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Eventos críticos: sobreviventes, narrativas, testemunhos e silêncios1

Telma Camargo da SILVA (UFG-PPGAS-Goiânia)

Resumo:

Etnografias produzidas no âmbito da Antropologia da Saúde e da Doença enfatizam que o processo da narrar o sofrimento possibilita adentrar na esfera da dor não abarcada pelo paradigma da racionalidade médica. No caso de desastres, como o radioativo de Goiânia, caracterizados pelo seu caráter processual, a dor resiste à objetificação, a localização em um ponto específico do corpo e a uma temporalidade enquadrada no passado. O sofrimento e as rupturas provocadas no cotidiano das pessoas pela experiência da contaminação radioativa são tecidos com a história de vida dos indivíduos que se colocam em contexto de multivocalidade narrativa. Viver, narrar- sofrer e sofrer-narrar resultam da experiência e das elaborações de um corpo inserido no mundo e em conseqüência, narrativas se processam em contextos de poder. Este trabalho, ao revisitar dados levantados em extensa pesquisa de campo em Goiânia (1996-1997; 2003-2004), e a partir de narrativas construídas com diferentes atores sociais problematiza o processo narrativo do sofrimento social em caso de eventos críticos: Seria o próprio processo de narrar constitutivo do sofrimento social enquanto insere os sobreviventes no jogo da política da memória? Ou, a narrativização constitui fator de empoderamento do indivíduo que sofre? Que implicações o corte geracional e ocupacional trazem para as narrativas engendradas pelo desastre?

Palavras-Chave: memória traumática; narrativas de desastre; sofrimento social

Introdução

O desastre não é coisa do passado. Eu costumo dizer que é um fantasma, na minha vida. É um fantasma. Porque onde eu tiver, isso vai estar sempre me perseguindo. Se eu tiver lá no Japão, vai acontecer alguma coisa que eu vou ter que dizer quem eu sou, sabe? Eu vou ter que associar que sou sobrinha do Devair2, que foi o mais assim, né? Onde eu estiver sempre vai correlacionar. Isso é uma das coisas que me revolta. Isso é um fantasma que eu tenho na minha vida. ( ) Olha só, pensa comigo. Você tá pesquisando então você para com isso quando você quiser. Agora eu, se eu quiser jogar tudo pro alto e falar: - eu não quero mais isso, num tem como. Eu

1 Trabalho apresentado na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 01 a 04 de agosto de 2010, Belém, Pará, Brasil.

2 Devair, dono de um ferro-velho localizado na Rua 26-A, do Setor Aeroporto, Goiânia, em setembro de 1987 comprou de dois papeleiros a sucata de um aparelho de radioterapia, abriu a “marmita” de inox contendo césio-137 e posteriormente, fascinado pelo brilho azul que emanava à noite do material radioativo, distribuiu fragmentos do mesmo a amigos, parentes e vizinhos. Desta forma, ele é percebido pelas pessoas atingidas como um dos agentes centrais da rede social de contaminação. (SILVA. 2009: 93-

107)

num vou perder as minhas dores, isso num vai sumir, eu num vou ficar totalmente sã. Entendeu?( ) Assim, eu falo que ele é meu fantasma. Não só na minha vida,

da cidade de

na vida de todo mundo. E assim até na vida

Goiânia, na vida

(S. 17 anos. Entrevista gravada em 2004)

cidade também tem vida, não é?

Fantasma, identificação, pertencimento, memória reavivada na narrativa do

medo, memória/dor, memória inscrita no corpo, evitação. As narrativas construídas a

partir do desastre radioativo de Goiânia3 problematizam a escuta etnográfica e levantam

questões como: o informante/vítima ao assumir o lugar de narrador de um evento

traumático, não teria o seu sofrimento intensificado pelo próprio processo de construção

da etnografia? A narrativização constitui fator de empoderamento do indivíduo que

sofre? Que implicações o corte geracional e ocupacional trazem para as narrativas

engendradas pelo desastre? O desastre radioativo, como um evento crítico de caráter

processual não implicaria em uma singularidade metodológica que demandaria uma

inserção temporalmente longa no campo? E retomando a afirmação da narrativa acima,

pode a antropóloga parar a escuta do sofrimento inerente às etnografia de evento crítico

quando ela quiser? Existiria uma ordem moral, nos termos colocados por Veena Das e

Arthur Kleinman, nestes contextos etnográficos que demandaria ir além da produção da

escrita sobre a dor? O que se constitui como “uma ordem moral”?

Estas questões decorrem da reflexão sugerida pela retomada de dados e da

releitura de narrativas construídas em momentos distintos da minha atuação enquanto

etnógrafa de desastre: 1) construindo histórias de vida e ouvindo narrativas de

radioacidentados adultos e de policiais militares que atuaram na emergência radioativa;

2) ouvindo narrativas, em 2004, de jovens sobreviventes, expostos à radiação em 1987,

quando eram crianças; 3) acompanhando a trajetória de vida de uma liderança da

Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCÉSIO)4.

3 O desastre radioativo com o césio-137, situado oficialmente em 1987, que ocorreu em Goiânia, decorreu da abertura de um aparelho de radioterapia, abandonado pelos então proprietários do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Quatro pessoas morreram nos dias subseqüentes à abertura do equipamento, 13 de setembro de 1987, e duzentas quarenta e nove foram consideradas contaminadas (IAEA, 1988). Contudo, até hoje, inúmeros indivíduos tentam provar na justiça a relação de causa e efeito entre o desastre e seus sofrimentos físicos e emocionais. (SILVA, 1998a; 1988b; 2001; 2004)

4 A criação da Associação foi uma iniciativa de um grupo de moradores da Rua 57, onde se situava um dos focos de radiação. Foi motivada por: 1) cobrar dos órgãos públicos providências no sentido de fornecer à população informações sobre o ocorrido; 2) reinvidicar assistência médica para os atingidos; 3) organizar os habitantes das diversas áreas atingidas para cobrar ações mais efetivas face ao impacto sofrido pelo desastre. (SILVA 1997;1998 a)

O meu interesse em ouvir as narrativas dos jovens sobreviventes do desastre não foi uma definição imediata da minha proposta de estudo e sim um desdobramento da pesquisa realizada para a redação da minha tese de doutorado5 e do trabalho de campo feito em diferentes momentos nos anos de 1988; 1991; 1996 e de 1997. O longo período de campo me proporcionou acompanhar o ciclo de vida de muitas famílias dos chamados radioacidentados, indivíduos que receberam as maiores doses de radiação e que, em muitos casos tiveram radiodermites, sendo por isto classificados pela Fundação Leide das Neves Ferreira (FUNLEIDE)6, como pertencentes ao Grupo I dos definidos oficialmente como vítimas do desastre (SILVA, 1997). Assim, entre os membros destes núcleos familiares que se tornaram participantes do meu trabalho acadêmico, bebês nasceram e crianças se tornaram jovens. Líder da Associação das Vítimas do Césio-137, torna-se presidente do Conselho Estadual de Saúde e interlocutor de governadores, secretários de estado e parlamentares. Desta convivência compartilhada para a coleta e registro de narrativas e com o passar do tempo, algumas particularidades dos jovens em contraposição aos narradores adultos me chamaram a atenção: 1) a recusa na abordagem de temas relacionados ao desastre e o fato de que muitos fugiam da minha presença; 2) os trabalhos realizados pela AVCESIO não atraíram o interesse da população mais jovem e isto motivou grande inquietação nos líderes do movimento pois o Estado, através de lei estadual7, garante pensão vitalícia até a segunda geração dos radioacidentados e a não-renovação de lideranças provoca insegurança quanto ao cumprimento desta lei no futuro. Associada a estas evidências, houve a constatação de que embora os meus trabalhos focalizassem o desastre através de suas múltiplas vozes, as falas dos jovens não integravam essa polifonia. Por esta razão, retomei o tema e retornei ao campo em 20048 para preencher esta lacuna e responder, entre outras, três questões básicas: Como o evento crítico (DAS 1998:6) configura as narrativas destes

5 Tese de doutorado intitulada Radiation Illness Representation and Experience: The aftermath of the Goiânia radiological Disaster, defendida na City University of New York (2002).

6 Criada pela Lei Estadual nº 10.339, de 9/12/87, instituída pelo Decreto nº 2.897/88, de 11/2/88, assinada pelo governador Henrique Santillo, tinha como objetivos prestar assistência integral à saúde das pessoas consideradas oficialmente como vítimas e desenvolver pesquisa sobre as consequências da radiação.

7 Lei nº 10.77, de 03 de outubro de 1988, artigo 4º, inciso II, afirma que será concedida pensão especial vitalícia “aos descendentes até a 2ª geração, de pessoas irradiadas e/ou contaminadas, na forma deste e do art. 1º, que vierem a nascer após a vigência desta lei”.

8 Este follow-up foi financiado pela Wenner Gren Foundation for Anthropological Research (Post-Ph.D. / Richard Carley Hunt – Grant número 7046).

jovens? Que sentidos são produzidos pela evitação dos lugares de memória do desastre? Como pensar o silêncio e a procura pela invisibilidade? São estas narrativas coletadas anteriormente e revisitadas agora que me permitem indagar sobre o lugar da escuta etnográfica e sobre o fazer antropológico em contextos de eventos críticos.

A perspectiva teórica e o contexto histórico: narrativas, memórias e desastre

Os antropólogos que trabalham no campo da Antropologia da Saúde e da Doença enfatizam o uso das narrativas orais como uma forma de entrar no universo dos sofrimentos individuais que não são percebidos pela compreensão biomédica (SILVA, 2009: 32-34; KLEINMAN, 1988; GOOD, 1994: 135-165). Estes estudiosos assinalam que a doença e o sofrimento ocorrem não somente no corpo, mas “no corpo que está no mundo” (GOOD, 1994:133) sugerindo que as experiências de sofrimento e as lembranças dos eventos e dos momentos de dor estão interligados a outras experiências vividas nos contextos sócio-culturais, históricos e políticos em que se encontram os/as narradores/as. Acrescentaria, usando as palavras de Roland Barthes, de que como a linguagem não é mero instrumental do homem; é ela que constitui o homem, contar uma história de vida, narrar um evento é também se constituir como sujeito e imprimir a sua identidade no mundo. A narrativa, nesta perspectiva, traz em si a marca de quem narra, mergulhando a coisa tratada na vida de quem relata: um desastre radioativo. Contudo, quero também adiantar que o “falar”, entendendo por isto o “processo narrativo”, é uma transação, nas palavras de Spivak (1996:289) entre quem fala (o narrador), quem ouve (a escuta etnográfica) e eu acrescentaria um terceiro elemento: para quem o texto narrado é direcionado – o público. Neste sentido, a narrativa na etnografia de desastre implica não somente a qualidade própria do encontro etnográfico – aceite ou não da antropóloga como sujeito da escuta - mas também todas as questões decorrentes do “por que eu falo, eu narro, um evento traumático que me traz sofrimento” ? Para melhor entender o processo narrativo dos adultos e dos jovens, faz-se necessário primeiro situar o evento de Goiânia como um desastre, trazer o sentido do que seja “doença da radiação”, para em seguida abordar o processo da política da memória decorrente.

A minha compreensão do evento de Goiânia como um desastre, um fenômeno processual, caracterizado por múltiplas e conflitantes narrativas, contrasta com as afirmações existentes de que a catástrofe terminou quando a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) declarou a cidade descontaminada, em 1987. Ao mesmo tempo, esta perspectiva problematiza os conceitos existentes de “desastre” e “acidente” para se referir ao mesmo acontecimento. Do ponto de vista nuclear e biomédico, a ocorrência é nomeada de acidente, com o seu foco centrado nas doses de radiação emitidas e propagadas e no controle e descontaminação física de indivíduos e lugares. O interesse da investigação científica é definido com base nas doses estabelecidas quando o evento ocorre e ou/ é detectado. O estudo dos prováveis efeitos genéticos é motivado pelas definições matemáticas estabelecidas à época da emergência e pelo nível de contaminação que indivíduos e locais atingiram segundo a escala métrica dos especialistas. A pesquisa biomédica, no caso de Goiânia, por exemplo, privilegiou as altas doses de radiação em detrimento das baixas doses. Desta forma, apesar de duzentas e quarenta e nove indivíduos terem sido classificados pelos peritos do Estado como vítimas da radiação, os especialistas nucleares direcionaram o foco científico para vinte pessoas que tiveram as doses mais altas de contaminação radioativa e que foram hospitalizadas em 1987, quando da fase emergencial. Em resumo, nesta perspectiva a noção de um acidente envolvendo radiação é sustentada pela avaliação matemática e física da contaminação. A dor reconhecida é aquela legitimada pelas medições do contador Geiger, dos resultados do Contador de Corpo Inteiro, dos exames laboratoriais e o sofrimento, por ser matematicamente aferido, é definido como o sofrimento métrico Em oposição a esta compreensão, os cientistas sociais trabalhando com eventos similares entendem estes fenômenos como um processo e consideram as condições de vulnerabilidade nas quais uma população afetada se encontra em decorrência de circunstâncias sociais, históricas, tecnológicas, políticas e econômicas (OLIVER SMITH 1996:303). Esta perspectiva engendra um conceito de desastre que enfatiza as dimensões sociais e políticas de uma catástrofe e não os aspectos numéricos, físicos ou biomédicos ressaltados pela noção de acidente formulada pelos cientistas das “hard sciences”. Batteau (2000:2-3) afirma que não é somente a perda numérica de vidas que caracteriza um desastre, mas a capacidade que ele tem em provocar o colapso da ordem cultural, comprometendo, algumas vezes fatalmente, a totalidade de uma comunidade, de uma indústria ou de um regime. O argumento de Batteau é sustentado pelos dados de

um estudo que focaliza diversos desastres ocorridos durante o século XX, como, por exemplo: Three Mile Island que comprometeu a credibilidade da indústria nuclear nos Estados Unidos; Love Canal, na região de Niagara Falls, nos Estados Unidos, onde a comunidade definhou depois de ser identificada com resíduos tóxicos e Bhopal que afetou uma indústria química inteira. Da mesma forma, a literatura levantada no campo das ciências sociais sobre a exposição de pessoas à radiação enfatiza os aspectos sócio-culturais que engendram o sofrimento dos atingidos e que extrapolam a categoria biomédica de síndrome aguda da radiação manifestada através da náusea, diarréia, vômito, perda de cabelo e queimadura na pele. As incertezas e medos quanto ao aparecimento de doenças relacionadas à contaminação como câncer, infertilidade e processo acelerado de envelhecimento se traduzem em mudanças na forma das pessoas viverem os seus cotidianos e são questões de saúde. A controvérsia advinda do entendimento de que a “doença da radiação” requer um entendimento mais amplo do que as concepções biologizantes existe inclusive entre os profissionais de saúde. No caso de Hiroshima, Lifton (1967) assinala a polêmica ocorrida no meio médico sobre a definição da “Doença da Bomba” (A Bomb Disease), termo usado localmente para se referir aos sintomas apresentados pelas pessoas. Alguns estavam preocupados com a imediata falência do corpo, outros usaram questões mais amplas envolvendo desordens psicológicas e sociais. De acordo com o Comitê para Compilação de Material sobre os Danos Causados (Committee for the Compilation of Material on Damage Caused) pelo bombardeamento atômico de Hiroshima e Nagasaki:

O dano provocado pela bomba, então, é tão complexo e extenso que ele não pode ser reduzido a uma única característica ou a um só problema. Ele tem de ser visto em termos globais, como um conjunto inter-relacionado: maciça perda humana e física, desintegração social, choque psicológico e espiritual que afetam toda a vida e a sociedade como um todo. Somente então, pode-se compreender a gravidade do conjunto de seu impacto nos sistemas biológicos que sustentam a vida e a saúde, nos sistemas biológicos que possibilitam às pessoas a viverem juntas, e sobre as funções mentais que contém estas duas dimensões numa unidade integrada. A essência da destruição atômica repousa no aspecto da totalidade que tem seu impacto no indivíduo e na sociedade e em todos os sistemas que afetam suas mútuas continuidade.” (Apud. ALCALAY 1993:10) (Trad. da autora.)

Em resumo, os desastres são resultantes da inter-relação entre o impacto e a reação das populações às ações mitigadoras e compensatórias empreendidas pelo Estado e por outros setores da sociedade como o econômico e o político face aos eventos críticos. Nestas situações, os grupos sociais de acordo com a sua condição de vulnerabilidade vivenciam trauma, aflição e desordens que não são provocadas somente pela dor física, mas também pela luta que as pessoas empreendem por melhores condições de saúde, assistência social, pela solução de questões legais e morais que emergem no contexto pós-emergência radioativa e que constituem a dor definida como sofrimento social (KLEINMAN at al. 1997)9. Nesta perspectiva, as narrativas dos sobreviventes dos eventos críticos ao serem des-autorizadas pelo Estado e pelos sistemas peritos se constituem também como um dos lugares geradores de sofrimento: o silenciamento. Voltando ao desastre de Goiânia, eu entendo que o desmantelamento, em 1987, de um aparelho abandonado de radioterapia contendo césio-137 é um desastre porque ele rompeu as ordens culturais, políticas e econômicas e expôs a vulnerabilidade de grupos sociais locais ao se defrontarem com as conseqüências danosas da tecnologia nuclear. Primeiramente, o desastre prejudicou a economia local porque os bens produzidos em Goiás foram rejeitados nos mercados nacionais. Segundo, Goiânia e seus habitantes sofreram na fase emergencial as conseqüências de uma atitude de evitação, um processo discriminatório que levou ao cancelamento de congressos nacionais anteriormente programados para a cidade. As pessoas que viajavam para outros estados tinham de requerer um documento assinado pela CNEN certificando que não estavam contaminadas e aquelas viajando de carro com placa de Goiânia tiveram os carros apedrejados. Terceiro, a administração de Goiás, segundo entrevista com o então governador, o médico Henrique Santillo, foi diretamente afetada porque a alocação de

9 “O “sofrimento social” resulta daquilo que o poder político, econômico e institucional provoca nas pessoas e, reciprocamente, de como estas mesmas formas de poder influenciam as respostas aos problemas sociais. Incluídos na categoria de sofrimento social estão situações que eram normalmente dividas em campos separados, casos que simultaneamente envolvem saúde, bem-estar, questões legais, morais e religiosas. Eles desestabilizam as categorias estabelecidas. Por exemplo, o trauma, a dor, as desordens provocadas por atrocidades são ocorrências de saúde; além do que elas são também assuntos políticos e culturais.” (KLEINMAN at al. 1997: IX)

recursos financeiros, os esforços pessoais e políticos foram todos direcionados para as ações empreendidas em resposta ao desastre, em detrimento de outros assuntos relevantes pertinentes às outras regiões do estado de Goiás. O quarto ponto, que diretamente influenciou a forma como o desastre foi conduzido ao longo dos anos, diz respeito ao questionamento do papel da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Por um lado, o desastre de Goiânia afetou a política nuclear brasileira porque ele expôs a inadequação da legislação nuclear brasileira. Na verdade, o desastre comprovou, de forma trágica, questões já levantadas por físicos independentes sobre a centralização das atividades de orientação, planejamento, supervisão, fiscalização e de pesquisa científica na Comissão Nacional de Energia Nuclear, como o único órgão através do qual a União exerce o monopólio das atividades nucleares. A CNEN concentra funções conflitantes como as de formulação e planejamento da política nacional de energia nuclear e a de uma agência reguladora, gerenciadora, fiscalizadora e monitoradora dos vários processos que envolvem as atividades nucleares incluindo aí os aspectos de segurança e proteção. E o desastre comprovou denúncia feita anteriormente, por físicos independentes, da falta de controle sobre as fontes radioativas existentes no país. Por outro lado, expôs também as falhas da CNEN em sua resposta a um desastre radioativo. A atuação na fase emergencial revelou a ausência de um plano de emergência e de um pessoal treinado para lidar com este desastre:

os especialistas da CNEN, cujas qualificações acadêmicas

incluem certificados de escolas técnicas a doutorado, estavam acostumados a trabalhar com radiação dentro de normas definidas e em condições de laboratórios. Seus treinamentos seguiam os padrões de segurança e cenários de acidentes apropriados a possíveis acidentes em laboratórios que usam radiação e em usinas

nucleares. Este treinamento nunca havia sido adaptado às condições de campo como aquelas apresentadas no acidente de Goiânia. Estes especialistas foram treinados para o trabalho introspectivo das ciências exatas e eram continuamente treinados dentro de medidas de segurança. Nunca foram treinados para lidar com os aspectos

sociais e psicológicos deste tipo de emergência. (

ninguém estava preparado para um desastre destas proporções. O choque maior foi sentido por aqueles que primeiramente

descobriram os fatos e as condições em que se encontravam as

Assim que chegou em Goiânia, a primeira equipe de

vítimas (

emergência ficou amedrontada pelas dimensões do acidente. Este choque foi combinado com a falta de infra-estruturada da CNEN para enfrentar e controlar a situação. (CARVALHO 1991:133-134) (minha tradução de texto original em inglês).

) (

) Na realidade,

).

Esta avaliação é feita também pelos próprios administradores da instituição. Em 1997, numa entrevista em que o então presidente da CNEN, José Mauro Esteves dos Santos, faz uma retrospectiva dos acontecimentos, ele afirmou:

À época do acidente, todo o pessoal disponível nas empresas atuantes no setor nuclear foi, em algum momento, deslocado para Goiânia, para devolver à cidade as condições adequadas ao prosseguimento da vida. Embora houvesse um número satisfatório de pessoas com conhecimento técnico, não havia preparo para enfrentar uma situação dessas. Tratava-se do maior acidente radiológico do mundo.” (CIÊNCIA HOJE 1997:57)

É neste contexto da configuração do desastre que se inserem as narrativas dos sobreviventes e que é engendrado o lugar da antropóloga.

A política da memória e a escuta antropológica: os sobreviventes adultos

O dano que o desastre acarretou para a política nuclear brasileira, para o governo de Goiás e para o setor econômico goiano estabeleceu o campo de forças que produziu as respostas dadas ao desastre mas engendrou, também, nos anos seguintes o sofrimento social da população impactada. Em 1987/1988, estas forças empreenderam a descontaminação dos locais e das pessoas contaminadas pela radiação, enquanto que no período posterior processaram a descontaminação simbólica do desastre, utilizando entre outras estratégias a des-autorização das narrativas construídas pelas vítimas sobre o evento (SILVA 2005 a). O movimento empreendido, em 1997, por policiais militares que trabalharam na emergência radioativa e que dez anos depois relacionam as doenças sofridas ao trabalho executado e por isto reivindicam o reconhecimento de vítima é um exemplo deste silenciamento. Suas narrativas foram caracterizadas como “mistificações”, e após dois dias de exames realizados em 115 pessoas por uma comissão de cinco peritos nucleares, é declarada a não relação de causa e efeito entre doenças/trabalho/radiação. Esta negativa engendrou um confronto de narrativas que ocuparam o cenário do legislativo goiano e federal. (SILVA 1998 b; 2001) Funcionando como um agente-container de radiação, a coalizão entre peritos nucleares e governo estadual sustentou medidas e ações que desautorizaram qualquer nova reivindicação de aflição relacionada à radiação; deslegitimou as experiências

cotidianas de dor dos radioacidentados; e apagou e/ou resignificou as marcas que o desastre imprimiu na cidade. Do ponto de vista institucional, a recuperação do desastre implica em seu congelamento no passado, e no uso do paradigma de sofrimento métrico construído pelos peritos nucleares nos primeiros momentos de administração da emergência radioativa. No entanto, as experiências do dia-a-dia e as narrativas dos sobreviventes do desastre invalidaram as alegações de encerramento do desastre, problematizaram a categoria de vítima assim como levantaram questões sobre culpabilidade, sobre os programas de proteção social e sobre os processos de compensação. Retomando Kleinmam (1988) e Good (1994), se a dor e o sofrimento ocorrem “no corpo que está no mundo”, as narrativas dos sobreviventes são então engendradas também pelo embate com o Estado através do confronto verbal com a CNEN e com a FUNLEIDE na busca da afirmação e legitimidade de suas falas. Este é um dos aspectos do caráter processual do desastre. Na perspectiva antropológica, como afirmado anteriormente, um desastre radioativo não é definido somente pelas medições, mas ele se processa na permanência do seu impacto na vida cotidiana dos grupos sociais afetados que pelas suas condições singulares de vulnerabilidade _ social, histórica, tecnológica, política e econômica _ não conseguem se recuperar de situações de catástrofe (OLIVER-SMITH 1996:303; 1999:

25; 29-30). Desta forma, a antropóloga ao expressar o seu entendimento do que configura um desastre e compartilhar as definições trazidas pelos cientistas sociais do que seja doença em contextos de radiação sinaliza para o narrador/sobrevivente o lugar da escuta etnográfica e se posiciona no campo de forças estabelecido na política da memória do desastre. As minhas análises, compartilhadas com os sujeitos da pesquisa, afirmam que o desastre de Goiânia não é uma página virada na história como diz uma frase pronunciada por uma autoridade durante a inauguração do depósito definitivo de Abadia de Goiás, em 1997, nem acabou quando a cidade foi considerada oficialmente descontaminada, em fins de 1987. O desastre continua se processando enquanto estiver presente nas experiências daqueles que lutam pela sobrevivência diária, quer seja na procura por atendimento médico, remédios, trabalho, formação profissional ou na memória silenciada dos/das moradores/as da cidade (SILVA, 2005 a). À medida que o encontro etnográfico se processa, as narrativas fluem, o choro aflora, a dor é compartilhada e a demanda feita, por parte das vítimas, por uma escuta etnográfica/testemunha é requerida. É por iniciativa dos radioacidentados e do grupo de policiais militares que buscam o reconhecimento por parte do Estado do nexo causal

entre exposição à radiação/ trabalho que sou convidada também a assumir neste cenário de multivocalidade narrativa o meu lugar como uma das narradoras do desastre. A participação em audiências públicas no âmbito da Assembléia Legislativa de Goiás; da Câmara Municipal de Goiânia; do Congresso Nacional, em Brasília, e em eventos acadêmicos organizados para marcar os vinte anos do desastre acontecem em atendimento a esta demanda.

A evitação: estratégias metodológicas e o paradoxo entre o pertencimento ao desastre e a negação da identidade de vítima

Relação distinta à descrita acima é estabelecida com os filhos dos adultos radiocidentados que eram crianças10 na fase emergencial do desastre: os encontros casuais eram permeados por rápidos cumprimentos e o tema “césio” um assunto proibido. Como havia percebido que a multivocalidade narrativa trabalhada anteriormente deveria incluir a voz dos jovens, a primeira questão a ser resolvida para o desenvolvimento da pesquisa era de ordem metodológica: como transformar os sujeitos definidos para a pesquisa em sujeitos das narrativas, cuja enunciação é negada. Uma constatação preliminar foi a de que a evitação deveria ser entendida duplamente: a evitação da fala e a elaboração de narrativas sobre a evitação. Desta forma, sugeri que as narrativas abordassem a recusa ao tema desastre e a aproximação com eles foi intermediada pelos pais e mães que atuavam na Associação das Vítimas do Césio. As primeiras conversas giraram em torno da devolução das fotografias que havia feito destas pessoas ainda crianças e posteriormente abordamos a questão de “Por que não falar sobre o césio?” As narrativas indicam que existe uma dor engendrada pelo paradoxo entre a afirmação de uma identidade forjada pelo desastre e a procura da invisibilidade social de sobrevivente. As narrativas indicam que para estes jovens o pertencimento ao

10 A FUNLEIDE registra num primeiro momento e segundo dados dosimétricos, 58 crianças como pacientes para acompanhamento médico o que, em outras palavras, significa atingidas pelo desastre (FUNDAÇÃO LEIDE DAS NEVES FERREIRA – Dosimetria dos pacientes de Acompanhamento Médico Grupo I, II e III”). Posteriormente, em outro documento relativo somente ao chamado Grupo III, dos 519 pacientes incluídos, há o registro de 106 crianças e jovens (FUNDAÇÃO LEIDE DAS NEVES FERREIRA – Listagem oficial do Grupo III (519 pacientes)”. Acrescente-se a isto uma outra classificação adotada pela instituição que é a de F1, entendida como filhos de pacientes do chamado Grupo I, nascidos pós-1987. Estes dados assinalam a complexidade da classificação das vítimas do desastre, uma questão até hoje não satisfatoriamente resolvida.

desastre forja uma identidade entrelaçada ao evento e impossível de ser dele separada pois é atualizada repetidamente pelas marcas no corpo; pelos objetos evocativos de cenas do passado; pelo cheiro que rememora as terapias adotadas para a descontaminação da radiação e pela rotina do controle médico:

é como se eu

tivesse nascido, né? No ato do acidente. Até na minha testa tem a

É

como

Anteriormente ao acidente, eu era criança, né? E depois eu acho que

a minha vida começou depois disso. Através daí que eu vim adquirir

o meu caráter. O meu eu. Não tem como separar a identidade (do desastre). (L. 14 anos em 1987. Entrevista realizada em 2004)

a marca do césio. Eu trago este estigma aqui onde eu vou. (

- Não consigo imaginar a minha vida sem o desastre

se

a

)

minha vida tivesse começado ali, no desastre.

- Ah! Cheiro de vinagre num tem jeito de esquecer, não. A gente

tomava banho de vinagre e tinha o prédio onde a gente tava e tinha que descer uma escada lá, sabe? Prá tomar banho. O cheiro invadia

daí

incendiava aquele cheiro. Aí todo dia que tem salada aqui em casa, vem essa lembrança. Eu lembro da cor dele, também. Aquele vermelho (F.J. tinha 7 anos em 1987. Entrevista realizada em 14 de março de

2004)

o prédio. Saia um, entrava o outro prá tomar banho

- Aconteceu quando eu tinha sete meses, eu acho que eu fui

crescendo e vendo que o desastre tinha atingindo a minha família,

né? Desde quando aconteceu o acidente que a gente veio freqüentando a Fundação (para os chamados “agendamentos” e exames médicos), então isto é uma rotina de vida prá mim,

entendeu? É a minha vida que sempre foi isso. É, costumo dizer que

é um fantasma. Eu cresci com o desastre. Porque não no sentido

psicológico, mas em todos os sentidos. Porque eu tinha sete meses.

Então isso, é aquela história da identidade. Isso veio comigo, sabe?

É como se eu tivesse nascido com isso. Entendeu? É como se fosse

um fio de cabelo, meu. Não. O cabelo cai. É como se fosse um braço, um dedo. Tá comigo, desde os sete meses tá comigo e vai morrer comigo. (S. Entrevista realizada em 20 de fevereiro de 2004)

Esta nova identidade engendrada no contexto do desastre é, no entanto, negada nos espaços públicos. O pertencimento ao desastre institui estes indivíduos como testemunhas cujo testemunho publico é deliberadamente recusado. No caso dos jovens contatados, muitos recusaram dar entrevistas, outros marcaram os encontros para endereços errados, uns poucos, quando entrevistados, diziam que não tinham nada para

falar embora os familiares relatassem casos sofridos de discriminação e de lembranças que eram recorrentes no ambiente familiar. Os jovens sobreviventes cujas narrativas foram coletadas, se posicionam como testemunhas, adotando a perspectiva de Laub (1995: 61), de duas formas diferentes, mas interligadas: 1) alguns testemunharam os primeiros momentos do desastre como crianças sobreviventes que perderam todos os brinquedos, que viram suas casas serem demolidas e relembram os fatos e os sentimentos provocados pela experiência vivida durante a fase emergencial do desastre e nos anos subseqüentes; 2) outros, como eram ainda bebes em 1987, o papel de testemunha foi instituído primeiro no ambiente doméstico com a escuta dos testemunhos dos pais, mães e parentes próximos feitos através do compartilhamento de lembranças narradas aos filhos e, em segundo lugar, presenciando as entrevistas concedidas pelos adultos aos veículos de comunicação. Contudo, em ambos os casos os jovens-testemunhas evitam publicamente o pertencimento ao desastre:

ou eu vejo que

é um carro de reportagem, ou seja qualquer pessoa diferente que chega aqui em casa, eu fico lá dentro. Se eu não ficar quieta no computador, eu vou para o meu quarto e me tranco lá dentro. Só saiu depois que a pessoa foi embora. Sou igual o meu irmão, entendeu? Por exemplo, ontem ele falou prá você que não lembra de nada. Ele lembra, mas ele não quis falar. No caso de entrevistas em relação ao acidente, eu sempre dou um jeito de escapar. É a questão da exposição, da relação com o meu pai. Eu escuto as histórias das pessoas que foram discriminadas, e eu assim, me sinto fraca. Eu acho que eu não conseguira agüentar um tipo sequer de discriminação. Você eu topei fazer a entrevista, porque meu pai falou que não vai ter foto (S. Entrevista realizada em 20 de fevereiro de 2004)

- Mas qualquer pessoa que chega aqui em casa que

São as apelações vivenciadas na escola durante a infância _ “esse aí é o resto do césio-137”; “seu irradiado”, “seu contaminado”, “seu radioativo” _ que constituem um dos elementos que forjam a evitação no presente. A experiência da perda das amizades infantis, relações proibidas pelas famílias não envolvidas na rede social da contaminação, fundamenta as justificativas para o ocultamento deste pertencimento ao desastre (este outro self) nos locais de trabalho e nas escolas. Esta segunda identidade, como levantada por Lifton a partir de suas reflexões sobre Hiroshima, que originada da situação traumática, no encontro com a morte, não consegue ser reintegrada (CARUTH, 1995: 137). Os jovens sobreviventes vivem o paradoxo de duas identidades dissociadas

e as lembranças assim produzidas se constituem em memórias traumáticas. Lembranças fixadas num ponto temporal/espacial trazendo experiências de perda e de morte física e simbólica ainda não superadas. Para muitos jovens entrevistados, o elemento químico adquiriu uma essência que o transmutou de elemento inerte em um elemento vivo cuja presença no ambiente familiar motivou encontros entre amigos:

Meu amigo foi lá em casa, acho que um ou dois dias depois que o

césio tinha chegado tudo na casa, o césio. (

onde

já tinha varrido a casa, já tava espalhado

)

no

no chão

lá no meu quarto

o

césio tava. Meu amigo agachou. Olhou ele lá debaixo da cama, lá

(

)

o césio vivo mesmo (ênfase) ali.

(L. Entrevista realizada em 2004)

O encontro com o “césio vivo” engendra a segunda identidade do jovem onde a fronteira entre o antes e o depois do desastre estabelece características distintas para se situar no mundo. Como afirmado anteriormente, existe a atualização constante das lembranças que se manifestam através do cheiro do vinagre, da evocação das imagens trágicas trazidas pelo sobrenome que se carrega, da ida aos agendamentos médicos e principalmente pelo medo e algumas vezes, pela culpa. O compartilhamento da presença do “césio vivo” acarreta ao longo dos anos, a preocupação com a saúde do amigo convidado para se encontrar com o césio: teria ele sido contaminado? Ele foi encontrado pela CNEN? Ao mesmo tempo, o entendimento, trazido pelo conhecimento adquirido na escola e pela conversa com os peritos nucleares, de que a radiação pode provocar mutações genéticas nas futuras gerações, gera a insegurança, principalmente nas mulheres, quanto aos futuros filhos As imagens de sofrimento do passado condensadas na percepção das mudanças corporais e na vivência do estigma são definidoras dos comportamentos de evitação do presente:

A ficha começou a cair na hora que o pessoal tava voltando do Rio

o

presenciei o sofrimento

do meu pai, aí seu sofro também. O Geraldo tava todo queimado

aqui,

sofrimento deles. É terrível. Eu fiquei frio depois disso. Depois do acidente. Acho que depois de tanto ver os outros sofrer. Porque eu vi

meu pai

Um dia, quando a gente já morava no

o pé, as virilhas dele, tudo. Eu cuidava deles e via o

de Janeiro, né? Os parentes

meu tio Devair, ele chegou carequinha

O Roberto voltou sem o antebraço

eu

a coxa assim

Setor Maísa, a gente abriu a porta, ele dormindo, tava a coxa

pretinha de formiga assim comendo, porque botavam açúcar pra

cicatrizar a lesão. Pretinho. Outra vez, eu vi ele chorar de dor, dele pegar um facão, que a gente tinha em casa, e ele entrar na área de serviço e tentar suicídio. Isto porque não suportava a dor. Eu já tinha assim quase uns quinze anos. É terrível. (L. Entrevista realizada em 22 de março de 2004)

Na época do césio, o povo discriminava muito meu pai, minha mãe. Quando eles iam trabalhar. Aí o povo não aceitava porque eles

sofrido o acidente do césio. Meu tio Ivo sempre me

contava. Meu tio Odesson ele falando lá que abriu um bar, ele tinha um bar, primeiro tinha um bar, que chamava “Quero Quero”, as pessoas lá quase não gostavam de comprar lá porque tinha sofrido o acidente do césio. E depois ele foi tentar uma frutaria. A mesma coisa. Contava que tinha sofrido muita discriminação. Quando ele mudou pro novo bairro, as pessoas faziam protesto lá que eles não podiam morar lá. Já escutei falar que quando os meus eram pequenos assim, eles iram brincar, as mães falavam: oh!: Vem prá dentro!Prá não brincar com eles. Também eu quero falar quando, quando a minha prima Leide foi enterrada, o povo que morava ali perto do cemitério foi fazer protesto pra não deixar o carro da funerária entrar, prá enterrar a Leide ali. Porque muitas pessoas foram enterradas ali e eles não queriam que enterasse ali porque

podia ter contaminação. O povo jogava pedra

do cemitério e jogavam no caixão. O povo deitava na frente do carro

arrancava as cruzes

tinham é

da funerária para não deixar Leide

(C.A. Entrevista realizada em 16 de março de 2004)

o caixão dela passar, né?

As narrativas indicam que as emoções e as atitudes do presente são interpretadas como decorrentes das experiências do desastre, fixadas no passado, e percebidas como sem perspectivas de superação no futuro. Desta forma, as atividades cotidianas exercidas na escola e no trabalho são afetadas pelo pertencimento ao desastre. Esconde-se a identidade de vítima, expressa na ocultação da necessidade de se ausentar para ir ao agendamento médico pelo medo de sofrer discriminação e ser alvo das relações jocosas no presente. As tentativas de suicídio _ como no caso de um dos entrevistados_, o alcoolismo, a adição a drogas como maconha, a auto-definição como uma pessoa muito emocional, nervosa e irritada, o choro que irrompe com insistência no cotidiano são interpretados e narrados como a persistência do passado do desastre configurado como um fantasma que permeia o dia a dia destes jovens sobreviventes. Estas reminiscências se caracterizam como um passado intrusivo (KOLK; HART,1995:158-182) cujas memórias encarceradas muitas vezes na representação do corpo não permitem que o ritual de passagem transforme a experiência traumática em experiência de redenção. Ao contrário dos narradores adultos que instauram o lugar da etnógrafa como uma escuta legitimada e na medida do possível buscada, os jovens

narradores negam a narração porque ela de uma certa forma, reafirmaria publicamente a identidade de vítima do césio que eles querem de toda forma apagar. Neste sentido, existe uma interligação entre a linguagem e a reinserção social. Para os adultos (radioacidentados e policiais militares), a relação entre doença e desastre depende fundamentalmente da memória “que fornece os indicadores básicos de um passado que produziu as circusntânicas do presente, sem a consciência das quais seria impossível ter ou elaborar projetos” (VELHO, 1994:10). Neste sentido trazer o passado é projetar o futuro. Para os jovens entrevistados, o passado enjaula e, para pensar o futuro, o desastre é negado mesmo que intimamente ele esteja impregnado nos cheiros, nas imagens e nas marcas, configurando o paradoxo entre a vontade e a impossibilidade de esquecer.

Considerações finais para pensar os desdobramentos das etnografias de eventos críticos

O uso do método etnográfico, a coleta de narrativas, a observação do fenômeno em sua diacronia e um trabalho de campo extenso trouxeram uma nova perspectiva à análise dos desastres. O foco da análise mudou do evento para os processos históricos que engendram estes fenômenos. Junto à análise do “momento” – um ponto específico no tempo – ou em outras palavras, do clímax do evento e sua fase emergencial, as pesquisas contemporâneas focalizam o processo que produziu a tragédia e o seu desenrolar a médio e longo prazo. Estes estudos vão além do que era enfocado até o início dos anos noventa e integram uma nova preocupação que é a discussão da noção de vulnerabilidade. Estas abordagens expõem a distinção entre os diferentes atores sociais que estão envolvidos numa catástrofe específica e levantam a questão da vulnerabilidade social decorrente da idade, do gênero, da classe social, da língua, religião, etnicidade e identidade profissional, entre outras. Em outros termos, qual a singularidade sentida pelo impacto dos eventos críticos e como cada grupo re-elabora a ruptura destes eventos em seus cotidianos? Se a narrativa da dor resulta em empoderamento para as lideranças de entidades criadas em apoio às vítimas, como no caso da Associação das Vítimas do Césio 137, como isto reflete e ecoa para os indivíduos membros “comuns” destas entidades? Como resultado, os desastres são percebidos a partir de múltiplas e divergentes narrativas o que contribui

significativamente para o entendimento dos processos de construção da identidade de vítima, dos campos de força que engendram estas identidades e também para substanciar as agendas dos movimentos de direitos humanos. No caso de Goiânia, se a purificação simbólica utilizou como um de seus artifícios o silenciamento das vítimas, o processo narrativo e a escuta etnográfica, ao legitimarem o sofrimento por elas reivindicado, abrem caminho para a reinserção social. Contudo, se no campo da Antropologia da Saúde e da Doença, as etnografias indicam que a narrativa permite entrar na dor, deve-se ressaltar que o sofrimento dos indivíduos vai além, transborda, ultrapassa os limites da interpretação acadêmica. Isto necessariamente carrega consigo o questionamento sobre o ofício do antropólogo ao tratar do sofrimento e do trauma. Mas do que uma escuta etnográfica, ou a instituição da etnógrafa/testemunha, as etnografias de eventos críticos urgem uma reflexão crítica sobre o trabalho de campo nestes contextos para que não sejamos transformados em “profissionais do sofrer” (PEREIRA 2004:15). A questão “em que consiste compartilhar a dor do outro?” deve ser problematizada (SILVA 2005 b). A discussão sobre o compromisso do antropólogo com as populações estudadas transformou-se em um cânone do ofício e incontáveis eventos e trabalhos já foram produzidos e este tema é necessariamente abordado quando se fala em antropologia da ação, antropologia aplicada (applied anthropology), advocacy, agency, anthropology for the public, antropologia e direitos humanos (SILVA 2003). Mas efetivamente, o que seria “a ordem moral” implícita na etnografia dos eventos críticos? Ruth Bear, em The Vulnerable Observer: Anthropology that breaks your heart (1966), analisa as situações onde o contexto etnográfico é intensamente permeado pelas emoções trazidas pelo sofrimento e como o antropólogo se depara não somente com a vulnerabilidade do “outro”, mas com a “sua própria vulnerabilidade” face à experiência do outro. E ela inicia o seu livro relatando o caso do fotógrafo Rold Carlé, que no momento em que capta imagens da avalanche de 1985, na Colombia, vê uma criança (Omaira Sánchez) sendo engolida pela lama e a cena sendo registrada por inúmeros outros fotógrafos e canais de televisão - um show cruel. No entanto, ela continua, estas imagens de TV também registram o momento em que ele não consegue mais observar silenciosamente e “profissionalmente” documentar a tragédia. Ele deixa a sua câmera e sai para enlaçar a criança que colapsa nos seus braços. No caso das etnografias de eventos críticos, fazendo um paralelo com o caso descrito acima, como deixar simbolicamente “a câmara

de lado” e adentrar o sofrimento do outro como um observador não satisfeito somente com a produção do conhecimento profissional e seu papel de perito? Por fim, outro ponto necessita ser problematizado. As etnografias construídas a partir da noção de eventos críticos requerem uma reflexão sobre a perspectiva de análise reivindicada por Veena Das e Kleinman e as diferentes reapropriações do conceito no caso da antropologia brasileira. O fato do antropólogo enquadrar o seu objeto como um evento crítico não necessariamente implica que ele/ela está compartilhado a perspectiva da autora responsável pela elaboração da noção. Para Veena Das, o uso do conceito tem implicações de ordem metodológica – a necessária coleta de narrativas -, recola a questão da inserção do antropólogo no campo, demanda uma “agencia” pós-escrita etnográfica, e articula as relações entre os aspectos macro e micro dos eventos estudados. O fazer antropológico, configurado numa Antropologia da Experiência (KLEINMAN 1995; DAS 2000) enuncia a relação entre violência, sofrimento e as subjetividades do sujeito e do observador. Para eles, o sofrimento é necessariamente engendrado na tecetura entre o contexto macro e as experiências que os indivíduos vivenciam em seus cotidianos. O olhar antropológico deve captar, então, a singularidade dos sujeitos que, por exemplo, impactados pelas violências impetradas pelo Estado re- elaboram e re-articulam as suas experiências cotidianas e suas relações interpessoais em seu dia-a-dia e interpretar como estas re-significações e estes modos de viver são traduzidos nas narrativas construídas no/pelo encontro etnográfico.

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