PARECER DE VISTA

Processo: 01200.005925/2015-48
Data de Protocolo: 29/12/2015
Assunto: Liberação comercial de cana-de-açúcar geneticamente modificada para resistência
a insetos
Requerente: Centro de Tecnologia Canavieira - CTC
CQB: 006/96

Designação do OGM: Evento CTB141175/01-A de cana-de-açúcar
Espécie: Híbrido comercial de Saccharum officinarum
Característica inserida: Resistência a insetos
Método de introdução da característica: Bombardeamento de calos para inserção dos
genes cry1Ab e nptII.
Finalidade: Cultivo comercial de cana-de-açúcar CTB141175/01-A, assim como para o seu
consumo e de seus derivados

Parecer
Trata-se da solicitação do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) para liberação do cultivo
comercial de cana-de-açúcar geneticamente modificada para resistência a insetos, evento
CTB141175/01-A, bem como para as progênies derivadas do OGM.

Este parecer analisa o processo quanto ao atendimento dos requisitos exigidos pela
Resolução Normativa nº 5 da CTNBio, sobretudo em relação aos seguintes aspectos (1)
potenciais efeitos sobre organismos não alvo, (2) avaliação do risco a animais e humanos
que consumirem a cana-de-açúcar in natura, e (3) risco de fluxo gênico com espécies
silvestres aparentadas.

Efeitos em organismos não alvo
A empresa proponente apresenta resultados dos experimentos conduzidos em quatro
localidades avaliando impactos da cana-de-açúcar geneticamente modificada
(CTB141175/A, evento CTB141175/01-A) sobre organismos não alvo do filo artrópodes e da
microbiota do solo. A variedade geneticamente modificada foi comparada com a cultivar
parental (CTC20) que passou pela cultura de tecidos (CTB141175/01-U), e com a cultivar
parental manejada com ou sem o uso de inseticidas. O delineamento experimental foi em
blocos casualizados, com três repetições em cada localidade, com parcelas experimentais
formadas por 8 linhas de plantio de 15 metros de comprimento espaçadas a 1,5 metros
(p.9, Anexo IV, Resposta à Diligência). As Tabelas 9-20 do Anexo IV mostram,
separadamente para cada uma das localidades, a abundância média e o erro padrão para
cada táxon e tratamento, e a probabilidade de encontrar ao acaso as diferenças observadas
entre os tratamentos.
Entretanto, quando diferenças significativas não foram detectadas para algum táxon (quase
todos), a proponente não informou a diferença mínima que seria detectável entre um
tratamento e o controle considerando o mesmo número de repetições e erro experimental
observado. Informar a diferença mínima detectável (DMD) é essencial para que se possa
julgar se a falta de significância não resultou do delineamento experimental inadequado para
os organismos não alvo considerados (e.g. número insuficiente de repetições, tamanho muito
pequeno das parcelas experimentais), e/ou de um erro experimental aumentado pelos
procedimentos adotados na condução do experimento (e.g. métodos de captura, intensidade
de subamostragem). A literatura científica sobre avaliação de impactos ambientais oferece

1
diretrizes bastante claras sobre a necessidade de informar a DMD quando o teste estatístico
indica não significância (e.g., Jong et al. 2010, Brock & Hommen 2015).
A partir das informações sobre o erro padrão e número de repetições disponíveis nas Tabelas
9-20 do referido Anexo IV, foi possível calcular a DMD para alguns testes cujo p-valor da
análise de variância indicou diferenças não significativas. Por exemplo, na Tab. 9, a DMD
calculada para Megaselia scalaris (Diptera) entre CTB141175/A e o controle CTB141175/01-
U na localidade de Conchal seria de 19.01 indivíduos, quando foi observada uma diferença
de 18 indivíduos a menos (42% do controle) em CTB141175/A. E na Tab. 14, a DMD
calculada para Acromyrmex sp. (Hymenoptera) na mesma localidade seria de 249.1
indivíduos, quando foi observada uma diferença de 84 indivíduos a mais (1321%) em
CTB141175/A. Esses são alguns exemplos que indicam a baixa detectabilidade de efeitos
em organismos não alvo nos resultados experimentais apresentados pela proponente, pois
mesmo diferenças que poderiam ser ecologicamente importantes, foram não significativas.
O tamanho das parcelas experimentais é crítico para garantir a independência entre parcelas,
sobretudo quando os organismos não alvo avaliados são móveis. Se as parcelas
experimentais não forem independentes, eventuais efeitos negativos de um tratamento
poderão ser compensados pela imigração de indivíduos vindos de fora do experimento ou de
parcelas vizinhas submetidas a outros tratamentos. Deduz-se, a partir das informações
fornecidas pela proponente (p.9, Anexo IV, Resposta à Diligência), que as parcelas
experimentais não eram maiores do que 13,5 x 15 m. A proponente não informa, porém,
a distância entre parcelas e o tipo de cobertura vegetal mantida entre as parcelas. Para
a maior parte dos organismos avaliados (Tabelas 9-20 do referido Anexo IV), não é
plausível assumir independência entre parcelas experimentais com tais dimensões.
Portanto, a análise dos efeitos potenciais do evento CTB141175/01-A em organismos não
alvo que são móveis foi também prejudicada pelo tamanho pequeno da parcela adotado
nos experimentos relatados pela proponente.
Os experimentos não incluem a avaliação do impacto sobre espécies não alvo de
lepidópteros, que são suscetíveis à toxina Cry1Ab. Os métodos de captura de artrópodes que
foram utilizados (armadilhas de cartelas adesivas e alçapão, e iscas atrativas de formigas)
são inadequados para a captura de lepidópteros. Há métodos de captura mais adequados
para avaliar lepidópteros nas parcelas experimentais (por exemplo, panos de batida ou
guarda-chuva entomológico). Com efeito, nenhum indivíduo dessa ordem foi capturado nas
parcelas do experimento. Portanto, não se sustenta a afirmativa de que “o plantio do evento
apresenta segurança para organismos não-alvo incidentes no canavial”, pois a avaliação não
contemplou organismos não alvo de lepidópteros que ocorrem naturalmente em canaviais.
Os resultados de composição de bactérias e fungos usando a técnica de T-RFLP foram
apenas submetidos a uma análise exploratória multivariada, faltando um teste estatístico para
verificar se os tratamentos diferiram ou não significativamente. Esse teste estatístico deveria
incluir análise multivariada de variância com base em testes de permutação (PERMANOVA),
que permite comparar os tratamentos controlando estatisticamente os demais fatores (local
e bloco) e sem os pressupostos relativos à distribuição normal.
Em suma, é evidente que os experimentos de avaliação do risco ambiental apresentados são
falhos quanto aos seguintes aspectos: (1) falta de informação sobre a diferença mínima
detectável para cada um dos testes não significativos, (2) pequeno tamanho das parcelas
experimentais, (3) métodos de captura inadequados para organismos não alvo de
lepidópteros, e (4) falta de teste estatístico nas avaliações da microbiota. Seria temerário esta
Comissão Técnica Nacional de Biossegurança aceitar a conclusão apresentada pela
proponente de que “[N]enhuma diferença na incidência de artrópodes foi encontrada que
pudesse ser atribuída ao plantio do evento CTB141175/01-A, sugerindo que o plantio do

2
evento apresenta segurança para organismos não-alvo incidentes no canavial” (p.30,
Resposta a Diligência.pdf).

Riscos à saúde humana e animal
A proponente não apresenta no processo de liberação comercial resultados de testes
avaliando efeitos do consumo da variedade de cana-de-açúcar CTB141175/01-A por animais
domésticos e por humanos. Entretanto, a proponente afirma, com base na literatura, que não
há evidências de que o consumo da variedade de cana-de-açúcar CTB141175/01-A poderia
causar riscos para a saúde humana ou animal. Tal afirmativa apoia-se no pressuposto de que
os efeitos das proteínas codificadas pelos genes cry1Ab e nptII bombardeados em calos de
cana-de-açúcar seriam os mesmos observados em outras culturas como o milho, batata ou
arroz. A maior parte dos estudos de nutrição apresentados envolvem proteína Cry1Ab no
milho Mon810 e do Bt11, que embora apresentem a mesma sequência de aminoácidos da
proteína expressa pela cana-de-açúcar, não necessariamente terão a mesma funcionalidade
(por estarem inseridos em genomas diferentes, na presença de outros componentes).
Por fim, como a minimizar o risco e a necessidade de testar os efeitos sobre a saúde humana
e animal, a proponente afirma que há “probabilidade muito baixa de que esta cultivar seja
utilizada para fins de consumo in natura ou em processos artesanais” (p. 218), como se
pudesse ter o controle total sobre o cultivo e sobre o destino dos canaviais que vierem a ser
cultivados com essa variedade.

Riscos de fluxo gênico com espécies silvestres aparentadas
A Alínea 6, do Anexo IV da Resolução Normativa nº 05 da CTNBio (Avaliação de Risco ao
Meio Ambiente – (A) Plantas), determina que a proponente deve informar “a frequência com
que ocorre o cruzamento do organismo parental do OGM, dentro da mesma espécie e com
espécies sexualmente compatíveis, arrolando as espécies avaliadas, as técnicas utilizadas e
os efeitos resultantes”.
Entretanto, a proponente afirma (p. 278) que “[a] variedade CTC20, base genética do evento
CTB141175/01-A, apresenta baixo potencial de florescimento na região Centro-Sul do país,
região para onde essa cultivar foi desenvolvida e o evento CTB141175/01-A será destinado”
e que “o baixo potencial de florescimento da cultivar CTC20 foi mantido no evento
CTB141175/01-A“. Ou seja, apesar do baixo florescimento, ocorre o florescimento (p. 65).
Afirma também que o potencial de produção de pólen se manteve baixo (ou seja, embora
baixo, ocorre a produção de pólen). Com base nessas informações, a proponente deveria
apresentar as informações exigidas na Alínea 6, do Anexo IV da RN nº 05. A empresa não
apresenta no processo dados sobre a viabilidade do pólen produzido pelo evento e tampouco
sobre a distância de dispersão.
Tampouco foi testada a possibilidade de cruzamento do evento com Saccharum villosum, S.
angustifolium e S. asperum, que têm ocorrência geográfica ampla no Brasil, sendo apenas
apresentada revisão da literatura. A proponente não atendeu ao que determina a Resolução
Normativa nº 5 de arrolar “as espécies avaliadas no cruzamento, as técnicas utilizadas e os
efeitos resultantes”.
A afirmativa da proponente que que “há um histórico de cinco séculos de cultivo seguro da
cana-de-açúcar no país, sem qualquer relato de aparecimento de populações híbridas de
cana-de-açúcar e espécies silvestres” não justifica a omissão da avaliação exigida pela RN
5. Não haver relato de aparecimento de populações híbridas não quer dizer que não ocorra.
Há, entretanto, evidências que sugerem a possibilidade de cruzamento entre cana-de-açúcar

3
e S. villosum (Toledo 2015). A proponente utiliza a falta de informação para afirmar que o
fenômeno não ocorre. É uma clara violação do princípio da precaução que estabelece
“Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a
ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada
como razão para postergar medidas eficazes e
economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental
“(Decreto Nº 2.519, de 16 de março de 1998, que promulga a
Convenção sobre Diversidade Biológica no Brasil e item 6, do
art. 10 do Decreto Nº 5.705, de 16 de fevereiro de 2006, que
promulga o Protocolo de Cartagena)
O princípio da precaução visa prevenir por não se saber quais as consequências e reflexos
que determinada ação ou aplicação científica poderão gerar ao meio ambiente, no espaço ou
tempo.

Conclusão
Este parecer é pela solicitação de DILIGÊNCIA para corrigir as deficiências apontadas nos
experimentos de avaliação do risco ambiental quanto a (1) falta de informação sobre a
diferença mínima detectável para cada um dos testes não significativos, (2) pequeno tamanho
das parcelas experimentais nos ensaios avaliando efeitos sobre organismos não alvo, (3) uso
de métodos de captura inadequados para organismos não alvo de lepidópteros, (4) falta de
teste estatístico nas avaliações da microbiota, (5) ausência de ensaios avaliando efeitos do
consumo da variedade de cana-de-açúcar CTB141175/01-A por animais domésticos e por
humanos, e (6) ausência de dados sobre a frequência com que ocorre o cruzamento da
variedade CTB141175/01-A com outras variedades e com espécies sexualmente
compatíveis, arrolando as espécies avaliadas, as técnicas utilizadas e os efeitos resultantes.
As deficiências apontadas em (2-3) e (5-6) exigem a realização de novos ensaios para
atender ao que exige a Resolução Normativa nº 5 de 2008.

Bibliografia
Brock, T.C.M., Hammers-Wirtz, M., Hommen, U., Preuss, T.G., Ratte, H.-T., Roessink, I.,
Strauss, T., & den Brink, P.J. 2015. The minimum detectable difference (MDD) and the
interpretation of treatment-related effects of pesticides in experimental ecosystems.
Environmental Science and Pollution Research 22: 1160–1174.
Jong, F.M.W. de, Bakker, F.M., Brown, K., Jilesen, C.J.T.J., Posthuma-Doodeman, C.J.A.M.,
Smit, C.E., van der Steen, J.J.M., & van Eekelen, G.M.A. 2010. Guidance for summarising
and evaluating field studies with non-target arthropods. National Institute for Public Health
and the Environment, Bilthoven, The Netherlands.
Toledo, J.A.M. 2015. Biologia reprodutiva de cana-de-açúcar (Saccharum x officinarum) e de
um parente selvagem (S. villosum Steud) com potencial de ocntaminação por pólen.
Dissertação Mestrado, ESALQ/USP.

Valério De Patta Pillar
Membro da CTNBio

4

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful