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Copyright © 1999 dos Autor Direitos de tradugio gentilmente cedidos para a Pontes Faltores, Coordenagdo Eittoral: Exnesto Guimaraes apa: Claudio Roberto Martini Revisdo: Equipe de revisores da Pontes Faltores PONTES EDITORES Rua Maria Monteiro 1635 13025.152 Campinas SP Brasil Fone (019) 252.6011 Fax (019) 253.0769 e-mail: ponteseditori@lexxa.com.br 1999 Impresso no Brasil INDICE Inrodugio Memériae Produgéo Discursiva do Sentido AIimagem, uma Ante de Meméria Meméria Grega Papel da Meméria, Maio de 1968: Os Siléncios da Meméria.. INTRODUCAO © conjunto de quatro textos que ora apresentamos cons- \ituia sessio temética «Papel da Meméria» inserida em Hist: ria e Lingiistica, uma publicacio das Atas da Mesa Redonda ««Linguagem e Sociedade», realizada na Escola Normal Superi or de Paris em abril de 1983. Esse col6quio reuniu especialistas de diversas éreas, tendo como ponto de encontro arelagao entre lingua hist6ria. O tema particularmente enfocado aqui, a me- méria, € visto sob diferentes aspectos: lembranca ou reminis- céncia, meméria social ou coletiva, meméria institucional, me- méria mitol6gica, memériaregistrada, meméria do historiador, Atravessando os artigos, a questo: o que é produzit meméria? Como a meméria se institu, € regulada, provada, conservada, ou ¢ rompida, deslocada, restabelecida? De que modo os acon- lecimentos - historicos, mediéticos, culturais - so inscritos ou ro na meméria, como efes sf absorvidos por ela ou produzem rela urna ruptura ? Estas questies se desenvolvem nos artigos através de di ferentes perspectivas disciplinares, incluindo-se elementos de historia, semistica, sociolingustica, andlise de discurso. Além. disso, a meméria é analisada em sua materialidade complexa, ‘com énfase pare arelagio do texto com a imagem, para a passa- ‘gem do visivel ao nomeado, Por um lado, os textos fundadores cde meméria: mitos, relatos, enunciados, parfrases, Por outro, a eficicia simbética da imagem: a reprodugio pictérica, o meio (clevisual e até objetos arqueolgicas. Ficam expostas ao leitor ‘diferentes praticas memoria presentes na sociedade ocidental, sejam aquelas da Grécia antiga, sejam as que emergem com as rTecentes mudancas tecnolégicas, Analisando a construgto discursiva do sentido eo funci- ‘onamento dos implicitos, Pierre Achard mostra que a meméria ‘no pode ser provada, ndo pode ser deduzida de um corpus, ‘mas cla $6 trabalha ao ser reenquadrada por formulagdes no discurso conereto em que nos encontramos. O implcito de um. cenunciado (Achard analisa 0 enunciado: «Neste momento, ‘erescimento da economia é da ordem de 0,5%») nao contém sta explicitagio, nfo se pode provar que ele tena existido em al- gum lugar. O que funcionaria entio seriam operadores Tinguageiros imersos em uma situacdo, que condicionariam 0 cexercicio de uma regularidade enunciativa, Haveria, deste modo, colocagao em sétie dos contextos e das repotigdes formais, ‘numa oscilagdo entre 0 histérico e o lingtistico, Através das retomadas e das parsfrases, produz-se na memria um jogo de forga simbslico que constitui uma questo social Jean Davallon aponta, depois do aparecimento da im= prensa, 0 desenvolvimento dos meios de registro da imagem ¢ do som como fatores que deslocam a questo da meméria soci- al, que nao se encontraria mais nas «cabegas» dos individuos, ‘mas nas mfdias. O autor esboga uma rellexdo sobre a imagem, contemporiinea como operadora de meméria, Pela andlise do registto televisual de um acontecimento (a posse do presidente Mitterrand na Franga), € questionada a distancia que separa a «realidade> do «tfato de significagio». Davallon langa a hipste- se de que 0s objetos culturais (livros, escrites, imagens, filmes, arquiteturas, etc.), como operadores de meméia social, trabar ham no sentido de entreeruzar meméria coletiva (lembrange, onservagio do pasado, foco datradigyo, monumento de emi nisctncia) e historia (quadro dos acontecimentos. conhecimen- to, documento histérieo) Do contempordneo passamos para o antigo, Jean-Louis Durand faz uma interrogagao envolvendo as préticas memoriais a Grécia clissica, Ele coloca uma questio de enunciago im- ortante: quem fala e com que direito, a se produzir meméria? No caso da Grécia antiga, a produgiio da meméria s6 se daria na presenga do poeta épico - de Homero - pot meio de um texto produzido fora do dominio da cidade. No entanto, hd uma con- ‘tadigao na meméria, com a oposicao dos valores de grupo, dos, {extos homéricos, aos valores éticos, polticos, sociais em uma dada situagio. Ao examinar a imagem de um vaso grego, Durand nota possibilidade de remissio ao mesmo tempo a um herdi da epopéia © a um simples combatente da cidade, um guerreiro ‘anGnimo. Se pensarmos nos sistemas atuais de meméria, pode- Femos ver a relagao das prticas memoriais gregas com as me- hersicas estabelecidas em nossa sociedade, Em seguida olivro,o artigo de Pécheux faz uma retoma- 4da das exposigdes anteriores, situando-as no contexto das pes- quisas em andlise de discurso. Ble discute como as questBes de lingiiistica e de discurso aparecem nos estudos sobre memséria, introduzindo um debate sobre as disciplinas de interpretacio. Nesse sentido, ele pergunta: a lingistica é uma disciplina pura- ‘mente experimental ou ela tem algo a ver com as diseiplinas de interpretacdo? Por sua vez, a andlise de discurso cada vez mais ‘busca se distancia, afirma Pécheux, das evidéncias da proposi- ‘do, da frase e da estabilidade parafréstica, Ademais, ela permi- {e, apds os trabalhos de Benveniste ¢ Barthes com a nogio de «significdncia», avangar teoricamente e tecnologicamente na relagdo do texta com a imagem. i i s textos aqui reunidos guardam as marcas do debate em meio a0 qual foram concebidos, com o tom um pouco colo- quial e as freqlentes remissdes a outros expositores. Como re- sultado dessas discussbes, salientamos 0 seguinte comentario, de Pécheux: «A certeza que aparece, em todo caso, no fim desse debate € que uma meméria nao poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas seriam transcendentais hist 0s e cujo contedido seria um sentido homogéneo, acumulado ‘a9 modo de umn teservatGrio: & necessariamente um espago m6- vel de divisbes, de disjungtes, de deslocamentas e de retoma- «as, de conflitos de regularizacZo... Um espaco de desdobra- ‘mentos,réplicas, polémicas e contra-discursos». Pouco mais de ddez anos depois, este é um momento bastante apropriado para tetomar esse acontecimento, atualizAo,inseri-loem nosso con- texto para que produza sentido e meméria, Actescentamas ainda nessa edigdo 0 texto de Eni Orlandi faio de 1968: 0s siléncios da memsria”, em que a autora apre- senta uma reflexio sobre a relagdo entre meméria € censura n0 contextoda ditadura no Brasil. Neste caso mostra-se que hi acon- tecimentos que nd se inscrevem na meméria, como se ndo vvessem ocorrido: 0s sentidos de Maio de 68, entre eles, os rela- cionados a palavra “liberdade”, sto evitados em um processo hist6rico-polttico silenciador, de modo que se estabelece uma, falta na meméria, José Horta Nunes MEMORIA E PRODUCAO DISCURSIVA DO SENTIDO ‘Se, a partir de uma posigao de andlise de diseurso, que remos falar do papel da meméria,e, por conseguinte, do estatu- {0 dos implicitos, logo encontramo-nos em posigdo delicada, ‘Mas se este é um ponto em direc a0 qual € perigoso se aven turar - Sendo real orisco de uma interpretagto psicologisia dos ‘mplicitos - ¢ no entanto necessério se preocupar com ele, Ten- {are entio falar sobre isso, considerando que a estruturagio do discursivo vai constituir a materilidade de uma certa meméria, social. Bem entendido, nfo se trata de avangar 0 termo “materialidade” como mascara retGrica para explicagSes que seriam da ordem do inefével ou do inconsciente coletivo, nem de dar ao termo “memeéria social” um valor tal que ni teriamos, Finalmente outro meio de analisé-lo sendo colocélo Procurarei enti mostrar que 6 possivel colocar um cer- to nGémero de hip6teses concernentes ao funcionamento formal no discurso, hipsteses arelacionar com a circulagdo dos discur- sos; esta relacio deve permitir que nos afastemos de interpreta- ses psicol6gicas da meméria em termos de “realmente-jé-ou- u vido”, meméria fono-magnética ou registro mecfinico, Paraisso, apoiat-me-ci sobre alguns exemplos. Mea primeira exemplo conceme ao funcionamento da palavra “reseimenta” no dominio da Economia Politica. Um fnunciado como: "Neste moment, ocreseimento da economia da oniem de 05 % faz apelo-aum certo ndmero de iplie\- tos, dos quai evacare apenas alguns. © primeira dle nd zido pela pressuposigdo de que se pode aplicar uma “taxa a um “crescimeno da economia”, quer diet, que a economia pode ser medida (endo simplesmente“verificada, como sedi da Temperatura em fsia elementa), © segundo implicit que & também um implicito segundo (quer dizer, que stoma seu sen- tidoem relaga0 ao primeto}, 6a equivalénca, do ponto de vista da taxa nts diferentes medidas posses, Paricularente, nese cao, a diferenga ene PIB ¢ PNB nao ser pertinent Em terceir ugar, pressupde-seimplictamente que esse cresc- mento se cleulado dentro do prazo de um ano, prazo cn derado como evident, Enfim, ntma orden umn pouco diferen 10 local dese reseimento no € indicad isto ipica que ie sito em um universe desoritivo nacional, © que falo por onseguinte do erescimento da economia francesa ~ ou, mais extent, do crescimento da economia que concer nag, aopafsno qual aenunciagio se situa. Eo que di aeste implicit um estatuto diferente dos precedenes, que ele remete mais & “situaglo” que "meméra". A “*memria" inervém, no entan- 10, para engudrarimplctamente a sinago no espago nacio= nal, pea falta, Esse enquadramento pode ser explictmente Geslocado (podemos falar de “erescinento da economia mun tica prolonga-se conjeturando o termo seguinte em vista do.co- mego da série, mas o acontecimento discursivo, provocando interrupedo, pode desmanchar essa “regularizagao” e produzir retrospectivamente uma outra série sob a primeira, desmascatar © aparecimento de uma nova série que nfo estava constituida cenguanto tal e que é assim o produto do acontecimento; o acon: tecimento, no caso, desloca ¢ desregula os implicitos associa dos ao sistema de regularizagio anterior. 32 Haveria assim sempre um jogo de forga na memdria, sob ‘ochoque do acontecimento: ~ um jogo de forga que visa manter uma regularizagio pré-existente com os implicitos que ela veicula, conforé-lacomo “boa forma”, estabilizagio paraftistica negociando a integragdo do acontecimento, até aibsorvé-lo e eventualmente dissolvé-lo; = mas também, a0 contrétio, 0 jogo de forga de uma “desregulagio” que vem perturbar a rede dos “implicitos”. Em relagdo com a questio da regularizagio, a da repeti- «glo (dos itens lexicais e dos enunciades) prolongou o debate: a repetigdo ¢ antes de tudo um efeito material que funda comuta- Ges ¢ variagées, ¢ assegura - sobretudo ao nivel da frase escri- ta! ~ oespago de estabilidade de uma vulgata parafrastica pro- duzida por recorténcia, quer dizer, por repetiglo literal dessa identidade material. Mas a recorréncia da item ou do enunciado pode tam- bém (este é um ponto introduzido por Jean-Marie Marandin na discussio) caracterizar uma divisfo da identidade material do item: sob 0 “mesmo” da materialidade da palavra abre-se entio 6 jogo da metifora, como outra possibilidade de articulagio discursiva... Uma espécie de repeticio vertical, em que a prs: pria meméria esburaca-so, perfura-se antes de desdobrar-se em parairase Esse efeito de opacidade (correspondente a0 ponto de divisdo do mesmo e da metéfora), que marca 0 momento em que 0s “implicitos” niio so mais reconstrutiveis, € provavel- ‘mente 0 que compele cada vez. mais a andlise de discurso a se distanciar das evid€ncias da proposicio, da frase e da estab dade parafristica, ea interrogar os efeitos materiais de monta ‘gens de seqlléncias, sem buscar a principio e antes de tudo sua 3 significago ou suas condigdes implicitas de imterpretagio. Trata-se, de outro modo, de retirar-se provisoriamente, Laticamente, da questio do sentido, sabendo ao mesmo tempo {que a questo da interpretaglo & incontomavel e retornaré sem: pre, A esse propésito, devo fazer um esclarecimento a respeito da fala de Sylvain Auroux, que me atribuiu uma controvérsia ‘com J.-C. Milner sobre a questio de saber se ele se estimava ou no ser colega de Beauzée: parece-me til explicar um pouco {de que se trata! A questo concer de fato ao estatuto da lin {stica frente is disciplinas de interpretagio. Eu tinha pergun- tado @ Vidal-Naguet (a partir da alusfo ao artigo de Nicole Loraux “Tueidides nao é um colega”, muito citado no decorrer dessas jornadas), e, paracle, Tucidides, sem ser seu colega, era rio obstante um historiador; questio & qual P. Vidal-Naquetres~ pondeu: “Sim, certamente!”, 0 que implica que ndo ha comego histérico assinalivel para a disciplina histérica, na medida em aque a histdria é uma diseiplina de interpretago: para um fisico, por exemplo, 0 problema de saber se Aristoteles ¢ um colega no se coloca. Aristételes nto ¢ para ele nem um colega, nem ‘um fisico. Minha questo a J.-C. Milner concernia entio de fato a posigdo da lingustica a respeito da interpretagio. Perguntar- se se hé ou nfo um momento histérico assinalavel em que se pode dizer de alguém “6 um lingtista”, nfo é entdo colocar um. mero poblema de datagio, mas levamtar a questo de saber se a ingulstica é uma diseiplina puramente “experimental”, ov se ela tem necessariamente algo a ver (de modo complex, equi ‘yoco, ambfguo...mas algo. ver) com as disciplinas de interpre~ ago, desde a hist6ria até a psicandlise Fecho este par®ntese para retornar& questio da interpre~ luglio em andlise de diseurso: P, Achard caracterizou esse movie (ode rtirada provisério da questio do sentido e da vontade Ge interpretar, lembrando o provérbio chinés “Quando the mos- tramos a lua, o imbecil olha o dedo”. Com efeito, por que nao? Por que a andlise de discurso nio dirigiria seu olhar sobre os 54 agestos de designagio antes que sobre os designata, sobre os pro cedimentos de montagem ¢ as construgdes antes que sobre as significagSes? A questdo da imagem encontra assim a andlise de discurso por um outro vigs: ndo mais a imagem legivel na {ransparéncia, porque um discurso a atravessa e aconstitui, mas ‘imagem opaca e muda, quer dizer, aquela da qual a meméria “perdeu' o trajeto de Ietura (ela perdeu assim um trajeto que jamais deteve em suas inscrigées). {A imagem muda é por exemplo o choque opaca de uma imagem de vaso grego: a arquelogia possui apenas 0 olho, quer dizer imagens ¢ texts, sem coincidéncia, e nfo, como a antro- pologia de hoje, 0 “a mais” do ouvido (a vor, a “wilha sonora") (© que evoco aqui remete& apresentagao de JL. Durand, que ‘mostrou como a epopéia herGica grega fazia irupgao nas cenas visuais da democraciaateniense (em particular as cenas funer4- rigs), através de tlescopias burlescas por seu anacronismo (mais ‘ou menos como se mostrissemos Vereingstorix a bordo de umn aviio a jato), No outro extremo, o choque opaco do acontecimento televisual é também algo que nio se inscreve, na medida em que esti sempre “j4 ld", no retorno de um paradigma pesado ue se repete no interior de sua aparigdo instantdnea: por exem: plo (intervencao de Maurice Mouillaud), a histéria do submati no sovistico perdido no Baltico, quando este vem & superficie datela de TV; 0 submarino esta sempre Id, ndo necessariamente no fundo do mar, mas nas profundezas de um paradigma que estrutura o retorno do acontecimento sem profundidade. Reencontramos assim, para finalizar, a questio da relae <¢20 entre a imagem eo texto: no entrecruzamento desses dois objetos, onde estamos, tecnologicamente e teoricamente, hoje, com relagiio a esse problema que, apés Benveniste, Barthes de- signou com o termo “significancia”? Em que pé estamos com relagiio a Barthes? Barthes era tanto Fingiiista dos textos como te6rico das imagens, ou de pre- foréncia nao era nem um nem outro (quer dizer, nem lingtista, ‘nem semiélogo, nem analista) mas antes de tudo o esbogo con- tradit6rio de gestos que tentamos hoje reencontrar, e que ele soube agenciar & sua maneira talvez dnica, quer dizer, em pes- soa - logo também, e de maneira equivoca: como pessoa? ‘A certeza que aparece, em todo caso, no fim desse deba- te 6 que uma meméria no poderia ser concebida como uma csfora plena, cujas bordas seriam transcendentais hist6ricos ¢ cujo conteddo seria um sentido homogéneo, acumulado ao modo de um reservat6rio: € necessariamente um espaco mével de di- visbes, de disjune6es, de deslocamentos ede retomadas, de con- Atos de regularizagdo.... Um espaco de desdobramentos, répli- cas, polémicas e contra-discursos. E o fato de que exista assim o outro interno em toda ‘meméria é,a meu ver, a marca do real histérico como remissto necesséria 20 outro exterior, quer dizer, ao real hist6rico como ‘causa do fato de que nenhuma meméria pode ser um frasco sem exterior. Michel Pécheux 56 NOTAS 1. Assnale-e a esse propésito uma intervensfo de Frangoise Mavré, roblemaizando a relgaoesritoal do pono de vista da epetigio (da meme, 2 Pens nas tesesdesenvolidas por Pa Vey, que pderiam bem is: tra esse pantestualismo que foi desgnado como isco constants no ecorer dos debates. O ult livre deP Vyne "Les Grecs ont ls ont (ears mes” uma dia dss easco ideal do reais abso 37 MAIO DE 1968: OS SILENCIOS DA MEMORIA* Introdugio Falando de hist6ria e de politica, no hé como nfo consi- derar 0 fato de que a memoria € feita de esquecimentos, de si- léncios. De sentidos nao ditos, de sentidos a nito dizer, de silén- cios ede silenciamentos. Os sentidos se constrdem com limites. Mas hé também limites consteufdos com sentidos. E quando penso maio de 68,0 que vem frente da cena politica ehist6rica € o silenciamento, soos sentidos que impdem limites, A tortura, a censura, a agres so da ditadura A sociedade, 8 cidadania. ‘Mais do que ver no acontecimento maio-68 aconstatagio dessa violéncia, interessa vé-lo, enguanto acontecimento discursive, justamente, como fato desencadeador de um pro- ceesso de produgiio de sentidos que, reprimido, vai desembocar na absoluta dominancia do discurso (neoliberal. No entanto, enquanto tal, no momento em que aparcceu, maio-68 abria para ‘uma nova discursividade, produzindo efeitos metaforicos que afetavam ahistériae a sociedade, de maneira explosiva, em vérias et) i diregSes: politicamente, culturalmente, moralmente. Eo que vai se dar com essa discursividade no futuro? O que significa maio de 68 hoje? Para trazermos essa questio para a reflexio, podemos: referir 0 texto de M. Pécheux (p. 33 agui mesmo), no qual ele procura compreender, unto a inglistas, semioticistas ¢histori- adores, a fragilidade no pracosso de inscrigo do acontecimen- to no espago da meméria que, segundo ele, joga em uma dupla, forma: a, o acontecimento que escapa a inscrigao, que nfo che- ‘ga a inscrever-se, ¢b. 0 acontecimento que é absorvido na me- maria como se nfo tivesse ocorrido. (O caso que estou apresentando nfo se enquadra nem na, primeira, nem na segunda possibilidade, E uma nuance entre clas: € como se ndo tivesse ocorrido (6), nfio porgue foi absorvi- «do mas, ao contro, justamente porque escapa a inscrigio na ‘meiméria (a). Beste, penso eu, o caso da censura em geral. Nes- se sentido, embora eu explore aqui uma situacio particular de censura, essa minha reflexio pose contribuir para a compreen- silo da relagao entre meméria e censura em geral Um pouco de teoria conhecido, na anise de dscurso, que hd interpela- do individuo em sujeito pela ideologa. assim que se con- sidera que o sueto se consi em sujeto por ser afetndo pelo simbelic Daf seu assieitamento, ou sea, para que 0 sujilo Sejasujeito necessrio que ele se submets a lingua, E & por star sueito lingua 20 simbdlico, que ele, or outro lado, pode ser sujet de. Além disso, 6 preciso que a lingua se inscreva na histéria 60. para significar. E & isso a materialidade discursiva, isto 6, linguistico-historica. Da interpelagiio do individuo em sujeito pela ideologia resulta a forma-sujeito histrica. Em nosso cas forma-sujeitohistorica capitalista corresponde ao sujeito-ju ico constitufdo pela ambiguidade que joga entre a autonomiae a responsabilidade sustentada pelo vai-o-vem entre diteitos e deveres. Podemos dizer, entfo, que a condigdo inaliendvel para a subjetividade € a lingua, a hist6ria e o mecanismo ideolgico, pelo qual o sujeito se constitu. Por outro lado, esse sujeito, uma vez constituido, softe diferentes processos de individualizaglo (ede socializagio) pelo Estado. Assim, se temos o indivfduo como ponto de partida para © assujeitamento ao simbélico -e, quanto a este assujeitamento © sujeito no tem controle pois cle se passa “antes, em outro lugar ¢ independentemente” - temos sobre esse sujeito proces- 0s que o individualizam e que derivam das diferentes formas de poder. E af as Instituigdes © o Poder constituido tém um papel determinante. E nessa instincia que se dio as lutas, 0s, cconfrontos e onde podemos observar os mecanismos de imposi- lo, de exclusio ¢ 0s de resisténcia. Pois bem, é assim, partindo dessa posigo teérica, que procuraremos compreender 0 que tenho chamado de “proves- 80s de de-significagao” que estio presentes em discursividades, ‘como as que incidem sobre maio de 68. Portanto, nlo tratare- ‘mos o sujeito como algo que se trabalha do ponto de vista de uma sua esséncia, mas pensando sua existEncia como constitus- dda pela sua relagdo com a lingua ¢ com a histéria onde se con- frontam o simbdlice e o politico, E a nossa questo &: 0 que aconteceu com 0s sentidos. que constituem 0 evento maio-68? Para falar disso retomamos 0 fato de que falar é esque ccer. Esquecer para que surjam novos sentidos mas também es- 6 {quecer apagando os novos sentidos que jé foram possiveis mas foram estancados em um processo hist6rico-politico silenciador, sentidos que sao evitados, de-significados. Formagées Discursivas ¢ Esvaziamento de Sentido A definigio de formagio discursiva diz que ela delimita “aquilo que pode e deve ser dito por um sujeito em uma posiglo Giscursiva em um momento dado em uma conjuntura dada” (Haroche, Henry, Pécheux, 1975). No modo como 0 politico se simboliza nos anos 60 ha todo um possivel dizer da sociedade, da cultura que colaca os sujeitos em medida de uma transformagao histérica social de grande dimensio. Essa possibilidade eclode nos movimentos de 68 tendo a palavra liberdade como carro-chefe. No mundo {odo hd manifestagdes de rua em que uma discursividade can- dente trabalha 0s muitos sentidos postos na reivindicago das, liberdades concretas necessitias & sociedade em suas novas. posssiveis formas. So assim enunciados que funcionam em suas relagdes parafrésticas, relacionando-se em suas diferentes formulagies ‘a0 que pode significar “liberdade” a, “E proibido proibie!” b. “Faga amor e nfo faga guerra ! que deriva ainda para Paz Amor! ©. “Boulot, Metro, Dodo!” em portugués: “Trabalho, Condugio e Cama!". Que, suas diferentes formas de dizer, afirmam a re- a cusa a uma vida reduzida a regras e a um trabalho que, por sua ver, reduz 0 homem em suas possibilidades de vida. ‘Uma pardfrase agora, com 0 tempo jdeslocado, mostra a conversiio desse discurso em um processo que 0 de-signifi- cou, Essa parsfrase aparece, em maio de 1998, em um poster de propaganda no metré de Paris: um casal nu, tatuado com, flores no peito, drigindo-se a uma exposiglo, e, embaixo, os dizeres "Entrada livre, Isso faria sonharem seus pais...” Esse enunciado por sua vez mostra a forma como os sen- tidos coneretos ¢ explosivos de Tiberdade, que estavam levando 8 uma revolugdo social e cultural, a novos sentidos para os su; jeitos e para &bist6ria, foram barrados violentamente pelo status, (quo. Pelas insttuigées, pelo poder. E, no caso do Brasil, mais violentamente ainda porque estévamos em uma ditadura e era bem diferente dizer “E proibido proibir” aqui em uma rua de ‘iio Paulo e em uma rua de Paris. No poster dos anos 90 “entrada livre” e gratuita reduz 0 sentido de literdade ao prego de um parque de diverstes. O interditado que toma a forma do impossivel Entfo, sentidos possiveis, historicamente vidveis foram politicamente inrerdisados, E tornaram-se invidveis. Essa im possibilidade, posta pela censura e pela forga, se naturaliza & funciona como um pre-consirufdo restitivo acertos sentidos de liberdade, de tal maneira, que eles parecem impossiveis. Foramn assim desmoralizados, amolecidos, inviabilizados, de-signifi- ceados, postos fora do discurso. E a palavra “liberdade” aparece feito florzinha que se prende com um bottom numa roupinha maneira,.. Ao mesmo tempo, pela outra mao, ada diteita,nesse mesmo processo, se estabelecem as bases do discurso neo-libe- 6 Ce ral em que se individualiza a questo da liberdade, desttuind ‘8 da forga conereta histrica que ela linha na outra formago dliscursiva - a da esquerda, em que o partido comunista propu- nha em seu programa a necessidade de construglo de uma de~ mocracia fundada nas liberdades concretas necessarias para as rnovas formas sociais - em que haviam se alocado sentidos ex plosivos de liberdade. E o que é silenciado em uma formagio iscursiva é acolhido em outra formagio discursiva, esta, domi nante, que corresponde ao vigs pragmético ¢ empresarial da politica neo-liberal desembarayada dos sentidos mais corrosi- vos, transformadores do politico. Essa liberdade sem determi nagdes conereias, agora generalizada, pode ser reivindicada, individualizando-se, até pelos neo-nazistas que, em nome dela, exigem o direito de usar a sudstica em suas roupas opressivas. 0 que é isto companheiro? Nio € nada disso, companheiro, diz. uma parifrase de José Simao que, com seu humor, evocs 0 jogo discursive que atravessa esse enunciado em sua meméria, agora transformada de romance em filme. Ea questio é, sem divida uma questo de meméria, No sentido discursive. A memiéria - o inlerdiscurso, como defini- ‘mos na andlise de discurso - & o saber discursivo que faz com que, a0 falarmos, nossas palavras fagam sentido. Ela se const tui pelo jé-dito que possiilita odo dizer Pois bem, como dissemos no inicio, © sujeito é assujeitado, pois para falar precisa ser afetado pela lingua, Por ‘outro lado, para que suas palavras tenham sentido 6 preciso que {iétenham sentido. Assim & que dizemos que ele ¢historicamen- te determinado, pelo interdiscurso, pela meméria do dizer: algo fala antes, em outro lugar, independentemente. Palavras ja ditas 64 ¢ esquecidas, av longo do tempo e de nossas experiéneias de linguagem que, no entanto, nos afetam em seu “esquecimento” Assim como a lingua ¢ sujeita a falhas, a memdria também & constituida pelo esquecimento; daf decorre que a ideologia, diz, M, Pécheux (1982), € um ritual com falhas, sujeito a equivoco, de tal mado que, do jé dito e significado, poss irromper 0 novo, o irrealizado, No movimento continuo que constitui os sentidos .©0$ sujeitos em suas identidades na histéra. Ainda em M. Pécheux (agui mesmo, p. 36) temos: “uma cespécie de repetigo vertical, em que a meméria esburaca-se, perfura-se antes de desdobrar-se em parfrase”. O que da, se- ‘gundo esse autor (idem, p.39), @ idgia de meméria como um espago mével de divisdes, de disjungbes, de deslocamentos © de retomadas, de conilitos de regularizagao. Um espago de des dobramentos, réplicas, polémicas e contra-discursos (1) Meméria e Censura (© que acontece com maio-68 porém & de outra ordem. A falha 6 constitutiva da meméria, assim como o esquecimento. No entanto o que acontece com os sentidos de 68 & que eles no falham apenas nessa meméria, les foram silenciados, censura- dos, excludes para que ndo haja um ja dito, um ja significado constitufdo nessa meméria de tal modo que isso tornasse, a par- tir dai, outros sentidos possiveis. Hs faltas (2) ~ e nao Falhas - de tal modo que cles nfo fazem sentido, colocando fora do dis- ‘curso o que poder ser significado a partir deles e do esqueci- mento produizido por eles para que novos sentidas af significas sem, Hé, assim, “furos", “buracos” na meméria, que so luga~ res, no em que 0 sentido se “cava” mas, a0 contrrio, em que o sentido “falta” por interdigdo. Desaparece. Isso acontece por- {que toda uma regiio de sentidos, uma formago discursiva, & apagada, silenciada, interditada. Nao ha um esquecimento pro- 65