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Deus é cruel?

Gênesis 22.1-19

O Deus do antigo testamento talvez o personagem mais desagradável da ficção; ciumento, orgulhoso, controlador, mesquinho, injusto, intransigente, genocida e vingativo. Sedento de sangue, perseguidor, homofóbico, racista, infanticida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo. (Esse é um retrato que Richard Dwakins pintou no livro Deus um delírio? Sobre o Deus da bíblia)

De acordo com ele o Deus da bíblia é um ser arrogante, fechado em si mesmo, louco por sangue e que não consegue enxergar coisa que seja mais maravilhosa que Ele mesmo. Um ser altamente orgulhoso, vaidoso que quer a glória só para ele, que humilha todos os outros deuses existente. Talvez esse seja o retrato de muitas pessoas que convivem com você. Amigos, parentes. Filhos, esposos. Mas existe a possibilidade de nós pensarmos assim como cristãos, apenas em nosso coração. Frequentamos a igreja, mas dentro de nós podemos construir um retrato de Deus assim. Cantamos hinos, ouvimos pregações, mas nosso coração pode estar repleto, angustiado, cheio de dúvida sobre Deus. Em salmos 14.1 o insensato diz em seu coração que não há Deus. Ele não diz com a boca. Nenhum de nós seria louco de falar isso, mas a convicção de muitos sobre Deus pode estar abalada. Talvez basta um sofrimento que você não consegue explicar, que o imaginário sobre um Deus torturante pode vir a tona juntamente com um montante de questionamentos, e como diria Lewis, “um sádico cósmico que zomba do homem”. Estamos falando de um imaginário que não está entre ateus e incrédulos de todo tipo pouco afeiçoados a religião, mas de algo que pode estar no meio cristão.

Dawkins a ver que Deus faz tudo para si, que Ele é o centro, e vendo que Ele exige de nós a glorificação, e porque os Dez Mandamentos iniciam com essa lei que não devemos adorar outro Deus e, num primeiro momento podemos achar que Dawkins tem razão, e pensar que Deus realmente é narcisista, ele parece se amar, se adorar. Isso poderia ser frustrante, mas na realidade é tão bom e necessário. Então vamos perceber que é maravilhoso saber que Deus ama a si mesmo, e o porque é tão importante sustentar a fé num Deus que ama a si mesmo, e que não conseguiu encontrar nada que pudesse ser mais amado do que ele mesmo. E a coisa mais incrível a bíblia demonstra é que não há nada que satisfaça a Ele mais do que Ele mesmo. Ele glorifica a si mesmo, porque não existe nada que seja maior do que Ele mesmo. Isso não vai ser orgulho e Ele mesmo não vai agir com uma falsa modéstia. O orgulho vem fundamentado em mentira. Quando dizemos que alguém é arrogante, no fundo no fundo esse alguém só pode ser arrogante porque é um mentiroso, porque o individuo se acha o que ele não é, ele se faz passar pelo que ele não é. É quando uma pessoa acha que tem a capacidade de governar até a vida daqueles que estão a sua volta, essa pessoa é arrogante porque ela não tem esse poder. A falsa modéstia seria como o Pelé dizer que não sabia jogar futebol nenhum. Seria loucura ou mentira. Quando estamos diante de Deus e ele nos apresenta com ser a razão e existência de todas as coisas, é porque ele é a razão e existência de todas as coisas. Tudo gira em torno dEle, tudo encontra repouso nEle (como diria Agostinho “nosso coração não repousa enquanto não descansa em Ti”), tudo faz sentido e só faz sentido em relação a Ele. Por isso a idolatria é algo tão nocivo, porque ela rouba de Deus aquilo que traz equilíbrio a todas as coisas a nossa volta. Quando a nossa vida está voltada a um sentido que não há Deus, quando amamos outra coisa e damos o lugar a ela que era lugar de Deus, a nossa

realidade e nossa vida fica em desequilíbrio. Porque não existe uma realidade ultima, mais sublime, mas amável do que Deus. Sobre Gênesis 22, o Deus da bíblia, não é apenas o Deus de Gênesis 22. Olhando apenas para esse texto algumas pessoas poderiam concluir que Deus não é um Deus de amor, misericórdia e compaixão. Imagine que você vai ouvir a ópera Lohengrin de Richard Wagner, alguém diz que o órgão é uma parte importante e que você deve prestar atenção nele. Mas você vai perceber que o clímax é somente no casamento de Lohengrin com Elsa, que tem aquela famosa frase que as noivas pedem para sua entrada no casamento. O que é curioso, é que o órgão entra em cena no casamento, na mesma hora que as damas vão cantar dentro dessa mesma melodia, mas ele só faz praticamente quatro acordes. Você poderia pensar que ele é louco, mas Wagner ele é um gênio. Você poderia tocar estes poucos acordes sem as vozes, sem os instrumentos e iria ficar muito esquisito, ruim, mas ele é maravilhoso dentro de um contexto. Assim é o Deus da bíblia. Você as vezes pode pegar umas passagens bíblicas soltas e simplesmente analisar isoladamente e achar estranho, como um quadro onde o cinza é só um cinza sem cores. E fazer uma imagem de Deus através de recortes pode levar ao equívoco. Então a sugestão é ouvir a sinfonia de Deus completa. Imagine Gênesis 22 como um acorde e que ele deve ser tocado com algo mais.

1 (1-4) Deus põe Abraão a prova. Primeiro ele separa ele de seu pai e depois ele quer separa ele de seu filho. Abraão já estava acostumado com rupturas, estava acostumado a obedecer a Deus. Mas a pergunta é: até que ponto? Sob qual preço ele permaneceria fiel a Deus? Isso é o que deveria nos escandalizar. Como um homem tem coragem de dar a vida de seu filho por um Deus? O seu único filho? A gente sabe que em nome de Deus alguém pode fazer as coisas mais loucas desse mundo. A gente sabe que em nome de Deus alguém pode explodir um prédio, ou pode dizer que seu esposo ou esposa não representa mais a vontade de Deus em sua vida. Podem abrir igrejas, negócios e fazer mil e uma coisas. Agora o que faz o sacrífico de Abraão ser diferente de um homem bomba? Abrão poderia dizer que Deus estava louco. Deus pede o sacrifício de um ser humano. Deus esta fora do controle, fora de sí, pois Deus tinha feito uma promessa, de grande nação e um filho. Nós vemos que aparece Ismael, mas Deus mesmo assim o filho da promessa é Isaque. Não adiante improvisar a promessa de Deus em sua vida como fez Sara usando sua serva Agar. Deus faz Abraão esperar por tanto tempo e depois pede para que o seu filho seja morto. Mas o que é mais louco é que sabe-se lá como Deus iria resolver a questão, é que Abraão tem convicção.

2 (5-9) Abrão tinha certeza que voltaria. Ele coloca ela nos ombros de Isaque. Veja bem que isso dá a entender que ele não era um rapaz franzino, pois carregou lenha em suas costas, e veja mais para queimar ele mesmo. Ele era forte o bastante para segurar a Abraão e fugir do seu velho pai. Mas os dois caminham juntos, e Isaque pergunta ao que escuta a resposta que não poderia ser outra: Deus proverá. O Deus proverá de Abraão é uma frase de quem não sabe como, mas Ele cumprirá sua promessa. Se ele prometeu Ele vai cumprir. Abraão nos apresenta um dos fundamentos da fé, que não é a negação do sofrimento, mas que a despeito disso, mesmo tendo a impressão que Deus está contra ele mesmo, ele continua a ter Fé em Deus, se não no fundo no fundo sem continuar na fé, ele poderia nutrir uma desconfiança de Deus. Mas ele não faz isso como um robô insensível, como um Vulcano, pois ele sofre. Não há como passar pela prova sem sentir o sofrimento lá no fundo. No hebraico o Tomeno verso dois tem uma partícula que abranda como se Deus estivesse pedindo por favor. Isso não é imposto a Abraão, ele está numa atitude de obediência. O que espanta é que Isaque está na mesma sintonia e ele se permite ser amarrado. Ele não resiste.

3 (10-14) Quando contamos histórias, nós damos o título de sacrifício de Isaque, mas não houve sacrifício. Um cordeiro foi sacrificado. Mas ainda sim resta um problema. Porque Deus fez o que fez? Quais as razões de Deus para provar Abraão, para provar Jó, para a provação que você possa estar vivendo? Porque ele permite, se ele sabe de tudo, e parece que volta tudo e podemos imaginar que Deus é sádico, e com requintes de crueldade ele vai lá é para a provação. Mas vamos além. Nestes últimos momentos vamos analisar para Gênesis 22 colocando outro acorde fundamental: a Cruz, o sacrifício de Deus na cruz. Assim como Isaque carregou a lenha, Jesus carregou o seu próprio madeiro. E Jesus é homem com também é Deus. Um Deus que se fez homem com um objetivo, de perdoar o homem, de trazer redenção ao homem. Deus de modo algum poderia ser egocêntrico, pois ele é Trinitário, é comunitário. Não um único individuo olhando para si mesmo, mas três pessoas olhando uma para a outra numa unidade que qualquer cristão invejaria, pois espelhamos isso, mas não vivenciamos de fato. Eles três são um. Nós temos um Deus que se humilha. Um ser arrogante ficaria longe do que Deus fez em Jesus. A imagem que Deus apresenta em Jesus é a imagem de um Deus humilhado. De um Deus que se submete a cruz, e que foi vestido com o cuspe dos romanos. Foi flagelado, espancado, teve uma coroa de espinhos, foi furado do seu lado e você imaginaria que um Deus desse seria arrogante? Só se o seu deus não fosse o Deus da Cruz. Coloque-se no lugar de Deus quando pede a Abrãão que sacrifique Isaque. Seu único filho. A ênfase é que era o único filho. Deus sabe o que é ter um único filho. Todos que cremos somos filhos de Deus, mas não como Jesus, pois ele é da natureza do próprio Deus. E veja o ponto maravilhoso, pois olhamos para Jesus e dizemos você é um dos nossos, e Deus olha para Jesus e diz você é um dos nossos. Que mediação linda. Ela é linda porque Jesus é Deus é homem ao mesmo tempo. Então quando Deus olha para Jesus é vê seu filho. E que ele olhou para Isaque e vê ele permitindo ser amarrado, para que ele seja imolado e queimado. Imagina Deus vendo tudo isso sabendo que um dia seu Filho estaria preso a uma lenha com pregos, e não ia aparecer nenhum anjo para dizer: Para! O único sacrifico humano que Deus aceitou e permitiu foi o sacrifício dele mesmo. Não está morrendo apenas um mártir, mas é o próprio Deus. Devemos assumir que Deus se humilha. Se você acha que você saberá esta noite porque Deus pediu a Abraão isso, eu não tenho a resposta. Os motivos estão escondidos no coração de Deus. Estão tão escondida quanto a pergunta que você faz na provação: será que Deus me ama? Não foi o sangue de um homem qualquer, mas o sangue do homem Deus.