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Tribunal de Justiça de Minas Gerais Número do Relator: 1.0000.14.079551-9/000 Númeração 0795519- Des.(a) Vanessa

Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Número do Relator:

1.0000.14.079551-9/000 Númeração 0795519- Des.(a) Vanessa Verdolim Hudson Andrade

Relator do Acordão:

Des.(a) Vanessa Verdolim Hudson Andrade

Data do Julgamento:

16/06/2015

Data da Publicação:

26/06/2015

EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE - LEI DO MUNICÍPIO DE DIVINÓPOLIS - EXTINÇÃO DO APOSTILAMENTO - CONCESSÃO DO BENEFÍCIO EM SITUAÇÕES RESSALVADAS NA LEI - PERCEPÇÃO, POR SERVIDOR EFETIVO, DE REMUNERAÇÃO PRÓPRIA DE CARGO DE COMISSÃO - REMUNERAÇÃO PRÓPRIA DE ATIVIDADES DE DIREÇÃO, CHEFIA E ASSESSORAMENTO - CONFRONTO COM O ART. 23, CAPUT, DA CONSTITUIÇÃO ESTADUAL - INCONSTITUCIONALIDADE RECONHECIDA.

- A previsão do apostilamento ou de institutos essencialmente similares - cuja finalidade é resguardar ao servidor efetivo o recebimento da remuneração própria do cargo em comissão exercido durante determinado interstício, pelos municípios, encontra óbice na atual redação do art. 23, caput, da Constituição Estadual. É que os parâmetros constitucionais delineados com a promulgação das Emendas nº. 19/1998 à Constituição da República e nº 49/2001 e 57/2003 à Constituição Estadual não autorizam a percepção, pelo servidor efetivo, de verba essencialmente dirigida à remuneração específica ao exercício das funções de direção, chefia e assessoramento, após a cessação do exercício de atividades dessa natureza. Precedente do TJMG, proferido pelo Órgão Especial.

AÇÃO DIRETA INCONST Nº 1.0000.14.079551-9/000 - COMARCA DE

DIVINÓPOLIS

- REQUERENTE(S): PG JUSTIÇA - REQUERIDO(A)(S):

PREFEITO DE DIVINÓPOLIS, CÂMARA MUN DIVINOPOLIS

A C Ó R D Ã O

Vistos etc., acorda, em Turma, o ÓRGÃO ESPECIAL do Tribunal de

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da

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Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em JULGAR PROCEDENTE A REPRESENTAÇÃO, POR MAIORIA.

DESA. VANESSA VERDOLIM HUDSON ANDRADE

RELATORA.

SESSÃO DE 08 DE ABRIL DE 2015

NOTAS TAQUIGRÁFICAS

SUSTENTAÇÕES ORAIS

O SR. DR. BRUNO CUNHA GONTIJO:

Exm.º. Sr. Presidente.

Exm.ºs Srs. Desembargadores deste Órgão Especial.

Nobres colegas.

Uma boa tarde a todos.

Reitero aqui a minha satisfação de, por mais uma vez, poder

Tribunal de Justiça de Minas Gerais discutir questões tão relevantes do Direito dentro de um

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discutir questões tão relevantes do Direito dentro de um caso que tem se apresentado com uma certa reiteração.

Temos aqui, hoje, uma ação direta de inconstitucionalidade proposta pelo Procurador-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais em face da Lei Complementar nº 163, de 2011, do Município de Divinópolis, Lei essa que tratou da extinção do instituto do apostilamento, da estabilidade financeira remuneratória dos servidores, Lei essa que, ao tratar da extinção do apostilamento no âmbito do Município de Divinópolis, estabeleceu, também, algumas regras de transição para essa questão.

Na representação de inconstitucionalidade do Procurador-Geral de Justiça do Estado, três são os elementos que fundamentam ou que justificam a sua pretensão pela declaração da inconstitucionalidade: o primeiro desses elementos seria, exatamente, um vício de iniciativa do projeto de lei; o segundo desses elementos seria uma ofensa, uma contrariedade às regras da Emenda Constitucional Estadual nº 57 de 2003; e o último dos elementos seria uma contrariedade aos princípios da moralidade e da impessoalidade previstos no art. 37, caput, da Constituição Federal, e repetidos no art. 13 da nossa Constituição Estadual.

Antes de enfrentar, de apresentar contrapontos a todos esses três elementos que fundamentam o pedido de reconhecimento da inconstitucionalidade, preciso suscitar aqui uma questão preliminar. É importante que entendamos o seguinte: somente a lei que ainda tem condição de produzir efeitos pode ser objeto de verificação de constitucionalidade. Somente a lei, que ainda pode revelar uma contrariedade às normas constitucionais, é que pode ser objeto de representação de inconstitucionalidade.

O que temos, aqui, na Lei Complementar nº 163, de 2011, é uma Lei que produziu efeito concretos e já se exauriu. Os seus efeitos se realizaram, produziram-se, até o final do ano de 2011, até dezembro de 2011. Isso porque essa Lei, a Lei Complementar nº 163, de 2011, além de extingui o instituto do apostilamento, definiu uma

Tribunal de Justiça de Minas Gerais conformação entre duas realidades temporais: a realidade de quem

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conformação entre duas realidades temporais: a realidade de quem esperava completar o tempo, requisitos necessários para a concessão do benefício, e o fim desse benefício. Então, o que essa Lei propôs foi exatamente compatibilizar esses dois momentos temporais, de forma a não deixar que aqueles servidores que se encontravam no curso do cumprimento, do atendimento aos requisitos, não tivesse o mesmo benefício que outros servidores. Então, essa Lei garantiu àqueles que completassem os requisitos, até dezembro de 2011, o direito ao apostilamento, àqueles que não completassem esses requisitos, nem de forma parcial, não teriam mais direito ao apostilamento.

O que quero chamar a atenção é que essa Lei produziu todos os seus efeitos, e o que sobrou, o que restou dessa Lei, foram situações concretas; situações concretas que o Procurador-Geral de Justiça do Estado pretende desconstituir, no âmbito de uma ação de natureza objetiva, o que não pode acontecer. As ações de natureza objetiva, essa representação de inconstitucionalidade, só se admite para verificarmos uma inconstitucionalidade em abstrato, nunca para enfrentarmos questões concretas. E, volto a dizer, essa Lei Complementar nº 163, de 2011 produziu efeitos concretos e exauriu a sua produção de efeitos em 2011.

E, aqui, na nossa manifestação de defesa, na prestação de informações por parte da Câmara Municipal, apresentamos uma série de decisões do Supremo Tribunal Federal e decisões deste Tribunal de Justiça, no sentido de que, não havendo ou ocorrendo a produção de todos os efeitos, exauridos os efeitos da Lei questionada, resta ausente o interesse de agir para eventual propositura de representação de inconstitucionalidade. Essa é a posição deste Tribunal. Então, em relação à preliminar, o nosso pedido é no sentido de que esse processo seja extinto, sem enfrentamento do mérito, obviamente, nos termos do 267 do Código de Processo Civil. Muito bem.

Em relação aos contrapontos de mérito, temos, então, como me referi, três elementos.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Primeiro elemento: suscita o Procurador-Geral de Justiça que teríamos

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Primeiro elemento: suscita o Procurador-Geral de Justiça que teríamos aqui um vício de iniciativa do projeto de lei. Isso porque, quando o projeto de iniciativa do Chefe do Executivo foi levado à Câmara para apreciação, algumas propostas de emenda foram apresentadas. Pode parecer assustador a idéia de, num projeto de iniciativa do Executivo, emendas parlamentares sejam apresentadas. Só que, o que não se coloca na representação de inconstitucionalidade é que, o que foi votado não foi o projeto original com as emendas, mas um substitutivo. Então, o projeto de lei, de 2011, substitutivo, com mensagem substitutiva do Chefe do Executivo, óbvio, acolhendo algumas daquelas propostas de emenda, é que foi votado. Não há aqui nenhum vício com relação à iniciativa do Chefe do Executivo.

O segundo ponto, da representação de inconstitucionalidade, trata exatamente de uma pretensa e presumida violação às regras, ou à extinção do apostilamento proposta no Estado de Minas Gerais pela Emenda Constitucional nº 57, de 2003.

Excelências, quero que entendamos que os municípios, na nossa atual conformação jurídica, na nossa atual conformação política, detêm autonomia e com competências específicas previstas no art.30 da Constituição Federal. É o município que define a forma como ele gastará os seus recursos; é o município que define a forma como ele prestará os seus serviços, de forma que não posso pretender aplicar aos municípios as regras de organização administrativa do Estado de Minas Gerais. A Emenda Constitucional nº57, de 2003, estabelece regras de estrutura organizacional para os servidores do Estado. E essas mesmas regras não se aplicam ao município, porque, dentro dessa autonomia, os municípios têm autorização constitucional para conformar o regime dos seus servidores, para conformar a forma como seus serviços serão prestados. Então, aqui, a imposição também já defendida neste Tribunal, a Emenda Constitucional nº 57, de 2013, não se aplica aos municípios. E, aqui, cabe entender o seguinte: não existe uma vedação ao instituto do apostilamento, de forma que a concessão do apostilamento acaba se tornando autonomia do município, que, eventualmente, tem recurso suficiente para isso.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais É importante considerar, e aqui faço referência aos servidores

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É importante considerar, e aqui faço referência aos servidores da Câmara Municipal, a nossa Câmara Municipal devolve ao Município, todos os anos, entre um milhão e um milhão e meio de reais, ou seja, existem recursos para que ela se organize administrativamente.

É importante entender que, óbvio, existem normas de estrutura administrativa de observância obrigatória - realização de concurso público, necessidade de observância da quebra da paridade e outras normas que são de observância obrigatória, mas a ideia de impedimento de concessão do apostilamento aos servidores do Estado de Minas Gerais não pode atingir os servidores do Município de Divinópolis, ou não poderia, uma vez que a Lei Complementar nº 163, de 2011, extinguiu esse benefício.

E, por último, Ex.ªs, o último argumento, o último ponto da representação de inconstitucionalidade do Procurador-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais, é uma ofensa aos princípios da moralidade e da impessoalidade.

Quero deixar, aqui, muito claro, que, se, nesta Sessão, percebermos que V. Ex.ªs entendem pela inconstitucionalidade dessa Lei Complementar nº163, de 2011, estaremos contrariando posicionamento do Supremo Tribunal Federal de 2009, julgado em rito de repercussão geral, em que a Ministra Cármen Lúcia diz o seguinte: "É pacífico o entendimento pela constitucionalidade do instituto do apostilamento".

Então, existe posição do Supremo nesse sentido. É constitucional, mais precisamente em relação à pretensa violação desses princípios

constitucionais -

moralidade e impessoalidade.

Ex.ªs, é importante entender o seguinte: o apostilamento, essa instabilidade remuneratória, nada mais é do que uma vantagem pessoal conferida ao servidor, uma vantagem pessoal como vários outros direitos que já foram conferidos aos servidores.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Discute-se que, considerando que alguns servidores serão premiados com

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Discute-se que, considerando que alguns servidores serão premiados com o pagamento da diferença entre aquele cargo de comissão ocupado e o cargo efetivo, durante todo o período da sua vida pública, da sua vinculação funcional, considerando que a alguns servidores isso será concedido, teríamos um tratamento diferenciado, uma violação ao princípio da impessoalidade em relação àqueles outros servidores que não teriam o direito a essa sobre-remuneração, ou essa vantagem pessoal específica.

Ex.ªs, estamos, aqui, diante de uma questão de regime jurídico. O regime jurídico não é igual para todos os servidores, não existe um direito adquirido a regime jurídico. Vejam. Se eu trabalhar a hipótese de que conceder o apostilamento viola o princípio da impessoalidade, trazer benefícios para uns servidores e não para outros, preciso entender que a quebra do direito da paridade, por exemplo, também viola o princípio da impessoalidade. Quando falo que os atuais servidores não mais se aposentam com base na sua última remuneração, ao passo que os antigos servidores o faziam, anteriores às Emendas 19, de 1998, 41, de 2003, e outras, se digo que os atuais servidores têm um tratamento no regime jurídico diferente, violo o princípio da impessoalidade.

Então, preciso chamar a atenção que, considerando-se vantagem pessoal, não há aqui violação ao princípio da impessoalidade. É uma vantagem pessoal, é regime jurídico. Regime jurídico é algo que muda ao longo do tempo e já pacificamos esse entendimento.

Por último, Ex.ªs, com relação à violação do princípio da moralidade, o instituto do apostilamento é um instituto que conviveu, no nosso ordenamento jurídico de todos os entes, durante muitos anos. Remonta-se à década de 80. Então, quer dizer que, agora, o instituto do apostilamento torna-se inconstitucional por violação à moralidade? Mas ele não era. Então, estaríamos chancelando na declaração de inconstitucionalidade dessa Lei a ideia de uma inconstitucionalidade superveniente, ou mesmo determinando o seguinte: se entendo que ele viola o princípio da moralidade, todos os atos concessórios de apostilamento, no Brasil afora, deveriam, então,

Tribunal de Justiça de Minas Gerais ser anulados, uma vez que eles violariam um princípio

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ser anulados, uma vez que eles violariam um princípio constitucional.

Dessa forma, Ex.ªs, reiterando todos os elementos, todas as informações que apresentamos nas manifestações ofertadas do curso desse processo e renovando o meu agradecimento pela atenção, pugnamos, em sede preliminar, pelo não conhecimento desta representação de inconstitucionalidade e, no mérito, o desprovimento desta representação, no sentido de declarar, em razão da natureza dúplice, a inconstitucionalidade dessa Lei Complementar nº 163, de 2011.

O SR. DR. LUCIANO DE ARAÚJO FERRAZ:

Exm.º Sr. Presidente, Exm.ª Sr.ª Relatora, demais Desembargadores que compõem este Órgão Especial, demais presentes, colegas advogados.

Aqui compareço na tribuna a representar a Associação dos Servidores da Câmara Municipal de Divinópolis, que foi habilitada no processo na condição de amicus curiae e, pela primeira vez, portanto, tive a oportunidade de me manifestar nestes autos, não tive a oportunidade de carrear aos autos peças processuais, de modo que é da tribuna que arguirei questões para serem consideradas por V. Ex.ªs no julgamento que ora se coloca neste Órgão Especial.

Por isso, peço, desde já, Exm.º, Sr Presidente, que a sustentação oral seja transcrita na ata do julgamento, especificamente os argumentos que lançaremos, aqui, desta tribuna, seja porque será essencial para o debate nesta assentada, seja na eventualidade da necessidade de se carrear aos autos recursos ao egrégio Supremo Tribunal Federal. Requeiro, portanto, que conste na ata as questões que sustentarei desta tribuna em homenagem ao princípio da ampla defesa .

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Bem disse o Colega que me antecedeu, Dr. Bruno

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Bem disse o Colega que me antecedeu, Dr. Bruno Cunha Gontijo, sobre

a preliminar de não conhecimento da ação direta de inconstitucionalidade. Por que digo isso? Porque a Lei Municipal que ora é atacada nesta ação

direta de inconstitucionalidade já, de fato, exauriu toda a sua eficácia. Vou ler apenas um dispositivo que resume toda a questão para que V. Ex.ªs tenham

a possibilidade de enfrentar esta preliminar já colocada da tribuna e por ora reiterada nesta sustentação oral. Diz o § 1º do art. 2º da Lei Municipal:

Art. 2º (

)

§ 1º. "fica assegurado o direito ao apostilamento de estabilização remuneratória para todos os servidores efetivos ou estáveis, nos termos do art 19 do ADCT que tenham completado, até 31 de dezembro de 2011 5 (cinco) anos de efetivo exercício de cargo comissionado".

Então, essa Lei produziu todos os seus efeitos, garantindo a possibilidade de cômputo do tempo do apostilamento até trinta e um de dezembro de 2011, e ali ela exauriu completamente a sua eficácia, porquanto se trata de um dispositivo transitório incluído na legislação municipal e esta questão do exaurimento não poderia ter sido trazida pelo ilustre Representante do Ministério Público, Procurador-Geral de Justiça, movendo uma ação direta para pretender, simplesmente, aniquilar os atos administrativo que foram praticados com base na Lei, por via reflexa, que é ação direta de inconstitucionalidade. Então, houve já a pratica dos atos administrativo sob a égide da Lei Municipal que gozava, até aquela altura, de presunção de constitucionalidade.

Se pretende o Ministério Público questionar as questões, deve fazê-lo em processo de natureza subjetiva e não em processo objetivo depois do exaurimento da eficácia do dispositivo, por força do que aqui já mencionei.

Essa posição é pacífica no Supremo Tribunal Federal e, também, nesta Corte, bastando citar aqui o julgamento da Ação Direta 612,

Tribunal de Justiça de Minas Gerais questão de ordem relatada pelo Ministro Celso de Mello.

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questão de ordem relatada pelo Ministro Celso de Mello. Diz S. Ex.ª:

"Objeto do controle concentrado somente pode ser ato estatal de conteúdo normativo em regime de plena vigência. A cessação superveniente da exigência da norma estatal impugnada, em sede de ação direta de inconstitucionalidade, enquanto o fato jurídico que se revela apto a gerar a extinção do processo de fiscalização abstrata, tanto pode decorrer de sua revogação pura e simples quanto do exaurimento de sua eficácia, tal como sucede nas hipóteses de norma legal de caráter temporário."

Então, o Supremo Tribunal Federal tem jurisprudência firme no sentido de que somente normas em vigor, cuja eficácia ainda esteja sendo produzida, podem ser objeto de ação direta de inconstitucionalidade. A norma do Município de Divinópolis terminou sua vigência em trinta e um de dezembro de 2011, quando garantiu a possibilidade de cômputo de tempo de serviço em cargos comissionados para efeito de apostilamento. Portanto, argui-se, da tribuna, preliminar de não conhecimento da ação direta, por carência de ação, por falta de interesse de agir, porquanto exaurida a eficácia da norma em trinta e um de dezembro de 2011.

Com relação ao mérito, os argumentos lançados pelo Representante do Ministério Público são basicamente dois, que foram, daqui, da tribuna, já colocados. Primeiro, uma contrariedade suposta ao art. 37, V, da Constituição Federal, e aos princípios da moralidade e impessoalidade. Segundo, a revogação ou a impossibilidade de edição posterior de lei municipal que trata de apostilamento, por força da Emenda Constitucional Estadual n.º 57.

Esta Corte já debateu essa questão. E ela é divergente com relação a essa questão, mas a composição atual ainda não se manifestou sobre a segunda, que acabo de trazer à tona. Relativamente a isso, o que se tem a dizer é que não se julga, aqui, se o apostilamento é um instituto bom, se é ruim, se concordo ou discordo da essência do apostilamento. Esse processo é um processo de matriz objetiva. O que se confere é simplesmente se a norma está dentro do quadrante da

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Constituição ou não. Nesse particular, gostaria de trazer à

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Constituição ou não. Nesse particular, gostaria de trazer à tona que o Supremo Tribunal Federal já pacificou a constitucionalidade do apostilamento. Já disse que o apostilamento é constitucional, por diversas e diversas ocasiões. O Supremo Tribunal Federal diz: "O apostilamento concede uma vantagem que se agrega ao vencimento do servidor estável."

E essa matéria, obviamente, só pode ser concedida por intermédio de lei. Por quê? Porque a Constituição exige lei para a concessão de vantagens remuneratórias a servidor. Ora, a lei existe. Existiu na União, até 1993. Existiu no Estado de Minas Gerais até a Emenda Constitucional 57? Não! Não até a Emenda Constitucional 57, como diz o ilustre Representante do Ministério Público na sua peça de ingresso. Na verdade, o art. 121 da ADCT da Constituição Estadual, incluído pela Emenda 57, dizia que o apostilamento seria extinto no âmbito do Poder Executivo, do Poder Legislativo, do Poder Judiciário - este Tribunal! - e do Ministério Público, mediante leis que seriam encaminhadas pelos respectivos Chefes dessas Instituições. E assim foi feito no Estado de Minas Gerais. Na verdade, então, não é a Emenda em si que extingue o apostilamento. A Lei é que extingue o apostilamento. E a Lei deste Tribunal de Justiça é a Lei 14683, que diz o seguinte:

"Ao servidor efetivo do quadro de pessoal do Poder Judiciário, aplica-se o disposto no § 1º do art. 121 do ADCT da Constituição do Estado, acrescentado pela Emenda Constitucional 57, computando cem dias para esse fim o tempo exercido até 29 de fevereiro de 2004".

Então, vejam S. Ex.ªs que, primeiro, não há incompatibilidade entre o apostilamento e a Emenda Constitucional 19 ou a qualquer princípio que esteja na Constituição Federal. Tanto é que esse apostilamento durou, neste Tribunal de Justiça, com atos praticados por seus Presidentes até a extinção, que foi feita pela Lei 14.683. A reconhecer-se a procedência do argumento do Ministério Público, todos os apostilamentos feitos por nesta Casa são inconstitucionais.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Todos os apostilamentos feitos no âmbito do Ministério Público

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Todos os apostilamentos feitos no âmbito do Ministério Público do Estado de Minas Gerais são inconstitucionais, todos os apostilamentos feitos no âmbito do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais são inconstitucionais, da Assembleia e do Poder Executivo. Bem disse o meu antecessor, na tribuna, Dr. Bruno Cunha Gontijo, que a questão aqui remonta a Federação e, de fato, ao sistema de repartição de competências, por quê? Porque existem competências que são privativas da União, em que ela legisla para todas as esferas; competências concorrentes, em que ela legisla normas gerais; e as demais podem adotar as especificidades. Mas, em matéria de servidor público, aliás, em matéria de Direito Administrativo, não existe reserva de competência para a União - as normas que se aplicam ao regime jurídico de todas as entidades são as normas constantes do art. 37 até 40 da Constituição Federal aos servidores civis. Ali, sim, há um bloqueio à legislação infraconstitucional, mas a legislação infraconstitucional pode garantir outros direitos aos servidores. Aliás, a Constituição do Estado o faz, o fazia pelo menos, garantia quinquenio, apostila, garantia outros direitos, licença- prêmio, possibilidade de conversão de remuneração de licença- prêmio em espécie, por quê? Porque não existe uma reserva de competência em matéria de servidor público. Respeitados os quadrantes colocados na Constituição, cada esfera legisla para a sua respectiva organização como bem lhe aprouver, e assim o fez o Município de Divinópolis, porque ele adotou uma lei em que extinguiu o apostilamento, mas garantia transitividade para que aquelas pessoas que estavam durante a constituição do seu direito, e aqui me lembro da figura do direito expectado, tratada pelo Prof. Paulo Emílio Ribeiro de Vilhena, na Universidade Federal de Minas Gerais, em para garantir o direito expectado ele insere na lei normas transitórias, como fez o constituinte estadual, que deixou que se apostilassem até vinte e nove de fevereiro de 2004, tendo sido a Emenda Constitucional 57 editada no ano de 2003, e requerendo lei para que dispusesse sobre a questão, como fez o Estado de Minas Gerais relativamente ao Tribunal de Justiça deste Estado.

Então, a questão que se coloca é da autonomia do Município. E mais. Dos princípios da segurança das relações jurídicas que hoje

Tribunal de Justiça de Minas Gerais exigem que não haja rupturas abruptas em regimes jurídicos

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exigem que não haja rupturas abruptas em regimes jurídicos constituídos, prospectando para o futuro normas de transição, de modo a acomodar pacificamente a situação anterior com a situação posterior à edição da Lei.

No fundo, a Lei que aqui se impugna, é uma Lei constitucional, mas não

é só constitucional; ela extinguiu com o instituto do apostilamento, ela teve essa prerrogativa, basta ler aqui o art. 1º que diz: "fica extinto o apostilamento no município de Divinópolis". Só que ela estabeleceu normas de transição e, nisso, ela é incompatível com a Emenda Constitucional Estadual.

Não posso querer que uma norma constitucional estadual sobre servidores públicos bloqueie a autonomia do município.

O Procurador de Justiça, com a devida vênia, chega a distorcer o conteúdo de julgamento do Supremo Tribunal Federal para justificar sua tese. Ele cita um voto da Ministra Cármen Lúcia e, na passagem, diz assim:

"A União já extinguiu o seu apostilamento, o Estado já extinguiu, e o município não pode, o município também extinguiu, mas propôs normas transitórias".

Com esses adminículos, Sr. Presidente, peço o registro da preliminar suscitada, do exaurimento da eficácia da Lei e, portanto, do não conhecimento da ação, e, no mérito, pelo julgamento improcedente da ação direta de inconstitucionalidade.

A SR.ª DES.ª VANESSA VERDOLIM HUDSON ANDRADE:

Sr. Presidente.

Recebi ontem o memorial sobre o qual não pude dar a devida atenção em virtude do tempo e em face também das sustentações orais produzidas, inclusive vou pedir para constá-las nas notas taquigráficas.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Peço adiamento para que não haja alguma omissão e

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Peço adiamento para que não haja alguma omissão e peço que me sejam enviadas as referidas notas taquigráficas.

SÚMULA: PEDIU VISTA A RELATORA APÓS SUSTENTAÇÕES ORAIS.

SESSÃO DE 08 DE ABRIL DE 2015

NOTAS TAQUIGRÁFICAS

Assistiu ao julgamento, pelo Interessado, a Dr.ª Sarah Campos.

O SR. PRESIDENTE (DES. BITENCOURT MARCONDES):

O julgamento deste feito foi adiado na sessão anterior, a pedido da Relatora, após sustentação oral.

Com a palavra a Desembargadora Relatora.

A SR.ª DES.ª VANESSA VERDOLIM HUDSON ANDRADE:

Sr. Presidente.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Pedi vista, porque foi alegado da tribuna que havia

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Pedi vista, porque foi alegado da tribuna que havia fatos novos. Dei a devida atenção, pedi, inclusive, as notas taquigráficas quanto à preliminar.

Trata-se de AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE ajuizada pelo PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS em face da LEI COMPLEMENTAR Nº. 163/2011 DO MUNICÍPIO DE DIVINÓPOLIS.

Em suas razões iniciais, o requerente registra que o projeto que originou a lei impugnada surgiu da iniciativa do Poder Executivo, sendo irregularmente emendado pela Câmara Municipal. Pondera que a iniciativa para tratar da matéria disciplinada na lei incumbe, exclusivamente, à Chefia do Executivo, de modo a concluir que as emendas parlamentares implicaram em violação às regras de iniciativa e ao princípio da separação dos poderes. Em seguida, sustenta que o instituto do apostilamento tornou-se incompatível com as Constituições da República e do Estado após a edição da Emenda à CR nº. 19/1998 e da Emenda à CEMG nº. 57/2003, que tornou inadmissível a incorporação da gratificação do cargo comissionado à remuneração de servidor público que não mais exerce as atribuições inerentes à chefia, direção e assessoramento. Assinala que as previsões da lei municipal impingiram ofensa aos princípios constitucionais da moralidade e da razoabilidade. Por fim, requer a suspensão cautelar da norma impugnada.

Por meio da decisão de f. 50/50v, adiei a apreciação do pedido concernente à suspensão cautelar.

Em cumprimento ao disposto no art. 339, §5º do RI-TJMG, a Coordenação de Pesquisa e Orientação Técnica informou que não foi encontrada nenhuma manifestação do Órgão Especial acerca da legislação questionada.

O Prefeito Municipal de Divinópolis (f. 59/69) e a Câmara Municipal de Divinópolis (f. 238/280) prestaram informações, argumentando pela improcedência dos pedidos iniciais.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais A Procuradoria-Geral de Justiça opinou às f. 289/316, opinando

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A Procuradoria-Geral de Justiça opinou às f. 289/316, opinando pelo deferimento da medida cautelar e, no mérito, pela procedência do pedido.

Acuso o recebimento de memoriais pela ASCAMDI/MG, que atua como interessada no processo.

Concluídas as sustentações orais e analisados os argumentos nelas delineados, inclusive constantes de notas taquigráficas, passo ao julgamento.

Ante a relevância da matéria e seu especial significado para a ordem social e a segurança jurídica, e considerando que o órgão requerido e o Ministério Público foram instados a se manifestar quanto ao mérito da ação direta de inconstitucionalidade, revelando-se dispensável a prestação de maiores informações, submeto o processo diretamente ao órgão especial para julgamento, nos termos do art. 341 do Regimento Interno do TJMG.

PRELIMINARES

Impossibilidade jurídica do pedido.

A primeira questão preliminar suscitada pela Câmara Municipal de Divinópolis, concernente à impossibilidade jurídica do pedido, confunde-se, essencialmente, com o próprio mérito da demanda, razão pela qual será oportunamente examinada.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Inadequação da via eleita. Ao prestar informações e em

Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Inadequação da via eleita.

Ao prestar informações e em caráter preliminar, a Câmara Municipal salienta que ação foi ajuizada com o propósito de representar a inconstitucionalidade dos parágrafos 1º, 2º e 3º do art. 2º e dos art. 3º ao 6º Lei Complementar nº. 163/2011 do Município de Divinópolis, a qual revogou as normas concernentes ao instituto do apostilamento no âmbito do Município de Divinópolis e estabeleceu disposições transitórias relativas à extinção do benefício, nos seguintes termos:

LEI COMPLEMENTAR Nº 163 /2011

Extingue o instituto do apostilamento de estabilização remuneratória no âmbito do Município de Divinópolis, a partir de 31 de dezembro de 2011, e dá outras providências.

O povo do Município de Divinópolis, por seus representantes aprova e eu, na

qualidade de Prefeito Municipal, em seu nome sanciono a seguinte Lei

Complementar:

Art. 1° Fica extinto o instituto do apostilamento de estabilização remuneratória no âmbito do Município de Divinópolis, a partir de 31 de dezembro de 2011, nos termos desta Lei.

Art. 2º Fica revogada, em todos os seus termos, a Lei Complementar 123, de 7 de novembro de 2006, respeitado o disposto no art. 5º, XXXVI da Constituição da República Federativa do Brasil, nos termos das seguintes disposições transitórias:

§ 1º Fica assegurado o direito ao apostilamento de estabilização

remuneratória para todos os servidores efetivos ou estáveis, nos termos ao art. 19 do ADCT que tenham completado, até 31 de

Tribunal de Justiça de Minas Gerais dezembro de 2011, 5 (cinco) anos de efetivo exercício

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dezembro de 2011, 5 (cinco) anos de efetivo exercício de cargo

comissionado;

§ 2º O apostilamento de estabilização remuneratória dar-se-á no cargo

ocupado de maior remuneração, de acordo com o Plano de Carreira, Cargos

e Salários da categoria, desde que tenha exercido o respectivo cargo por período igual ou superior a 1/3 (um terço) do tempo a que se refere o parágrafo anterior.

§ 3º Equiparam-se aos ocupantes de cargo comissionado, para todos os

efeitos desta Lei, os coordenadores/diretores de CEMEI's e Escolas Municipais, vinculados à Secretaria Municipal de Educação.

Art. 3º Será assegurado, nos termos do artigo anterior, o direito ao apostilamento para os servidores que completarem o período aquisitivo de 5 (cinco) anos até 31 de dezembro de 2011.

Art. 4º Fica reconhecido o direito ao apostilamento proporcional pro rata tempore aos servidores que não completarem até 31 de dezembro de 2011 o quinquênio aquisitivo, nos termos de ato regulamentar do Executivo, desde que atendidos os seguintes requisitos:

I - Tenham exercido cargo em comissão no período compreendido entre 27 de novembro de 2006 e 31 de março de 2011;

II - Até então se enquadrassem nas disposições da Lei Complementar

123/2006;

III - Tenham ocupado cargos comissionados por um período mínimo de 02 (dois) anos;

Art. 5º A estabilização referida nesta Lei Complementar integra a remuneração do servidor para todos os efeitos legais, inclusive aposentadoria.

§ 1º A remuneração do cargo, inclusive a gratificação de cargo

Tribunal de Justiça de Minas Gerais comissionado e a gratificação de função de coordenador/diretor de

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comissionado e a gratificação de função de coordenador/diretor de CEMEI e escolas municipais, integram o vencimento do servidor apostilado para todos os efeitos legais, inclusive aposentadoria.

Art. 6º Decreto do Executivo regulamentará, no que for necessário, o disposto nesta Lei.

Art. 7º Esta Lei Complementar entra em vigor na data de sua publicação, produzindo seus efeitos a partir de sua publicação.

A análise dos dispositivos revela que a norma procedeu à extinção do instituto da estabilização remuneratória (apostilamento) no âmbito do Município de Divinópolis (art. 1º e 2º, caput), mas resguardou a concessão do benefício nas situações discriminadas nos art. 2º, §1º, 3º e 4º, referentes aos servidores que completaram, integral ou parcialmente, os requisitos outrora exigidos para o apostilamento.

Segundo as alegações deduzidas na oportunidade, a norma haveria produzido efeitos até 31 de dezembro de 2011, gerando situações jurídicas que estão definitivamente constituídas. Partindo dessa consideração, a Câmara Municipal pondera que a LC nº. 163/2011 consubstancia norma transitória cujos efeitos concretos estão exauridos, não se revestindo abstração ou impessoalidade, razão pela qual não se sujeitaria à submissão ao controle concentrado de constitucionalidade.

O i. advogado da parte interessada, em sustentação oral, sustentou a mesma tese, ressaltando o exaurimento dos efeitos da norma.

Assim firmado e para a adequada resolução do ponto controvertido, é relevante salientar que os preceitos normativos questionados da demanda incidem sobre relação jurídica de natureza continuativa, embasada no vínculo estatutário entre o agente público e o Município de Divinópolis. Com efeito, o direito ao apostilamento

Tribunal de Justiça de Minas Gerais assegura, ao servidor efetivo, o recebimento da remuneração concernente

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assegura, ao servidor efetivo, o recebimento da remuneração concernente ao cargo em comissão anteriormente ocupado, implicando no efetivo aumento da remuneração paga mensalmente pelo ente público.

Nesses termos, é seguro concluir que a Lei Complementar nº. 163/2011 continua a produzir efeitos concretos na realidade material, servindo de fundamento à percepção da remuneração própria do cargo comissionado pelos servidores mencionados no texto normativo.

Conclui-se, portanto, que não se operou a perda de objeto da ação direta de inconstitucionalidade, subsistindo a necessidade e a utilidade do provimento postulado em juízo.

Por outro lado, convém salientar que os destinatários da LC nº. 163/2011 são meramente determináveis, não estando especificamente individualizados e determinados no texto normativo. Cuida-se de circunstância que confere generalidade e abstração ao ato normativo, o que autoriza o controle concentrado de constitucionalidade, conforme evidenciam os precedentes do Supremo Tribunal Federal:

EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEI ESTADUAL 356/97, ARTIGOS 1º E 2º. TRATAMENTO FISCAL DIFERENCIADO AO TRANSPORTE ESCOLAR VINCULADO À COOPERATIVA DO MUNICÍPIO. AFRONTA AO PRINCÍPIO DA IGUALDADE E ISONOMIA. CONTROLE ABSTRATO DE CONSTITUCIONALIDADE. POSSIBILIDADE. CANCELAMENTO DE MULTA E ISENÇÃO DO PAGAMENTO DO IPVA. MATÉRIA AFETA À COMPETÊNCIA DOS ESTADOS E À DO DISTRITO FEDERAL. TRATAMENTO DESIGUAL A CONTRIBUINTES QUE SE ENCONTRAM NA MESMA ATIVIDADE ECONÔMICA. INCONSTITUCIONALIDADE. 1. Norma de efeitos concretos. Impossibilidade de conhecimento da ação direta de inconstitucionalidade. Alegação improcedente. O fato de serem

Tribunal de Justiça de Minas Gerais determináveis os destinatários da lei não significa, necessariamente, que

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determináveis os destinatários da lei não significa, necessariamente, que se opera individualização suficiente para tê-la por norma de efeitos concretos.

Preliminar rejeitada. 2. Lei Estadual 356/97. (

MAURÍCIO CORRÊA, Tribunal Pleno, julgado em 03/03/2004, DJ 02-04-2004

PP-00008 EMENT VOL-02146-01 PP-00156)

(ADI 1655, Relator(a): Min.

)

EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ADMISSIBILIDADE DA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE PERANTE O TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL. LEIS DISTRITAIS N. 3.747, 3.753, 3.759 E 3.760. ALTERAÇÃO DA DESTINAÇÃO DE LOTES URBANOS. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO DO DISPOSTO NO ARTIGO 125, § 2º, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. IMPROCEDÊNCIA. 1. A alegação de que os atos impugnados seriam dotados de efeito concreto, em razão de não possuírem conteúdo normativo capaz de afetar toda a coletividade, não procede. Esta Corte definiu que "a determinabilidade dos destinatários da norma não se confunde com a sua individualização, que, esta sim, poderia convertê-lo em ato de efeitos concretos, embora plúrimos" [ADI n. 2.135, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence, DJ de 12.5.00]. 2. As leis distritais impugnadas são dotadas de generalidade e abstração. Seus destinatários são determináveis, e não determinados, sendo possível a análise desse texto normativo pela via da ação direta. Agravo regimental a que se nega provimento.

(RE 543024 AgR, Relator(a): Min. EROS GRAU, Segunda Turma, julgado em 19/08/2008, DJe-172 DIVULG 11-09-2008 PUBLIC 12-09-2008 EMENT VOL-02332-05 PP-00908 RTJ VOL-00206-03 PP-01138 RT v. 97, n. 878, 2008, p. 130-132)

Nesses termos, entende-se que a preliminar deve ser afastada, impondo- se o julgamento de mérito da demanda.

Assim, REJEITO A PRELIMINAR.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais O SR. DES. PRESIDENTE: Há alguma divergência em relação

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O SR. DES. PRESIDENTE:

Há alguma divergência em relação às preliminares? Todos estão de

acordo?

A SR.ª DES.ª VANESSA VERDOLIM HUDSON ANDRADE:

Partindo da análise dos aspectos formais e materiais concernentes à Lei Complementar Municipal nº. 163/2011, o requerente observa que a norma se originou no âmbito do Projeto de Lei Complementar nº. 002/2011, de iniciativa Prefeito Municipal de Divinópolis. Em seguida, destaca que a redação originária do PLC estabelecia, meramente, a revogação parcial da Lei Complementar nº. 123/2006, em relação aos dispositivos que concediam o direito à estabilização financeira aos servidores públicos locais.

No entanto, segundo as informações delineadas na petição inicial, o Projeto recebeu cinco emendas parlamentares durante a tramitação, as quais alteraram substancialmente o seu teor, resguardando o direito ao apostilamento em determinadas situações.

Ao ponderar essas circunstâncias, a autoridade reconhece a possibilidade de apresentação de emendas pelo Poder Legislativo, mesmo em relação às matérias cuja iniciativa pertença ao Poder Executivo. No entanto, ressalva a impossibilidade de oferecimento de emendas da espécie que impliquem em aumento de despesas ou reflitam medidas típicas de planejamento e estruturação da máquina administrativa - o que teria acontecido no caso concreto, durante a tramitação do PLC nº. 002/2011.

No entanto, a análise dos documentos instruídos na demanda revela que as alterações na redação originária do PLC foram realizadas pelo próprio Prefeito Municipal, mediante a mensagem juntada às f.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais 282/283. Portanto, o argumento suscitado pelo requerente não se

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282/283. Portanto, o argumento suscitado pelo requerente não se presta a evidenciar a inconstitucionalidade formal da legislação impugnada, considerando que as modificações sequer foram procedidas pelo Poder Legislativo, data vênia.

Em seguida, o requerente reitera que a Lei Complementar Municipal nº. 163/2011 procedeu à extinção do instituto da estabilização remuneratória - também conhecido como apostilamento - no âmbito do Município de Divinópolis (art. 1º e 2º, caput), mas resguardou a concessão do benefício nas situações discriminadas nos art. 2º, §1º, 3º e 4º, correlacionadas aos servidores que completaram, integral ou parcialmente, os requisitos exigidos para a estabilização.

No entanto, segundo a linha de raciocínio estabelecida na petição inicial, o instituto do apostilamento passou a não se conformar à ordem constitucional após a promulgação das Emendas nº. 19/1998 à Constituição da República e nº 57/2003 à Constituição Estadual. Nesses termos, a autoridade argui a inconstitucionalidade material da legislação municipal, ao assegurar o benefício nas circunstâncias previstas na lei.

Firmadas essas considerações iniciais e para a adequada resolução dos pontos controvertidos, convém salientar que o apostilamento qualifica-se como garantia conferida ao servidor público efetivo, consubstanciada na continuidade da percepção da remuneração referente ao cargo em comissão que haja exercido por determinado interstício.

Em relação aos servidores públicos estaduais, a garantia era respaldada pela redação originária do art. 32, §1º da Constituição Estadual, que estabelecia:

"§ 1º - O servidor público civil, incluído o das autarquias, fundações, detentor de título declaratório que lhe assegure direito à continuidade de percepção da remuneração de cargo de provimento em comissão,

Tribunal de Justiça de Minas Gerais tem direito aos vencimentos, às gratificações e a todas

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tem direito aos vencimentos, às gratificações e a todas as demais vantagens inerentes ao cargo em relação ao qual tenha ocorrido o apostilamento, ainda que decorrentes de transformação ou reclassificação posteriores."

(Revogado pelo art. 6º da Emenda à Constituição nº 57, de 15/7/2003.)

Com efeito, à época da promulgação do dispositivo, a concessão do benefício não era expressamente obstada pelos termos da Constituição da República, considerando que não havia restrição à natureza das atividades que ensejavam o provimento dos cargos em comissão. Todavia, após a edição da Emenda Constitucional nº. 19/1998, a disciplina sobre a natureza dos cargos da espécie foi modificada substancialmente, em orientação que culminou na elaboração de art. 37, V, o qual passou a preceituar que:

"V - as funções de confiança, exercidas exclusivamente por servidores ocupantes de cargo efetivo, e os cargos em comissão, a serem preenchidos por servidores de carreira nos casos, condições e percentuais mínimos previstos em lei, destinam-se apenas às atribuições de direção, chefia e assessoramento;(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de

1998)"

Assim, o texto constitucional delineou que os cargos em comissão destinam-se, exclusivamente, às atribuições de direção, chefia e assessoramento, de modo que o provimento de cargos da espécie para o exercício das funções de outra natureza implicaria em violação à regra do concurso público, ensejando o reconhecimento da nulidade

Tribunal de Justiça de Minas Gerais do vínculo estabelecido entre o servidor e o Poder

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do vínculo estabelecido entre o servidor e o Poder Público (art. 37, §2º da

CR/88).

Cuida-se de premissa que guarda primordial relevância para a análise quanto à constitucionalidade da legislação objurgada, considerando que a limitação quanto à natureza das funções específicas dos cargos em comissão ensejou a elaboração de novo raciocínio acerca da constitucionalidade do instituto do apostilamento. Com efeito, doutrina e jurisprudência vieram a consolidar que o servidor efetivo não mais fará jus à continuidade da percepção da remuneração relativa ao cargo comissionado que haja eventualmente exercido, porquanto não mais exercerá as funções delineadas no art. 37, V da Constituição, referentes às atividades de direção, chefia ou assessoramento.

Assim, com o intuito de promover a adequação das normas estaduais ao novo parâmetro constitucional, a Assembléia Legislativa promoveu a modificação do art. 23, caput, da Constituição Estadual, que passou a preceituar disposição idêntica àquela prevista no art. 37, V da Constituição da República (Emenda nº. 49/2001), bem como a revogação do art. 32, §1º (Emenda nº. 57/2003), que implicou na extinção do apostilamento.

Perante esse contexto normativo, ao exercer o controle de constitucionalidade de normas municipais editadas após a extinção do apostilamento em nível estadual, nosso Tribunal de Justiça tem concluído que a criação do instituto após o advento das Emendas nº. 49/2001 e nº. 57/2003 revela-se inconstitucional, conforme evidencia o seguinte aresto:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE: CARGOS EM COMISSÃO - APOSTILAMENTO - CRIAÇÃO POR LEI MUNICIPAL - INCONSTITUCIONALIDADE DECLARADA. - A natureza precária dos cargos em comissão, de livre nomeação e exoneração, bem como a sua vinculação ao exercício de atribuições relativas à direção, chefia e

Tribunal de Justiça de Minas Gerais assessoramento, torna inviável o recebimento de valores equivalentes ao

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assessoramento, torna inviável o recebimento de valores equivalentes ao do cargo comissionado por agente que não mais exerça as suas atribuições, não ensejando a estabilidade financeira. (Ação Direta Inconst 1.0000.10.013456-8/000, Relator(a): Des.(a) Paulo Cézar Dias , CORTE SUPERIOR, julgamento em 10/08/2011, publicação da súmula em

26/08/2011)

Trata-se de conclusão que não desconsidera que os municípios dispõem de autonomia para regulamentar as questões atinentes ao regime jurídico dos servidores públicos, ponderando o teor das regras estruturantes do pacto federativo brasileiro, as quais conferiram aos entes da espécie a competência para legislar sobre os assuntos de interesse eminentemente local (art. 30, I, CR/1988). Todavia, as normas referentes à organização administrativa devem observar os princípios delineados na Constituição Estadual, inclusive em relação às questões funcionais, conforme bem explicitou o em. Des. Paulo Cézar Dias, no julgamento do precedente em referência, que pela sua pertinência vale a pena reproduzir:

"In casu, necessário levar em consideração que o poder de auto- organização do Município sofre limitação quanto aos princípios e normas de observação obrigatória previstos na Constituição, aos quais todo o ordenamento jurídico deve se conformar, dentre os quais se inserem os preceitos relativos à administração pública. Segundo doutrina Raul Machado Horta são normas de preordenação, que incidem sobre o poder de organização dos entes federativos.

Assim, os artigos 165 e 170 da CEMG determinam:

Art. 165 - Os Municípios do Estado de Minas Gerais integram a República Federativa do Brasil.

) ( Tribunal de Justiça de Minas Gerais §1º - O Município, dotado de autonomia

) (

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§1º - O Município, dotado de autonomia política, administrativa e financeira, organiza-se e rege-se por sua Lei Orgânica e demais leis que adotar, observados os princípios da Constituição da República e os desta Constituição.

Art. 170 - A autonomia do Município se configura no exercício de competência privativa, especialmente:

) (

Parágrafo único - No exercício da competência de que trata este artigo, o Município observará a norma geral respectiva, federal ou estadual.

Sobre a inconstitucionalidade por ação discorre José Afonso da Silva, em sua obra intitulada Curso de Direito Constitucional Positivo, 23ª ed., p. 47:

Ocorre com a produção de atos legislativos ou administrativos que contrariem normas ou princípios da constituição. O fundamento dessa inconstitucionalidade está no fato de que do princípio da supremacia da constituição resulta o da compatibilidade vertical das normas da ordenação jurídica de um país, no sentido de que as normas de grau inferior somente valerão se forem compatíveis com as normas de grau superior, que é a constituição. As que não forem compatíveis com ela são inválidas, pois a incompatibilidade vertical resolve-se em favor das normas de grau mais elevado, que funcionam como fundamento de validade das inferiores.

Essa incompatibilidade vertical de normas inferiores (leis, decretos etc.) com a constituição é o que, tecnicamente, se chama inconstitucionalidade das leis ou dos atos do Poder Público, e que se

Tribunal de Justiça de Minas Gerais manifesta sob dois aspectos: (a) formalmente, quando tais normas

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manifesta sob dois aspectos: (a) formalmente, quando tais normas são formadas por autoridade incompetentes ou em desacordo com formalidades ou procedimentos estabelecidos pela constituição; (b) materialmente, quando o conteúdo de tais leis ou atos contraria preceito ou princípio da constituição.

Dessa forma, em não se coadunando a norma impugnada com os moldes da Constituição Estadual, que por sua vez reproduz os conceitos estabelecidos na Carta Magna, o resultado é a sua inconstitucionalidade."

Assim, a previsão de apostilamento ou de institutos essencialmente similares - cuja finalidade é resguardar ao servidor efetivo o recebimento da remuneração própria de cargo em comissão exercido durante determinado período - encontra óbice nos termos da atual redação do art. 23, caput, da Constituição Estadual.

Analisando as especificidades da hipótese à luz dessas premissas, verifica-se que a Lei Complementar Municipal nº. 163/2011 resguardou aos servidores públicos efetivos especificados nos art. 2º, §1º, 3º e 4º o direito a continuar recebendo a remuneração oriunda do cargo em comissão, desde que obedecidas as condições estabelecidas na lei. Assim, a norma revela-se flagrantemente inconstitucional, considerando que os parâmetros constitucionais delineados com a promulgação das Emendas nº. 19/1998 à Constituição da República e nº 49/2001 e 57/2003 à Constituição Estadual não autorizam a percepção, pelo servidor efetivo, de verba essencialmente dirigida à remuneração do exercício das funções de direção, chefia e assessoramento.

Assim, verifica-se a procedência dos argumentos delineados pelo

Tribunal de Justiça de Minas Gerais requerente, sendo imperioso o reconhecimento da inconstitucionalidade material da

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requerente, sendo imperioso o reconhecimento da inconstitucionalidade material da norma impugnada.

Nesses termos, seguindo as razões delineadas no parecer ministerial, JULGO PROCEDENTE A REPRESENTAÇÃO, declarando a inconstitucionalidade dos parágrafos 1º, 2º e 3º do art. 2º e dos art. 3º, 4º e 5º da Lei Complementar nº. 163/2011 do Município de Divinópolis.

COMUNIQUE-SE o órgão responsável pela expedição do ato, mediante a remessa da cópia do acórdão, nos termos do art. 336 do RI-TJMG.

ENCAMINHE-SE cópia do acórdão à Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes, em conformidade com o disposto no art. 336, parágrafo único do RI-TJMG.

O SR. DES. PEDRO BERNARDES (REVISOR) - De acordo com o(a) Relator(a).

O SR. DES. BITENCOURT MARCONDES

Em relação às preliminares, coloco-me de acordo com a I. Relatora.

No mérito, contudo, ouso divergir.

Trata-se de ação direta de inconstitucionalidade ajuizada pelo Procurador -Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais, cujo pleito é a declaração de inconstitucionalidade das normas insertas nos §§ 1º, 2º e 3º, do art. 2º, bem como dos artigos 3º, 4º, 5º e 6º, da Lei Complementar nº 163/2011, do Município de Divinópolis.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Referida lei extinguiu o direito à aquisição da estabilidade

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Referida lei extinguiu o direito à aquisição da estabilidade financeira (apostilamento) no âmbito municipal e estabeleceu regras de transição para regulamentar a situação de servidores que completassem os requisitos necessários ao apostilamento até 31 de dezembro de 2011.

A I. Relatora, em seu judicioso voto, entendeu pela inconstitucionalidade das referidas normas, ao fundamento de que representam ofensa ao art. 37, inciso V, da Constituição da República, com a redação dada pela EC nº 19/98, e art. 23, caput, da Constituição Estadual, com a redação dada pela Emenda nº 57/2003, que estabelecem a limitação quanto à natureza das atribuições destinadas aos cargos em comissão (direção, chefia e assessoramento).

A questão - direito à estabilidade financeira - diz respeito a regime jurídico dos servidores, matéria cuja iniciativa privativa é do Chefe do Poder Executivo, nos termos do art. 61, §1º, II, "c", da Constituição da República, e art. 66, inciso III, alínea "c", da Constituição Estadual, normas de observância obrigatória para os Municípios, tendo em vista o princípio da simetria.

Desse modo, é de se convir, a previsão do direito ao apostilamento não é matéria a ser tratada na Constituição Estadual, tendo em vista a iniciativa privativa do Chefe do Poder Executivo para deflagrar processo legislativo que disponha sobre regime jurídico dos servidores.

Noutro giro, ainda que se entenda pela possibilidade de previsão de questões afetas a regime jurídico de servidores no âmbito da Constituição Estadual, as disposições nela contidas relativamente aos servidores públicos aplicam-se somente aos servidores estaduais, na medida em que a organização político-administrativa da República Federativa do Brasil inclui os Municípios como entes integrantes da Federação, assegurando-lhes autonomia no que se refere aos poderes de autogoverno, auto-organização, auto-legislação e organização, nos termos das normas insertas nos artigos. 18 e 29, da Constituição

Tribunal de Justiça de Minas Gerais da República. Assim, os Municípios detêm autonomia político-administrativa para

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da República.

Assim, os Municípios detêm autonomia político-administrativa para dispor sobre seus próprios servidores, concedendo-lhes direitos e garantias, desde que não representem ofensa à Constituição da República, notadamente às normas insertas no art. 37 a 40.

Destarte, o fato de o direito à estabilidade financeira ter sido extirpado da Constituição Estadual, não representa óbice à previsão dessa vantagem no âmbito municipal, por meio de lei de iniciativa do Prefeito.

Consigno, ainda, não vislumbrar ofensa à norma inserta no art. 23, caput, da Constituição Estadual, porquanto o apostilamento não garante ao servidor o direito de permanecer no cargo em comissão mesmo após a exoneração, mas sim possibilita a aquisição de vantagem pecuniária em valor correspondente à diferença entre o valor da remuneração do cargo em comissão e o valor da remuneração do cargo efetivo.

É certo que o direito à percepção dessa vantagem pecuniária não mais subsiste no âmbito estadual, tendo em vista a reforma administrativa efetuada pelo Governo Estadual, contudo, trata-se de questão afeta à política remuneratória dos servidores públicos, matéria que, a princípio, encontra-se infensa ao crivo do Poder Judiciário.

Ademais, não se pode olvidar, a Lei Complementar nº 163/2011, ao estabelecer regras de transição para determinada categoria de servidores municipais, assegurando-lhes a aquisição do direito ao apostilamento desde que implementassem os requisitos necessários para tanto até 31/12/2011, criou situação semelhante daquela estabelecida pelas normas insertas no art. 121, §§1º a 3º, do ADCT, da Constituição Estadual, acrescentadas pela EC nº 57/031.

Assim, sob qualquer ângulo que se aprecie a questão, não há falar-se em inconstitucionalidade.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais Ante o exposto, julgo improcedente a ação. É como

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Ante o exposto, julgo improcedente a ação.

É como voto.

O SR. DES. WALTER LUIZ DE MELO

Sr. Presidente.

Acompanho a divergência inaugurada por V. Ex.ª.

Primeiramente, quanto às preliminares, acompanho a ilustre Relatora.

Contudo, com redobrada venia à ilustre Relatora, no mérito, acompanho

a divergência inaugurada quanto pelo Desembargador Bitencourt Marcondes que entende não vislumbrar ofensa à norma inserta no art. 23, caput, da Constituição Estadual, não garantindo o instituto do apostilamento ao servidor o direito de permanecer no cargo em comissão mesmo após a

exoneração, mas sim, nos dizeres do ilustre colega, "

possibilita a aquisição

de vantagem pecuniária em valor correspondente à diferença entre o valor da remuneração do cargo em comissão e o valor da remuneração do cargo

efetivo

Posto isto, não há falar-se em inconstitucionalidade, com o que, julgo improcedente a presente ação.

OS DEMAIS DESEMBARGADORES VOTARAM DE ACORDO COM O RELATOR.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais SÚMULA: "JULGARAM PROCEDENTE A REPRESENTAÇÃO, POR MAIORIA" 1 Art.

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SÚMULA: "JULGARAM PROCEDENTE A REPRESENTAÇÃO, POR MAIORIA"

1 Art. 121 - Ficam revogadas as legislações dos Poderes Legislativo e Judiciário, do Tribunal de Contas e do Ministério Público referentes a apostilamento em cargo de provimento em comissão ou função gratificada.

§ 1º - Fica assegurado ao servidor ocupante de cargo de provimento efetivo o

direito de continuar percebendo, nos termos da legislação vigente até a data

de promulgação desta emenda à Constituição, a remuneração do cargo em comissão ou função gratificada que exerça nessa data, quando dele for exonerado sem ser a pedido ou por penalidade ou quando se aposentar, ficando garantido, para esse fim, o tempo exercido no referido cargo de provimento em comissão ou função gratificada até data a ser fixada em lei.

§ 2º - Os Poderes e órgãos a que se refere o "caput" deste artigo encaminharão, no prazo de sessenta dias contados da promulgação desta emenda à Constituição, projeto de lei contendo as regras de transição.

§ 3º - Para o Poder ou órgão que não cumprir o prazo previsto no § 2º, adotar

-se-á a data de 29 de fevereiro de 2004 como limite para contagem do tempo para efeito de apostilamento. (Artigo acrescentado pelo art. 4º da Emenda à Constituição nº 57, de 15/7/2003.)

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