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Heitor De Paola
Heitor De Paola
Heitor De Paola Nesta apresentação de caso, destacarei o impacto da realidade psíquica sobre os estágios
Heitor De Paola Nesta apresentação de caso, destacarei o impacto da realidade psíquica sobre os estágios
Heitor De Paola Nesta apresentação de caso, destacarei o impacto da realidade psíquica sobre os estágios
Heitor De Paola Nesta apresentação de caso, destacarei o impacto da realidade psíquica sobre os estágios
Heitor De Paola Nesta apresentação de caso, destacarei o impacto da realidade psíquica sobre os estágios

Nesta apresentação de caso, destacarei o impacto da realidade psíquica sobre os estágios iniciais do processo analítico e a sua impor- tância para o futuro da terapia. Em minha experiência de anos com vá- rios pacientes, cheguei à conclusão que o impacto da realidade psíquica é uma das principais causas de cri- ses, impasses e interrupções do tra- tamento em sua fase inicial. Ao mesmo tempo, enfatizarei a importância do reconhecimento do analista do que está acontecendo e

da sua capacidade de ajudar o paciente a elaborar essa realização. Para fazer isso, o

da sua capacidade de ajudar o paciente a elaborar essa realização. Para fazer isso, o analista deve estar familiarizado com os primeiros estágios do desenvolvimento, conforme descritos por Melanie Klein 1 . É verdade, en- tretanto, que muitas análises têm como característica principal da fase ini- cial uma espécie de “lua de mel” com o analista, mas isso não acontece com os pacientes muito perturbados, que chegam à análise com imensa ansiedade e até mesmo com estresse físico ou doenças físicas. Certamente estou discutindo aqui a antiga controvérsia entre analistas kleinianos e da Psicologia do Ego, como está bem descrito no trabalho de Greenson Transference: Freud or Klein? (1974). O que eu quero comuni- car aos leitores é que é muito gratificante interpretar os mecanismos men- tais nesses estágios, pois as respostas do paciente são de profundo conteú- do emocional. Ao mesmo tempo, é possível observar como o paciente está surpreendentemente familiarizado com os conteúdos das interpretações. Em geral, esse fato é interpretado como uma intelectualização e, em parte, isso é verdade: escutar uma interpretação que vai além de seu conhecimen- to consciente, mas que ajuda a acalmar, desperta a curiosidade intelectual do paciente. O analista é o alvo de um grande número de perguntas, tais como: “Sim, penso que você está certo, mas não consigo captar logicamente o significado do que você está dizendo”, ou “Eu sinto do fun- do do coração que o que você está dizendo está certo, mas , caramba!, é irracional! Não posso aceitar isso, a menos que esteja louco”, ou “Você está louco? O que significa isso? Você está tentando me enlouquecer?”, e assim por diante. Essa nítida rejeição, repetida por um longo período, com nenhum insight aparente, pode convencer o analista a desqualificar o pa- ciente para um tratamento analítico devido a processos de pensamento muito concretos que impedem a compreensão. Entretanto, devemos abor- dar as situações com muito cuidado, depois de um longo período, a fim de

1. Ver Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos (1935), O luto e a sua relação com os estados maníaco-depressivos (1940), O Complexo de Édipo à luz das ansiedades primitivas (1945) e Notas sobre alguns mecanismos esquizóides (1946). Um resumo pode ser lido em Algumas conclusões teóricas relacionadas à vida emocional do bebê (1952), todos em A obra de Melanie Klein (Londres: Hogarth Press, 1975).

relacionadas à vida emocional do bebê (1952), todos em A obra de Melanie Klein (Londres: Hogarth
relacionadas à vida emocional do bebê (1952), todos em A obra de Melanie Klein (Londres: Hogarth

não descartar pacientes que podem ser capazes de grande progresso se o analista for razoavelmente tolerante, e de não tentar forçar interpretações que sejam difíceis de serem integradas pela estrutura mental do paciente. Por essa razão eu penso, de modo diferente da corrente principal do pensa- mento kleiniano, que o analista tem de fazer um trabalho “pedagógico” no início do tratamento. Esse material é, de fato, uma pequena parte de uma pesquisa mais ampla sobre as fases iniciais do tratamento psicanalítico, que incluirá ou- tras características, e não só casos de pacientes de meu consultório, mas também de supervisão. Como desenvolverei em detalhes em trabalho maior, o analista, ao interpretar o paciente, deve dar a devida atenção à realidade psíquica e à realidade externa, a fim de ajudá-lo a tomar conheci- mento, gradualmente, da existência da primeira. Considero a realidade psíquica como uma parte inconsciente do fun- cionamento mental. Embora bem aceito em termos racionais por muitos, o reconhecimento emocional do inconsciente, só possível durante o trata- mento analítico, representa um impacto algumas vezes terrível e intolerá- vel. Devemos estar cientes de que o que traz os pacientes à análise é o que chamo de um “medo da sanidade mental”. Na apresentação de caso que segue, demonstrarei, em termos práticos, o que eu quero dizer com essa afirmação aparentemente absurda. Não obstante, devo dar uma noção do que eu quero dizer antes de passar à apresentação do caso. Falando em termos gerais, poderia dizer que a humanidade, como um todo, do início da vida de cada um ao seu percurso, passa por um caminho, descrito por Melanie Klein, em 1946 2 , como a tentativa de se livrar, pela projeção 3 , do instinto de morte. O último, sendo a mais importante fonte de ansiedade com tendências suicidas e homicidas, deve ser colocado para fora, a fim de preservar a vida física, mesmo ao preço de uma renúncia à

2. Ver Notas sobre alguns mecanismos esquizóides, em A obra de Melanie Klein, cit. (V.3). 3. Como Spillius, eu não faço diferença entre projeção e identificação projetiva, como destaca- do em meu artigo Contributions and Limitations of Kleinian Theory to the Analysis of Psychotic Patients, publicado no livro Master Clinicians on Treating the Regressed Patient (Northvale, NJ: Boyer and Giovacchini/Jason Aronson, 1993, V.2).

vida mental, tornando o indivíduo um tipo de robô, embora geralmente disfarçado de um bom

vida mental, tornando o indivíduo um tipo de robô, embora geralmente disfarçado de um bom membro da comunidade e bem dotado intelectual- mente. Infelizmente, a comunidade psicanalítica também não está imune a tais processos, o que acarreta terríveis conseqüências. Mas esse não é o nosso assunto hoje. Embora possa sucumbir nas suas mais óbvias manifestações, a vida mental nunca é completamente destruída, e uma parte muito importante do paciente retém a consciência do que está acontecendo consigo. Essa parte está constantemente sujeita à projeção e/ou à repressão, ao longo da vida, mas essas tentativas nunca são completamente bem-sucedidas, e aparece uma grande quantidade de ansiedade toda vez que o instinto de vida tenta predominar na personalidade, levando-a à sanidade mental, isto é, ao reco- nhecimento da realidade mental que inclui as principais manifestações do instinto de morte: tendências suicidas e homicidas, ódio, inveja, etc. Entre as tentativas de negar a vida mental estão as crenças religiosas e/ ou ideológicas, práticas mágicas como astrologia, previsões do futuro e crendices espiritualistas, o recurso às drogas, quando oficialmente aceitas ou não, como medicamentos psiquiátricos ou bebidas alcoólicas, sucesso financeiro ou intelectual superficiais, doenças físicas etc. Essas negações impedem a evolução da posição esquizoparanóide para a posição depressiva, com suas principais características: integração, amor, senti- mentos de culpa, gratidão e processos reparadores. A vida pode ser vista como uma constante oscilação entre a posição esquizoparanóide e a posi- ção depressiva, como foi destacado por Bion na totalidade de seu trabalho (PE PD). A saída para essa luta é, geralmente, o que Steiner denomina organizações patológicas, isto é, um arranjo para manter tudo “sob contro- le” e evitar qualquer turbulência mental derivada da tendência à sanidade. Não obstante, a parte sadia da personalidade eventualmente toma o poder, despertando muita ansiedade. É essa parte da personalidade, por menor que seja, que traz os pacien- tes para a análise. Em outras palavras: os pacientes buscam análise quando as organizações patológicas falham. Eles procuram o analista por dois

palavras: os pacientes buscam análise quando as organizações patológicas falham. Eles procuram o analista por dois
palavras: os pacientes buscam análise quando as organizações patológicas falham. Eles procuram o analista por dois
palavras: os pacientes buscam análise quando as organizações patológicas falham. Eles procuram o analista por dois

motivos contraditórios: a parte sadia almeja a integração, a reparação, ex- perimentar culpa e reconhecimento da verdadeira vida mental; a parte do- ente busca um conluio para restaurar a organização patológica prévia e recobrar uma falsa tranqüilidade. O analista deve estar consciente dessas tentativas contraditórias e manter-se tranqüilamente perseguindo a verda- de, por mais terrível e mentalmente dispendioso que isso possa ser. Na minha opinião, uma das maiores tarefas do analista é reassegurar ao pa- ciente que o que ocorre com ele, ainda que possa ser muito ameaçador, é o desenvolvimento natural de um caminho para a sanidade e origina-se de fontes inconscientes: ódio, inveja, impulsos de morte, que devem ser ela- borados a fim de obter sanidade. Nos últimos anos, após minha última (e terceira) análise, eu passei a falar aos pacientes sobre minha experiência pessoal de enfrentar o mesmo problema. Estou ciente de que isso será visto como um acting out não- ortodoxo de minha parte. Entretanto, eu penso que isso tem ajudado muito, e meus pacientes também. Eu não dou detalhes de minha vida pessoal ou de meus problemas mentais, mas enfatizo aos meus pacientes que minha condição humana não é muito distante das suas. Eu costumo destacar que a diferença entre nós é que eu já me analisei, e não que eu tenha qualquer qualidade mágica. Essa atitude ajuda os pacientes a passarem por situações de grande ansiedade, sabendo que a pessoa que os está ajudando sofreu o mesmo processo no seu devido tempo. Após essa breve introdução, passarei a apresentar o caso.

Após essa breve introdução, passarei a apresentar o caso. O paciente, a quem eu chamarei de

O paciente, a quem eu chamarei de F., é um próspero empresário de 60

anos que possui e dirigi uma importante firma de construção. Ele estava há

14 anos em tratamento psicoterápico, duas vezes por semana, associado à

medicação psiquiátrica, devido a uma grande ansiedade, a sintomas obses-

sivos compulsivos e a manifestações maníaco-depressivas. Está casado há

40 anos e tem uma filha e um filho. O filho seguiu a carreira de engenheiro,

como o pai, mas é CEO (Chief Executive Officer) de uma grande empresa

em outro país. Sua filha lhe deu quatro netos, com os quais ele tem uma

em outro país. Sua filha lhe deu quatro netos, com os quais ele tem uma profunda ligação. Nasceu em uma família judia, pobre, que emigrou da Europa Oriental para o Brasil nos primeiros anos do século XX. Foi criado em um bairro de classe média baixa. Quando ele tinha três anos, seu pai morreu em um acidente. Após a sua morte, ele e seus dois irmãos costumavam dormir na cama da mãe até ela se casar de novo, quando F. tinha 10 anos. Quando ele tinha 18, seu padrasto morreu. F. o odiava e sempre desejou a sua morte. Lembra-se de como ficava furioso quando o via deitado na cama com sua mãe.

Como engenheiro, ele trabalhou, por 15, anos em um departamento de obras públicas do governo. Após, junto com seu irmão mais moço e com um outro sócio, fundaram a empresa de construção citada acima, que foi muito bem-sucedida. Nos últimos 24 anos, ele teve vários episódios de grande ansiedade, que eu suponho terem sido surtos de sanidade do tipo que eu defini acima. Todas essas rupturas da organização patológica prévia foram compreendi- das como episódios maníacos e assim foram tratados, com medicamentos e tratamento comportamental. O último episódio foi tão terrível que nenhu- ma dessas medidas conseguiu ajudá-lo, e, finalmente, ele foi encaminhado a mim. É interessante destacar que o colega que o encaminhou me telefo- nou no sábado pela manhã, o que não é comum, perguntando-me se eu poderia ver, imediatamente, um paciente que estava muito mal. Eu respon- di que sim, mas F. ligou somente na segunda-feira pela manhã para o meu consultório, porque havia passado o fim de semana em sua casa de campo, nos arredores da cidade, onde não conseguiu dormir e sentiu muitas dores físicas. Sua esposa teve de voltar dirigindo porque ele foi incapaz de fazê- lo, pela primeira vez em sua vida. Na primeira entrevista, ele estava tão agitado e incoerente que, quan- do nosso tempo esgotou, eu tive de sugerir que ele voltasse mais tarde, no mesmo dia, porque havia sido impossível compreender qualquer coisa que ele estava tentando me contar e, acima de tudo, de chegar a algum acordo

sido impossível compreender qualquer coisa que ele estava tentando me contar e, acima de tudo, de
sido impossível compreender qualquer coisa que ele estava tentando me contar e, acima de tudo, de

de tratamento. Eu me limitei a escutá-lo e a observá-lo caminhando pelo meu consultório e sugeri uma nova entrevista depois de meu último horá- rio de atendimento à noite, quando ele veio um pouco mais calmo do que na primeira vez. Ao contar sua história, uma de suas primeiras frases foi: “[Com um riso nervoso] Você sabe, depois de tantos anos construindo edifícios resi- denciais e comerciais estou construindo agora uma catacumba! Você acre- dita? Uma catacumba, e uma catacumba cristã!!! E eles, de uma organiza- ção católica, me escolheram, um judeu!!!” (Ele explicou que era um monu- mento muito alto, em forma de obelisco, em uma cidade próxima, uma espécie de templo para guardar relíquias de uma ordem monástica, o que incluía ossadas.) Então eu lhe disse: “O senhor está construindo um cemitério para en- terrar a si mesmo assim que ele fique pronto; o senhor está achando que a sua morte é uma coisa inexoravelmente iminente. Ao mesmo tempo, o se- nhor está preocupado que esse local não seja considerado pelo seu povo como um lugar sagrado para ser enterrado”. Ele olhou para mim espantado, mas se acalmou um pouco e relaxou na poltrona onde ele estava sentado de um modo muito tenso até então. Ele disse: “Você quer dizer que eu quero me matar? Você sabe, eu nunca pensei nisso, mas, quando fico ansioso, sempre peço a Deus que tire minha vida imediatamente. [pensativo] Você acha que eu posso fazer isso, quero dizer, cometer suicídio?” [de novo, agitado] E a minha família? Seria um desas- tre!!!” Eu disse: “Não estou falando de idéias suicidas conscientes, mas, como o senhor disse, pede a Deus para fazer isso, o senhor está projetando em Deus seus próprios desejos. Por outro lado, quando fala de sua família, o senhor não está levando em consideração o fato de que não estaria vivo para sofrer tal desastre, eles estariam”. F.: “Você acha que eu seria tão filho da puta assim? Sim, eu penso que eu seja. Você sabe que às vezes, quando eu me sinto excitado, eu prefiro chamar uma garota de programa ou me masturbar do que ter relações com

a minha mulher? Pobre coitada, ela faz qualquer coisa que esteja a seu alcance para

a minha mulher? Pobre coitada, ela faz qualquer coisa que esteja a seu alcance para me ajudar, e é assim que eu retribuo a sua ajuda!!! Eu sou um filho da puta desses, sim”. Eu: “Sim, o senhor é como eu e todas as outras pessoas: nossas mães foderam com nossos pais para engravidar a fim de nos dar vida, e o senhor sente que é um filho da puta porque, na sua fantasia, devia ter vindo ao mundo sem qualquer relação sexual, como está evitando com sua mulher. Garotas de programa não são para engravidar, é só um ‘assunto profissio- nal’, algo parecido com o que o senhor está tentando ajeitar comigo agora”. Então, sintomaticamente, ele me olhou e me perguntou sobre meus honorários!!! Não pude conter meu riso e nem ele, e, então, tivemos o pri- meiro momento de descontração de nossos primeiros encontros. Numa certa altura da entrevista, quando uma decisão tem de ser toma- da, e antes que cheguemos a um acordo final, eu sempre dou ao paciente, em termos não-técnicos, um breve resumo de minha avaliação do caso, incluindo um relato das perspectivas da análise de acordo com a visão da- quele momento. Se eu prevejo dificuldades transferenciais no futuro, não as escondo do paciente, a fim de fornecer-lhe informação relevante para tomar sua própria decisão. Portanto, eu disse a F. que, em minha avaliação daquele momento, deveríamos contar com um tratamento muito difícil. Que ele estava tentando abrir os seus olhos após anos de cegueira, e, embo- ra isso fosse uma tendência muito forte, deveríamos esperar por uma pode- rosa oposição dentro dele, que poderia também ser projetada em pessoas de sua família, a fim de fazer qualquer coisa para tirá-lo da análise; tam- bém, que eu não podia fazer milagres, que eu só tinha a oferecer um cami- nho muito longo e difícil até que ele pudesse sentir resultados consistentes. Combinamos honorários e horários e iniciamos a análise no dia se- guinte. Devo dizer que, apesar de saber que ele era rico, aceitei um preço menor porque alegava estar falido. Na medida em que a falência mental foi sendo interpretada, passou, espontaneamente, a me pagar honorários com- patíveis com sua renda e patrimônio. Na primeira sessão, ele voltou, de novo, muito ansioso e me contou

com- patíveis com sua renda e patrimônio. Na primeira sessão, ele voltou, de novo, muito ansioso
com- patíveis com sua renda e patrimônio. Na primeira sessão, ele voltou, de novo, muito ansioso

que havia tido uma uretrite, muito dolorosa, e que também estava sofrendo de hemorróidas desde a última semana, também terrivelmente dolorosas. Havia se submetido a uma ressonância magnética da parte baixa do abdô- men, especialmente da genitália, porque “alguma coisa estava errada lá”, mas não se encontrou nada orgânico. Eu interpretei: “O senhor está com medo de que, vindo a este analista/ garota de programa, um de nós vai foder com o outro: se o senhor vai me foder com o seu pênis ou se eu foderia em seu ânus é indiferente, e ambos são dolorosos. Mas o senhor está realmente dizendo que tem de introduzir o seu material em minha mente, esperando que eu seja capaz de introduzir minhas interpretações na sua, e isso é mais doloroso ainda, porque repre- senta uma relação mental, e não sexual, como está acostumado.”. F: “Você está insinuando que eu tenho desejos homossexuais? Eu nun- ca tive! [depois de poucos segundos] Bem, eu tive brincadeiras homosse- xuais com um primo mais velho na infância, e ele penetrou em meu ânus, mas eu não gostei e abandonei isso. Eu havia esquecido disso e nunca mais tive qualquer outro relacionamento homossexual em minha vida”. Então, ele se lembrou, com dor, de que estava tendo interesse sexual por sua filha. Toda vez que ele a toca, ele tem uma ereção, e uma vez quase tentou agarrá-la, mas conseguiu conter-se, envergonhado. Levantou-se, então, do divã e me perguntou: “Você acha que eu posso fazer isso, quero dizer, eu não sou um caso perdido, você sabe, alguém que tenha de ser mandado a um hospital psiquiátrico?” Eu disse: “O senhor quer que eu concorde consigo e chame um psi- quiatra para mandá-lo a um hospício para sempre, mas eu não vou fazer isso; eu acho que o senhor não é nada mais do que um ser humano que sofre de sentimentos humanos comuns, e eu lhe ofereço o pior: analisar esses sentimentos em profundidade, a fim de assumi-los como seus e elaborá-los”. F.: “Por que você diz o pior?” Eu: “Porque é uma jornada muito longa, que envolve sofrimentos para poder sair da situação anestesiada na qual o senhor se colocou durante toda

a sua vida. O modo mais simples seria recorrer de novo à anestesia, como a

a sua vida. O modo mais simples seria recorrer de novo à anestesia, como a

medicação psiquiátrica”. F.: “Essa é a palavra que eu sempre usei, anestesia; é assim que eu sempre me senti, e G. [o último terapeuta] me ajudava a ficar nessa situa- ção. [muito ansioso de novo] O que eu farei hoje à tarde, quando terei de dirigir uma importante reunião com as autoridades municipais para decidir sobre o monumento? É difícil, porque é um conceito arquitetônico novo, muito alto, empinado!” Eu: “Bem, o senhor está tentando me colocar na mesma situação em que G. ficava: cuidar de seus negócios em seu lugar, isto é, deixá-lo livre de qualquer responsabilidade sobre a sua vida. O senhor tem de tomar uma decisão entre viver ou ir ao cemitério para se enterrar. Ao mesmo tempo, está tentando introduzir dentro da minha mente toda a sua ansiedade a fim

de se ver livre dela e de evitar que seu pênis fique empinado, ser potente!” F: “[Riu da minha última afirmação] Você não pode me ajudar a deci- dir sobre esse assunto? Oh, eu acho que você não pode, eu devo ir lá e fazer como eu puder”. Eu: “Não é uma questão de dever, mas de fazer uma opção: o senhor pode ir e cuidar da sua potência sexual e das responsabilidades da vida, ou pode ficar em casa e deixar que os outros sejam potentes, eretos, como está tentando fazer comigo. A opção é sua”. No dia seguinte, ele chegou me contando que havia ido àquela reunião

e que tudo correra bem, mas que ele ficara muito ansioso e que seu estado

emocional era visível. Sua filha, que também estava presente, lhe disse que ela e a sua mãe estavam desesperadas com o seu estado, e que se ele não pudesse cuidar de seus deveres, seu filho viria do exterior e o substituiria. Finalmente, à noite, seu filho lhe telefonou com o mesmo propósito. F.: “Você vê, minha família está desesperada, meu filho virá ao Rio e me substituirá na empresa, o que eu posso fazer? [Ele estava perturbado e agitado] Eles estão insistindo também para que eu vá a um psiquiatra que me receite remédios”. Eu: “Se o senhor se mostra impotente, seu filho e sua família farão

vá a um psiquiatra que me receite remédios”. Eu: “Se o senhor se mostra impotente, seu
vá a um psiquiatra que me receite remédios”. Eu: “Se o senhor se mostra impotente, seu

uma conspiração para castrá-lo e para o seu filho tomar o seu lugar na cama de sua mulher, como o senhor acredita que tenha acontecido quando o seu pai morreu e o senhor e seus irmãos tomaram o lugar dele na cama de sua mãe. O senhor provavelmente se sentiu muito excitado, mas também cul- pado e ameaçado”. Depois de um breve silêncio, ele tentou prosseguir, relacionando as circunstâncias externas presentes, e eu chamei a sua atenção para aquele silêncio, quando provavelmente fizera alguma associação com a interpre- tação. Ele concordou e disse:

F.: “Eu tive uma recordação. Eu nunca fiquei excitado com a minha mãe, mas com a minha tia sim, a irmã mais moça dela; quando eu dormia com ela, eu tocava suas coxas com o meu pênis e tinha ereções que me deixavam muito amedrontado, mas também extremamente excitado”. Eu: “Como o senhor me contou que está acontecendo agora com a sua filha”. F.: “Sim, é terrível; eu sou um bastardo sexy, não sou?” Eu: “O senhor está tentando expiar a sua culpa induzindo o seu filho a fazer o movimento inverso no presente: castrá-lo e substituí-lo. Desse modo, tenta evitar se defrontar com seus sentimentos de culpa e de fazer uma reparação real dentro de si. Uma outra maneira é através de medicação psiquiátrica: voltar ao estado anestesiado no qual o senhor viveu até agora”. F: “Oh, não, eu não quero aquele estado de novo. Mas eu acho que preciso de alguma medicação para ficar mais calmo e enfrentar as dificul- dades atuais. A análise é um longo processo, há coisas que não podem esperar!” Eu lhe disse, então, que eu não era contra a medicação, que eu achava que ele devia fazer o que fosse melhor para ele, e que a mim cabia analisar qualquer decisão que ele tomasse. Ele saiu aliviado. Um fragmento do início da sessão seguinte: ele entrou no consultório muito angustiado, assustado e disse, antes de deitar no divã:

F.: Desculpe, mas eu lavei as minhas mãos e usei a toalha, eu esqueci de usar o papel higiênico para secar as minhas mãos e ainda estou com

aquela uretrite rebelde. Você se lembrará de trocar a toalha logo que eu sair, por

aquela uretrite rebelde. Você se lembrará de trocar a toalha logo que eu sair, por favor?” Eu: “O senhor está assustado que eu possa me contaminar com os seus sentimentos, com a sua ansiedade, com as suas fantasias masturbatórias, por temer que eu me deixe tomar por essas terríveis partes de sua mente projetadas em mim, como acontece à sua família e a outras pessoas. Entre- tanto, essa é a única maneira de termos um trabalho proveitoso. De modo diferente dos outros relacionamentos, o senhor colocar isso à força dentro de mim é uma parte importante de nosso vínculo. Cabe a mim saber o que fazer: é a isso que eu chamei de relação mental na primeira sessão”. F.: [Muito angustiado] “Eu nunca tive uma relação real com ninguém, [desesperado agora] eu sempre ‘julguei’ os outros como se eu fosse, quem sabe, um Juiz do Supremo, talvez. [Eu interrompi: um deus, talvez] Sim, sim, sempre ‘olhando de cima’ para os outros! E eu não era nada! [depois de uma pausa] Heitor, eu sou um blefe, um grande blefe”. Eu: [Como eu já sabia, ele era um jogador de pôquer, e eu também já havia sido.) “O senhor apostou não tendo nenhum jogo, mas nunca ne- nhum jogador pagou para ver as suas cartas, e, então, o senhor é um ‘blefe como vencedor’: nenhuma carta, mas ganhando muito dinheiro, sentindo- se muito bem e vendendo essa imagem aos outros, até que recentemente o senhor mesmo deu uma olhada em suas cartas, para dentro de si, e não viu nada, um vazio, e ficou desesperado, e por isso me procurou”. F.: “Eu sempre fui o presidente daquelas instituições, você sabe, mes- mo das cristãs como eles estão me pedindo de novo para esse cemitério. Imagine, um judeu como o salvador da humanidade, incluindo os goyims!!! 4 ” Eu: “Houve uma vez um judeu que falou aos judeus e aos goyims da mesma forma ”, F: “Jesus!” Então, nós iniciamos a análise de um poderoso delírio onipotente que estava disfarçado em uma “pessoa normal” e também em um “pobre sofre-

4. Nota do tradutor: entre os judeus, designação dada ao indivíduo ou povo não-judeu.

e também em um “pobre sofre- 4. Nota do tradutor: entre os judeus, designação dada ao
e também em um “pobre sofre- 4. Nota do tradutor: entre os judeus, designação dada ao

dor desesperado”, que vinha a ser mais um blefe que ele estava tentando repetidamente me convencer de que ele era. É claro que estavam presentes grande ansiedade, desespero, desesperança, sensação de vazio, mas é pre- ciso ficarmos cientes sobre em que extensão esses sentimentos reais pode- riam ser usados para enlouquecer e desesperar o analista, e fazer o paciente desistir da análise e recorrer a uma relação social com o analista ou procu- rar um psiquiatra, a fim de recuperar a organização patológica prévia. Eu não quero passar a idéia de que, interpretando desse modo, a análi- se se torna mais breve ou mais fácil, mas só que essas primeiras compreen- sões, que eu não coloco como insights da parte do paciente (levará anos para chegar lá), fortalecem em alto grau a relação transferencial desde o início da análise e, em um grande número de casos, ajudam a evitar impasses e interrupções bruscas de tratamento. A análise de F. está agora no quarto mês. O material que ele produz se apresenta cada vez mais na forma de associação livre, os sentimentos persecutórios na transferência diminuíram a um grau aceitável, a resistên- cia ainda é forte, mas acredito que a relação comigo está crescendo na dire- ção de estabelecer uma sólida aliança terapêutica.

ção de estabelecer uma sólida aliança terapêutica. De maio de 1999 até o presente momento, setembro

De maio de 1999 até o presente momento, setembro de 2002, a análise prossegue sem soluções de continuidade. O paciente é assíduo, pontual e, sempre que precisa faltar, tenta conseguir outro horário. Somente as faltas por ausência da cidade não podem ser compensadas, porque a freqüência é de cinco sessões semanais. Durante um breve período, fez uso de medicação tranqüilizante, aban- donada por sua própria iniciativa. Fez significativos progressos mentais, entre os quais: aumento de tolerância à frustração, com diminuição expres- siva de acting outs; maior aceitação da condição humana, inclusive de que vida gera ansiedade mesmo; capacidade de manter mais tempo a atividade mental, mesmo submetido a grandes ansiedades; a relação de confiança comigo aumentou sensivelmente, embora o seu corolário, a dependência, o

decepcione muito. Por exemplo, sempre que algum passo evolutivo é dado, as defesas maníacas onipotentes

decepcione muito. Por exemplo, sempre que algum passo evolutivo é dado, as defesas maníacas onipotentes tomam a frente e levam-no a se perguntar se, então, já não precisa mais de análise. Eu apenas dou uma risadinha e nada digo. Pouco depois, volta a angústia, e ele fica muito decepcionado. O recurso à racionalidade também diminuiu, e já aceita melhor o contato com seu inconsciente. Como decorrência do reforço do Ego (estrutura), suas relações exter- nas também melhoraram: voltou a gerir seus negócios e a ter relações se- xuais preferencialmente com sua esposa. Também a diminuição da ansie- dade tem permitido que complete certas tarefas que antes ficavam inter- rompidas pela “pressa”. Um exemplo disso é que não conseguia usar o fio dental e, às vezes, até mesmo não passava pasta na escova de dente pela necessidade de terminar depressa, sem que tivesse absolutamente nada para fazer depois. Os impulsos suicidas vieram à tona, como eu havia percebido e inter- pretado já na entrevista inicial, e se manifestavam, entre outras coisas, pelo fato de ter um carro de luxo, porém velho, com o sistema ABS pifado e sem conserto, e, como andava muito em regiões serranas em volta do Rio, esta- va sempre correndo risco de vida, às vezes seriamente. Os aspectos homos- sexuais, também surgidos desde o início, revelaram-se através de fantasias mais ou menos conscientes, motivando a busca freqüente de prostitutas, através das quais se aliviava. Também a idéia de ser Cristo veio a se mani- festar como um forte delírio de grandeza de ser o Eleito entre os Eleitos e pelo uso que fazia da análise para “entender e ajudar a Humanidade”. A generalização e vulgarização das interpretações têm sido muito difíceis de reverter, pois, para tal, terá de aceitar que é ele quem precisa de tratamento e se submeter aos meus conhecimentos, os quais ele nunca vai poder ad- quirir, mas tão somente conseguir entender a si mesmo melhor. Certa vez, quando já estávamos bem adiantados no entendimento do seu delírio, ele me disse: “Heitor, Moisés é fichinha perto de mim”, mas já visivelmente como blague e bastante aliviado de poder brincar com suas idéias de gran- deza.

perto de mim”, mas já visivelmente como blague e bastante aliviado de poder brincar com suas
perto de mim”, mas já visivelmente como blague e bastante aliviado de poder brincar com suas

Muito trabalho resta a ser feito, mas a experiência com este e outros casos cada vez mais me convence de que as interpretações precoces, desde o início, facilitam, em muito, a tarefa e ajudam a evitar recurso a medica- ções psiquiátricas, tratamentos de família, contatos de familiares com o analista, etc. Quanto a este último ponto, devo dizer que, na única vez que sua filha me telefonou, no meio da tarde, fato que freqüentemente ocorria nos tratamentos anteriores, eu não respondei ao recado gravado e, na ses- são seguinte, disse ao paciente que não respondera e jamais iria responder, porque eu entendia que essa indesejável interferência era resultado de ten- tar extravasar a sua angústia para dentro dos familiares e que só nas sessões dele é que sua angústia poderia ser adequadamente tratada.

dele é que sua angústia poderia ser adequadamente tratada. Caso clínico; Interpretação; Processo psicanalítico;

Caso clínico; Interpretação; Processo psicanalítico; Realidade psíquica.

Processo psicanalítico; Realidade psíquica. Clinical case; Interpretation; Psychoanalytic process;

Clinical case; Interpretation; Psychoanalytic process; Psychic reality.

Interpretation; Psychoanalytic process; Psychic reality. Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico;

Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico; Realidad psíquica.

Psychoanalytic process; Psychic reality. Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico; Realidad psíquica.
Psychoanalytic process; Psychic reality. Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico; Realidad psíquica.
Psychoanalytic process; Psychic reality. Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico; Realidad psíquica.
Psychoanalytic process; Psychic reality. Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico; Realidad psíquica.
Psychoanalytic process; Psychic reality. Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico; Realidad psíquica.
Psychoanalytic process; Psychic reality. Caso clínico; Interpretación; Proceso psicoanalítico; Realidad psíquica.