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STEVEN PINKER O instinto da linguagem Como a mente cria a linguagem ‘TRADUGAO. CLAUDIA BERLINER Revisko TECNICA CYNTHIA LevaRT ZOCCA Martins Fontes SGo Paulo 2004 1a obra fol publicada originalmente em inglés eomo tla THE LANGUAGE INSTINCT. Copyright © 1994 by Steven Pinker: Copyright © 2002, Lieraria Martins Fontes Editra Lada, Sao Paulo, para a presente edicaa Hedigio abril le 2002 2 tiragem Junio le 2004 ‘Tradugio (CLAUDIA BERLINER Revisho téeniea Cynthia Levart Zocea Revisio gratiea Lilian Jenkin Maria t Producio gréfica Geraldo Alves Poginacio/Fotoitos Sualio 3 Desenvolvimenta Editorial sa Pravet Dados Internacionais de Catalogasio na Publicasio (CIP) ‘(Cimara Brasileira do Livro, SP, Bras) Pinker, Steven, 1954 © instimo da linguagem : come a mente cra a linguagem / ‘Stoven Pinker; tengo Claudia Berliner; revisiotéeniea Cynthia Leva Zocea, ~ So Paulo: Martins Fontes, 2002 ‘Titulo original: The angusge intine Bibliografa, ISBN 85-336-1549-3, 1. Biolingustica 2, Linguagem 3, Lingus esa Tndices para eatdlogo sstematien: 1 Linguagem 400 Tados os direitos desta edigao para o Brasil reservados Livraria Martins Fontes Editora Ltda. Rua Consetheiro Ramalho, 330/340 01325-000 Sao Paulo SP Brasil Tel, (11) 32413677 Fax (11) 3105.6867 mail: infotemartinsfontes.com.br. htipl}wwew.martinsfontes.con.r Para Harry e Roslyn Pinker, que me deram a linguagem IwpIce Preficio « 1 I. Um instinto para adquirir uma arte + 5 2. Tagarelas + 19 3. Mentalés + 59 4, Como a linguagem funciona + 95 5, Palavras, palavras, palavras + 151 6, Os sons do siléncio + 195 7. Cabegas falantes + 241 8. A Torre de Babel « 293 9. Bebé nasce falando — Descreve céu + 333 10. Orgios da linguagem e genes da gramética + 379 II. O Big Bang + 425 12. Os ctaques da lingua + 477 13. O design da mente + 523 Notas + 559 Referéncias bibliograficas » 577 Glossério + 605 Indice remissivo + 617 PREFACIO Nunca conheci alguém que nio se interessasse por linguagem. Escrevi este livro para tentar satisfazer essa curiosidade. A lingua- gem comegou a ser submetida ao tinico tipo de compreensio sa- tisfatorio, aquela que chamamos de ciéncia, mas essa noticia foi mantida em segredo. Ao amante da linguagem, espero conseguir mostrar que existe um mundo preciso e rico na fala cotidiana que vai muito além das curiosidades locais de etimologias, palavras incomuns ¢ exemplos sutis de uso. Ao leitor leigo interessado em ciéncia, espero conseguir expli- car © que esta por tras das recentes descobertas (ou, em muitos casos, nao-descobertas) noticiadas pela imprensa: estruturas pro- fundas universais, bebés inteligentes, genes da gramitica, compu- tadores com inteligéncia artificial, redes neurais, chimpanzés que se expressam por sinais, homens de Neanderthal que falam, s- bios idiotas, criangas selvagens, lesdes cerebrais paradoxais, gémeos idénticos separados ao nascer, imagens coloridas do cérebro pen- sando e a busca da mie de todas as linguas. Também espero poder responder a muitas das perguntas que surgem naturalmente quan- do se pensa em linguas: por que existem tantas, por que os adul- tos tém tanta dificuldade para aprendé-las ¢ por que parece que ninguém sabe o plural de Walkman. | O instinto da linguagem | Aos estudantes que desconhecem a ciéncia da linguagem e da mente, ou pior, que estao sobrecarregados com a memorizagio dos efeitos da freqiiéncia de palavras sobre o tempo de resposta das decisdes lexicais ou as questdes sutis do Principio das Cate- gorias Vazias, espero poder transmitir a intensa agitag3o intelec- tual que o moderno estudo da linguagem desencadeou varias dé- cadas atras. Aos meus colegas de profissao, dispersos entre tantas disci- plinas e estudando tantos tépicos aparentemente desconexos, es- pero poder oferecer algo que se assemelhe a uma integragio des- se vasto territério. Embora eu seja um pesquisador obsessivo que nao gosta de acordos insfpidos que embaralham as questées, mui- tas das ‘controvérsias académicas me lembram cegos apalpando um elefante. Se minha sintese pessoal parece abragar os dois lados de debates como “formalismo versus funcionalismo” ou “sinta- xe versus semintica versus pragmética”, talvez seja porque, para comego de conversa, essas questdes nunca existiram. Ao piiblico leitor de nao-ficgao, interessado em linguagem e seres humanos no mais amplo sentido dos termos, espero poder oferecer algo diferente dos chavdes afetados — Linguagem Light — que caracterizam as discuss6es sobre linguagem no campo das ciéncias humanas (geralmente propostas por pessoas que nunca estudaram © assunto). Seja como for, s6 posso escrever de uma tinica manei- ra, com paixao por idéias possantes e explicativas, e uma torrente de detalhes relevantes. Dado este meu habito, tenho sorte de estar expondo um tema cujos principios subjazem aos jogos de pala- vras, & poesia, retorica, espirituosidade ¢ a escrita refinada. Nao he- sitei em exibir meus exemplos favoritos de linguagem em agio ex- traidos da cultura pop, de criangas e adultos comuns, dos estudio- sos mais bombasticos do meu campo e de alguns dos melhores es- critores de lingua inglesa. Este livro destina-se, portanto, a todos os que utilizam a lin- guagem, ou seja, a todos! | Prefétcio | Devo agradecimentos a muitas pessoas. Em primeiro lugar, a Leda Cosmides, Nancy Etcoff, Michael Gazzaniga, Laura Ann Petitto, Harry Pinker, Robert Pinker, Roslyn Pinker, Susan Pinker, John Tooby, e especialmente a Iavenil Subbiah, por seus comenta- rios ao manuscrito, seu incentivo e suas generosas sugestes. A instituigio em que trabalho, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, 6 um ambiente muito propicio para o estudo da linguagem, e agradeco aos colegas, estudantes ¢ antigos alunos que comigo compartilharam seus conhecimentos. Noam Chomsky fez. criticas precisas e ofereceu sugestdes proveitosas, e Ned Block, Paul Bloom, Susan Carey, Ted Gibson, Morris Halle e Michael Jordan ajudaram-me a resolver as questées de varios capitulos. Agradeco também a Hilary Bromberg, Jacob Feldman, John Houde, Samuel Jay Keyser, John J. Kim, Gary Marcus, Neal Perlmutter, David Pesetsky, David Péppel, Annie Senghas, Karin Stromswold, Michael Tarr, Marianne Teuber, Michael Ullman, Kenneth Wexler e Karen Wynn suas respostas eruditas a perguntas que vao da lin- guagem de sinais a obscuros jogadores de bola ¢ guitarristas. O bibliotecario do Departamento de Ciéncias Mentais e Cognitivas, Pat Claffey, ¢ o responsavel pelo sistema de informatica do mes- mo Departamento, Stephen G. Wadlow, admiraveis representan- tes de suas profisses, ofereceram-me ajuda especializada em mui- tos momentos. Varios capitulos beneficiaram-se do exame minucioso de ver- dadeiros craques, a quem agradego os comentarios técnicos ¢ esti- listicos: Derek Bickerton, David Caplan, Richard Dawkins, Nina Dronkers, Jane Grimshaw, Misia Landau, Beth Levin, Alan Prince e Sarah G. Thomason. Também agradego a meus colegas de ciberespa- 0 que perdoaram minha impaciéncia respondendo, as vezes em minutos, a minhas investigagées eletrénicas: Mark Aronoff, Kathleen Baynes, Ursula Bellugi, Dorothy Bishop, Helena Cronin, Lila Gleit- man, Myma Gopnik, Jacques Guy, Henry Kutera, Sigrid Lipka, Jacques Mehler, Elissa Newport, Alex Rudnicky, Jenny Singleton, 1 O instinto da linguagem | Virginia Valian e Heather Van der Lely. Um tiltimo obrigado para Alta Levenson do Colégio Bialik por sua ajuda com o latim, Nao posso deixar de reconhecer com alegria a especial atengio de John Brockman, meu agente, Ravi Mitchandani, meu editor na Penguin Books, e Maria Guamaschelli, minha editora na William Mortow; os sfbios ¢ detalhados conselhos de Maria melhoraram muito a versio final do manuscrito. Katarina Rice revisou meus dois primeiros livros, e fiquei muito feliz quando ela aceitou meu pedido de trabalhar comigo neste, sobretudo no que se refere a al- gumas coisas que digo no Capitulo 12. Minha pesquisa sobre linguagem foi financiada pelos Natio- nal Institutes of Health (protocolo HD 18381), pela National Science: Foundation (protocolo BNS 91-09766) e pelo Centro McDonnell-Pew de Neurociéncias Cognitivas no MIT. Um instinto para adquirir uma arte 1 Ao ler estas palayras, vocé estar participando de uma das maravilhas do mundo natural. Porque vocé e eu pertencemos a uma espécie com uma capacidade notavel: podemos moldar eventos nos cérebros uns dos outros com primorosa precisio, Nio me tefiro a telepatia, controle da mente ou tantas outras obsessdes das ciéncias alternativas; mesmo quando descritos por aqueles que acreditam nisso, estes sio instrumentos grosseiros se compa- rados com uma habilidade incontestavelmente presente em cada um de nds. Essa habilidade é a linguagem. Por meio de simples ruidos produzidos por nossas bocas, podemos fazer com que combinages de idéias novas e precisas surjam na mente do outro. £ uma habilidade tao natural que costumamos esquecer que é um milagre. Portanto, permita-me lembré-lo disso com algumas de- monstragées simples. Basta pedir-lhe que abandone sua imagina- gio as minhas palavras por alguns instantes, para fazer com que vocé pense em idéias muito especificas: Quando um polvo macho localiza uma fémea, seu corpo normal- mente cinzento torna-se subitamente listrado. Ele nada por cima da famea ¢ comega a acaricia-la com sete de seus bragos. Se ela aceita essa caricia, ele rapidamente se aproxima dela e enfia seu oitavo bra- | O instinto da linguagem | 0 no seu tubo respiratorio. Uma série de bolsas de esperma mo- vemse lentamente por um sulco de seu brago, para finalmente pene- trar na cavidade do manto da fémea. Calda de cereja numa roupa branca? Vinho na toalha do altar? Aplique club soda imediatamente. Funciona maravilhosamente bem para remover manchas dos tecidos. Ao abrir a porta para Tad, Dixie fica aturdida, pois achava que ele es- tava morto. Bate a porta na cara dele ¢ tenta escapar. Mas quando Tad diz “Ewa amo”, permite que entre. Tad a conforta e eles se en- tregam um ao outro. Quando Brian chega, intetrompendo-os, Dixie conta a. um Tad atordoado que ela e Brian tinham-se casado naquele mesmo dia. Com muita dificuldade, Dixie informa Brian de que as coisas nao terminaram entre ela e Tad. Em seguida, solta a noticia de que Jamie ¢ filho de Tad. “Meu 0 qué2", diz. um Tad chocado. Pense no que estas palayras provocaram. O que fiz nao foi sim- plesmente lembr4-lo de polvos; se, porventura, vocé vir surgir listras em um deles, agora sabe 0 que acontecera em seguida. A préxima vez que for a um supermercado, talvez procure club so- da entre os milhares de itens disponiveis, e no toque nele até mui- tos meses depois, quando uma substancia particular e um obje- to particular acidentalmente se encontrarem. Agora vocé compar- tilha com milhées de outras pessoas os segredos dos protagonistas de um mundo criado pela imaginagio de um estranho, o folhetim diétio All My Children. E verdade que minhas demonstragdes de- penderam de nossa capacidade de ler ¢ escrever, mas isso torna nossa comunica¢ao ainda mais impressionante, pois transpée in- tervalos de tempo, espago e convivéncia. Mas a escrita ¢ daramen- te um acessério opcional; 0 verdadeiro motor da comunicago ver- bal é a lingua falada que adquirimos quando criangas. Em qualquer histéria natural da espécie humana, a linguagem, se distingue como trago preeminente. Um humano solitario é, decerto, um engenheiro e fantastico solucionador de problemas. | Um instinto para adguirir uma arte | Mas uma raga de Robinson Crusoés nao impressionaria muito um observador extraterrestre. O que realmente comove quando se trata de nossa espécie fica mais claro na histéria da Torre de Ba- bel, em que os homens, falando uma tinica lingua, chegaram to perto de alcancar 0 céu que Deus sentiu- e ameagado. Uma lingua comum une os membros de uma comunidade numa rede de troca de informagées extremamente poderosa. Todos podem beneficiar- se das sacadas dos génios, dos acidentes da fortuna e da sabedoria oriunda de tentativas e erros acumulados por qualquer um, no presente ou no passado. E as pessoas podem trabalhar em equipe, coordenando seus esforgos por meio de acordos negociados, Con- seqitentemente, o Homo sapiens é uma espécie, como a alga verde e a minhoca, que operou profundas mudangas no planeta. Arqueé- logos descobriram ossos de dez mil cavalos selvagens na base de um penhasco na Franga, restos de manadas atitadas do alto do pe- nhasco por grupos de cagadores paleoliticos dezessete mil anos atrés, Esses fosseis de uma antiga cooperacao ¢ de uma engenho- sidade compartilhada talvez possam esclarecer por que tigres de dente-de-sabre, mastodontes, gigantescos rinocerontes peludos e dezenas de outros grandes mamiferos foram extintos mais ou me- nos na mesma época em que os humanos chegaram aos seus habi- tats. Aparentemente, nossos ancestrais os mataram. A linguagem est tao intimamente entrelagada com a experién- cia humana que é quase impossivel imaginar vida sem ela. E muito provavel que, se vocé encontrar duas ou mais pessoas juntas em qualquer parte da Terra, elas logo estardo trocando palavras. Quan- do as pessoas nao tém ninguém com quem conversar, falam sozi- nhas, com seus cies, até mesmo com suas plantas, Nas nossas rela- g6es sociais, o que ganha nao é a forga fisica mas 0 verbo — 0 ora- dor elogiiente, o sedutor de lingua de prata, a crianga persuasiva que impée sua vontade contra um pai mais musculoso, A afasia, que é a perda da linguagem em consegiséncia de uma lesio cere- bral, é devastadora, e, em casos graves, os membros da familia che- gam a sentir que é a propria pessoa que foi perdida para sempre. | O instinto da linguagem | Este livro trata da linguagem humana. Diferentemente de va- rios livros que levam “lingua” ou “linguagem” no titulo, ele nao vai repreendé-lo sobre 0 uso apropriado da lingua, procurar as ori- gens das expressdes idiomaticas e da giria, ou diverti-lo com pa- lindromos, anagramas, ep6nimos ou aqueles adordveis nomes para coletivos de animais como “exaltagio de cotovias”'. Pois no es- crevo sobre o idioma inglés ou qualquer outro idioma, mas sobre algo bem mais bésico: 0 instinto para aprender, falar e compreen- der a linguagem. Pela primeira vez na histéria temos 0 que escre- vet a esse respeito. Ha uns trinta e cinco anos nasceu uma nova ciéncia, agora denominada “ciéncia cognitiva”, que retine ferra- mentas da psicologia, da ciéncia da computagio, da lingiiistica, fi- losofia e neurobiologia para explicar o funcionamento da inteli- géncia humana. Desde entio, assistiu-se a espetaculares avangos da ciéncia da linguagem, em particular. HA muitos fenémenos da linguagem que estamos comegando a compreender tio bem como compreendemos o funcionamento de uma maquina fotografica ‘ou para que serve o bao. Espero conseguir transmitir essas fasci- nantes descobertas, algumas delas tio simples e precisas como qualquer outra coisa na ciéncia moderna, mas tenho também um segundo objetivo. A recente clucidagio das faculdades lingiiisticas tem implica- ses revolucionarias para nossa compreensio da linguagem e seu papel nos assuntos humanos, e para nossa prépria concepgio da humanidade. Muitas pessoas cultas j4 t8m opinides sobre a lin- guagem. Sabem que é a invengo cultural mais importante do ho- mem, 0 exemplo quintessencial de sua capacidade de usar simbo- los, e um acontecimento sem precedentes em termos bioldgicos, que o separa definitivamente dos outros animais. Sabem que a lin- guagem impregna o pensamento, ¢ que as diferentes linguas levam 1. Referéncia ao livro de James Lipton, Aw Exalaton of Larks ~The Ukimate Edition, ed. Peng, ‘que é uma coletinea de coletivos de animais. (N. da) | Um instinto para adguirir uma arte | seus falantes a construir a realidade de diferentes maneiras. Sabem que as criangas aprendem a falar a partir das pessoas que lhes ser- vem de modelo e dos adultos que cuidam delas. Sabem que a so- fisticag3o gramatical costumava ser fomentada nas escolas, mas que a queda dos padres educacionais e a degradagao da cultura popular provocaram um assustador declinio na capacidade do ci- dadio médio de construir uma frase gramaticalmente correta. Sabem também que o inglés é uma lingua extravagante, que desa- fia a logica, na qual “one drives on a parkway” e “parks in a driveway”, “plays at a recital” e “recites at a play"?, Sabem que a grafia inglesa leva essa excentricidade ao ctimulo — George Bernard Shaw queixava- se de que fish [peixe] poderia igualmente ser soletrado ghoti (gh como em tough, 0 como em women, fi como em nation) — e que so- mente a inércia institucional impede a adogio de um sistema mais racional de escrever-como-se-fala. Nas proximas paginas, tentarei convencé-lo de que cada uma dessas opinides corriqueiras esta errada! E estao todas erradas por um simples motivo. A linguagem nao é um artefato cultural que aprendemos da maneira como aprendemos a dizer a hora ou como 0 governo federal est4 funcionando. Ao contrario, é clara- mente uma pega da constituigo biolégica de nosso cérebro. A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se de- senvolve espontaneamente na crianga, sem qualquer esforgo cons- ciente ou instrugao formal, que se manifesta sem que se perceba sua légica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo individuo, e que difere de capacidades mais gerais de processa- mento de informagdes ou de comportamento inteligente. Por es- ses motivos, alguns cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicolégica, um érgdo mental, um sistema neural ou um médulo computacional. Mas prefiro o simples e banal ter- 2, Em portugués a extravagancia se perde: estaciona-se 0 carro no estacionamento ¢ se esta~ ciona na garagem; toca-se num recital e se recita numa pega de teatro, (N. da.) 1 O instinto da linguagem | mo “instinto”. Ele transmite a idéia de que as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias. A capacidade de tecer teias nao foi inventada por alguma aranha genial nao reconhecida ¢ nao depende de receber a educagio ade- quada ou de ter aptido para arquitetura ou negécios imobilié- tios, As aranhas tecem teias porque tém cérebro de aranha, o que as impele a tecer e Ihes d4 competéncia para fazé-lo com sucesso. Embora haja diferengas entre teias ¢ palavras, proponho que vocé veja a linguagem dessa maneira, porque isso ajuda a entender os fendmenos que vamos explorar. Pensar a linguagem como um instinto inverte a sabedoria po- pular, especialmente da forma como foi aceita nos cinones das ciéncias‘humanas e sociais. A linguagem nao é uma invengio cul- tural, assim como tampouco a postura ereta o é. Nao é uma ma- nifestagio da capacidade geral de usar simbolos: como veremos, uma crianca de trés anos é um génio gramatical, mas é bastante incompetente em termos de artes visuais, iconografia religiosa, si- nais de trnsito e outros itens bAsicos do curriculo de semidtica. Embora a linguagem seja uma habilidade magnifica exclusiva do lomo sapiens entre as espécies vivas, isso nao implica que 0 estudo dos seres humanos deva ser retirado do campo da biologia, pois existem outras habilidades magnificas exclusivas de uma espécie viva em particular no reino animal. Alguns tipos de morcegos cap- turam insetos voadores usando um sonar Doppler. Alguns tipos de aves migratérias viajam milhares de quilémetros comparando as posigdes das constelagdes com as horas do dia e épocas do ano, No show de talentos da natureza, somos apenas uma espécie de primatas com nosso préprio espetaculo, um jeito todo especial de comunicar informagdo sobre quem fez o que para quem modu- lando os sons que produzimos quando expiramos. A partir do momento em que vocé comega a considerar a lin- guagem no como a ineffvel esséncia da singularidade humana, mas como uma adapta¢io biolégica para transmitir informagio, 10 | Um instinto para adguirir uma arte | deixa de ser tentador ver a linguagem como um insidioso forma- dor de pensamentos, ¢, como veremos, ela nio ¢ isso. Além disso, 0 fato de ver a linguagem como uma das maravilhas da engenharia da natureza — um érgio com “aquela perfeigio de estrutura e de co-adaptagio que, com tazio, desperta nossa admiragao”, nas pa- lavras de Darwin — inspira em nés um novo respeito pelo José de cada esquina e pela tio difamada lingua inglesa (ou qualquer ou- tra lingua). Do ponto de vista do cientista, a complexidade da lin- guagem é parte de nossa heranga biolégica inata; nao é algo que os pais ensinam aos filhos ou algo que tenha de ser elaborado na escola ~ como disse Oscar Wilde: “Educagio é algo admirvel, mas é bom lembrar de vez em quando que nada que vale a pena saber pode ser ensinado.” © conhecimento técito de gramatica de uma ctianga em idade pré-escolar € mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou o mais moderno sistema de lingua- gem de computador, e o mesmo se aplica a qualquer ser humano saudavel, até mesmo o atleta profissional conhecido por seus et- ros de linguagem e 0, sabe, tipo, skatista adolescente inarticulado. Por fim, como a linguagem é produto de um instinto biolégico bem planejado, veremos que ela nao € o tidiculo grupo de maca- cos sugerido pelos colunistas de espetaculos de variedades. Tenta- rei devolver alguma dignidade ao verndculo inglés, ¢ terei inclusi- ve algumas belas coisas a dizer sobre seu sistema de ortografia. A idéia da linguagem como um tipo de instinto foi concebida pela primeira vez em 1871 pelo préprio Darwin, Em The Descent of Man cle teve de enfrentar a linguagem, pois 0 fato de ela se restrin- gir aos seres humanos parecia desafiar sua teoria. Como sempre, suas observagGes sAo estranhamente modernas: Como... um dos fundadores da nobre ciéncia da filologia observou, alinguagem é uma arte, como fermentar ou assar mas a escrita teria sido uma comparagio melhor. Ela decerto nio ¢ um verdadeiro ins- tinto, pois toda lingua tem de ser aprendida. Contudo, difere muito ul 1 O instinto da linguagem | de todas as artes comuns, pois o homem tem uma tendéncia instin- tiva a falar, como yemos no balbuciar de nossos filhos pequenos; ne- nhuma crianga, no entanto, tem uma tend&ncia instintiva a fermentar, assar ou escrever. Além disso, nenhum filélogo supée atualmente que alguma lingua tenha sido deliberadamente inventada; desenvol- veu-se lenta ¢ inconscientemente etapa por etapa. Darwin concluia que a habilidade da linguagem é “uma ten- déncia instintiva a adquirir uma arte”, designio nio peculiar aos 8) Pp humanos mas também encontrado em outras espécies, como os passaros que aprendem a cantar. Um instinto da linguagem pode ser chocante para aqueles que pensam'a linguagem como o zénite do intelecto humano e que pensam os instintos como impulsos brutais que compelem zum- bis cobertos de peles ¢ penas a construir um dique ou abandonar tudo e rumar para o sul, Mas um dos seguidores de Darwin, William James, observou que quem possui um instinto nio preci- sa agir “fatalmente [como um] autémato”. Segundo ele, temos os mesmos instintos que os animais, e muitos outros além desses; nossa inteligéncia flexivel provém da inter-relagio entre muitos instintos divergentes. Com efeito, é justamente a natureza instin- tiva do pensamento humano que faz com que nos custe tanto per- ceber que ela é um instinto: E preciso... uma mente pervertida pela aprendizagem para fazer com que © natural paresa estranho, ao ponto de indagar os motivws de qualquer ato humano instintivo. $6 a um metafisico podem ocorrer questSes como: Por que sorrimos quando estamos contentes ¢ nio franzimos as sobrancelhas? Por que nao conseguimos falar com uma multidio da mesma maneira como conversamos com um amigo? Por que uma certa moga nos deixa to transtornados? O homem co- mum ditia apenas: “£ claro que sortimos, é claro que nosso coragio palpita ao ver a multidio, é caro que amamos a moga, essa bela alma 12 | Um instinto para adguirir uma arte | revestida dessa forma perfeita, feita para ser amada por todo o sem- pre de modo tio palpdvel e evidente!” E é isso, provavelmente, que todo animal sente em relagio a cer- tas coisas que ele tende a fazer em presenga de certos objetos... Para © leGo, € a leoa que foi feita para ser amada; para o urso, a ursa. muito provavel que a galinha choca considerasse monstruosa a idéia de que haja alguma criatura no mundo para quem um ninho cheio de ovos nao fosse o objeto mais fascinante, mais precioso de todos ¢ so- bre o qual munca-é-demais-sentar-em-cima, como é para ela. Podemos portanto estar certos de que, por mais misteriosos que alguns dos instintos animais nos paregam, nossos instintos decerto nao parecem menos misteriosos para eles. E podemos concluir que, para o animal que a ele obedece, cada impulso e cada etapa de cada instinto brilha com sua propria luz, ¢ a cada momento parece ser a tinica coisa eternamente correta ¢ aproptiada a fazer. Que sensagio volupruosa nio deve percorrer a mosca quando ela por fim descobre aquela fotha particular, ou carniga, ou porgo de esterco, que entre todas no mundo estimula seu ovipositor a eliminar os ovos? Nesse momento, essa eliminagio nao deve lhe parecer a tinica coisa a set feita? E ser que ela precisa se preocupar ou saber algo a respeito da fatura larva ¢ seu alimento? Nao consigo pensar numa melhor exposi¢ao de meu principal objetivo, O funcionamento da linguagem esté tao distante de nos- sa consciéncia quanto os fundamentos légicos da postura de ovos aem de nossa boca com tan- para a mosca. Nossos pensamento: ta naturalidade que muitas vezes nos constrangem, quando elu- dem nossos censores mentais. Quando compreendemos as frases, 0 fluxo de palavras é transparente; entendemos o sentido de mo- do to automatico que podemos esquecer que um filme é falado numa lingua estrangeira e est legendado. Acreditamos que as criangas aprendem a lingua materna imitando a mie, mas quando uma crianga diz Eu se sentei! ou Eu ndo cabo ai dentro certamente nao é uma imitagdo. Quero transmitir-Ihe conhecimentos que perver- 13. 1 instinto da linguagem | tam sua mente ao ponto de esses dons naturais parecerem estra- hos, para que voce se pergunte os “porqués” e “comos” dessas ca- pacidades aparentemente familiares. Observe um imigrante lutan- do para dominar uma segunda lingua ou um paciente que sofreu uma lesio cerebral lutando com sua lingua materna, ou descons- trua um fragmento de fala infantil, ou tente programar um com- putador para compreender inglés, e a fala corrente comegara a ser vista de outra maneira. A naturalidade, a transparéncia, 0 carater automatico sio ilusdes, que escondem um sistema de grande ri- queza e beleza. No século 20, a tese mais famosa de que a linguagem é como um instinto foi elaborada por Noam Chomsky, © primeiro lin- giiista a’ revelar a complexidade do sistema e talvez 0 maior res- ponsavel pela moderna revolugao na ciéncia cognitiva e na ciéncia da linguagem. Na década de 50, as ciéncias sociais eram domina- das pelo behavior Watson ¢ B. F. Skinner. Termos mentais como “saber” e “pensar” cram rotulados de niio-cientificos; “mente” ¢ “inato” eram palavrées. mo, a escola de pensamento divulgada por John © comportamento era explicado por algumas poucas leis de apren- agem por estimulo-resposta que podiam ser estudadas por meio de ratos que apertayam barras ¢ cXes que salivavam ao som de campainhas. Mas Chomsky chamou a atengao para dois fatos fun- damentais sobre a linguagem. Em primeiro lugar, cada frase que uma pessoa enuncia ou compreende é virtualmente uma nova combinagao de palavras, que aparece pela primeira vez na historia do universo. Por isso, uma lingua nao pode ser um repertério de respostas; 0 cérebro deve conter uma receita ou programa que consegue construir um conjunto ilimitado de frases a partir de uma lista finita de palavras. Esse programa pode ser denominado gramatica mental (que no deve ser confundida com “gramati- cas” pedagdgicas ou estilisticas, que so apenas guias para a ele- gancia da prosa escrita). O segundo fato fundamental ¢ que as criangas desenvolvem essas graméticas complexas rapidamente ¢ 4 | Um instinto para adquirir uma arte | sem qualquer instrugio formal e, 4 medida que crescem, dao in- terpretagdes coerentes a novas construgées de frases que elas nun- ca escutaram antes. Portanto, afirmava ele, as criangas tém de estar equipadas de modo inato com um plano comum as gramiticas de todas as linguas, uma Gramatica Universal, que lhes diz como ex- trair os padoes sintaticos da fala de seus pais. Chomsky descte- yeu isso nos seguintes termos: Um fato curioso sobre a histéria intelectual dos tiltimos séculos é que o desenvolvimento fisico e mental foi abordado de varias ma- neiras diferentes. Ninguém levaria a sério a afirmagio de que o orga- nismo humano aprende pela experiéncia a ter bragos em vez de asas, ou de que a estrutura bésica de determinados drgios resulta da ex- petiéncia acidental. Ao contritio, considera-se indiscutivel que a es trucura fisica do organismo é geneticamente determinada, embora, é claro, variagdes como tamanho, velocidade de desenvolvimento etc. dependam em parte de fatores externos.. O desenvolvimento da personalidade, de padrdes de compor- tamento ¢ de estruturas cognitivas em organismos mais desenvolvi- dos costuma ser abordado de modo bem diferente. Nesses campos, costumacse dizer que 0 meio social € 0 fator predominante. As es- truturas da mente que se desenvolyem com 0 passar do tempo sio consideradas arbitrarias e acidentais; nfio existe uma “natureza huma- na” separada daquilo que se desenvolve como um produto histdtico especifico... Mas os sistemas cognitivos humanos, quando seriamente investi- gados, nfo se mostram menos maravilhosos ¢ intricados que as ¢s- truturas fisicas que se desenvolvem na vida do organismo. Entio, por que no deveriamos estudar a aquisigio de uma estrutura cogni~ tiva como a linguagem mais ou menos da mesma maneira como es- tudamos um érgio fisico complexo? A primeira vista, esta proposta parece absurda, fosse apenas pela grande variedade de linguas humanas. Mas, considerando-se a ques- tio mais de perto, essas ditvidas desaparecem. Mesmo conhecendo muito pouco sobre os universais lingitisticos, podemos ter certeza 15 | O instinto da linguagem | de que a possivel variedade de linguas é bem limitada... A lingua que cada pessoa adquire € uma construgio rica e complexa que nao se justifica pelos parcos e fragmentados dados disponiveis [para a crian- sa]. No entanto, os membros de uma comunidade lingiiistica desen- volvem essencialmente a mesma lingua. Esse fato s6 encontra expli- cago na hipotese de que esses individuos empreguem principios al- tamente restritivos, que dirigem a construcio da gramitica. Por meio de esmeradas anilises técnicas das frases que pessoas comuns aceitam como pertencentes a sua lingua materna, Choms- ky ¢ outros lingiiistas desenvolveram teorias das gramaticas men- tais que subjazem ao conhecimento que as pessoas tém de certas linguas ¢ da Gramtica Universal que subjaz a determinadas gra- miticas. Logo depois, 0 trabalho de Chomsky incentivou outros estudios s, entre os quais Eric Lenneberg, George Miller, Roger Brown, Morris Halle e Alvin Liberman, a inaugurar Areas total- mente noyas de estudo da linguagem, do desenvolvimento infantil ¢ percepgio da fala A neurologia ¢ genética. Atualmente, a comu- nidade de cientistas que estudam as questdes que ele levantou é composta de milhares de estudiosos. Chomsky é geralmente inclui- do entre os dez escritores mais citados no campo das humanida- des (ganhando de Hegel e Cicero e estando atras apenas de Marx, Lénin, Shakespeare, a Biblia, Aristételes, Platdo e Freud) ¢ é 0 tini- co membro vivo entre os dez mais. O que essas citages dizem é outra coisa. Chomsky incomoda. As reagdes vio da veneracdo comumente reservada aos gurus de estranhos cultos religiosos aos ataques hostis que os membros da academia transformaram numa arte aprimorada, Isso se deve em parte ao fato de que Chomsky ataca aquilo que ainda é um dos alicerces da vida intelectual do século 20 — 0 “Modelo Classico das Ciéncias Sociais”, segundo 0 qual a psique humana é molda- da pelo ambiente cultural. Mas deve-se também ao fato de nenhum pensador poder ignoré-lo, Como reconhece um de seus mais seve- ros criticos, o filésofo Hilary Putnam: 16 | Un instinto para adquirir uma arte | Ao ler Chomsky, tem-se a sensago de estar diante de uma grande poténcia intelectual; & certo que se esté diante de uma mente ex- traordindia. E isso decorre tanto da fascinagao produzida por sua forte personalidade quanto de suas dbvias virtudes intelectuais: oti- ginalidade, desdém pelos modismos e pelo superficial; desejo de dar novamente vida (e a capacidade de fazé-lo) a posigdes (como a “ doutrina das idéias inatas”) que pareciam ulerapassadas; preocupa- gio com temas, como a estrutura da mente humana, de importincia central ¢ perene. A histéria que vou contar neste livro foi sem divida profunda- mente influenciada por Chomsky. Mas nao é exatamente a hist6- ria dele, ¢ nfo a contarei como ele o faria. Chomsky confundiu muitos leitores com seu ceticismo quanto a possibilidade da sele- do natural darwiniana (em contraposigao a outros processos evo- lutivos) poder explicar as origens do érgao da linguagem que ele propée; a meu ver, é titil considerar a linguagem como uma adap- tacdo evolutiva, como o olho, cujas principais partes esto desti- nadas a desempenhar importantes fungées. Além disso, as teses de Chomsky sobre a natureza da faculdade da linguagem baseiam-se em anilises técnica da estrutura das palavras e frases, muitas ve- zes expressas em abstrusos formalismos, Suas discusses sobre fa- lantes de carne ¢ osso sao superficiais ¢ muito idealizadas. Em- bora’eu concorde com muitas de suas teses, acho que uma conclu- sio sobre a mente s6 é convincente se dados oriundos de muitas font ela, Portanto, a histéria contada neste li- convergirem pa vro é altamente eclética, incluindo desde a maneira como o DNA constr6i cérebros até discursos pontificantes de colunistas de lin- guagem jornalistica. Para comegat, o melhor é perguntar por que alguém deveria acreditar que a linguagem humana é parte da bio- logia humana — ou seja, um instinto. 17 Tagarelas 2 Por volta de 1920, pensa- va-se que nenhum canto da Terra em que os homens pudessem habitar deixara de ser ex- plorado. A Nova Guiné, a segunda maior ilha do mundo, nfo era excegao. Missiondrios europeus, colonizadores ¢ administradores aferravam-se as planicies costeitas, convencidos de que ninguém poderia viver na traigocira cadcia de montanhas que cortava o meio da ilha de ponta a ponta. Mas as montanhas visiveis de cada uma das costas pertenciam na verdade a duas cadeias, entre as quais havia um planalto de clima temperado atravessado por varios va- les férteis. Um povo da Idade da Pedra vivia naquelas terras altas, isolado do resto do mundo durante quarenta mil anos. O engano 86 se desfez quando descobriram ouro no afluente de um dos principais rios. A corrida do ouro que se seguiu atraiu Michael Leahy, um garimpeiro australiano independente que, em 26 de maio de 1930, partiu para explorar as montanhas.com mais um garimpeiro ¢ um grupo de nativos da planicie contratados como carregadores. Depois de transporem os picos, Leahy teve a surpre- sa de deparar com campos verdejantes do outro lado. Ao cair da noite a surpresa transformou-se em alarme, pois os pontos de luz que se avistavam ao longe eram sinais ébvios de que o vale era ha- bitado. Depois de uma noite sem dormir, durante a qual Leahy e 19 | O instinto da linguagem | seu grupo carregaram as armas ¢ montaram uma bomba rudimen- tar, fizeram seu primeiro contato com os montanheses. Q espan- to era métuo. Leahy escreveu em seu dist na fren- ‘oi um alfvio quando os [nativos] apareceram, os homens. te, armados com atcos ¢ flechas, as mulheres atrés, carregando col- mos de cana-de-agticar. Ao ver as mulheres, Ewunga me disse ime- diatamente que nao haveria luta, Acenamos para que se acercassem, © que fizeram cautelosamente, parando a cada tanto para nos ob- servar, Quando finalmente alguns deles tomaram coragem para se aproximar, percebemos que estavam aténitos com a nossa aparéncia Quando tire mew chapéu, os que estavam mais perto de mim recua- ram atertorizados, Um velho avangou cuidadosamente de boca aber ta, e°me tocou para ver se eu era real. Em seguida, pondo-se de joe- thos, esfregou as mios nos meus pés descalgos, provavelmente para descobri estavam pintados, agarrou-me pelos joclhos e os abra- sou, esfiegando seus cabelos espessos contra mim... As mulheres ctiangas aos poucos também tomaram coragem para se aproximar, ¢ de repente 0 acampamento estava repleto de correndo por todos os Indos numa grande algaravia, apontando para. tude 0 que era nove para eles. tek das gitocentas que viriam a ser descobertas entre 0s montanheses a “algaravia” era linguagem —uma Vingua desconhecida, uma isolados até os anos 60. O primeiro contato de Leahy repetiu uma cena que deve ter ocortido centenas de vezes na hist6ria humana, sempre que um povo encontraya outro pela primeira vez. Todos cles, pelo que nos consta, ja tinham alguma lingua. Cada hotento- te, cada esquimé, cada ianomami. Nunca se descobritt nenhuma tribo muda, ¢ nao ha registros de alguma regio que tenha servido de “bergo” da linguagem, a partir da qual ela teria se espalhado para grupos antes destituidos de linguagem. Como em todos os outros casos, a lingua falada pelos anfitrides r de Leahy revelou no ser nenhuma algaravia mas uns meio capa 20 \ Tagarelas | de exprimir conceitos abstratos, entidades invisiveis e complexas linhas de raciocinio. Os montanheses conferenciavam intensamen- te, tentando chegar a uma conclusao sobre a natureza das palidas aparigdes. A principal conjetura era que eles eram reencarnagdes de ancestrais ou de outros espiritos sob forma humana, talvez aqueles que voltayam a ser esqueletos noite, Acabaram por con- ceber um teste empitico que resolveria a questao. “Um deles se escondeu”, relembra 0 montanhés Kirupano Eza’e, “e os obser- vou ir defecar. Ele voltou e disse: ‘Aqueles homens vindos do céu foram defecar ali? Depois que eles partiram, vatios homens foram dar uma olhada. Ao perceberem que cheirava mal, disseram: ‘A pele deles pode ser diferente, mas a merda deles ¢ igual 4 nossa.” A universalidade da linguagem complexa é uma descoberta que enche os lingitistas de admiragio ¢ temor, ¢ é a primeira razdo para suspeitar que a linguagem nao é apenas uma invengio cultural qual- quer mas 0 produto de um instinto humano especifico. As inven- des culturais variam muito de sociedade para sociedade em ter- mos de sofisticagao; dentro de uma sociedade, as invengdes tém ge~ ralmente um mesmo nivel de sofisticagio. Alguns grupos contam fazendo marcas em ossos ¢ cozinham em fogos que cles produzem girando gravctos na lenha; outros usam computadores ¢ fornos de microondas. No entanto, a linguagem acaba com essa cortelagio. Existem sociedades da Idade da Pedra, mas no existe uma lingua da Idade da Pedra. No comeco do século 20, o lingiiista antropd- logo Edward Sapir escreveu: “Quando se trata da forma lingitisti- ca, Pla Confucio, do cagador de cabegas selvagem de Assam.” (0 nao se distingue do guardador de porcos macedénio, ou Para tomar um exemplo aleatério de uma forma lingiiistica so- fisticada num pais ndo-industrializado, a lingitista Joan Bresnan escreveu recentemente um artigo técnico compatando a constru- das encos- cio em kivunjo, lingua banto falada em varias aldeias tas do monte Kilimanjaro na Tanzania, com sua construgéo cor- respondente em inglés, que ela descreve como “uma lingua ger- 21 | O instinto da linguagem | minica ocidental falada na Inglaterra e em suas antigas coléni: A construgao inglesa é denominada dativa® e pode ser encontrada em frases como She baked me a brownie [Ela assou um brownie para mim] e He promised her Arpége [Ele prometeu a ela Arpége], em que um objeto indireto como me ou her é colocado depois do verbo para indicar 0 beneficidrio de uma agio. A construgio kivunjo correspondente é denominada aplicativo, cuja semelhanga com 0 dativo inglés, conforme nota Bresnan, “pode ser comparada com aquela entre o jogo de xadrez ¢ 0 de damas”. A construgio ki- vunjo se encaixa totalmente dentro do verbo, que tem sete prefi- xos ¢ sufixos, dois modos ¢ quatorze tempos verbais; 0 verbo con- corda com scu sujeito, seu objeto e seus substantivos beneficia- rios, cada um do 5 qua “géncros” nao dizem respeito a coisas como tran- s pode ter dezesseis géneros. (Apenas para esclarecer, sextiais, hermafroditas, pessoas andr6ginas ete., como um dos lei- tores deste capitulo supés. Para um lingiiista, 0 termo género man- tém seu significado original de “classe”, como nas palavras generie, gms e genre [genérico, género, géneto/estilo]. Os “géneros” bantos referem-se a classes como humanos, animais, objetos extensos, grupos de objetos ¢ partes do corpo. Acontece que em muitas lin- guas curopéias os géneros correspondem aos sexos, pelo menos guanto aos pronomes. Por isso 0 termo lingiiistico género passou a set empregado por nio-lingiiistas como um rétulo adequado para o dimorfismo sexual; 0 termo mais preciso — seco— parece reserva- do agora & maneira educada de se referir 4 copulac3o.) Entre ou- tros dispositivos engenhosos que vislumbrei nas gramaticas dos assim chamados grupos primitivos, o complexo sistema pronomi- nal cherokee parece particularmente jeitoso. Ble distingue “vocé eeu”, “outra pessoa ¢ eu”, “varias outras pessoas ¢ eu” e “voce, * Todos os termos técnicos de lingiistica, biologia ¢ cigncia cognitiva que utilizo neste livto cstio definidos no Glossitio nas piginas 605-616. 22 | Tagarelas | uma ou mais pessoas ¢ eu”, que o inglés rudemente junta no pro- nome de muiltiplas utilidades we [nés]. Na verdade, as pessoas cujas habilidades lingiiisticas sao mais gravemente subestimadas estao bem aqui, na nossa sociedade. Os lingiiistas constantemente topam com o mito de que a cl balhadora e os membr lasse tra s menos educados da classe média falam uma linguagem mais simples e menos refinada. Trata-se de uma iusto perniciosa decorrente da naturalidade da conversagio. A fala comum, assim como a visio de cores ou andar, so paradig- mas de exceléncia em engenharia — uma tecnologia que funciona tio bem que seu usuario considera seu resultado dbvio, sem se dar conta dos complicados mecanismos ocultos por tras dos painéis. Por tras de frases tio “simples” como Where did he go? [Onde ele foi] e/ou The guy I met killed himself [O rapa tou], utilizadas automaticamente por qualquer falante do inglés, z que conheci se ma- existem dezenas de sub-rotinas que organizam as palavras para ex- primir o significado. Depois de décadas de esforgos, nenhum sis- tema de linguagem artificialmente planejado chega perto de re- produzir o homem da rua, apesar dos HAL e C-3PO'. Mas, embora o mecanismo da linguagem seja invisivel para 0 usuario humano, presta-se obsessivamente atengio A aparéncia ¢ A cor. Diferengas insignificantes entre o dialeto corrente ¢ 0 dialeto de outros grupos, como isn’t any versus ain’t no, those books versus them books, ¢ dragged him away versus drug him away, sio honradas com a insignia de “gramatica correta”. Mas isso tem to pouco a ver com sofisticago gramatical quanto o fato de que em algumas re- gides dos Estados Unidos as pessoas se referem a um certo inseto [libélula] como dragonfly, e em outras regides como darning needle, ou de que quem fala inglés chama os caninos de dogs enquanto quem fala francés os chama de chiens, E inclusive um tanto engano- TL, Computador e robs de 2002 — Ua ediséia no espago © Guerra nas etrelas,vespectivamente (Nd) 23