Você está na página 1de 3

www.jonasdonizette.com.br / http://twitter.

com/jonas_donizette 28/07/2010

Rompendo o muro de silêncio e frieza da surdez

Jonas Donizette *

Anualmente, de 10% a 15% das crianças de nosso País nascem com problemas de
deficiência auditiva. Se nenhuma providência é tomada, esses inocentes ficam
marcados por essa condição. A situação é ainda mais grave com relação aos
prematuros, que já nascem fragilizados pelas circunstâncias. Cada um deles têm, diante
de si, uma montanha de desafios que decorrem desse estigma, um estigma que pode ser
superado.

A deficiência auditiva leva esses pequenos brasileiros a enfrentarem dificuldades de


convívio e de aprendizado, o que leva muitos, que desconhecem o que se passa, a
considerá-los dispersos e desinteressados, mas não é isso que eles são.

O problema auditivo cria nesses meninos, nessas garotas, um muro de silêncio e frieza,
invisível como o ar, mas também absolutamente, do mesmo modo que o ar, real,
bastante real. Não bastassem todos os problemas e desafios próprios da idade, cabe a
eles construir veredas para se comunicar, para conviver com outras crianças e para
assimilar o conhecimento na escola. São barreiras que vão marcá-los. Certamente vão
superá-las, e o esforço em sobrepujar vai ensiná-las a romper restrições e dificuldades,
mas a dolorosa memória dessa vivência será parte de suas vidas.

A audição é a chave para a linguagem oral que, por sua vez, forma a base da
comunicação escrita. Uma pequena queda no nível de audibilidade ameaça resultar em
sérios problemas. Os prejuízos são gerais. Atingem o desenvolvimento afetivo,
prejudica na escola e causa déficit de atenção, afetando a sociabilidade. Na maioria dos
casos, a descoberta do problema ocorre aos três ou quatro anos de idade, o que já é
tarde para boa parte das providências que poderiam ser tomadas.

A resposta a esse problema já está ao alcance da tecnologia. Queremos o melhor para


nossas novas gerações, e a chance de poupar ou minorar-lhes os obstáculos faz dessa
perspectiva não uma mera possibilidade, mas um imperativo. A capacidade de ouvir
nasce no bebê já na barriga da mãe. Isso acontece lá pelo 5º mês de gravidez. Portanto,
no momento do nascimento a criança tem condições de fazer um exame de audição, e
assim é possível identificar problemas nessa área. Se for diagnosticado nos primeiros
meses, há como fazer uma intervenção fonoaudiológica, o que vai permitir, àqueles
bebês com deficiências mais intensas, o desenvolvimento de linguagem muito próxima
a de uma criança sem problemas dessa natureza. Temos, portanto, meios de garantir a
esses pequenos uma vida melhor e é nosso dever fazê-lo.
Os motivos humanitários se impõem diante de uma causa tão essencial como essa. Mas
as nobres intenções podem ainda ser complementadas com argumentos racionais, de
ordem financeira, que tornam a premência do teste da orelhinha uma forma de
aumentar a eficiência do emprego dos recursos públicos, pois a questão das crianças
com deficiências auditivas também tem implicações econômicas. Há uma despesa que
decorre da desatenção para com a audição das crianças. O custo uma criança surda,
com acompanhamento bem feito por toda vida, demanda um gasto de US$ 1 milhão,
mas esse valor cai para US$ 83 mil quando os cuidados necessários são empregados a
tempo. Isso representa uma expressiva queda de 92% no valor total e prova, aliás,
aquele dito popular de que a solidariedade é o único tesouro que se aumenta ao dividi-
lo. Quanto mais investimos nessas crianças, mais somos beneficiados por esse gesto.

É certo que todo nosso processo de aprendizagem tem fundamentação nos sentidos.
Como aprender se não vemos, não ouvimos, não sentimos, não detectamos pelo olfato
e não sentimos no paladar? É claro que a ausência de um ou mais sentidos não veda
ninguém ao acesso para o saber, mas torna essa possibilidade mais tortuosa.

Conhecido também como Triagem Auditiva Neonatal, o teste da orelhinha pode ser
realizado já no segundo ou terceiro dia de vida do bebê. É indolor, rápido – dura uns
10 minutos – e garante, por meio do diagnóstico precoce, a adoção de tratamentos que
vão amenizar o problema da deficiência auditiva e, em certos casos, resolver mesmo.
Nesse teste, a criança recebe um dispositivo acoplado a um computador. O
equipamento emite sons de fraca intensidade e recolhe as reações que o bebê produz
aos estímulos.

Tenho a satisfação de ter contribuído para garantir, pelo menos em São Paulo, mais
oportunidades e qualidade de vida a eles, ao conseguir a aprovação da Lei nº
12.522/2007, de minha autoria, que estabeleceu a obrigatoriedade do teste da orelhinha
em nosso Estado. A mobilização que fiz foi uma luta de três anos coroada de êxito.

Apresentei o projeto de lei 1.211 no dia 27 de novembro de 2003. Houve uma longa
tramitação mas, no dia 21 de dezembro de 2006 o texto foi aprovado em plenário.
Considerei essa conquista como um presente de Natal da Assembleia para as mães e
pais de nosso Estado. Poucos dias depois, no dia 3 de janeiro, o texto foi publicado no
Diário Oficial, tornando-se lei naquele mesmo instante.

Por ser algo relativamente novo, com pouco mais de 2 anos, alguns pais e mães ainda
desconhecem, mas o direito ao teste da orelhinha é líquido e certo no Estado de São
Paulo, e gratuito, obviamente. É preciso conscientizar a todos desse importante recurso
colocado à disposição de todos, pois ainda há um pouco de desinformação a esse
respeito. Para que o bebê faça o exame e, obviamente, se ninguém orientou nesse
sentido, basta dirigir-se ao posto de saúde mais próximo e solicitar. Haverá uma
consulta e o encaminhamento. Progressivamente articula-se a compra de mais e mais
equipamentos, a criação de mais convênios, de modo a facilitar e agilizar a realização
desses exames.

A saída ao se identificar o problema é, em diversos casos, o uso de aparelhos especiais


para compensar essa deficiência. Algumas famílias, segundo médicos que ouvi, têm
receio de adotar esses dispositivos. Mas devemos pensar nesses casos que o uso desses
aparelhos são necessários, e vão ajudar a criança a lidar com o problema. Atualmente,
graças à tecnologia, os equipamentos são discretos e ficam quase desapercebidos. É
como o óculos atualmente, cujas armações e formatos variados tornaram-se elegantes e
discretos no uso.

O filósofo latino Aurélio Agostinho, mais conhecido como Santo Agostinho, que viveu
entre os séculos IV e V, escreveu no seu livro “Confissões” belíssimas palavras em
prosa poética sobre a sua revelação espiritual: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão
nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava...
Estavas comigo e eu não estava contigo... Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a
minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira”. A força desse
texto reside na descoberta da fé em Cristo que, nas palavras do filósofo, tirou-o da
“surdez” e da “cegueira”, expressas aqui como metáforas de uma vida sem fé. A beleza
desses “quase versos” –o livro é em prosa– me sensibilizam e me inspiram. Agostinho
era um artista da palavra e erudito, e a eloquência de sua expressão arrebata-nos pelo
entusiasmo. Ele me inspira em um sentido mais pragmático, que é o de garantir mais
qualidade de vida a esses pequenos brasileiros. Ajudo-os a tirá-los da surdez não
metafórica, prática, na minha dimensão humana.

Essas crianças com deficiência auditiva não podem ficar para trás. É dever do Estado
prestar esse serviço, e o povo deve fazer uso desse direito, para o bem das novas
gerações. Que essa iniciativa se espraie para cada unidade da federação, que se torne
uma lei federal, de modo que nos quatro cantos de nosso país, bebês com deficiência
auditiva sejam beneficiados por essa conquista da tecnologia. É a semeadura de um
futuro melhor, um ato do qual não podemos nos esquivar.

* Jonas Donizette é deputado estadual e vice-líder de governo na Assembleia


Legislativa de São Paulo (Alesp).

Artur Araujo
Assessoria de Imprensa do Deputado Jonas Donizette
(19) 3236-6151
(19) 9127-8072
(11) 3886-6654
Visite o site: www.jonasdonizette.com.br
Twitter de Jonas Donizette: http://twitter.com/jonas_donizette
Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100000201905522
Orkut (comunidade):
http://www.orkut.com.br/Main#Community?rl=cpn&cmm=93751129

Powered by Comunique-se