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LEITURAS ALLS ‘+ Como Renascem as Democracias ~ 8. Lamounior/ A. Rouquis Constituinte e Democracia no Brasil Hoje ~ Emir Sader forg.) (0s Democratas Autortirios — Jodo Almino {1961 A crise da rendincia a solucdo parlamentarista — Amir Labaki «+ Muda Brasil — Uma constituigdo para o desenvolvimento" democratico — Fabio Konder Comparato Partidos Poiticos @ Consolidagiio Democrética — Bolivar Lamounior/Rachel Menequello or que Democracia? — Francisco Weffort {Era uma vez uma Constituinte — Jogo Amino Colegio Primeiros Passos ‘+ 0 que é Constituinta — Manila Garcia £0 que 6 Pariamentarismo — Ruben Keinert = O que 6 Participagao Politica — Dalmo de Abreu Daler 0 que & Poder Legislato — Nelson Saldanha + 0 que & Politica — Wolfgang Leo Meer Colegio Tudo 6 Historia + 0 Governo Goulart © 0 Golpe de 64 — Caio N. Toledo © 0 Governo Janio Quadros — Maria Vietorie Benevides 5 0 Governo Juscelina Kubitschek — Ricardo Maranhio Coleco Primeiros Véos ‘+ Assombldia Constituinte — A legtimidade recupereda — Raymundo Faoro Francisco Iglésias BU CONSTITUINTES E CONSTITUICOES BRASILEIRAS 12 edigao 1985 3? edigao Copyright © Francisco Iglésias >) £ YO3 Responsével editorial: Lilia Moritz Sehwarez - $C00870650 Capa: Gilberto Miadaira Reviséo Tosé W. S. Moraes Lenilda Soares y V1 wala 2006 B ReCISTRO_@.403.26. iditora Brasilionse S.A, DNTADOREGSTRO,24 5.200 R. General Jardim, 160 01223 — So Paulo — SP Fone (011) 231-1422 INDICE Apresentacao ' 5 Em defesa dos direitos do homem ............ Império: Constituinte de 23 e Constituigao de 24 Repiiblica: Constituinte de 90 e Constituigao de a aera Constituinte de 33 e Constituigio de 34 Constituigdo de37 .. Constituinte e Constituigio de 46... Constituigdes de 67¢ 69 .... Avaliagio e projeto . Indicacoes para leitura . 102 7 9 16 oa 38 31 60 2 87 APRESENTACAO, Encerrado o regime militar, cumpre repor a n: «o no rumo que &0 seu e melhor a exprime. Como & comum quando a lei ndo é respeitada, a administra- gio viu-se possufda de furor legiferante, multipli- cando-se as determinagoes para resultado imediato, Daia série interminavel de leis, muitas destituidas de qualquer base, arbitrérias e até incoerentes. Chegou- se mesmo a fazer uma Constituigao, ditada pelo go- vyerno a um Congresso submisso e de triste meméria, logo seguida de emenda que outra peca ¢ mais, emendas, em um aranzel de equivoces e maus intui- tos. Repor o pais no campo do direito € imposigio quando se pretende uma outra fase na Hist6- ria, jd chamada a Nova Repiblica. Para que o poder obtenha a legitimidade per- ida ao longo de vinte e um anos, urge a votagdo de lei basica que exprima o Brasil, as vésperas do pri meiro centendrio da Reptiblica, do segundo centens- rio da Revolugao Francesa e do terceiro milénio da Francisco Iglésias era crista. O principal empenho do momento é a elei- cto de uma Constituinte, que traduza em todas as eculiatidades a nacdo e a época presente, de vertigi noso ritmo de mudanga aqui e no mundo. Nesse de- bate devem empenhar-se todos os grupos da socie- dade, sem disting&o. A convocacdo é geral. texto que ora se apresenta é mais um elemento para o debate. Professor de Hist6ria, pretendo uma perspectiva das Constituintes e Constituigdes do pats. Por ela pode-se ter o entendimento da trajet6ria de 1822 a 1985. Quando se pensa.em nova Constituinte, a ser convocada para o préxinio ano, a fim de elabo- rar texto condizente com a nagio e a época, é inte- ressante ver como se tem colocado a questo ao longo dos anos. A abordagem eminentemente a do estu- dioso de Historia, nfo do jurista. Dessa experiéncia de 162 anos talvez se possa extrair alguma coisa para opresente. EM DEFESA DOS DIREITOS DO HOMEM Se sempre houve preocupagio com os direitos humanos, ela é fortalecida na Idade Moderna, sobre- tudo a contar do século XVII. Ha um pensamento politico na Antiguidade e na Idade Média: naquela hé importantes pensadores, escrevendo sobre as ex- eriéneias de organizagao ou formas ideais da ordem politica. Para lembrar s6 as civilizagdes clissicas, as- sinalem-se as obras de Plato e Arist6teles. O mundo romano da exemplos de vida administrativa, com uma contribuigao fundamental para estraturar o Di- reito. As duas civilizagdes cléssicas vao informar e inspirar a reflexdo e a pritica politica até os dias atuais. No esforgo de humanismo e laiciza¢do, mais vivo a contar do século XVI, 0 homem passa a inte- ressar-se de modo absorvente por suas coisas, como se vé nas anilises polfticas de um Maquiavel, um Hobbes, um Locke. 10 Francisco Iglésias Constituintes e Constituigdes Brasleiras u A Inglaterra sobretudo dé contribuigdes defini- tivas, como o pessimismo de Hobbes e a crenga libe- ral: 6 transposi¢ao do otimismo de Leibnitz relati- vamente 4 harmonia das esferas, fixada pela Astro- nomia, ciéncia de ponta de entiio, que se procura en- contrar também no relacionamento entre os homens, tal como nos corpos celestes. Locke pretende fixar ‘uma filosofia liberal. Nao podia deixar de ser a Ingla- terra o bergo desse modo de ver: j no século XIII, em 1215, em pleno feudalismo, a Magna Carta é i posta ao rei, na primeira sustentagdo de direitos. E ‘um pacto entre Jodo Sem Terra e seus vinte e cinco bardes. O documento fixa principios gerais, de modo a poder subsistir. Consagra-se a legitimidade da re- sisténcia ao arbitrio. Depois, ha outras declaragdes, como a Petition of Rights, de 1628, com a proibigio de impostos sem 0 voto do parlamento, defesa do in- dividuo contra a pristio. Conquista reforgada com 0 Habeas-Corpus Act, de 1679. O Bill of Rights, de 1689, 6 avango mais considerdvel, configurando a sionomia da Inglaterra liberal. Locke traduz aspiragdes da burguesia em as- censio, classe que conquistara vantagens econdmicas e pretende também posicées politicas. E a época do capital comercial. A revolugao inglesa de 1689 — co- nhecida como revolugdo gloriosa — consagra a vit6- ria das idéias de Locke, seu idedlogo, realgando a proeminéncia do Parlamento na vida nacional. E no pensamento de tedricos e nas praticas da Inglaterra que vao buscar inspiragdo os pensadores politicos da Franga no século XVIII, a comegar por Montesquieu, logo depois por Rousseau e outros. A revolugdo de 1789 é feita em grande parte pela pre- gacio de seus principios. A Declaragao dos Direitos do Homem e do Cidadio, votada pela Assembléia Nacional Constituinte em 26 de agosto de 1789, con- cisa e incisivamente, fixa ‘‘a liberdade, a proprie- dade, a seguranga ¢ a resisténcia 4 opressio”. Ela constar4 da primeira Constituigdo francesa, de 1791. ‘O poder passa a burguesia: jé detentora de vantagens econmicas, tem agora a direco politica. A preten- io de ampliar esses privilégios as massas nao é aten- dida: nfo chegara ainda a vez do proletariado, forca entdo nascente. Impée-se a filosofia politica liberal, ‘como a economia liberal. Anterior ao movimento francés, verificara-se a revolucdo americana, realizando a independéncia das col6nias inglesas na América do Norte, em 1776, com acriagio da Reptblica dos Estados Unidos. Se essas antigas colnias ja tinham documentos afirmadores de direitos, a nova unidade faz a sua Constituicao em 1787. Enquanto a vida politica é assim alterada, con- sagraya-se também 0 racionalismo juridico, cujo mar- co & 0 pequeno livro Dos delitos e das penas, de Ce- sare Becearia, de 1764. ‘Tem-se ai, nessas doutrinacdes ou experiéncias, © principal do século XVIII. Um dos elementos deti- nitivos resultantes & a idéia de constitucionalizagao dos Estados. Da Franga prolonga-se a outros paises do continente ¢ ao conjunto de nagSes surgidas no mundo americano, com a emancipagao das colonias espanholas e portuguesas. A Constituiedo consagra 2 Francisco Iglésias Constituintes e Constituipdes Brasileiras B ideal de liberdade, confundindo-se uma e outro. Configuram-se dois tipos de Constituigao: as his torieas, como a inglesa e a norte-americana, fixadora de normas para problemas coneretos, e, assim, com larga flexibilidade; outro tipo ¢ 0 das teéricas, em consonfincia com o modelo francés de varias Consti- tuigées, como a de 1791, outras do periodo revoluci nario, ou a de 1814, j4 sob o signo restaurador. Tra- tam de normas fundadas na razio, frutos menos da experiéncia ou situagdes reais que de prinefpios mui- to gerais e abstratos. Prendem-se mais & razo qué & anilise de problemas objetivos. As jovens Repiblicas e a monarquia da América Latina seguem a segunda orientacio, responsével pe- las mudaneas tio freqiientes em suas leis basicas. A instabilidade comum no continente explica a mul plicidade de Constituigdes. O desrespeito a lei, bas- tante freatiente nos novos paises, é uma das causas de sua legislagao ampla. ‘A fase insegura das metrépoles ibéricas tem de repercutirna América. A aventura de Napoledo afeta 4 peninsula, com a ocupagao do trono espanhol por um francés € a tentativa de subjugar Portugal. A co- roa portuguesa abandona o pais, instalando-se, de 1808 a 1821, em terras do Brasil. Aqui, como em otras éreas americanas, movimentos aproveitam as dificuldades da Metrépole para realizar a indepen- <éncia, como se da de 1810 a 38, em episédios sobe- jamente conhecidos. Interessa-nos a trajetéria do Brasil. © conceito vigente de democracia organiza as nagBes, constitu- cionalizando-as e afirmando a classe mais din&mica de entdo — a burguesia. Esta realiza uma conquista, ampliando o mémero de participantes da vida pi- blica, antes restrita 4 nobreza, como consagra tam- ‘bém o sistema representativo, quando havia 0 abso- Iutismo dos reis, revestidos até de supostos direitos divinos. A democracia esté em marcha, com reivin- dicagdes crescentes e algumas vit6rias. 0 quadro so- cial e politico torna-se complexo, sobretudo devido a ‘outra classe que surge, cresce e impde-se, com a ur- banizagio e a tecnologia do industrialismo. Jé nio & mais a ordem do capital comercial, mas a do capital industrial e financeiro. Acirram-se as lutas de clas- ses, fortalece-se um pensamento além do liberalismo politico e econdmico, com a estruturacdo e a cam= panha do socialismo. Realidade do século XIX, ser& agucada depois, com outra sociedade e novo ideario politico. Estes sio bem mais complexos e configuram ‘uma revolug&io que exige cuidado, lucidez e coragem para ser devidamente entendida,-assimilada e aten- dida em seus reclamos. Os historiadores sabem ¢ mostram que 0 ritmo do proceso evolutivo é indo- lente: das civilizagdes mais recuadas, jé objeto de co- nhecimento, até o século XVIII, o ritmo é lento. Ain- da considerando os povos de realce na Antiguidade, do Oriente ou do Ocidente, das civilizagées classicas ou do judaismo e cristianismo, passando pelos anos medievais até os anos dos quinhentos, com as gran- des descobertas e a expansdo do comércio, renasci- mento artistico, reforma religiosa e crescente laiciza- 4 Francisco Iglésias Constituintes e Constituigdes Brasileiras 1s s8o, 86 no século XVIII 0 ritmo comega a ser alte rado, com impulso cada vez mais vertiginoso. Este decorre das novas formas do universo de produgao e trabalho, timidamente anunciado com a energia do vapor, matriz, da tecnologia do industrialismo. Das formas antigas ao vapor passam-se milénios, com aprimoramento tecnoldgico e social vagaroso. Logo 0 tmo se altera: em poucos dectnios chega-se a eletr cidade, a outros elementos energéticos, até as formas atuais da forga nuclear, da diversidade da organiza- a0 social ou politica, da criatividade intelectual, cientifica ¢ artistica. O certo é que o pensamento social nao tem cor- respondido ao proceso, com o mesmo calor. Veja-se © ordenamento juridico da sociedade, defasado em relacdo ao processo cientifico ou A mudanca cultural ou as formas de comportamento. A resist@ncia & mu- dana é bem mais sensivel aqui que em outros cam- os. Os cédigos do Direito, com as leis e constitui es, tém certo distanciamento da revolugio social, mais complexa pela populagao crescente, pelo predo- minio do urbano sobre o rural, maior nivel de cons- ciéncia e sentido reivindicante, em desajuste do que € edo que deve ser. O Direito é mais ideal que real, pen- sando maisno que deve ser que no que é— daf seu ca- rater conservador e até reacionério. Em uma ordem profundamente alterada, perpetua-se ordenamento antigo, feito em fungio de realidade mais simples e muito menos dindmica. Um dos grandes desafios de ‘nosso tempo, neste fim de século, € ajustar os varios planos, para nao serem tao nftidos os desencontros. As Constituigdes custam a ser alteradas: apesar da profunda mudanga social, pouco é consignado nesses documentos. Mesmo no século atual, depois de movimentos socialistas vigorosos, muitos textos no retratam a nova ordem social, politica ¢ econd- mica. Continuam exprimindo direitos individuais, sem melhor entendimento da sociedade. Chega-se ja internacionalizagao dos direitos do homem. Fala-se na declaragao dos direitos internacionais do homem. Em 1941, Roosevelt falou das quatro liberdades fun- damentais — liberdade de expresso, exercicio reli gioso, isengdo das necessidades materiais e do temor. Outros documentos os consignam, como se dard, de forma superior, na Declaragiio dos Direitos do Ho- mem das Nagbes Unidas, de'9 de dezembro de 1948. Se jd se pensa no assunto, de certo ainda se esti longe do ideal a ser atingido, como se vé nas guerras que continuam, na prisio, na perseguico, na tortura, na morte, na fome, no desemprego, com a transgressio dos mais elementares direitos. Se € reconhecida a autodeterminagdo dos Estados, ha dividas quanto a0 que sejam seus negécios internos e externos, como se viu com a Liga das Nagdes, apés 1919, ou com a Organizagio das Nagdes Unidas, ap6s 1945. Nesse debate de cientistas politicos, o estudioso de Historia tem de ser ouvido. Se é exatamente sua matéria que pretende captar as diferentes temporal dades, ele tem depoimento a dar, como o dos juris- tas, socidlogos e mais cientistas, associacdes, sindica- tos, partidos, representantes de todos os segmentos da sociedade, e Constituintes e Consttuigdes Brasileiras IMPERIO: CONSTITUINTE DE 23 E CONSTITUICAO DE 24 A independéncia € 0 coroamento da luta contra adominagio portuguesa, que vem desde os primeiros tempos da colénia. Nela se consumiram milhares de {indios e negros, brasileiros ou mesmo portugueses, que aqui se identificavam com a terra que os acolhia. Do século XVI ao inicio do XIX verificaram-se deze- ras de protestos, alguns armados, com boa articula- ‘go, com suas vitimas e martires. Eles prepararam a \dependéncia, mareando-a com o sangue native, A vinda da Corte em 1808 altera o relacionamento me- trépole-col6nia, com o desfecho natural na indepen- déncia em setembro de 1822. ideal constitucionalista era presente na Eu- ropa e no mundo americano no comego do. século XIX, por influéncia da revolugdo americana de 1776 e da revoluco francesa de 1789. O processo politico espanhol, tumultuado com as interferéncias de Na- poleio na peninsula, leva 4 Constituigao de Cadiz, de 1812. Revogada em 1814, pelo absolutismo de volta, é restabelecida em 1820 por novo movimento liberal. O fato infiuira em Portugal, com o epis6dio revoluciondrio do Porto, ao qual Lisboa também ade- re, As Cortes retinem-se em janeiro de 1821, com al- guns representantes brasileiros (varios eleitos naio quiseram comparecer, por justas suspeitas), logo for- cados a abandonar o pais, uma vez que o movimento era mais recolonizador do Brasil que constituciona- lista. Nao interessam agora as vicissitudes da politica Portuguesa. Sua Constituigio s6 ficou pronta em 22 de setembro de 1822, quando o Brasil jé se emanci- para, Lembre-se apenas que D. Joao Vi, ainda aqui, aprovou previamente a Constitui¢do que se votava em Lisboa, Criada a nagio, impunha-se organizé-la. Uma das preocupagdes de D. Pedro I, ainda regente, foi convocar em junho de 22 uma Constituinte. O povo recisava ter lei basica, como as nagées civilizadas. Elegeram-se 100 representantes: Minas tinha a maior bancada, com 20 deputados; Bahia e Pernambuco, 13; Sao Paulo, 9; Ceara e Rio de Janeiro, 8; Alagoas > ¢ Paraiba, 5; Maranhfo, 4; Para e Rio Grande do Sul, 3; Goids e Cisplatina, 2; Piauf, Rio Grande do Norte, Espfrito Santo, Mato Grosso e Santa Cata- rina, 1. Entre eles, reconheciam-se 26 bacharéis e 22 magistrados, 19 padres e 7 militares, alguns funcio- néios piblicos, médicos e outros vagamente desig- nados de proprietérios. A Constituinte eleita comeca os seus trabalhos a 18 Francisco Iglésias Constituintes e Constituigées Brasileiras » no dia 3 de maio de 1823. D. Pedro I faz a primeira fala do trono, condena o colonialismo portugués. E pouco feliz. ao afirmar que “‘com minha espada, defenderia a patria, a nagdo e a Constituicao, se fosse digna do Brasil e de mim’. Era uma Assembléia na maior parte sem experiéneia politica. Nela figuravam Naieonndtncinoaes candictenstiaedandsenn Bey posito de construir uma nagao. Exprimiam a tinida A grande propriedade, tabelbada pelo escravo ‘ecom o sentido da lavoura exportadora. Antes ligada Coroa portuguesa, liga-se agora & economia brita- nica, em fase de expansio que Ihe dara quase o mo- nopolio da época, No comego parlamentar, em 23, 0 Brasil tinha mais de 4 milhdes de habitantes. Pouco menos de um, tergo era constituido de escravos. O Estado ja tem Conta com 19 unidades politico-administrativas, com 225 nticleos urbanos em 1822 — 213 vilas e 12 cida- des. Os limites do territério estavam fixados. O em- penho portugués era eminentemente fiscal, pouco co- gitando do resto, em acanhada visto. O admit dor agora tem de fazer bem mais — deve construir uma nag, com 0 estimulo do processo produtivo, a Tepresentagio do povo no governo, a justiga, a edu- cacao, a satide. E dificil a articulagao politica. Havia o elemento reacionério, regenerador ou portugués; os exaltados ou nativistas; 0s moderados. Estes constituiam 0 maior ntimero ¢ tinham mais consisténcia, unidos a0 regente e depois ao imperador. Os regeneradores per- dem seguidamente expresso, enquanto os exaltados ou nativistas assistem ao seu aumento, ajudados pe- los erros de D. Pedro I, comegados com a intempes- tiva dissolugdo da Assembiéia ainda em 23, em no- vembro, com poucos meses de funcionamento e sem chegar a seu objetivo — a Constituicao, A Constituinte teve os trabalhos comprometidos com as Iutas entre os parlamentares e o imperador, sobretudo depois que 03 Andradas romperam com. ele e passam a fazer-Ihe obstinada luta. Formara-se comissio que logo encaminha projeto para o docu- mento: o principal redator fora AntOnio Carlos, j4 experimentado politicamente, de presenga marcante na revolugao de 1817 e ex-deputado as Cortes de Lis boa. Capacitava-se, pois, para a tarefa a ser real zada. Submetida ao plendrio, a proposta mal come: ou a ser discutida. Excessivamente longa, com 272 artigos, s6 foi a debate até 0 artigo 24, quando os desencontros levaram D. Pedro a dissolver a Assemn- biéia. Comegou mal a histéria do Legislativo, como seve. Ao decretar a medida, D. Pedro prometeu ao Povo uma Constituigao duplicadamente liberal, Para tanto, nomeou Conselho com seis ministros e quatro personalidades politicas. Entre elas, o baiano José Joaquim Carneiro de Campos, futuro marqués de Caravelas. D. Pedro tinha leituras juridicas, era co- nhecedor de pensadores da corrente conservadora o restauradora, como Gaetano Filangieri e Benjamin Constant, constitucionalistas bastante cultivados no Brasil. 20 Francisco Iglésias Constituintes e Constituicdes Brasleiras a De posse do projeto, o governo usou forma sutil para disfarcar a outorga. Enviou cépias as municipa- lidades, pedindo-Ihes sugesties. Poucas atenderam. Uma delas, a de Itu, a que mais colaborou, por in- fluéncia de Diogo Ant6nio Feij6, antigo deputado as Cortes de Lisboa. Também as do Rio de Janeiro, Sal- vador, Recife, Olinda, Era uma espécie de consulta as bases, de modo que o documents: podia ser visto ‘como aprovado pelo povo. O artificio tentava disfar- car a violencia cometida e comprometia o povo na elaboragio da lei. Sutileza do administrador, nio'foi ‘apaz de tirar do documento assinado em 25 de mar- 0 de 24 0 seu cardter de Carta, de outorga, nao de elaboragio popular, como convinha. ‘A Constituigdo é documento inteligente, evidén- cia do alto preparo de seus autores. Exprimia o mais avancado na matéria, a ideologia liberal de entio. ‘Traduz mais a influéncia européia continental que a norte-americana. Sua principal fonte é a carta de 1814, outorgada por Luis XVIII. Ultrapassado o ra- dicalismo revolucionério, ¢ a vez, da Restauragio na Franca. Outra fonte é a Constituicio da Noruega. A ‘maior originalidade nativa é a consideracdo de qua- tro poderes: além dos trés da formula classica— Exe- cutivo, Legislativo, Judiciério —, consigna um quar- to poder — 0 Moderador. Hé af muito de Benjamin Constant. O novo poder é exercido pelo imperador € € visto como “a chave de toda a organizagio poli- tica’”. Dé prerrogativas especiais & primeira figura, para harmonizacdo dos outros poderes. Uma delas a de dissolver a Camara, ante impasses criados. Tran- siglo entre liberalismo e absolutismo, atesta nos au- tores competéncia e imaginacdo. Tem-se nesse poder ‘um compromisso entre a tendéncia constitucionaliza- dora — vitéria do liberalismo — e o apego a formulas do Antigo Regime. © Poder Moderador concilia as duas tendéncias. Arma-se o pais para enfrentar a tarefa de defesa da ordem, ou seja, dos interesses dos elementos mais, representativos do corpo social. Atendo-se & econo- mia, eminentemente agraria, com base na produeao de géneros agricolas para consumo e exportagiio, po- der-se-ia deduzir que o grupo dominante fosse 0 do senhor de terras, latifundiario ou fazendeiro, com Certo, a propriedade é algo intocavel. O jogo politico, contudo, nao é feito pelo latifundidrio, diretamente, mas por seus agentes. E esses podem ser profissionais liberais, comerciantes, senhor de terras garante voto e apoio a quem niio Ihe perturba os negécios. A Constituigao nao fala em escravos. Ora, éestranho dizer que é liberal e excluir um tergo da populacdo. Contudo, é a consciéneia possivel no principio do oitocentes. Demais, a Constituigo consigna outros privilé- ios: 0 Senado é vitalicio e o senador eleito em lista triplice pelo povo, para a escolha imperial. Nem to- dos sio elegiveis ou votantes: o sistema 6 indireto, a eleigao em dois graus. Para votar e ser votado, 0 ci- dadio deve ter um minimo de renda, sem a qual no participa do processo. Mesmo sem a exclusio do analfabeto, a nagdo em sua quase totalidade esté fora do jogo. Comparando-se a lei brasileira com outras, Francisco Iglésias Constituintes e Constituigdes Brasileiras tem-se que avangada, liberal, exprime uma cons- ciéncia relativa de democracia. E a expressao dos in- teresses dominantes. Proclama a liberdade, mas diz que a religito catélica é oficial. O direito & proprie- dade 6 assegurado na plenitude. Contra os entraves do trabalho, declara-o livre, proibindo as corpora- bes de oficio, como se fazia em toda a Europa, desde 4 Revolugio. Curioso 6 proibir a corporagio e manter © trabalho escravo. Exprime privilégios dos latifun- diétios, que organizaram o Estado em fungao de quanto queriam, Nao se procurem contrastes entre interesses rurais e urbanos, se a classe dominante € a ‘mesma. Nem entre letrados e fazendeiros, se deles que saiam e saem os estudantes para fora, ou saem agora, em maior nimero, para as Escolas de Direito de Sao Paulo e Olinda, criadas exatamente nesse pe- iodo. ‘A Carta devia ser completada, domo 0 foi, com ‘um Cédigo Criminal, em 1830; um Cédigo do Pro- cesso Criminal, em 1832; 0 Ato Adicional, em 1834; leis de reforma do Ato e interpretacdo do Cédigo do Processo, em 1840 e 1841; 0 Cédigo! Comercial, em 1850. Se muito assunto importante seria objeto de Ici, faltava um Cédigo Civil, necessidade s6 atendida em 1916, A Constituigo manteve-se por sessenta ¢ ‘A mais importante emenda foi o Ato Adicional, ‘em 1834, como fruto da maré liberal que se fortalece de 31 — a abdicacao, ja resultado dela — até 34, para atender ao reclamo de descentralizacao, cons- tante de toda a época imperial. E que a lei de 24 era eminentemente centralizadora, criava um complexo unitério. Foi amplo o debate entre a centralizagaoe a descentralizacao, como se verificava ja durante a Co- J6nia, alternando-se formas ora com uma ora com outra, para corregio de naturais excessos. O Ato Adicional procurou dar regalias as Provincias, esta- belecendo, para tanto, as Assembléias, Habilmente, porém, manteve a presidéncia das unidades pelo go- verno geral, com divisao de rendas em que a parte maior e essencial ficava com 0 agente do centro, de modo que as unidades ndo tinham recursos para obras signiticativas, Se D. Pedro I outorgou uma carta em 1824, ja reforma de 34 é votada pela Camara dos Deputados, sem a presenga de senadores. Essa participagao po- pular da certa legitimidade ao documento bisico, conferindo-Ihe cardter de Constituigao, em interpre- tagdo benévola, ‘Como o periodo regencial turbulento, a classe dominante teme pela sua sobrevivéncia. Cabanos no Pard, balaios no Maranhdo, sabinada na Bahia, far- rapos no Sul, todos sio denunciados como separa- tistas; a organizagio da justica e da policia pelo povo, ‘como 0 Cédigo do Proceso admite, 0 habeas-corpus, além de certa aca das Provincias, tudo alarma o conservador. Algumas dessas manifestagdes assu- ‘mem até tragos libertérios: no protesto e na ocupacio de terras, como nos cabanos e balaios, ha marcas que Iembram os rebeldes primitivos da anilise de Eric Hobsbawn. O grande historiador saberia compreen- dé-los. A classe dominante do pais, no entanto, no Francisco Iglésias Constituintes e Constituicdes Brasileiras 25 compreendeu 0 carter popular dos movimentos, ‘bem traduzido até em seus nomes plebeus, pensando 86 na repressio violenta. A qual se entregou de modo decidido e com éxito. Ganha entao consisténcia o sentido conservador ou reaciondrio — entiio chamado Regressista —, na articulagdo do Partido Conservador, atuante e no po- der em 1838. E 0 Regresso, que faz a lei da reforma do Ato Adicional em 40 e a de interpretagao do Cé- digo em 41. Arma-se, assim, 0 poder de sélida base ara exercitar-se plenamente — base e garantid da relativa paz do Segundo Reinado, de 1840 a 1889. Interessante questo a ser colocada é a do sis- tema parlamentarista de governo. Freqientemente 0 periodo 6 assim caracterizado. Pode-se duvidar da afirmativa: 0 parlamentarismo nao é estabelecido na Carta nem esté em sua natureza. Houve certa prética de gabinete, nfo ha dvida, & maneira britanica, so- bretudo no Segundo Reinado, mas pela fluidez do ‘quadro institucional. O imperador nao precisava obedecer ao indicado pelo voto, podendo chamar a ‘quem quisesse para formar gabinete. Consciente do cardter frégil do processo eleitoral, agiu de acordo com sua opinio, fazendo o revezamento dos parti- dos, Ble niio s6 reinaya, masjgovernaya de fato. O elemento objetivo a favor do| parlamentarismo € a criagdo do posto de presidente do Conselho de Mi- nistros, em 1847. Era o governo de gabinete. S6 uma reforma constitucional podia estabelecer o parlamen- tarismo ¢ ela nao foi feita nema pritica do regime foi integral. Seria 0 caso de dizer que houve um parla- Na discussdo do anteprojeto constitucional de 1834, 08, desentendimentos entre os ‘parlamentares levaram D. Pedro 1 a dissolver a Assembléia Constituinte rometer ao povo wma Constituigiio duplicadamente liberal Com a Repiiblica, ogoverno provisério teve de dar ao pais novo estatuto; seu autor, Rui Barbosa, era o entéo ‘ministro da Fazenda, 6 Francisco lelésias mentarismo atipico, especial, ou, com mais rigor, um arremedo do sistema realizado em plenitude na In slaterra — pats visto como exemplar na sua organi- zagio. documento de 24, expresso da época, nio pode ser acusado de retrégrado, se estatuia 0 consi- derado certo. No constitucionalismo do século, algu- ‘mas conquistas sociais foram sendo consagradas © cenriqueceram os capitulos de direitos nas leis de pou- cos Estados: na Franca em 1848, no México em 185; por exemplo, Nas leis brasileiras do Império consi naram-se as idéias possiveis, dado o sentido conser- vador da maioria dos politicos. O pais ainda nao amadurecera para mais. REPUBLICA: CONSTITUINTE DE 90 E CONSTITUICAO DE 91 A monarquia sofreu desgastes sérios, que termi- nam pela imposigao do regime republicano. A contar de 1870, com o fim da guerra do Paraguai, o militar passa a ter viva participacao politica, como nfo acon- tecia antes. Com messianismo e até petulancia, como €comum no grupo, agrava as tenses com a Coroa. A campanha abolicionista culmina com a aboligao total © sem pagamento aos senhores. Segmentos médios, maior populagio e mais vida urbana causam crises, como o distanciamento da Igreja em relacao ao trono, de 1872-1875, ou os continuos atritos entre governo ¢ Exército. Na verdade, 0 15 de novembro de 1889 é sobretudo um golpe militar, em que alguns oficiais se aproveitam de dificuldades politicas, Ha muito pregava-se a Repiblica, mas sem maior vigor. Na década de setenta organiza-se 0 par- tido com esse fim, de liberais exaltados descrentes da Francisco Iglésias Constituintes e Constituigées Brasileiras 29 monarquia e jovens seduzidos pelo sistema comum na América. Demais, a ordem era sempre acusada de centralismo, decorrente do sentido unitério do Im- pério. No fim dos anos oitenta, até o governo pensa na forma descentralizada, atendendo a reivindicagio federalista, varias vezes defendida, Entretanto, s6 0 novo regime a fard. Em 1890 o pais contaria com 14333915 habi- tantes. A sociedade é menos rigida, contando com setores médios expressivos. A economia tende a di- versificagdo: se a base incontestivel 60 café, gerador de riqueza e muitos problemas, a caminho da super- produco, hé sinais vitalizadores da industria, com superagio do artesanato e da manufatura pela mé- quina. O pafs integra-se mais na comunidade ameri- cana. A forma de governo é vista, ingenuamente, como sinal de modernizacio, progresso. Na verdade, ‘em 1890 o Brasil 6 bem diverso do que era em 1822. ‘Outra ordem juridica deve exprimir e orientar 0s no- vyos tempos. Finda a escravidao, alteram-se as rela- ‘gbes de trabalho. Outra ordem juridica deve traduzir Corientar Estado diverso — 0 que deve fazer a Cons- tituinte em 1890. ‘Com a Reptiblica, 0 governo provisorio, sob a chefia de Deodoro da Fonseca, teve de dar ao pais novo estatuto. Seu autor foi o jurista Rui Barbosa, ministro da Fazenda. No mesmo dia 15, 0 Decreto ‘9 1 instituiu o novo regime, com a forma de fede- ago, O decreto € engenhosamente redigido, de ‘modo a nfo criar atritos entre o poder central e o dos Estados. Fala na “legitima soberania” deles, mas tem 0 cuidado de deixar a forga piblica com 0 go- vernio da nagiio, ndo com o dos Estados. Decretos se- guintes definiam methor as areas e competéncias. Jé 3 de dezembr se grupo especial para o ante- projeto da Constituigdo: era de cinco membros, repu- blicanos histéricos: Saldanha Marinho, Américo Brasiliense, Rangel Pestana, Magalhies Castro e Santos Werneck. O trabalho foi entregue dia 24 de maio. O texto foi discutido pelo ministério, com 0 natural realce de Rui Barbosa. Ele dard ao docu- mento cardter federal e presidencialista. O governo provis6rio encampa o projeto, convocando a Consti tuinte dia 22 de junho, com a eleicdo dia 15 de setem- bro. A Assembiéia foi instalada dia 15 de novembro. Interessante lembrar 0 que era esse corpo de le- isladores. Havia 205 deputados e 63 senadores. A maior bancada, como em 1823, era a de Minas, com 37 representantes; Sao Paulo e Bahia tinham 22. A Constituicao serd assinada por 223 autoridades, com a falta de 45 nomes. A profissio de maior nimero € a dos advogados, seguidos pelos médicos e engenhei- 10s. Havia 40 militares, dado explicdvel pela presen- ca do grupo na deposico da monarquia. Gente de todos os feitios aparecia: conservadores ¢ liberais, exaltados, radicais, positivistas. Discutiu-se muito, mas 0 texto final esta préximo do projeto enviado pelo governo. A questo bisica é a do federalismo, ‘com posigdes a favor do predominio da Unio ou pre- dom{nio dos Estados, ou unionistas e federalistas. A corrente unionista, liderada por Rui Barbosa, foi a vitoriosa. Estava mais de acordo com a tradicao do Francisco Iglésias Constituintes e Constituigdes Brasileiras 31 Império, marcado pelo sentido unitério. ‘Se 0 modelo 6 norte-americano, jé foi observada pelos estudiosos a grande diferenca entre o caso dos Estados Unidos e o brasileiro. L4, o federalismo sain de unidades bem marcadas — as antigas col6nias i glesas eram 13, com seus costumes, recursos, leis proprias, que abdicam de muitas prerrogativas em favor do centro. No Brasil, d4-se o oposto: 0 Império unitério contaya com provincias de limitados direi- tos, havia um modelo eminentemente centralizador, ao qual as diferentes unidades se submetiam, as ve- zes violentadas no que tinham de caracteristico, em pais de dimensdes continentais. Sempre se pensou em descentralizagio, idéia presente na Constituinte de 1823. Parte-se de um complexo unitario para a des- centralizagiio, enquanto na Repiblica do Norte se partia da descentralizagao para a unidade, diferenca que marea com profundidade os dois casos, distin- guindo-os a partir da origem. ‘A atribuigao de tarefas e recursos acitrou os de- bates, sobretudo quanto a distribuigdo de rendas — quais as da Unido e as dos estados. Venceu formula que atentava antes para o poder central que o das unidades. Quanto ao direito de ter legislacdo pré- pria, este ndo foi negado, mas nao se admitiu que em matéria bésica — sistema legal, civil, criminal e co- mercial — os Estados legislassem: venceu a tese da legislago feita pelo Congresso Nacional. Como se sabe, nos Estados Unidos ha enormes diferengas nas leis de estado para estado — lembrem-se os exemplos famosos referentes A escravidao, ao divorcio ou os episédios da época da Lei Seca, proibitiva do Alcool. Ao lado do federalismo, outro tema fundamen- tal foi o do presidencialismo. Regime comum na Re- piblica, foi o adotado, também & maneira dos Esta- dos Unidos. Se alguns representantes falaram em de- fesa do parlamentarismo, a maioria era presidencia- lista. E a forma adotada foi a de um Executivo de- sempenhado pelo presidente, eleito pelo voto direto or um periodo de quatro anos. A lei nfo encerrou 0 debate entre os posstveis excessos da autoridade mé- xima: a idéia de presidencialismo on parlamenta- rismo continuou a ocupar as atengdes, com livros e projetos em uma e outra direcdo. O texto feito pelo povo foi promulgado a 24 de fevereiro de 1891. E mais simples que o imperial, com 99 artigos ape- Sua pritica nfo foi simples. Logo no prinefpio, a rentincia de Deodoro criou problema sobre a posse do vice, Floriano Peixoto. Este foi investido, mas teve posse questionada, julgando alguns que seria 0caso de nova eleigo. As lutas, como a da Armada e a fe- deralista, deram muito trabalho, custando a ser de- beladas. Outro assunto de discussées foi a interven- ‘sho do governo central nos estados. Essa foi feita al- gumas vezes, apesar de dificil, quase sempre por questdes politicas, no uso de praticas incorretas por parte de governos estaduais ou federal, Outro aspecto constitucional que dificultou mui- to, notadamente o econémico, foi o da matéria refe- Fente ao solo e subsolo. O Direito imperial consa- grava.a forma da Coldnia, com a separagdo das duas 2 Francisco Igiésias Constituintes e Constituicbes Brasileiras 0403.46. 9 coisas: 0 subsolo pertencia a nacio. A substituiciio do direito realengo pelo liberal criou enormes dificul- dades para a exploracio. Legislar sobre minas tor- nou-se dificil, quase impossivel: diversos projetos de Cédigo de minas foram apresentados ao Congresso, sem um acordo. Da luta participou ativamente Jo%o Pandié Cal6geras, conhecedor da matéria, como en- genheiro de minas e representante mineiro. Sobre 0 assunto escreveu a obra As minas do Brasil e sua le- gislacdo, em 3 volumes, publicada em 1904-1905, pa- recer apresentado a Camara dos Deputados. De fato, cra dificil legislar a respeito, por causa do artigo so- breo subsolo. federalismo, tio desejado, foi em parte distor- cido. Jé no governo de Campos Sales, acordos de ci- pula, constantes na vida nacional, estabeleciam 0 queo presidente chamou de “politica dos estados” ¢ € mais conhecido como “politica dos governadores”: 0 presidente da Repiiblica entende-se com os dos esta- dos; a autoridade federal ap6ia as dos estados, no- ‘meando os funcionérios federais ante a indicagao ou aprovacio dos estados; estes apdiam 0 governo cen- tral, através do voto de suas bancadas no Senado e na Camara. O resultado é a conciliago pelo alto, sem audiéncia do povo, fato comum na pritica de entio, com leis eleitorais impréprias e com a fraude. Era minima a participacao na vida piblica, com a exclu- sto do analfabeto e precariedade eleitoral. Nessa pratica viciada, estabelecem-se graves di- ferencas entre as unidades federativas. Alguns esta- dos se superpéem a outros. A disparidade provém no s6 da populagiio e da riqueza — casos de Minas ¢ ‘Sao Paulo —, mas de outros fatores. Com essa estru- tura, hé distoreao do federalismo, pois as unidades sto muito diferentes e recebem tratamento discrimi- natério, em crescente agravamento das disparida- des. Mais ainda: a legislacio favorece algumas uni- dades em detrimento de outras. Exemplifique-se com a politica monetaria, ou tarifas de importacao. Dita- das pelo centro, algumas taxas favorecem a lavoura € © comércio do café; por causa dessa proteco ha va- riagdes cambiais; 0 pafs todo paga pelo fato, enquan- to areas reduzidas sao beneficiadas por elas. O de- bate é acirrado: Sao Paulo diz. que carrega 0 Nordes- te, enquanto este se queixa de ter vida dificultada por medidas favordveis a So Paulo. As eleigdes com as priticas falsificadoras dio a presidéncia a paulistas e mineiros; as bancadas ma- cigas aprovam as fraudes, das quais sio beneficié- rias, com a vitéria avassaladora do situacionismo, A politica ¢ acusada das piores priticas, por todos re- conhecida, mas nao se toma providéncia para a mu- dana. Havia o tabu de nao permitir a reforma cons: titueional, reclamada por politicos ¢ publicistas. O texto de 91 seria intangivel. As principais figuras nao a admitiam. Entretanto, a critica e a demdincia eram constantes. Elas atingem o méximo na década de vinte. Sur- ‘ge entio importante corrente constitufda por milita- res de patente média. E 0 tenentismo, de enorme si nificado. A guerra de 14, 0 surgimento da politica ideol6gica, com o comunismo na Réssia e a pregacio 4 Francisco Iglésias Constituintes e Constituicdes Brasileiras 35 do fascismo na Itélia e na Alemanha, crises politicas ‘ econdmicas — tudo contribui para sacudir a atmos- fera moma. Além da campanha contra a Constitui ‘¢do por parte de politicos, havia os estudos de publi cistas: caso de Alberto Torres, por exemplo, politico © pregador doutrinério, em O problema nacional brasileiro e A organizacdo nacional, publicados em 1914. A temética seria retomada por seu seguidor Oliveira Vianna, que tanto insistiu na idéia, como se ¥@, entre muitos titulos, em O idealismo da Consti- tuigdo, de 1927. Eo ano de 22, centenério da independéncia, ‘Ano do movimento modernista, com a pregagio da necessidade renovadora; em que a disputa ideologica se acentua, com a criagao do Partido Comunista e do Centro Dom Vital, presengas da esquerda e da di- reita. O liberalismo é visto como pega de museu, ne- ado e renegado, no s6 no Brasil como no mundo. (Os militares aparecem no cendrio com 0 episédio dos dezoito do forte de Copacabana, em 22; em 23 é a luta no Rio Grande do Sul; em 24 6 a revolugdo em Sao Paulo. Dos remanescentes de uns ¢ outros surge ‘a coluna Prestes — de 24 a 27 percorre o pais, em milhares de quilémetros na pregacdo da necessidade de rever a ordem politica. Abafada, prepara o cami- ‘ho para o movimento de 30, em nova campanha su- ‘cess6ria, com o choque das candidaturas de Gettilio Vargas ¢ Tilio Prestes. Os tenentes, figuras miticas criadas em parte pela imprensa, em grande nimero se compdem com os politicos que haviam combatido ¢ fortalecem a campanha. Se Vargas € dado como vencido, a Alianga Liberal apela para “‘o prélio das armas” e consegue vit6ria: Getilio chega ao Rio de Janeiro e & aclamado chefe do Governo Provis6rio. E ofim de uma época, da Primeira Reptblica. ‘A campanha de revisdio constitucional, to com- batida e obstada, conhece éxito no govern Bernar- des. Por certo ele foi movido, entre outras razdes, pelo desejo de intervir no Rio Grande do Sul, que combatera seu nome e sua eleigio. A propésito de alterar o texto bisico, para facilitar o afastamento do borgismo, é feito o revisionismo do qual resulta a Emenda Constitucional de 1926, a «nica da lei de 1891. Era dificil qualquer alteragio. senador Pinheiro Machado nao a admitia, Rui Barbosa preconizava emendas, defendendo suas teses, sobretudo na campanha do civilismo. Jurista, atém-se a aspectos formais, sem chegar a considera- g0es mais profundas, de natureza politica, sociolé- gica ou econdmica. Sua famosa e lendaria cultura no ultrapassava o Direito, nfo chegando a outras ciéncias sociais, de modo que nao tinha muito sen- tido da realidade. Um governo sempre em estado de sitio, como era o de Bernardes, precisava de mais garantia. Em 25 € apresentado o projeto de revisio. Continha 76 emendas: por conveniéncia, foram retiradas 43. Reti- radas depois mais 26, ficou reduzido a sete. A trami- tagdo foi custosa. Aprovadas cinco emendas, foram sancionadas em 1926, incorporando-se ao texto cons- titucional. Entre elas, a mais importante tratara da intervengo nos Estados. Assim, a autoridade do pre- 36 Francisco Iglésias Constituintes e Constituigdes Brasileiras 37 sidente cresce muito, é fortalecida. ‘Também importante ¢a definigao da competén- cia federal para legislar sobre o trabalho. A questo, crescente nos primeiros anos do século, era sempre ‘mal colocada, pelos patrOes ou operirios. Estes ten- diam ao radicalismo, decorréncia da pregagao anar- quista, enquanto aqueles, por insensibilidade, ti- nham intransigéncia na defesa da ordem como es- tava, Ora, essa legislagio avangara na Europa, en- ‘quanto permanecia emperrada aqui. O Tratado de Versalhes, de 1919, do qual o Brasil era signatério, recomendava atengdes especiais ao problema. Ber- nardes, conservador, tomou providéncias excessiva- mente timidas. O que a reforma alterou foi pouco. Demais, nao teve eficdcia, pois quatro anos depois a Constituig&o perde validade pelo movimento de 30. Entio é que a questo operdria passa a ser de fato considerada. ‘Outro objeto de emenda foi relativo ao habeas corpus, que & mais reduzido ainda, diminuindo a forga do Judiciério e fortalecendo o Executivo. Cui- dou-se da imigrago, com alguns limites a entrada de estrangeiros. A mineracao, dependente do direito de propriedade do solo e subsolo, teve certo encaminha- ‘mento, limitando-se a garantia do proprietario do solo. O principal da emenda, no entanto, € que au- mentou mais ainda os poderes do presidente, levando ‘um observador da vida nacional durante 25 anos — c6nsul e adido comercial da legagao britinica Ernest Hambloch — a escrever curioso livro editado em 1936, que the valeu muitos dissabores, sob 0 suges- tivo titulo de His Majesty the President of Brazil. De fato, o presidencialismo atingiria aqui uma forma exacerbada. © documento de 1891 vivera quase quarenta anos, bem menos do que a Carta imperial de 1824. Constituintes e Constituicées Brasileiras 39 Universe cucse 6° CONSTITUINTE DE 33 E CONSTITUICAO DE 34 O crescente desgaste da politica republicana le- vava a criticas, censuras e protestos até armados. De- mais, entre 1889 e 1930 0 quadro mundial se modifi- cara. A Primeira Guerra alterou 0 panorama: a re- volucdo de 17 na Russia estabelecia o primeiro go- vyerno comunista, a Alemanha sofria pesada derrota, conduzida a crise econdmica, financeira, social. Or- ganiza-se com a Repiblica de Weimar, com uma Constituigdo que é o eco de outro Direito e das mu- dangas sociais e econémicas, em rara experiéncia de- ‘mocratica no pais, abafada pelo nacional-socialismo que impée 0 nazismo. A Itélia j4 é fascista desde 1922, em nova experiéncia politica, com a singulari- dade do autoritarismo apelando para as massas (nota que distingue o fascismo dos movimentos reaciond- rios anteriores). i Mais movimentos se verificam, com diferente éxito, como na Hungria, Poldnia, Austria, Rumania, em Portugal, na segunda metade dos anos trinta na Espanha. Era a chamada maré direitista, que se se gue a paz de 1919, com repercussies na América La. tina. A ideologia liberal é dada como reliquia hist6- rica, sem mais perspectivas. Mesmo um economista inglés como Keynes, sem compromissos com a direita ou com a esquerda, péde escrever em 1926 obra com titulo The end of laissez faire. Os Estados Unidos tém 0 impacto do governo Roosevelt e seu programa do New Deal. O imperialismo inglés conhece os pri- meiros abalos, e, habilmente conduzido, faz. diverso relacionamento com as col6nias. A Europa, até entio proeminente, vé novas forgas que aos poucos quase a abafam — os Estados Unidos e a Unido Soviética, confirmando certo declinio ante a ascensio dos Esta- dos periféricos —, o que ser4 realidade viva depois de 1945. A guerra anterior, em 1918, encerra uma fase da Hist6ria, coroando o século XIX e dando inicio ao atual, marcado por outros tragos. Brasil nio podia ficar imune a tais transfor- magées. A disputa ideol6gica é viva desde 0 comego dos anos vinte. A direita é de atuagdo crescente, com a Agdo Integralista, criada em 32, aglutinando conser- vadores radicais, setores da Igreja e das Forgas Ar- madas. O movimento de 30 é justamente visto como Ponto de referéncia no processo, inaugurando a Se- gunda Repablica. Washington Luis tem de afastar-se da presidéncia e uma Junta ocupa o poder durante alguns dias, passando-a a Getiilio Vargas em 3 de outubro. 40 Francisco Iglésias Constituintes ¢ Constituicées Brasileiras a Organiza-se 0 Governo Provis6rio, pelo Decreto n? 19.398, espécie de lei basica até a assinatura da Constituigdio em 34. Redigido por Levi Carneiro, tem papel equivalente ao Decreto n® 1 da Repiblica, re- digido por Rui Barbosa. Desaparece o Legislativo, no so reconhecidas autoridades de outros poderes. ‘Se o mais no ¢ dissolvido ou negado, a pritica dis- criciondria atua com as naturais deformagdes. O go- verno garante a propriedade, reconhece os compro: missos externos. Getilio ¢ firme na condugao da vida piiblica, prenunciando o rumo que logo adotard. No- 1meia para os estados gente de sua confianga. Cria 0 Ministério do Trabalho, pasta decisiva na sua carrei- ra, O excesso de personalismo leva-o a ter pouca con- sideragdo pelo que nao contribua para aumento de sua autoridade. Reclamava-se a constitucionalizagdo por uma Assembléia livremente eleita. Ela tardava, € motivo de queixas e criticas. Getilio tem nos tenentes a base do apoio, em um programa de pregagdo radical con- tra a velha ordem oligérquica. Daf o protesto dos po- Iiticos, sempre temerosos de tendéncias revolucioné- rias, para eles visiveis no Clube 3 de Outubro. O pre- sidente tem mA vontade quanto & reconducao 2 or- dem normal, mas prepara um cédigo eleitoral novo, compreendendo mulheres e maiores de 18 anos, bem ‘como 0 voto secreto. Tem de convocar a eleigao de Constituinte, dia 14 de maio de 1932, fixando-se para 3 de maio seguinte — prazo que pareceu excessivo. Seria ainda adiado para o fim do ano, por causa do movimento paulista. O mesmo decreto estabeleceu Comissio Especial para 0 anteprojeto da Consti- tuigto. O jogo é perturbado pela revolugiio de Si Paulo em 32, que se chamou constitucionalista. Sao Paulo era o estado de mais queixas da ditadura, pela no- meagio de sucessivos interventores niio apoiados pe- los paulistas. O movimento resultou de ressentimen- tos regionais e do real desinteresse do presidente pela normalizagao politica. Visto hoje como contestador da pretensa revolugao, de cardter saudosista, seria 0 protesto das velhas oligarquias desalojadas do poder sobretudo por jovens oficiais, setores ascendentes da sociedade contra o tradicionalismo, O episédio € ex- plicdvel pelas ambigiidades do governo. Ocerto € que diante dele Getilio nio péde mais recuar e trata de compor-se com os politicos. Seu parceiro predileto de didlogo até ai eram os tenentes; deixa-os aos poucos e passa para os politicos, a cujo grupo, afinal, pertencia, com eles atuando como de- Putado, ministro, presidente do Rio Grande do Sul. Abandonou os jovens oficiais, mas deles recolheu a bandeira de reivindicagdes, que fara suas, principal- mente a contar de 37, realizando-as. Afinal, nfo ul- ‘trapassam o nacionalismo moderado e a obtencdo de direitos sociais jé consagrados em outros centros e s6 cemperrados aqui por certa cegueira conservadora ou liberal, A comissio para o projeto constitucional era de civis e militares, que haviam atuado em 30, com os nomes de Afrantio de Melo Franco, o presidente, An- t6nio Carlos, Joao Mangabeira, Assis Brasil, Carlos 2 Francisco Iglésias | Constituintes e Constituigdes Brasileiras a Maximiliano, Prudente de Moraes Filho, Oswaldo Aranha, Agenor de Roure, Artur Ribeiro, José Amé- rico de Almeida, Oliveira Vianna, Temistocles Caval- canti, general Goes Monteiro, depois Castro Nunes e Carneiro da Cunha. Foi pouco alterada durante as 51 sessbes que realizou. A comissio partia do texto de 91, procurando considerar o que 0 novo Direito cria- va, perante diversa ordem social e econdmica, além de outras Constituigdes, entre as quais se distinguiam, aalemd de 1919 a espanhola de 1931. ‘A Comissio optou pela Camara tinicay acabando com o Senado e instituindo um Consetho Supremo, bastante estranho na composicZo (lembrava o projeto de Constituigéo de Alberto Torres, em seu livro A organizagio nacional, de 1914, quase extravagante). ‘Tratou da representagio classista, cara a Getilio, mas a idéia ndo foi aprovada. Discutiu-se se 0 presi- dente devia ser eleito direta ou indiretamente, op- tando-se pela forma indireta. A comissio foi feliz quanto ao mandato de seguranga. Depois, tratou de matérias que antes nfo interessavam aos legisladores © so agora importantes pelas mudangas sociais econmicas. Sugeriu o Conselho de Seguranga Na- cional e a Justiga Eleitoral. Ampliou-se o capitulo das garantias e direitos, com o trato de problemas como os da familia, educacdo, sade. Ficou como o projeto do Itamarati. A Constituinte reie-se dia 15 de novembro de 1933, Contava com a originalidade de ter 40 depu- tados classistas, além dos 214 eleitos pela forma co- mum. Eram: empregados, 18; empregadores, 17; profissdes liberais, 3; funciondrios piblicos, 2. A nova forma é um dos sinais do reconhecimento de outra ordem social e econdmica, como o é também a incluso de capitulos ou artigos sobre o assunto, di- reitos dos trabalhadores, assisténcia social, garantias antes negadas — o proletariado era fragilimo em 1891, sem organizagdo e consciéneia —, ou a inclu- sto dos Conselhos Técnicos, reconhecimento da ne- cessidade de racionalizagao do Estado. A novidade ndo passou sem contestagdo, que via ai a marca do corporativismo defendido e praticado pelo fascismo; outros, mais agudamente, viam a ingeréncia do Exe- cutivo no Legislative, o governo querendo fazer-se mais representado, com a manipulacio das eleicdes no setor classista, mais facil que na eleigio geral. O Ministério do Trabalho fora uma das primeiras cria- des do Governo Provisorio, ainda em 30; destaque- se também ali de sindicalizagio, de 19 de margo de 1931. O novo Cédigo Eleitoral, de 24 de fevereiro de 1932, consigna a representagio classista, para horror dos politicos tradicionais e alegria dos tenentes ¢ ra- dicais do Clube 3 de outubro. ‘Vé-se ai uma espécie de bancada profissional, 0 lado de bancada politica. Contra ela se insurgiram forgas da velha ordem. A eleicao desses deputados é feita depois da geral, em julho de 1933. $6 os sindi- catos organizados e reconhecidos pelo Ministério do Trabalho teriam direito a voto. Crescem entio, para poder participar do processo. Fere-se o debate so- bre unidade ou pluralidade sindical, Empenham-se nele sobretudo Alceu Amoroso Lima, eseritor e If “ Francisco Iglésias\| Constituintes e Constituigdes Brasileiras 45 der catélico, favordvel & pluralidade (tese também dos empresérios paulistas), e Oliveira Vianna, socié- logo, assessor de Gettilio, um dos responsdveis pela legislagao trabalhista, favoravel & unidade. A dele- gagio classista sera feita sobretudo pelo agenci ‘mento de Antunes Maciel e Salgado Filho, ministros da Justiga e do Trabatho. A cleigto da bancada dos empregados é de 20 de Julho, a dos empregadores de 25. Até 20 de junho, hhavia 346 sindicatos profissionais dos empregados: 62 do Distrito Federal, 48 do Rio Grande do Sul, 47 do Rio de Janeiro, 44 de Sao Paulo. Estranhavel a distribuigdo, uma vez que Sao Paulo era o estado de mais indéstria. Acontece, contudo, que outras éreas foram mais trabalhadas com esse fim: lembre-se que oNorte eo Nordeste, com estados frageis economica- mente, eram mais ligados ao tenentismo, dai terem mais presenca. Outro dado estranho € que dos 346 reconhecidos, indtistria e afins contavam com 152, enquanto comércio e transportes tém 180 e a agricul- tura apenas trés. Além das disparidades entre os se- tores, lembre-se que na industria o principal ramo é © téxtil, com 29 unidades, enquanto a construgto tem 32a de alimentos, 37. ‘A bancada de mais atuacdo sera a dos emprega- dores. Alguns dos trabalhadores eleitos serio coop- tados pelos empregadores ou outros, poucos fazendo oposicdo firme ao governo. Empenham-se, sobre- tudo, pela manutengdo das conquistas feitas, assis- tencialistas ou previdencirias. Nenhuma de suas fi- guras se distinguiu, de modo que nao ficou um s6 nome a projetar-se nem mesmo na época. A corrente ‘mais organizada e organizadora — a dos comunistas — estava na clandestinidade. Nao havia consciéncia Icida por parte dos excluidos e proletariado em ge- ral, sem falar no recrutamento, quase sempre de gen- te mais dada @ conciliacdo ou mesmo a manipulacio. Naescolha dos deputados empregadores, havia, reconhecidos pelo ministério, 74 delegados-eleitores ito Federal, 20 de Sao Paulo, 11 de Mi- io Grande do Sul, 5 do Rio de Janeiro, 1 do Parand e 1 de Sergipe. O resultado foi: 11 de indiistria e afins, 4 do comércio e transporte e 2 da agricultura. Por unidade da Federagio, 6 do Distrito Federal, 4 de Sao Paulo, 3 de Minas e Rio Grande do Sul e 1 de Pernambuco — bem diversa da bancada dos empregados, como setor de producio e drea geo- grafica. Figuravam af nomes conhecidos e que serio notabilizados depois, como Roberto Simonsen, Ho- récio Lafer, Alexandre Siciliano, Mario de Andrade Ramos, Euvaldo Lodi (os trés primeiros de Sao Paulo € 08 outros dois do Distrito Federal e Minas). Provi- nham de sindicatos formados com vistas 4 Consti- tuinte; entre eles, sete engenheiros, dois médicos, um quimico e dois advogados. Era a relevancia conce- dida & técnica ou ao tecnicismo, em detrimento do bacharel classico. ‘Atuaram sobretudo na colocagao do problema da importancia do governo na vida econdmica, em defesa do intervencionismo, tese ainda longe da una- nimidade. Empenhavam-se pelo federalismo, alguns deles de modo veemente, ligados que eram a politica Francisco Iglésias) Constituintes e Constituigdes Brasileiras dominante em seus estados — caso dos paulistas, os mais atuantes, formando com os demais deputados de Sto Paulo. Getiliopretendia, com a representagio classista, estabelecer certo equilibrio com a represen tagdo politica, dominada por Minas e Séo Paulo. O artificio nem sempre deu certo, pois os eleitos, se eram delegados de suas areas profissionais, também cram das reas geograficas, como é dbvio. Os em- pregadores empenharam-se na defesa da acdo do Es- tado e da racionalizagio de suas atividades. Pode-se yer na atuagdo que tiveram o primeiro momento do que se daré durante o Estado Novo, sobretudo em 4, com a célebre controvérsia sobre 0 desenvolvi- ‘mento econémico, em que se distinguirdo, na defesa, Roberto Simonsen, no lado liberal, Eugénio Gudin, Na Constituinte, 0s empregadores chegaram ‘mesmo a posigdes radicais: Alexandre Siciliano € pe- la nacionalizagio das riquezas do solo e subsolo (que conduziré aos Cédigos de Minas e Aguas, velha aspi- ragao obstada por dispositivos da Constitui¢ao de 91 © agora possivel). Outra proposta extremada é a de Mirio de Andrade Ramos, sobre nacionalizagio das companhias de seguro, ou a de Roberto Simonsen, sobre nacionalizago de bancos de dep6sito. Aceita ainda a bancada empregadora a legislago social de carter previdencidrio ou tendo em vista a racionali- zagiio da produgto (superava-se a idéia de previdén- cia como simples assistencialismo ou favor, cari- dade). Chegava-se & defesa de tal legislacio entregue as unidades, ndo ao governo federal, pela necessi- dade de ter em conta as caracterfsticas regionais. a Como se vé, a novidade classista deu o que falar alguns resultados. A matéria j4 foi estudada e me- rece ainda atengdes, para aprofundamento. Entre os textos que enriquecem a historiografia do assunto, distingue-se o de Angela Maria de Castro Gomes — “A representacio de classes na Constituinte de 34”, no livro por ela coordenado Regionalismo e centrali- zagio politica, ampla e merit6ria pesquisa do CPDOC editada em 1980, que foi em parte a fonte aqui usada para estudo desse aspecto importante e ainda pouco conhecido. Voltando & Constituinte: AntOnio Carlos foi es- colhido presidente. A comissdo para o projeto era de 26 membros — um de cada unidade federativa, 05 do Distrito Federal e do Acre e quatro classistas. A pre- sidéncia coube a Carlos Maximiliano, que partici- pata do projeto remetido pelo governo. Os fluminen- ses Levi Carneiro e Raul Fernandes eram o vice-pre- sidente e o relator geral. O lider da Assembléia foi o ministro Oswaldo Aranha (participava como minis- tro) e depois Medeiros Neto. O projeto oficial foi a base das discussdes. O centralismo do governo, jé existente em 91, & acentuado pela emenda de 26, como se viu. O novo projeto é ainda mais centralizador. No plendrio, mui- to discutido, saiu atenuado. O debate garante a re- presentatividade dos estados pela populacio, sem ad- mitir limites. O Conselho Supremo sugerido no pro- jeto nao vinga, prevalecendo o bicameralismo, man- tido 0 Senado. Apés longa discussio, subsiste a elei- cao direta do presidente da Repiiblica. A Assembiéia Francisco Iglés Constituintes e Consttuigdes Brasileiras 49 admite casamento indissolivel e religioso, de acordo com a Liga Eleitoral Catélica, empenhada nesses prineipios, Mais novidade hé no referente 4 ordem econdmiea e social, resultado do processo dos iltimos decénios no mundo ¢ no pais, com a indiistria e 0 crescimento urbano. O trabalhador é objeto de maio- res atengdes pela primeira vez. Também sio tratados novos problemas, como familia, educagio, funcio- nalismo, seguranga nacional, justiga eleitoral, A dis- cussao exigiu algum tempo, até a assinatura do docu- ‘mento, no dia 16 de julho de 1934. O novo texto € bastante inovador relativamente a0 de 91. E bem mais minucioso, como se vé em sim- ples confronto: a Constituigio de 91 tinha 91 artigos, enquanto a de 34 tem 187. Feita de modo severo, reflete as novas correntes do Direito — obras de ju- ristas e Constituigdes que se seguem ao fim da Pri- meira Guerra, ecos da politica ideolégica em cresci- mento. No Brasil foi intensa a influéncia fascista, como se vé de modo exaltado nos integralistas, Mes- mo politicos pretensamente inovadores e represen- tantes da forma tradicional nao ficam imunes a certa seduciio da direita; o mesmo se observa nos publicis- tas, em perfodo de muitas edigdes de natureza histo- riogrifica, sociolégica, juridica, politica. Em pais sem sélida tradicdo intelectual, com a mistura e em- baralhamento de idéias de pouca clareza ou mesmo equivocadas, o pensamento costuma ser fluido e até contraditério. Vive-se outro tempo: sindicatos e associagdes profissionais so reconhecidos (art. 120), assegurada ‘a completa autonomia dos sindicatos. A Iei garante 0 salério mfnimo, trabalho nao superior a oito horas, proibicdo de trabalho a menores de 14 anos, repouso hebdomadario, férias anuais e outros direitos, antes no reconhecidos. O sentido inovador da administragao est pre~ sente nos recomendados Conselhos Técnicos, de atuagao junto aos ministérios e ao Legislative — ob- Jeto de uma seco no Capitulo VI, sobre os érgaos de ‘cooperacdo nas atividades governamentais. Reflete- se ai a 4nsia de aprimorar os servigos piblicos, com as praticas administrativas decorrentes de nova so- ciedade e de ciéncias sociais renovadoras, impondo a racionalizagdo. Surgem as novas escolas, como a de Filosofia e a de Ciéncias Econémicas, com outra mentalidade e mais dilatados horizontes. Tal desejo de superar a velha rotina comeca no Brasil nos anos trinta, acentuando-se no Estado Novo e em crescente desenvolvimento até nossos dias. Outro assunto é a Seguranga Nacional, objeto de cuidados especiais nos debates e no documento, que logo deixa de referir-se & guerra para ser eminen- temente politica repressora, como se dé no ano se- guinte em decorréncia do movimento comunista frus- trado e do reconhecimento do autoritarismo. A acen- tuagao do assunto seguranga nacional sera ainda for- talecida com o Decreto legislativo n? 6, de 18 de de- zembro de 1935. Os artigos 75 ¢ 78, sobre estado de perigosa é a primeira: “A Camara dos Deputados, com a colaboragao do Senado federal, podera auto- Francisco Iglésias rizar o presidente da Repiblica a declarar a comogio intestina grave, com finalidades subversivas das ins- tituigdes politicas e sociais, equiparada ao estado de guerra, em qualquer parte do territ6rio nacional. Perigosa e mal redigida. As duas outras emendas tra- tam das penas aos militares ou funciondrios péiblicos pela"*participacao de movimento subversivo das ins- tituigdes politicas e sociais”. Nova linguagem co- mega, ingénua, priméria, ameagadora, de uso cres- cente e sempre suspeita. © Congresso, por falta de percepgio da reali- dade social, vota medidas repressivas e toma outras atitudes, por manobras de Getilio, presidente eleito de acordo com a nova lei. Mais objetivo e sagaz. que os parlamentares, explora o perigo vermelho por causa da intentona comunista (¢ assim sempre cha- mada), em 35, animado também com certeza pelo clima internacional fayordvel 4 aventura reaciondria e pelo crescimento da Acio Integralista. O golpe de direita que leva ao Estado Novo est a caminho os politicos ditos liberais nada percebem. A Constitui- io de 34 vivera pouco mais de trés anos. CONSTITUICAO DE 37 A trajet6ria do Brasil na década de trinta ins- creve-se bem na do mundo ocidental. Se a Europa vi- veu e vive a experiéncia do fascismo, que obtém ter- reno e vit6rias no apés-guerra, em decorréncia de ressentimentos, crises econdmicas e financeiras, de- semprego, temor do comunismo e derrocada da idéia liberal, a América ndo fica alheia ao surto e tem seus arremedos com movimentos antiliberais, uso da tea- tralidade na politica, como também da violéncia e do terror. Sua maior expresso no Brasil foi a Ago Inte- gralista, que cresce de 32 a 37. Um presidente fasci- nado pelo poder e disposto a conservé-lo a qualquer custo manobra Congresso timido, obtendo aprovagaio Para quanto precisa. Explora a pregacdo esquerdista da Atianga Nacional Libertadora e a aventura comu- nista em 35, a desenvoltura direitista, animando-a, sem recuar ante a mentira, com a falsificactio do Plano Cohen — subversio para implantar o comu- 2 Francisco Iglésias Constituintes e Constituigdes Brasileiras 3 nismo —, nascido das antecdmaras militares, sempre prontas a servir com o espantalho da subversiio. Leis ¢ medidas acauteladoras da suposta ordem se suce- dem, com Tribunais de excecdo, aberragées da nor- ma juridica. Como 6 mandato de Getilio termina em 38, pro- jeta-se a campanha sucessoria, com duas. candida- turas — a.apresentada pelo oficialismo, com José Américo de Almeida, e a dita de oposigdo, com Ar- mando de Sales Oliveira. Os integralistas também entram em cena, com a do chefe Plinio Salgado. A trama é bem articulada pelo presidente, com vistas a seu objetivo continuista. E vem o golpe de 10 de no- vembro de 37. Articulado pelo Catete, com apoio de seus ministros e governadores, de politicos e quartéis, parte ponderdvel das Forgas Armadas e da Igreja, 0 golpe tem palidos protestos e coloca a nacio entre muitas outras que negam a representagto do povo em instituigdes tidas como obsoletas, no ritmo dos governos autoritérios. ‘Uma Constituigao ¢ outorgada, instituindo o Es- tado Novo — nome do regime portugués que vem da chamada Revolugio Nacional de 1926, passa pela chegada ao poder de Salazar e é de vez estabelecido pela Repiblica Unitaria e Corporativa em 33. A nova carta brasileira é feita pelo ministro Francisco Campos, politico mineiro de conhecido corte reacio- nario. A maneira de alguns textos europeus, corpora tivistas, com Executive e um pretenso Legislativo, anuncia uma nova ordem, de acordo com certos prin- cfpios vigentes no mundo direitista, nunca submeti- Getilio Vargas A Constitui¢do de 37 — conhecida como “polaca”, dadas ‘suas semelhancas com a adotada pelos fascistas poloneses —institui o Estado Novo, 54 Francisco Iglési Constituintes e Constituigdes Brasileiras 55 dos a qualquer aprovagdo, Para que, se esta é vista como coisa do passado, a ser substituida por um re- gime que apela para a forga, a mistica de nagdo pre- destinada ou de raga superior, conduzida por um ho- mem com caracteristicas de dominador que deve ser acatado como chefe, condutor de um Estado ao qual tudo deve servir? F uma espécie de reconhecimento exeessivo do Estado e seu chefe. A carta ficou conhe- cida como “polaca”, por semelhancas com a adotada pelos poloneses em 1926, pelo fascismo do general Pilsudski. A Constituigdo de 37 € feita com boa técnica ju- ridica e deve ser julgada pelo povo em um plebiscito. Assim diz o artigo 187, jamais cumprido. No preaim- bulo, escreve: “Atendendo as legitimas aspiragdes do ovo brasileiro a paz politica e social, profundamente perturbada por conhecidos fatores de desordem, re- sultantes da erescente agravaco dos dissidios parti: dérios que uma notéria propaganda demagégica pro- cura desnaturar em luta de classes, e da extremagao de conflitos ideolégicos, tendentes, pelo seu desen- volvimento natural, a resolver-se em termos de vio- Iéncia, colocando a nagio sob a funesta iminéncia de guerra civil...” E fala na infiltragdo comunista, Se aprovada a constituicao em plebiscito, nova estrutura de governo e de representago deverd ser criada, diversa da antiga forma de Senado e Camara, A convocagiio popular para esse ato, entretanto, nunca foi feita, e o regime, em conseaiiéncia, nao funcionou. O plebiscito sera dispensado pelo governo ‘com a Emenda Constitucional n? 9, de 28 de feve- reiro de 1945, que o substituira pelo Parlamento que ent&o se convoca, em sentido diverso do Legislativo pensado em 37. Assim, a Carta ndo teve eficdcia. Ge- tilio conseguiu organizar o poder & sua maneira, pre- valecendo-se ainda do dificil momento internacional, ‘com a certeza de nova guerra. Interferira nos Esta- dos, nomeando interventores. De fato, 37 destréi a federaglio — embora o artigo 3° da Constituigao afir- me que “‘o Brasil é um Estado federal” —, acaba com a autonomia dos poderes, submete de vez os sin- dicatos, fecha todos os partidos. Estabelece um Le- gislativo muito especial, nunca realizado. ‘Nao vem ao caso tratar dessa Constituigdo, pois ela nao decorre de uma Constituinte. E uma carta imposta, sem a minima participagao popular. De- mais, a ordem que propde ndo chega a ser instalada. O que existe é uma pratica politica, o grupo dirigente sobrepondo-se & nagdo, com apoio militar, setores fi- nanceiros expressivos chamados a colaborar, parte da Igreja, a mornidao dos segmentos sociais médios © anunciado apoio do trabalhador, usado pelo presi- dente para dar ilustio de base. Getilio, desde 0 co- mego, ainda no governo provisorio, usava a massa para serviclo. Fizera o Ministério do Trabalho com esse fim, nio de acordo com os principios socialistas, mas com o Iema positivista adotado no Rio Grande do Sul por Filio de Castilhos, pretendendo incorpo- rar o proletariado A sociedade, como didiva do grupo no poder. Nao reconhecia ao trabalhador o direito de participar pela conquista de posigdes, mas pela tu- tela. Gettilio trouxe do Rio Grande do Sul uma pré- 56 Francisco Iglesias} Constituintes © Constituicdes Brasileiras tica politica desconhecida no resto do pafs, impondo- anoplano federal. : Concede ao trabathador os direitos basicos, como dadiva — salério minimo, férias e aposentadoria, li- eneas, legisla previdencfria, Negathe contudo iniciativa, Com a unidade sindical, usa apa- fn de andes o submete-o com a Conaiasto das Leis do Trabalho, de 1943. Esta foi feita em parte por Oliveira Vianna, inspirando-se no corporativismo italiano da Carta del Lavoro. O chefe tem ai a base que o sustentard no futuro em novas imagens, como © pai dos pobres, 0 defensor da nacionalidade, o di- tador que volta ungido pelo voto em 50 ese afirma no governo legftimo de 50 a 54, quando termina o de- sempenho espetacularmente, pelo suicidio. Trinta anos depois da morte ainda esta presente, como se sabe. ‘Com um lado repressor, autoritério, usando as armas bésicas da direita, com o culto da personali- dade e suas mistficagdes, 0 governo segue um pro- grama de reforma da maquina administrativa, dan- do-the a racionalidade modernizadora, j4 intentada antes. Tem objetivo programa econdmico, com obras piiblicas que se impdem e consagram o estabeleci- mento da indiistria pesada, O simbolo desse aspecto € a siderurgia, em Volta Redonda, Obtém-se o re- curso indispensfivel em bancos e organismos estran- geiros, notadamente nos Estados Unidos, depois de curioso jogo de negagas com 0 capital alemiio, dis- posto a aplicagdes aqui para obter o apoio contra os Aliados. Através de einpresas orientadas para a eco- nomia, marca uma fase na historia econémica, com o desenvolvimento conduzido pelo Estado, que assume © papel que a iniciativa privada ndo pode desempe- nhar, No plano internacional, Gettlio teve atragdo pela Alemanha e Itélia, parecia ser-lhes favordvel, como deixava antever em atitudes e pronunciamen- tos ambfguos. Quando os Estados Unidos se envol- vem no conflito, porém, é forgado a tomar o partido das chamadas democracias liberais, A presenga do Brasil na guerra, diretamente, em, 44 © 45, marca um momento decisivo no Estado Novo: lutando pela liberdade na Europa, contra 0 fascismo, nao podia permanecer com a estrutura au- toritdria. Bem se disse, pois, que a Forca Expedicio- nétia teve dupla guerra e dupla vitoria — na frente de batalha e na forma politica do préprio pais. O ano de 45 vé 0 desmoronar do fascismo na Itilia, na Ale- manha, no Japao. O sentido oposicionista, subjugado Por alguns anos, comega a surgir talvez em 43, com o manifesto dos mineiros, aparentemente ingénuo, ti- mido, mas contestador. Cresce desde janeiro de 45 com 0 Congresso de Escritores em Sao Paulo, o lan- amento de candidatura a presidéncia, orompimento da censura a imprensa, Gettilio tenta ainda manobrar, com adendos a Carta, cumprimento de determinagSes nela contidas nunea antes consideradas. A Emenda Constitucio- nal n° 9, j4 referida, trata, entre outras coisas, de convocagio de eleigdes para o Executivo e 0 Legisla- tivo, pois, como se diz no preambulo, “‘considerando ue se criaram as eondiges necessdrias para que en- Francisco Iglésias Constituintes e Constituicées Brasileiras 59 tre em funcionamento o sistema dos érgiios represen- tativos previstos na Constituigao...”. E convoca um “organismo representativo bem diverso do que se esta- belecera em 37. Era a tentativa melancélica de sus- tentar o insustentayel. A realidade contrariara os planos de Getilio. Com a anistia, consegue 0 apoio do Partido Comunista, que ele desmantelara, para enorme espanto da burguesia e da classe média. Ten- ta mais um jogo com o populismo, no movimento {queremista, mas falta-lhe o recurso que usara com @xito em 37 — o apoio militar. Muitos dos que o im- puseram entio agora o depdem. Algumas figuras so até as mesmas nos dois momentos, confirmando mais ‘uma vez a minima renovacio da politica. E o Estado ‘Novo cai ante a articula¢do de militares e civis, no dia 29 de outubro de 1945. A Carta de 37 subsistiu oito anos. ‘Bo fim de um momento significativo da historia contemporanea do Brasil, que certa historiografia esquerdizante supervaloriza. Os desastres politicos de 46 em diante fazem que se tenha saudade do pe- iodo, s6 no sentida por quem o viveu. Evitem-se, entretanto, as idealizagdes equivocadas. O que o Es- tado Novo fez de positivo poderia ter sido feito sem 0 arbitrio que mancha a administragio de 37 a 45. A repulsa a certa falsidade do liberalismo aqui pra- ticado explica o engano, que precisa ser desfeito, mas custa. E na politica que a amnésia mais se manifesta. Na trajetéria de Gettilio podem ser reconhecidos al- ‘guns momentos; o primeiro é a ago de 30 & frente do pais até 37. O segundo é o Estado Novo. O ter ceiro sera o seu governo legal, de 50 a 54, Talvez se Pudesse falar até no quarto momento, que é a sua atuagdo através da carta-testamento, espécie de fan- tasma a perturbar o sono dos inimigos de ontem e de hoje. is O Estado Novo é rico no significado politico, so- cial e econémico. Do Angulo constitucional, no’ en- tanto, é quase nulo. Sua Carta nao foi aplicada. O ‘governo poderia ter o mesmo procedimento sem ela, pois s6 contou com o seu desejo e a segurana de aciio bem determinada relativa a seus fins. Nao houve Constituinte, o documento que impingiu foi apenas um exercicio intelectual, que poderia ter sido dispen- sado. Uma curiosidade na histéria do Direito nativo, nao mais. , Constituintes e Constituicdes Brasileiras a CONSTITUINTE E CONSTITUICAO DE 46 ‘A deposigdo de Getilio é o fim do regime excep- cional estabelecido em 10 de novembro de 1937. ‘Como se disse, ele pretendeu ainda contornar a que- da, inevitivel com a derrota do fascismo na Europa e para a qual o Brasil contribuiu: pereebia a volta dos politicos que seu regime abafara e mesmo certo in- centivo externo a essa campanha, como 0 discurso do embaixador dos Estados Unidos no Rio de Janeiro. ‘A Emenda Constitucional n? 9, de.28 de feve- reiro de 1945, convoca um Parlamento, uma vez que o plebiscito anunciado na Carta de 37 nunca fora rea- lizado, O clima é confuso, com surda disputa entre 0 presidente e seus opositores. A luta sucess6ria apre- senta, pela oposicio, o brigadeiro Eduardo Gomes; pelo situacionismo, sugerido por Getilio, sew minis- tro da Guerra, o general Eurico Gaspar Dutra. O Partido Comunista também langa um nome — o do engenheiro Yedo Fiuza, ex-prefeito de Petropolis, muito obscuro. A concessio da anistia, que favorece 08 presos Gomunistas, alarga o debate. E amplo o quadro partidério: a oposigao tem a combativa Unio Democritica Nacional — UDN —, que retine os tra- dicionais adversirios de Getiilio, de todo eclipsados durante o Estado Novo; 0 esteio deste — seus minis- ‘ros, governadores, prefeitos e mais autoridades — compée o Partido Social Democritico — PSD Getilio desejou ¢ organizou essa corrente, como de- sejou e organizou também o Partido Trabalhista Bra- sileiro — PTB —, para o qual se encaminham ali ‘mas liderangas operérias naturais ¢ os intimeros si dicatos criados e manipulados pelo poder desde 1930, Pretende 0 governo — embora nao confesse — fazer a eleigao para a Constituinte, sob a presidéncia ainda de Getilio. A tese origina amplo movimento popular, sob os lemas Pela Constituinte e Queremos Gettilio, o famoso queremismo, um. dos instantes mais vivos da politica populista, com a participacto de sindicatos, bastante vinculados ao presidente. Os comunistas também apdiam a idéia: primeiro a Constituinte. Getitio alimenta essa orientagio, que representaria continufsmo mais assinalado. Perde-a, ‘mas tem o triunfo garantido pelo quadro partidério que criou. Temerosos de golpe oficial, os oposicionistas ‘unem-se a militares e forcam a deposigio. O governo passa ao Judiciario. O presidente José Linhares escla- eee melhor o quadro, com a Lei constitucional n? 13, de 12.11.1945, estabelecendo que “os represen- co Francisco Iglésias tantes eleitos a 2 de dezembro de 1945 para a Ca- mara dos Deputados e o Senado Federal reunir-se-40 no Distrito Federal, sessenta dias apés as eleigdes, em Assembléia Constituinte...”. Apuradas as elei- ges, Dutra é vitorioso e a Constituinte comega a tra- balhar, no dia 2 de fevereiro de 1946. Na eleigio, 0 partido majoritirio é o PSD, seguido pela UDN, mais, como os Partidos Trabalhista, Republicano, Comunista, outros ainda. A Constituinte ser presi- dida pelo senador mineiro Melo Viana. A comissio ineumbida do projeto é composta de representantes dos partidos, proporcionalmente as suas bancad: 19 do PSD, 10 da UDN, 2 do PTB, 1 dos partidos Comunista, Republicano, Libertador, Democrata Cristo, Republicano Progressista e Popular Sindica- lista, no total de 37 membros, sob a presidéncia de Nereu Ramos. Foi excessivamente curto 0 prazo para organizacao das forcas oposicionistas. Entre a depo- sigao do presidente ¢ as eleigdes passaram-se apenas algumas semanas. Tudo decorreu, portanto, no qua- dro criado e regido pela velha ordem, que se mantém ‘quase integra. A base dos trabalhos foi a Constituigdo de 34. Nao houve projeto especial, como em 1890 e 1933, A comissao foi dividida em subcomissbes, incumbida cada uma de determinada tarefa. O projeto primitivo 6 levado A Assembléia dia 27 de maio, Recebe 4092 emendas que, examinadas, originam 0 projeto re- visto. Depois de muito debate, a matéria 6 aprovada eno dia 18 de setembro é promulgada, Getiilio, se- nador pelo Rio Grande do Sul, ndo a assina. Nela Constituintes e Constituiodes Brasileiras participaram algumas das maiores expresses bra: leiras da inteligéncia, politicos, professores, jornali tas, financistas, lideres sindicais (em nimero peque- no, que é minima uma representagio mais popular na Constituinte). © documento é bem feito, obedece a boa técnica juridica. Consta de 222 artigos. Entre seus autores havia gente conhecedora segura do Di- reito da época — os tratadistas mais notaveis da Polf- tica e do Direito Constitucional, juristas, além de co- nhecedores de varias Constituigdes, recentes ou nao. Como no ano anterior terminara a guerra, ha uma, revisdo geral de formas sociais e politicas no mundo, ‘com muitos documentos novos, feitos de 46 a 48. Fiel as linhas do liberalismo classico, a Consti- tuigdo representa avanco pequeno relativamente as anteriores de 91 e 34, sobretudo se for considerada a profunda mudanga verificada no pafs de 30 em dian- te. Reafirma os principios liberais daqueles docu- ‘mentos, incorpora a legislagio social feita sob o Es- tado Novo — no que se revela falta de sentido eritico, pois esse nfo tinha nada de liberal e carecia mesmo de legitimidade trabathista —, nio mais, Ora, a so- ciedade e a economia so bem diversas, de modo que a expresso politica devia ser mais avancada. De fato, a politica negou o Estado Novo, mas no se li- vrou de muitas de suas construcdes antidemocraticas, mantendo a legislagdo trabathista tuteladora, as me- didas equivocas de seguranga nacional. Agravou-as até, aprofundando-as, como se dé em 48 com a criag&o da Escola Superior de Guerra, ue importou de modo acritico um pensamento for- o Francisco Igésias mado nos Estados Unidos pela ideologia da guerra fria. Passa-se & confusio de debate politico interno com a presenca de inimigo, como se a oposigao fosse ‘uma guerra externa, pela falta de um minimo de sen. tido democrético. A concepeio de Brasil subjacente as teorizagdes do golpe de 64 tem origem nessa dis. toredo, configuradora de um pensamento pobre, an- tipopular e até antinacional, responsavel pelo malo. sro que é a trajetéria seguinte a 64, Francamente, os enormes custos dessa Escola no se justificam, por sua acto duvidosa e pelas teorizagdes e modelos que vem construindo, de exemplar pobreza intelectual, O que se conhece de publicagdes da Escola Superior de Guerra nao é nada abonador como pensamento — imitagto de prédica estrangeira, repeticao de formu- las de uma pseudo-sociologia ou politica elementar, falta de qualquer anélise mais profunda e correta, na dentincia de auséncia de um minimo de criatividade, A Constituicio de 46, como todas as outras do ais, antes € depois, é de natureza analitica, desce 0s pormenores, de modo que tem de abranger mui to, pois nao fica no plano das idéias gerais, de prin: cipios, & maneira inglesa ou norte-americana, Mais ‘uma vez o Brasil seguiu o modelo francés. Ressalte. se a sua importancia como retomada do padrio bra. sileiro, do qual o pais se distanciara tanto no Estado Novo ¢ voltaré a distanciar-se dezoito anos depois, ela constante sedugao direitista que tio negativa. ‘mente marca a trajet6ria intelectual politica do pais, Sob o novo estatuto desenrolaram-se os governos de Eurico Gaspar Dutra, Getilio Vargas, Café Filho, Constituintes e Constituigdes Brasileiras 6 Sci ich eat amen Tats Cont Castello Branco. A lei tinha suficiente flexibilidade para adaptar-se a tipos tdo diferentes de autoridad ‘oconservadorismo de um — Dutra —, o sentido rea- lizador e por vezes avaneado do segundo Getilio Var- ‘gas, a crise institucional de Café Filho e seus breves sucessores — Carlos Luz e Nereu Ramos —, o dina- mismo e o desembarago de Juscelino, 0 clima de ex- ectativas criado por Janio, o agravamento da crise € terla canhestrice ¢ audicia de Goulart, © conserva- dorismo e até o reacionarismo do golpe militar e Cas- tello Branco. E certo que o iiltimo a feriu e mesmo a destigurou. Flouve momottos nique. abalo fel senateal © quase desastroso: assim, logo em 47, com a cassagio do registro do Partido Comunista pela Tustica Ele tora e, em decoréneia, por abusiva medida da Cie mara, a cassagio dos deputados comunistas, em fla- eo spent ngeuoif a gelation ao do presidente Dutra e pelo clima da guerra fria no mundo. O fim do periodo de Getilio, notada- mente o ano de 54, foi turbulento, com a crise entre ‘governo € oposigao, conclufda dramaticamente pelo suicdio. Coneiliagdo ¢ acomodactes permitiram 0 término do periodo com o vice-presidente, o presi dente da Camara eo do Senado, Nova rite marcou 0 ais, ante a rentincia de Janio, com a emenda parla- Hees sperms alae Por fim, 0 golpe ‘militar, em 64, em mais uma interrupgao da norma- itica. RE aee erecosmr teins Francisco Igl feita em suas linhas gerais, mantendo o sentido libe- ral das duas outras feitas por Constituintes. O libera- lismo, porém, estava esgotado, com 0 processo evo- lutivo que revelou a sua inviabilidade: negado radi- calmente por uns (esquerda e direita), era-o parcial- mente por muitos que se diziam seus seguidores, mas tentavam adapté-lo as novas condigées. E varios pai- ses chamados liberais adotaram medidas interven- cionistas, regulamentadoras, na prética da planifica- ao. Alegavam nao alterar a estrutura, mas proceder tendo em vista o funcionamento. 7 Assim foi nas praticas britfnicas, nas dos Este dos Unidos de Roosevelt e depois, nas nagées nér cas, criando um assistencialismo em geral tido como exemplar. Se a realidade o consagrou, nao faltaram as teorizagées justificadoras. Para citar duas de am- pla ressontncia no Ocidente, inclusive no Brasil, lem- bbrem-se as obras de Harold Laskiou Karl Mannheim. Concedia-se alguma coisa para salvar o principal, Era uma visto heterodoxa do liberalismo, para pro- var a possibilidade de planificagdo com liberdade. O liberalismo adaptava-se a novo quadro, sem negar a propria esséncia, A flexibilidade de novas préticas quanto a orga- nizago social e econdmica apresentava-se também quanto & politica. O federalismo 4 maneira antiga € visto como sobrevivéncia do feudalismo, O avanco da tecnologia implicava outras formas. E fala-se entio ‘em federalismo cooperativo, em lugar do federalismo segregador. Com o aumento considerével da popula- io e as enormes dimensbes dos investimentos ou dos Constituintes e Constituicdes Brasileiras bens gerados é preciso outra nogio de politica, Uma grande empresa hidrelétrica supde capitais que cre em a colaboragao de mais de uma unidade; por soa ‘ez, os recursos gerados so de tal vulto que ume unis dade nio é capaz de consumi-los, Tais obras, pon. lanto, s6 podem ser feitas por acordos entre diay oo mais partes ou pelo governo federal, Nos Estados Unidos, bom exemplo 6 a Tennessee Valley Autho rithy, em que um empreendimento gigantesco tem oo dispor de recursos financeiros que um Estado hic fem, mas governo central pode ter; a energia for, necida é de tal vulto que dé para atender a varias uni dades. No Brasil, seja 0 caso da Comissio do Vale do So Francisco, com as grandes obras realizadas ng foverno Dutra: nenhum Estado do Nordeste dispu, ha de capital para a hidrelétrica pedida, como na, ‘hum poderia usar todo o potencial energético forne, ido por ela, Impoe-se, pois, outra visio do federalismo, reveja a forma cléssica: ela tem de ser superada, pois 4s condigées se alteram as vezes profundamente. de conformidade com os avangos da tecnologia, Se a ve. rificagdo ja era mais que valida nas décadas de qua. Tentae cingitenta, imagine-se agora, quando o domt, nio do homem ultrapassa qualquer imaginagao de hi vinte anos, com a energia nuclear, a cibemética, ain: formética. Sao outras as nogdes de espago e tempo, todos os povos se comunicam, nao ha mais isola, mento e tudo caminha para a unidade. Outras fon mas de organizacdo politica e social se delineiam, Se nao houver um desenvolvimento sociale politico equic 68 Francisco Iglésias valente ao de outras ciéncias haveré uma defasagem entre 0s conhecimentos, ¢ esse desequilibrio pode ge- Tar uma guerra que talvez pura e simplesmente des- rua tudo. As novas armas podem provocar conflito com earacteristicas nunca apresentadas em filmes de ficgdo cientifica. E 0 homem esti ameagado de ser destruido e o universo de novo vai adquirir a forma de nebulosa, como aquela da qual o mundo teria par- tido, segundo conhecida teoria cosmogonica. Releve- se a digressio teorizante, & primeira vista ociosa no presente estudo, mas com raziio de ser, pois evitlen- cia a mudanca verificada na ordem politica no mun- do com o qual o pais mais se identifica. texto constitucional de 46 incorporou as con- quistas sociais do de 34 ¢ as medidas da politica po- ulista do estadonovismo, Em 34 jf se tratava da or- dem econdmica e social (Titulo TV), a Justica do Tra- balho, mas como corpo independente do Judicifrio ‘comum, como uma Justica especial; de 37 a 45 a le- gislagdo relativa aumenta consideravelmente, pelo corporativismo da Carta; 46 representa um avanco, dando mais organicidade a essa Justiga, como parte do Tudicidrio (Seegao VI, Cap. IV, Titulo 1). Ganha autonomia o Direito do Trabalho, mais reconhecido pelo novo texto. A Constituigdo de 46 teve muitas emendas, bas- tante espagadas: an? 16 de dezembro de 1950; a n? 2 € de julho de 1956; an? 3.6 de 1961. Emenda importante é a n? 4, de 2 de setembro de 1961, ins- tituindo o sistema parlamentarista, Foi feita para contornar grave crise, provocada pela intempestiva Constituintes ¢ Constituieées Brasileiras o renincia de Janio Quadros, no dia 25 de agosto — ‘um dos momentos mais negativos e melancélicos da hist6ria recente. O renunciante desejou a crise, com © abandono do poder, quando o vice-presidente es- tava na China, e ciente de que haveria dificuldade para a sua posse, pelo veto militar ao nome de Joao Goulart. Entendimentos entre a lideranga politica e a insubordinagdo militar levam a idéia de adogdo do parlamentarismo, pois esse regime diminuiria as prer- rogativas do chefe, enormes no regime presidencia- lista, Goulart fez estranha viagem de volta, chega ao Uruguai para reassumir, apoiado pelos defensores da legalidade e pelo seu Estado — 0 Rio Grande do Sul em pé de guerra contra o intentado golpe. Tan- credo Neves é incumbido pelo grupo articulador da idéia de encontrar-se com o vice e convencé-lo a acei- tara formula proposta. Obtém éxito, a emenda € vo- tada, Goulart yolta e assume a presidéncia, Na ver- dade, apenas adiava-se 0 golpe para 64, pois os da- dos reais do problema subsistem. Imposigio pela forca, a nova autoridade admite- a, mas ndo a aceita e comeca logo a trabalhar pela plenitude de seus direitos, de acordo com a lei pela ‘qual normaimente se elegera. E uma experiéncia par- lamentarista de pouco significado, pois ninguém de fato a aprova. Os gabinetes se sucederam € poucos meses depois nova emenda — a de n? 6, de 23 de janeiro de 1963 — restabelece 0 presidencialismo, fruto de campanha popular e plebiscito em que a quase totalidade da naco se pronuncia contra 0 gol- pe de forca. Outras emendas seriam ainda feitas, 70 Francisco Iglésias Constituintes e Consttuigdes Brasileiras n ‘mas ja sob o regime militar institufdo pelo movimento de 31 de marco de 64: emendas de mimero 7a 21, até nova Carta, em 67, no gosto suspeito de legislar, que mais confunde que ordena, como & tipico dos regimes de arbitrio. ‘Mais importantes que essas medidas so os Atos Institucionais, decretados como justificativas para 0 golpe contra a Constituigao de 46. Eles armam 0 po- der para um exercicio que se quer justificar, através de documentos casuistas que vio ser a norma a con- tar de abril de 1964 até 15 de marco de 1985, quando de novo um presidente civil yolta ao comando do go- vyerno e anuncia a Nova Repiiblica. Seu principal ar- tifice foi o mineiro Tancredo Neves, que empolgou a nagao com sua prédica contra o autoritarismo e em defesa da legalidade, suspensa por longos anos, até a data inaugural de outra época, anunciada pelo presi- dente eleito. Os Atos Institucionais consagram as iniciativas do poder, tentando legitimar 0 arbitrio, como se vé no predmbulo do primeiro: ‘A revolugao se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz nao o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Nagao. A revolucio vitoriosa se investe no exercicio do Poder Constitucio- nal, Este se manifesta pela elei¢o popular ou pela revolucao. Esta é a forma mais expressiva e mais ra- dical do Poder Constituinte. Assim, a revolucao vito- riosa, como o Poder Constituinte, se legitima por si mesma’”, ‘O Ato é imposto pelo Comando Supremo da Re- vyolugo, representado pelos comandantes-em-chefe do Exército, da Marinha e da Aerondutica, aos 9 de abril de 1964. Era o fato consumado, aceito pela ti bieza dos politicos e de um Congresso castrado, em que s6 algumas figuras da oposigdo se salvam, no que 6, sem diivida, o inicio da fase menos digna da histé- ria do Legislativo brasileiro. Através dese m mento impoe-se a negagio do direito, com casufsmos de todo tipo, desfibramento ético, subversio e cor- Tupgio — ¢ o movimento se disse feito para salvar o pais desses dois perigos, que no s6 atingem 0 pice de exercicio em toda a trajetéria negativa, do governo geral da Coroa portuguesa em 1548 a 15 de margo de 1985, como chegam mesmo a ser institucionalizados, ois a censura com a supressio das liberdades im- pede a fiscalizacio da vida piblica. O Ato de 9 de abril de 1964, que formalizou o golpe, no tinha nii- ‘mero: seus autores, com certeza, pensaram ser ele suficiente para disciplinar a naco, ou melhor, sub- jugé-la. Enganaram-se e foram obrigados a redigir varios outros, em excessiva pritica legislativa, espé- cle de compensaco ou mauvaise conscience pelo real desrespeito a lei. O Ato Institucional n° 2 é de 27 de outubro de 1965; os nimeros 3 e 4 so de 5 de feve- reiro e 7 de dezembro de 1966. Depois, ser a vez da chamada Constituigaio de 24 de janeiro de 1967. O documento de 46 durou 18 ou 21 anos, considerando- se seu fim 64 ou 67. & Constituintes e Constituigdes Brasileiras B CONSTITUICOES DE 67 E 69 © movimento que dep6s Joo Goulart e a Cons- tituigdo de 1946 continuou a adoti-la, embora intro- duzindo sucessivas emendas e sobretudo revogagies literais de seu sentido, através de Atos Institucionais. Nio era fécil administrar com a quantidade enorme de determinagdes, com dispositivos em um e outro sentido, sem um minimo de ordem e coeréncia. Im- punha-se outra Constitui¢ao, que seria a do movi- mento de 64. Demais, o primeiro presidente eleito pela estranha legislago emanada do Comando Su- premo da Revolugao — Castello Branco — desejava institucionalizar o regime, pela nostalgia da legali- dade que ele e seus companheiros haviam quebrado. io seria facil fazer uma Constitui¢do que compreen- desse esses Atos, Emendas e a imensa quantidade de leis, pois o resultado seria uma pega de dificil confi- guracdo ante o Direito. O presidente, através do Decreto n? 58.198, de 15 de abril de 1966, estabelecen uma comissio de juristas para elaborar a Constituicdo. Era composta por Levi Carneiro, Orozimbo Nonato, Miguel Seabra Fagundes e Temfstocles Cavalcanti. Miguel Seabra Fagundes dela se desligou. O presidente da comissio era Levi Carneiro. Seu projeto foi encaminhado a0 ministro da Justiga Carlos Medeiros. Que o achou fraco, conservador, ndo-revolucionério, alterando-o muito no exame para base do projeto a ser encami- mhado ao Legislativo. No dia 7 de dezembro, 0 Ato Adicional n? 4 convocava o Congreso para reunio extraordindria, para exame do projeto apresentado pela presidéncia. Diz 0 AI-4 no preambulo: “Consi- derando que a Constituigao federal de 1946, além de haver recebido numerosas emendas, j4 nio atende as exigéncias nacionais; considerando que se tornou im- perioso dar ao pafs uma Constituigao que, além de uniforme e harménica, represente a institucionaliza- cdo dos ideais ¢ principios da Revolugao; conside- rando que somente uma nova Constituigdo poderé assegurar a continuidade da obra revolucionéria; considerando que ao atual Congresso Nacional, que fez a legislacao ordinaria da Revolucao, deve caber também a elaboracio da lei constitucional do movi- mento de 31 de marco de 1964. O texto do Ato é curioso, pelo excesso de deter- minagées, que fazem do Parlamento décil aprova- dor, com datas bem fixadas. Em primeiro lugar, 0 art. 19 ja diz: “E convocado o Congresso Nacional para se reunir extraordinariamente, de 12 de dezem- bro de 1966 a 24 de janeiro de 1967”, ou seja, os ™ Francisco Iglésias Constituintes e Constituicées Brasileiras 15 parlamentares tém prazo rigido para fazer o traba- Iho, como se tal fosse possivel, exigindo-se dele, de fato, a simples aprovacio. Reunidos, designariam comisso de 11 senadores e 11 deputados; esta devia reunir-se 24 horas depois, para eleger o presidente e o vice-presidente; orelator, escolhido pelo presidente, tinha 72 horas para dar parecer sobre o projeto. Esse parecer, aprovado, iria & discussio do Congresso, que tinha o prazo de quatro dias. Aprovado, seria devolvido A comissao para emendas. Para apresenta- ao dessas havia cinco dias; j& a comissio tinha 12 dias para dar parecer. Esses prazos eram estabeleci- dos pelo mesmo Ato, em seus artigos 2° a 8°. ‘Como se vé, parecia ordem-unida ou aula de gi- nistica. E a marcha do projeto foi severa: dia 12, forma-se a comissiio; no dia seguinte ela é instalada ¢ designa os responsaveis — presidente, deputado Pe- dro Aleixo; vice, senador Eurico Resende; relator, se- nador Ant6nio Carlos Konder Reis; sub-relatores, deputados Oliveira Brito, Acioli Filho, Adauto Car- doso, Djalma Marinho, senadores Vasconcelos Tor- res € Wilson Goncalves. E mais: dia 16, parecer so- bre o projeto. Pelo MDB, fala o senador Josafa Ma- rinho, que o considera inaceitavel, por antifederativo © antidemocriitico; a comissio, contudo, aprovou-o por 13 votos contra 8; dia 17, comunicagao do pa- recer; de 19 a 22, discussao do projeto pelo Congres- so; de 23 a 28, apresentagio das emendas a serem examinadas pela comissio (foram em mimero de 1681); dia 4 de janeiro de 1967, parecer sobre as emendas; dia 5, publicago do parecer; de 6 a17, dis- cusstio das emendas pelo Congresso; dias 18 ¢ 19, vo- tagdo das emendas; dia 20, apresentaco para a re- dagio final; dia 21, apreciagio e votagio do texto; dia 24, promulgagdo, Prazo de pouco mais de um més, tanto mais apertado quando se lembra que de- via haver alguma pausa para as festas de fim de ano. Como se vé, verdadeira ordem-unida, sem qual- quer trago de uma Assembléia Constituinte. $6 quem nunca realizou trabalho intelectual pode fazer deter- minagio de tal tipo. O Congresso, em vez de recusar a imposicao, com um minimo de altivez, submeteu- se servilmente, executando a tempo e a hora quanto the era exigido. Alegava-se ser preferivel assim, para evitar o mal maior da sancao pura e simples do pro- Jeto do governo. Poder-se-ia ter duivida a respeito de saber qual o mal maior ou menor. Verificou-se entio o curioso episodio do atraso do relégio do parlamento ara a votaedo no prazo estabelecido imposto pelo estranho Ato Institucional: se nao tivesse aprovagao até o dia 21 de janeiro, o projeto teria sanco como estava. O presidente do Congresso, Auro Moura An- drade, parou o rel6gio pouco antes da meia-noite do dia 22 de janeiro, até ser feita a votago. Afinal — podia justificar-se o senador —, era a hora de vero, de maneira que nada havia em parar o relogio, até a votacdo. E esta foi anunciada como pronta 9 minutos antes do fim do prazo fatal. O resultado nao poderia ser outro seno o documento autoritario, infrator de prineipios federativos e democraticos, aberrante para uma Repiblica na sétima década do século XX. A chamada Constituicao de 67 ndo segue a linha 6 Francisco Iglésias Constituintes e Constituipbes Brasileiras liberal dos documentos anteriores (s6 tem certo pa- rentesco com o de 37). Falscia os principios federa- listas e democraticos. Fortalece ao méximo a figura do presidente da Repiblica, que tudo pode, sobre- posto ao Legislativo e ao Judiciério, que ficam sob sua mira, podendo ser atingidos no exercicio de suas atribuigbes. Contra a tradi¢io nativa, estabelece a eleicdo indireta para a presidéncia, com um colégio eleitoral, singularidade que tanto daria que falar. Amplia os poderes da Justica Militar. Tinha de ser assim, se incorpora quanto se determinou de 64 em diante, quando todas as normas legais ou de bom senso foram infringidas. © documento de 67 é mais uma das estranhezas nacionais no campo do Direito, devendo ser considerado mais uma pega na sua con- tribuigdo especial. Quanto aos direitos humanos, ordem econdmica e social, sobre a familia, a educacdo e a cultura, de pouco adianta firmar alguns principios, se todo o pais esta sob o dominio da policia, que fiscaliza, censura, prende, exila, quando a administracio aplica penas como as de cassacio de direitos politicos e mandatos de modo sumério, sem processo, sem julgamento, sem apelagio. Chegou-se mesmo a pensar em excluir essa parte (caso do poderoso ministro Carlos Medei- ros). Encomendada ao senador Afonso Arinos, o ju- rista e politico redigiu-a, mas foi apresentada por Eurico Resende, uma vez que Arinos nao era bem visto pelo governo. E este ndo podia ser melindrado, 6 claro. Entre alguns tracos originais, destaque-se com- preender entre os bens da Unido a plataforma sub- marina; a competéncia da Unido é objeto de cinco artigos, com muitos pardgrafos e incisos, enquanto a dos estados e municipios tem s6 quatro artigos, com bem menos pardgrafos e incisos. A seguranca nacio- nal e as Forcas Armadas recebem atengies especiais, se € em torno do conceito de uma e de atuacdo de outra que gira a vida do periodo. O primeiro artigo das disposigées gerais ¢ transitérias diz que “ficam aprovados e excluidos de apreciagio judicial os atos praticados pelo Comando Supremo da Revolugdo de 31 de margo de 1964”. A Constituicao foi promul- gada pelas mesas das Casas do Congresso Nacional no dia 24 de janeiro de 1967, para entrar em vigor no dia 15 de margo, em exemplar cumprimento da or- dem. Terminaria entAo 0 governo de Castello Branco e teria infcio o de Costa e Silv Prova de que a lei nao significava nada é a con- tinuagdio dos Atos Institucionais e dos Atos Comple- mentares: editam-se, depois da Constituigao, mais 13 Atos Institucionais ¢ 3 Atos Complementares. O px meiro Ato Institucional, como se disse antes, no ti- nha ntimero — indicagio de que se pensava ser 0 bastante; enganaram-se, no entanto, as autoridades, pois a quebra de lei exigiu sucessivas outras, em in- contida série de novas pecas. A mais famosa — jus- tamente famosa — ¢ 0 Ato Institucional n? 5, de 13 de dezembro de 1968, folclorizado como AI-S, de tris- te meméria. Os comandantes do pais nfo paravam de surpreendé-lo, travestidos de legisladores. E 0 pais, se ainda tinha alguma coisa de normalidade, B Francisco Iglésias perde-a de vez, pois o texto estabelece verdadeira di tadura, que pode causar inveja as mais terriveis do tempo do nazismo. Provocou-o a recusa de votacao pela Cimara do pedido de processo de deputado, que proferira discurso considerado insultoso. Como re- sultado, suspende-se 0 Congresso e baixa-se mais uma determinagio. Esta reafirma os termos dos primeiros Atos Ins- titucionais, consolidando a idéia de que a Revolucao para defesa de seus principios tudo pode. E alega manter a Constituigto de 67, com as modificdgées que introduz. Estas so mais pesadas, reforgando 0 quadro anterior. Se jé havia uma consagracao do ar- bitrio, o novo Ato agrava-o mais ainda: decreta o re cesso parlamentar, intervengio nos Estados e muni- cipios, “sem as limitagdes previstasna Consti suspensio de direitos politicos por dez anos e cassa- gio de mandatos eletivos; suspensfio de garantias constitucionais ou legais de vitaliciedade, irremovibi- lidade, estabilidade, exercicio de fungSes, suspensio de garantia do habeas-corpus; todos os atos pratiea- dos de acordo com o Ato Institucional e seus Atos ‘Complementares excluem-se de qualquer apreciago judicial. © ALS €a antilei, o arbitrio total. Nenhum direito € respeitado, de modo que o Brasil regride & condigto de primitivo, povo que ndo reconhece ne- nhuma conquista. E inacreditivel que tais coisas se tenham passado hé poucos anos sem provocar uma explosio, Ao contritio, tiveram o aplauso de minis- tos, governadores, parlamentares. E o pior é que de- pois de tanto vexame ¢ indignidade, eles, essas figu- Constituintes e Constituigdes Brasileiras ras, continuaram € continuam, como se nio tivesse havido nada demais. As yezes até em postos muito altos, autoridades agora da Nova Repablica. © Ato Institucional n® 12, de 31 de agosto de 1969, comunica a nagdo que o presidente Costa e Sil- va esté impedido temporariamente de exercicio pleno de suas fungSes, por enfermidade, Para exercicio da presidéncia no se convocam as autoridades desig- nadas pela lei — 0 vice-presidente e outros —, fi- xando que cabe aos ministros da Marinha, Exército e Aeronautica assumir as fungdes presidenciais, en- quanto durar o impedimento. Os ministros militares € os outros assinam o documento. O Ato Institucio- nal n? 14, de 5 de setembro, estabelece que para en- frentar a Guerra Psicologica Adversa e a Guerra Re- volucionéria ou Subyersiva (assim mesmo, com maitis- culas) é preciso mais severa repressio, de modo que se admite a pena de morte, antes s6 admitida em caso de guerra externa, O Ato Institucional n° 16, de 14 de outubro, ante a gravidade da doenga do marechal, declara a vacncia da presidéncia, bem como da vice- presidéncia. Enquanto nao se realiza a eleigflo das novas autoridades, a chefia do Poder Executivo con- tinua a ser feita pelos ministros militares. O mesmo Ato marea o dia 25 de outubro para realizagio de novas eleigdes. O que ocorrer no mesmo estilo, com aimposigao de um candidato ao Congresso, para ser homologado. © novo ungido pelo poder tera seu nome imposto por inescrutavel decisdo no se sabe de ‘quem, como se ignora qual o critério para fazer desse e de outras figuras de cinco estrelas 0 beneficiado dos 80 Francisco Ielésias deuses. Como se vé, passaram pela presidéncia os mili- tares Castello Branco e Artur da Costa e Silva e ti- vyeram exercicio os também militares Augusto Rade- maker Griinewald, Aurélio de Lira Tavares e Marcio de Sousa e Melo. Logo ser eleito outro general — Garrastazu Médici, agora com um vice também mi- litar — o almirante Augusto Rademaker Griinewald, para no haver necessidade de outro arranhao consti- tucional em caso de substituicio. Ante tamanho ema- ranhado de determinagées, aprova-seaEmendaCons- titucional n? 1, de 17 de outubro de 1969, na ver- dade outra Constituigao, pois altera substancialmente 0 texto de 67, a ter vigéncia a contar de 30 de ou- tubro de 1969, quando se empossam as novas auto- ridades. A Emenda Constitucional n? 1 resultou da ne- cessidade sentida por elementos do governo, Parecia- Ihes insatisfatério o texto de 67, sobretudo depois do AI-S, que agravava inimeros dispositivos com mais rigor repressivo. J4 haviam sido realizados estudos com tal propésito, sob a direcao de Pedro Aleixo, vice-presidente, com a colaboraco do ministro Ga- mae Silya e de Rondon Pacheco, Temistocles Caval- canti, Carlos Medeiros e Miguel Reale. Assim, os trés ministros militares, que decretaram o AI-12 e outi fizeram a Emenda, editando-a com o preambul Congreso Nacional, invocando a protegio de Deus, deereta e promulga. a primeira falsidade, pois ‘© Congreso nao teve nenhuma participagio no docu- mento, feito pelos ministros militares e talvez algum Constituintes e Constituigdes Brasileiras aL | © Congresso Nacional, suspenso em 1968 com 0 ALS, 1ndo participa, no ano seguinte, da elaboracdo da Emenda Constitucional n? I a Francisco Iglésias Constituintes e Constituigées Brasileiras jurista convocado por eles. © texto de 67 tinha 189 artigos, enquanto o de 69 tem 217 artigos. ‘Os autores que se debrucaram sobre a nova peca ‘mostram que ela altera bastante a de 67, agravando-a em toda linha, reforgando'o seu cardter autoritirio e as medidas repressivas até entdo fixadas. Como se lo bastasse 0 estado de sitio, cria-se 0 estado de emergéncia (j4 pensado por €astello Branco). Nao arava ai, no entanto, o gosto das emendas constitu- cionais, pois ainda em 19 de dezembro de 1983 era feita a emenda n° 24. As emendas cogitaram vari vezes de legislagao eleitoral, sempre com casuismos para garantia do poder oficial, sabidamente desapro- vado pela maioria. Uma das curiosas é an? 8, de 14 de abril de 77, quando Geisel interfere no Parla- mento, com a criagdo aberrante do senador bidnico. ‘O exame de todos esses textos ¢ dispensavel. Sua andlise exata compete aos juristas; aos historiadores, soci6logos ou cientistas poifticos cabe elucidar 0 qua- dro que os motivou, revelador quase sempre de pro- pésitos de fortalecimento autoritirio. Se os trés pri- ‘meiros militares-presidentes ou presidentes-militares legislaram muito, cada vez de modo mais severo, nao percebiam que o erro no estava na chamada subver- slo, na teimosia da recusa de suas formulas, mas no cexercicio ilegitimo de autoridade que nunca acertava. Se o golpe de 64 teve a principio apoio apreciavel do ovo, descontente com a crise e com os rumos de um ‘governo como o de Goulart, despreparado para a refa, cada vez. era menor 0 apoio aos governos mi tares, também despreparados; a contar de povco ‘tempo de exercicio esses governos nao tinham qual- quer simpatia, faltando-Ihes de todo a aprovacao dos varios segmentos sociais, como a alta burguesia, 0 empresariado, a classe média, os trabalhadores, os estudantes, intelectuais, artistas, o povo, os sin tos, a Igreja, e, sem divida, amplos setores das For- cas Armadas, que sentiam o aniquilamento da nagio e niio desejavam ser confundidos com os seus causa~ dores, colegas de farda. A revolugdo de 64 teve o dom de estabelecer 0 cconsenso quanto a sua condenagdo, sendo vista como responsével pela faléncia politica, social, econdmica, financeira e sobretudo ética. Ao fim de 21 anos ela estava desacreditada, expondo a0 mundo 0 quadro de um endividamento externo que assusta, uma in- flago insustentével, um desemprego de milhées, a perda da esperanca e de qualquer perspectiva para as geragdes que nasceram sob o seu signo. O pais ofe- rece ao mundo a imagem desolada de um governo de pires na mao, pedindo dinheiro para pagar juros de ‘empréstimos, admitindo a ingeréncia de érgios in- ternacionais nas suas coisas, por falta de estatura para defesa de sua soberania. A corrupgo é genera- fizada, as autoridades nao fazem inquéritos: ao con- trério, criam dificuldades A sua realizagiio, quando pedida pela imprensa ou pelo Parlamento. Nos varios escdndalos ha sempre o envolvimento de nomes liga~ dos as altas figuras, por parentesco ou amizade, quando nao so as proprias autoridades as aponta- das. Sem falar nos crimes, em que h mortes e desa- parecimentos. Nunca o poder teve expressdes de tio Francisco Iglésias baixo nfvel na vida do pafs. Com o sistema de 64, em sua continua e fatal degeneracao, o Brasil chegou ao fundo do poco. S6 teve a redimi-lo a altiver da oposigdo que sempre existiu, nao se dobrando mesmo quando tudo Ihe era vedado. O ano de 84 mostrou uma série de manifestagbes positivas, a principal das quais foi a ‘campanha das diretas, 0 maior movimento de cons- ciéneia de um povo. Um governo débil em toda linha foi perdendo terreno, até ser derrotado na elei¢ao em que tudo foi feito pela sua vit6ria. Os erros do oficia- lismo e as qualidades das forgas oposicionistas, de diferentes matizes, ganharam 0 processo. Comandou a oposicao o politico mineiro Tan- credo Neves, com firmeza, Incidez, extrema habili- dade. De tal modo se impés que chegou a ser 0 can- didato do consenso. A vit6ria espetacular no Colégio Eleitoral esptirio — foi a ele para acabi-lo de vez, conforme anunciou — aureolou o seu nome do entu- siasmo da maior parte e do respeito de todos. Anun- ciou a Nova Repiblica. Por uma dessas fatalidades que parecem criagdes de ficcionistas, terrivel doenga do presidente se manifestou no dia mesmo da posse. Que no se verificou. Hospitalizado, assumiu 0 go- verne o vice José Sarney, velho aliado da situagao derrotada que se compos no iltimo momento. A ago- nia de Tancredo Neves emocionou o pais e o mundo, até sua morte no dia 21 de abril de 1985. A renovacao da campanha oposicionista era tio profunda que se faz irreversfvel. E José Sarney comeca uma adminis- tracdo dificil, cercado pela expectativa nacional de Constituintes e Constituicdes Brasileiras A campanha das diretas derrota o governo, apesar dos casuismos engendrados pela ditadura para se manter no oder. Francisco Iglésias ‘um procedimento capaz de repor o pais no lugar que Ihe cabe. Nao é fécil, pois além dos embaragos eco- ndmico financeiros, hé o descrédito das instituigdes. Falta confianca em todos os poderes constituidos: se ela vinha do desacerto de 21 anos, vé-se agravada nos poucos meses de exercicio da nova ordem, com um ministério feito pelo presidente a duras penas na base de acordos inconfidveis, que tem de ser manti- do por outra autoridade sem a mesma forga e sem 0 mesmo vigor de manipulagio; por governadores ¢ prefeitos desmandados em empreguismo de clientela, ‘em desrespeito aos cargos, e, pior ainda, por um Le- gislativo em que surge 0 escandalo da votagio deso- nesta em plenério, como se viu recentemente na Ca- mara dos Deputados, sem que 0s tristes protagonis- ‘as tivessem os seus mandatos cassados, como impu- nham a lei eo bom senso. As tribunas vazias pelo desinteresse da maioria dos parlamentares dio um ‘melancélico espetéculo, Ha um desafio a paciéncia e tolerdincia do povo. Apesar de tudo, é preciso dizer ‘que ainda resta uma esperanga. Para dizer alguma coisa. AVALIACAO E PROJETO Inventario pais, da independéncia & atualidade, conhe- cou sete constituigdes: 1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 ¢ 1969. Delas, s6 trés sairam de uma Assem- iéia Constituinte: 1891, 1934 e 1946. Em 1823 hou- ye uma Constituinte que nao fez uma Constituigao. A de 1967 foi fetta por legislatura comum, completa- mente deformada em sua composi¢o, com inimeros parlamentares cassados, pela palavra mais viva na critica, pela contundéncia da dentincia ou simples capricho de algum poderoso eventual. A de 1969 por uma Junta Militar, sem mais, de modo ainda mais chocante. Frente a mudangas profundas ou aparentes ou co colapso do poder surge a necessidade de uma Cons- tituigdo. Assim, logo apés a independéncia, quando Ginstalada a primeira Constituinte, que no realizou 8 Francisco Iglésias Constituintes e Constitui 89 © seu trabalho. A Carta de 1824 foi outorgada a0 ovo ¢ subsiste até 1889 (65 anos). Era documento em consondincia com a época, quando o Brasil pa sava de colénia a nagao livre. Tinha de montar a mé- quina administrativa, tragar seu projeto. Nao o fez com originalidade: herdou o emperrado aparelho bu- rocrdtico portugués, adaptando-o aqui. © Império vivew'trajetéria normal, realizando suas virtualidades ¢ vendo-se esgotado ao fim de al- ‘gumas décadas. Se a independéncia nao trouxe trau- matismo maior, outro tanto pode ser dito com mais razao da Repiblica. O pais j4 é, no entanto, bem mais complexo, precisa de mais adaptagdes. Ha certa mudanga, de apreensdo nem sempre facil, por ser mais de qualidade que de quantidade. Daf outra lei bbésica, com a Constituinte de 1890 e a Constituigao de 1891, subsistente até 1930 (39 anos). Adota-se 0 federalismo, com acentuado presidencialismo, & ma- neira norte-americana. La as instituigdes tém mais justeza e funcionamento, com menos personalismo. Finda a escravidao, a estrutura de classes passa a ter maior diversidade, O Brasil abre-se para o mundo, embora permanega ainda muito provinciano. Sua participagdo no quadro geral € minima, eminente- mente periférica e dependente. O ritmo de mudanca continua lento, Pouco se relacionam as partes. O eixo Rio-Sio Paulo tem duas metrépoles, vibracdo poli- tica ¢ econémica, mas tem pouco a ver com o resto. A erescente populacio e breve mudanga na so- ciedade ena economia afetam a ordem e impoem a virada de 30. Ligeira, se vista s6 em termos imedia- tos, tem certa profundidade se vista em conjunto de equenos movimentos antes e depois — 0 que o hi toriador Nelson Werneck Sodré chamou de “revolu- cdo brasileira”, ou seja, “processo de transformacio que o pais atravessa, no sentido de superar dificul- dades originadas do passado colonial e a auséncia de revolugio burguesa no desenvolvimento histérico". Impunha-se outra Constituinte: esta espelha mais 0 mundo, incorporando algumas novidades. A socie- dade é bem mais complexa, a administracdo assume novas linhas, visando a modernizacdo e A racionali- dade. O debate ideolégico do periodo ecoa, mas sem intensidade. A Lei de 34 pouco durou (trés anos). Jia Constituigdo de 37 — outorgada, como a do Império — € 0 eco de choques ideol6gicos mais tensos (subsistiu oito anos). O Brasil acompanhou a transformagdo do mundo ao longo da Segunda Guer- ra, colocando-se ao lado do vitorioso. Teve inclina- goes pelo cixo Roma-Berlim, em cujo modelo e al- ‘guns de réplicas fascistas de outros paises buscou ins- piragdo, para elaborar uma carta de tipo corpora vista, Ndo implementou o sistema adotado, acomo- dando-se de conformidade com as situagées. Teve, assim, de adaptar-se A nova ordem, em esquema que jé fora o seu. E tem-se a Constituigao de 1946. O modelo longinquamente liberal nfo era mais o mesmo, pois o mundo todo conhecera o im- pacto do coletivismo soviético, do corporativismo ita liano ou do intervencionismo de tipo britanico, nér- dico. Tenta-se a democracia de massas, com arreme- dos de chefes populistas, entre os quais sobressaem