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Viagem de São Paulo à Buenos Aires e Bariloche

Viagem de ônibus a Buenos Aires viagem de ônibus a bariloche


Nas férias resolvi fazer uma viagem de ônibus de São Paulo ao parque
nacional chileno de Torres Del Paine, que fica bem ao sul da América do Sul,
quase no estreito de Magalhães. Essa decisão foi tomada no meio do mês de
novembro e como saí no dia primeiro de janeiro de 2006, não houve muito
tempo para planejar os detalhes, isso foi ótimo e terminou sendo uma boa
desculpa, porque não gosto mesmo de planejar. Nas minhas férias o mais
importante é escolher a cada momento os detalhes que desejo viver, ou deixar
que as coisas ocorram por si mesmas. Nesses momentos me torno um
passageiro do acaso e vou onde der certo.

Embarquei no ônibus, no terminal do Tietê em São Paulo às 0:00 e


foram gastas exatas 32 horas na viagem, assim como havia sido prometido
pela empresa de ônibus argentina. O carro era muito bom, semi leito (com
poltronas mais largas) o que fazia com que, mesmo tendo dois andares, a
quantidade de passageiros fosse a mesma de um ônibus comum.

No preço da viagem (uns R$240 ou pouco mais de US$100) estavam


inclusos dois cafés da manhã e um jantar. O padrão de atendimento e as
quantidades são semelhantes aos oferecidos na classe econômica de uma boa
companhia aérea: talvez não satisfizesse a quem gosta de comer muito, mas
para o meu caso, estava na medida certa. Para a distração, além da paisagem
que muda a cada instante, ainda exibiram quatro filmes com áudio original em
inglês, mas com as legendas fraternalmente divididas entre português e
espanhol (mui justo).

Para sair do Brasil foi muito fácil, nem precisei deixar o ônibus. Fiquei
sentadinho no meu lugar, bastou que o motorista apresentasse uma relação
com os nomes dos brasileiros e tudo bem! Somente os estrangeiros precisaram
se apresentar no posto de fronteira de Foz do Iguaçu (se eu fosse o Beira Mar,
ou alguém procurado pela justiça, não teria problemas para deixar o país). Já
na Argentina, a história foi diferente: todos descemos do ônibus (argentinos e
estrangeiros), nos apresentamos no posto de fronteira, passaram todas as
bagagens pelo raio X, pisamos numa espuma molhada para espantar os maus
espíritos (controle sanitário de doenças) e alguns quilômetros à frente, fomos
inspecionados novamente, mas o objetivo neste momento, era procurar drogas.
Após os cães fungarem no nosso cangote, aí sim: bem vindos à terra do
Maradona!

Antes de viajar, estava preocupado se chegaria a Buenos Aires em


condições de enfrentar uma nova viagem de ônibus (com duração um pouco
maior que a primeira), mas quando estava no meio dela já percebi que seria
moleza e poderia embarcar no mesmo dia, rumo à terra do fim do mundo (sim,
a pontinha da América do sul, era o meu destino). Por causa desta incerteza,
não me preocupei em comprar a passagem para este, outro, grande trecho da
viagem, mas quando desembarquei em Buenos Aires, percebi que nem tudo
seria tão fácil quanto imaginava, afinal, além de nossos hermanos gostarem de
viajar para caramba, ainda existiam "miles" de turistas visitando-os. Isso fez
com que eu não conseguisse uma passagem para a cidade que desejava e
nem para lugar algum: estavam todas esgotadas.

Fiquei por mais de 3 horas carregando minha mochila de um guichê para


outro e quando meu saquinho estava começando a encher, com algumas
vozes dizendo, dentro da minha cabeça, que deveria ter feito isso ou aquilo,
mandei todo mundo para aquele lugar e fui tomar um sorvete (se fosse um
determinado amigo com o qual trabalho, certamente seria uma cerveja, mas
neste caso, quem carregaria a mochila?). Na verdade pisei na bola, pois estava
acostumado a sair de férias em meses de baixa temporada, assim ocorreu
durante mais de dez anos e este é o motivo de considerar que transportes e
hospedagens estariam à minha disposição. Dessa vez não dei sorte.

Depois de pensar com calma, achei que a melhor solução seria pegar
um táxi e me hospedar em um hotel. Para os que me conhecem, sabem que
sou um homem simples e por isso pedi para que o motorista me levasse para
um hotel simples (pero no mucho malo). Ele me levou a um hotel duas estrelas,
muito próximo da rodoviária e das atrações do centro da cidade, portanto bem
localizado. Paguei pela corrida 7 pesos (um pouco mais de 5 reais). Se fosse
em São Paulo estaria perdido, dificilmente ocorreria algo semelhante, se
ocorresse, teria que recomendar o taxista para canonização.

O hotel não era lá essas coisas (óbvio), possuía um “estilo dos anos 60”,
pensando bem talvez até tenha sido construído nesta época, mas tinha uma
boa cama e um banheiro limpinho, com uma faixa dizendo: Higienizado. Isso
era tudo que eu precisava e estava bom para os 70 pesos que estava
desembolsando pela hospedagem (quase uns R$60 ou US$23). Depois de
tomar um bom banho, tudo pareceu se normalizar: estava novamente em
férias! Voltei à rodoviária e comprei uma passagem para Bariloche, dois dias à
frente. Para a cidade que desejava inicialmente só existiria passagem para
depois de sete dias e não achei uma boa idéia ficar tanto tempo esperando.

Fui dar umas voltas no centro da cidade para conhecê-la melhor. Na


minha primeira visita, que ocorrera dois anos antes, também passei duas noites
na cidade, mas não a conheci muito bem, pois como os táxis são uma opção
barata, fiz deles o meu meio de transporte e desta forma, apesar de perceber
que várias atrações não são distantes umas das outras, não sabia exatamente
onde se localizavam. Somente quando eu caminho pela cidade, ou quando
dirijo o automóvel, posso formar um mapa mental de suas várias partes.

Nesta viajem optei por caminhar pela cidade, observar e fotografar,


pessoas e paisagens bonitas. Esse é o famoso turismo "canelinha", através do
qual visitei atrações como o zoológico, o bairro da Recoleta, a Casa Rosada e
o Obelisco. Tudo isso está a uma distância de quatro quilômetros entre os
pontos mais distantes (Casa Rosada e Zoológico). Trata-se de uma cidade
muito bonita, para a qual as primeiras décadas do século XX foram muito
generosas, de forma que se notam belíssimas construções deste período, com
destaque para o bairro e o Cemitério da Recoleta.
Foram caminhadas agradáveis e tranqüilas, pois a cidade além de plana,
parece ser muito mais segura que São Paulo (ou pelo menos foi essa, a minha
impressão).

Minhas visitas incluíram pontos turísticos e "normais" como alguns


supermercados (adoro supermercados). Gosto de andar pelas ruas e observar
as pessoas, o que fazem e como fazem. Percebi que os Argentinos, assim
como nós, gostam de namorar, pois é difícil achar uma praça que não tenha
um casal "se pegando". É uma beleza! Viva o amor! Falando em pegar, eu não
pego nada, mas estou cansado de ver as calcinhas das argentinas. Não sei
como é a parte de baixo, mas a parte de cima é fácil de ver. Deve ser uma
moda do tipo: vamos mostrar as "calçolas". O mais importante é que são "seres
amistosos", o problema fica por conta de que não possuem a tecla SAP e
embora se possa entender quase tudo, quando se fala com alguém
interessante, minha vontade é a de entender absolutamente tudo.

Eram tantos turistas “não latinos” espalhados pela cidade, que alguns
argentinos pensavam que eu era da terra e, de vez em quando, me pediam
alguma informação. Só mesmo quando notavam minha expressão de bocó, é
que percebiam que estavam perdendo tempo. Os que nunca se enganavam
eram os pedintes de rua, que reconheciam minha "ginga brasileira" e me
pediam "uma colaboração" em razoável português. Aqueles que gostam de
competir não precisam ficar preocupados quanto a isso, pois nós brasileiros
ganhamos em número e miserabilidade de pedintes (eles precisam melhorar
muito neste quesito para poderem se comparar a nós).

Na primeira tarde de caminhadas urbanas, quando senti minhas


perninhas cansadas, resolvi sentar em um banco de praça. Notei que meus
olhos não estavam querendo ficar muito tempo abertos, sendo assim, resolvi
voltar para o hotel e descansar. Eram 5 da tarde quando me encontrei com o
colchão. Dormi como uma pedra e acordei às 8h. Olhei para fora e vi que o dia
ainda não estava muito claro, mas só quando desci, para tomar o café da
manhã, é que percebi que estava pagando sapo: não eram 8 da manhã, mas
sim 8 da noite do mesmo dia. Apesar de parecer ter dormido muito, foram
apenas três horas de sono. Para desfrutar da noite que acabara de ganhar,
resolvi sair para jantar. Apesar de preferir não comer carne, geralmente, aqui
não resisto a um bife de chorizo (não sei se é assim que se escreve, mas tá
valendo) por dois bons motivos: o primeiro porque é a carne mais deliciosa que
já provei (não entendo de carne, mas lembra uma picanha com generosa capa
de gordura) e o segundo é que não me faz engordar, pois em menos de 60
minutos ela já vai estar fora do meu corpo. Meu organismo considera a
quantidade de gordura deste bife, demasiada, e isso faz com que ele se
converta em um laxante natural.

Depois das duas noites de hospedagem, fechei minha conta no hotel e


fui a pé até a rodoviária (apesar do táxi ser barato, a rodoviária ficava a pouco
mais de um quilômetro). Na visita anterior, como havia comprado um pacote
com tudo incluído, foi pura mordomia, pois todos os traslados entre hotéis e
aeroportos já estavam acertados. No entanto, me sinto mais satisfeito assim:
sabendo que consigo fazer todas as coisas sozinho (cada louco com suas
manias).

O ônibus chegou no horário correto, o único problema foi que ele poderia
parar nas plataformas de 44 a 55 e só apareceu um que pertencia à empresa
"Crucero del Sur", o correto seria "Crucero del Norte", mas como o padrão de
cores era o mesmo, resolvi deixar de lado estas pequenas diferenças de
direção e após perguntar, descobri que se tratava do "ônibus prometido". Ele
era um pouco mais velho, mas o padrão de conforto era mesmo (semi leito).
Estava tudo bem no início da viagem, até que comecei a sentir um "calorzinho"
e a coisa começou a incomodar. Quando um ônibus possui (ou deveria possuir)
ar condicionado, as janelas não se abrem e embora esta cidade fique ao sul do
Brasil, o calor que faz por lá em janeiro é digno de uma cidade nordestina.
Sendo assim, estava um verdadeiro forno ambulante e antes de deixarmos a
grande Buenos Aires, encostamos em uma parada "muquifinho" e fizemos uma
troca de ônibus. Foi ótimo. O tempo foi suficiente para dois sorvetes e um
refrigerante bem gelado de “sei lá o quê”, mas que estava muito bom.
O ônibus que chegou era “novinho em folha” (consciência pesada).
Embarcamos, logo já serviram um lanchinho ninja e passaram um filminho
(uma sessão da tarde). Eu já os havia perdoado (na verdade nem fiquei bravo,
para mim tá valendo), mas de repente ouvi um som de lata de cerveja se
abrindo e não era uma “miragem auditiva” (se é que isso existe). SIN, HAY
CERVEZA A BORDO! Estava muito boa! Pode-se dizer tudo dos argentinos,
mas eles sabem agradar. Viva a terra do Maradona!!!!

Esta viagem de ônibus durou 22 horas. Bariloche está a uns 1600km de


Buenos Aires. Uma das curiosidades é que, como há serviço de bordo com
todas as refeições incluídas, em nenhum momento houve uma parada para
que os passageiros descessem. É contra a minha religião utilizar-me de
banheiros que se movimentam, seja no ar, na terra ou no mar. Só faço isso
quando é inevitável e foi este o caso, mas ele estava em ótimas condições,
mesmo depois do meio da viagem.

Ao chegar em Bariloche, percebi onde estava o pessoal de Buenos


Aires: lá! (ou pelo menos esse era um dos lugares). Foi difícil encontrar vaga
nos hotéis, só consegui no terceiro que perguntei, ainda assim porque era bem
ruizinho e caro (paguei 85 pesos). A única coisa boa (além das filhas loiras do
dono) era que tinha banheira no apartamento. Santa banheira! Ela não era
grande: se meus pés estavam dentro d’água, os joelhos estavam fora e vice-
versa, mas mesmo assim ela foi capaz de me revigorar em pouco tempo.
No mesmo dia resolvi pegar um ônibus urbano até uma das atrações da
cidade: o Cerro Campanário. O pessoal do hotel já havia me indicado o número
dele e onde passava (aqui a maior parte das linhas é por número e não por
nome). Quando estava chegando ao ponto... Sorte! O ônibus pretendido parou
no ponto, abriram-se as duas portas e pessoas desceram pela porta da frente.
– Uso da lógica: se pessoas descem pela porta da frente, acreditei que deveria
ser correto subir pela porta traseira. – Assim procedi, mas para minha surpresa
não havia cobrador. Descobri que na Argentina, o motorista dirige, cobra,
assobia e chupa cana, tudo ao mesmo tempo. Depois de perceber minha
mancada, cheguei no motorista para pagar minha passagem e receber meu
ticket (é assim que controlam), mas quando falei com ele, já levei uma comida
de rabo por ter entrado pela porta errada. – Correção: ...assobia, chupa cana e
dá comida de rabo. – Em resposta, fiz uma cara do tipo: "fazer o que? Sou um
idiota mesmo!" A única vantagem de ser gringo, é poder ser um idiota oficial.
Essa é uma das vantagens de ser um turista e quanto mais longe você estiver
de casa, mais idiota pode ser. É ótimo!

Fiz meu passeio sem nenhum problema e na volta à cidade, aproveitei


para passar no Clube Andino Bariloche e me informar sobre as trilhas da
região. Eles dão várias informações e vendem um mapa com a localização de
todas as trilhas e abrigos da região. Na verdade a cidade está dentro de um
parque Nacional, o Nahuel Huapi, e existem muitas trilhas que cortam as
montanhas próximas. Quando se visita esta cidade, é comum se conhecer o
Circuito Chico (pequeno) e o Circuito Grande, que são pacotes muito
comercializados pelas agências locais de turismo. Realmente são muito bons,
no entanto se você gosta de caminhar não deixe de "fazer" algumas trilhas,
pois são bem sinalizadas e te levarão à paisagens deslumbrantes.

No dia seguinte fechei a conta no hotel, coloquei a mochila nas costas e


fui pegar outro ônibus urbano, até o inicio da trilha. No ponto conheci duas
garotas argentinas que iam fazer a mesma trilha. Beleza – pensei – vou colar
nelas! Quando descemos do ônibus, eu parecia um daqueles cachorros de rua,
no qual você faz um agrado e o desgraçado não te larga mais. Assim eu
procedi em relação a elas, e quando estava ficando meio chato, decidi pedir a
elas para fazermos a trilha juntos. É que sem combinar com elas, eu as estava
seguindo meio de longe, mas depois percebi que elas estavam indo em direção
a uma loja, e não ao início da trilha. Depois de conversarmos, elas até
gostaram de ter uma companhia (também acho que não sou uma companhia
tão ruim assim, ou pelo menos, minha mãe sempre gostou bastante de mim).

Foi divertido. Fomos caminhando e conversando, mas depois de umas


duas horas, percebi que elas não paravam para nada (comer, beber,
descansar, nada). É verdade que eu estava carregando uma mochila bem mais
pesada do que a delas, mas do que será que elas eram feitas???? (Bem,
também eu não chequei as mochilas delas, pois tem umas garotas que levam
tão pouco peso que eu não me surpreenderia se dentro houvessem balões de
ar). Chegou um momento (uma subida) que não teve jeito: tive que entregar os
pontos e parar, mas elas foram boazinhas e esperaram que eu me
recuperasse.

Neste dia, pela manhã, o tempo estava lindo. – Não vai chover! – Foi o
meu pensamento. Lá pelas 10:00 parecia haver uma possibilidade remota de
chuva. Meia hora depois, quando começamos a caminhar, já estava
chovendo!!! Então tudo isso que relatei (a caminhada) ocorreu debaixo de uma
chuva contínua. No momento em que elas foram à uma loja, fizeram isso para
comprar capas de chuva. A chuva não era forte, mas estava aumentando a
cada momento e já havia me deixado ensopado da cintura para baixo (apesar
da minha capa de chuva).

Depois de umas quatro horas de caminhada chegamos numa estação


de esqui, onde existia apenas um funcionário (sem neve, sem esqui, tudo
fechado). Como esse lugar não estava em nosso mapa, decidimos perguntar
qual era o caminho para o refúgio de montanha (ou abrigo).

Abrigo é uma casa na montanha, uma espécie de hotel, onde as


pessoas podem se hospedar. Entenda hospedar como um local (geralmente no
chão) onde você pode colocar seu saco de dormir, uma cozinha e um banheiro
coletivos. Este é o máximo da comodidade em alta montanha.
Descobrimos que havíamos errado o caminho e estávamos no lado
oposto da montanha, mesmo assim era possível chegar ao abrigo subindo
500m e descendo 300m do outro lado do Cerro Catedral, boa parte disso
através de terreno coberto de gelo. Franguei na hora! O funcionário explicou
que, se o nosso grupo fosse masculino, não haveria problema, mas com duas
moças, ele não recomendava a travessia. Falou tudo isso olhando pra mim,
como se eu fosse o líder. Bobinho!! Eu tinha deixado minha última reserva de
macheza, à várias subidas atrás, mas sabe como é, descobri que a dignidade
não é a ultima coisa que um homem perde: ainda me restava a aparência. Foi
assim que respirei fundo e depois de parecer pensar um pouco, decidi:

- Meninas, é melhor voltarmos, para a sua própria segurança.

Ao descermos, encontramos o local de nosso erro: existia uma grande


seta apontando o caminho correto, até um cego poderia ver, mas passamos
batidos porque estávamos conversando, na verdade eu não estava nem um
pouco preocupado com o caminho correto, afinal, com tão distinta companhia
qualquer caminho é maravilhoso. Percorro as trilhas porque elas são
agradáveis e chegar a algum lugar é apenas mais um prêmio, além daquele
que já recebi durante todo o percurso. As meninas eram universitárias, dos
cursos de arquitetura e direito, com vinte e vinte e dois anos, durante todo o
trajeto conversamos sobre família, educação, sensibilidade e outros assuntos,
apesar de tão pouco tempo juntos, sinto saudades de minhas amigas.

Percebemos que assim como nós, muita gente estava descendo da


montanha. Com tempo chuvoso não dá para escalar e a temperatura fica
próxima de zero grau naquelas latitudes e altitudes (mesmo no verão). Um dos
grupos que estava descendo era composto por três alemães. Um deles era
normal, mas dois eram muito bonitos e um destes ainda falava espanhol. Essas
argentinas não dão um tempo! Não podem ver um homem bonito, charmoso,
inteligente e agradável que ficam dando em cima do cara!!! – Magoei – Não
entendia direito o que falavam, mas as meninas tinham tamanho entusiasmo
no tom de voz, que raramente vi na minha vida. O que denunciava o grande
interesse pelo rapaz, no entanto, descobri que Deus não dá asa pra cobra,
porque apesar de tudo ele não convidou elas para jantar ou outras cozitas
mais, quando chegou o momento de se separar delas, só disse adeus e foi
embora. Incrível!!! Esse cara não tinha nem mesmo uma gota de sangue latino.

Ao chegar no ponto de ônibus, já tinha bastante gente esperando e


quando o dito cujo chegou, pareceu desafiar as leis de Newton, porque o bicho
foi abarrotado (um verdadeiro cata louco). Nunca vi tanta gente espremida,
nem gente tão feliz, afinal de contas aquilo era a nossa tábua de salvação. Isso
é uma caminhada: possui a mágica de transformar algo horrível, na coisa mais
maravilhosa do mundo. É algo fantástico.
Depois da tentativa de caminhada fracassada, fui com as meninas para
o hotel em que elas estavam hospedadas e, graças a Deus, existia um quarto
disponível. Era apenas por uma noite, na seguinte já havia reserva, mas era
tudo que eu precisava naquele momento: um quarto de hotel (quentinho) e um
bom banho (quentinho). Para melhorar mais, este era um hotel melhor e mais
barato que o anterior (paguei 60 pesos). Depois de tomar banho e trocar de
roupa (alívio), parou de chover e fez uma tarde ensolarada até quase as 22:00.
Não dá para acreditar como o tempo muda tanto nesta cidade!

No dia seguinte consegui fazer a trilha (desta vez estava sozinho). É um


caminho muito bonito e não há como se perder (quando se acha o início).
Algumas coisas são diferentes por lá, uma delas é que as árvores parecem
estar dentro da geladeira, de tão frias, outra é que caminhar não é um
programa somente de jovens, mas também de senhores, senhoras e de
famílias inteiras com seus filhos (de 10 até 20 anos de idade).

Ao contrário do anterior, este dia estava ensolarado, o único problema


que tive foi de auto-estima, pois fui ultrapassado por 263.587 pessoas e um
cachorro (durante as 5:30 de caminhada). Foi triste! A maior parte das pessoas
caminha com mochilas leves, sem barraca e com comida para apenas dois ou
três dias. Minha mochila estava pesada, com barraca e o dobro da comida que
normalmente se leva (já que meu objetivo era fazer uma outra caminhada). No
final da trilha, meu desempenho era semelhante ao de uma mulher grávida,
caminhando para a sala de parto. Eu estava morrendo!
Quando chequei ao abrigo (refúgio Frey) fiquei radiante. O lugar é
mesmo lindo! Está cercado por montanhas nevadas de quase todos os lados
(menos pelo lado que se sobe) e tem um lago na frente. Foi duro, mas ainda
bem que trouxe a barraca de camping, pois o abrigo estava tão lotado quanto a
rua 25 de março em um final de semana antes do natal. Não cabia mais
ninguém. O banheiro, que está engenhosamente disposto em outro prédio,
deveria ostentar um aviso de "é proibido fumar", pois bastaria uma fagulha para
mandar tudo aquilo pelos ares. A urucubaca era grande!!!

Passei duas noites acampado próximo ao refúgio (não muito próximo,


pois vai que o vento sopra de lá para cá). Numa das noites choveu o tempo
todo e a temperatura foi de 4°C, na outra não choveu, mas não era muito
animador ficar lá fora, pois a temperatura foi a 0°C. Durante o dia até que era
bom, pois fazia 10°C com sol e 6°C com chuva. Aí você me pergunta: como
recolhi dados tão maravilhosamente precisos? Fácil: adquiri nas ruas de
Bariloche por 5 pesos, minutos antes de embarcar para a primeira caminhada,
uma bússola multifunção com apito, termômetro, régua, descascador de
legumes, visão noturna, cortador de unhas, GPS e mais umas cinqüenta
funções. Se você é como eu, um Rambo dos trópicos, não pode deixar de ter
uma maravilha destas.

Durante o tempo em que permaneci acampado, tentei descobrir o


caminho para chegar no próximo abrigo, mas não consegui. Os caminhos em
alta montanha não são muito bem marcados. O treking não é um esporte
perigoso, desde que você saiba qual é o seu limite, e atravessar campos de
gelo em alta montanha, sozinho, está fora dos MEUS limites.

Voltei a Bariloche pelo mesmo caminho e consegui hotel por mais duas
noites. Fui até a rodoviária para comprar passagens, o destino poderia ser uns
4 lugares diferentes, mas o que mais combinou foi Puerto Iguazú (ao lado de
Foz do Iguaçu).

O dia seguinte foi meu último dia, inteiro, em Bariloche. Decidi pegar o
ônibus para a colônia Suíça, que seria o local onde eu terminaria minha
caminhada (se tivesse conseguido ir até o fim). O tempo estava ótimo e como
pretendia fazer um "dia turistão normal" e não iria caminhar, não estava
levando capa de chuva. No entanto, quando estava no ponto de ônibus,
conheci outras duas argentinas que iam fazer uma trilha: a mesma que eu
deveria terminar. Tá no papo! Nada como conhecer uma trilha nova, em
companhia tão agradável.

Conhecer os abrigos de Bariloche e suas trilhas, parece ser um


programa universitário na Argentina. Deve ser do tipo: entre na facu e faça uma
caminhada de aventura, porque minhas quatro amigas (duas desta e duas da
caminhada anterior) estavam no primeiro ou segundo ano da faculdade (de
cursos diferentes, em cidades diferentes).

Caminhei por três horas com elas, lanchamos juntos, elas prosseguiram
e eu voltei sozinho. Foi fantástico, pela companhia e pela trilha, o único
problema é que na volta começou a chover e fiquei ensopado. Eu estava
calçando aquele que era o meu tênis limpo (era). Dancei! Ao chegar no ponto
de ônibus às 18:00, já tinha umas 40 pessoas esperando. Ele não demorou
nem 5 minutos, mas quando passou estava abarrotado e nem parou no nosso
ponto. Sacanagem! Tivemos que esperar na chuva por outro, sem ter a certeza
de que haveria lugar.

Até aquele momento não estava sentindo frio, mas como havia parado
de caminhar e estava molhado, não deu outra. Em Bariloche, mesmo quando
havia sol, a temperatura era de uns 20ºC, mas o vento não perdoa e sem uma
proteção para ele, a sensação térmica cai bastante. Neste momento não havia
vento, mas era o entardecer e o frio estava começando a incomodar. O pior
nessas horas é pensar em seu quarto de hotel te esperando: limpinho,
quentinho e pago. E você não podendo chegar lá. É de cortar o coração.

A Colônia Suíça está a uns 24km da cidade. O pessoal da fila começou


a se virar, uns conseguiram alugar uma caminhonete, uns poucos conseguiram
carona (impossível para mim que estava completamente molhado) e a fila se
dissipou um pouco. Eu estava com uma sede danada, mas enquanto a fila se
mantinha, eu não arredava pé, afinal, vai que saio para comprar uma água ou
refrigerante e o ônibus passa. Não dá pra arriscar. Porém quando a fila foi se
dissipando e a sede aumentando, resolvi caminhar 200m até um quiosque e
tive sorte, pois quando terminei de comprar um refrigerante, o ônibus passou.
Deu tempo de correr, pegá-lo (quase tive azar) e ainda sentei, pois só depois
ele chegou ao ponto em que estava (e no qual estavam as outras pessoas).
Apertou um pouco, mas teve lugar para todos.
Quando cheguei no hotel, eu estava literalmente batendo os dentes, mas
tudo se resolveu com um banho e roupas secas.

No dia seguinte parti para Buenos Aires e de lá para Puerto Iguazú.


Cheguei às 10:00 e a partida era às 20:00, sendo assim, foi possível deixar a
mochila no guarda volumes da companhia de ônibus e passear, um pouco
mais, pela cidade. Como sabia que não iria gastar nada durante a viagem,
gastei meus últimos pesos com refeição, sorvetes e besteirinhas. Quando saí
da Argentina, no dia seguinte, me sobravam apenas uns centavos de pesos, no
bolso. Em Puerto Iguazú, pode-se utilizar dinheiro brasileiro para pagar o
ônibus urbano, que circula entre as cidades das três fronteiras.

Me hospedei em Foz do Iguaçú, que estava com temperaturas em torno


de 40ºC. Sair de Bariloche e chegar em Foz, é como sair da geladeira para cair
no forno. Não conhecia a cidade e valeu a pena por causa das Cataratas.
Visitei também o lado paraguaio, mas não gostei do fato de que nada tem
preço nas vitrines e este parece mudar de acordo com sua cara. Preferi não
comprar absolutamente nada.

O pior de tudo ficou por conta da volta: comprei passagem na rodoviária


com destino à São Paulo e participei, sem querer, do que eu chamaria de um
"Moambabus". Até que é interessante acompanhar a ansiedade de boa parte
dos passageiros, com relação à fiscalização que ocorre, ou poderia ocorrer, em
qualquer parte do caminho, mas é uma viagem de péssima qualidade, já que o
interesse dessas pessoas é trazer mercadoria para ser vendida no Brasil, o
conforto é a última coisa com a qual estão preocupados, fazendo com que a
companhia de ônibus coloque péssimos carros nesta linha. O que me trouxe,
tinha um problema na suspensão traseira, que fazia muito barulho. Parecia um
"carroçabus".

Foram 17 dias de viagem, nos quais gastei uns U$600. Levei uma parte
em reais, porém o melhor é comprar cheques de viajem, que além de ser mais
seguro, ainda garantem uma troca mais vantajosa em relação ao dólar em
espécie. Por incrível que pareça, converter seus reais em dólares (cheques de
viagem) para depois convertê-los em pesos, lhe renderá mais (ou pelo menos
ocorreu comigo) do que trocar reais por pesos, diretamente, ou seja, dê a
benção ao Tio Sam, que você sairá ganhando!!!!

Ok, fico por aqui.

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