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Por que não seguir as normas da ABNT

Youssef Cherem

2014

1. O que a sua instituição diz ser as regras “ABNT” na ver- dade é uma colcha de retalhos de regras, que às vezes são interpretações da ABNT, às vezes nem isso.

Um exemplo de norma sensata é estabelecer um plano geral com um mínimo necessário. Isso foi feito,

por exemplo, na UNICAMP (http://www.prpg.unicamp.br/ arqpdfnormas/infccpg002_2006.pdf). Essa norma determina

inclusive que as normas de referência bibliográfica podem ser definidas pela Comissão de Pós-Graduação do curso ou pelo orientador. Quer algo mais sensato? Veja por si pró- prio.

2. Muitas vezes confunde-se metodologia científica com redação, com “estilo”, com formatação, diagramação, tipografia etc.

A redação científica ou acadêmica tem um estilo que é pró- prio; às vezes determinada disciplina acadêmica ou mesmo linha de estudo tem um estilo próprio. Pode-se falar de um “estilo de autor”, principalmente nas ciências humanas, mas mesmo em ciências exatas frequentemente distingui- mos estilos diferentes de redação, de acordo com as prefe- rências individuais. O que tem a ver a metodologia cientí- fica ou a validade de um trabalho se sua tese está escrita em papel A4 ou carta; se o espaço entrelinhas é de 1,5 ou 1,2; se está utilizando a família tipográfica Times, criada para o ve- nerável jornal Times de Londres, ou no tipo Caslon, em que foram impressas a Declaração de Independência e a Cons- tituição dos EUA? Por incrível que pareça, ainda tem gente que acha que tudo que não seja “Times” ou “Arial” não é “científico”. Ex- cluindo tipos que realmente devem ser evitados (tipos de- corativos, caligráficos, capitulares, históricos, e talvez até góticos), não há nada demais em deixar à discrição do au- tor a escolha de uma fonte comumente utilizada em publi- cações de texto corrido – pegue um livro na estante, ou uma revista ou jornal na banca mais próxima, ou um periódico impresso, e vai ter uma noção. A padronização pela padro- nização não é um motivo racional aceitável. Nem mesmo a padronização pela difusão geral ou pelo hábito. Por que usar “Times” ou “Arial”? Ora, a explicação mais corrente, embora irracional, é que todos os trabalhos devem ter a

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mesma aparência. A explicação mais patética é que essas fontes são (ou eram) default em programas comoWord. Ou- tra explicação espúria é que os escritores não devem se pre- ocupar com isso (se isso fosse verdade, eles também não deveriam se preocupar em deixar tudo em Arial). Outra ex- plicação engraçada é a de que é para se ter uma noção do tamanho. Se fosse assim, não haveria nem a opção entre Times e Arial, já que Arial “ocupa mais espaço”, no mesmo tamanho, que Times. Ou seja, Arial 12 pt vai gastar mais pá- ginas de papel do que o mesmo texto em Times 12 pt. Quer fazer com que seu trabalho pareça ser maior do que real- mente é? Utilize Arial ou Helvetica (e não hifenize o texto). Pior do que isso são afirmações do gênero: para ser aceito como trabalho científico, seu texto precisa estar formatado segundo as normas da ABNT (interpretadas por X ou Y). Em vez de aprender que um português correto é muito melhor para a compreensão do seu texto, gasta-se tempo para sa- ber que páginas pré-textuais são contadas mas não numera- das, que se deve escrever “Figura X – ” em vez de “Figura X:”, que a indicação da fonte das imagens deve vir abaixo da fi- gura e não, como era antes pela mesma norma, juntamente com o rótulo… Qual é a vantagem de escrever sobrenome de autores em maiúsculo? Para saber que são sobrenomes? Para saber que são autores? Realmente? Os franceses têm a tradição tipográfica de escrever sobrenomes com versale- tes. Como é impossível escrever versaletes com máquinas de escrever ou processadores de texto comuns (sem algum trabalho), isso passou para a composição eletrônica de tex- tos como “sobrenomes em maiúsculas”. Esse tipo de conhe- cimento inútil, tido como autoridade, não pode e não deve ser aceito como parte integral da prática científica. Ele não vai ajudar o estudante em sua carreira futura. Seus artigos enviados para periódicos, seus livros enviados para edito- ras e seus papers para congressos fatalmente não seguirão essas normas esdrúxulas, ou escolherão somente algumas delas para serem seguidas.

3. Quase nenhuma das regras da ABNT aumenta a legi- bilidade do seu texto.

Veja qualquer livro sobre tipografia e descubra o que re- almente importa na hora de compor (diagramar) um texto. Você vai descobrir que, com certeza, uma página A4 com

as margens da ABNT não facilita a sua vida na hora de ler uma tese de 300 páginas.

4. As normas da ABNT para trabalhos acadêmicos não são lei.

Elas não são obrigatórias, e as instituições de ensino no Brasil não são obrigadas a aceitá-las nem a exigi-las. A pró- pria ABNT afirma que a adoção das normas NBR é volun-

rias instituições não seguem essas normas, e/ou exigem re- gras que não são as da ABNT. Basta uma comissão ou uma pró-reitoria de pós-graduação aceitar formas mais sensatas de apresentação do texto (ver exemplo acima).