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EDUCAÇÃO E DOMINAÇÃO POLÍTICA: 1930 A 1945

AGAMENON BENTO Võ AMARAL

DISSERTAÇÃO APRESENTADA AO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA COMO REQUISITO À OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE EM DIREITO

On.lzntddon.':?H.o f. P/t. CESAR LUIZ PASOLV

\

FLORIANÓPOLIS

1988

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO

A dissertação

EDUCAÇÃO E DOMINAÇÃO POLÍTICA: 1930 a 1945

Elaborada por .AGAMENON BENTO DO AMARAL

e aprovada por todos os membros da Banca Examinadora, foi julga

da adequada para obtenção REITO.

do

F l o r i a n ó p o l i s ( S C ) , 22 de

BANCA EXAMINADORA

título

de M E S T R E

dezembro de 1988

EM

Dl

Prof. Dr. Cesar Luiz Pasold-Presidente

Prof. Dr. Osvaldo Ferreira de Melo-Membro

Profa. Dra. Olga Maria de Aguiar Minella-Membro

Professor ^Orientador

Prof/ Dr.

Cesar Luiz Pasold

Coordenador do

Proif. Dr.

C e s a r / L u i z

P a s o l d

DEDICATÓRIA

à minha esposa Mena, aos meus filhos - Agamenon Júnior,

aos meus pais Bento Amaral é Doralice memoriam".

Joyce e Charles

júlia

"in

AGRADECIMENTOS

Di ­

reito e Orientador.deste trabalho, Professor Dr. Cesar Luiz Pa- sold pelo constante incentivo a nos dispensado.

- Ao Coordenador do Curso de Pos-Graduação em

4

- Aos Professores do Curso de Pos-Graduação em Di­ reito pelo despertar de uma nova consciência.

G r a d u a ç ã o

- Aos Professores e funcionários

do

Cu t s o

de Pos-

e m Direito,

através do Pr o fessor Dr. Paulo

H e n r i q u e Bla

si, Ex-Coordenador do CPGD, pelo

apoio a nos tributado

desde

o

ano

de

1985.

 

-

Aos Professores do Departamento de Estúdos

de

Problemas Brasileiros pelo apoio e colaboração.

- A todos os meus colegados

do

Ministério Publico

de Santa Catarina pelo incentivo manifestado.

- Ã Professora Clarice Amaral do Ministério da Edu cação pela inestimável colaboração recebida.

- A todos que cooperaram de qualquer modo realização do presente trabalho.

para

a

V

RESUMO

No início do presente estudo, apresentamos

uma

síntese histórica abrangendo fatos ocorridos no período que

vai

da Proclamação

da Republica atê

o

advento da Revol u çã o de

30.

Nessa oportunidade, descrevemos sumariamente,

os

vãrios períodos presidenciais e as características que os m a s c a ­

ram relativamente a fatos econômicos e políticos.

Numa etapa seguinte, fizemos menção aos vários tex

tos legais que trataram sobre reformas educacionais, tendo

como

marco o Ato Adicional

de 1834,

oportunidade em que fizemos algu­

mas considerações sobre tais diplomas é as implicações

trazidas

para

a área da educação.

Já no

item 1.3.

que

se refere

ao pe r í o d o

do, optamos pela abordagem sobre os fatos históricos

em

e s t u ­

ocorridos

de

c a r á t e r

p o l í t i c o ,

e c o n ô m i c o

e

s o c i a l ,

t e c e n d o ,

i g u a l m e n t e ,c o n

sidèrações sobre os aspectos principais.

0 segundo capítulo por sua vez,

foi subdividido em

quatro momentos a saber: no primeiro, elaboramos análise sumária

do Manifesto

dos Pioneiros da Educação Nova com algumas observa

ções de seus pontos fundamentais; no segundo, passamos em revis­

ta,

a Constituição de 34 e a questão educacional,

quando tecemos

alguns comentários que se faziam necessários; no terceiro, anali

saraos

a e d u c a ç ã o

ant e

o t e x t o

C o n s t i t u c i o n a l

de

37,

q u a n d o

sao

feitas, também, observações que interessam â analise crítica de­

senvolvida no capítulo seguinte; e., finalmente, fechando o capí­

tulo,

são examinados

de

per

si,

todos os Decretos

e

Decretos

Leis que constituíram no período, objeto dò trabalho, as

refor­

mas feitas por Francisco Campos e Gustavo Capanema.

E m

s e g u i d a ,

no

c a p í t u l o

3,

apos

b r e v e

i n t r o d u ç ã o ,

estabelecemos os fundamentos teoricos que constituem as

*

catego-

rias como - educação, dominação, política, hegemonia e ideologia

que serão utilizadas no decorrer da análise crítica.

Com auxílio de autores diversos, expomos considerações sobre tais categorias.

algumas

N o

m o m e n

t o

s e g u i n t e ,

q u e

c o n s t i t u i

o

n ú c l e o

de

nos.

so trabalho, efetuamos

a analise

crítica de todo o período,

quan

do tentamos demonstrar a utilização da educação como instrumento

de dominação política por uma classe.

de tais

A seguir, destacamos algumas influências

oriundas

r e fo r m a s

pa r a

os

p e r í o d o s

subseq u e n t e s e, finalmente,

te

cemos considerações breves sobre a educação e a sociedade, encer

rando este trabalho.

vii

ABSTRACT

In the opening part of the present' study,we present

a historical survey comprising facts which happened during

the

period from the Proclamation of the Republic to the coming

of

t h e

R e v o l u t i o n

o f

19.30,

At this point, the various presidential periods and

the characteristics that distinguished them in relation

to

economical and political facts are briefly described.

 

At

the next

step,

we

refer to the various

legal

texts that dealt with educational reforms, having

as

the

milestone the Additional Act of 1934, opportunity in which

we

make a few considerations about

such

diplomas

and the

implications brought to the

area of education.

Then,

on item

1.3,

that refers to the period

under

study, we approach broaddly the historical facts of

economical and social charater that took place,

their main aspects as well,

political,

considering

The second chapter,

on

the other hand,

is

devided

into four sections, as follows;

in the

first,

wer

analyse

shortly the Manifest of the New Education Pioneers, and present

some comments about its fundamental points; in the second,

we

review the Constituion of 1934 and the educational issue,

with

the inclusion of a few necessary considerations; in the

third,

we analyse the

education in view of the Constitucional

text

of 1937, adding some remarks which are important

for

the

critical analysis to be developed in the next chapter;

and

finally,

closing the chapter,

we

examine on their own all

the

Decrees and Law-Decrees that constituted, in the period

under

consideration in this paper, the reforms made by Francisco Cam­

pos and Gustavo Capanema.

N e x t ,

i n c h a p t e r

3,

a f t e r

a b r i e f

i n t r o d u c t i o n ,

w e

state the theoretical fundamentals that comprise the categories

such as: education, domination, politics, hegemony and ideology

that are used

in the

course of

the critical analysis.

With the help of various authors,

some

about such categories are made.

comments

In the

next part,

that constitutes the core of

our

paper, we conduct the critical analysis of the entire

when we try to demonstrate

the use

of

education as

period,

instrument

of political domination by a social class.

After that, we point out some influences

on

the

following periods derived from such reforms and, finally,

make

a brief appreciation about education and society, closing

this

paper.

ix

I N T R O D U Ç Ã O

SUMÁRIO:

Pág.

1

CAPÍTULO I

D E S C R I Ç Ã O

H

I

S

T

Õ

R

f

C A

D O

P E R Í O D O :

Í 9 3 0 - 1 9 4 5

-(ó)

1.

B

r e v e

r e t r o s p e c t i v a

d o s

a n t e c e n d e n t e s

h i s t o r i c o s

'Ç^)

2. e v i s ã o

R

j u r í d i c o - h i s t o r i c a

 

21

3. O p e r í o d o

e m

est u d o : d e s

c r i ç ã o

h i s t ó r i c a

 

27

C A P Í T U L O

II

0 S I S T E M A

L E G A L

E D U C A C I O N A L

N O

P E R Í O D O

52

1. n t e c e d e n t e

A

i m p o r t a n t e ;

o M a n i f e s t t o

dos

P i o n e i ­

r

o s de 1 9 3 2

 

53

2. C o n s t i t u i ç ã o

A

d e

1 9 3 4

e a E d u c a ç ã ò

 

■ 60

3. C o n s t i t u i ç ã o

A

d e

1 9 3 7

e a E d u c a ç ã o

65

4. L e g i s l a ç ã o

A

O r d i n á r i a

n o p e r í o d o

68

CAPÍTULO III

E D U C A Ç Ã O

E D O M J N A Ç A O

P O L Í T I C A

77

1. r e v e i n t r o d u ç ã o

B

7 8

2. u n d a m e n t o s t e o r i c o s

F

80

3. 0 p e r í o d o

de

1 9 3 0 - 1 9 4 5 :

a n a l i s e

c r í t i c a

'

1 09

4. Alguma,s

i n f l u e n c i a s

(positivas),

d o p e r í o d o

174

X

C O N S I D E R A Ç Õ E S F I N A I S

178

B I B L I O G R A F I A

184

ANEXOS

193

INTRODUÇÃO

2

INTRODUÇÃO

A idéia fundamental que ensejou a elaboração do pre

sente trabalho, resultou segundo o autor, da necessidade sempre

atual de aprimoramento intelectual do ser humano.

Esse aprimoramento do intelecto por sua vez,

pode,

na maior parte das vezes,

propiciar ao sujeito do

conhecimento

a

ser

desvendado além do prazer pessoal, condições para enfren

tar e vencer os desafios

que a vida moderna

suscita. Esse apri­

moramento ê importante para o autor, jã que desempenha a função

de Professor nesta Universidade,

tica:

No

que

tange

período de

193Q

a

ao

1945,

tema —

Educação e Dominação

Polí­

estamos convencidos que nossa es­

colha não poderia ter sido mais feliz.

Inicialmente, pensávamos analisar o processo educa­

cional desde a época colonial, traçando a evolução

histórica

e,

por

o u t r o

lado,

a s s i n a l a n d o

ao n o s s o ver,

os

e l e m e n t o s

ou

indícios pelos quais se pudesse evidenciar ter havido dominação

política através da educação.

sold, nosso

Contudo,

em contatos

com o

Prof.

Dr.

Cesar Luiz Pa-

Orientador, este sugeriu o estudo do período acima

mencionado, que pode ser considerado como um dos mais

tes da historia

do país.

importan

Considerando a, educação como um dos

mais poderosos para o alcance do desenvolvimento

instrumentos

sõcio-econô-

mico de uma nação, procuraremos analisar o referido período

e

verificar se houve a preocupação,

e

em que

grau,

por parte

do

poder político com o setor educacional.

Do mesmo modo, investigaremos se, o processo educa­

tivo levado a efeito no aludido período, atendia às

necessida­

des da êpoca e em que medida, procurando estabelecer ainda,

os

pontos pelos quais se pode diagnosticar o emprego da

educação

com propósitos políticos ditatoriais.

A importância da educação no mundo atual, sob qual­

quer

hemisfério, transcende a qualquer analise que se

possa

fazer eis que o subdesenvolvimento intelectual e o

analfabetijs

m o

c r ô n i c o ,a i n d a

e x i s t e n t e

e m b o a

p a r t e

d o

g l o b o ,

t ê m

l e v a d o

as nações nessas condições a suportarem péssimas condições

de

vida, aliadas a uma dependência sôcio-econômica e até

políti­

ca.

Segundo essa dimensão, estabelecemos uma

metodolo­

gia específica, tendo por base ampla pesquisa bibliográfica que

p o s s i b i l i t o u

o

seguinte;

al

e f e t i v a ç ã o de

u m

r e t r o s p e c t o

h i s t ô

rico como antecedente do período, sua revisão jurídica e a his­

toria do período;

b). no segundo momento, fizemos considerações

sobre o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, as

disposi­

ções

legais

sobre educação nas Cartas Magnas

de

34

e

37,

bem

c

o m o

a q u e l a s

i n s e r i d a s

n a s

r e f o r m a s

d e

31

e

42;

e,

c)

n e s t a

e t a

pa, procuramos estabelecer os fundamentos teõricos consistentes

nas categorias que seriam utilizadas para a análise, a constru­

ção crítica sobre o período em estudo, bem como a especificação

de algumas influências positivas daquela fase.

Finalmente, procedeu-se a considerações para

xões futuras.

refle

4

C o m p

r e s u l t a d o

d a s

p e s q u i s a s

f e i t a s

e

l e v a n d o

era

conta a metodologia eleita, resultou num trabalho eom a

seguin­

te estrutura: introdução; três capítulos, os quais estão alinha­

dos

da seguinte forma:

o capítulo

I,.no qual

se

faz

u m a

d e s c r i ­

ção histórica do período. Dentro-deste tópico, elaboramos

um

item contendo uma breve retrospectiva dos antecedentes

históri­

cos do período. Posteriormente,

elaboramos um quadro

contendo

os principais textos legais sobre educação antes do período

estudo.

do

C o n c l u i n d o

este capítulo,

fizemos u m a

d e s c r i ç ã o his

tórica do período de

1930

a 1945.

O

s e g u n d o

c a p í t u l o

c o m p õ e - s e

r e s u m i d a m e n t e

de:

a)

uma visão geral sobre o Manifesto

dos Pioneiros da Educação

No­

va

de

1932;

b)

aspectos

gerais da educação na

Co n st it ui çã o

de

1934;

a C o n s t i t u i ç ã o

de

1937

e a educação;

e,

finalmente, a de £

criçâo sumaria da legislação ordinária no período de 1930 a 1945.

Por sua vez, o terceiro capítulo está subdividido

e m

q u a t r o

p a r t e s ,

a saber:

a)

b r e v e

i n t r o d u ç ã o ;

b)

f u n d a m e n

-

tos

t e ó r i c o s ;

c)

o p e r í o d o

de

1 9 3 0 - 1 9 4 5 :

a n á l i s e

c r í t i c a ;

e,

d), algumas influências positivas do período.

 
 

Concluímos o trabalho, fazendo considerações

fi­

nais .

 

Vale ressaltar tambem, estarmos ciente de que

a

di s c u s s ã o

sobre

a ed u c a ç ã o

não

se

e s g ot ar á

n e s t a

ou

n u m a

epoca

futura, dado o seu caráter dinâmico e progressivo, mas,

somênte

pela utilização deste canal, e que será possível

apérfeiçoã-la

conforme as necessidades de cada sociedade.

Por outro lado,

vale

lembrar aqui,ter o aútor sido

5

tentado a fazer consideraçSes sobre a. posição

educacional

na

C o n s t i t u i ç ã o

Federal promulgada no dia Q5 de outubro do corrente

ano.

 

Contudo, não se achando plenamente seguro para tal

fim,

jã que a Lei Magna foi aprovada quando esta dissertação

es­

tava em fase de elaboração, fez brevíssima menção a respeito

do

a s s u n t o

n as

do conteúdo

C o n s i d e r a ç S e s

Finais-,

do

que

foi exposto.

c o r r e s p o n d e n d o

assim, a lógica

P o r

ú l t i m o ,

n a

c o n f o r m i d a d e

de

d e c i s ã o .do C o l e g i a -

do do CPGD/UFSC, registramos o. seguinte: "A aprovação do presen­

te trabalho acadêmico não significara o endosso

do

Professor

Orientador, da Banca Examinadora e do CPGD/UFSC a ideologia

a fundamenta ou que nele

ê exposta".

que

C A

P

Í

T

U

L O

I

DESCRIÇÃO HISTÓRICA DO PERÍODO : 1930-1945

7

DESCRIÇÃO HISTÓRICA DO PERÍODO : 1930-1945

1. BREVE RETROSPECTIVA DOS ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Para se ter uma idéia tanto quanto possível

exata

do período objeto do presente trabalho, se faz necessário um re

' f t s w ¥ \ ? & - \C<L'S

torno â época do transcurso da "República Velha",

descrevendo

sucintamente os principais acontecimentos daquele momento histó

rico.

Proclamada a República, instalou-se no Brasil

um

governo Provisõrio chefiado por Deodoro da Fonseca, que

tinha

na sua constituição elementos ligados â classe

proprietário- lati

fundiária, exportadora, segmentos militares bem como alguns pro

fissionais liberais.

Entre algumas medidas adotadas pelo governo, desta-

cam-se:^

- extinção â vitalicidade do Senado;

- decreto de expulsão da família real;

- transformação de províncias em estados;

1.

- extinção do Conselho de Estado;

SILVA, t o r i a

F r a n c i s c o

de A s s i s

d o

B r a s i l ; C o l ô n i a ,

& BASTOS, I m p é r i o

P e d r o

e R e p ú b l i c a .

Ivo d e

Assis.

2,

ed.,

H i s ­ S ã o

8

 

-

nomeação de interventores — principalmente

mi­

 

litares — para governar os estados;

 

-

criou a bandeira republicana com o lema positivis

 

ta "Ordem e Progresso";

 

-

decretou a grande naturalização, tornando

bras£

 

leiro todo estrangeiro residente no Brasil,

com

exceção daqueles que requeressem o contrario;

 

-

decretou a separação entre a

Igreja

e

o

Estado,

 

a liberdade de culto e a regulamentação do

casa­

mento civil,

 

N

o asp e c t o econômico, objetivava o

g o v e r n o

 

e n t ã o

i n s ­

tala d o,

c r i a r

c o n d i ç õ e s

p a r a o d e s e n v o l v i m e n t o

i n d u s t r i a l

e,qui_

çã, tornar independente o país do capitalismo vigorante na Euro

pa.

 

P

a r a

tal,

o e n t ã o

n o m e a d o m i n i s t r o

da

F a z e n d a —

Rui

B a r b o s a ,

t o m o u u m a

s e r i e

d e m e d i d a s

d e

c a r ã t e r

e c o n ô m i c o

e,

e n ­

tre elas, podem ser citadas; aumento das tarifas alfandegárias,

facilidade na importação de matérias-primas, etc.

Posteriormente, com o advento da primeira Constitoi

i

ção Republicana, em 24 de fevereiro de J.891, foram eleitos pelo

Congresso Nacional o primeiro presidente — Deodoro da

e seu vice — Floriano Peixoto,

Fonseca

No curto período

(nove m es e s £ em que

governou

o

país, Deodoro não contou com o apoio do parlamento nacional,

o

que por certo ensejou mais tarde a dissolução por decreto

do

mesmo.

 

Encontrando depois sérias dificuldades de ordem po­

lítica,

a

c o n j u n t u r a

e c o n ô m i c a

do

país. e m crise,

a l é m

da

ausên

cia de apoio das oligarquias estaduais, Deodoro, ante a possibi­

lidade de uma guerra civil, renunciou ao seu mandato, entregando

o

c a r g o

a

s e u vi.ce - F l o r i a n o

P e i x o t o .

A s s u m i n d o

o g o v e r n o

era s i t u a ç ã o

p e c u

l i a r ,F l o r i a n o ,

apoiado por razoável parcela do segmento militar e por

setores

oligârquicos estaduais,

2

^ tratou logo de consolidar sua base poli

tica, tomando medidas de caráter importante, como a destituição

dos governadores, que antes apoiavam Deodoro e a suspensão

da

dissolução do Congresso decretada por seu antecessor.

Contudo, o governo de "Marechal de Ferro"

3

como

era apelidado, enfrentou inúmeras dificuldades de caráter políti

co,

a l é m

das

de or.dem e c o n ô m i c a -emergentes

do p e r í o d o

anterior.

 

Um dos problemas que teve que solucionar,

refere-

se

a c o n t e s t a ç ã o

de setores

o p o s i c i o n i s t a s

que não

o

c o n s i d e r a ­

vam um legítimo presidente, pois, na conformidade da Constitui -

ção Republicana de 1891, deveria ter convocado eleições presiden

cias.

T a l

s i t u a ç ã o

f o i

c o n t o r n a d a ,

p o s t e r i o r m e n t e ,j á

que

o Congresso legitimou seu poder no ano de 1892.

Te

v e

a i n d a

F l o r i a n o

que

e n f r e n t a r

d u a s

r e v o l t a s dos

fortes de Santa Cruz e Lages,^ alem das Revoluções

Federalistas

e a Revolta da Armada,

ambas

iniciada no

ano

d^ 18 937^

A

p r i m e i r a ,

o c o r r e u

n o

R i o Grande do Sul,

n a

q u a l

2.NOTA DO AUTOR: Segundo SILVA §3 ASTOS, op cit., p.195 "enten

dia-se por "oligarquias estaduais", os grupos formados por ele

mentos da classe dominante, fundamentalmente grandes proprietá

rios de terra".

3 . 1 b i d e m ,

p.

206-.

10

os federalistas ppunháro^se ao governo do presente

Júlio de Cas­

tilhos e objetivavam a obediência ao poder federal bem como

a

reforma da Constituição gaúcha. A segunda, ocorrida em

setembro

de 1893 emcabeçada pelo Almirante Custodio de Melo, pretendia

a

reconstituição do país. Ambas foram debeladas por Floriáno.

No que concerne ao aspecto econômico,

o Governo

de

Floriano caracterizou-se por uma política de apoio à classe

me­

dia, tendo adotado inúmeras medidas de notável repercussão popu-

lar.

No

deu uma política

que

tange

ainda a essa fator,

Floriano

proteaionista alfandegária, favorecendo

rias maneiras a indústria nacional.

empreen

de

v á ­

Na seqüência histórica, adveio o governo do presi­

dente Prudente de Morais (1894-1898), que assumiu a

Presidência

num período de tensa conturbação política. Desde logo,

Prudente

teve

que

p a c i f i c a r

a r e v o l t a

no

est.ado g a ú ç h o , (Revolução

Fede-

r a l i s t a )

a i n d a não totalmente debelada, oportunidade em que foi concedida

ampla anistia.

A ascenção de Prudente, primeiro presidente civil,

marca a retomada do predomínio político dos fazendeiros e o tér­

mino do poder político dos militares.

Entretanto, o evento mais significativo e complica

dor da gestão de Prudente,

c o r r i d a

no

p e r í o d o

de

1896

foi o relativo â guerra de Canudos,o-

e 1897 no Estado da Bahia e estava intimamen

te ligado âs condições econômicas do Nordeste, o qual foi solucionado

c o m

grande dificuldade mais tarde, com a exterminação do reduto

re-

belde.

Por outro lado, sucedendo a Prudente de Morais,

o

presidente Campos

Sales que governou o pafs

de

1898

a

1902,

em­

preendeu uma política de saneamento nas finanças brasileiras

de

correntes de vultosos gastos das adnjinistraçSes anteriores,

da

queda

xa

da

do preço

do

taxa cambial

café no âmbito externo, além da acentuada bai

do mil-réis.

Foi nesse período que

o país,

através do

seu presi

dente, assinou acordo no exterior a respeito da dívida

 

externa

brasileira consubstanciada em vários pontos relativos

ao

seu

pagamento e quanto a obtenção de novo empréstimo.

Segundo se pode constatar pelos relatos historicos,

a política levada a afeito.por Campos Sales teve pontos positi -

vos

e negativos,** já que,

se por um lado valorizou

a moeda brasi

l e i r a

e

c o m b a t e u

a

infla ç ã o ,

p o r outr-o,

a f e t o u

a

i n d ú s t r i a

n a ­

cional, provocou a redução do consumo, determinou a queda

do

volume de negocios entre outras conseqüências.

 
 

No aspecto político, o período do presidente

Cam­

pos Saler foi marcado pelo estabelecimento da "Política dos

Go-

 

*7

vernadores" ou "Política dos Estados".,

 

através da qual

havia

reciprocidade de favores entre os governadores estaduais (oligar­

quias) e o governo federal, trazendo entre outras conseqliencias,

a rejeição de deputados federais eleitos pela oposição levada

efeito por este ultimo.

6 . Ihidem,

p.

218-9.

a

12

Doutro modo, como decorrência da "Política dos Go­

vernadores",

adveio

o que

se

con v e n c i o n o u

chamar

"Política

do Cafê-com-leite, consubstanciada na liderança paulista

e

mi­

neira, relativamente â eleição proporcional de seus representan­

tes a nível federal,

resultante visível do grande poder das oli­

garquias daqueles estados.

Por outro lado,

no que concerne

aos direitos

e ga-

rantias individuais, conforme assinada GUANABARA,

houve

pleno

respeito por parte do governo não se sabendo de qualquer

fato

contra a sua imagem.

Segundo ainda GUANABARA,

g Campos Sales promoveu "a

melhoria do material naval", a "abertura de estradas

estratégi­

cas",

ao mesmo

tempo em que,

também,

adotando uma posição

pôs

fim as "nossas questões de fronteiras pelo processo de

arbitra­

gem".

 

C o m

r e l a ç ã o

aos

p e r í o d o s

de- g o v e r n o

de

R o d r i g u e s

Alves (1902-1906} e Afonso Pena (1906-1910), cabe ressaltar

que

o primeiro empreendeu um processo de modernização da capital fe­

deral

(Rio de Janeiro),

tendo por outro lado, dirigido sua

ação

em defesa

da

tes

n a

é p o c a

saúde pública e contr a as epidemias então existen -

(jfebre a m a r e l a ,

p e s t e

b u l b ô n i c a

e v a r í o l a ) .

Quanto ao segundo,

permitiu a efetivação de uma po

lítica de beneficiamento da oligarquia cafeeira, além

de

ter

procurado evidenciar o progresso brasileiro, notadamente com

a

8 . G U A N A B A R A ,A l c i n d o .

A p r e s i d ê n c i a

C a m p o s

S a l e s . B r a s í l i a ,

U n i

v e r s i d a d e

de Brasília,

1983.

p.

277.

13

" E x p o s i ç ã o

I n t e r n a c i o n a l

do

R i o

d e Jane_i.ro"^

Afonso Pena morreu antes da conclusão de seu manda­

to, sendo substituído a partir de 1909 por Nilo Peçanha,

o vi-

ce-Presidente

que completou o período.

Jã o período seguinte do Presidente Hermes

Fonseca

(1910-1914), foi marcado por violentas comoções sociais e polí­

ticas, como a Revolta da Chibata, a Revolta dos Fuzileiros

Na­

vais e a guerra do Contestado, sendo sucedido

por

Venceslau

Brãs (1914-1918), cujo período coincidiu com a eclosão da

Pri­

meira Grande Guerra Mundial na qual, inclusive, veio

a

parti­

cipar o Brasil,

A participaçao do Brasil no conflito determinou, em

conseqüência, uma diminuição das importações e aumento do setor

exportador, redundando paralelamente no crescimento

industrial

como maneira de substituição das primeiras.

Merece destaque, por outro lado,

ter o período

do

Presidente Venceslau sido sacudido por inümeras greves

opera­

rias em razão das péssimas condições de trabalho a que

estavam

submetidos os trabalhadores, notadamente a que eclodiu no

ano

de

1917 numa

fábrica de tecidos num bairro de São Paulo,

a qual

se propagou para várias cidades e para outros Estados.

Não obstante a crise por que passavam setores opera

riados, o Brasil, nessa época, experimentou substancial mudança

nos campos — econômico, social e político.

10.

S I L V A ,

F r a n c i s c o

cit, p,229.

d e A s s i s

& B A S T O S ,

P e d r o

I v o

d e

A s s i s .

op.

14

Dentro da perspectiva econômica, a guerra propiciou

por um lado o crescimento do setor fabril brasileiro, ocasionan

do acentuado crescimento industrial.

Por outro lado, como conseqüência, o crescimento in

dustrial deu margem ao desenvolvimento urbano na região Sul

do

país e ao fortalecimento de alguns segmentos sociais como

a

burguesia industrial, a classe media urbana e o operariado.

Nessa época, esses grupos passaram a exercer

pres-

slo e a contestar o governo de então, exigindo mudanças,

porque

entendiam que a política em vigor apenas favorecia os cafeicul­

tores, trazendo prejuízos

a eles,

alem do que insurgiam-se con

tra o controle da máquina política eleitoral caracterizada pela

fraude e pela manipulação dos votos,

A burguesia industrial, especificamente

propugnava

por uma política de apoio e proteção financeira à indústria

e

como não era atendida, continuava pressionando.

A classe média de um modo geral, por querer partic_i

par ativamente do poder, contestava a Política dos Governadores

que lhes

ti,rara a chan ce de

a l c a n ç a r

tal

o b j e t i v o

e

lu ta v a

p o r

reformas eleitorais que garantissem uma moralização nas

elei­

ções, além de reivindicarem também o voto secreto.

 
 

Por seu turno, o operariado,

como

se

disse,

sub­

metido às péssimas condições de trabalho, lutava por

melhores

salários e melhores condições de vida que adviriam, por

certo,

do atendimento das primeiras.

Tais contestações e pressões, aliadas aos

movimen­

tos armados dos setores jovens do Exército (Tenentismoí,

além

da ocorrência de dissidências no âmbito da classe dominante,vi-

15

riam a ensejar no campo político o enfraquecimento do poder das

oligarquias

mormente as ligadas ao setor cafeeiro.

Foi dentro desse q uadro

e,

a través

a i n d a

da chamada

política do cafê-com-leite, que teve lugar a sucessão do Presi­

dente Venceslau Brãs, sendo eleito o paulista^Rodrigues

AlvesJ

o qual, entretanto,

não tomou posse

em razão

de

sua morte.

Substituído por Delfim J^oxeira. seu Vice-Presidente,

este convocou eleições, sendo eleito o paraibano Epitácio

Pes­

soa, dentro do pacto estabelecido entre Minas e São Paulo.

O governo do Presidente

(Epltacio_E£SSQa

,_ 1 9 19-192^7)

caracterizou-se por uma política econômica de aproximação com o

Estados Unidos do qual, aliâs, obteve empréstimos.

ção do

café,

Teve

em mira em seu governo,

a política de valoriza

o que continuou a provocar as insatisfações do se­

tor industrial antes referidas.

Nessa época, a inflação aumentava

continuadamente

embora o governo não fosse sensível às reivindicações

salari­

ais, indispondo-se, inclusive, com setores militares.

Já no término

de seu governo,

quando jã ocorria in­

tensa movimentação para a sucessão presidencial, houve no

Rio

de Janeiro uma grande Exposição Internacional comemorativa

ao

Centenário da Independência, enquanto que em São Paulo

reali­

z o u - s e

e n t r e

o s

d i a s

11 e

18 d e

f e v e r e i r o

de(^

19227 a

" S e m a n a

d e

Arte", inaugurandofo Modernismo no palsj Esse movimento,

que

congregava, escritores, pintores, escultores e intelectuais

de

modo geral, influenciados por movimentos de vanguarda no

exte­

rior, procurava

romper com os padrões culturais importados dan

do realce e valor â cultura brasileira.

16

No campo político, com base ainda no tradicional mo

delo do Café-com-leite, o mineiro Arthur Bernardes foi

eleito

Presidente apôs acirrada disputa eleitoral.

O governo do Presidente Arthur Bernardes,1922-1926,

segundo relato

h i s t ó r i c o , ^

foi marcado por intensas

"agita­

ções políticas e sublevações de carãter tenentista", fato

que

pode ser considerado um desdobramento dos movimentos de contes­

tação em todos os níveis sociais iniciados na década

de

20

(.1921-1930)

e que

iriam culminar com o advento da

R e v o l u ç ã o

de

30,anos depois.

 
 

Manteve seu governo permanentemente sob estado

de

sitio com o pretexto de controlar as agitações políticas e arma

das,

estas de carãter quase constante em toda a década.

Do mesmo modo, impôs severa censura à imprensa,atra

vês

da

Lei

de

Imprensa,

fato que constituiu uma das medidas le­

vadas a efeito pelo Presidente quando da imposição da

Constituèional no ano de 1926,

Reforma

Entre os movimentos tidos como de carãter contesta-

tõrio ocorridos na década de 20 com e xceção do primeiro,dentro,

ainda, do Governo do Presidente Arthur Bernardes, merecem desta

q u e s ,

o s

do

F o r t e

R e v o l u ç ã o

s e g u i n t e s

c o n f o r m e registro

d e

C o p a c a b a n a ,

o c o r r i d a

e m

-

1

2

h i s t ó r i c o ;

05

de

j u l h o

"a)

a

R e v o l u ç ã r* o

d e

1 922;

b)

a

P a u l i s t a

d e

1 9 2 4

e,

c)

a C o l u n a

P r e s t e s

q u e ,

l i d e r a d a

por Miguel Costa e Luís Carlos Prestes, percorreu o interior do

Brasil entre

1925

e

1927,

lutando contra o governo e

tentando^

trazer para si o apoio das camadas humildes".

11

e

12.

I b i d e m ,

p,

242,

246,

17

Com relação aos movimentos armados de

procedência

"tenentista", cabem aqui algumas observações.

0

m o v i m e n t o

d o s

" T e n e n t e s " ,

c o m p o s t o p o r

j o v e n s

ofi^

ciais não tinha um caráter partidário como pressuposto ideolõg_i

co, embora pretendessem reformas políticas.

Estavam descontentes com as oligarquias em seus

di

ferentes níveis, com alguns setores da classe militar e com

o

prõprio regime que consideravam corrupto.

Suas idéias básicas eram:^

"Ideal de salvação n a c i o n a l : os tenentes vlam-se mo agentes de uma regeneração nacional; defensores

da pureza em nome do povo Infeliz e Inerte; elltls-

mo

a

Insurreição caberia a um grupo e não ao po_

vo, despreparado e Incapaz de sair de sua passivi­

dade; nacionalismo mal definido o pensamento na­ cionalista entre os tenentes tinha I m p o r t â n c i a s e ­ cundaria & era um tanto vago, Reduzla-se a alguns

do

Estado criticava-se a excessiva autonomia dos estados, cujos governantes eram escolhidos pela po- iZtlca dominante. Pregava-se a reforma do e n s i n o ,do

ataques ao capital e s t r a n g e i r o ; centralização

sistema eleitoral Lvoto secreto) e do s i s t e m a trlbu tãrlo".

Por outro lado,

já no

t é rm i n o

do

seu q u a d r i é n i o , mais

precisamente em 03 de setembro de 1926,

o Presidente A r thur pro

moveu uma reforma constitucional, antes referida, alterando

os

a r tigos 69,

37,

59,

60

e

72,

E ntre o u t r a s matérias,

t r a t o u

do

18

seguinte:

Implantação do veto percial; restringiu o alcance do

Habeas-Corpus que era utilizado com fins políticos 5

regulamen­

tação das minas e jazidas; estabelecimento da

obrigatoriedade

de passaporte para a entrada e saída do país; redefinição

do

instituto da intervenção federal; nova redação ao capítulo "Dos

Direitos Fundamentais do Homem"; autorização para o

 

Congresso

Nacional legislar sobre relações de trabalho; etc.

 

Fechando

o período

e -como de costume,

a

sucessão

do Presidente Arthur ateve-se ao convencionado pela política do

cafê-com-leite, sendo eleito Washington Luís que derrotou

o

candidato da oposição — Assis Brasil.

que,

na verdade, não

chegou ao seu final,

foi marcado por suces

sivas crises de caráter social, político e econômico.

No aspecto social,-avolumavam-se os descontentamen ­

tos das camadas urbanas médias e entre elas,

tares.

segmentos

mili­

Por outro lado, o setor cafeeiro apresentava eviden

tes sinais de crise decorrentes da superprodução, da própria po

l í t i c a

g o v e r n a m e n t a l

q u e

não p r e s t a v a

o

a u x í l i o

n e c e s s i t a d o

e,

principalmente, da grande depressão a nível internacional.

— econômica

Entretanto, não obstante os sobressaltos nas

áreas

e social, o governo do Presidente Washington Luís

poderia ter passado incólume, não fosse a crise política surgi­

da com o rompimento da "Política do Café-com-leite", em

 

cuja

eleição

p a r t iciparam Julio

Prestes

e Getülio V a rgas

e,

que

re­

dundou, posteriormente, no advento da Revolução de 30,

Como sabido, em decorrência da citada

política,

19

São Paulo e Minas Gerais, revezavam-se no encaminhamento

de

seus candidatos â Presidência da República, desde hã muito tem­

po.

Na sucessão de Washington Luís, Antônio Carlos

Ri­

beiro de Andrada, Governador de Minas, esperava ser

escolhido

como candidato da situação e contar com o apoio do Presidente.

Entretanto, quebrando as regras da política atê en­

tão em vigor, o Presidente Washington Luís,em 1928,passou a

a-

poiar ostensivamente o nome do governador de Sao Paulo — Júlio

Prestes a sua sucessão.

Em decorrência, Antônio Carlos Ribeiro Andrada para

se opor aos planos do Presidente, aproximou-se do Rio

do Sul, resultando no acordo denominado "Pacto do Hotel

ria"

e no surgimento

em agosto de 1929 da Aliança Liberal.

Como conseqüência, Getülio Vargas, governador ~

-r

Grande

Glo­

do

Rio Grande

do

Sul

e João Pessoa,

Governador da Paraíba,

tiveram

suas candidaturas lançadas pelo Partido Republicano

Mineiro

(PRM)

â P r e s i d ê n c i a

e V i c e-Presidência,

respectivamente.

Mais tarde, apôs uma acirrada e tumultuada campanha

eleitoral onde, inclusive, ocorreram varias mortes, foram reali

zadas

as eleições de

19 de março

de

1930 nas quais

sairam vence

dores — Júlio Prestes e Vidal Soares,

A oposição, inconformada, atribuiu a vitoria ã ação

fraudulenta, alêm de corrupção eleitoral verificada no pleito.

Como conseqüência, políticos ligados à Aliança Libe

ral, aproveitando-se do ambiente de agitação social de

cunho

contestatõrio e reivindicatôrio, bem como da crise

econômica

que assolava o país decorrente também da grande depressão

de

outubro de 1929

nos

Estados Undiso,

com a quebra da

Bolsa

de

Nova I o r q u e , passaram a conspirar e admitir a possibilidade

de

um movimento armado.

Segmentos da ala jovem da oficialidade do Exército

iriam, igualmente, tomar parte no desenvolvimento do plano

conspiração.

de

A tensão política elevou-se, posteriormente ,.quando

da abertura do Congresso Nacional a 3 demaio de 1930, ocorreram

violentos debates entre oposicionistas e governistas e houve

o

p r o c e d i m e n t o

c o n h e c i d o

po r

" d e g o l a "

c o n s i s t e n t e

n a

e l i m i n a ç ã o de

inúmeros deputados eleitos pela Paraíba e por Minas Gerais.

'i

Este episodio juntamente com o assassinato de João

Pessoa

em

26

de

julho

do mesmo

ano em Recife,

14

por razoes

de

ordem pessoal,mas, habilmente explorado pelos aliancistas-cons-

piradores foi o estopim da revolta que meses depois seria desen

cadeada.

Realmente,

a

3 de

outubro de

1930 na cidade

to A l e g r e , tinha

início a revolução

que marcaria

o

fim da

de

Por

Repú­

blica Velha.

Posteriormente, a 3 de novembro

p o d e r

p o l í t i c o

- G e t ú l i o

V a r g a s ,

co mo

l í d e r

de 1930 assumiu

o

s u p r e m o

da'

R e v o l u ­

ção

de

30,

dando início,

então, a um governo acentuadameíite dis

cricionãrio concentrando em suas mãos, enorme poder.

 

A

11

de novembro

de

1930,

pelo Decreto

n 9 19.398,

Vargas insituía oficialmente no país, o que chamou de

"Governo

Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil",

 

Para

se

ter uma

idéia do grande poder

político

que teria Getúlio no período, basta atentarmos para o

conteúdo

do citado decreto que se encontrá entre

os anexos.

14.

BLOCH, Israel £ ABREU, Alzira Alves.de. ‘Coord.

D icionário

historico-biogrãfico brasileiro: 1930-1983. Rio de Janeiro

Fo r e n s e

Un i v e r s i t ár i o ,

FGV,

1984.

p.

3441.

21

2. REVISÃO JURÍPICQ-HISTORICA

0 Brasil, desde seu tempo colonial,

foi

um país

mar

cado por sucessivas reformas educacionais que, em verdade, pela

sua superficialidade, não lograram atingir os objetivos a

que

se propunham.

 

Nesse momento de nosso trabalho,

e tendo

em

vista

os objetivos desta pesquisa, ê oportuno passar em revista

algu

mas dessas 'reformas', tomando como ponto de referência, aquela

procedida poucos anos antes do advento da República e

pelo Ato Adicional,

promulgado

em

06 de

agosto de

1834.

surgida

Por este diploma legal, e s t ab eleceu o legislador uma

descentralização político^-administrativa pela qual os

assuntos

ligados ã ãrea educacional se transferiam

das mãos

do

Impera­

dor para os Presidentes das Províncias.

0 que vale dizer,

a totalidade do ensino primário e

do ensino mêdio

saiu do governo central

para o poder

de

cada

Província,

 

0

parágrafo 2? do Art.

10

do

citado

Ato

estatuía

sobre a competência atribuída âs Assembléias Legislativas

vinciais para legislar

."sobre instrução pública e estabelecimentos

Pro­

pro-

prios a promove-la, não compreendendo as Faculdades de Medicina, os Cursos J u r Z d i c o s , Academias a t u a l ^

mente existentes e outros quaisquer estabelecimen - tos de instrução que para o futuro forem criados por

22

lei g e r a l " .15

A repeito de tal reforma FERNANDO DE AZEVEDO^

o seguinte comentário;

fez

"A des centralização do ensino fundamental instituZ- da pelo Ato Adicional e mantida pela Republica, quan to ao ensino primário, atingindo um dos pontos es­ senciais da estrutura do sistema escolar, não permi tiu, durante um século, edificar, sobre a base soli da z larga da educação comum, a super-estrutura do ensino superior, geral ou profissional, nem reduzir a distancia intelectual entre as camadas inferiores e as elites do p a Z s ".

Num passo seguinte, tivemos

a Reforma

levada a

e-

feito pelo Ministro Carlos Leôncio de Carvalho, a última do Im­

pério,

instituída pelo Decreto n?

7247 de

19 de

abril

de

1879.

Esteada em princípios acentuadamente liberais,

se­

gundo modelo norte-americano, dita reforma, na prática, não

lo

grou êxito,

eis que, não tinha uma unidade própria

ensejadora

de novas dimensões pedagógicas. Não obstante, tinha alguns

as­

pectos revolucionários e pontos considerados progressistas, ten

do durado

por

cerca de

doze

anos.

Na seqüência histórica, teve lugar a "Reforma

Ben-

15-

BRASIL,

leis,

d e c r e t o s ,

etc.

A t o

a d i c i o n a l

de

06

de

a g o s t o

de 1834.

apud Tobias, José Antônio.

 

16.

A Z E V E D O ,

F e r n a n d o

de.

A p u d

T O B IAS ,

J o s é A n t ô n i o .

Ibidem, p.

23

jamin Constant",

instituída com o Decreto n9

981 de

08 de

novem

b r o

d é

1 8 9 0 ,

m a s

q u e

so e n t r o u

e m v i g o r

e m

1 8 9 1 ,

t i n h a

c o m o

pressupostos orientadores a liberdade e laicidade do

ensino,

além da gratuidade da escola primaria.

17

Segundo o entendimento de JOSÉ ANTÔNIO TOBIAS,co

mentando o evento, afirma que:

"Comte, também do outro lado do Atlântico,

o Inspirador da reforma educacional de

foi

Benjamim

Constant, em 189:1, ainda

que o positivismo

do

ministro brasileiro seja 6em "sul generls"

em

vãrlos aspectos, as vezes frontalmente contrario ao mestre francês".

Conforme. M A R I A L U I S A

ta por Benjamin,

S.

R I B E I R O ,

18 a r e f o r m a

fei.

"atingia, por força da descentralização reinante,

do

Vlstrlto Federal e a Instrução Superior, ArtZsti ca e Técnica em todo o t erritõrlo nacional. A es

a Instrução publica primaria

e secundária

cola primaria ficava organizada em duas

e, de 1? grau para crianças

catego­ de 1 a 13

rias, Isto

anos e de 2Ç grau p a r a crianças de 13 a. 15 anos.

A secundária tinha a duração de 7 anos. Mo nZvel

superior afetou o ensino politécnico, o de Vlrel

to,

o de Medicina e o Militar".

17 . Ibidem,

Ainda no que

pág.

187.

18 . R I B E I R O ,

M a r i a

a o r g a n i z a ç ã o

L u í s a

S.

escolar.

tange a aspectos

fundamentais da ci

H i s t o r i a . d a

Sao

Paulo,

e d u c a ç ã o

Moraes,

b r a s i l e i r a ;

p.

1984.

24

t a d a

r e f o r m a ,

O T A Í Z A D E

O L I V E I R A R O M A N E L L I ,19 e n t e n d e q u e :

"Se a reforma Benjamin teve o merito de romper " com a antiga. tradição doe.nii.no humanZstico ", não

a

teve, porem, o cuidado de pensar a educação

partir de uma realidade dada, pecando, portanto, pela 6ase e sofrendo dos males que vão padecer quase todas as reformas educacionais que se t e n ­ to u i m p l a n t a r no B r a s i l ".

a primeira

a C o n s t i t u i ç ã o de

24 de fevereiro

de

1891,

republicana, que norteou em alguns princípios a Re­

forma Benjamin Constant, previu um processo de descentralização

do ensino ou, mais precisamente, como lembra ROMANELLI,

20

dualidade de sistemas,

jã que,

pelo seu artigo

35,

itens 39

49,

ela reservou à União o direito de "criar instituições

a

e

de

ensino superior e secundário nos Estados" e "prover a instrução

secundária no Distrito Federal" o que, consequentemente,

dele­

gava aos Estados competência para prover e legislar sobre educa

ção primária.

Ora, como ressalta a autora supracitada, em rea­

lidade,

à União coube criar e controlar toda a instrução

supe­

rior

em

todo

o país,

bem como criar e controlar

todo

o

sistema

de ensino secundário e a instrução nos diversos níveis no

Dis­

trito Federal, enquanto aos Estados, restou apenas a

competên­

19. R O M A N E L L I ,

O t a í z a

s i l . Petrõpolis,

O l i v e i r a . R.J., Vozes,

d e

H i s t ó r i a

d a

1980.

p . 42.

e d u c a ç ã o

n o

B r a ­

25

cia para criação

rial.

e controle do ensino primário

e do

profissio

Estas disposições constitucionais que significa­

vam mais uma mudança no ensino publico não atendiam,

todavia,

as necessidades emergentes de uma nova sociedade em formação

com relativo grau de complexidade.

e

Com efeito,

já não

se tratava mais

de

um

modelo

de sociedade escravocrata como antes, mas de um povo onde

des­

pontavam, por exemplo, uma pequena burguesia então em ascenção,

uma camada média de intelectuais, militares, padres, uma burgue

sia industrial, etc.

Todo esse complexo heterogêneo social da

época,

naturalmente, por pouco tempo aceitaria modificações de caráter

simplista numa instituição

altamente importante c o m o ja educacio

n a l

e,

m a i s

tarde,

n o v a s

r e f o r m a s

se

f a r i a m

sentir.

Na seqüência histórica, tivemos ainda quatro

ou

tras reformas no setor educacional até a década de 30 que, toda

71

via, como assevera ROMANELLI,

mudança substancial ao sistema".

"nào lograram acarretar nenhuma

Pessoa",

22

A primeira delas, denominada o "Código

Epitãcio

surgida em

01 de

janeiro de

1901,

estabelecia os re­

quisitos para uma pretendida "equiparação de todas as

do Brasil ao Ginásio Nacional, o Colégio Pedro II",

23

escolas

o que,

na

verdade, não foi alcançado.

21.

I b i d e m ,

p , 4 2 .

22*

T O B I A S ,

J o s é

A n t ô n i o ,

op,

c i t , ,

p , 2 5 0 .

26

Por seu turno,

a reforma do Ministro

Rivadãvia

Correia, ocorrida em 1911, suprimiu o carãter oficial do

ensi­

no, tirando-o das mãos do Estado,

ao mesmo

tempo em que

conce­

deu ampla liberdade e autonomia aos estabelecimentos

educacio­

nais.

 

A inspiração positivista foi marcante nesta

re­

forma .

Por

sua vez,

a reforma

surgida

com

a

Lei

de Car­

los Maximiliano, em 1£15, reoficializou o ensino ao mesmo tempo

em que procurou reorganizar o ensino mêdio, regulamentando, ain

da,

por outro lado, o ingresso nas escolas superiores

lembra , ■, TOBIAS.

24

conforme

 

Por fim,

no

ano

de

1925,

aconteceu a reforma RO­

C H A VAZ,

a u l t i m a

d a d é c a d a

de

20,

que

p r o m o v e u

u m a

c e r t a

u n i ­

formidade de ações entre os Estados

e a União

quanto

ao

ensino

primário, eliminando, por outro lado, "os exames

preparatórios

e parcelados,

ainda vigentes e herança do Império.

Foi

na

ver­

dade, uma tentativa de impor a sistematização sobre a

desor-

24. Ibidem,

25. ROMANELLI,

O t a í z a

de Oliveira,

op,

cit.,

p,43.

27

3. O PERÍODO EM ESTUDO: DESCRIÇÃO ffISTÕRICA

 

Deposto o governo do Presidente Washington

Luís

em

24 de outubro

de

1930 com a vitoria da Revolução,

caíam

as

bases da Republica Velha ou

Primeira República e

encerrava-se

3.

de fato a vigência da 1- Constituição Republicana de 24 de

f e ­

vereiro de 1981.

Como conseqüência imediata, instalou-se uma jun­

ta governativa provisória, formada pelos Generais Tasso

Frago-

so, Mena Barreto e o Almirante Isaías Noronha,

o pais

atê

o dia

03 de novembro

do mesmo

ano,

que governaria

quando assumiu

o

poder Getúlio Vargas como chefe da Revolução.

Durante o período que governou o país,

a

Junta

Militar, então constituída, tomou uma sêrie de providências

de

carãter político e administrativo.

Nesse sentido,

em

25

de

outubro de 1930,

a J u n ­

ta expediu ato comunicando âs embaixadas estrangeiras a mudança

de governo então verificada,

Era o seguinte

o

teor

do

aludido

ato:

"Acaba. de ins t i t u i r - s e no Rio de Janeiro a Junta Governativa composta Generais Tasso Fragoso, Me­ na Barreto e Contra-Atmirante JsaZas de Noronha. Presidente Washington LuZs entregou governo r e ­ cebendo considerações, honras devidas, seu atto

26 • SILVA, cit.,

Francisco de Assis & BASTOS, p . 251.

Pedro Ivo de Assis,

op,

28

cargo. Ministros exonerados. Programa Governo ProvisÕrAo confraternização imediata famZlia bra­ sileira, manutenção compromissos nacionais ex­

teriores, pacificação espíritos

vimento realizado sem sangue, máxima ordem,res peito autoridades depostas. Povo acompanhou en tre aclamações desenvolvimento acontecimentos. Cidafe apresenta as.pectos dias grandes festas nacionais. Peço diviilgação imprensa este bole

t i m . 11

dentro PaZs. Mo­

 

Ja

a 27

de

outubro

do mesmo ano,

a

junta

voltava

a

manifestar-se

através

de c o m unicado,. dando

conta

das

providêncais