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FUNDAGAO EDITORA DA UNES® Presidente do Conselho Curador Jos Carlos Souza Trindods Diretor Presidente José Casto Marques Neto Assessor Editorial aie Hernoni Borin Guticra onsen Eaitovial Acodsmico Anlonio Celio Wagner Zanin setonio de Padua Pithon Cyrino Benedito Antunes es Erivany Fantinat sabel Moro FR Loureiro Specie dlr npn co pm aoe paode apeaelignest vl amen a ‘Shu cate eco cae tdi e pein Water Benoa “5 Ventos do pragresto: @ universidede edminisrade Diante da escalada do “progresso" (entendicdo como ‘organizacao administrativa e adminisirada da universida- de), vem erguendo-se uma barreira para conté-la ¢, se possivel, reverté-a, Essa barreira € a idéia de uma univer- sidade democratica Por toda parte tém surgido, entre professores, estu- antes € funcionérios, propostas € pritices visando & de- mocratizagao da universidade. Do lado dos professores, 0 esforcos tém-se concentrado em duas direcdes princi- pais: 0 forsalecimento das associagdes dacentes como po- der de pressio e 0 veto ante a burocracia universitaria, ¢a luca pela diminuigio da autoridade hieréequica pelo au- mento da representacio docente, discente e funcional ‘nos Orgios colegiados e nos centros de decisto, Por meio da pressio e da reivindicagio por maior re- presentagio, sobretudo para os graus mais baixos da car- reira, os professores tém-se empenhado pelo direito de conhecer e controlar 0s orgamentos universitirios € na defesa da liberdade de ensino e pesquisa, denunciando a triagem ideol6gica ea desvalorizacao do trabalho docen- (lo pelos crtérios da quantidade, Assim, contra a burocracia administrativa, temos proposto 0 re- forco dos parlamentos universitirios; con:a @ falta de au- tonomia eccndmica, a abertura e controle dos orgamentos e verbas; e, enfim, contra.a falta de autonomia cultural, berdade de ensino e de pesquisa € 0 citério da qualidade. Ante 0 autoritarismo reinante nas uriversidades, es sas propostas ¢ algumas de suas conquistas tém significa- do um avango politico e cultural imenso, causando preo- cupacdes nos administradores universitir-0s, que véem af ‘uma ameaga ao seu poderio. O que nao deixa de set sin- tomético, pois, quando bem analisadas, nossas tentativas democratizantes nao ultrapassam 0 quacic das exigencias de uma democracia liberal! De fato, nossas propostas no vao além clo quadro li- beral, na medida em que temos tido em mira uma demo- cratizagio visando a transformago dos parlamentos uni- 65 Esertos sobre o universidade versitirios pelo aumento da representagio, mas nao chegamos a discutiro significado do grande obsticulo & democricia e que é a separacio radical entre direcdo € execugtio, Quereios aumentar a representacio nos 6 Bios de poder ja existentes, quecemos deles patticipar, mas em nenhum momento temos posto em diivida sua necessidade e legitimidadle, Por outto lado, temos defen- dido a liberdade de ensino € de pesquisa como defesa ca liberdade de opiniio (o que, neste pais, é uma tarefa gi- ‘gantesca, diga-se de passagem), de modo que a universi- dade € defendicla por nés muito mais como espaigo priblico (porque lugar da opinizo live), do que como coisa piibi- cao que suporia uma anilise de classes). A universida- de, 5e fosse entendida como coisa publica, nos forgatia 2 compreencler que 2 divisto social do trabalho niio exclui uma parte da sociedade apenas do espaco piblico, mas sim do direito & producto de um saber € da cultura dita letrada. Como coist pablica, a universidade no torna os proclutos mais rigorosos cla cultura letrada imediatamente isto seria reproduzir o ideal da gratificagao instantanea do consurnidor, propria da te- levisio ~ mas torna clara a diferenca entre o direito de ter acesso 2 produgo dessa cultura, € 2 ideologia que, em nome das dificuldades tedricas ¢ clas exigencias de ini io, faz dela uma questio de talento € de aptidao, isto &, um privilégio de classe. A idéia de democracia é constituida pela articulacao de algumas outras: pela idia de comunidade politica fun- dada na liberdade e igualdsde, pelas idéias de poder po- ular, confltos internos, elegibilidacle e rotatividade de governantes, Isso significa que uma politica e uma idleo- logia liberals s20, por definigao, avessas aos principios democriticos, cle modo que a existéncia de democracias liberais nao se deve a uma decisto espontines das clas- ses dominantes, mas A agio dla luta de classes, na qual as forgas populates obrigam os dominantes a esse tipo de regime. Nessa medica, a democracia liberal no € uma falsa democracia, mas também no € a nica realizacao 67 Ventos do progresto: a universidade odministrada democritica possivel. # apenas uma realizagto historica- mente determinada da democracia, A democraci liberal define ¢ articula de modo part- cular as idéias constitutivas da clemocracia, dando-lhes um contetdo determinado, Assim, a idéia de comuni de, que no conceito originsrio de democracia se define pela presenca de uma medida comum que torna os mem- bros da coletividace equivalentes — essa medida é a liber dade pela qual sera estabelecida 2 igualdade de condi- 025 na participacto no poder e na repartigao dos bens ~ € uma idéia invivel na sociedade de classes, dividida no apenas pelo conflto dos interesses, nas por diferencas que vio desde as retagdes cle produgio até a paiticipagio no poder € na cultura, Na democracia liberal, duas enti- dades deverio substituir « idéia de comunidade livre igual a Nacho € o Estado. A primeira é a face subjetiva da “comunidade” de origem, de costumes, dle teritério, pro- duzindo umta identificagio social que ignora a divisio das classes, A segunda € a face obietiva da “comunidade’, f- gurando sob forma imaginiria o interesse geral, acima dos interesses particulares. A liberclade seri definida pela idéia de independéncia, o que, na verdade, reduz sua de- finigao 20 direito a propriedade privadla, tinica a permitir a mo-dependéncia com relagio a outrem (portanto, os “clependentes” no sto livres). Essa icléia € incompativel com a de igualdade, evidentemente, pois 0 direito formal de todos & propriedade privada nao possui a menor viz bilidade concreta, uma vez que o sisterna social no seu todo funda-se na desigualdade de classe. A igualdade, entio, passa a ser definida pela propriedade privada do. corpo € pela relagio de contrato entre iguais (sendo to- dos proprietirios de seus corpos e de suas vontades). A. relacio contratual é encarada como uma realidade juride 2, € por isso a igualdade serd definida como igualdade perante a lei Os conflitos, por seu tumo, nao sendo real- mente confltos de interesses, mas de classes, nao podem ser trabalhados socialmente, sendo, entio, apenas rotini- 68 Escrtos sobre @ universidade zados por meio de canais institucionais que permitam sua expressio legal e, portanto, seu controle. As eleigdes, ar- ticuladas 3 idéia de rotatividade dos governantes, perdem seu cardter simbélico (isto &, de revelacio periddica da origem do poder, pois durante o periodo eleitoral o lugar do poder achando-se vazio revela-se como nao perten- cendo a ninguém, mas espalhado pela sociedade sobera- na), para reduzir-se & rotina de substituigao de governos (permanecendo o poder sempre ocupado). Enfir, a de- ‘mocracia liberal reforga 2 idéta de cidadania como direito a representagao, de mode a fazer da democracia um fe- nOmeno exclusivamente politico, ocultando @ possibili- dade de encari-la como social ¢ historica. A idéia de re- presentagao recobre a de participagio, reduzindo-a 20 instante periédico do vote. A liberdade se reduz.a de voz (opiniac) e voto, ¢ « igualdade, ao direito de ter a lei em seu favor e de possuir representantes. Num pais como o Brasil, de tradicgao Fortemente auto- ritéria, a democracia liberal sempre aparece como um ‘grande passo histérico e politico, toda vez que se julga poder implanti-la durante algum tempo. Por esse motivo, rho quadro da universidace, & perfeitamente compreenst- vel que a democratizacio permanega no contexto liberal Isso, porém, no nos impede de compreender uma possi- bilidade democratica pars além dos limites liberais. Nesse aso, precisariamos comecar compreendendo que @ de- mocracia nio é forma de um regime politico, mas uma forma de existéncia social. Compreendida sob esse fngu- lo, ela nos permitria perceber que o poder nao se restrin- ‘ge 2 esfera do Estado, mas se encontra espalhado pelo in- terior de toda a sociedade civil sob a forma da exploragio econdmica e da dominacio social veiculada pelas institu ‘Goes, pela divisdo social co trabalho, pela separagao entre proprietirios e produtores, dirigentes ¢ executantes. A democracia, entendida como democracia social ¢ polit- ‘ca, também nos permitiia perceber como as divisbes s0- ciais operam no sentido de privatizar cada vez mais a 7 Venios do progresso: @ univertidede administiode existéncia social, reduzindo progressivamente © campo das aces comuns ou grupais, restingind 0 espaco social 0 espago doméstico isolado (basta examinar o urbanismo contemporiineo para que essa privatizacio da vida salte 03 olhos), mobilizando periodicamente os individuos para melhor despolitiz4-los. Seria preciso, também, que retomiissemos o exame dla idéia de representagio antes de acoplé-la imediata- ‘mente & de participagao. O ponto de apoio da dominagio contemporiinea, sob a forma da administracio burocréti- ca ou da Organizagio, é a separagio operada entre dire- gio e execuglo em todas as esferas da vida social (a economia 20 lazer, passando pelas insttuigdes sociais como a escola, 0 hospital, o espa¢o urbano, os transpor- tes, as organizagdes partidrias, até 0 ndicle0 da produgio cultural). Assim sendo, a questo democritica, antes de ser discussio sobre 2 cidadania como direito 2 representacio, deveria ser a questo da concreticidade da propria cida- ania —trata-se do direito 2 gestdo da vida econdmica, so- ial, politica e cultural por seus agentes, A democracia social politica, fundada numa cidadania concreta que comega no plano do trabalho, € a passagem dos objetos sociopoli- ticos que nos tomamos A condigao de sujeitos histricos. Encarada dessa perspectiva, a democracia coloca na cordiem do dia o problema da violéncia, ist €, da vedug2o ‘de um sujet & condigao de coisa. Violéncia nao é viols- (0 da lei ~ pois, neste caso, nao poderiarios sequer falar ‘em leis violentas. Mas & a posicao, freqtiontemente sob a forma da lei, do diteito de teduzir um sujeito social a um objeto manipulivel. Ora, 0 que é a separigao entre diri- gentes e executantes senao 2 redugio instinicionalizada de uma parte da sociedade a condigao de coisa? E € aqui, actedito, que a universidade pode ser posta em questo. ‘Aoafirmar, anterlormente, que nossaslutas e propos- tas de democratizaciio nao vao além do quadro liberal, va minimizar a importincia dessas lutas € proposias, sobretudo quando se considera 0 contexto 7 Esctitos sobre @ universidade autorititio, mas visava apenas sugerir que com elas no chegamos a analisar a violéncia que nés mesmos exerce- ‘mos, freqientemente sem saber. Cotidianamente, como professores e pesquisadores, praticamos violéncia, e nos sa incapacidadle clemocratica & cada vez mais assustadora porque reforgada pela institaigio universitéria, interiori- zada por nés, Basta tomarmos duas situagtes (entre in eras outras) para que iss0 se tome perceptivel: a relagio peclagégica, transformicla em posse vitaicia do sabes, ¢as pesquisas comprometidas com a “Historia do vencedor” Quando examinamos a relaglo pedagégica na uni- versidade, nio encontramos razBes para regozijo, Nao se trata, equi, do autoritarismo proprio dos regulamentos universitérios, pois jf sabemos o que slo e para que sio. Trata-se do uso do saber para exercicio de poder, redu- zindo os estudantes 2 condicao de coisas, roubando-lhes © direito de serem sujeitos de seu proprio discurso, Longe de aceitarmos que 2 relacio professor-aluno é assiméti a, tendemos a oculté-la dle duas maneiras: ou tentamos © “diflogo” e a “participacao em classe”, fingindo nao haver uma diferenca real entre nds e os alunos, exacamente no momento em que estamos teleguiando a relagio, ou, en= ‘Go, admitimos a clferenga, mas nao para encarie-la como assimettia e sim como desigualdade justificadora do exer Cicio de nossa auorilacle, © que seria 2 admissio da assi- metrla como diferenga a ser trabalhada? Seria considerar Que o didlogo dos estudantes no € conosco, mas com pensamento, que somos mecliadores dlesse dislogo ¢ no seu obsticulo, Se 0 didlogo dos estudantes for com 0 sa- ber e com 2 cultura corporificada nas obras, e, portanto, com a préxis cultural, a relagio pedag6gica revelara que © lugar do saber se encontra sempre vazio e que, por esse motivo, todos podem igualmente aspirar a ele, porque nto pertence @ ninguém. O trabalho pedagégico seria, enti, rabalho no sentido pleno do conceito: movimento Para suprimir 0 aluno como aluno, a fim de que em seu lugar surja aquele que € 0 igual do professor, isto é, um ‘outro professor: Por iss0 0 didlogo no € ponto de partda, n Ventos do progresso: © universidade odminisrode mas de chegada, quando a assimetria foi superada e a igualdade foi instalada gragas 3 propria assimeteia. Seria preciso admitir que o lugar do professor é simbélico — € por isso sempre vazio, tanto quanto imaginirio—e por isso sempre pronto a ter proprietirios. Se nao pensarmos sobre ‘o-significado do ato de ensinar € de aprender, nao seremos capazes de pensar numa democtacia universitiria Se, por outto lado, examinarmos © campo de nossas investigagoes, também nao encontraremos grandes moti- vos de jabilo. Estamos comprometidos até 0 mago com o saber das classes dominantes. Se, nas dreas das ciéncias cexatas, esse compromisso aparece mediado, isto &, 0 teor das pesquisas esta condicionadlo aos financiamentos, no caso das ciéncias humanas 0 compromisso no possui se- quer 0 alibi da submissao financeita. A sociedade brasitei- ra, tanto em sua estrutura quanto em sua historia, tanto na politica quanto nas idéias, é descrta, natrada, interpreta- da € periodizada segundo cortes e visdes préprios da classe dominante, Esse aspecto se torn verdadeiramente dramético naqueles casos em que o “objeto de pesquisa” 6 4 classe dominada. Além de roubar-he a condigio de sujeito, as pesquisss watam sua hist6ria, seus anseios, suas revoltas, seus costumes, suas produgdes, sta cultura no continutem de uma hist6ria que, além de nao ser 2 dela, muitas vezes & justamente aquela histéria que o do- minado, implicita ou explicitamente, esti recusando, Em coutras palavras, os dominados penetram nas pesquisas Universitarias sob as lentes los conceitos dominantes, sA0 inclufdos numa sociedade que os exclui, numa histéria que 0s vence periodicamente € numa cultura que os rminui sistematicamente. Comparsas involuntarios dos do- minantes, 0s “objetos" dle pesquisa nfo tém hora e vez. no recinto da universidade. Se nao pensarmos nesses com promissos que determinam a prépria produgao univers tira, nossas discuss6es sobre a democratizacio se con- vertem num voto piedoso e sem porvir. n 3 Modernizagéo versus democracia' Se indagarmos se hé alguém satisfeito com a universi- dade na sociedade contemporaine, ¢ particularmente no Brasil, a resposta sera um sonoro “no”, Todavia, as insa~ tisfagdes no so as mesmas para todos. As grandes em- presas se queixam da formacio universitéia que nao habili- ta os jovens universitirias a0 desempenho imediatamente satisfat6rio de suas fungdes, precisando receber instrugo suplementar para exercélas a contento. A classe média ‘queixa-se do pouco prestigio dos diplomas e de carreiras ‘que langam os jovens diplomados ao desemprego © 3 competigo desbragada. Os trabalhadores manuais ¢ dos 1 Conferénca apresentada na 40! Revnito Anval da Sociedade Bras lei para 0 Progresto da Céncia (SBPC), Sto Paulo, 1261988, aa mesa redonda "0 futuro da uaiversidade braslein, sob coordena- fo da Prof. Dr. Lygia Chinn Moraes Leite. Fol orginalmente publicado na revista Tempe Social 0.2, 1989. 3 ModernizagSe versus democrede escit6rios, bancos € comércios queixam-se do elitismo das universidades, que jamais se abrem suficiente para recebé-los € formé-los, mantendo-os exdluidos das esfe- ras mais altas do conhecimento € das oportunidlades de ‘melhoria de condigio de vida € trabalho, Os estudantes se queicam da inutilidade dos cursos, da rotina imbecili- zadora, das incertezas do mercado de trabalho, da pouca relagao entre a universidade e os problemas mais pre- mentes da sociedade. Os professores estio insatiseitos com as condigdes de trabalho, de saléro, de ensino pesquisa, com a estupidez das maquinas burocraticas que cretinizam as atividades universitaras, submetendo-as a tituais desprovidos de sentido e de fundamento, com o auwtoritarismo das diregdes, @ heteronomia dos curriculos ‘€ a5 lutas mesquinhas pelo poder ¢ pelo prestigio. Dife- rentes, porque provindo de classes € grupos sociais dife- rentes, as insatisfacdes possuemn um porto em comum, isto é, a inadequacdo da universidade seja ante o merca- do de trabalho seja ante os anseios do conhecimento, seja ante as exigéncias sociais seja ante o desejo de mudanga de vida. Esse ponto comum, entretanto, rio pode apagar as diferengas, pois estas sto socialmente determinadas € delas emanam diferentes perspectivas sobre o sentido e (8 fins da universidade, e, portanto, incidem diretamente sobre projetos para sua reforma, E porque essas perspec- Aivas so pontos de vista de classes sociais, nfo hé como evitar a percepcao de seus antagonismas politicos técitos, Basta, para isso, observar a maneira como duas instituie (sOes caracterizaram a diferenga entre 2 perspectiva dos ‘que defendem a modernizacao da universidade € a dos que defendem sua democratizagio. Assim caracteriza a diferenca o jornal O Estado de S. Paula: “Os membros da comunidade universitéria no sto aderentes implicitos ou explicitos de am pacto social ‘genérico, que justificaria uma igualdade de direitos e res- lade no que diz respeito a geréncia da institui- ” Escrtos sobre o universidede 0. A universidade tem uma destinagao espectfica, vine culada & conservagio e ao crescimento do saber, que por si s6 lhe dé uma caracteristica peculiar, Professores € es- tudantes ocupam seus lugares como mestres e aprendi- 2e3, nos quadros das atividades-fim da instituicao, en- quanto os funcionétios se ocupam, genericamente, das atividades-meio. E entre os préprios professores hi os que ainda sdo aprendizes ... € os que jé atingiram uma posigao ensinante indiscutivel, atestada, precisamente, pela prépria idéia de carreira universitaria, baseada, 20 ‘menos ideaimente, em competéncia e maturidade” (Edi- torial de 9.121980 Por seu turno, o Geres (Grupo Executivo para Refor- mulagio da Educagto Superion, dlistinguindo entre *uni- versidade do conhecimento” e “universidade alinhada", caracteriza a primeira como responsivel por um projeto modernizador, “bascado nos paradigmas do desempe- ho académico e cientiico, protegida das flutuacdes de interesses imediatistas, sem inviabilizar contudo sua inte- Fagio com as legitimas necessidades da sociedade”, en- {quanto a segunda se caracteriza por “atividades (que] sic :meios para atingir certos objetos politicos para a socieda- de € cujos paradigmas sio ditados niio pelo desempenho académico dos agentes, mas pelo grau de compromisso politico-ideolégico com as forgas populares"? Essas caractetizagdes possuem um ponto em comum, qual seja, a diferenca das posigdes conflitantes, como i ferenca entre o conhecimento segundo paradigmas acadé micos € cientificos, de um lado, e, de outro, 0 desinteresse pelo conhecimento segundo esses paradigmas, numa un- versidade tida como meio para "compromisso politico-ideo- l6gico com as forcas populares”. Fazenclo passara diferen- 62 por duas grandes abstragbes —o jommal contrapde “con- 2 Apud Gwdoso, I. de A. R.A unversidade © power, Revita da Ut seridade ce So Pato (Sao Paulo) 6, p.59-7, jose, 1987. 3 idem, p64 75 Modernizoséo vertus damecrocio servagio e crescimento do saber" € "pacto social genérico ‘que justificaria uma igualdade de direitos e responsabili- dade", e 0 Geres contrapde “paracigmas de desempenho cientifico e académico” e "compromisso politico-ideol6- sgico com Forgas populares’ ~ a caracterizacao no nos explica o que seriam os termos por ela empregados. Nem, © pretende. A formulagao do Geres, por exemplo, no explica qual seria a diferenga entre “legitimas necessida- des da sociedade” ¢ “compromisso politico-ideol6gico com forces populares”, Estas nfo teriam necessidades le gitimas? Quem é a sociedade em que necessidades das Forgas populates no seriam legitimas? Mas, 0 que sto, “Forcas populares"? Essa caracterizacio, cujos termos vém sendo repeticas nos debates sobre a universidade, opera com vocabulitios diversos, encarregados, porém, de manter @ diferenga no plano das designagdes abstratas, ssem desenvolver-Ihes 0 significado. Essa abstragio opera de maneira muito precisa, pois o contraponto, sendo es- tabelecido entte saber e o compromisso politico-ideo- + 6gico, os oponentes surgem na cena previamente quali- ficados: alguns so sérios, responsaveis, produtivos & sibios, enquanto outros s20 ignorantes, irresponsiveis, improdutivos e sabidos. Essa qualilicacio prévia, na ver dade, desqualifica um dos lndos e anvla 0 debate Se preiendemos reabrir o debate, precisamos aban- onar as abstragdes em que foram langados os oponentes, ¢, para abandonar as abstracées, precisamos, antes de buscar o significado dos termos, avaliar como por que foram empregados. Jé observatnos que o motivo das de- signagbes € primariamente 0 de obter a desqualificagio, imediata de um dos interlocutores, mas testa verficar 0 modo como isso ¢ feito. Sugiro que esse modo pode ser esclarecido se tomarmos os termos desqualificadores como rétulos ou etiquetas ou como aquilo que, em portu- aus mais castico, chamamos de alcunba, Os oponentes si alcunhados de sabidos, populistas, assembleistas, cor- pporativistas, irresponsaiveis, baixo-clero incompetente. % Excrtas sobre © universidade ‘que € uma alcunha? Como opera? Por que parece aderit go alcunhado com a mesma forga e necessidade com que a cicatvi2 adere a ferida curad? A aleunha “improdutivos” “0 assunto & mais importante do que & primeira vista parece. £ é to sério nos seus resultados, como despre ‘vel nos processos de que se serve para atingi-los. Na maio- Fa dos casos so a8 aleunhss que governam 0 mundo. A historia da politica, da religito, da literatura, da moralidade fe da vida particular de cada um, & quase sempre menos importante que a histéria das alcunhas As fogueiras de ‘Smithfield eram atigades com aleunhas, € uma aleunia se- lava os portdes do carcere da Santa Inquisisio. As alcunhas sho 08 talismas e 08 Feitigas coligidos e acionados pela par- cela combustivel das paixbes € dos preconceitos humanos, ‘0s quais até agora jogaram com tanta sorte a partida ereali- zaram seu trabalho com mais eficiéncis do que a razio & ainda aio parecer fatigados da tarefa que tem tido a seu cargo. As alcuahas Sio a8 ferramentas necessirias e porti- com as quais se pode simplifcar 0 processo de causar ‘dano a alguém, realizanco 0 trabalho no menor prazo ‘com o menor niimero de embarsgos possiveis. Essas pala~ ‘yas ignominiosas, vis, desprovidas de significado real, iri= tantes e envenenadas, sto 0s sinais convenclonais com que se etiquetam, se marcam, se clasificam os virios compart ments da sociedade part regalo de uns e animadversio de ‘outtos, As alcunhas so concebidas para serem usadas ji prontas, conto frases Fits, de todas as espécies e todos os tamanhos, no atacado ou no varejo, para exportaglo ou para consumo intermo eem todas as ocasives da vi ‘que fii de curioso neste assunto € que, freqlentemente, tuma aleunha é sempre um termo de comparagio ou rela- 80, isto &, que tem o seu ant6nimo, embora alcunhs ¢ an- ‘Onimo possam serambes perfetamente ridiculos e insign ficantes .. A utlidade dessa figura do discurso é a seguinte 7 Modernizogbo versus demecrocia € publicapic? Sobretudo, perguntava-se qual o critério de confecsio de listas nas quais constavam nomes de pro- fessores com publicagdes, pois, se essas forem o critério da produgio académica, entao, € incompreensivel, pot ‘esse mesmo critério, a presenca numa “lista de improduti- ‘vos" daqueles que publicaram textos. Foi essa a indagago que recebeu resposta indireta e, por meio dela, podemos obter as respostas &s outras perguntas. Como obtivemos a resposta indireta? Recebendo ordem de enviar 2 reito- ria da USP, por intermédio do Servico Irter-Bibliotecas, listas de trabalhos publicados em 1967. © que essa ordem indica? Em primeiro lugar, que apesar das crticas feitas 20s procedimenios da universi- dade, que culminaram na publicagao da “ista dos impro- dtivas", e apesar dos pedidos de esclarecimento sobre 0 fato e a vecusa da diregdo universitiria em fornecé-los, a reitoria da USP no 36 possui critérios de avaliacéo, mas ‘05 conserva em segredo. Ora, no mundo contemporaneo hd apenas dois tipos de segredo: o segredo empresarial, para fins competitives, € © segredo militar, para fins beli- cos. Nao sendo a universidade uma empresa nem um ‘complexo militar, mas uma instituigio péblica destinacla A criagdo de conhecimentos ¢ & sua transmnissao, por que razio suas diregdes mantém secretos critéos de avaliagao ‘que deveriam ser duplamente pablicos; patlicos, enquanto do conhecimento dos avaliados; e pabliccs, enquanto in- formacio oferecica & sociedade? Se sto secretos € porque ‘ém finalidade competitiva - distribuigao de recursos para ensino e pesquisa ~€ finalidade "bélica® - destruig2o dos oponentes que desconhecerem as regres do jogo. Mas, em segundo lugar, essa ordem foi, no fim das contas, re- veladora. Com efeito, alguns professores fizeram relatérios de atividades e os encaminharam acs chamados Srgics competentes, celes recebenclo a declaragao de que 0s re- lat6rios eram incompetentes, pois no preenchiam os re~ quisitos estabelecidos pelo computador. Bite, ao que tudo indica, teria tido profunda crise de rejeigéo ao receber 0 80 Esertos sobre @ universidede indigesto alimento docente, Os inputs e outputs parecern ter tido uma formidavel crise de vomito. O computador vomitou resenhas, preficios, introdugées, edigoes criti- cas, tradugbes, artigos em colevineas. Por que os teria vor rmitado? Porque esses textos nao podem ser listados sob 0 nome de seus autores € sim sob 0 dos objetos do trabalho. ‘Assim, resenhas, prefécios, tradugdes, edigbes eritcas, in- trodugdes devem vir sob o nome do resenhado, traduzi- do, prefaciado, introduziclo, Se se tratar de artigos em co- letaneas, vitio sob o nome clo organizador da dita cuja Vejamos 5 curiosos resultados. Suponhamos que um de nés tenha escrito uma introdugio & obra de um poeta alemio do século XIX, ou escrito um preficio & obra de um romancista brasileiro contemporineo, sem vinculos com a universidade, ou resenhado 0 livro de um fil6sofo holandés do século XVil, ou feito a edigo critica de um ensaista brasileiro do século XX, ou, tendo participado de um col6quio na PUCRio, teve seu texto publicado pelos organizadotes do coléquio. Que acon- tecerd com essas publicagoes no catilogo de produtivi- dade da USP? Nele sairio como produtores uspianos 0 poeta alema0, 0 ilésofo holundés & 0 ensafsta brasileiro de ha muito falecidos; © romancista brasileiro sem vin- culos com a USP 05 colegas da PUC-Rio, organizadores da coletanea com os textos do simpésio. A lista de pro- dotividade da Usp, além de imbecil, pois nao mediria Aquilo que pretende medir — as publicagdes de seus membros ~ pode ser até ilegal ou criminosa, pois faz constar de seus trabalhos obras que nao foram produ das nela nem sob sua remuneragio ou sob seu financia- mento. Qual o efeito desse belo catélogo da produtivi- ‘dade? O reforco da alcunha de “improdutivos", que passa 2 ser feedback de si mesma ao receber 0 feedback dos inpuls-outputs do computador (@ haja’ onomatopéia para designar tudo isso...) Nao basta, porém, ficarmos com 2s crises nervosas do computador, pois alguém programou para to espeta- 81 Modernizagée versut democracio cular performance. Se conseguirmos captar 0 que movea Programagio, teremos um primeito fio para desmanchar © novelo da alcunha “improdutivos", © primeiro aspecto que impressiona nesse procedi- mento € o desinteresse cle quem “mede” ¢ *avalia® pelo ‘que os pxSprios universitirios possam entender por medi- a e avaliacao, Em particular, merece atengio o deslizamen- to da nocio controvertda de produgdo para a de produtivi- dade e a identificacio entre esta tliima e a quantidade de ublicagdes, destizamento incompreensivel quando se leva em conta a multiplicidade de atividades que os uni- versitrios realizam e das quais a publicagio € a menos apta A medida, uma vez que os autores estio sujeitos ou as decisdes do mercado editorial ou as dificuldaces e len- tidao das editoras universtirins, Assim, 0 primeiro trago da medida e da avaliagio via entre a rotina €.0 malabarismo, disso sendo prova o nivel de evasio nos cursos de humanidades ¢ a pouca importancia das pesquisas realizadas. Em outras palavras, as humanidades sio definidas como peso morto na universidade, como ugar da letargia ¢ do desperdicio. Visto que niio hd como propor para as humanidades sua perfeita adequacio a0 mercado de trabalho nem sua insergao deta nas forgas produtivas, o argumento acerca do baixo nivel eda itracio- nalidade das humanidades conduz.a uma >roposta preci- sa: corté-las ao maximo, para que sirvam zo minimo ne- cessirio, Esse corte méximo e esse uso minimo se concre+ tizam num projeto também determinado, qual sefa, o de distinguir com maior rigor ensino © pesquisa, deixar & universidade a tarefa do ensino ou da graduagio e trans- ferir para os chamados “centros de exceléncia” a pos- duagio € a pesquisa, centros exteriores 4 universidade, mas com ela conveniados.!* 14 Uma proposta que tem circulado um tanto slenciosemente ns USP ceoncerne 20 ensino das liaguas, Propée-se que sjam separadas do fensino de Meu, que tenham carter forementeinsirumental ara uso de outs areas, e que sejam redu2ides 2 graduacio, preva- Jecendo apenas aquela ioguas necessvas Bs demas reas de waba tho universivlo. Linguas clissicas, por exemplo, sariam minisadas ara cursos de flosofiae como preparagio par 3 pés-graduagio com Lxerarraclisia. Toca teri, coca lings eliterauras 108 Escrtos sobre © universidede Esse projeto, concebido & luz da produtividade e do rendimento e da adequacto 20 mercado de trabalho, traz «em seu bojo, no caso de universidades mais antigas, um outro projeto simulkaneo, isto €, 0 desmembramento das aculdades e dos institutos de humanidades em faculda- les e institutos separados, sob o argumento de que a se- aragio racionaliaa recursos ¢ poderes, avaliagdes e pro- ducio. No caso das humanidades, portanto, o projeto de modemizagio 2 fragmentacdo, pois esta favorece pro- cedimentos cle contabilidade e de rendimento, A universidade como supermercado Se fiz um percurso to longo & porque julgo que nao odemos discutir o tema da produgao e da produtivide- Ge universitirias, em geral, e das humanidades, em par- ticular, sem termos compreendido 9 contexio em que ‘em ters par prado ero lin da ean rs tvera cs diplnsomen pn lng asec tate op re No cao inc cs ea it ngundo o me teh dow be de on an aaa de Bons Soy ‘a0 pos plod cho ac denne eomapavveney to pts & cen pl, por seu time ede s eee pins pers no code strana le ce Ctra, sono ndwar poles "ae ih rl de ns ue po tr eo a0 poeta hig wmchont nes ern fo psa cs pena emma de sensor Nocao de i siete peer lus pass oene do co dc ends pep apace des adndo oh oa Cando pr gears cpeton amo 8 prc, hana» edna actus pees ‘scemi de pegs sobs eens de aap ace te vGindbaroenenfacs ens deeencn, cometen com aunventnde A ght rea cene nocasanengeey descents, hone opt, onenent oasn 109 Modernizacdo versus democracio essas expresses vieram 2 baila. Sem esse contexto, no podemos compreender por onde passam as dlivergéncias nas propostas de reforma universitiria. Ao iniciar este texto, disse que a insatisfacio generalizacla com a univer sidadle nao pode esconder as diferencas, cuja origem € social, ¢ que as propostas de reforma universitiria preci- sam ser encaradas & luz de a qual ou 2 quais das insatisfa- (Ges esto respondendo. As varias propostas de moderni- zagio respondem ~ quer seus autores gostei ou. nio disso — as insatisfagées das grandes empresas ¢ da classe média. Quanto mais nio fosse, bastaria examinar 0 léxico empregadlo por elas para percebermos quem slo seus in- terlocutores. Esse léxico € marcado por termos como eli- te, demanda, eficicia, readimento, competitividade, com peténcia, maturidade, E essas palavras designam o campo de pensumento que Ihes da sentido. Via de regra, 0 diag- néstico € comum 2 todas as propostas, tanto 2s que se di- zem modernizadoras quanto as que se dizem dlemocrati- zadoras. A diferenca entre elas passa pelos remédlios que receitam e é na hora ca receita que as primeiras introdu- zem as palavras produgio € produtividade. Ao faz8-l0, imputam 2s demais propostas seu antOnimo, isto é, a im- produtividade. £ dificil, num campo assim balizado, criti car e585 nogbes, pois estio conotads positivamente € seus ciiticos jé tém meia batalha percicla. Prova disso fol © episédio do "listio de improdutivos": respondemos provando que éramos produtivos, aceitandlo as regras do jogo porque os interiocutores, no caso a classe média lei- tora de jornais cus filhos so nossos estuckantes, i havia iposta vercade da produtividacle. Pessoalmente, cesagraca-me que gente empenhada assumido a § em melhorar a universidade considere que para fazé-lo € preciso tratar 05 oponentes, que também visam & melho- ria universitiria, como se fossem imbecis ou ches raivo- 505. Se 2 universidade lida justamente com a consttuiga0 los saberes ¢ sua historia, deveria estar acostumada, por dever do oficio, a encararas divergéncias como fecundas, no Esertoe sobre 0 universidade em lugar de traté-las como barbatrie, pois, como disseram varios fil6sofos, a barbérie € a multid2o tangida pelo medo ¢ vivendo na solidao, alimentando e sendo alimen- tada pelo édio, Instalou-se entre nés uma prética perver- sa, a da surdez. Hé, pelos campi universitirios, absoluta incapacidade para ouvir palavra alheia, darthe atenc&o, ‘medi-la, confrontar-se com ela. Ha muito poder, dinheiro €¢ prestigio em jogo, dirto muitos. Sem divida. A questio é saber se esse € o jogo que gostarlamos de jogar. Quan- do examinamos as proposias de democratizacio ~ que contém tantos equivocos quanto as da modemnizagto = ressalta uma preocupacao fundamental: redefinir 0 poder na universidade ¢ redefinir ensino e pesquisa a distancia do que foi imposto pela ditadura. Nao seria esta a primei- ra tarefa? As propostas de modemizagio criticam 0 pode- rio da burocracia, pretendem criar-Ihe um contrapoder, neutralizando-o, Todavia, esse contrapoder & concebido como o de ume elite de sabios, o que lanca o restante dos Uuniversitirios & margem das lutas antiburocriticas © & margem das decis6es da politica cultural, Essa margina- lizagdo tenderé a tansformar a elite de sébios numa nova burocracia ~2 palavra nfo é boa, mas no me agra- da sua irma, a tecnocracia ~ porque parte de um ps plo antidemocritico e oligaérquico, isto €, a confusio en- tre discernimento politico e conhecimentos técnicos para «a administracdo da universidade. £ esse perigo, ainda que confusamente, que percebe a proposta de democratizacto © por isso sua aparente dificuldade para contrapor-se & produtividade, pois a proposta de clemocratizacao deseja pérse & altura dle sua oponente garantindo-the ter igual di- reito a palavra © & decisio porque seus proponentes tarn- bém sto respeitiveis, isto produtivos. Essa é a armadi- tha do confronto num campo jé balizado por valores. Indaguemos, entio, par finalizar e propor nosso de- bate: 0 que seria a produtividade nas humanidades? Né- mero de publicacdes? Que nos déem, entio, gréficas € editoras universitirias, jé que nao podemos ficar & merce m Modernizag6e versus democrecie do mercado editorial, cujos crtérios nfo sio os nossos € ‘que nos deixariam altamente improdutivos. Mas publica- ‘goes traduzem verdadeiramente nosso trabalho? © me- Ihor que fazemos no leva décadas até que sintarnos va- ler a pena publicar? Que fazer com os anos de trabalho silencioso? Nao se traduziram nas aulas que ministramos, ‘nas conferéncias que pronunciamos? Como medir a pro- dutividade das aulas? Pelo nimero de alunos aprovados? Mas, € se nosso assunto for rido e diftel e grande nime- ro de estudantes desist de nosso curso? Nio vale nada 0 que pesquisamos e o que dissemos? Fala-se muito na eva- sio universitéria, tomada como uma das medidas para a produtividade (negativa, evidentemente). Mas alguém pesquisou quais so os estudantes que permanecem € por que permanecem? Alguém pesquisou por que estu- dantes escolheram determinados cursos ® descobriram seu engano? Lé-se numa das propostas de modernizacao que @ universidade no é 0 templo do sa>er, mas “uma espécie de supermercado de bens simbélicos ou culturais’ procurados pela classe média, Se a universicade for um su- permercado, entio, teremos uma resposta para os ertérios de produtividade. De fato, o que é um supermercado? E a versio capita- lista do paraiso tertestre. O jardim do Eden era o lugar onde tudo existia para 2 felicidade do homem e da mu- Iher, sem trabalho, sem pena, sem dor. Quando fazemos ‘compras num supermercado, as estantes de produtos ‘ocultam todo o trabalho que ali se encontra: 0 trabalho da fabricacio, da distribuigio, do arranjo, da colocacao dos precos. Ali estio como frtos no pomar, legumes € horta ligas na horta, a caga nos bosques e os peixes nos mates e ros, ou como objetos nascidos da magia de gnomos no- tumos, sob 0 comando de fadas benfazejas, Até chegar- mos caixa registradora para o pagamento... Ja observa- ram as brigas familiares nos caixas? A caixa registradora 0 fim do jardim paradisiaco € o tetornc & brutalidade do mercado. Se a universidade for um supermercado, en- nz Eseritos sobre o universidade to, nela entram os felizes consumidotes, ignoram todo o trabalho contido numa aula, num seminério, numa dis- sertago, numa tese, num aitigo, num livro. Recebem os conhecimentos como se estes nascessem dos toques mi- ‘gicos de varinhas de condo. E, no momento das provas, ‘ou querem regatear os pregos ou querem sair sem pagar ou abandonam 0 caitinho com as compras impossiveis, xingando os caixas. Nesse supermercado, a produtivida- de € flutuante; hi a dos empregados invisiveis que, a noi te, receberam as mercadiorias, puseram pregos e a8 colo- ‘caram nas estantes; hii a dos wabalhadores ainda mais lavisiveis que fabricaram ou colheram os produtos; hid a dos atravessadores ¢ a clos caminhoneiros que os trans- porta; ha a dos fiscais, dos caixas, dos supervisores, dos que est2o encerraclos nos escrt6rios; ha a dos proprietarios, competinclo no mercado; ¢ ha a do consumidor, calculada pelo seu salirio € pela quantidade e qualidade de bens Que possa comprar. £ assim a universidade? Se 0 for, nos- sa produtividade sera marcada pelo niimero de produtos que arranjamos nas estantes, pelo ntimero de objecos que registramos nos caixas, pelo ntimero de fregueses que saem contentes, pelo niimero de carrinhos que carega- ‘mos até os carros no estacionamento, recebendo até mes- mo gorjeta por fazé-lo, Mais clo que isso. Porque a univer- sidade no foi comparada as Fibrieas nem 3s bolsas de valores, nossa produtividade € bastante curiosa, pois num supermercado nada se produz, nele hi circulagao e distribuig’o de mercadlotias, apenas. Nossa produtivida- de seria improdutiva, em si, e produtiva apenas em rela- ‘20 2 outra coisa, o capital propriamente dito. ne 4 Vocagéo politica e vocacao cientifica da universidade’ Introdugéo No interior do tema geral "Universidade: ética ¢ cida- ania’, os reitores das universidades brasileiras me pro- puseram que discutisse sobre a dupla vocagao da uni- versidade, e julguei valer a pena lembrar que, antes de qualquer outta, 2 vocacio politica teve prioridade na cria- fo das universidades piilicas e privadas no Brasil. Sob trés aspectos principais, em momentos histéricos diferen- tes, essa Vocagao se manifestou: nas universidades pabli- cas criadas na primeira metade do século, a parti da vie sto liberal ¢, portanto, da idéia do saber desintesessado 1 Pale profeida por acai de 56 Reunio Peni co CRUB, eaiza dda em Manaus, de 29 23111993, Revisio, pla autos er novembro de 1953, Ongnatmente publead na revs Eetcozdo Basia, 2.31, 1-26, 198, ns Vocogao police @ vocagée ciantifiea de unversidade ou da nio-interferéncia reciproca entre Estado € Universi- dade, e Sociedade ¢ Universidade; nas universidades cria- das.a partir dos anos 50, no bojo da luta pela escola pabli- cca gratuita, inserindo a universidade no contexto do direito 2 educacao e & pesquisa aberta a tcdas as classes sotinis e capaz de oferecer 20 Estado quac-os para a am- pliagio da cidadania educacional; € nas universidades criadas a partir dos anos 70, no interior do campo autori- trio, com a fungio de realizar a tarefa estatal de controle e censura do pensamento, limitar 0 acesso 20 saber €, S0- bretudo, responder 5 necessidades da industria © das fi- rnangas, isto 6, da tecnologia e da economia Essa observagio inicial tem por objetivo indicar que, 20 falar na vocacio politica da universidade, estarei pen- sando mais na idéia de um projeto politico, proposto pela propria universiciade, pelo qual se definam moclos de in- sercao da universidade no campo politico, eno tanto nos projetos do Estado na crlagao das universicades. Compatibilidade entre as duas vocagées Penso que contamios com intimeros exemplos hist6ri- cos que apontam a compatibilidade enire a vocacao cien- tifica da universidade € sua vocagio politica. A relagio entre o saber e 0 poder nos ven de um exemplo clissico @ de um contemporaneo. O exemplo classico € o dos gre~ 08. Com 0 nascimento da democracia, 2 educagio aris- tocritica de formagio do guerreiro belo e bom, Formado pela poesia de Homero e Hesiodo e pelo aprendizado a gindstica € da danga, cedeu lugar ao ideal da formagaodo Cidadlo que pudesse exercet na assembléia seus dois di reitos fundamentais - 0 da isonomia eo da isegoria. Essa educagio democritica exigia também que ¢ conhecimen- to dos negécios da cidade nao ficasse na dependéncia dos deuses e dos circulos religiosos de iniciados em mis- ns Eseritos sobre o universidade {érios, mas fossem do conhecimento de todos. Com isso, como diz Moses Finley, os gregos inventaram a politica, (sto &, eles inventaram o espaco piblico de instituigées publicas, de decisdes tomadas em pablico pelo voto, se- Pararam 0 espago piblico € o privado, a autoridade reli glosa e 0 poder politico) e, a0 mesmo tempo, ¢ no por ‘acaso, crigram a filosofia (0 conhecimento racional esiste- mitico da natureza ¢ do homem), Inventaram, a0 mesmo tempo, a kiéia ocidental do poder e da razao e criaram es- colas ~ 2 Academia de Platio, 0 Liceu de Aristételes, a Bscola Sofisica de Isécrates ~ para a formag2o do cidadao do sibio com uma Wnica educagao ¢ uma tnica vocagao. Essa relagio intima entre cidadania e conhecimento, 86 se desfez quando o poder voltou as maos de oligarquias ¢ impérios mondrquicos. Mesmo estes, no entanto, foram capazes dle perceber que 0 vineulo entre o saber e 0 po- der seria a marca do Ocidente e, nlo por acaso, 28 univer- sidades surgem na Kdade Média para formular as teorias juridicas € teol6gicas de fundamento do poder politico. ‘Também nao por acaso, o periodo das descobertas mari- timas, na Peninsula Ibética, em Sagres e Salamanca, reve- Ja as monarquias patrocinando o trabalho cientifico, assim ‘como, no caso da Inglaterra, os pensadores e cientistas, 3 volta de Francis Bacon, criaram circulos de estudo e pes- quisa voltados para 0 dominio da natureza, patrocinados pela Coroa, donde resultaria a criagto da Royal Society. Perante a antiga universidade medieval, a grande ino- ‘vagao dos circulos cientificos que anunciam o surgimento dda universidade moderna consiste em que os citculos modemos retomaram dois aspectos das escolas filoséfi- cas gregas. Primeiro, o seu cardter pablico ou abeno, isto €,a ciéncia nto € privilégio de corporagbes de oficio, mas deve ¢ pode ser realizada por todos; e, segundo, 0 seu ca- river coletivo, isto é, 0 conhecimento € vasto e importan- te demais para ser obra de um 6 ou de uns poucos. segundo exemplo, nosso contemporinco, ¢ dado pelos eventos que, genericamente, chamamos de *1966", Ny Yocoséo poltica # vocagée cienifica da vniversidade paca enfeixar os movimentos sociais, os movimentos de direitos civis, 0 movimentos estudantis, os movimentos, guerrlheiros da América Latina e 08 movimentos libertirios da antiga Furopa do Leste. Em todos eles, o ponto de partl- dla, se no foi a universidade como instituigto, foi a unk versidade como irradiadora de conhecimento e de prt cas novas, muitas das quais visando & transformagao da propria universidade ~ para 0 seu bem ou para o seu mal, Em maio de 1968, partem clos campi universitirios os ‘movimentos contra a guerra do Vietna, pela liberaglo fe- ‘inina, pelos direitos dos negros, pela redlemocratizacto, no Brasil. A formacao lenta e dificil do “Solidariedacle" teve como ponto de partida os universititios tchecos de Praga. (Os exemplos dados se referem ao que podemos cha- mar de face luminosa da vocagio politica da universida- de, Mas ha também a face sombria, isto 6, a realizacio da voeago por meio da vocacio cientifica, sem que essa re- Jagzo seja explicitamente admitida ou publica. As pesqui- 525 nucleares e genéticas, o suprimento cientifico para o poder armamentista sio alguns aspectos clessa face som- bria, Essa face sombria, na verdtade, nao depende da boa ou mé vontade da universidade, nem da boa ou mi cons- ciéncia dos universitirios, mas do modo de insergao da universidade no social, isto €, do seu papel de reprodu- tora dos sistemas econémicos e politicos, por meio dos intelectuais organicos ca classe dominante que somos ‘n6s, queiramos ou no, para usarmos a expressiio grams- ciana. A fungio reprodutora da universidade foi brilhan- temente analisada por Bourdieu € no precisamos volar, a esse aspecto. A articulacao das duas vocagdes da universidade, quando feita a partir dela mesma ¢ por iniciativa dela, tende a nos oferecer a face luinosa das duas vocasdes, pois a universidade assume explicita ¢ publicamente tal amticulagao como algo que a define internamente. A arti ‘culago das duas vocagdes da universidade, quando feita ne Esertos sobre a universidade do prisma da reprodugio sociopolitica e da formagto de um grupo social especifice —_0 que chamo de intelectuais ongiinicos da classe domirante -, tende a oferecer a face sombria, pois a articulagae é ticita, implicita e, muitas ve- 265, secreta e, frequentemente, determinada pela via indi- reta do modo de subvengiio e financiamento das pesquisas como se fossem ‘clencia pura”. ‘A compatibilidade das duas vocagdes também apare- ce sob outras duas formas: pelos servigos ~ hoje chama- mos dle extensio ~ que a universidade presta & sociedade sob a orientagdo do poder politico ov em cooperacao com ele, e pela cessio de quadros universitécios, tanto ppara fungdes no interior do que Bresser Pereira designa ‘como tecnoburocracia quanto para funcoes dirigentes na administragao publica, Essas duas modalidades de aricu- lagzo, no Brasil, cendem a ser muito mais fortes, presentes @ visiveis no Norte e no Nordeste do pais, onde o Estado <é quase a cnica forca econdmics, social e politica existen- te, ea sociedade civil nao & regida pelos imperativos do mercado que diluem a forte presenga estatal, como é 0 caso do Sul e do Sudeste. No Norte ¢ no Nordeste, o Esta- do absorve servigos e pessoal produzidos pela universi- dade; no Sul e no Sudeste, 0 Estado tende a selecionar 08 servigos que lhe sto necessarios ou convenientes e 2 ab- sorver os qudros de direc2o politico-administeativa, Na ‘mediida, porém, em que todas essas formas de absorgo dos quadros cientificos € servicos universitirios se reali- zam por iniciativa do Estado, ¢ no por um projeto inter- zno i propria universidade, isto é, no por uma decisto ‘que a universidade tome explicitamente, a percepca0 da relagio entre as duas vocagoes tende a diluirse, apare- ccendo como ago fortuita do Estado ou como carreira in- dividual e pessoal de alguns quadtos universitirios. ‘0 vinculo que 0 medo de producao capitalista esta- beleceu entre a ciéncia, «tecnologia, as forcas produtivas ces classes socials, de um lado, ¢ entre 0 Estado ¢ 0 mer- cado, de outto, faz que seja ilusGrio ou abstrato negara ne Vocagso politica @ vocogse cientifica da universidade compatibilidade das duas vocagées. Isso a0 quer dizer, porém, que a relagio entre ambas seja simples, direta, imediata ¢ sem conflitos. Por mais seletiva ¢ excludente que seja a universidade, ainda assim, em seu interior, rea- parecem divisbes sociais, diferencas politicas e projetos culturais distintos, ou seja, a universidade é uma institu (20 social ¢, nessa qualidade, ela exprimeem seu interior 2 realidade social das divisdes, das diferengas e dos con- fitos. © que € angustiante € a universidade querer sem- pre esconder isso € deixar que s6 ¢m momentos especi cos ~ por exemplo, na eleicao de um reitor, na discussio cde um estatuto ~ essas coisas aflorem. Por esse motivo, a universidade nunca trabalha 0s seus préprios conflitos in- temnos. Ela periodicamente opera com eles, mas ela se re- usa, em nome da sua suposta vocagao cientifica, a acei tar aquilo que € a marca do Ocidente: a impossibilidade de separar conhecimento poder. Incompatibilidade entre as duos vocacées A primeira incompatibilidade entre as duas vocagées da universidade surge quando examinamos a diferenca da temporalidade que rege a docéncia ea pesquisa e a que rege a politica © tempo da politica é 0 aqui e agora. O planeja- mento politico, mesmo quando distingue o curto, o mé- dio e 0 longo prazos,é feito com um catendario completa- mente diferente do planejamento cientifico, pois o tempo dz aio e o tempo do pensamento sio completamente diferentes. além disso, a aco politica se realiza como io- mada de posigao ¢ decisio acerca de conflitos, deman- das, interesses, privilégios ¢ direitos, devendo realizar-se ‘como respostas & pluralidade de exigencies sociais € eco- ‘n6micas simulténeas. A ado politica - democritica ~ & ‘20 mesmo tempo, heterOnoma e ausénoma, Heterénoma, 120 Esertes sobre 9 universidede pois a origem da agio encontra-se fora dela, nos grupos € classes sociais que definem suas caréncias, necessidades, interesses, direitos e opgdes. Autonoma, pois a origem da decis2o politica encontra-se nos grupos que detém o po- dere que avaliam, segundo seus proprios eritérios, a deli- beragao e a decisio. De todo modo, porém, a velocidad, a presteza ca resposta politica ¢ 0 seu impacto simbélico slo fundamentais, € © seu sentido s6 apareceri muito tempo depois da acio realizada ‘Ao contiario, 0 tempo da docéncia ¢ da pesquisa se- gue um outro padilo e uma outra légica. Os anos de en: sino ¢ formagao para a transmissio dos conhecimentos, 2 invengao de novas priticas de ensino, as alteragSes curriculares exigidas pelas consequéncias e inovagbes das pesquisas da drea que esta sendo ensinada e apren- dida, as condigdes materiais de trabalho, bibliotecas laborat6rios exigem que o tempo da docéncia se consti- ‘ua segundo sua ldgica € sua necessidade intemnas espe- ificas. Do lado da pesquisa, a preparacdo dos pesquisa- dores, a coleta de dados, as decisdes metodolégicas, as cexperiéncias e verificagdes, 0s ensaios € erros, a necessi dade de refazer percursos jrealizados, 0 retorno 20 pon- to zero, a recuperagio de pesquisas anteriores nas novas, ‘a mudanca de paradigmas de pensamento, a descoberta de novos conceitos feitos em outros campos do saber (odo diretamente vinculados ao campo pesquisado, mas ‘com conseqiiéncias ditetas ou indiretas sobre o andamen- to e as conclusdes de pesquisa), a exigéncia Logica de i terrupgées periddicas, a necessidade de discutir 08 pas- sos efetuzdos @ controléclos, enfim, tudo aquilo que ccaracteriza a pesquisa cientifica — sem falarmos aqui nas condigbes materiais de sua possibilidade, como a inexis- tncia de recursos para prosseguir numa linha que deverd ser abandonada por outta para a qual existam recursos materiais e humanos além de saber acumulado ~ faz que © tempo cientifico € o tempo politico sigam logicas dife- rentes € padres de ago diferentes. aa