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LOUCURAS DISCRETAS:

UM SEMINÁRIO SOBRE AS CHAMADAS PSICOSES ORDINÁRIAS

GRACIELA BRODSKY

LOUCURAS DISCRETAS:

UM SEMINÁRIO SOBRE AS CHAMADAS PSICOSES ORDINÁRIAS

GRACIELA BRODSKY

B

sc~JPTUM

1111111111 1h1 1:11l11çftu CLIN-n l 1111 rurnnmlo Cmrijo da Cunha

li 111111:rlçfto, trndm;ilo e estabelecimento do texto Maria Josefina Sota Fuentes

ll11vl1Ao final Holofsa Rodrigues da Silva Telles

Prnduçllo

Silvano Moreira

C1111n, 11rojeto gráfico e diagramação Fernanda Moraes

Imagem da capa Thereza Salazar, stand sti/1, recorte em papel, 2010

Livraria e Editora Scriptum

Rua Fernandes Tourinho, 99 Savassi J Belo Horizonte J MG

131 J 3223-1789

E-mail: scriptum@scriptum.com.br ~.livrariascriptum.com.br

Brodsky, Graciela Loucuras discretas: um seminário sobre as chamadas psicoses ordinárias / Graciela Brodsky. Belo Horizonte. Scriptum Livros, 2011.

116p.

1. Psicamllise.

ISBN 978-85-89044-37-D

• CDU: 616.89

LCDD: 616.8917··············· ••··············•····•····•····•·····

.1 IMAIIIII

1\1'111 :il NTAÇÃO

07

IIM 1:/\MPO DE INVESTIGAÇÃO PARA OS CASOS RAROS

INIIIGIOS DA PSICOSE ORDINÁRIA

31

1'1 IISPECTIVAS DO ÚLTIMO ENSINO DE LACAN

li PARADIGMA JOYCE

71

51

11

PSICOSE ORDINÁRIA EDIAGNÓSTICO DIFERENCIAL:

CONVERSAÇÃO 97

APRESENTAÇÃO

Este livro é produto de um trabalho concebido a partir da necessidade, detectada pelo Conselho Técnico e pela Comissão de

l •'.nsino do CLIN-a, de criar um programa de ensino que privilegiasse

a formação continuada e a pesquisa - momento de reflexão acerca

do ensino no CLIN-a, para o qual contamos com a valiosa colabo- ração de alguns colegas da AMP com experiências diversas em Institutos do Campo Freudiano. Gradeia Brodsky foi um dos motores desse debate entre nús e, seguindo a orientação que ela mesma nos transmitiu, decidi-

mos convidá-la para administrar o primeiro daqueles que passaram

a ser denominados "Cursos Avançados". Inaugurou-se, assim, uma

série flexível em relação a temas e funcionamento - não há um mo- delo pré-estabelecido; cada curso é pensado de maneira isolada a fim de desenvolver uma questão compartilhada no coletivo. Gracicla Brodsky compartilha suas elaborações com o CLIN-a há algum tempo, trazendo sua experiência como docente do Instituto Clínico de Buenos Aires onde está desde sua fundação.

O conteúdo desde livro , como o leitor verá, traz o vivo de

um debate inaugurado por Jacques-Alain :i\1iller na Conversação de

Antibes, cuja repercussão ultrapassa as fronteiras do Campo Freudiano. As psicoses ordinárias tornaram-se tema de investigação para muitos de nossos colegas da Associação Mundial de Psicanálise; muito se tem publicado sobre o assunto e, como observa a autora no início de sua exposição, inúmeras vertentes e recortes foram feitos para avançar nessa pesquisa.

O interesse do CLIN-a em produzir um curso avançado com

esse tema surgiu de um debate entre a própria autora e nosso colega Rômulo Ferreira da Silva - testemunhamos na ocasião uma conversa apaixonante que nos instigou a colocá-la a público por meio de um

curso. Ademais, nos interessou por ser um programa de investigação com questões fortemente capazes de sustentar o entusiasmo entre nós.

A clareza e a simplicidade em expor temas complexos

fazem a marca de Gradeia Brodsky. O leitor que acompanha seus

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11.d ,all ll ,s, l'scrit:os ou de transmissão oral, pode comprová-lo aqui. t l jtl'l'l'll l'S<> por ela empreendido tem o mérito singular de expor as dil1't'c11tcs formulações acerca do tema como de expor suas próprias 11 H lai;aç<"ícs. l ~mbora as intervenções de nosso colega Rômulo Ferreira da Silva não estejam aqui compiladas, podemos recolher o produto de uma interlocução que se mantém até o final. Agradecemos a ele p< >r ter acatado o desafio de se dedicar a um tema como este, não sem sua paixão que inspirou a todos nesse trabalho. Contamos com o trabalho minucioso e ágil, que lhe é ca- racterístico, de Maria Josefina Sota Fuentes, responsável pela trans- crição, tradução e estabelecimento do texto. Expressamos a ela nossos agradecimentos, e também a Heloisa Prado Rodrigues da Silva Telles que se ocupou da revisão final. E, por fim, agradecemos, de forma especial e afetuosa, Gra- deia Brodsky por compartilharmos esse intenso trabalho, e pela au- torização e colaboração efetiva em transformá-lo em um escrito. O primeiro de uma série que nomeamos Coleção CLIN-a. Boa leitura!

Luiz Fernando Carrijo da Cunha novembro de 201 O

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UM CAMPO DE INVESTIGAÇÃO PARA OS CASOS RAROS 1

Graciela Brodsky: O projeto destes seminários surgiu de uma ,11·,rnssão com Rómulo que evidenciava diferentes perspectivas que

1ti II lcm ser tomadas para abordar o tema da psicose ordinária, não .,, 1111cnte entre Rómulo e eu, mas, praticamente, entre aqueles que se

l t1 H'lll a trabalhar este tema. Por exemplo, o programa de investigação sobre a psicose

, ,1. linária que Éric Laurent lançou em Roma em 2006, cm uma ple-

11.11it2, foi consequência de um trabalho apresentado por um colega

, l.1 l •'.C)L3,Juan Carlos Indart, que trabalhava o tema há

algum tempo

, , ,m uma hipótese muito definida: pensá-la a partir do

discurso uni-

, nsitário. Esta hipótese não tem nada a ver com a maneira com que

;1.larie-Hélene Brousse trabalha na revistaQuarto4, onde o faz a partir

, lc, discurso do mestre. Então, aí já se veem perspectivas distintas

11,1ra se orientar em um terreno que não é firme. Jacques-Alain Miller retoma a questão, também nessa 111l'sma revista, destacando que se trata de um termo suficientemente ell'mocrático para permitir que cada um diga como o entende, e que p1'.;tamente aí está sua virtude. Ter ele apresentado o tema não como 11111 conceito permite orientações diversas.

Depois de alguns anos de investigação, pode-se ver, por c·s.cmplo, que se tomamos o eixo do declínio do Nome-do-Pai na e nntemporaneidade, a investigação de Indart, que busca localizar o c·ldto do declínio geral do Nome-do-Pai nos próprios discursos, .1plica-se muito bem. Isso é muito distinto de tomar a perspectiva

e I< >s nós no caso Joyce e verificar o que mantinha sua amarração. ,\ssim, algumas perspectivas tentam extrair as consequências do de- dínio do Nome-do-Pai na clínica e nos sintomas contemporâneos,

11quanto outras extraem as consequências da inoperância

11atcrna em um sujeito, tal como, por exemplo, verificou-se a carência

ela função paterna no Homem dos Lobos. Outras perspectivas consideram o nó como o elemento que ,rnece a chave da psicose ordinária. Muitos vão nessa direção e eu 111csma tenho uma ideia de que pode haver uma saída melhor do

da função

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que outra. Pude veriticar, no entanto, especialmente em um artigo de Pierre Skriabinne 5 e em um curso de Jean-Claude Maleval 6 que é totalmente diferente pensar a psicose ordinária a partir do "nó de três,, do seminário RSI 7 , ou nos apoiarmos no "nó de quatro,, do se- minário posterior, O sinthoma8. No "nó de três" de RSI, a hipótese de Lacan é que o nó tem em si mesmo uma maneira de enodamento borromeano, caso do nó do neurótico, enquanto que no.caso Toyce 9 , na psicose, o nó

r_~mencjo., _algo

Lacan mostra como, no caso

que venha sanar Çfil,JLfalha

n~o.o.da

de

modo

borrom.ea,no

Então,

~- é. pr~d.SJLutn

Joyce, o real e o simbólico estão bem enodados, mas não enlaçam o imaginário, que fica solto. Localiza onde está o erro, que uma parte do nó não se enlaçou bem, e onde seria preciso colocar o remendo. No seminário seguinte, a tese mais firme de Lacan é que o real, o simbólico e o imaginário estão soltos, inclusive na neurose - esta já não sendo mais um enodamento estável entre os três registros, mas um enodamento que se dá por meio de um quarto elemento. Co- loca-se aí a questão sobre a diferença deste quarto elemento na neu- rose e na psicose, sendo que em todos os casos este elemento chama-se sinthoma. Assim, as consequências clínicas do nó de RSI e do nó de O sinthoma são distintas. É diferente pensar para todos a necessidade de um quarto nó para sustentar a estrutura e que o Nome-do-Pai é um dos nomes do sinthoma que enoda os três registros, apenas um nome do sinthoma entre seus infinitos nomes. No caso Joyce, por exemplo, o sinthoma não se chama Nome-do-Pai, mas ego. Algo to- talmente inédito em relação ao fato de considerar o remendo como necessário apenas na psicose e não na neurose. Produz-se, desta ma- neira, uma generalização, não apenas da psicose e da foraclusão, já propostas anteriormente, mas daquilo que sustenta um endoamento, que é sempre um sinthoma. Isto leva à questão sobre o que especifica a estrutura psicótica em relação à neurótica, dirigida a Jean-Claude Maleval, precisamente no ano passado em Buenos Aires 10 • Ele sus-

·li;(

14

l('llla que é preciso manter a estrutura- com o que estou plenamente •li- acordo -, mas que a perspectiva final implica uma prudência do

1 lí11ico na direçãÕdo tratamento mesmo no caso da neurose, quando •, 11uarto elemento não está definitivamente estabelecido. Na própria 111·ut~)se não se pode mexer em tudo com uma confi;_nça cega no

Nome-do-Pai, pois, precisamente, e~t-~ sinthoma funciona ca9-~ v~z 11i1ir, sem que isto implique que haja_~da vez maispsicóticos. Com estas distintas perspectivas, indico que não precisamos 1H ,s inquietar e buscar a definição da psicose ordinária, mas consi- ,l<-rnr que se trata de um programa de investigação que esclarece a 1 línica dos casos raros, dos casos inclassificáveis, de todo esse terreno e talvez haja mais casos assim, seja por dispormos de uma ferra- rncnta que permite identificá-los como parte de um conjunto hete- 1úclito, seja por termos saído da clínica do consultório e circulado 1il'los hospitais, pelos centros de saúde, onde entramos em contato 1 ·1 ,m uma classe de casos que não chegam frequentemente nos con- :; ultórios. Enfim, é uma noção que permite uma orientação na dire- 1;:ío do tratamento da psicose, mas também adotar uma perspectiva 111ais prudente na neurose. Assim, ainda que tenhamos pontos de vista distintos, Rómulo tem razão, e eu também! Posto isto, nada elimina que a localização da estrutura cons- 1itua uma das principais apostas das entrevistas preliminares. Seja 11ual for nossa perspectiva neste terreno - continuísta ou a favor da 11curose, psicose e perversão; das psicoses desencadeadas ou não de- sencadeadas; das psicoses que correspondem ao nó de três ou ao nó l>orromeano etc. -, as entrevistas preliminares devem permitir uma

I< ,calização da estrutura. Não por um

espírito classificatório, mas por-

11ue as intervenções do analista que têm como meta limitar_ o_gozo 11 i f ere!_Il d~las que têm como meta a análise da repressão. Um dos axiomas de Lacan ~ãmos--erepeti.füos é o

1 lc não retroceder diante da psicose. O que parece um imperativo ca- 1cgórico, ético, é finalmente uma discussão de Lacan com Freud, para tJucm era evidente que certos casos não deveriam ser tomados em

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análise. Havia, para ele, várias contra-indicações. Por exemplo, sujei- tos que não têm uma posição ética que lhes permita enfrentar a ver- dade como corresponde. Certamente conhecem a carta de Edward \'feiss 1 1, na qual pergunta a Freud o que ele deveria fazer com um pa- ciente que era um canalha. Freud recomenda: coloque-o em um navio e mande-o a Buenos Aires! (risos). Talvez tenha dito à América

O problema principal não eram os canalhas, porque para

Lacan a única contra-indicação a uma análise seriam os canalhas, pois

a psicanálise torna-os bobos ao retirar-lhes o único que têm para ar-

ranjar-se na vida. O que aqui nos interessa é que, para Preud, a psi- cose - que era uma enfermidade narcisista, ou seja, sem transferência

- não seria abordável pela psicanálise. Quando Lacan diz para não

retroceder diante da psicose, significa não retroceder como Freud o fazia frente a entidades clínicas que não têm uma maneira de estabe- lecer a transferência equivalente à transferência neurótica. A partir

daí, Lacan procura definir a particularidade da transferência psicótica. Assim, não retroceder diante da psicose quer dizer que as entrevistas preliminares não devem deixar os psicóticos de fora, mas tomá-los em análise sabendo que são psicóticos. Esse problema deu origem a um artigo muito conhecido de Jacques-Alain 11iller 12 , onde diz que não há contra-indicação ao tratamento psicanalítico e o que decide é a demanda do paciente: se

é falsa, o paciente não deve ser tomado em análise. Mas não é uma

contra-indicação estrutural. Uma vez que a função das entrevistas preliminares não de- sapareceu com o passar dos anos no ensino de Lacan, e a ideia de ver um paciente pela segunda vez e colocá-lo no divã não se aconse- lha em nenhum momento do seu ensino, a necessidade de fazer tais distinções estruturais se impõe antes de iniciar cada análise. No momento em que a questão estrutural coloca-se para o praticante, há episódios francamente psicóticos que não apresentam dificuldades. Escutava em supervisão o caso de um jovem que entra em um período obscuro, com a suspeita de escutar vozes através das

Latina

16

1111,1 las, e que pouco tempo depois estava sofrendo de uma kirk- ,1,tl"',tl(r7o: olhava-se no espelho e via-se cada vez mais parecido com tlt ,r Kirk Douglas, o que para ele não era nenhuma alegria, como p1 nl •r ia se r para muitos, mas produzia-lhe o horror de ver que seu ,,, l ll transformava-se. Quando alguém, com uma formação, é claro, •fl ·ontra com um paciente nessas condições, não fará muitas per- wllas sobre a estrutura, pois facilmente poderá dizer que é o início h 11111a esquizofrenia. A idade coincide, ele tem dezoito anos, apre- , 111 : l fenômenos estranhos de transformação do corpo etc. No entanto, quando o Homem dos Lobos acredita ter um l 111rn o no nariz, não é evidente o diagnóstico de psicose. Ou seja, t, 11 l : 1 a discussão que durou um ano na Seção Clínica de Paris, foi

J11lta sa ber se poderia ocorrer o caso de <I>o, mas não P o. Pela primeira z aparece no Campo Freudiano a ideia de que haja <I>o sem Po e

ip 1v, se isto fosse possível, estaríamos de volta

ao bordedine. Para

do não funcion a- se a função pa-

ltt•rna está reduzida a zero, a função fálica está reduzida a zero. A discussão do Homem dos Lobos na Seção Clínica de Paris abriu a 1 1lssibilidade de que haja Po, mas com a função fálica preservada, ,,u, então, ao contrário, que a função fálica esteja preservada, mas 1m n a função paterna. Isto introduz algo que não é nem a neurose 11 ·m a psicose e, pela primeira vez no Campo Freudiano, abriu- se i•s t estatuto intermediário. Miller, na revista Quarto, diz que se di- v ·rtia muito naquele momento ao ver como seus colegas puxavam um lado ou de outro, do <!>o e do Po, para entender o caso do 1lomem dos Lobos, que apresenta alguns índices e dois episódios - um dia se assusta ao pensar que tem um buraco no nariz e, certa vez, j, >gado em um banco na praça, pensa que perdeu um dedo. De resto,

·rn um pouco des conectado, era n ecessário sustentá-lo - o movi- mento psicanalítico deu-lhe de comer até o final. Ou seja, não é suficiente uma transformação do corpo, '<>mo no caso do jovem de quem lhes falei, mas é certo que fenô-

l ran, o materna da p sico se, qu e se depreende

1, 1 ·11to da metáfora paterna (Po à <I>o), quer dizer que,

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menos deste tipo nos deixam em alerta em relação ao diagnóstico de psicose, ao menos não esperamos encontrá-los na neurose. Quando não há grandes episódios, e são pacientes sem antecedentes psiquiátricos, que não apresentam alucinações ou delírios, e tam- pouco são melancóli~os, mas, por outro lado, o diagnóstico de neu- rose não se impõe, abre-se o problema de que as entrevistas preliminares não definem o diagnóstico. Frequentemente, esse é o momento em que recebemos pe- didos de supervisão, que deveria ser uma prática regular. Lamenta-

velmente perdemos essa exigência de regularidade e podemos comprovar que, nos casos de neuroses, as supervisões eventuais ocorrem ou porque o analista tem a impressão de que a análise não anda, e há um sentimento compartilhado entre o paciente e o analista de que não se avança, ou porque há iminência de acting out ou passa- gem ao ato, geralmente iminência de interrupção do tratamento. Quando se procura a supervisão nestes casos, esta não cumpre uma função epistêmica, mas de salvamento. Normalmente, quando se leva casos em entrevistas preliminares, é muito frequente que não se en- contre nem a neurose nem a psicose, mas casos raros. Apesar de termos trabalhado o Homem dos Lobos há quinze anos aproximadamente na perspectiva de uma clínica que todo analista conhece, dentro do Campo Freudiano, essa outra pers-

pectiva não foi levada

No entanto, se quisermos ver o que há, não dentro da psi- quiatria onde formam detectados estes problemas clínicos, como dizia Rômulo, mas na própria psicanálise, é preciso voltar à leitura do que Melanie Klein localizava como o núcleo psicótico da perso-

nalidade. Com suas referências e enquadre teórico, para ela valia o axioma "todos psicóticos". Se eles tivessem se encontrado ao final da vida de Lacan, poderiam ter tido uma boa conversa, mas Lacan se cruzou com ela em um mau momento, quando ele procurava a diferença entre a neurose e psicose através da metáfora paterna, en- quanto Melanie Klein tinha uma clínica onde havia uma mistura de

em consideração até 1997, em Arcachon 13 •

.·-.:.

18

períodos esquizoparanoides, ansiedades precoces etc. Seria impossí- vel entenderem-se. Mas, em um programa de investigação sobre a psicose ordinária, seria interessante voltar a Melanie Klein e ver o que ela havia intuído sobre algo que estamos debatendo. Outro alvo ainda mais relevante, que não deve ser deixado de lado no programa de investigação das psicoses ordinárias, são as personalidades "como se" de Helene Deutsch. O_que podemos ch~- mar de "personalidade como se" é um dos índices mais nítidos que temos para suspeitar uma psicose ainda não desencadeada. -- Recentemente, escutei o relato de um jovem, também em supervisão. Nele há uma duplicidade amorosa, tem duas mulheres:

ama para sempre a mulher que será a mãe dos seus filhos, mas com

< >utra experimenta um prazer sexual

pessoa que o atende pede supervisão por causa disto. Não entendo <>caso. Peço que me fale do acontecimento mais importante da in- f:1ncia e ela conta o seguinte: o jovem, que é de uma familia muito pobre, mas cujo pai o colocou numa escola de ricos, no momento <la despedida, antes de partir a uma viagem da escola, percebe que o pai não tem o mesmo status social dos demais, sendo de outra pro- cedência. Então, ele, profundamente envergonhado, diz aos seus ami- gos que se trata do seu tio. Quando o paciente consulta a analista, vive com uma tia-proprietária de uma imobiliária-, com quem tra- iialha e graças a quem leva uma vida compatível com a vida imagi- nada na infância. Mas ele briga muito com essa tia, que o sustenta <'<>mpletamente. Procura análise por se dar muito mal com ela. Certo 1lia decide romper com a tia colocando um anúncio na internet, onde •;e dizia corretor de imóveis. Consegue um sócio que investe muito e linheiro e com quem compra a franquia de uma imobiliária. É muito 1·stranho: como passou da tia que lhe tornava a vida impossível a 1·1 inseguir um sócio por internet que investe 150.000 dólares em uma 11cssoa totalmente desconhecida? Ele tem um modo de ser muito <·ncantador, muito simpático, frequenta a alta sociedade e, para ele, , , 1nais importante na vida é o status social. Fala, nas sessões, do amigo

desconhecido anteriormente. A

19

com um status x, do outro que .t;ião tem o mesmo status, que ele usa óculos escuros e se faz passar por alguém que tem grande status social, as if. Não entendo o caso, não vejo nada de obsessivo nem de histérico. Pergunto um pouco mais sobre a noiva. Não tem desejo sexual por ela e, sobretudo, não pode beijá-la. Penso na histeria, no nojo, elucubro na supervisão. Não pode beijá-la, pois, em uma oca- sião quando mergulhava, travou a mandíbula e, desde então, não pode beijar a noiva. E por que travou a mandíbula? Porque antes co- mera alho. Isso faz quinze anos, e ele não pode beijar a noiva porque tem a mandfüula travada por ter comido alho. Apresenta outro pe- queno fenômeno: quando vai ao banheiro, não consegue terminar de urinar, tem uma sensação estranha. Naquele momento da supervisão, pensei tratar-se de um psicótico, embora não pudesse demonstrá-lo. O status social, o lugar que ocupa na sociedade, presente desde o início, parece ser o que or- dena sua vida - o que faz pensar no fenômeno "como se". l\fas, so- bretudo, o sem-sentido causal que existe entre o alho, o mergulho, a mandJbula travada e a relação sexual, ou seja, o beijo, isto faz pensar na psicose. Que a causa da impossibilidade de se aproximar de uma mulher - que faz parte da consulta de qualquer homem - leve a um acontecimento do corpo, enlaçado causalmente com a comida, isto não faz parte do que a significação fálica permite a um neurótico, que tem outras versões. Por exemplo, não posso beijar uma mulher porque tenho nojo, porque tem mau hálito, porque não gosto de tocá-la, porque meu pai, que andava sempre com mulheres, não me ensinou as coisas fundamentais, enfim, as mil e uma versões; ou seja, as razões que cada um tem de encontrar para verificar que, aproxi- mar-se de uma mulher, é um problema. C,ada paciente tem a obri~- ção de inventar urg_delítia qne explique p.orqu(;-.\J~~é alg_o

tãojnabordável. Anotem

C<?_m o qual explicam a it?-_e::zj_s_tência d~ relaçªp _sexual~Va_çês ~nço_n- trarão os delírios obsessivos, as delírios histéricos, os delírios fóbicos, mas este _delírio - da mandíbula travada depois de comer alho - é

o delírio _de

cad~~--~-euspacientes

------·- -

"""---

20

um delírio 1 Por ~ é mais delírio que outros? É _e_i:eciso entender

os

qu_e_ cada um tem um delírio, mas est~ ~_rnyito mais original que

outrQ§.e. Ele não diz "porque meu pai não me ensinou" ou "porque meu pai me obrigou a sair com as putas desde pequeno e então adquiri um nojo total de todas as mulheres" - o que seria pouco ori- ginal, porque muitos encontraram tal delírio -, mas este delírio é ver- dadeiramente original. Nunca o havia escutado. Nenhum déficit, puro mérito para ele. Na mesma categoria, das tentativas no interior da psicaná- lise de localizar estes fenômenos, posso ler Otto Fenichel. Em 1945, diz que há personalidades neuróticas que, sem desenvolver uma psi- cose completa, têm uma predisposição psicótica. Ou ainda, o con- ceito que nos amedronta tanto, de borderline ou organização limite. No entanto, quero destacar algo que me interessa especialmente:

quando Kogut e Kernberg, ilustres colegas da IPA, ambos vivos, falam do borderline ou dos casos lirrútrofes, indicam - e para eles isto t'.: muito importante - que o estado limite é estável e duradouro. Não pensam que esse estado se transforme em uma psicose ou neurose, \mas fazem dele uma categoria própria. #" · Para vermos como o Campo Freudiano recupera este fe- 'nômeno que existe na clínica - cada um pode dar um exemplo e eu tenho uns dez exemplos que trouxe para ilustrá-lo-, é preciso passar :'ts três Conversações - Angers, Arcachon e Antibes - e, depois, à úl- tima revista Quarto. Mas antes, é preciso retroceder, como o fez Rômulo, à clínica lacaniana dos anos 50, que delimita a psicose a par- tir do conceito de foraclusão do Nome-do-Pai. Uma vez estabelecido que a psicose seja correlativa à fora- dusão do ~orne-do-Pai, abrem-se, já nos anos 50, os modos de com- pensação desta falta. Por exemplo, naqueles anos, surge, para Lacan, a discussão com Katan. Ele dedicou-se a pesquisar o caso Schreber, procurando os estados precoces na sua biografia que poderiam dar conta da estrutura psicótica antes do desencadeamento, ou seja, antes (los cinquenta e dois anos. Com Katan aparece o termo pré-psicose,

21

que é usado por Lacan unicamente no Seminário J1 4 • Depois desapa- rece do vocabulário lacaniano e não volta a aparecer na "Questão "

preliminar

O segundo termo, que forma parte do contexto da pers-

pectiva lacaniana da psicose nos anos 50, é o fenômeno elementar. Temos a foraclusão do Nome-do-Pai como dado de estrutura e seu correlato clínico, o fenômeno elementar. Na sua tese 16 , Lacan escreve

o que entende por fenô~eno elementar: inte~pretações, ilusões da

memória,

o~rotdes. Na maioria dos casos, fenômenos pontuais acompanhados

d~e chama significa_s:ão pesso_al. o{·{~~,ap;~~~e1,;:-~m Oc~-

ráter de serem significantes, quer dizer; a eles uma significação é ~u-

p~sta, mas é desconhecida;_há

significam algo e a susp~J,ão do gue significatl}, Mas há, aind~,,Ji_ma

segu~~teza: aq~lilo_q_~ sigrúfi~a. algo e n~~ se sabe o ~-é re- fere-se ao sujeito. T~ata-se do fenômeno quando S1 e S2 n_ão formam uma cadeia. A significação enigmática de um S1, res2.Qnds:~e-

.S.Ladquire_umasignificação.

ç.ar~ado

de uma-significação eventual que não che~ Este fenômeno, S1 se-

paradO de S2, é o que Lac~n cha~ava '~~adeia quebrada". E a mesma estrutura do piso inferior do discurso do analista, onde Lacan retoma a mesma ideia: a união de S1 e S2, a cadeia signifi- cante, está quebrada, e surge para o sujeito um sentimento de alívio -

É o esqu~m~ de_s

mesmo tempoa-~~rt~~l}e

15 • Ou seja, Lacan abandona a ideia da pré-psicose.

problemas da percepção, postulados passionais. e ~-s-~~d~s

fil)

.gundo significante ~}-ª--Partir do

a.µss_y.re.

ggª1Q

Mas, não existindo o S2, .~~.fiJ.:a

que falta ao psicótico - quando cessa na análise a necessidade de in- terpretar cada um dos fenômenos da vida: O que significa o sonho?

O

que significa a briga? Por que fiquei doente? Por que não durmo?

O

final de análise também produz um efeito de cadeia quebrada, que

põe fim ao empuxo interpretativo-que a própria análise alenta.

O problema, na investigação que faço sobre a psicose ordi-

nária, é eternizar e atualizar o fenômeno elementar e a pré-psicose sem contextualizar que a noção da pré-psicose é pontual no ensino de Lacan. Ainda, quando Lacan abandona um conceito, devemos consi-

22

derar que este não lhe serve mais, tornou-se insuficiente para dar conta do que pretendia abordar, e devemos procurar o que o substituiu. O problema do fenômeno elementar, que teve tanto destaque no Campo Freudiano, consiste naquilo que o próprio Lacan introduz, já no Seminário 3, quando diz que o delírio é também um fenômeno ele- mentar. Ou seja, não se tratam dos pequenos indícios, que ele mostrava na tese, que antecedem o delírio, mas que o próprio delírio é um fenô- .meno elementar. Não se vê a vantagem de chamar algo de fenômeno elementar quando a manifestação mais exuberante da psicose é um fe- nômeno elementar. Ou seja, ao se confundir com o delírio, o fenômeno elementar perde seu interesse de ser considerado como antecipatório do delírio, passando a ser uma categoria pouco precisa. Lacan refere-se à pré-psicose em duas aulas do Seminário 3. No dia 11 de abril de 1956, faz a mesma pergunta que se coloca com _loyce: "A partir de que momento vamos decidir que o sujeito trans-

caso Joyce, pergunta:

"A partir de quando se é louco?" 18 Então, no Seminário 3, diz: "To- memos o período pré-psicótico. Nosso presidente Schreber vive al-

pôs os limites, que ele está no dclírio?" 17 • No

guma coisa que é da natureza da perplexidade" 19 Ou seja, o estado

que .- corresponde a ter de enfrentar um S1 sem um S2. Lacan consi-

dera que toda interpretação analítica deve ter esta mesma forma:

, nunca .deve incluir o S2, promovendo o efeito de perplexidade. Ou i,cja, o paciente deve saber que isso significa algo, que está dirigido a

de e não a todo mundo, mas sem saber o que significa. Esta é a es- 1rutura mesma da interpretação analítica. Prossegue a citação:

mesma da interpretação analítica. Prossegue a citação: / Ele nos dá, em estado vivo, essa questão

/

Ele nos dá, em estado vivo, essa questão sobre a qual eu lhes dizia que

está no fundo de toda forma neurótica. Está atormentado [

],

segundo a qual deveria ser muito bonito ser uma mulher sendo copu- lada. É um período de confusão pânica. Como situar o limite entre esse momento de confusão e aquele em que seu delírio terminou por cons- truir que ele era efetivamente uma mulher, e não qualquer uma, a mu- lher divina, ou mais exatamente a prometida de Deus? Estará aí algo que basta para situar a entrada na psicose? Certamente que não. 20

] com es-

tranhos pressentiment(lS, é

bruscamente invadido por essa imagem [

23

Então, Lacan cita Katan e comenta um caso, que não é Schreber: "Trata-se de um rapaz na puberdade, cujo período pré-psi- cótico o autor analisa muito bem, dando-nos a noção que, naquele sujeito, nada ali é da ordem do acesso a algo que possa realizá-lo no tipo viril" 21 • Ou seja, ct>o. Faltou tudo. E se ele tenta conquistar a tipificação da ati- tude viril, é por intermédio de uma imitação, de um atrclamento, na esteira de um de seus companheiros. Ele se entrega às primeiras ma- nobras sexuais da puberdade, à masturbação especialmente; renun- cia a isto logo depois por injunção do dito companheiro, e passa a identificar-se a ele por uma série de exercícios denominados de con- quista sobre si mesmo. E comporta-se como se estivesse nas mãos de um pai severo, que é o caso de seu companheiro. Como este, in- teressa-se por uma menina, a qual, como por acaso, é a mesma por quem seu companheiro se interessa. E quando ele tiver ido bastante longe nessa identificação com o colega, a menina lhe cairá prontinha nos braços.

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/ ~" Aí se encontra manifestamente o mecanismo do como se que a Sra.

/J ,~ . ~ ' Helene Dcutsch avaliou com? uma dimensão significativa da sintoma-

, •.~, / tologia dos esquizofrênicos. E um mecanismo de compensação imagi-

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nária. 22

'.f ,. Sublinhemos isto: ao mesmo tempo em que Lacari diz ct>o, ou seja, não há Nome-do-Pai, diz que o único que existe é a perso- nalidade "como se", já indicando aí uma maneira de compensação - que é de extremo interesse nisto que estamos desenvolvendo-, "de compensação imaginária do Édipo ausente, que lhe teria dado a vi- rilidade sob a forma, não da imagem paterna, mas do significante, do Nome-do-Pai". 23 Mas, na falta disto, funciona uma identificação imaginária qu_e faz com que todo o :f:dipo esteja representado no plano ima- ginário, não em sua forma simbólica, mas um "como se" fosse Édipo.

24

Quando a psicose eclode, o sujeito vai se comportar como antes, como homossexual inconsciente. Nenhuma significação emerge que seja basi- camente diferente do período pré-psicótico. Todo o seu comportamento

em relação ao amigo, que é o elemento piloto de sua tentativa de estru-

turação no momento da puberdade, vai

se encontrar no seu delírio. 24

Podem observar a continuidade que Lacan estabelece entre os componentes do período pré-psicótico e o delírio.

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)"'. { A partir de que momento ele delira? A partir do momento em que ele }'.~/. 'diz que seu pai o persegue para matá-lo, para roubá-lo, para castrá-lo. ' } ,. '· / Todos os conteúdos implicados nas significações neuróticas estão ali.

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A outra coisa que quero ler, que me parece incrível, está na aula quinze do Seminário 3. Estamos no contexto dos anos 50:

l.'m mínimo de sensibilidade que nosso ofício nos dá nos faz ver cla- ramente algo que se encontra sempre no que se chama de a pré-psicose, a saber, o sentimento de que o sujeito chegou à beira do buraco. Isso deve ser tomado ao pé da letra. Não se trata de compreender o que se passa ali onde não estamos. ~ão se trata de fenomenologia. Trata-se de conceber, não de imaginar, o que se passa para um sujeito quando a questão lhe vem dali onde não há significante, quando é o buraco, a falta que se faz sentir como tal. Repito isso para vocês, não se trata de fenomenologia. Não se trata de bancar os loucos - fazemos isso de modo bastante habitual, em nosso diálogo interno. Trata-se de determinar as conseqüências de uma situa- ção assim determinada. 26

Na sequência, o parágrafo que quero destacar. Por saber- mos que iremos em direção ao "nó de três", "de quatro", é incrível vermos coisas que Lacan podia dizer naquela época sem sabê-lo:

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]\;em todos os tamboretes têm quatro pés. Há os que ficam em pé com

l .três. Contudo, não há como pensar que venha a faltar mais um só senão

25

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~" .-t· â.f a coisa vai mal. Pois bem, saibam que os pontos de apoio significantes 1 ~\ .<!) '/ que sustentam o mundinho dos homenzinhos solitários da multidão :-, . 1 ;',J ./ moderna são em número muito reduzidos. É possível que de saída não

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haja no tamborete pés suficientes, mas que ele fique firme assim mesmo

até certo momento, quando o sujeito, numa encruzilhada de sua história biográfica, é confrontado com esse defeito que existe desde sempre. Para

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designá-lo, contentemo-nos até o

presente com o termo Ténn,jit1{1;, 21

A ideia de que a estrutura se sustenta em quatro, que se fal- tar um elemento ela se sustenta em três, mas que não pode susten- tar-se em dois, poderia aplicar-se perfeitamente à clínica do nó. Com dois não há nó possível; é preciso três, e para que os três se mante- nham é preciso quatro. Como nada disso deve ser casual - como veem tenho meu ponto delirante, penso que nada é casual (risos)-, ::\.1iller fez um seminário que se chamou "1, 2, 3, 4" 28 , onde demons- tra como Lacan sempre considera que a estrutura necessita de quatro:

o pai, a mãe, a criança e o falo; os quatro discursos. E:fetivamente, para Lacan, o tamborete é de quatro, o de três é problemático e,_c:o~ dois; es_ta11:1~s no pior - o qu~ sempre Considerou ce>mo as _pj_o_!~S co~~tltções dadãspéla'relação espe~~lar. Ou seja, há uma lógica que faz com ele fale disto, mesmo no início de seu ensino. Por que desaparece o conceito de pré-psicose na "Questão

Como entendê-lo? :Minha ideia é que o conceito de

pré-psicose implicaria a existência, na estrutura psicótica, de um me- canismo atuante dentro da própria estrutura psicótica que tenderia à psicose declarada. Uma vez que se fala de pré-psicose, o próprio termo coloca primeiramente a psicose desencadeada e, retroativa- .mente, busca o que houve antes. É impossível perguntar-se pelo "pré" sem um ponto de referência. Antes de quê? Ou seja, a palavra psicose pressupõe a psicose desencadeada e a expressão implica uma dimensão temporal que é sempre retroativa e não antecipatória. Só podemos falar da pré-história se existe a história. Não quero dizer que os fenômenos desaparecem; trato de explicar por que o termo

pré-psicose é limitado, por sempre supor o desencadeamento.

preliminar

"?

26

Para pensar a psicose ordinária, tal como nós a entendemos, ou seja, como uma psicose não desencadeada, deixo de lado a ques- tão fatal (risos) do "vai desencadear ou não?", pois, como veem, es- tamos ainda numa dimensão temporal que se dirige ao futuro, sobre

a qual vou falar depois. ::\fas agora estou no "pré". Por que este termo desaparece no ensino de Lacan para ser substituído por outras coisas? É minha leitura. O "pré" supõe que já houve o desencadeamento, que nunca vamos encontrar o "pré" sem a psicose desencadeada -

o que leva Lacan a dizer que nada é mais parecido com o nor_mal que

pré-psicótico. ~Somente quando a psicose se d;;encadeou podemos dizer '~A.h, isso era porque se tratava de uma psicose!", mas sempre estamos atrasados, chegamos depois do episódio. E dizemos que de- veríamos ter reparado nessa mandíbula travada, nessa maneira de imitar o amigo que era um pouco frágil etc., mas somente depois, quando o sujeito já delira, podemos dizer isso. Toda nossa intenção

é buscar os fenômenos antes do desencadeamento, pois nossa preo-

cupação não é epistêmica, mas prática. S~ conseguimos encontrar os fenômenos antes, va~os _dirigjr o tratamento no_sentido de evitar o ·

desencadeamer{°t~.-----

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Posto isto, podemos entrar nos anos 90 do ensino de Lacan.

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Primeiro seminário São Paulo, 25 de julho de 2009

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27

NOTAS

1 < >s cinco seminários aqui publicados foram revisados por Graciela Brodsky. 2 <:<,ngrcsso da Associação Mundial de Psicanálise, realizado em julho de 2006 em R<,ma.

3 Escuda de la Orientación Lacaniana, Argentina.

4 Brousse, Marie-Hélene. "] ,a psychose ordinaire à la lumiere da la théorie laca-

à Bmxelles, 1994-95, Rctour

sur la psychose ordinaire. Janvier, 2009, pp. 10-15. 5 Skriabine, Pierre. "La psychose ordinaire du point de vue borroméen". Qttaito.

Rel'tle de P{ychana/yse publiée à Bruxelles, op. cit., pp. 18-23.

6 Maleval, Jean-Claude. "Elemcnts pour une apprehension clinique de la psychose ordinaire". Séminaire de la Découverte freudienne. 18-19 janvier 2003. Cniversité de Toulouse - Lc 1firail. 7 Serninário inédito de Jacques Lacan, 1974-1975.

Lizoro 23: O sintho111e (1975-19 7 6). Rio de Janeiro: Jorge

8 Lacan,Jacques. O seminá1io, Zahar Editor, 2007.

9 Conforme Seminário 23.

10 Vascheto, Ernilio y Yeyatti, Elena Levy. "Conversaci(m com Jean-Claude Maleval".

I 'i,tualia - Rel'ista Digital de la hsmela de la Onentación Lacaniana. EOL: Buenos Aires,

niennc du discours ».Quaito. Rez•ue de p[ychana/yse p11bliée

n. 18, octubre/noviembre 2008. Conversação ocorrida no dia 25 de abril de 2008 por ocasião do Congresso da Associação Mundial de Psicanálise em Buenos Aires.

11 Freud, Sigmund; \X'ciss, Edward. Problemas de la práctica psicoanalítica. Barcelona:

Gedisa, 1979, p. 49. Carta de 3 de outubro de 1920.

12 Miller, Jacques-A1ain. ''As contra-indicações ao tratamento psicanalítico". Opção Lacaniana - Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, outu- bro de 1999, n. 25.

13 Miller, Jacques-Alain et ais. Os casos raros, inclassificáz•eis da clínica psicanalítica: a

Conversação de Archacho11. São Paulo: Biblioteca freudiana Brasileira, 1998.

14 Lacan,Jacques. O seminário, Lizro 3: As psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988

15 Lacan, Jacques. "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psi- cose." (1958). Esc,itos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.

16 Lacan, Jacques. Da psicose paranóica em s11as relações cotn apersonalidade. Rio de Janeiro,

Forense Cniversitária, 1987.

17

18

19

20

21

Lacan,Jacques.

O

Semi11á1io, Livro

3:

as psicoses. Op. cit., p. 219.

Lacan, Jacques.

O Seminário,

Litro

23: o sinthoma. Op. cit., p. 75.

Lacan,Jacques.

O

Setllinátio,

Litro

3: as psicoses. Op. cit., p. 219.

Ibid., p. 219.

Ibid., pp. 219-220.

• 22 Ibid., p. 220.

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23 Ibi<l., p. 220.

24 Ibid., p. 220. 25 Ibid., p. 220.

26 Ibid., pp. 230-231.

27 Ibid., p. 231.

28 11iller, Jacques-Alain. «1, 2, 3, 4». Orientation Lacanienne II, 4. Curso inédito,

1984-1985.

INDÍCIOS DA PSICOSE ORDINÁRIA

Graciela Brodsky: Para retomar a questão da pré-psicose, ima- ginemos que, em vez disso, tratam-se dos habitantes da América na época pré-colombiana, antes da chegada de Colombo na América. Entende-se que não poderíamos falar de época pré-colombiana se Colombo não tivesse chegado à América. Quando dizemos pré-psi- cose é exatamente o mesmo: falamos disto porque a psicose chegou. 1fas não chamamos de psicose unicamente os fenômenos que se produzem na psicose, mas uma estrutura que está desde o início. Então, o termo pré-psicose faz equivaler psicose ao desencadea- mento, e o pré-psicótico não seria psicótico. Ao passo que nosso ponto de vista é que a psicose, com ou sem desencadeamento, está

lá desde sempre. Por isso, é um termo que carece de sentido por ser

incompatível com a clínica estrutural, e certamente foi por isso que Lacan o abandonou.

O termo pré-psicose não esclarece em nada a questão da psicose ordinária; ao contrário, obscurece-a. É melhor deixá-lo de lado e considerar a psicose como estrutural. Não há pré-psicose, o que não impede que se localizem na psicose distintos momentos. O

interesse para o clínico não é encontrar, depois do desencadeamento,

o que havia antes, como o fez Katan, mas encontrar, antes de desen-

cadeamento, indícios que permitam uma orientação no tratamento numa direção e não em outra. É antecipatório e não retroativo, pois

o retroativo é muito interessante, porém tardio. Comecemos pela parte descritiva. A partir dos anos 90, es- pecificamente em 1997, estabelece-se, dentro da comunidade do Campo Freudiano, um termo que não é o "desencadeamento", mas

o "desenganche". É um bom termo; embora em francês seja debran-

chement- como quando um galho ~e separa da árvore -, traduzimo- lo por desenganche, que está muito bem, pois o desencadeamento orienta cm relação à cadeia, é algo que se solta de uma cadeia, en- quanto que o desenganche remete ao gancho que, por sua vez, re- mete, em espanhol, ao ganchilo. Hacer ganchillo significa fazer crochê. Isto orienta em. relação ao nó, pois o croché é um sistema de enoda-

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mento, de unir nós até formar um cachecol, uma rede. Então 1-filler, de modo descritivo, propõe, em 1997, o termo desenganche. Muitos anos depois, na retrospectiva sobre a psicose ordi- nária que está na revista Quarto, Miller diz que é uma expressão bem formada e que foi acompanhada de outros termos, sobre os quais não valeria a pena deter-se demasiado, como pseudodesencadea- mento, ncodcscncadeamento. O importante é que P~!II?-ite ao clínico or!~!ltar o_tratamento no sentido de preçisar o que mantinhª-º en- ganche, e pensar cm um neoenganchc, um novo enganche. Na minha época, quando se usavam meias, os pontos se desfiavam e era preciso levá-las a uma senhora para "levantar o ponto", e assim a meia ficava usável, embora não ficasse nova. Permanecia uma pequena cicatriz, mas ficava passável para o uso diário. E~ta é -ª-ideia do enganche e

do }es~ngª11che: cncontra_r_o popto que se soltou e v<1ltar a tec&-lo, embora não fique perfeito.

é o caso apresentado na Conversação

de Arcachon por Jean-Pierre Deffieux, um dos diretores da Seção Clínica de Bordeau, cujo título é "Um caso nem tão raro" 29 O título é importante porque dá precisão ao sentido de "ordinário", que sig- nifica "nem tão raro". A partir deste caso, começa a elucubração sobre a psicose ordinária, que está já incluída no próprio título: "nem tão raro". É preciso lembrar que a Conversação de Arcachon tinha como título "casos raros" e, naquela Jornada, Deffieux apresenta um caso nem tão raro. A partir daí, retomemos um problema que havia ficado nas mãos dos kleinianos, dos bordelines da IPA, que não entrava muito bem na nossa clínica - essencialmente binária - que reduzia os casos nem tão raros a psicose ou a neurose. Desde então, começa a inves- tigação dos casos que se colocam mais próximos da linha divisória

entre neurose e psicose e que obrigam a sair da clínica binária - ainda que Miller esclareça que não era totalmente binária, pois havia neu-

rose, psicose e perversão. 1-fas, a_ verdadeira

no consultório; o que mais vemos sao fantasma_s pe!v_et;~os-ern-neu-

perversão, não a vemos

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34

róg~_o.u_suplê~~r-\ce!SaS

clínica de três dimensões se levarmos cm conta a perversão. Com efeito, na famosa classificação de Pierre Skriabinne, diferencia-se neu- rose, psicose e perversão a partir dos mecanismos de defesa de Freud. Quer dizer, considera-se que há na clínica freudiana - que não se baseia na psiquiatria, embora dela empreste seus termos - uma diferenciação a partir dos mecanismos de defesa. Assim, Skriabinne não emprega os termos neurose, psicose e perversão pro- positadamente, e utiliza os termos em alemão correspondentes aos mecanismos de defesa: TTerdrdngunJ!, para o recalque na neurose, Tédeulun,g para a denegação na perversão e Ténvetfun,_!!, para a foraclu- são na psicose. Então, podemos ler o caso de Deffiuex:

Mas já tínhamos uma

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2_Sicóticos.

Apresentado a Freud, B. poderia ser considerado como afetado por neurose narcísica. Com Bergeret, sem dúvida seu lugar estaria na cate- goria borderline. Tivesse ele encontrado a psiquiatria americana adepta do DSM I\: seria classificado provavelmente nos distúrbios do humor.

l' m analista da lnternational P[rchoan/yticAssociation embora deixando de

·j é v- ' lado a classificação estrutural para não comprometer a escuta, teria po- <lido entendê-lo como histérico.

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<:i · E o analista lacaniano? Isso ainda depende de qual o momento do en-

sino de Jacques Lacan onde ele buscaria apoio. Se ele se apoiasse uni- camente no ensino de Lacan dos anos 50, sobre a clínica do N orne-do-Pai, não seria garantido que ele aí encontrasse o caminho certo. É bem mais a uma clínica do sintoma que deverá recorrer, para fazer deste caso um caso nem-tão-raro e assim encontrar com certeza o seu justo lugar. Muitos casos não classificados, ou mal classificados, atualmente, lÜzem respeito a essa clínica à espera de polimento, após as preciosas contri- buiçôes teóricas de Jacques Lacan, nos anos 70, e de Jacqucs-Alain Miller, em seguida em seu Curso, repetidas vezes. Esta clínica do sintoma em nada vem contradizer a barreira estrutural neurose-psicose estabelecida pelo doutor I ,acan nos anos 50. Pelo con- trário, ela permite dispor do lado das psicoses toda uma categoria de sujeitos até então classificados cm todas aquelas categoria que acabei de citar, excetuada a psicose.

35

Estamos porém nos referindo a uma psicose igual àquelas bem conhe- cidas nossas, paranoia delirante e/ou com alucinações, e esquizofrenia dissociada? Não deveríamos criar um novo termo? São tão tÜferentes estes sujeitos! Certamente não, se de fato está se falando em termos de estrutura, tal como Lacan a definiu no fim de seu ensino - a estrutura dos nós R.S.I. Estes sujeitos acharam um modo de enlaçar sintomático

que se mantém geralmente bastante bem, até por toda a vida, e sem o apoio do !'some-do-Pai. Estes sujeitos trazem uma verdadeira subversão à clínica da psicose, ao retirar dela toda referência a qualquer noção de déficit, mesmo significativa. Acrescentamos que uma clínica do sintoma não é uma clínica dos sin- tomas, que sempre foi, a justo título refutada por Lacan. Em compensação, conseguir distin!,>uÍr, a partir da fenomenolot,ria clí-

l'sDP 30 daqueles que depen-

nica, os

dem de outros tipos clínicos de dar o nó, é uma aposta importante para o futuro da clínica analítica. Isto vem também subverter a hierarquia 1 das estruturas. Não seria tão, ou até, legitimo empenhar-se em demons- trar em quê um sujeito neurótico é neurótico, do que se contentar em procurar em que ele não o é? Estes sujeitos, freqüentemente, trazem uma queixa, um sofrimento, que eles dirigem ao analista para que este os alivie. Seu discurso pode, du- rante tempo bem longo, passar por um discurso de neurótico. Ficar 1 pendurado no Outro é suficiente para lhes permitir identificações aos :modelos sociais que dependem <lo funcionamento edipiano. Isto porém /não basta para justificar uma neurose, e por isso é útil prender-se aos ínfimos detalhes clínicos que podem chamar a atenção para o lado da ,psicose. Esses detalhes não concernem os distúrbios <la linguagem, mas os efei- tos clínicos a mínima de algo destoante na amarração R.S.I. Por exemplo, num sujeito, uma premência do imaginário, próxima <le uma fixação simbólica bem leve ou então uma relação <le estranheza entre o eu e o corpo. Ou ainda, num outro, a exercício desenfreado da pulsão, desco- nectada de toda tomada na dialética de discurso. Muitos outros exem- plos poderiam ser dados.

O sujeito não deixará entrever o que faz a singularidade de suas amar-

critérios da amarração sintomática

rações sintomáticas a não ser que o analista o estimule nisso, se o acom-

panha nesse desvendamcnto.

Se o analista acredita na neurose deste sujeito, ele manterá "sua vesti-

menta" de neurótico; no melhor, nada vai acontecer, não sendo possível

nenhum domínio sobre o inconsciente; no pior, uma interpretação irá

36

tocar desastradamente na amarração precária que o analista descobrirá então. Para expor o caso presente, decidimos nos limitar a duas visadas: mos- trar nas primeiras entrevistas o que permitiu ao analista a psicose; indi- car brevemente o que foi possível assinalar das tentativas de amarraçôes sintomáticas do sujeito, e entre elas, a expressão discreta de uma metá- fora delirante. B. tem 36 anos, vem de uma família numerosa da alta burguesia do norte da Europa. O pai é industrial. Ele me é dirigido por um colega, com o diagnóstico de neurose histérica. ]á na primeira entrevista, ele se mostra simpático, encantador, bem à vontade - na segunda sessão, ele se apresenta ao porteiro pelo seu prenome - e ao mesmo tempo usando ostensivamente os modos de polidez. Ele se apresenta com uma queixa repetida. Não tem vontade nenhuma, é incapaz, está parado na vida, não deseja nada, não se decide sobre nada, "cuida dos negócios correntes" etc. No seu discurso volta sempre:

"falta-me energia". Desde a idade de 17 anos, quando numa cabeçada boba interrompeu seus estudos - alguns anos depois, fez o seu bacharelado como candi- dato independente, e teve brilhante sucesso -, ele montou três modestas empresas, onde sempre trabalhou sozinho, a última sendo uma empresa artesanal de marcenaria. Seu pai acompanhava sempre de perto seus negócios. No total, suas empresas funcionaram bem. Ele decidiu, em maio de 93, cessar a atividade, logo depois de lhe terem feito numa revista de decoração, um artigo elo6>Íoso. Já há muitos anos, ele queria "romper com a sociedade de consumo" e com o comporta- mento rígido e social de preservação social num país do Terceiro Mundo. Obteve em 94 um diploma de ecologia, tendo sido o primeiro de sua turma. Em março de 94, outra reviravolta, desta vez, de caráter afetivo. Ele ti- vera, até então, muitas aventuras femininas: "'.As mulheres se interessa- vam por mim", dizia ele, mas cada ve:,; que havia a menor questão de compromisso, ele as largava imediatamente. Em março de 94, quando acabara de deixar uma mulher jovem, ele fa:,; um encontro homossexual apaixonado, que vai durar três anos. Para superar esta separação, ele se mete numa construção muito difícil, que ele rapidamente leva a bom cabo, trabalhando fora do comum. Ele admite ter tido na vida atração por homens, com alguma regularidade, mas a moral paterna o tinha im- pedido até então. A partir desse momento ele só teve aventuras com homens, múltiplas e efêmeras.

37

Desde 95, nada dá certo. Inscreveu-se na faculdade para continuar seu cursos, mas não aprende nada, e custa-lhe seguir os cursos. Está à toa na vida, vive com o R.,_\fl. Não está isolado socialmente, sai muito, passa as noites nos clubes. Liga-se facilmente, mas são ligações efêmeras e bem superficiais. Ao chegarmos ao fim da primeira entrevista, já não estou muito con- vencido de uma neurose, pois, de um lado, choca-me o paradoxo entre sua imediata familiaridade, e sua polidez acentuada de jovem bem edu- cado, de outro lado, seu laço social me parece bem mínimo, seu enga- jamento afetivo, em uma vida profissional artesanal sob a dependência <lo pai, com mudanças cujas causas não se percebe bem, a não ser uma certa instabilidade. Também é de surpreender a radicalidade com a qual ele rompe brutalmente com a férula do pai aos 35 anos, quase cortando

a partir daí todos os vínculos familiares.

Enquanto minha atenção é voltada para estes poucos elementos que nada têm de decisivo, tendo constatado sua magreza e pensado, desde sua entrada rto consultório, numa eventual dimensão depressiva, cu lhe pergunto se teve sempre esse peso. Ele responde pela negativa, em toda sua juventude ele cuidava da disciplina do corpo, foi campeão de nata- ção na adolescência, e em 1990, brutalmente, cm três semanas, perdeu doze quilos. Embora eu tenha insistido, com perguntas objetivas, ele não ptide explicar esse brutal emagrecimento, aliás o mesmo acontece com os médicos por ele consultados. Aí eu paro a primeira sessão, muito interessado no funcionamento desse corpo que, ele, não obedece a ninguém. Vou portanto orientar as entrevistas segi.úntcs a partir de minhas primeiras dúvidas sobre a estrutura. Estas dúvidas vão condu7.i-lo a fazer transpa- recer mais a particularidade de seus modos de enlaçamento R.S.I. Quando do começo do segundo encontro, eu lhe faço reparar que os seus dois momentos marcantes desses últimos anos, aconteceram, os dois, em março. Ele aí então, depois de uma breve hesitação, evoca uma lembrança "a qual ele nunca pensa" e da qual lembrou-se pela primeira vez no mo-

mento da separação dolorosa do primeiro homem que ele encontrou:

era na primavera, ele tinha 8 anos e se dirigia a um treino de natação; um homem ofereceu conduzi-lo cm sua bicicleta, e B. aceitou sem he- sitar; este homem o levou a um terreno arborizado e lá lhe bateu em todo o corpo com um bordão, depois, sacou uma faca e quis lhe cortar

o sexo; B. conseguiu então escapar. Dois comentários desta cena, longe de evocar o trauma da cena primitiva no neurótico, só fazem aumentar

38

minhas dúvidas sobre a estrutura. Ele diz destas bordoadas: "Nem sei

se doeu muito". Regressando a sua casa, ele conta tudo ao pai, "que

não o acreditou". Esta falta de afeto, totalmente discordante, virá es- clarecer o emagrecimento inexplicado. Ao que ele diz, a posição ado- tada pelo pai, nesse momento particular, combina com a atitude por 'ele assumida cm geral, que se pode resumir em duas palavras: pai le,gistador. ele sabe o que convém para seu filho, mas não atende a seu apelo. Os dois momentos, de março 93 e março 94, logo me pareceram ter li- gações com esta cena de primavera nos seus 8 anos:

- em março 93 ele rompe com a vida profissional e social ditada por

seu pai; depois de uma revista de decoração ter acreditado nele - o sig- nificante 111adeim da primeira cena, "num terreno arborizado" e o bordão

provavelmente terão uma ligação com a escolha do artesanato de ma- deira que ele fará mais tarde;

- em março 94, nessa nova ruptura com a moral sexual do pai, a cena do encontro com o homem o remete precisamente às circunstâncias

da cena infantil; ele vem da praia, atravessa uma floresta, de automóvel,

pega o homem numa parada. Mais tarde, no decurso das entrevistas, fica-se sabendo que sua relação sexual com o homem era baseada es-

sencialmente sobre o exibicionismo, misturado a jogos sádicos. Diante da importância dos laços que me aparecem entre essas três cenas - primavera de seus 8 anos, primavera 93 e primavera 94 - eu lhe peço que me narre esta cena infantil o mais precisamente possível. Ele me conta que, quando começou a ser batido por aquele homem, ele tem lembrança de ter abandonado seu corpo, de distanciar-se dele, de desaparecer: "Em dado momento vi um meninozinho, era eu, foi aí que eu fugi. O abandono de seu corpo como vestimenta velha, vem confirmar o "nem seii se doeu muito", e relembrar de maneira impres- sionante a história de Joyce, menino, batido por um de seus colegas.

A partir deste segundo encontro com B., fiquei com a quase certeza de

não estar diante de um neurótico. A orientação que pude depois im- primir às entrevistas lhe permitiu entregar pouco a pouco o que lhe permitia agüentar-se na vida, sem o amparo da metáfora paterna. Até os 35 anos ele teve dois apoios, a regra paterna, e o artesanato, que tinha para ele muita importância: a preocupação de fazer bem e belo. Acrescento que ele praticamente nunca fala de sua mãe, e sobretudo, que ele descreve uma família de treze filhos, na qual nunca os pais es- tavam juntos. Nas entrevistas ele nos fará conhecer um outro apoio essencial em sua vida. Sua sexualidade está basicamente fundamentada na exibição de

39

seu corpo nu, e do corpo do outro, seja homem ou mulher. Quando

tinha 12 anos, houve intervenção da polícia, porque ele exibia seu sexo, andando de bicicleta no parque da cidade. Continuou a fazer isso na bicicleta, e depois no automóvel. Dos 15 aos 25 anos ele fazia regularmente sessões de fotos de seu

corpo nu no espelho, que ele mesmo revelava. Isto terminava sempre com uma masturbação.

Esta prática perversa manifestamente lhe serve para emendar o llJ!,Ocom

o corpo e não deixa de ter ligação com a tentativa de secção do pênis

aos 7 anos.

A partir de 95 pode-se dizer que ele foi parcialmente largado, devido

ao corte da regra paterna e ao fim daquele, paixão amorosa narcísica, baseada no exibicionismo, que ele havia estabelecido, um ano apc'is a

ruptura com o pai. Vê-se agora aparecerem duas amarrações novas: inscrição sobre o corpo de um fenômeno psicossomático; e uma metáfora delirante dis- creta. Com efeito, é muito mais freqüente do que se pensa, que uma metáfora delirante oriente a vida, pensamentos, atos e laços de um sujeito aos outros, sem chamar atenção, e sem que pareça a alguém como patoló-

gico. Isto não deixa de evocar a função do fantasma na pantomima do sujeito neurótico. Disso B. fornece um belo exemplo, que não posso aqui desenvolver. A frase capital de seu delírio foi mencionada na primeira sessão: "Falta-

mc

energia". Esta frase suporta uma metáfora delirante cósmica, que

aos

poucos ele irá devagar, e da qual não tardará que cu seja o centro

na figura de "Déf(icr)ieu". li. B. não volta ao consultório. Ele me remete um cartão de Boas Festas no Natal, no qual ele me participa discreta - e alusivamente dali, como

ficamos na reconciliação com nossa "centelha da vida". Ele leva o que se chama vida normal (DEFFIEUX, 1998, 13-18)

o

IÍ'ti

'

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Í'.

~r,iJ 1 '"' Deffieux diz que desafiar Deus é uma construção que se apoia na escrita do nome do analista, Deffieux. O que predomina neste caso é certo exercício da pulsão, ainda que não se possa dizê-la desenfreada, como em alguns casos. O ponto central é o estranhamento entre o eu e o corpo, presente no acontecimento aos oito anos, quando ele apanha. Esta referência

• ·o.(

40

, , , ,ca Joyce. Sabem que Joyce apanha na escola e diz que seu corpo

1, ,1 l'mbora. Há dois episódios na vida de Joyce: ele tem uma afecção , 111 um olho que não trata e por isso o perde; e uma segunda doença, 1.1111 hém não tratada, que o leva à morte precocemente. No caso apresentado por Deffiux, nunca houve um desen- ' .,dcamento da psicose. Além da falta de dor, quando o corpo é ex- 1ll'rimentado como alheio, chama a atenção que alguém brilhante,

•,, ·m dificuldades de outra ordem, deixe suas atividades nas quais era

11 niito bem sucedido. Mesmo ganhando o primeiro lugar nos estudos, .d iandona-os, bem como seu trabalho com a marcenaria, apesar de ·,, ·r reconhecido em uma revista de decoração. Ao contrário de Schreber desencadeia-se a psicose quando da sua nomeação como chefe do 'l 'ribunal -, neste caso, ele se desengancha, retira-se no momento de •;cr nomeado, sem causas aparentes que pudessem explicar o fato. Isto coloca a questão de identificar quais indícios Deffiuex 1>crcebe nas duas primeiras entrevistas que o levam a suspeitar do diagnóstico de psicose. Entende-se que a psicose ordinária é uma

psicose. 1\fantemos nossa distinção estrutural: nunca será uma neu-

n ise, nem outra coisa, senão uma psicose. i\fas, em vez de situarmo- 11< >s no desencadeamento e olharmos retrospectivamente procurando , >s indícios da psicose, coloquemo-nos antes do desencadeamento para buscar tais indícios.

Para insistir na perspectiva estrutural que não abandona- mos, na Conversação de Arcachon é perguntado a Miller se haveria uma continuidade entre neurose e psicose. Ele responde: "Não é exa- tamente assim. A questão é mais a respeito de uma gradação no ~e_-

te.rior do grande capítJJlo d~ psic.us

l ,acan pôde dizer que todo mundo delira - e, então, poderíamos pen-

31 E se em algum momento

e."

sar que a neurose forma parte da psicose e que somos todos psicó- ticos à maneira kleiniana -, minha resposta é que Lacan o diz com fins irônicos. Na busca dos indícios anteriores ao desencadeamento, Miller dá uma perspectiva pragmática da psicose ordinária, dizendo

41

que é ':!.!TIª questão de intensidade dentro do próprio cam~si- ~- Indica-o com o início de um parágrafo de "Uma questão pre-

liminar

na junção mais íntima da scntimen~ida no sujeito

de desordem é essa? Como localizar isto

que não é nem um delírio, nem uma alucinação, nem um neologismo, ou seja, nenhum dos indícios prévios a um desencadeamento que tradicionalmente buscávamos para dizer que se tratava de uma psi- cose?

que interroga a respeito de

como se criou, dentro do campo psicanalítico e na Orientação La- caniana, a ideia de que o neologismo seria o transtorno a procurar, necessariamente, na psicose. Pode haver ou não um neologismo, mas considerá-lo como o indício do transtorno na linguagem que asse- gura a psicose é uma leitura equivocada, em determinado contexto do ensino de Lacan, que é preciso afastar. Transtorno de linguagem não equivale a neologismo. Miller 34 desdobra essa desordem, que seria o indício, em três fenômenos, aos quais acrescenta um quarto, que não desenvolve naquele momento. É uma síntese que ele faz na conversação com os anglo-fônicos, onde recolhe o que considera permanecer das Con- versações de Arcachon e Antibes. Trata-se de um~desordem na ma- nei~como o sujeito sente:

se trata je uma desordem pr~a

",

dizendo que"[

]

]."

32

---- Então, que tipo

Há uma intervenção de ;i\,1iller3 3

a) o mundo que o rodeia;

b) o corpo;

e) as ideias;

d) a sexualidade.

que o rodeia; b) o corpo; e) as ideias; d) a sexualidade. Em relação ao primeiro

Em relação ao primeiro ponto, 1fi!Ier §!a da exterioridade social em dois aspectos: ou o sujeito fica solto, separado do OutrQ_ social, como no desenganche, ou demasiado identificado ao Out~? s,~~1ã1 1 como no caso do pa~nte_g~faz tudo 2ara ter o status social. Quando falamos de desenganche, de que falamos? De um desengan- che em relação ao Outro ou cm relação a uma argola do nó? Quando

42

:\liller fala do desenganche está se referindo ao desenganche do 1 >11lt<;-social. Na falta do enganche com o Outro, que tipo de iden~

11 I icação tem

o sujeito com uma função social? - pergunta 11iller3 5

Podem-se ver duas maneiras, a partir das quais temos um 111dício de que algo está afetado. A primeira delas é uma relação ne- i•,ativa, o que conhecemos como desenganche ou desconexão, que 1·aracteriza o caso de Deffiucx. Apesar de ter um bom laço com os · e ,utros, há um desenganche de dois pilares que funcionaram bem até

l't1tão, o laço ao estudo e o laço com o trabalho, que se desconecta. Tenho uma paciente a quem vejo regularmente há alguns anos. Durante muitos anos exerceu suas tarefas de médica relativa- mente bem; num dado momento, começa a apresentar problemas

de insatisfação com seu marido e um amor por um amigo do casal.

:\s sessões com o analista anterior giravam em torno disto, do can- saço com seu marido e do enamoramento por esse amigo do casal.

O analista, um pouco cansado das idas e vindas, disse-lhe que era

preciso tomar uma decisão. Se ele não a aborda, ela pode abordá-lo e lhe dizer que algo acontece entre eles. Ela então se dirige ao amigo e se declara, perguntando por que não iniciam algo, já que teriam uma atração mútua irresistível. Ele não entende do que ela está fa- lando, nunca a viu senão como a mulher de seu amigo, e recusa seu pedido. Ela volta à análise totalmente desconsolada pelo fracasso de · sua tentativa. Quer tentar uma segunda vez e o analista lhe diz que não, que agora é a vez dele. Pouco tempo depois, decide separar-se

do marido, posteriormente deixa sua análise e, mais tarde, abandona

toda sua atividade profissional. Como me conhecia pela EOL, vem me ver alguns anos depois. Separada, vive só, deixou de trabalhar e fala do amor como um momento completamente decisivo em sua vida, desse amor pelo homem que, por covardia, não se animou a vivê-lo.

Esse desencanto amoroso vem acompanhado de outro de- sencanto. Seus filhos começam a praticar a religião como nunca o fi- zeram, fato que ela não pode aceitar. O casamento de seu filho maior

43

ocorre numa cerimônia religiosa muito ortodoxa, dentro da religião judaica, em cuja festa homens e mulheres não podiam estar no mesmo salão. Ela então teve de dançar na cozinha. O desencanto amoroso e o fato de ter de dançar com as mulheres na cozinha são os dois acontecimentos mais importantes na sua vida, que remetem a uma cena infantil. Seus pais a deixam num acampamento de férias e partem de viagem a Europa. Ela se lembra do sentimento de abandono e de perda de toda referência nessa cena infan.til, de tal modo que qualquer coisa que acontece na sua vida e nas conversas comigo remetem a essa cena infantil de abandono e de ter perdido totalmente o laço com o outro. Ela foi deixada, por ocasião desta viagem dos pais, com suas irmãs, primos, mas nada disso conta para ela, senão o sentimento de ter ficado solta no mundo. Tinha um pai famoso, não pelo melhor, mas por ser um fa- moso estelionatário. É alguém que, durante toda a infância dela, apa- recia nos jornais e, de tempos em tempos, era preso, voltava a sair da cadeia, e andava sempre nos mais altos níveis sociais. Seu sobre- nome é conhecido por toda uma geração. Seu casamento foi com um escrivão - ou seja, com alguém que reconhece uma assinatura como verdadeira, a encarnação de que a lei e a verdade existem. Con- sidero que seja uma psicose. Nada me faz pensar por que deixou sua profissão; nunca mais voltou a ser algo, abandonou sua profissão há quinze anos. É bonita, veste-se nas melhores lojas da cidade onde vive, frequenta a academia de ginástica e vem ver-me duas vezes por semana. Isto é tudo que faz. Nem com a medicina, nem com a arte, ela não voltou a se enganchar com nada. O que lhe preocupa é não fazer nada. J\finha estratégia tem sido refazer o casamento, sustentá- lo de todas as maneiras possíveis, de modo que ela voltou a viver com seu marido; continua queixando-se dele, sonha com um amor que a libere do casamento. Mas se vê que tudo que a libera desse homem que encarna a lei, entra na dimensão do abandono na colônia de férias e da dança na cozinha quando fora excluída de tudo.

·-~

44

Ninguém poderia dizer que é uma psicose, eu também não! { :, >tn uma precaução diagnóstica, noto coisas estranhas: é muito cau- 1l'losa em relação a que ninguém descubra o nome do seu médico, o l11gar de sua academia, pois as pessoas são muito invejosas e podem

,·, ,locar mau-olhado. É um pequeno traço paranoico de suspeita do

,1utro. Preocupa-se muito em ser assaltada, roubada; não dá seu en- , lcreço, seu e-mail e não responde nunca ao telefone. Quando chega e I marido, recolhe todas as mensagens acumuladas no dia. Trou.xe-

me uma longa investigação sobre a origem de seu sobrenome, que é

nobre, o que dá uma dimensão megalômana, mas que compensa a falta radical desse pai. Portanto, os fenômenos são: a megalomania,

a paranoia, a exaltação amorosa, e seu ponto de amarração é esse

homem que encarna uma lei. Se alguém me perguntasse se penso que uma psicose vai desencadear-se, duvidaria. Penso que ocorreu um desenganche no episódio com o Sr. G., o amigo pelo qual se enamorou. Ela mesma

o diz: há um antes e depois do Sr. G. A partir daí, nada mais se sus-

tentou em sua vida e um dia disse: vou ver Jacques-Alain :Miller. Seu

marido a levou a Europa, Miller a escutou e disse que ela deveria

ficar tranqüila, que já fora longe demais em muitas coisas e que tinha de preservar duas: seu marido e a mim. Veio muito desencantada, pois esperava que J\liller a tomasse em análise. Ele não a tomou. Sua interpretação, o marido e a analista, permite entender que ao menos duas pessoas pensam em uma psicose, e que ela se sustenta apenas em dois pés. Não há três, são apenas dois pilares e não há nenhuma outra coisa possível. Tentei tudo que vocês possam imaginar, desde

a arte, o turismo, as viagens, interesso-me por cada coisa que traz, mas nada dura. Porém, vem regularmente, duas vezes por semana, e diz que tinha muita necessidade de vir. E começa a falar de algo sem

se entender aonde vai

e passa a outra coisa

Não foi por um contexto transferencial que ela procurou i\1iller, mas por uma pendência que ficara para trás. Ela fala, como se fosse ontem, de acontecimentos que ocorreram há vinte anos. O

45

tempo ficou detido para ela. Tem a ideia de que, no momento da crise de 1998 no Campo Freudiano, deveria ter deixado sua análise para continuá-la com 1\1iller; não o fez e isto explicaria tudo que lhe aconteceu depois. Trago isto como exemplo clínico do que considero ser um caso no qual o sentimento mais íntimo da junção da vida para um sujeito tem a forma de desenganche do laço social. O segundo ponto, dentre os indícios da psicose ordinária

destacado por 1\filler3 6 , refere-se à ex.~rioridade corporal. Ele indica

qu~ aqui se verific~<:!

do desCnganche do corpo como Outr~. Para todo sujeito o corpo é Outro e é preciso inventar uma maneira de se dar bem com esse corpo. A maneira obsessiva é discipliná-lo; a histérica consiste em

não se dar bem com o corpo que sempre fala à sua maneira. Esta exterioridade do corpo é a do caso apresentado por Deffieux: no momento em que é golpeado, vê um menino que sai correndo pelo campo. O sujeito_ vai embora, fica o corpo e o eu es~~o

obrigado a ~~~ntar laços arti~ra

apropriar-se novamente do corpo. "· - Há um caso, que escutei em supervisão, de uma mulher obesa que, ao longo dos 14 anos com a analista, usa o mesmo suéter, uma capa suja, gasta, enorme. A função deste suéter é desviar o olhar para que ela não seja vista como mulher, pois as mulheres são uin conjunto ao qual ela não pertence, não porque se considere um homem, mas porque as mulheres são essas que aparecem na Tv, que exibem tudo - o traseiro, os seios - e a única coisa que fazem é bus- car homens para transar. Este não é seu mundo, mas é o mundo das outras que querem atrair o olhar. Enquanto da, vestindo essa roupa, consegue não ser olhada, e assim o gozo fica à distância. O suéter constitui uma barreira em relação a um olhar libidinal, pois ela é vista como dejeto. No entanto, não se importa em ser olhada como dejeto; ao contrário, é o olhar de desejo que a perturba. É uma das formas com a qual se arranja para fazer um laço com o corpo, afastando o

T_!ata-se

gue

diúaLacan;_o corpu

e

oü.ur.r.o.

s!= desfaz (::~Q s_uj.eito

s_~

46

corpo como objeto do desejo. Ela inventa um semblante, o sem- blante de vestir esse suéter. O terceiro ponto é o que :Miller chama de exterioridade sub- jetiva, que dá conta de todos os fenômenos de vazio, de vacuid~d-~ ~- de relação perturbada com as ide.ias O caso que tenho para transmitir é de um paciente meu que vem ver-me há pelo menos dezessete anos, de quem não sei nada, absolutamente nada de sua histc'>ria nem do c.1ue faz. Apenas sei que tem um problema: ele não pode falar. Há dezessete anos me diz: "Oi, como você está?" "Bem, e voct:? Conte- me." - lhe digo. "l\fas como posso contar se não posso falar." Temos este mesmo diálogo há dezessete anos, interrompido apenas se ele fala de \X'alter Benjamim, da filosofia, da arte, da música, de <.Jualquer coisa, mas é completamente impossível obter uma só palavra na qual ele esteja implicado como sujeito. Por exemplo, ele só pode falar sem substantivos. Trata-se de um fenômeno de linguagem. Por exemplo:

"As coisas são difíceis." "Que coisas?" "O mundo". Ou um pouco mais: "Todos sabem como o mundo está difícil". "O que é?" I ~m algum momento apresentei-o como um caso de autismo. () que tenho são coisas escritas por ele, maravilhosas, onde tudo isto desa- parece. Ele escreve sobre sua vida, anedotas, tudo o que poderia exis- tir na fala, mas que não está. Creio que é um caso onde a exterioridade subjetiva, o vazio, está colocada em primeiro lugar. Com isto, concluo este seminário sem ainda avançar sobre as consequências teóricas que podemos extrair desse subconjunto do conjunto da psicose, que chamamos psicose ordinária, e que se caracteriza por tais indícios. Quero trabalhar da próxima vez tais con- sequências, para retomar a discussão com Rômulo, de que a psicose ordinária quando considerada do ponto de vista do seminário O sinthoma, desde Joyce, não é uma psicose que captamos em um tempo prévio ao desencadeamento. Ao contrário, a psicose ordinária tem um modo de enodamento que não implica o desencadeamento. Esta é minha ideia, meu delírio pessoal. É uma psicose que não desenca- deou nem vai desencadear.

47

Em um comunicado que circulou pela internet, Rômulo faz

a seguinte objeção, impossível de responder: "Se, como diz Graciela, uma psicose ordinária é uma psicose que não desencadeia, somente podemos dizer que é uma psicose ordinária após o sujeito morrer!"

- o que na filosofia seco-

nhece como o argumento do cético. Este é o argumento de Hume que diz: efetivamente, pensa-se que amanhã será de dia, mas ninguém diz que amanhã voltará a sair o sol. É simplesmente uma questão de hábito, mas não há nada que permita afirmar que, porque hoje saiu

o sol, amanhã sairá novamente. R com esse argumento, que é do cé- tico, derruba-se o princípio de causalidade. Para Hume, não existe o

princípio de causalidade senão como metafísica; é apenas hábito. Efe- tivamente, como saber se não vai desencadear até que se morra? E

podemos ser extremos: se tivesse vivido um pouco mais

(risos), se

o sujeito morre aos 103 anos, como ter certeza que aos 104 anos não teria desencadeado (risos)? Estamos em um terreno impossível que só permite uma elucubração teórica; não permite passar à prática, pois o argumento

de Rômulo é irrefutável! Vou apresentar meu delírio ao lado desta

'~objeção fundamental para a hipótese: o que chamamos psicose or- dinária é uma psicose que consegue uma amarração tão estável como

(risos). É um argumento tão irrefutável

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~

il

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a

dinário que foi Joyce - para mim, o paradigma da psicose ordinária.

Mas, se vejo a questão a partir de RSI, é necessária outra perspectiva. A teoria dos nós, que Lacan construiu como pôde, fornece duas pers- pectivas da psicose ordinária, que dependem da função do sinthoma

e do Nome-do-Pai. l:"ma vez descrito o fenômeno, como o fiz hoje, posto o problema, iµiciarei a próxima reunião a partir disto.

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Segundo seminário São Paulo, 25 de julho de 2009

48

NOTAS

wDeffieux,Jean-Pierre. «Um caso nem tão raro». Os casos mros, inc!assificáceis, da clínica psicanalítica: a Conversação de Arcachon. Op. cit., pp. 13-18. 30 Abreviação para "Nome-do-Pai" ç-.;.d.T).

31 Miller, J acques-Alain et als. Os casos rarns, inclassificát•eis, da clínica psicanalítica: a Conversação de Arcachon. Op. cit., p.171. 32 Lacan, Jacques. "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose." csaitos, op. cit., p. 565. u ::\Iillcr, Jacques-Alain et ais. La psicosis ordinmia. Buenos Aires: Paidc'>s, 2005, p.

211.

34 l\Iiller, Jacques-A

51.

·' 5 Ibid., p. 45.

36 Ibid., p. 46.

lain.

"Effct sur la psychose ordinaire". Q11arto, op. cit., pp. 40-

PERSPECTIVAS DO ÚLTIMO ENSINO DE LACAN

Retomo o ponto inicial deste percurso para que nos orien- 11 ·111os. Eu colocava uma questão de método sobre o modo de entrar 11.1 investigação. Então, me propus a não sobrepor as novidades do 1dI imo ensino de Lacan aos elementos clássicos, mantendo a ideia 1 I(' lJUe o último ensino busca resolver problemas não enfrentados 1 .1111criormente, para os quais os elementos clássicos seriam insufi- 1it'ntes. Portanto, o ~~timo ensino de Lacan traz novos recursos para 111>vos problemas e convém evitar, em termos metodolúglQ.h~o vício 1111dectual de que tuc!o já estava dito e agora há uma reformulação 1>mesmo~-Eu fal~:;; do meu incômodo intelectual, que seri; consi- , dct:ar a psicose ordinária como o que em 1953 chamávamos de pré- !1sicose. É um modo de dizer que não há nada de novo, que apenas mudamos os nomes das coisas: pensando que falamos sempre de l'oisas novas, veremos que, se formos atentos, já foi dito anterior-

mente

Isto se faz muito em relação às novidades que :'.\filler aporta. ( ~raças a um efeito de transferência negativa - presente em todo ensino

-, sempre haverá alguém que dirá que isso já foi dito por Lacan cm tal ano. A ideia de que tudo está escrito anteriormente é, precisamente, o que Lacan critica na "Nota italiana", quando fala da suposição da ciên- cia de que o saber já está aí, à espera de mãos hábeis para desenterrá- lo. Trata-se, afinal, de uma crítica à própria hipótese do inconsciente como um saber que já está, e que seria necessário torná-lo manifesto; neste texto, Lac3n_c!iz que o ~abcr 11ãq estiaí_,_ que não há nenhum saber depositado à espera para emergir. Isto contra a ideia antropoló- hrica de Freud e suas metáforas arqueológicas das cidades escondidas, como Pompéia, por camadas de pó etc. O inconsciente não é uma doutrina das profundidades; inventa-se o saber e nesta invenção ena- se a suposição de que já estava aí. Assim entendemos o inconsciente

na psicanálise: o saber se cria ao ~esmo tempo em que

associação livre. E uma sub:Y

Entrei na investigação com esta precaução metodológica, proibindo-me do vício intelectual. O passo seguinte seria, então, datar

Isto é um vício intelectual.

se avãn~

ersão-da-icl.,úa de.saber.

_- ·-·----·-·--

53

e, 1·i11 i1110 ensino de Lacan e procurar o novo problema. Seguindo ,\li Iler, de o procurou no Seminário 20 com o estabelecimento de um rn ivo para<ligma, que se desdobra em dois: por um lado, não há relação .r1'.\.'th1i e, por outro, há Um; o que não há, e o que há. Posto que ( '111, a grande questão que se abre para Lacan é saber como o Outro

se constitui, de onde sai o Outro. Isto modifica toda a maneira de 11cnsar a psicanálise, pois durante todo o ensino prévio, o ponto fixo cra o campo do Outro que pré-existe ao sujeito, de onde surge o su- jeito e seu destino significante já nele inscrito. A ideia de que as pa- lavras do Outro marcam o sujeito inclusive antes do seu nascimento. C) sujeito seria sintoma do Outro, produto do desejo do Outro. Lem- brem-se do Seminário 11, das duas operaçôes do sujeito, de alienação e separação, que estão baseadas na preexistência do Outro, onde o sujeito se inscreve como significante. Mas a anterioridade lógica do Outro é totalmente subvertida c~m o axiorná há Um, que desloca

é

Isto marca a

mudança radical de orientação no último ensino de Lacan, de onde se deduz uma série de consequências. Por exemplo, a mais necessária para o nosso tema, o par ordenado S1, S2: quando o usamos na definição do sujeito, dizemos

que o significante é o que representa um sujeito para outro signifi- cante, e o S2 é o outro significante. Tanto é assim que quando Lacan

o algoritmo da transfcrência 37 , baseia-se nessa lógica: o sig- nificante da transferência que se dirige a um significante qualquer (Sq), que ocupa o lugar do segundo significante:

tudo isto para um segundo tempo. Ou seja, se Um, a questão

saber como o Outro se constitu.t,-cl~_onde sai o Outro

escreve

s

s (S1, S2

, Sn)

os quatro discursos 38 , recupera isto

nomeando este lugar, não só no discurso do mestre, como o lugar do agente e este, o lugar do Outro:

Quando Lacan escreve

54

Agente >- Outro São apenas exemplos para lhes dar a dimensão do que im- plica
Agente >- Outro São apenas exemplos para lhes dar a dimensão do que im- plica

Agente

>- Outro

São apenas exemplos para lhes dar a dimensão do que im- plica dizer há Um e pôr em questão a existência do Outro; a própria

t ·scrita dos discursos é questionável. Há todo um aparelho conceitua! l1ue Lacan precisou reacomodar a partir da ideia de que não há relação . o que pode ser lido como: entre S1 e S1 não há relação; ou seja, entre, por exemplo, o significante da transferência e o significante qualquer. Da definição do significante que representa um sujeito para

t >utro significante, Lacan passa à letra, tomando o significante por fora da cadeia, o S1 sozinho. No Seminário 20, Lacan diz que, final-

mente, trata-se

, que não se conecta a ne-

nhum S2, sem-sentido, pois o S2 é o que aporta sentido ao S1 enigmático. Então, estamos familiarizados com a letra, com o signi- ficante sozinho, com o enxame, com o fora do sentido, mas temos

de entender que tudo isto é produto da mudança de paradigma, da relação S1-S2 ao há Um.

de um enxame, S1, S1,

i: >""

Lacan termina dizendo ~C

!1:.

análise é um autismo a dois,

~~da gual f~ia sua_pró.p.rialíngiJa ~o qu~-ão é um modo-d~falar do .algoritmo da transferênc~a, onde se supõe que o significante qualquer retroage sobre o significante da transferência para que este adquira sentido. Ele não está dizendo a mesma coisa. O destino da escrita dos discursos leva-o a modificar os nomes e não mais chamar os lugares de agente e Outro, mas de sem- blante e gozo, mantendo apenas verdade e mais-de-gozar, pois não se trata de um significante que se vincula ao outro, mas de um semblante que se vincula ao gozo. Há um, não há refação, implica, em cascata, uma reformulação geral. Do mesmo modo, a interpretação no paradigma da relação, onde o segundo significante dá o sentido ao primeiro, não é a mesma

55

no paradigma LTm. Em cada um dos itens que vocês quiserem ,tomar poderão buscar essa transformação. í' O mesmo vale para o tema da psicose, que aqui nos inte- 'rcssa. Por exemplo, o caso Schreber, paradigma da psicose, está cons- truído sobre a base da relação S1-S2, uma vez que está pensado a partir da metáfora paterna 39 que corresponde ao modelo da relação:

\,'

) ,i

')

·<' 1 '

l, 1

-

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Nome-do-Pai

\ Desejo da mãe

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Desejo da Mãe

X

> ~orne-do-Pai (A)

Falo

~(t \~ Na metáfora paterna, o significante do Nome-do-Pai inter- vém sobre o significante do Desejo da Mãe - esta é a estrutura da metáfora. Isto não serve ao segundo paradigma, pois entre o Nome- do-Pai e o Desejo da Mãe não há nenhuma relação. Isto para dizer que não estamos aplicando as mesmas coordenadas teóricas, que mudam com o postulado não há relação e há Um. No campo da psicose, esta reformulação faz com que Lacan se debruce sobre um novo caso, o caso Joyce, do qual ele se ocupa pelas circunstâncias, sem ficar dando mais voltas no caso Schreber. O interessante é que as ferramentas teóricas do caso Schreber são complemente insuficientes para entender a psicose de Joyce. Vocês conhecem o paradigma Schreber, faz parte do ensino clássico de Lacan: o que não funciona nele é a metáfora paterna, cujo produto seria a inscrição no campo do Outro do significante fálico. i\ hipótese de Lacan é que isto não funciona em Schreber, o is-orne-do-Pai não está disponível para dar uma significação ao desejo enigmático da mãe. O Nome-do-Pai é o que resolve o x, o enigma do Desejo da Mãe, na falta do qual, aquele permanece como uma significação enig- mática, sem-sentido. Ao dar ao Desejo da Mãe uma significação, o Nome-do-Pai permite que se defina o falo como aquilo que a mãe deseja, de modo que o sujeito se orienta nessa direção: ou se é o falo;

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1~1, t• 1e m o falo; ou se sofre porque não se é ou porque não se tem.

im, e.lá-se a entrada na dialética neurótica de ser e ter o falo, que ,l l-n'1ssola que orienta o sujeito, dado que o x do enigma do desejo 111.u '1'110 foi significantizado como falo. Isto é Freud, considerando-se q11 • ~e trata do desejo materno, pois na 1E,.etáfora paterna não entra 11 1 jog o o desejo de uma mulher. O problema que todo neurótico 1 •111 ele enfrentar é que, apesar da metáfora paterna, a mãe é também 11m a mulher e seu desejo não se satisfaz inteiramente no falo. Mas a ! llll'táfora paterna não avança nessa direção. Efetivamente com a me-/i 1.°Lt''ora paterna sabe-se o que quer uma _!llãe, mas não uma mulher. E f 1 1-0 é a matéria-prima da vida do neurótico, equivocar-se com o faloS 1le modo histérico ou obsessivo. Fica em aberto a questão da mulher.e:

1·omo Outra, que não é a mãe. Apenas indico, passando um pouco por cima, o que virá nos anos 70 com o segundo paradigma, quando Lacan dirá que '\im.

p ai só tem direito ao amor e ao respeito se estive!:1!!!:

9e~ (

:-;ejo" 4 º. Não fala mais da mãe, mas de uma mulher causa de desejo, e transforma o pai em algo distinto daquele que dá a significação fá- 1 lica ao enigma do Desejo da Mãe. Um pai é o que faz de uma mulher 1 causa de seu desejo. É uma renovação abismal da metáfora paterna, 1 incluindo a diferença entre a mãe e a mulher. e " ir> Então, passemos ao paradigma do caso Schreber. Este é ba- 1 4 eado na metáfora paterna, na foraclusão do Nome-do-Pai e na au- · sência correlativa da significação fálica - a foraclusão não se vê, mas se constrói a partir dos fenômenos -, cujo efeito é o retorno no real. Para utilizar um termo freudiano, a afirmação do Nome-do-Pai quando

' está no cam120 do Outro tem par consequência a extração do objeto

versame_}}te5:rie-g-

1_ado, isto é, se tiver feito de uma muJher, objetQ_a, cau,1,a cj.e ~ u

não está, não se 12roduz a extração e o objeto

presente, ativo no campo do Outro, retornando seja no corpo_,

co~ na esqyizofrenia, ou no outro semelhante, como na paranoia. O paradigma Schreber pressupõe uma concepção do sim- bólico e da linguagem como cadeia articulada (S1-S2), onde a metá-

deste campo. Quando

aparece-

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f1 ,ra paterna é simplesmente uma versão neurótica que, graças ao l'.:tlipo, dá- como diz Lacan - forma épica à estrutura. O paradigma Schreber - se o tomamos com paradigma, poderíamos tomar outro, embora no ensino de Lacan existam dois e não infinitos - é o caso que permite que os outros se orientem. Paradigma é um termo que vem de Platão; é a ideia e depois se verifica que tipo de concordância há entre os fatos e a ideia. É o caso perfeito, que pode discordar mais ou menos dos demais. Então, o caso Schreber não vai sem a conjun- tura dramática do desencadeamento da psicose. Poderíamos dizer que antes dos 52 anos a psicose de Schreber não se desencadeou, o que não tem interesse para nós. O caso só se tornou objeto de in- vestigação teórica porque a psicose se desencadeou. Isto permite Lacan avançar na seguinte questão: o que é para um sujeito o encon- ·_tro com um acontecimento onde umà significaç~Q~QigmátiCJL::SJµe ~e encontra no campo do Outro ou no seu próprio corpo - carece

de meios para ser significada com a significag_o _comul"!l.J

f;lo. Emergências de formas do x, de formas enigmáticas - ele me ~; o buraco no nariz; falta-me o dedo etc. - são acontecimentos que seriam significados, se o Nome-do-Pai estivesse presente, em termos da castração, da má vontade do outro, como no teatro neu- rótico. Mas na falta dele, ficam sem significação e forçam o sujeito a dar uma significação totalmente pessoal, original, que não é a signi- ficação compartilhada. O delírio é essa significação. Tal como dizíamos na última reunião, também é delirante dizer "não sei o que fazer com uma mu- lher, pois meu pai não me ensinou", tal como me diz um paciente histérico masculino que reclama do pai por ele não ter ensinado o que certamente não sabia. No entanto, pensa que o pai é responsável e fica nessa reclamação contra o pai, de que este não lhe ensinou o que sabia - baseado na ideia de que o pai possuía todas as mulheres, sabia de tudo, tinha tudo, enquanto que ele é castrado. Isto é tão de- lirante quanto qualquer delírio psicótico. O problema é que há um delírio que é geral - não estamos na foraclusão generalizada, mas na

<?~~i~_,

O

11111·1prctação generalizada que ::\1iller sempre retoma com o exemplo ,I,, 111édico de Moliere que, para qualquer doença diz, é o pulmão, 11.11, importa o que seja. É a resposta neurótica prêt-a-porter. seja lá o

, 1111· li >r, é o falo. Mas, a resposta psicótica -

, , ,1110 não tem o falo, tem de inventar outra coisa, como, por exem-

resposta "Deus quer copular comigo", tal como acontecia a

'11·li rcber.

1111 ,, a

e essa é sua dignidade -

E~a emergência enigmática não significantizada pelo falo_ o que Lacan, no contexto do paradigma Sçhreher, chama L'm-pai. I·'. ~1m erro buscar quem seria Gm-pai, quando este é uma emergência

, k uma presença que exigiria a resposta da significação fálica, quando 1·sta não existe. Então, no lugar do Nome-do-Pai pacificador, nor- 1nalizante, aparece esta figura que Lacan chama de "Cm-pai, quer dizer, o pai encarnado, que não é O pai, mas Um-pai, que quer algo do sujeito e diante do qual ele não sabe como responder. Para Schreber, foi o momento no qual teve de assumir um cargo na ma- gistratura. Ele não tinha os títulos no bolso com os quais pudesse fa7,er semblante tal como corresponderia, não tinha com o que res- ponder, e então ocorreu o desencadeamento. O paradigma Joyce é solidário desta mudança de perspec- tiva no ensino de Lacan. Não é o paradigma da metáfora paterna, não é o da linguagem entendida como a cadeia articulada S1-S2 - quando para Lacan a linguagem já não é mais isto. O simbólico não é necessariamente a linguagem; até então, se confundiam. Passa a s~r( muito mais amplo que esta, e a incluir lalíngua e a letra, formas co ; as quais Lacan tenta dar conta de uma linguagem que deixa de ter a : função de significação, quando não dá sentido às coisas e pode ser o i puro prazer da fonação, afastada da intenção de comunicação. O pa- ~radigma de Joyce não é o da metáfora paterna, é o dos enodamentos.\

~ É preciso, para situar esta questão, localizar-se fundamen- talmente no Seminário 18, pois é neste contexto que Lacan começa a se perguntar pelo que enlaça o que está profundamente separado. Neste seminário, Lacan tenta resolver o problema da falta de conexão

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l'tltrc <> gozo e o Outro, entre o sentido e o real, entre a linguagem e

a p:tlavrn, entre

calizou como o sexto paradigma do gozo, o paradigma da não-rela- ção. Por isto, no Seminário 18, Lacan se interessa tanto pela cortesia, especialmente a oriental. A questão que persegue é saber como "Cm se relaciona com outro? Ctiliza como exemplo, na segunda lição

deste seminário, a refinada cortesia animal 42 para ver como se acede ao outro. Comenta, então, que o animal, com sua estranha cortesia, consegue favores dos outros, enquanto que os humanos, na falta da cortesia animal, às vezes se veem levados a violar o outro, neste modo de aceder ao outro. Destaca a violação como o recurso ex- tremo de agarrar o outro sem todo o aparelho dos semblantes de que dispõe o animal para obter os favores do outro. f: nesta direção que Lacan se entusiasma com os chineses e japoneses, que têm esta maneira de tratamento do outro na própria linguagem, pois não uti- lizam as mesmas palavras se o outro é alguém subordinado, igual ou superior, e há uma linguagem completa para cada situação. Assim, I,acan considera que há um modo de linguagem, que não é o oci- dental, mais apto para estabelecer a conexão - na maneira ocidental isto seria mais difícil. Neste terreno, da não-relação, aparece pela primeira vez o registro do semblante, sendo este uma conexão do imaginário com

o simbólico. Os nós já estão presentes, ainda que por formular. A

resposta para a questão de como se conecta o que está radicalmente desconectado, no Seminário 18, é dada com o semblante. O .real fica

de fora. É o que trabalhamos como a oposição entre o semblante e

o real - Miller fez disso um seminário completo chamado ''.A natu- reza dos semblantes" 4 3, onde começa dizendo que o semblante fica de um lado e o real de outro. Isto é Seminário 18. Nesse contexto, Lacan encontra François Cheng. Vale a pensa ler, é muito interessante a homenagem que François Cheng faz a Lacan, logo após a sua morte, em 1981. Conta como Lacan o torturava naquela época com os chineses, com os japoneses, com a

a letra e lalíngua - o

que posteriormente :i\1iller 41 lo-

60

escrita. Lacan estava aprendendo chinês e estava totalmente tomado por isso, e interrogava Cheng sobre como se une o que se diz e o que não se pode dizer, dois terrenos que são completamente separa- dos na tradição oriental. A resposta de Cheng é pelo Vazio-mediano. Para nossa des- graça, Lacan encontra que isto é exatamente o ele estava procurando:

graças ao Vazio-mediano, podem-se juntar duas coisas que estão ra- dicalmente separadas. E então, como numa estrada onde não há nada ·que lhe coloque limite, coloca o simbólico, o imaginário e o real uni- dos pelo Vazio-mediano do objeto a. Esse momento é absolutamente , emocionante dentro do ensino de Lacan. O que está radicalmente , separado se une dessa maneira, pelo Vazio-mediano, o vazio que está ; ao meio, que serve de interconexão entre duas consistências distintas.~ Se formos ao contexto da época, perguntaremos como fazer para que a interpretação, que é da ordem da palavra, toque o corpo. Quando uma palavra toca o corpo? Uma palavra pode tocá-lo, pode fazer chorar, pode arrepiar; mas a questão é como uma palavra, ou uma imagem, pode tocar o que é de outra ordem? Como isto se co-

necta? Então, Lacan começa a pensar que a i~terpretaçi9_çle,~~-~er poé::

tica, deve ser sem-sentido, deve ressoar no ç.QtpQ

investigação na época sobre a poesia chinesa, que está no Seminátio 18, para encontrar algo que ressoe no corpo. É sempre o mesmo pro- blema: como conectar o que está _desconectado - isto i111.plica dizet

que a cadeia S1-S2 já é u~1ª,b.oração

bólico, no entanto, inclui outro território, o da letra, da jalín,g1111, e~ lip-

~agem é apenas w:nã"elucuhraçãa de-saber sob.r

- Esta investigação, que Lacan inicia no Seminário 18, sobre a

conexão do que está desconectado - que passa pelos chineses, pela poesia, pela cortesia, pelo semblante - desemboca no Seminá1io 20, no nó. Este é finalmente uma maneira de formalizar a conexão dos

três registros radicalmente separados entre si. Joyce é interessante nesse contexto e não naquele da metá- fora paterna. É mais interessante pensarmos os casos em que a psi-

Há toda uma

dQ

Cal.Jlpa

da )inguagem,.o sim,.

61

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'<'< ,se se desencadeia a partir do paradigma de Schreber, que dá a con- juntura do desencadeamento, do que tomá-los a partir de Joyce, que não se desencadeou nunca. Para usarmos o paradigma de Joyce em casos que desencadearam, precisamos construir hipóteses suplemen- l ares; é mais nítido para uma investigação considerar que há dois pa- radigmas que não se reduzem mutuamente, e que há casos que correspondem ao paradigma Joyce e outros ao paradigma Schreber. Quando há desencadeamento, convém tomá-los na dimensão Schre- ber, pelo simples fato de que se nos mantivermos no terreno dos ,nós teremos de perguntar por que desencadeou e, ao fazermos esta pergunta, teremos de voltar às coordenadas do desencadeamento, à significação enigmática, ao encontro com Um-pai, e, então, teremos de voltar ao paradigma Schreber. Nenhum dos dois paradigmas su- pera o outro; são dois casos paradigmáticos que permitem ordenar fenômenos variados. r··· Por exemplo, no Seminário 23, dentro da teoria nodal, para ''pensar a paranoia, Lacan não fala de Schreber, mas da paranoia pen- .sada na teoria dos nós, como um nó de trevo - que corresponde ao nó onde os três registros estão em continuidade. Isto para dar uma ideia de que um paradigma não se superpõe ao outro, e que se qui- sermos considerar a paranoia fora da teoria dos nós, temos de pensar em formas de enodamentos que não têm nada a ver com as conjun- turas de desencadeamento que trabalhamos com o paradigma Schreber. São questões de método; também encontramos casos que não correspondem exatamente ao que gostaríamos, mas isto serve para nos orientar. Assim, a direção que me interessa nesta investigação sobre a psicose ordinária é: 1. Afirmar ue a sicose ordinária é, como in- \dicãseu nome, JlIDa psicose e não algo interme ário. 2. Que o interesse na psicose ordinária deve consistir em apresentar casos que respondem, mais ou menos, ao paradigma Joyce. Quer dizer, investigar casos aos quais supomos um enoda- ~ehto estável sem o Nome-do-Pai. I;to implica não considerflà

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como equivalente a uma psicose desencadeada, nem como équi;a- lente a uma pré-psicose. Geralmente, as psicoses não desencadeadas quando desencadeiam vão em direção à paranoia ou à esquizofrenia. Ou seja, tratam-se de casos que não respondem, classicamente, a ne- nhuma destas duas formas - o que torna mais interessante a inves-

tigação -, em relação aos quais devemos localizar indícios de que o que sustenta a realidade para um sujeito não é o Nome-do-Pai, tal

como Lacan fez comJoyce. ~

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No caso Schreber, a pergunta que sempre orientou Lacan foi: por que a psicose desencadeou? E ela deve orientar-nos nos casos que respondem mais ou menos a este paradigma. Não por um pre- ciosismo intelectual, mas pela orientação do tratamento; saber, por exemplo, que para um sujeito é melhor postergar o encontro com o Outro sexo ao infinito, numa assíntota como na solução de Schreber apresentada por Lacan em "De uma questão preliminar a todo tra- tamento possível da psicose". Quando entendemos que o desenca- deamento da psicose para um suJ~ita se deu a partir de sua pr~ experiência.sexual, ou de um desencanto amoroso, ou da .rrrnterni- dade, tomamos certas precauções para _quw_sajeito estabeleça_um~

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Em contrapartida, nos casos que correspondem mais ao

paradigmã Joyce, o interesse nao consiste cm perguntar por que a psicose se desencadeou, mas sim por que não se desencadeou.

O interessante do caso Joyce, do ponto de vista da psicose,

é saber por que não se desencadeou. É este o fio da investigação que prefiro promover para a psicose ordinária: tomar casos em que há suspeita de psicose, mas não há desencadeamento. Obviamente, está

a questão de Rômulo: se tivesse vivido dez anos mais, teria desenca-

deado? Efetivamente, esse é o tipo de pergunta que não podemos responder. No caso Joyce, a psicose não se desencadeou em toda sua

vida, e este é o tipo de caso que prefiro eleger para a investigação da

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psicose ordinária, pois exige refletir, quando não é o Nome-do-Pai, sobre o que sustenta a estrutura. Por isto, recorrerei a um caso que me interessa especial- mente por duas razões: a primeira é porque não há desencadeamento;

a segunda, porque suscitou, no contexto de sua apresentação, uma

discussão se seria uma neurose ou uma psicose - pois há uma ten- dência a considerar como neuróticos os casos que não desencadeiam. penso que o caso tem elementos suficientes para suspeitarmos de

uma psicose, até então não desencadeada. Foi apresentado por Guy Briole em Roma no Congresso da AMP [julho de 2006]. Como tenho

a versão em francês, pedi a Angelina Harari que traduzisse direta- mente ao português.

Rômulo Ferreira da Silva: Em função do horário, deixaremos

a leitura do caso para a tarde, e abriremos o debate.

Maria Cecília Galletti Ferretti: Minha questão é sobre o mé- todo; uma questão epistemológica importante que tem consequên- cias clínicas imensas. Gostaria de saber o que você, Graciela, pensa sobre o seguinte: Lacan, no retorno a Freud a que se propôs, refe- ria-se a Freud dizendo coisas novas, desde a sua própria teoria, evi- dentemente. Isto até o Seminário 10. No Seminário 18, há um parágrafo

em

que ele diz: Eu falo que não há relação sexual e Freud.Já dizia isto em

"O

mal-estar na civilização". No Seminário

17 ele diz: Eu sempre falei

do Édipo atral'és da metáfora paterna. Ou seja,

ele está propondo como

método uma relação de paradigmas, não os toma como paradigmas estanques que, embora um não suplante o outro, não têm intersec- ções. Então, há um método em Lacan. Enfim, acho esta questão apai- xonante, pois tem inúmeras consequências, e eu queria saber o que você pensa dessa posição de Lacan nesse ato de ligar paradigmas. E, se quiséssemos levar isso até um extremo, temos o que diz nos Escritos:

Eu já disse que a l'erdade sempre vem se colocando atrat•és dos pré-socráticos) de Descartes etc. É uma frase dele, da verdade que vem se fazendo.

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Graciela Brodsky: 1,finha resposta não será epistemológica 11t·ste caso, ao contrário; penso que a boa resposta para isto é que Lacan 11:'ío é Cantor. Como sabem, Cantor foi um matemático que introduziu 11 m número novo entre os números, o número transfinito, que não 1cm nenhum Nome-do-Pai no qual se amparar. Cantor não pôde dizer:

101110 disse J-,regtte, como disse Russel, como disse Parménides, pois ele introduziu 110 real algo que não existia. Ele faz crescer o simbólico com uma cria- t,:ão totalmente pessoal, cujo preço é a loucura. Eis um tema de inves- 1igação muito interessante na psicose - proposto há pelo menos vinte anos por Éric Laurent -: o destino desses homens que ampliaram o simbólico com a introdução de um significante novo. Trata-se de uma verdadeira invenção e isto só se pode fazer sem o Nome-do-Pai. A verdadeira invenção - daí a relação com o final de análise - só é pos-· sí~ef fora do Nome-do-Pai, pois ele faz com que, finalmente, algo dis- tinto possa ser dito, mas sempre dentro do mesmo território. e a ideia ~um significante novo é algo que abre todo um capítulo da psicose, especialmente 1 mas não somente nos matemáticos. .~ Isto para afirmar que Lacan não é Cantor, que cada vez que

avança em relação a algo novo, diz: como dizia h'rettd; digo o qtte Frettd

dizia; não d~go nada sem minha referência a Frettd. E

delírio freudiano, e depois, em

serem lacanianos. Em cada momento, porque não é Cantor, se res- guarda, não somente por respeito, mas também porque tem de ins- crever sua novidade no campo que já foi trabalhado por outros. É a encarnação no seu próprio ensino do axioma: ir para além de Freud, do Nome-do-Pai Freud, à condição de servir-se dele. Sirl'o-me do I~dipo de Freud para dizer que é um delírio freudiano; sirvo-me de Freud para dizer qtte o não analisado de Freud lhe impede l'er o destino de Dora. Creio que é o mesmo que faz Miller; aliás, ele mesmo o diz: Criticam-me qfirmando

que não estou dizendo exatamente e que disse Lacan. Sempre mencionar o que disse Lacan tranqüiliza, assegura opúblico de qtte não estou

também: oÉdipo é ttm

Caracas, eu semprefui freudiano, cabe a vocês

Público: louco.

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'~ ~= , '.;i Graciela Brodsky: Efetivamente. Penso que é preciso entender que cada vez que Lacan vai além de Freud, diz como Freud dizia. E sempre que procura, encontra algo que permite fundamentar que Freud disse aquilo. Creio que é uma questão não de método, mas de estrutura. Lacan não é Cantor.

:,.

Ondina Machado: Gostaria de mais esclarecimentos sobre esta questão do Po e <I>o. Em Schreber nós teríamos Po e <I>o. Como po- deríamos pensar essa questão de Po e <t>o no paradigma Joyce?

Graciela Brodsky: Poderia pensá-lo, mas justamente não quero fazê-lo. Po e <t>u correspondem ao paradigma de Schreber. Claro que poderia fazer o esforço para pensar o paradigma de Schre-

.Mas por uma

ber em Joyce, como o contrário, e é legítimo questão de método não quero fazê-lo.

fazê-lo.

Ondina Machado: Pergunto isto porque há, no livro Psicoses or-

dinárias, uma discussão em torno desta questão estabelecendo dife- renças em relação à paranoia, em relação à esquizofrenia e em relação às psicoses ordinárias. E se estamos tratando Joyce como psicose

ordinária

É uma tentativa.

Graciela Brodsky: Sim, por esta razão faço a distinção de pa- radigmas. Pode-se fazer essa tentativa, não está proibido; e pode ser muito fecundo pensar Joyce com o paradigma Po e <I>o. O problema é que isto desemboca numa situação complicada doutrinariamente, pois há Po sem <t>o; há um pouquinho de Po e um pouquinho de <t>o Quanto? Numa doutrina que é diacrítica, onde há um e outro, co- meçar a fazer as mediações é passar de uma doutrina descontínua a uma doutrina contínua. Então, Po e <t>o são duas categorias que cor- respondem a uma maneira de pensar descontínua: há o Nome-do- Pai ou não há o Nome-do-Pai; e que efeitos isso tem, quando há e quando não há. Quando começamos com as graduações, entramos

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na continuidade, e para uma teoria da continuidade é melhor opa- radigma dos nós que o paradigma da metáfora paterna. Então, nos \'emos forçados a inventar continuidades cm sistemas descontínuos, quando Lacan preferiu sair da metáfora e inventar outra coisa, os nós. Não sou uma amante dos nós, adoro a metáfora paterna, mas dizer um pouco de Po e um pouco de <Do introduz uma nebulosa teó- rica que não ocorre com os nós.

José Marcos Moura: Poderíamos pensar que, no desencadea- mento da psicose, algum anel se solta, e na psicose ordinária não ha- \'eria um anel que se solta, mas algum ponto que se solta? E se nosso trabalho seria amarrar esse ponto. Nesse sentido, eu estou em desa- cordo com o Rômulo, penso que o Homem dos Lobos não desen- cadeou, ele soltou um ponto, o qual foi amarrado com a intervenção.

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, l!u Graciela Brodsky: Eu também não penso que o Homem dos ·Lobos desencadeou; penso que teve fenômenos elementares, de franja, mas que isso não chega a ser um desencadeamento.

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~J, Rômulo Ferreira da Silva: Em que sentido?

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Graciela Brodsky: No sentido schrebcriano.

Rômulo Ferreira da Silva: Mas é por isto que nós falamos de neodesencadeamento na psicose ordinária.

Graciela Brodsky: E não me parece um bom termo. Por que falar de neodesencadeamento se não tem nada a ver com os casos que conhecemos que desencadeiam? Podemos falar de desenganche, de falha do nó. Os cinco casos apresentados por Castanet e Philippe De Georgcs em Antibes no trabalho "Enganches, desenganches, re- enganches"44 são de psicose extraordinária; eu jamais pensaria que são casos de psicose ordinária. Numa gradação, se temos num ex-

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tremo o paradigma Schreber e num outro, Joyce, estão muito 11111 prúximos de Schreber que de Joyce. Penso que o desencadean1rn1i é um termo que acompanha a cadeia significante e, se estamos 1111111 registro que não é o da cadeia, é melhor não usar o termo, a nãc , i,, , que tenhamos a sutileza de falar da cadeia de nós, o que me cx(T11, totalmente.

Patrícia Badari: Fiquei pensando se não podemos estender,, paradigma Schrcber para a perversão, onde também poderíamc ,i, pensar num adiamento do encontro com o outro sexo quando ist, 1 pode desarranjar a amarração que o sujeito fez. Se um mau encontre, com o outro sexo não poderia levar à passagem ao ato. Isto não seria um fator importante na direção do tratamento?

Graciela Brodsky: Efetivamente, esta é a utilidade da clínica borromcana para pensar não somente a psicose, mas a neurose e a perversão também. É o que veremos em seguida.

Terceiro seminário São Paulo, 24 de outubro de 2009

l 1"
l 1"

111, ),t ' lJLlt:S. "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o p sicanalista da ! )11/r()s emitos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 253.

111 1 l,1ct 1ucs. O seminá1io, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio d e J an eiro: Z ah ar,

•~ ,111, .f :t(:tJUCS . " D e u ma

, , , ,· '' l n /im itos. O p . cit.,

ques t ão p r eli min a r a todo trata m e nt o p ossível da

p . 563.

11 111, J :1cq ues. R. S.I. Semin ário inédito . Aula de 2 1 d e

janeiro d e 197 5.

1 11111·1·, .Jacques-Al ain. La e:,:peiiencia de lo real en la 01ra psicoanalítica. L os c ursos p si-

• til il11 in ,s ele J acques-Alain 1 1iller . Buen os Aires, Paidós, 2003,

1 11 . 111 , J a c q u es. O Seminário, Litro 18 : D e 11m discurso qu e não fosse semblante. Ri o d e

11111·11: Jorge Zahar Editor, p.31.

''\ lillcr, Jacques-Alain. De la natttraleza de los semblantes: los cursos psicoanaliticos

11 l , tt'tJUCs - Ala i n l\ :lill er. B u enos Aires: P ai d ós, 200 1.

~ 1 ! ,1sl:111et, H ervé; Georges, Philippe D e. "Enganches, desenganches, reenganches."

I ,, /J.ricosis Ordiná1ia. O p. cit., pp. 17-44.

OPARADIGMA JOYCE

Graciela Brodsky: Interessante notar que os dois casos qut:

Lacan toma como paradigmáticos de duas formas de psicose não

são casos de pacientes de seu consultório, mas casos cujas constru- ções baseiam-se em uma obra escrita.

Para Schreber, estão as ~\1emórias

de S chreber. Sabemos que

Freud nunca viu Schreber e sua análise baseia-se cm seu escrito au-

tobiográfico. Com Joyce, ocorre o mesmo: ele nunca se interessou por Freud e foi falar com Jung para burlar-se de Freud. Há muitas biografias de Joyce, mas Lacan nunca se deteve nos dados relatados

Joyce era um

em suas biografias. Segundo s<;us

homem de um caráter difkiÇba~ta11t~.q~erela_nte, c-~ti,.-aigunstraços

pàiânoicos, desc_<?nfl~1!), mas :11ada_cµs~_e11tra na análise que Lacan faz dele. Este se detém somente em sua escrita.

---- Não é toda·; ob;a de Joyce que interessa Lacan. Por exem-

plo, ele não se dedica a Ulisses, que é sua obra mais conhecida, de- tendo-se especificamente em Finnegans Wake e em alguns episódios

es-

do &trato do a1tista quando joi·em. Joyce leva dezessete anos para

c::_o~ent~4~res,

crever I'innegans Wake e, pela primeira ve7:, aparece um texto que re- quer do leitor uma leitura translinguística. ~ão há como lê-lo sem

conhecer minimamente o inglês, o galego e o latim. Há também re- ferências ao francês e a outras línguas. O texto requer também uma leitura silábica, homofônica e, fundamentalmente, ser lido em voz alta, pois somente assim se percebe a homofonia que atravessa cada um dos parágrafos. Joyce leva dezessete anos para escrevê-lo, mas deseja que por trezentos anos os universitários se entretenham ten- tando entender o que ele escrevia. Lacan menciona que há uma dimensão da palavra que pa- recia impor-se a Joyce. Ele teve uma filha esquizofrênica. Não era uma psicose ordinária. Ninguém duvidaria do diagnóstico de psicose para ela, exceto Joyce, que não achava estranho que sua filha se cem- siderasse telepática. Pensava que podia ler os pensamentos das pes- soas e, para Joyce, isso era completamente normal. Lacan indica que isso dá conta da relação particular de Joyce com a linguagem, na qual

73

as palavras vêm de fora, como se a linguagem não fosse um dom, mas algo exterior. Lacan não se serve dos transtornos de linguagem - que não impedem Joyce levar uma vida normal- para fazer o diagnóstico de

psicose. O que o guia é o famoso episódio da surra, que está apre-

sentado em

do início de sua adolescência: no colégio interno onde vivia, foi en- curralado por um grupo de colegas que bateram nele com um pau. Sobre esse episódio de violência, diz que não estava presente em seu corpo, distanciando-se daquilo que estava ocorrendo sem experimen- tar nenhuma dor. O corpo pareceu-lhe desprender-se como uma casca madura. Este episódio mínimo é o que fundamenta a hipótese de Lacan de psicose. Há um segundo episódio, conhecido como o episódio das mãos inchadas, que também não lhe produz dor e diante do qual há o mesmo desapego. Em sua existência na vida real, há ainda dois episódios que Lacan poderia ter levado em consideração, mas não o faz. Em um deles, Joyce deixa calcificar o olho direito sem tratá-lo, a ponto de perdê-lo. No outro, trata-se de uma úlcera gas- troduodenal que está na origem de sua morte precoce. Esse desapego às questões do corpo está presente na sua vida cotidiana. Lacan diz, ao comentar o episódio da surra:

Retrato do artista quando jovem. Joyce conta um episódio

Ter relação com o próprio corpo como estrangeiro é, certamente, uma possibilidade, expressada pelo fato de usarmos o verbo ter. Tem-se seu corpo, não se é ele em hipótese nenhuma. É o que faz acreditar na alma, e depois disso não há razão para se deter, e achamos também que temos uma alma, o que é o cúmulo. Mas a forma de Joyce deixar cair a relação com o corpo próprio é totalmente suspeita para uma analista, pois a idéia de si como corpo tem um peso. É precisamente o que chamamos

<le ego. 45

A ideia de si mesmo como corpo é totalmente distinta da ideia do eu. Posso ter de mim muitas representações: sou encanta- dora; sou antipática; sou como minha mãe etc. Há muitas formas de s~prcsentar em relação ao "eu sou", que se inserem no conceito

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do eu imaginário tal como o conhecemos, isto é, como o que resulta de um precipitado de identificações, tradicional dentro do ensino de Lacan. Quando Freud diz que o eu é antes de tudo uma imagem cor- poral, não se deve confundir com a dimensão aberta por Lacan ao introduzir a referência ao ego. No eu, é preciso colocar a ênfase não no corpo, mas na imagem, isto é, no corpo como totalidade imagi- nária, com a boa forma que o espelho devolve. Quando Lacan fala de "si mesmo como corpo" é como corpo e não como imagem do corpo; é uma consistência real do corpo e não imaginária. E preci- samente o que se chama ~que corresponde à ideia de "si mesmo como corpo". "Se o ego é dito narcísico, é porque,_em certo nível, há alguma coisa que suportà o corpo como imagem" 4 ~ É o ego com ,

o

o

Então, temos o episódio mínimo do corpo que se des- prende. O caso Deffieux apresenta exatamente o mesmo fenômeno:

o menino tem oito anos e um homem de bicicleta convida-o a mon- tar. Ele sobe e, em um bosque, o homem bate nele, tira uma faca e ameaça cortar-lhe o sexo. A criança escapa e depois, ao relatar a cena, diz: "não me senti muito mal". Ao voltar para casa, conta o ocorrido ao pai que não acredita nele, mas o médico fica horrorizado, pois o menino tem o corpo coberto de hematomas devido aos golpes. Ele se lembra então que, quando o homem começa a bater-lhe, abandona seu corpo, distancia-se e desaparece. Por um instante, diz: "vi um menino que partia e que era eu .e foi assim como escapei". Deffieux comenta esse episódio desse caso nem tão raro - J\filler dirá que algo não raro é algo ordinário, algo que não é excepcional senão comum. Da indiferença do sujeito em relação ao seu próprio corr_c_>, Lacan infere uma falha no enodamento das três dimensões que de-· terminam a estrutura do sujeito. A desaparição do sef!_titl!_e_nto de propriedaãe que temos em relaçao ao nossoproprT6-;orpo COl'l'CS·· po~e a um erro na articulação do simbólico e do real, de modo l}llC

o eleme~riQ~~ Aqui é preciso fazer o-desenhe>:

n~Ç_isismo. O que sustenta o corpo como imagem é, finalmente,

falo.

-- ~- --- · ·· -

·

75

Ratage RS

Ratage RS Para que o nó exista como tal é preciso que se produza um enodamento.

Para que o nó exista como tal é preciso que se produza um enodamento. O real e o simbólico estão aqui cnodados [poínt de nouage, ponto de enodamento], pois o simbólico passa por baixo do real [na parte inferior] e, aqui lna parte superior], o real passa por baixo do simbólico. O problema está aqui [ratc{ge, falha RS], pois o imaginário está em cima do real e embaixo do simbólico e, se obser- vam, não há nada que impede que o anel do imaginário se solte. Há um ponto de erro, no simbólico e no real, que deixa solto o imagi- nário.

Contudo, a questão não é esta. O_ ponto de interesse pa~a

Lacan é saber por que, apesar d~~ta falha,_a E.S~<::C>se n~e>

déou em Joyce. Lacan nunca põe em questão a foraclusão do Nome-

do~Pãi, Oll sêía, ~ma falha na função paterna. Por exemplo, no capítulo "Joyce e o enigma da raposa'\eleâiz:

se _d~senca-

]

0/dfathe,; old mtifice,; stand me non., and el'fr i11,1!,ood stead.

Encontramos isso no final de l'm retrato do artista [

::\fantenha-me quentinho agora e sempre. É a seu pai que ele dirige essa prece, seu pai que, justamente, se distin- h11.1e por ser - ah - o que podemos chamar de um pai indigno, um pai carente, aquele que, cm todo o C/isses, ele se pôe a buscar de várias for- mas sem encontrá-lo cm qualquer grau. Evidentemente, há um pai em algum lugar, e que é I3loom, um pai que procura por um filho, mas Stephen lhe opôe um mlfito pouco para mim. Depois do pai que tive, estou farto. 47

76

Bloom quer um filho e Stephen, que teve um pai carente, in-- digno, ineficaz em sua tarefa de criá-lo - e que poderia ter um desejo de ter um pai, uma vez que faz o apelo: pai ampara-me agora e sempre-,

diante de alguém que poderia encarnar a função paterna, lhe diz: muito

ajuda

pouco para mim; com opai que tizie, estoufarto. Nota-se seu rechaço à que poderia vir do lado do pai, de quem ele não quer nada. Na página 86, diz:

Por que não pensar o caso de Joyce nos termos seguintes? Seu desejo de ser um artista que fosse assunto de todo o mundo, do máximo de gente possível, em todo caso, não é exatamente a compensação do fato <le que, digamos, seu pai jamais foi um pai para ele? Que não apenas nada lhe ensinou, como foi negligente cm quase tudo, exceto em cem-

fiá-lo aos bons padres jesuítas, à Igreja diplomática? [

:'.\:ão há nisso alguma coisa como uma compensação dessa demissão paterna, dessa Ténve,fill{I!, no fato de Joyce ter se sentido imperiosamente chamado? Essa é a palavra que resulta de um monte de coisas que ele

escreveu. É a mola própria pela qual o nome próprio é, nele, alguma coisa estranha. 48

]

E na página 94:

De todo modo, cm função desse doente cujo caso considerei na última vez que fiz em Sainte-Annc o que foi chamado de minha apresentação, o fato de Joyce articular a propc'isito de Lucia para defendê-la, que ela é uma telepata parece-me decerto indicativo do que Joyce testemunha

nesse ponto mesmo que

designei como o da carência do pai. 49

Não há dúvida para Lacan quanto à carência do pai, mas ele não fala de foraclusão. Menciona a palavra 1 renveifung, mantendo- se no plano descritivo da carência da função paterna, de um pai que não está à altura de sua função. Então, que índices da psicose temos até então? Primeiramente, temos o índice da reiteração da carência da função paterna. Depois, temos um episódio - um e meio se quiser mos contar o episódio das mãos - do corpo que se separa do senti--

77

mcnto de pertencimento. Com isso, teríamos razões para falar de de- sencadeamento. :Mantendo-nos na estrutura dos nós, com estes dois elementos - carência paterna e desenlace de um dos nós - podería- mos pensar em fenômenos de transformação da imagem. Por exemplo, o fenômeno do nariz no Homem dos Lobos é um transtorno na imagem do corpo, e o dedo que cai é um fenô- meno solidário do imaginário que se solta. Ou, por exemplo, o pa- ciente de quem falei que vê seu rosto transformar-se em Kirk Douglas. São fenômenos que se referem a transtornos do corpo cm sua dimensão imaginária, que permitem levantar a hipótese de psi- cose.

Mas o interessante do caso Joyce é o passo seguinte que Lacan dá: por que a psicose não se desencadeia nele? Para dar conta disso, Lacan introduz a hipótese de uma re- paração do erro no enodamento exatamente no ponto onde se pro- duz a falha. Aí, se o real e o simbólico agarrassem o imaginário, teríamos o ego em sua dimensão imaginária, narcisista, e o senti- mento do corpo como próprio, de estar condenado como o neuró- tico ao corpo que se tem. Sabem que condenado etimologicamente vem da palavra fechado. Quer dizer que o corpo e o sentimento de si mesmo estão fechados, não se podem separar. R, diz Lacan que se não houvesse esse erro, o imaginário estaria enlaçado ao simbólico e ao real, e teríamos o sentimento de pertencimento do corpo. ~fas, como isto falta, é preciso fazer um remendo do ego:

Non Borroméen

78

Rômulo Ferreira da Silva: Você disse que o erro é o que deixa o imaginário solto, mas se não houvesse o erro ele continuaria solto do mesmo jeito, pois o imaginário está apenas sobreposto e o sim- bólico e o real estão soltos.

Graciela Brodsky: Mas não estamos trabalhando com a hipó-

tese dos três registros soltos, não estamos no "nó de quatro". Esta- mos trabalhando com a hipótese do "nó de três" de RSI, enlaçado do modo borromeano. Para que se mantenha borromeanamente, o _nó deve estar enlaçado de certa maneira, sem a qual os registros ficam ou todos soltos ou apenas um deles solto. Lacan verifica que há uma falha nesse ponto e o "nó de três" apresenta o fenômeno do imaginário que se solta. A hipótese para que isso não ocorra é um remendo no lugar da falha. Neste caso, Lacan o chama de um remendo do ego. O que se evidencia é um segundo enlaçamento que corrige o erro do nó por meio da es- crita, que enlaça o real e o simbólico, impedindo que o imaginário se solte. Então, é um remendo, porém malfeito, no sentido de que con- serva o traço de sua falha inicial.

um elemento imaginário

na escrita de Joyce. Ou seja, é uma escrita sem imaginário que re- menda algo~·mantendo a marca do imaginário solto, o que a torna completamente ilegível e impede que se tenha alguma empatia na lei- tura. Joyce ria - quando escrevia, parece que se divertia sozinho-, mas não quem o lê, pois falta o elemento imaginário que prende o

leitor à língua do outro, como ocorre quando se compartilha algo em comum. O leitor fica completamente de fora de uma trama, sem possibilidade de identificar-se imaginariamente. Assim, a falha do imaginário está presente na própria solução. Temos, então, os indícios que Lacan encontra da psicose - os fenômenos de desprendimento do corpo e a carência paterna rei- terada-, e a escrita como solução. Porém, não se trata da escrita .como um fenômeno de linguagem, de um neologismo, onde há um

Jean-Claude 11a~f;ygl 5 º

diz-qgr_~lta

79

dl'scnlacc do simbólico e do imaginário e as palavras ficam sem sen- tili<>. A escrita de Joyce, segundo a leitura de Lacan, é a solução com a qual ele remenda a falha do enodamento do imaginário que ficaria

sol to.

Abre-se, então, justamente aí, a questão do quarto nó, pois Joyce não foi louco por ter inventado um enodamento à sua medida, mas antes foi a escrita que lhe impediu a loucura. Assim, a escrita de Joyce é o que Lacan chama sinthoma de Jqyce. É uma escrita sinthomá- tica, estranha, que pode ser tomada como um sinthoma, pois resol- \TU o problema fundamental do imaginário solto, restaurando-o. Não se trata, contudo, de um enodamento borromeano - o que seria ne- cessário mostrá-lo com os nós. Assim, a solução sinthomática da es- crita de Joyce remenda o nó, corrige o erro, conserva a marca da falha, mas o novo nó assim construído não é borromcano.

Público: Poderíamos dizer que é uma suplência?

Graciela Brodsky: Sim, é uma suplência, mas, ao introduzir esse problema, temos uma nova questão: a escrita supre o quê? Neste esquema do nó, a escrita supre o erro. e ma suplência designa um meio utilizado para manter junta a cadeia borromeana, sem o qual estaria solta. Tomemos algumas referências de Lacan dentro da concep- ção clássica. Na falta do Nome-do-Pai, algo vem compensá-lo. Lacan utiliza numerosas vezes o termo compensação. Por exemplo, quando diz que uma imagem, ainda que paterna, resultou insuficiente - com- pensação imaginária para Schreber. Ou, o como se de Helene Deutsch como uma compensação imaginária <lo Édipo ausente. Neste esquema, há o Nome-do-Pai que falta, e algo que vem supri-lo. Temos o titular, o pai, na falta de quem, jogamos com o reserva, com os jogadores suplentes. Porém, no Seminário 23 o próprio Nome-do-Pai passa a ser uma suplência, na medida em que ele mantém unidos três registros

BD

que estariam ;adicalmente separados. Quando insisto que nã~;h·~ ,.

uma continuidade entre os seminários RSI e o Sinthoma é porque no primeiro, com o enodamento borromeano de três, o quarto nó cum- pre a função de suprir um erro de estrutura, que deveria estar enla- çada borromeanamente. Isto é distinto de considerar que os três registros estão soltos e que falta um quarto nó que faça equivaler o Nome-do-Pai ao sinthoma, enodando-os.

',l'i'l).I

"nó de quatro" do Seminário 23 abre as vias para

'pensarmos a-fOfadusão generalizada e O J2_~SCO entre

1-ii-;_s contemporâneos e a psicose_0c;!Jriáxia. A partir disto, cabe per-

!!_t!ido~_p_q~

guntar como cada um se arranja ~ara _manter

Apcna~

9

OS S

ÍntÔ-::·

1 h~turalmente está solto. Podemos dizer que o neurótico se arranja com um "nó de quatro" enodado de modo borromeano,_g~r- responcj.e ao Nome-do-Pai, mas que este é um sintoma como ~~.!:- quer outro e que é possível arranjar-se sem ele. Creio gue o problema da pluralização do Nome-do-Pai, a noção do sinthoma e dos sinto- -~as contem orâneos, sustentam-se no re ·stro dos três nós inde-

a inve~_s:-~9

Eendentes, a partir _ o qual c-ªbe aperg.ug!a

s.~bre

os registros unisi_()_S.

·c~ntudo, nesse caso se trata de um nó borromeano de três que po-

sintomática que caga um -~ºgstr_m

p.ara.manter

deria estar enlaçado sem o quarto.

Rômulo Ferreira da Silva: Então, quando falamos do erro no nó de Joyce, só podemos concebê-lo se partirmos do princípio do "nó de três" borromeano que deixa o imaginário solto.

Graciela Brodsky: Exatamente!

Rômulo Ferreira da Silva: Podemos pensar no nó do neurótico tendo dois erros, o que faz com que os três registros estejam soltos e que seria preciso o quarto para amarrar? É a concepção do nó de quatro que vem restituir a condição borromeana.

81

Graciela Brodsky: Sim. É difícil, ao menos para mim, no mo- mcn to atual, encontrar a especificidade da psicose em relação à neu- rose - e entendo o problema que se coloca da clínica continuísta quando passamos ao registro do nó de quatro, pois considero neces- sário insistir que não há continuidade. Mas, uma vez posto isto, é preciso formular a questão sobre o que distingue, no "nó de quatro", o enodamento na neurose e na psicose.

José Marcos Moura: Se a amarração não for borromeana, é

psicose.

Graciela Brodsky: Mas no "nó de quatro" não é! No "nó de três" certamente, mas não no de quatro.

-{'

:'.'

-,

('

.

Rômulo Ferreira da Silva: E se a amarração for borromeana

sem o Nome-do-Pai?

José Marcos Moura: Como sem o Nome-do-Pai?

Graciela Brodsky: O interesse da psicose ordinária a partir da .teoria das nós é precisamente buscar um enodamento estável, equi- valente ao que Joyce logra sem o Nome-do-Pai.

José Marcos Moura: Não borromeano.

Graciela Brodsky: Estável, e haveria que verificar se é ou não borromeano. De qualquer modo, a psicose não se desencadeia por ser uma amarração que instala o enodamento no "nó de três", pois, embora não seja borromeano, produz-se de modo estável. O para- digma Joyce permite pensar uma amarração estável sem o Nome- do-Pai. Contudo, não é justamente essa a função de todo sinthoma, uma vez que passamos ao "nó de quatro"? No "nó de três", há um remendo que deixa marcas e permite identificar algo que não é con-

.,

82

vencional, como um caso raro, sem que haja desencadeamento, pois temos o paradigma de um enodamento não borromeano estável. Mas

o destino de todo sinthoma não é finalmente o "nó de quatro", onde

o Nome-do-Pai é apenas um dos nomes do sinthoma que tem como função enodar borromeanamente o que está, por definição, sepa- rado? Podemos chamá-lo de Nome-do-Pai, como queiram, mas fi- nalmente, este é um caso de enodamento, entre outros.

Angelina Harari: Se o sinthoma é o mais singular em cada caso, não poderia ter o mesmo nome.

Graciela Brodsky: Efetivamente, o que faz com que o Nome- do-Pai seja um nome coletivo. Talvez seja preciso questionar algo que eu mesma pensava antigamente: se o quarto nó é o Nome-do-

Pai, o enodamento é estável e então temos a neurose; ao passo que, se o quarto nó é um sinthoma de ocasião, não temos o enodamento estável da neurose. Isso soa bem, mas objeta minha precaução de método, pois se recupera o privilégio do Nome-do-Pai, como se este fosse um sinthoma especial em relação aos demais.

O último ensino de I ,acan não vai nessa direção; ao con-

trário, faz do Nome-do-Pai um sinthoma como os demais. Nesse sentido, em cada caso na neurose deixamos de lado o Nome-do-Pai para perguntarmos sobre o que mantém o enodamento e verificar- mos qual o sinthoma em questão. Assim, devemos ter a precaução de saber que o sinthoma não está tão assegurado e que convém não evar as coisas ao extremo, também na neurose. Pois, não há tanta diferença entre o sinthoma para a psicose e para a neurose e o que

~~t~sa em cada tratamento é ver o nome próprio do sinthoma, e que com o enodamento não se brinca!

- Peço a Angelina Haran que ieia diretamente em português

o caso clínico apresentado por Guy Briole 51 em Roma, no Congrcssc > sobre os Nomes-do-Pai, caso que me interessou especialmcntr, como disse anteriormente, por não haver um desencadeamcn 1<> · <,

83

1 pw IH'1'1llitc urna reflexão neste terreno que estamos propondo para 11 pi;knsc ordinária.

Angelina Harari Leitura e tradução simultânea do te.·,:to de Gl!J Brio/e, intitulado ''Feindre"(FinJ!,irJ

() que esse analisante colocou como princípio de sua demanda cm re- tomar uma análise era ser surpreendido. Provavehnente, uma surpresa na mesma medida que aquela que havia dei.'{ado seu analista precedente, porque no momento em que se tornaria pai, decide bruscamente parar sua análise. Pensa que deve essa criança ao tratamento, pois, em relação ao resto do tratamento, ele estima que foram quinze anos dedicados a prosse- guir uma análise para não fazer uma, de tão ocupado que ele estava em buscar uma falha no analista. Aparentemente, foi uma decisão sem discussão, sem recurso. O outro está sempre em falência. Ele especifica que sua escolha de encontrar um analista da Escola da Causa Freudiana estava baseada em sua prática referida a Lacan, supos- tamente diferente de outras. Ele testa, desde as primeiras entrevistas, a resistência do analista com a intimidação: seu rosto amarrado; coloca seu corpo numa proximidade tal a ponto de inquietar; bate portas; diz- se perigoso e que seu analista precedente o sabe. É assim que ele explica a recusa deste último quando, depois de três anos de interrupção, quis retomar a análise com ele. Não acredita nada na manobra da transfe- rência que o analista precedente operou - manobra esta que seria en- dereçá-lo a um analista terceiro com o objetivo de que este último o oriente a um outro analista. Isso estava suposto em uma estratégia de terminar com a transferência. Ao contrário, eis que ele se sentia ccm- fortado com sua idéia irredutível da insuficiência dos homens, que ve- rifica a falha de seu próprio pai que não tinha a menor consistência para ele. Como parar com essa deriva? Este analisante, na faixa dos quarenta, cuja prática se exerce cm um lugar vizinho ao nosso, é casado e pai de urna filha de dez anos. O que chama a atenção nele é a atualidade de sua infância e um segredo familiar que teria ordenado seu destino.

84

S{gredo e não-ditosfamiliares

As duas avós, cada uma a sua maneira, fizeram cksaparcccr a tigura dos avôs paternos. O que ele coloca no centro de toda sua vida gira cm

torna da avó paterna e do fato de ela nunca ter querido dizer quem era

o pai de seu pai. Ele diz "era uma beata que recebia homens cm sua

casa e, particularmente, padres com os quais ela ia para a cama". <~ucm

é o pai do pai? Depois da morte da avc'i, só restaram hipútl'.ses. 1•:Ia

nunca quis abrir esse ponto, apesar das demandas reiteradas do pai cio

analisante. Ele diz: "ela devia saber com quem ela fabricou L'.Ssa criarn;a. Esse poder absoluto da minha avó é o horror das mulheres." Sua mãe, por sua vez, havia rompido relações com a própria mãe, lJlll'.

a teria entregado a uma tia com a idade de seis anos, no momentc > da

morte de seu pai. "Eu me lembrei que um dia, quando criança, uma mulher velha, desconhecida, tocou a campainha, e minha mãe imedia- tamente se precipitou e a levou até a cozinha. Somente mais tarde soube que era minha avú materna. Ele não sabe - também é uma hipútese - que essa a~ó havia escolhido uma vida de mulher e rejeitado sua filha. A ausência dos dois avôs criou um "entre quatro paredes" familiar e

marcou, tanto seu pai, homem humilhado e desvalorizado, quanto sua mãe, rígida e intrusiva, da qual ele não sabia como se separar, tamanha

a falência do pai que o deixava sozinho face às exigências educativas.

Opai aJf,redido

Ele pensa que seu pai é um homem covarde, sem grandeza. Teme ser como ele e espera ter um pouco mais de consistência para sua filha que

seu pai teve para ele.

como fazer para não ser covarde eu mesmo?" Teme não poder se de- fender nem poder socorrer os seus quando em perigo. Assim, ele se impõe situações de risco onde ele se coloca à prova: sair nos bairros perigosos, provocar. ::\fas pensa que isso nunca preenche a questão da coragem física.

.:\ias retorna sempre sobre esse ponto: "sem pai,

Ele se lembra de uma cena da infância: tinha cinco anos e outra criança lhe roubava todo dia sua merenda. J~le ficava impotente, sem se opor,

e sua mãe foi à escola para falar com essa criança. Essa situação é pa- radigmática para ele de sua posição de covardia. Mantém-se desde então fixado nessa posição. Desde esse ponto de covardia ele se vê parecido com o pai, salvo que o pai se impunha pela própria estatura, ele sabia

85

se safar das situações. Ele nunca confrontou quem quer que seja, so- bretudo, sua própria mãe. L' ma lembrança dolorida lhe ocorre em relação a sua violência com o

pai, que apenas pôde conter: quando criança, o pai teria feito uma go-

zação dele e sua reposta foi um pontapé, uma resposta reflexa. Seu pai

não replicou, ele desviou. "Eu gostaria que ele tivesse me dado um ta-

befe, eu esperava um signo de sua recusa. O pior do pior foi esse mo- mento em que ele desvia. Ele nunca esteve à medida de minha expectativa e é necessário sempre rearmar meu pai para que ele se sus-

tente um pouco".

Traz um sonho que ele estima paradigmático de sua vida: desce pela

rua

para passear com sua filha e se vê confrontado com uma patota,

que

quer bater nele sem razão aparente. Cm pai passa levando o filho

pela mão, e não apenas ele não o socorre, mas lhe diz: "não é sem razão

que

isso acontece a você". Ele pensa que esse homem é um covarde e

que

a criança pequena, que não o escolheu, não teve outra possibilidade

senão segui-lo.

Ele evoca então que, quando criança, não ousava em lugares públicos

ir sozinho ao banheiro e pedia ao pai para acompanhá-lo. O pai não

dizia nada, ele vinha. "Eu não me sentia protegido quando estava sozi- nho. Eu só pude beneficiar-me de sua presença física, jamais de sua pa- lavra. Eu nada recebi dele, nenhuma palavra que me sustentasse." ;\ única coisa que ele reconhece ao pai é haver trocado o nome da família, modificando as cinco últimas sílabas e preservando a mesma conso- nância. Embora não tivesse entendido sua pertinência e achasse isso derrisório, ele pensa ao menos que esse nome próprio lhe é próprio.

No entanto, ele se peq.,runta se pode fazer uma história dos nomes pró-

prios, dos patrimúnios.

A infância e a atualidade 1JJaterna

Ele retorna reiteradamente sobre a inconsistência paterna e a insufi-

ciente separação com a mãe. Para ele, o ::\:orne-do-Pai não foi suficien-

temente operatório e ele deve repetir sem cessar, em pensamentos ou

cm

atos, uma maneira de separar-se da mãe. Para escapar ao intolerável

do

grude materno, ele inventa um Jo1t-da. Em sua infância ele se via to-

mado por um desejo irreprimível de sair e depois entrar no apartamento várias vezes seguidas, sem dizer à sua mãe aonde ele iria. '~.\onde você

vai?" A essa questão da mãe ele inventaYa um motivo plausível para

.- :

86

sair sem realmente dizer aonde ele iria. "Devo sempre preservar al1:11

de secreto para não ser transparente".

Essa sequencia lhe era imperativa para marcar o ritmo do tempo f11r.1

da presença do pai. Em sua ausência, o tempo era viscoso. Sua prescn~·a

física lhe dava um pouco de espaço. Sobre esse ponto ele observa tlllt'

a presença física do pai lhe assegurava quanto ao seu corpo, cm rclaçã< 1

ao qual ele esperaria ser mais viril. "De fato, eu tinha um corpo para

minha mãe, doente e débil. ~a escola primária cu não era capaz de e< 1n- trolar os esfíncteres. Minha mãe queria educar meu corpo e eu devia

escapar à sua hlgiene educativa. Fiz do meu corpo o fundo da minha resistência à domesticação materna. Ele é ineducável. Eu jamais cem- segui torná-lo dócil" Ele permanece rebelde a qualquer aproximação - daí que ele não tenha decidido dar seu corpo para uma mulher. Ele quer tudo controlar e isso lhe escapa.

O que ele não recebeu do pai, ele critica na mãe e o desloca para as

mulheres, em relação às quais ele nutre um rancor. Ele pensa que elas

têm um saber sobre ele, que o poder delas é imenso. Ele associa, sobre

o irmão três anos mais velho, que nasceu após a morte de uma primeira

criança, uma questão que ele se coloca: se a primeira criança tivesse vi- vido, ele teria nascido? l'.m "ou ele ou eu" radical, no qual se misturam

a inquietante sexualidade dos pais, que poderia concerni-lo, e a temível decisão de vida ou morte, que ele pensa estar entregue nas mãos das mulheres, porque os homens se mostram impotentes em se opor às mulheres. Com essas inquietações, ele inventou-se uma verdadeira amarração em torno de uma paixão por trens e por vias férreas.

Graciela Brodsky: É preciso escutar esta parte com especial interesse, pois é o que faz do caso um caso diferente.

Angelina Harari:

"Os trens são o que me ligam à vida". Ele não está tão interessado cm brincar com eles, e sim em construir vias complexas. Isso pode ocupar seus pensamentos durante vários dias. Ele construía as vias na casa de 1s pais e a maioria existe ainda na garagem da casa paterna. Ele situa o início de seu interesse por essa atividade na conjunção de uma lembrança de infância e de um sonho. A recordação de criança -· ele devia ter cinco anos - é ter acompanhado a mãe e ver uma cn fcr ·

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mcira, "a que pica", e, então, esperando na sala ao lac.lo, onde a mãe é recebida pela enfermeira, e em um momento cm que ele não aguenta mais, ele abre a cortina da janela. Seu olhar recai sobre um trem elétrico, "nada mais" - acrescenta ele. Nessa mesma noite, ele sonha com uma rede ferroviária com trens que se deslocam e luzes que piscam. Isso o acorda e essa idéia surge nele. disto que preciso". Seu irmão aceitará dar-lhe seu trem elétrico, caso ele pare de chorar na porta da escola no momento em que se separa da mãe. "Parei de chorar, pois eu queria muito esse trem". Então, tudo começou dessa relação infinita dessas vias férreas. Os eventos de sua vida darão ritmo ao abandono ou à retomada dessa atividade. No início de sua retomada da análise, ele teve a idéia de pros- seguir com a construção de uma rede deixada inacabada no momento do nascimento da filha. Mas ele acredita não poder fazer isso sob a vista da filha. Isso o remete à sua intimidade e às intrusões reiteradas de sua mãe. "Com os trens, eu escapava dela. Essas vias são inacessíveis às mulheres." Ao analista, que lhe perguntava por que a mãe ia tanto à en- fermeira, ele responde sem hesitar. "Tenho uma idéia muito precisa, era por um problema das regras" 52 •

•'1 relação com os outros

Ele se sentia constantemente desarmado na sua relação com os outros. É, sobretudo, a fala que falha, por ele pensar que, a cada vez, terá de retomar o que dissera antes. Assim ele era com a mãe, que o colocava sempre em falha nas trocas verbais. Ele busca evitar as conversações, porque se sente frequentemente imerso pela violência, estimando que lhe falta a regulação que lhe traria o bom uso da fala. Isso o leva sempre ao mesmo ponto: "sinto falta de confiança cm mim, pois não consigo c.lizer algo sobre mim. Não posso nada dizer dos avôs, então a conversa normal é sempre vazia para mim. Sou sem história. ::-s;ão encontro pa- lavras para contar minha história. É uma história sem fala. O senhor não pode saber com pesa esse vazio de pai." De fato para esse sujeito o ::--.;orne-do-Pai pesa como uma chapa, do qual ele não sabe como se servir nem como se desfazer. Está fixado.

Posição no tmtamento

;\;o tratamento, de oscila entre querer empurrar o analista sob duas vertentes: uma em direção a uma díade que o torna doente e que re- produz uma modalidade de relação com a mãe. 1(mão, é a violência c.1ue aflora na transferência. A outra consiste em fazer do lugar do analista

o de um pai inválido. :.\:Ias também isso pode ser fazer existir uma ver- são do pai versus o analista no lugar de pai suplente. Sobre esse ponto, é esclarecedor retomar um episódio do tratamento pre- cedente, onde coincide a demanda do pai, feita constantemente pelo ana- lisante ao analista, e um acting out do analista. Tendo parado sua análise no início da gravidez de sua mulher, ele havia enviado, no momento do nascimento da filha, uma participação a seu analista, que lhe responde:

"E bem, podemos dizer que é uma criança da análise." O analisante acres- centa: ''Ele não pensava dizer tão bem. Sem essa análise, cu não poderia ter tido essa criança. Eu passeava scmp1·c com ela no bairro do meu ana- lista na esperança de poder encontrá-lo". A isso vem se acrescentar o actin.g 011! do analisante que, para ter a matrícula de sua filha em uma escola próxima ao consultório do analista, inscreveu a filha no endereço deste. Contrariamente, ao que ele havia declarado no início de sua análise, ele não gosta de ser surpreendido pelo analista com o corte. Rle o manifesta de forma ruidosa, bufa, suspira, mas isso o leva a falar de sua divisão. De um lado, dizer coisas que chamem a atenção do analista e, de outro, con- trolar seu pensamento. Então o risco é dizer banalidades para preservar

o controle, onde teve êxito na sua análise anterior. Ele resume isso em um objetivo: "Sempre se antecipar ao analista com o pensamento". Dessa vez, ele pensa que não pode se apoiar na contratransferência. Ele define assim o incômodo que pensava suscitar no seu primeiro analista e do qual ele espreitava o menor índice: "Ele me suportava. Aqui cu não posso me pendurar nisso. Eu sou tomado pela rede da transferência". Ele es- pecifica que é, ao mesmo tempo, o que o protege, mas o que aprisiona -

e o crédito que ele pode dar a alguém permanece limitado. Isso vale para

a análise. "Eu não sou um crente da análise." Esse incrédulo da psicanálise está, entretanto, em análise há mais de vinte anos. Esse incrédulo acredita, ele crê ao menos na possibilidade ela existência de um lugar, de alguém, o analista, que possa manter para ele um lugar de fala. Se ele denuncia aí a falsificação, é na medida do seu temor frente ao que se revela como impostura do analista tal como lhe é flagrante a inconsistência do pai. Isso lhe retorna sob a forma dl' um enunciado: "Em mim, tudo é fingimento."

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Graciela Brodsky: Embora este caso não apresente nenhum desencadeamento, nada de extraordinário, permitiu uma discussão interessante em Roma, da qual participei, entre a psicose e a neurose e>hsessiva. Confesso que eu pessoalmente não encontro um só ele- mento do que seria a neurose obsessiva masculina, mas foi uma dis- cussão muito interessante. Vocês devem ter notado que Guy Briole não apresenta o caso revelando a estrutura clínica. É um caso que tem três elementos fundamentais e a pre-

sença, tal como a designa .Miller em seu texto da revista Quarto e na Cont"ersação de Arcachon, de algo que não funciona no sentimento mais íntimo da vida do sujeito, no s~ntimento de si mesmo.

O primeiro elemento é a reiteração da queixa da carência

paterna. É realmente alguém que se considera, a si mesmo, abando- nado pelo pai em cada uma das circunstâncias em que esperava dele uma palavra que o reconhecesse como seu filho. É uma dor profunda por não encontrar o pai onde ele o procura, em relação a quem não tem muitas esperanças. Depois, está o relato sobre a presença invasora da mãe cm relação ao corpo, para a qual ele inventa, desde muito pequeno, um jort-da, para não estar ao alcance da mãe na ausência do pai. Mas nada até permite concluir a questão diagnóstica, pois as queixas sobre a falta paterna não são de modo algum exclusivas

da psicose, nem o sentimento de ficar exposto aos cuidados invasivos da mãe, que tampouco permite colocar o selo diagnóstico.

O caso tem dois aspectos que fazem dele um caso raro: o

primeiro é a convicção do paciente de que a falta de dados sobre seus avôs em sua história seja a causa que lhe impede ter uma con- versa: "De quê vou falar se não sei nada dos meus avôs?" Não é uma formulação convencional para um homem de quarenta anos e parece indicar uma falha profunda. O segundo elemento e, indubitavel- mente, o principal do caso, é a construção das vias férreas. Trata-se de um recurso que utiliza quando a situação se complica para ele, que consiste em acrescentar circuitos intermináveis (há quarenta anos

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ele os constrói) de um trem. E, em cada momento onde há uma pas- sagem simbólica, como quando tem uma filha ou inicia uma análise, algo o leva a completar esse circuito, que se encontra na garagem da casa paterna. O que me parece significativo é o momento cm <.)Ul'. tal so- lução se impõe, quando aos cinco anos vai com a mãe à casa da en- fermeira. Ao ficar fora da sala, ele diz que não aguenta mais -- não se sabe muito bem o que o mobiliza -, abre uma cortina e seu olhar recai sobre um trem elétrico. "Nada mais", diz ele. Na mesma noite, sonha com uma rede de trens que se deslocam e com lu:1.<.:s tJue pis- cam. Isto o acorda e ocorre-lhe a ideia de ser exatam<.:ntc o que lhe faltava. A partir daí, consegue que seu irmão lhe presenteie um trem elétrico, na condição de que não chore mais quando tem lk separar- se da mãe. Efetivamente, com o trem elétrico aceita separar-se dela. Desde então, nunca mais o solta, sendo que há vinte anos csl:Í cm análise.

longa discussão em Roma sobre o <.:statu t< > das

luzes que o acordam, com uma certeza que não se sabe de onde pro- vém: "Isso é o que me falta". A partir daquele momento, ele sabe o que lhe falta, nomeia esta falta de um modo totalmente singular e procura esse objeto. Discutiu-se se as luzes não seriam um fcnê>mcno elementar mínimo no enquadre do próprio sonho. Depois está o episódio de matricular sua filha com o ende- reço do analista após este ter-lhe dito que a filha era um produto da análise.

Para retomar a questão dos signos que indicam a psicose, na falta de fenômenos extraordinários - alucinações, delírio, surto melancólico - creio que nem a carência paterna, que aparece na queixa interminável contra o pai, nem a invasão materna no corpo sejam suficientes para sustentar o diagnóstico da psicose. A hip<'>tese da foraclusão do Nome-do-Pai pode ser estabelecida a partir da pe- culiaridade da solução que ele encontra, no momento exato em que algo da sexualidade feminina se esboça do outro lado da porta. Uma

Houve uma

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1Trlcza mínima se produz quando ele não tem dúvida de que se tra- i ava da menstruação e, na sequência - quando seriam necessárias a função paterna e a significação fálica para darem um significado à si- 1uação -, inventa a solução de recorrer ao trem, a este objeto que se e< institui como o que lhe falta. Não é mais o pai que lhe falta, nem o falo, mas este objeto que tem um nome e que funciona - tal como se pensou na discussão em Roma - como um sinthoma. Trata-se de algo que supre a função paterna, criando circuitos, não simbólicos como aqueles que a linguagem possibilita, mas na própria realidade, que o permitem orientar-se mantendo afastada a invasão do gozo não significantizado. Na discussão do caso - que não contentou Juan Carlos Indart que defendia o diagnóstico de neurose obsessiva-, Guy Briole manteve a hipótese de uma suplência construída aos cinco anos e da qual o sujeito não pode separar-se. Efetivamente, o sinthoma que implica a construção das vias férreas, na falta de um significante que poderia ordenar-lhe o mundo de outra maneira, passou a ser neces- sário. De tempos em tempos, o paciente desprende o trabalho de or- denamento do mundo, que não parece estável sem este recurso suplementar, original, que consiste em seu sinthoma. Penso que este seja um caso de psicose ordinária, é minha leitura. Há uma continuidade dos cinco aos quarenta anos e, com esses recursos originais, ele se arranja na vida de modo estável. Mas há demonstrações que restam por fazer.

Público: Como seria a amarração dos nós com a solução que

ele criou?

Graciela Brodsky: Penso que se trata de uma amarração simbó- lica e imaginária, de modo que os circuitos do significante necessitam de um objeto encarnado. Não é um significante que o orienta funcio- nando como uma via principal, da qual falava Lacan; as vias férreas são circuitos do significante que requerem a presença de um objeto, não

• -1:(

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basta apenas o significante. Mas este raciocínio só pode ser feito no "nó de três" e não no "nó de quatro", onde diríamos que alguns têm o Nome-do-Pai enquanto este senhor tem uma via férrea como su- plência.

Maria Josefina Fuentes: Se este caso fosse de neurose, quando menino ele responderia diante da mãe com a significação dada pelo Édipo como nomeação do simbólico, tal como Lacan afirma em RSI. Então, minha pergunta é se nós podemos dizer que um sinthoma como quarto nó, tal como aparece no Seminário 23, está desde o início para um neurótico ou este é construído como produto de uma aná- lise? Para os sintomas contemporâneos, tal como Fabián Schejtman defende, as anorexias, certas inibições, ou quadros de angústias, cor- respondem a nomeações do imaginário e do real, seguindo Lacan de RU, em um nó borromeano, mas sem que o sujeito faça um uso do sinthoma como tal. Isto é, se a leitura do Seminário 23 invalida a ideia de Lacan das nomeações do real, do simbólico e do imaginário, que seriam próprias da neurose.

Graciela Brodsky: É exatamente a pergunta que vai ao ponto:

em RSI, as funçôes de enodamento do sintoma, ou da inibição ou 1 da angústia são equivalentes, pois Lacan as escreve como modos de 1 amarração dos três registros. Mas no seminário seguinte, não há mais esta equivalência, pois o sinthoma passa a ser o quarto nó e não o nome de um dos nós. Com o sistema de quatro nós e com o sint- homa, a inibição ou a angústia podem funcionar para um sujeito como um sinthoma, mas se trata de uma lógica distinta da de RSI. Cabe a questão de saber se o nó seria ou não borromeano; no "nó de três" sim, porém isto não é claro no "nó de quatro". De qualquer modo, parece-me difícil pensar em sujeitos completamente desamar- rados, com os t~~stros soltos.

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Rômulo Ferreira da Silva: Um esquizofrênico ao extremo.

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Graciela Brodsky: Mas ao menos ele fala. Para mim esse ter-
l ·reno é obscuro; não é evidente que as categorias esquizofrenia, pa- ranoia e autismo funcionem quando passamos ao registro dos nós. Por isto mesmo, abrem-se outras categorias, como doenças da men- talidade, debilidade. Nesta outra nosografia, devemos colocar a psi- cose ordinária, e não como um caso das categorias da neurose, da psicose e da perversão.

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1}1-'

V Heloísa Caldas: A questão é se a concepção do "nó de qua- tro" não afetaria a própria distinção entre neurose e psicose. Isto não muda a nosografia em geral?

Graciela Brodsky: Creio que é esse o ponto, pois com o "nó de quatro" a nosografia que distingue estruturalmente a perversão,

a neurose e a psicose, complica-se. E se quisermos manter a distinção

estrutural, é preciso pensá-lo de outra forma que não seja com o sis-

tema do Nome-do-Pai e da significação fálica. Ao mesmo tempo, as novas formas de pensar a nosografia estendem o campo da psicose

e restringem o campo da neurose. Com o paradigma schreberiano,

éramos todos neuróticos até que se demonstrasse o contrário. Com