em um a se­
entrevista que se começa a estabelecer, ou não, um a ali­ qüência m onótona e mecânica. D evem ser tão infor­
ança terapêutica entre o paciente e o médico. mais quanto possível.
A entrevista pode se dar em situações m uito diversas: — Evitar perguntas m uito sugestivas, fechadas, que p o ­
na internação do paciente, que pode ser voluntária ou dem ser respondidas com um simples sim ou não: é
involuntária; num a consulta no ambulatório; quando o m elhor perguntar “C om o você está se sentindo?” do
psiquiatra vai responder a um pedido de parecer em uma que “Você está ansioso?” .
enfermaria de hospital geral; no dom icílio do paciente; — N ão aceitar jargões fornecidos pelos pacientes, com o
e, até mesmo, em via pública. “nervoso” , “deprim ido” , “tenho pânico” : pedir que
Para a entrevista, deve-se preferir um am biente fecha­ ele explique o que quer dizer com essas palavras.
do, isolado acusticamente e com um a tem peratura agra­ — Certificar-se de que o paciente com preende as per­
dável. Deve-se evitar o m áxim o possível que haja inter­ guntas: utilizar linguagem acessível, sem termos m é­
rupções. N o início é essencial que o m édico se apresen­ dicos.
te, explique o objetivo da entrevista e, se possível, obte­
nha o consentim ento do paciente. Se não há plena cons­
ciência de morbidade por parte do paciente, é fundam en­ E ST R U T U R A E C O N T E Ú D O DA
tal que se entrevistem os familiares — ou outras pessoas A N A M N E SE P S IQ U IÁ T R IC A
que possam prestar informações —, de preferência com a
Os dois com ponentes da avaliação psiquiátrica são: a
concordância (e a presença) do paciente.
anamnese e o exame psíquico. A palavra anamnese origi­
A arte de entrevistar só pode ser adquirida m ediante o
na-se do grego e significa literalm ente rememoração (ana
treinam ento com um supervisor, e com a prática. Aulas
= novo; mnesis = m em ória). A anamnese psiquiátrica
e manuais pouco auxílio trazem. Ensina-se ao aluno como
segue, em linhas gerais, o roteiro da anamnese em m edi­
trabalhar com as evidências apuradas, mas é difícil m os­ cina. E preciso ter em m ente um roteiro de anamnese,
trar com o obtê-las. D e qualquer m odo, há algumas re­ mas este não pode perturbar a espontaneidade da entre­
gras básicas que devem ser seguidas:
vista.
— N o começo, deve-se deixar o paciente falar livrem en­ A redação final de um a observação psiquiátrica preci­
te, e só depois perguntar de m odo mais específico te­ sa ser completa, sem ser sobrecarregada ou repetitiva, mas
mas ou pontos duvidosos. nunca será totalm ente com pleta e precisa. Dois exami-
6 E n trevista e A n a m n ese Psiquiátrica

nadores jamais farão a mesma anamnese do mesmo paci­ liar, vizinho, bom beiro, policial, outro profissional de
ente. saúde, etc. São reproduzidas literalm ente as palavras do
Observa-se, entre os diversos livros de psiquiatria, uma inform ante.
ausência de uniform idade quanto à estrutura da anam­
nese. Algumas informações podem se adequar a mais de
H istó ria da D o e n ç a A tu al (H D A )
um item da anamnese, cuja divisão é arbitrária, conven­
cional. A H D A consta de u m relato sobre a época e m odo de
início da doença, a presença de fatores desencadeantes,
tratamentos efetuados e o m odo de evolução, o im pacto
Iten s da A valiação P siq u iá tric a sobre a vida do paciente, intercorrência de outros sinto­
A redação da avaliação psiquiátrica - incluindo a ana­ mas e as queixas atuais.
m nese e o exame psíquico —pode ser dividida nos se­ Ela é narrada pelo paciente, ou p o r informantes - no
guintes itens: (1) identificação; (2) queixa principal; (3) caso de pacientes psicóticos —, ou p o r ambos. Faz-se ne­
m otivo do atendim ento; (4) história da doença atual; (5) cessário identificar sempre, para cada informação, qual foi
história patológica pregressa; (6) história fisiológica; (7) a fonte. N a redação da H D A , evitam-se termos técni­
história pessoal; (8) história social; (9) história familiar; cos: são utilizadas as palavras do paciente ou do inform an­
(10) exame psíquico; (11) súmula psicopatológica; (12) te. Os quadros clínicos são descritos, porém não n om e­
exame físico; (13) exames complementares; (14) diagnós­ ados. A redação deve seguir um a ordem cronológica,
tico sindrôm ico; (15) diagnóstico nosológico; (16) con­ m esm o que a narrativa, p o r parte do paciente ou dos
duta terapêutica. informantes, não tenha sido assim.
São ainda incluídas na H D A informações (sobre alte­
rações psíquicas e físicas) pesquisadas ativamente pelo en­
Id en tificação trevistador, m esm o que não tenham sido trazidas espon­
A identificação é composta pelos seguintes itens: nome, taneam ente pelo paciente ou inform ante. Fazem parte
data de nascimento, sexo, estado civil, naturalidade, ní­ tam bém da H D A os negativos pertinentes, ou seja, certos
vel de instrução, profissão, etnia, religião, residência, sintomas cuja ausência pode ser significativa para a iden­
procedência, filiação. tificação da doença ou da fase evolutiva em que esta se
A identificação pode ser de grande auxílio para a for­ encontra. Episódios psiquiátricos anteriores devem ser
m ulação do diagnóstico. P or exemplo, o alcoolismo é relatados tam bém aqui, já que estes devem estar relacio­
mais com um em homens; esquizofrênicos em geral não nados ao atual, visto que os transtornos mentais são, em
são casados; pacientes com retardo m ental costum am geral, crônicos.
apresentar um baixo nível educacional; etc. Em casos de transtorno de personalidade ou de retar­
N a apresentação pública de casos —com o em sessões do m ental, será impossível separar H D A e história pes­
clínicas —, o nom e pode ser representado pelas iniciais, soal, que podem ser fundidas.
mas é preferível, para preservar o sigilo, usar um pseu­
dônim o.
H istó ria P a to ló g ic a P reg ressa (H P P )
A H P P refere-se a estados m órbidos passados, em ge­
Q u eix a P rin c ip a l (Q P )
ral nâo-psiquiátricos, que não m ostrem possuir relação
A Q P, que constitui o foco da história da doença atu­ direta ou indireta de causa e efeito com a moléstia atual.
al, deve ser sucinta. C onvém relacionar no m áxim o três Se existir essa relação, eles são incluídos na H D A .
queixas, de preferência apenas uma. São investigadas principalm ente as seguintes ocorrên­
A Q P é redigida com as palavras do paciente (entre cias: enurese, sonilóquio, pesadelos freqüentes, terror
aspas, ou usando sic), devendo ser registrada mesm o que noturno, sonambulismo, asma, tartamudez, fobia esco­
absurda. Caso o paciente não form ule nenhum a queixa, lar, na infância; convulsões ou desmaios; doenças vené­
isso tam bém tem que ser apontado. reas; outras doenças infecciosas, tóxicas ou degenerati­
vas; traumatismos cranianos; alergia; intervenções cirúr­
gicas; hábitos tóxicos (álcool, tabaco, drogas ilícitas); uso
M otivo do A te n d im e n to de medicamentos. Faz parte tam bém da H P P a revisão de
O item motivo do atendimento só é necessário quando sistemas, isto é, o questionam ento ju n to ao paciente rela­
não há consciência de m orbidade por parte do paciente. tivo a cada aparelho de seu organismo (cardiovascular,
O seu conteúdo é fornecido p o r outra pessoa: u m fami­ respiratório, etc.).
E ntrevista e A n a m n e s e Psiquiátrica 7

N a redação da H PP incluem -se todas as doenças im ­ dez desejada ou não pelos pais do paciente, separação dos
portantes relatadas. N ão se deve listar doenças ausentes, pais, quem criou o paciente; ordem de nascim ento entre
já que não se pode citar todas as que existem, a não ser os irmãos, diferenças de idade; características de perso­
que tal ausência seja significativa para a formulação do nalidade dos familiares, o relacionam ento entre estes e
diagnóstico. destes com o paciente; atitude da família diante da doen­
ça do paciente; relacionam ento com o cônjuge e filhos.

H istó ria F isiológica


São investigados os seguintes elementos relativos à his­ O E X A M E P S ÍQ U IC O
tória fisiológica: gestação (da mãe), nascimento, aleita­
O exame psíquico tam bém é chamado de exame do
m ento, desenvolvim ento psicom otor (andar, falar, con­
estado m ental, exame mental, exame psicopatológico,
trole esfmcteriano), menarca, catamêmos, atividade se­
exame psiquiátrico. Ele começa no prim eiro contato com
xual, gestações, partos, abortamentos, menopausa, padrões
o paciente, antes de se obterem os dados de identifica­
de sono e de alimentação.
ção. O psiquiatra experiente será capaz de realizar a m ai­
or parte do exame do estado m ental ao mesmo tem po
H istó ria Pessoal em que com pleta a tom ada da história.
N o m odelo m édico, a história é reconhecida com o
Pode-se optar p or fundir a H PP, a história fisiológica,
subjetiva, enquanto o exame físico é considerado a fonte
a história pessoal e a história social, sob a denom inação
principal de informações objetivas. O exame psíquico é
de história pessoal. Caso se m antenha a história pessoal
comparável ao exame físico na m edicina geral. Assim, na
com o um item mais restrito, pesquisam-se as seguintes
avaliação psiquiátrica, o que é relatado pelo paciente deve
informações:
ser incluído na anamnese, enquanto o que é observado
— Infância: personalidade, socialização, jogos e brincadei­ pelo exam inador representa o exame psíquico. P ortan­
ras, aproveitamento escolar, ansiedade de separação. to, expressões com o “o paciente refere” são quase sem­
— Adolescência: desem penho escolar, uso de álcool e pre mais apropriadam ente colocadas na história do que
drogas, delinqüência, relacionam entos interpessoais. no exame psíquico.
— Sexualidade: iniciação, preferência, orientação, núm e­ M ackinnon & Yudofsky (1988) questionam a objeti­
ro de parceiros, freqüência. vidade do exame psíquico, alertando que não se pode
— Vida profissional: vocações; estabilidade nos em pre­ palpar diretam ente a m ente do paciente ou auscultar seus
gos; relacionam ento com chefes, subordinados e co­ processos de pensam ento da mesma forma com o se exa­
legas; desempenho. m ina o abdôm en ou o tórax do paciente; e que o exame
— Personalidade pré-m órbida: relacionam entos sociais, físico tam bém teria elementos subjetivos. Mas, na ver­
interesses, hábitos de lazer e culturais, padrão de h u ­ dade, apenas os elementos subjetivos relacionados dire­
mor, agressividade, introversão/extroversão, egoísm o/ tam ente a manobras do exam inador é que são incluídos
altruísmo, independência/dependência, atividade/pas- na descrição do exame físico (por exemplo: dor à palpa­
sividade, valores, adaptação ao ambiente. ção abdominal, a pesquisa da sensibilidade térmica). Além
disso, grande parte das vivências internas, subjetivas, dos
pacientes são expressas em seu com portam ento, sua m í­
H istó ria Social
mica ou sua fala, tornando-se assim passíveis de serem
Fazem parte da história social informações relativas à observadas e descritas p o r outras pessoas, isto é, tornan­
moradia —condições sanitárias, pessoas com quem convi­ do-se objetivas. Jaspers (1913), p o r sua vez, aponta a fal­
ve, núm ero de cômodos, privacidade, características socio- ta de fidedignidade dos relatos de m uitos pacientes: “ ...
demográficas da região —; situação socioeconômica; carac­ não só os doentes histéricos não m erecem confiança mas
terísticas socioculturais; atividade ocupacional atual; situa­ a grande maioria das autodescrições psicopáticas deve ser
ção previdenciária; vínculo com o sistema da saúde; ativi­ considerada de m odo bastante crítico. Os doentes rela­
dades religiosas e políticas; antecedentes criminais. tam para serem agradáveis, o que deles se espera, ou por
sensação quando notam o interesse” .
N o exame psíquico, são descritas apenas as alterações
H istó ria F am iliar
presenciadas durante a entrevista. Portanto, na redação
A história familiar abrange dados relacionados a do­ do exame psíquico, expressões com o no momento ou du­
enças psiquiátricas e nào-psiquiátricas; ter sido a gravi­ rante a entrevista são redundantes. D e um m om ento para
8 E ntrevista e A n a m n ese Psiquiátrica

outro, a sintomatologia psiquiátrica pode m udar —com o precisão, prática com um no exame físico: por exemplo,
podem m udar a freqüência cardíaca, a pressão arterial, etc. “pensam ento acelerado (3 + / 4 + ) ” . E válida tam bém a
—, constituindo assim um outro exame psíquico. N os casos atribuição de graus de certeza quanto à presença de deter­
em que a sintomatologia é interm itente, o que não é raro minada alteração (por exemplo: “alucinações auditivas?”).
com alucinações e com alterações do nível da consciên­
cia, um exame psíquico isolado pode ser pouco revela­
dor. U m a possível solução seria tom ar o exame psíquico O E X A M E F ÍS IC O
mais amplo, com preendendo mais de um a observação,
Existe um a falsa crença de que o doente m ental sofre
com intervalos de horas ou dias entre um a e outra.
menos freqüentem ente de doenças físicas, que são por isso
N a redação, é conveniente a descrição das condições
subdiagnosticadas. M uitos transtornos mentais possuem
nas quais se realizou o exame: se no domicílio do pacien­
etiologia orgânica —com o a depressão no hipotireoidis-
te, em consultório ou ambulatório, em quarto de hospi­
m o —, ou levam a complicações físicas —por exemplo,
tal, ou num a enfermaria; se havia mais alguém presente.
um quadro de desnutrição em função de perda do apeti­
Há um a influência m útua entre as funções mentais. Na
te na depressão.
verdade, qualquer subdivisão das funções mentais é arti­
N o exame físico deve ser dada ênfase ao exame n eu­
ficial, e as diversas funções psíquicas são avaliadas de for­
rológico e ao do sistema endócrino.
ma praticamente simultânea. As funções psíquicas podem
O exame da constituição (morfologia corporal) pode
alterar-se quantitativa e /o u qualitativamente.
ser incluído no exame físico, na parte da inspeção geral.
Além do registro das alterações psicopatológicas, faz
Kretschm er (1921) relacionou os biótipos leptossômico,
parte do exame psíquico a descrição das funções mentais
atlético e displásico à esquizofrenia; o pícnico à psicose
preservadas. N ão devem ser consideradas as possíveis
maníaco-depressiva; e o atlético à epilepsia. Mas com e­
causas dos fenômenos: são apontadas todas as alterações
teu im portantes falhas metodológicas em seu trabalho,
presentes, m esm o que, por exemplo, se acredite que elas
com o a ausência de critérios rígidos e objetivos para a di­
sejam devidas à medicação em uso. Para a avaliação de
ferenciação entre os biótipos, e a criação de novas teorias
algumas funções, com o m em ória, orientação, inteligên­
para explicar as numerosas exceções à sua teoria principal.
cia, etc., são necessárias perguntas mais específicas ou
Apesar disso, as idéias de Kretschmer são ainda bastante
mesmo testes. A redação do exame psíquico deve restrin­
valorizadas por muitos psiquiatras, os quais talvez tenham
gir-se a um a descrição dos fenômenos observados, sem o
uma tendência a se lembrarem mais dos casos que as con­
uso de termos técnicos.
firm am do que daqueles que as contradizem.

SÚ M U LA P S IC O P A T O L Ó G IC A
EXAM ES CO M PLEM EN TA RES
Os itens que com põem a súmula psicopatológica são:
H em ogram a, bioquím ica sangüínea, sorologia para
(1) aparência; (2) atitude; (3) consciência; (4) atenção; (5)
lues, exame do líquor, neuroim agem cerebral, eletroen-
sensopercepção; (6) mem ória; (7) fala e linguagem; (8)
cefalografia, estudos genéticos, dosagens horm onais, tes-
pensam ento; (9) inteligência; (10) imaginação; (11) von­
tagem neuropsicológica e psicodiagnóstico estão entre os
tade; (12) psicomotricidade; (13) pragmatismo; (14) h u ­
principais exames complem entares que podem ajudar na
m or e afetividade; (15) orientação; (16) consciência do
formulação do diagnóstico psiquiátrico. Todavia, em geral
eu; (17) prospecção; (18) consciência de morbidade.
é desnecessária e onerosa a solicitação de u m grande
Esses mesmos elementos são examinados no exame psí­
núm ero de exames. Os mais im portantes para cada caso
quico. A súmula psicopatológica e o exame psíquico pos­
em particular vão ser indicados pelos dados da anamnese
suem o m esm o conteúdo, sendo a súmula um resumo
e pelos achados dos exames psíquico e físico.
do exame psíquico: a partir de u m exame psíquico bem
feito, qualquer outra pessoa terá que form ular a mesma
súmula psicopatológica. Além disso, na súmula tom a-se
explícita a subdivisão das funções mentais e são utiliza­
O D IA G N Ó S T IC O P S IQ U IÁ T R IC O
dos termos técnicos. A palavra diagnóstico tem origem grega: significa conhecer
N ão há uniformidade quanto a uma configuração ideal (ou percebei•) dois; distinguir ou reconhecer. Já doença vem do
da súmula, nem quanto ao núm ero ou ordem de apre­ latim dolentia, e significa dor, sofrimento.
sentação dos itens. É interessante a tentativa de estimar a As doenças são apenas conceitos, abstrações criadas pelo
intensidade das alterações quantitativas com um a m aior hom em , que podem ser a qualquer m om ento modifica­
E ntrevista e A n a m n e s e Psiquiátrica 9

das ou descartadas. C onstituem condições relacionadas a de estado misto (manifestações maníacas e depressivas
desconforto, dor, incapacitação ou morte, mas que só vão associadas); delirante (ou paranóide); alucinatória; hebe-
ser consideradas doenças em função de m uitos fatores frênica (ou desorganizada); catatônica (hipercinética,
(sociais, econômicos, biológicos, etc.). hipocinética); apático-abúlica; de retardo mental; dem en-
São levantadas algumas objeções ã formulação de diag­ cial; de delirium ; amnéstica; anoréxica; bulímica; de des-
nósticos. U m a delas está relacionada à idéia de que cada personalização—desrealização. Algumas combinações sin-
pessoa é um a realidade única e inclassificável: “não exis­ drômicas são freqüentes: fóbico-ansiosa; obsessivo-com-
tem doenças, mas doentes” . Afirma-se ainda que o diag­ pulsiva; d epressivo-ansiosa; h e b e fre n o -c a ta tô n ic a ;
nóstico é estigmatizante, e que ele apenas serviria para hebefreno-paranóide; delirante-alucinatória.
rotular as pessoas diferentes, perm itindo e legitim ando o O diagnóstico sindrôm ico baseia-se na súmula psico-
poder médico, o controle social sobre o indivíduo desadapta- patológica, podendo ser considerado também, desde que
do ou questionador. haja confiabilidade, o relato incluído na H D A das altera­
Mas, entre diagnosticar e reduzir a pessoa que rece­ ções atuais —não as pretéritas —que não foram detecta­
beu o diagnóstico a um rótulo, há um a grande diferen­ das no exame psíquico. C om o sempre é possível realizar
ça. Em bora possua algumas desvantagens e possa ser usa­ um exame psíquico, mesmo que não haja cooperação por
do indevidam ente, o diagnóstico representa um a neces­ p arte do paciente, a form ulação de u m diagnóstico
sidade prática na m edicina e na ciência. As finalidades sindrôm ico é obrigatória.
principais do diagnóstico são: com unicação —perm itir Em função da larga margem de desconhecimento acer­
um a linguagem com um — e previsão (“ diagnóstico é ca da etiopatogenia das doenças mentais e da inespecifi-
prognóstico”). Além disso, o diagnóstico favorece a in­ cid ad e da ação dos p sico fá rm aco s, o d iag n ó stic o
vestigação científica e fundam enta as medidas terapêuti­ sindrôm ico em psiquiatria reveste-se de grande im por­
cas e preventivas. tância. N a verdade, basicamente diagnosticamos e trata­
mos síndromes, e não doenças.

O D ia g n ó stic o S in d rô m ic o
A síndrome constitui um a associação de sinais e sin­
O D ia g n ó stic o N o so ló g ico
tomas que evoluem em conjunto, provocada por m eca­ X o s o , do grego, significa doença. O diag n ó stico
nismos vários e dependente de causas diversas. nosológico baseia-se na anamnese e nos exames psíqui­
São exemplos de síndromes: pneum onia, hipertensão co, físico e complementares.
arterial, insuficiência cardíaca, demência, depressão. A es­ O diagnóstico de um a doença pode seguir o m odelo
quizofrenia não é uma síndrome, pois está relacionada a categorial ou o dimensional. D e acordo com o prim ei­
critérios com o curso crônico e ausência de etiologia or­ ro, adotado pela C ID -10 e pelo D SM -IV , as doenças se
gânica. Síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS), sín­ distinguem da saúde e entre si: a categoria esquizofrenia é
drome pré-menstrual, síndrome de dependência de drogas psico- qualitativamente diferente da categoria transtornos do h u ­
ativas, síndrome orgânica da personalidade, apesar das respec­ mor e da normalidade. Já segundo o m odelo dim ensio­
tivas denom inações, não são síndromes, já que o que as nal, haveria um continuum entre a saúde e a doença, a
caracteriza não é a sintomatologia, mas a etiologia ou o diferença entre ambas seria quantitativa.
curso. U m a classificação nosográfica é baseada ou nos sinto­
U m a mesma entidade nosológica pode, em diferentes mas, ou então na etiologia. Esta segunda opção é consi­
m om entos, manifestar-se sob a forma de diferentes sín­ derada a ideal, já que, de acordo com o conceito clássi­
dromes. P or exemplo, a esquizofrenia está associada às co, um a doença possui causas, alterações estruturais e
síndromes paranóide, catatônica, hebefrênica e apático- funcionais, e história natural conhecidas. Causa é qual­
abúlica. P or outro lado, um a mesma síndrom e pode es­ quer coisa que aum ente a probabilidade de uma doença;
tar presente em diferentes entidades nosológicas. P or pode ser necessária e suficiente, necessária mas não sufi­
exemplo: a depressão pode ser primária, ou associada ao ciente, ou nem necessária nem suficiente.
hipotireoidism o, ou associada ao uso de anti-hipertensi- C om o o conhecim ento a respeito da etiologia das
vos, etc. doenças mentais é bastante limitado, o diagnóstico psi­
E m bora não haja um a identidade de opinião entre os quiátrico é baseado na sintom atologia, o que o torna
diferentes autores quanto à enumeração das síndromes psi­ pouco válido e pouco fidedigno. O term o transtorno, en­
quiátricas, podem ser listadas as síndromes: de ansiedade; contrado na C ID -10 e no D SM -IV para designar as en­
fóbica; obsessiva; compulsiva; de conversão; dissociati- tidades nosológicas, é bastante impreciso: é mais especí­
va; hipocondríaca; de somatizaçào; depressiva; maníaca; fico que síndrome, mas não representa doença.
10 E ntrevista e A n a m n ese Psiquiátrica

O D SM -IV caracteriza-se por um a abordagem des­ sociais; eixo V — o mais alto nível de funcionam ento
critiva, não baseada em inferências teóricas; por critérios adaptativo no ano anterior.
operacionais para o diagnóstico; e p o r um a avaliação E m 1954, Leme Lopes já propunha o diagnóstico psi­
multiaxial. Esta tenta contem plar as abordagens sintoma- quiátrico em três dimensões: (1) a síndrome, (2) a perso­
tológica e etiológica: eixo I —transtornos mentais; eixo nalidade pré-m órbida —que corresponderia à predispo­
II —transtornos de personalidade e do desenvolvimento; sição biológica, psicológica ou social —e (3) a constela­
eixo III —distúrbios físicos; eixo IV —estressores psicos­ ção etiológica —fatores causais endógenos ou exógenos.
CAPÍTULO

A P A R Ê N C IA

IN T R O D U Ç Ã O A A P A R Ê N C IA N O S P R IN C IP A IS
Pouco foi escrito sobre a aparência nos tratados de psi- T R A N S T O R N O S M E N TA IS
copatologia. Encontram -se algumas palavras em Vallejo
Nágera (1944), Leme Lopes (1980), Pio Abreu (1997),
D epressão
Ey (1988), M ackinnon & Yudofsky (1988) e Sá (1988). N a depressão, o desinteresse ou a falta de energia pode
N o exame de paciente psiquiátrico, só podem os ob­ inviabilizar os cuidados pessoais.
servar o que está aparente, não oculto. Assim, podería­
mos chamar de aparência todo o conteúdo do exame M ania
psíquico. Mas, no exame psíquico e na súmula psicopa-
A aparência de mulheres maníacas costuma ser mais ou
tológica, o term o aparência tem u m significado bem mais
menos assim: roupas muito coloridas e chamativas, excesso,
restrito, referindo-se basicamente aos cuidados higiêni­
de maquiagem, perfume em excesso, muitos enfeites, unhas
cos e estéticos relativos ao corpo (incluindo cabelos, barba,
e cabelo às vezes pintados com várias cores diferentes (apa­
unhas, dentes),, roupas, m aquiagem e adereços (brincos,
rência bizarra); roupas muito curtas e decotadas (aparência exi­
colares, pulseiras, etc.).
bicionista) . Alguns pacientes maníacos, contudo, podem apre­
E m geral, a aparência é o prim eiro elem ento observa­
sentar uma aparência descuidada, em função de uma intensa
do no paciente, e o seu exame oferece indicações sobre
agitação, que impede que eles completem qualquer ativida­
o estado de diversas funções mentais.
de, inclusive as relativas aos cuidados pessoais.

A L T E R A Ç Õ E S N A A P A R Ê N C IA E sq u izo fren ia
A aparência de um paciente ou está cuidada, ou então Nos quadros apático-abúlicos, a aparência é descuida­
descuidada (desleixada). Neste último caso, ele se apresenta da. Nos hebefrênicos, costuma ser bizarra, assim com o em
com a hígiènexurporal comprometida; roupas sujas, ras­ muitos quadros paranóides, em que a aparência reflete a
gadas ou desalinhadas; m au cheiro; cabelos despenteados atividade delirante. Vallejo Nágera (1944) cita o uso de
e excessivamente compridos; barba por fazer; dentes es­ condecorações de papelão no peito e de tiaras de papelão
tragados, ausentes; ou unhas sujas e compridas. na cabeça com o expressões de delírios de grandeza.
U m a outra forma de classificar a aparência seria em: ade­
quada, bizarra (ou extravagante, ou excêntrica) e exibicio- D e m ê n c ia
nista. Denomina-se bizarra a aparência destoante do usual N os casos de'dem ência que cursam com apraxia, fre­
no ambiente do indivíduo, qualitativamente diferente ou qüentem ente a aparência está descuidada.
apenas exagerada em relação ao padrão da maioria das pes­
soas. Já a aparência exibicionista caracteriza-se pela excessi­
va exposição do corpo, sendo apresentada por pacientes com
T ra n sto rn o s D isso ciativ o s/C o n v ersiv o s
aumento da libido ou comportamento sedutor. N a antiga histeria é comum uma aparência exibicionista.
CAPÍTULO 4

A T IT U D E

Seriam basicamente estas as formas de atitude im por­


IN T R O D U Ç Ã O
tantes do p o n to de vista sem iológico: atitu d e n ão -
N os livros de psicopatologia, pouco espaço foi dedi­ cooperante, de oposição, hostil, de fuga, suspicaz, que-
cado ao estudo da atitude. H á algumas breves referências relante, reivindicativa, arrogante, evasiva, invasiva, de
ao assunto apenas em Valle-jo Nágera (1944), Pio Abreu esquiva, inibida, desinibida, jocosa, irônica, lamuriosa,
(1997), Ey (1988), M ackinnon & Yudofsky (1988) e Sá dramática, teatral, sedutora, pueril, gliscróide, simulado­
(1988). E alguns desses autores fazem certa confusão en­ ra, dissimuladora, indiferente, manipuladora, submissa,
tre psicom otricidade e atitude (ou com portam ento). expansiva, amaneirada; além da reação de último m om en­
N a entrevista psiquiátrica, são considerados o relato do to. Essa lista não é fechada e, provavelm ente, não abran­
paciente (ou de um familiar) —a partir do qual é elabora­ ge todas as maneiras de o doente se portar diante do
da a história — e a observação do com portam ento do m édico. Além disso, na prática um a mesma atitude pode
paciente —base do exame psíquico. Dessa forma, o com ­ enquadrar-se em mais de um a categoria.
portam ento (ou atitude), num sentido amplo — englo­
— A titude não-cooperante: dizer que o paciente não é
bando a fala, os gestos, a m ímica e os demais m ovim en­
cooperante é m uito vago, já que há diversas formas
tos corporais —, seria tudo no exame psíquico. Todavia,
de não cooperar.
parece mais interessante, na súmula psicopatológica, res­
— A titude de oposição (ou negativista): o paciente se
tringir o term o atitude àquela que está especificamente recusa a participar da entrevista.
relacionada ao examinador e à entrevista. Esse, por exem ­ — A titude hostil: o paciente ofende, ameaça ou agride
plo, não é o caso da atitude alucinatória , expressão m uito fisicamente o examinador.
empregada no m eio psiquiátrico. Assim, a atitude alucina­ — Atitude de fuga: reflete o m edo por parte do pacien­
tória não constituiria um a alteração da atitude, conside­ te.
rando o sentido de atitude aqui adotado. — A titude suspicaz (ou de desconfiança): “Você é mes­
m o m édico?” , “H á microfones escondidos aqui?” e
“P or que o senhor está perguntando sobre isso?” são
A L T E R A Ç Õ E S D A A T IT U D E perguntas formuladas pelos pacientes que apresentam
Quase não há termos técnicos para descrever as for­ esse tipo de atitude, a qual costuma estar relacionada a
mas de atitude, sendo usadas basicamente palavras de uso uma atividade delirante.
corriqueiro. Alguns com portam entos por parte dos pa­ — Atitude querelante: o paciente discute ou briga com
cientes são considerados desejáveis, no sentido de contri­ o examinador, por se sentir prejudicado ou ofendido.
buírem positivamente para a realização da avaliação psi­ — Atitude reivindicativa: o paciente exige, de forma in­
quiátrica: atitude cooperante, atitude amistosa, atitude de sistente, que aquilo que julga ser seu direito seja cum ­
confiança, atitude interessada. Essas atitudes desejáveis em prido. P or exemplo: ter alta da internação.
geral estão relacionadas a um a plena consciência de m or- — Atitude arrogante: o paciente sente-se superior e trata
bidade. com desdém o médico.
14 A titu d e

— Atitude evasiva: o paciente evita responder a certas per­


O E X A M E D A A T IT U D E
guntas, sem se recusar explicitamente.
— A titude invasiva: o paciente deseja saber sobre a vida O examinador não deve provocar ativamente qualquer
pessoal do examinador; m exe, sem pedir autorização, atitude no paciente, a qual deve ser espontânea.
nos objetos deste no consultório.
— A titude de esquiva: o paciente não deseja o contato
social. A A T IT U D E N O S P R IN C IP A IS
— A titude inibida (ou contida): o paciente não encara o T R A N S T O R N O S M E N T A IS
examinador, e dem onstra estar pouco à vontade.
— A titude desinibida: o paciente apresenta grande faci­ M ania
lidade quanto ao contato social, não se sente constran­
O paciente maníaco pode apresentar um a atitude ex­
gido ao falar até m esm o de sua vida sexual, podendo
pansiva, desinibida, jocosa; ou então irônica, arrogante,
violar normas sociais e tornar-se inconveniente. P or
hostil.
exemplo: pode assediar sexualmente o entrevistador.
— Atitude jocosa: o paciente está freqüentemente fazendo
piadas, ou brincando com as outras pessoas. D epressão
— A titude irônica: as piadas e o tom de voz refletem sua
N a depressão, é com um uma atitude lamuriosa. T o ­
arrogância e agressividade.
davia, o desinteresse pode levar a um a atitude de indife­
— A titude lamuriosa: o paciente queixa-se o tem po todo
rença.
de seu sofrim ento e dem onstra autopiedade.
— A titude dramática: reflete um a hiperem ocionalidade.
— Atitude teatral: o paciente parece estar fingindo ou exa­ E sq u izo fren ia
gerando, ou querendo chamar a atenção dos outros. Nos quadros em que predom inam os sintomas nega­
— A titude sedutora: o paciente elogia e tenta agradar o tivos ou na catatonia, pode haver indiferença em relação
examinador, ou tenta despertar o interesse sexual deste. ao exame. N a catatonia, encontram -se muitas vezes um a
— Atitude pueril: o com portam ento do paciente é com o atitude de oposição e a reação de últim o m om ento. N os
o de um a criança (faz pirraça, brinca, chama o m édi­ quadros paranóides, observa-se um a atitude suspicaz,
co de tio, etc.). hostil, querelante, ou de fuga. E típica da hebefrenia uma
— A titude gliscróide (ou viscosa): o paciente é grudento; atitude pueril.
é difícil encerrar a conversa com ele.
— A titude simuladora: o paciente tenta parecer que tem
um sintoma (ou doença) na verdade ausente. Delirium, D e m ê n c ia
— Atitude dissimuladora: o paciente tenta ocultar um sin­ N o delirium e em quadros de demência avançada, pode
tom a (ou doença) existente, com o objetivo, por haver indiferença em relação ao exame, em função da
exemplo, de receber alta da internação. nâo-com preensão do significado deste.
— A titude indiferente: o paciente não se sente sequer
incom odado pela entrevista ou pela presença do m é­
dico.
R e ta rd o M ental
— A titu d e m anipuladora: o paciente tenta obrigar o N o retardo m ental é m uito característico um com por­
m édico a fazer o que ele, paciente, quer, muitas vezes tam ento pueril.
por m eio de ameaças ou chantagem emocional.
— Atitude submissa: o paciente, passivamente, atende a
todas as solicitações do examinador.
E pilepsia
— A titude expansiva: o paciente deseja intensam ente o N a epilepsia do lobo tem poral, assim com o em ou­
contato social, e trata o m édico com o se fosse íntim o tros distúrbios cerebrais relacionados a essa região do
deste. cérebro, observa-se u m com portam ento gliscróide.
— Atitude amaneirada: o com portam ento é caricatural.
P or exemplo: tratar o m édico de “vossa excelência” ,
H iste ria
ou curvar-se toda vez em que o vê.
— R eação de últim o m om ento: após intenso negativis­ N a histeria sempre há teatralidade. C ostum am estar
m o, quando o exam inador já está desistindo do con­ presentes também sedução, dramaticidade, simulação, pue­
tato, o paciente com eça a cooperar com a entrevista. rilidade e manipulação.
A titu d e 15

F o b ia Social, T ra n sto rn o de T ra n sto rn o de P erso n alid ad e


P erso n alid ad e de E v itação A n ti-so cial
A inibição é um elemento fundamental dos quadros de O sociopata apresenta um com portam ento sedutor,
fobia social e do transtorno de personalidade de evitação. m anipulador e hostil.

T ra n sto rn o D eliran te, T ra n sto rn o de T ra n sto rn o de P erso n alid ad e


P erso n alid ad e P a ra n o id e Borderline
N o transtorno delirante e no transtorno de personali- O borderline apresenta um com portam ento manipula-
dade paranoide, a atitude é querelante, reivindicativa ou dor e hostil,
suspicaz.
CAPÍTULO

C O N SC IÊ N C IA (vigilância)

— é reflexiva, ou seja, o indivíduo tem consciência de


IN T R O D U Ç Ã O
que tem consciência, e assim pode refletir sobre os seus
conteúdos psíquicos.
E tim o lo g ia
A palavra consciência vem do latim, cum scientia, que,
por sua vez, é um a tradução da palavra grega syneidesis. Ser C o n scien te c o m o u m a Q u alid ad e
C um scientia significa literalm ente uma ciência acompanha­ Talvez a consciência psicológica seja menos um a fun­
da de outra ciência, ou uma relação cognoscitiva com. ção psíquica propriam ente dita do que um a qualidade
Originalm ente, a palavra consciência tinha o significa­ subjetiva que os processos mentais —com o sensopercep-
do de consciência moral, que equivale no alemão a Qemssen, ção, m em ória, imaginação, pensam ento, afeto, vontade
e, no inglês, a conscience. Só posteriorm ente surgiu o con­ —podem ter, em oposição à qualidade de ser inconsci­
ceito de consciência psicológica — mais amplo que o concei­ ente (Alves Garcia, 1942; Bleuler, 1985; Pally & Olds,
to de consciência moral, abarcando este —, que correspon­ 1998). U m a visão um pouco diferente seria a de consi­
de a Bewusstsein, no alemão, e a consciousness, no inglês. derar a consciência com o uma função m ental que cons­
Nas línguas neolatinas, com o o português, consciência se titui o palco onde ocorrem as outras funções mentais (Del
refere a ambos os conceitos. N ero, 1997).

C o n sciên cia P sico ló g ica V ig ilân cia


Segundo Jaspers, consciência é_j3 todo m om entâneo Vigilância é um term o criado por Head, em 1923, de­
da vida psíquica” . Em outras palavras, constitui um a sín­ finido com o “um a capacidade fisiológica que serve de
tese ou integração de todos os processos mentais em de­ suporte a um a atividade adaptativa, qualquer que seja a
term inado m om ento. modalidade desta” .
As características da consciência psicológica são as se­ Trata-se de uma acepção de consciência mais particu­
guintes: lar, que corresponde ao conceito de ativação ou atenção tô­
— trata-se de um a vivência interna e atual; - nica. Refere-se a um estado de consciência, no sentido neu-
— está relacionada à distinção eu/nâo-eu; rofisiológico. Aqui, estar consciente significa que o indi­
— é o conhecim ento (o dar-se conta) que o indivíduo víduo está vígil, desperto, alerta, com o sensório claro.
tem de suas vivências internas, de seu corpo e do
m undo externo —podendo ser didaticam ente dividi­
L u cid ez de C o n sciên cia
da em consciência do eu e consciência dos objetos;
— segundo a fenom enologia, possui intencionalidade A lucidez constitui um estado de consciência clara, ou
(“toda consciência é sem pre consciência de algo” de vigilância plena — a consciência teria um a função
[Husserl]), é doadora de significado às coisas; iluminadora quanto aos conteúdos mentais. N a lucidez,
18 Consciência (Vigilância)

os processos psíquicos são experimentados com suficiente percepções, do afeto, da atividade, da m em ória de evo­
intensidade; os estímulos são adequadam ente apreendi­ cação e da atenção espontânea; todavia, isso se daria com
dos; e os conteúdos mentais possuem nitidez e são clara­ prejuízo na capacidade de concentração e de raciocínio,
m ente delimitados e identificados. e na m em ória de fixação, além de incoerência, desorga­
E m oposição à lucidez estão o sono e o coma. Entre nização e hipopragmatismo.
esses extremos, há diversos níveis de clareza da consciên­
cia, o que representa a dimensão vertical da consciência.
R e b a ix a m e n to do N ível de
C o n sciên cia
C a m p o da C o n sciên cia
A expressão rebaixamento do nível de consciência refere-
O campo (ou amplitude) da consciência refere-se à
se a um nível de consciência entre a lucidez e o coma.
quantidade de conteúdos que a consciência abarca em de­
C onstitui um a perda da clareza da consciência: a percep­
term inado m om ento, e representa a dimensão horizon­
ção do m undo externo tom a-se vaga e imprecisa (aumen­
tal da consciência.
ta o limiar para a captação de estímulos externos), havendo
ainda um a dificuldade para a introspecção, para a apre­
ensão do próprio eu.
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N T IT A T IV A S
O rebaixam ento do nível de consciência está relacio­
F IS IO L Ó G IC A S nado a u m com prom etim ento difuso, generalizado, do
As alterações quantitativas da consciência (vigilância), funcionam ento cerebral. Sempre possui um a etiologia
que podem ser normais ou patológicas, referem-se à in­ orgânica. O corre um déficit cognitivo global. Estão es­
tensidade da clareza das vivências psíquicas. pecialm ente afetadas as funções de atenção, orientação
N o estado normal, o indivíduo desperto está constan­ alopsíquica, pensam ento, inteligência, sensopercepção,
tem ente apresentando oscilações na intensidade de sua m em ória, afeto e psicomotricidade.
consciência, em geral pequenas. H á certa dim inuição no Há, entre os diversos autores, uma grande falta de uni­
nível de consciência quando o indivíduo está cansado ou form idade quanto à term inologia da classificação dos
sonolento, quando se encontra num estado de relaxamen­ quadros de rebaixam ento da consciência. U m a opção é
to ou repouso, e quando os estímulos sensoriais externos dividi-los em: estados confusionais simples e estados con-
e internos e os afetos são pouco intensos. H á tam bém uma fuso-oniróides.
redução do nível de consciência na transição da vigília
para o sono, e vice-versa. E stad o C o n fu sio n al Sim ples
O estado confusional simples (ou obnubilação* sim­
S ono ples da consciência) caracteriza-se pela ausência de sin­
O sono pode ser definido com o um estado de incons­ tomas psicóticos. O paciente apresenta hipoprosexia,
ciência do qual a pessoa pode ser despertada p or estím u­ desorientação no tem po e no espaço, pensam ento em ­
los sensoriais. O sono profundo (sem sonhos) constitui pobrecido e alentecido (às vezes, mutism o), dificuldades
um estado fisiológico de abolição da consciência. de compreensão e de raciocínio, hipoestesia, hipomnesia
de fixação e de evocação, apatia e inibição psicom otora
(às vezes, estupor).
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N T IT A T IV A S
P A T O L Ó G IC A S E stad o C o n fu so -o n iró id e
Alguns autores falam em elevação do nível de consci­
O estado confuso-oniróide** (ou obnubilação oniróide
ência (ou hiperlucidez, ou hipervigilância). N o entanto,
da consciência) caracteriza-se pela presença de sintomas psi­
esse é u m co n c eito b astante in ad eq u ad o . S egundo
cóticos, especialmente ilusões e pseudo-alucinações visu­
A lonso-Fernández (1976), a situação de a consciência
ais (menos freqüentemente, de outras modalidades senso­
adquirir características mais intensas que as da consciên­
riais), além de idéias deliróides (muitas vezes, persecutórias).
cia normal constitui apenas uma possibilidade teórica, que
não tem base empírica. Esse fenôm eno ocorreria na in­
toxicação p o r alucinógenos (LSD, mescalina, etc.) e por
* N .A .: Obnubilação v e m d o latim , ob + nubilare, q u e significa “p ô r u m a n u ­
anfetamina, na mania, no início da esquizofrenia e em v e m na fre n te ” , " e n e v o a r” .
auras epilépticas. Haveria um aum ento de intensidade das * * N .A .: Oneiros, do grego, significa “ s o n h o ” .
Consciência (Vigilância) 19

H á ainda dificuldade de concentração (com exacerbação ção da continuidade e unidade psíquicas da personalida­
da atenção espontânea), desorientação têmporo-espacial, de, e perde-se a capacidade de reflexão.
desagregação do pensamento, dificuldade de com preen­ O estreitamento do campo da consciência é a carac­
são e de raciocínio, amnésia de fixação e de evocação, terística que defme os estados crepusculares. O corre na
exaltação afetiva (muitas vezes, ansiedade), perplexidade e epilepsia parcial complexa, na intoxicação alcoólica pa­
agitação psicomotora. Esse quadro corresponde à amência, tológica, nos estados dissociativos histéricos e, ainda, no
term o introduzido por M eynert em 1890. estado hipnótico, na reação aguda ao estresse, no sonam ­
bulismo neurológico e nas crises de pavor noturno.
A epilepsia parcial com plexa está associada ao lobo
C om a
temporal. O paciente torna-se relativamente alheio ao
O term o coma vem do grego e significa sono profundo. am biente, mas pode parecer lúcido num a observação
O quadro caracteriza-se p o r abolição da consciência. m enos apurada. Seu com portam ento, que pode ser bem
Nesse estado, o indivíduo não pode ser despertado nem organizado, é estereotipado, à base de automatismos; a
por estímulos dolorosos m uito intensos. O corre perda reflexão e a intencionalidade estão ausentes. Podem ocor­
total da m otricidade voluntária e da sensibilidade. E m ­ rer com portam entos violentos, impulsivos, delírios e alu­
bora a vida somática prossiga, não há sinal de atividade cinações, estados afetivos intensos (ansiedade, êxtase),
psíquica. agitação ou inibição psicom otora. O início e o fim são
súbitos. A duração pode ser de algumas horas a semanas.
E m geral, há um a amnésia total a posteriori em relação ao
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS episódio.
F IS IO L Ó G IC A S A intoxicação alcoólica patológica caracteriza-se por
um estado de grande agitação psicom otora, após a inges­
S onhos tão de uma pequena quantidade de álcool, em geral in­
suficiente para provocar embriaguez na maioria das pes­
Os sonhos são vivências subjetivas que se dão durante
soas.
o sono. Eles caracterizam-se por: predom ínio de imagens
E ntre os estados dissociativos histéricos, incluem -se os
visuais (mas pode haver sensações motoras, auditivas, etc.);
estados de transe, sonambulismo, fugas e amnésia psico-
conteúdos bizarros; a falsa crença de que se está acorda­
gênicos, a pseudodem ência (síndrome de Ganser) e o
do; dim inuição da capacidade de reflexão; mudanças sú­
transtorno de personalidades múltiplas. Eles caracterizam-
bitas quanto a tem po, lugãr e pessoas; um a estrutura nar­
se, além da alienação da realidade, por teatralidade, in ­
rativa; forte colorido emocional; com portam entos ins­
tencionalidade, um a relação tem poral com um fator de
tintivos; atenuação da vontade; dificuldade de se lem brar
estresse agudo e possibilidade de recuperação completa
de seu conteúdo após ter despertado (Hobson, 1999).
da m em ória referente ao episódio. Pode estar perturba­
A consciência no sonho é uma consciência parcial, pois
da a orientação autopsíquica.
nele observa-se a perda de diversos aspectos encontrados
na consciência de vigília, tais como: controle (sobre a
ação), coerência, m em ória de longo prazo, capacidade de
O E X A M E D A C O N S C IÊ N C IA
crítica e consciência da própria identidade (autoconsci­
ência) (Del N ero, 1997). (V IG IL Â N C IA )

E xpressão F isio n ô m ica


A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS U m a fácies que denota sonolência ou fadiga constitui
P A T O L Ó G IC A S um indício de que a consciência pode estar rebaixada.

E stre ita m e n to do C a m p o da A lienação d o M u n d o E x te rn o


C o n sciên cia
U m a aparente alienação do m undo externo pode in ­
A consciência estreitada abarca um conteúdo m enor dicar tanto rebaixam ento com o estreitamento da cons­
do que o norm al e está restrita a determinadas vivências ciência. Traduz-se por um desinteresse, ou dificuldade
(idéias, afetos, imagens, ações). Outras vivências inter­ de apreensão, em relação ao am biente; ou p o r um
nas, assim com o grande parte dos estímulos externos, com portam ento inadequado ou incoerente, que não leva
tornam -se inacessíveis à consciência. H á um a interrup­ em consideração a realidade.
20 Consciência (Vigilância)

O u tra s F u n çõ es P síquicas tremens (na abstinência ao álcool) é um bom exemplo de


um estado confuso-oniróide. Já a intoxicação patológica
Indica uma perturbação da consciência a observação de
(ou idiossincrática) cursa com estreitamento do campo
alterações principalmente quanto à atenção, ã orientação, à
da consciência.
sensopercepção, à memória e à capacidade de reflexão.

N arco lep sia


A C O N S C IÊ N C IA (V IG IL Â N C IA ) A narcolepsia caracteriza-se por ataques irresistíveis de
N O S P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S sono, associados a alucinações hipnagógicas, cataplexia e
M E N T A IS paralisia do sono.

Delirium T ra n sto rn o s D issociativos


P o r definição, o delirium é um quadro agudo que se (H isteria D issociativa)
caracteriza p o r um prejuízo cognitivo global, com rebai­
Os quadros dissociativos constituem estados crepus­
xam ento do nível de consciência. Todas as demais alte­
culares, sendo considerados de origem psicogênica. São
rações psicopatológicas são decorrentes do rebaixam en­
semelhantes, fenom enologicam ente, aos estados hipnó­
to da consciência. Ao longo do dia, o nível da consciên­
ticos. A diferença é que, nos transtornos dissociativos, o
cia flutua amplam ente, piorando à noite.
estado de transe é auto-induzido, não necessitando da
Os quadros de delirium ocorrem em função de uma
atuação de um hipnotizador. Esses pacientes são bastante
perturbação difusa no metabolismo cerebral, que pode
(auto-) sugestionáveis.
ser causado por: intoxicações p o r drogas (álcool, antico-
linérgicos); abstinência a drogas (álcool, benzodiazepíni-
cos); encefalopatias metabólicas (cetoacidose diabética,
C O N T R IB U IÇ Õ E S DA PSIC A N Á LISE
uremia, coma hepático); infecções (septicemia, m enin-
goencefalites); epilepsia; traumatismo crânio-encefálico; Segundo Freud, o sonho é “ o guardião do sono” , e
doenças cerebrovasculares; tum ores intracranianos; do­ constitui “um a realização (disfarçada) de um desejo (re­
enças degenerativas cerebrais; etc. prim ido)” .

E sq u izo fren ia, T ra n sto rn o s do C o n te ú d o M a n ife s to /C o n te ú d o


H u m o r, D e m ê n c ia L aten te
O sonho possui um conteúdo manifesto, que é a ex­
Esses transtornos mentais ocorrem sob lucidez de cons­
ciência. periência consciente (predom inantem ente visual) durante
o sono, que pode ou não ser recordada e relatada pelo
sonhador já na vigília.
E pilepsia O sonho possui ainda um conteúdo latente, conside­
rado inconsciente, que é com posto p o r 3 elementos:
Ao longo do dia, as oscilações no nível de consciên­
cia, nos epilépticos, parecem ser maiores do que as que, — as impressões sensoriais noturnas, com o o som de um
fisiologicamente, ocorrem no indivíduo normal. As cri­ despertador, ou sensações de calor ou frio desconfor­
ses do tipo grande mal e de ausência simples levam a uma táveis, fome, sede, urgência de urinar ou defecar, dor,
abolição tem p o rária da consciência. O estado pós- etc.;
comicial (após uma crise do tipo grande mal) constitui — os restos diurnos, isto é, pensamentos e recordações
um estado de rebaixam ento do nível de consciência. Os da véspera que estiveram na consciência do indivíduo
estados crepusculares podem ser a própria crise comicial durante a vigília;
(na epilepsia do lobo temporal), podendo preceder ou — e as pulsões do id. relacionadas às fases pré-edípica e
suceder um a crise epiléptica generalizada. edípica. que, através de u m m ecanismo de defesa cha­
mado repressão, são mantidos inconscientes (estes são
os elementos essenciais do sonho).
A lco o lism o
A elaboração do sonho constitui o conjunto de ope­
N a intoxicação por álcool, há rebaixam ento do nível rações mentais de transformação do conteúdo latente do
da consciência, podendo-se chegar ao coma. O delirium sonho em conteúdo manifesto.
Consciência (Vigilância) 21

O S o n h o c o m o u m a F antasia de S onhos de P u n iç ã o
R ealização de D esejo N o caso dos sonhos de punição, o ego antecipa a cul­
As impressões sensoriais noturnas, os restos diurnos e pa (pela realização do desejo reprimido), e o conteúdo
os desejos relacionados às pulsões do id tendem a fazer o manifesto está representando um a fantasia de punição.
indivíduo despertar. D urante o sono, talvez em função Seria, portanto, a realização de um desejo do superego,
da com pleta cessação da atividade m otora voluntária, a e não do id.
repressão está enfraquecida, o que aum enta a possibili­
dade de as pulsões terem acesso à consciência. E m fun­ A P sicanálise P ó s-fre u d ian a
ção de um a solução de compromisso entre o id e o ego
—este é que exerce a repressão —, é perm itida um a grati­ Teorias de outros analistas questionaram a explicação
ficação parcial das pulsões através de um a fantasia visual, de Freud para os sonhos. Atualm ente, na prática analíti­
dim inuindo a força dessas pulsões e, conseqüentem ente, ca, observa-se um m enor interesse na interpretação dos
possibilitando que o indivíduo continue a dormir. sonhos dos pacientes do que no passado.
N os sonhos da prim eira infância, quando o ego não
está ainda nitidam ente diferenciado do id, o conteúdo
manifesto está mais claramente relacionado a um a reali­ C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
zação de desejos. N E U R O C IÊ N C IA S E D A
P S IC O L O G IA C O G N IT IV A
A B iz a rric e dos Sonhos
H ip o tá la m o
O conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente in­
O ciclo sono—vigília é controlado pelo núcleo supra-
compreensível porque consiste num a versão distorcida do
quiasmático do hipotálamo anterior. A estimulação elé­
conteúdo latente. Essa distorção se dá, em prim eiro lu­
trica do hipotálam o posterior induz o estado de alerta,
gar, porque, no sono, há uma profunda regressão do fun­
enquanto a estimulação do hipotálam o anterior leva ao
cionam ento do ego, que faz com que haja um enfraque­
sono.
cim ento da capacidade de distinção entre o real e o im a­
ginário (prova de realidade), e com que o processo pri­
mário do pensam ento passe a ser o predom inante. As­ S u b stân cia R e tic u la r A tiv ad o ra
sim, o conteúdo latente do sonho tem que ser traduzido
A scen d en te (SRAA)
para um a linguagem do processo prim ário, caracterizada
pelo predom ínio das imagens visuais (em detrim ento da A SRA A tem com o principal função a ativação do
linguagem verbal) e pelos mecanismos de condensação córtex cerebral, regulando os estados de alerta e de sono.
(fusão de duas ou mais representações) e de deslocamen­ Possui um tônus intrínseco, necessário para o funciona­
to (substituição de um a representação por outra). Além m ento norm al do cérebro. Drogas que deprim em a ati­
disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma vidade neuronal da SRAA, com o os barbitúricos, p ro ­
instância censora, que deliberadamente disfarçaria o con­ vocam sonolência; e drogas que estim ulam a SRAA,
teúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua com o a anfetamina, têm efeito excitatório. Lesões ou
origem pulsional, proibida. disfunções na SRA A levam a rebaixam ento da consci­
Os sonhos tornam -se um pouco menos bizarros em ência ou prejuízo cognitivo.
função do papel da elaboração secundária, que, num se­ A SPJVA inicia-se na parte superior da medula, distri­
gundo m om ento, tenta dar ao conteúdo manifesto uma buí— se amplamente no tronco cerebral e, por m eio de
forma mais lógica e coerente. projeções talâmicas, atua sobre o córtex cerebral. E ati­
vada p o r impulsos de vias aferentes descendentes, que
provêm de diversas regiões cerebrais (inclusive do cór­
Pesadelos tex), e de vias aferentes ascendentes sensoriais intrínsecas
Mesmo sendo sonhos desprazerosos, os pesadelos não e extrínsecas. A ativação da SRA A leva a um aum ento
contradiriam a teoria freudiana. Nesse caso, apesar da cen­ da vigilância.
sura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à consci­ O alerta está relacionado especialmente ao locas cenáeus,
ência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este, localizado no terço superior da ponte, que é a maior fonte
então, reage produzindo a ansiedade, com o objetivo de de norepinefrina (NE) no cérebro. A destruição bilateral
despertar o indivíduo e, assim, deter a realização do desejo. do locus ceruleus, em animais, provoca um estado de sono
22 Consciência (Vigilância)

profundo; substâncias que aum entam a atividade nora- do. D urante o sono R E M há u m aum ento do m etabo­
drenérgica aum entam a vigilância. lismo global do cérebro, em até 20%.
O sono está relacionado aos núcleos da rafe, localiza­
dos na parte inferior da ponte e no bulbo, cujas term ina­
ções secretam serotonina (5-H T). A destruição dos n ú ­
O u tra s C aracterísticas do
cleos da rafe e o uso de substâncias que inibem a síntese Sono N ã o -R E M
de 5 -H T , em animais, provocam insônia. O sono n ã o -R E M é mais repousante que o sono
R E M , e não está relacionado a um aum ento da ativida­
E stu d o s E le tro en cefalo g ráfico s (EEG) de autonôm ica periférica. D urante o sono não -R E M ,
tam bém ocorrem sonhos, que são, porém , mais concei­
A vigília caracteriza-se p o r ondas rápidas (13—30 ci­ tuais do que plásticos, caracterizando-se por fragmentos
clos/ s) e de pequena amplitude —ondas beta. O traçado da realidade não-organizados e não-narráveis, raram ente
é irregular, sendo por isso chamado dessincronizado. Se, sendo lembrados.
porém , o indivíduo fecha os olhos, as ondas cerebrais
tornam -se mais lentas (8—13 ciclos/s), mais amplas e mais
regulares —ritm o alfa. A T eo ria de H o b so n : A tiv ação -sín tese
O sono profundo (sono não-R E M ) caracteriza-se por E m estudos com animais, observou-se que, durante o
ondas lentas de grande am plitude (delta e teta), que são sono R E M , há um grande declínio nos níveis de N E e
regulares (traçado sincronizado). É dividido em 4 está­ 5-H T . U m estudo com humanos demonstrou um a queda
gios. Vai havendo um progressivo alentecim ento do tra­ de 5 -H T na fase R E M . Substâncias noradrenérgicas le­
çado até o estágio 4, no qual a freqüência é de 1 a 3 ci­ vam a um a redução do sono R E M . Agonistas colinérgi-
clos/s —ondas delta. cos aum entam a ocorrência de sono R E M .
O sono paradoxal (sono R E M ) caracteriza-se por D e acordo com a hipótese de H obson, na vigília, os
ondas beta e traçado dessincronizado. E semelhante ao sistemas noradrenérgico e serotoninérgico estão ativados
EEG da vigília. N o adulto jovem , corresponde a 25% do e inibem o sistema colinérgico da ponte. D urante o sono
tem po total de sono. Cada episódio dura de 5 a 20 m i­ não-R E M , os sistemas noradrenérgico e serotoninérgi­
nutos e repete-se a cada 90 minutos. co vão gradualm ente declinando, e a atividade colinér-
N a obnubilação da consciência ocorre alentecimento gica reciprocam ente cresce. N a fase R E M , os sistemas
do traçado, com predom ínio de ondas delta e teta. N o noradrenérgico e serotoninérgico estão inativados —em
coma, o traçado do EEG tende para a linha isoelétrica. N o função da ativação de neurônios gabaérgicos na ponte —,
estado hipnótico e na dissociação histérica, não há altera­ liberando assim o sistema colinérgico, que atinge a sua
ção no traçado do EEG. Nos estados crepusculares epi­ atividade máxima. Em suma, a consciência da vigília se­
lépticos, encontram -se descargas de caráter irritativo, es­ ria mediada pela N E e pela 5 -H T , e a consciência do
pecialmente nas regiões temporais. O sonambulismo e o sonho, pela acetilcolina.
pavor noturno ocorrem durante a fase não-R E M do sono. N o EEG de sono R E M são detectadas ondas pontia­
gudas, chamadas ondas P G O . Estas se originam na po n ­
te [P], em função da desinibição do sistema colinérgico,
O u tra s C aracterísticas do S ono R E M
propagam -se para o corpo geniculado [G] lateral do tála­
O sono R E M está relacionado à ocorrência de m ovi­ m o e chegam ao córtex visual (occipital [O ]). Essas on­
m entos oculares rápidos (R apid E ye M ovements ), perda do das P G O , periódicas e aleatórias, constituem os estím u­
tônus muscular, freqüências cardíaca e respiratória irre­ los básicos dos sonhos. Cabe a níveis cerebrais superiores
gulares, oscilações na pressão arterial sistêmica. a síntese das imagens aleatórias produzidas pelas ondas
E durante o sono R E M que ocorre a maioria dos so­ P G O , construindo assim um a narrativa seqüencial. P o r­
nhos. Com parados com os sonhos da fase não-R E M , os tanto, os sonhos nasceriam, ao nível do tronco cerebral,
da fase R E M são mais vívidos e mais bizarros, apresen­ sem qualquer significado.
tam um a m aior participação do sonhador e um a m aior Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET)
estruturação espacial, são mais facilmente lembrados e são dem onstram que, durante o sono P JíM , está aumentada
relatados com um núm ero m aior de palavras. a atividade no córtex visual extra-estriatal, nos gânglios
Estudos com pacientes com o cérebro dividido indi­ da base e nas regiões límbica e paralímbica, estando di­
cam que os sonhos da fase R E M estão relacionados ao m inuída a atividade no córtex visual estriatal (primário)
hemisfério direito, em bora a capacidade para expressá- e no córtex frontal. Já na vigília, o corpo estriado e o
los em palavras esteja relacionada ao hemisfério esquer­ córtex frontal estão ativados.
Consciência (Vigilância) 23

N os sonhos, a riqueza de imagens visuais seria expli­ de sistema colinérgico que ocorre nesse período seja de
cada pela ativação do córtex occipital; a grande intensi­ grande im portância para a consolidação da aprendiza­
dade das emoções, pela ativação das estruturas límbicas gem e da m em ória (de inform ações adquiridas durante
(incluindo a amígdala) e paralímbicas; a perda da crítica a vigília).
e a amnésia, pela dem odulação aminérgica e pela inati- Para C rick e M itchison, os sonhos seriam necessários
vação do córtex frontal; a bizarrice e incoerência, pela para o apagamento de informações erradas ou inúteis ar­
natureza caótica das ondas P G O . pela ausência de m oni­ mazenadas no cérebro. O sono R E M corresponde a 50%
toram ento do córtex frontal e pelo déficit de memória. do tem po total de sono no recém -nascido.

C o n testaçõ es à T eo ria da A C o n sciên cia, o C éreb ro e o


A tiv ação -sín tese M u n d o E x te rn o
Solms, estudando pacientes com lesões cerebrais, evi­ Os sonhos representam um estado de consciência re­
denciou que sonhos podem ocorrer mesmo se a ponte é lacionado à atividade cerebral intrínseca, não m odifi­
afetada. Acredita-se que outras estruturas, com o a amíg­ cada pela realidade. O cérebro, portanto, é capaz de
dala, o hipotálam o posterior ou o núcleo talâmico, p o ­ gerar consciência sem o m eio externo, a qual, todavia,
dem estar envolvidas na produção do sono R E M . é um a consciência parcial. Parece que a atividade m o ­
tora e a sensopercepção, que ligam o indivíduo à reali­
dade, são essenciais para que haja um a consciência ple­
O u tra s T eorias p a ra os S onhos na, para que possam ser testadas as hipóteses que o cé­
Em bora, durante o sono, a aquisição de novas infor­ re b ro form ula sobre o m u n d o ex tern o (Del N e ro ,
mações seja m uito deficiente, acredita-se que a ativação 1997).
CAPÍTULO

ATENÇÃO

IN T R O D U Ç Ã O A ten ção V o lu n tá ria /A te n ç ã o


E sp o n tâ n e a
D efin ição e C aracterísticas da
A atenção voluntária (ou ativa) está relacionada a um
A ten ção esforço intencional, consciente, por parte do indivíduo
Atenção é o processo através do qual a consciência é na direção do objeto. A atenção espontânea (ou passiva,
direcionada para determ inado estímulo (de origem ex­ involuntária) consiste num a reação automática, não-cons-
terna ou interna); determ inado objeto da consciência — ciente e não-intencional, do indivíduo aos estímulos, a
seja ele um a im agem perceptiva ou representativa, um qual é determinada basicamente pelas características des­
afeto ou um pensam ento —é selecionado, é focalizado, tes. P or exemplo, despertam mais a nossa atenção os es­
em detrim ento dos outros objetos; há um a concentração tímulos mais intensos, repentinos e inesperados.
da atividade m ental sobre um objeto. Os objetos da cons­
ciência focalizados pela atividade da atenção adquirem T e n a c id a d e /M o b ilid a d e da A ten ção
m aior clareza e nitidez.
Sem a capacidade de seleção exercida pela atenção, a Tenacidade (ou capacidade de concentração) é a ca­
quantidade de informações externas e internas (distratores) pacidade de m anter a atenção em determinado objeto por
q ue ch e g aria à nossa m e n te seria tão g ran d e que certo tem po. M obilidade da atenção é a capacidade de, a
inviabilizaria qualquer atividade psíquica. A atenção in­ qualquer m om ento, desviar-se a atenção de um objeto
terfere na sensopercepção e é de vital im portância para a para outro. Em geral, a mobilidade é chamada vigilância,
memória, tanto para a fixação de novas informações como que, porém , é um term o ruim , já que tam bém é usado
para a evocação de antigas. O interesse (vontade, afeto) com o significado de estado da consciência ou alerta.
influencia diretam ente a atenção. Tenacidade e m obilidade são qualidades opostas: se uma
A tenção e consciência são funções psíquicas m uito aumenta, a outra tende a dim inuir de intensidade.
próximas e conectadas, mas não são a mesma coisa. Se
não há lucidez de consciência, a atenção não pode fun­
cionar adequadam ente, mas a atenção pode estar altera­ A L T E R A Ç Õ E S Q U A N TITA TIV A S
da mesmo se o nível da consciência está normal. A aten­ N a prática, um aum ento global da atenção não é pos­
ção é um auxiliar da consciência, otimiza o rendim ento sível. Em bora tenacidade e mobilidade possam dim inuir
desta, fazendo com que os conteúdos mentais sejam mais ao mesmo tem po, não há situação em que ambas este­
eficientem ente processados. Além disso, a atenção é ne­ jam aumentadas. Assim, as alterações quantitativas da aten­
cessária para algo se tornar consciente. ção estão restritas à hipoprosexia e à aprosexia.
26 A ten çã o

H ip o p ro sex ia relação a delírios ou alucinações. Tam bém pode ocorrer


nas situações em que há estreitam ento da consciência,
H ipoprosexia consiste num a diminuição global da ati­
com o na hipnose e nos estados crepusculares histérico e
vidade da atenção, afetando tanto a tenacidade com o a
epiléptico.
m obilidade. H á um a rápida fatigabilidade associada ao
M uitos autores denom inam essa alteração de distração;
estorço para se concentrar, e ocorre um aum ento do li­
outros a chamam de absorção, pseudo-aprosexia ou, ain­
m iar de estimulação, isto é, são necessários estímulos mais
da, de estreitamento da atenção.
intensos para atrair a atenção do indivíduo.
Fisiologicamente, observa-se hipoprosexia nos estados
de fadiga, tédio e sonolência. Pode ocorrer em função L abilidade da A ten ção
de apatia ou falta de interesse, com o na esquizofrenia, na A labilidade da aten ção c o n stitu i u m estado de
depressão e na demência; pode ser secundária a um re­ hipotenacidade com hipermobilidade da atenção. O indi­
baixam ento da consciência, nos estados confusionais sim­ víduo é incapaz de m anter por algum tem po sua atenção
ples; e pode estar associada a um déficit intelectivo, no em um mesmo objeto. E a atenção espontânea que pre­
retardo m ental e na demência. domina.
O corre na mania; nas intoxicações por álcool, anfeta-
A prosexia m ina ou alucinógenos; nas síndromes ansiosas; nos trans­
tornos hipercinéticos da infância; nos estados confuso-
Aprosexia consiste na abolição da atenção. N o indi­ oniróides; em alguns indivíduos com retardo m ental ou
víduo norm al, ocorre durante o sono sem sonhos. E demência; e em pacientes que estão apresentando delíri­
encontrada nos estados de rebaixam ento da consciência os persecutórios.
m uito profundos, no coma, na dem ência avançada (ter­ Muitos autores denominam essa alteração de distraibili-
minal) e em alguns casos de estupor esquizofrênico ou dade, palavra que, porém, não existe na língua portuguesa.
depressivo.

O EXAM E DA ATENÇÃO
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS
As alterações qualitativas da atenção, que podem ser A O b serv ação da M ím ica e do
chamadas genericamente de paraprosexias ou disprosexias, C o m p o rta m e n to
ocorrem quando tenacidade e mobilidade se desviam em
A expressão fisionômica do paciente no contato com
sentidos opostos.
o exam inador já fornece elementos para a avaliação do
estado da atenção. E im portante a observação do olhar
R ig id e z da A ten ção do paciente: se ele se m antém sobre o examinador, se é
constantem ente desviado. Muitas vezes, o olhar parece
A rigidez da atenção constitui um estado de hiperte-
perdido e transpassa o examinador: o paciente olha na di­
nacidade com hipom obilidade da atenção. D urante um
reção deste, mas dá a impressão de não o estar vendo.
longo tem po, o indivíduo está concentrado em um úni­
A necessidade de estímulos cada vez mais enérgicos
co objeto e não é capaz de desviar sua atenção. H á uma
para despertar ou m anter a atenção do paciente indica uma
exacerbação ou da atenção voluntária, ou da espontânea.
fatigabilidade da atenção.
Caracteriza um estado de ensimesmamento, no caso de
a atenção estar dirigida, exclusivamente, a u m objeto
interno. A E n trev ista P siq u iá tric a
A rigidez da atenção ocorre no indivíduo norm al que, A dem ora nas respostas (ou ausência destas), a neces­
p or exemplo, está lendo um livro que considera m uito sidade de repetir as perguntas e a ocorrência de respostas
interessante e não registra nada do que ocorre ao seu re­ inadequadas, parciais ou perseverantes sugerem u m pre­
dor. Pode estar relacionada ao que Pérez Villamil cha­ juízo na atenção.
m ou de despolarização da atenção. A atenção se volta ex­
clusivamente para determ inada vivência interna. E o que
acontece na depressão, em relação a pensamentos e re­
T estagem
cordações dolorosas; no transtorno obsessivo-compulsi- Para haver um a m aior validade na interpretação dos
vo, em relação às idéias recorrentes; na hipocondria, em testes, é preciso considerar a presença de alguns elem en­
relação às sensações corporais; e no esquizofrênico, em tos que podem com prom eter seus resultados: cansaço,
A tenção 27

falta de m otivação e ansiedade (especialmente se relacio­ Delirium


nada ao desem penho no exame).
A capacidade de concentração no delirium está sempre
O teste mais simples consiste em solicitar ao paciente
dim inuída. N os estados confusionais simples, a m obili­
que observe os objetos presentes no local do exame e,
dade ta m b ém d im in u i, m as, nos estados co n fu so -
depois, os liste de m em ória.
oniróides, está aumentada.
• Testes de repetição —Solicita-se que o paciente repita
de imediato um a lista de palavras (em geral 3) ou um a
D e m ê n c ia
série de dígitos (começa-se com 4 dígitos, e aum enta-
se progressivam ente a quantidade: o adulto norm al A capacidade de concentração na dem ência está espe­
repete de 6 a 7 dígitos). N ão se trata de testes de m e­ cialmente com prom etida, ocorre rápida fatigabilidade. Já
mória, já que pacientes com acentuada hipom nesia de a m obilidade da atenção pode estar tam bém dim inuída,
fixação costum am repetir corretam ente as palavras ou ou então exacerbada.
dígitos. A m em ória imediata na verdade reflete a ati­
vidade da atenção. R e ta rd o M ental
• Prova de B ourdon —Oferece-se ao paciente um a folha
N os casos de retardo mental, há hipoprosexia (oligo-
em que está impresso um conjunto de letras reunidas
frenia apática); ou labilidade da atenção (.oligofrenia erética).
aleatoriamente, que não formam palavras, e pede-se que
ele marque todas as letras a e n. Após 10 minutos, são
contadas as letras a e n que escaparam do risco. In to x icação p o r A n fetam in a,
• O utros testes —Subtrações sucessivas de 7 a partir de C o caín a o u A lu cin ó g en o s
100; soletrar a palavra m undo na ordem inversa; listar
Essas substâncias tipicam ente levam a um estado de la­
os meses do ano de trás para a frente.
bilidade da atenção, devido ao aum ento da excitação
psíquica.
A A T E N Ç Ã O N O S P R IN C IP A IS r

T R A N S T O R N O S M E N T A IS In to x icação p o r A lcool
O álcool inicialm ente provoca labilidade da atenção,
M ania mas, com o aum ento do seu nível plasmático, ocorre
N a m ania, tip ic am en te há h ip erm o b ilid ad e com hipoprosexia e aprosexia.
hipotenacidade da atenção.
T ra n sto rn o s de A nsiedade
D epressão A ansiedade provoca dificuldade de concentração e au­
N a depressão, ocorre hipoprosexia, em função de um a m ento da atenção espontânea.
falta de interesse generalizada; ou então rigidez da aten­
ção, quando a m ente se concentra em algumas idéias de T ra n sto rn o s D issociativos
conteúdo penoso.
N os estados crepusculares histéricos, observa-se rigi­
dez da atenção.
E sq u izo fren ia
Observa-se que os esquizofrênicos apresentam geral­ E pilepsia
m ente um a dificuldade de concentração, pois são facil­ N os estados crepusculares epilépticos, observa-se tam ­
m ente distraídos por estímulos irrelevantes. A atenção do bém rigidez da atenção.
esquizofrênico algumas vezes está globalmente dim inuí­
da, em função de apatia e desinteresse, nos casos em que
predom inam os sintomas negativos. N o estupor do sub-
T ra n sto rn o H ip e rc in é tico
tipo catatônico pode haver aprosexia. E m síndrom es N o transtorno hipercinético da infância, oco rrem
alucinatórias, pode ocorrer tanto rigidez com o labilida- hipotenacidade e hiperm obilidade da atenção. Além do
de da atenção. Nos casos em que há delírios de persegui­ distúrbio da atenção, há impulsividade e hiperatividade.
ção e intensa ansiedade, a atenção espontânea costuma Esse distúrbio é mais prevalente entre m eninos, e entre
se intensificar. os 3 e os 10 anos de idade.
28 A tenção

córtex frontal é ativado, especialmente quando o estímulo


C O N T R IB U IÇ Õ E S DA
selecionado leva a uma resposta motora.
PSIC A N Á L ISE
A ten ção e C o n sciên cia C ó rte x P a rie ta l P o ste rio r
Freud falou pouco sobre a atenção, mas, em A inter­ O córtex parietal posterior integra as informações das
pretação dos sonhos e em O inconsciente, ele relacionou a áreas (parietais) somáticas prim ária e secundária com as
atividade da atenção com a consciência. Segundo o pai dos sistemas visual e auditivo. Parece ter o papel de foca­
da psicanálise, para que determ inada representação saia do lizar a atenção no espaço extrapessoal. Pacientes que apre­
sistema inconsciente e atinja o sistema consciente/pré- sentam lesão nessa área passam a ignorar os estímulos lo­
consciente, é necessário que ela se ligue a um a represen­ calizados no campo sensorial contralateral. O hemisfério
tação de palavra (catéxia verbal). Mas, para ela passar do direito dirige a atenção tanto para o campo visual esquer­
pré-consciente para a consciência, precisa ainda se ligar a do com o para o direito, enquanto o hemisfério esquer­
um a catéxia de atenção. A atenção está relacionada a uma do só controla a atenção para o campo visual direito.
energia psíquica m óvel que o ego tem à sua disposição. E m estudos de EEG ao nível celular, com animais, ob­
servou-se um aum ento da atividade neuronal, no córtex
parietal posterior, quando eram apresentados objetos bio­
A A ten ção n o Projeto logicam ente significativos, com o água, se tinham sede,
N o Projeto para uma psicologia científica (1895), um tra­ ou comida, se estavam com fome; e um a dim inuição da
balho na verdade pré-psicanalítico, a atenção é relacio­ atividade, quando diante de objetos neutros. Estudos de
nada ao teste de realidade e à satisfação pulsional. D e neuroim agem com PE T m ostraram que, quando um a
acordo com esse texto, a atenção procura ativam ente as pessoa desvia sua atenção no campo visual, o córtex pa­
impressões sensoriais, ao invés de ficar esperando o seu rietal posterior é ativado.
aparecim ento. O que o mecanismo da atenção faz é au­
m entar a catéxia (energia psíquica) da representação (re­
T á la m o
cordação) do objeto desejado —o objeto que um dia já
satisfez um a necessidade pulsional. Essa pré-catéxia cria O tálamo, especialmente o núcleo reticular, parece ter
u m estado psíquico de expectativa. Q uando, mais tarde, a função de regular a transmissão de estímulos nervosos que
o mesmo objeto reaparece no campo perceptual, a sua ascendem para o córtex, funcionando com o um a válvula.
imagem perceptiva fica intensam ente energizada, pois, à
catéxia referente a essa imagem, somar-se-á a pré-catéxia
D o p a m in a
da im agem representativa do objeto. C onseqüentem en­
te será m aior a indicação de qualidade, isto é, a indicação Lesões do núcleo dopam inérgico A 10, localizado na
de que o objeto é real e não apenas uma alucinação. formação reticular, levam a um com prom etim ento da
atenção relacionada aos estímulos ambientais, o que é
corrigido com a injeção de D O P A , um precursor da
C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS dopamina. Por outro lado, substâncias que aum entam a
atividade dopam inérgica, com o cocaína e anfetamina,
N E U R O C IÊ N C IA S E DA
provocam um a exacerbação da atenção espontânea.
P S IC O L O G IA C O G N IT IV A
C ó rte x F ro n tal M o d elo da C iên cia C ognitiva
O córtex frontal parece estar relacionado à capacidade D e acordo com uma teoria cognitiva, a consciência for­
de concentração e de seleção de estímulos. Indivíduos com mula constantemente hipóteses sobre o m undo exterior, as
lesões cerebrais frontais —demência de Pick, traumatismos, quais a atenção, através da sensopercepção e da ação m oto­
lobotomia, esquizofrenia —apresentam tendência à fatiga- ra, precisa confirmar ou refutar. O córtex cria expectativas
bilidade da atenção. Estudos de eletroencefalografia (EEG) e emite disparos de ondas eletroquímicas, que são transmi­
registram, no córtex frontal, ondas de expectativa, que são tidas ao tálamo e ao hipocampo. Q uando chegam à região
potenciais lentos, quando o indivíduo está realizando um subcortical informações do m undo externo com caracte­
esforço intelectual. Estudos de neuroimagem com tom o- rísticas eletroquímicas semelhantes, ocorre uma sincroniza­
grafia com emissão de pósitrons (PET) mostraram que, ção. Essa sincronização irá então propiciar uma maior niti­
quando uma pessoa desvia sua atenção no campo visual, o dez e clareza da imagem do objeto na consciência.
CAPÍTULO

SEN SO PERC EPÇ ÃO

IN TRO D U ÇÃ O D istin ção S e n sa ç ã o /P e rc e p ç ã o


A sensopercepção constitui a prim eira etapa da cog­ A distinção entre sensação e percepção é artificial. Não
nição, ou seja, do conhecim ento do m undo externo. Este chegam à consciência sensações parciais, apenas configu­
se refere aos objetos reais, isto é, àqueles que estão fora rações globais, totalidades estruturadas. A percepção não
de nossa consciência. é m eram ente um a soma de sensações parciais.

Sensação C lassificação das Q u alid ad es


S ensoriais
A sensação é um fenôm eno passivo, físico, periféri­
co e objetivo (AIonso-Fernández, 1976), que resulta das — Exteroceptivas: visuais, auditivas, gustativas, olfativas,
alterações produzidas p o r estímulos externos sobre os cutâneas (táteis, térmicas, dolorosas).
órgãos sensoriais. Através da sensação, podem os distin­ — Interoceptivas (ou cenestésicas): bem -estar, mal-estar,
guir as qualidades mais elem entares dos objetos: cor, fome, sede, sensibilidade visceral.
forma, peso, tem peratura, consistência, textura, tim bre, — Proprioceptivas: cinestésicas (movimentos corporais),
sabor, etc. posição segmentar do corpo, equilíbrio, barestesia (sen­
sibilidade à pressão), palestesia (sensibilidade para vi­
P ercep ção brações).

A percepção é um fenôm eno ativo, psíquico, central


e subjetivo (AIonso-Fernández, 1976). E um fenôm eno Im a g e m P e rc e p tiv a /Im a g e m
consciente, que resulta da integração das impressões sen­ R ep resen tativ a
soriais parciais e da associação destas às representações.
D e acordo com Jaspers, são as seguintes as caracterís­
A percepção está relacionada à identificação, reconhe­
ticas da im agem perceptiva:
cim ento e discriminação dos objetos. E o que dá signifi­
cação às sensações. — C orporeidade —os objetos são tridimensionais.
— Extrojeção —os objetos estão localizados no espaço ob­
jetivo externo, isto é, fora da consciência.
E xem p lo s — N itidez —os contornos dos objetos são precisos.
— Sensações: formas e cores em um a fotografia. — Frescor sensorial —a percepção é vívida. P or exem ­
— Percepções: um quadro-negro, carteiras, crianças uni­ plo: as cores são brilhantes.
formizadas (sentadas) e um a senhora de pé (apontan­ — Estabilidade —a im agem é constante, nào desaparece
do para o quadro). nem se modifica de um a hora para outra.
— Apreensão: um a aula. — Ausência de influência pela vontade — a im agem é
30 Sensopercepção

aceita passivam ente pelo indivíduo, que não pode H ip o estesia


evocá-la nem modificá-la arbitrariamente.
A hipoestesia (ou hipopercepção) consiste num a di­
Para Jaspers, as representações podem apresentar to ­ m inuição global da intensidade perceptiva. O m undo
das as características das percepções, exceto a corporeidade parece mais escuro e sem brilho, a com ida é insossa, os
e a extrojeção. Tipicam ente são estas as características da sons são abafados, etc. Observa-se principalm ente em
im agem representativa (ou mnêmica): quadros estuporosos, sejam relacionados a depressão, es­
— Ausência de corporeidade —a im agem é bidim ensio­ quizofrenia ou delirium.
nal.
— Introjeção —o objeto está localizado no espaço subje­
A nestesia
tivo interno, isto é, na m ente.
— Imprecisão. A anestesia consiste num a abolição da sensibilidade. E
— Falta de frescor sensorial. encontrada nas mesmas situações que a hipoestesia, e ainda
— Instabilidade. em quadros conversivos (amaurose ou surdez histérica,
— Possibilidade de influência pela vontade. anestesias em bota ou em luva), na intoxicação alcoólica,
no coma.

A L T E R A Ç Õ E S Q U A N TITA TIV A S A lu cin ação N egativa


A gnosia A alucinação negativa é definida com o um a aparente
ausência de registro sensorial de determ inado objeto pre­
O term o agnosia foi criado por Sigm und Freud.
sente no campo sensorial do paciente; com o, por exem ­
A agnosia constitui u m distúrbio do reconhecim ento
plo, não ver uma pessoa que está diante de seus olhos.
de estímulos visuais, auditivos ou táteis, na ausência de
P or definição, os órgãos sensoriais estão íntegros. Esse
déficits sensoriais. As sensações continuam a ocorrer n o r­
fenôm eno está relacionado a um mecanismo psicogêni-
m alm ente, porém não são associadas às representações e,
co, sendo observado em quadros conversivos.
assim, não se tornam significativas. Em outras palavras,
há u m com prom etim ento específico do ato perceptivo.
N a agnosia visual, o doente é capaz de descrever a cor M acropsia
e a forma de um objeto, mas não o identifica. Ele não
N a macropsia, os objetos parecem ao paciente aum en­
consegue dizer, p or exemplo, que se trata de um guar­
da-chuva, nem dizer para que ele serve. tados de tam anho.
Esse distúrbio está relacionado a lesões em áreas asso­
ciativas corticais. M icropsia
N a micropsia, os objetos parecem menores do que re­
H ip erestesia almente são.
A hiperestesia (ou hiperpercepção) consiste num au­
m ento global da intensidade perceptiva: as impressões D ism eg alo p sia
sensoriais tornam -se mais intensas, mais vívidas ou mais
N a dismegalopsia, os objetos parecem deformados, al­
nítidas. N a modalidade visual, as cores ficam mais bri­
gumas partes estão aumentadas ou diminuídas.
lhantes.
A d ism eg alo p sia, assim co m o a m a c ro p s ia e a
E observada na mania; na intoxicação p o r anfetami-
micropsia, ocorre mais freqüentem ente em quadros de
na, cocaína, m aconha e alucinógenos (LSD, mescalina.
delirium, na epilepsia temporal, na esquizofrenia e na in­
etc.); em algumas crises epilépticas; em quadros dissoci-
toxicação por alucinógenos.
ativos; no hipertireoidism o.
A lternativam ente, a hiperestesia pode ser definida
com o um a hipersensibilidade a estímulos sensoriais co­
m uns, que, patologicam ente, se tornam desagradáveis.
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS
Nesse caso, p or exemplo, ruídos de pequena intensidade
Ilusão
tornam -se extrem am ente incóm odos. Isso pode ocorrer
na depressão, em estados de ansiedade, na enxaqueca e O term o ilusão vem do latim, iUnsionem, que significa
na ressaca pós-intoxicação alcoólica. engano, fantasia, miragem, logro, ludibrio.
Sensopercepção 31

Trata-se de um a percepção falseada, deformada, de um representativa, com o a possibilidade de influenciam ento


objeto real e presente. A deturpação da im agem percep- voluntário.
tiva se dá em função da mescla desta com um a im agem
representativa.
A im agem ilusória possui corporeidade, projeta-se no
A lu cin ação
espaço exterior, é aceita (pelo m enos n u m prim eiro O term o alucinação tem origem no latim, alucinare, que
m om ento) com o realidade e não é influenciada pela von­ significa dementado, enlouquecido, privado da razão.
tade (Cabaleiro Goas, 1966). Pode ocorrer não só em A alucinação é classicamente definida com o “percep­
doentes mentais, mas tam bém em pessoas normais. As ilu­ ção sem objeto” (Bali), ou com o um a percepção na au­
sões são assim classificadas: p o r desatenção, catatímicas e sência dos estím ulos externos correspondentes. Para
oníricas. Cabaleiro Goas (1966), essa definição é bastante incom ­
N a ilusão p o r desatenção, elementos representativos pleta e contraditória em si mesma. H á outras definições,
são introduzidos para com pletar ou corrigir estímulos com o “interpretar-se com o estando no campo percep-
externos escassos ou incorretos, respectivamente. E o que tual um objeto que de fato não está” (Del N ero, 1997).
ocorre quando, sem nos darmos conta, completamos um a As alucinações não se originam de transformações de
frase ouvida apenas de forma fragmentária, ou corrigi­ percepções reais, o que as distinguem das ilusões. T oda­
mos as falhas de impressão na leitura de um livro. Q uan­ via a distinção teórica entre alucinações e ilusões não é
do se presta mais atenção, num segundo m om ento, a ilu­ tão simples, já que, em condições naturais, os órgãos sen­
são desaparece. Esse tipo de ilusão é bastante estudado soriais recebem o tem po todo estímulos externos. A aten­
pela psicologia de gestalt. ção não rem ove as alucinações, ao contrário do que acon­
N a ilusão catatím ica, a deform ação do objeto tem tece com as ilusões p o r desatenção e catatímicas. As alu­
origem em um afeto intenso, relacionado a desejo ou a cinações ocorrem simultânea e paralelamente às percep­
tem or. U m exemplo seria o de, à noite, passando por um ções reais, diferentem ente das imagens do sonho.
lugar sabidam ente perigoso, confundir-se um a árvore As alucinações podem levar secundariam ente ao de­
com a figura de um assaltante. Essa forma de ilusão tam ­ senvolvim ento de idéias deliróides, criadas com o uma
bém desaparece com a atenção. explicação para aquelas. Existem três espécies de vivên­
A ilusão onírica está relacionada a u m quadro de re­ cias alucinatórias: as alucinações verdadeiras, as pseudo-
baixam ento do nível de consciência. N o delirium, as ilu­ alucinações e as alucinoses.
sões são predom inantem ente visuais e se associam, com
freqüência, a fenôm enos alucinatórios.
A lucinações V erdadeiras
As alucinações verdadeiras apresentam todas as carac­
P areid o lia terísticas de um a im agem perceptiva real, incluindo a
O term o pareidolia vem do grego para (ao lado) + ei­ corporeidade e a localização no espaço objetivo exter­
dos (figura). no. Possuem um a irresistível força de convencim ento, ou
Esse fenôm eno consiste num a im agem (fantástica e seja, são aceitas pelo juízo de realidade, por mais que
extrojetada) criada intencionalm ente a partir de percep­ pareçam para o próprio paciente estranhas ou especiais.
ções reais de elementos sensoriais incompletos ou impreci­ Parajaspers (1987), só ocorrem sob lucidez de consciên­
sos. .Por exemplo: ver figuras humanas, cenas, animais, cia, o que as torna pouco comuns.
objetos, etc., em nuvens, em manchas ou relevos de pa­
redes, no fogo, na Lua, etc.; ou “ouvir” sons musicais com
P seu d o -a lu c in a ç õ e s
base em ruídos m onótonos. Nesses casos, o objeto real
passa para um segundo plano. As pseudo-alucinações foram descritas prim eiram en­
A pareidolia não é patológica; ocorre em pessoas nor­ te pelo psiquiatra russo Kandinski. São tam bém chama­
mais. Trata-se de um fenôm eno bastante relacionado à das de alucinações psíquicas (Baillarger) e de alucinações
atividade imaginativa. aperceptivas (Kahlbaum).
Apesar de a pareidolia ser incluída por diversos auto­ Diferenciam-se das alucinações verdadeiras pela ausên­
res, com o Jaspers, entre as formas de ilusão, diferencia- cia de corporeidade e localização no espaço subjetivo
se desta pelo fato de o indivíduo estar todo o tem po cons­ interno. Q uanto aos demais aspectos (nitidez/im preci-
ciente da irrealidade da im agem e de sua influência sobre são, presença ou ausência de frescor sensorial, constân­
esta. Exceto p o r ser projetada para o espaço objetivo cia/instabilidade e possibilidade ou impossibilidade de
externo, a pareidolia possui as características da im agem influenciam ento pela vontade), podem se parecer tanto
32 Sensopercepção

com a im agem perceptiva quanto com a im agem repre­ As alucinações auditivas são consideradas as mais comuns.
sentativa. Assim com o nas alucinações verdadeiras, há Elas podem ser elementares, sendo chamadas de acoasmas:
plena convicção quanto à realidade do fenôm eno. zumbidos, estalidos, silvos, sinos, campainhas. P odem ser
Só foram descritas pseudo-alucinações nas modalidades ainda complexas, chamadas de fonemas: palavras, frases
visual e auditiva. Os pacientes percebem com os “olhos (alucinações auditivo-verbais). As alucinações musicais
(ou ouvidos) internos” , com o term o interno referindo-se tam bém deveriam ser incluídas entre as complexas.
a dentro da mente (e não dentro do corpo ou da cabeça). Entre as alucinações auditivas, as auditivo-verbais são
As pseudo-alucinações parecem ser especialmente fre­ as mais com uns. As vozes p o d em ser b em claras ou
qüentes na esquizofrenia. ininteligíveis para o paciente; podem dirigir-se diretamen­
O co nceito de pseudo-alucinações, no entanto, é te ao paciente, ou dialogar entre si, referindo-se a ele na
pouco usado pelos psiquiatras; além disso, não é consen­ terceira pessoa. Elas podem ofender, criticar, ameaçar o
sual entre os psicopatologistas (é usado com outros sig­ paciente ou dar-lhe ordens.
nificados, como, por exemplo, referindo-se a alucinações Alucinações auditivas são especialmente comuns na esqui­
factícias em simuladores); e, com o todo conceito defini­ zofrenia e na alucinose alcoólica, podendo ser encontradas
do negativam ente (“pseudo”), é fraco, pois depende da também em psicoses afetivas e em outros quadros psicóticos.
validade e fidedignidade de outro conceito (no caso, do Alucinações olfativas egustativas são raras e, em geral, estão
conceito da alucinação). associadas, podendo ser difícil, na prática, a distinção entre
elas. Nas maioria das vezes, o paciente experim enta um
A lucinoses odor ou gosto bastante desagradável, com o de fezes, lixo,
animais m ortos, veneno, etc. Essas alucinações podem
Assim com o nas alucinações verdadeiras, nas alucinoses
estar relacionadas a um a recusa sistemática de alimentos
o objeto percebido encontra-se no espaço objetivo ex­
(sitiofobia). Parecem ser mais comuns na esquizofrenia e
terno. Mas, segundo Claude e Ey, diferenciam-se das alu­
em crises parciais epilépticas.
cinações verdadeiras por serem adequada e imediatamente
Entre as alucinações cutâneas estão incluídas, além das sen­
criticadas pelo indivíduo, que reconhece o fenôm eno
sações táteis (de toque), sensações térmicas, dolorosas e hí­
com o algo patológico.
dricas (de umidade). Os pacientes queixam-se de queima­
As alucinoses ocorrem sob lucidez de consciência. São
duras, espetadas, choques, ou de que pequenos animais (em
tam bém chamadas alucinações neurológicas, já. que estão re­
lacionadas a distúrbios de origem orgânica: são observa­ geral insetos) m ovem -se sobre ou sob a sua pele. As aluci­
das em lesões do pedúnculo cerebral, do tronco cerebral, nações cutâneas ocorrem com especial freqüência no deli­
occipitais e temporais; em intoxicações por alucinóge­ rium tremens e na intoxicação por cocaína ou anfetamina.
nos (LSD, mescalina); na estimulação elétrica cortical em Nas alucinações cenestésicas (ou viscerais), as sensações são
neurocirurgias; em focos epilépticos; e no fenôm eno do localizadas nos órgãos internos. Os pacientes queixam -
membro fantasma em amputados. se de que seus corpos estão sendo atingidos p o r misteri­
O mesmo term o alucinose é usado com significado bem osas irradiações ou descargas elétricas; de que seus órgãos
diverso. Foi introduzido p o r W ernicke para designar genitais estão sendo tocados —experim entam o orgasmo
delírios alucinatórios agudos e crônicos. U m exemplo desse ou sentem -se violentados —; de que o cérebro está enco­
tipo de condição é a categoria nosológica alucinose alcoó­ lhendo, o fígado está destruído, há u m bicho dentro do
lica, na qual, em geral, não há crítica em relação às vi­ abdôm en. Essas alucinações são com uns na esquizofre­
vências alucinatórias. nia e, com freqüência, estão associadas a delírios de in­
fluência e à síndrom e de Cotard.
Alucinações cinestésicas são falsas percepções de m ovi­
As V ivências A lu cin ató rias nas
m ento, ativos ou passivos, de todo o corpo ou só de um
D iversas M od alid ad es Sensoriais segmento. Apesar de estar na verdade imóvel, o paciente
As alucinações visuais podem ser elementares (ou sim­ tem a sensação de que está afundando no leito, girando,
ples), quando contêm elementos de um a única forma de voando, dobrando as pernas, elevando um braço, etc.
sensação, sendo então denom inadas fotopsias: clarões, U m a forma especial de alucinações cinestésicas são as alu­
chamas, pontos brilhantes. P odem ser tam bém com ple­ cinações psicomotoras verbais: em bora calado, o paciente
xas (ou elaboradas): figuras, objetos, pessoas, cenas está­ sente os m úsculos do aparelho fonador anim ados de
ticas ou em m ovim ento. As alucinações visuais são típi­ m ovim ento, dando-lhe a impressão de que alguém está
cas dos quadros de delirium e na intoxicação por alucinó­ falando p o r ele. As alucinações cinestésicas podem ser
genos (LSD, mescalina, etc.), sendo incom uns na esqui­ encontradas na esquizofrenia catatônica, no delirium
zofrenia e nas psicoses afetivas. tremens e em outros quadros de etiologia orgânica.
Sensopercepção 33

A lg u m as F o rm a s E speciais de O E X A M E DA S E N S O P E R C E P Ç Ã O
V ivências A lu cin ató rias
A E n trev ista P siq u iá tric a
A alucinação liliputiana consiste na visão de personagens
ou animais minúsculos. Está relacionada à intoxicação por Perguntas diretas ao paciente quanto a ouvir vozes ou
cocaína. A alucinação guliveriana representa um a alucina­ ter visões têm valor limitado. O paciente pode responder
ção visual gigantesca. O corre em quadros de delirium. afirmativamente, p o r não com preender bem a pergunta,
N a alucinação extracampina, o objeto percebido encon­ acreditando que esta se refere a vozes ou visões reais do
tra-se fora do campo perceptivo. P o r exemplo: ver um a am biente, que todos ouvem ou vêem. U m indivíduo
pessoa que está atrás de sua cabeça ou do outro lado da norm al pode ter o interesse em se passar p o r doente
parede; ouvir o que falam a 1 km de distância. Essa for­ m ental —para obter benefícios previdenciários ou se exi­
ma de alucinação ocorre na esquizofrenia e em algumas m ir de responsabilidade penal —, e assim dar um a respos­
psicoses de origem orgânica. ta m entirosa. Além disso, doentes que estão experim en­
A alucinaçãofuncional, por definição, é desencadeada por tando alucinações podem negar a presença delas por di­
estímulos sensoriais reais, que são da mesma m odalida­ versas razões: para receber alta hospitalar, em função de
de. P or exemplo: o paciente, ao ouvir o som de um jo r­ um a proibição nesse sentido p o r parte das vozes, etc.
ro de água, apresenta alucinações auditivo-verbais, as quais Assim, é m uita mais fidedigna a observação do com por­
desaparecem assim que a torneira é fechada. N ão se trata tam ento do paciente.
de ilusão, já que as vozes e o correr da água são ouvidos
simultânea e distintamente.
A O b serv ação do C o m p o rta m e n to
N a sonorização do pensamento, o paciente ouve o pró­
prio pensam ento, reconhecido com o tal, no espaço ob­
do P acien te
jetiv o externo. Esse fenôm eno pode se dar antes, no São indícios de atividade alucinatória:
m om ento ou depois do ato de pensar (só neste últim o
- Atenção com prom etida (o paciente parece estar pres­
caso caberia o term o eco do pensamento). A sonorização
tando atenção em outra coisa que não as perguntas do
do pensam ento ocorre na esquizofrenia.
examinador); mudanças súbitas da posição da cabeça;
A autoscopia (ou heautoscopia) consiste na visão da ima­
fisionom ia de terror ou de beatitude; proteção dos
gem do próprio corpo projetada no espaço externo. Em
ouvidos, olhos, narinas ou órgãos genitais com as mãos,
geral, essa experiência se acompanha de sofrimento ou medo.
algodão ou outro material.
Ocorre na esquizofrenia, na epilepsia do lobo temporal, no
— Solilóquio, mussitação, para-respostas, risos im otiva-
delirium e na intoxicação por alucinógenos (psicodislépticos).
dos (alucinações auditivas).
As alucinações hipnagógica e hipnopômpica são em geral
- O olhar fixo em determinada direção, desvios súbitos do
visuais, mas tam bém podem ser auditivas ou táteis. Estão
olhar, movimentos defensivos com as mãos (visuais).
relacionadas à transição sono—vigília: a prim eira ocorre
— A recusa sistemática de alimentos (gustativas e olfati­
no m om ento em que se está adorm ecendo; a segunda,
vas).
no despertar. O indivíduo m antém a crítica quanto à ir­
— M ovim entos das mãos com o que afastando algo da su­
realidade das imagens, as quais possuem mais caracterís­
perfície do corpo (cutâneas).
ticas das representações do que das percepções. Essas alu­
- Peças metálicas ou outros dispositivos ju n to à indu­
cinações ocorrem em pessoas normais e na narcolepsia.
mentária, para deter irradiações ou descargas elétricas
N a alucinação reflexa, u m estímulo sensorial real em uma no corpo (cenestésicas).
m odalidade desencadeia um a alucinação em outra. U m
exemplo fornecido p or Kahlbaum é o de um paciente
que, ao ouvir o m iado de u m gato que estava fora do seu A SENSO PERCEPÇÃ O NOS
campo visual, im ediatam ente viu a cara do gato.
P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S
M E N T A IS
Sinestesia
N a sinestesia, u m estímulo sensorial em um a modali­
E sq u izo fren ia
dade é percebido com o um a sensação em outra m odali­ A esquizofrenia apresenta grande riqueza alucinatória,
dade (Sims, 2001). P or exemplo: iw sons, ouvir cores, etc. especialmente na forma paranóide. Predom inam as alu­
Isso o co rre na in to x icação p o r alucinógenos (LSD, cinações cenestésicas e auditivas. As visuais são raras. As
mescalina, etc.). pseudo-alucinações parecem ser mais freqüentes que as
34 Sm sopercepçâo

alucinações verdadeiras, mas, na prática, a distinção pode T ra n sto rn o D isso ciativ o /C o n v ersiv o
ser difícil.
A sonorização do pensam ento, vozes que dialogam N a histeria de conversão, podem ocorrer hipereste-
entre si, vozes que tecem comentários sobre o com por­ sia, anestesia e alucinações negativas.
tam ento do doente e sensações corporais (cenestésicas)
impostas foram os sintomas sensoperceptivos incluídos por
K. Schneider entre os de prim eira ordem para o diag­ C O N T R IB U IÇ Õ E S DA
nóstico de esquizofrenia. PSIC A N Á L ISE
Os quadros apático-abúlicos cursam com hipoestesia.
A A lu cin ação c o m o
T ra n sto rn o s do H u m o r R ealização de D esejo
N os transtornos do hum or podem ocorrer hipereste- Para Freud, a alucinação constitui o prim eiro m eca­
sia (na mania) ou hipoestesia (na depressão) e ilusões nismo de realização de desejo do recém -nascido —a cri­
catatímicas. N os quadros afetivos com sintomas psicóti­ ança alucina o seio da mãe quando tem fome, revivenci-
cos, as alucinações auditivas são as mais freqüentes. ando a experiência de satisfação anterior com o seio real
—, seguindo assim o princípio do prazer. Mais tarde, com
a inibição desse mecanismo, que se mostra pouco eficaz,
Delirium podem se desenvolver a fantasia e o pensamento.
N o delirium predom inam as ilusões e alucinações vi­
suais, sendo difícil, na prática, diferenciar umas das ou­ R ejeição
tras. Alucinações auditivas e táteis não são raras. N a con-
ceituação de Jaspers, seriam na verdade pseudo-alucina- O m ecanismo de defesa conhecido com o rejeição ou
ções, em função da perda da lucidez de consciência. Pode repúdio (f ordusion , em francês) ocorre no esquizofrêni­
haver hipoestesia, micropsia, macropsia e dismegalopsia. co. Este retira a libido dos objetos e a reinveste no p ró ­
N o delirium tremens, são com uns as zoopsias (visões de prio ego. Mais tarde tenta investi-la novam ente nos ob­
pequenos animais) e as alucinações liliputianas, além de jetos, mas o faz de forma patológica: os objetos internos
alucinações táteis. que foram rejeitados retornam com o se estivessem vin­
do do m undo externo —não são mais reconhecidos como
pertencentes ao self —, sendo assim formadas as alucina­
A lucinose A lcoólica ções.
N a alucinose alcoólica, predom inam as alucinações au­
ditivas, que possuem as características de um a alucinação
verdadeira, e não de alucinose. C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
N E U R O C IÊ N C IA S E D A
In to x icação p o r A lu cin ó g en o s P S IC O L O G IA C O G N IT IV A
D urante o uso de mescalina, LSD, etc., ocorrem hi-
A P ercep ção N o rm a l
perestesia, micropsia, macropsia e sinestesia. As alucina­
ções são basicamente visuais, com um conteúdo muitas A especificidade é um a característica dos receptores
vezes de fornias geométricas. Essas vivências alucinatórias sensoriais. Cada receptor, que está em contato com o
poderiam ser classificadas com o alucinoses, em função da m undo externo, é sensível apenas a um tipo de energia:
preservação da crítica. luminosa, mecânica, térmica ou química. P or exemplo,
os receptores sensoriais auditivos não captam informações
sensoriais visuais.
E pilepsia Todas as formas de energia que chegam ao receptor
Nas crises parciais, com o na aura epiléptica, podem são convertidas em energia eletroquím ica (potenciais de
ocorrer alucinoses. ação). Isso é o que se chama de transdução do estímulo.
Após a transdução do estímulo ocorre a codificação
neural: o padrão de descargas dos potenciais de ação re­
D e m ê n c ia presenta a inform ação do estím ulo. Q u a n to m aior a
A dem ência cortical pode cursar com agnosia. intensidade do estímulo, maiores a freqüência de descar­
Sensopercepçao 35

ga e o núm ero de receptores ativados. A m odalidade da A lucinações e P riv ação S ensorial


informação (visual, tátil, etc.) está relacionada à especifi­
cidade do receptor. A duração, por sua vez, está relacio­ A privação sensorial experim ental em animais leva a
nada ao tem po necessário para haver adaptação dos re­ distúrbios neuronais. E m estudos com seres hum anos
ceptores, que ocorre quando o estímulo é constante. Já a normais, a privação sensorial levou à produção de fenô­
localização do estímulo está representada nos mapas neu- m enos alucinatórios, que, porém , eram bem diferentes
rais corticais, que m antêm a mesma organização espacial dos que ocorrem na esquizofrenia. Já em estudos com
encontrada nas superfícies receptivas. esquizofrênicos submetidos a um a situação de isolamen­
Pelo tálamo passam as informações sensoriais antes de che­ to sensorial, os pacientes apresentaram poucas alterações.
garem às áreas sensoriais primárias, no córtex. O tálamo é Observa-se um a associação entre déficit visual e o surgi­
considerado um retransmissor, pois modifica as informações m ento de alucinações visuais, e entre surdez e alucina­
sensoriais: realiza uma inibição lateral, que propicia uma ções musicais. Estudos recentes de neuroim agem funci­
maior acuidade na percepção. Em seguida, as áreas sensori­ onal indicam que as mesmas áreas corticais são ativadas
ais secundárias começam a dar sentido aos sinais sensoriais na percepção norm al da fala e durante a experiência de
específicos, cabendo a elas a interpretação da cor, da forma, alucinações auditivas (David, 1999; Hoffinan, 1999).
etc. A área de associação parieto-occipitotemporal tem um A hipótese formulada foi a de que a privação de estí­
papel importante no reconhecimento dos objetos. mulos externos levaria a um estado de liberação neuro-
As características sensoriais elementares (cor, forma, nal, no qual o próprio sistema nervoso produziria o fe­
etc.) são processadas separada e paralelamente: as infor­ nôm eno sensorial. U m estado sem elhante ao de um a
mações relativas a cada um a delas seguem vias neurais privação sensorial poderia surgir em função de distúrbi­
diferentes e chegam a regiões corticais diferentes. Q uan­ os em estruturas subcorticais, que, atuando com o um
to à integração das informações sensoriais, o seu m eca­ mecanismo de portão, estariam inibindo a chegada de
nismo ainda é pouco conhecido, mas sabe-se que está estímulos sensoriais ao córtex.
relacionada a vias corticocorticais. E necessário que haja
sincronia quanto às descargas das diferentes vias sensori­
A lucinações e N e u ro q u ím ic a
ais para que as informações sensoriais sejam associadas a
um m esm o objeto. Para que se dê o reconhecim ento do Alucinações podem ser causadas por substâncias que
objeto, o padrão dos estímulos sensoriais atuais é com ­ aum entam a atividade da dopamina, com o a cocaína, a
parado aos padrões armazenados na memória. anfetamina, a L-dopa e a brom ocriptina. Os antipsicóti-
Segundo a psicologia de gestalt, a im agem perceptiva cos antagonizam a atividade da dopam ina no sistema
é mais do que a soma dos elementos sensoriais: é cons­ nervoso central e são eficazes na redução de sintomas
truída tam bém a partir das representações. Isso se eviden­ com o as alucinações. Já as substâncias alucinógenas, como
cia nas ilusões p o r desatenção, nas pareidolias e na cons­ LSD, mescalina, psilocibina, etc., que provocam um
tatação de que as mesmas áreas cerebrais são ativadas quadro alucinatório bastante rico, predom inantem ente
quando se vê u m objeto e quando se imagina visualmente visual, possuem um efeito agonista serotoninérgico.
o m esm o objeto. A lém disso, a im agem perceptiva é D iante dessas informações, form ulou-se a hipótese de
bastante influenciada pela atenção seletiva —que deter­ que as alucinações estariam relacionadas a um a hiperati-
m ina o que será o foco e o que será o fundo —, pela vidade nas vias dopaminérgicas e serotoninérgicas.
m otivação e pelas emoções.
N a m aior parte das vezes, os estímulos são subliminares
A lucinações: A b o rd a g e m C o g n itiv ista
e a percepção não é consciente. N a m em ória de longo
prazo podem ser armazenadas inform ações que nunca Foi levantada a seguinte hipótese: as alucinações cons­
chegaram à consciência. A conscientização da percepção tituiriam imagens derivadas de fontes internas de infor­
está relacionada ao hemisfério cerebral esquerdo: estímu­ mações que seriam erroneam ente avaliadas com o oriun­
los visuais de objetos projetados na m etade esquerda do das do m undo externo.
campo visual vão chegar inicialmente ao hemisfério direi­ Estudos de ressonância m agnética funcional indicam
to, mas só vão tornar-se conscientes quando a informação que a fala interna — conversar consigo próprio em si­
chegar ao hemisfério esquerdo. Isso é demonstrado em lêncio —e as alucinações auditivo-verbais estariam re­
estudos com pacientes que sofreram secção do corpo ca­ lacionadas à ativação da m esma região cortical (David,
loso, comissura que conecta os dois hemisférios. 1999).
CAPÍTULO

M EM Ó RIA

podem ser associadas às informações anteriorm ente ad­


IN T R O D U Ç Ã O
quiridas e as que envolvem ao m esm o tem po mais de um
r
O q u e E a M e m ó ria canal sensorial (visão e audição, p o r exemplo).

Para os antigos gregos, a m em ória era um a entidade


C o n serv ação
sobrenatural, a deusa M nem osyne, que dava aos poetas e
adivinhos o poder de voltar ao passado. A etapa de conservação refere-se à m anutenção, em
Segundo Kandel e cols. (1997), o aprendizado é o pro­ estado de latência, das informações qne fnram fixadas.
cesso através do qual adquirimos conhecim ento sobre o _As informações conservadas vão, através do tempo, so­
m undo; já a m em ória representa o arm azenam ento des­ frendo um processo lento de desintegração, que segue a
se conhecim ento. Essas informações armazenadas dizem lei de regressão m nêmica de R ibot. D e acordo com esta,
respeito às nossas experiências perceptivas e motoras, as­ a perda das informações armazenadas se faz das mais re­
sim com o às vivências internas (nossos pensam entos e centes para as mais antigas, das mais complexas para as mais
emoções). simples e das menos organizadas para as mais organizadas.
U m a capacidade m nêm ica preservada é fundamental
para a percepção (gnosia) e para a orientação. E vocação
A etapa de evocação corresponde ao retom o, espon­
As E tap as do P ro cesso M n êm ico tâneo ou voluntário, à consciência das informações ar­
mazenadas. Alternativamente, no caso da m em ória im ­
Didaticam ente, a atividade da m em ória é dividida em plícita (ver adiante), a evocação corresponde à expressão
quatro fases: fixação (ou aquisição, ou codificação), con­ no com portam ento do aprendizado prévio.
servação (ou retenção), evocação (ou rem em oração, ou Fatores afetivos podem influenciar a evocação. Via de
.recuperação) e reconhecim ento. regra nos esquecemos mais facilmente do que nos desa­
grada ou angustia.
Fixação Assim com o a percepção não é um a cópia fiel do
m undo externo, a evocação tam bém nunca é idêntica à
A etapa de fixação, term o criado p o r W em icke, refe-
im agem perceptiva fixada: cada vez que evocamos esta­
re-se_à aquisição de novas informações.
mos reconstruindo, sempre com alterações, a im agem ar­
A fixação depende da preservação do nível da consci-
mazenada.
ência (vigilância), da atenção (especialmente da tenaci­
dade), da sensopercepção e da capacidade de apreensão
(apercepçâo). R e c o n h e c im e n to
. Fix am -sejm ^sJã^ilm ente as inform ações que desper- A última etapa do processo mnêmico, a do reconheci­
tam o nosso interesse e possuem um a m aior conotação m ento, consiste na identificação da imagem evocada como
em ocional, as que têm um caráter de novidade, as que algo pretérito, não-atual, já vivenciado anteriormente.
38 M em ória

C lassificação das M em ó rias O u tra C lassificação das M em ó rias


As memórias podem ser divididas da seguinte forma: As memórias podem tam bém ser divididas em explí­
m em ória sensorial (ou icônica, ou imediata, ou de cur­ citas (ou declarativas) e implícitas (ou não-declarativas).
tíssimo prazo), m em ória de curto prazo e m em ória de
longo prazo.
M e m ó ria E x p lícita
As memórias explícitas representam informações so­
M e m ó ria S ensorial bre o que é o m undo, informações essas que são acessí­
A m em ória sensorial dura menos de um segundo. Per­ veis à consciência, podem ser evocadas voluntariam en­
manece ativa apenas o tem po necessário para se dar a per­ te, e podem ser expressas em palavras.
cepção. E m uito frágil e possui um a capacidade muitíssi­ A m em ória explícita é dividida em m em ória episódi­
m o limitada. E mais propriam ente um a função da aten­ ca e m em ória semântica.
ção do que da memória.
M e m ó ria E p isó d ica
M e m ó ria de C u rto P ra z o A m em ória episódica é um a m em ória explícita que se
A m em ória de curto prazo possui um a capacidade de refere a eventos autobiográficos, a vivências pessoais do
arm azenam ento limitada, e dura de segundos a m inutos. indivíduo que estão vinculadas a determ inado local e
A memória de trabalho (ou operacional), conceito de­ ocasião. P or exemplo: “O n tem fui ao cinem a com m i­
senvolvido pelo psicólogo cognitivista Alan Baddeley, nha nam orada.”
corresponde a um com ponente de curto prazo da m e­
mória explícita (ver adiante). Refere-se ao armazenamen­
M e m ó ria S em ân tica
to tem porário de informações para a realização de tarefas
cognitivas. Essas informações provêm dos estímulos cor­ A m em ória semântica é um a m em ória explícita que
rentes, cuja impressão é prolongada, ou da recuperação se refere a conhecim entos factuais, compartilháveis com
de elementos da m em ória de longo prazo. Diversas in­ as outras pessoas. P o r exem plo: “A Segunda G uerra
formações são mantidas ativas simultaneamente, para que M undial com eçou em 1939” ; “A raiz quadrada de 9 é
possam ser integradas e manipuladas. 3 ”; “Love significa amor em inglês” .
A m em ória de trabalho é essencial tanto para a fixa­
ção com o para a evocação; e é necessária para atividades
M e m ó ria Im p líc ita
cognitivas com o a compreensão, o raciocínio, a tom ada
de decisões e o planejam ento da ação. A m em ória implícita refere-se ao aprendizado de como
A m em ória de trabalho faz-se presente, p o r exemplo, fazer as coisas. Expressa-se num a m elhora de desem pe­
quando repetimos de im ediato um a seqüência de dígi­ nho em um a determ inada atividade, que se dá em fun­
tos, com o o núm ero de um telefone; e quando, ao final ção de experiências prévias. E um tipo de m em ória au­
de um a frase que ouvimos, ainda nos lem bramos de suas tom ática e reflexa, que não pode ser expressa em pala­
primeiras palavras, o que torna possível a compreensão vras e que independe da recuperação consciente das ex­
do sentido da frase com o u m todo. periências que produziram o aprendizado.
Há vários tipos de memória implícita: m em ória de pro­
cedim ento, condicionam ento clássico, condicionam en­
M e m ó ria de L o n g o P ra z o
to operante, aprendizagem não-associativa, pré-ativação
O processo que converte as memórias de curto prazo e m em ória emocional.
em memórias de longo prazo chama-se consolidação. Esta, M em órias implícitas podem resultar da repetição de
que é facilitada pela repetição da informação, necessita de memórias explícitas. P or exemplo, dirigir um autom ó­
, 5 a 10 m inutos para qu£ocon:a nnm m ãm ente, T ctêpêlõ vel exige, quando se está aprendendo, que se sigam ins­
_menos 60 minutos para que-ocorra de forma plena. truções que são recordadas conscientem ente, tornando-
A memória de longo prazo representa o armazenamen­ se depois um procedim ento automático.
to perm anente de informações. Informações que foram
fixadas há alguns m inutos poderão ser evocadas p o r anos
ou até p or toda a vida. A capacidade de armazenam ento M e m ó ria de P ro c e d im e n to
da m em ória de longo prazo é enorm e, bem m aior dojque A m em ória de procedim ento refere-se a práticas e ha-
a da m em ória de curto prazo. büidades m otoras (andar de bicicleta, amarrar o sapato,
M em ória 39

tocar piano, escrever), perceptivas (m ontar quebra-cabe­ mal aprende a fortalecer seus reflexos defensivos, e rea­
ças, descobrir a solução de labirintos gráficos, ler) e cog­ girá de iorm a vigorosa ao ser subm etido a um estímulo
nitivas (usar e com preender regras gramaticais). inócuo, com o uma estimulação tátil moderada.

C o n d ic io n a m e n to Clássico P ré-ativ ação


O condicionam ento clássico é um conceito desenvol­ N a pré-ativação, a exposição prévia ao estímulo favo­
vido p or Pavlov. T em com o base o paream ento de dois rece o seu reconhecim ento posterior a partir de fragmen­
estímulos: o estímulo incondicionado (EI), que é forte e tos dele. Algumas vezes é possível haver pré-ativação após
naturalm ente bastante eficaz na produção de determ ina­ um a única exposição ao estímulo. A pré-ativação repre­
da resposta no animal —por exemplo, o alim ento que senta um a m aior facilidade no reconhecim ento que se
causa a salivação —; e o estímulo condicionado (EC), que baseia na aparência e na forma do estímulo, e não no seu
é fraco ou neutro e ineficaz quanto a produzir a mesma significado semântico.
resposta —por exemplo, um a campainha. Se a campai­ A pré-ativação pode ser dem onstrada em pacientes
nha é apresentada repetidas vezes antes do alimento, ela, com distúrbios da memória explícita. Inicialmente é apre­
m esm o na ausência deste, torna-se capaz de provocar a sentada um a lista de palavras incom uns. Em seguida, os
salivação no animal (resposta condicionada). pacientes realizam um teste com palavras incompletas, em
O que aconteceu foi que o E C se tornou um sinal que eles têm que completar as letras que estão faltando
antecipatório em relação ao EI. O condicionam ento clás­ (como no jogo da forca). O desem penho é m elhor em
sico perm ite ao animal fazer previsões sobre eventos no relação a palavras que estavam na lista do que em relação
seu ambiente. a outras palavras, mesmo eles não se lem brando consci­
entem ente daquelas.

C o n d ic io n a m e n to O p e ra n te M e m ó ria E m o c io n a l
O conceito de condicionam ento operante foi elabo­
U m exemplo de memória emocional é a forma como
rado p or T hom dike, sendo posteriorm ente desenvolvi­
uma pessoa costuma reagir (comportamental ou fisicamen­
do p or Skinner. T em com o base o paream ento de um
te) quando está m uito assustada. U m a determinada forma
estímulo (reforço) e um a resposta (um com portam ento):
de resposta emocional pode ser aprendida através de con­
os com portam entos seguidos por recom pensa (reforço
dicionamento clássico, e assim ser provocada por um estí­
positivo) tendem a ser repetidos, enquanto os com por­
mulo neutro. Por exemplo, uma pessoa que sofreu um grave
tamentos seguidos de punição (reforço negativo) tendem
acidente de carro (situação traumática) e, naquele m om en­
a ser evitados.
to, estava ouvindo no rádio uma música agradável, pode
passar a se sentir ansiosa toda vez que volta a ouvi-la, mes­
A p re n d iz a g e m N ão -asso ciativ a m o que não a associe conscientemente com o acidente.

D iferentem ente dos condicionamentos clássico e ope­


rante, em que são associados dois eventos, na aprendiza­
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N TITA TIV A S
gem não-associativa o animal é exposto a som ente um
tipo de estímulo. H á duas formas de aprendizagem não- D efin içõ es
associativa: a habituação e a sensibilização.
A habituação é a forma mais simples de aprendizagem Os termos amnésia, hipomnésia e hipermnésia significam
implícita. Ela consiste num a progressiva dim inuição da abolição, diminuição e aum ento da capacidade mnêmica,
resposta a estímulos inócuos repetitivos. Q uando um respectivamente.
estímulo é novo, ele produz uma resposta intensa, mas,
não sendo reforçado, à m edida que se tom a conhecido, C lassificação
o animal aprende a ignorá-lo. P or exemplo, na festa de
As alterações quantitativas da m em ória podem ser clas­
Ano N ovo, nos assustamos com o barulho dos primeiros
sificadas de duas formas:
foguetes, mas logo depois nos acostumamos com eles.
A sensibilização, ou pseudocondicionam ento, consis­ • quanto ao tem po em que pertencem as lembranças:
te na intensificação das respostas a um a variedade de es­ em anterógradas, retrógradas e retroanterógradas;
tímulos que ocorrem após um estímulo nocivo intenso. • e quanto à extensão e conteúdo das recordações: em
P or exemplo, após receber um beliscão doloroso, o ani­ generalizadas, lacunares e seletivas.
40 M em ó ria

A m n ésia (h ip o m n ésia) A n te ró g ra d a A amnésia (hipomnésia) generalizada pode ocorrer em


seguida a um grave traumatismo crânio-encefálico, num a
A amnésia (hipomnésia) anterógrada tam bém é deno­
fase term inal de dem ência e em transtornos dissociativos
minada amnésia (hipomnésia) de fixação. Consiste na im ­
histéricos (como a fuga psicogênica).
possibilidade (ou dificuldade) de formar novas lem bran­
ças de longo prazo —de adquirir novas informações —a
partir do m om ento em que o agente patogênico atuou A m n ésia (h ip o m n ésia) L acu n ar
com o tal. A amnésia (hipomnésia) lacunar tam bém é chamada
Prim ariam ente ocorre na síndrome de Korsakoff e nos localizada. Aqui a falha de m em ória abrange especifica­
quadros demenciais. O corre ainda nos quadros de deli­ m ente determ inado espaço de tem po, de limites relati­
rium e estados crepusculares, em função de estarem pre­ vam ente precisos, durante o qual houve um prejuízo na
judicadas a atenção e a apercepção; nos estados de ansie­ capacidade de fixação. T odos os eventos anteriores e
dade e de agitação psicom otora (incluindo a mania), que posteriores a esse período foram norm alm ente fixados.
estão relacionados a uma hipotenacidade; na maioria dos O corre posteriorm ente a um estado de coma (como
pacientes com retardo m ental grave, entre outras coisas, nas crises convulsivas do tipo grande mal) ou de delirium,
pela dificuldade de apercepção; e na depressão, devido a estados crepusculares epilépticos e histéricos, graves
ao prejuízo na atenção provocado pelo desinteresse. Nos agitações maníacas ou psicóticas, um ataque de pânico
blackouts, ou palimpsestos, que são lacunas de m em ória ou u m evento psicológico traumático.
referentes a episódios de embriaguez alcoólica, o distúr­
bio se dá na fixação.
A m n ésia (h ip o m n ésia) Seletiva
A amnésia (hipomnésia) seletiva tam bém é chamada de
A m n ésia (h ip o m n ésia) R e tró g ra d a
sistemática. Aqui o que as lembranças têm em com um é o
A amnésia (hipomnésia) retrógrada tam bém é conhe­ seu conteúdo e significado afetivo. E observada em qua­
cida com o amnésia (hipomnésia) de evocação. R efere- dros dissociativos histéricos (como a amnésia psicogênica).
se à impossibilidade (ou dificuldade) de recordar eventos
anteriores à atuação do fator causal do distúrbio mnêmico;
não se consegue recuperar memórias de longo prazo, as
H ip e rm n é sia de F ixação
quais tinham sido adequadam ente fixadas. A hiperm nésia de fixação tam bém é chamada hiper­
A amnésia retrógrada afeta mais a recordação de even­ trofia de m em ória. Consiste num a capacidade exagerada
tos recentes do que de rem otos. U m a form a pura de de arm azenam ento de novas informações. Geralm ente
amnésia retrógrada, isto é, não associada a amnésia ante­ está restrita a um a habilidade específica: m em orizar um a
rógrada, é rara. O corre principalm ente em quadros dis­ grande quantidade de núm eros ou nomes; reproduzir na
sociativos histéricos, sendo encontrada ainda em traum a­ íntegra um a música ou um texto extenso após terem sido
tismos crânio-encefálicos, na intoxicação por m onóxido ouvidos um a única vez: ou efetuar cálculos matemáticos
de carbono e em lesões talâmicas. m uito complexos.
Pode ocorrer em pessoas normais, porém é mais fre­
A m n ésia (hip o m n ésia) qüente em indivíduos com retardo m ental e, mais ainda,
em autistas —entre os quais a maioria apresenta tam bém
R e tro a n te ró g ra d a
retardo mental. A associação entre o baixo nível intelec-
A amnésia (hipomnésia) retroanterógrada também é de­ tivo e a hiperm nésia observada nesses indivíduos origi­
nom inada mista ou de fixação-evocação. E a forma mais nou a expressão idiota sábio (idiot savant), criada p o r J.
comum. E característica dos quadros demenciais e do de­ Langdon D o w n em 1887. A memorização se dá de for­
lirium, podendo ocorrer ainda após um traumatisn' o crâ- ma mecânica, em geral sem que haja um a compreensão
nio-encefálico ou uma aplicação de eletroconvulsoterapia. do significado do que está sendo fixado.

A m n ésia (h ip o m n ésia) G en eralizad a H ip e rm n é sia de E vo cação


N a amnésia (hipomnésia) generalizada estão afetadas A hipermnésia de evocação pode ser observada na sín­
todas as recordações de grande parte do passado, com ­ drom e m aníaca (primária ou secundária). O corre um
preendendo os últimos meses ou anos, ou mesmo a vida excesso de recordações n u m breve espaço de tem po.
inteira. Trata-se de um tipo pouco freqüente de distúr­ E m bora mais num erosas, as lem branças em geral são
bio m nêm ico. pouco claras e precisas, não havendo controle voluntá-
M em ória 41

rio sobre elas. A lém disso, há ao m esm o tem po um a ocorre na sensopercepçâo. Trata-se da recordação de algo
hipomnésia de fixação. que de fato não ocorreu, de um a falsa lembrança, em bo­
U m a outra forma de hipermnésia de evocação é a m e­ ra para o paciente ela seja verdadeira.
m ória panorâmica, observada em pessoas que estão na Pode ocorrer na esquizofrenia, em virtude da ativida­
im inência de m orrer. D urante segundos ou poucos m i­ de delirante. Foi o caso de um a paciente que, em bora
nutos passam pela m ente do indivíduo sua vida inteira estivesse internada havia vários anos, relatou que na vés­
ou os acontecim entos mais importantes, com o se fosse pera tinha voltado para casa e matado muitos bandidos,
um filme projetado com enorm e velocidade. já que, acreditava ela, era um a policial.
U m a terceira forma de hipermnésia de evocação pode N a pseudologia fantástica ocorrem muitas paramnésias,
ser encontrada em estados crepusculares epilépticos e histé­ mas desde que o indivíduo passe a acreditar na veracida­
ricos, no transe hipnótico, no sonho, no delirium e na into­ de das próprias mentiras.
xicação por alucinógenos. Consiste em um súbito ressurgi­ A fabulação (ou confabulação) seria um tipo especial de
mento de recordações que estavam aparentemente esque­ paramnésia. Fabulação é um term o em geral utilizado para
cidas; ou então em uma alteração transitória em que certos designar as alucinações de memória que ocorrem em qua­
eventos autobiográficos são recordados de forma mais vívi­ dros amnésticos de origem orgânica, com o na síndrom e
da, detalhada e exata do que o habitual. Leme Lopes (1980) de Korsakoff, na dem ência e no delirium. Foi um term o
usou o term o acromnésia para designar esse fenômeno. criado por Kraepelin, mas a alteração já havia sido des­
crita por Korsakoff na síndrome que recebeu o seu nome.
H ip e rm n é sia L acu n ar Bonhoeffer acreditava que a fabulação consistia num
preenchim ento de lacunas de memória: o paciente, ao ser
A hipermnésia lacunar é observada em pacientes com indagado sobre o que havia feito na véspera, por exem ­
transtorno de pânico, especialmente em relação à rem e­ plo, perceberia a própria dificuldade cognitiva e respon­
moração do prim eiro ataque; e no transtorno de estresse deria com as primeiras idéias que lhe viessem à mente,
pós-traum ático, em relação ao evento traumático. tentando assim evitar um a situação embaraçosa para si
mesmo. U m a outra explicação para as fabulações é que elas
H ip e rm n é sia Seletiva estejam pelo menos em parte relacionadas a um desloca­
A hiperm nésia seletiva ocorre na depressão, quanto a m ento temporal de eventos reais: o que o paciente relata
fatos dolorosos ou que despertem o sentim ento de cul­ realmente aconteceu, só que num passado mais remoto.
pa; na mania, quanto a sucessos e realizações pessoais; e
nos quadros delirantes, quanto a fatos que pareçam con­ Déjà vu e jam ais vu
firmar o seu juízo patológico.
Tanto o déjà vu como o jamais vu expressam um a alte­
ração da última etapa do processo mnêmico: a do reco­
nhecim ento. N o déjà vu (já visto), o indivíduo tem uma
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS
sensação de familiaridade diante de um a situação (ou ob­
A lo m n ésia jeto) inteiramente nova, como se ele já a houvesse viven-
ciado anteriormente. N o jamais vu (nunca visto) ocorre o
A alomnésia tam bém é conhecida com o ilusão de m e­ oposto: há um a ausência da sensação de familiaridade di­
mória, p or se tratar de uma alteração análoga à que ocorre ante de uma situação já vivenciada uma ou mais vezes no
na sensopercepçâo. Aqui as recordações de um evento passado. Pode haver crítica, por parte do próprio indiví­
real são deturpadas, distorcidas pelo indivíduo de forma duo, em relação a esses fenômenos. O déjà vu e o jam ais vu
involuntária. podem ocorrer na epilepsia do lobo temporal, na esqui­
O corre no delirium , na demência, na síndrome de K or­ zofrenia, em síndromes de ansiedade e em pessoas normais.
sakoff e nos estados crepusculares, associada a distúrbios
amnésticos; na mania e na melancolia, por influência do
afeto dominante; e, ainda, na esquizofrenia e no transtor­ C rip to m n é s ia
no delirante, com o expressão do conteúdo dos delírios. A criptomnésia,* term o criado por S. Freud, consiste
tam bém num a alteração na fase de reconhecimento. R e ­
cordações voltam à m ente do indivíduo, mas não são re­
P aram n ésia
A paramnésia tam bém é conhecida com o alucinação
de m em ória, p o r se tratar de um a alteração análoga à que * N .A .: Kr]>ptós e m grego significa oculto.
42 M em ória

conhecidas com o tais, parecendo a ele idéias novas, cria­ devem ser repetidos de imediato e, de novo, segundos
ções originais suas. E o mecanismo dos casos de plágio ou m inutos depois. Entre a prim eira e a segunda repeti­
involuntário. O próprio Freud reconheceu que havia, in­ ção, pode ser introduzida um a atividade interferente:
conscientemente, tomado para si a autoria de um a hipó­ solicitar que ele m em orize um a segunda série ou que
tese psicanalítica, relativa à bissexualidade humana, que seu realize um teste de concentração —o que afasta a infor­
então amigo Fliess lhe comunicara algum tem po antes. mação inicial da m em ória de trabalho.
• Teste de enumeração de objetos: São mostrados ao pa­
E cm n ésía ciente desenhos de 12 objetos durante 20 segundos;
algum tem po depois, pede-se que ele cite os objetos
A ecmnésia,* term o criado p o r Pitres, representa tam ­
que viu.
bém um distúrbio da fase de reconhecim ento. Trata-se
• Teste de m em ória lógica: C onta-se um a pequena his­
de um a presentificação do passado: a recordação é tão in­
tórica, com cerca de 15 itens (ou núcleos lógicos), ao
tensa, quase alucinatória, que o paciente se com porta com o
examinando, que mais tarde deve repeti-la. Ao final,
se o evento pretérito estivesse ocorrendo naquele m o­
contam -se os itens recuperados.
m ento, com o se ele estivesse vivendo em um época an­
terior de sua vida.
O corre em estados crepusculares histéricos e epilépti­ T estag em da E vo cação de D ad o s
cos, em estados confuso-oniróides (como no delinum ocu- R ecen tes
pacíonal), na intoxicação p or alucinógenos e na demência.
U m exemplo de ecmnésia, de natureza dissociativa, São feitas perguntas com o: “Q u em é o presidente do
foi o de uma senhora de mais de 60 anos que, após a m orte Brasil?”; “ Q u em é o técnico da seleção brasileira de fu­
súbita do marido, passou a agir com o criança, brincava o tebol?”; “O que apareceu no noticiário nos últimos dias?” ;
dia inteiro e ficava chamando pelos pais, falecidos havia “ O que você com eu ontem no alm oço?” .
m uito tem po.
T estag em da E vo cação de D ad o s
R e m o to s
O E X A M E D A M E M Ó R IA
São feitas perguntas relativas a informações autobiográ­
E n trev ista P siq u iá tric a ficas, cujas respostas devem ser confirmadas por algum fa­
miliar ou pelos registros do prontuário: “Quais são os nomes
Em um simples diálogo com o paciente e na coleta dos
dos seus filhos?”; “Em que data o senhor se casou?”; “Qual
dados da anamnese, já é possível ter um a estimativa razoá­
era o nom e da primeira escola que o senhor freqüentou?”.
vel sobre a sua memória, especialmente quanto a sua capaci­
São feitas tam bém perguntas relativas a eventos de co­
dade de evocação. Observa-se se ele é capaz de precisar os
nhecim ento público ou a fatos históricos, levando-se em
detalhes dos fatos narrados e ordená-los cronologicamente.
consideração o nível educacional do paciente: “Em que
ano o Brasil foi tricampeâo mundial de futebol?” ; “Q uem
O b serv ação de c o m o o P ac ie n te L ida foi o presidente do Brasil que se suicidou?” ; “Q u em foi
c o m as Q u estõ es do D ia -a -d ia C arm em M iranda?” .

Indicam um déficit m nêm ico a perda freqüente de ob­


jetos, a repetição sem crítica das mesmas idéias nos diálo­ V alidade da In te rp re ta ç ã o dos Testes
gos com as outras pessoas, a dificuldade de localizar o pró­ N a interpretação dos resultados dos testes, devem ser
prio leito na enfermaria ou de guardar o nom e do médico considerados fatores com o ansiedade e desinteresse, que
(no caso do paciente internado), a desorientação no tem ­ podem prejudicar o desem penho do paciente.
po e no espaço, e o falso desconhecimento de pessoas.

T estag em da M e m ó ria de F ixação A M E M Ó R IA N O S P R IN C IP A IS


São apresentados ao paciente, verbal ou visualmente, T R A N S T O R N O S M E N T A IS
um a série de dígitos, palavras ou sílabas desconexas, que
M ania
N a mania, há hiperm nésia de evocação, associada a
* N .A .: Ec é u m prefixo d e o rig em grega q u e significa movimento para fora. um a hipom nésia de fixação, a qual está relacionada ao
M em ória 43

estado de hipotenacidade e hiperm obilidade da atenção. ria de evocação é progressivo, e segue a lei de R ib o t,
D o déficit da atenção poderá resultar, a posteriori, um a sendo afetada prim eiro a recuperação de eventos recen­
hipom nésia lacunar, referente ao período de m aior agi­ tes, enquanto a de eventos mais antigos se conserva du­
tação maníaca. Podem ocorrer ainda alomnésias, com as rante mais algum tem po. São com uns as alomnésias e as
recordações sendo distorcidas em função das idéias paramnésias (fabulações). A m em ória explícita é a mais
deliróides de grandeza. alterada, podendo a m em ória implícita estar preservada.
A m em ória episódica costuma estar mais prejudicada do
que a semântica.
D epressão
Em função do desinteresse em relação ao m undo ex­
S ín d ro m e de K o rsak o ff
terno, a capacidade de fixação na depressão está reduzi­
da. Q uando a inibição psíquica é m uito intensa, há tam ­ (o u S ín d ro m e A m n éstica)
bém um a hipom nésia de evocação. É m aior a facilidade A principal causa da síndrom e de Korsakoff é o alco­
p ara ev o c a r fatos ru in s, g erad o re s de c u lp a (um a olismo crônico. Outras causas possíveis são: epilepsia do
hiperm nésia seletiva), enquanto lembranças agradáveis lobo temporal, neoplasias cerebrais, infartos cerebrais lo­
tornam -se raras. São com uns distorções das recordações calizados, traumatismos crânio-encefálicos, benzodiaze-
(alomnésias), no sentido de um conteúdo de tristeza, ruína pínicos e eletroconvulsoterapia. A tríade clássica da sín­
ou culpa. drom e de Korsakoff é: hipom nésia de fixação, desorien­
tação têmporo-espacial e fabulação. As características dos
E sq u izo fren ia distúrbios de m em ória na síndrom e de Korsakoff são as
mesmas observadas nos quadros demenciais.
N a esquizofrenia é possível surgir um a hipom nésia de
fixação, em virtude de apatia e desinteresse quanto ao
m undo externo, ou devido a um quadro de grande ansi­
R e ta rd o M ental
edade e agitação. H á um a hiperm nésia seletiva para fatos N o retardo mental, se houver um im portante dano ce­
que possam confirmar seus delírios e um a hipomnésia para rebral, o prejuízo m nêm ico pode ser semelhante ao das
aqueles que possam contradizê-los. Lembranças podem demências. A dificuldade de apercepção costuma afetar
ser distorcidas ou criadas (alomnésias ou paramnésias, a m em ória de fixação. Muitíssimo raramente, indivíduos
respectivamente), em consonância com a temática deli­ com retardo m ental apresentam um a hipertrofia de m e­
rante. m ória (hipermnésia de fixação).
Testagens neuropsicológicas mais detalhadas, realiza­
das em estudos recentes, têm evidenciado que alguns es­
A u tism o
quizofrênicos podem apresentar distúrbios de m em ória
semelhantes aos encontrados nas demências. Perto de 10% dos autistas apresentam as chamadas ilhas
de habilidades, as quais quase sempre incluem um a m e­
m ória de fixação acima do normal.
Delirium
N o deliriu m , o p a c ie n te , q u a n to à aten ção , está
E pilepsia
hipotenaz, o que leva a um a hipom nésia de fixação. Em
virtude disso, a posteriori, haverá um a hipom nésia lacu­ D urante os estados crepusculares epilépticos, pode
nar, abrangendo o período do rebaixam ento do nível de haver hipom nésia de fixação, hipermnésia de evocação,
consciência. D urante o quadro confusional, as alterações déjà vu e ecmnésia.
da atenção e a desestruturação do pensam ento e de todas N a epilepsia, há um a amnésia lacunar referente aos pe­
as demais funções cognitivas irão dificultar um a evoca­ ríodos de abolição da consciência —que ocorre nas crises
ção adequada e organizada das lembranças. generalizadas, com o a tônico-clônica e a ausência sim­
ples —e aos períodos de estreitamento da consciência —
nas crises parciais complexas.
D e m ê n c ia A epilepsia do tipo grande mal está relacionada a uma
N a demência predom ina a hipomnésia de fixação, mas amnésia lacunar que, para ser exato, com preende o perío­
a m em ória de evocação tam bém está com prom etida. do da crise do tipo tônico-clônica (que cursa com coma),
M uito freqüentem ente, o paciente não tem consciência o estado pós-ictal (confusão mental) e, ainda, os minutos
do seu déficit m nêm ico. E m geral, o prejuízo da m em ó­ anteriores à crise (lucidez). Vai haver amnésia referente a
44 M em ória

esse período pré-ictal porque o processo cerebral da crise seqüente autopunição, é o que o ego busca evitar. As­
epiléptica vai de alguma forma interferir na consolidação sim, um a lem brança reprim ida é um a lem brança esque­
das memórias adquiridas recentemente. E m outras pala­ cida, inconsciente.
vras, não terá havido tem po suficiente para uma eficiente A repressão é exercida pelo ego. Este retira da idéia a
consolidação. Em outras situações em que há um acome­ catéxia verbal —a ligação a um a representação de palavra
tim ento cerebral súbito e generalizado, com o num trau­ —, restando apenas a catéxia de pulsão. O que é reprim i­
matismo crânio-encefálico, ocorre o mesmo. do deixa de fazer parte do ego, ficando restrito ao id. Para
m anter a repressão, o ego realiza um a contracatéxia: a
energia que foi retirada (a catéxia verbal) é deslocada para
T ra n sto rn o s D issociativos um a outra idéia, e esta é que vai ter acesso à consciência,
N a histeria dissociativa, as alterações de m em ória são em substituição à primeira. U m sintoma pode ser o re­
reversíveis. A amnésia pode ser seletiva, lacunar ou ge­ sultado dessa contracatéxia.
neralizada; em geral é retrógrada, em bora possa ser A repressão é o mecanismo de defesa mais im portante
retroanterógrada. P odem ocorrer ecmnésias nos quadros na histeria, mas tam bém é encontrada nos outros trans­
de sonambulismo. tornos neuróticos e nos indivíduos normais. A repressão
O quadro clínico da amnésia psicogênica caracteriza- tam bém explicaria m uitos dos esquecimentos aparente­
se pelo início e fim súbitos. O paciente está lúcido e tem m ente banais do nosso dia-a-dia (nomes de pessoas, com ­
consciência de estar apresentando um distúrbio de m e­ promissos, etc.).
mória. Apesar disso, mostra-se indiferente ao sintoma. A
teatralidade é um aspecto marcante nesse quadro, o qual
apresenta freqüentem ente um a relação tem poral com
A m n ésia In fan til
aborrecim entos e contrariedades. O fato de não conseguirmos nos lembrar de quase nada
dos prim eiros anos de nossas vidas seria o resultado da
repressão em relação à sexualidade infantil.
T ra n sto rn o de E stresse
P ó s -tra u m á tic o (T E P T )
L em b ran ças E n c o b rid o ra s
O T E P T consiste num transtorno de ansiedade que
sucede um evento psicológico extrem am ente traum áti­ As lembranças encobridoras são recordações da infân­
co, o qual ultrapassa a experiência hum ana usual. Pode cia que se destacam pela especial nitidez e pela aparente
se caracterizar, entre outras alterações, por um a hiperm - insignificância. Para Freud, essas lembranças encobriri­
nésia em relação ao trauma, ou, então, p o r um a amnésia am experiências ou fantasias sexuais infantis reprimidas.
em relação ao mesmo. Elas são m uito nítidas em função de um a condensa­
ção: várias lembranças se fundem num a só. Elas são apa­
rentem ente sem im portância porque houve u m desloca­
C O N T R IB U IÇ Õ E S DA m ento: recorda-se bem de um episódio para se esquecer
totalm ente de outro.
PSIC A N Á L ISE

R ep ressão (ou R ecalq u e) O E go In c o n scie n te


E m Estudos sobre a histeria (1895), Breuer & Freud afir- , Para Freud, um a parte do ego, em bora não reprim i­
mavam que “os histéricos sofrem principalm ente de re­ da, jamais terá acesso à consciência, diferentem ente do
miniscências” . Já nessa época pré-psicanalítica, anterior ego pré-consciente, porque não pode ligar-se a um a re­
à conceituação de repressão, eles acreditavam que m e­ presentação de palavra. Segundo Eric Kandel (1999), essa
mórias de eventos traum áticos poderiam afastar-se da parte do ego corresponderia ao que hoje chamamos de
consciência e tornar-se patogênicas. m em ória implícita.
A repressão consiste num mecanismo de defesa incons­
ciente que atua excluindo da consciência representações
(pensamentos, recordações) ligados a um a pulsão do id.
F abulação
Essa pulsão, de natureza sexual ou agressiva, é conside­ P ara Solm s (2000), o absurdo e in c o e rê n c ia das
rada perigosa porque desafia proibições do superego —as fabulações em pacientes com lesões em estruturas do lobo
quais se originam nas proibições parentais e nas normas frontal expressam um a forma de pensam ento do proces­
sociais. U m a condenação por parte do superego, e con­ so prim ário. Para ele, essas estruturas estariam relaciona-
M em ória 45

das ao pensam ento do processo secundário e à inibição zação e da habituação baseia-se principalm ente no estu­
do processo prim ário (ver Cap. 10, sobre pensamento). do do molusco m arinho A p lysia californica.
Esta é a seqüência dos eventos relacionados à sensibi­
lização de curto prazo: (1) neurônios facilitadores libe­
C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS ram serotonina na sinapse com a terminação sensorial pré-
sináptica; (2) a serotonina ativa um a proteína fixadora de
N E U R O C IÊ N C IA S
GTP; (3) a enzima adenilciclase é ativada; (4) há conver­
E n g ra m a s são de A TP no segundo mensageiro AM Pc na term ina­
ção pré-sináptica; (5) o AM Pc ativa a proteinoquinase A;
Os engramas —term o criado por Karl Lashley na dé­ (6) esta leva a um bloqueio dos canais de K + (bloqueio
cada de 50 —, ou traços de m em ória, são as modificações da saída de K +); (7) prolongam ento do potencial de ação
no sistema nervoso que representam o armazenamento na term inação pré-sináptica; (8) m aior influxo de C a++;
de informações. (9) m aior liberação do neurotransmissor.
Os engramas constituem novas vias ou vias facilitadas de N a habituação, a serotonina só é liberada pelos estí­
transmissão nervosa, as quais são o resultado de uma ativida­ mulos iniciais, havendo um progressivo fecham ento dos
de neuronal prévia. Praticamente todas as regiões do sistema canais de C a++ da m em brana da term inação pré-sinápti-
nervoso central possuem neurônios com as propriedades de ca, o que vai implicar um a m enor liberação do neuro­
plasticidade necessárias para a formação de engramas. transmissor.
N os estudos com a A plysia fica claro que os mecanis­
mos das memórias de curto e longo prazos estão intim a­
M e m ó ria de F ixação
m ente relacionados: em ambos há alterações na conexão
Observou-se que indivíduos que sofreram uma rem o­ entre os neurônios sensoriais e m otores, um a m aior libe­
ção cirúrgica do lobo temporal mediai apresentavam uma ração do neurotransmissor, e o envolvim ento da seroto­
amnésia anterógrada. P ortanto, o hipocam po e outras nina e do AM Pc.
estruturas têm poro-m ediais, com o o córtex entorrinal, A sensibilização de longo prazo, diferentem ente da de
o subículo e o córtex para-hipocam pal (o com plexo hi- curto prazo, caracteriza-se por alterações estruturais ou
pocampal), são fundamentais para a m em ória de fixação. perm anentes nas próprias sinapses (e não apenas altera­
ções químicas): há aum ento do núm ero de vesículas que
armazenam os neurotransmissores, aum ento do núm ero
M e m ó ria de E vocação
de zonas ativas (sítios onde ocorre a fusão dessas vesícu­
Pacientes com lesões no hipocam po, ao lado da am­ las com a m em brana pré-sináptica para a liberação do
nésia de fixação, tam bém apresentam uma hipomnésia de neurotransmissor) e aum ento do núm ero de terminações
evocação. O utros indivíduos com lesões nos núcleos talâ- pré-sinápticas.
micos dorsomediais apresentam amnésia de evocação, A sensibilização de longo prazo depende de um in ­
com a capacidade de fixação preservada. O hipocam po e crem ento na síntese de novas proteínas e outras m acro-
o tálamo, ao lado do lobo frontal, estão relacionados à moléculas necessárias para o crescimento das conexões
m em ória de evocação. sinápticas. O AM Pc e outros segundos mensageiros de­
vem estar envolvidos na formação da m em ória de longo
prazo, já que são potentes ativadores da síntese proteica.
M e m ó ria Im p líc ita A inibição da síntese de R N A m pode bloquear a m e­
A m em ória de procedim ento está relacionada ao cor­ m ória de longo prazo, mas não a de curto prazo.
po estriado e ao globo pálido (gânghos da base); o con­
dicionam ento clássico, à amígdala (respostas emocionais)
M e m ó ria E x p lícita
e ao cerebelo (respostas motoras); a aprendizagem não-
associativa, às vias reflexas: a pré-ativaçào, ao neocórtex A m em ória explícita está relacionada ao hipocam po e
(centros perceptivos “pré-sem ânticos” no córtex senso­ demais estruturas do com plexo hipocampal, e ainda ao
rial posterior); e a m em ória emocional, à amígdala (que diencéfalo, ao giro do cíngulo e às regiões ventrom edi-
ativa o sistema nervoso autônom o). ais e dorsolaterais do córtex pré-frontal. Isso é válido es­
pecialm ente para a m em ória episódica. Parece que o
contexto espacial da experiência recordada é provido pelo
A p re n d iz a g e m N ão -asso ciativ a hipocam po, enquanto o contexto tem poral é provido
E m nível celular, o que se sabe a respeito da sensibili­ pelo córtex pré-frontal. D iferentem ente, a m em ória se­
46 M em ória

m ântica não está restrita a um a única região: o conheci­ tom a plenam ente funcional até a idade de 3 ou 4 anos.
m ento sobre, por exemplo, determinado objeto está ar­ As lembranças mais precoces do ser hum ano são princi­
mazenado em várias áreas do neocórtex ao mesmo tem ­ palmente emocionais e visuais. Ao contrário do hipocam ­
po, e cada área, em função de sua especialização, está rela­ po, ao nascim ento a amígdala já se encontra bem desen­
cionada a u m aspecto diferente do mesmo objeto. A m e­ volvida. Essas primeiras lembranças são armazenadas no
m ória de trabalho, por sua vez, depende da integridade do hemisfério não-dom inante, não podendo ser recupera­
córtex pré-frontal e, talvez, tam bém da do cerebelo. das verbalm ente mais tarde na vida adulta.
E m nível celular, a m em ória explícita depende da p o ­
tenciação de longo prazo (PLP) no hipocam po. A PLP
F abulação
consiste n um aum ento duradouro (horas, dias ou meses)
dos potenciais pós-sinápticos quando se aplica um a des­ Acredita-se que, para que ocorram fabulações, deve
carga breve, mas de alta freqüência, de estímulos a um haver tanto um a lesão em estruturas diencefálicas ou
axônio glutamatérgico. N a PLP, a descarga prom ove a têm poro-m ediais, que provoca um a amnésia significati­
rem oção do bloqueio por parte do M g++ dos receptores va, com o uma lesão na região ventromedial do lobo fron­
glutamatérgicos N M D A , perm itindo assim um influxo tal, que leva a desinibição, ausência de autom onitoram en-
de C a++ através desses canais. O aum ento da concentra­ to e perda da autocrítica.
ção de C a++ no neurônio pós-sináptico provoca a ativa­
ção de enzimas proteinoquinases, que fosforilam diver­
T ra n sto rn o de E stresse
sas proteínas, inclusive os receptores do glutamato, e in­
duzem a PLP. E m seguida, seria liberado um mensagei­ P ó s-tra u m á tic o (T E P T )
ro retrógrado, que iria atuar sobre as proteinoquinases da E m situações de estresse, a amígdala m edeia a libera­
terminação pré-sináptica, produzindo um a intensificação ção de adrenalina, noradrenalina e cortisol. A adrenalina
sustentada da liberação do neurotransmissor, assim per­ e a noradrenalina m elhoram a m em ória explícita, o que
petuando a PLP. poderia explicar o porquê de, em alguns casos, ser ex­
A PLP foi descrita prim eiro no hipocam po e, mais cepcionalmente nítida a rememoração de um evento trau­
tarde, em muitas outras regiões cerebrais. Acredita-se que mático.
a PLP seja o principal mecanismo da m em ória, p o r p o ­ O cortisol aum enta a atividade da amígdala, mas di­
der ser, à semelhança desta, sinapse-específica, associati­ m inui a do hipocam po. Presum e-se que, no T E P T , ní­
va e de longa duração. veis m uito altos de cortisol levariam a um a destruição de
células hipocampais e a um a dim inuição do volum e do
hipocam po. C om isso, no T E P T , é possível que a m e­
A m n ésia In fan til
m ória explícita do evento traum ático seja perdida, ao
N ão tem os memórias explícitas dos prim eiros anos de m esm o tem po em que a sua m em ória em ocional persis­
nossas vidas provavelm ente porque o hipocam po não se tiria por toda a vida.
CAPÍTULO 9

LIN G U AG EM

IN T R O D U Ç Ã O L in g u a g e m e P e n sa m e n to
Linguagem e pensam ento estão intim am ente relacio­
D efin ição de L in g u ag em nados, não podendo ser facilmente separados, mas são dois
Linguagem é u m sistema arbitrário de signos - foné­ fenôm enos distintos. P odem ocorrer perturbações do
ticos e gráficos (as palavras) —, que funciona com o um pensamento não associadas a perturbações da fala, e vice-
processo interm ediário entre o pensam ento e o m undo versa. P odem existir pensamentos sem linguagem, com o
externo. nos devaneios; assim com o palavras não associadas a p en­
samentos, com o frases sem sentido usadas puram ente para
a interação social.
As F u n çõ es da L in g u ag em O estudo da linguagem tem com o objeto as palavras,
A linguagem possui as seguintes finalidades: com uni­ enquanto o estudo do pensam ento se refere às idéias. A
cação social, expressão de vivências internas (pensamen­ linguagem m olda o pensam ento e é fundamental para a
tos, sentimentos), organização da experiência sensorial e sua elaboração e expressão. Só com a aquisição da lin­
dos processos mentais, tradução dos estímulos externos, guagem, e a conseqüente utilização de conceitos, é que
indicação e descrição das coisas, transmissão de conheci­ se desenvolve na criança o pensam ento abstrato.
m entos e regulação da conduta.
P ro só d ia
C aracterísticas da L in g u ag em Além do com ponente cognitivo, a linguagem possui
A linguagem é um a form a de com unicação especifi­ ainda um com ponente afetivo, que é a prosódia. Esta é
camente hum ana. Animais inferiores apresentam formas constituída pela musicalidade, entonação e inflexões da
de comunicação extrem am ente estereotipadas. Mesmo fala, além da gesticulação.
outros primatas possuem um a capacidade m uito limita­
da para o aprendizado da linguagem humana.
A tala é um processo criativo: a partir de um núm ero A L T E R A Ç Õ E S D A L IN G U A G EM
finito de palavras e regras gramaticais, produzim os uma N ão fazjparte da psicopatologia o estudo.dO-S distúrbi­
infinidade de sentenças e significados. A gramática cons­ os restritos ao aparelho fonador, isto é, as perturbações
titui-se de regras de combinação de fonemas para a for­ no processo mecânico da fala. Estas não interferem na
mação de palavras (morfologia); e de regras de com bina­ com preensão da linguagem e, principalm ente, podem
ção de palavras para a formação de frases (sintaxe). ocorrer na ausência de um transtorno mental. Assim, não
Através da linguagem, podem os abstrair e generalizar estudaremos as disartrias (dificuldade mais ou menos ge­
os elem entos da realidade. A linguagem se exterioriza ral na articulação da palavra, prejudicando especialm ente
através da fala (e da escrita), um fenôm eno psicom otor. a pronúncia de consoantes), as dislalias (deform ação,
48 L inguagem

omissão ou substituição restrita a determ inadas conso­ afasia fluente, mas o paciente tem dificuldades em com ­
antes), as disfemias (com o a tartamudez) e as disfonias preender a própria fala. As palavras são pronunciadas de
(perturbação da voz, atingindo principalm ente as vo- forma defeituosa (há parafasias literais e semânticas), e a
gais). sintaxe pode estar bastante alterada (paragramatismo). As
P o r outro lado, a distinção entre distúrbios orgânicos capacidades de repetição e de nom eação tam bém estão
e distúrbios psíquicos (ou funcionais) da fala, encontrada comprometidas.
em diversos textos de psicopatologia, é bastante criticável, N a afasia sensorial, há lesão na região póstero-superior
p o r basear-se na presunção da existência de uma separa­ do lobo tem poral esquerdo (área de W ernicke).
ção m ente—corpo.
A fasia de C o n d u ç ã o
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N T IT A T IV A S N a afasia de condução, há fluência, a compreensão é
normal, mas a capacidade de repetição e a de nomeação
Afasias estão com prom etidas. Esse tipo de afasia está relaciona­
do a lesões no fascículo arqueado, que conecta a área de
Os termos afasia e disfasia são, com freqüência, usados
W ernicke com a de Broca.
de forma intercambiável, todavia, mais precisamente, o
prim eiro se refere a um a perda, e o segundo, a um pre­
juízo ou dificuldade quanto à linguagem. A fasia G lobal
As afasias são distúrbios adquiridos da capacidade lin­ N a afasia global — relacionada a lesões das áreas de
güística — na compreensão ou na expressão — , que ocor­ Broca e de W ernicke —, a expressão, a com preensão e a
rem na ausência de incapacidade m otora do órgão fona­ repetição estão comprometidas.
dor. Estão relacionadas a lesões cerebrais —causadas prin­
cipalmente p or distúrbios vasculares, tum ores e proces­
A fasia T ran sco rtical
sos degenerativos, com o a doença de Alzheimer.
As afasias podem ser classificadas como: m otora (ex­ A principal característica da afasia transcortical é a pre­
pressiva, ou de Broca), sensorial (receptiva, ou de W e r­ servação da capacidade de repetição. Trata-se de um a
nicke), de condução, global, transcortical e anôm ica (se­ afasia não-fluente, podendo estar a capacidade de com ­
mântica, amnéstica). preensão com prom etida ou não.

A fasia M o to ra A fasia A n ô m ic a
A afasia m otora constitui um a apraxia verbal. Os pa­ N a afasia anômica, há dificuldade em nom ear objetos.
cientes conseguem utilizar os músculos fonadores para A expressão, a compreensão e a repetição são normais.
outros fins que não a fala.
Trata-se de um a forma de afasia não-fluente. O dis­ A grafia
curso, emitido com grande dificuldade, caracteriza-se por
A agrafia caracteriza-se pela incapacidade isolada para
frases curtas ou simplesmente fragmentos de palavras, e
escrever, p o r lesão da segunda circunvolução frontal.
pela perda da estrutura gramatical (agramatismo: ausên­
Pode tam bém estar associada às afasias.
cia de artigos, preposições, conjunções, advérbios de lu­
gar e verbos auxiliares). Além disso, os pacientes com e­
tem erros parafásicos literais, e há aprosódia. A com pre­ A lexia
ensão da linguagem, assim com o a capacidade de nom e­ N a alexia, perde-se a capacidade para a leitura. Pode
ação, está preservada, mas a capacidade de repetição (do ocorrer isoladamente ou associada às aíasias e às agrafias.
que o examinador fala) está com prom etida.
A afasia m otora está relacionada a lesões na região
A p ro só d ia (h ip o p ro só d ia)
póstero-inferior do lobo frontal esquerdo (área de Broca).
N a aprosódia ou na hipoprosódia há, respectivam en­
te, perda ou diminuição da modulação afetiva da fala, que
A fasia S ensorial se torna m onocórdica, m onótona. Pode haver tam bém
A afasia sensorial corresponde a um a agnosia verbal. perda (ou diminuição) da capacidade de com preender a
H á perda da capacidade de com preender a linguagem, e prosódia da fala das outras pessoas. Esse distúrbio relacio­
a audição, p or definição, não está prejudicada. E um a na-se a lesões no hemisfério direito.
L in guagem 49

H ip e rp ro só d ia A L T E R A Ç Õ E S Q UALITATIVAS
A hiperprosódia caracteriza-se por um a acentuação da
inflexão verbal; um a fala enfática, loquaz. O corre na m a­ E colalia
nia. A ecolalia consiste na repetição, com o um eco, da
últim a ou últimas palavras faladas pelo entrevistador (ou
M u tism o outra pessoa do ambiente), dirigidas ou não ao paciente.
C orresponde, na linguagem, o que são a ecomimia e a
M utism o significa ausência da fala. Pode expressar n e­
ecopraxia na psicom otricidade. O corre na esquizofrenia
gativismo (silêncio deliberado) ou inibição psíquica (no
catatônica, no autismo e na demência.
estupor esquizofrênico, depressivo, histérico ou do deli­
rium ).
Palilalia
L o g o rréia A palilalia consiste na repetição involuntária da últi­
m a ou últimas palavras que o próprio paciente falou.
A logorréia (ou verborréia, ou verborragia) refere-se
O corre na demência.
a um a expressão verbal aum entada. O paciente fala o
tem po todo e é difícil interrom pê-lo. Ela é observada
tipicam ente nos estados maníacos. L o g o clo n ia
A logoclonia é semelhante à palilalia, só que a repeti­
O ligolalia ção é apenas das últimas sílabas. E encontrada tipicamente
na demência.
A oligolalia refere-se a um a expressão verbal dim inuí­
da, mas não abolida. Consiste no oposto da logorréia. É
observada nas mesmas situações em que o m utism o pode
E ste re o tip ia verbal
ocorrer. A estereotipia verbal (ou verbigeração) consiste num a
repetição m onótona, inadequada e sem sentido com u­
nicativo de palavras ou frases. O corre na esquizofrenia
H ip e rfo n ia
catatônica e na demência.
A hiperfonia representa um a elevação do volum e da U m paciente ficava o dia inteiro gritando “É uma coisa!
voz, isto é, falar excessivamente alto. É um a coisa!” . N ão pronunciava praticam ente nen h u ­
ma outra palavra.
H ip o fo n ia
A hipofonia representa um a redução do volum e da M ussitação
voz, isto é, falar excessivamente baixo, o que às vezes N a mussitação, o paciente fala com um a voz sussurra­
torna impossível entender o que se está dizendo. da, em tom m uito baixo e m onótono, quase sem m over
os lábios; fala para si próprio, e de forma incom preensí­
T aquilalia e B radilalia vel. Esse distúrbio ocorre na esquizofrenia.

Taquilalia (ou taquifasia) e bradilalia (ou bradifasia) re-


ferem-se, respectivamente, a um aum ento e a um a di­ N eo lo g ism o s
minuição da velocidade da expressão verbal. C orrespon­ N eologism os consistem em palavras novas, criadas
dem às alterações do curso do pensamento. pelos pacientes, ou palavras já existentes às quais é atri­
buído um novo significado. P odem ser resultado de uma
L atên cia da R esp o sta fusão de conceitos, ou consistir num a tentativa de expres­
sar vivências extraordinárias que o vocabulário com um
A latência da resposta retere-se ao tem po que o pa­ não conseguiria expressar. São encontrados principalmen­
ciente dem ora para responder às perguntas do exam i­ te na esquizofrenia.
nador, podendo estar aum entada ou dim inuída. O au­
m ento pode expressar um a inibição psíquica (como na
depressão), negativism o ou suspicácia. A dim inuição
Jarg o n o fasia
pode estar relacionada a um a síndrom e m aníaca ou a A jargonofasia (ou salada de palavras, ou esquizofasia,
ansiedade. ou confusão de linguagem) representa uma completa de­
50 L in g u a g em

sorganização da linguagem, cuja sintaxe se tom a inteira­ R esp o stas A p ro x im ad as


m ente incoerente. Palavras reconhecíveis, em geral arti­ Em diversos livros, as respostas aproximadas são deno­
culadas corretam ente, são emitidas num a ordem caótica minadas “para-respostas” , mas trata-se de um fenômeno
e ilógica, podendo ainda ser misturadas com neologis- bem diferente do que acaba de ser descrito. O paciente,
mos, o que torna o discurso sem qualquer sentido, inin­ embora compreenda perfeitamente a pergunta e conheça
teligível. O corre na esquizofrenia e na afasia sensorial. a resposta correta, deliberadamente dá um a resposta erra­
da. Por exemplo: “Quantas patas tem um cachorro?” —
Parafasias Resposta: “C inco” ; ou então: “Quantos são ‘3 X 3 ’ ?” —
As parafasias referem-se à deformação ou troca de pala­ Resposta: “D ez” .
vras, podendo ser literais ou verbais. A parafasia literal (ou R espostas aproxim adas o co rrem n u m quadro de
fonêmica) caracteriza-se pela substituição de uma palavra por pseudodem ência (dissociativa) conhecido com o síndrome
outra de som semelhante, com o faca por vaca, cadeira por de Ganser, descrito por Ganser em 1898.
cameila. Ocorre nas afasias m otora e sensorial. A parafasia
verbal (ou semântica), por sua vez, é caracterizada pela subs­
tituição de um a palavra por outra semanticamente relacio­ O E X A M E D A L IN G U A G EM
nada, como faca por gafo. Ocorre na afasia sensorial. A expressão oral e a compreensão auditivo-verbal são
avaliadas de forma inform al durante toda a entrevista.
S olilóquio Todavia, alguns testes podem ser necessários, com o os
O solilóquio refere-se ao comportamento de falar sozi­ encontrados no M in i-M en ta l State E xa m in a tio n :
nho. E um a manifestação indicativa de alucinação auditiva. — A com preensão pode ser avaliada através de ordens
transmitidas oralmente ao paciente, com o “T oque sua
C o p ro lalia orelha direita com sua mão esquerda” ; perguntas sim­
ples, com o “Os bairros são maiores do que as cida­
N a coprolalia, o discurso é caracterizado pela presen­
des?” ; ou ordens por escrito, com o “Feche os olhos” .
ça de palavras obscenas, vulgares ou relativas a excrem en­
tos. Q uando se constitui num tique verbal, é uma m ani­ — Capacidade de nomeação: mostra-se ao paciente uma
festação típica da síndrom e de Tourette. caneta e um relógio, por exemplo, e pede-se que diga
com o se chamam esses objetos. O u então pede-se que
ele, em um m inuto, cite todos os nomes de animais
G lossolalia
que puder.
N a glossolalia, é com o se o indivíduo estivesse falan­ — Capacidade de repetição: pede-se ao paciente que re­
do um a outra língua. Ele produz sons ininteligíveis, m an­ pita frases com o “N e m aqui, nem ali, nem lá.” , ou
tendo os aspectos prosódicos da fala normal. "Sem quês, nem mas, nem porquês.”
— Expressão: solicita-se ao paciente que escreva um a frase
M an eirism o s (com sujeito, verbo e objeto).

N o m aneirismo verbal, a fala torna-se pouco natural,


afetada, seja quanto à escolha das palavras (rebuscamentos,
A LIN G U A G EM N O S P R IN C IP A IS
uso de palavras difíceis, formalismo exagerado), à p ronún­
cia, ao sotaque ou à inflexão verbal (disprosódia ou T R A N S T O R N O S M E N T A IS
paraprosódia).
M ania
P edolalia N a mania, o paciente em geral fala alto, está logorreico
e apresenta taquilalia. hiperprosódia e dim inuição da la-
N a pedolalia, o paciente fala com um a voz infantili-
tência de resposta, podendo apresentar ainda coprolalia,
zada.
em lunção da perda da autocensura.

P ara-R esp o stas


Para-respostas são respostas totalmente disparatadas em
D epressão
relação às perguntas. P or exemplo: “ Qual é o seu nom e?" Tipicam ente, na depressão há oligolalia ou m utismo,
—Resposta: “Acho que vai chover” . São encontradas na bradilalia, hipoíonia e aum ento da latência de resposta,
esquizofrenia e na demência. podendo ocorrer tam bém hipoprosódia ou aprosódia.
Linguagem 51

E sq u izo fren ia A área de W ernicke localiza-se na região póstero-su-


perior do lobo tem poral esquerdo, estando intim am ente
Na esquizofrenia podem ocorrer mussitaçào. solilóquio,
relacionada às áreas auditivas primária e secundária, no
jargonofasia, neologismos, maneirismos. para-respostas, lobo temporal.
aprosódia. Particularmente no subtipo catatònico, podem
ser observados mutismo, ecolalia e estereotipia verbal. r __

A rea de B ro ca
D e m ê n c ia A área de Broca é a principal área da expressão verbal:
proporciona a formação de palavras ao excitar simultanea­
N a demência, pode haver afasias (com parafasias), ecola­ mente os músculos articulatórios e fonatórios. Está locali­
lia, palilalia, logoclonia, jargonofasia, para-respostas, aprosódia. zada na região póstero-inferior do lobo frontal esquerdo.

T ra n sto rn o s C o n v ersiv o s/D isso ciativ o s O s C ircu ito s N eu ro n ais da Fala


Nos transtornos conversivos e dissociativos, pode ha­ A seqüência da transmissão neuronal envolvida na lin­
ver mutismo; ou então o paciente perde a capacidade para guagem falada é mais ou m enos esta: (1) recepção dos
a fala normal, conseguindo apenas sussurrar (afonia histé­ sinais sonoros na área auditiva primária, onde são codifi­
rica). N a síndrom e de Ganser, observamos o fenôm eno cadas as palavras; (2) reconhecim ento das palavras na área
de respostas ap ro x im ad as. E n c o n tra m -s e ta m b ém de W ernicke; (3) formação do pensam ento e escolha das
pedolalia (na puerilidade histérica) e glossolalia (em esta­ palavras na área de W ernicke; (4) transmissão da infor­
dos de transe psicogênicos). mação da área de W ernicke para a de Broca através do
fascículo arqueado; (5) processamento em preparação para
a fala na área de Broca; e (6) transmissão de sinais para o
C O N T R IB U IÇ Õ E S DA córtex m otor, que ativa então os músculos da fala.
PSIC A N Á L ISE
Para Freud, um a idéia só pode tom ar-se consciente se E stru tu ra s S u b co rticais
ligada a um a representação de palavra, a um a im agem Além das áreas de W ernicke e de Broca, outras estru­
verbal. Isso ocorre porque esta guarda características sen- turas parecem ser im portantes para a linguagem, com o o
soriais: origina-se na audição por parte da criança das tálamo esquerdo, o núcleo caudado esquerdo e a subs­
palavras pronunciadas pelas outras pessoas. tância branca adjacente.
E a aquisição da linguagem que possibilita o desen­
volvim ento do pensam ento do processo secundário a
L in g u a g e m e C o g n ição
partir do pensam ento do processo primário.
A maior parte das informações sensoriais é convertida
em linguagem antes de ser armazenada como recordação
C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS e antes de ser utilizada em outros processos cognitivos.
N E U R O C IÊ N C IA S E DA
P S IC O L O G IA C O G N IT IV A U m a G ra m á tic a U niversal
Para o lingüista norte-am ericano N oam Chom sky, o
L ateralid ad e da L in g u ag em cérebro hum ano está geneticam ente program ado para
A linguagem está relacionada ao hemisfério cerebral reconhecer no ambiente, aprender e utilizar a linguagem:
dom inante, que, em 90% das pessoas destras e em 64% haveria um mecanismo intato para a aquisição da lingua­
dos canhotos e ambidestros, é o hemisfério esquerdo. gem. Observa-se que as crianças são capazes de com pre­
ender e empregar regras gramaticais que jamais lhes fo­
r
A rea de W ernicke ram ensinadas. Além disso, certas unidades fonológicas,
sintáticas (como substantivo , verbo, etc.) e semânticas (como
A área de W ernicke é a principal área de com preen­ masculino, objeto físico, etc.) seriam encontradas em todas
são da linguagem. Está relacionada à formação de pensa­ as línguas, tendo portanto um caráter universal.
m entos e à escolha das palavras que irão expressá-los.
E especialmente desenvolvida no hom em . Embora seja
encontrada nos chimpanzés, não é detectada nos cére­
P ro só d ia
bros dos símios ou de macacos antropóides. A prosódia está relacionada ao hemisfério direito.
CAPÍTULO

PENS A M E N T O (exceto delírio)

IN T R O D U Ç Ã O A tividades F u n d a m e n ta is do
P e n sa m e n to
O P en sar
As atividades fundamentais do pensam ento são: a ela­
A palavra pensar v e m do verbo latino pendere, que sig­ boração de conceitos, a formação de juízos e o raciocí­
nifica ficar em suspenso, examinar, pesar, ponderar. nio.
O pensar está relacionado à antecipação de aconteci­ U m conceito identifica os atributos ou qualidades mais
mentos, à construção de modelos da realidade e simula­ gerais e essenciais de um objeto ou fenôm eno. É expres­
ção do seu funcionam ento. so por uma palavra. Está relacionado a abstração e gene­
ralização. P or exemplo: céu e a zu l são conceitos.
O ju íz o estabelece um a relação entre dois ou mais con­
Os A trib u to s Intelectivos
ceitos. Consiste no ato da consciência de afirmar ou ne­
F u n d a m e n ta is gar algum atributo ou qualidade a um objeto ou fenô­
Para N obre de M elo (1981), os atributos intelectivos m eno. E com posto por um sujeito, um verbo de ligação
fundamentais que sustentam o pensamento são: a com ­ e um predicado. P or exemplo: “ O céu é azul” .
preensão intelectual (apercepção), a ideação, a imagina­ Raciocínio representa um a operação m ental que relaci­
ção e a associação de representações e idéias.* ona juízos, levando à formação de novos juízos (ou con­
A idéia difere da imagem representativa (ou mnêmica) clusões). P or exemplo: “T odo hom em é m ortal” ; “Só­
por ser imaterial, abstrata e geral, não-redutível ao sen- crates é um hom em ” , portanto “Sócrates é m ortal” . U m
sorial. Associação é o processo psíquico através do qual raciocínio pode ser indutivo (do particular para o geral),
se estabelecem relações significativas entre as imagens per- dedutivo (do geral para o particular), ou analógico (de
ceptivas, representativas e imaginativas e as idéias. As um particular para outro particular).
conexões do pensam ento se fazem passivamente quando
o processo associativo segue as leis de semelhança, de
contraste ou de contigüidade (no tem po ou espaço). Mas
M odalidades de P e n sa m e n to
o pensam ento tam bém pode possuir um a tendência do­ O pensam ento lógico-form al (ou aristotélico) é cons­
m inante, que o direciona ativamente a uma certa finali­ tituído por três princípios:
dade: o processo associativo é impulsionado p or um a idéia
— Princípio da identidade ou da não-contradição: seA
fundamental (ou idéia-alvo, ou representação-diretriz).
é A e B éB, logo A não pode ser B.
— Princípio da causalidade: se A é causa de B,então B
não pode ser ao m esm o tem po causa de A.
*N .A .: A apercepção, a im aginação e a im ag em representativa são discutidas
— Princípio da relação da parte com o todo: se A é parte
e m o u tro s capítulos. de B, então B não pode ser parte de A.
54 Pensam ento (E xceto D elírio)

D e acordo com a dialética hegeliana, a quantidade A le n te c im e n to do C u rso


pode se transformar em qualidade; toda afirmação possui
N o alentecim ento do curso do pensamento (ou retar­
dentro de si mesma o princípio de sua negação; e tudo é,
do, ou inibição do pensam ento, ou bradipsiquismo), o
ao mesmo tem po, causa e efeito de si mesmo.
paciente fala mais devagar; há um a redução no núm ero
Já o pensamento mágico-arcaico baseia-se na lei da se­
de idéias e representações, e inibição do processo associa­
melhança —se dois objetos se parecem externam ente, eles
tivo. Esse fenôm eno é tipicam ente observado na depres­
têm propriedades idênticas —e na lei da contigüidade —
são, ocorrendo tam bém na dem ência e no estupor do
se dois objetos estão próxim os, eles se influenciam m u ­
delirium ou da esquizofrenia catatônica.
tuam ente e trocam propriedades entre si.

In te rru p ç ã o do C u rso
A spectos d o P e n sa m e n to
A interrupção do curso (ou bloqueio do pensamento)
Curso, forma e conteúdo constituem os aspectos do foi descrita por Bleuler, sendo considerada um a altera­
pensam ento. O curso refere-se à velocidade e ritm o do ção quase exclusiva da esquizofrenia.
pensam ento, à quantidade de idéias ao longo do tem po. Abruptamente, e sem qualquer m otivo aparente, o pa­
A forma, p or sua vez, está relacionada à estrutura do pen­ ciente interrom pe a sua fala, deixando de com pletar uma
samento, à relação entre as idéias. Já o conteúdo diz res­ idéia. Algumas vezes a interrupção se dá no m eio de uma
peito à temática do pensamento, às qualidades ou carac­ frase, ou mesmo de uma palavra. Após u m intervalo, que
terísticas das idéias. varia entre alguns poucos m inutos e várias horas, o paci­
ente pode com pletar o pensam ento interrom pido ou, o
que é mais freqüente, inicia um outro ciclo de pensamen­
ALTERAÇÕES D O PEN SA M EN TO to, inteiram ente diverso do anterior. A vivência do pa­
ciente é a de que o fluxo do seu pensam ento cessou ou
Entre os diversos autores, não há um consenso quan­ rom peu-se, resultando num branco, nu m vazio, em sua
to a quais seriam as alterações do pensamento e a com o m ente. Tal experiência é muitas vezes atribuída pelo
classificá-las. Muitas vezes são cometidas impropriedades, paciente a um roubo do seu pensamento.
com o quando se consideram o roubo, a imposição ou a
divulgação do pensam ento —que constituem alterações
da consciência do eu —e o eco do pensam ento —fenô­
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS
m eno relacionado à sensopercepção — com o distúrbios
do pensam ento. Além disso, é bastante com um um a au­ F u g a de Idéias
sência de distinção entre curso e forma de pensamento.
A fuga de idéias caracteriza-se pela variação rápida e
Aqui é proposta a seguinte classificação das alterações
incessante de tem a, com preservação da coerência do
do pensamento:
relato e da lógica na associação de idéias. A tendência
— Quantitativas —curso (aceleração, alentecim ento, in­ dom inante do pensam ento está enfraquecida e, conse­
terrupção). qüentem ente, há um progressivo afastamento da idéia-
— Qualitativas —forma (fuga de idéias, desagregação, pro­ alvo. Alternativamente, pode-se considerar que diversas
lixidade, m inuciosidade, perseveração) e conteúdo idéias-alvo se sucedem em um pequeno espaço de tem ­
(concretism o; idéias obsessivas; idéias delirantes, po. O pensam ento é facilmente desviado por estímulos
deliróides e sobrevaloradas). externos; e as associações muitas vezes se dão p o r asso-
nância ou aliteração das palavras.
A fuga de idéias está quase sempre associada a logorréia
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N T IT A T IV A S e aceleração do curso do pensamento. Trata-se de uma
manifestação típica da síndrom e maníaca primária, sen­
A celeração do C u rso do ainda observada na intoxicação por cocaína ou anfe­
N a aceleração do curso do pensam ento (ou taquipsi- tamina, na embriaguez alcoólica, na sífilis cerebral, etc.
quismo), o paciente fala mais rápido; há uma m aior p ro­ A seguir, dois exemplos de fuga de idéias:
dutividade ideativa e uma m aior velocidade no processo “Boas tardes! Sim , boas tardes, se a vida é tão doce como o mel.
associativo. Isso ocorre na mania, na intoxicação por Também gosta de açúcar? —fábrica de açúcar — a cana e a corda
cocaína ou anfetam ina e nos estados de ansiedade ou - não quer se enforcar? — Você é assassino - pai do assassino -
agitação psicomotora. o pescoço —o colarinho da camisa — branca como a neve é a ino­
P ensam ento (E xceto D elírio) 55

cência —A h ! A ingênua inocência! — como uma jovenzita — na no mesmo discurso. Isso, no entanto, parece representar
ruazita — agora vive no ruão — no ruazelo — tornozelo —pata, apenas o resultado de uma desagregação do pensamento.
pata de cão, pata de gato, línguas de gato — que sabem como o
chocolate da Suiça — onde estão os loucos.” [retirado de Pio P ro lix id ad e
Abreu (1997), que, p or sua vez, cita Bumke]
A prolixidade caracteriza-se por u m discurso repleto
“Vocêfoi o médico do meu marido. E le voou pela janela. M i­ de detalhes irrelevantes, o que o torna tedioso; a idéia-
nha irmã também se matou. Também pulou pela janela. Ela se
alvo jamais é alcançada ou só o é tardiamente. D ecorre
tratava com o doutor Pitta. E le devia se chamar doutor A p ita ’. de um a incapacidade de síntese, de distinguir o essencial
A i ele apitava, e todos os doentes pulavam pela janela.’'’ do acessório.
E encontrada basicam ente nos quadros em que há
D esag reg ação do P e n sa m e n to com prom etim ento intelectivo, com o no retardo m ental
A desagregação do pensamento caracteriza-se por uma e na demência. Tam bém é observada no transtorno de
perda do sentido lógico na associação de idéias. Há a for­ personalidade associado à epilepsia do lobo tem poral e
mação de associações novas, que são incompreensíveis, ir­ na esquizofrenia.
racionais e extravagantes. Com o conseqüência, altera-se a Alguns autores preferem utilizar os termos circunstan-
sintaxe do discurso, que se tom a incoerente, fragmentado cialidade e tangencialidade para designar esse tipo de p en ­

e, muitas vezes, ininteligível. A desagregação do pensamento samento. O que diferenciaria u m do outro é que, só no
ocorre na esquizofrenia, no delirium, na demência avançada caso da circunstancialidade, a idéia-alvo seria atingida.
e, ocasionalmente, em casos de extrema agitação maníaca.
Pensamento desagregado, pensamento dissociado, pensamento M in u cio sid ad e
incoerente, pensamento confuso, pensamento descarrilado, p e n ­
A minuciosidade caracteriza-se por um discurso com
samento disparatado, pensam ento vago e afrouxamento dos
um núm ero excessivo de detalhes relevantes. Estes são
enlaces associativos possuem significados basicamente seme­
introduzidos para enriquecer a comunicação e, ansiosa­
lhantes, em bora alguns autores, de m aneira não-unifor-
m ente, para evitar quaisquer possíveis omissões. E encon­
me, tentem estabelecer diferenças quantitativas ou qua­
trada no transtorno obsessivo-compulsivo e no transtor­
litativas entre eles. Os termos desagregado (Bleuler), disso­
no de personalidade obsessiva (anancástica).
ciado (Bleuler), descarrilado (Cari Schneider) e disparatado
(Cari Schneider) são mais usados na esquizofrenia; já os
termos incoerente e confuso são empregados mais freqüen­ Perseveração
tem ente nos quadros de delirium. A perseveração, descrita por Pick, caracteriza-se por
Exemplos de pensamentos desagregados: um a recorrência excessiva e inadequada no discurso do
“Pela alma, pode-se viver bem e fazer coisas, mas deixamo-nos mesmo tema, ou um a dificuldade em abandonar deter­
abater, logo a seguir. E como um rapto, que D eus imediata­ m inado tema. Consiste num a perda da flexibilidade do
mente cura com ungüentos, ligaduras e máquinas metidas no pensamento. H á a fixação persistente de um a única idéia-
coração.” [Scharfetter, 1999] alvo e u m em pobrecim ento dos processos associativos.
A perseveração ocorre na demência, retardo mental,
“Epaminondas foi alguém poderoso na terra e no mar. C ondu­
delirium, epilepsia, esquizofrenia.
z iu grandes manobras marítimas e batalhas navais abertas contra
Pelópidas, mas na Segunda Guerra contra Caiíago levou um golpe
na cabeça pelo fracasso de uma fragata armada. Caminhou com C o n c re tism o
navios de Atenas para Mamre, levando para lá uvas da Caledónia O concretism o (ou pensam ento em pobrecido) carac­
e romãs, e sobrepujou os beduínos. Sitiou a acrópole com navios teriza-se por um discurso pobre em conceitos abstratos,
dotados de canhões e incendiou a ocupação persa com tochas vi­ em metáforas e analogias. H á um a intensa adesão ao n í­
vas. O papa posterior Gregário V I I — ah — Nero seguiu seu exem­ vel sensorial e im ediato da experiência. O corre na de­
plo e f e z incendiar todos os atenienses, todos os sexos romanos- mência, no retardo m ental e na esquizofrenia.
germânicos-celtas, que não tinham uma posição definida diante U m a forma especial de concretism o seria a reificação
dos sacerdotes, pelos druidas no dia da morte de Cristo, em honra (res = coisa), que consiste na utilização de expressões e
ao deus do sol, Baal. Este é o período da idade da pedra. Pontas símbolos, não com algo representativo, mas com coisa
de lança de bronze.” [Bleuler, 1985] substantiva, concreta. U m esquizofrênico, por exemplo,
Alguns autores falam em ambivalência ideativa, que se ca­ que diz que roubaram seu pensam ento o está vivencian-
racterizaria pela presença de idéias opostas e contraditórias do com o um objeto físico.
56 Pensam ento (Exceto D elírio)

Idéias O bsessivas C am eron descreveu na esquizofrenia o pensam ento


superinclusivo , que é caracterizado por um a incapacidade
As idéias obsessivas (ou obsessões) possuem as seguin­
de preservar os limites conceituais: idéias irrelevantes ou
tes características:
distantes da idéia principal são incorporadas a esta. Tal
— São idéias tidas pelos próprios pacientes com o absur­ descrição parece corresponder, pelo m enos em parte, ao
das, irracionais, sem sentido, repulsivas, desagradáveis que se conhece com o prolixidade.
ou ansiogênicas; Q uanto ao conteúdo, ocorre u m concretism o reifi-
— que o indivíduo reconhece com o próprias; cante (ou coisificação). O em pobrecim ento do pensa­
— que são repetitivas ou persistentes; m ento é um sintoma negativo da esquizofrenia.
— que se im põem à sua consciência contra a sua vontade;
— e que levam a violenta luta interna, isto é, o indiví­
duo se esforça para afastá-las de sua m ente ou realiza
M ania
cerimoniais preventivos ou expiatórios. N a mania, tipicamente o pensamento é acelerado, com
São exemplos de conteúdos de idéias obsessivas: dú­ fuga de idéias. Se a aceleração for m uito intensa, pode
vidas torturantes, sacrilégios, tentações censuráveis, pres­ haver desagregação. Mas, se a aceleração for extrem am en­
ságios quanto a tragédias ou m orte relacionadas a famili­ te intensa, pode ocorrer m utism o (estupor maníaco).
ares ou a si próprio.
As idéias obsessivas, estudadas inicialmente por Westphal, D epressão
são encontradas principalmente no transtorno obsessivo-
N a depressão, o pensam ento está em geral alentecido.
compulsivo, mas também na depressão e na esquizofrenia.
Algumas vezes temas niilistas, de culpa ou negação, mes­
m o que não sejam sob a forma de u m delírio, podem se
Idéias D eliran tes tom ar perseverantes.
As idéias delirantes (ou delírios), assim com o as idéias
deliróides e as sobrevaloradas, são consideradas pela m ai­ D e m ê n c ia e R e ta rd o M ental
oria dos autores com o alterações do conteúdo do pensa­
Em função de déficit intelectivo, o pensam ento tor­
m ento. Mas, devido à grande im portância e am plitude
na-se prolixo ou perseverante e concreto nos quadros de-
do tema, a elas foi reservado um capítulo à parte.
menciais e no retardo mental.

O EXAM E D O PEN SA M EN TO Delirium


A fala do paciente é o único m eio de acesso ao seu O pensamento no delirium pode se tom ar acelerado ou
pensam ento. N ão é possível, portanto, avaliar o pensa­ alentecido e desagregado.
m ento de u m paciente em m utismo.
E pilepsia do L o b o T em p o ral
O PENSA M ENTO NOS N a epilepsia do lobo tem poral, observa-se prolixida­
P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S de e perseveração.

M E N TA IS
T ra n sto rn o O bsessivo-com pulsivo
E sq u izo fren ia (T O C )
Tipicamente, na esquizofrenia, o curso do pensamento é N o T O C , o pensam ento é m inucioso, com a presen­
interrompido; mas pode ser normal, acelerado (nas agitações) ça de idéias obsessivas.
ou alentecido (no estupor). O bloqueio do pensamento clas­
sicamente era considerado patognomônico de esquizofrenia.
Q uanto à forma, o pensamento é desagregado, poden­ C O N T R IB U IÇ Õ E S D A
do ser ainda prolixo ou perseverante. Para Bleuler, o
PSIC A N Á L ISE
afrouxam ento nas associações de idéias era o distúrbio
prim ário da esquizofrenia. A desagregação está relacio­ P e n sa m e n to do P ro cesso P r im á r io /
nada a um fenóm eno típico da esquizofrenia denom ina­
P e n sa m e n to do P rocesso S ecu n d ário
do fusão, que consiste na justaposição absurda e incom ­
preensível de idéias e conteúdos heterogêneos. Para Freud, há duas modalidades de pensamento: o do
P ensam ento (E xceto D elírio) 57

processo prim ário e o do processo secundário. O pensa­ impulsos agressivos - relacionados ao conteúdo da mai­
m ento do processo secundário: oria das idéias obsessivas —, o que vai intensificar confli­
— é para nós mais familiar, é o pensamento comum, cons­ tos intrapsíquicos. H á intensa ambivalência —am or e ódio
ciente, que é basicamente verbal e obedece às leis de em relação ao mesmo objeto —, e o paciente tem e des­
truir os objetos que ama. Além disso, intensifica-se o p en ­
sintaxe e à lógica.
samento mágico, que é onipotente: “pensar faz acontecer” .
— é característico do ego m aduro e da vigília.
— constitui uma modificação do pensamento do processo P or fim, o superego se torna mais rígido e punitivo.
primário; surge em função da constatação da ineficácia
da tentativa de satisfação pulsional através da alucinação
do objeto, e em função do desenvolvimento do ego. C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
— está relacionado ao princípio da realidade, que se ca­ N E U R O C IÊ N C IA S E D A
racteriza pelo adiam ento da satisfação pulsional. P S IC O L O G IA C O G N IT IV A
— está relacionado à energia psíquica vinculada, que se ca­
racteriza pela pequena intensidade das descargas (mas O b jeto s M entais
há sem pre alguma descarga) e p o r u m escoam ento
As imagens perceptivas e representativas e os concei­
controlado, o que perm ite a associação de idéias (e um
tos representam os objetos mentais. Estes se im bricam uns
m enor dispêndio de energia).
nos outros form ando um a corrente, cujo fluxo no tem ­
O pensam ento do processo primário: po constitui o pensamento.
— é basicamente não-verbal (imagens, principalmente visu­ Os objetos mentais são gerados pela atividade de uma
ais, podem substituir uma palavra); não há quaisquer con­ população de neurônios localizados no córtex associati­
junções negativas ou condicionais; elementos antagôni­ vo. São processados na m ente, o que perm ite efetuar
cos podem substituir um ao outro ou estar lado a lado; cálculos e antecipar acontecimentos.
não há sentido de tempo; é freqüente a representação por
alusão ou analogia, ou a parte pode representar o todo, ou
O P e n sa m e n to
vice-versa (deslocamento); mais de um elemento pode ser
representado por um único (condensação). O pensam ento é um processo executado em paralelo,
— é característico da prim eira infância, quando o ego simultaneam ente e sem consciência, exceto quando há
ainda é im aturo (mas não desaparece na vida adulta), uma tradução para a linguagem. A função consciente está
e do sonho. relacionada ao hemisfério dom inante. E m pacientes que
— está relacionado ao princípio do prazer, que se carac­ sofreram rem oção do corpo caloso, inform ações que
teriza pelo não-adiam ento da satisfação pulsional. chegam apenas ao hemisfério não-dom inante são regis­
— está relacionado à energia psíquica livre, que se carac­ tradas, mas não se tom am conscientes. O pensamento lida
teriza pela grande intensidade das descargas; não há com classes gerais, e não com elementos individuais de
associação de idéias: a energia de um a idéia é coloca­ objetos mentais, o que torna im portante a classificação
da em outra (deslocamento) ou a energia de mais de destes em categorias.
uma idéia é concentrada num a só (condensação). O pensamento precede a ação, o que se conclui a partir
de estudos com potenciais evocados, nos quais se regis­
tram potenciais elétricos no córtex cerebral antes do iní­
A R eificação n a E sq u izo fren ia cio de u m m ovim ento voluntário. Ele parece estar rela­
N a esquizofrenia, num primeiro m om ento, toda a ener­ cionado ao córtex cerebral, ao tálamo, ao sistema lím bi-
gia ligada aos objetos é retirada e retom a ao ego. N um a co e à formação reticular superior do tronco cerebral.
tentativa de recuperação, o esquizofrênico reinveste a ener­
gia nos objetos, mas só nas representações de palavra, não
nas representações de coisa. C om isso, as representações
O C ó rte x P ré -fro n ta l
de palavras são tratadas com o representações de coisa: o C om base na observação de pacientes que sofreram lo-
significante assume o lugar do significado. botom ia pré-frontal, pode-se afirmar que o córtex pré-
frontal está relacionado com o planejam ento da ação,
previsão das conseqüências das ações motoras, controle
Idéias Obsessivas do com portam ento de acordo com as norm as morais,
N o transtorno obsessivo-compulsivo, há um a regres­ resolução de problemas complexos e seleção da resposta
são para a fase anal-sádica, sendo assim reforçados os m otora mais apropriada —e modificação ou interrupção
58 Pensam ento (Exceto D elírio)

da ação m otora — em função da avaliação de inform a­ quando sofrem alguma lesão, há u m com prom etim ento
ções sensoriais interoceptivas e exteroceptivas. m aior nessas funções do que quando o dano afeta as áreas
O córtex pré-frontal teria tam bém com o função a ela­ pré-frontais.
boração do pensamento, o que está relacionado com a
m em ória de trabalho (ou operacional). Esta consiste num
T ra n sto rn o O bsessivo-com pulsivo
processo de m em ória de curto prazo em que há o arma­
zenam ento tem porário de informações, as quais são evo­ (T O C )
cadas instantaneamente à medida que são necessárias para O T O C parece estar relacionado a um a hipoatividade
pensamentos subseqüentes, ou para guiar um a ação [ver serotoninérgica, já que as idéias obsessivas apresentam
o Cap. 8, sobre memória]. um a boa resposta aos antidepressivos serotoninérgicos.
As vias dopaminérgicas são proem inentes no córtex C o m o p a c ie n te s c o m a sín d ro m e de G illes de la
pré-frontal. T o u rette e coréia de Sydenham —quadros relacionados
a um a hiperatividade dopam inérgica e a distúrbios nos
r
gânglios da base —freqüentem ente apresentam sintomas
A A rea de W ernicke
obsessivos, acredita-se que o T O C possua um a etiolo­
A área de W ernicke e regiões adjacentes são regiões gia sem elhante.
do hemisfério dom inante relacionadas à com preensão da Estudos de neuroim agem de pacientes com T O C evi­
linguagem. Parecem ser mais importantes para as funções denciam hiperatividade nos lobos frontais, gânglios da
intelectuais superiores do que o córtex pré-frontal, já que, base (caudado) e cíngulo.
CAPÍTULO

DELÍRIO

IN T R O D U Ç Ã O A C o n v icção E x tra o rd in á ria e a


N ão -su sc e p tib ilid a d e à Influência
E tim o lo g ia
O delírio caracteriza-se por um a certeza subjetiva ab­
A palavra delirar é derivada do latim delirare (de = fora; soluta, por um a firmeza irremovível da convicção, p o r
liros = sulcos), que significa literalmente lavrarfora do sulco.
um a impossibilidade de modificação diante do desm en­
tir dos fatos ou da refutação rigorosa: é incorrigível.
D efin ição Clássica de D elírio
D e acordo com Karl Jaspers, idéias delirantes (ou de­ A Im p o ssib ilid ad e d o C o n te ú d o
lírios) são juízos patologicam ente falsos, que possuem as
A impossibilidade do conteúdo é um critério bastante
seguintes características externas: acompanham-se de uma
criticado, pois considera-se que a m aior parte dos delíri­
convicção extraordinária, não são susceptíveis à influên­
os tem um conteúdo possível, em bora improvável; e, em
cia e possuem u m conteúdo impossível.
alguns casos, o conteúdo do delírio é, por m ero acaso,
verdadeiro.
O D e lírio c o m o u m Ju íz o Falso O juízo falso é impossível e irracional quando está re­
O delírio constitui uma alteração relacionada à forma­ lacionado a um erro lógico, quando o raciocínio subverte
ção de juízos. Através dos juízos, discernimos a verdade os princípios lógicos: tornar existente o que não existe e
do erro. Através do juízo de realidade, distinguimos o que não pode existir. P or exemplo: acreditar estar na Terra e
é real do que é fruto de nossa imaginação. na Lua ao m esm o tem po. Trata-se de um a impossibili­
Todavia, nem todos os juízos falsos são patológicos. dade lógica.
O erro —que tam bém constitui um juízo falso —distin­ O juízo falso é impossível e racional quando está rela­
gue-se do delírio p o r originar-se na ignorância, no ju l­ cionado a u m erro gnoseológico —tornar existente o que
gam ento apressado ou em premissas falsas, e p o r ser pas­ não existe mas pode vir a existir —, e, no raciocínio, os
sível de correção pelos dados da realidade. princípios lógicos são preservados. P or exemplo: antes de
Além disso, há juízos que são considerados delirantes 1969, afirmar ter estado na Lua. Trata-se de uma im pos­
m esmo não sendo falsos. Pode-se afirmar que um juízo sibilidade real.
que coincide com a realidade é delirante quando há uma O juízo falso é possível e im provável quando está re­
incoerência entre a crença e as evidências apresentadas para lacionado a um erro gnoseológico mas tam bém a uma
justificá-la. P or exemplo: o indivíduo que realm ente está possibilidade real, em bora pequena, de ser verdadeiro.
sendo traído descobre que a m ulher lhe é infiel ao ouvir Delírios bizarros são geralm ente impossíveis, enquan­
u m cachorro latindo. O u seja, o juízo é verdadeiro, mas to delírios não-bizarros são geralm ente improváveis. N o
o raciocínio foi patológico: chegou-se ao destino corre­ entanto, na prática, fazer essa distinção não é tão sim­
to p o r um cam inho errado. ples, havendo u m baixo grau de concordância quando
60 D elírio

se com param as avaliações de diferentes psiquiatras obieto real. Essa significação se dá de forma simultânea
(Sedler, 1995). ao ato perceptivo. O significado é para o observador algo
ilógico, absurdo e incompreensível. Para o doente, o sig­
nificado é em geral auto-referente; tem o caráter de um
O u tra s C aracterísticas d o D elírio aviso, m ensagem ou revelação; é algo especial, de gran­
O delírio constitui uma vivência individual, idiossin­ de importância, que é sentido com o imposto. U m exem ­
crática. C o m isso, distingue-se das crenças culturalm en­ plo seria o seguinte: o indivíduo vê um cachorro urinando
te compartilhadas, com o os dogmas religiosos, os quais na rua e sabe que o m undo vai acabar. A percepção deli­
podem possuir as mesmas características apontadas por rante é um dos sintomas de prim eira ordem da esquizo­
Jaspers em relação ao delírio. frenia (K. Schneider). Ela difere da interpretação deliróide
T odo delírio é de certa forma auto-referente, no sen­ porque, nesta, o significado anormal é dado a posteriori,
tido de que o seu conteúdo está direta ou indiretam ente às vezes de im ediato, mas nunca simultaneam ente ao ato
relacionado ao enferm o. O delírio se transforma no eixo perceptivo; e porque, na interpretação deliróide, é m an­
em torno do qual passa a girar a vida do indivíduo. tida um a conexão lógica, com preensível, entre o ato
E m função de sua convicção extraordinária, o delirante perceptivo e o significado a ele atribuído.
não sente a necessidade de com provar objetivam ente a N a representação delirante, um significado anormal é dado
veracidade de seu juízo e pode não achar im portante a uma recordação normal. Por exemplo: “ E u podia m ui­
convencer as outras pessoas de que está certo. to bem ser o filho do rei Luís’ —uma recordação clara, de
Muitas vezes há uma discrepância entre o delírio e a como o imperador, ao passar a cavalo, na parada, vista há
conduta do paciente: ou este não muda em nada seu com ­ alguns anos, olhou justamente para ele, o confirma” (Jaspers).
portam ento, ou age de forma diferente do que se espe­ A cognição delirante consiste em uma convicção patoló­
raria de alguém que realm ente estivesse na sua situação. gica intuitiva, um a certeza súbita, um a revelação imedia­
Delírios são experim entados subjetivamente com ca­ ta, que prescinde por completo de conexões significativas
racterísticas mais de saber do que acreditar (Sedler, 1995), com quaisquer dados perceptivos ou representativos. O cor­
o que tam bém os distinguem das crenças religiosas. re mais em quadros psicóticos agudos do que crônicos. Ao
contrário da percepção delirante e da representação deli­
rante, constituídas por 2 membros —a percepção ou re­
D E L ÍR IO P R IM Á R IO , D E L ÍR IO cordação normal + a significação anormal —, a cognição
delirante possui um único m em bro (K. Schneider).
S E C U N D Á R IO E ID É IA
SO B R E V A L O R A D A
D e lírio S ecu n d ário
D e lírio P rim á rio O d elírio sec u n d ário tam b ém é ch am ad o id éia
O delírio primário é a idéia delirante autêntica. Ele é deliróide. Ele se origina de forma compreensível psico­
autóctone, isto é, não deriva de nenhum a outra m ani­ logicam ente de outras manifestações psíquicas patológi­
festação psíquica patológica. É incompreensível: não pode cas, tais com o alterações do hum or, da sensopercepção e
ser seguido psicologicamente até a sua origem, é algo de da consciência.
“últim o e derradeiro” (Jaspers). Está relacionado a uma São exemplos de delírios secundários: as idéias de culpa
profunda transformação da personalidade, sendo a expres­ na depressão —a tristeza vital é considerada primária —, as
são de um processo: o surgim ento de algo novo, dura­ idéias de grandeza na mania, as idéias de influência rela­
douro e irreversível na vida mental. Classicamente, seria cionadas a alucinações cenestésicas, as idéias de persegui­
exclusivo da esquizofrenia. ção no delirium tremens, etc.
A distinção delírio prim ário/delírio secundário vem
sendo objeto de críticas por basear-se em pressupostos
V ivências D eliran tes P rim á ria s teóricos não comprovados. Muitas vezes idéias tidas como
K. Jaspers incluiu sob a denom inação de vivências deli­ deliróides apresentam características externas idênticas às
rantes primárias as percepções dehrantes, as representações do delírio verdadeiro.
delirantes e as cognições delirantes. K. Schneider criou
o conceito de ocorrências delirantes , que englobaria as re­
Id éia S obrevalorada
presentações delirantes e cognições delirantes.
A percepção delirante consiste na atribuição de um sig­ N a definição de N obre de M elo, a idéia sobrevalorada
nificado novo, anormal, a um a percepção norm al de um (ou supervalorizada, ou prevalente) é um a idéia errônea
D elírio 61

por superestimação afetiva. O erro decorre do fato de a O delírio interpretativo é secundário a alterações pato­
idéia estar relacionada a um a carga afetiva m uito intensa, lógicas da personalidade, que levam o indivíduo a atri­
que influencia o ju lg am en to da realidade (influência buir a posteriori significados patológicos, em geral auto-
catatímica), to m an d o -o pouco racional. Essa idéia ganha referentes, a situações corriqueiras. A lógica é preserva­
preponderância em relação às demais e orienta unilate- da, e o conteúdo é verossímil. E típico do transtorno
ralm ente a conduta do indivíduo. delirante. Foi descrito inicialmente por Sérieux e Capgras,
N a idéia sobrevalorada, o erro é compreensível psi­ em 1902.
cologicamente em função da vivência em ocional ou de O delírio sensorial é secundário a ilusões e alucinações;
traços de personalidade do indivíduo. A convicção é ocorre na esquizofrenia, na alucinose alcoólica, etc.
m enor do que no delírio: a idéia é mais influenciável. O delírio onírico é secundário às alterações sensopercep-
A idéia sobrevalorada pode ocorrer em pessoas n o r­ tivas e do pensamento observadas nos quadro de delirium.
mais. P o r exemplo: convicções apaixonadas em relação O delírio mnêmico é secundário à atividade fabulatória
a questões científicas, filosóficas, políticas e religiosas, de pacientes amnésticos ou demenciados.
assim com o as idéias dos enamorados sobre o objeto do
seu amor. O corre ainda em alguns transtornos mentais,
com o na hipocondria (preocupações quanto à saúde) e
O T em a d o D elírio
no transtorno de personalidade paranóide (idéias de sus- O conteúdo ou tem a do delírio está relacionado ao
peição e de reivindicação). contexto sociocultural do paciente: hoje em dia, “N a-
Jaspers inclui as idéiaj sobrevaloradas entre as idéias poleões” são raros; na Idade Média, ninguém dizia que a
deliróides, mas isso não é seguido pela maioria dos autores. televisão controlava seus pensamentos. C om o temas dos
delírios, encontram os todos os problemas que preocu­
pam o ser hum ano (Paim, 1998), daí que qualquer clas­
C L A SSIFIC A Ç Ã O sificação é incompleta. U m determ inado delírio pode ser
classificado ao m esm o tem po em várias categorias, visto
D elírio s S iste m a tiz a d o s/D e lírio s que estas não são m utuam ente excludentes: acreditar ser
N ã o -siste m a tiz ad o s Deus constitui u m delírio tanto de grandeza com o místi­
co, p o r exemplo.
N os delírios sistematizados, há um a m aior coerência
O delírio de perseguição foi descrito inicialm ente p o r
interna entre as idéias, um a m aior organização e consis­
Lasègue, em 1852. E o mais com um . O doente acredita
tência. Encontra-se um a rede de argumentações lógicas
que o estão vigiando, querem prejudicá-lo ou mesmo
e compreensíveis. O delirante com idéias de persegui­
m atá-lo.
ção é capaz de dizer quem o persegue, como e por quê. Esse
O delírio de prejuízo seria uma forma atenuada de delí­
tipo é característico do transtorno delirante.
rio persecutório: o indivíduo pensa que as outras pessoas
Os delírios não-sistematizados são fragmentários, caóti­
são hostis em relação a ele, zom bam dele ou o m enos­
cos, desarticulados e sem concatenação. São característi­
prezam.
cos da esquizofrenia.
O delírio de reivindicação (ou querelante), descrito p or
Para H am ilton (1974), contudo, não existiriam delí­ Clérambault, seria um subtipo de delírio persecutório. O
rios sistematizados: sempre se encontrariam inconsistên­ indivíduo se julga vítima de terríveis injustiças ou discri­
cias. Assim, sistematização seria mais um a questão quan­ minações, e, em função disso, envolve-se em disputas
titativa do que qualitativa. legais e querelas. O corre especialmente no transtorno
delirante.
O s M ecan ism o s F o rm a d o re s O delírio de influência seria um outro subtipo de delírio
persecutório. O paciente acredita que alguém ou algu­
(ou S u b stân cia P rim o rd ia l) do D elírio
ma força externa controla sua m ente ou seu corpo. Está
O delírio intuitivo corresponde à cognição delirante, é relacionado a alterações da consciência do eu, ocorren­
u m fenôm eno prim ário; sendo característico da esquizo­ do tipicam ente na esquizofrenia.
frenia. N o delírio de grandeza, o doente acredita ser m uito rico
O delírio imaginativo é secundário a um a atividade im a­ e poderoso, ou possuir habilidades e talentos especiais.
ginativa patologicam ente aumentada; é típico da antiga Tal conteúdo de delírio é típico da mania —primária ou
parafrenia. secundária —, mas pode ocorrer tam bém em outros qua­
O delírio catatímico é secundário a um distúrbio básico dros psicóticos, com o a esquizofrenia. Sao descritos al­
do hum or; ocorre nas síndromes maníaca e depressiva. guns subtipos do delírio de grandeza: delírio genealógico
62 D elírio

(pertencer a uma família nobre ou importante); de invenção N o delírio de negação (ou niilista), o paciente afirma que
ou descoberta (criar aparelhos com propriedades especiais já morreu, seus órgãos apodreceram, pararam de funcio­
ou fórmulas para a cura de doenças); e de reforma (ter a nar ou não existem mais, ou que o m undo acabou. Isso
missão de salvar, reform ar ou redim ir o m undo ou a so­ pode ocorrer na depressão e na esquizofrenia. Especialmen­
ciedade). te quando associado a idéias de imortalidade e de enorm i­
N o delírio de ciúmes, descrito por Clérambault, o indi­ dade, esse quadro é denom inado de síndrome de Cotard.
víduo acredita que seu cônjuge ou am ante está sendo O delírio místico envolve temas religiosos, espíritos, etc.
infiel a ele. Esse quadro está especialmente associado ao N o delírio de possessão, que pode ser aqui incluído, o do­
alcoolismo crônico e ao transtorno delirante, sendo mais ente julga que u m espírito entrou em seu corpo e assu­
com um no sexo masculino. Muitas vezes o conteúdo do m iu o controle de seus atos.
delírio é verdadeiro. O delírio fantástico envolve temas extraordinários, ou
O delírio erotomaníaco tam bém foi descrito p or Cléram ­ de extrem a grandiosidade. P or exemplo: um a paciente
bault. O indivíduo crê ser amado, à distância, por uma que afirma ter parido todas as pessoas que existem no
outra pessoa. Essa outra pessoa é tipicam ente mais velha m undo. Esse delírio é típico da antiga parafrenia.
e possui um a situação socioeconôm ica mais elevada que As síndromes de Capgras e de Fregoli são os princi­
a do paciente. M uitas vezes trata-se de um a pessoa fa­ pais exemplos de delírios de identificação. N a síndrom e de
mosa. O indivíduo pode atribuir a nâo-aproxim açào por Capgras, o paciente julga que um a pessoa familiar foi
parte da outra pessoa à malevolência de terceiros. O de­ substituída por um sósia. Este é fisicamente idêntico à
lírio erotom aníaco é mais com um em mulheres e pode primeira, mas psicologicamente distinto. Já na síndrom e
ocorrer no transtorno delirante. de Fregoli, o paciente identifica um a pessoa familiar em
Em bora o conteúdo de quase todo delírio esteja rela­ um estranho. Este é fisicamente diferente da pessoa fa­
cionado ao delirante, o delírio de auto-referência tem carac­ miliar, mas psicologicam ente idêntico. Os delírios de
terísticas especiais: o doente atribui a fatos fortuitos ou identificação são observados principalm ente na esquizo­
acidentais do cotidiano um a relação direta com a sua frenia e nos transtornos do hum or, mas tam bém em psi­
pessoa. P or exemplo: ele vê dois desconhecidos conver­ coses relacionadas a doenças cerebrais e no transtorno
sando, e, m esm o sem nada ouvir, sabe que estão falando delirante. Acredita-se que haja um a etiologia orgânica,
sobre ele. O u então: ele acredita que o enredo da novela relacionada ao hemisfério direito.
da TV foi baseado na sua vida. O delírio de auto-refe­
rência pode ocorrer na esquizofrenia e no transtorno
delirante. O E X A M E D O D E L ÍR IO
O delírio de ruína é com um na depressão. Para o paci­
Os delírios, constituindo uma alteração do conteúdo do
ente, sua vida está repleta de desgraças, sofrimento, fra­
pensamento, são, por conseguinte, detectados no discurso
cassos e perdas: tornou-se financeiramente miserável, seus
do paciente. Todavia, com freqüência o paciente irá dissi­
familiares o abandonaram, etc. Os delírios somático (ruí­
mular sua atividade delirante ou não terá interesse ou pos­
na da saúde física), de culpa (ruína moral) e de negação
sibilidade (nos casos de estupor, por exemplo) de verbalizá-
(ruína total) poderiam ser considerados subtipos do delí­
la. Nessa situação, tom a-se fundamental a avaliação da ati­
rio de ruína.
tude (desconfiança, medo, arrogância, etc.).
N o delírio somático (ou hipocondríaco), o paciente acre­
dita estar sofrendo de um a doença m uito grave ou incu­
rável, com o AIDS, câncer, tum or cerebral, etc., ou ter o
O D E L ÍR IO N O S P R IN C IP A IS
corpo terrivelm ente deformado. Esse delírio ocorre na
depressão, no transtorno delirante e na esquizofrenia. T R A N S T O R N O S M E N T A IS
U m a forma especial de delírio somático é o delírio de in­
festação (ou síndrom e de Ekbom ), em que o doente julga
E sq u izo fren ia
estar infestado p or pequenos, porém macroscópicos, or­ N a esquizofrenia, tipicam ente o delírio é bizarro, tem
ganismos, especialmente na pele ou nos cabelos. um conteúdo impossível e é pouco sistematizado. Pode
N o delírio de culpa (ou auto-acusação), característico da ser prim ário (quando intuitivo) ou secundário (à ativida­
depressão, o paciente acredita que com eteu pecados ter­ de alucinatória).
ríveis, ou m esm o crimes, em seu passado, e que m erece H oje se acredita que o delírio prim ário, e mesmo os
ser punido. Ele supervaloriza pequenas falhas que com e­ sintomas de prim eira ordem de K. Schneider, não seja
teu, ou pensa ter influenciado o acontecim ento de gran­ exclusivo da esquizofrenia, podendo ser observado nas
des catástrofes. psicoses afetivas, epilépticas, etc.
D elírio 63

E m muitos casos, não em todos, o delírio é precedido T ra n sto rn o s do H u m o r


por um quadro denominado humor delirante difuso, esquizoforia
N a maioria dos casos de depressão, não há sintomas
(López Ibor) ou trema (Conrad). Este termo é usado no meio
psicóticos. Todavia, nas depressões psicóticas, os temas
teatral para se referir à sensação que o ator experimenta à
delirantes mais comuns são ruína, culpa, hipocondria e
boca de cena, antes que o pano se abra. Refere-se à expec­
negação. N a mania psicótica, os delírios são tipicam ente
tativa em relação a um acontecimento iminente, de onde
de grandeza. Todavia, tanto na mania com o na depres­
não há fuga. O trema é caracterizado por sentimentos de
são, observam-se tam bém delírios persecutórios e outros
estranheza ou perplexidade, vivências de despersonalização
incongruentes com o hum or, os quais portanto não p o ­
ou desrealização —ele ou o m undo está se transformando —
deriam ser considerados secundários.
e angústia. O paciente tem a sensação de que algo terrível
está por acontecer, mas não sabe o quê. O delírio virá en­
tão dar um significado a essas vivências enigmáticas para o P sicoses “ O rg â n ic a s”
paciente, reduzindo assim sua angústia. Q uadros com o delirium, demência, epilepsia (especi­
almente do lobo temporal), neurossífilis cerebral, into­
T ra n sto rn o D e lira n te xicação p o r cocaína ou anfetamina, entre outros, podem
O transtorno delirante (a antiga paranóia) tem muitas cursar com intensa atividade delirante.
vezes com o a única alteração o delírio. Este tipicam ente
tem conteúdo possível, é pouco bizarro, bem sistemati­ P sicoses E p ilép ticas
zado, interpretativo, auto-referente e m onotem ático.
Os estados crepusculares da epilepsia do lobo tem po­
Segundo N obre de M elo, a paranóia pode ser proces­
ral podem cursar com sintomas de prim eira ordem . São
sual (delírio primário), ou então um a reação ou desen­
especialmente com uns os delírios místicos, que serviri­
volvim ento (delírio secundário).
am com o um a auto-explicação para as alterações de cons­
E m 1918, Ernst Kretschm er delim itou um subgrupo
ciência e outras experiências inusuais.
de paranóia, chamado p o r ele de delírio sensitivo de rela­
ção. Este acometeria pessoas com os seguintes traços de
personalidade: hipersensibilidade, hiperem otividade, ti­ T ra n sto rn o D e lira n te In d u z id o
midez, escrupulosidade, insegurança e sentim entos de O transtorno delirante induzido (ou folie à deux ) foi
frustração e de inferioridade. O delírio, auto-referente e descrito por Lasègue e Falret em 1877. U m indivíduo
de base interpretativa, dar-se-ia n um contexto de relacio­ altamente sugestionável, que tem um a relação m uito pró­
nam ento interpessoal: o indivíduo se sente objeto de in­ xima com um doente psicótico, incorpora um a crença
teresse ou de m alevolência de outrem . delirante deste. O prim eiro tende a abandonar o delírio
Segundo Leme Lopes (1981), o personagem Bentinho, quando a dupla se separa.
do romance D om Casmurro, de Machado de Assis, sofria
de uma paranóia de ciúmes. N a obra há, sem dúvida, al­
guns indícios de que houve a traição por parte de Capitu. C O N T R IB U IÇ Õ E S DA
Todavia, não parece ser justificável a crença inabalável de
Bentinho, que dispunha apenas de evidências meramente
PSIC A N Á L ISE
circunstanciais. Ela podia ser culpada, mas tam bém podia
M odelo C o n flito —defesa
não ser. Não há como ter certeza de um a coisa ou de outra.
Mas ele tinha... Para o diagnóstico do delírio, não faz a N a esquizofrenia, haveria uma regressão a uma fase muito
m enor diferença se houve mesmo ou não o adultério. primitiva: o narcisismo primário. Nessa fase, em que o ego
não está plenamente desenvolvido, são utilizados mecanis­
mos de defesa m uito primitivos, como a negação e a proje­
P arafren ia
ção, muito relacionados à produção delirante.
A categoria diagnostica parafrenia foi excluída das clas­
sificações atuais. Enquadrar-se-ia em transtorno delirante,
na C ID -10, ou em esquizofrenia paranóide, no DSM -IV.
M o d elo D e fic itá rio
O delírio típico da parafrenia tinha um caráter fantás­ O esquizofrênico retira a libido dos objetos externos
tico e tornava-se encapsulado, ou seja, atingia apenas al­ e a reinveste no próprio ego. Mais tarde tenta investi-la
gumas poucas áreas da vida do indivíduo, o que permitia novam ente nos objetos externos, mas o faz de forma
que ele se comportasse de m aneira norm al em quase to­ patológica: os objetos internos são tom ados com o exter­
das as atividades do seu dia-a-dia. nos, daí produzindo os delírios e alucinações.
64 D elírio

P aran ó ia: O C aso S ch reb er aum entam a atividade dopaminérgica, com o a anfetami-
na e a cocaína, podem produzir quadros psicóticos se­
As Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um Caso
m elhantes aos da esquizofrenia. Daí a conclusão de que
de Paranóia foram publicadas por Freud em 1911, a partir
os sintomas psicóticos estejam relacionados a um a hipe­
da autobiografia de Schreber. Este contava em seu livro
ratividade dopaminérgica.
que havia recebido de Deus a missão de redim ir o m u n ­
do, e, para que isso se desse, teria que ser transformado
em m ulher. O depoim ento de Schreber levou Freud a M apas C o rticais
form ular a hipótese de que todo delírio constitui uma Mapas corticais são estruturas do córtex cerebral nas
reação a impulsos homossexuais inconscientes, de acor­ quais estão representados lado a lado estímulos semelhan­
do com os seguintes esquemas: tes. A atividade de base espontânea dos neurônios for­
— “Eu (um hom em ) o am o” se transforma em “eu não madores dos mapas corticais é denom inada ruído, en­
o am o” (negação); depois em “eu o odeio” (forma­ quanto a atividade provocada por estímulos recebe o
ção reativa); e, finalmente, em “ele é que me odeia e nom e de sinal. O ruído está relacionado à excitação na
m e persegue” (projeção) —delírio persecutório. periferia dos mapas corticais, e o sinal, à excitação na
— “E u não o am o” / “eu a am o” (deslocamento) / “ela região principal. As catecolaminas aum entam o sinal em
m e ama” (projeção) —delírio erotom aníaco. relação ao ruído.
— “E u não o am o” / “ ela o am a” (projeção) —delírio de Assim com o existem mapas de imagens visuais e de
ciúmes. imagens auditivas, é possível que existam mapas semân­
— “E u não o am o” / “ eu só amo a m im ” (deslocamen­ ticos, nos quais estariam representados conceitos próxi­
to) —delírio de grandeza. mos. Form ula-se a hipótese de que um aum ento de do­
pamina tenderia a focalizar o mapa semântico: assim uma
idéia central —a tese —seria excessivamente estimulada,
Fantasias In co n scien tes enquanto as idéias vizinhas —antíteses —ficariam inibi­
Os delírios, assim com o todos os sintomas, represen­ das, resultando num a síntese sem crítica —o delírio (Car­
tam um a realização de desejos inconscientes, deformada valho & Fiszman, 2000).
pelos mecanismos de defesa, especialmente a projeção.
O D e lírio c o m o u m a D isfu n ção
Id en tificação P ro jetiv a C ognitiva
Identificação projetiva é um conceito criado por M. Klein. Levantou-se a hipótese de que o delírio estaria relacio­
Trata-se de um mecanismo relacionado à posição esquizo- nado a um distúrbio no raciocínio. Todavia, raram ente
paranóide. Nesta, o bebê cinde o m undo e a si próprio se encontram no paciente delirante alterações neuropsi-
em objetos bons e objetos maus. A identificação projetiva cológicas, com o de linguagem , m em ória, habilidades
consiste num a projeção fantasm ática para o interior do visuoespaciais ou capacidade de abstração.
corpo m aterno de partes clivadas do bebê, ou mesmo a
projeção deste em sua totalidade, de forma a lesar e con­
O D e lírio c o m o u m a A u to -ex p licação
trolar a mãe a partir do interior dela. Objetos internos
maus e agressivos são projetados e tom am -se ameaçado­ p a ra E x p eriên cias A n ô m alas
res (Laplanche & Pontalis). D e acordo com essa hipótese, funções cognitivas n o r­
mais seriam direcionadas para explicar para o próprio
indivíduo experiências incom uns, com o alucinações.
C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
N E U R O C IÊ N C IA S E D A D elírio s de Id en tificação
P S IC O L O G IA C O G N IT IV A Haveria um a disfunção no hemisfério direito nas sín-
dromes de Capgras e de Fregoli. Estas são semelhantes à
H ip e ra tiv id a d e D o p a m in é rg ic a
prosopagnosia, condição neurológica em que há um a
A eficácia dos antipsicóticos no tratam ento de delírios falha no reconhecim ento de faces na ausência de distúr­
(e alucinações) parece dever-se à sua ação de antagonis­ bio sensorial. A prosopagnosia parece ser o resultado de
m o nas vias da dopam ina, especialm ente nos sistemas uma lesão bilateral nos giros fusiforme e lingual (Oyegode
m esolímbico e mesocortical. Além disso, substâncias que & Sargeant, 1996).
CAPÍTULO

IN TE LIG Ê N C IA

IN T R O D U Ç Ã O C o n d içõ es In stru m e n ta is e
P ro m o to ra s da In telig ên cia
A D efin ição de In telig ên cia
As condições instrumentais (ou pré-condições) da in­
Inteligência é um conceito que quase ninguém conse­ teligência são: a atividade sensorial, a m em ória, a habili­
gue definir de m odo categórico ou, pelo menos, ampla­ dade m otora, a habilidade verbal e a resistência ?. fadiga.
m ente convincente. Todavia, algumas definições são dig­ As condições prom otoras são: a atenção, a vivacidade dos
nas de nota: “Inteligência é a capacidade de com preen­ processos instintivos e afetivos, e a unificação da vonta­
der e de elaborar conteúdos intelectuais que facilitem a de (Jaspers, 1987). As condições instrum entais e prom o­
realização de novas adaptações, para a obtenção de um toras não são o mesmo que a inteligência, mas são pré-
objetivo apetecido” (Nobre de Melo, 1981); “Inteligência requisitos para a expressão dela.
consiste em especificar u m objetivo, avaliar a situação
vigente para saber com o ela difere do objetivo e pôr em
In telig ên cia e C o n h e c im e n to s
prática um a série de operações para reduzir a diferença”
(Pinker, 1999). U m a vasta gama de conhecim entos em um a pequena
A inteligência está relacionada à capacidade de resol­ área de interesse é compatível com um a inteligência abai­
ver problemas novos; de adaptação; de síntese e análise; xo da média, com o no caso dos idiotas sábios, indivíduos
de abstração e generalização; de distinção entre o essen­ com retardo m ental que apresentam um a hipermnésia de
cial e o acessório; de lidar com conceitos, julgar e racio­ fixação. Segundo Alonso-Fernández (1976), os verdadei­
cinar; e de utilizar o pensam ento de form a eficiente e ros conhecim entos são captados através de um a aprendi­
produtiva. A solução de problemas consiste em com pre­ zagem racional e compreensiva, e não mecânica.
ender a situação, fazer associações e correlações, produ­
zir idéias novas (construção de hipóteses), criticar ou testar U m a In telig ên cia G eral o u V ários
as hipóteses e, finalmente, adaptar-se (Nobre de Melo,
1981). O pensam ento inteligente caracteriza-se pela ri­
T ip o s de Inteligência?
queza de conceitos, p o r juízos que correspondem à rea­ Spearman e Thurstone tinham posições opostas a res­
lidade e p o r um raciocínio que segue os princípios da peito da inteligência. Spearman (1927) defendia a idéia
lógica formal. de existir um fator geral unitário de inteligência (fator G ),
Talvez a inteligência não seja propriam ente um a fun­ que seria especialmente relacionado à capacidade de abs­
ção psíquica específica, e sim um a m edida de rendim en­ tração. Mas T hurstone acreditava que a inteligência con­
to do pensam ento, particularm ente do raciocínio. sistia em um a entidade multifatorial, com posta de um a
66 Inteligência

série de capacidades ou aptidões mais ou menos indepen­ A deterioração intelectiva consiste num a queda dos
dentes, e listou o que cham ou de capacidades primárias: rendim entos intelectivos em comparação com o nível
com preensão verbal, fluência para palavras, habilidade pré-m órbido. Isso ocorre na dem ência e, ainda, em ou­
com núm eros, orientação no espaço, m em ória, rapidez tros transtornos psiquiátricos graves que se iniciam na vida
perceptual e raciocínio. A verdade parece estar num a adulta, nos quais o prejuízo intelectivo é secundário a
conciliação entre as duas hipóteses. Estudos estatísticos outras alterações psicopatológicas.
(de análise fatorial) da aplicação de testes de inteligência Em alguns casos, pode ocorrer um desenvolvim ento
em amostras representativas da população geral eviden­ deficiente e um a deterioração intelectiva no m esm o in ­
ciam a existência de um com ponente com um referente divíduo: perde-se parte ou a totalidade do pouco que foi
ao desem penho em todas as tarefas (o fator G), mas este adquirido.
não explica todas as superposições de resultados, sendo As crianças superdotadas (ou supranormais) apresentam
encontrados tam bém fatores com uns com plem entares, um desempenho intelectivo acima do esperado para a sua
independentes do fator G (as capacidades primárias). idade. Nesses casos parece haver um desenvolvim ento
atípico e precoce, e os rendim entos intelectivos desses
indivíduos, com a maturidade, tendem a se nivelar com
P ia g e t
a norm a.
Jean Piaget descreveu 4 estágios de desenvolvim ento
da inteligência:
- Período sensoriom otor - nos 2 primeiros anos de vida.
O E X A M E D A IN T E L IG Ê N C IA
As estruturas mentais restringem-se aos objetos con­
A E n trev ista P siq u iá tric a
cretos. N ão há representação ou pensamento.
— Período pré-operatório —dos 2 aos 7 anos. D esenvol­ U m a simples conversa com o paciente perm ite uma
vem -se a capacidade de simbolização, a linguagem, os impressão geral sobre o nível intelectivo: observam-se a
sentim entos interpessoais e as relações sociais. sua capacidade de usar e com preender conceitos, m etá­
- Período operatório concreto —entre os 7 e 12 anos. E foras e analogias; a adequação de seus juízos e raciocíni­
o início do pensam ento lógico. Com eça a haver dis­ os; e a extensão de seu vocabulário. Informações sobre o
tinção entre o real e o imaginário. seu desem penho escolar ou profissional, sobre com o lida
— Período operatório formal —dos 12 aos 16 anos. M á­ com os problemas do dia-a-dia e sobre sua conduta so­
xim o desenvolvim ento do pensam ento abstrato e ló­ cial podem ser mais im portantes do que qualquer teste.
gico.

T estagem
P erío d o s C rítico s
Os testes podem ser divididos em verbais e de execu­
Determinadas fases do desenvolvimento da criança, os ção. Os verbais m edem a retenção de informações fac­
períodos críticos, são im portantes para a aquisição de habi­ tuais adquiridas anteriorm ente; e os executivos, a capa­
lidades específicas. Se a aprendizagem não ocorreu ao final cidade visuoespacial e a velocidade visuom otora nas ta­
de determ inado período, pode não ser possível a obten­ refas de solução de problemas. Em alguns pacientes, a
ção da habilidade posteriorm ente. Deficiências sensori- capacidade intelectiva não está com prom etida de forma
ais presentes durante esses períodos críticos podem pre­ uniform e: o desem penho nas provas verbais é m elhor do
judicar a aprendizagem de forma irreversível. que nas executivas ou vice-versa.
Alguns testes verbais bastante simples têm a finalidade
de avaliar basicamente a capacidade de abstração e gene­
A L T E R A Ç Õ E S D A IN T E L IG Ê N C IA ralização do paciente, e tam bém a capacidade de síntese
e de raciocínio e o nível de conhecim entos:
Os rendim entos intelectivos encontram -se abaixo do
norm al em duas situações: no desenvolvim ento defici­ ■ Interpretação de provérbios —Pergunta-se ao exa­
ente e na deterioração intelectiva. m inando o que significam ditados populares com o
O desenvolvim ento deficiente está relacionado a pro­ “Mais vale u m pássaro na m ão do que dois voan­
blemas na aquisição de habilidades específicas, represen­ do ” , ‘‘N unca julgue um livro pela capa” , etc.
tando a síndrom e clínica conhecida com o retardo m en­ ■ Interpretação de fábulas —Conta-se ao paciente uma
tal. O nível da inteligência é inferior ao da maioria dos fábula, com o a da cigarra e da formiga, e pede-se a
indivíduos com a mesma idade. ele que diga em que consiste a m oral da história.
Inteligência 67

m Cálculos m atemáticos simples —“Se um a passagem um a curva em forma de sino —ao longo de toda a pop u ­
de ônibus custa R $1,20, quanto vou receber de lação: 68% têm um Q I entre 85 e 115.
troco se com prar duas com um a nota de R $5,00?” A tualm ente, a escala de W echsler-Bellevue é a mais
■ Definição de conceitos abstratos —Pergunta-se o utilizada: há um a versão para adultos (WAIS) e outra para
que significam palavras com o liberdade, alegria, am i­ crianças (W ISC ). O W A IS com preende 11 subtestes —6
zade, etc. verbais e 5 executivos —, fornecendo um Q I verbal, um
■ R esum o de textos —Solicita-se que o paciente leia, Q I de execução e um Q I total.
p or exemplo, um a notícia de jornal e, em seguida,
sintetize as informações ali contidas.
■ Diferenças —Indaga-se o que diferencia um erro de A IN T E L IG Ê N C IA N O S
um a m entira, saber de crer, um a criança de um P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S
anão, etc.
■ Semelhanças —Pergunta-se o que há em com um ,
M E N T A IS
por exemplo, entre um a maçã, um a banana e um a
R e ta rd o M ental
melancia; ou entre um a mesa, um a cadeira e um
armário; ou entre u m cachorro, um leão e um a O retardo mental é definido com o um desenvolvimen-
coruja. to interrom pido ou incom pleto da m ente^com um ní­
.h Conhecim entos —São feitas perguntas simples como vel global de inteligência reduzido (QI < 7 0 ) , levando a
“ Quais são as cores da bandeira brasileira?” um significativo prejuízo no funcionam ento adaptativo.
■ Solução de problemas —“E m elhor lavar um a es­ E o resultado de um a aquisição deficiente das aptidões
cada de baixo para cima ou de cima para baixo?” ; cognitivas, de linguagem, motoras e sociais.
“Se um a bandeira bate em direção ao sul, de onde N o retardo mental leve —ou debilidade mental, como
vem o vento?” ; “P or que a Lua parece m aior que nas antigas classificações (QI = 50-69) —, encontram-se di­
as estrelas?” ficuldades em lidar com conceitos, problemas de aprendi­
zagem, além de imaturidade emocional e soçial(_mas há
Os testes executivos com preendem tarefas com o re­
um a total independência quanto aos cuidados pessoais.
solver quebra-cabeças e labirintos, com pletar figuras,
N o retardo mental m oderado —que equivale à imbeci­
ordenar uma história sem palavras, copiar desenhos, en­
lidade (QI = 35-49) —, observam-se maiores dificuldades
caixar objetos em tabuleiros com fôrmas, etc.
na linguagem e na capacidade de simbolizjiçãoj^e-jima
Para um a avaliação criteriosa dos resultados dos testes
, necessidade de supervisão quanto aos cuidados pessoais.
de inteligência, devem ser considerados fatores que p o ­
O retardo mental grave —que também corresponde à im­
dem interferir no desem penho do paciente, com o um
becilidade (QI = 20-34) - é semelhante ao moderado, po-
baixo grau de instrução, ansiedade e a falta de interesse
rém mais freqüentemente há comprometimento motor.
ou de motivação.
Os indivíduos que apresentam um retardo mental' pro­
fundo —OU idiota (QI < 20) —não a n d a m e n ã o falam,
Escalas apresentam incontinência e possuem um a piequena.. ou
Binet e Sim on introduziram o conceito de idade m en­ nenhum a capacidade de cuidar de si mesmos.
tal, que, nas crianças com um nível de inteligência nor­ N o retardo m ental, alteram-se mais os rendim entos
mal, corresponde à idade cronológica. N a escala m étrica . verbais do que os executivos. Além da dificuldade de sín-
criada pelos dois, e que é aplicada som ente em crianças, _tese, abstração e generalização, algumas alterações psico-
há uma correlação direta entre o núm ero de respostas cor­ patológicas são especialmente comuns entre os indivíduos
retas e a idade mental. O débil m ental tem um a idade com retardo mental: atitude pueril; pensam ento concre­
m ental entre 7 e 10 anos; o imbecil, entre 3 e 7 anos; e o to e prolixo; impulsividade; labilidade e incontinência
idiota, abaixo de 3. afetiva; e delírios de grandeza com pensatórios (bouffée
W . Stern criou o conceito de quoeficiente intelectual delirante de M agnan).
(Q I). Este representa um a fração em que a idade m ental
é o num erador, e a idade cronológica, o denom inador, e
cujo resultado é m ultiplicado por 100. Assim, quando a
D e m ê n c ia
idade m ental e a cronológica coincidem, o Q I é igual a A síndrome demencial caracteriza-se por uma desinte­
100. Trata-se de um critério estatístico de avaliação da gração progressiva do intelecto, memória e personalidade.
inteligência, que se baseia na suposição de que as capaci­ H á prejuízo na atenção, na capacidade de aprendizagem e
dades intelectuais estão norm alm ente distribuídas —em na capacidade de formar e compreenHêr novos conceitos.
68 Inteligência

O pensamento toma-se concreto, prolixo e perseverante. tar relacionada às alterações formais e em pobrecim ento
A inteligência deteriora-se após terem sido atingidos os ní­ do pensam ento, ou ao em botam ento afetivo.^Além dis­
veis normais de desenvolvimento. N a demência, assim como so, os sintomas psicóticos — a perturbação do contato
no envelhecimento normal, há uma queda mais precoce nos com a realidade —podem prejudicar o desem penho in ­
rendimentos executivos do que nos verbais. telectivo.
O diagnóstico diferencial entre a dem ência e o retar­
do m ental é fácil quando se conta com os elem entos
anamnésticos, os quais perm item caracterizar se o déficit C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
intelectivo foi precoce ou tardiamente adquirido. N a de­ N E U R O C IÊ N C IA S
m ência, sempre há alteração de m em ória (que po d e es­
tar ausente n o retardo mental), e o prejuízo intelectivo é G en ética
desigual (observam-se vestígios da antiga riqueza, frag­
A concordância quanto ao nível do Q I entre pais e
m entos de aquisições educacionais e culturais).
filhos biológicos é de 50%; entre pais e filhos adotados,
de 25%; e entre gêmeos idênticos, de 90%.
Delirium __Várias doenças de base genética levam a retardo m en­
N o delirium há um prejuízo reversível no desempenho tal: síndrom e de D o w n (trissomia do 21), síndrom e de
intelectivo. Klinefelter (XXY),.esclerose tuberosa (herança autossô-
mica dom inante), fenilcetonúria (herança autossômica
recessiva).
D epressão
N a depressão, a deterioração intelectiva é secundária L o b o F ro n tal
e reversível: está relacionada ao prejuízo na atenção, à falta
de m otivação e à inibição do pensam ento que acompa­ O lobo frontal, especialmente as regiões pré-frontais,
nham a perturbação do afeto. é im portante nas tarefas executivas. Pacientes com lesões
frontais apresentam um prejuízo na vontade, no planeja­
m ento da ação, na capacidade de iniciar o com portamento
E sq u izo fren ia e na capacidade de modificar ou interrom per o com por­
N a esquizofrenia há um a deterioração intelectiva, so­ tam ento. O lobo frontal está relacionado ainda à capaci­
bretudo nas formas hebefrênica e residual, que pode es­ dade de abstração e de executar cálculos.
CAPÍTULO

IM A G IN A Ç Ã O

e em alguns quadros psicóticos; e inibida na depressão,


IN T R O D U Ç Ã O
na demência, no retardo m ental e nos estados confusio-
Som ente Vallejo Nágera (1944) dedica um capítulo à nais simples.
imaginação. Outros poucos (Garcia, 1942; Loyello, 1990; A pseudologia fantástica (ou m itom ania, ou m entira
Sá, 1988) a incluem entre as funções psíquicas. patológica) consiste no relato de histórias fantásticas e
A imaginação, apesar da origem do termo, não está re­ heróicas da qual o paciente é o protagonista; histórias
lacionada apenas a imagens —perceptivas e representativas essas criadas com o objetivo de im pressionar os outros
—, mas também a idéias abstratas. Ela pode ser definida como p o r pessoas m uito auto-sugestionáveis. Pode ocorrer,
a criação de novas imagens ou conceitos, ou de novas co­ em bora não seja com um , nos transtornos de personali­
nexões entre as representações e conceitos preexistentes. dade anti-social e histriónica, nos transtornos dissocia-
As representações são transformadas, ou podem ser elabo­ tivos, na mania, no retardo m ental e na dem ência. Os
radas imagens de algo que jamais foi percebido ou que autores se dividem quanto a se há ou não crença p o r
nunca existiu, como, por exemplo, dragão, sereia, etc. parte do paciente em relação à veracidade de seu rela­
A imaginação produtiva (ou imaginação propriamente dita) to. D e qualquer m odo, na pseudologia fantástica há uma
está relacionada à criação artística, às invenções tecnológicas exacerbação da im aginação, que vai estar associada a
e às descobertas científicas; distingue-se da imaginação reprodu­ um a alteração da m em ória (se o paciente falsamente re­
tiva, que se refere à evocação mnêmica. A imaginação, dife­
corda) ou a um a alteração da atitude (se ele está m en ­
rentemente da inteligência, resulta de um pensamento diver­ tindo) .
gente —no qual são feitas associações não-usuais e inespera­
das —e não está restrita à solução de problemas imediatos.
Denomina-se imagem fantástica aquela produzida no
processo imaginativo, sendo os devaneios um exemplo. As O E X A M E D A IM A G IN A Ç Ã O
suas características fenomenológicas são iguais às das ima­ N a prova de T ouluse, m ostra-se ao indivíduo u m
gens representativas, como localização no espaço subjeti­ desenho ou um a lâm ina que represente um a cena sim ­
vo interno, ausência de corporeidade, etc. O indivíduo ples, solicitando-se a ele em seguida que, durante um
reconhece a imagem fantástica com o algo criado volunta­ m in u to , in v en te um a história com base naquela fi­
riamente p or ele, e que não corresponde à realidade. gura.
A prova de Masselon consiste em dizer ao paciente al­
gumas palavras, as quais irão servir de base para ele nar­
A L T E R A Ç Õ E S D A IM A G IN A Ç Ã O rar, p o r escrito ou oralmente, um a pequena história, sem
A imaginação não possui alterações qualitativas, so­ limite de extensão, na qual necessariamente terão de entrar
m ente quantitativas. Está em geral exacerbada na mania as palavras previam ente apresentadas.
70 Imaginação

de determ inado paciente, sobretudo na antiga parafrenia,


A IM A G IN A Ç Ã O N O S P R IN C IP A IS
caracterizada por delírios fantásticos e megalomaníacos.
T R A N S T O R N O S M E N TA IS

M ania C O N T R IB U IÇ Õ E S DA
N a mania, a exacerbação da imaginação parece estar PSIC A N Á L ISE
relacionada à ocorrência de representações mais vivas e
Para Freud, o bebê faminto, tentando repetir a expe­
que se associam com m aior facilidade.
riência de satisfação da pulsão, alucina o seio m aterno. A
alucinação representa, portanto, um a realização de dese­
D epressão jo , e constitui a prim eira criação do psiquismo hum ano.
C om o, porém , ela não satisfaz as necessidades pulsionais,
N a depressão, há dim inuição da vivacidade da fanta­
é inibida pelo ego, desenvolvendo-se então o pensam en­
sia e restrição do seu conteúdo.
to. Som ente este possibilita um a ação efetiva para a satis­
fação.
R e ta rd o Mental., D e m ê n c ia e E stad o Entre a alucinação e o pensam ento está situada a fan­
tasia. Esta é a m atéria-prim a dos devaneios e da criação
C o n fu sio n al Sim ples
artística. As mesmas fantasias que se expressam no brin­
Nessas síndromes, há um em pobrecimento geral do psi­ car da criança continuam a ter expressão no devaneio,
quismo, com diminuição da capacidade imaginativa, ex­ no sonho e na produção artística do adulto. Estes têm em
ceto nos raros casos em que há a pseudologia fantástica. com um a realização (disfarçada) de desejos, que, em ge­
ral, é frustrada pela realidade. A arte, diferentem ente dos
sintomas, constitui um substituto da realização de desejo
E stad o s P sicó tico s
aprovado pelo superego, ou seja, é resultado de um a su­
A imaginação pode ser a base da atividade delirante blimação.
CAPÍTULO

VO N TAD E

execução. A fase de intenção ou propósito é representa­


IN T R O D U Ç Ã O
da por um a tendência para a ação, e está intim am ente
C o n ação relacionada aos impulsos. A fase de deliberação consiste
num a ponderação consciente a respeito das alternativas
P o r conação definim os o c o n ju n to de atividades de ação, sendo analisados os aspectos positivos e negati­
psíquicas direcionadas para a ação. Incluem -se entre as vos, assim com o as possíveis implicações de cada uma. A
funções conativas os impulsos e a vontade. fase de decisão representa a opção por um a dessas alter­
nativas de ação. E a fase de execução refere-se à ativida­
Im p u lso s de psicomotora.

Impulso — tam bém chamado estado motivacional ou pulsão


— constitui um conceito teórico, não-fenomenológico. U m A L T E R A Ç Õ E S Q U A N TITA TIV A S
impulso representa um estado interno, uma vivência afeti­
va, que induz o indivíduo a atuar no sentido de satisfazer H ip o b u lia /Â b u lia
um a necessidade, basicamente um a necessidade corporal.
H ipobulia e abulia significam, respectivamente, dim i­
Os impulsos não devem ser confundidos com os ins­
nuição e abolição da atividade volitiva. A hipobulia e a
tintos. Estes consistem não em vivências afetivas, mas em
abulia caracterizam-se p or um a sensação de indisposição,
com portam entos. São com portam entos complexos, es­
fraqueza, desânimo ou falta de energia; perda da iniciati­
tereotipados e inatos, compartilhados pelos animais de
um a mesma espécie, e que servem à conservação da vida va, da espontaneidade e do interesse pelo m undo exter­
no; indecisão; dificuldade de transformar as decisões em
e à perpetuação da espécie.
ações; e inibição da psicomotricidade.
O correm na depressão, na esquizofrenia, no estado
V ontade confusional simples, em alguns casos de dem ência ou
A vontade constitui um processo psíquico de escolha de retardo m ental e no uso crônico de neurolépticos.
uma entre várias possibilidades de ação, uma atividade cons­
ciente de direcionamento da ação. Trata-se de uma elabo­ E n fra q u e c im e n to de Im p u lso s
ração cognitiva realizada a paxtirjios impulsos, sendo influ­
enciada por fatores intelectivos e socioculturãE
E specíficos
Distúrbios com o a dim inuição ou perda do apetite
(anorexia), da sede e da libido, além de insônia, repre­
O P ro cesso Volitivo
sentam um enfraquecim ento dos impulsos, um debilita-
O processo volitivo divide-se em quatro etapas: (1) in­ m ento das tendências naturais à satisfação das necessida­
tenção ou propósito; (2) deliberação; (3) decisão; e (4) des corporais.
72 V ontade

A anorexia é observada na depressão, na anorexia ner­


A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS
vosa, em alguns quadros de ansiedade e em diversas con­
dições médicas gerais. A anorexia deve ser distinguida da
D isbulias o u P arabulias
sitiofobia, na qual a recusa alimentar se deve a manifesta­
ções fóbicas ou delirantes, não havendo um a real redu­ Assim são chamadas, genericamente, as alterações qua­
ção do apetite. litativas da vontade.
A insônia pode ser classificada em : iniçial^quando há
^dificuldade para adorm ecer; interm ediária, caracteriza­
A tos Im pulsivos
da p o r diversos despertares noturnos; e term inal, quan­
do o paciente acorda m uito cedo e não consegue voltar ^ s^ to sjm p u lsiv o s caracterizam-se p o r serem súbitos,
a dorm ir. A insônia aparece na depressão {podendo ser incoercíveis e incontroláveis. São atos desprovidos de fi­
inicial ou terminal),, nas síndrom es de ansiedade. (em nalidade consciente. Pulam -se as etapas de deliberaçã.Q-je__
geral, inicial), na mania, nos quadros de agitação psico­ decisão do processo volitivo, indo-se direto da intenção
m otora, nas intoxicações p o r psicoestim ulantes (anfe- para a ação. Presum ivelm ente, os atos impulsivos ocor­
tam ina, cocaína, cafeína, etc.) e em quadros de absti­ rem em função de um aum ento da intensidade dos im ­
nência a algumas drogas psicoativas (opiáceos, benzo- pulsos ou de um enfraquecim ento dos mecanismos de
diazepínicos, álcool, etc.). inibição e refreamento.
A perda da libido é observada na depressão e no uso de Os atos impulsivos tornam -se patológicos quando são
substâncias antiandrogênicas, de neurolépticos e de alguns em paticamente incompreensíveis para o observador. Al­
antidepressivos (especialmente os tricíclicos e os seroto- guns com portam entos heteroagressivos, auto-agressivos
ninérgicos). e suicidas, a frangofilia, a pirom ania, a drom om ania, a
dipsomania e os ataques de hiperingestão alim entar (da
bulimia nervosa) podem ter as características de um ato
H ip erb u lia impulsivo.
A hiperbulia caracteriza-se por um sentim ento subje­ Os comportamentos heteroagressivos impulsivos ocorrem
tivo de força, de energia, de disposição; observa-se um de forma não-prem editada, sendo muitas vezes im otiva-
aum ento da iniciativa, da espontaneidade e do interesse dos. P odem algumas vezes resultar em hom icídio.
em relação ao m undo externo; costuma haver desinibi- A frangofilia representa um a forma especial de com por­
ção e aum ento da psicomotricidade. O corre principal­ tam ento agressivo. Nesse caso, a ação é a de destruir
m ente na síndrome maníaca. c objetos —deixá-los em frangalhos —, com o roupas, m ó ­
veis, colchões, etc.
A piromania constitui um a propensão a atear fogo, pro-
Inten sificação de Im p u lso s E specíficos . vocar um incêndio. Muitas vezes trata-se de um a reação
A bulimia (ou sitiomania, ou sitiofilia) consiste num au­ agressiva a um a contrariedade.
m ento patológico do apetite. Pode ocorrer em distúrbi­ Os atos impulsivos heteroagressivos, a frangofilia e a
os hipotalâmicos, na síndrom e de abstinência relaciona­ pirom ania são observados nos transtornos de personali­
da à anfetamina, em alguns casos de depressão, no trans­ dade anti-social, borderline e explosiva, assim com o na
torno disfórico pré-m enstrual e em quadros de ansieda­ _mania, na esquizofrenia, no retardo mental, na dem ên­
de. Está relacionada à hiperfagia —ingestão excessiva de cia e no estado crepuscular epiléptico.
alimentos —e ã obesidade. A dromomania (poriomania, automatismo am bulatório
A sede excessiva é denom inada potomania; a ingestão ou fuga) consiste num a necessidade de afastar-se, de
exagerada de água, polidipsia. Esta é observada no dia­ m udar de lugar, que se manifesta com o um a deambula­
betes m elito, no diabetes insípido e na síndrom e de an­ ção sem finalidade ou com o um a corrida súbita e im oti-
siedade. vada. A fuga proporciona alívio para um estado de disfo-
Hipersonia (ou letargia) significa sono em excesso. Ela ria relacionado a circunstâncias do ambiente. O corre nos
é obsèrvãctãem alguns deprimidos; pode ser um efeito estados crepusculares histérico e epiléptico, na esquizo­
colateral de medicamentos com o benzodiazepínicos, an- frenia, na dem ência e no retardo mental.
tipsicóticos e antidepressivos; e ocorre de forma paroxís- A dipsomania representa um a tendência periódica para
tica na narcolepsia. a ingestão de grande quantidade de álcool, afetando pes­
O desejo sexual patologicam ente aum entado no h o ­ soas que estão, em geral, abstêmias. Após o início da in­
m em é cham ado satiriase e, na m ulher, ninjomania. O gestão alcoólica, o indivíduo perde inteiram ente o con­
aum ento da libido é um a alteração típica da mania. trole sobre esta, e bebe até cair inconsciente.
V ontade 73

N a bulimia nervosa, ocorrem ataques de hiperingestão acompanha-se de um alívio dessa ansiedade, além de certa
alimentar, que se caracterizam pelo com portam ento de excitação e prazer. A compulsão a comprar tem caracterís­
com er rapidam ente um a grande quantidade de alimen­ ticas semelhantes.
tos e, principalm ente, pela sensação de perda de contro­
le sobre a ingestão.
C o m p o rta m e n to s D esviantes em
R elação aos Im p u lso s
A tos C om pulsivos (ou C om p u lsõ es)
Os comportamentos de automutilação e suicida podem ser
As compulsões são atos que o indivíduo se sente com ­ considerados desvios dos impulsos de autopreservação.
pelido a realizar. Todavia, ao contrário do que ocorre nos Formas leves e moderadas de automutilação ocorrem mais
atos impulsivos, a execução não se dá de im ediato, e sim em pacientes com retardo m ental ou transtorno de per­
som ente após alguma deliberação consciente, havendo, sonalidade boráerline. Já formas mais graves são mais co­
com freqüência, luta ou resistência contra a sua execu­ muns na esquizofrenia. O suicídio é um risco im portan­
ção. Tam bém diferentemente dos atos impulsivos, os atos te especialmente na depressão, no alcoolismo e na esqui­
compulsivos nem sempre levam a um a sensação de pra­ zofrenia, em bora nem sempre esteja relacionado a um a
zer; muitas vezes produzem apenas certo alívio, em geral doença mental.
tem porário, para um a vivência disfórica. A alotriofagia representa um desvio dos impulsos de nu­
N o transtorno obsessivo-compulsivo, as compulsões trição, um a perversão do apetite, com o se chamava anti­
podem ser secundárias a idéias obsessivas, um a forma de gamente. Consiste na ingestão de coisas estranhas ou ina­
com bater essas idéias, de reduzir a ansiedade provocada dequadas. P or exemplo: com er animais repugnantes (la­
p o r elas; ou, então, consistem em com portam entos re­ gartixa, barata, minhoca), excrementos (coprofagia), subs­
petitivos que requerem um padrão rígido de realização, tâncias nocivas e objetos perigosos (tinta, botões, alfine­
e que muitas vezes assumem a forma de verdadeiros ri­ tes, sabão, etc.). O corre mais freqüentem ente no retardo
tuais. P or exemplo: vem à m ente do paciente a idéia de mental e na demência, e, ainda, na esquizofrenia residual
que seu pai vai m orrer, e ele se vê im pelido a bater com e na mania.
a colher na xícara de café cinco vezes para evitar que tal As parafüias (perversões sexuais) constituem um desvio
tragédia ocorra; lavar as mãos dezenas de vezes ao dia em -do com portam ento sexual. Consistem na preferência por
função do m edo de contaminação por germes; conferir objetos ou situações sexuais não-usuais, que se tom am
se desligou o gás inúmeras vezes ao sair de casa. O paci­ um a condição necessária para a excitação sexual e o or­
ente com transtorno obsessivo-compulsivo reconhece o gasmo. .Na quase totalidade das vezes, as parafilias„aco­
caráter absurdo de suas compulsões e tenta resistir a elas. m etem pessoas do sexo masculino. N o fetichismo, o in ­
Compulsões são com uns tam bém na depressão e na sín- teresse sexual se concentra sobre partes não-genitais do
drom e de T ourette. corpo fem inino (pés, cabelos, nuca, etc.) ou peças do
Possuem igualm ente um caráter compulsivo o padrão vestuário (sapatos, roupas íntimas, meias, etc.). N o exi-
de uso de drogas psicoativas na dependência quím ica bicionismo, o com portam ento consiste na exposição dos
(toxicofilia), o com portam ento alim entar na obesidade órgãos genitais, geralm ente contra a vontade da pessoa
hiperfágica com um (em que não há ataques de hiperin- que observa. N a escopofilia (voyeurismo), o prazer pro­
gestão), o jogo patológico, a cleptomania e certos padrões vém basicamente da observação de um a pessoa que está
de com portam ento relativos ao com prar e ao envolvi­ tendo um a relação sexual ou que está nua ou tirando a
m ento amoroso. roupa. N o sadomasoquismo, o prazer está vinculado à
O com portam ento de u m indivíduo em relação à co­ d o r, h u m ilh a ç ã o , ou d o m in a ç ã o e subm issão. N a
mida, ao jogo e ao objeto sexual pode possuir os mesmos coprofilia, a excitação depende do uso de excrem entos
aspectos observados nos quadros de dependência química no ato sexual. P or fim, na pedofilia, gerontofjlia, zoofilia
em relação à droga: avidez (ânsia p o r comida, pelo jogo e necrofilia, os objetos sexuais preferenciais são, respec­
ou pelo parceiro sexual), pensamentos recorrentes (quanto tivam ente, crianças, idosos, animais e cadáveres.
aos mesmos), negação da dependência, sintomas de abs­
tinência e a ocorrência de prejuízos psicossociais signifi­
cativos.
A m b ite n d ê n c ia
N a cleptomania, o indivíduo, mais freqüentem ente uma A am bitendência tam bém é denom inada ambivalência
m ulher, vê-se im pelido a roubar determ inado objeto, do volitiva. Consiste num a incapacidade para decidir, em
qual na verdade não necessita e cujo valor financeiro é função da presença na consciência de tendências volitivas
irrelevante. O ato de roubar é precedido de ansiedade e opostas. Pode ocorrer na esquizofrenia.
74 Vontade

U m fenôm eno dessa natureza ocorre em pacientes ob­ ele dem onstra iniciativa, espontaneidade e interesse, e
sessivos. Nestes há um excesso de deliberação, ou seja, ainda capacidade de tom ar decisões.
todas as alternativas possíveis de conduta são minuciosa
e repetidam ente examinadas, o que im pede que se che­
As R esp o stas às S olicitações do
gue à etapa de decisão do processo volitivo.
E x a m in a d o r
N eg ativ ism o E m geral, o grau de cooperação do paciente num a
simples entrevista já fornece elem entos para a identifica­
O negativismo consiste num a resistência não-delibe- ção de alterações, com o negativismo e sugestionabilidade
rada, im otivada e mcompreensíveiits-solicitações exter­ patológica.
nas. N o negativismo passivo, o paciente simplesmente não Para a detecção de obediência automática, são dadas,
faz o que lhe é pedido; no ativo, ele faz o oposto ao so­ sem prévias explicações, ordens simples que pareceriam
licitado. P o d em ser m anifestações do negativism o o às pessoas em geral estranhas ou inadequadas para a situ­
mutism o e a sitiofobia, esta quando não relacionada a um
ação de um exame m édico: “Levante os braços... Abai­
delírio. O negativismo é observado na esquizofrenia ca- xe os braços... Sente-se... Fique de pé... D ê três pulinhos...
tatônica e na depressão estuporosa.
D ê três voltas em torno da cadeira...” .

R e a ç ã o d o Ú ltim o M o m e n to A L in g u a g e m e a P sic o m o tric id a d e


A reação do últim o m om ento consiste no desapare­ As v a ria ç õ e s q u a n tita tiv a s da lin g u a g e m e da
cim ento súbito de um a conduta negativista justam ente psicom otricidade costum am estar correlacionadas dire­
no m o m en to em que o exam inador desiste do seu em ­ tam ente com a vontade. A hiperbulia quase sempre se
penho em fazer com que o paciente atenda à sua solici­ acompanha de logorréia e de agitação psicomotora; e a
tação. hipobulia, de oligolalia ou m utism o e de inibição psico­
m otora.
S u g estio n ab ilid ad e P a to ló g ic a
A sugestionabilidade patológica é um sintoma oposto
ao negativismo. Consiste num a tendência exagerada a
A V O N T A D E N O S P R IN C IP A IS
atender às solicitações vindas do exterior. O corre nos T R A N S T O R N O S M E N T A IS
transtornos dissociativos e conversivos (auto-sugestão); e
nos estados hipnóticos e no transtorno psicótico com par­ E sq u izo fren ia
tilh ad o (heterossugestão). O s fen ô m en o s em eco — A hipobulia é considerada u m sintoma negativo da es­
ecopraxia, ecom im ia e ecolalia —representam casos mais quizofrenia, sendo^ mais característica dos subtipos sim-
graves de sugestionabilidade e ocorrem na esquizofrenia ,.ples, hebefrênico e residual.
catatônica. N a esquizofrenia, podem ocorrer atos im pulsivos,jui-
cídio, am bitendência e, particularm ente na forma cata­
O b e d iê n c ia A u to m á tic a tô n ic a , n eg a tiv ism o , reação do ú ltimo_jnc>m&Rto,
sugestionabilidade patológica e obediência automática.
A obediência automática representa u m exemplo ex­
trem o de sugestionabilidade patológica. Caracteriza-se
pelo cum prim ento passivo e im ediato, sem qualquer re­ M ania
flexão ou elaboração, de quaisquer ordens ou solicitações, A m ania caracteriza-se pela presença de hiperbulia,
mesmo que a ação realizada seja perigosa ou danosa para aum ento da libido, insônia, além de u m fraco controle
o próprio paciente. O corre na esquizofrenia catatônica. dos impulsos.

O EXAM E DA V O N TA D E D epressão
N a depressão há hipobulia, assim com o anorexia (mais
A O b serv ação do C o m p o rta m e n to raram ente aum ento do apetite), insônia (mais raram ente
A exploração da vontade dá-se, basicamente, pela ob­ hipersonia), perda da libido e, nos casos mais graves, ne­
servação do com portam ento do paciente: observa-se se gativismo e ideação suicida.
V ontade 75

R e ta rd o M ental —, um a distorção da auto-im agem corporal e distúrbios


endócrinos (como amenorréia). N a bulimia nervosa, o
N o retardo m ental, tanto pode haver hipobulia (oligo- com portam ento alimentar é basicamente impulsivo (ata­
frenia apática) com o hiperbulia (oligofrenia erética). Tipica­
ques de hiperingestâo), enquanto, na obesidade hiperfá-
m ente, observa-se impulsividade, podendo ocorrer alo-
gica com um , é compulsivo.
triofagia.

D e m ê n c ia A lco o lism o
N a intoxicação alcoólica ocorre uma desinibiçâo dos im­
E m alguns dementes há hipobulia. N a dem ência p o ­
pulsos. Q uando há dependência em relação ao álcool, o
dem ser observados um fraco controle dos impulsos,
com portam ento do paciente adquire características com ­
negativismo ou sugestionabilidade patológica, além de
pulsivas. E bastante com um o suicídio entre alcoolistas.
alotriofagia.
A dipsomania, que se caracteriza por um a incapacida­
de de parar de beber após o prim eiro gole, corresponde
Delirium ao alcoolismo épsilon na classificação de Jellinek (alco­
Nos estados confusionais simples, há hipobulia. Nos olismo periódico).
estados confuso-oniróides, pode haver impulsividade.

C O N T R IB U IÇ Õ E S D A
T ra n sto rn o s de P erso n alid ad e
PSIC A N Á L ISE
A n ti-so cial, Borderline e E xplosiva
Essas categorias diagnosticas caracterizam-se essenci­ P ulsão
alm ente pelo com portam ento impulsivo.
Pulsão é a tradução mais aceita atualm ente para o ter­
m o alemão Tríeb, em pregado por Freud. Difere do ter­
T ra n sto rn o s D issociativos e mo In stin kt , que se refere ao com portam ento instintivo.
C onversivos Para Freud, a pulsão é um conceito que se encontra
na fronteira entre o somático e o psíquico, e representa
Esses quadros caracterizam -se pela grande (auto e um estímulo da m ente que provém do corpo. A pulsão
hetero) sugestionabilidade. P odem manifestar-se sob a consiste num a tendência para a descarga da energia psí­
forma de fugas (drom om ania). quica. Ela produz um estado de excitação psíquica ou
tensão, o qual im pele o indivíduo a realizar uma ação
T ra n sto rn o s de A n siedade m otora cujo objetivo é reduzir essa tensão.
As pulsões possuem dois representantes psíquicos: (1)
Os transtornos de ansiedade podem cursar com insô­
a quota de afeto, que se refere à quantidade de energia
nia inicial e aum ento ou dim inuição do apetite, além de
psíquica (catéxia) ligada a uma representação mental e que
aum ento da sede.
tende à descarga; e (2) a idéia (ou representação), fator
qualitativo que corresponde à percepção da descarga de
T ra n sto rn o O bsessivo-com pulsivo energia psíquica, sentida com o prazer ou desprazer.
(T O C ) Q uatro elementos estão relacionados às pulsões: (1) a
sua fonte, que é sempre um processo somático (o qual
As compulsões constituem uma das manifestações es­
resulta num estado de tensão); (2) a sua pressão ou força,
senciais do T O C . São especialmente torturantes quando
que é o grau de exigência de atividade imposta ao apare­
a sua realização se acompanha de dúvida quanto à exati­
lho psíquico; (3) a sua finalidade (ou alvo), que é a satis­
dão do ato, o que faz com que este tenha que ser repeti­
fação, a cessação do estado de tensão; e (4) o objeto, algo
do inúmeras vezes.
através do qual a pulsão pode atingir sua finalidade.

T ra n sto rn o s A lim en tares


A E v o lu ção da T eo ria das
N a anorexia nervosa, além da perda do apetite —que
inicialmente pode até estar ausente —, encontram -se uma
P ulsões de F reu d
perda de peso auto-induzida —através de dietas, exercí­ O pensam ento de Freud a respeito das pulsões passa
cios físicos, vôm itos provocados, uso de anorexígenos por quatro fases distintas: (Ia) em 1910, a pulsão de auto-
76 V ontade

conservação (ou pulsão do ego) se opõe à pulsâo sexual servatório da libido. Só secundariamente é que os obje­
(libido); (2a) na Introdução ao narcisismo (1914), é m antida tos recebem um investimento libidinal. Portanto, há duas
a oposição pulsão do ego/pulsão sexual, mas a libido é formas de libido: a narcísica, que é investida no ego, e a
subdividida em libido objetai e libido narcísica (do ego); objetai. Além disso, ainda há as pulsões do ego e, assim,
(3á) entre 1917 e 1920, Freud vai abandonando o con­ o ego está relacionado a duas formas de energia: a libido
ceito de pulsão do ego, considerando apenas a pulsâo narcísica e o interesse.
sexual e sua subdivisão em libido objetai e libido narcísi­
ca; e (4â) em 1920, com A lé m do princípio do prazer, surge M o n ism o P u lsio n al (3- fase)
a oposição entre a pulsão de vida (ou Eros) e a pulsão de
m orte (ou Tanatus). E ntre 1917 e 1920, F reud passa a considerar que só
existiria u m tipo de energia psíquica: a libido. O que
antes ele classificava com o pulsões do ego passa a ser in ­
P u lsão Sexual X P u lsão do E go
corporado às pulsões sexuais, especificam ente à libido
(1- fase) narcísica.
A pulsão sexual está voltada para a perpetuação da es­
pécie e está relacionada a um a forma de energia psíquica P ulsão d e V id a X P ulsão de M o rte
denom inada libido. A pulsão do ego, ou de autoconser-
(4- fase)
vação, está voltada para a preservação da vida do próprio
indivíduo — a fom e constitui o seu protótipo —, e está E m 1920, Freud form ula o conceito de pulsâo de
relacionada a um a forma de energia chamada interesse. m orte, não aceito p o r grande parte dos psicanalistas. Ele
O correm conflitos intrapsíquicos entre as pulsões sexu­ baseou-se no fenôm eno da compulsão à repetição —que
ais e as pulsões do ego, mas só as primeiras podem ser se refere a com portam entos e atividades mentais que ten­
reprimidas. dem a se repetir em diversas situações na vida de u m in ­
As pulsões sexuais inicialm ente são satisfeitas de for­ divíduo, independentem ente de proporcionarem prazer
ma auto-erótica, e só mais tarde se tornam dependentes ou não — e na observação clínica da agressividade —na
do objeto. Elas caracterizam-se por um a grande variabi­ ambivalência dos neuróticos, no sadismo, no masoquis­
lidade quanto a objetos e a modalidades de satisfação, que m o, na neurose obsessiva e na melancolia.
podem , inclusive, ser fantasiosas. As pulsões do ego. ao A pulsão de m orte está relacionada à compulsão à re­
contrário, só se satisfazem com objetos reais, havendo uma petição, e consiste num a tendência ao retorno a um es­
rigidez bem m aior no que se refere aos objetos e m oda­ tado anterior à vida, um estado inorgânico. R epresenta
lidades de satisfação. um a tendência à dim inuição das diferenças de energia
As pulsões sexuais já estão ativas desde a prim eira in­ psíquica entre o organismo e o meio, a um a descarga total;
fância, mas inicialmente estão restritas a alguns órgãos es­ um a tendência à desagregação e ao restabelecim ento de
pecíficos (ou zonas erógenas) que se sucedem no tem po, formas m enos diferenciadas e m enos organizadas, algo
com o a boca (fase oral), o ânus (fase anal) e o pênis ou o análogo ao catabolismo. Haveria, portanto, um a propen­
clitóris (fase fálica), constituindo assim o que se denom i­ são natural para a autodestruição, um masoquismo pri­
nam pulsões parciais. N a sexualidade adulta, genital, uni­ mário. Apenas quando, secundariamente, a energia as­
ficam-se as pulsões sexuais e o prazer passa a se relacio­ sociada à pulsão de m orte se volta para os objetos exter­
nar ao corpo com o um todo, adquirindo-se a capacida­ nos é que se manifesta o sadismo.
de para o orgasmo. Todavia, as características sexuais in­ Em oposição à pulsão de m orte está a pulsão de vida.
fantis continuam de certa forma presentes no adulto, sob Esta incorporou as antigas noções de pulsões sexuais e
a forma de prazeres prelim inares ao ato sexual, com o pulsões de autoconservação. Freud chega a insinuar uma
beijos, olhares, carícias, exibições, etc. Além disso, no caso relação entre as pulsões de autoconservação e a pulsão de
das parafilias, haveria um a fixação a um a fase pré-genital m orte, pois o organismo precisaria destruir para se m an­
do desenvolvim ento da libido, isto é, a objetos ou m o ­ ter vivo e "só quer m orrer à sua m aneira” . Todavia, ele
dalidades de gratificação sexual infantis. logo retifica essa posição, e passa a considerar a autocon­
servação com o de natureza libidinal, ligada à pulsão de
vida.
L ibido O b jetai X L ibido N arcísica
A pulsão de vida representa um a tendência à agrega­
(2- fase) ção, à constituição de unidades vitais cada vez maiores e
E m 1914, Freud formula a idéia de que o ego é o pri­ de formas cada vez mais diferenciadas e organizadas, sendo
m eiro objeto da pulsão sexual, e constitui o grande re­ assim análoga ao anabolismo. A pulsão de vida está rela­
V ontade 77

cionada a um aum ento das diferenças do nível de ener­ aum ento da ingestão, e lesões localizadas nessa área pro­
gia entre o organismo e o meio. vocam afagia.
Apesar de opostas, as pulsões de vida e de m orte estão O centro da sede parece estar localizado no hipotála­
regularm ente fundidas, isto é, participam conjuntam en­ m o lateral. N este existem receptores que registram os
te —ora predom inando um a, ora a outra —de inúm eros níveis de sódio, a osmolaridade do líquido extracelular.
com portam entos normais ou patológicos. As manifesta­ Lesões nessa região causam cessação da ingestão de líqui­
ções da pulsão de vida não são observáveis isoladamente, dos (adipsia). O hipotálam o participa tam bém da regula­
sem estarem mescladas às da pulsão de m orte, e vice-versa. ção da excreção de água na urina.
A estimulação de regiões anteriores e posteriores do
hipotálam o aum enta o impulso sexual. A estimulação e
C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS a destruição da área pré-óptica hipotalâmica induz e ini­
be, respectivamente, o com portam ento sexual.
N E U R O C IÊ N C IA S
Os núcleos hipotalâmicos lateral e ventrom edial pa­
C ó rte x P ré -fro n ta l recem fazer parte dos circuitos cerebrais de recompensa.
A estimulação dessas áreas provoca um a sensação de pra­
O córtex pré-frontal é um a área associativa que inte­ zer no animal e induz um com portam ento de auto-esti-
gra informações sensoriais internas e externas e que tem mulação, podendo atuar com o um reforço no condicio­
conexões com o córtex pré-m o to r e córtex m otor. Ele nam ento operante. Já a estimulação de outras áreas, como
está relacionado ao selecionam ento de respostas m otoras as zonas periventriculares do hipotálam o, causa, no ani­
apropriadas, à previsão das conseqüências de cada alter­ mal, terror, dor, m edo e reações de defesa e de fuga.
nativa de ação m otora. Trata-se dos chamados centros de punição.
Estudos de tomografia por emissão de positrons (PET)
identificam um m aior fluxo sangüíneo nas áreas pré-fron-
tais quando o indivíduo realiza tarefas relacionadas à von­ A m íg d ala
tade, ao planejam ento de ações e ao controle voluntário A rem oção das amígdalas, com o na síndrom e de
(consciente) da motricidade. K lüver-B ucy, está relacionada a hipoatividade geral,
Estudos eletroencefalográficos evidenciam o surgimen­ impulso sexual excessivo, hiperfagia e alterações dos há­
to de potenciais elétricos nas áreas pré-m otoras cerca de bitos alimentares.
m eio segundo antes de o indivíduo tom ar conhecim en­
to de sua decisão. Isso significa que só depois que a deci­
são é tom ada é que esta chega à consciência. Todavia, a H ip o c a m p o
decisão chega à consciência antes da ação, o que perm ite A estimulação de diferentes áreas do hipocam po pode
que a consciência faça ajustes e correções, iniba respostas causar passividade e hipersexualidade.
inapropriadas, tom ando assim a ação mais eficaz, mais
adaptativa.
B io q u ím ic a
Diversos circuitos neuronais estão a serviço da hom e-
H ip o tá la m o
ostase do organismo, a qual é essencial para a sobrevi­
O hipotálam o exerce um im portante papel na regula­ vência. O cérebro é autom aticam ente inform ado quan­
ção da tem peratura, da osmolaridade dos líquidos e do do determ inada substância vital atinge níveis elevados ou
peso corporais, da sede, da fom e e da sexualidade. baixos demais, o que o leva a ativar os processos de re­
E m animais, a estimulação elétrica do hipotálam o la­ gulação que vão fazer com que a substância retorne ao
teral e lesões de áreas ventrom ediais do hipotálam o pro­ nível desejado ou ponto fixo.
vocam um aum ento do nível geral de atividade, poden­ O comportamento alimentar é influenciado por vários
do chegar a um a atitude de fúria e luta; por sua vez, le­ hormônios, como os esteróides sexuais, o glucagon, a insu­
sões no hipotálam o lateral levam a um com portam ento lina e o horm ônio do crescimento, e ainda pelos níveis da
de extrem a passividade, com perda da impulsividade na­ glicemia. A norepinefrina e o neuropeptídio Y aumentam
tural. a ingestão alimentar, particularmente de carboidratos. O
A estimulação dos núcleos hipotalâmicos ventrom e­ peptídio galanina faz aumentar a ingestão de gorduras, e os
diais provoca supressão da ingestão alimentar, enquanto opiáceos, de proteínas. O horm ônio colecistocinina, libe­
lesões nessa área causam hiperfagia. P or sua vez, a esti­ rado no intestino proximal mas também presente no cére­
m ulação dos núcleos laterais do hipotálam o ocasiona bro, parece ser o responsável pela saciedade. A fenflurami-
78 V ontade

na e a anfetamina, que aumentam a liberação de serotonina tral. A cocaína, p o r exem plo, eleva o nível da dopam i­
no hipotálamo, causam diminuição do apetite. na no núcleo accumbens, e a nicotina, na via m esocorti-
E m animais, observa-se um a correlação direta entre o colímbica.
com portam ento sexual e a concentração de testostero- Postula-se que haja um a relação entre perda do con­
na. N o hom em , o nível desse horm ônio se eleva em fun­ trole dos impulsos e hipofunção serotoninérgica. Vários
ção da exposição a estímulos de natureza sexual. estudos evidenciaram um a dim inuição da concentração
A dopam ina é o neurotransm issor do sistema de re­ no líquor do 5-H IA A (ácido 5-hidroxi-indolacético) —
compensa. As substâncias psicoativas que causam depen­ o principal metabólito da serotonina —em indivíduos que
dência parecem atuar nesse sistema, aum entando o n í­ tentaram o suicídio ou que apresentavam outros com ­
vel de dopam ina nos neurônios da área tegm entar v en- portam entos impulsivos.
CAPÍTULO

PRA G M ATISM O

Pragmatismo é a capacidade de colocar em prática, de O exame do pragmatismo implica, em prim eiro lu ­


realizar de forma eficaz, aquilo que sé~cteseja ou que foi gar, identificar os interesses e objetivos do paciente, e,
planejado. Portanto, ele não pode ser avaliado se a vo n­ em segundo, avaliar a adequação do com portam ento
tade está diminuída: se o paciente nada quer, o distúrbio quanto à realização de tais objetivos.
não está na transposição do querer para a realização. Todos os transtornos mentais levam a certo grau de
D e certa forma, o pragmatismo serve com o um a m e­ hipopragmatismo, uns mais, outros menos. O maníaco,
dida do grau de eficácia das funções psíquicas em seu apesar de hiperbúlico, está hipopragm ático: seus objeti­
conjunto (Motta, 1995). O pragmatismo só pode se al­ vos m udam constantem ente e ele não consegue term i­
terar quantitativam ente, e para menos: hipopragmatismo nar nada que inicia.
e apragmatismo.
CAPÍTULO

P SIC O M O TR IC ID A D E

As apraxias estão relacionadas a lesões corticais, geral­


IN T R O D U Ç Ã O
m ente no hemisfério dom inante, envolvendo doenças
A M o tilid ad e vasculares cerebrais, processos demenciais e neoplasias.
H á basicamente duas formas de apraxias: a ideom oto-
N e m todos os movim entos corporais se encontram no ra e a ideativa. A apraxia ideom otora é a perda da capa­
âm bito da psicologia e da psicopatologia, mas somente cidade de realizar m ovim entos simples em resposta à so­
as ações psicomotoras. Aqueles m ovimentos corporais in­ licitação do examinador: por exemplo, bater n um prego
voluntários e independentes do psiquism o interessam com u m m artelo; fazer u m aceno significando adeus;
apenas à neurologia. escovar os dentes; etc. O paciente pode conseguir exe­
As ações psicomotoras possuem um conteúdo psico­ cutar o mesmo ato de forma espontânea. A apraxia ide­
lógico, são um a expressão do psiquismo. São voluntári­ ativa, por sua vez, é a perda da capacidade de realizar
as, isto é, conscientes quanto à m otivação e finalidade. m ovim entos seqüenciais: por exemplo, dobrar um a car­
R epresentam a quarta etapa do processo evolutivo: a ta, colocá-la em um envelope, lacrar o envelope e, em
execução. seguida, colocar um selo. Os pacientes conseguem exe­
A m otilidade consiste na via final de todo evento psí­ cutar individualmente os m ovim entos que integram a se­
quico e é a única forma de acesso que temos ao psiquis­ qüência.
m o de um a outra pessoa.
N a psicom otricidade está incluída a fala, mas esta faz
jus a um capítulo à parte [Cap. 9 — linguagem ]. Os H ip o c in e sia /A c in esia
m ovim entos expressivos da m ím ica — em bora estejam A hipocinesia (ou inibição psicomotora) caracteriza-
diretam ente relacionados ao psiquismo, particularm ente se pela dim inuição acentuada e generalizada dos m ovi­
à afetividade —não são estudados aqui, por não serem, m entos voluntários. Os m ovim entos tornam -se lentos e
segundo Jaspers, voluntários nem intencionais. são realizados com grande dificuldade. Em geral, há ini­
bição do pensam ento, oligolalia e em pobrecim ento da
m ímica (hipomimia), além de hipobulia.
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N TITA TIV A S N a acinesia (ou estupor) há abolição dos m ovim entos
voluntários. O paciente pode ficar por um longo perío­
A praxia do restrito ao leito, sem qualquer reação ao ambiente,
A apraxia consiste na dificuldade ou impossibilidade apresentando m utism o, abolição da expressão facial
de realizar atos m otores intencionais, voluntários, na (amimia), recusa de alimentos (sitiofobia) e incontinên­
ausência de paresia ou paralisia, de déficit sensorial e de cia urinária e fecal (gatismo), além de abulia.
incoordenação m otora. A apraxia representa a perda do O estupor e a hipocinesia podem ocorrer na esquizo­
m ovim ento aprendido. frenia catatônica, na depressão grave, nos estados con-
82 Psicomotricidade

fusionais simples, em estados dissociativos histéricos, no As estereotipias podem ser de gestos ou m ovim entos
parkinsonismo, na encefalite letárgica e, mais raramente, (desde simples m ovim entos de dedos até marchas), de
em estados demenciais avançados, no retardo mental, em posição (estereotipia acinética ou catalepsia —a m anuten­
ataques de pânico (reações de congelamento) e na mania. ção de um a postura corporal, geralmente extravagante,
Q uando o estupor se acompanha de rigidez m uscu­ durante longo tem po), de lugar (a busca reiterada, sem
lar, com redução da m obilidade passiva e m anutenção da razão plausível, de u m mesmo local) ou de palavras e frases
postura corporal, trata-se da catalepsia. Nesse caso, o (chamada de verbigeração).
paciente pode assumir espontaneamente posições bastante Supõe-se que as estereotipias representem resíduos de
incôm odas p o r um tem po prolongado: p o r exem plo, ações m otoras que originalm ente possuíam finalidade e
m anter os braços elevados; ficar deitado com as pernas sentido, mas que foram empobrecidas ou deformadas.
para o ar; ou ainda perm anecer com a cabeça inclinada As estereotipias ocorrem na esquizofrenia catatônica,
para a frente, com o se estivesse apoiada em um traves­ em estados crepusculares epilépticos e no autismo.
seiro im aginário (travesseiro psíquico).
As paralisias da conversão histérica constituem um esta­
do de acinesia localizada, restrita a um ou mais membros. F lexibilidade C erácea
Alguns autores colocam, equivocadamente, flexibilidade
cerácea e catalepsia como sinônimos. N a flexibilidade cerácea,
H ip ercln esia
como na catalepsia, há rigidez muscular, porém esta, no caso
A hipercinesia (ou exaltação psicomotora) caracteri- da flexibilidade cerácea, é facilmente vencida. Isso permite
za-se por um aum ento patológico da atividade m otora que o examinador coloque um segmento do corpo do pa­
voluntária. Essa exaltação da psicomotricidade pode se dar ciente —um membro, a cabeça ou o corpo —nas mais di­
em três níveis de gravidade: inquietação, agitação e fu­ versas posições, e o paciente irá manter a postura corporal
ror (do m enos para o mais intenso). em que foi passivamente colocado por bastante tem po,
C om um ente a hipercinesia acompanha-se de logorréia mesmo que tal postura seja desconfortável. O corpo do
e de heteroagressividade. Trata-se de um a alteração psi- paciente é amoldável como se fosse de cera.
copatológica bastante com um e inespecífica, podendo ser A flexibilidade cerácea é encontrada na esquizofrenia
observada na esquizofrenia catatônica, na mania, na de­ catatônica, na encefalite letárgica, no parkinsonismo e em
pressão ansiosa, em estados confuso-oniróides, em esta­ outros distúrbios cerebrais.
dos crepusculares histéricos e epilépticos, em síndromes Para Bum ke, o term o flexibilidade cerácea só caberia aos
ansiosas, em síndromes delirantes, em alguns pacientes quadros de origem orgânica, sendo mais apropriada na
com retardo m ental ou dem ência e no transtorno hiper- esquizofrenia a expressão pseudoflexibilidade cerácea. T o ­
cinético (da infância). davia, isso é m uito criticável, poFsFhãTê^ãrliüma dife­
renciação etiológica e não realm ente fenomenológica.

A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS
M an eirism o s
E c o p ra x ia Maneirismos são movimentos expressivos —isto é, m o­
A ecopraxia consiste na repetição automática e des­ vim entos que servem a um propósito de comunicação,
propositada das ações m otoras executadas p o r outra pes­ tais com o gestos, mímicas, vocalização —que se tornam
soa, que está diante do paciente. São imitados gestos, a exagerados quanto à sua amplitude, tom am -se afetados,
postura, a fala (ecolalia) ou a expressão fisionômica (eco- rebuscados, estilizados ou desarmônicos, perdem sua graça
m im ia). natural e parecem extravagantes ao observador.
A ecopraxia está relacionada à sugestionabilidade pa­ Observam -se maneirismos na esquizofrenia catatôni­
tológica. Pode ser observada principalm ente na esquizo­ ca ou hebefrênica, no retardo m ental, na histeria, em
frenia catatônica e, ainda, no retardo m ental, no delirium doenças cerebrais orgânicas e no homossexualismo.
e em processos demenciais.

In te rc e p ta ç ã o C in ética
E stereo tip ias
A interceptação cinética consiste numa interrupção brusca
As estereotipias constituem ações motoras desprovidas de e incompreensível de uma ação motora já iniciada, que pára
finalidade e de sentido (para o próprio doente), sendo re­ no meio. O paciente muitas vezes atribui a impossibilidade
petidas de maneira uniforme e com grande freqüência. de completar o m ovimento a um a influência externa.
Psicomotricidadc 83

A interceptação cinética é algo equivalente ao bloqueio E co p rax ia


do pensam ento, podendo tam bém ocorrer na esquizo­
frenia catatônica. O exam inador pode propositalm ente realizar, duran­
te a entrevista, determ inados gestos ou expressões faciais
diante do paciente, para ver se este o imita. O bviam en­
P erseveração M o to ra te, isso se tom a desnecessário se o paciente espontanea­
m ente exibe ecopraxias relacionadas às ações m otoras
A perseveração m otora representa um a repetição sem
naturais do examinador.
sentido de um a ação m otora de início executada adequa­
dam ente. P or exemplo: solicita-se ao paciente que colo­
que a língua para fora, o que ele faz, e, em seguida, que F lexibilidade C erácea
ele a coloque para dentro, o que ele tam bém faz; toda­
via, o paciente agora passa a realizar repetidam ente os A presença de flexibilidade cerácea só deve ser testada
mesmos m ovim entos com a língua sem que haja uma em pacientes estuporosos, catalépticos. O procedim ento
nova solicitação p o r parte do examinador. mais com um é elevar o braço do paciente, deixando-o
A perseveração m otora ocorre na esquizofrenia cata­ num a posição que, se m antida p o r algum tem po, torna-
tônica, e em quadros relacionados a doenças cerebrais, se desconfortável. T odavia, deve ficar claro para o paci­
com o processos demenciais, retardo m ental, etc. ente que ele não é obrigado a m anter a postura, pois ele
pode pensar tratar-se de um teste de resistência m uscu­
lar, por exemplo. Bleuler recom endava que se deveria
O E X A M E DA levantar o braço do paciente para tom ar o pulso arterial:
um a pessoa norm al abaixaria o braço assim que o m édi­
P S IC O M O T R IC ID A D E co o soltasse.

A spectos G erais
A m aior parte das alterações da psicom otricidade sur­ A P S IC O M O T R IC ID A D E N O S
ge espontaneam ente, e sua detecção depende apenas da
simples observação p or parte do examinador. C ontudo,
P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S
determinados procedimentos podem ser úteis para a iden­ M E N TA IS
tificação de alguns distúrbios em especial.
E sq u izo fren ia
Excetuando-se a apraxia, a forma catatônica da esqui­
A p rax ia
zofrenia pode exibir qualquer uma das alterações quan­
Para avaliar a presença de apraxia ideomotora, podem titativas ou qualitativas da psicomotricidade. A catatonia,
ser dadas ao paciente ordens como as seguintes: “M ostre- a loucura da tensão muscular, foi descrita por Kahlbaum em
me como você faz um aceno de adeus”; “M ostre-me como 1873, sendo mais tarde incorporada por Kraepelin à de­
você cortaria com um a tesoura”; “M ostre-me como você m ência precoce.
escovaria seus dentes com uma escova” . Deve-se frisar para E m alguns casos de catatonia, mom entos de grande agi­
o paciente, por exemplo, que ele não deve fazer o m ovi­ tação p sic o m o to ra p o d e m altern ar-se com estados
m ento como se seus dedos fossem a escova de dentes, e sim estuporosos. A agitação do esquizofrênico reflete a incoe­
como se ele estivesse segurando uma escova. rência do seu pensam ento: é despropositada, caótica,
Para avaliar a presença de apraxia ideativa, podem ser desorganizada e independente dos estímulos externos.
dadas as seguintes ordens, que se referem a tarefas se­ Maneirismos são comuns tanto na forma catatônica como
qüenciais: “E u vou lhe dar um pedaço de papel. Q uando na hebefrênica.
eu fizer isso, pegue o papel com a sua m ão direita, d o ­ A expressão estupor catatônico, que é muitas vezes utili­
b re-o ao m eio, com ambas as mãos, e coloque-o no zada para se referir ao estupor na esquizofrenia, é inade­
chão” . quada. Prim eiro porque a presença de estupor vai sem­
pre implicar da descrição de um a síndrom e catatônica;
assim, estupor catatônico é praticamente um pleonasmo. Em
P erseveração M o to ra segundo lugar, a síndrom e catatônica não é exclusiva da
Esse distúrbio pode manifestar-se quando damos or­ esquizofrenia, podendo ser observada na depressão ini­
dens ao paciente no exame da praxia. bida, no parkinsonismo, na encefalite letárgica, etc.
84 Psicom otriádade

M ania estereotipias (os automatismes) e hipercinesia, a qual pode


chegar ao nível de um furor.
N a mania, a agitação psicom otora é bastante com um .
Ela é mais organizada e mais relacionada ao ambiente do
que a que ocorre na esquizofrenia. Casos de estupor
C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
m aníaco são m uito raros: ocorreriam em função de a
psicom otricidade não conseguir acom panhar uma extre­ N E U R O C IÊ N C IA S
ma aceleração do pensamento.
Á rea M o to ra P rim á ria
A área m otora primária está localizada no giro pré-cen-
D epressão
tral, que corresponde à área 4 de B rodm ann, no córtex
N a depressão, costuma haver hipocinesia e, nos casos do lobo frontal. Ela recebe informações do córtex soma-
mais graves, estupor. N o estupor depressivo, em geral não tossensorial e do tálamo; conecta-se reciprocamente com
ocorre catalepsia, e a m ímica de tristeza está presente, em as áreas pré-m otoras, com o cerebelo e com os gânglios
contraste com a indiferença afetiva observada no estupor da base; e ativa as contrações musculares através de sua
esquizofrênico. conexão com os m otoneurônios da medula espinhal, que
Nas depressões ansiosas pode haver inquietação ou agi­ constitui o trato corticoespinhal ou sistema piramidal.
tação psicomotora. Lesões nesse trato levam a paresia ou paralisia.
A área m otora primária possui um a organização so-
Delirium m atotópica (mapas motores). O seu papel prim ordial é o
de participação na iniciação do m ovim ento.
Nos estados confusionais simples, há hipocinesia ou aci-
nesia e, nos estados confuso-oniróides, hipercinesia. A agita­ r
ção no delirium é em geral desordenada e reflete a dificuldade A reas P ré -m o to ra s
de apreensão do ambiente. Eventualmente, há ecopraxia.
As áreas pré-m otoras correspondem à área 6 de B ro­
dmann, tam bém no lobo frontal. Possuem conexões re­
D e m ê n c ia cíprocas com a área m otora primária, com o cerebelo e
com os gânglios da base; recebem informações do cór­
Nas demências corticais pode haver apraxia, muitas
tex somatossensorial e projetam -se para a medula espi­
vezes associada a afasia ou agnosia. Q uadros demenciais
nhal. T am bém têm um a organização som atotópica; e
po d em exibir ainda perseveração m otora e ecopraxia.
estão relacionadas com o sistema extrapiramidal.
Síndromes ansiosas ou delirantes em dementes podem
As áreas pré-m otoras são basicamente duas: a área m o­
cursar com agitação. Em quadros avançados de dem ên­
tora suplementar e o córtex pré-m otor. Ambas têm como
cia pode haver estupor.
função principal o plane] am ento dos m ovim entos dire­
cionados a um objetivo. A área m otora suplem entar está
R e ta rd o M ental especialmente envolvida no aprendizado de m ovim en­
N a oligofrenia erética há agitação e, na oligofrenia apática, tos seqüenciais complexos; enquanto o córtex p ré-m o -
inibição psicom otora. N o retardo m ental podem ocor­ tor atua principalm ente sobre m ovim entos que represen­
rer tam bém maneirismos e ecopraxia. tam respostas a deixas visuais ou auditivas.

T ra n sto rn o s D issociativos e C erebelo


C onversivos O cerebelo recebe e processa as informações que as áre­
N a antiga histeria, os gestos, geralm ente teatrais, p o ­ as motoras enviam para a medula. Um a vez processadas pelo
dem constituir maneirismos. E m quadros dissociativos, cerebelo, essas informações retomam ao córtex motor, atra­
pode haver agitação ou estupor. Nos conversivos, obser­ vés do tálamo. O cerebelo não envia projeções para a m e­
va-se dim inuição ou abolição da força muscular, em ge­ dula espinhal, mas recebe diretamente desta informações so-
ral de u m m em bro. matossensoriais, recebendo também informações do córtex.
O cerebelo parece ter o papel de regular diretam ente
a execução m otora. Ele atuaria com parando o planeja­
E pilepsia
m ento dos m ovim entos com a sua execução, detectan­
Em estados crepusculares epilépticos podem ocorrer do assim possíveis erros, corrigindo o m ovim ento em
Psicomotricidade 85

curso e propiciando o aperfeiçoam ento dos m ovim en­ direta com a m edula espinhal. Projetam -se para o corti­
tos subseqüentes. Ele possivelmente armazena programas ces m o to r e pré-m otor, e tam bém para o córtex associ­
m otores, perm itindo com isso que m ovim entos com ple­ ativo pré-frontal. Presum ivelm ente participariam dos
xos sejam realizados autom aticam ente, sem a participa­ aspectos cognitivos da motricidade: influenciariam o pla­
ção da consciência, exceto quando do com ando inicial. nejam ento e a organização de m ovim entos complexos.
Participa tam bém da coordenação m otora, do equilíbrio
e do controle do tônus muscular.
H e m isfé rio E sq u erd o
N a maioria das pessoas, o hemisfério esquerdo é o do­
G ânglios da B ase m inante no controle dos m ovim entos finos de dedos,
Os gânglios da base recebem informações de todo o mãos e braços. P or isso, os indivíduos destros são bem
córtex cerebral, mas não possuem nenhum a conexão mais com uns na população.
CAPÍTULO

AFE TI VIDADE

Sentim ento deriva-se do latim sentire, que significa sen­


IN T R O D U Ç Ã O
sação, perceber através dos sentidos, dar-se conta. Esse term o

D efin ição de A fetividade em geral se refere a um estado afetivo menos intenso e


mais prolongado que as emoções, e sem as alterações fi­
Os afetos, com o as sensações, consistem em estados siológicas encontradas nestas. Talvez se possa dizer que
psíquicos subjetivos, mas que, diferentem ente destas, se os sentim entos resultem de um processamento cogniti­
caracterizam pela propriedade de serem agradáveis ou de­ vo m aior do que haveria nas emoções.
sagradáveis. As paixões têm a intensidade das emoções, porém um a
Os afetos podem ser vistos com o um a conseqüência duração maior. Elas m onopolizam e direcionam os p en ­
das ações do indivíduo que visam à satisfação de suas n e­ samentos e ações do indivíduo.
cessidades (corporais ou psíquicas). Se essas ações são bem - O hum or (ou estado de ânimo, ou tônus afetivo) re­
sucedidas, o afeto é agradável; caso contrário, o afeto é presenta um somatório ou síntese dos afetos presentes na
desagradável. consciência em um dado m om ento. C onstitui o estado
O conceito de afetividade abrange as emoções, os sen­ afetivo basal e fundamental, que se caracteriza p o r ser
timentos, as paixões e o hum or. difuso, isto é, não relacionado a um objeto específico, e
por ser em geral persistente e não-reativo. O hum or os­
A fetos, E m o ç õ e s, S en tim en to s, cila entre os pólos da alegria, da tristeza e da irritabüida-
de, assim com o entre a calma e a ansiedade. O term o
P aixões, H u m o r disforia corresponde a um estado de hum or desagradável.
Existe um grande desacordo entre os autores quanto
ã definição e delimitação desses conceitos. N a prática,
esses termos são utilizados de forma mais ou menos in-
A C lassificação de M ax Scheler
tercambiável. Segundo Scheler, haveria quatro tipos de sentimentos
A feto vem do latim ajficere, que significa influenciar, afe­ (afetos): sensoriais, vitais, psíquicos (ou anímicos) e espi­
tar. Esse term o pode ser usado para designar genericamen­ rituais.
te os elementos da afetividade, incluindo emoções, sen­ Os sentimentos sensoriais localizam-se em determinada
timentos e hum or; mas, outras vezes, é empregado como parte do corpo e estão relacionados às sensações de pra­
sinônim o de emoção. zer e de dor.
O term o emoção corresponde ao francês enwuvoir, que Os sentimentos vitais, assim com o os anteriores, são sen­
significa comover, emocionar; e está ligado a um a idéia de timentos corporais, porém não são localizados e relacio­
m ovim ento. Em oção em geral representa um estado afe­ nam -se com o organismo com o um todo. P or exemplo:
tivo súbito, de curta duração e grande intensidade, que as sensações de mal-estar, bem -estar, fadiga, desânimo,
se acompanha de alterações corporais, relacionadas a um a vigor, tom e e sede (embora estas duas últimas possuam
hiperatividade autonôm ica. tam bém com ponentes sensoriais, localizados no estôma-
88 A fetivid a d e

go e na cavidade oral, respectivamente). Os sentimentos entre as personalidades psicopáticas, incluiu as hipertím i-


vitais guardam certa autonom ia quanto ao m undo exter­ cas, que descreveu com o caracterizadas por “hu m o r bá­
no, isto é, não são reativos. A lém disso, possuem um sico alegre, tem peram ento vivo (sangüíneo) e um a certa
caráter de intencionalidade: a fom e provoca a procura atividade” .
pelo alimento; o cansaço exige o repouso. Todavia, parece ser incoerente dizer que, por exem ­
Os sentimentos psíquicos não são sentim entos corporais. plo, num quadro depressivo grave —em que há um a tris­
N ão se prendem a elementos sensoperceptivos; estão, sim, teza m uito intensa e prolongada —, ocorra hipotim ia (e
ligados ao significado do que é percebido. C onstituem não hipertimia). Se chamamos de hipotimia a tristeza do
reações a acontecim entos externos e são dotados de in­ deprim ido, estamos aproxim ando-a da atimia [ver adian­
tencionalidade: ficar alegre ou triste em função de uma te] que se observa no esquizofrênico, em que há um
notícia; sentir raiva ou m edo de um a pessoa; sentir-se em pobrecim ento afetivo. Portanto, independentem en­
culpado p or um pecado. te de qual seja o estado de hum or dom inante —alegria,
Os sentimentos espirituais referem-se a um sistema de va­ tristeza ou ansiedade —, deveria ser aplicado o term o
lores compartilháveis influenciável pela cultura. São sen­ hipertimia sempre que estiver havendo um a exacerbação
tim entos estéticos (belo, feio), morais (certo, errado) e desse estado de hum or. Assim, na súmula psicopatológi-
religiosos. ca de u m paciente maníaco, apontaríamos “hu m o r ale­
gre (ou irritado)” e “hipertim ia”, e, no caso de um de­
prim ido, “hum or triste” e “hipertim ia” .
A n siedade Observa-se hipertimia não só em relação à alegria, irri­
A ansiedade é definida com o um a sensação vaga e di­ tabilidade e tristeza - com o nas síndromes afetivas primá­
fusa, desagradável, de apreensão ou tensão expectante que rias e secundárias —, mas tam bém em relação à ansiedade —
se acompanha de diversas manifestações físicas —tais como especialmente no transtorno de pânico, no transtorno de
dispnéia, taquicardia, tensão muscular, sudorese, trem or, ansiedade generalizada, nos transtornos fóbicos, etc.
etc. D istingue-se do m edo p o r não estar ligada a um A ansiedade torna-se patológica quando é excessiva,
objeto ou situação específica. paralisante —não leva ao enfrentam ento ou fuga do peri­
A ansiedade representa um estado afetivo normal, que go —, ou traz prejuízos físicos —as chamadas doenças psi­
é bastante útil, pois faz com que o indivíduo fique aten­ cossomáticas — ou psicossociais.
to a um perigo im inente e tom e as medidas adequadas
para lidar com a situação. Assim com o a dor, a ansiedade
nos diz que algo está errado.
H ip o tim ia /A tim i a
Angústia e ansiedade são a mesma coisa —as palavras Hipotim ia significa diminuição da intensidade e da ex­
alemã A ngst e inglesa anxiety se equivalem —, em bora al­ citabilidade dos afetos; atimia (ou apatia), por sua vez, re­
guns autores dêem preferência ao prim eiro term o quan­ presenta a incapacidade de experim entar afetos, sejam eles
do predom inam as alterações corporais —as palavras an­ positivos ou negativos.
gústia e angina estão relacionadas etim ologicam ente. N os estados de dim inuição da afetividade, o doente
tom a-se indiferente ao m eio, às outras pessoas e, algu­
mas vezes, a si próprio, sendo a expressão em ocional
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N TITA TIV A S bastante restrita.
A hipotim ia e a atimia correspondem ao que os vários
H ipertim ia* autores chamam de embotamento afetivo —ou distanciamento,
H ipertim ia corresponde a um aum ento da intensida­ empobrecimento, esmaecimento, esvaziamento, aplainamento afe­
de ou duração dos afetos, ou a um a reação afetiva des­ tivo.
proporcional em relação à situação ou ao objeto que a A hipotim ia e a atimia ocorrem principalm ente na es­
m otivou. quizofrenia —em especial nas formas hebeffênica e resi­
Praticam ente todos os autores restringem a definição dual —, nos transtornos de personalidade esquizotípica e
de hipertim ia a uma alegria (ou irritabilidade) patológi­ esquizóide, na demência avançada, em alguns casos de
ca, com o a que ocorre na síndrom e maníaca. Provavel­ retardo m ental, no estado confusional simples, no coma,
m ente isso ocorre p or influência de K urt Schneider, que, na síndrom e do lobo frontal e no transtorno de estresse
pós-traum ático.
Indivíduos com transtorno de personalidade anti-so­
cial apresentam um a hipotim ia mais circunscrita, relacio­
* N .A .: O radical timia te m orig em no grego thymós, q u e significa espírito, ânimo. nada especificamente à ansiedade e a sentimentos de culpa.
A fetivid a d e 89

Pode ocorrer hipotim ia ou atimia m om entânea, de inibitórios, adquiridos na educação e no convívio social.
curta duração, logo após um evento traum ático de gran­ As reações afetivas são produzidas com grande facilidade
de m agnitude, o que é chamado de estupor emocional ou e são exageradas, desproporcionais ao estímulo.
paralisia afetiva aguda. A incontinência afetiva manifesta-se sob a form a de
U m a forma especial de hipotim ia é a mória, term o cri­ riso ou pranto convulsos, incontidos. O corre principal­
ado p o r Bruns e Jastrowitz. A m ória caracteriza-se por m ente na demência, podendo ser encontrada ainda na
uma alegria vazia, tola e pueril, sem conteúdo afetivo. mania, na intoxicação alcoólica e no retardo mental.
Ela pode ser encontrada em indivíduos com lesão do lobo
frontal, no retardo mental, na dem ência e na esquizofre­
R ig id e z A fetiva
nia hebefrênica.
Alguns pacientes, especialm ente deprim idos, quei- A rigidez afetiva caracteriza-se p o r uma perda da ca­
xam -se de u m sentim ento de falta de sentim entos e, para­ pacidade de m odular a resposta afetiva de acordo com a
doxalm ente, sofrem em função disso. Todavia, nesses situação de cada m om ento. Em oposição ao que ocorre
casos a experiência subjetiva do indivíduo está em de­ na labilidade e na incontinência afetiva, a expressão afe­
sacordo com a observação objetiva, já que o exam ina­ tiva varia m uito pouco, m enos do que o normal, no de­
dor identifica claram ente um a preservação da expressi­ correr do tem po. Assim, independentem ente dos acon­
vidade afetiva. tecim entos externos, o estado de hum or do paciente será
mais ou m enos o mesmo.
A rigidez afetiva ocorre na esquizofrenia, na depres­
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS são, na dem ência e, às vezes, na mania crônica irritável.

C lassificação
P a ra tim ia
As alterações qualitativas da afetividade podem ser divi­
didas em distúrbios da modulação (ou regulação) afetiva e A paratim ia caracteriza-se p o r um a inadequação do
distúrbios do conteúdo dos afetos. Entre os distúrbios da m o­ afeto: um a incongruência entre o afeto expresso e a si­
dulação afetiva estão: a labilidade afetiva, a incontinência tuação vivenciada, ou entre o afeto expresso e aquilo
afetiva e a rigidez afetiva. Entre os distúrbios do conteúdo que o indivíduo verbaliza. P o r exem plo: o paciente,
dos afetos estão: a paratimia, a ambitimia e a neotimia. rindo, conta que foi torturado na noite anterior; ou
então o doente afirma estar alegre, mas sua m ím ica é de
tristeza.
L abilidade A fetiva
A paratimia reflete um a desarmonia entre a afetivida­
A labilidade afetiva —tam bém chamada de instabili­ de e o pensamento. O corre na esquizofrenia.
dade ou volubilidade afetiva —constitui um a dificuldade
no controle dos afetos. Caracteriza-se por mudanças do
A m b itim ia
hum or freqüentes e bruscas, que são imotivadas ou ines­
peradas. Os afetos atingem grande intensidade, mas são A ambitimia também é chamada de ambivalência afetiva,
de curta duração. O estado afetivo está continuam ente segundo a denominação de Bleuler, que a incluiu entre os
oscilando e dá verdadeiros saltos entre os diversos pólos seus quatros A ’s. Representa a presença de sentimentos
afetivos: p o r exemplo, o hum or do paciente passa direto opostos ou contraditórios que são simultâneos e que se
da alegria para a tristeza, logo após retorna para a alegria referem ao mesmo objeto, pessoa ou situação. Por exem­
e, a seguir, passa para a irritabilidade. plo: ao mesmo tempo amar e odiar a mesma pessoa.
A labilidade afetiva ocorre na mania, transtornos dis—
sociativos, transtornos de personalidade instáveis —explo­
N e o tim ia
siva e borderline —, dem ência, retardo m ental e estados
confuso-oniróides. A neotim ia consiste em um a vivência inteiram ente
nova, extravagante e inusitada. São afetos qualitativamen­
te diferentes de todos os que o paciente havia experim en­
In c o n tin ê n c ia A fetiva
tado em sua vida. Podem ter esse caráter de neotim ia
A incontinência afetiva consiste nu m distúrbio da re­ alguns sentimentos místicos, de êxtase, de elação, de de­
gulação afetiva mais grave que a labilidade. H á um a per­ solação e de terror. A neotim ia é observada na esquizo­
da com pleta da capacidade de controle da expressão afe­ frenia — especialmente no trema —, na intoxicação por
tiva; existe um a falha de certos mecanismos frenadores, alucinógenos e em algumas auras epilépticas.
90 A Jetividade

O E X A M E D A A F E T IV ID A D E Delirium
N os estados confusionais simples, há hipotim ia ou
C o m u n ic a ç ã o N ão -v erb al do A feto atimia. N os estados confuso-oniróides, encontram -se
N ão é necessário que o paciente nos conte com o está hipertim ia e labilidade afetiva.
se sentindo para podermos avaliar a sua afetividade: o afeto
é expresso através da mímica, do olhar, dos gestos, da
T ra n sto rn o s de A n siedade
postura e do tom de voz.
Nos transtornos de ansiedade, há um a ansiedade pato­
lógica (hipertimia), que atinge uma intensidade extrema —
E m p a tia como no transtorno de pânico —ou que é m uito freqüen­
A afetividade é avaliada em paticamente. E com o se o te ou persistente —com o no transtorno de ansiedade ge­
observador dissesse para si mesmo, por exemplo: “Se eu neralizada. Especialmente no transtorno de ansiedade ge­
estivesse m e sentindo com o aquele indivíduo aparenta neralizada, a ansiedade pode acompanhar-se de irritabili­
estar —pela sua expressão facial, gestos, etc. —, eu m e sen­ dade. Nos transtornos fóbicos, a ansiedade é desproporci­
tiria m uito alegre; portanto, ele está alegre.” onal ao estímulo, é reconhecida com o excessiva pelo pa­
ciente e leva a um com portam ento de evitação.

A A F E T IV ID A D E N O S P R IN C IP A IS R e ta rd o M ental
T R A N S T O R N O S M E N TA IS N o retardo m ental, podem estar presentes labilidade
ou incontinência afetiva. Encontram -se tanto hipertim ia
M ania (oligofrenía erética) quanto hipotim ia (oligojrenia apática).
N a mania, observa-se um a alegria (euforia, ou melhor,
hiperforia) ou irritabilidade patológicas (hipertímicas). T ra n sto rn o de E stresse
Tipicam ente, há labilidade ou incontinência afetiva.
P ó s-tra u m á tic o (T E P T )
N o T E P T ocorrem sintomas depressivos e ansiosos,
D epressão além de irritabilidade, mas tam bém pode persistir um
N a depressão, ocorre um a tristeza patológica (hiper- estado de hipotim ia.
tímica), que costum a ser caracterizada com o um a tris­
teza vital. E m alguns pacientes, podem ocorrer ansie­ T ra n sto rn o D isfó rico P ré -m e n s tru a l
dade ou irritabilidade intensas. O estado de h u m o r so­
(T D P M )
fre poucas variações, caracterizando assim um a rigidez
afetiva. O T D P M caracteriza-se pela presença de hipertimia,
principalm ente irritabilidade, mas tam bém p o r tristeza e
ansiedade de grande intensidade. Tipicam ente há labili­
E sq u izo fren ia dade afetiva.
A hipotim ia está entre os sintomas negativos da esqui­
zo fren ia. A m ó ria p o d e estar p re se n te no su b tip o
hebefrênico. Em quadros delirantes ou de grande agita­ C O N T R IB U IÇ Õ E S D A
ção, a ansiedade pode ser proem inente, constituindo as­ PSIC A N Á L ISE
sim um a hipertimia. P odem ser encontradas rigidez afe­
tiva, paratimias, ambitimias e neotimias. A feto
Segundo a descrição de Freud, o afeto com preende­
ria os seguintes elementos: (1) um a descarga de energia
D e m ê n c ia
no interior do corpo —processos secretores ou vasom o-
N a demência, tipicam ente há labilidade ou inconti­ tores, que produzem alterações viscerais —; (2) a percep­
nência afetiva, mas tam bém pode ocorrer rigidez afeti­ ção dessa descarga; e (3) um a conseqüente sensação de
va. Ansiedade, tristeza e irritabilidade são manifestações prazer ou desprazer.
freqüentes. N os estágios mais avançados, observa-se N ão se deve confundir afeto com quota de afeto. Esta
hipotim ia. constitui um fator quantitativo, refere-se à energia psí-
A fe tiv id a d e 91

quica (catéxia) que se liga às representações de coisas e de constante procura p o r proxim idade em relação à mãe,
de palavras e que tende à descarga. estresse na separação e conforto na reunião.
Os afetos constituem uma forma de percepção que re­ O comportamento de apego já pode ser observado no
gistra o estado interno do indivíduo. Por definição, são sem­ primeiro mês após o nascimento, e parece perdurar por toda
pre conscientes. Eles nunca podem ser reprimidos —somente a vida (relacionado a outras pessoas, como o cônjuge). Não
as idéias a eles relacionadas são passíveis de repressão. só nos seres humanos observa-se o comportamento de ape­
go, mas também nos outros primatas e mamíferos.
Bowlby descreveu um a seqüência de padrões de com ­
A n siedade portam ento observados em crianças separadas de suas mães
Q uando o indivíduo é subm etido a um grande afluxo por mais de 3 meses. N a prim eira fase, protesto: a crian­
de excitações, de origem externa ou interna, que ele não ça grita e chora, e procura pela mãe. Depois, desespero:
pode descarregar ou dom inar - situação traumática ele a criança perde a esperança de que a mãe retorne e to r­
reage autom aticam ente com uma ansiedade intensa. O na-se hipoativa. E, por fim, distanciamento: a criança se
protótipo da situação traumática seria a experiência do afasta em ocionalm ente da mãe, e irá mostrar-se indife­
nascimento. U m exemplo freqüente de situação traum á­ rente caso esta reapareça.
tica refere-se aos estímulos relacionados a pulsões do id
que são indesejáveis ou não podem ser satisfeitas.
A ansiedade traum ática é característica da infância, C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
quando o ego ainda é bastante im aturo, só reaparecendo N E U R O C IÊ N C IA S E D A
na vida adulta nos casos de neurose de ansiedade (que cor­
P S IC O L O G IA C O G N IT IV A
responderia atualm ente ao transtorno de pânico). C om
o desenvolvim ento do ego, este adquire a capacidade de A F u n ção das E m o ç õ e s
identificar situações de perigo, isto é, de antever a im i­
nência de um a situação traumática. O ego então, diante D o ponto de vista evolucionário, as em oções prom o­
de um a situação de perigo, reage produzindo um a forma vem com portam entos mais adaptativos, que aum entam
atenuada de ansiedade —bem menos intensa que a ansi­ as chances de sobrevivência do animal ou da espécie —
edade automática - denom inada ansiedade de alarme ou tais com o m anter a homeostase corporal, encontrar co­
ansiedade-smal. Esta propicia a mobilização de forças - en­
mida, defender-se contra o perigo, reproduzir-se e manter
tre as quais os mecanismos de defesa —para enfrentar ou relacionamentos sociais (Pally, 1998).
evitar a situação traumática. D o ponto de vista cognitivo, as emoções maximizam
a atenção e o processamento de informações, e organi­
zam a percepção, o pensamento e o com portamento, com
M elancolia o objetivo de lidar da m elhor forma possível com as si­
tuações que estão gerando a resposta afetiva (Pally, 1998).
E m L uto e melancolia (1915), Freud aponta um a corre­
lação entre melancolia e a perda de um objeto, ou seja,
m orte ou separação de um a pessoa próxim a. Afirma ele E stru tu ra s e R eg iõ es C erebrais
que havia previamente um a relação ambivalente com esse
O hipotálamo, o septo, a área paraolfatória, o epitálamo,
objeto. Q uando este é perdido, o indivíduo se identifica
o núcleo anterior do tálamo, porções dos núcleos da base,
com ele —introjeta o objeto perdido —, e a agressividade
o hipocampo, a amígdala, o córtex orbitofrontal, o giro sub-
que existia contra o objeto volta-se contra o próprio ego.
caloso, o giro cingulado, o giro para-hipocâmpico e o ún-
Daí as auto-acusações e o suicídio do m elancóhco. N a
cus são as principais estruturas cerebrais envolvidas no pro­
mania, haveria um a negação da perda e desvalorização
cesso das emoções, e constituem o sistema límbico.
do objeto perdido, o qual é sucessivamente substituído
O hemisfério direito é o dom inante para a emoção:
p or outros objetos: o triunfo maníaco.
ele controla de forma bilateral as respostas autonômicas
e a produção de cortisol, além de possuir um a m aior
T eo ria do A pego conectividade com o sistema límbico.

A teoria do apego foi desenvolvida pelo psicanalista


britânico Jo h n Bowlby. D e acordo com ela, o bebê h u ­ O H ip o tá la m o
m ano teria um a propensão natural a estabelecer laços A estimulação do hipotálam o, em animais, produz
sentimentais profundos com a mãe (ou seu substituto). efeitos autonômicos, endócrinos e m úsculo-esqueléticos
O apego caracteriza-se por um com portam ento do bebê semelhantes aos observados nos estados emocionais. A
92 A fetiv id a d e

rem oção do hipotálam o provoca a abolição desses efei­ sexual. A infusão direta de opiáceos ou benzodiazepínicos
tos. As respostas emocionais periféricas preparam o cor­ na amígdala reduz o m edo e a ansiedade. A estimulação
po para a ação e servem com o um a forma de com unica­ elétrica da amígdala produz reações de medo e de raiva,
ção do estado em ocional de um a pessoa para as outras. além de hiperatividade do sistema nervoso simpático.
E m animais, a estimulação do hipotálamo, dependendo A amígdala conecta-se com o hipotálamo, o qual m e­
da região dessa estrutura, pode levar a com portam entos deia as respostas periféricas desencadeadas por ela. São duas
de raiva, de m edo ou de tranqüilidade. Já lesões hipo- as entradas sensoriais principais para a amígdala: na primei­
talâmicas podem ocasionar, tam bém dependendo da re­ ra, a informação vai do tálamo direto para a amígdala, pro­
gião afetada, com portam entos de passividade ou de rai­ piciando respostas emocionais rápidas a estímulos simples;
va. E m hum anos, distúrbios hipotalâmicos podem estar na segunda, a informação vai do tálamo para o córtex e hi­
associados a incontinência afetiva. pocampo, seguindo depois para a amígdala, via esta relaci­
O hipotálam o parece ter a função de integrar as res­ onada a respostas mais lentas a estímulos mais complexos.
postas autonômicas, endócrinas e músculo-esqueléticas,
a partir das informações que recebe do córtex orbitofron-
O H ip o c a m p o
tal, da amígdala e de partes da formação reticular.
O hipotálam o e o tronco cerebral regulam o sistema A estimulação de diferentes áreas do hipocam po pode
nervoso autonôm ico e, particularm ente, estim ulam a causar raiva, passividade ou hiperatividade sexual. A li­
medula supra-renal. O simpático é ativado nas situações gação do cortisol a receptores no hipocam po leva o hi­
de alerta, relacionadas a perigos externos, e está envolvi­ potálam o a dim inuir a liberação desse glicocorticóide.
do na reação de luta-ou-fuga. O aum ento do débito car­ D urante eventos traumáticos, níveis m uito elevados de
díaco, as alterações da tem peratura corporal e da glice- cortisol podem destruir células hipocampais, ocasionan­
mia, e a constrição pupilar propiciam respostas rápidas do do um prejuízo da m em ória explícita.
organismo às ameaças.
O hipotálam o controla a síntese e a liberação dos h o r­ O C ó rte x O rb ito fro n ta l
m ônios da hipófise anterior, entre eles o horm ônio adre-
nocorticotrópico (A CTH ). Dessa forma, o hipotálamo A estimulação elétrica do córtex orbitofrontal produz
regula os níveis do cortisol e outros glicocorticóides. Estes respostas autonômicas. Já lesões nessa mesma região le­
são responsáveis pela transformação de não-açúcares em vam a um a redução da agressividade e da resposta auto­
açúcares e pela deposição destes no fígado, fornecendo nômica. Estudos de neuroim agem dem onstram um au­
ao organismo fontes de energia rapidamente mobilizáveis. m ento da atividade no lobo frontal direito na criança que
O hipotálamo tam bém induz a síntese, por parte da glân­ é separada de sua m ãe e no adulto que reage negativa­
dula pituitária, de endorfinas — que dim inuem a sensa­ m ente a um filme.
ção de dor —e de oxitocina ou vasopressina - que p ro ­ O córtex orbitofrontal possui eferências para a amíg­
m ovem com portam entos de apego. dala e outras áreas límbicas primárias. Ele pode inibir uma
O hipotálam o e o tronco cerebral controlam tam bém resposta de m edo condicionado, através de sua conexão
os músculos esqueléticos. Portanto, estão relacionados à com a amígdala.
expressão facial das em oções e ao com portam ento de O córtex orbitofrontal reage a estímulos mais com ­
congelamento que acompanha o m edo em animais, o qual plexos que a amígdala e está relacionado à tom ada de
facilita a atenção e dim inui as chances de a presa ser de­ decisões. Segundo a hipótese de Damásio, ele avalia os
tectada pelo predador. estímulos correntes e antecipa as conseqüências das vári­
as possibilidades de reação a esses estímulos, levando em
consideração as experiências emocionais prévias de toda
A A m íg d ala a vida, ou seja, baseando-se nos registros m nêm icos das
A amígdala é provavelmente o centro da ansiedade e respostas autonômicas da emoção referentes a circunstân­
do medo, os quais são biologicamente indistinguíveis. Em cias similares anteriores.
humanos, a remoção cirúrgica da amígdala, bem como
lesões do núcleo central da amígdala, impede o desenvol­
A E x p e riê n c ia C o n scien te da E m o ç ã o
vim ento de respostas condicionadas de medo. N a síndro-
m e de Klüver-Bucy, causada pela retirada das amígdalas O córtex cerebral, especialmente o córtex orbitofrontal
cerebrais, além da perda do m edo, observam-se mansidão e o giro cingulado, recebe informações de diversas es­
e diminuição da agressividade, e ainda hiperoralidade, al­ truturas relacionadas às emoções, com o o tálamo, o hi­
terações dos hábitos alimentares e aum ento do impulso potálam o e a amígdala. Além disso, as informações sobre
A fetiv id a d e 93

as alterações viscerais e motoras são percebidas no córtex induzem o com portam ento de apego. A infusão de ago-
somatossensorial. nistas benzodiazepínicos diretam ente na amígdala dim i­
A percepção das alterações periféricas da emoção é im ­ nui o estresse de filhotes na separação, enquanto a de
portante para a experiência emocional, já que pacientes que antagonistas benzodiazepínicos aum enta a ansiedade,
sofrem secção da medula espinhal apresentam redução da mesmo sem ter havido separação. Já a infusão de naltre-
intensidade das emoções. Estudos recentes têm indicado xona - um antagonista opióide —aumenta o com porta­
que estados emocionais diferentes se acompanham de pa­ m ento de reunião tanto nos filhotes com o nas mães, en­
drões diferentes de resposta autonômica. Todavia, animais quanto a morfina tem eíeito contrário.
que sofrem lesões na medula cervical e animais simpatec-
tomizados ainda manifestam reações emocionais. Além
disso, em humanos, as respostas periféricas e a experiência N e u ro q u ím ic a da A nsiedade
emocional podem ter durações diferentes. Os sistemas gabaérgicos, noradrenérgicos e seroto-
Acredita-se que tenha que haver um a interação entre ninérgicos parecem estar relacionados à ansiedade. Essa
elementos centrais e periféricos para se dar a experiência suposição baseia-se, entre outras coisas, no fato de pos­
emocional. E possível que o cérebro, a partir das infor­
suírem efeito ansiolítico os benzodiazepínicos —que au­
mações das respostas em ocionais periféricas, construa a
m entam a atividade do GABA (ácido gam a-am ino-bu-
em oção, assim com o constrói as imagens perceptivas a
tírico) —, os antidepressivos tricíclicos —que bloqueiam
partir dos estímulos sensoriais.
a recaptação da serotonina e da noradrenalina —, os ini­
Segundo Damásio, o cérebro faz justaposições entre
bidores seletivos da recaptação da serotonina e a buspi-
as imagens das respostas emocionais periféricas e imagens
rona —um agonista parcial dos receptores serotoninér-
perceptivas externas —com o a imagem visual de uma tace
gicos 5 -H T 1a.
ou a imagem auditiva de uma melodia —, permitindo assim
que se atribuam a estas qualidades com o bondade ou
maldade, prazer ou dor, etc. N e u ro q u ím ic a da D epressão
M agda Arnold, contudo, elaborou uma teoria alter­
nativa, distinguindo emoção de sentimento. Segundo ela, Praticamente todos os antidepressivos aum entam a ati­
as emoções são o resultado de um a avaliação inconsci­ vidade das vias noradrenérgicas, serotoninérgicas ou do-
ente de determ inada situação com o perigosa ou benéfi­ paminérgicas, em geral bloqueando a recaptação dessas
ca. Essa avaliação é seguida por um a tendência à ação, m onoam inas ou inibindo a sua degradação. Em função
depois pelas respostas autonôm icas e, por fim, pelo sen­ disso, foi formulada a hipótese de que a depressão estaria
tim ento. Este consiste na experiência consciente da em o­ relacionada a um a deficiência de noradrenalina, seroto­
ção. D e acordo com essa teoria, as respostas autonôm i­ nina ou dopamina. Todavia, essa hipótese tem se m os­
cas não são necessárias para haver reação emocional. trado por demais simplista, e, hoje em dia, acredita-se que
as alterações estejam ao nível dos receptores e dos segun­
dos mensageiros. Além disso, recentem ente foi sinteti­
A pego zada uma substância, a tianeptina, que, apesar de aumentar
E m experiências com animais, observou-se que subs­ a recaptação de serotonina, é eficaz 110 tratam ento da
tâncias endógenas, com o a oxitocina e a vasopressina, depressão.
CAPÍTULO

O R IE N T A Ç Ã O ALO PSÍQ U IC A

orientação tem poral é adquirida mais tardiam ente que a


IN T R O D U Ç Ã O
espacial no desenvolvim ento da criança.

D efin ição de O rie n ta ç ã o


O rie n ta ç ã o n o E spaço
O rientação é a capacidade de se situar em relação a si
Estar orientado espacialmente significa saber exatamen­
m esm o e ao am biente. N ão é propriam ente um a função
te onde se está —por exemplo, se estiver internado, saber
psíquica; consiste, de fato, no resultado dos rendim entos
que se está num hospital, e o nom e deste —, incluindo a
e da integração de diversas funções psíquicas —com o a
rua, o bairro, a cidade, etc.
percepção, a atenção, a m em ória, o pensam ento, a inte­
ligência e o afeto.
A orientação resulta especialm ente da atividade de O rie n ta ç ã o Q u a n to às O u tra s Pessoas
apercepção (ou apreensão). A apercepção representa a Estar orientado quanto às outras pessoas significa p o ­
capacidade de relacionar entre si as percepções para al­ der reconhecê-las, identificá-las corretam ente.
cançar a significação do contexto. P o r exem plo, na tela
do televisor vem os um extenso gramado com algumas
m arcações brancas e duas traves, além de um a bola e O rie n ta ç ã o S itu acio n al
hom ens uniform izados correndo, e, através da aper­ Estar orientado quanto à situação significa saber a ra­
cepção, concluím os que se trata de um a partida de fu­ zão pela qual se está em determ inado lugar e que tipo de
tebol. relação se tem com as pessoas ali presentes. Por exem ­
plo, o indivíduo saber que está num hospital com o paci­
T ip o s de O rie n ta ç ã o ente, e que está sendo examinado p o r um m édico. A
orientação situacional está estreitamente relacionada com
A orientação divide-se em autopsíquica e alopsíquica. as outras formas de orientação alopsíquica e tam bém com
A orientação autopsíquica refere-se à própria pessoa, e a orientação autopsíquica.
consiste n u m dos elem entos da consciência do eu. A
orientação alopsíquica refere-se ao m undo externo e pode
ser subdividida em: orientação temporal, orientação es­ A L T E R A Ç Õ E S D A O R IE N T A Ç Ã O
pacial, orientação quanto às outras pessoas e orientação A L O P S ÍQ U IC A
situacional.
Os com ponentes da orientação não são necessaria­
m ente afetados de form a uniform e. A orientação au­
O rie n ta ç ã o n o T em p o topsíquica pode estar alterada e a alopsíquica preserva­
Estar orientado tem poralm ente significa saber o dia da da, e vice-versa. M esm o dentro da orientação alopsí­
semana, o dia do mês, o mês e o ano em que se está. A quica, os distúrbios po d em ser desiguais: orientação
96 O rientação A lopsíquica

espacial norm al, com orientação tem poral prejudicada, D e so rie n ta ç ã o D eliran te
p o r exem plo.
U m exem plo de desorientação delirante seria o da
U m distúrbio da orientação pode ser parcial ou total.
síndrom e de Capgras. Nesta, o paciente não reconhece
N a orientação temporal, por exemplo, o distúrbio é par­
um familiar ou amigo com o tal. acreditando que o mes­
cial se o paciente sabe o mês e o ano, mas não sabe o dia
m o foi substituído por um sósia, fisicamente idêntico. A
do mês ou o dia da semana. E total, e, em princípio, mais
síndrom e de Capgras pode ser considerada um a forma
grave, se até o ano é desconhecido pelo indivíduo.
d e ja m a is vu. Ela ocorre na esquizofrenia, em transtor­
Via de regra, a orientação no tem po altera-se mais pre-
nos afetivos e orgânicos psicóticos, e no transtorno de­
cocem ente que a espacial. A orientação no tem po é mais
lirante.
frágil, pois demanda um a adaptação que precisa ser cons­
tantem ente renovada.
N a prática, a orientação alopsíquica não se altera pri­ D e so rie n ta ç ã o p o r D éficit Intelectivo
m ariamente: os distúrbios da orientação alopsíquica são U m déficit intelectivo, com o ocorre na dem ência e
sempre o resultado do com prom etim ento de outras fun­ no retardo mental, dificulta a apreensão do m undo ex­
ções psíquicas. terno e pode causar desorientação.
As alterações da orientação alopsíquica podem ser di­
vididas em quantitativas (desorientações) e qualitativas
D e so rie n ta ç ã o p o r E stre ita m e n to da
(falsas-orientações).
C o n sciên cia
N a desorientação por estreitamento da consciência, a
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N TITA TIV A S alteração qualitativa da atenção prejudica a apreensão do
m undo externo. Isso é observado nos estados crepuscu­
A desorientação alopsíquica muitas vezes se acompa­ lares epiléptico e histérico.
nha de perplexidade, de vivências de estranheza —de não-
familiaridade — em relação ao m undo externo, com o
acontece na síndrom e de desrealização. O indivíduo não
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS
consegue apreender plenamente as informações sensoper-
ceptivas: a atividade de apercepção está prejudicada. As falsas-orientações podem ser classificadas de acor­
As desorientações podem ser classificadas, de acordo do com a alteração psicopatológica considerada primária
com a alteração psicopatológica considerada primária, em: em: confuso-oniróide. paramnéstica, delirante e p or es­
confusional, amnéstica, apática, delirante, por déficit in- treitam ento da consciência.
telectivo e p or estreitamento da consciência.
F alsa-o rien tacão C o n fu so -o n iró id e
D e so rie n ta ç ã o C o n fu sio n al N a falsa-orientação contuso-oniróide, que ocorre nos
A desorientação confusional está relacionada a um re­ quadros de delirium. além do rebaixam ento do nível de
baixamento do nível da consciência e, conseqüentemente, consciência, há distúrbios sensoperceptivos. Estes levam
a um prejuízo da atenção e das demais funções cogniti­ o paciente, por exemplo, a acreditar que está em casa,
vas. O corre no delirium. quando na verdade se encontra no hospital, ou a con­
fundir o m édico com um familiar seu.
D e so rie n ta ç ã o A m n éstica
F alsa-o rien tação P a ra m n é stic a
A desorientação amnéstica está relacionada a um preju­
ízo da memória, principalmente da capacidade de fixação. N a falsa-orientação paramnéstica, além de desorien­
Ocorre na síndrome de Korsakoff e nas demências. e ainda tação amnéstica, há uma falsa-orientação, que surge em
nos transtornos dissociativos (como a amnésia psicogênica). função de um a fabulaçâo. Isso é encontrado na dem ên­
cia e na síndrom e de Korsakoff.
D e so rie n ta ç ã o A p ática
A desorientação apática está relacionada a um prejuí­
F alsa-o rien tação D eliran te
zo quantitativo do afeto ou da vontade. O paciente não N a falsa-orientação delirante, a orientação verdadeira
se situa em relação ao m undo externo em função de é substituída por um a falsa, de natureza delirante. Por
desinteresse. O corre nos quadros esquizofrênicos em que exemplo, o paciente desconhece que está no hospital, e
predom inam os sintomas negativos e na depressão. afirma que está no céu.
O rientação A lopsíquica 97

A lternativam ente, a falsa-orientação pode coexistir mais recentes, indica um a preservação da orientação no
com a verdadeira, o que constitui um a dupla orientação. tem po. U m erro de um ou dois dias quanto à data é con­
P o r exemplo, o paciente sabe que está no hospital, mas siderado normal. Mas um erro grosseiro ao inform ar a
acredita que, ao m esm o tem po, se encontra no céu. Esse própria idade pode significar um a desorientação no tem ­
fenôm eno pode ser observado na esquizofrenia. po. Ao final da entrevista, pode-se pedir ao paciente que
U m caso especial de falsa-orientação delirante é a sín­ faça um a estimativa de quanto tem po se passou desde o
drom e de Fregoli. O paciente identifica incorretam ente seu início.
um a pessoa familiar em um estranho, em bora reconhe­
cendo que este é fisicamente diferente da pessoa que lhe
O rie n ta ç ã o E spacial
é próxima. A síndrom e de Fregoli parece estar relacio­
nada ao fenôm eno conhecido com o déjà vit. Para um a avaliação mais precisa da orientação espa­
cial, pode-se perguntar, p o r exem plo, que cam inho o
paciente faria para voltar do hospital para a sua casa.
F a lsa-o rien tação p o r D eve-se considerar se o local onde se encontra o paci­
E stre ita m e n to da C o n sciên cia ente era previam ente conhecido p o r ele. Estar espaci-
alm ente desorientado na própria casa é bem mais grave
N a falsa-orientação por estreitamento da consciência,
do que num a enferm aria em que ele está chegando pela
o paciente está tão aderido a determinadas vivências in­
prim eira vez.
ternas, em detrim ento da percepção do m undo externo,
que essas vivências podem ser utilizadas, erroneam ente,
com o referência para a orientação alopsíquica. U m exem­ O rie n ta ç ã o Q u a n to à S itu ação e às
plo particular é o do fenôm eno da ecmnésia, em que o O u tra s Pessoas
paciente se com porta com o se estivesse vivendo em um a
outra época de sua vida. Essa forma de falsa-orientação É im portante observar se o paciente se com porta como
ocorre nos estados crepusculares epiléptico e histérico. se estivesse entendendo o que se passa à sua volta; e ob­
servar com o ele se relaciona com seus familiares, se pa­
rece reconhecê-los com o tais.
O E X A M E D A O R IE N T A Ç Ã O
A L O P S ÍQ U IC A A O R IE N T A Ç Ã O A L O P S ÍQ U IC A
In te rro g a tó rio N O S P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S
M E N TA IS
A orientação alopsíquica é facilmente avaliada solici­
tando-se ao paciente que nos diga a data corrente, que D e m ê n c ia
identifique o local da entrevista e as pessoas presentes, e
N a dem ência, a orientação tem poral é, na m aioria
que nos fale a razão de ele estar ali. Essas perguntas po­
das vezes, a mais precocem ente perdida. C o m o avan­
dem tornar-se desnecessárias se o com portam ento do
ço do quadro, são sucessivamente atingidas a orienta­
paciente durante a entrevista e o m odo com o ele faz o
ção situacional, a espacial e, por últim o, a autopsíqui-
relato de sua história indicarem, de forma clara, que ele
ca. P o d em o co rrer falsas-orientações fabulatórias. A
está plenam ente orientado. Pacientes que vão sozinhos à
desorientação se deve basicamente aos deficits m nêm ico
consulta médica e chegam 110 horário certo provavelmen­
e intelectivo. H á um a dificuldade em avaliar a passa­
te estão bem orientados.
gem do tem po.

E xpressão F isio n ô m ica


S ín d ro m e de K o rsak o ff
U m a fácies que expressa perplexidade indica desori­ N a síndrome de Korsakoff, ocorre desorientação amnés-
entação. tica e falsas-orientações fabulatórias. Está prejudicada a ori­
entação alopsíquica, com preservação da autopsíquica.
O rie n ta ç ã o T em p o ral
O fato de o paciente conseguir ordenar cronologica­
Delirium
m ente as informações que ele presta, especialmente as N o delirium , há desorientação confusional ou falsas-ori-
98 O rientação A lopsíquica

entações confuso-oniróides. Está prejudicada a orienta­ E pilepsia


ção alopsíquica, com preservação da autopsíquica.
Nos estados crepusculares epilépticos, pode ocorrer de­
sorientação alopsíquica. Falsas-orientações podem estar
E sq u izo fren ia presentes, especialmente se ocorrem vivências delirantes
N os quadros paranóides da esquizofrenia, pode haver ou alucinatórias.
falsas-orientações delirantes, dupla orientação delirante —
um a dupla cronologia ou um a dupla localização no es­
paço —e, mais raramente, a síndrom e de Capgras. Nos C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
quadros apático-abúlicos, observa-se uma desorientação N E U R O C IÊ N C IA S
apática. Pode haver ainda um a reificação do tem po, isto
é, este é tratado não com o um conceito, mas com o uma C ó rte x P a rie ta l e P a rie to c c ip ita l
entidade concreta.
A área associativa terciária do lobo parietal (posterior)
e o córtex parietoccipital, especialmente do hemisfério
M ania direito, perm item a localização no espaço de todas as
A passagem do tem po é percebida com o acelerada na partes do corpo, assim com o do que cerca o corpo. Le­
mania. sões nessas áreas podem levar a um a desorientação ex­
clusivamente espacial.

D epressão
R e c o n h e c im e n to de Faces
O paciente sente o tem po passar vagarosamente na de­
A capacidade para reconhecer faces (prosopognosia) está
pressão. O corre um a desorientação apática.
relacionada ao hemisfério direito, particularmente a uma área
que compreende as superfícies inferomediais dos lobos oc­
In to x icação p o r A lu cin ó g en o s cipitais e as superfícies ventromediais do lobos temporais.
Substâncias com o o LSD e a mescalina podem alterar
a sensação da passagem do tem po, que parece mais ace­ R itm o s B io ló g ico s
lerada ou alentecida.
Várias modificações dos nossos organismos ocorrem de
acordo com períodos definidos: ritmos circadianos (a vari­
R e ta rd o M ental ação diária da temperatura corporal e da secreção da A C TH ,
N o retardo mental, ocorre desorientação por déficit e o ciclo sono-vigQia), ciclos mensais (o ciclo menstrual),
intelectivo. O paciente pode não ser capaz de com pre­ variações sazonais (as estações do ano) e as diversas etapas
ender conceitos simples com o tempo, ontem, amanhã, mês , da vida (da infância à velhice). Possivelmente o hipotálamo
ano, etc. está envolvido na regulação dos ritmos circadianos.
Todos esses ritmos biológicos parecem ser importantes
para a saúde mental e estar relacionados a algumas formas
T ra n sto rn o s D issociativos
de adoecimento. Por exemplo, na depressão, os sintomas
N os quadros de amnésia e transe psicogênicos podem pioram de manhã, há insônia terminal e redução da latên-
ocorrer tanto alterações quantitativas com o qualitativas cia do sono R EM : em alguns pacientes os episódios depres­
da orientação alopsíquica. O padrão pode ser bem dife­ sivos são mais comuns no inverno; e, nas mulheres, os sin­
rente do que se encontra nos quadros de etiologia orgâ­ tomas afetivos tendem a surgir ou se agravar no período pré-
nica: por exemplo, desorientação autopsíquica com pre­ menstrual. sendo os episódios depressivos mais freqüentes
servação da orientação alopsíquica. na fàixa etária que vai dos 25 aos 44 anos.
CAPÍTULO

C O N SC IÊ N C IA D O EU

cordações, etc. —pertencem a nós, em anam de nós e são


IN T R O D U Ç Ã O
realizadas por nós mesmos. E a consciência de ser o su­
r
O Q u e E a C o n sciên cia do E u jeito das próprias vivências.

A vinculação ao eu é um a qualidade inerente a todas


A C o n sciên cia da U n id a d e d o E u
as vivências psíquicas normais.
A consciência do eu representa a propriedade psíquica A consciência da unidade do eu é a consciência de que,
através da qual “ o eu se faz consciente de si m esm o” em determ inado m om ento, o eu é único, inteiro e indi­
(Jaspers). Contrapõe-se à consciência dos objetos. Abran­ visível. Está relacionada a um a qualidade de coerência e
ge tanto um eu psíquico com o um eu corporal, que na verda­ de coordenação exercida pelo eu: aquilo que faço é re­
de são indissolúveis e integram um único e autêntico eu. sultado do que pensei ou desejei.

As C aracterísticas da C onsciência do E u A C o n sciên cia da Id e n tid a d e d o E u


Jaspers descreveu quatro características da consciência do A consciência da identidade do eu é a consciência de
ser o m esm o na sucessão do tem po. E o sentim ento de,
eu: a consciência da atividade do eu, a consciência da unida­
durante toda a vida e nas mais diversas situações, ter sido
de do eu, a consciência da identidade do eu e a consciência
sempre idêntico a si próprio, apesar das incessantes (e
do eu em oposição ao exterior e aos outros (ou consciência
naturais) mudanças de m uitos aspectos da personalidade.
dos limites do eu). K. Schneider acrescentou uma quinta ca­
Está relacionada a uma qualidade de continuidade. Abarca
racterística, a consciência da existência do eu, que Jaspers
a orientação autopsíquica: saber o próprio nom e, idade,
incluiu como um subtipo da consciência da atividade do eu.
profissão, estado civil, endereço, etc.

A C o n sciên cia da E x istên cia do E u


A C o n sciên cia dos L im ites do E u
A consciência da existência do eu —denom inada por A consciência dos limites do eu é a consciência da dis­
Scharfetter de consciência da vitalidade do eu — é a consci­ tinção entre o eu e o não-eu, da separação entre o eu e o
ência de estar vivo, de existir plenam ente, de estar fisica­ ambiente. Consiste em estabelecer um a clara demarcação
m ente presente. Está relacionada aos sentim entos vitais. entre o nosso corpo e os objetos do m undo externo, e entre
as nossas vivências e as vivências das outras pessoas.
A C o n sciên cia da A tiv id ad e do E u
A consciência da atividade do eu —tam bém chamada A L T E R A Ç Õ E S D A C O N S C IÊ N C IA
de consciência da autonomia do eu ou consciência de execução
do eu — é a consciência de que todas as nossas vivências —
D O EU
pensamentos, sentimentos, ações, juízos, percepções, re­ N a prática, é freqüente que um m esm o sintoma en-
100 Consciência do E u

volva mais de um a das características da consciência do ente sente-se com o um fantoche, acredita estar sendo
eu. Portanto, a subdivisão em alterações da consciência teleguiado. Sente ter perdido a autonomia sobre seu corpo
da existência, da atividade, da unidade, da identidade e e sua m ente. Há com um ente uma ideação delirante per­
dos limites do eu atende basicamente a fins didáticos. secutória associada: o paciente em geral julga-se vítima
Os pacientes vivenciam as alterações da consciência do da ação maligna de outros, através de hipnose, telepatia,
eu com o algo concreto e real, não se expressam num macumba, magia, ondas eletromagnéticas (satélites, tele­
sentido m eram ente metafórico (“com o se”). visão). etc.
São exemplos de alterações da consciência da ativida­
de do eu: imposição (ou inserção) do pensamento — que corres­
A L T E R A Ç Õ E S Q U A N T IT A T IV A S ponde à vivência de pensamentos feitos ou fabricados —;
roubo (ou subtração) do pensamento —o paciente acredita que
A lterações da C o n sciên cia da seus pensamentos foram retirados de sua m ente sensa­
E x istên cia d o E u ções corporais (alucinações cenestésicas) impostas; interceptação
cinética — o m ovim ento pára no meio ou nem se inicia —;
A consciência da existência do eu pode estar dim inuí­
interceptação da atenção (ou frustração do objetivo) — o
da: o paciente se queixa de que suas sensações corpóreas,
paciente não consegue dirigir voluntariam ente sua aten­
seus sentimentos, suas recordações ou sua vontade estão
ção para determ inado objeto —; e sentimentos, desejos e
m enos intensos. Isso está relacionado à tristeza vital, que
ações motoras impostos ou controlados.
ocorre na depressão.
Esses fenômenos ocorrem principalm ente na esquizo­
A consciência da existência do eu pode estar abolida:
frenia — sobretudo nos catatônicos — e nos estados de
o paciente afirma que não existe mais — ou que nunca
possessão. Estes constituem quadros dissociativos de na­
existiu —, que não está vivo. Esse fenôm eno está relacio­
tureza histérica, nos quais o eu norm al com o que se reti­
nado a um delírio de negação, encontrado na síndrome
ra, deixando o posto para o invasor: um espírito, o de­
de Cotard, que ocorre na depressão e na esquizofrenia.
m ônio, etc. Pode-se considerar que, nos estados de pos­
A consciência da existência do eu pode estar aum en­
sessão, esteja em geral associada uma alteração da consci­
tada, em função de um a exacerbação do sentim ento vi­
ência da identidade do eu.
tal, que se observa na síndrom e maníaca.
Os distúrbios da consciência da atividade do eu —que
podem ser denom inados fenôm enos de passividade — cons­
D e so rie n ta ç ã o A u to p síq u ica tituem a característica básica da síndrome de influência e da
síndrome de automatismo mental, esta descrita p_or_Ç_léram-
A desorientação autopsíquica consiste em uma dim i­
nuição ou perda da consciência da identidade do eu. N a bault.
Parece lógico que alterações da consciência da ativi­
desorientação autopsíquica total, o paciente não sabe mais
dade do eu im pliquem sempre uma alteração da consci­
quem é, desconhece até o próprio nom e. Isso ocorre no
ência dos limites do eu.
transtorno dissociativo conhecido com o amnésia psico-
gênica, e ainda em quadros demenciais extrem am ente
avançados. N a desorientação autopsíquica parcial, o pa­ A lterações da C o n sciên cia da
ciente pode, p o r exemplo, lem brar-se do próprio nom e, U n id ad e do E u
mas não saber sua idade. Tal situação pode ser encontra­ Q uando a consciência da unidade do eu está com pro­
da na amnésia psicogênica, na demência, no delirium e no metida. o indivíduo vivência uma divisão do seu eu em
retardo mental. duas ou mais partes, as quais existem de forma simultâ­
nea, porém conflituosa, não harmônica; ou então ele sente
ser duas ou mais pessoas ao mesmo tem po. U m exemplo
A L T E R A Ç Õ E S QUALITATIVAS do prim eiro caso é o de um paciente que, ao ser pergun­
A lterações da C o n sciên cia da tado sobre com o estava passando, respondeu: “O m eu
lado direito está feliz, mas o esquerdo está triste.”
A tiv id ad e do E u
N os estados de possessão, pode haver alterações da
Q uando a consciência da atividade do eu está altera­ consciência da unidade do eu, desde que o invasor não
da, o paciente torna-se u m m ero observador passivo de substitua o verdadeiro eu, mas fique ao lado deste. N o
suas vivências psíquicas, as quais não reconhece com o fenôm eno da autoscopia, só há alteração da consciên­
próprias. O que pensa, sente, faz ou quer é im posto ou cia da unidade do eu se o indivíduo tem , além do fenô­
controlado p or outras pessoas ou por alguma força ex­ m eno perceptivo, a vivência de um desdobram ento do
terna, o que caracteriza os delírios de influência. O paci­ seu eu.
Consciência do E u 101

O utros fenôm enos que expressam um a alteração da externo: o enferm o identifica-se com os objetos do
consciência da unidade do eu são: a dupla orientação m undo externo e não se distingue deles.
autopsíquica — o paciente diz ser João da Silva e Jesus N a apropriação, o que acontece com os objetos inani­
Cristo ao mesmo tem po —, a dupla orientação alopsíqui- mados ou com as outras pessoas é experim entado com o
ca —estar simultaneam ente em dois lugares —, a paratimia um a vivência própria: por exemplo, se cortam um galho
— um a dissociação entre pensam ento e aíeto —, a ambi­ de um a árvore, o paciente sente dor. N o transitivismo —
valência afetiva e a ambitendência. term o criado por W ernicke —, o enferm o atribui vivên­
Alterações da consciência da unidade do eu são encon­ cias - sentimentos, pensamentos, alucinações, etc. —que
tradas basicamente na esquizofrenia e, eventualmente, na na verdade são suas a outras pessoas. Está havendo tam ­
intoxicação por alucinógenos (LSD, mescalina, etc.). bém um distúrbio da consciência dos limites do eu quan­
do o indivíduo se sente capaz de ler o pensam ento das
A lterações da co n sciên cia _outras pessoas, ou acredita que possa influir diretam ente
sobre o m undo externo através apenas do poder de sua
da id e n tid a d e do eu
m ente.
Q uando a consciência da identidade do eu está alte­ N o fenôm eno da divulgação (ou difusão, ou publicação)
rada, o paciente vivência um a profunda transformação de do pensam ento, o paciente tem a vivência de que seus
sua personalidade ou do seu corpo. Sente-se como se não pensamentos se extravasam de sua m ente: mal acaba de
fosse mais a mesma pessoa, especialmente em com para­ p en sa r e to d o s já c o n h e c e m seus p en sa m e n to s. A
ção à pessoa que era antes do prim eiro surto psicótico. sonorização do pensamento, fenôm eno sensoperceptivo,
Ele pode acreditar, em alguns casos, que a sua existência só está relacionada a um a alteração da consciência dos
anterior foi na verdade vivida p or outro. Pode acontecer limites do eu se o estímulo auditivo for localizado pelo
tam bém de o paciente, em função de um delírio, assu­ paciente no espaço objetivo externo.
m ir um a nova identidade, em substituição à anterior: ele As alterações da consciência dos limites do eu ocor­
nega ser João da Silva e afirma ser Jesus Cristo (falsa-ori- rem na esquizofrenia, na intoxicação por alucinógenos e
entação delirante). nos estados de êxtase místicos.
O term o despersonalização é utilizado para designar ge­
nericam ente um a síndrome em que há alteração da cons­
ciência do eu. E m um sentido mais estrito, retere-se a
um estado de perplexidade em relação ao próprio eu, um
O EXA M E DA
estado no qual as vivências de transformação do eu se C O N S C IÊ N C IA D O E U
acom panham de sentimentos de estranheza, de não-fa-
miliaridade, de irrealidade em relação a si mesmo. A des- E n trev ista P siq u iá tric a
personalizaçâo pode estar associada à desrealização, quan­ A consciência do eu é avaliada logo no início do in­
do os esses mesmos sentim entos estão relacionados ao terrogatório, quando se pergunta ao paciente o seu nom e
m undo externo. e os demais dados de identificação. P odem ser form ula­
Alterações da consciência da identidade do eu ocor­ das perguntas diretas abordando os fenôm enos relacio­
rem na esquizofrenia — especialm ente no trem a —, na nados às alterações da consciência do eu mais comuns.
depressão grave, na crise de pânico, no estado crepuscu­
lar epiléptico e na intoxicação por alucinógenos.
- N o transtorno de personalidade múltipla, um .quadro Fácies
dissociativo histérico, há alteração da consciência da iden­
U m a expressão fisionômica de perplexidade pode es­
tidade do eu. Duas ou mais personalidades se alternam
tar indicando um a síndrom e de despersonalização.
na consciência do indivíduo, com o se fossem identida­
des diferentes.
Graus leves de despersonalização ocorrem em pessoas Sinal do Espelho
normais, principalm ente na adolescência.
N a vivência de despersonalização, na fase inicial da es­
quizofrenia, o paciente costuma recorrentem ente se ob­
A lterações da co n sciên cia
servar no espelho, para verificar se seu rosto está se trans­
dos lim ites do eu formando. E com um tam bém o paciente ficar olhando
U m com prom etim ento da consciência dos limites do para as próprias mãos, ou outra parte do corpo, repetidas
eu caracteriza-se p or um a fusão do eu com o m undo vezes.
102 Consciência do E u

D iv u lg ação do P e n sa m e n to In to x icação p o r A lu cin ó g en o s


O paciente que está apresentando esse sintom a fre­ O LSD, a mescalina e outras substâncias semelhantes
qüentem ente se recusa a responder às perguntas do exa­ podem causar experiências de alteração da im agem cor­
m inador, alegando que este já sabe tudo sobre ele. poral. O corpo é sentido com o excessivamente leve ou
pesado; e partes do corpo parecem aumentadas ou de­
formadas, separadas do resto do corpo, ou fundidas com
A C O N S C IÊ N C IA D O E U N O S o am biente —o que constituem alterações da consciên­
cia da identidade, da unidade e dos limites do eu.
P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S
M E N T A IS
C O N T R IB U IÇ Õ E S D A
E sq u izo fren ia
PSIC A N Á L ISE
N o treina, síndrome que, m uitas vezes precede a esqui-
zofrenia, é freqüente a despersonalização. Q uando a psi­ S ig m u n d F reu d
cose já está instalada, a consciência do eu pode alterar-se Nas primeiras semanas de vida, o bebê não é capaz de
em todas as suas cinco características, especialmente nas distinguir os estímulos do seu próprio corpo dos estím u­
formas catatônica e paranóide. Já foram descritos em al­ los do meio externo. As (inevitáveis) experiências de frus­
guns catatônicos fenômenos com o o riso e o choro simul­ tração possibilitam que ele desenvolva o sentido de re­
tâneos, ou o choro que se limita a um a metade do rosto. alidade. Aos poucos, o bebê percebe que, p o r exemplo,
Várias alterações _da consciência do euihram ríncluídas o seio da m ãe nem sempre está presente, p o r mais que
p o r K. Schneider entre os sintomas de primeira ardafn- ele, quando está com fome, deseje a sua presença. P or­
para o diagnóstico de esquizofrenia: sensações corporais tanto, conclui ele, o seio da m ãe não faz parte do ego,
impostas; roubo, imposição e divulgação do pensam en­ está fora. P or outro lado, outros estímulos, desagradá­
to; e sentimentos, impulsos e vontades impostos ou con­ veis (como um a dor de estômago), não desaparecem por
trolados. mais que o bebê queira livrar-se deles. P ortanto, a fon­
te desses estímulos deve pertencer ao seu corpo, não está
M ania fora do ego.
O desenvolvim ento do ego com preende 3 etapas: o
H á exacerbação da consciência de existência do eu na auto-erotismo, o narcisismo e a fase objetai. N o auto-erotis-
síndrom e maníaca. m o, o bebê não distingue o eu do não-eu, há um a iden­
tificação primária com a mãe: o ego real e o ego ideal
D epressão (poderoso) são um a só coisa. N o narcisismo prim ário, já
há a distinção eu /n ão -eu , o que corresponde à separa­
N a síndrom e depressiva, observa-se dim inuição da ção entre o ego ideal e o ego real. A percepção da fra­
consciência de existência do eu, chegando a abolição na queza deste gera um a ferida narcísica. Nessa fase, toda a
síndrom e de Cotard. A depressão pode cursar tam bém libido concentra-se no ego. A partir da fase objetai, par­
com despersonalização. te da libido é investida nos objetos. Agora um objeto (a
mãe) é que representa o ego ideal. Para recuperar a p o ­
T ra n sto rn o s de A n siedade tência narcísica primária, a m ãe é introjetada (identifica­
ção secundária), e o ego ideal passa a fazer parte do ego
Nos ataques de pânicos, são com uns as vivências de real.
despersonalização. N a esquizofrenia e na melancolia, há um a regressão
ao auto-erotism o ou ao narcisismo prim ário.
T ra n sto rn o s D issociativos
N a amnésia psicogênica, pode estar alterada a orienta­
M elanie K lein
ção autopsíquica. Nos estados de possessão, ocorrem alte­ Klein elaborou os conceitos de posição esquizoparanói-
rações da consciência da atividade, da identidade ou da de e de posição depressiva.
unidade do eu. N o transtorno de personalidade múldpla, A posição esquizoparanóide constitui um a modalida­
há um distúrbio da consciência da identidade do eu. Nos de de relações objetais característica dos primeiros 4 meses
estados de êxtase, altera-se a consciência dos limites do eu. de vida. D e acordo com a visão kleiniana, já existe um
Consciência do E u 103

ego incipiente desde o nascimento. N a posição esquizo-


C O N T R IB U IÇ Õ E S DAS
paranóide, os objetos são parciais: há um a cisão do obje­
to em objeto bom (idealizado) —o seio m aterno que grati­ N E U R O C IÊ N C IA S E D A
fica as necessidades do bebê - e objeto mau (persecutório) P S IC O L O G IA C O G N IT IV A
—o seio que, ausente, frustra. Os mecanismos de defesa
predom inantes são a introjeção e a projeção. H á uma L o b o P a rie ta l
ansiedade persecutória: m edo de ser destruído pelo obje­
N o córtex sensorial somático primário, localizado no
to mau. A posição esquizoparanóide reaparece, no adul­
lobo parietal anterior, existe um mapa da representação
to, na esquizofrenia e na paranóia.
neural do corpo; no hemisfério direito (não-dom inante)
A posição depressiva representa um a modalidade de
estão representados ambos os dimídios corporais.
relações objetais que surge a partir dos 4 meses de idade, O córtex parietal posterior integra as informações das
superada ao longo do prim eiro ano de vida. Os objetos áreas sensoriais primária e secundária, bem com o dos sis­
agora são totais: a mãe tem ao mesmo tem po aspectos temas visual e auditivo. E onde se dá a configuração da
bons e aspectos maus. As pulsòes libidinais e agressivas im agem corporal, especialmente no hemisfério direito.
referem-se ao mesmo objeto. O bebê experim enta um Algumas síndromes clínico-neurológicas nos ajudam
sentim ento de culpa; tem e ter destruído o objeto amado a com preender o papel do lobo parietal na consciência
com suas pulsões agressivas. O mecanismo de defesa prin­ do eu —com o a síndrom e do membro fantasma, a síndro-
cipal é a reparação. A posição depressiva reaparece na m e de A nton-Babinski e a síndrom e de Gertsmann.
melancolia. M uitos amputados referem a percepção de m ovim en­
tos, parestesias e dores que associam ao m em bro que foi
R e n é S p itz retirado: a síndrom e do membro fantasm a. Isso acontece
porque as vias aferentes que norm alm ente ocupam áreas
Spitz descreveu 3 etapas no desenvolvimento do bebê: próximas se expandem e invadem a área de representa­
o estágio não-objetal, o estágio pré-objetal e o estabelecimento ção desse m em bro no córtex sensorial primário.
do objeto libidinal. N a síndrom e de Anton-Babinski, que ocorre em ca­
N o estágio não-objetal, o com portam ento do bebê é sos de lesão do lobo parietal posterior não-dom inante, o
inteiram ente passivo em relação ao m undo. O início do paciente passa a ignorar a existência do lado esquerdo do
estágio pré-objetal é marcado pela reação do sorriso: o bebê corpo —heminegligência ou hemiassomatognosia. Alter­
sorri ao ver o rosto de um adulto. Essa fase representa o nativam ente, pode não perder a consciência da existên­
início de um com portam ento ativo. cia de seu hem icorpo esquerdo, mas não reconhece que
O estabelecimento do objeto libidinal é marcado pela este se encontra parético ou plégico —hemianosognosia
ansiedade dos 8 meses: entre o 6.° e o 8.° mês, o bebê, di­ esquerda.
ante de um a pessoa estranha, mostra-se ansioso e a rejei­ A síndrome de Gertsmann, relacionada a lesões na cir­
ta. Presum e-se que seja uma reação desprazerosa à au­ cunvolução angular do hemisfério dom inante, no lobo
sência da mãe. A aquisição dessa capacidade de distinguir parietal posterior, caracteriza-se por agnosia digital —in ­
a mãe de um estranho representa que há um a verdadeira capacidade para distinguir, mostrar, escolher e nom ear os
relação objetai; a mãe tornou-se o objeto libidinal do diferentes dedos —, além de acalculia, agrafia e ausência
bebê. de discriminação entre direita e esquerda.

M a rg are t M ahler U m M odelo C o g n itiv ista


M ahler descreveu as fases de autismo, de simbiose e de Para Frith e cols. (1998), existiria um sistema cerebral
separação—individuação. O autism o corresponde aos dois de autom onitoram ento que permitiria ao indivíduo dis­
prim eiros meses de vida. Nessa fase. o bebê preocupa- tinguir as experiências do self dos fenôm enos do meio
se apenas com as próprias questões fisiológicas. A sim­ externo.
biose, p o r sua vez, vai dos 2 aos 6 meses de idade. R e ­ A hipótese é que, ao tem po em que é efetuado um
presenta um estágio de indiferenciação do ego do bebê, com ando m otor, o sistema nervoso faz uma previsão das
que está fundido à mãe. O bebê e a m ãe form am um a conseqüências sensoriais da ação. Diferenças entre o re­
unidade dual onipotente. Já a separação—individuação es- torno sensorial esperado e o retorno sensorial efetivo vão
tende-se dos 6 aos 36 meses, e envolve o nascim ento indicar que ocorreram influências externas.
psicológico da criança, com o um a pessoa separada da N a esquizofrenia, haveria uma falha nesse sistema de
mãe. autom onitoram ento: ocorreriam discrepâncias entre o
104 Consciência do E u

retorno sensorial esperado e o efetivo mesmo na ausên­ estavam desenhando. E m seguida, cada um tinha que
cia de influência externa. Assim, o enferm o iria errone­ reconhecer visualmente o seu próprio desenho, com base
am ente atribuir a influências externas sensações geradas apenas na recordação de seus m ovim entos m anuais.
pelo seu próprio self. Aqueles pacientes que estavam apresentando experiên­
E m um estudo, pacientes esquizofrênicos tinham que cias de passividade com eteram mais erros de reconheci­
fazer u m desenho simples, mas sem poderem ver o que m ento.
CAPÍTULO

PRO SPEC Ç ÃO

A prospecção consiste no planejam ento que o indiví­ Pacientes delirantes costum am form ular planos ab­
duo faz quanto à própria vida, e reflete a expectativa que surdos e inexeqüíveis: p o r exem plo, elim inar todas as
ele tem em relação ao seu futuro. doenças do m undo. Os deprim idos em geral são pessi­
O exame da prospecção se faz perguntando-se direta­ mistas, e nada esperam do futuro. Os maníacos, ao con­
m ente ao paciente o que ele planeja fazer, por exemplo, trário, são m uito otimistas, e m uitas vezes form ulam
quando tiver alta hospitalar —se estiver internado —, ou planos cuja execução está além de suas possibilidades.
m esm o num futuro mais distante. E m alguns indivíduos com dem ência ou retardo m en ­
Os planos para o futuro podem estar ausentes ou pre­ tal, em função do prejuízo intelectivo, noções abstratas
sentes. Se estão presentes, podem ser adequados e exe­ com o a de tem po po d em estar ausentes, e a vida psí­
qüíveis, ou então inadequados e inexeqüíveis —incom ­ quica se lim ita à realidade im ediata, sendo impossível a
patíveis com a realidade do paciente. prospecção.
CAPÍTULO

C O N SC IÊ N C IA DE M O RBID AD E

ções médicas: o paciente, diante do diagnóstico de um a


IN T R O D U Ç Ã O
doença grave ou incurável, nega (no sentido psicanalíti-
A consciência de m orbidade tam bém é chamada de co) que esteja doente.
Jnsight. R efere-se ao entendim ento que o indivíduo tem
sobre o seu p ró p rio estado de saúde. C o n stitu em as
dimensões da consciência de m orbidade o reconheci­ A L T E R A Ç Õ E S N A C O N S C IÊ N C IA
m ento, p o r parte do paciente, de que: (1) determinadas D E M O R B ID A D E
vivências ou com portam entos seus são anormais; (2) uma
doença o está acom etendo; e (3) sua doença é m ental e A consciência de m orbidade não é um a questão de
não física. tudo ou nada. Entre a plena consciência de m orbidade e
U m a plena consciência de m orbidade é de grande im ­ a sua total ausência, pode haver um a consciência parcial.
portância para a adesão ao tratamento. É natural que quem
não se ache doente não queira seguir nenhum tratam en­
to. Todavia, nem sem pre há um a relação direta entre O E X A M E D A C O N S C IÊ N C IA D E
consciência de m orbidade e adesão ao tratam ento. Paci­ M O R B ID A D E
entes que não se acham doentes podem aceitar o trata­
Q uando indagamos ao paciente, no início da entre­
m ento em função de pressões de familiares ou de insti­
vista, quanto à sua queixa principal, muitas vezes já te­
tuições, ou por atribuírem ao tratam ento um significado
mos um a idéia precisa quanto a sua consciência de m or­
falso —p or exemplo, acreditar que o rem édio possui o
bidade. Q uando não está evidente, deve-se perguntar
poder mágico de proteger sua m ente contra a influência
diretam ente a ele se se considera doente, e em que exa­
maligna de espíritos. P or outro lado, pacientes que reco­
tam ente consistiria a sua doença.
nhecem estar doentes podem deixar de seguir o tratamen­
to p or julgá-lo ineficaz, por não tolerarem os efeitos co­
laterais —no caso de medicamentos —, por não confia­
A C O N S C IÊ N C IA D E M O R B ID A D E
rem no m édico, p or não terem condições financeiras de
arcar com o tratam ento, etc. N O S P R IN C IP A IS T R A N S T O R N O S
A ausência de consciência de m orbidade é um a con­ M E N T A IS
dição relativam ente com um na psiquiatria. Mas pode
ocorrer tam bém em alguns distúrbios neurológicos (ano- T ra n sto rn o s P sicó tico s
sognosia): em quadros com o hemiplegias - geralmente N os transtornos psicóticos, em geral a consciência
no lado esquerdo —, afasia sensorial, cegueira e surdez de m orbidade está mais com prom etida do que nos qua­
corticais, etc. U m cérebro m uito com prom etido não é dros em que não há sintomas psicóticos. Para o indiví­
capaz de se auto-avaliar. Mais raram ente, a ausência de duo que está apresentando alucinações auditivas, as vozes
consciência de m orbidade é observada em outras condi­ são, em geral, tidas com o reais. O delirante poderá atri-
108 Consciência damãorblmuâe

b uir o seu sofrim ento nâÚB a um a doença, mas à ação de T ra n sto rn o de P erso n alid ad e
seus perseguidores. N sroepressão psicótica, o paciente
A n ti-so cial
pode acreditar que está recebendo um m erecido casti­
go divino. As manifestações do sociopata são egossintônicas: ele
não sofre com a sua anormalidade.

T ra n sto rn o O bsessivo-com pulsivo


(T O C ) T ra n sto rn o s S o m a to fo rm e s
N os casos mais graves de T O C , pode não haver uma N a hipocondria e na somatização, o paciente acredita
plena consciência quanto à inadequação do com porta­ estar sofrendo de um a doença física, e não mental.
m ento compulsivo, apesar da ausência de sintomas psi­
cóticos.
D e m ê n c ia
Em geral, na demência, não há por parte do doente ple­
M ania na consciência quanto às suas dificuldades de memória e aos
N a mania, o indivíduo não se acha doente, e, ao con­ outros distúrbios cognitivos. Alguns doentes podem mani­
trário, pode estar se sentindo extrem am ente bem , com o festar uma reação colérica ao se darem conta de suas difi­
nunca esteve em toda a vida. culdades cognitivas: a reação catastrófica de Goldstein.
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ÍND ICE ALFABÉTICO

A - funcional, 33 Área
- guliveriana, 33 - de Broca, 51
Abulia, 71 - gustativa, 32 - de W emicke, 51, 58
Acinesia, 81 - hipnogógica, 33 - motora primária, 84
Afasias, 48 - hipnopômpica, 33 - pré-motora, 84
Afetividade, 87-93 - liliputiana, 33 Atenção, 25-28
- ambitimia, 89 - negativa, 30 - álcool, 27
- amígdala, 92 - neuroquímica, 35 - alterações
- atimia, 88 - olfativa, 32 - - qualitativas, 26
- classificação de Max Scheler, 87 - privação sensorial, 35 - - quantitativas, 25
- contribuições da psicanálise, 90 - realização do desejo, 34 - ansiedade, 27
- córtex orbitofrontal, 92 - reflexa, 33 - aprosexia, 26
- definição, 87 - sonorização do pensamento, 33 - características, 25
- delirium, 90 - verdadeira, 31 - contribuições da psicanálise, 28
- demência, 90 - visual, 32 - córtex
- depressão, 90, 93 Alucinógenos, intoxicação, 34 - - frontal, 28
- esquizofrenia, 90 - consciência do eu, 102 - - parietal posterior, 28
- estruturas e regiões cerebrais, 91 - orientação alopsíquica, 98 - definição, 25
- exame, 90 Alucinose(s), 32 - delirium, 27
- experiência consciente da emoção, 92 - alcoólica, 34 - demência, 27
- funções das emoções, 91 Ambitendência, 73 - dopamina, 28
- hipertimia, 88 Ambitimia, 89 - epilepsia, 27
- hipocampo, 92 Ambivalência volitiva, 73 - espontânea, 25
- hipotálamo, 91 Amígdala, remoção - esquizofrenia, 27
- hipotimia, 88 - afetividade, 92 - exame, 26
- incontinência, 89 - vontade, 77 - hipoprosexia, 26
- labilidade, 89 Amnésia, 39 - intoxicação por drogas, 27
- mania, 90 - anterógrada, 40 - labilidade, 26
- neotimia, 89 - generalizada, 40 - mania, 27
- paratimia, 89 - infantil, 44, 46 - modelo da ciência cognitiva, 28
- rigidez, 89 - lacunar, 40 - retardo mental, 27
- transtorno - retroanterógrada, 40 - rigidez, 26
- - de estresse pós-traumático, 90 - retrógrada, 40 - tálamo, 28
- - disfórico pré-menstrual, 90 - seletiva, 40 - tenacidade/mobilidade, 25
Afetos, 87, 90 Anamnese psiquiátrica, 5 - transtornos
- comunicação não-verbal, 90 Anestesia, 30 - - dissociativos, 27
Agnosia, 30 Anorexia, 72, 75 - - hipercinéticos, 27
Agrafia, 48 Ansiedade - voluntária, 25
Alcoolismo - afetividade, 88, 90, 91 Atimia, 88
- atenção, 27 - atenção, 27 Atitude, 13
- consciência, 20 - consciência do eu, 102 - alterações, 13
- vontade, 75 - neuroquímica, 93 - amaneirada, 14
Alexia, 48 - vontade, 75 - arrogante, 13
Alienação, mundo externo, 19 Aparência, 11 - delirium, demência, 14
Alomnésia, 41 - alterações, 11 - depressão, 14
Alotriofagia, 73 - demência, 11 - desinibida, 14
Alucinação, 31 - depressão, 11 - dissimuladora, 14
- abordagem cognitivista, 35 - esquizofrenia, 11 - dramática, 14
- auditiva, 32 - transtornos dissociativos/conversivos, 11 - epilepsia, 14
- cenestésica, 32 Apego, 91, 93 - esquiva, 14
- cinestésica, 32 Apraxia, 81, 83 - esquizofrenia, 14
- cutânea, 32 Aprosexia, 26 - evasiva, 14
- extracampina, 33 Aprosódia, 48 - exame, 14
114 índice A lfabético

- expansiva, 14 - frontal, 28 - vontade, 75


- fobia social, 15 - orbitofrontal, 92 Depressão
- fuga, 13 - parietal, 28, 98 - afetividade, 90
- gliscróide, 14 - parietoccipital, 98 - aparência, 11
- histeria, 14 - pré-frontal, 57, 77 - atenção, 27
- hostil, 13 Criptomnésia, 41 - atitude, 14
- indiferente, 14 - consciência do eu, 102
- inibida, 14 - imaginação, 70
D
- introdução, 13 - inteligência, 68
- invasiva, 14 - linguagem, 50
Déjà vu, 41
- irônica, 14 - memória, 43
Delírio, 59-64
-jocosa, 14 - neuroquímica, 93
- auto-explicação para experiências anômalas, 64
- lamuriosa, 14 - orientação alopsíquica, 98
- mania, 14 - auto-referência, 62
- pensamento, 56
- característica, 59, 60
- manipuladora, 14 - psicomotricidade, 84
- catatímico, 61
- não-cooperante, 13 - vontade, 74
- ciúmes, 62
- oposição, 13 Desagregação do pensamento, 55
- contribuições da psicanálise, 63
- pueril, 14 Desorientação, 96
- culpa, 62
- querelante, 13 - autopsíquica, 100
- definição, 59
- reação do último momento, 14 Diagnóstico psiquiátrico, 8
- disfunção cognitiva, 64
- reivindicativa, 13 - nosológico, 9
- erotomaníaco, 62
- retardo mental, 14 - sindrômico, 9
- esquizofrenia, 62
- sedutora, 14 Dipsomania, 72
- etimologia, 59
- simuladora, 14 Disbulias, 72
- exame, 62
- submissa, 14 Dismegalopsia, 30
- fantástico, 62
- suspicaz, 13 Dopamina, atenção, 28
- grandeza, 61
- teatral, 14 Drogas, intoxicação, atenção, 27
- hiperatividade dopaminérgica, 64
- transtorno de personalidade, 15 Dromomania, 72
Autismo, memória, 43 - identificação, 62, 64
Automutilação, 73 - imaginativo, 61
Autoscopia, 33
- impossibilidade do conteúdo, 59 E
- influência, 61
Avaliação psiquiátrica, 6
- interpretativo. 61 Ecmnésia, 42
- intuitivo, 61 Ecolalia, 49
B - juízo falso, 59 Ecopraxia, 82, 83
- mapas corticais, 64 Ego inconsciente, 44
Bourdon, prova, 27 - místico, 62 Eletroencefalografia, consciência, 22
Bradilalia, 49 - mnêmico, 61 Embotamento afetivo, 88
Bulimia, 72 - não-sistematizado, 61 Emoções. 87
- negação, 62 - função, 91
c - onírico, 61
- parafrenia, 63
Empatia. 90
Engramas, 45
- perseguição, 61 Entrevista psiquiátrica, 5
Cerebelo, 84
- prejuízo, 61 - história
Coma, 19
- primário, 60 - - doença atual, 6
Compulsão, 73
- psicoses orgânicas, 63 - - familiar, 7
Conação, 71
- reivindicação, 61 - - fisiológica, 7
Conceito, 53
- ruína, 62 - - patológica pregressa, 6
Concretismo, 55
- secundário, 60 - - pessoal, 7
Consciência, 17-23 (v. tb. Sonhos)
- sensorial, 61 - - social, 7
- alcoolismo, 20
- sistematizado, 61 - identificação, 6
- alterações
- somático, 62 - itens da avaliação, 6
- - qualitativas, 19
- transtorno - motivo do atendimento, 6
- - quantitativas, 18
- - delirante, 63 - queixa principal, 6
- campo, 18
- - do humor, 63 Epilepsia
- cérebro, 23 Delirium - atenção, 27
- contribuição da psicanálise, 20 - afetividade, 90 - atitude. 14
- de morbidade, 107 - atenção, 27 - consciência, 20
- delirium, 20 - atitude, 14 - memória, 43
- demência, 20 - consciência, 20 - orientação alopsíquica, 98
- do eu, 99-104 - inteligência, 68 - pensamento, 56
- EEG, eletroencefalografia, 22 - memória, 43 - psicomotricidade. 84
- epilepsia, 20 - orientação alopsíquica, 97 - sensopercepção, 34
- esquizofrenia, 20 - pensamento, 56 Escopofilia, 73
- estreitamento do campo, 19 - psicomotricidade. 84 Esquizofrenia
- etimologia, 17 - sensopercepção, 34 - afetividade. 90
- exame, 19 - vontade, 75 - aparência. 11
- hipotálamo, 21 Demência - atenção. 27
- histeria dissociativa, 20 - afetividade, 90 - atitude. 14
- lucidez, 17 - aparência, 11 - consciência, 20
- narcolepsia, 20 - atenção, 27 - - do eu, 102
- nível, rebaixamento, 18 - atitude, 14 - delírio, 62
- psicológica, 17 - consciência, 20 - inteligência, 68
- qualidade, 17 - - de morbidade, 108 - linguagem, 51
- substância reticular ativadora ascendente, 21 - imaginação, 70 - memória, 43
- transtornos do humor, 20 - inteligência, 67 - orientação alopsíquica, 98
- vigilância, 17 - linguagem, 51 - pensamento, 56, 57
Conteúdo - memória, 43 - psicomotricidade, 83
- latente, 20 - orientação alopsíquica, 97 - sensopercepção, 33
- manifesto, 20 - pensamento, 56 - vontade, 74
Coprolalia, 50 - psicomotricidade. 84 Estado
Córtex - sensopercepção, 34 - confusional simples, 18
índice Alfabético 115

- - imaginação, 70 - doença amai, 6 - definição, 47


- confuso-oniróide, 18 - familiar, 7 - demência, 51
- psicótico, imaginação, 70 - fisiológica, 7 - depressão, 50
Estereotipia(s), 82 - patológica pregressa, 6 - ecolalia, 49
- verbal, 49 - pessoal, 7 - esquizofrenia, 51
Eu, consciência do, 99-104 - social, 7 - estereotipia verbal, 49
- alterações, 99-100 Humor, 87 - estruturas subcorticais, 51
- ansiedade, 102 - exame, 50
- atividade, 99 - funções, 47
i
- características, 99 - glossolalia, 50
- contribuição - gramática universal, 51
- - neurociência, 103 Idéias
- hiperfonia, 49
- - psicanálise, 102 - delirantes, 56
- hiperprosódia, 49
- definição, 99 - obsessivas, 56, 57
- hipofonia, 49
- depressão, 102 - sobrevaloradas, 60
- jargonofasia, 49
- esquizofrenia, 102 Ilusão, 30
- latência da resposta, 49
- exame, 101 Imagem perceptiva, 29
- lateralidade, 51
- existência, 99 Imaginação, 69
- logoclonia, 49
- identidade, 99 - alterações, 69
- logorréia, 49
- intoxicação por alucinógenos, 102 - contribuições da psicanálise, 70
- maneirismos, 50
- limites, 99 - demência, 70
- mania, 50
- mania, 102 - depressão, 70
- mussitação, 49
- transtornos dissociativos, 102 - estado(s)
- mutismo, 49
- unidade, 99 - - confusional simples, 70
- neologismos, 49
Exame - - psicóticos, 70
- oligolalia, 49
- complementar, 8 - exame, 69
- palilalia, 49
- físico, 8 - introdução, 69
- para-respostas, 50
- psíquico, 7 - mania, 70
- parafasias, 50
Expressão fisionômica, consciência, 19 - retardo mental, 70
- pedolalia, 50
Impulsos, 71, 72
- pensamento, 47
Incontinência afetiva, 89
F - prosódia, 47, 51
Insônia, 72
- respostas aproximadas, 50
Inteligência, 65-68
- solilóquio, 50
Fabulação, 44, 46 - alterações, 66
- taquilalia, 49
Fala (v. Linguagem) - condições instrumentais e promotoras, 65
Falsa-orientação, 96, 97 - transtornos conversivos/dissociativos, 51
- conhecimentos, 65
Lobo frontal, 68
Fenomenologia, 2 - definição, 65
Logoclonia, 49
Flexibilidade cerácea, 82, 83 - delirium, 68
Logorréia, 49
Fobia social, atitude, 15 - demência, 67
Lucidez, 17
Frangofilia, 72 - depressão, 68
Fuga de idéias, 54 - esquizofrenia, 68
- exame, 66 M
- genética, 68
G
- geral, 65 Macropsia, 30
- lobo frontal, 68 Maneirismos, 50, 82
Gânglios da base, 85
- retardo mental, 67 Mania
Glossolalia, 50
Interceptação cinética, 82 - afetividade, 90
- aparência, 11
H - atenção, 27
j - atitude, 14
Hemisfério esquerdo, 85 - consciência
Jamais vu, 41
Hiperatividade dopaminérgica, 64 - - de morbidade, 108
Jargonofasia, 49
Hiperbulia, 72 - - do eu, 102
Juízo, 53
Hipercinesia, 82 - imaginação, 70
- falso, 59
Hiperestesia, 30 - linguagem, 50
Hiperfonia, 49 - memória, 42
Hipermnésia, 39 - orientação alopsíquica, 98
- evocação, 40 - pensamento, 56
- fixação, 40 Labilidade - psicomotricidade, 84
- lacunar, 41 - afetiva, 89 - vontade, 74
- seletiva, 41 - atenção, 26 Mapas corticais, 64
Hiperprosódia, 49 Latência da resposta, 49 Melancolia, 91
Hipersonia, 72 Lembranças encobridoras, 44 Memória, 37-46
Hipertimia, 88 Libido - alomnésia, 41
Hipobulia, 71 - narcísica, 76 - amnésia, 39, 40, 46
Hipocampo - objetai, 76 - aprendizagem não-associativa, 39
- afetividade, 92 - perda, 72 - autismo, 43
- vontade, 77 Linguagem, 47-51 - classificação, 38
Hipocinesia, 81 - afasia, 48 - condicionamento clássico e operante, 39
Hipoestesia, 30 - agrafia, 48 - conservação, 37
Hipofonia, 49 - alexia, 48 - contribuições da psicanálise, 44
Hipoprosexia, 26 - alterações, 47 - criptomnésia, 41
Hipoprosódia, 48 - aprosódia, 48 - curto prazo, 38
Hipotálamo - área - de procedimento, 38
- afetividade, 91 - - de Broca, 51 - definição, 37
- consciência, 21 - - de Wemick, 51 - déjà vu/jamais vu, 41
- vontade, 77 - bradilalia, 49 - delirium, 43
Hipotimia, 88 - características, 47 - demência, 43
Histeria - circuitos normais da fala, 51 - depressão, 43
- atitude, 14 - cognição, 51 - ecmnésia, 42
- dissociativa, consciência, 20 - contribuição da psicanálise, 51 - emocional, 39
História, avaliação, 6 - coprolalia, 50 - engramas, 45
116 índice Alfabético

- epilepsia, 43 Pensamento, 53-58 Rebaixamento do nível de consciência, 18


- episódica, 38 - alterações, 54 Recalque, 44
- esquizofrenia, 43 - - aceleração do curso, 54 Rejeição, 34
- etapas do processo mnêmico, 37 - - alentecimento do curso, 54 Repressão, 44
- evocação, 37,45 - - concretismo, 55 Retardo mental
- exame, 42 - - desagregação, 55 - afetividade, 90
- explícita, 38 - - fuga de idéias, 54 - atenção, 27
- fabulação, 46 - - idéias obsessivas/delirantes, 56 - atitude, 14
- fixação, 37, 45 - - minuciosidade, 55 - imaginação, 70
- hipermnésia, 40, 41 - - perseveração, 55 - inteligência, 67
- implícita, 38, 45 - - prolixidade, 55 - memória, 43
- longo prazo, 38 - área de Wemicke, 58 - orientação alopsíquica, 98
- mania, 42 - aspectos, 54 - pensamento, 56
- paramnésia, 41 - atividades fundamentais, 53 - psicomotricidade, 84
- pré-ativação, 39 - atributos intelectivos fundamentais, 53 - vontade, 75
- reconhecimento, 37 - contribuições da psicanálise, 56 Rigidez
- retardo mental, 43 - córtex pré-frontal, 57
- afetiva, 89
- semântica, 38 - delirium, 56
- atenção, 26
- sensorial, 38 - demência, 56
Ritmos biológicos, 98
- síndrome de Korsakoff, 43 - depressão, 56
- transtornos - epilepsia do lobo temporal, 56
- - de estresse pós-traumático, 44, 46 - esquizofrenia, 56
- - dissociativos, 44 - exame, 56
Micropsia, 30 - linguagem, 47 Satiríase, 72
Minuciosidade, pensamento, 55 - mania, 56
Semiologia psiquiátrica, 2
Monismo pulsional, 76 - modalidades, 53
Sensação, 29
Morbidade, consciência, 107 - objetos mentais, 57
Sensopercepção, 29-35
Motilidade, 81 - retardo mental, 56
- alterações, 30-33
Motivo do atendimento, 6 - transtorno obsessivo-compulsivo, 56, 58
- alucinógenos, intoxicações, 34
Mussitação, 49 Percepção, 29, 34
- alucinose alcoólica, 34
Mutismo, 49 Persevera motora, 83
- contribuição da psicanálise, 34
Perseveração, 55
- delirium, 34
Perversões sexuais, 73
N - demência, 34
Piromania, 72
- epilepsia, 34
Narcolepsia, consciência, 20 Pragmatismo, 79
Prolixidade, 55 - esquizofrenia, 33
Negativismo, 74 - exame, 33
Neologismos, 49 Prosódia, 47, 51
Prospeção, 105 - introdução, 29
Neotimia, 89 - transtornos
Ninfomania, 72 Pseudo-alucinação, 31
Psicomotricidade, 81-85 - - dissociativo/conversivo, 34
- acinesia, 81 - - humor, 34
o - apraxia, 81 Sentimentos, 87
- área - espirituais, 88
Obediência automática, 74 - - motora primária, 84 - psíquicos, 88
Objetos mentais, 57 - - pré-motora, 84 - sensoriais, 87
Oligolalia, 49 - cerebelo, 84 - vitais, 87
Orientação, 95-98 - delirium, 84 Sinal do espelho, 101
- alterações, 95 - demência, 84 Síndrome de Korsakoff
- - desorientação, 96 - depressão, 84 - memória, 43
- - falsa-orientação, 96, 97 - ecopraxia, 82 - orientação alopsíquica, 97
- contribuições das neurociências, 98 - epilepsia, 84 Sinestesia, 33
- definição, 95 - esquizofrenia, 83 Solilóquio, 50
- delirium, 97 - estereotipias, 82 Sonhos, 19, 20
- demência, 97 - exame, 83 - bizarrice, 21
- depressão, 98 - flexibilidade cerácea, 82 - fantasia de realização do desejo, 21
- epilepsia, 98 - gânglios da base, 85 - pesadelos, 21
- espaço, 95 - hemisfério esquerdo, 85 - punição, 21
- esquizofrenia, 98 - hipercinesia, 82 Sono, 18
- exame, 97 - hipocinesia, 81 - REM, 22
- intoxicação por alucinógenos, 98 - interceptação cinética, 82 Sonorização do pensamento, 33
- mania, 98 - maneirismos, 82 Substância reticular ativadora ascendente,
- pessoas, 95 - mania, 84 consciência, 21
- retardo mental, 98 - motilidade, 81 Sugestionabilidade patológica, 74
- síndrome de Korsakoff, 97 - persevera motora, 83 Suicídio, 73
- situacional, 95 - retardo mental, 84 Súmula psicopatológica, 8
- tempo, 95 - transtornos dissociativos/conversivos, 84
- tipos, 95 Psicopatologia, 1
- transtornos dissociativos, 98 Pulsão, 75 T
- ego, 76
p - morte, 76 Tálamo, 28
- sexual, 76 Taquilalia, 49
Paixões, 87 - vida, 76 Transtomo(s)
Palilalia, 49 - de personalidade
Para-respostas, 50 - - anti-social, 15
Parabulias, 72
Q - - borderline, 15
Parafasias, 50 - - consciência de morbidade, 108
Queixa principal, 6
Parafilias, 73 - - de evitação, 15
Parafrenia, 63 - - paranóide, 15
Paramnésia, 41 R - - vontade, 75
Paratimia, 89 - delirante, 63
Pareidolia, 31 Raciocínio, 53 - disfórico pré-menstrual, afetividade, 90
Pedolalia, 50 Reações de último momento, 74 - dissociativo/conversivo
índice Alfabético 117

- - aparência, 11 - - pensamento, 56, 58 - enfraquecimento de impulsos específicos, 71


- - atenção, 27 - - vontade, 75 - esquizofrenia, 74
- - consciência do eu, 102 - exame, 74
- - linguagem, 51 v - hiperbulia, 72
- - memória, 44 - hipobulia, 71
- - orientação alopsíquica, 98 Vigilância, 17 - intensificação de impulsos específicos, 72
- - psicomotricidade, 84 Vontade, 71-78 - mania, 74
- - sensopercepção, 34 - abulia, 71 - negativismo, 74
- - vontade, 75 - alcoolismo, 75 - obediência automática, 74
- estresse pós-traumático - ambitendência, 73 - reação do último momento, 74
- - afetividade, 90 - atos impulsivos, 72 - retardo mental, 75
- - memória, 44, 46 - compulsão, 73 - sugestionabilidade patológica, 74
- hipercinético, atenção, 27 - contribuições - transtornos
- humor - - neurociência, 77 - - alimentares, 75
- - delírio, 63 - - psicanálise, 75 - - ansiedade, 75
- - sensopercepção, 34 - delirium, 75 - - dissociativo/conversivo, 75
- obsessivo-compulsivo - demência, 75 - - obsessivo-compulsivo, 75
- - consciência de morbidade, 108 - depressão, 74 - - personalidade, 75