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P rojeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanca a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenca católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


—■— Responderemos propóe aos seus leitores:
- aborda questóes da atualidade
" ; controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
i dissipem e a vivencia católica se fortaleca no
- Brasil e no mundo. Queira Deus abencoar
-—■■— este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacao.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca depositada
em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xliii Junho 2002

"Negar-se a si mesmo, Ele nao


o pode" (2Tm2, 12)

O cisma dos cristáos orientáis

O Primado de Pedro

Deus e os animáis carnívoros

"A quebra da Fé" por John Cornwell

"O Evangelho Secreto da Virgem María" por


Santiago Martín

Fabricado um útero artificial

A Eutanasia vista por um médico

Contradicáo entre 2Sm 24, 1 e 1Cr 21,1?

Correspondencia miúda
PERGUNTE E RESPONDEREMOS JUNHO2002
Publica9áo Mensal NM80

Diretor Responsável
SUMARIO
Estéváo Bettencourt OSB "Negar-se a si mesmo, Ele nao
Autor e Redator de toda a materia o pode" (2Tm 2, 12) 193
publicada neste periódico
Rasgando a veste de Cristo:
O cisma dos cristáos orientáis 194
Diretor-Administrador:
D. Hildebrando P. Martins OSB Percorrendo a historia:
O Primado de Pedro 200
Administra9áo e Distribuicáo:
Podem coexistir?
Ediles "Lumen Christi"
Deus e os animáis carnívoros 217
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5o andar -sala 501
Tel.: (0XX21) 2291-7122 Mais um livro tumultuante:
"A Quebra da Fé" por John Cornwell .... 223
Fax (0XX21) 2263-5679
Romanceando:
Endere9O para Correspondencia: "O Evangelho Secreto da Virgem María"
Ed. "Lumen Christi" por Santiago Martín 229
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A ciencia avanza...
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
Fabricado um útero artificial 233

Visiteo MOSTEIRO DE SAO BENTO Morte suave?


e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" A Eutanasia vista por um médico 236
na INTERNET: http://www.osb.org.br Exegese bíblica:
e-mail: lumen@alfalink.com.br Contradicáo entre
2Sm 24, 1 e 1Cr 21, 1? 239
IMPIIE«*A0
Correspondencia miúda 240

ClUnC* MAR0UIS SAKAIVA


COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

"Jesús na boca do povo" (ÉPOCA). - "O Messias antes de Jesús" (I. Knohl). - Dom Vital
em Processd de Canon ¡zacáo. - Como rezar num mundo trepidante? - Abusos sexuais
na Igreja. - Ordalías: que sao? - "O Sucesso do Pecador" (VEJA). - O Diálogo de Assis
para a Paz. - "Me dé um conselho".

PARA RENOVACAO OU NOVA ASSIN ATURA (ANO 2002,


DEFEVEREIROADEZEMBRO): R$ 35,00.
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1. Enviar, em Carta, cheque nominal ao MOSTEIRO DE SAO BENTO/RJ.


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do Mosteiro de S. Bento/RJ ou BANCO BRADESCO, agencia 2579-8 na C/C 4453-9
das Edicóes Lumen Christi, enviando em seguida por carta ou fax comprovante do
depósito, para nosso controle.

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Obs.: Correspondencia para: Edicóes "Lumen Christi"
Caixa Postal 2666
20001-970 Rio de Janeiro - RJ
"NEGAR-SE A SI MESMO, ELE NAO O PODE"
(2Tm 2,12)

Em 2Tm 2,10-12 Sao Paulo transcreve um hiño da Liturgia antiga, que


termina com as palavras; "Se somos infiéis, Ele permanece fiel, pois, negar-se
a si mesmo, Ele nao o pode".
O texto afirma que Deus é fiel, fazendo eco a Dt 7,9: "Deus é o Deus fiel,
que mantém a alianca e o amor por mil geracoes". A palavra grega pistos (fiel),
na linguagem profana dos tempos de Sao Paulo, significava "aquele em cujas
máos alguém se podia entregar sem receio ou tranquilamente, pois ele nao
engaña seus amigos nem os explora". Pois bem; esse Deus fiel criou cada ser
humano por pura benevolencia, nao por interesse nem por necessidade, mas
porque o bem é difusivo de si, e Deus, sendo o Sumo Bem, é sumamente
difusivo ou ccjmunicativo de si. Por conseguirte, na raiz da existencia de cada
criatura humana (mesmo do aidético e do criminoso assaltante) há um ato de
amor de Deus gratuito e irreversível, que planejou fazer de cada ser humano
um reflexo de sua beleza e santidade. Esse amor é irreversível; é Sim. Sim urna
vez por todas, visto que "os dons de Deus sao irrevogáveis" (Rm 11, 29). Ou
ainda, conforme o Profeta: "Os montes podem mudar de lugar, as colinas po-
dem abalar-se, mas o meu amor nao mudará, e minha alianca de paz nao será
abalada, diz o Senhor, aquele que se compadece de ti" {Is 54,10).
É este amor irreversível de Deus que o símbolo do Coracáo de Jesús
quer significar. Ele apareceu a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-90) numa
época em que o jansenismo incutia urna religiosidade de temor e desánimo,
afirmando que o Senhor nao morreu na Cruz por todos, mas por seus privilegi
ados. As aparicóes de Jesús á santa vidente querem incutir ao cristáo a inédita
verdade, base de todo o Cristianismo: "Ele nos amou primeiro" (1 Jo 4,19). Isto
quer dizer que, da parte do Criador, tudo nos foi dado de antemáo; nao temos
que atrair a benevolencia divina ou comprar seus favores. Por mais que o ho-
mem renegué esse amor, ele o encontra incansável, sempre o mesmo, cada
vez que volta ao seio do Salvador. Com outras palavras: a medida da fidelidade
de Deus as suas criaturas nao é a medida da fidelidade das criaturas a Deus.
Ainda que seja difícil ao homem conceber o Absoluto e Definitivo (já que toda
criatura é volúvel), saiba que o Absoluto existe e tal é precisamente o amor do
Criador á sua criatura.
O mes de junho, dedicado ao Sagrado Coracáo de Jesús, recorda estas
verdades, ilustradas pela estória da santa que certa vez terá perguntado a Je
sús o que foi feito de Judas; ao que o Senhor haverá respondido: "Nao to digo,
para que nao abuséis da minha misericordia". Terá Judas aceito a graca que na
última hora ainda o convidava á conversáo? E quantos seráo aqueles que no
derradeiro instante de sua peregrinacao terrestre se deixaram tocar pela graca,
ainda que nao tenham exteriorizado o seu arrependimento? Na verdade, o amor
"atormenta", pois nao desiste de querer o bem do ser amado, mesmo quando
este nao ama o Amor.
Possam estas reflexóes (que o homem jamáis ousaria realizar por si mes
mo) avivar nos prístaos o desejo de renovada fidelidade Aquele que é sempre
fiel, pois, "negar-se a si mesmo, Ele nao o pode"!
E.B.

193
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XLIII - Ns 480 - Junho de 2002

Rasgada a veste de Cristo:

O CISMA DOS CRISTÁOS ORIENTÁIS

Em síntese: Os crístáos orientáis separaram-se da Santa Sé ou de


Roma em 1054 após varios litigios de fundo cultural mais do que de índo
le doutrináría. Entre o Oriente e o Ocidente foi-se cavando um fosso devi-
do as diferengas de idioma (grego e Iatim), modo de celebrar a Liturgia,
casamento dos clérigos orientáis... Ñas atuais conversagóes para o rea-
tamento de relagóes o ponto mais nevrálgico é o primado do Papa, que
os orientáis nao querem aceitar. O artigo abaixo responde a urna expla-
nagáo divulgada via internet, expondo a historia do cisma oriental.
* * *

Foi divulgado via ¡nternet um relato da historia e dos porqués do


cisma dos cristáos orientáis com o título "O Grande Cisma da Igreja
Ecuménica" e da autoría do Rev. George Mastrantonis, da arquidiocese
ortodoxa grega da América. O autor quer justificar o cisma, ocorrido em
1054, alegando a prepotencia dos bispos de Roma (Papas), que teriam
atribuido a si faculdades de governo e jurisdigáo indevidas ou mal funda
mentadas. As atuais conversagóes para a restauracáo da comunháo entre
cristáos ocidentais e orientáis tém por ponto mais nevrálgico precisa
mente o primado de Pedro, que se prolonga nos sucessores do Apostólo.
Os orientáis (também ditos "ortodoxos", porque guardaram a reta fé no
período das grandes heresias ou nos séculos III-IV) nao conhecem pri
mado; tém igrejas nacionais autocéfalas, cada qual governada por um
Sínodo próprio. Sem discutir esta posicáo, passamos a apresentar a his
toria, táo objetivamenta quanto possível, do cisma bizantino.

No artigo subseqüente a este, abordaremos o primado do Papa na


historia do Cristianismo.

A ruptura entre bizantinos e ocidentais, que tomou sua forma defi


nitiva no século XI, nao é senáo o último episodio de urna longa historia
ou da historia das diferengas de duas mentalidades: a grega e a latina.

194
O CISMA DOS CRISTÁOS ORIENTÁIS

Sobre a uniáo na fé e no amor de Cristo, que estreitavam orientáis e


ocidentais, prevaleceu, infelizmente, a desuniáo humana natural.

Comecemos, pois, por examinar as raízes do cisma.

1. As diferengas entre bizantinos e latinos

1. Há urna diversidade fundamental, que se manifestava de ma-


neiras diversas:

a) O genio. Os gregos eram intelectuais, cultores da filosofía, das


letras e das artes. A elaboracáo das grandes verdades da fé a respeito
da SS. Trindade e de Jesús Cristo deu-se no Oriente (até o Concilio de
Constantinopla III, 680/1). Por isto tendiam a desprezar os romanos e,
mais ainda, os bárbaros invasores, como rudes e incultos. - Os latinos
eram mais amigos da prática, da disciplina, do Direito; por ¡sto tinham os
gregos na conta de frivolos, inconstantes e tagarelas (cf. At 17,21); dizia-
se no Ocidente: "Graeca fides, nulla fides", ¡sto é, "palavra de grego, pa-
lavra nula". Essa diversa índole suscitou, a partir do século V, um antago
nismo crescente entre orientáis e ocidentais.

b) A língua. Os primeiros documentos da Roma crista eram redigi-


dos em grego. Depoís do século IV, porém, esta língua desaparece do
Ocidente, dando lugar ao latim {= dialeto do Lacio ou da regiáo de Roma).
O latim era desprezado e desconhecido no Oriente, especialmente após
o Imperador Justiniano (t 565). É de notar, por exemplo, que o
arquidiácono latino Gregorio (depois Papa), certamente homem de valor
intelectual, passou cinco anos na corte de Constantinopla como legado
papal, sem aprender o grego; julgava que isto nao valia a pena (fim do
século VI). - Ora a ignorancia mutua de línguas muito contribuiu para
que as comunicacóes entre Oriente e Ocidente se tornassem mais raras
e sujeitas a mal-entendidos; era preciso recorrer a intérpretes, que nem
sempre eram fiéis.

c) Liturgia e disciplina. Havia tradicóes diferentes no Oriente e no


Ocidente, no tocante, por exemplo, ao calendario de Páscoa, aos dias de
jejum (os latinos jejuavam no sábado; os gregos, nao), á materia da Eu
caristía (pao sem fermento ou ázimo no Ocídente; pao fermentado no
Oriente), ao celibato do clero, ao uso da barba (muito caro aos orien
táis)... Essas tradicóes, por nao afetarem as verdades da fé, eram perfei-
tamente aceítáveis; haveriam, porém, de tomar-se motivo de debates em
tempos de controversia.

2. Ao lado da diversidade fundamental, levemos em consideracáo


a mentalídade que se foi formando em Bízáncio ou o "bizantinismo".

Em 330 Constantino transferiu a capital de Roma para Bizáncio,


que ele quis chamar "a nova Roma". Esta fora até entáo urna localidade
insignificante, que muito sofrera por parte dos Imperadores Romanos.

195
TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

Do ponto de vista eclesiástico, Bizáncio também carecía de significado; a


sua comunidade crista nao fora fundada por algum dos Apostólos {como
as de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Roma...); o primeiro bispo que
se Ihe conhece, Metrófanes, é do inicio do século IV (315-325) e
sufragáneo1 do metropolita de Heracléia.

Compreende-se entáo que, o prestigio que Bizáncio nao possuia


por suas tradicoes, os bizantinos o quisessem obter por suas reivindica-
cóes. De modo geral, ¡a-se tornando difícil aos bizantinos reconhecer a
autoridade religiosa de Roma, já que todo o esplendor da corte imperial
se havia transferido para Constantinopla.

Acresce que os Imperadores bizantinos, herdeiros do conceito pa-


gáo de Pontifex Maximus {Pontífice Máximo no plano religioso), se in-
geriam demasiadamente em questóes eclesiásticas, procurando manter
a Igreja oriental sob o seu controle. Os monarcas, ñas controversias teo
lógicas, muitas vezes favoreciam as doutrinas heréticas, contrapondo-se
assim a Roma e ao seu bispo, que difundiam a reta fé. Os Patriarcas de
Constantinopla, por sua vez, muito dependentes do Imperador, procura-
vam a preeminencia sobre as demais sedes episcopais do Oriente e que-
riam rivalizar com o Patriarca de Roma, sucessor de Pedro, aderindo á
heresia e provocando cismas: dos 58 bispos de Constantinopla desde
Metrófanes até Fócio (858), um dos vanguardeiros da ruptura, 21 foram
partidarios da heresia; do Concilio de Nicéia. I (325) até a ascensáo de
Fócio (858), a sede de Bizáncio passou mais de 200 anos em ruptura
com Roma.

Registraram-se mesmo atos de violencia cometidos por Imperado


res contra alguns Papas: Justino I mandou buscar á forpa o Papa Vigílio
em Roma e quis obrigá-lo a subscrever normas religiosas baixadas pelo
monarca (cerca de 550); Constante III procedeu de forma análoga contra
0 Papa Martinho I, que em Roma (649) se opusera á heresia monotelita,
favorecida pelo Imperador; Justiniano II mandou prender em Roma o Papa
Sergio I, que nao queria reconhecer ¡novacóes promulgadas pelo Conci
lio Trulano II (692); Leáo III, iconoclasta, em 731 subtraiu a Roma ajuris-
dicáo sobre a Ilíria e sobre parte do "Patrimonio de S. Pedro" (Italia meri
dional).

3. O distanciamento entre orientáis e ocidentais ainda foi acentua


do pela criacáo do "Sacro Imperio Romano na Nacao dos Francos", cujo
primeiro Imperador Carlos Magno recebeu a coroa, em 800, das máos do

1 A palavra sufragáneo supóe o seguirte: outrora as dioceses ou os bispados se


reuniam em provincias; os bispos da provincia escolhiam seu metropolita (seu
coordenador) e emitiam seu sufragio no Concilio provincial; daí o nome sufragáneo.
Atualmente sufragáneo é o bispo dependente de um arcebispo (numa dependencia
assaz tenue).

196
O CISMA DOS CRISTÁOS ORIENTÁIS

Papa Leáo III. - O descaso ou a hostilidade dos bizantinos associados á


opressáo dos lombardos no Norte da Italia, deram motivo a que os Papas
se voltassern aos poucos, com olhar simpático, para o povo recém-con-
vertido dos francos, pedindo-lhes o auxilio necessário para instaurar nova
ordem de coisas no Ocidente. A entrega da coroa imperial a Carlos Mag
no visava a prestigiar os francos nessa sua missáo. Como se compreen-
de, em Bizáncio tal ato foi mal acolhido; os orientáis julgavam que só
podia haver um Imperio cristao, como só pode haver um Deus; o Impera
dor reinava em nome de Cristo e era como que o representante visível da
unidade da Igreja; daí grande surpresa e escándalo quando souberam
que o bispo de Roma sagrara em 800 um "bárbaro" para govemar um
segundo Imperio cristáo!

Apesar de tudo, deve-se dizer que até o século IX o primado de


Roma ainda era satisfatoriamente reconhecido pelos orientáis. A tensáo
de ánimos se manifestou em termos novos e funestos sob a chefia dos
Patriarcas Fócio (t 897) e Miguel Cerulário (t 1059).

2. A ruptura sob Fócio

Em 858 foi ilegitimamente deposto por adversarios políticos o Pa


triarca Inácio de Constantinopla. Em seu lugar, subiu á cátedra episcopal
um comandante da guarda imperial, Fócio, que o Imperador favorecía. O
novo prelado recebeu em cinco días todas as ordens sacras e foi
empossado, sem que a sé estivesse vaga (pois Inácio nao renunciara).

Nao conseguindo impor-se ao bispo de Roma, que em 863 o de-


clarou destituido das funcoes pastorais, Fócio, ainda apoiado pelo Impe
rador, abriu violenta campanha contra os cristáos ocidentais. A situacáo
se tornou mais tensa pelo fato de que o Papa Nicolau I enviou missioná-
rios latinos á Bulgaria, cujo rei Bóris, recém-batizado, hesitava entre a
obediencia a Roma e a obediencia a Constantinopla. A entrada dos lati
nos em territorio tao próximo das fronteiras gregas irritou os bizantinos; a
cólera chegou ao auge quando estes souberam que legados de Roma
estavam a caminho de Constantinopla, onde deveriam informar o Impe
rador de que a Bulgaria se tornara decididamente latina. Presos antes de
penetrarem em territorio imperial, os legados do Papa foram expulsos
(866); Fócio enviou urna carta aos bispos do Oriente condenando a con-
duta dos "ocidentais bárbaros": além da evangelizacáo da Bulgaria, cen-
surava-os por praticarem o jejum no sábado, celebrarem a Eucaristía com
pao ázimo e,... principalmente, por terem acrescentado o Filioque ao
Símbolo da Fé. Como sabemos, o credo niceno-constantinopolitano pro-
fessava: "Creio no Espirito Santo, que procede do Pai...". Todavía a partir
de fins do século VI, a Igreja na Espanha propagou a fórmula: "...que
procede do Pai e do Filho (Filioque)". Na Franca este acréscimo foi sen
do aceito; Carlos Magno patrocinou-o. Os monges francos o cantavam

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

no Monte das Oliveiras em Jerusalém, aínda que por isto fossem dura
mente atacados pelos gregos e acusados de heresia (808). O Papa Leáo
III (795-816), em atencáo aos gregos, desaprovou o uso dos latinos e
aconselhou os francos a deixar de o fazer; mas nao foi atendido. - Ora
Fócio levantou com veeméncia contra os ocidentais a acusacáo de te-
rem alterado o Credo1.

Por conseguinte, um Concilio reunido em Constantinopla em 867


depós Nicolau I, que morreu naquele mesmo ano, dez dias depois que o
Patriarca Fócio fora destituido por urna revolucáo palaciana. Inácio foi
recolocado na sé patriarcal. Em 869/70 celebrou-se o oitavo Concilio
Ecuménico em Constantinopla, sob a direcáo de tres legados papáis; foi
excomungado Fócio e a comunháo com Roma foi restabelecida. Mas de
novo em 879 Fócio assumiu a sé de Constantinopla; reuniu um sínodo
nesta cidade em 879/80, que rejeitou o de 869/70 e hostilizou os latinos
(os gregos consideram este o oitavo Concilio Ecuménico). Fócio morreu
num mosteiro em 897 ou 898. Os Patriarcas seguintes restauraram e
confirmaram a uniao com Roma, a qual, porém, estava gravemente aba
lada após tantas discordias.

3. A cisáo definitiva em 1054

O século X foi marcado pela criacáo do Sacro Imperio Romano da


Nacáo Germánica com a dinastía dos Otos (962) - o que muito irrítou os
bizantinos, que viam nesse fato a renovacáo do gesto de 800 (coroacáo
de Carlos Magno Imperador). As relacóes com Roma eramfrias; bastaría
um pequeño incidente para reavivar as acusacóes feitas no passado.
Isto, de fato, aconteceu em 1014: o Papa Bento VIII introduziu o Filioque
no canto da Igreja Romana a pedido do Imperador Henrique II. O Patriar
ca bizantino Sergio II reagiu, propagando os escritos de Fócio sobre o
assunto. Em 1043 tornou-se Patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário,
homem ambicioso, que deu livre curso á paixáo anti-romana; em 1053
mandou fechar as igrejas dos latinos em Constantinopla e confiscou os
mosteiros destes; acusava-os principalmente de usar pao ázimo na Eu
caristía; um dos funcionarios imperiais parece ter calcado aos pés as
hostias dos "azimitas" como nao consagradas. Estes fatos causaram gran
de agitacio no Ocidente; o Cardeal Humberto da Silva Candida, erudito
e talentoso, escreveu um "Diálogo", em que refutava as objecóes dos
gregos e os acusava de Macedonismo (por nao aceitarem o Filioque).

Todavía o Imperador bizantino Constantino IX desejava boas rela


cóes com o Papa Leáo IX para que este o ajudasse a combater os
normandos, que devastavam as possessóes bizantinas na Italia Meridio-

1 A teología latina explica que o Espirito procede nao somente do Pai, mas também
do Filho; em caso contrario, nao se distinguiría do Fitho, já que "em Deus tudo é um
só a nao ser que naja oposicáo relativa".

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O CISMA DOS CRISTÁOS ORIENTÁIS

nal; em resposta a urna carta do Imperador, Leáo IX enviou urna legacáo


a Constantinopla em 1054, composta pelo Cardeal Humberto da Silva
Candida e por dois outros prelados. O Imperador mandou queimar um
libelo acusatorio anti-romano para favorecer o diálogo. Mas Miguel
Cerulário se mostrou intransigente; chegou a proibir os ocidentais de
celebrar Missa em Constantinopla. Á vista disto, os legados romanos re-
agiram com o recurso extremo: aos 16/07/1054, em presenca do clero e
do povo depositaram sobre o altar-mor da basílica de Santa Sofia em
Constantinopla urna Bula de excomunháo contra Cerulário e seus segui
dores; despediram-se do Imperador e tomaram o caminho de volta para
Roma. - Os legados papáis julgavam que, diante deste gesto, o Patriar
ca retrocedería. Em váo, porém; Miguel Cerulário excitou tumulto em
Constantinopla contra o Imperador acusado de cumplicidade com os ro
manos; Constantino IX reagiu violentamente. Num Sínodo o Patriarca
pronunciou o anatema sobre o Papa e seus legados e promulgou o ma
nifestó que convidava os demais bispos do Oriente a se Ihe associarem.
Na verdade, o proceder de Cerulário foi em breve imitado pelos outros
bispos orientáis e pelos povos evangelizados por Bizáncío (servios,
búlgaros, rumenos, russos), acarretando a grande divisáo que até hoje
perdura apesar das tentativas de reatamento que se deram nos séculos
XIII e XV.

Quanto a Cerulário, levou sua paixao ao ponto de reivindicar para


si as insignias imperiais; por isto em 1057 foi exilado pelo Imperador
Isaac I e morreu no desterro em 1059.

Em nossos dias verifica-se que a cisao nao se fundamenta apenas


em motivos teológicos, mas também em razóes de rivalidade cultural e
política acobertadas por pretextos religiosos. A profissáo do Filioque
decorre de um estudo mais preciso do dogma trinitario, plenamente
consentaneo com as verdades da fé; nao é necessário que os orientáis o
introduzam no seu canto litúrgico. A excomunháo mutua de Roma e
Constantinopla foi cancelada após o Concilio do Vaticano íleo caminho
está aberto para bom entendimento entre orientáis e latinos. Aqueles
tém o título de ortodoxos, porque ficaram fiéis á reta doutrina durante as
controversias cristológicas dos séculos Ill-V.

A Santa Igreja, representada pelo sucessor de Pedro em Roma e


pelos fiéis que estáo em comunháo com ele, continua a ser, mesmo após
a separacáo de Bizáncio, a depositaría junto á qual os homens encon-
tram incontaminados os meios necessários á sua santificacáo.

1 Bula era outrora um pequeño globo (bola) de metal portador do selo do Papa, que
servia para autenticar os documentos pontificios mais importantes. Por extensáo, a
palavra passou a designar o próprio documento pontificio assim selado e, aínda,
toda Carta Papal salada querpor um globo (bula) de metal, querpor um Carimbo de
cera ou barro.

199
Quais sao?

AS DIFEREN<?AS ENTRE CATÓLICOS


E ORIENTÁIS ORTODOXOS

Em síntese: Sao treze as principáis diferengas doutrinárias e dis


ciplinares que distancian) católicos e ortodoxos orientáis uns dos outros:
os ortodoxos nao aceitara o primado e a infalibilidade do Papa, a processáo
do Espirito Santo a partir do Filho, o purgatorio postumo, os dogmas da
Imaculada Conceigao e da Assungáo de María SSma., o Batismo por
infusao (e nao por imersao),a falta da epiclese na Liturgia Eucarística, o
pao ázimo (sem fermento) na celebragáo eucarística, a Comunháo
eucarística sob a especie do pao apenas, o sacramento da Ungáo dos
Enfermos como é ministrado no Ocidente, a indissolubilidade do
matrimonio, o celibato do clero. Como se pode ver, nem todos esses pon
tos diferenciáis sao da mesma importancia. O mais ponderoso é o da
fidelidade ao Papa como Pastor Supremo, assistido pelo Espirito Santo
em materia de fé e de Moral.

Sao treze1 os pontos que distinguem dos fiéis católicos os cristáos


ortodoxos orientáis. Váo, a seguir, enumerados e comentados.

Seja observado, logo de inicio, que em geral os orientáis tém por


ideal a volta da Igreja ao que ela era até o sétimo Concilio Geral (Nicéia
II em 787), pois só aceitam os Concilios de Nicéia I (325), Constantinopla
I (381), Éfeso (431), Calcedonia (451), Constantinopla II (553),
Constantinopla III (681), Nicéia II (787). O Concilio de Constantinopla IV,
que excomungou o Patriarca Fócio em 869/870, é rejeitado pelos orientáis.
1. Primado do Papa. Alega a teología ortodoxa que a jurisdicáo
universal e suprema do Papa implica que os outros bispos sao subordi
nados a ele como seus representantes.

A esta concepcáo responde o Concilio do Vaticano II: "Aos Bispos


é confiado plenamente o oficio pastoral ou o cuidado habitual e cotidiano
das almas. E, porque gozam de um poder que Ihes é próprio e com toda
razao sao antístites dos povos que eles governam, nao devem ser consi
derados vigários (representantes) do Romano Pontífice" (Constituicáo
Lumen Gentium 27).

O primado do Bispo de Roma ou do Papa garante a unidade e a coe-


sáo da Igreja, preservando-a de iniciativas meramente pessoais e subjetivas.
' Valemo-nos de noticia colhida na intemet, da autoría do Rev. George Mastrantonis,
já citado no artigo anterior a este.

200
AS DIFERENCAS ENTRE CATÓLICOS E ORIENTÁIS ORTODOXOS 9

2. Infalibilidade. Em 1870, fazendo eco a antiga crenca dos cristáos,


o Concilio do Vaticano I declarou o Papa infalível quando fala em termos
definitivos para a Igreja inteira em materia de fé de Moral. - A teología orto
doxa oriental alega que esta definicao extingue a autoridade dos Concilios.

Respondemos que os Concilios gerais ou universais tém plena ra-


záo de ser, desde que o Papa deles participe (por si ou por seus delega
dos) e aprove as suas conclusóes. Em nossos dias mais e mais se tem
insistido sobre a colegialidade dos Bispos.

3. A processáo do Espirito Santo a partir do Filho (Filioque).


Esta concepcáo da Igreja Católica decorre do fato de que "em Deus nao
há distincóes a nao ser onde haja oposicáo relativa". Se, portanto, entre
o Filho e o Espirito Santo nao há a distincao de Espirante e Espirado, um
nao se distingue do outro ou o Filho e o Espirito Santo sao urna só Pes-
soa em Deus. Verdade é que Jesús em Jo 15, 26 diz que o Espirito pro
cede do Pai; o Senhor, porém, nao tenciona propor ai urna teología siste
mática, mas poe em relevo um aspecto da verdade sujeito a ser comple
tado pela reflexáo.

Na verdade, a questáo em foco é mais de linguagem do que de


doutrina, como foi demonstrado em PR 442/1999, pp. 120ss. Os orien
táis preferem dizer que o Espirito Santo procede do Pai através do Filho
- o que pode ser concillado com a posicáo dos ocidentais.

4. Purgatorio. Os orientáis nao tiveram dificuldade para aceitá-lo


até o século XIII. Em 1231 ou 1232 o metropolita Georges Bardanes, de
Corfú, pós-se a impugnar o presumido fogo do purgatorio, pois na verda
de nao há fogo no purgatorio. Os teólogos orientáis subseqüentes apola-
ram a contestacáo (muito justificada) de G. Bardanes. Mas nem por isto
negaram um estado intermediario entre a vida terrestre e a bem-
aventurarla celeste para as almas daqueles que morrem com resquici
os de pecado; estes seriam perdoados por Deus em vista da oracao da
Igreja; estariam assim fundamentados os sufragios pelos defuntos.

A absoluta recusa do purgatorio só ocorreu entre os orientáis no


século XVII sob a influencia de autores protestantes. Daí por diante a
teología oriental está dividida; há muitos teólogos ortodoxos que admi-
tem um estado intermediario entre a morte e a bem-aventuranca celeste
como também reconhecem o valor dos sufragios pelos defuntos.

5. A Imaculada Conceicáo de María. Esta é, por vezes, confundi


da com um pretenso nascimento virginal de María SSma. (Santa Ana
teria concebido sua filha sem a colaboracao de Sao Joaquim). Já que tal
concepcio virginal carece de sólido fundamento, também a Imaculada
Conceicáo é posta em dúvida pelos orientáis. Ocorre, porém, que a lite
ratura e a Liturgia dos ortodoxos enaltecem grandemente a total pureza

201
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

de María, professando a mesma coisa que os ocidentais, ao menos de


modo implícito, sem chegar a formular um dogma de fé a respeito.

6. A Assuncáo de María SSma. Foi proclamada como dogma de


fé em 1950 pelo Papa Pío XII, de acordó com a tradicáo teológica ociden-
tal e oriental. Merece especial atencáo a iconografía oriental, que repre
senta de maneira muito expressiva a Virgem sendo assumida aos céus
por seu Divino Filho. Na verdade, o que fere os orientáis, nao é a procla-
macáo da Assuncáo; mas a promulgacáo do dogma (como no caso da
Imaculada Conceicáo).

7. Batismo por infusáo ou aspersáo da agua. Dizem os teólogos


ocidentais que o importante no Batismo é o contato da agua com o corpo
da pessoa, simbolizando purificacáo. Se o sacramento é um sinal que reali
za o que significa, a agua batismal significa e realiza a purificacáo da alma.

8. Epiclese. Os orientáis julgam essencial na Liturgia Eucarística a


invocacáo do Espirito Santo (epiclese) antes das palavras da consagra-
cao; ora estas faltam no Canon Romano (Oragáo Eucarística n91), pois
os latinos julgam que a consagracao do pao e do vinho se faz pela repe-
ticao das palavras de Cristo: "Isto é o meu corpo... Isto é o meu san-
gue...". Acontece, porém, que as Oracóes Eucarísticas compostas de-
pois do Concilio (1962-65) tém a epiclese nao para corrigir urna pretensa
falha anterior, mas para guardar urna antiga tradicáo.

9. Pao ázimo. Jesús, em sua última ceia, observou o ritual da Pás-


coa judaica, que prescrevia (e prescreve) o uso do pao ázimo ou nao
fermentado. A Igreja Católica guardou o costume na celebracáo da Eu
caristía. Está bem respaldada. O uso do pao fermentado nao é excluido,
pois, em última análise, se trata sempre de pao.

10. A Comunháo Eucarística sob as especies do pao apenas.


Até o século XII a Comunháo era ministrada sob as duas especies; o uso
foi abolido por causa de inconvenientes que gerava (profanacáo, sacrile
gios...). Todavía após o Concilio já é permitido dar a Comunháo sob as
duas especies a grupos devidamente preparados.

11. Uncáo dos Enfermos. Baseados em Tg 5, 14s, os orientáis


ortodoxos tém a Uncáo dos Enfermos como sacramento. Divergem, po
rém, dos ocidentais em dois pontos:

- a Uncáo nao é reservada aos gravemente enfermos nem tem a


marca de preparacáo para a morte, mas, ao contrario, vem a ser um rito
de cura para qualquer enfermo;

- a Uncáo, no Oriente, tem forte caráter penitencial, a tal ponto que


ela é conferida também aos pecadores, mesmo sadios, a título de satis-
facáo pelos pecados.

202
AS DIFERENgAS ENTRE CATÓLICOS E ORIENTÁIS ORTODOXOS 11

Pode-se dizer, portanto, que a Uncáo "dos Enfermos" ñas comuni


dades orientáis ortodoxas é dada a todos os fiéis que tenham algum pro
blema de saúde corporal ou espiritual. Isto ocorre especialmente na Se
mana Santa entre os russos.

Essas diferencas, que nao sao das mais graves, foram muito ex
ploradas nos debates entre latinos e gregos. Os ocidentais reservam a
Uncáo para os casos de molestias graves ou serio perigo de vida.
12. Divorcio. Baseados em Mt 5, 32 {= Mt 19, 9) e contrariamente
ao que se lé em Me 10, 11 s; Le 16, 18; 1Cor 7, 10s, os ortodoxos reco-
nhecem o divorcio. A Igreja Católica nao interpreta Sao Mateus em sen
tido contrario ao de Marcos, Lucas e Paulo; portanto nao reconhece o
divorcio de um matrimonio sacramental validamente contraído e consu
mado, mas julga que em Mt 5 e 19 se trata da dissolucáo de um casa
mento tido pela Lei de Moisés como ilícito. Ulteriores dados podem ser
encontrados em PR 473/2001, pp. 453ss.

13. Celibato do Clero. Seria "urna restricáo imposta nos séculos


posteriores, contraria á decisáo do primeiro Sínodo Ecuménico (325)".
Que há de verídico nisso?

O celibato do clero tem seu fundamento em 1Cor 7, 25-35, onde


Sao Paulo recomenda a vida una ou indivisa. Esta foi sendo praticada
espontáneamente pelo clero até que, em 306 aproximadamente, o Con
cilio regional de Elvira (Espanha) a sancionou para os eclesiásticos de
grau superior. A legislacáo de Elvira foi-se propagando no Ocidente por
obra de outros concilios regionais.

Ao contrario, os orientáis estipularam que, após a ordenacáo, os


clérigos de grau superior (ou do diaconato para cima nao poderiam con-
trair matrimonio, mas eram autorizados a manter o uso do matrimonio os
que se tivessem casado antes da ordenacao. O Concilio de Nicéia I (325)
rejeitou a proposta segundo a qual o celibato no Oriente seria observado
sem excecoes, como no Ocidente; isto, por protesto do Bispo egipcio
Pafnúncio, o qual guardava pessoalmente o celibato. Os Bispos orientáis
sao todos celibatários e, por isto, recrutados entre os monges.

Como se vé, algumas das diferencas apontadas sao disciplinares


e nao impedem a volta á unidade de cristáos orientáis e ocidentais. Po-
dem-se admitir o pao fermentado na Eucaristía, a obrigatoriedade da
epiclese, o clero casado... O maior obstáculo é o do primado do Papa.
Paulo VI e Joáo Paulo II demonstraram ter consciéncia do problema, que
poderá ser resolvido satisfatoriamente. Eis o que escreve Joáo Paulo II
em sua encíclica Ut Unum Sint datada de 25/05/95:

"Entre todas as Igrejas e Comunidades Eclesiais, a Igreja Católica


está consciente de ter conservado o ministerio do sucessor do Apostólo

203
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

Pedro, o Bispo de Roma, que Deus constituiu como perpetuo e visfvel


fundamento da unidade e que o Espirito ampara para que torne partici
pantes deste bem essencial todos os outros. Segundo a feliz expressao
do Papa Gregorio Magno, o meu ministerio é de servus servorum Dei...
Poroutra parte, como pude afirmar por ocasiáo do Encontró do Conselho
Mundial das Igrejas em Genebra aos 12 de junho de 1984, a convicgáo
da Igreja Católica de, na fidelidade á Tradigáo apostólica eafé dos Pa
dres, ter conservado, no ministerio do Bispo de Roma, o sinal visível e o
garante da unidade, constituí urna dificuldade para a maior parte dos ou
tros cristáos, cuja memoria está marcada por certas recordagóes doloro-
sas. Por quanto sejamos disso responsáveis, como o meu Predecessor
Paulo VI, imploro perdáo" (n9 88).

"Com o poder e a autoridade sem os quais tal fungáo seria ilusoria,


o Bispo de Roma deve assegurar a comunháo de todas as Igrejas. Por
este titulo, ele é o primeiro entre os servidores da unidade. Tal primado é
exercido em varios níveis, que concernem a vigilancia sobre a transmis-
sáo da Palavra, a celebragáo sacramental e litúrgica, a missáo, a discipli
na e a vida crista. Compete ao sucessorde Pedro recordaras exigencias
do bem comum da Igreja, se alguém for tentado a esquecé-lo em fungáo
dos interesses próprios. Tem o dever de advertir, admoestar e, por vezes,
declarar inconciliável com a unidade da fé esta ou aqueta opiniáo que se
difunde. Quando as circunstancias o exigirem, fala em nome de todos os
Pastores em comunháo com ele. Pode aínda - em condigóes bem preci
sas, esclarecidas pelo Concilio do Vaticano I - declarar ex cathedra que
urna doutrina pertence ao depósito da fé. Ao prestar este testemunho á
verdade, ele serve a unidade" (ng 94).
Virígindo-me ao Patriarca Ecuménico Sua Santidade Dimitrios I, dis-
se estar consciente de que, 'por razóes muito diferentes, e contra a vontade
de uns e outros, o que era um servigo pode manifestarse sob urna luz bas
tante diversa'. Mas... é com o desejo de obedecer verdaderamente á vonta
de de Cristo que eu me reconhego chamado, como Bispo de Roma, a exer-
cer este ministerio... O Espirito Santo nos dé sua luz e ilumine todos os
pastores e os teólogos das nossas Igrejas, para que possamos procurar,
evidentemente juntos, as formas mediante as quais este ministerio possa
realizar um servigo de amor, reconhecido por uns e por outros" (n3 95).
Como se vé, o Papa nao abdica (nem pode abdicar) do seu minis
terio, que garante a unidade da Igreja, mas pede que os estudiosos pro-
ponham modalidades de exercício desse ministerio que satisfacam a to
dos os cristáos. - Queira o Espirito inspirar os responsáveis para que
realmente colaborem para a solucao das dificuldades que os cristáos
nao católicos enfrentam no tocante ao primado do Papa!
A propósito muito se recomenda a leitura da encíclica Ut Unum
Slnt (Para que sejam um), sobre o empenho ecuménico, de Joáo Paulo II.

204
Percorrendo a historia:

O PRIMADO DE PEDRO

Em síntese: Em vista de repetidos ataques ao primado do Papa, o


presente artigo percorre os fundamentos bíblicos e os testemunhos his
tóricos que comprovam a autenticidade desse primado. A consciéncia do
alcance do ministerio petrino foi desabrochando aos poucos na Igreja,
estimulada por situagóes em que aparecía com evidencia a necessidade
de um Pastor Supremo, "servo dos servos de Deus".
* # *

A fé católica ensina que ao Bispo de Roma (Papa) toca, na Igreja,


a primazia

nao somente honorífica (sem efeitos de governo)

nem apenas presidencial (o presidente recebe da sociedade a


que ele preside, os respectivos poderes de governo; o Papa, ao contra
rio, nao recebe dos fiéis nem de algum concilio a sua autoridade),

mas urna primazia de jurisdicáo, a qual implica faculdades supre


mas e independentes de algum concilio, poderes que fazem do bispo de
Roma o Pastor da Santa Igreja inteira.

Quais seriam os fundamentos de doutrina táo importante? É o que


se proporá abaixo (§ 1), a fim de se tecerem por fim algumas reflexoes
sobre o título "Igreja Romana" (§ 2).

1. Os fundamentos da doutrina na Revelacáo crista

Antes de se examinarem os dados positivos da Revelacáo, impóe-


se importante observacáo. As verdades cristas se acham contidas ñas
fontes da Revelacáo geralmente sob forma compendiosa, de sorte que
algumas délas só no decorrer dos tempos foram sendo explicitadas e
formuladas em termos bem definidos. Em geral, foi o surto de heresias
que deu ocasiáo a que as proposites da fé recebessem sua expressáo
clara e burilada.

Ora o que se dá com varios dogmas, verifica-se de maneira frisan


te com a doutrina do primado romano. Mais talvez do que se registra com
outras verdades de fé, a afirmacáo desta e de todas as suas conseqüén-
cias esteve sujeita á acáo do tempo; só aos poucos, segundo as neces-
sidades da Igreja, é que os Papas foram exercendo as faculdades

205
114 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

primaciais já expressas, sem dúvida, embrionariamente nos textos evan


gélicos. "Nao seria razoável, portanto, rejeitar o dogma católico sob pre
texto de que o primado do bispo de Roma nao se exercia nos primeiros
séculos com a mesma amplidáo e pelos mesmos meios que o caracteri-
zam hoje em dia... Para que o dogma seja válido, bastará que se possam
apontar desde as origens do Cristianismo, já nos primeiros documentos
da Revelacao, os traeos essenciais desse primado, ou seja, o grao de
mostarda que se tornou grande árvore, a bolota que deu origem ao pu
jante carvalho, a changa no berco que veio a ser o homem feito de épo
cas posteriores" (M. Jugie. Le schisme byzantin 48$).

Feita esta observacáo, procuremos agora

1.1. Os fundamentos bíblicos do primado

Dentre os textos do S. Evangelho, varios há que atribuem a Pedro


urna posicáo privilegiada, ao passo que tres Ihe outorgam auténtico pri
mado de jurisdicao; por fim outras passagens indicam o exercício dessa
preeminencia por parte do Apostólo.

1.1.1. A posicáo privilegiada de Pedro

Ñas solenes ocasióes da ressurreicáo da filha de Jairo (Me 5, 37),


da Transfiguracáo (Mt 17, 1-8; Me 9, 1-8; Le 9, 28-36) e da agonía no
horto das Oliveiras {Mt 26,37; Me 4, 23), Jesús admitiu apenas a compa-
nhia de tres discípulos, dos quais o S. Evangelho menciona em primeiro
lugar Pedro.

No catálogo dos Apostólos, quatro vezes ocorrente no Novo Testa


mento (Mt 10, 2-4; Me 3,16-19; Le 6, 13-16; At 1,13), enquanto varia a
colocacáo dos demais, Pedro é sempre nomeado antes dos outros, sen
do que S. Mateus sublinha explícitamente: "primeiro Simáo, cognominado
Pedro". O título de primeiro nao parece significar idade mais antiga nem
prioridade de vocagáo (nao se podería provar nem urna nem outra coisa;
André tornou-se mesmo discípulo de Jesús antes de Pedro; cf. Jo 1, 40-
42), mas indica certamente preeminencia ou maior dignidade (cf. Mt 20,
27; Me 12, 28-31; Le 15, 22, textos em que a palavra primeiro ocorre
abertamente nao para indicar cronología, mas para designar principal
mente). É o que o próprio Loisy, apesar do seu liberalismo, nao deixa de
reconhecer: "Entre os doze, havia um que era o primeiro, nao somente
pela prioridade de sua conversáo ou pelo ardor de seu zelo, mas por urna
especie de designacáo do Mestre" (L'Évangile et l'Église 134).
Este designio de Jesús se manifesta ainda ñas múltiplas provas de
deferencia que o Senhor mesmo deu a Pedro: Cristo pagou o tributo por
Pedro (Mt 17, 24-27); fé-lo caminhar sobre as aguas (Mt 14, 27-30); no

206
O PRIMADO DE PEDRO 15

dia da ressurreicáo apareceu-lhe em particular (Le 24,34); antes de subir


aos céus, predisse a Pedro o modo como morrena (Jo 21,18).

O próprio Pedro manifestou consciéncia de sua posicao peculiar,


pois em geral era ele quem falava em nome de todos: Mt 14 28-15 15'
16, 16.22; 17,4; 18, 21; 19, 27;26, 33; Mc8, 29; 10, 28; 11, 21; 14, 29; Le
8, 45; 9, 20.33; 12, 41; 18, 28; 22, 31; Jo 6, 68; 13, 6-10.36.

Nao se explicariam os casos de preeminencia de Pedro simples-


mente pelo caráter impetuoso deste Apostólo, sempre pronto a tomar a
dianteira, pois sabemos que os discípulos protestaram contra as preten-
sóes arrogantes dos filhos de Zebedeu (cf. Mt 20, 24), nunca, porém,
contra as atitudes de Pedro; supóe-se, portanto, que estas tinham funda
mento objetivo, outorgado pelo Senhor mesmo.

Todavía, contra a concessao de prerrogativas a Pedro, lembram


alguns exegetas a maneira forte como Jesús rejeitou as tendencias dos
Apostólos á preeminencia (cf. Le 22, 24-27). - Nao há dúvidas; Jesús
condenou as discussóes dos discípulos concernentes á primazia, incul-
cando-lhes a humildade; com isto, porém, nao condenou a auto'ridade
(como se verá adiante), mas apenas o espirito autoritario, prepotente; a
autoridade, Jesús a concebeu, sim, como servico e dedicacáo (cf. Jo 13
4-16; Mt 20, 25-28; Me 10, 41 -45; Le 22, 25-27).

Muito significativa, alias, é a cena do primeiro encontró de Jesús


com Pedro: o Senhor mudou o nome de Simao para Cefas (= Pedro); cf.
Jo 1, 42. Ora a historia do Antigo Testamento só refere dois casos em
que Deus tenha trocado o nome de urna criatura; em ambos, porém,
mudou-o para conferir-lhe solene missáo (a Abraáo, em Gn 17,5; a Jacc\
em Gn 32, 29)1. Também a Pedro Cristo quis confiar urna missáo, que
Jesús mesmo formulou em tres passagens: Mt 16, 17-19; Le 22 30-32-
Jo 21, 15-18.

1.1.2. A missáo confiada a Pedro

Mt 16,17-19. Os críticos nao hesitam sobre a autenticidade desta


passagem, que nao falta em manuscrito algum nem ñas traducóes e cita-
cóes do Evangelho de Mt feitas na antigüidade.

Que quer dizer o Senhor por esses versículos táo saturados de


expressóes semíticas?

Jesús em primeiro lugar promete construir a Igreja, ou seja, a soci-


edade dos seus discípulos, sobre um fundamento que será Rocha, fun-
1 Cf. Gn 17, Ss: "Daqui por diante nao te chamarás mas Abráo, mas chamar-te-ás
Abraáo, porque te destinei para serpai de muitos povos. E farei crescer a tua poste-
ridade infinitamente e te farei chafe das nagóes, e de ti sairáo reis".

207
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

damento indestrutível. Essa rocha, o Senhor a identifica com Pedro pes-


soalmente, e nao com a confissao de fé de Pedro nem com o grupo dos
doze Apostólos. Com efeito, note-se como todo o contexto versa em tor
no da pessoa do Apostólo: é a Pedro diretamente que Jesús dirige as
palavras: "Bem-aventurado éstu..., te revelou... Eu te digo...". Foi o nome
de Pedro que Cristo mudou e é a esse nome mudado que Ele alude,
interpretando-o, consoante o costume bíblico, como sinal de urna tarefa
nova que para o futuro incumbiría ao Apostólo: "Simáo, filho de Joñas...
Pedro (Pedra)...".

Como o rochedo sustenta todo o edificio, comunicando-lhe sua fir


meza, assim no plano moral o que sustenta a sociedade, comunicando-
lhe coesáo, é a autoridade. Ora tal há de ser o papel de Pedro na Igreja
{vé-se que nao é funcáo acidental, mas estrutural).

Continuando, diz o Senhor que a Casa ou a Igreja fundada sobre


Pedro será continuamente assaltada pelas "portas do inferno". As portas,
segundo a linguagem semita, designam no caso o poderío {pois era ás
portas da cidade que se colocavam as forcas armadas outrora). O infer
no (o cheol dos judeus, o Hades dos gregos) significa a Morte ou, con
forme o vocabulario judaico contemporáneo a Cristo, o Mal. Por conse-
guinte, indefectível será a Igreja arquitetada sobre Pedro, pois "o Mal nao
prevalecerá com todo o seu poderío".

Outra prerrogativa se associa á de "Pedro-Fundamento": o Apostó


lo terá as chaves do reino, isto é, a administracao de todas as coisas no
palacio do Reí, na Igreja de Cristo (as chaves sao o símbolo da autorida
de, conforme Is 22, 22; Ap 3, 7s; 9, 1; 20,1).
A mesma prerrogativa é expressa pela dupla funcáo de "ligar e
desligar" (em nossa linguagem, "proibir e permitir"), funcáo que Pedro
exercerá validamente na térra de modo a ser confirmada pelo Pai do Céu
("tudo que ligares na térra...").

Donde se concluí que em Mt 16,18s Jesús prometeu ao Apostólo


Sao Pedro o poder de jurisdicáo sobre toda a Santa Igreja.

Dir-se-á talvez, em contrario, que o Novo Testamento só conhece


um fundamento da Igreja: o Cristo Jesús, mencionado em 1Cor 3, 11. —
Observe-se contudo que o Senhor que disse ser a luz do mundo (cf. Jo 8,
12; 9,5; 12,46), atribuiu o mesmo título aos seus discípulos (cf. Mt 5,14);
por meio de Pedro, e mais fundo do que Pedro, Cristo fica sendo a Ro
cha, o fundamento invisível da Igreja. É esse mesmo Jesús que "possui a
chave de Davi; que abre, de modo que ninguém fecha; que fecha, de
sorte que nínguém abre" (Ap 3, 7). Em Cristo e em Pedro, portante, resi-
dem análogos poderes (designados pelas mesmas metáforas); é de Cristo

208
O PRIMADO DE PEDRO 17

que eles dimanam para o Apostólo, de sorte que este vem a ser o Vigário
ou Representante de Jesús na térra.

Jo 21,15-17.0 primado prometido em Mt 16, 15-19 foi realmente


outorgado após a ressurreicáo, segundo Jo 21. Cristo confiou entáo a
Pedro o pastoreio de todo o seu rebanho, incluindo neste mesmo os de-
mais Apostólos. A imagem do Pastor é clássica na S. Escritura para de
signar o Messias e a sua obra (cf. Mq 2,13; 4, 6s; 5, 3; Sf 3,19; Jr 23 3-
31, 10; Is 40, 11; 49, 9s; Ez 24, 7-24; 37, 23-25; Zc 11, 7-9; Mt 18, 12;
Le 15,4; Jo 10,11-16); ora, confiando a Pedro o encargo de Pastor, Cris
to o constituía naturalmente seu Vigário na térra, e Vigário dotado de
jurisdicáo suprema, estensiva mesmo aos demais ministros e legados de
Deus.

Le 22, 31 s. Um aspecto da suprema fungáo pastoral de Pedro é


especialmente realcado por Jesús na véspera de sua Paixáo: Cristo en
táo declarou que Satanás estava para assaltar a fé de todos os Apostó
los, mas que Ele, o Senhor, havia orado por Pedro, entendendo benefici
ar os demais Apostólos por meio do primeiro; a este conseqüentemente
o Senhor dava logo depois o encargo de corroborar a fé de seus irmáos;
o que quer dizer: o papel que Jesús exerceu em relacáo a Pedro, Pedro
o deveria de seu modo exercer em relacáo a todo o rebanho, mesmo em
relacáo aos demais Apostólos.

1.1.3. O exercício da preeminencia após a Ascensáo de Cristo

Logo após a partida definitiva do Senhor, aparece o Apostólo Pedro


na chefia do grupo de discípulos. Foi ele, por exemplo, quem presidiu á
eleigáo do novo Apostólo, Sao Matías (cf. At 1,15-26);... quem no día de
Pentecostés se encarregou de fazer a primeira proclamacáo de Cristo
(cf. At 2, 14-36); ... quem, na qualidade de juiz da comunidade crista,
puniu Ananias e Safira (cf. At 5, 1 -11. Foi mandado á Samaría com Joáo
(cf. At 8,14), porque se julgava que a sua presenca de chefe das comuni
dades cristas era indispensável para corroborar os fiéis daquela regiáo; a
autoridade de Pedro foi decisiva para se admitirem os gentíos na Igreja
(cf.At11,18)...

Os testemunhos se poderiam multiplicar... Limitar-nos-emos a con


siderar apenas o chamado "incidente de Antioquia" (Gl 2, 11-14). Este
episodio ainda vem a ser um testemunho indireto da autoridade do Pri
maz: Paulo diz ter chamado a atencao de Pedro justamente porque o
exemplo deste Apostólo era de tal modo persuasivo que coagia moral-
mente os étnico-cristáos a o imitarem ou a observarem a Leí de Moisés:
"Se tu, que és judeu, dizía Paulo, vives á maneira dos gentíos, e nao dos
judeus, como forcas os gentíos a se fazerem judeus?" (Gl 2,14). A falha
de Pedro parece ter consistido em nao estar plenamente cónscio da in-

209
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

fluencia que ele exercia ou em nao ter percebido que sua condescenden
cia para com amigos, embora fosse legítima, era mal interpretada, per
turbando a Igreja inteira. Note-se que, na sua atitute forte, Paulo nao
disse palavra contra os direitos de S. Pedro a exercer tal influencia sobre
os fiéis. De tudo isso concluí Loisy que o gesto de S. Paulo "atesta ter
sido Simáo Pedro o chefe do servico evangélico, o homem com o qual
era preciso entrar em acordó, sob pena de trabalhar em váo" (Les
Évangiles synoptiques 14).

1.2. O testemunho da Tradi?áo

O primado de Pedro nao podia perecer com a pessoa do Apostólo,


mas devia transmitir-se aos sucessores deste, pois a posicáo de funda
mento outorgada por Cristo a Sao Pedro toca a estrutura da própria Igre
ja; se esta deixasse de ter fundamento visível, deixaria de ter um dos
tragos essenciais que Cristo expressamente Ihe quis dar. Por conseguin-
te, era da vontade de Jesús que a prerrogativa concedida a Pedro se
comunicasse perenemente aos sucessores deste.

Ora Pedro morreu como bispo de Roma. Disto se segué que os


subseqüentes bispos e Roma sao até hoje os detentores da jurisdicáo
universal que o Senhor comunicou ao Apostólo principal.

Estas proposicóes dogmáticas sao corroboradas por um rápido


percurso da historia do Cristianismo, a qual ensina que

1) de fato, Pedro terminou sua missáo como bispo de Roma;

2) os sucessores de Pedro sempre manifestaram a consciéncia de


possuir jurisdicáo sobre a Igreja inteira.

1.2.1. A morte de S. Pedro em Roma

Consideremos primeiramente os testemunhos literarios.

a) A estada de Pedro na Cidade Eterna é insinuada já pela primeira


carta do Apostólo, que em 64 foi escrita de Babilonia (5,13), nome que,
conforme o Novo Testamento (cf. Apocalipse), designa a capital paga do
Imperio Romano.

b) Decenios depois, em 96/98, o bispo de Roma Sao Clemente


escrevia aos Corintios:

"Lancemos os olhos sobre os excelentes Apostólos: Pedro, que,


por efeito de inveja injusta, sofreu nao um ou dois, mas numerosos tor
mentos, e que, depois de ter dado testemunho, se foi para a gloria que
Ihe era devida. Foipor efeito da inveja e da discordia que Paulo mostrou
o prego da paciencia... Depois de ter ensinado a justiga ao mundo inteiro

210
O PRIMADO DE PEDRO 19

e ter atingido os confins do Ocidente, ele deu testemunho diante daque-


les que govemavam e assim deixou o mundo, indo-se para o lugar san
to... A esses homens... juntou-segrande multidáo de eleitos que, em con-
seqüéncia da inveja, padecerán) muitos ultrajes e torturas, deixando en
tre nos magnífico exemplo" (5, 3-7; 6, 1).

Conforme a evolucáo do idioma grego, "dar testemunho" significa-


va na época de Clemente "atestar com o sangue, sofrer morte violenta".
A mencáo do martirio de S. Pedro e S. Paulo, Clemente acrescenta a de
muitos outros mártires, frisando que todos esses justos deixaram entre
nos magnífico exemplo; esse entre nos se refere a Roma, onde Cle
mente escrevia.

c) Por volta de 107, S. Inácio de Antioquia escrevia aos Romanos:


"Nao é como Pedro e Paulo que eu vos dou ordens; eles foram
Apostólos; eu nao sou senáo um condenado" (Rm 4, 3).

'Tais palavras nao equivalem literalmente á frase: Sao Pedro foi a


Roma. Mas, suposto que lá tenha ido, S. Inácio nao teña falado de outro
modo; suposto que nao tenha ido, a frase carece de sentido" (Duchesne,
Histot're ancienne de l'Église I).

d) Entre 165 e 170, o bispo Dionisio de Corinto atestava aos Ro


manos:

"Tendo vindo ambos a Corinto, os dois Apostólos Pedro e Paulo


nos formaram na doutrina evangélica; a seguir, indo-se para a Italia, eles
vos transmitiram os mesmos ensinamentos e por fim sofreram o martirio
simultáneamente" (em Eusébio, Hist. ecl. II25, 8).

e) No inicio do séc. III era Orígenes quem escrevia: "Pedro, final


mente tendo ¡do para Roma, lá foi crucificado com a cabeca para baixo"
(em Eusébio, Hist. ecl. III 1).

Deixando os testemunhos literarios, que se poderiam prolongar,


passemos agora as da Arqueologia.

Por volta de 200, um presbítero romano chamado Gaio dirigia-se


nos seguintes termos a um grupo de hereges:

"Posso mostrar-vos os troféus (túmulos) dos Apostólos. Caso


queirais ir ao Vaticano ou á via Ostiense, lá encontrareis os troféus da-
queles que fundaram esta Igreja" (em Eusébio, Hist. ecl. II25, 7).

Tais dizeres foram ilustrados pelas recentes escavacóes feitas em


Roma durante dez anos no subsolo da basílica de S. Pedro: encontra-
ram-se vestigios de um mausoléu cristáo posto em meio a túmulos pa-

211
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

gaos ao qual dá acesso urna via que parece ter sido muito freqüentada;
junto a esse túmulo numerosas inscricóes (graffiti) de visitantes fazem
mencáo do Apostólo Pedro. No sepulcrozinho de 80 x 80 cm, que os
arqueólogos cavaram até tocarem o solo virgem, encontraram ossos hu
manos dispersos e misturados com térra, que foram cuidadosamente
recolhidos; além disto, deram com os destrocos de urna urna de mármo-
re fino de 77 x 30 cm... Sem descer ao plano das hipóteses minuciosas,
meramente conjeturáis, julgam os historiadores que o lugar assim des-
coberto representa o primeiro local onde foram depositados os despojos
mortais de S. Pedro. E com razáo assim pensam: no ano de 67, quando
morreu este Apostólo, os cristáos ainda nao possuíam seus cemitérios
próprios, devendo por isto torosamente usar cemitérios pagaos; se, pois,
no Vaticano S. Pedro foi enterrado em urna necrópole paga, esta deve ter
sido realmente a primeira mansáo postuma do Apostólo, indicada alias
explícitamente pelos testemunhos de Gaio e dos graffiti.
Pode-se observar outrossim o seguinte: no inicio do séc. IV o Im
perador Constantino construiu a basílica de S. Pedro em Roma. Podia
ter escolhido para isto, ao lado do lugar que ele tomou, um terreno tivre,
plano, apto para urna ampia construcáo (no chamado "Circo de Ñero").
Nao o fez, porém; mandou construir a basílica no lugar mais incómodo e
contra-indicado, tomando um terreno de forte declive, terreno com urna
diferenca de nivel de 13m na direcáo NE-SO, e já ocupado por urna ne
crópole (coisa que os romanos costumavam respeitar religiosamente)!
Se Constantino assim violou todas as leis de construcáo e de deferencia
aos mortos, ele deve ter tido motivo muito serio para tanto, motivo que
nao pode ser senáo a presenca, em urna parte desse cemitério pagáo,
de um túmulo caro a todos os cristáos de Roma: o túmulo de Pedro!
Dada a clareza dos testemunhos da historia, os autores, mesmo
nao-católicos, nao costumam em nossos dias contestar a morte do Apos
tólo Sao Pedro em Roma (ninguém, porém, saberia dizer quando chegou
Pedro pela primeira vez á Cidade Eterna; nem se insiste na tese de S.
Jerónimo, segundo a qual o Apostólo pregou 25 anos em Roma).
1.2.2.0 exercício do primado por parte dos sucessores de Sao
Pedro

Como dissemos, nao seria razoável crer que nos primeiros séculos
o primado romano se tenha manifestado como hoje. De um lado, as co-
municacóes entre os diversos núcleos cristáos eram difíceis; de outro
lado, foi o surto de heresias e desordens que deu ocasiáo a que a Santa
Igreja mostrasse aos poucos a sua estrutura petrina. Como se verá adi-
ante, o primado era atribuido aos pontífices romanos nao em virtude da
preponderancia política de Roma, mas por motivo estritamente religioso.

212
O PRIMADO DE PEDRO 21

a) No fim do séc. I, tendo surgido um litigio entre os fiéis de Corinto,


o bispo de Roma, Sao Clemente, Ihes escreveu urna carta autoritativa,
chamando-os enérgicamente á ordem:

"Se alguns nao obedecem ao que Deus mandou por nosso inter
medio, saibam que incorrem em falta e em perigo muito grave" (c. 69). A
carta terminava anunciando o envió de legados romanos a Corinto, os
quais, esperava o Pontífice, haveriam de voltar para Roma levando a
noticia da restauracáo da paz entre os discordantes.

É altamente significativo o fato de que o bispo de Roma, e ele só,


tenha intervindo em questóes internas da comunidade de Corinto, embo-
ra em Éfeso ainda vivesse o Apostólo Sao Joáo, e outras comunidades
que nao a de Roma tivessem talvez relacoes mais freqüentes e facéis
com Corinto. Leve-se em conta também a deferencia que a igreja de
Corinto (embora fosse, como a de Roma, fundada por um Apostólo) pres-
tou ao documento de Roma: a admoestacáo surtiu o almejado efeito,
como se depreende do fato de que em 170 aproximadamente a carta de
S. Clemente ainda era habitualmente lida ñas reunióes dominicais dos
fiéis de Corinto {cf. Eusébio, Hist. ecl. IV 23, 11).

b) No inicio do séc. II, S. Inácio de Antioquia escrevia aos cristáos


de Roma, reconhecendo ser a sua comunidade a mestra de outras: "Nao
invejastes a ninguém; instruístes os outros. Também eu quero guardar
aquilo que ensinais e preceituais" (3,1). Aos Romanos confiava S. Inácio
o cuidado das comunidades da Siria: "Somente Jesús Cristo e a vossa
caridade (agápe) exercam para com elas o papel do bispo" (9,1). Agápe
vem a ser, para S. Inácio, o sinónimo de "comunidade crista" ou de "Igre
ja" (cf. Tral. 13,1; Esmirn. 12,1; Filad. 11,2); é este o sentido que o santo
bispo parece supor quando diz ser a Igreja de Roma "a que preside á
caridade (agápe)" e "a que preside na regiáo dos Romanos" (Rom, prol.).
Estas expressóes, segundo bons historiadores, significam preeminencia
em relacao as demais comunidades cristas. O testemunho de Inácio tor-
na-se particularmente significativo desde que se leve em conta que era
proferido por um bispo de Antioquia, cidade onde Pedro teve urna de
suas primeiras sedes episcopais (cf. Eusébio, Hist. ecl. III 36).

c) Na segunda metade do séc. II registrou-se a controversia de


Páscoa: um grupo de bispos da Asia Menor, recusando seguir o calenda
rio e os costumes vigentes em Roma, assim como ñas demais regióes
cristas, foi ameacado de excomunháo pelo Papa S. Vitor (cf. Eusébio,
Hist. ecl. V 24, 9-18). E ninguém contestou ao Pontífice o direito de as
sim proceder; devia parecer claro a todos que nenhum bispo pode estar
em comunhao com a Igreja universal sem estar em comunháo com a
Igreja de Roma.

213
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

d) S. Irineu (t 202 aproximadamente) deixou-nos um dos mais


eloqüentes testemunhos em favor de Roma:

Tendo afirmado que a verdade se encontra ñas comunidades fun


dadas pelos Apostólos, continua: "Mas, já que seria demasiado longo
enumerar os sucessores dos Apostólos em todas as comunidades, só
nos ocuparemos com urna destas: a maior e a mais antiga, conhecida
por todos, fundada e constituida pelos dois gloriosíssimos Apostólos Pedro
e Paulo. Mostraremos que a tradicáo apostólica que ela guarda, e a fé
que ela comunicou aos homens, chegaram a nos através da sucessáo
regular dos bispos, confundindo assim todos aqueles que... querem pro
curar a verdade onde nao se pode encontrar. Com esta comunidade de
fato, dada a sua autoridade superior, é necessário esteja de acordó toda
comunidade, isto é, os fiéis do mundo inteiro; nela sempre foi conserva
da a tradicáo dos Apostólos" (Adv. Haer. III 3, 2).

Em urna palavra diz S. Irineu: a conformidade com o ensinamento


dos sucessores de Pedro é o criterio da ortodoxia.

e) Em meados do séc. III, S. Cipriano, bispo de Cartago, chamava


a cátedra de Roma "cátedra de Pedro, a Igreja principal, donde se origina
a unidade sacerdotal (isto é, a unidade dos bispos!)" (epist. 55,14). Con-
tudo S. Cipriano parece nao ter tirado as últimas conseqüéncias destas
palavras, pois recusou submeter-se ao Papa S. Estéváo no tocante á
validade do batismo conferido por hereges.

Á medida que nos adiantamos no decorrer dos séculos, váo au


mentando em número e significado os textos e fatos que atestam o pri
mado de Roma. Visando a brevidade, limitar-nos-emos aqui a recordar
que, por ocasiáo dos litigios teológicos verificados do séc. IV em diante,
a Sé de Roma foi geralmente tida como supremo tribunal de apelo, don
de os teólogos e os simples fiéis, tanto do Ocidente como do Oriente,
esperavam ouvir a palavra da verdade: os hereges arianos, por exemplo,
pediram ao Papa Julio I (t 352) aprovasse a deposicáo do bispo de
Alexandria, S. Atanásio, campeao da ortodoxia; o Pontífice entáo cha-
mou a Roma acusadores e acusados, e fez-lhes justica. O seu sucessor,
o Papa Libério (t 366), foi exilado pelo Imperador por haver recusado
aprovar a condenacáo de Eustácio de Sebaste, mestre da reta fé. O Im
perador Justiniano I mandou buscar o Papa Vigílio (t 555) em Roma e
submeteu-o a vexames em Constantinopla, porque o Pontífice se recu-
sava a sancionar os editos dogmáticos de S. Majestade; o mesmo acon-
teceu ao Papa Martinho I (t 653) - o que bem mostra o valor (diríamos:
dirimente) que se atribuía á sentenca de Roma, mesmo quando os
bizantinos mais e mais se deixavam levar por tendencias separatistas e
autonomistas.

214
O PRIMADO DE PEDRO 23

A esses testemunhos, que ainda poderiam ser acrescidos por ou-


tros, aplique-se agora um principio clássico no Cristianismo: "Quod apud
multos unum invenitur, non est erratum, sed traditum" (Tertuliano), isto é,
uma crenca uniformemente professada por diversas comunidades nao
pode provir do erro, mas deriva-se de legítima tradicáo. Testemunhas
numerosas, independentes e rigorosamente unánimes, merecem fé já
no plano meramente humano...; muito mais merecem-na no plano sobre
natural, onde Cristo assiste á sua Igreja.

Concluir-se-á entáo: o primado que os bispos de Roma desde o


séc. I exerceram na Igreja, é legítimo, pois nao faz senao continuar o
primado de Pedro, primado que este Apostólo recebeu diretamente de
Cristo.

Após esta explanacáo, entende-se que os concilios gerais hajam


sucessivamente até os tempos modernos inculcado o primado romano.
Verdade é que em alguns sínodos do séc. XV se fizeram ouvir vozes
"conciliaristas" ; tais vozes, porém, nao prevaleceram contra o que foi
explícitamente declarado nos concilios de Liao II (1274; Denzinger,
Enchiridion 466), de Florenca (1439; Dz 694), do Vaticano I (1870; Dz
1822-1840), e na profissáo de fé tridentina (1564; Dz 999).

2. O significado do título "Igreja Romana"

1. Na base de quanto acaba de ser dito, vé-se que o apelativo de


Romana é táo característico da Igreja de Cristo quanto as designacóes
de Católica e Apostólica.

O atributo Católica significa que a Igreja de Cristo é aberta a todos


os povos, nada tendo de reservado a determinada nacáo. Apostólica
indica que a Igreja está baseada sobre a pregacáo dos Apostólos, cuja
doutrina vai sendo transmitida ininterruptamente de geracáo a geragáo.
Em determinadas épocas da historia, poder-se-á admitir (ou exigir mes-
mo) a reforma dos homens da Igreja e dos seus costumes; nunca, po
rém, se empreenderá a reforma da estrutura essencial e do dogma da S.
Igreja; a autenticidade dessa estrutura é garantida pela continuidade, ou
seja, pelo contato ininterrupto com a obra dos primeiros Apostólos.

Romana neste contexto significa que a Igreja de Cristo e dos Apos


tólos é, em particular, a Igreja de Pedro, bispo de Roma, pois dentre os
seus discípulos Jesús escolheu Simáo para ser primaz. É a afinidade
existente entre Pedro e o bispado de Roma que explica o título Romana.
Como se vé, este nao significa preferencia nacionalista nem discutível
predominio de alguma nagáo sobre as demais dentro da Igreja universal

1 O conciliarismo apregoava estar o Concertó geral ácima da Autoridade do Papa.

215
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

de modo a se poder falar equivalentemente de "Igreja Anglicana", "Igreja


Bizantina", "Igreja Moscovita", "Igreja Brasileira", "Igreja Católica Popular,
Progressista (nos países da Cortina de Ferro)".

Igreja Romana significa Igreja Petrina, e Igreja Petrina significa


Igreja onde Pedro e seus sucessores ocupam o lugar primacial que Cris
to mesmo Ihes assinalou; mais nada...

2. Pergunta-se agora: o Chefe visível da Igreja terá que ser neces-


sariamente o bispo de Roma?

A este quesito deve-se dar resposta afirmativa por dois motivos:

a) a Arqueología comprova a estada e a morte do Apostólo Pedro


em Roma; deste fato se segué que os sucessores de Pedro na cátedra
romana sao os herdeiros dos poderes entregues por Cristo áquele Apostólo;

b) independentemente do fato arqueológico, fala a Tradicáo crista,


a qual sempre ensinou que o bispo de Roma é o Chefe visível da Cristan-
dade. Ora essa voz unánime e constante da Tradicáo, ainda hoje afirma
da na Igreja, é por si mesma suficiente fonte da Revelacao.

Desta maneira a associacao do primado com a sé romana é, para


o católico, o que em linguagem técnica se chama "um fato dogmático",
nao "fato meramente histórico", isto é, fato cuja certeza está baseada em
fundamento ainda mais sólido que o dos dados históricos; é, sim, por
Revelacáo divina que o cristáo professa tal associacáo. - Nao será ne-
cessário, para explicar esse fato dogmático, dizer-se que Cristo mesmo
escolheu a sé de Roma para sé principal (opiniáo de Melquior Cano,
Gregorio de Valenca, S. Roberto Belarmino, nos séc. XVI/XVII), mas bas
tará admitir que o Espirito Santo tenha guiado S. Pedro para que este, de
um modo qualquer, transmitisse aos bispos de Roma sua suprema juris-
dicáo.

Donde se segué que nem ao Papa é lícito dissolver a uniáo entre


primado e sé romana. Verdade é que o Chefe visível da Igreja, o bispo de
Roma, poderá por um motivo qualquer nao residir nesta cidade (foi o que
se deu de 1309 a 1376, durante o dito "Exilio de Avinháo"); Roma, por
sua vez, poderá ser destruida e, por conseguinte, deixar de ser sede de
bispado. Em qualquer hipótese, porém, o Vigário de Cristo será sempre,
por direito, bispo de Roma (mesmo que na prática nao possa exercer
este direito).

LEÍA "RESPOSTA A L. BOFF", EDICÁO DA ESCOLA "MATER


ECCLESIAE", TELEFAX 0XX21-2242-4552 OU C. P. 1362, RIO (RJ)
20001-970.

216
Podem coexistir?

DEUS E OS ANIMÁIS CARNÍVOROS

Em síntese: A existencia de animáis carnívoros parece contradi-


zer a existencia de Deus, pois implica crueldade. Em resposta deve-se
lembrar que a ordem e a harmonía existentes no macrocosmos e no
microcosmos exigem a realidade de um Ser sumamente inteligente e
poderoso responsável por tal harmonía. O que a nos, homens, parece
falho, há de ser considerado á luz dessa Sabedoria suprema, que rege o
universo e nao pode ser injusta ou cruel.

A transmissáo do pecado original nao é punigao, mas conseqüén-


cia da solidariedade existente entre os homens.

Está claro que Deus poderia ter feito um mundo diverso, mais per-
feito; todavía note-se que a nogáo de "o mundo mais períeito possível" é
irrealizável.

A Redacao de PR recebeu a seguinte mensagem vía internet, pro


veniente de um biólogo que se opóe á existencia de Deus:

"Ao aceitar um Deus Providente e Ordenador, temos urna dicotomía


entre a realidade biológica e a Teodicéia1. O que vemos na Teodicéia, é
ordem, finalismo e justiga. O que a Biología evidencia em suas pesqui
sas, nao é nada mais que

a) a existencia de animáis carnívoros ou predadores como parte


constitutiva e necessária da teia alimentar. Se Deus ama todas as suas
criaturas, por que livremente ordenou o processo evolutivo a criar ani
máis exclusivamente carnívoros e excessivamente violentos? Por que
baseou no assassinato e na dor das criaturas mais iracas a sobreviven
cia das mais fortes?

c) a existencia da especie viúva negra das aranhas, que baseia o


ato reprodutivo no assassinato compulsorio do macho. Deus Ordenador
Justo ama essas aranhas-macho?

1 Teodicéia vem do grego Théos (Deus) e díke (justiga). Éo tratado de Filosofía que
defende a existencia de Deus frente aos males deste mundo (N.d.R.).

217
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

d) o mutacionismo, que se dá ao acaso das probabilidades e geral-


mente proporciona muito mais criaturas anómalas do que adaptagoes
novas ao ambiente. Além disso, a selegáo natural destrói essas iracas
criaturas anómalas. Será obra de um Deus Justo e Bom?

e) a existencia de vetores transmissores de doengas como o mos


quito Aedes Aegyptida dengue. Ele existe e age letalmente porque consta
no plano de Deus bom?! Será táo bom assim esse Deus?

h) Por que Deus, por milagre, nao privilegiou cada um dos descen
dentes dos primeiros pecadores com a ausencia do pecado original, já
que eles nao tém culpa de nao poder receberpor transmissao paterna os
dons preternaturais? Poderia em seguida ter submetido cada um dos
descendentes á prova! Por que o Deus bom preferiu a aridez da puni-
gáo?".

Visto que o autor de tais indagares fala de Teodicéia (Teología


Natural) e Biología como se estivessem em confuto, examinaremos o
que a Teología Natural diz a respeito de Deus Criador; a seguir, voltar-
nos-emos para a Biología e suas objecóes; por último, consideraremos
os dizeres relativos ao pecado original.

1. Teología Natural e Criacáo

A Teología Natural formulou a chamada "quinta vía para provar a


existencia de Deus", que parte precisamente da ordem harmoniosa exis
tente neste mundo. Eis como procede:

a) Quem considera o universo, nao pode deixar de nele verificar


ordem estupenda e tendencia de múltiplos elementos (por si indiferentes
a múltiplas possibilidades de concatenacáo) em demanda de um fim bem
determinado.

O "macrocosmos", por exemplo, ou o mundo dos astros apresenta


um conjunto de corpos sabiamente coordenados dentro de proporcóes
"astronómicas", ou seja, que escapam as cifras com que o homem habi-
tualmente lida na térra.

O "microcosmos" ou o mundo do átomo reproduz simétricamente a


estrutura do "macrocosmos" ou, mais precisamente, do sistema solar; as
minúsculas dimensóes e as enormes velocidades dos corpúsculos que
giram dentro de um átomo atingem por sua vez cifras astronómicas.

No mundo dos víventes, a harmonía dos elementos que constitu-


em um vegetal ou um animal causa surpresa, dada a complexidade das
funcóes concatenadas em vista da conservacáo e da defesa da vida.

218
DEUS E OS ANIMÁIS CARNÍVOROS 27

Basta recordar a estrutura de um olho, de um ouvido. Tenha-se em vista


outrossim que, quando se extrai um rim de um organismo doentio, o ou-
tro logo se desenvolve além das proporcóes necessárias ao metabolis
mo normal. Por que isto? - Porque a natureza parece querer possuir
urna reserva, "prevendo" o caso eventual de se tornar necessário o traba-
Iho equivalente ao de dois rins. Tais exemplos se poderiam multiplicar:

b) Táo maravilhosa ordem, táo segura tendencia a um fim supóem


exista urna inteligencia que as tenha concebido e produzido.

Ordem significa adaptacáo de diversos elementos entre si em vista


de certa finalidade a ser obtida. Ora a adaptacáo supóe a intuicao de um
efeito ainda nao existente na realidade concreta, mas existente idealmente,
ou seja, num intelecto, de modo espiritualizado, superior ao modo
corpóreo, sensível. Ordem supóe a intuicáo da natureza íntima ou da
esséncia de cada um dos seres que estáo para ser adaptados; supóe o
conhecimento daquilo que é perene e latente sob os fenómenos sensí-
veis e variáveis que cada corpo dá a ver. Somente quem percebe a estru
tura íntima dos seres, sabe utilizá-los como meios para obter determina
do efeito.

Pois bem; um conhecimento tal é característico de um espirito ou


de um ser dotado de inteligencia (inteligencia e espirito se evocam mutu
amente). Só a inteligencia é capaz de comparar e apreender as qualida-
des que podem relacionar ou ligar elementos aparentemente descone-
xos entre si.

Quem realiza a análise física e química de um relógio, parece ex


plicar perfeitamente as propriedades de cada urna das suas pegas: a
resistencia dos metáis, a forca das molas, o processo das aiavancas, etc.
Contudo esse estudioso nao explica a escolha de tais pecas, nem a sua
associacáo em um maquinismo apto á contagem do tempo. A razáo de
ser de tal associacáo nao é indicada pela análise das pegas do relógio;
nao se acha latente em nenhuma de suas molas; nenhuma, por sua na
tureza, explica por que está assim correlacionada com as demais. Tal
razáo de ser está, sim, contida fora do relógio, num ser real existente; foi
este que por sua inteligencia concebeu e realizou a combinacáo de ele
mentos necessária ao fim preconcebido de marcar o tempo.

c) O Ser Inteligente que, por via destes raciocinios, se chega a


descobrir, há de ser absoluto, ilimitado, incriado, pois a Ele se deve nao
apenas o ato de dispor em ordem alguns ou muitos seres que Ele conce
be em sua mente (deixando de parte outros seres possíveis), mas igual
mente o de conceber o plano do universo inteiro e de cada um de seus
componentes.

219
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

Essa causa total da ordem natural só pode ser o Autor dessas es-
séncias, Aquele que as tirou do nada e as criou. Por conseguinte, a Inte
ligencia Ordenadora, para explicar totalmente a ordem (= ser causa total
da ordem), deve necessariamente ser subsistente por si mesma (nao
depende de outrem), infinitamente perfeita e criadora, atributos estes que
convém únicamente ao ser que chamamos Deus.

Assim a ordem do universo é a grande janela aberta sobre o além,


pela qual vemos passar a sombra de Deus: "Deus é o Invisível evidente"
(Víctor Hugo). - A quem Ihe pedia urna prova da existencia de Deus,
Newton (t 1704) indicou o firmamento e disse urna só palavra: "Vede!"

A quinta via é corroborada pelo testemunho de numerosos dentis


tas, que professaram ou professam sua fé em Deus. Ver PR 417/1997,
pp. 66ss. Destaca-se especialmente o depoimento de Patrick Glynn na
sua obra "Deus. A Evidencia" apresentada em PR 451/1999, pp. 566ss.

Fale pelos colegas Aibert Einstein:

"Urna profunda fé na racionalidade do edificio do mundo e um ar-


dente desejo de apreender o reflexo da razáo revelada neste mundo de-
viam animar Keppler e Newton no seu longo e solitario estudo... Somen-
te quem consagrou a sua vida a objetivos análogos pode ter nogáo clara
do que sustentaram esses homens; eles tiveram forga para, entre mil
insucessos, permanecer com os olhos fixos no objetivo que haviam esco-
Ihido... Um contemporáneo disse, e nao sem razáo, que, em nossa época
táo impregnada de materialismo, os verdadeiros sabios sao apenas aque
les que sao profundamente religiosos... O sabio é penetrado pelo senso
de causalidade dos acontecimentos... A sua religiosidade consiste na
atónita surpresa diante da harmonía das leis da natureza, na qual apare
ce urna razáo táo superior que, em comparagáo com ela, as mais enge-
nhosas formas do pensamento humano, com as suas diretrizes, parecem
apenas um pálido reflexo... Nao há dúvida, tal sentimento é bastante se-
melhante ao que, em todos os tempos, animou as produgóes dos gran
des espiritas religiosos" (Comment je vois le monde, Ed. Flammarion,
p. 21).

A quinta via assim fortalecida pelo testemunho dos dentistas bem


merece o consentimento do estudioso. A harmonía do universo é um fato
que brada em favor de urna Inteligencia sabia e cultora da ordem. Se há
lacunas ou pontos sombríos que nao compreendemos, háo de ser consi
derados á luz dessa Suprema Sabedoria; Deus saberá justificar o que
nos nao compreendemos bem, pois na verdade o macrocosmos e o
microcosmos sao regidos pela ordem.

Tentemos agora alguma elucidacáo dos pontos difíceis apresenta-


dos pelo biólogo.

220
DEUS E OS ANIMÁIS CARNÍVOROS 29

2. Os pontos difíceis

2.1. O ser carnívoro

Ser carnívoro é peculiaridade de animáis irracionais e também do


próprio homem. Notemos, porém, que o bom senso rejeita o consumo de
carne humana ou a antropofagia. Existe, pois, a consciéncia inata (incu-
tida pelo próprio Criador) de que o corpo humano possui uma dignidade
que os animáis irracionais nao possuem. Existe na natureza um
escalonamento de valores, de modo que os seres inferiores servem aos
superiores, estes ao homem e o homem a Deus.

Quanto á violencia, nao é privativa dos animáis ¡nfra-humanos; ela


existe também nos furacóes, ñas tempestades, nos terremotos ... Deus
permite que as criaturas procedam segundo suas leis naturais, em vez
de fazer um mundo artificial de marionetes, pois é mais digno permitir
que se desdobrem as potencialidades das criaturas do que coibi-las po-
licialmente.

Importa apenas sejam observadas duas cláusulas:

- deve haver uma Providencia Divina, que saiba utilizar os próprios


males para o bem do conjunto e a manifestacáo da Sabedoria Suprema;

- um Deus criticável ou, de algum modo, ¡mperfeito (menos justo e


santo do que o homem) nao é Deus, pois, por definicáo, Deus é suma
mente perfeito ou nao é Deus.

Note-se outrossim que os animáis infra-humanos nao tém um ideal


de vida nem constituem familia propriamente dita. Nao tém alma ¡mor
tal; perecem por completo quando morrem, pois nao sao mais do que
materia.

2.2. O macho de aranhas

O tato de que o macho da aranha viúva negra deva morrer para


que haja reproducáo nao impressiona a quem reflete um pouco. Morrer é
necessário e inevitável. Se o animal irracional sofre, sofre menos do que
o homem, pois nao tem a consciéncia reflexa da sua dor.

2.3. Mutacionismo

Convém logo dizer ao nosso internauta que nao existe acaso. O


mutacionismo é imprevisível, mas nao é casual. Falamos de acaso quan
do ignoramos os porqués de tal ou tal fenómeno.

"A selecáo natural destrói as criaturas mais tracas..." Este fato im


prime ao curso natural das criaturas um cunho de violencia. Já o
registramos: Deus permite que se desdobrem as virtualidades naturais

221
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

dos diversos seres, mas nao pode deixar de fazer que a própria violencia
das criaturas esteja sob o imperio da Sabedoria Divina.

2.4. Transmisores de doengas

Nao somente o mosquito faz mal ao homem, mas também as bac


terias, os microbios, os virus... Esta face do mal se encaixa fácilmente
dentro do plano sabio de Deus: é a luta que propicia ao homem a ocasiáo
de desenvolver seus talentos a fim de descobrir os antídotos das moles
tias que o afetam.

Quanto a morrer numa epidemia, se é doloroso, nao é um mal gra


ve se o paciente conhece o sentido da sua vida e sabe que a morte é
urna Páscoa ou a passagem para a vida definitiva.

Eis o que se pode responder as objecóes contra a existencia de


Deus levantadas pela Biología. Estamos conscientes de que sempre fica
para desejar um pouco mais de clareza. Contudo sabemos que, a plena
clareza, só Deus a pode ter, pois sua visáo das coisas é muito mais am
pia do que a nossa; só Ele sabe explicar o que nao entendemos bem. A
realidade nao poderia ser outra, pois um Deus cuja sabedoria tivesse o
mesmo alcance que a do homem, nao seria Deus. O cristáo se entrega
com filial confianca aos sabios designios de Deus.

3. O Pecado Original

O assunto tem sido freqüentemente abordado em PR. Ver PR 398/


1995, pp. 306ss; 418/1997, pp. 127ss; 429/1998, pp. 94ss.

Seja aqui suficiente lembrar a necessária distincáo entre pecado


original originante (o dos primeiros pais) e originado (o dos seus des
cendentes).

O primeiro é urna culpa propriamente dita. O dos descendentes


nao é pecado propriamente dito, mas conseqüéncia do pecado dos pri
meiros pais; é a ausencia dos dons paradisíacos que os primeiros ho-
mens possuíam e perderam por causa da sua desobediencia; essa au
sencia resulta simplesmente da solidariedade que existe entre as gera-
cóes; os genitores só podem transmitir aos descendentes o que eles tém.
Tal ausencia faz que as enancas nascam destoantes do modelo por Deus
tragado para elas. É isto que se chama "pecado original originado".

A solidariedade é algo de muito natural entre nos, seres humanos.


Está claro, porém, que Deus podia ter disposto as coisas de outra manei-
ra, como sugere o amigo biólogo.

Em conclusáo, verifica-se que as objecóes levantadas pela Biolo


gía nao destroem a evidencia da criacáo por parte de Deus Sabio e Santo.

222
Mais um livro tumultuante:

"QUEBRA DA FÉ"
por John Cornwell

Em síntese: J. Cornwell, autor de "O Papa de Hitler", contrario a


Pió XII, escreve um livro sobre a Igreja contemporánea: elogia o zelo
apostólico de Joáo Paulo II, masjulga que a Igreja vai mal por causa dos
problemas internos que a corroem: os fiéis nao obedecem ao Papa em
materia de Moral sexual. Este e outros setores da Igreja teráo que ser
reformulados para evitar um colapso, segundo o autor. O livro é escrito
em tom irónico, apto a impressionar o leitor inadvertido.
* * *

O escritor inglés John Cornwell celebrizou-se por seu livro "O Papa
de Hitler", em que acusa Pió XII. Volta ao público com a obra "Quebra da
Fé"1, em que analisa a Igreja contemporánea e Ihe prevé um futuro som
brío, caso nao se decida a fazer mudancas drásticas em suas normas
moráis (demasiado rígidas e defasadas) e em sua estrutura excessiva-
mente centralizada. Já que a problemática é importante, passamos a
analisar e comentar as páginas de Cornwell.

1. O autor

O capítulo 1e do livro apresenta a personalidade do autor, figura


controvertida e impugnada por nao poucos colegas escritores.

John nasceu de familia católica e passou sete anos em Seminarios


eclesiásticos, atendendo a urna possível vocacáo sacerdotal. Aos vinte e
poucos anos deixou o Seminario e perdeu a fé, julgando-se mais feliz
sem a crenca em Deus. Entrando na meia-idade, estava firmemente
entrincheirado no ateísmo. Passou vinte anos em tais condicóes; final
mente deu-se o milagre de seu retorno á Igreja, pois "esta é urna fonte
universal de florescimento espiritual" (p. 15). Atualmente Cornwell pro-
fessa a fé católica, mas está impregnado de espirito crítico em relacao á
Igreja - o que o torna um autor contraditado por estudiosos da temática
religiosa. O livro "O Papa de Hitler" ataca Pió XII na base de preconceitos
e falsos pressupostos, que os críticos denunciaram. Todavía á p. 11 de
seu novo livro lé-se: "Aqui, de inicio, apresento urna declaracáo de princi
pios confessional de meu status católico".

1 Ed. Imago, Rio de Janeiro 2002, 160 x 230 mm, 318 pp.

223
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

2. O conteúdo do livro

Logo no capítulo 1S Cornwell reconhece o valor do Papa Joáo Pau


lo II: "O pontificado de Joáo Paulo II assinalou-se por urna inatacável
integridade, sincera dedicacáo ao dever e evidente santidade de vida. A
historia registrará seu indiscutível papel na queda do comunismo na
Polonia e além. Nos últimos anos de seu papado, atacado pelo mal de
Parkinson, ele assombrou o mundo com sua forca moral; impressionava
sobretudo quando saudava e abencoava os velhos, os doentes e as ch
angas" (p. 10).

Cornwell cita o biógrafo George Weigel, que no inicio de 2001 apre-


sentava ao público de Londres urna seqüéncia de estatísticas papáis: "1
milháo e setenta mil quilómetros percorridos em 84 viagens papáis... ou
seja, 2,8 vezes a distancia da Térra á Lúa; 3 mil e 78 discursos e homilías;
13 milhóes de pessoas recebidas em audiencia; além de 15 mil encon-
tros pessoais em caráter privado; 159 novos Cardeais nomeados; em
144 cerimónias o Papa beatificou 798 homens e mulheres e canonizou
280 novos santos; nomeou 2.650 dos 4.200 Bispos da Igreja.

George Weigl prevé que tal Papa será conhecido como "Joáo Pau
lo o Grande", cuja influencia moldará o Catolicismo pelo terceiro milenio
adentro.

Apesarde sua veneracáo por Joáo Paulo II, Cornwell o critica, direta
e ¡ndiretamente, no decorrer do seu livro. Com efeito; considera-o
centralizador demais, intervindo autoritariamente em questoes que po-
deriam ficar a criterio dos outros Bispos; isto tem provocado choques
dentro da própria hierarquia da Igreja bem como entre os fiéis e seus
pastores.

Os pontos que Cornwell tem na conta de nevrálgicos, sao enume


rados á p. 290, onde o autor fala do futuro Papa;
"Que significaría urna confirmagáo e continuagáo das políticas de
Wojtyla para os incontáveis católicos comuns que passam por dificulda-
des especiáis sem ter culpa nenhuma?

Podem-se citar os milhóes na África proibidos pela Igreja oficial de


usar camisinha para combater a AIDS; os missionários perseguidos por
'sexo seguro', os incontáveis milhóes de mulheres aconselhadas a nao
usar a pílula anticoncepcional, as grávidas alemas a quem se recusa
aconselhamento católico quando enfrentam a difícil opgáo do aborto, lei-
gos e sacerdotes católicos privados da liberdade de escolher seus bis
pos, bispos tratados como administradores subalternos, teólogos silenci
ados e excluidos por ousarem expressar suas opinioes em boa-fé. Mas
eu pensó ácima de tudo, ao encerrar este ensato, em pessoas próximas

224
"QUEBRA DA FÉ" 33

de mim, privadas de apoto espiritual, da liturgia, dos sacramentos da Igreja


Católica, por urna nova onda de opressáo em questóes de sexualidade e
relacionamentos".

A Igreja estaría atrasada, conforme se lé á p. 131:

"A compreensao pela Igreja do ato sexual e do estado conjugal


pouco deve á biologia e a psicología contemporáneas. O ato sexual aín
da é, em grande parte, entendido do ponto de vista da filosofía grega
antiga de Aristóteles e da filosofía e teología moráis de Tomás de Aquino".

A propósito do terceiro segredo de Fátima, Cornwell nao perde a


ocasiáo de censurar irónicamente o Papa:

"A Virgem María se ausentou da eternidade para dizer ao mundo


que Joáo Paulo deve ser encarado como um quase-mártir do sáculo XX...
O fato de ele ter sido poupado da bala do assassino indica que tem urna
missáo divinamente ordenada a cumprir; que sua sobrevivencia espiritu
al é mantida por extraordinaria e milagrosa providencia; que o incessante
fluxo de intervengóes, instrugóes, meditagóes, trazem um selo especial
de endosso divino; em minha opiniáo, o terceiro segredo vé a apoteose
do narcisismo e do egotismo papáis, de um Papa que foi além dos fatais
vinte anos após os quais, ñas palavras de John Henry Newman, os pa
pas se tornam desequilibrados e perigosos" (pp. 249s).

Á p. 249 o Papa é acusado de gnosticismo, heresia dos séculos 11/


III, pois professa "a idéia de que o que ocorre neste mundo depende de
poderosas forcas do além do véu das aparéncias e de que a frustracao
do poder do mal depende de formas de apaziguamento ou intercessao".

Em suma, a figura do Papa Joáo Paulo II é censurada com sarcas


mo como causa de desercáo de muitos fiéis, que abandonam a Igreja por
nao aceitarem a sua disciplina. Donde a pergunta:

3. Que dizer?

Proporemos tres reflexóes.

3.1. O Papa

A respeito do Papa o autor do livro parece contradizer-se: á p. 10,


elogia-o, como visto atrás, e nos capítulos 2-15 ataca-o direta ou
indiretamente. Cornwell nao pode ignorar que o Papa é urna figura inter-
nacionalmente reconhecida e respeitada; os numerosos países que visi-
tou, só os visitou a convite dos respectivos Governos,... Governos laicos
ou nao cristáos (assim Israel, Marrocos, Egito, Kasaquistáo...). Joáo Paulo
II é táo corajoso para intervir em questóes sociais quanto o é para procla
mar as verdades da fé.

225
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

Quanto á autoridade, é oportuno que todo chefe a exerca para o


bem mesmo de seus subalternos. O autoritarismo de Joáo Paulo II nao
implica abuso de autoridade, mas deve-se ao grande número de proble
mas que a Igreja enfrenta e para os quais o povo de Deus pede esclare-
cimentos e sobretudo pede á Igreja que tome posicáo. O Papa tem sido
fiel aos principios do Evangelho - o que nem sempre é simpático, mas
certamente vem a ser precioso servico ao povo de Deus e á humanidade
inteira numa época em que fidelidade é urna flor cada vez mais rara.

A desercáo de fiéis é dolorosa, mas Joáo Paulo II sabe que nao


pode comprar o beneplácito do público traindo o Evangelho. Por fidelida
de a este ou á doutrina da indissolubilidade do matrimonio, a Igreja per-
deu o reino da Inglaterra no sáculo XVI. Tal comportamento nao deve
escandalizar, mas, sim, edificar a comunidade humana.

É certo que o bom pastor ama suas ovelhas e deve tratá-las


caridosamente; todavía sem ferir a verdade. Diz Sao Paulo: "Vivei segun
do a verdade no amor" (Ef 4,15); o amor há de ser orientado pela verda
de para ser auténtico e benéfico.

Quanto á ¡nterpretacáo do terceiro segredo de Fátima, é de notar


que foi aprovada pela Ir. Lucia. É gratuito dizer que é "a apoteose do
narcisismo".

3.2. A Moral católica

A Moral católica distingue entre leí natural e lei positiva.

Lei natural é aquela que está impregnada no íntimo de todo ser


humano, independentemente de sua cultura, raga ou idade. Dita as nor
mas básicas, que todo homem sadio reconhece: nao matar o inocente,
nao roubar, nao adulterar, nao caluniar... É lei de Deus que assim criou a
natureza humana.

A lei positiva é aquela que os homens promulgam. Deve ser o eco


e o esmiucamento da lei natural. Só tem valor enquanto concorda com a
lei natural. Ora estáo baseadas na lei natural as normas hoje impugna
das no tocante ao divorcio, ao aborto, á prática do homossexualismo, á
eutanasia direta... Por ¡sto sao ¡ntocáveis. Por mais que desagradem a
segmentos da opiniáo pública, nem o Papa atual nem algum dos seus
sucessores poderá contradizer-lhes sem trair o Cristo.

Verdade é que existem leis positivas reformáveis; mas nao sao estas
que causam a grande celeuma.

Cornwell julga que a Igreja está demasiado centralizada em torno


de Joáo Paulo II. A propósito pode-se dizer que desde o Concilio do
Vaticano II (1962-65) se tem procurado por a colegialidade em prática.
Entre outros frutos dessa procura, está o Sínodo dos Bispos, que de tres

226
"QUEBRA DA FÉ" 35

em tres anos reúne Bispos do mundo inteiro para estudarem com o Papa
algum problema da atualidade religiosa. Mais: Joáo Paulo II tem pedido
aos teólogos que estudem meios de exercício do primado que nao firam
a consciéncia dos irmáos orientáis ortodoxos e dos protestantes.

Eis o que se pode responder a Cornwell, que reivindica o afrouxa-


mento das leis da Igreja. Esta pode passar por momento difíceis (e já
experimentou nao poucos no decorrer dos seus dois mil anos!); mas sabe
que tem a garantía de perenidade: "As portas do inferno nao prevalece-
ráo contra ela" (Mt 16,18). As sombrías previsóes de Cornwell háo de ser
temperadas por esta conviccáo.

Convém agora notar alguns erros de tradugáo ou de redacáo origi


nal do livro em foco.

3.3. Falhas do texto

a) O livro analisado fala constantemente de anulacáo de casa


mentes por parte da Igreja. Ora isto nao existe, pois anular significa
cancelar um casamento válido - coisa que a Igreja nao pode fazer. Ela
declara nulo um matrimonio quando, após criteriosa investigado, se
concluí que o casamento em foco nao foi validamente contraído ou sem-
pre foi nulo. Cf. pp. 131, 142s...

b) A p. 135 lé-se: "Enfatizando a liberdade fundamental de todos os


seres humanos, o Concilio implícitamente estimulou o primado da cons
ciéncia na formacáo de decísóes moráis".

Ora tal afirmacáo é falha. Diz o Concilio o seguinte:

"Na formagáo de sua consciéncia, os crístáos háo de ater-se á dou-


trina santa e certa da Igreja. Pois, por vontade de Cristo, a Igreja Católica
é mestra da verdade e assume a tarefa de anunciar e comunicar autén
ticamente a Verdade, que é Cristo. Ao mesmo tempo declara e confirma
ela, por sua autoridade, os principios de ordem moral que promanam da
própria natureza humana" (Declaragáo Dignitatis Humanae sobre a Li
berdade Religiosa, n9 14).

c) Á p.'236 lé-se: "Comecou o processo formal de críacáo de san


tos no fim da Idade Medía". O autor se refere á canonizacáo dos Santos
com ironía, datando os primeiros processos em data errada. Na verdade,
a primeira canonizacao de que se tenha documentacao segura, é a de S.
Ulrico, bispo de Augsburgo, falecido aos 4/7/973 e canonizado pelo Papa
Joáo XV aos 31/1/994 durante um sínodo realizado em Roma.

d) Á p. 238 lé-se: "O processo de beatificacáo normalmente come-


ca só cinqüenta anos após a morte do candidato".

Em vez de cinqüenta anos, leía-se: cinco.

227
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

e) Á p. 239 lé-se: "Embora nao naja sugestio de que (Joáo Paulo II)
seja um dualista corpo-e-alma.

A distin9§o entre corpo e alma seria dualismo. Ora dualismo é o


sistema que admite dois grandes Principios antagónicos: o Espirito (bom)
e a Materia (má); no caso, a alma humana, sendo espiritual, seria boa, e
o corpo humano, sendo material, seria mau. - Tal concepcáo é falsa. Na
verdade, o homem consta de dois principios: corpo material e alma espi
ritual. Realmente distintos um do outro, nao estáo eno antagonismo
(dualismo), mas em complementacáo, que se chama dualidade. Parale
lamente homem e mulher sao realmente distintos um do outro numa
complementacáo dual (em dualidade); e nao em dualismo.

f) A p. 254 lé-se: "Em 1706 os bispos alemáes... acusaram o Papa


Gregorio Vil..." Leia-se: em 1076.

4. Conclusáo

Nao se pode negar que John Cornwell aponta serios problemas


que afligem atualmente a Igreja. Apresenta urna visáo de conjunto que
se pode dizer completa. Escreve, porém, em estilo irónico e tendencioso.
As causas destes problemas nao estáo num exagerado conservadorismo
atribuido ao Papa, mas, sim, no clima de subjetivismo religioso que reina
ñas sociedades ocidentais; cada crente tende a fazer sua própria reli-
giáo. A problemática deve-se outrossim ao hedonismo secularizante de
nossos dias; o sacrificio afugenta, ao passo que o prazer atrai; especial
mente no setor da sexualidade impera a concessáo as paixóes e aos
impulsos instintivos em contraste com a leí de Deus. O bem-estar de que
gozam certas carnadas da populacáo ocidental faz que dispensem Deus
ou o concebam de modo que nao incomode... A voz do Papa parece
entáo defasada, quando na verdade é voz perene, porque nao é mais do
que o eco da Lei de Deus.

Verifica-se que o hedonismo tem saturado muitos de seus segui


dores que vém levando vida sobria e regrada. Para estes as palavras de
Joáo Paulo II seráo diretrizes seguras.

continuagáo da p. 240

culo VI a.C: foram levados para o exilio babilónico sem querer reconhe-
cer a sua culpa, mas julgando-se vítimas dos pecados de seus antepassa
dos. É contra tal concepcáo falsa que Jeremías e Ezequiel se insurgem.
Portanto ninguém diga que está sofrendo por causa de pecados
dos antepassados nem imagine estar padecendo pragas rogadas por
seus ascendentes.

Estéváo Bettencourt O.S.B.

228
Romanceando:

"O EVANGELHO SECRETO DA VIRGEM MARÍA"


por Santiago Martín

Em síntese: O livro, falsamente atribuido a Virgem María, imagina


a Santa Máe de Deus, no fim da vida terrestre, a contara Joáo como ela
viu a vida e as faganhas de Jesús. Segué a trama dos Evangelhos e a
parafraseia, ilustrando-a com noticias fantasiosas. O próprio autor dessa
obra afirma tratarse de urna composigáo literaria que nao tem valor his
tórico senao quando segué o arcabougo do Evangelho.
* * *

As editoras Paulus (católica) e Mercuryo (que publica livros falsa


mente cristáos) oferecem ao público "O Evangelho Secreto da Virgem
María1, obra de título atraente, mas ilusorio. O autor do livro é o sacerdote
espanhol Santiago Martín, que, baseado na trama dos Evangelhos, tenta
descrever como a Virgem Maria se sentía ñas diversas fases de sua mis-
sao de Máe de Jesús. A narracáo pretende ter base num apócrifo deseo-
berto em Jerusalém pela monja peregrina Etéria no século IV. No fim de
sua vida terrestre Maria estaría contando a Joáo evangelista a sua vivencia
junto a Jesús. A leitura é interessante, mas póe o leitor diante de cenas
gratuitamente imaginadas que podem passar por auténticas a um leitor
desprevenido.

Em sua Nota Final (p. 223) observa o autor:

"Como o leitor terá, sem dúvida, adMnhado, o conteúdo deste livro


é urna composigáo literaria, por mais que beba das fontes da tradigáo da
Igreja e esteja em sintonía com o ensinamento oficial. O autor tentou -
com ousadia talvez excessiva - colocarse na pele do personagem, nes-
te caso a Santíssima Virgem, para tentar expressar aquilo que ela deve
ter sentido e como deve Ihe tercustado amar ñas dificéis travessias que
Deus Ihe pedirá que empreendesse. Em todo caso, o resultado - o autor
é também consciente disso - nao é mais do que aproximado; se é difícil
saber o que pensa, experimenta ou sofre outra pessoa, o misterio se
torna insondável quando se trata de nada menos que o misterio da
Imaculada, daquela que foi concebida sem pecado e que jamáis conhe-
ceu a mancha que nos perturba tanto a alma quanto o corpo. Se a leitura
deste relato serviu para conhecer mais María, para amá-la mais e para
imitá-la melhor, todos aqueles que trabalharam nesta obra se daráo por
1 Direitos reservados á Ed. Mercuryo, Sao Paulo (SP), 130 x 200 mm, 223 pp.

229
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

satisfeitos e altamente recompensados. Se nao é este o caso, como ñas


antigás representagóes de teatro, rogamos ao leitor que nos perdoe e
seja indulgente conosco".

O traco feminino que o autor mais póe em relevo, é o amor,... amor


de Maria a Jesús e a Sao José, seu esposo, como também o amor de
Jesús a toda a humanidade.

Propostas estas consideracóes gerais, merecem atencáo alguns


tópicos particulares do livro.

ALGUNS PONTOS PARTICULARES

1. A consciéncia de Jesús

O Jesús desse "Evangelho" apócrifo ignora coisas importantes:


"Disse-me que sabia que Deus era seu Pai e sobre sua concepgáo
nao saberia responder. Inclusive perguntou-me se tinha acontecido algo
extraordinario' (p. 108).

"Estava chegando aos trínta anos e continuava em casa, cuidando


de sua mae... Urna vez mais, Deus o punha á prova com essa espera táo
prolongada, que nao se sabia quando iría terminar. Deus Ihe ensinava a
escutar sua voz" (p. 129).

Donde as perguntas: Jesús ignorava algo da sua identidade? ...


algo da sua missáo?

Em outros termos:

Visto que Jesús era verdadeiro homem e verdadeiro Deus, pergun-


ta-se: Jesús, como homem ou em sua consciéncia psicológica, sabia
que era Deus? Sabia que a sua natureza humana estava unida á divina e
subsistía pela segunda pessoa da SS. Trindade?

Eis a resposta mais plausível que a estas perguntas se possa dar:

Jesús tinha urna só pessoa, que era divina, ou a pessoa do Filho


de Deus. Encarnando-se, essa pessoa nada perdeu do que era e pos-
suía eternamente; por conseguinte, mesmo peregrino na térra, o eu de
Jesús conhecia tudo o que Deus conhece: o misterio da SS. Trindade
com sua riqueza de atributos, e todas as coisas.

Além da sua natureza divina, Jesús tinha urna natureza humana.


Esta, embora nao tivesse um eu humano próprio, mas vivesse do eu do
Filho, tinha urna consciéncia psicológica, isto é, a faculdade de conhecer
a si mesmo (como todos nos a temos). É aqui que se coloca a pergunta:
como essa consciéncia humana de Jesús via a humanidade de Jesús? -
Respondemos:

230
"O EVANGELHO SECRETO DA VIRGEM MARÍA" 39

A consciéncia humana de Jesús 1) sabia que Jesús era verdadeiro


homem e vivia como verdadeiro homem; 2) sabia que subsistia pela sub
sistencia da segunda pessoa da SS. Trindade. Nao podia crer que tinha
urna pessoa humana; isto implicaría em Jesús urna tremenda ilusáo a
respeito de si mesmo.

Em conseqüéncia, Jesús teve urna experiencia religiosa tal como


nenhuma criatura humana teve. Por isto podia dizer que ninguém conhe-
ce o Pai senáo o Filho e ninguém conhece o Filho senáo o Pai {cf. Mt 11,
25s). Nao era possível que Jesús tivesse a consciéncia humana de si
mesmo sem conhecer que Ele tinha Deus como Pai, ... Pai que é a pri-
meira pessoa da SS. Trindade.

Na consciéncia de Jesús, o Divino tinha a supremacía; o principal


traco dessa consciéncia era saber-se Filho de Deus. Isto, porém, nao
atenuava em Jesús a nocáo de ser verdadeiro homem, portador do des
tino do mundo inteiro, chamado a urna vida auténticamente humana até
a morte, e morte de cruz.

Todavía nao é necessário dízer que Jesús tinha sempre de modo


plenamente atual a conscíéncia de ser o Filho de Deus. Com outras pala-
vras: nao somos obrigados a crer que Jesús pensasse a todo momento:
"Eu sou o Filho de Deus"; podemos admitir que ele possuísse tal nocáo
como um hábito que nunca se apagava, mas que nem sempre emergía
das profundidades da sua consciéncia; paralelamente, um rei, embora
nunca ignore que é rei, nem sempre está a recordar que é rei da sua nacáo.

2. Urna ou tres mulheres?

O autor identifica Maria, irmá de Marta e Lázaro, com a Madalena:

"Do outro lado, encontravam-se a outra Maria, irmá de Lázaro e


Marta, a que chamam de Madalena..." (p. 194).

Em nossos dias a exegese distingue tres mulheres, que os antigos


identificavam entre si numa só, chamada Madalena. Com efeíto

- a irmá de Marta e Lázaro é urna santa mulher, que escolheu "a


melhor parte", pondo-se a ouvir o Mestre (Le 10, 41);

- Madalena é aquela de quem Jesús expulsou sete demonios; tor-


nou-se seguidora do Senhor (Le 8, 1-3);

- há aínda urna mulher anónima, que em casa de Simáo fariseu


lavou os pés de Jesús com suas lágrimas de pecadora arrependida e os
enxugou com seus cábelos.

Por ser pecadora, esta terceira mulher foí identificada com


Madalena, a demoníaca, e, por ter lavado e ungido os pés de Jesús, foi

231
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

identificada com Maria, irmá de Marta e Lázaro, que ungiu os pés de


Jesús (mas nao os lavou com lágrimas, porque nao era mulher de má
vida); cf. Jo 12,1-3.

Eis como de tres mulheres se fez urna só; sao muito tenues os
traeos que pretensamente as identificam entre si. É mais correto distin-
gui-las.

Quanto á adúltera de Jo 7, 53-8,11, é urna quarta mulher.

3. O sinal da Cruz

Conforme o apócrifo, Jesús fazia o sinal da cruz antes mesmo da


sua Paixáo, quando a cruz era o patíbulo da ignominia - o que é
anacrónico. A Cruz só foi honrada após a Páscoa do Senhor. Por conse-
guinte nao tém propósito os seguintes dizeres:

"Jesús abengoou S. José moribundo e fez suavemente, como á


sua avó, o sinal da cruz em sua testa, em seus olhos, em sua boca e em
suas máos" (p. 126; cf. p. 122).

4. Joao Batista primo de Jesús?

Áp. 133 lé-se:


Diz Maria: "Foi meu próprio filho quem me falou da alegría que ha-
via sentido ao verseu primo Joáo".

A suposicáo de que Jesús e Joáo Batista eram primos um do outro


deve estar baseada na hipótese de que Maria e Isabel eram primas urna
da outra. Ora tal hipótese é infundada. O texto grego de Le 1,36 diz que
Isabel era syggenís de Maria, ou seja, párente, familiar. Isabel devia ser
bem mais velha do que Maria SSma. É oportuno guardar o sentido ampio
do texto grego.

5. Verónica

Áp. 196 lé-se:


"Ali nos nos pusemos também contigo. Ela se chamava Verónica e,
ao saber que eu era a máe, dirígiu-me a palavra e, após abragar-me for-
temente, entregou-me o que levava ñas máos".

Verónica terá enxugado a face ensangüentada de Jesús e esta


terá ficado gravada no respectivo paño. Tal episodio nao se encontra nos
Evangelhos. É de autenticidade discutida; o nome Verónica pode provir
de vera eikón (verdadeira imagem).

Eis algumas das consideracóes que o livro de Santiago Martín su-


gere. O autor o concluí com um Epílogo, no qual lembra que Deus é amor
e espera a resposta do amor dos homens (p. 222).

232
A ciencia avanca...

FABRICADO UM ÚTERO ARTIFICIAL

Em síntese: dentistas norte-americanos anunciaram a criagáo de


um útero artificial. Este é mais um passo no caminho da procriagáo hu
mana artificial: nao somente fere as normas da Bioética, mas deixa de
levar em consideragáo o relacionamento psicológico que se estabelece
entre máe e filho durante o período de gestagáo. Por outro lado, este
passo da ciencia implica que o embriáo tem sua capacidade de desen-
volvimento autónomo e, por conseguinte, póe em evidencia a necessida-
de de defender o embriáo desde a fecundagáo do óvulo.
* * *

Pesquisadores norte-americanos anunciaram ter produzido um úte


ro artificial, no qual chegaram a fixar um embriáo, que foi posteriormente
eliminado.

A experiencia foi assim comentada por Mons. Elio Sgreccia, Vice


presidente da Pontificia Academia para a Vida:

"Tal feito viola nao somente as leis da Bioética, mas nao leva em
consideragáo o relacionamento psicológico que se estabelece entre máe
e filho durante o período da gestagáo. Esta nova experiencia nos coloca
mais a fundo no caminho da desumanizagáo da procriagáo humana; esta
passa a se realizar nao somente sem o amor do pai e da máe, mas tam-
bém fora do corpo da mulher. Tratase de um procedimento meramente
técnico, que redunda em detrimento de urna criatura humana...

Nao sei como se poderá sustentar que o embriáo humano nao tem
sua individualidade e sua própria capacidade de se desenvolver autóno
mamente, dado que ele pode desenvolverse fora do corpo materno. Será
preciso refletir novamente sobre a autonomía biológica e humana do em
briáo e solicitar a protegáo da criatura humana desde que seja concebida.

Criase assim urna situagáo paradoxal: de um lado, póese em evi


dencia a auténtica índole do embriáo humano, sua individualidade huma
na, sua capacidade de se desenvolver de maneira autónoma desde o
momento da fecundagáo. De outro lado, porém, o uso que se faz desse
embriáo é totalmente desumano, pois visa únicamente ao exercício da
tecnología.

Mais aínda: negligencia-se o relacionamento da máe e da crian-


ga... Precisamente o que deve desenvolverse é subtraído á comunháo

233
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

com sua mae; e, se é verdade o que os psicólogos sempre disseram... a


saber: que o quadro emotivo e o inconsciente se desenvolvem principal
mente na fase pré-natal, no seio da mae e no intercambio com ela, entáo
a desumanizagáo se torna paradoxal e grave-

Quero tera esperanga de que essespassos avangados da ciencia


faráo que toda a comunidade de dentistas refuta mais urna vez sobre
toda essa temática e que em certos países que ainda nao tém legislagáo
sobre a procriagáo artificial, se redescubra o sentido humano e pleno da
origem da vida humana, pois esta há de ser o fruto do amor do pai e da
mae e do momento sagrado e sacrossanto em que comegam as relagóes
de paternidade e matemidade.

Esforgamo-nos por dar a compreender aos pesquisadores que a


vía é outra. Com efeito, trate-se de procurar quais sao as causas da este-
rilidade e atender ao corpo do homem e da mulher a fim de que recupe-
rem a capacidade natural de procriar e, por conseguinte, transmitir a vida
da maneira mais humana e mais natural. Nesta área de pesquisa aplica
se pouco dinheiro e pouco se tem feito. Provavelmente os fundos sao
concedidos com mais facilidade quando se trata de explorar as novas
situagóes, em vez de reconduzir as pesquisas ao ponto em que elas sao
chamadas a restituir á pessoa humana sua fertilidade natural. A propósi
to a razáo humana é suficiente para evidenciar que nos estamos afastan-
do das auténticas metas da pesquisa científica".

O Santo Padre Joáo Paulo II, aos 3/2/02 fez mais um dos seus
pronunciamentos sobre tal temática, pedindo, dessa vez, o reconheci-
mento jurídico do embriáo humano.

O Papa: reconhecimento jurídico do embriáo

'"Reconhecer a vida'. Reconhecer significa, antes do mais,


redescobrir com renovado maravilhamento, o que a ciencia e a própría
razáo nao hesitam em chamar 'misterio'. A vida, em particular a vida hu
mana, suscita urna interrogagáo fundamental, que o salmista exprime de
modo ¡nigualável: 'Que é, pois, o mortal para que te lembres dele, o filho
de Adao para que o queiras visitar?' (SI 8, 5).

Além disto, reconhecer significa garantir a todo ser humano o direi-


to de se desenvolver segundo o seu potencial, defendendo sua índole
inviolável desde a concepgáo até a morte natural. Ninguém é senhor da
vida, ninguém tem o direito de a manipular, oprimir ou mesmo extinguir,
seja a vida alheia, seja a vida própría. Menos ainda será lícito fazé-lo em
nome de Deus, que é o único Senhor e o mais sincero defensor da vida.
Os mártires mesmos nao extinguiram sua vida, mas, para permanecerem
fiéis a Deus e seus mandamentos, aceitaram serpostos á morte.

234
FABRICADO UM ÚTERO ARTIFICIAL 43

Reconhecer o valor da vida comporta aplicagóes coerentes sob o


aspecto jurídico, em particular para proteger os seres humanos que nao
tém condigóes de se defender, como os recém-nascidos, os doentes
mentáis, os gravemente enfermos ou os da fase terminal.

No que diz respeito ao embriáo humano em particular, a ciencia já


demonstrou que se trata de um individuo humano, que possui identidade
própria desde a fecundacáo. Eis por que se pode lógicamente exigir que
essa identidade seja reconhecida também no plano jurídico e, em parti
cular, seja reconhecido o seu direito fundamental á vida".

A diferenca interdita: Sexualidade, Educacáo, Violencia, por


Tony Anatrella. Tradugáo de Maña Stela Gongalves e Adail Ubirajara
Sobral. - Ed. Loyola, Sao Paulo 2001, 140 x 210 mm, 329 pp.

O autor é sacerdote e psicanalista, especializado em Psiquiatría


Social. Verifica que nunca nossa sociedade reivindicou tao vigorosamente
para seus membros o direito a diferenga: diferenga de gostos, de culturas
e valores, diferengas de escolha das modalidades de vida, de modelos
de familia... O subjetivismo se acentúa sempre mais, até no campo religi
oso, onde muitos cidadaos querem fazer sua própria religiáo.

Doutro lado, nota o autor, registrase urna pressáo sobre os indivi


duos para por termos as diferengas. É o que o título do livro quer salten-
tar: a diferenga é proibida... O fato tem varias expressóes na vida moder
na:

- a críse de autoridade. Os dirigentes tém medo de orientar seus


dirigidos, e estes, por sua vez, clamam como na Franga em 1968: "É
proibido proibirí";

- a mulher quer ser como o homem, abandonando as fungóes da


maternidade, e o homem quer ser como a mulher nos casos de
homossexualismo (casamentos gays) e transexualismo;

- o professor tem vergonha de ser o docente e faz-se discente com


seus alunos.

- numa palavra, a moda unissex tudo diz a tal propósito.

A verificagáo de tais fatos é útil, porque explica, até ceño ponto, o


caos que reina em setores da nossa sociedade.

O livro de Anatrella se recomenda, apesar de utilizar linguagem


técnica, nem sempre fácil.

235
Morte suave?

A EUTANASIA VISTA POR UM MÉDICO

Em sintese: O Dr. Helio Begliomini distingue eutanasia ativa (con-


denável) e eutanasia passiva, a qual consiste em suspenderos meios de
subsistencia do paciente. Nao se suspendam os meios ordinarios (soro,
injegdes, alimentagáo...), pois isto equivale a matar indiretamente. Toda
vía é lícito suspender os meios de subsistencia extraordinarios ou a
parafernália que nao produz resultados proporcionáis, deixando o paci
ente sem esperanga de melhora.
* * #

O Dr. Helio Begliomini é pós-graduado em Medicina pela Universi-


dade Federal de Sao Paulo, Assistente do Servico de Urología do Hospi
tal do Servidor Público do Estado de Sao Paulo, e membro de diversas
sociedades científicas e culturáis. - Enviou a PR um artigo sobre a euta
nasia, que vai sendo mais e mais aceita, como se deu recentemente na
Bélgica após aceitacáo na Holanda.

Vai, a seguir, publicado o texto do Dr. Begliomini, que escreveu


como médico e a quem a Redacáo de PR exprime profunda gratidáo
pela valiosa colaboracáo. - É de notar que as idéias do autor coincidem
com o pensamento da Igreja.

A MORTE BASEADA EM EVIDENCIAS


Toma-se cada vez mais difundido o conceito de Medicina Baseada
em Evidencias. Através déla, objetiva-se incorporar á prática médica,
conceitos e propostas mais condizentes á luz dos acontecimentos
auferidos de trabalhos baseados em metodología científica, reconheci-
damente criteriosa. Em contrapartida, procura-se nao dar credibilidade a
rotinas e terapéuticas que nao tenham respaldo na ciencia como discipli
na objetiva. Dessa forma, pretende-se desmistificar praxes e condutas
que carecem de comprovacao advinda de ensaios clínicos referendados.

Será que o conceito de Medicina Baseada em Evidencias se pode-


rá aplicar á morte? Para tal, devem-se diferenciar alguns aspectos relaci
onados á morte. Eutanasia é o ato deliberado de provocar a morte num
enfermo com ou sem sua solicitacáo. Pode ser classificado em eutana
sia ativa, quando a morte é diretamente infringida pela ministracáo de
drogas mortíferas, geralmente intravenosas. A eutanasia passiva ocor-
re quando se subtraem os meios de subsistencia do paciente. Estes po-

236
A EUTANASIA VISTA POR UM MÉDICO 45

de rao ser os de rotina ou ordinarios (alimentagáo, soro, hidratacáo oral


ou enteral, medicamentos usuais, transfusóes de sangue, plasma, oxi-
génio, etc.) ou recursos complexos como a parafernália tecnológica que
se encontra hoje em dia em Unidades de Terapia Intensiva: quimioterapia
antineoplásica, cirurgias, custosos exames por imagens, etc.

Do lado oposto da eutanasia, tem-se o conceito de distanásia


que é tida como morte dolorosa, difícil, ou morte prolongada, onde se
utilizam obstinadamente, em pacientes sem perspectivas de cura, meios
extraordinarios, sendo desproporcionáis e ineficientes com relacáo ao
prognóstico e, portante nestes casos, totalmente desnecessários, pois,
nada mudará a historia natural da doenca terminal, seja ela disfuncional,
seja degenerativa ou tumoral. A utilizacáo desmedida de recursos extra
ordinarios, em tais pacientes, nada mais faria do que prolongar desne-
cessariamente a agonía e, muitas vezes, o sofrimento.

A distanásia nao deixa de ser um dos iatrogenismos da moderna


medicina. Além da multiplicidade tecnicista de recursos disponíveis atu-
almente, existe cada vez mais urna pressáo da sociedade contra o médi
co, que ameaca chamá-lo á Justica por negligencia de socorro.

A adistanásia é outro neologismo, que significa a negacio da


distanásia. Vem a ser a morte conseqüente a urna interrupeáo dos mei
os extraordinarios de subsistencia ou a chamada eutanasia passiva que
se dá pela suspensáo de recursos desproporcionáis, ou nao proporcio
nados aos poucos resultados obtidos.

A distanásia, ainda que involuntaria e exercida por pressáo da


mídia e da sociedade, nao é incomum em muitos hospitais. Vez por ou-
tra, observa-se nos meios de cornunícacáo, a utilizacáo de recursos di
agnósticos custosos e de tratamentos em celebridades cujo prognóstico
está sombríamente reservado.

Ousaria dizer que a eutanasia, quer ativa, quer passiva (quando


se subtraem os recursos estritamente ordinarios) deve ser considerada
táo antiética e imoral quanto a distanásia praticada consciente e
deliberadamente.

Faz-se mister que tais conceitos sejam mais discutidos na prática


médica, a fim de nao se deixarem desprotegidos os médicos que lidam
com tais pacientes. Poderia ser também urna das atribuicóes das Comis-
soes de Etica Médica Institucionais a discussáo da validade ou nao de se
aplicarem recursos extraordinarios e desproporcionáis em pacientes que
estáo caminhando para a morte. Essa discussáo poderia ser partilhada
com familiares do paciente e, com certeza, traria beneficios a todos, além
de atenuar a pressáo e a responsabilidade da equipe médica frente aos
casos difíceis de se conduzir.

237
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

Entre a eutanasia e a distanásia tem-se o conceito de ortotanásia,


que nada mais seria do que a morte no tempo certo e, ampliando o vocá-
bulo, no ambiente certo, buscando com isso, defender o direito á vida, a
dignidade do paciente e o direito de morrer dignamente com seus víncu
los familiares.

A vida que tem sua origem na fecundacáo, há de ter seu término


com a morte. Esta nao deverá ser provocada pela eutanasia quer ativa
quer passiva, nem adiada desmedidamente pela distanásia quando nao
se vislumbra, á luz da ciencia, reversáo de um caminho inexorável para o
desfecho final.

A ortotanásia, assim como a Medicina Baseada em Evidencias,


sao conceitos que deveráo ser mais bem estudados e digeridos na práti-
ca diaria, sobremodo no ambiente hospitalar. Um salutar sinergismo das
duas idéias resultaría em "morte no momento e lugar certos (ortotanásia)
baseada em evidencias".

LEONARDO BOFF

Após deixar a Ordem Franciscana, Leonardo Boff tem-se pronun


ciado pela imprensa em tom passional e amargo contra a Igreja e seus
artigos de fé e disciplina. Generaliza suas afirmacóes, negligenciando a
precisáo que todo intelectual deve procurar. Um claro espécimen dessa
atitude preconceituosa é a entrevista publicada em PASQUIM aos 2/4/
02; entre outras coisas, ai se lé: "Quanto ao Evangelho de Tomé, supóe-
se que seja o evangelho verdadeiro, do ano 50 mais ou menos". Ora
quem escreve isto, nunca terá lido o Ev. de Tomé, que é um texto gnóstico
dualista, originario de 200 aproximadamente. Esse dualismo nao cristáo
aparece bem na sentenca 114 do Ev. de Tomé:

"Simáo Pedro disse a eles: 'Maña deveria deixar-nos, pois as mu-


Iheres nao sao dignas da vida'. Jesús disse: 'Eu a guiareipara fazerdela
um homem, de modo que também ela possa tornarse um espirito vivo,
semelhante a voces, homens. Pois toda mulher que se torne homem,
entrará no reino do céu'".

Diz a sentenca 15: "Jesús afirmou: 'Quando virem alguém que nao
nasceu de mulher, prosternem-se e adorem. Este é seu pai'".

Sentenga 105: "Quem quer que conhega pai ou máe, será chama
do filho de máe prostituta".

O Ev. de Tomé supóe os Evangelhos canónicos e os parafraseia


em sentido dualista. Foi descoberto em 1945, e nao em 1974, como afir
ma L. Boff. Além do mais, Boff confunde as descobertas de Qumran com
as de Nag. Hammadi (Egito, Ev. de Tomé). Ver PR 425/1997, pp. 451 ss.

238
Exegese bíblica:

CONTRADigÁO ENTRE 2Sm 24,10 e 1Cr 21,1?

Aparentemente difícil é a conciliacáo de 2Sm 24,1 com 1Cr 21,1.


Eis os dois textos em foco:

2Sm 24,1 1Cr21,1

"A ira do Senhorse acendeu "Sata levantou-se contra Isra


contra Israel e incitou Davi contra el e induziu Davi a fazer o récense-
eles: 'Val', disse ele, 'e faze o re- amento de Israel".
censeamento de Israel e de Judá'".

Pergunta-se: afinal quem levou Davi a fazer o recenseamento: Deus


irado ou Sata?

- Antes do mais, convém notar que o recenseamento do povo era,


em Israel, considerado um ato de arrogancia do rei. Podia significar que
este quería contar com torcas humanas para se impor aos demais mo
narcas. A Biblia diz figuradamente que Deus tem um livro no qual Ele
registra os nomes dos que vivem. Ver Ex 32, 32s:

Diz Moisés: '"Agora, pois, se perdoasses o seu pecado ... Se nao


risca-me, pego-te, do livro que escreveste'. O Senhor respondeu: 'Risca-
rei do meu livro todo aquele que pecou contra mim'".

Por conseguinte Davi cometeu um pecado. Quem o instigou?

- Observemos que os livros de Samuel sao dos séculos Xl/X a.C;


supóem mentalidade primitiva, antropomórfica, que atribuí a Deus máos,
pés, boca e também... ira. Além disto, os israelitas antigos julgavam ser
Deus a causa de tudo, também dos males; nao distinguiam entre causar
0 acontecimento e permitir o acontecimento1. Por isto o autor de 2Sm
diz que a ira de Deus incitou Davi ao pecado. Trata-se de um modo de
falar imperfeito, correspondente a um grau de cultura arcaico, do qual se
revestiu a mensagem de Deus.

Os livros das Crónicas sao posteriores ao exilio {587-538 a.C).


Apresentam urna releitura dos livros de Samuel em mentalidade mais
evoluída, já assaz depurada de antropomorfismos; Deus é mais reco-
nhecido em sua transcendencia. Daí a troca de "a ira de Deus" por "Sata",
que é o Adversario, por excelencia, do plano de Deus.

1 Deus quer o bem, mas permite que a liberdade humana opte pelo mal.

239
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 480/2002

Na verdade, Deus nao pode tentar ninguém ao pecado, pois Ele é


santo e quer a santificacáo de todos os homens. É Sao Tiago quem es-
creveu:

"Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: 'É Deus que me está tentan
do', pois Deus nao pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta" (Tg 1, 13).

Nao há, pois, contradicáo real entre 2Sm 24,1 e 1 Cr 21,1, mas há
modos de falar diferentes, dependentes de graus de cultura diversos.

CORRESPONDENCIA MIUDA

Urna pessoa aflita ouviu dizer que a geracáo presente sofre as pe


nas correspondentes ás pragas rogadas por seus antepassados. E pede
explicares.

- Cara irmá, nao há por que se angustiar. O texto bíblico diz clara
mente que cada um responde por si, e por si só. Mais: o fato de alguém
desejar o mal a outrem nao implica que o outro sofra esse mal; nao exis-
tem palavras mágicas que acarretem o mal por serem palavras más. Por
conseguinte rogar pragas nao efetua mal nenhum a nao ser que a pes
soa tida como vítima se sugestione a ponto de ela mesma se precipitar
na desgraca.

Eis dois textos bíblicos do século VI a.C. que ensinam que nin
guém paga pelos pecados alheios:

Jr 31,29s: "Naquele dia ninguém mais dirá: 'Os país comeram uvas
verdes e os filhos ficaram com os dentes embotados'. Pelo contrarío, cada
qual morre por seu próprío pecado; tem os dentes embotados quem co-
meu uvas verdes".

Ez 18, 1-4: "A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:


'Que proverbio é este que andáis repetindo na térra de Israel: Os país
comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados? Juro
por minha vida - oráculo do Senhor Deus - nao repetiréis mais esse
proverbio... Quem peca é que morrerá'".

Verdade é que, em Ex 20,5 está dito: "Castigo a culpa dos pais nos
filhos até a terceira e quarta geracáo". - Notemos que este texto é bem
anterior aos dos dois Profetas citados; supóe a mentalidade primitiva do
clá, segundo a qual o individuo nao vale por si, mas pelo clá ou a familia
a que pertence. Tal concepcáo favoreceu a hipocrisia dos judeus do sé-
(Conlinua na p. 228)

240
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as Espirituais. 3fl edicáo portuguesa pelos monges de Singeverga. 540 págs RS 40,00.
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guesa pelos Monges de Singeverga, Portugal. 1961, 544 págs R$ 40,00.
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Folch Gomes, OSB. Tratado de "Deus Uno e Trino", de orientacáo tomista e de índole
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teses fundamentáis) - Padre Édouard Hugon O.P.
Traducáo e introducto: D. Odiláo Moura O.S.B. (da Academia Brasileira de Filosofía).
EDIPUCRS - 1998. 320 págs R$ 16,00.

- SUMA CONTRA OS GENTÍOS, Volume II - Livros lllfi e IV9. Traducáo de Dom Odiláo
Moura, OSB. Baseada em parte em traducáo de Dom Ludgero Jaspers, OSB. Revisáo de
Luis A. de Boni. Edicáo bilingüe 927 págs. Edicáo de 1996. EDIPUCRS/EST. ...R$ 28,00.
- COMPENDIO DE TEOLOGÍA, Traducáo e introducáo de Dom Odiláo Moura, OSB,
EDIPUCRS 1996. 287 págs. Segunda edicáo da última obra de Sao Tomás, contendo o
seu último pensamento teológico. Apresentacáo de Mons. Urbano Zilles RS 14,00.
- O ENTE E A ESSÉNCIA, Traducáo e ¡ntroducáo com notas de Dom Odíláo Moura, OSB.
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primeira escrita por Sao Tomás, urna síntese de sua doutrina filosófica RS 15,00.

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entretanto, por sua simplicidade, aliada ao dominio seguro e profundo do tema, orientar
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Trecho do prefacio: "...Na crise atual que a vida religiosa, profundamente" aínda atraves-
sa, nao é oportuna uma modemizacáo, mas apenas uma resposta do radicalismo evan
gélico testemunhado pela grande tradicáo...".
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edicáo -1996 - Artpress - Sao Paulo. 142 págs.
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Trecho de prólogo do autor: "...O único desejo que nos leva a publicar este ensaio sobre
táo delicado assunto, numa época em que o racionalismo vai causando tantos estragos,
é sermos de utilidade a nossos irmaos na fé...".
TRATADO SOBRE A ORACÁO. Tertuliano, S. Cipriano e Orígenes. Tradupáo do Revmo.
D. Abade Timoteo Amoroso Anastácio, OSB. Revisáo: Mosteiro de Maria Máe do Cristo
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PERSPECTIVAS DA REGRA DE SAO BENTO, Irma Aquinata Bóckmann OSB.
Comentario sobre o Prólogo e os capítulos 53, 58, 72, 73 da Regra Beneditina -
Traducáo do alemáo por D. Mateus Rocha OSB.
A autora é professora no Pontificio Ateneu de Santo Anselmo em Roma (Monte
Aventino). Tem divulgado suas pesquisas nao só na Alemanha, Italia, Franca, Portugal,
Espanha, como também nos Estados Unidos, Brasil, Tanzania, Coréia e Filipinas, por
ocasiáo de Cursos e Retiros. 364 págs R$ 12,90.
SAO BENTO E A PROFISSÁO DE MONGE, por Dom Joáo Evangelista Enout O.S.B.
190 págs. R$ 11,90.
O genio, ou seja, a santidade de um monge da Igreja latina do século VI (480-540) - SAO
BENTO - transformou-o em exemplo vivo, em mestre e em legislador de um estado de vida
crista, empanhado na procura crescente da face e da verdade de Deus, espelhada na traje-
tória de um viver humano renascido do sangue redentor de Cristo. - Assim, o discípulo de
Sao Bento ouve o chamado para fazer-se monge, para assumira "profissáo" de monge".
OS CISTERCIENSES - Documentos Primitivos, foi publicado originalmente na Franca
(Citeaux Commentarii Cistercienses), tendo uma íntroducáo e bibliografía do irmáo
Francois de Place, da Abadía de Notre Dame de Sept:Fons. Sua edicáo no Brasil foi
uma iniciativa do Mosteiro Trapista de Nossa Senhora da Assuncáo de Hardenhausen -
Itatinga, em Sao Paulo, tendo o apoio dos beneditinos do Rio de Janeiro. A tradupáo é do
jomalista Irineu Guimaráes, pormuitos anos correspondente no Brasil do jornal francés "Le
Monde". Padre Luís Alberto Rúas Santos, O. Cist., foi o responsável pela revisáo da obra.
O livro sai pela Musa Editora, de Sao Paulo, em coedicáo com a "Lumen Christi", do
Rio de Janeiro (254 páginas) R$ 25,00.
MAIS PODE A GRACA - O acompanhamento espiritual. Dom André Lout, Cisterciense,
Abade de Mont des Cats. Traducáo do Mosteiro de Salvador. CIMBRA. 1997, Editado
por Santuario Editora. 222 págs R$ 17,00.

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