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FUNDAGAO UNIVERSIDADE DE BRASILIA Reitor Lauto Morty Vice Reitor ‘Timothy Martin Mulholland EpITORA UNIVERSIDADE DE BRASILIA Direwor Alexandre Lima (CoNSELHO EDITORIAL, Airton Lugarinho de Lima Camara, Alexandre Lima, Esevio Chaves de Rezende Martin, José Mara G, de Almeida Jini, Moema Malheiros Pontes Reinkardt Adolfo Fuck, Sérgio Paulo Rovanet e Sylvia Ficher Jessé Souza Organizador Democracia hoje Novos desafios para a teoria democratica contemporanea ini oy Mi Exuipe ioral Aiton Lugrinho (Soper etry: Maria Cala Lists Boris ¢ Washnglon Sie de Souza Prearsio de origins ein. gn elit Braga (toro elec Paulo Andrade (Cap). Copyright © 2001 by Jessé Souza (Organizadon) Impresso no Brasil Direitos exclusives para esta edie: Editors Universite de Basia C3 0,02 BlocoC N78 Ed, OK 2 andar 70300500 - Bras, DE Tels (Qxx61) 226.6874 Fax: (Ox) 255611, editora@unb.be Tonks os diets reservados. Nenu pate desta publicaso poder ser srmazenaa ow eproduida por qualquer meio sem 8 aloriea§0 por certo da ior Fichacaalogrtieaeahorada pla Biviotce Central da Universidade de Brasilia D383 Democracia Hoje: nows desis para a tera de- tmociticncomtemporinea | Jee Sours (0 aniador). — Brats» Ediora Universidade ‘de Brasla, 200 ‘450. ISBN: £5-220.0604-6 1, Demeracn 2. Citcia polis. 1 Sowa Sess organizador). cov a21s, Sumario PREFACIO, 7 PARTE [A DEMOCRACIA CONTEMPORANE \: PRESSUPOSTOS TEORICOS PARA ALEM DA DEMOCRACIA FUGIDIA: ALGUMAS.REFLEXGES [MODERNAS EPOS-MODERNAS, 11 Fred Dallmayr CONSTANT BERLIN: A LIDERDADE NEGATIVA COMO ALE [BERDADE DOS MODERNOS, 39 Luis Augusto Sarmento Cavalcanti de Gusmio DEMOCRACTA COMO COOPERACAO REFLEXIVA, JOHIN DEWEY E A. ‘TEORIA DEMOCRATICA HIE, 63 ‘Axel Honneth (© COMUNITARISMO: UMA PERSPECTIVA ALEMA, 93 Hans Joas Do constso Ao DISSENSO: 0 ESTADO DEMOCRATICO DE DIREITO ‘APARTIRE ALEM DE HABERMAS, LL Marcelo Neves DEMOCRACIA E FERSONALISMO PARA ROBERTO. DAMATTA: DDESCOBRINDO NOSSOS MISTERIOS OU SISTEMATIZANDO NOSSOS AUTO-ENGANOS?, 165 Jessé Souza ‘AS AMERICAS DE TOCQUEVILLE: A COMUNIDADE £0 AUTO INTERESSE, 20% Marcelo Jasmin (CiDADaw, DIREITOS E MODERNIDADE, 213 José Mauricio Domingues ARTEL DEMOCRACIA FMULTICULTURALISMO: 'O DESAFIODA DIFERENCA DA REDISTRIBUICAO AO RECONHECIMENTO? DILEMAS DA JUSTICA NAERAPOS-SOCIALISTA, 245 Nancy Fraser (GILBERTO FREYREE A SINGULARIDADE CULTURAL BRASILEIRA, 283 dessé Souza JUSTICA EDIFERENGA NUMA SOCIEDADE GLOBAL COMPLEXA, 329 Marcelo Neves COMUNICAGAO E © OUTRO: ALEM DA DEMOCRACIA DELIBE- RATIVA, 365 Iris Marion Young [NACIONALIDADE E NOVAS IDENTIDADES RACIAIS NO BRASIL: UMA, HIPGTESE DE TRABALHO, 387 Antonio Sérgio Alfredo Guimaries JUSTICA EDIFERENGA: A TOLERANCIA LIBERAL, 415 Alvaro de Vita PoRUMA MICROFISICA DA TOLERANCIA, 441 ‘Thomas Lethiuser COMPLEXIDADE, DIVERSIDADE E DEMOCRACIA: — ALGUNS [APONTAMENTOS CONCEITUAIS E UMA ALUSAO A SINGULARIDADE BRASILEIRA, 61 Sérgio Costa ‘SOBRE 0s AUTORES, 477 Prefacio ‘A configuracio politica das tltimas décadas tem apresentado novos desafios a reflexio mas ciacias sociais. Especialmente a perda rlativa de importincia das contadigies de clase, que mar- caram o timo século de conquistas social-democratas, mostra-se como um desafio 2 reflexdo erica nas sociedades avangadts ~ mas de forma alguma apenas neas ~ do Ocidente. A questio das formas de reivindicaghes polticasrelatvamente independentes das ques- tes de distsibuigio econdmicas tém assumido urs lugar rescen- ‘emente importante em todo o Ocidente, soja no centr, seja ma perifeia do sistema, Como articular a8 formas de luta por igualda- de econémica com as Tuts por reconbecimenta de dferenges cul- turas, de orientago sexual, de género ou de raga? Como podemos ‘compreender a especiticidade das utaspoliticas contemporiness? Quais as conseqincias tedricas e prticas, a pati da crescente importancia da esfera pblica em varias sociedades modernas, da perda rcativa de importinia da concep do Estado como alfa e ‘omega da vida politica? s textos reunidos neste Volume visam a estimular o debate no ambiente acadmico brasileiro acerca dessa e outras questoes em aberto sobre o tema dos novos desafios da democracia contempo- ‘nea, Tanfo internacionalmente como no nosso pas tems teste= ‘munhado mudangas que se relacionam néo apenas a mudangas de superficie na arena social e polities, mas que implicam questions mentos que afetam a prOpria substincia © © nicleo mesmo das insituigSes e valores que servem de substrato as sociedades ‘moderas. Vérios dos paricipantes dessa coletines so pensadores de vanguarda interncionalmente nas suas Areas de atuagio, e al- guns deles estio Sendo apresentados pela primeira vez, €m port _Bvé, 20 etor brasileiro. Ao mesmo tempo, o excelente nivel de . Pref sis das contribuiges de especialistas brasileiros no tema com- prova 0 amadurecimento a cescente capacidade critica da eign ‘ia socal brasileira ;Boa parte dos texts aqui reunidos foi apresentada no semi rig internacional “Democracia ¢ muliclturalismo”, realizado na Universidade de Brasilia em setembro de 1998, Gostria de agra ddecer 20 CNP4, Capes, FAP-DF, especialmente & profa. Laura Goulart entio na presidéncia dessa entidade, retoria da UnB, especialmente 0 empenho pessoal do eatio chefe de gabinete do for, pro. Luiz Ross, e dos profs. Maia Stella Grossi Porto e Todo Gabriel Teixeira, assim como 8 embaixada americana em ‘Brasilia, muito especialmente na pessoa de Vera Galante, pla au 4a, confiangae estimulo no finaciamentoe organizago do referido Brasilia, 10 de setembro de 2000 Jessé Sousa Parte I A democracia contemporanea: pressupostos tedrices Para além da democracia fugidia: algumas reflexes modernas e pos-modernas Fred Dallnayr ‘A “democracia” tem em comum com outs conceitos poli ‘cos um trago marcante: € contestivel. Ao longo da histria oi ‘dental, alastrou-se uma acirrada controvérsa sobre as virtudes € 08 ‘efeitos da democrais, vista como 0 governo do povo. Nao obs tante, nos iltimos séculos, essa controvérsia. tem, com freqiénca, se limitado a uma comparagio entre regimes, ou seja, entre os _méritos e demérios relalivos da democracia quando comparada & ‘monarquia e 2 aristocracia. De acordo com uma tradigio que ‘remonta& Antighidade, conluia-se que a democraca estava softendo diversos males que Ihe slo inerettes ~ ineluindo volubilidade © ‘demagogia ~, tormando-se menos alraente que os regimes concor: rentes. Em épocas mais recente, essa resrgies desapareceram ‘quae por inter, e sso deu margem a sua acitagio nas sociedad fem todo 0 mundo. Ainda assim, o reconhecimento de nenhuma {oxma eliminou a contestagio, pelo contro, quanto mais ample mente a democracia € enaltecia, mais forte é 2 contovérsia que cenvolve seu significado e suas eaactristicas costitutivs. Durante ‘um tempo, os principais contendores na tentativa de captar sua es séncia eram a “democracia liberal” © a “democraca popula’, & primero a destacar os direitos individuas do cidadao; e o segundo, 4 soberania ea vontade popular absolutas. Com o desmoronamento da Unido Sovitica, as proposigdes evoluiram novamente, bora sem diminur a intensidade do debate; citando a ideas revolucions- 2 Fred Dalmay sn de Mr demas et pines "Be ‘Ei tian pelo plo lease: igleno nines da Trout Recteene, x compli ta compet aida pols chegadn des campotes “poder” da democracy Sees a desentnccar (ov dscns toa remiss in Stdalita com as cletvss do a do psi. ‘Nas pies cps pretend compa sida mais gues tio cseticmente a era comtesag pata 0 campo J - 2s poor, de forma mas gel, agules qe uscam ta aeraativa acs models iberlavuasaerepblcano Conform enunclam alguns de sin proponents, o amino pars Siem dos mls raion parece conduit 4 una expe de ter sem dono, un espago dmocrico J ang.em (dem), Sei: no sent de om “vinalizagio” completa da pls. No ess de elo proponents, 0 pape do ovo € qs sfocado, puma profunda Conus dx esta soci, em cama soe amodes de subsea” ed arenas pls ou semipablss da ida soi, Ness em outs cones colton, 0 pov 08 © ove popular parece estar Ieralmente "em fg oo Felten wo Seni deseo por Steen Wali em sed importante Ensaio, “Puglive Democracy’. Como pergutaWoln tagule tenn cam sua habia] conundéns, "por qu a democraca[em nos’ Epox] redurn « eso Gsotlzads, pla fora? Por qe sua pesenga casos e faz?” Ao lear tio Adngodo de Wolln, 2 dscusio a seg tena abrda deseredat signs dlemss gue aflipe a democraca motes e entenpor fA discus Jeseolve-e emis eas. Nv princi seg, Ferse un eta dees fm pans inka) 2 eos da tmocracia moder om tengo parol a sss vaiedaes r= Puc ¢Hberiavidaisn’ A seanda pre reiecions 0 Ente pre formulas ma eens ea fim da epoca tovera ou ent da peodera, ormilagSs ext qe de uma Ferma ou deo seam acento escape ds enim qv scolam as concrpgien modernists. Apis detlachar © ear Seldon, Won “Fophve Democrcy."em Sela Beaty, Deceasy fan Dios Covet th Beano ote Poli Pinto, Pee ‘very Pres, 1996, 39 Para lem da democrai ua a algumas dessas receaies iniciativas, a segio de conclusio argu- ‘menta a favor de uma espécie distinta de abordagem do fim da {época moderna ou pés-moderna que pode, experimentalmente, ser ‘dentificada como transgressiva ou “transformacional” que, de ‘muitas maneira, deve-se 30s ensinamenios de Walin, Nos livtos-textos de filesofia politica, a democracia € cost reiramente apresentada como um tipo de regime politico justa- posto a outros tpos de regime. Vista por esse él tpoldgico, a ‘democracia surge como uma categoria universal ou iia transtem= poral, como wma modalidade particular do que Claude Lefortcha- tna de mise-er-scene (encenacio) da politica. © que essa visio negligencia ¢ a dimensin experiencial da democraca, 0 fato de ser inrente a lutase @ agonias concreto-temporas. Contrariamente 40 ue podem suger os lvros-textes, a democracia no & apenas uma ‘opgio de regime dente outasigualmente dspontveis em todos os _momentos ¢ lugares, mas mais propriamente const uma respost 8 desafos e a aspiragbes histéicns. Esse aspecto € evidente tanto ‘na Antigulidade como nos tempos moderaos. Como reconbece ‘Aristteles, a democracia —ou o que ele chamou de polity ~ nd era lua caracteristica invarivel da vida ateniense, mas, na verdade, prosseguiu com insisténcia apis longos periods de governo mo- ‘irguico © aristoritico, O mesmo pode-se dizer da procrstinada ‘evolugio da democracia em tempes modernos, que Wve de pasar pelo divisor de dguas da gloriosa revolucio na Inglaters, a5 ‘evolugGes americana e francesa no final do sécvlo XVII, © os tos levantesrevolucinsris esemi-evolucioniri que marcaram © crescimento da sociedad Industrial no Ovidente 20 longo dos ‘limos duzentos anos. Em grande medida, portato, a democracia parece ininteligivel se afastada de sua hstia de sta realizagio ‘continua; em Tugar de funcionar como uma idéia “nomenal”, 6 aulogoverno popular fez parte de uma narrativa ~ que pode ser contada a forma de wma “histria” ou de um “conto” sobre demo- ° ts Navin Young entemente mo emo importa de cot his fi" mo daca peli, ver Seu enesin“Commencton and the Oe ‘Beyond Daieratve Demcacy” em Bead Democrat Dione Dp T3132 Em lao Cae Leto ver de sen ont Democracy an a red Dalmay opt conte daa nec ee ete sivel apresenar apenas um esogo dessa histria.Além ds, esse ‘shogo dar de ldo democracn ma Antgtiade~ por diversas Fates, que dicem respelto 2 resigtes importantes impusts #0 Zlogovemo poputar toto em termos de qulfieagis pars x ce dann como em eros de presposis metancos viens as eras péemodernas. A reerncia fella h metfsca serve desde j ers hos sleriar sobre « complridade da histra, if 6 deve-nos Inpedir do reducir ists uma simples sei nea de e- gies. Visto do angulo da moderaidae, 0 desenvolvimento da Cemocraciacomprecnde mis que a mera sbstulio de um ipo de govero por outro, da monarqua odo absolutism real pelo foverno poplar a jular segundo as plavas de Foucault ade ‘ptagio do ei ena entonizasi final Jo povo parece esa em jogo mais do gue wma tansigo near com ess. O que pace & aque o conto da democracia modema esta enredado em —¢ a6 tesa faz parte de ~ uma hisia maior, a qual rz em i impli- ‘ages Hlosfieo-metatseas ou mesmo exsenclas Para colocar ‘de ona formas a hisia da tansteréacia de podet- dori da istoracia para 0 povo ~ ei sera, ma era moder, em Unt bistria de divers vise do mando, de reas de aoconbecimento mano (ou aos eros de Heidegger epoca de "manifesta do ser". Como sabemos, a gloriosa revougio a igstera fo rece di do Renacetsmo ¢ se midanas dries na conceitaiza- ‘Ho do mundo ~ mudangas relacionadas a nomes como Bacon, Descartes e Thomas Hobbes, Esespensaore, com auxio de um enorme elenco Je apoio, desferiam um golpe mortal na visio Jo ‘mun premoder (patna) gue, de forma modi Cad, havia persist Grane a Wade Mea: Descartes, wo ancorar 4 asi €o conecimento human 0 seto peasant (om cot) Bacon, a0 interpreta a relasioenteo sjelto ex natreea(ex= tensio da matéria) como um projeto de dominio ela eiacia: © Hobbes, a0 conestualiat a vidn socal epolfca Como wma Ita Polat Ther, vad. David Macey, Minneapolis Univrsy of Mines Pres 985, py, 218 Pare lem da democraci fuga a Implacdvel de egos que culmina na instituigdo de um poder abso- Ito soberano (Leviathan) Vist em retrospecto ~ como parte de uma histria evoltiva da civilzagio -, a modanga na visio de mundo inaugurada pelo ‘comegg da modemidade foi pelo menos tio distca ~ talvez ain- «da mais ~ quanto o deslocamento paralelo ou subsequente do poder real para o governo popular. Em muitos aspectes, pode-se dizer que a mudanga anterior ofuscou © estruturow a seguinte, Como muitos historiadores do pensamento politico mosiraram, as visbes «do mundo platdnico-arstotlicas da Antigidade e da Idade Média ‘io foram estrturadas da mesma maneira que a da era moxlerna; ‘cima de tudo, nio estavam fundamentadas nem “centradas” n0 sujeito humano, certamente nfo no sueito voliivae, portant, mio ram basicamente egocéatricas ou antropocénticas. Tver deva-se dizer que 0 modelo mais velho (pré-moderno) estava centrado ov «stabiizado de uma forma diferent, a saber: a colocar em primeiro plano um cosmos ordenado por forga divina, pelo menos parcial ‘mente acessvel & pereepgio humana, ¢ a pressupor uma intencio= nalidade ov teleologia divino-natural que impregnae orienta todos (s seres vivos. Em temas de filsofia politica, 0 poder pblico — incluindo-se af © poder cea, o arstocritcn e 0 demoerstico fol ircunserito ou domado em épocas anteriores © ni apents por contratos ou por regras procedimentais, mas por um objetivo ou ‘elos substativo que animava toda a vida politica ~ um objetivo ‘que Arisieles formulou como a “boa vida”. De fato, 0 modelo tradicional foi questionado e contestado j4 na Antguidade por sofistas por cétics e parcialmente solapado n0 final da Kade Média pela ascensio do nominalismo e do voluatarismo ~ uma ascensio que também afetou profundamente os conceitos do diving ‘0 mudar a énfase da sabedoria de Deus para 0 poder infinito de Deus. Entetanto, 0 fetivo desmantelamento da antiga estrutura fm gio Michel Foca, ver, a ar, “Th nd Pome em Cain orion Power Krowedg: Slate erie and Oe Wings 1972. 1971, Nora Yor Pasco Books 198) 2 “Com escreve Jean Esai: "Nelo pe Oca (.) Deas et ea v2 Ineo representa come lente rar ds boda em Su comple ide lava ela vez ais pernicado somo yam da vont she ‘aoa A volviade de Deus ultapasa ota cunts dogo De (2) 6 Fred Dalmay ‘ocorreu durante o inicio da modemiade, com a substituigSo de um telos ransumano por uma racionaldade e por uma vontade huma- ‘Visto por esse ngulo, Thomas Hobbes inevitavelmente desponta ‘como paradigmitico e, sob diversos aspecos, 0 mais consistente ppensidor politico da modernidade. Curiosamente, a teoria de Hobbes juntou-se ou ficou em posigio neutra em relagio a0s mo- delos politics da modernidade ~ os modelos ibera-individualista republicano-coletvista. Em audaciosas pinceladas vas, Hobbes derribou ou dissolveu o cosmos aistotlico em uma gama de assuntos de interesse e busca individual (ita 6, de busca pelo poder) e, ao mesmo tempo, insist no fato de esses egos 86 ‘conseguirem encontrar seguranca publica por meio do estabeleci- ‘mento (contatual) de um “superego” todo-poderoso, © qual repre senta toda a sociedad, Embora sej freqlentemente interpretado cemum sentido de realeza, o Leviathan, de Hobbes, pode de fato ser visto como indiferente 10s tpos de regimes. Ao minimizar as con- fendes monarquists-antimonarquists de sua época, 0 superego postulado por ele pode ser atribuido, com a mest: plausibildade, 80 rei e 20 corpo coletivo de cidadios em uma democracia. No se gundo caso, pode-se entender que o poder supremo esti investido ‘a vontade conjunta (ou “vontade geral") da coletividade, de ma- reira que agregue e Sintetize os esforgos ou as vontades parciis dos cidadios individuais - asim a0 corelacionar a vontade-poder dos “microsujetos” com a do “nacrossueito” do Estado, Nas palavras de Mark Roelofs, o radicalismo inovador de Hobbes basea= ‘vase em seu “antropocentrismo consstene”, manifesto na énfase 4a “obstinag individual, epistemologia nominaisae teoriapoli- tica como ideologia”. Ele ainda acrescenta: “Para Hobbes — © para todos 05 modernistas depois dele -, o individuo & vontade, pura e simplesmente,” enquanto a razio &“simplesmente a capaci- ‘ade que a vontade tom de resolver problemas". Desnibido de qual= ‘quer “sentido de esta natural” ou “satistagio preordenada de busca ‘oper de Deas en st Vi no € spent sss, mas mene om co {ub O dro de Des €comérmna com Se pose ran)” Ver Jess Tete Eki, New Wine ond Ou Bot Ioeeatoal Pts and ia! Discos, Nor Dame, Uiversy of Note Dane Pres, 198,12 Para lem da democrci fuga 2 pela essénca”, 0 sueito hobbesiano “irompeu pela Europa mo- ‘ema eespalhou-se pelo mundo, a plantar urbanismo, industialis- ‘mo €capitalismo financeiro em ods parte." Como sabemos, o elo hobbesiano enite “mierossueitos” anta- sonics e 0 “macrossujito” posteriormente se destez e dew lugar 20s paradigmas concorrentes do iberalismo individvalista (ou in ‘dividualismo liberal) e 20 populismo republicano (apesar do even- wal cuzamento dos dois modelos). O mais eloguente dos primeiros porta-vozes do individualism liberal fol Joha Locke. Apesar de ‘comparihar com Hobbes a confianca na busca dos indviduos (no “estado de natureza"), Locke procurou eliminat a necessidade do superego ou do poder soberano de Hobbes. Em outas palavras, cembora tivesse aceito, em geral, as premissas modemnistas de Hobbes, Locke tinha como objetivo evitar eanclusses daquel, {quando depositou sua confianga no governo parlamentar e na “repra de direito” (freqientemente identificada com a regra da ‘zio). Como parece evident, eneetant, a regre da vaio modersa — também chamada de “lei natural” moderna ~ perdeu essencial- mente seus referenciaistradcionas. Despregada de uma tleologia abrangente, a regra de dieto de Locke foi afinal ancorada ~ exi tamente como o Estado hobbesiano ~ em um aranjo contratval, isto é, na racionalidade ealculada e na vontade humana. Nao & de admirar, portanto, que o “estado de diteto” liberal modern (Reckusstaat) tena sido sempre marcado por uma ambivaléncia Preciria, manifesia nas tendéncias coaflitantes de investr no “direto” um superpoder hobbesiano ou, entéo, petmitir que @ sociedade seja levada de volta & anomia (ou estado de natureza), ‘A respeito desse ponte, Roelofs novamente faz alguns comentiies inspirados Ee escreve oseguinte: ', Mark Roses “Democrat iti" om Revo of Pali. ine 1,199.3 Ao sata ors com 9 psy Rel ine (8) Deis esc cinder, arc) deapases cB ete selva (a, md comm ¢ peu eesramene mio). Da tay i aps ce oy re Iotgeamene, qa “Grande Cone so Sr 2)» poe He these ante ipa Pode dam a Fred Dalimaye (0s sucessores de Hobbes nio compartitavam a conviogio de fue um saberano determinant © absollo consieraria sempre ‘de ea prio interes poteer os ineresses de seus sites Difretemert les optaram pr eps ese tipo de confine ‘nt lel interpre e aplicada por um Judo independent, {sim imvestindo aa lel precisamente,emboraseretament, Soherania everencida arirraeabsoluta que Hebtbesconce- ea se sberano. Ese ¢ um conttucionaliso dsitamente Imodeino, a crenga de gue 0s homens pode, por meio de um vor auo-nflgido,engjarse de forma pacitia num modelo Aerio postive” ‘A outra linha de politica moderna, que enfatiza 0 governo popular coetivo num sentido republican forte foi antieulada prin ipalmente por Rousseau que trnsferiu o poder absoluto do sobe= ano de Hobbes para o povo, mais especifcamente para a“vontade etal” do povo, Dessa maneia,o supremo superego do Leviathan Agora emergiu como um superego generalizado ou coletivo, como ‘9 “macrossujelto”unificado ancorando e esabiizando 0 governo fdemocritico (embora Rousseau tenha conseguido, curisamente, ‘combinar a vontade coletva a urna nogio liberal do “estado de d= reito”). Nas palavras de Jurgen Habermas, “o conceito de sobera- ria popular origioa-se da apropringo e da reavaliaio republicana 4a nogio moderna inical de soberania, do principio associado a0 [governante absolto.” O segundo tema, que remonta 2 Jean Bodin fe Hobbes, foi transportado por Rousseau “para a vontade do povo tinido” que ele “Tundiu com iia clissica do autopoverno de pes soas livres e iguas e incorporou no conceito moderno de autono- mia.” Em termos de seus efetas, a soberania popular era tho {mpressionante oa assustadora quanto 0 Leviathan de Hobbes ~ ‘como de falo se tornov palpavelmente evidente ao longo da Revo Tudo Francesa. Ao idenifcarse como a vontade geral do povo, © Comité de Jacobino de Seguranga Pablica declarou sem subterti- ios: CConsiderando-se que 0 ovo facts jd manifesiou sa vontade, todos em posigio contri esto fra de sin sberaia todos panera Dilip 14 ara li da democraci fuga » fora da soerania so inimign (.) Ente 0 ovo e seus inimigos ‘oi nada em comum, exo espa, ‘Como Jean Elshtain comenta, com sobriedade, @respeito dessa afirmagior \ Noh come rote corte mis ata gue osoberano, esse ‘soherano estiverientfieado com" pve", e ceras psoas ou _upastverem sido declradas no mais parte do povo, ert estab, torarse-30estangetos~ por a, inimigos ‘A istéria da democracia popular moderna (ow democracia do ‘povo) aio terminou, é claro, com Rousseau e a Revolugéo France- ‘st, Os dos séculos que se seuiram trouxeram msitas variagies a respeito do tema da democracia do povo ~ variagSes que, com freqiéncia, aparecem como um merd polimento da formula do Comité de Jacobino. Em meados do século passado, Karl Marx transferiu a “vontade gera” ou soberania popular, de Rousseat, para o proetariadoe elege, assim, esse dltimo como 0 novo supe ego ov identdade coletiva e como o motor determinante da mu ddanga social revolucionria." Dolado oposto do especto politico, a ‘Wentidade coletiva estava cada veo mais ligada ou identficada com a “nag” (la Nation) ou 0 “Estado-nagio”, umm passo esraté- {ico que, de manera continua, incentivou ow alimentow formas mais virulentas de nacionalismo ou chauvinismo. Todos esses desenvolvimentos culminaram em nosso século (XX) no surgi- mento de tipos drastcameate opostos de identidade coletiva ob ” Verba, New Wine and Od Bots, 18-16. Aira do Comité de cso rad de Fs. Em reo Habermas, er dea avr “Dele Serve Pols: Procedural Conc of Decay” em igen Habermas, Beteen Fats and Norm: Conrbton to Doane Theory f ad Democrat Wii Rehg, Cri, MAC MIT Pres 1956, 300 ‘Ao concerrarsc em Leia com Gua agi, Roel deve 4 e ‘nada democrca“evolclonia seca” ns seit ere “A der. {saci olin soil € un uo de um 6 prise, em etm pov (Gomes) compromeie com a toric, congrgas pram Wes cass compat um dio enti sora hie tombe o Pa ‘es mls e liar a arch end em Grego» aes dans So Jstg soa” Ver"Dewacate Dees". 18 2» Fred Oatmaye superego soberano: fascismo ecomunismo (ambos movimentos de tnassa qe veram a ser clsiiad,falverpreipitadament, sob {rte comum de “toalitarsmo”), O fasclsmo 0 comunisno Stina, Auschwitz e'0 Gulag, assim despntaram como r6tlos S Sreviados qoe Gsinguiram as agonias de nossa 6poca como patents lembrangas da “estmanidade do bomem para com © omen enum mundo osensvamentecvlizado & precio are Centar fto de, durant odo ese tempo, a soberana Jemocrtco- opus tesdo apaziuada, tvs até desviada, pelo consttucio- also lea eo legato procesaitae pelo “eval de iit” (Rechsston) de Locke um legado que, precisamente como re fesla 20 tocitsmo, aprofundou su” pra inclnago pela romia e pela avobuscainivgualisa, Esta tina tendenia fot fortementesusentada pela expansi do epitalno eorparative dh libeaismo de mereado ean todo mundo, uma expansioten- deol a reduia pica ea vida poblin a tm complemento da Empresa prvada,Porém,nio¢ peso grande perepgSo para ver {qe esses mecanismos literals contre, embora evessem coa- {endo o peigo ttlitrio, erm oprpio embrio do paradigm tern regio pel nterese indviual pea ica contaual "A aga, trtamos dahstria dh democraia moderna (com a devide essa pea revidade da narava, Chega ahora de ei ar de “contac historia” e pasar para uma avaliago mals eons- trutva do conto precedente ands para uma apesiagio do gue tem sido chamado deo “desconetameno com a Jemocraca” na frsse epoca Na minha opinio, a taefa da tora democratica Inj €a de tepesir ou feconceltaliza o govern popular defor tia foi ds encanto da sberania onda idenldade cole (de ‘Tia ede esqueda)~e defacto sem invader on se devia Jo {governo populr para prvlegir o mercado eo berate de o0- Peragio ou0 neoliberaismo. A segunda cauea 6 particulate Frportante no momento em que o Hberaliso de oper {eas icocesado como a ieologa dominant em esa global Como nos emsina 2 experinea tanto das sociedad ocientais ‘somo das nioocdental a inluncia mia das orgs do mer- Ver cia J. Sandel, Demseracy's Discontent: American Sah of Pui hsp, Camis, MA: Bena Pres, 1996, Para lem da democraci fuga a ceado global pode tr efeitos perniciosos para a classe trabalhadora «© para as populagies subalternas no mundo, as quals podem esmo- ‘ecerasaspiraghes a qualque forma de autogoverno democrtio,"” CColoquemos a questio em termos precisamente mais teGrias: a {arefa da teorizagio democrética (em minha visio) €a de ir além 00 fascinio modernista com cs “micro” e“macrossjeiss” autobuscadores « fazé-o sem exacerbar ou aprofundar o “descontentamento com democracia. O fato € que a iltimas década testemunharam versa iniciativas promissoras as quais apontavar: nessa dices especialmente aquelas empreendidas por um grupo de pensadores freqientemente rotulados de sltimos ou “pés-modernes”. Partcu- Tarmente do campo pis-modemo, um alague massivo foi langado contra a metafisica moderna centrada no sujeito e, acima disso, contra o conceito de um “macrossyjito” que afima englobar ow “otalzar” populagdesinteras (violando os mods intriasecos do outro”), A questio que pode ser levantada, entretanto ~ e que permela as paginas seguinies -, 6 se as iniciativas pés-modemas (2m um potencial capacitador ou incapacitador da vida pablica. Ox, em termos mais espectics, sea énfase na nio-comunaidade rah cal empurea a democracia para a peria ou para um abismo, Ente 0s principais pensadores polices afinados com argu- rmentos pés-moderos, 0 ataque 20 “macrossueito” populista foi iniciado por Emesto Laclau e Chantal Mouffe em seu importante estudo Hegemony and Socialist Strategy: Towards a Radical Democratic Politics (de 1985). Laciao ¢ Moulfe ditecionaram suas caitcas as agendas ttalizanes da esquerda politic e, nesse texto, 4questionaram o papel de uma identidade coletiva ou “esséncia”™ estivel do pov, como funcionava no marxismo tradicional oa or- fodoxo. Ao seguir uma traetria modernista (hegeliana de esquer- 4a), 0 marxismo ortodoxo ~ afrmavam eles = ainda dependia de uma grande narrativa ou meta-narrativa (no sentido dado pot Lyotard), notadamente, de uma “aspiragio monistica” para captat “a esséncia€ o sentido subjacente da Histéria". No pensamento de cima det, a specs Sacra resin pda nner {Spa pri sem eins ins a ore e cs © ‘Mares de pesos cman o deseo ema mise, Vere esse pon, Kalinga Senin, "The Caren Cis, Homan Rights 0 the Maa Je Commonary 1 (abel 3 1958) pp. 13 2 Fred Danae Marx, ess aspracto veio 8 tona com a instalagio do “proltara- {40 como o superego coletivo toalizando o futur da sociedad c, fem comemoragio a “revolugéo”, como o resulta escatolégico ‘as Tuts socais. Em seu liv, Laclau © Mouffe trouxeram uma visto da bistria geral do deseavolvimento desses concetos da Epoca de Marx, passando pels fases fina do revisionismo até ‘nossa época. Nos esertas de Kautsky © outros, a ortodoxia de Mare ainda era caracterizada por uma visio “essencialista” do con- fito de classes pela dependéncia de urn agente socal unificado (0 proetariado) e um instrument privileiado de politica (socialism {e Estado), O revisionismo medificou esse panorama 20 permitir maior flexibilidadee uma intervengi politica mais abrangente nos mods de produglo, Enretanto, 2 primeira rupura real com a orto- ddoxis ocorreu no trabalho de Antonio Gramsci, especialmente com sua elaboragio da nogio da hegemonia cultural e politica, Ainda assim, apesar desses avangos, a perspectiva de Gramsci permane- cet circunserita a aspectos essenciais, particularmente por sua tendéncia de aribuir 0 poder derradeizo de wificacao a uma iden= tidade de classe contruida “ontologicamente”. Para Lacau e Mouffe, © desaio de nossa época seria enfrentar com mais resolugo tanto a “crise” da democracia quanto do socialismo traccional. Nas pa- lavas dles (0 que esté agora em rise 6 toda uma concepsio do socialism «que se basen a centalidadeontlegicn da clase rabalhadora, fi papel da Revolugso (com "P"malsculo) come momento Fundador na transigio de um tipo de socedade para outa ma prssiiiade lusra de uma vonade coleiva perfeitamente Unda e homogénea que is torrar sem sentido © momento da pole, Oaspectoplral mulfactado das las sons con Temporincas fnalmentedisolveu o timo fumdamentodaguele Imagintopoltio." eso Lacy e Chal Moule, Hegemon and Scale: Toward @ Toda! Democratic Plena. Wnston More Pal Cammac, Lone: ‘era 1985p. 1-4 Ao tala 9 ceast o“inaglai rio, les escent (2) gue na pore "oneal ccna con ‘eitaieate em tore db Hina mo sina posuoe a ‘cedae’ oo {inn esate! qo oda sr contd nleealment oe fe Para lem da democrai fuga 2 A parts de um Angulo um tanto diferente ( com maior atengéo as formas de esquerda de dieita do coletivism), Claude Lefort fez ‘uma tentativa de desenvolver uma conceituagio da. democra para além dos limites modernistas de soberania © ientidade colti- va. Bi seu estudo Democracy and Potical Theary (1988), Lefort introduiu a importante dstngio entre “polity” ou “o politica” “a politica” ~ em que esta cltima se refer a esratégias manifests € empiricas, enquanto a “polity” (ou © politico) denota a maiz ‘consitutiva, quas-transcendentl da vida politica, isto €, © espago pblico que permite o mise-enscine (ow encenagao) da politic. De acordo com Lefort, no passido, os teorstas politicos reduziram ‘com freqiénca a “polity” & pola, ou sea, a agentes ea eventos cempiricos, a0 mesmo tempo descuidando da encenagio consti- ‘utiva da vida poltica, Suas mais fortes invectivas sfo dirigidas a construtos passades que, freqlentemente, substancializavam ou _essencializavam o politico a postular uma incorporagdo concreta do ‘espago pblic, particularmente a incorporagio et figuras repre- sentativas, como rei, imperadores ou pracipes. Assim, ele ressal- ta, durante o Ancien Régime, 0 governo monirquico fancionava ‘como uma representagéo holstica(totalizadora) do politico como (al, com a méxima soberaniainscritadiretamente no corpo do rei (considerado 0 superego coletivo). A Revolugdo Francesa sina- lizou uma ruptura abrupta com esse tipo de incorporagio ditetas ealetano, iso 56 ocoreu pacialmente ou poencialmente, De fio, ‘0 acontecimentos pés-revolucionirios durante o Gltimo séeulo levaram ao surgimento de regimes novos, chamados “democriicn”, tos quais “o povo, a nagio e o Estado assumem o status de ex. tegorias universis.” Concepgées dessa natureza,afiema Lefort, so 0 produto de uma regressio nostélgica, um esforgo de re em cers pois deca «reson coo ums over acon € rant pateat, mete um at andar de narra poli Hoje,» esc et testemonbando oa fil a dng dase apn Jason” Par ina evi eta dead ve er, de minh arn “egermony and Democaey", em Margins of Pala! Dice, Albany, NY: Sny Pr, 1988p. 116-136 (pao 9 » sed Dain captorare resubstancializar espago piblico. Em sua forma vi- essa regressio toma a forma do fundamentalismo e do {amo politico, Sob os auspicios totaltirios, ele escreve, ‘da soberania popular repetidamente deu lugar & fantasia de uma “identidade [Goletiva] substancal”, a fantasia de “uma soviedade homogénea e atotransparente, de Um Sé Povo". Em contraste com essa fantasia coletivsta, Lefortesposa uma nogio de democracia que & muito mais clusiva e, de certa forma, “descorpoifcada”, Na visio dele, a democracia gemuina ou radical testa um tipo “allamenteespeifico” de encenagio (mise-enscéne) priblic, de forma que “buscariamos em vlo os modelos no passa- do, ainda que nko seja de todo desprovida de uma heranga. A.es- pecifcidade da democracia para Lefort reside em sua radical remodelagem do poder soberano, notadamente sua mudanga desse poder de um local de governo manifesto para um outro de auséncia ‘ou de presenga vazi, “De todos os regimes que conhecemos,” ele ‘esereve, a democracia moderna 6 “a Gnca que represenfou 0 poder de al forma a mostrar que o poder é um local vazo, e que manteve uma lacuna enteo simbico eo rea.” Sem incenivar a anarquia, 0 vazio do espago democritico significa “que 0 poder {maior} nio pertence a ninguém; que aqueles que exercitam 0 poder nio 0 pos sem que de fato eles nfo o incorporam.” Vista por esse angulo, a {democraca radical parece mareada por um tipo de incorporacao ou <ée desincorporagéo pla instituigho de uma “Sociedade sem corpo” ‘que resstea~ ou desscreita de ~ qualquer “totalidade orgnica”. Expresto diferentemente, desincorporacio e despossessio (do po- ‘der)revelam a democracia como uma forma de encenagao que nio pressupée “a existincia de uma comunidade cujos membros se Aescobrem como sujeites pelo proprio fato de serem membros”, ‘assim, apontando para uma sociedade “sem qualquer determi positiva” e nio-epresentivel pela “Figura de uma comunidade”. Embora assim encere ou transgpda as formas traicionais de ident- 7 ede ef, Democracy and Pica Ther pp 1-13 1629, Para lem da democraia fuga 2 Aade pabtica, a democracia, para Lefort, também abrange uma des cemtalizagio da metafsica moderna, um distanciamento da segu- tanga epistemoldgica © das garantias fundamentas de crengas © gies. Como ele afirma, em urn trecho instigante que ecoa em boa parte davitertura contemporinea ou pés-moderna, Em minha opi, o aspect importante € que a democraia € Insituda esstetada pla dsslugio dos marcadores da cee 2, [so inaagura uma hisria em que a8 pesos Senter vm ineterminacao fundamental quanto bases do pode, da lel € to conecimenio quanto 3s bases das relages ents prpi- ‘sco outa, em edas os afveis da vida Sota” Enire os pensadores contemporineos continentais, freqdeme- mente roulados de “pée-modernos”, nenhum é mai intimamente associado& descenralizago da subjtividade (tanto no nivel micro ‘como no macro) do que Jacques Derrida. De cert forma, 0 tema ‘corre como um fio conetor 20 longo de seu opus em evolugto. Em ‘um de seus primeiros ensaies,datado de 1968, Derrida fevantou & questio do status e da possibitidade da antropologia filoséfica, e, ‘or conseguinte, do status eda possbilidade do “homem”(se hu mano) como sujeito, Ao ponderar os eventos de climax dagucle ano, 0 ensaio nitdamente se distancion da voga do humanismo ‘existencialista (centrado no sueito) que permeou a Franga nes anes ‘pés-guerra, uma voga que deixou suas marcas em todas as lias de pensamento. “O humanismo ov antropotogismo, durante esse petiodo,”destacou Derrida, “era a base comum do existencalismo cristo ou aetsta, da flosofia de valores (espirituista ov ni), do personalismo de dieitae de esquenda,e [mesmo] do marxismo no estilo cléssco”; assim, 0 enfoque humanista no sueito era “a base ccomum despercebida e incontestada do marxismo e do discurso Democracy and Political Thy, pp 17-19, 23-296, Pam uma ecgee 08 rei detada sido co Left, ver, de min aio “Post Mephysicl Plc” cm The Other Heeger ac, NY: Cogell Univer Sy Pre 1983, 98796. 26 Fred Dalimaye social-democrala ou cristio-democrata” Embora protestasse cont as leituras estreitamente “antropologists” (ou existencialistas) das filosofias de Hegel, Husserl ¢ Heidegger, 0 ensaio aceitou a pre- senga de caractertticas humanistas proeminentes nos respectivos trabathos, Assim, no caso de Husser, apesar de cetastendéncias teansgressivase trasubjetivas era ainda a “humanidade”, no sen- tido de um “humsnismo transcendental”, que funcionava como 0 felos governante de sua fenomenologia. 0 caso de Heidegger era tum pouco mais complicado em razlo de seu esforgo determinado dd “superac” a metafisica e qualquer tipo de teleologia humanisa Enictano, apesar desses movimento “desconsrutivos”, eta pos ‘vel detectar um “privilégi sui, ocult, teimoso, que, como n0 «aso de Hegel e Huser, leva de volta posigio do na [subjetiv dade plural] no discurso”, Embora 0 Dasein de Heidegger possa ‘lo ter sido sindnimo de “o homem da metafisca,” ainda asim a “atraglo magnética” do “pr6prio do homem nio deixou de pes smear seu opus em expansio. Nesse ponto, Deri vira-se para Ni czsche como 0 pensador que oferece na nova sada mais radial ‘0 apontar para um verdadeiro “fim do homem”. Lemos que o fei tor de Nietzsche “queima seus textos e apaga os rastros de seus ‘assos. Seu riso eno explode, direcionade para uma volta que no smais ter a forma da repetigéo metafisica do humanismo.”* Em ttabalhos posteriores, Derrida trnsferi firmemente a eri- tica do humanismo ao dominio politico ou 3 arena da “encenacio' ‘publica; quase invariavelmente,o alvo dos esforgs de desconstru- ‘go era a nogio de um macrossujeito ou a subjetvidade coletiva, isto 6, a premissa de um povo comum de algura forma habitando ‘um “ns” coletivo. Assim, embora aparentemente homenageando 0 legado marxista, seu texto, Specters of Marz, de muitas manciras concedeu lugar de honra ao antioletivismo radical de Max Stier, 8 sua insistncia na “imparidade” absolute & singularidade das "saoques Dera, “The Ends of Man," em Margins of Posoph ad. Alan Bash, Chlego: University of Chicago Pres, 1982, pp. 114118, 122124, 127,136 Par lem da democracia fuga 2 vidas humanas. Dessa manera, a énfase dada por Marx classe trabalhadora € & necessidade de uma lute de classes foi colocada ‘em segundo plano ou descentrada, em troce, deu lugar a uma ‘ualizagéo” pés-moderna da luta politica € da emancipagio social (0 que Derrida também chama de uma “espectropoitiea).° Uma trajetria semelhante foi seguida alguns anos depois em Politics of| ‘Friendship. Ao distancia-se das retratagbes tradicional que acen- ‘avam um “vinculo” mituo, o que estabelecev um “nés", 0 estudo apresentou a amizade como uma relagio remota (ou uma melhor ‘no-elagio) entre agentes incomensuriveis, completamente fe reaciados tanto um do outro como de si propos. Ao basar-s nes ses pensadores do fim da era moderna (ou pés-modernos), como [Nietzsche e Maurice Blanchot, Derrida salentow a naturezaanti= hhumanista de seus escrtos, 0 fato de eles preferiem “chamar 0 amigo por um nome que nao & mais o de um vizinho, talver nio ‘mais o de um homer”; no tratamento de Blanchot, em particular, a amizade requer um reconkecimento da “estranheza comum” dos parceios, uma compreensio de que os amigas, “mesmo em mo- ‘mentos de maior familiaridade, mantém sua ininita distncia” Depois de extra possves igdes polticas desses mentores, © batho de Derrida cobra 0 horizonte daguilo que ele chamava de “uma outra politica”, uma politica ¢ uma democracia “por vir" que liminaria por completo a noglo de um “nds” corapatthada, Em suas palavras, anova “politica da amizade", que surge no limiar do * Como Deda carve, em um capt ittulad “Em somes revlugo "scl domme do odo ten delice eta desc fo der, du geopae, 6 arose an etade ovo-eage o Shas roprcaes gota, Go eo opto o pri conc ae sn ce pris (-) tema cai da Sx” Poem 1 em cnt, ps ter nvoduido woes dco 6 ‘Nila, Deda vise pr Max Sine “Nos evar ros vials,» anda precament, 3 sevedade Fs police de Stier av an deve terion aro cna ck" Ver De, ‘Speco of ar The Se oft Do The Wo of ang. nd ts Ne ‘craton. Peay Kt, Nova Yo Rose, 154 p98, 107, iia red Dalmay fnumanismo, inaugura uma “comunidade de amigos solidérios”, {sto é, uma “comunidade sem comunidade, uma amizade sem & ‘comunidade dos amigos de soidao” ou, entio, uma “comunidad snacoreta”" CCuriosamente, a erica do humanismo (n0 sentido de micro © ‘macrossvjeitos) também recentemente tem se infltrado na posi de um pensador nio suspeito de quaisquerafnidades pis-moderas: ‘ingen Habermas. Ao deseavolver seu modelo de uma "democra- ‘ia deliberativa” — supostamente a corrigir tanto es defitos das variantes libeais como 0s das republicanas ~ Habermas discorda «as premissas humanistas (ou cenradas no sujeito)existentes nes- sis duas concepgéa. Ele escreve que 0 modelo deliberative “des- ‘arta todos aueles motivos utilizados na filosofia da consciéncia’ (lcias: filosofia do sujeto) que poderiam levar @ pessoa a atribuir ‘© aulogovern popular a um “sujeto macrosocil” ou ento a confit ‘em mecanismos de governo ene “sjetosindividvsis coneoren- tes”, Enquanto a primeira abordagem (sepublicana) vé os eidadios yo “um ator coletivo que reflte 0 todo”, como um “sujeto em cesstnciaorietado para um objetivo", a segunda abordagem (lbe- ral) apresenta os alors individais como “variveis dependents, «em processos de poder”, Contrariamente, a demoeracia deiberativa (ou discursiva)corresponde & “imagem de uma Sociedade descen- ‘rada”,sociedade esta que desis da “ilosofia do sujeto”. Ao re- Alsi a alta complexidade que caracteriza a vida social moderna, © “eu” dos cidadios nessa versio “desaparece mas formas de comu- nicagio desprovidas de sueito, ue regulam fluxo da opinio discursiva ea formagio de vontade”. Em lugar de invocar a8 prer- rogativas de um demos soberan (vst como um superego coletivo), ‘6 modelo deposita sua confianca na institueionalizagdo de “proce- plos sugestivos dessa possbilidade, Heine citara as implicagbes Sevastadoras da Critica da razdo pura de Kant junto a0 tesmo juropeu e a influéncia sanguindria das iéias de Rousseav na pol. ticarevolucioniia de Robespirre. Infelizmente, prossegue Berlin, os flisofes -o alvo aqui é, 0 «que parece, a filosofia da linguagem onfindra praticada em Oxford — ‘nem sempre se dio conta das implicagées sociaise politieas de ‘suas alividades e alimentam a lusio de um isolamento, na verdade ficticio, Alheios a tudo que se passa fora do reino abstrato da filo Sofia, completamente absorvidos com as descobertas mais suis que ali reaizam, esses filsofos tendem a olhar com desdém ou indiferenga o dominio do pensamento politico, percebido por eles ‘como inadequado ao exerccio da anise filosfiea tal como a foneebem. Contra essa flosofia despolitizada, Berlin, o liberal ¢paaiado ma defesaapainonad da berate, dg palavas dra. ele quem escreve: [Negligenciar o campo do pensameno poco peo fato de seu ‘ema bisio—insivel epeno de atest ~ no Se enquarar em 2 Ls August Sarmento Caveat de Gusmao, ‘conc fix, em modelos absratos,e ado poder ser mano- brado por dlicaos insramentos adaptive ais inguisti- ‘ow Iga para exigr ua unidade de método cm losfi © Feet ualgue ota coisa qe al modo no poss soucio= far simplsmente se eatrogaracrengas pola primis ‘Sesprovidas de erics (Bertin 1981: 134). ‘Soava de todo inaceitével x Berlin que, em uma época em que valores tio eas & nossa civilizago liberal, tais como a iberdade individual e a tolerincia, enconteavam-se ameagados pelo mundo sovietico, a filosofia pudesse dar as cosas & politica.” E no con- texto dessa preocupagio que ele se debruca sobre 0 conceito de liberdade negativa e busca elucidar o seu significado. Assim sen ‘do, cabe reconhecer a presen inisfargvel de valoragies liberais fg anélise de Berlin, Como Constant, Mill e Tocqueville antes, dele, 0 autor de “Dois conceitos de lierdade” mostra-se também apreensivo com o destino da lherdade individual em sua época, Constant vslumbrara um perigo no iguaitarismo coletvistae na estadolatra da lideranga jacobina inspirada em Rousseau. Mill © ‘Tocqueville, que se conheceram ese estimaram, viam com apreen- so 0 conformismo, a apatia€ 0 espirto de rebanho estimlados plas condigées sociais e econémicas da moderna democraci Puno fokrtiano Marcuse, «flo da ingaapem edn, na verdad, Perec osniveso dali, esepenhando alo pepe eum Kel TSpinadoe de dominance case ha sock tera (er Marae, {Ora exp. Pas uma adie mis cae ens lc, enbre nko moos anv ds arg lose, ea. d ele Palas © iy me oie tint Mil a de Ter tee der upto ioscan Here inl as sees ‘passa dennciom, nu vee © quanto oslo 6 ede ses tora pemane: dependent do cei ecoespecii sz 4 gl © Si ere ag ema min ‘ene sper O gue Mle Tosqevile eam no am wa ana ‘fei ede neptiv como 9 posiidade de que em pesos at {ae sotoes demain nds, satin cen For 608 Inteeses prices niveldoe por um pragmitism cet, enh om rome apereeamenio mr vind, egerese,Ja paras ‘Etec otra vids bin o de om projet de sa conforms © ‘igln, Ness preci, Mae press ees flo emo 0 Constante erin 2 sta ailtima, para ambos, abrigava no s6 promesses felizes, mas {amém periges. Berlin, ao eserever em meados do século XX, tem ‘outros temores. Para ele, o perigovinha antes de tudo do socials ‘mo marxstarepresetado no Estado sovidtico e em seus sadlits, Esse o objeto de suas preocupagies. ‘Mas essa inegivel motivacio ético-politica que anima a andli- ‘se de Berlin ndo chega, sugerimos, a comprometer o valor estrit mente cognitive daquilo que nos diz, pois ela, na verdede, esté presente apenas como pono de partida da investgagao, nio se imiseuindo no conteido das conclusies intclectusis atingidas, Ao izat uma distingao weberiana, drfamos que 0 idedrio ético- politico liberal constitu a “relagéo com valores” responsével pela escolha do objeto de anise em Berlin, mas no se taduz na pre ‘senga de juizos de valor na interioridade dessa anlise. Dito isso, ‘abe obscrvar uma peculiaridade das consideragbes de Berlin so” bre a idéia de liberdade negativa, qual sea: 0 seu carter estrta- ‘mente analico. Com efeto, malgrado a censuras que dirige & filosofia analitica por seu atheamento da problemitica politic, Bertin, na verdade, acaba lancando mio dos métodos dessa filoso- fia quando se debruga sobre 0 conceto de liberdade negative. Ve- Jams ss0 mais de pero, ‘Quando Benjamin Constant nos fala das condigdes socais & ‘econdmicas que se encontram na raiz da liberdade dos modernos, a liberdade como independéncia individual ~ em uma palavra: a ‘modem sociedade industrial, entio nascente -, ele brinda-nos ‘com uma explicagio empirica,histérca, da emergéncia de novos valores, de um nove fato moral. Nio se trata aqui de elucidar 0 significado do termo “liberdade”, de chamar a atencio para a va- gueza clou ambigiidade dessetermo, para uma possivel maltipl- cidade de significados nele encerada. Constant, na verdade, no Prima, como jvimos, pel rigor analitico e coafunde no conceito de liberdade dos modernos realidades de fato distintas. O mérto dele 6 outro € deve ser procurado, a nosso ver, na efetiva funda ‘alo de rtp d um el mol peesbelsdo. anu cd anise do componcate ico epcuitive do berate de Mil ver de Ricard Bulan, Libram estate modem meniscio emplica de sas asergs reavas a poste cone ‘scare asocieade maraae saorizagi cece de qe € ho, em nos tempo, ierdade individual Ora, no eas de Ber in depramo-nos cm alg stint. Alo qe var encontrar totamente una anise conceal, wna creusanlads © met alos anise coceteal ce mules da moderna Hs Gt O pono depart de Beri €& conte de qu cnet de iberdade abrigan stria una enorme diverse de sige ados mais de dozens, aster ele, Dente exes sins, Goi evesemse, diz Ber, de importa capital waist da hand Sobre ese pot, ere ee © primein desss sentidos plies de liberdade individual ow iberdade institucional (Fare uso de ambes as expresses para diacr a mesma coisa), 0 qual (com base em milo precedes) ‘Chamarei de semi “negatvo", vem inorporado ma vesposta pergunta: “Qual é a dea em que 0 sujet ~ uma pessoa ou um ro de pessons ~ deve ler ou reeber para fazer 0 que pode fazer, 0 Ser 0 que pode St, sem ue Out pessous ier ram?” O segundo, que chamarel de sentido pesivo, vem incor- prado na fesposta & perguna: "O que ov quem & a fone de ontole ou de interferéncia que pode dterminar que alguém {aga ov sja tal coisa emo outa?” As ds pergunas so nil dament distin, mesmo que se possam sobrepor a espstas 8 ambas (Belin, op cit: 13), io sera talvez exagerado dizer que a anélie levada a cabo por Berlin em “dois conceites de liberdade” persegue, antes de tudo, uma espécie de “puriticagio” do conceto de liberdade nega- tiva exclui desse conceto toda uma série de elementos com os ‘quas pudesse, erroneamente, ser identifcado. Preocupa em parti- ‘culue a Berlina confusio de valores responsive, segundo ele, pelo desnoreamento moral da conscigncin dos liberais no Ocidente Estes tltimos percebem, com raz, que a lberdade, mesmo que consttua um fim conclusive, ni representa 0 sinico objetivo dos sees humanos. Mais ainda: percebem que, na historia da humani- dade, amide, a liberdad foi conquistada “por meio da exploracko da vasta major que ndo a possi, ou pelo menos escapando a vi- ‘odessa maori”. Incomoda a esses lheais constta o quanto © ‘execiio da Iiberdae individual permanece resto aun poucts, assim como a enorme divide social desses povcs cm a maoias ccuides. Ferem 0 sentinento de justign © de imparcialidade, onsittvos da moralidade liber, semelhantesconsatgtes se Iiberdade individal representa de fato um bem supremo, como praeriamos nega is vistas maiorias? Como desea em cit Cunsincassociiseecontmicas nes quai no podemos compa Ulhila com todos? Em sums, @ elogio ds liberdade nao devria slur esas preocupages, sob rscd de um efetivo abandono da ‘moralidade liberal Or, responde Berlin, © que temos agut 6, na verdad, uma confusio de termes, pois o seatimeno de justia, 0 amor pela iguaade social, a reocupagio sincera com o ber-sar de nossos semelhante, por mis louvéveis que sejam do ponto de vista da _moraliade liberal, mio podem nem dever ser confundides com @ ideia de liberdade. Nios trata de estabelecer ua esala de valo- res ma qual a liberdade ocupe lugar mis elevedo, No se tata isso, Berlin econhece de bom grado a legitimidade moral de uma possivelrenincia i liberdade em favor da jstiga ov da igualdade social. le quem escree Da mesma forma que o crt rss Helinski, pose dizer qu, '¢outos io despjados dela ~ se meus infos devem pet necer na pobreza, na mira e a servidio =, eno nio 8 dese- jae para mim, ejito-acom todas as mins forges e com toda ‘cetera preteriviacomparthar do destino deles (p28). Semelhante stcifci, cootudo, prossegue Berlin, nfo pode ser pereebido em termos de um actéscimo em minha liberdade Cabe antes admit, nesse caso, a preseaga de um senuino coaflito se valores, conlito esse solucionado por uma opcio pela igualda- ‘deem detrimento da liberdade. Nada se ganha confundindo coists sistintas: “Cada coisa ¢ 0 que €: liberdade¢ liberdade, eno igval- dade, imparialidade, justia, cultura, felicidade humana ov cons citncia trangia”, Nio somos obrigados a escolher a liberdade, Podemos abrir mio dela em favor de outros valores, mas no Soa “ ie Augusto SarmentoCavaleantl de Gusmao tia razodvel, ao assim proceder, comin berdade. Ser livre significa dispor de uma érea de atuagio cujas fronteiras méveis devem ser objeto de discusses bargankas no Ampito da coltividade, na qual no venhamos a softer a interfe- rencia das outros. 0 aumento de nossa liberdade, em decorréncia disso, 6 dretamente proporcional & expansio dessa ea de nio- interferéncia. Invesamente, toda reducio dessa rea implica uma ra ameaga 2 nossa liberdade. Esse € o conceito de iberdade negativa. Ele no implica, nem precisa implica, qualquer referén-