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Volume 3

Comentário Bíblico Broadman


Comentário
Bíblico
Broadman
Volume 3
ISamuel—Neemias
TRADUÇÃO DE ISRAEL BELO DE AZEVEDO
Todos os direitos reservados. Copyright © 1969 da Broadman Press. Copyright 1983
da JUERF; para a língua portuguesa, com permissão da Broadman Press.

O texto bíblico, nesta publicação, é o da Versão Revisada da Imprensa Bíblica Brasi­


leira, baseada na tradução em português de João Ferreira de Almeida, de acordo com
os melhores textos em hebraico e grego. Exceções são indicadas no texto do livro.

Comentário Bíblico Broadman/Tradução de Israel Belo de Azevedo.


C732c — Rio de Janeiro: JUERP, 1986—
12v.
Titulo original: The Broadman bible commentary.
Publicação em português dos volumes 1-3 e 8-12.
Conteúdo: v.l. Artigos Gerais. Gênesis-Êxodo — v.2. Levítico-Rute—v.3. ISamuel-Neemias
— v.4. Ester-Salmos — v.5. Provérbios-Isaías — v.6. Neemias-Daniel — v.7. Oséias-Malaquias —
v.8. Artigos Gerais. Mateus-Marcos — v.9. Lucas-João — v.10. Atos-lCoríntios — v.ll. 2Corín-
tios-Filemom — v.12. Hebreus-Apocalipse.
1. Bíblia — Comentários.
CDD—220.7

Capa: Ivanildo Alves

Código para Ffedidos: 215037


Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira
Rua Silva Vale 781, Cavalcânti — CEP: 21370-360
Caixa Pbstal 320 — CEP: 20001-970
Rio de Janeiro, RJ, Brasil
3.000/1993
Impresso em gráficas próprias.
COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN

Junta Editorial

EDITOR GERAL

Clifton J. Alien, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais


da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.

Editores Consultores do Velho Testamento


John I. Durham, Professor Associado de Interpretação do Velho Testamen­
to e Administrador Adjunto do Presidente do Seminário Batista do Sudoes­
te, Wake Forest, North Carolina, Estados Unidos.
Roy L. Honeycutt Jr., Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminá­
rio Batista do Centro-Oeste, Kansas City, Missouri, Estados Unidos.
Editores Consultores do Novo Testamento
J. W. MacGorman, Professor de Novo Testamento, Seminário Batista do
Sudoeste, Forth Worth, Texas, Estados Unidos.
Frank Stagg, Professor de Novo Testamento da James Buchanan Harrison,
Seminário Batista do Sul, Louisville, Kentucky, Estados Unidos.
CONSULTORES EDITORIAIS
Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta de Escolas Dominicais da
Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
William J. Fallis, Editor Chefe de Publicações Gerais da Broadman Press,
Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press,
Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
Prefácio

O COMENTÁRIO BlBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico


atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e
confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e
orientação para o crente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como
um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e
propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades
do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição
bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal
possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são
limitadas às informações essenciais.

Os escritores foram cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração


sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as
necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais
acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o
significado do texto. Eles enfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à
linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham
pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os
seus pontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões
alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados
estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser
considerados como a posição oficial do editor.
O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação.
A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades
deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos — especialmente
pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo
comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas
deliberações, em 1961, a junta de consultores que dirige a Editora autorizou a
publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram,
em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de
pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966,
revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram
cumpridas à medida que o COMENTÁRIO se foi desenvolvendo.
No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o
Velho Testamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral,
esses homens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar
o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos
escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e
esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos
funcionários da Editora que trabalharam com eles.

A escolha da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores


textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita
obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que
foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­
ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do
texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e
amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza
assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios
autores dos comentários.

Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura


estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo
abertamente que a natureza dos vários livros e o espaço destinado a cada um deles
modificará adequadamente a aplicação desta abordagem.

Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material


subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da
Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração,
dever ético e missões mundiais da igreja.

O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis.


Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­
mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito
para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra de Deus na Escritura e na
Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no
mundo de Deus.

Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o


COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do
significado com a experiência. O seu objetivo é respirar a atmosfera de relação com
a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas
vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior
clareza o que Deus Pai está-lhes dizendo.
Sumário
1—2 Samuel Ben F. Philbeck Jr.
Introdução...................................................................... ............................... 11
Comentário Sobre o Texto.......................................................................... 25
1—2 Reis M. Piece Matheney Jr. e
Roy L. Honeycutt Jr.
Introdução................................................................................................... 161
Comentário Sobre o Texto........................................................................... 172
1—2 Crônicas Qyde T. Francisco
Introdução.................................................................................................... 317
Comentário Sobre o Texto.......................................................................... 326
Esdras—Neemias Emmett Willard Hamrick
Introdução .................................................................................................. 445
Comentário Sobre o Texto.......................................................................... 455
1-2 Samuel
BEN. F. PHILBECK JR.

Introdução Seja como for, dificilmente Samuel teria sido


capaz de escrever sobre incidentes que ocor­
Os livros de Samuel narram a história reram depois de sua morte (ISm 25.1).
do desenvolvimento de Israel sob a liderança A maneira mais apropriada de enfocar
de Samuel, Saul e Davi. Nesse período, o os livros de Samuel não é considerá-los
governo israelita evolui de uma fraca confe­ como textos independentes, mas como
deração tribal nos tempos de Samuel para porções de uma história mais ampla sobre
a monarquia forte e firme dos últimos anos a fundação de Israel, cobrindo o período
do reinado de Davi. A ausência de infor­ que vai de Moisés até a queda de Jerusalém,
mações de natureza cronológica sobre os no ano 586 a.C. Como uma obra de tal
líderes de Israel no período que antecedeu envergadura não poderia ser tratada de
a divisão da monarquia toma impossível forma adequada num só pergaminho, foi
estabelecer com precisão as datas referentes dividida mais ou menos arbitrariamente em
a esse período. Entretanto, parece que segmentos menores: Deuteronômio, Josué,
Samuel ainda era jovem quando Siló foi Juizes, Samuel e Reis.
destruída por volta de 1050 a.C. (cf. comen­ Quando, antes do final do 2? século a.C.,
tário sobre ISm 6.10-18), e geralmente é o Antigo Testamento foi traduzido para o
aceito que a ascensão de Salomão ao trono grego (Septuaginta), Samuel e Reis foram,
ocorreu entre os anos 971 e 961. Dessa cada um, subdivididos em dois livros, deno­
forma, o presente texto lida com a história minados Os Reinos a, h, c e d. Tal subdivisão
de Israel no período de cem anos que ante­ foi transmitida por Jerônimo às edições
cedeu a data aproximada de 965 a.C.1 cristãs do texto, graças à adoção desse
sistema em sua tradução do Antigo Testa­
I. Título mento para o latim (391-405 d.C.). Nos
Em português, o título dos livros parece manuscritos hebraicos, entretanto, Samuel
basear-se na tradição rabínica que consi­ continuou indiviso até o ano de 1448.2
dera Samuel o autor de Juizes, Samuel, e
Rute (Baba Bathra, 14b). Embora Samuel II. Propósito
possa ter perfeitamente suprido alguns As narrativas de Samuel podem ser legi­
dados acerca do reinado de Davi (lCr timamente consideradas como história de
29.29), o texto em si mesmo é anônimo. Israel no que diz respeito à instalação e

1 Para um a visão geral dos problemas envolvidos n a datação de eventos Assim, am bos os “livros’’ de Samuel se acham escritos num só perga-
do Antigo Testamento, veja S. J. DeVries, “Chronology o f the Old m inho, no texto encontrado n a C averna 4 do M ar M orto (cf. o
Testam ent”, ID B (New York: Abingdon, 1962), v. 1, p. 580-599. com entário a seguir no texto).

li
desenvolvimento de unta monarquia sobre mente que devem-se levar em conta as
Israel e Judá. Devemo-nos lembrar, todavia, diferenças de detalhes históricos (2Sm 21.19
de que o registro bíblico, quando foi escrito, — cf. lCr 20.5; 2Sm 24.1 — cf. lCr 21.1;
tinha primordialmente em vista um povo 2Sm 24.9 — cf. lCr 21.5).
cujo interesse pelo passado foi motivado Os historiadores modernos parecem cada
por preocupações que diferem considera­ vez mais convencidos de que é impossível
velmente das preocupações do leitor escrever um relato absolutamente objetivo
moderno. Os antigos hebreus estudavam de qualquer evento passado. Todo registro
a história não só porque desejavam satis­ reflete os interesses pessoais do autor, quer
fazer sua curiosidade intelectual, mas na seleção que ele faz dos eventos signifi­
também porque tinham em vista compre­ cativos, quer na descrição que fornece de
ender a natureza da relação entre Deus e tais fatos. A Bíblia é um bom exemplo disso,
seu povo. uma vez que seus autores empregavam a
Inúmeros aspectos de interesse para o compreensão que tinham acerca do passado
historiador moderno foram tratados super­ de Israel para tomarem conhecidas suas
ficialmente ou foram até mesmo totalmente opiniões teológicas.
ignorados. Assim é que quase nenhuma Por isso, em Samuel, o propósito do autor
informação ficou registrada acerca da estru­ não era escrever um registro abstrato de
tura governamental de Israel ao tempo dos fatos isolados na história de Israel. Ao invés
juizes, mas a reivindicação popular em favor disso, o que buscava era extrair de ocorrên­
de um rei foi duramente condenada, sendo cias passadas os princípios sobre os quais
vista como um repúdio à liderança pessoal o Senhor baseara seu relacionamento com
de Deus (ISm 8.7,8; 10.19). Semelhante­ seu povo. Tanto o autor como seus leitores
mente, a perda da arca e a história que ela viam em Deus a autoridade derradeira por
teve entre os filisteus vem registrada com detrás de todo acontecimento humano. O
bastantes detalhes (ISm 4—6); porém a queda Senhor estava sempre agindo pelo bem
de Siló, aparentemente o centro adminis­ supremo de Israel, fosse como juiz, fosse
trativo de Israel naquele tempo, não é como redentor (ISm 12.6-13). Mesmo depois
mencionada nos livros de Samuel. Em que o povo exigiu a instalação da monar­
relação ao reinado de Saul, encontra-se o quia, a nação haveria de prosperar, se
mesmo contraste. Nada se disse acerca das ambos, povo e rei, fossem sensíveis à lide­
pressões políticas devastadoras que Saul rança de Deus. O juízo divino, entretanto,
deve ter sofrido, ao passo que seu fracasso recairia sobre os rebeldes (ISm 12.14,15;
como o primeiro rei de Israel é explicado 2Sm 23.1-7). Destarte, foi Saul rejeitado por
em bases puramente religiosas (ISm 13.1-14; desobediência (cf. comentário sobre ISm
15.1-23). Poder-se-iam apontar circuns­ 15.1-35) e substituído por Davi.
tâncias semelhantes na ascensão e reinado De acordo com tais princípios, Natã
de Davi. previu que seria bem-sucedida a empreitada
É preciso, no entanto, considerar seria­ de fazer Davi rei de Israel e que uma
mente as circunstâncias históricas que linhagem duradoura de seus descendentes
formam o contexto dos livros de Samuel. ocuparia o trono (2Sm 7). Nesses líderes
No todo, esse material parece ter sido guiados por Deus repousava a esperança
compilado por pessoas que conscientemente de Israel no futuro.
lidavam com ele (cf. posterior comentário
sobre a estrutura dos livros) e que, por
vezes, tinham acesso a registros (2Sm 1.18) III. Texto
ou arquivos (2Sm 8.1-14; cf. Hertzberg, Desde 1937 a maioria das traduções do
p. 289,290). Não obstante isso, os próprios Antigo Testamento vem usando textos
registros bíblicos demonstram muito clara­ hebraicos impressos que, em última

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instância, baseiam-se num manuscrito tante na interpretação da mensagem de
concluído por membros da família Ben Samuel do que achávamos até agora.3
Asher, no ano 1008 da era cristã. Até o
momento, é esse o mais antigo manuscrito IV. Autoria
completo do Antigo Testamento a que se De acordo com a tradição judaica,
tem acesso. Várias gerações daquela notável Samuel foi o principal autor de Juizes e dos
família empenharam-se com afinco para livros que levam seu nome. Pensava-se que
concluir a obra de uma extensa linhagem as informações acerca do período que
de hebraístas, conhecidos como massoretas, seguiu-se à sua morte foram supridas pelos
que procuraram estabelecer um texto profetas Gade e Natã (cf. lCr 29.29,30).
oficial, seguindo a maneira como se pronun­ Os livros em si mesmos são anônimos, e
ciava o hebraico da época.
a forma de apresentação deles não indica
Infelizmente, o Texto Massorético dos nome algum como tendo colaborado para
livros de Samuel foi malconservado, sendo a sua redação.
hoje ilegível em diversas passagens. Na Estudos recentes, entretanto, sugerem
maioria dos casos, o texto pode ser resta­ que os livros de Samuel foram compilados
belecido com razoável margem de segu­ a partir de um corpo maior de tradições
rança, através do confronto com a Septua- bem antigas acerca de Samuel, Saul, Davi,
ginta e, onde existam, com passagens a arca etc. A existência desse material para­
paralelas do livro de Crônicas. Visto que lelo às narrativas bíblicas é explicitamente
tais fontes aparentemente se baseavam em mencionada pelo menos duas vezes em
tradições textuais que diferiam freqüente Samuel. Os direitos e deveres do rei, por
e significativamente das fontes massoré- exemplo, foram escritos num livro que foi
ticas, deve-se aceitar um grande número de colocado “perante o Senhor” (ISm 10.25).
diferenças quanto aos pormenores das Fato semelhante se deu com uma cópia do
passagens controversas. lamento de Davi sobre a morte de Saul e
Em 1952, numa caverna próxima a de Jônatas, lamento que se dizia ter sido
Khirbet Qumran, na costa noroeste do Mar escrito no Livro dos Justos (2Sm 1.18).
Morto, foram descobertas porções de dois A presença, em Samuel, de diversas
rolos de Samuel, escritos em hebraico. narrativas duplas de incidentes paralelos
Enquanto a maior parte do material então também sugere que os atuais livros
encontrado fossem fragmentos quebradiços, basearam-se em tradições e material mais
os textos de Samuel tiveram melhor sorte antigos. Assim, Eli é duas vezes advertido
no ambiente inóspito da caverna. O mais acerca da desgraça que se avizinha de sua
antigo dos dois consiste de apenas algumas “casa” (ISm 2.27-36; 3.11-14). Um dos relatos
linhas dispersas, escritas em hebraico, mas sobre o pedido de Israel, reivindicando um
o outro é representado por, no mínimo, 47 rei para si, opõe-se fortemente à monarquia
das 57 colunas originais. Calcula-se que a (ISm 7.1—8.22), enquanto o outro apre­
escrita pertença a um estilo corrente no senta essa instituição como um instrumento
século primeiro a.C., de modo que esse rolo de Deus para a libertação de seu povo (parte
aparenta ser pelo menos mil anos mais principal dos capítulos 9—11). Saul é acla­
velho que qualquer outro texto de Samuel mado rei publicamente duas vezes (10.17-24;
anteriormente disponível. É bastante signi­ 11.15), e duas vezes rejeitado pelo Senhor
ficativo que o texto apresentado pelo (13.14; 15.23). Davi primeiramente se torna
manuscrito se ache mais próximo do músico e escudeiro pessoal de Saul (16.14-
hebraico que serviu de base para a Septua-
ginta, e dos livros de Crônicas, que do texto
massorético tradicional. Por isso, o teste­ 3 Cf. Frank M. Cross, Jr. The A n c ien t Library ofQ um ran a nd M o d em
Biblical Studies (Garden City, New York: Doubleday and Company,
munho dessas duas fontes é mais impor­ 1958), p. 30-33.

13
23) e, então, até matar Golias, era desco­ rativas paralelas, novamente sob a desig­
nhecido do rei e seu general (17.1—18.2). nação de J e E como no Ftentateuco, haviam
Davi foi duas vezes traído pelos zifeus sido entretecidas para servir como núcleo
(23.19-28; 26.1-5), e duas vezes poupou a básico das informações acerca da transição
vida de Saul, que o perseguia (24.1-22; de Israel de um governo tribal para um
26.6-25). Até mesmo a maneira pela qual governo monárquico. De modo semelhante,
Saul encontra a morte vem duplamente rela­ identificaram ainda diversas recensões e
tada (ISm 31; 2Sm 1). adições subseqüentes que asseguraram ao
Alguns desses exemplos poderiam ser texto sua forma atual.
explicados como coincidência, conside­ Mais recentemente, especialistas em
rando que a experiência real é complexa exame de fontes reconheceram a dificuldade
e variada. A impressionante freqüência de demonstrar um número suficiente de
dessas repetições sugere, entretanto, um constantes (semelhanças de estilo, teologia,
esforço consciente de fundir ciclos de perspectiva histórica etc), dentro de cada
tradição independentes. ciclo de tradição, que permita estabelecer
Esses fatores, entre outros, levaram os uma continuidade com os documentos do
estudiosos de Samuel à conclusão de que Fentateuco. Apesar disso, pareceu-lhes que
o editor desses livros teve necessidade de as narrativas repetidas, particularmente em
compulsar material mais antigo, o qual usou Samuel, poderiam ser vinculadas, for­
de maneira bastante consciente. Surpreen­ mando, em separado, duas narrações signi­
dentemente, cada passagem reteve sua ficativas — pelo menos até o capítulo 8 do
própria identidade, livre de alterações desa­ segundo livro de Samuel.
jeitadas que teriam resultado numa história
mais simples, porém menos significativa. Outros observadores notaram que as
tradições acerca de determinados temas
tendem a chegar até nós em blocos ou
V. Composição complexos de material bem estruturado e
integrado. Isso os levou à conclusão de que
Embora já pareça justo admitir que através dos anos foram sendo recolhidas,
Samuel baseia-se em tradições antigas e gradualmente, versões acerca da história da
independentes, os estágios que o material arca (ISm 4—6; 2Sm 6), da instalação da
percorreu até alcançar a forma atual não monarquia (ISm 8—12), e da luta pela
são absolutamente inquestionáveis. Neste sucessão ao trono de Davi (2Sm 9—20; lRs
último século e meio debateu-se acirrada- 1—2). Concluíram que esses e outros
mente a questão de saber se tais variantes complexos narrativos foram finalmente
representam fontes interligadas ou frag­ reunidos por um editor que utilizou mate­
mentos independentes.4 rial mais antigo para levar a cabo suas
Nas primeiras tentativas sérias de próprias intenções teológicas.
restaurar o material que serve de base para
Samuel, recorreu-se ao emprego de técnicas Uma vez, portanto, que não se chegou
crítico-literárias desenvolvidas no estudo do a consenso em matéria de explicações da
Fentateuco. Os comentaristas mais antigos composição de Samuel, devemos evitar
reconheciam nos livros históricos as soluções dogmáticas face ao problema.
mesmas fontes que haviam identificado nos Nos últimos anos particularmente, um
cinco primeiros livros do Antigo Testa­ número cada vez maior de indícios e provas
mento. Eles sustentavam que duas nar­ tem conferido uma importância maior ao
papel da tradição oral na formação dos
Para um estudo mais acurado do enfoque crítico à obra de Samuel, documentos bíblicos. Assim, uma divisão
veja E rnst Selim, introduction to the Old Testament, edição revista
e reescrita por G eorg Fohrer, traduzida para o inglês por David E.
absolutamente precisa das fontes, que
Green (Nashville: Abingdon, 1965), p. 215-217, 522,523. inclua até mesmo fragmentos de versículos
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isolados, vai ficando mais e mais difícil de termina com o declínio de sua própria influ­
se manter. ência.
Semelhantemente, não se deve esperar A inclusão de um sumário do ministério
um relato pormenorizado dos processos de cada um, inclusão feita antes da menção
pelos quais o presente texto foi composto. de seu declínio, em vez de por ocasião de
Análises tão minuciosas ainda devem sua morte, exemplifica ainda mais o cuidado
aguardar um aperfeiçoamento considerável do autor no arranjo dos ciclos narrativos.
de nossas habilidades nas áreas de literatura Assim é que a proclamação dos feitos de
e história. Apesar disso, é possível apre­ Samuel (ISm 7.12-17) antecede o anúncio
sentar algumas notas e sugestões cautelosas. de sua velhice e rejeição (8.1-9), e o reinado
de Saul é aclamado (14.47-52) antes que
1. A Coletânea Básica as razões de sua rejeição fossem relatadas
(15.1-35).6
Uma intrigante sugestão quanto à estru­ Todavia, podemos notar uma discre­
tura subjacente à obra de Samuel é a
pância no fato de aparecer o sumário do
maneira incomum com que se faz a divisão
reinado de Davi (2Sm 8.15-18) isento de
entre os livros de Samuel e os de Reis. A
maior parte do relato acerca do reinado de quaisquer indícios de um final próximo
(2Sm 23.1; lRs 1.1; 2.1). As tentativas de
Davi aparece em Samuel, mas o livro de
Absalão e de Sebá se apossarem do trono
Reis é que trata de sua morte. Aqui os prin­
(2Sm 13-20) podem significar que seu pres­
cípios da separação divergem consideravel­
tígio estivesse declinando, mas outros
mente dos utilizados nos livros mais antigos
incidentes, após o capítulo 9, retratam Davi
do Antigo Testamento.
A cada grande líder, instituição ou no apogeu de sua força. Tanto o brando
período histórico de Israel parece ter sido tratamento que dispensa a Mefibosete
(9.1-13) quanto o relato de sua guerra
dedicado, idealmente, um livro em separado:
contra os amonitas (10.1—11.1) retratam um
Êxodo cuida da partida de Israel do Egito;
homem confiante em sua autoridade.
Levítico trata do sacerdócio; Números se Mesmo seu pecado com Bate-Seba (11.2—
ocupa da jornada no deserto; Deuteronômio
15.23) apenas provoca problemas em sua
é dedicado a Moisés; Josué, à conquista;
e Juizes, à colônia em Canaã.5 casa, e não o fim de seu reinado.
Até agora não se apresentou qualquer Acompanhando, pois, o sumário do
remado de Davi (2Sm 8.15-18), a narrativa
explicação satisfatória para o fato de o
se desvia do padrão que vinha seguindo
ministério de Davi ter sido registrado em
anteriormente. O capítulo 9, entretanto, tem
Samuel, e sua morte, no livro de Reis. Hertz-
sido largamente reconhecido como início
berg simplesmente afirma que os fatos de
que trata IReis 1—2 são mais relevantes de outro complexo literário independente,
denominado Narrativa da Sucessão (cf. a
em relação a Salomão do que em relação
seção seguinte desta introdução).
a Davi. Além disso, as condições aqui são
Fode-se levantar uma objeção válida: a
por demais surpreendentes para serem resul­
remoção do capítulo 9 e seguintes ainda
tado de um simples descuido, ou obra do
deixa o “plano” do autor sem a previsível
acaso. Se a divisão do livro no final de
Samuel foi deliberada, podemos adiantar descrição do ocaso do herói. Os dois
uma modesta hipótese de trabalho: nos primeiros capítulos de Reis se prestariam
facilmente ao papel, mas já se lhes adju-
livros de Samuel a história de cada herói
começa com o declínio do antecessor e
A rejeição de Saul por causa de seu sacrifício em Gilgal é apresen-
Aqui o emprego d a seqüência bíblica não implica necessariamente tada antes (ISm 13.8-15). Contudo, a passagem é difícil de interpretar
dizer que os livros surgiram nessa ordem. D e m odo semelhante, não à luz de outras práticas sacrificais d a época. É possível q u e o juízo
se tira aqui nenhum a conclusão q uanto à ordem em que tais livros teológico que recai sobre Saul seja um comentário acrescentado poste­
foram postos em form a escrita. riormente (cf. com entário sobre o texto).

15
dicou uma parte da Narrativa da Sucessão. 1—2 fazem parte de uma unidade literária
Os estudiosos, entretanto, há muito já reco­ que trata da luta pelo trono de Davi. A esses
nheceram que IReis 2 passou por nume­ capítulos, denominados Narrativa da
rosas modificações. Por isso mesmo, sua Sucessão, faltam as repetições que caracte­
complexidade pode ter resultado, em parte, rizaram ISamuel.7 Ao invés disso, exibem
da inclusão de elementos de um relato um estilo coordenado, coerentes descrições
autêntico (agora perdido) acerca da velhice de personagens e um tema básico. É possível
de Davi. Dai o fato de estar a estrutura dos que o autor tenha se servido de material
livros de Samuel, até 2Samuel 8, organizada já existente ao tratar da guerra amonita
em torno da “ascensão e reinado” dessas (2Sm 10.1—11.1; 12.26-31), da parábola de
três personagens principais. Natã (2Sm 12.1-15), e, num capítulo final,
Mesmo essa coletânea básica, no entan­ da morte de Davi e dos primeiros atos de
to, fez uso de tradições diversas, mais Salomão (lRs 2). Esse material, entretanto,
antigas, que já poderiam ter sido organi­ foi integrado à história e fornece sua própria
zadas como fontes. A reverência de nosso contribuição para o desenvolvimento da
autor em face do conteúdo dessas fontes narrativa.
e a freqüente recorrência de narrativas repe­ Por outro lado, os registros sobre a
tidas sugerem que pelo menos duas linhas disputa pelo trono de Israel são interrom­
de tradição acerca desse período já estavam pidos por uma coletânea de textos sobre
em circulação. diversos assuntos (2Sm 21—24). Nada
Pbderíamos isolar também um certo nesses relatos parece exigir esse contexto
número de unidades literárias menores, mas específico. Certamente, nada contêm eles
estas, no essencial, já estão bem integradas que requeresse a interrupção de uma narra­
na corrente da história. A estrutura do tiva contínua. Todavia, qualquer explicação
cântico de Ana (ISm 2.1-10), por exemplo, significativa da composição de Samuel
tem provavelmente origem no período precisa, justifica a inclusão desses relatos
monárquico (veja comentário sobre o texto), nesse ponto.
mas o hino, muito habilmente, expressa o Aqui, uma vez mais, a resposta mais
júbilo de sua justificação diante de Penina. simples ao problema parece ser a mais
Os relatos mais antigos sobre a arca (ISm razoável. A miscelânea de materiais foi
4—6) também mantêm um vínculo muito acrescentada ao final do livro de Samuel,
tênue com seu contexto, mas proporcionam depois que a divisão entre Samuel e Reis
uma espécie de pano de fundo para a estra­ e o acréscimo da Narrativa da Sucessão já
tégia religiosa de Davi (2Sm 6) e a promessa haviam ocorrido.
de Natã de uma dinastia duradoura (2Sm 7). Em suma, os responsáveis pela divisão
Qualquer data que se vincule à con­ reconheciam o plano da coletânea básica
cisão do “documento” de Samuel teria um de Samuel e incluíram o relato sobre a
caráter extremamente especulativo. Na velhice de Davi com o início da saga de
melhor das hipóteses, estaria situada no Salomão em Reis. Algum tempo depois da
período monárquico, e bem afastada dos separação entre Samuel e Reis, foi acrescen­
incidentes em questão. A coletânea inteira tada a Narrativa da Sucessão, sendo esta
parece que já estava bem definida quando também dividida de acordo com o plano
foi acrescentada a Narrativa da Sucessão, anteriormente seguido.
uma vez que a estrutura básica de cada Posteriormente, a miscelânea de textos
complexo literário permaneceu intacta. de 2Samuel 21—24 foi incluída no final do
2. A Narrativa da Sucessão
A existência independente d a Narrativa d a Sucessão foi sugerida
A maioria dos estudiosos do Antigo Tes­ pela primeira vez por L. Rost em 1926 (Die Überlieferung von der
Thronnachfoige Davids). U m a súm ula de sua visão em to m o do
tamento concorda que 2Sm 9—20 e IReis problema pode ser encontrada em Bentzen, v. 2, p. 105.

16
livro, violando ainda mais a integridade lite­ deuteronômica se limitam a poucas notas
rária da Narrativa da Sucessão. Pode-se cronológicas (ISm 4.18; 13.1; 2Sm 1.10,11;
imaginar que o editor talvez tenha acres­ 5.4,5).
centado a Narrativa da Sucessão e os textos No entanto, não se pode arrancar de seu
suplementares à coletânea básica de Samuel contexto os livros de, Samuel, e é preciso
ao mesmo tempo em que foram separados reconhecer o caráter deuteronômico desse
os livros. Essa seqüência, entretanto, parece contexto. Uma solução do problema deve
improvável. estar na natureza do material em que se
baseiam os livros. Aparentemente, os dois
3. Editoração Deuteronômica complexos literários básicos (ISm 1—2Sm
Samuel permanece como um importante 8; 2Sm 9—20 e lRs 1—2) usados pelo editor
segmento da história de Israel no período já haviam sido aceitos numa forma relati­
que se estende da entrada na Terra Prome­ vamente fixa muito antes que chegassem
tida até a queda do reino de Judá às suas mãos. Assim, os editores deutero-
(Deuteronômio-Reis). Nos demais livros nômicos, que livremente davam forma às
históricos, principalmente Juizes8 e Reis, tradições mais maleáveis subjacentes aos
a história é contada de acordo com um demais livros históricos, faziam as mínimas
padrão de fácil reconhecimento (cf. lRs alterações possíveis quando organizavam
15.1-8). O ponto de vista teológico do editor as estruturas literárias mais estáveis em
é bastante claro. A doutrina da retribuição Samuel.
divina é rigorosamente aplicada, e o sucesso
ou retrocesso de Israel aparece inevitavel­
mente ligado à retidão ou ao pecado do 4. Conclusões
povo. Considerando que essa filosofia A luz da discussão precedente, diversas
permeia inteiramente a estruturação dos observações nos parecem corretas:
livros Deuteronômio-Reis, é amplamente 1) Os editores que separaram Samuel de
aceito que um único editor (ou grupo de Reis assim procederam numa fase inicial
editores), adepto dessa idéia, foi o do desenvolvimento dos atuais livros de
responsável pela compilação dessa versão Samuel. Supõe-se que foram representantes
completa da história de Israel. da “escola deuteronômica”, os quais deram
Nos livros de Samuel, entretanto, as forma à ampla história de Israel que vai
marcas da editoração deuteronômica são de Deuteronômio até Reis. O impacto desses
manifestamente esparsas, o que contrasta editores é muito menos perceptível em
com Josué, Juizes e Reis, onde o vigamento Samuel do que em Josué, Juizes e Reis.
deuteronômico é bastante pronunciado. 2) O livro de Samuel era originalmente
Mesmo os que reconhecem o dedo do editor constituído pelas principais partes de
em Samuel não estão de acordo sobre onde ISamuel 1 a 2Samuel 8, mais uma seção,
identificá-lo. A visão deuteronômica da agora perdida, que descrevia os anos de
história patenteia-se com mais clareza no declínio de Davi. Essa “coletânea básica”
discurso de despedida de Samuel (ISm 12), de Samuel demonstra a existência de um
que lembra a fala final de Moisés (cf. espe­ plano literário em que se apresenta a
cialmente Dt 2). Em outros aspectos, os ascensão e reinado dos primeiros líderes de
possíveis indícios e provas de uma influência Israel. O clímax de cada relato vem acom­
panhado de um sumário das façanhas do
Sob os juizes, a história de Israel é descrita com o um a série de ciclos herói, inserido no momento em que ele
de pecado, juízo, arrependim ento e libertação (Jz 2.16*23). Q uando,
em tempos de paz, a nação resvalava para o pecado, D eus punia
atinge o ápice de sua carreira. Quando um
o povo, entregando-o nas m ãos de um opressor estrangeira Então, grande homem começa a declinar, con­
sob o juízo de Deus, Israel se arrependia, e u m juiz era enviado
para libertar o povo de Deus. Ai vinha um período de vinte a quarenta
sidera-se que a história de seu sucessor já
anos de paz, antes que o ciclo inteiro se repetisse. começou.

17
3) Os editores que separaram os livros durante o governo de Tiglate-Pileser I
de Samuel dos livros dos Reis reconheciam (1116-1078 a.C.), mas seus sucessores foram
a estrutura literária subjacente à coletânea impotentes para consolidar suas conquistas.
básica de Samuel e fizeram a divisão de Após dominar o Vale da Mesopotâmia e
acordo com ela, i.e., a história de Salomão ocupar o norte da Síria, subjugando-a, a
começa com o declinio de Davi (IReis 1—2). Assíria entrou em decadência, permane­
4) A Narrativa da Sucessão (2Sm 9—20 cendo nessa situação até o século 9 a.C.
e lRs 1—2) provavelmente foi acrescentada Embora livre da dominação estrangeira,
depois que os livros foram divididos, e a a Palestina ainda figurava como palco de
integridade estrutural da narrativa foi sacri­ uma acirrada luta pelo poder. Durante os
ficada para que se preservasse o plano séculos 12 e 11 a.C., o avanço tecnológico
literário da coletânea básica de Samuel. favoreceu o surgimento de diversos estados
5) Mais tarde, uma miscelânea de textos pequenos e fortes naquela região. Quando
foi introduzida no final de Samuel (cap. o velho monopólio hitita da fabricação de
21—24), dividindo, pois, ainda mais a ferro foi rompido, até as nações pequenas
outrora contínua Narrativa da Sucessão. puderam dar-se ao luxo de possuir um bom
armamento. A construção de reservatórios
caiados para estocagem de água propiciou
VI. Situação Histórica o aproveitamento de terras até então exces­
Em meados do século 11 a.C., a situação sivamente áridas para sustentarem uma
política na região montanhosa da Palestina população sedentária. À mesma época, a
tinha chegado a tal ponto que a existência domesticação de camelos atraiu pessoas
de Israel estava seriamente ameaçada. Por para o deserto, uma vez que rotas comer­
estranho que pareça, os problemas de Israel ciais em regiões áridas tornaram-se viáveis
não eram resultado de pressões feitas pelas e altamente lucrativas.
grandes potências da época, mas de pres­ Mesmo depois da conquista e coloni­
sões exercidas pelas pequenas, porém fortes, zação da Canaã, Israel experimentou quase
nações locais. nenhum descanso no intervalo entre as
Os egípcios, que reivindicavam pelo freqüentes guerras com vizinhos hostis. A
menos um controle nominal da Palestina leste, Edom, Moabe e até mesmo Amom,
desde os tempos de Tutmés III (1490-1435 já no século 13 a.C., constituíam estados
a.C.), atravessavam momentos difíceis. florescentes. Invasores oriundos dessa
Gastos excessivos com programas de cons­ região vinham periodicamente afligir Israel
trução, dissensões internas, liderança na época dos juizes (Jz 3.12-30; 6.1 — 8.28;
incapaz, ataques vindos de fora (e.g., os 11.1-40), e Saul teve a primeira manifestação
Povos do Mar, por volta 1170 a.C.), tudo de apoio público à sua monarquia incipiente
isso limitava cada vez mais o poder do Egito quando defendeu Jabes-Gileade de um
fora de suas fronteiras. Quando a dinastia ataque amonita (ISm 1.1 e ss.). Mais ao
tanita assumiu o poder em 1065 a.C., a lei norte, Israel defrontou-se com Damasco e
e a ordem no país caíram por terra, è a espe­ os estados arameus, que em breve poriam
rança do Egito de restabelecer o controle à prova o espírito combativo de Davi (2Sm
de seu império asiático sucumbiu de vez. 8.3-12). Menos espetaculares, porém talvez
As potências da Mesopotâmia enfren­ mais ameaçadoras, eram as restantes forta­
tavam limitações semelhantes, e nenhuma lezas cananitas como Jerusalém, Megido,
nação foi capaz de tirar proveito da fraqueza Taanaque e Aco.
dos egípcios, estendendo suas fronteiras, nas Os mais perigosos rivais de Israel nesse
direções oeste e sul, até o interior da Pales­ período, entretanto, foram os filisteus. Esse
tina. A Assíria experimentou, de fato, uma grupo, tendo fracassado em suas tentativas
breve recuperação da sua força e influência de invadir o Egito no tempo de Ramsés III

18
(1175-1144 a.C.), fixou-se na costa sudoeste uma cultura sedentária, seu compromisso
de Canaã. Trouxeram os filisteus de seu com o Senhor enfrentou o desafio das
antigo torrão natal, no Mar Egeu, uma pretensões contrárias de diversos deuses da
herança militar que fez deles e de povos fertilidade: e.g., Baal, Dagom e Astarote.
aparentados o flagelo do Mediterrâneo Destarte, no século XI, Israel foi sucessivas
oriental. No tempo dos juizes, empreen­ vezes humilhado por nações que profes­
deram periódicas incursões contra Israel, savam lealdade a esses mesmos deuses.
experimentando diferentes graus de sucesso Assim, duas importantes questões teoló­
(Jz 3.11; 13.1—15.20). gicas emergiram do conturbado cenário
Retomando sua política de agressão, os político israelita. Os avanços militares dos
filisteus, em meados do século 11 a.C., logo filisteus faziam crer a alguns que Deus era
caíram sobre os judeus. Em seguida à vitória impotente para proteger seu povo contra
em Afeque, quando aprisionaram a arca a força dos deuses vizinhos. A outros
do Senhor (ISm 4 e ss.), destruíram Siló, parecia que o antigo sistema tribal de
Bete-Zur, Tell Beit Mirsim, Gibeá e Bete- governo, da época dos juizes, havia durado
-Sã. Embora seu avanço tenha sido tem­ mais do que a sua própria utilidade, sendo
porariamente retardado, durante o minis­ agora necessário um rei para unir o povo.
tério de Samuel (ISm 7.7-14), parece que Essas questões são abordadas com vigor
não foram desalojados por completo da ao longo dos livros de Samuel. Do início
região montanhosa. Quando Saul subiu ao ao fim, as histórias de Samuel, Saul e Davi
trono, encontrou os filisteus ainda insta­ são narradas, revelando um fundo comum:
lados no centro do território israelita (ISm a certeza do senhorio de Iavé sobre a
13.3). história. Sente-se a mão de Deus na escolha
Submetido Israel a tais pressões, seu dos líderes de Israel (ISm 3.1-20; 9.15,16;
futuro tornou-se sombrio, e a costura que 16.1), na proteção que dele obtiveram (e.g.,
mantinha unidas as diversas partes que 25.26), e na rejeição deles quando se rebe­
formavam a nação foi esticada até o ponto laram contra Deus (15.35—16.7). A idéia
de se romper. Os juizes raramente foram de que o Senhor fosse menos poderoso que
capazes de unir toda a nação; e, a menos os deuses dos filisteus é particularmente
que uma das tribos fosse diretamente amea­ rejeitada nos relatos acerca da arca (ISm
çada por um agressor, era improvável que 4—6). Embora tenha permitido que os filis­
reunisse tropas em favor da defesa comum teus se apossassem da arca, Deus fez com
(Jz 4—5). Israel parecia fadado à destruição. que ela voltasse, humilhando Dagom e
enviando uma praga contra os filisteus. Os
reveses de Israel, portanto, eram vistos como
VII. Lições Religiosas resultado da violação da vontade de Deus
pelo povo, ao invés de um indício qualquer
1. Fé em Crise de fraqueza da parte dele.
Os problemas políticos de Israel foram Os livros de Samuel também repudiam
agravados por uma crise religiosa de a idéia de que fraquezas inerentes ao sistema
proporções assustadoras. No tempo dos político de Israel estivessem causando a
juizes, uma fé comum em Iavé tinha sido falência da nação. O fracasso das intenções
o principal fator de unificação das tribos agressivas dos filisteus, durante o ministério
de Israel, em que pese a desigualdade entre de Samuel, foi entendido como um indício
elas. O povo acalentava lembranças do de que o velho sistema tribal funcionaria
êxodo e da conquista, em que via as marcas quando o povo abandonasse seus maus
da mão protetora de Deus na vitória reite­ costumes (ISm 7.3-14). Deus podia operar
rada e decisiva. Todavia, como se voltassem através de um sistema monárquico de
os israelitas para atividades agrícolas de governo, e o faria com certeza, mas o

19
clamor popular por um rei mostrava a falta Os babilônios, por exemplo, sentiam-se à
de compreensão do povo em face de seu mercê de deuses caprichosos, que não hesi­
verdadeiro problema. Israel carecia de tariam em destruir a humanidade se não
unidade, não porque o sistema tribal em tivessem necessidade de servos humanos.9
si mesmo fosse deficiente, mas em virtude Ignorando o que seja causa secundária ou
das falhas do próprio povo. Cada tribo se intermediária, os antigos viam por trás de
tornou excessivamente preocupada com cada força da natureza a presença de um
seus próprios interesses, fazendo vista grossa deus inescrutável.
para as necessidades da nação. Israel só seria Os israelitas também atribuíam à inicia­
unido e forte quando o povo se submetesse tiva divina toda sorte de ações, mesmo as
à liderança do Senhor e trabalhasse pelo más (cf. Is 45.7). Daí haver procedido do
bem comum. Senhor o mau espírito de Saul (ISm 16.14),
e o fatídico recenseamento de Davi ter sido
2. Retribuição Divina entendido como resultado da instigação de
“O Deus de Israel é o Senhor da história Iavé (2Sm 24.1). De certo modo, entretanto,
e o pai da justiça, que recompensa os bons viam nesses atos o resultado da ira ou juízo
e castiga os maus!” Essa grande afirmação do Senhor contra os pecados de seu povo.
de fé, conhecida como retribuição divina, Alguns antigos israelitas, porém, aspi­
é indispensável para a compreensão dos ravam a uma melhor compreensão das
livros de Samuel. Essa confiança na supre­ situações a que a doutrina da retribuição
macia do Senhor e em seu governo moral divina parecia não se aplicar. Notavam que,
do universo permeia completamente a embora os maus tendessem a sofrer, muita
mensagem de Samuel. gente corrupta parecia continuar desfru­
A história de Davi se sobressai a quantos tando as “primícias da terra”. Outros, de
exemplos se possam citar. Embora de modo semelhantè, reconheciam que a
maneira alguma perfeito, Davi é retratado, bondade não constitui garantia alguma de
particularmente na mocidade, como um paz e prosperidade. Projetando-se contra
homem sensível às manifestações de lide­ o fundo doutrinário dos livros de Samuel,
rança divina. Enquanto se mostrou Oséias, Jó e o Servo Sofredor de que nos
convenientemente humilde na presença de fala Isaías (cf. sobretudo Is 52.13—53.12),
Deus, o Senhor o protegeu da insana perse­ tais situações oferecem percepções adicio­
guição de Saul, conduziu-o com segurança nais quanto à natureza do justo padecer.
ao longo do exílio filisteu e, por fim, Pbrém, à luz da clara promessa neotes-
colocou-o no trono de Israel. Sob a direção tamentária de juízo eterno, a justiça de
de Davi, a nação se converteu numa Deus na supervisão da história humana
potência influente nos assuntos mundiais. pode ser vista numa perspectiva diferente
Apesar disso, quando, motivado por seu e mais completa. Assim, embora Jesus
envolvimento com Bate-Seba, Davi pla­ lembrasse que as bênçãos de Deus (Mt 5.45)
nejou a morte de Urias e fê-la executar, e as vicissitudes do homem (Lc 13.4,5) caem
rebeliões devastadoras irromperam no seu sobre todos igualmente, também ensinou
governo, flagelando os anos finais de seu que justos e injustos seriam separados entre
reinado. Desta maneira, a sorte de Israel, si para efeito de recompensa e punição no
fosse boa ou ruim, era sentida como uma juízo (Mt 13.47-50).
recompensa moral pelos atos de seu povo Embora, como é óbvio, a doutrina da
e de seus líderes. retribuição divina tenha sofrido modifi­
Essa forma de apreensão da natureza cações com o passar do tempo, sua impor-
do prazer e do sofrimento representava um
C f. a Epopeia de Gilgamesh, placa XI, linhas 175-185. In: D. W inton
importante avanço em relação às con­ Thom as, ed., D ocum ents from O ld Testament Times (New York:
cepções sustentadas pelos vizinhos de Israel. Harper and Brothers, 1958), p. 23.

20
tante contribuição para o desenvolvimento guisse objetivos comuns, mas porque o
da fé de Israel não diminuiu de maneira Senhor estava operando no meio dele, a fim
alguma. Adequadamente compreendida, de cumprir seus propósitos na história. De
essa premissa fundamental dos livros de fato, do ponto de vista político, o reino de
Samuel vale ainda como lembrete de que Israel nunca esteve realmente unido.
vivemos num universo moral governado por Mesmo sob os governos de Saul e Davi,
um Deus tão misericordioso quanto justo. intensas rivalidades regionais, a par de
ressentimentos tribais, deixaram o país
seriamente dividido (cf. comentário sobre
VIII. Unidade na Diversidade ISm 4.12-18 e ISm 24.1-17). Contudo, o ideal
Em qualquer enfoque abrangente vol­ de um estado israelita unido marca tão
tado para o estudo de Samuel, somos extensamente o Antigo Testamento que, de
confrontados com uma ampla variedade tempos em tempos, “filhos de Abraão” têm
de posições teológicas e pontos de vista retornado de seu exílio no mundo, em
históricos que desafiam a fácil conciliação. esforços renovados por concretizar as possi­
Davi, por exemplo, parece querer dizer que bilidades que o Senhor havia idealizado para
a perseguição movida por Saul contra ele o seu povo.
empurrava-o para dentro de um território Assim, a mensagem de Samuel está arrai­
estrangeiro onde não seria alcançado pela gada numa linguagem que fala de luta e
providência do Senhor (ISm 26.19). dissensão — entre os juizes como sistema
Contudo, as histórias da arca (ISm 4—6) de governo e a monarquia, entre Samuel
descrevem claramente o Deus de Israel e Saul, entre Saul e Davi, ou entre este e
demonstrando autoridade sobre seu próprio os rebeldes. Via-se no Senhor a força de
povo (cf. comentário sobre ISm 6.19-21) e motivação a impulsionar cada aconteci­
sobre os estrangeiros também (5.1—6.18). mento na história de Israel, mas ao mesmo
Fato semelhante se deu com a instalação tempo viam-no operar de maneira a
da monarquia em Israel, quando diferentes permitir que os homens fossem livres (cf.
opiniões se mobilizaram a respeito. De comentário sobre ISm 8.19-22 e 2Sm 15.26).
modo geral, ISamuel 8—12 retrata a reivin­ A rota traçada pela história implica,
dicação do povo por um rei como uma portanto, tortuosos envolvimentos, e é
forma de repúdio da direção divina (ISm supremamente frustradora (cf. comentário
8.7). Não obstante, escolheu o Senhor a Saul sobre 2Sm 3.16-21). Como homens livres
para reinar sobre Israel, a fim de que livrasse — bons e maus — lutassem uns com os
a nação das mãos dos filisteus. O que é mais outros, Deus se empenhava em estabelecer
significativo ainda, os livros de Samuel, na a monarquia israelita, a fim de prover seu
maior parte, concentram-se na escolha de povo com uma medida de segurança e fixar
um soberano que haveria de ser um homem as leis básicas da sucessão (2Sm 7).
segundo o coração de Deus (ISm 13.14). O autor de Samuel compreendia clara­
Assim, através de muitos fatos e pessoas, mente, portanto, que a verdadeira unidade
o Senhor operou na história para fazer Davi do povo de Deus repousava em sua fé
rei, e então prometeu que ele teria uma comum num Deus vivo e soberano. Dentro
linhagem duradoura a ocupar o trono de de uma comunidade que, em última
Israel (2Sm 7). instância, é dirigida por Deus, existe amplo
Põr mais irreconciliáveis que pareçam espaço para desacordo no tocante a obje­
tais posições, é precisamente nessa diver­ tivos, métodos, e até mesmo doutrina.
sidade que a profunda unidade de Israel Fazendo nosso o ponto de vista da teologia
e a maturidade de sua fé são reveladas. O encarnada nos livros de Samuel, pode­
povo de Deus existiu e floresceu, não porque ríamos até dizer que Deus opera através
tivesse um só pensamento ou porque perse­ de tais conflitos para manter seu povo

21
dentro do curso de sua vontade. Seja como 2) Resumo do ministério de Samuel
for, seu poder e graça são suficientes para (7.12-17)
conduzir seus planos a um final bem-
sucedido. Ao homem, portanto, confia-se II. Ascensão e reinado de Saul (8.1—14.52)
a liberdade de consciência e ação para reagir 1. A influência de Samuel diminui
à sua própria compreensão da liderança gradualmente (8.1-22)
divina. Assim aos verdadeiramente humil­ 1) Os filhos de Samuel pervertem
des em vida promete-se a direção do Senhor, a justiça (8.1-3)
e os orgulhosos acabarão sendo vítimas de 2) Israel pede um rei (8.4-9)
sua própria altivez (ISm 12.14,15; 2Sm 3) Descrição do comportamento de
22.28). um rei (8.10-18)
4) Israel continua resoluto (8.19-22)
2. Deus escolhe o rei de Israel
Esboço (9.1—10.27)
I. Ascensão e “reinado” de Samuel 1) Saul habilita-se ao cargo (9.1,2)
(1.1—7.17) 2) Saul procura as jumentas extra­
1. Nascimento e dedicação de Samuel viadas (9.3-14)
(1. 1— 2 . 11) 3) Saul encontra Samuel (9.15-27)
1) A família de Samuel visita Siló 4) Samuel unge Saul (10.1-16)
( 1. 1- 8 ) 5) Saul publicamente aclamado rei
2) Ana faz um voto (1.9-18) (10.17-27)
3) Ana dedica Samuel (1.19-28) 3. Saul apoiado pelo povo (11.1-15)
4) O Cântico de Ana (2.1-10) 1) Amonitas atacam Jabes-Gileade
2. A casa de Eli é rejeitada (2.11-36) (11.1-4)
1) Os filhos de Eli pecam no exer­ 2) Saul derrota os amonitas (11.5-11)
cício do cargo (2.11-17) 3) O povo proclama Saul rei
2) A família de Samuel prospera (11.12-15)
(2.18-21) 4. Samuel dá conselhos à monarquia
3) A repreensão de Eli fracassa (12.1-25)
(2.22-26) 1) Samuel defende seu passado de
4) Sentença sobre a casa de Eli serviços e conduta (12.1-5)
(2.27-36) 2) Crônica da rebelião de Israel
3. Samuel inicia seu ministério (12.6-18)
(3.1—4.1a) 3) Samuel promete orações
1) Samuel serve no templo (3.1-9) (12.19-25)
2) O Senhor julga a casa de Eli 5. Israel conquista independência
(3.10-14) (13.1—14.52)
3) Samuel divulga a mensagem de 1) Começa a guerra da libertação
Deus (3.15-18) (13.1-15a)
4) Samuel torna-se profeta 2) Descrição das condições da
(3.19—4.1a) guerra (13.15b-23)
4. A história da arca (4.1b—7.2) 3) Israel alcança vitória (14.1-23)
1) A arca é capturada (4.1b-22) 4) Vitória interrompida (14:24-46)
2) A arca causa transtorno aos filis­ 5) Sinopse do reinado de Saul
teus (5.1-12) (14.47-52)
3) A arca volta a Israel (6.1—7.2)
5. Samuel liberta o povo (7.3-17) III. Ascensão e reinado de Davi (ISm
1) Vitória alcançada em Mizpá 15.1—2Sm 8.18)
(7.3-11) 1. Saul rejeitado como rei (15.1-35)

22
1) Saul transgride a ordem de Deus 6) Israel derrotado em Gilboa (ISm
(15.1-9) 31.1—2Sm 1.27)
2) Saul rejeitado como rei (15.10-23) a. Saul comete suicídio (31.1-13)
3) Samuel abandona Saul (15.24-35) b. Um jovem reivindica a morte
2. Davi ungido futuro rei (16.1-13) de Saul (2Sm 1.1-16)
3. Davi reúne-se à corte de Saul « c. Davi pranteia a perda de Israel
■ (16.14—18.5) (1.17-27)
1) Davi torna-se escudeiro de Saul 7. Davi torna-se rei (2Sm 2.1—8.18)
(16.14-23) 1) Davi reina sobre Judá (2.1—4.12)
2) Davi combate o gigante 2) Davi soberano sobre todo o Israel
(17.1—18.5) (5.1—8.18)
4. Saul procura tirar a vida de Davi a. Os anciãos “elegem” Davi rei
(18.6—20.42) (5.1-5)
1) Tentativa de homicídio por parte b. Davi instala sua corte (5.6-16)
de Saul (18.6-16) c. Davi detém os filisteus
2) Saul usa os filisteus (18.17-30) (5.17-25)
3) Saul procura assassinos (19.1-7) d. A arca retorna a Jerusalém
4) Saul volta a praticar violência (6.1-23)
(19.8-17) e. Natã profetiza a dinastia
5) Samuel oferece refúgio (19.18-24) (7.1-17)
6) Davi e Jônatas se separam f. Davi rende graças (7.18-29)
(20.1-42) g. Panorama do reinado de Davi
5. Davi torna-se um fugitivo (8.1-18)
(21.1—26.25) IV. Narrativa da Sucessão (9.1—20.26)
1) Sacerdotes ajudam Davi em 1. Davi poupa o filho de um amigo
Nobe (21.1-9) (9.1-13)
2) Davi finge loucura (21.10-15) 2. Davi enfrenta sírios e amonitas
3) Davi reúne um exército (22.1-5) (10.1-19)
4) Saul perde apoio sacerdotal 3. Tragédia no rastro do pecado
(22.6-23) (11.1—12.31)
5) Davi liberta Queila (23.1-14) 1) Davi sucumbe à concupiscência
6) Amigos ampliam aliança (11.1-13)
(23.15-18) 2) Davi manda matar Urias
7) Zifeus traem Davi (23.19-29) (11.14-27)
8) Saul entregue a Davi (24.1-22) 3) Natã acusa Davi (12.1-15a)
9) Davi se casa com Abigail 4) Davi perde um filho (12.15b-25)
(25.1-44) 5) Davi derrota os amonitas
10) Novo ato de traição dos zifeus (12.26-31)
(26.1-25) 4. Amnon viola Tamar (13.1-22)
6. Davi se une aos filisteus (ISm 5. Absalão vinga sua irmã (13.23-39)
27.1—2Sm 1.27) 6. Absalão retorna à corte (14.1-33)
1) Davi torna-se vassalo (27.1-12) 1) Joabe testa Davi (14.1-20)
2) Saul consulta uma médium 2) Absalão retorna a Jerusalém
(28.1-14) (14.21-33)
3) Condenação da casa de Saul 7. Absalão usurpa o trono (15.1—18.33)
(28.15-25) 1) Absalão torna-se rei (15.1-12)
4) Davi excluído da guerra (29.1-11) 2) Davi foge de Jerusalém (15.13-37)
5) Amalequitas atacam Ziclague 3) A família de Saul opõe-se a Davi
(30.1-30) (16.1-14)

■ 23
4) Absalão entra em Jerusalém ble. London: Thomas Nelson and
(16.15-23) Sons, Ltd., 1962.
5) Husai ganha tempo (17.1-14) BRIGHT, JOHN. A History of Israel.
6) Davi foge para Maanaim Philadelphia: The Westminster Press,
(17.15-29) 1959.
7) Absalão morto em batalha BUTTRICK, GEORGE ARTHUR et alii,
(18.1-18) eds. The Interpreter’s Dictionary of
8) Relato da morte de Absalão the Bible. 4 v. New York: Abingdon
(18.19-33) Press, 1962.
8. Davi volta a ocupar o trono (19.1-40) CAIRD, GEORGE B. “The First and
1) Israel chama Davi de volta Second Books of Samuel: Introduction
(19.1-15) and Exegesis”. In.: The Interpreter’s
2) Davi volta a Jerusalém (19.16-40) Bible, v. 2, p. 855-1176. New \brk:
9. Sebá lidera a revolta israelita Abingdon Press, 1953.
(19.41—20.26) DRIVER, S. R. Notes on the Hebrew Text
1) A desconfiança provoca a guerra and the Topography of the Books of
(19.41—20.2) Samuel. Oxford: Oxford University
2) Os homens de Davi perseguem Press, 1913.
Sebá (20.3-22) HERTZBERG, HANS WILHELM. 1 e
3) Relação dos líderes de Davi 2Samuel. Traduzido para o inglês por
(20.23-26) J. S. Bowden (In: “The Old Testament
Library”). Philadelphia: The West­
V. Anexos (21.1—24.25)
1. Gibeonitas executam os filhos de minster Press, 1964.
Saul (21.1-14) MCKANE, WILLIAM. I and II Samuel.
2. Os filisteus voltam a guerrear (In: “Torch- Bible Commentaries”).
London: SCM Press, Ltd., 1963.
(21.15-22)
3. Cântico de ação de graças de Davi RUST, ERIC C. Judges, Ruth and Samuel.
(In: “The Laymen’s Bible Commen­
(22.1-51) tary”). Richmond: John Knox Press,
4. As últimas palavras de Davi (23.1-7)
5. Relação dos “valentes” de Davi 1961.
SMITH, HENRY PRESERVED. A
(23.8-39)
6. Davi ordena o censo (24.1-17) Criticai and Exegetical Commentary
7. Davi constrói um altar (24.18-25) on the Books of Samuel. (In: “The
International Critical Commentary”.)
Edinburgh: T. and T. Clark, 1899.
DE VAUX, ROLAND. Ancient Israel.
Bibliografia Selecionada Traduzido para o inglês por John
BALY, DENIS. The Geography of the Bible. McHugh. New York: McGraw-Hill
New York: Harper and Row, 1957. Book Co., 1961.
BENTZEN, AAGE. Introdução ao Antigo WRIGHT, GEORGE ERNEST e FLOYD
Testamento. 2. v. São Paiilo: ASTE, VIVIAM FILSON, eds. The West­
1968. minster Historical Atlas to the Bible.
BLACK, MATTHEW e H. H. ROWLEY, Ed. revista. Philadelphia: The West­
eds. Peake’s Commentary on the Bi- minster Press, 1956.

24
Comentário Sobre o Texto
I. Ascensão e “Reinado” de Samuel a Siló sugerem que ele era um um homem
(1.1—7.17) piedoso e com algumas posses. Como
marido de duas mulheres, procurava tratar
1. Nascimento e Dedicação de Samuel cada uma com justiça, mas acabou, inevi­
(1.1— 2 .11) tavelmente, apanhado entre os ciúmes das
duas. Aria (equivalente ao nome moderno
1) A Família de Samuel Visita Siló (1.1-8) “Graça”) sentia-se uma pessoa falha pelo
'Houve um homem de Ramataim-Zofim, da fato de não poder ter filhos, e Penina
região montanhosa de Efraim, cujo nome era (“Pérola”) ressentia-se da consideração espe­
Elcana, filho de Jeroão, filho de Eliú, filho de Toú, cial de Elcana por sua rival. Contudo,
filho de Zufe, efraimita. 2Tinha ele duas mulheres: soube ele reagir, em meio às tensões que
uma se chamava Ana, e a outra Penina. Penina
tinha filhos, porém Ana não os tinha. 3De ano em tornam a vida difícil, com graça e afeição.
ano este homem subia da sua cidade para adorar Ramataim-Zofim (conhecido alhures, em
e sacrificar ao Senhor dos exércitos em Siló. Assis­ Samuel, simplesmente como Ramá, “a
tiam ali os sacerdotes do Senhor, Hofni e Finéias,
os dois filhos de Eli. 4No dia em que Elcana sacri­ Elevação” — 1.19). Para distinguir essa
ficava, costumava dar quinhões a Penina, sua mulher, cidade de várias outras com o mesmo nome,
e a todos os seus filhos e filhas; sporém a Ana, foi preciso uma identificação mais com­
embora a amasse, dava um só quinhão, porquanto pleta. O período é gramaticalmente difícil,
o Senhor lhe havia cerrado a madre. 6Ora, a sua
rival muito a provocava para irritá-la, porque o
e provavelmente dever-se-ia ler assim:
Senhor lhe havia cerrado a madre. 7E assim “Havia um certo homem de Ramataim ias
sucedia de ano em ano que, ao subirem à casa do Elevações Gêmeas), zufita da região monta­
Senhor, Penina provocava a Ana; pelo que esta nhosa de Efraim.” Ramá, lar dos ancestrais
chorava e não comia. ‘Então Elcana, seu marido, de Samuel, tornou-se mais tarde o centro
lhe perguntou: Ana, por que choras? e por que não
comes? e por que está triste o teu coração? Não de sua administração judicial itinerante
te sou eu melhor do que dez filhos? (7.15-17).
A história da passagem de Israel de um Adorar e sacrificar. A peregrinação
sistema frouxo de confederação tribal para anual aqui descrita e a de que fala Juizes
um estado dinástico centralizado começa 21.19 parecem refletir condições anteriores
propriamente com um relato da ascensão à instituição das três grandes festas que se
e governo de Samuel. Ele desempenhou tomaram obrigatórias para o culto israelita.
papéis de vital importância como o último Essas festas, associadas ao plantio da prima­
grande juiz de Israel, um de seus primeiros vera, à colheita de cereais no inverno, e à
profetas, e como orientador na escolha de colheita da safra de verão, ficaram mais
seus dois primeiros reis. Através de sua tarde conhecidas como festas dos Pães
influência, a fé e os ideais que deram Asmos; das Semanas e dos Tabernáculos
origem a Israel foram transmitidos com (lRs 9.25; Ex 23.14-17; Dt 16.16).
sucesso ao novo sistema de governo. No período pré-monárquico, havia dois
As circunstâncias em meio às quais tipos principais de sacrifícios: o mais gene­
Samueí nasceu e se formou são contadas ralizado. de caráter comunal, em que o
de maneira singela, mas com a pungência povo comia uma porção do animal sacri­
que costuma assinalar a obra de um mestre ficado, e o holocausto, em que o sacrifício
da narração. Os membros de sua família inteiro era consumido no altar. Em Siló, o
e as pressões sob as quais viviam emergem culto era do primeiro tipo. Era essa, com
com impressionante clareza. efeito, uma ocasião de júbilo, em que se
A inclinação e habilidade de Elcana em estabeleciam boas relações entre Deus e
levar sua família numa peregrinação anual seus adoradores.

25
Sua rival reflete uma expressão semítica Fenina, a Ana é que cabia, em larga me­
de uso comum que quer dizer “esposa rival”, dida, abrir mão desses direitos.
“co-esposa”. Todo contato social mais intimo Impressionado com o fervor de Ana, por
envolve uma certa medida de tensão no ele confundido com embriaguez, Eli acres­
relacionamento, mas a prática da poligamia centou sua própria bênção à prece em que
tornava a vida familiar, no antigo Israel, a mulher estéril pedia um filho. O alívio
extremamente complicada (cf. a disputa de de Ana face às frustrações que a atrapa­
Sara com Hagar, Gn 16; o rompimento de lhavam na observância da festa religiosa
relações entre Raquel e Léia, Gn 30.1-8). foi alcançado não em virtude de seu pedido
ser acolhido, mas através da realização
2) Ana Faz um Voto (1.9-18) pessoal por ter orado do fundo do coração.
Agora, cheia de uma paz espiritual que
9Então Ana se levantou, depois que comeram antes lhe faltava, retornou jubilosamente
e beberam em Siló; e Eli, sacerdote, estava sentado
numa cadeira, junto a um pilar do templo do à festa. No tempo oportuno, veio-lhe o
Senhor. 10Ela, pois, com amargura de alma, orou primeiro filho (cf. 2.21).
ao Senhor, e chorou muito, ne fez um voto, Templo do Senhor. A palavra hebraica
dizendo: Ó Senhor dos exércitos! se deveras aten­ para “templo” é um termo semítico comum,
tares para a aflição da tua serva, e de mim te
lembrares, e da tua serva não te esqueceres, mas mas, antes do período de Davi e Salomão,
lhe deres um filho varão, ao Senhor o darei por só em 1.9 e 3.3 é empregado para designar
todos os dias da sua vida, e pela sua cabeça não um santuário israelita.
passará navalha. 12Continuando ela a orar perante Ignora-se a natureza exata dessa cons­
o Senhor, Eli observou a sua boca; 13porquanto
Ana falava no seu coração; só se moviam os seus
trução. A referência ao templo como casa
lábios, e não se ouvia a sua voz; pelo que Eli a teve (1.24) contrasta fortemente com a reação
por embriagada, 14e lhe disse: Até quando estarás enérgica contra a construção de uma habi­
tu embriagada? Aparta de ti o teu vinha 15Mas tação para o Senhor (7.6). A melhor
Ana respondeu: Não, senhor meu, eu sou uma explicação dessa diferença, tê-la-íamos,
mulher atribulada de espirito; não bebi vinho nem
bebida forte, porém derramei a minha alma perante talvez, na conclusão de que o texto de 7.6
o Senhor. l6Não tenhas, pois, a tua serva por filha procede de fonte diversa, que não estava
de Belial, porque da multidão dos meus cuidados familiarizada com a natureza do santuário
e do meu desgosto tenho falado até agora. 17Então de Siló. Seja como for, o santuário de Siló
lhe respondeu Eli: Vai-te em paz; e o Deus de Israel foi destruído pelos filisteus mais ou menos
te conceda a petição que lhe fizeste.18Ao que disse
ela: Ache a tua serva graça aos teus olhos. Assim, em 1050 a.C.11
a mulher se foi o seu caminho, e comeu, e já não
era triste o seu semblante. 3) Ana Dedica Samuel (1.19-28)
Desesperançada por não ver qualquer
final previsível para sua esterilidade, Ana, 19Depois, levantando-se de madrugada, ado­
raram perante o Senhor e, voltando, foram a sua
por fim, apelou para o Senhor. Em retri­ casa em Ramá. Elcana conheceu a Ana, sua mulher,
buição a Deus pela dádiva de um filho, e o Senhor se lembrou dela. 20De modo que Ana
prometeu que consagrá-lo-ia ao serviço de concebeu e, no tempo devidoi, teve um filho, ao qual
nazireu (Nm 6.1-8) por toda a vida. Ela chamou Samuel; porque, dizia ela, o tenho pedido
estava propensa a abrir mão das obrigações ao Senhor. 21Subiu, pois, aquele homem, Elcana,
com toda a sua casa, para oferecer ao Senhor o
familiares normais que uma criança tem sacrifício anual e cumprir o seu vota “ Ana,
para com seus pais; estava, com efeito, porém, não subiu, pois disse a seu marido: .quando
renunciando a uma garantia de cuidados ò menino for desmamado, então o levarei, para que
quando chegasse à velhice.10Considerando apareça perante o Senhor, e lá fique para sempre.
que Elcana tinha outros filhos, todos com
11 A queda de Siló não ê registrada em Samuel nem em Reis, mas
a arca foi colocada em Quiriate-Jearim após voltar de ter sido captu
10 Veja John Van Seters, “The Problem of Childlessness in N ear Eastern rada pelos filisteus (2Sm 7.2; cf. J r 7.12,14; 26.6,9; SI 78.60). Veja
Law and the Patriarchs of Israel”, Journal o f Biblical Literature, Joseph Blenkinsopp, “Kiriath-Jearira and the Ark”, Journal o f Bibíical
LXXXVI1 {December, 1968), p. 403. Literature, LX XX VIU {1969}, p. 143-156.

26
23E Elcana, seu marido, lhe disse: Faze o que bem 4) O Cântico de Ana (2.1-10)
te parecer; fica até que o desmames; tão-somente
confirme o Senhor a sua palavra. Assim, ficou a 'Então Ana orou, dizendo:
mulher, e amamentou seu filho, até que o desmamou. O meu coração exulta no Senhor;
24Depois de o ter desmamado, ela o tomou o meu poder está exaltado no Senhor;
consigo, com um touro de três anos, uma efà de a minha boca dilata-se contra os meus inimigos,
farinha e um odre de vinha, e o levou à casa do porquanto me regozijo na tua salvação.
Senhor, em Siló; e era o menino ainda muito 2Ninguém há santo como o Senhor;
criança. “ Então degolaram o touro, e trouxeram não há outro fora de ti;
o menino a Eli; Me disse ela: Ah, meu senhor! tão não há rocha como o nosso Deus.
certamente como vive a tua alma, meu senhor, eu ’Não faleis mais palavras tão altivas,
sou aquela mulher que aqui esteve contigo, orando nem saia da vòssa boca a arrogância;
ao Senhor. 2TPor este menino orava eu, e o Senhor porque o Senhor é o Deus da sabedoria,
atendeu a petição que eu lhe fiz. MPor isso eu e por ele são pesadas as ações.
também o entreguei ao Senhor; por todos os dias 4Os arcos dos fortes estão quebrados,
que viver, ao Senhor está entregue. E adoraram e os fracos são cingidos de força.
ali ao Senhor. 5Os que eram fartos se alugam por pão,
e deixam de ter fome os que eram famintos;
Ana estava profundamente cônscia de até a estéril teve sete filhos,
e a que tinha muitos filhos enfraquece
seu débito para com o Senhor, o qual aten­ éO Senhor é o que tira a vida e a dá;
dera seu pedido e lhe dera um filho. faz descer ao Seol e faz subir dali.
Entretanto, a confissão dela — o tenho 70 Senhor empobrece e enriquece;
pedido ao Senhor — não se associa facil­ abate e também exalta.
8Levanta do pó o pobre,
mente com seu atual contexto. Assim como do monturo eleva o necessitado,
está, o que essa frase oferece é uma expli­ para o fazer sentar entre os príncipes,
cação melhor do nome Saul (sha’ul).12 O para os fazer herdar um trono de glória;
nome Samuel, em hebraico, tem origem na porque do Senhor são as colunas da terra;
expressão que significa “o nome de Deus”. sobre elas pôs ele o mundo.
’Ele guardará os pés dos seus santos,
Nada se disse anteriormente sobre um porém os ímpios ficarão mudos nas trevas,
voto de Elcana. Isso pode ser reflexo de um porque o homem não prevalecerá pela força.
compromisso anterior de participar de uma 10Os que contendem com o Senhor serão
peregrinação anual a Siló (cf. 1.3), ou um quebrantados;
indício de que ele compartilhou, volunta­ desde os céus trovejará contra eles.
O Senhor julgará as extremidades da terra;
riamente, da consagração do filho de Ana dará forças ao seu rei,
ao serviço divino (Hertzberg, p. 28). e exaltará o poder do seu ungida
Samuel, provavelmente, já passava dos A referência ao rei, no cântico de Ana
três anos quando foi levado para a casa do (v. 10), mostra com clareza que o salmo não
Senhor, em Siló. Era essa a idade em que,
foi originalmente escrito tendo em vista sua
no mundo antigo, habitualmente se dava
presente função. A instituição da monar­
a desmama (2Macabeus 7.27).
quia ainda era coisa do futuro, algo que
Elcana voltou para casa, e o garoto chegaria bem mais tarde na vida de Samuel,
passou a ministrar ao Senhor na presença e sua implacável oposição ao estabeleci­
de Eli (2.11). Nada se diz acerca de Ana, mento de uma monarquia em Israel
que pode ter permanecido temporariamente
(8.10-18) dificilmente estaria justificada, se
para cuidar de seu filho e executar outras
esse cântico fosse o endosso profético de
funções no templo. Por outro lado, como
Deus para aquela nova modalidade de
sugere a versão grega, não é improvável que
governo. Mais provavelmente, um salmo
ela tenha retornado para Ramá, em compa­ escrito mais tarde foi colocado nesse
nhia do marido. contexto para resumir a atitude de uma
mulher, atitude esta finalmente justificada.
12 O nom e Saul tem origem no verbo hebraico que se traduz por “pedir”.
Embora a tônica do salmo esteja no
Em 1.20,27,28 e 2.20 há um jogo de palavras apoiado nessa raiz. louvor de Deus por causa de sua soberania

27
sobre toda a criação, há uma acentuada a cozer a carne, vinha o servo do sacerdote, tendo
ênfase na convicção do salmista de que o na mão um garfo de três dentes, 14e o metia na
panela, ou no tacho, ou no caldeirão, ou na marmita;
Senhor se move na história, recompensando e tudo quanto o garfo tirava, o sacerdote tomava
o bem e punindo o mal. Essa crença na retri­ para si. Assim, faziam a todos os de Israel que
buição divina, bem difundida no Antigo chegavam ali em Siló. l5Tàmbém, antes de quei­
Testamento, ainda que não o permeie por marem a gordura, vinha o servo do sacerdote e
completo, encontra sua expressão clássica dizia ao homem que sacrificava: Dá carne de assar
para o sacerdote; porque não receberá de ti carne
no versículo 9. cozida, mas crua. 16Se lhe respondia o homem:
Ana deve ter encontrado um conforto Sem dúvida, logo há de ser queimada a gordura
especial na idéia de que os papéis vividos e depois toma quanto desejar a tua alma; então
por humildes e exaltados hão de inverter-se ele lhe dizia: Não! hás de dá-la agora; se não, à
força a tomarei. 17Era, pois, muito grande o
com freqüência, quando o Senhor tomar pecado destes mancebos perante o Senhor, por­
para si a defesa dos justos. É bem provável quanto os homens vieram a desprezar a oferta do
que o salmo tenha sido escolhido para uso Senhor.
aqui em virtude da combinação que nele
O despontar da influência de Samuel é
se nota entre o louvor do Senhor e as pala­
vras que se encontram em 2.5b. acompanhado pelo trágico declínio da casa
de Eli. Samuel deve ter, mais tarde, refle­
“A estéril teve sete filhos,
tido acerca da angústia causada a Eli por
e a que tinha muitos filhos enfraquece.” Hofni e Finéias quando ficou provado que
De acordo com o registro bíblico, entre­
os seus próprios filhos eram corruptos
tanto, Ana teve só seis filhos, incluindo
(8.1-3).
Samuel (2.21).
A primeira série de acusações contra os
Tem-se interpretado o versículo 6 como filhos de Eli diz respeito à questão de divi­
uma prova antiga de uma fé na ressurreição
são doStacrifícios. O sangue era derramado,
dos mortos. Embora certamente possível,
e ã gordura, queimada como sacrifício ao
essa interpretação, contudo, não é indispen­
Senhor. O sacerdote deveria contentar-se
sável. No hebraico, as idéias contidas nos
com o que conseguisse apanhar, logo na
três primeiros verbos são apresentadas mais
ou menos independentemente — não que primeira vez, num caldeirão de carne sendo
cozida. O resto do sacrifício deveria ser
Deus necessariamente mate e depois consumido pelos adoradores.
restaure a vida, mas que Deus é responsável Aparentemente, o que os filhos de Eli
pela morte tanto quanto o é pelo nasci­
desejavam era garantir para si melhores
mento, pela enfermidade (faz descer ao
nacos de carne e uma porção maior do
Seol) tanto quanto pela recuperação da
sacrifício. Seus atos talvez refletissem um
saúde. De qualquer maneira, essas passa­ descontentamento relativamente generali­
gens, mais tarde, devem ter preparado o zado em face da maneira de se estabelecer
terreno para uma crescente tomada de cons- a participação dos sacerdotes no sacrifício.
ciência da vitalidade pessoal no
Seja como for, a parte que cabia ao sacer­
além-túmulo.
dote era, em outras épocas, determinada
com clareza, tanto do ponto de vista do
2. A Casa de Eli é Rejeitada (2.11-36) tamanho quanto da qualidade (Dt 18.3;
Lv 7.31-34).
1) Os Filhos de Eli Pecam no Exercício do Hofni e Finéias resolveram, entretanto,
Cargo (2.11-17) apelar para a violência física. Não se
nEntão Elcana se retirou a Ramá, à sua casa. mostravam inclinados a confiar ao Senhor
O menino, porém, ficou servindo ao Senhor perante o sustento de suas necessidades.
o sacerdote Eli. 12Ora, os filhos de Eli eram homens
impios, não conhedam ao Senhon 13Porquanto o Homens ímpios. A RC (Revista e Corri­
costume desses sacerdotes para com o povo era gida) traduz aqui “filhos de Belial”, em que
que, oferecendo alguém um sacrifidoi, e estando-se o hebraico b<4iyy’al foi simplesmente trans-

28
literado e então tratado como nome próprio. fama esta que ouça Fazeis transgredir o povo do
É verdade que, na literatura pós-bíblica, Senhor. “ Se um homem pecar contra outra, Deus
o julgará; mas se um homem pecar contra o Senhor,
Belial foi empregado como sinônimo de quem intercederá por ele? Todavia eles não ouviram
Satanás; mas nos livros históricos é melhor a voz de seu pai, porque o Senhor os queria destruir.
interpretar a palavra como um adjetivo com 26E o menino Samuel ia crescendo em estatura e
o sentido de imprestável ou desprezível. em graça diante, do Senhor, como também diante
dos homens.
2) A Família de Samuel Prospera (2.18-21) Novamente levantam-se sérias acusações
18Samuel, porém, ministrava perante o Senhor, contra os filhos de Eli, desta vez por terem
sendo ainda menino, vestido de um éfode de linho, mantido relações imorais com as mulheres
19E sua mãe lhe fazia de ano em ano uma túnica
pequena, e lha trazia quando com seu marido subia que serviam à porta da tenda da congre­
para oferecer o sacrifício anual. “ Então Eli aben­ gação. Embora, possivelmente, tais atos
çoava a Elcana e a sua mulher, e dizia: O Senhor fossem aceitáveis para os cananeus, que
te dê desta mulher descendência, pelo empréstimo estavam acostumados com a presença de
que fez ao Senhor. E voltavam para o seu lugar.
21Visitou, pois, o Senhor a Ana, que concebeu, e “prostitutas sagradas”13 no culto de seus
teve três filhos e duas filhas. Entrementes, o menino templos, a promiscuidade representava uma
Samuel crescia diante do Senhor. grave violação da conduta moral judaica.
Principalmente nos períodos em que a luta
A inserção destes breves versículos, contra o baalismo era mais aguda, as trans­
descrevendo as bênçãos de Deus sobre a gressões sexuais se igualavam com a ido­
família de Samuel, demonstra a mestria do latria como forma gravíssima de violação
autor na arte de narrar. A passagem pouco da vontade de Deus. O próprio Eli adverte
acrescenta ao desenvolvimento da narra­ que, por terem pecado contra Deus, não
tiva, mas o relato do singelo ministério de haveria quem os defendesse na presença do
Samuel perante o Senhor e da boa sorte Senhor.
de Ana contrasta perfeitamente com as Embora Hofni e Finéias devessem arcar
desgraças que estão prestes a cair sobre a com a responsabilidade de seu pecado, pode-
casa de Eli. -se localizar em Deus a causa remota da
A natureza do éfode que o jovem Samuel rebelião de ambos: porque o Senhor os
envergava não é revelada de maneira sufi­
queria destruir. Esse versículo e numerosas
cientemente clara. Neste contexto é
outras passagens do Antigo Testamento
obviamente visto como uma peça do para­
enfatizam a soberania de Deus sobre a
mento sacerdotal (cf. 2.28), talvez confec­ história e a utilização por ele das ações
cionada pela própria mãe do menino (2.19). humanas para cumprir seus próprios desíg­
Embora pudesse ser uma veste simples, feita
nios. Assim é que o Senhor endureceu o
de linho (cf. 22.18; 2Sm 6.14), poderia
coração de Faraó para que seu próprio
também ser uma peça trabalhada, feita com
poder fosse demonstrado (Ex 4.21). Até
material dispendioso. Por outro lado, um
mesmo a ira do homem resulta em louvor
éfode podia ficar sozinho num local de a Deus (SI 76.10).
adoração (ISm 21.9), ou até vir a ser ele
Todavia, em outros tempos, ou talvez
próprio um objeto de adoração (Jz 8.27;
em outros círculos, o homem era visto como
17.5; 18.14).
um livre agente que, na maioria das
circunstâncias, podia determinar seu
3) A repreensão de Eli fracassa (2.22-26)
22Eli era já muito velho; e ouvia tudo quanto O baalismo cananeu particularm ente encarnava um a forma de
seus filhos faziam a todo o Israel, e como se dei­ adoração em que a prostituição tan to m asculina com o feminina
tavam com as mulheres que ministravam à porta era praticada regularm ente entre os serviçais do templo. O Antigo
Testam ento está repleto de condenações contra tais práticas (cf. Dt
da tenda da revelação. 23E disse-lhes: Por que 23.17; 2Rs 23.4-7; J r 2.23,24; Ez 23.35-45). Veja B. A. Brooks, “Ferti­
fazeis tais coisas? pois ouço de todo este povo os lity C ult Functionaries in the Old Testament”, Journal o f Biblical
vossos malefícios. “ Não, filhos meus, não é boa Literature, LX (1941), p. 227*253.

29
próprio destino. Era ainda uma criatura de no meu coração e na minha mente. Edificar-lhe-ei
Deus, mas uma criatura livre. Mesmo que uma casa duradoura, e ele andará sempre diante
tivesse de colher os frutos de sua rebelião, do meu ungida “ Também todo aquele que ficar
de resto da tua casa virá a inclinar-se diante dele
seria capaz de resistir com sucesso à von­ por uma moeda de prata e por um pedaço de pão,
tade de Deus (Gn 3.1-25), uma vez que o e dirá: Rogo-te que me admitas a algum cargo sacer­
Senhor, por algum tempo, permitiria ações dotal, para que possa comer um bocado de p ãa
contrárias à sua vontade (SI 95.7-8). Infe­ Apenas os aspectos gerais das circuns­
rior somente a Deus, o homem haveria de
tâncias históricas que transparecem nesses
subjugar e dirigir o mundo que o cerca importantes versículos podem ser identifi­
(SI 8.5-9). cados com certo grau de exatidão. Aparen­
Os autores bíblicos enfatizavam, por­ temente, uma grande insurreição no meio
tanto, antes de tudo a onipotência de Deus, da liderança religiosa de Israel ocorreu
e só depois a liberdade do homem. Cada simultaneamente à adoção da monarquia.
conceito é importante para uma adequada Na rejeição divina da casa sacerdotal de
compreensão do outro. Assim, embora que Eli, a natureza moral das relações de Deus
a ênfase seja o controle de Iavé sobre a com o homem tornou-se conhecida. As
história, a liberdade do homem encontra promessas e advertências não são de natu­
reconhecimento no fato de que os filhos reza mecânica para serem aplicadas sem
de Eli deviam aceitar as conseqüências de levar-se em conta a reação do homem. Ao
seus atos.
invés disso, os atos de Deus salientam seu
caráter e a condição do homem. O resul­
4) Sentença Sobre a Casa de Eli (2.27-36) tado é a justiça. Nesse caso em particular,
a família de Eli, por seus próprios atos,
27Veio um homem de Deus a Eli, e lhe disse:
Assim diz o Senhor: Não me revelei, na verdade,
provara ser indigna de continuar desempe­
à casa de teu pai, estando eles ainda no Egito, nhando o ofício sacerdotal.
sujeitos à casa de Faraó? eu o escolhi dentre A relação entre esta passagem e seu
todas as tribos de Israel para ser o meu sacerdote, contexto sugere que havia uma esperança
para subir ao meu altar, para queimar o incenso, de que Samuel fosse o sacerdote fiel que
e para trazer o éfode perante mim; e dei à casa de
teu pai todas as ofertas queimadas dos filhos de se tornaria o progenitor de uma linhagem
Israel. 29Pòr que desprezais o meu sacrifício e a duradoura de sacerdotes. Entretanto, serviu
minha oferta, que ordenei se fizessem na minha ele como juiz e foi seguido por seus filhos,
morada, e por que honras a teus filhos mais do cuja corrupção os impediu de prover qual­
que a mim, de modo a vos engordardes do prin­ quer liderança duradoura em Israel
cipal de todas as ofertas do meu povo Israel?
30Portanto, diz o Senhor Deus de Israel: Na (7.15-17).
verdade eu tinha dito que a tua casa e a casá de Pbde-se presumir que haja uma perspec­
teu pai andariam diante de mim perpetuamente. tiva histórica mais abrangente, em que se
Mas agora o Senhor diz: Longe de mim tal coisa, veja a sentença contra a casa de Eli atin­
porque honrarei aos que me honram, mas os que
me desprezam serão desprezados. 31Eis que vem gindo o clímax na expulsão de Abiatar do
dias em que cortarei o teu braço e o braço da casa sacerdócio de Jerusalém, a qual foi orde­
de teu pai, para que não haja mais ancião algum nada por Salomão (lRs 2.27). Somente
em tua casa. 32E tu, na angústia, olharás com Abiatar sobrevivera à chacina dos sacer­
inveja toda a prosperidade que hei de trazer sobre
Israel; e não haverá por todos os dias ancião algum
dotes de Nobe (22.11-23; cf. 2.33) — para
em tua casa. 330 homem da tua linhagem a quem apoiar o candidato errado à sucessão do
eu não desarraigar do meu altar será para consumir- trono de Davi. Quando mandado para o
•te os olhos e para entristecér-te a alma; e todos exílio em Anatote, seu lugar foi ocupado
os descendentes da tua casa morrerão pela espada por Zadoque, cujos descendentes atuaram
dos homens. ^E te será por sinal o que sobrevirá
a teus dois filhos, a Hofni e a Finéias; ambos como conselheiros reais em Jerusalém.
morrerão no mesmo dia. 3SE eu suscitarei para Durante o exílio, pôde Ezequiel prever
mim um sacerdote fiel, que fará segundo o que está que somente aos zadoquitas seria permitido

30
o exercício de um ministério sacerdotal no levantando-se, foi a Eli e disse: Eis-me aqui, porque
templo restaurado de Jerusalém. Os levitas tu me chamaste. Então entendeu Eli que o Senhor
chamava o menina ’Pelo que Eli disse a Samuel:
comuns seriam relegados a cargos inferiores Vai deitar-te, e há de ser que, se te chamar, dirás:
(Ez 44.9-16). Aparentemente, portanto, via- Fala, Senhor, porque o teu servo ouve. Foi, pois,
se em Zadoque o sacerdote fiel destinado Samuel e deitou-se no seu lugar.
a tornar-se o progenitor de um sacerdócio Contrastando vivamente com a debili­
perpétuo para o Senhor (v. 35).
dade física de Eli e a depravação de seus
À idéia aqui expressa de que Deus enviou filhos, o retrato que temos de Samuel mostra
castigo sobre todo o sacerdócio levítico, por
um jovem moralmente robusto, que traba­
causa dos pecados de dois de seus membros,
lhava como uma espécie de ajudante e que
suscita sérias questões na mente de
estava destinado a desempenhar um papel
inúmeros leitores modernos. Os antigos
fundamental como servo de Deus, num
hebreus, no entanto, haviam aprendido
momento crítico da história de Israel. A
acerca da influência recíproca que existe idade de Samuel, nessa época, é desconhe­
entre o indivíduo e a sociedade de que faz cida. Chamam-no na’ar, palavra hebraica
parte. A comunidade, inevitavelmente, para
que indica desde um recém-nascido (4.21)
vantagem ou prejuízo dela, não só se deixa
até um jovem adulto (2Cr 13.7). O termo
afetar pelos atos de seus membros, como
pode simplesmente designar uma pessoa
também, de certa maneira, compartilha da
que ainda não atingiu a maturidade física
responsabilidade de seus atos. Em todo caso,
ou mental, ou um empregado ou um servo
cada indivíduo é, em última instância, o pessoal (ISm 9.3).
responsável por seu próprio destino (Dt
A vida nacional, sob o governo dos
24.16; Jr 31.29-34; Ez 18.1-32). A soberania
juizes, atingira uma situação tão adversa
de Deus não é arbitrária nem mecânica.
que muita gente deve ter-se perguntado por
Embora influenciado por seu ambiente, o
homem tem condições de romper as cadeias que a mão do Senhor já não se mostrava
tão vigorosa na defesa de Israel como havia
das circunstâncias e, em oposição a isto, sido na conquista. Pelo menos uma parte
suscitar uma nova influência sobre a socie­ do problema pode ser creditada ao fato de
dade.
que havia pouquissimos homens preparados
para receber a orientação de Deus.
3. Samuel Inicia seu Ministério (3.1—4.1a) Embora não houvesse ainda atingido o
1) Samuel Serve no Templo (3.1-9) ápice de seu potencial, Samuel era um porta-
'Entretanto, o menino Samuel servia ao Senhor
voz de Deus mais capaz do que um sacer­
perante Eli. E a palavra do Senhor era muito ra­ dócio plenamente credenciado, porém deca­
ra naqueles dias; as visões não eram freqüentes. dente.
zSucedeu naquele tempo que, estando Eli deitado O lugar de repouso de Samuel, no
no seu lugar (ora, os seus olhos começavam já a
escurecer, de modo que não podia ver), 3e ainda
templo, ao lado da arca, sugere algç mais
não se havendo apagado a lâmpada de Deus, e que um simples quarto de dormir. É mais
estando Samuel também deitado no templo do provável que o rapaz estivesse servindo
Senhor, onde estava a arca de Deus, 4o Senhor numa função sacerdotal, talvez cuidando
chamou: Samuel! Samuel! Ele respondeu: Eis-me das lâmpadas, que ardiam a noite inteira,
aqui. SE correndo a Eli, disse-lhe: Eis-me aqui,
porque tu me chamaste. Mas ele disse: Eu não te diante do lugar sagrado (Ex 27.20,21; Lv
chamei; torna a deitar-te. E ele foi e se deitou. 24.1-4). A origem do chamado de Samuel,
6Tornou o Senhor a chamar: Samuel! E Samuel antes da alvorada, passou despercebida ou
se levantou, foi a Eli e disse: Eis-me aqui, porque porque o garoto era inexperiente ou porque
tu me chamaste. Mas ele disse: eu não te chamei, as visitações divinas eram raras.
filho meu; torna a deitar-te. 7Ora, Samuel ainda
não conhecia ao Senhor, e a palavra do Senhor ainda Quando Eli finalmente reconheceu a
não lhe tinha sido revelada. sO Senhor, pois, presença de Deus, deu instruções a Samuel
tornos a chamar a Samuel pela terceira vez. E ele, sobre como responder corretamente ao

31
chamado de Deus. Ele devia mostrar-se 2.27-36). Dessa vez até o velho sacerdote
disposto a ouvir. Embora Samuel não esti­ aparece envolvido nos pecados de seus
vesse procurando ativamente uma mani­ filhos. Ele havia tomado conhecimento de
festação divina, o contexto mais amplo suas transgressões, mas nada fizera para
mostra uma pessoa preocupada com a lide­ detê-las.
rança do Senhor. Deus pode falar através A gravidade dos pecados deles excedia
do “sussurro suave” a um homem já em sua própria transgressão. Haviam deixado
busca de orientação, mas é improvável que de prover a liderança de que Israel tão deses­
o Senhor revista de poder uma pessoa insen­ peradamente carecia. Presume-se que seu
sível à sua orientação. castigo consistiu na primeira sentença
As visões não eram freqüentes. O texto contra ele pronunciada: a rejeição perpétua
é aqui um pouco difícil, e o sentido, conjec­ de seus nomes como sacerdotes.
tural. Talvez devêssemos compreender que
a palavra do Senhor era de muita valia 3) Samuel Divulga a Mensagem de Deus
naqueles dias, conforme lemos na RC, visto (3.15-18)
que o movimento profético não havia eclo­ 15Samuel ficou deitado até pela manhã, e então
dido sobre o povo. Samuel é reconhecido abriu as portas da casa do Senhor; Samuel, porém,
nesse contexto como um profeta (3.20) e, temia relatar essa visão a Eli. 16Mas chamou Eli
posteriormente, associado a um grupo, em a Samuel, e disse: Samuel, meu filho! Ao que este
respondeu: Eis-me aqui. 17Eli perguntou-lhe: Que te
Ramá, dedicado a experiências extáticas falou o Senhor? peço-te que não mo encubras; assim
(19.18-24). Esse crescente movimento pode Deus te faça, e outro tanto, se me encobrires alguma
perfeitamente ter ajudado a preservar os coisa de tudo o que te falou. 18Samuel, pois,
elementos essenciais da fé mosaica relatou-lhe tudo, e nada lhe encobriu. Então disse
enquanto Israel entrava numa nova fase de Eli: Ele é o Senhor, foça o que bem parecer aos
seus olhos.
sua vida nacional.14

A relutância de Samuel em contar a Eli


2) O Senhor Julga a Casa de Eli (3.10-14) a rejeição da casa dele pelo Senhor revela-
10Depois veio o Senhor, parou e chamou como -se em sua tentativa de reencetar uma rotina
das outras vezes: Samuel! Samuel! Ao que normal após o encontro com Deus. O senti­
respondeu Samuel: Fala, porque o teu servo ouve mento que experimentou perante seu
"Então disse o Senhor a Samuel: eis que vou fazer mestre foi mais de respeito do que de medo
uma coisa em Israel; a qual fará tinir ambos os ou ansiedade. Samuel tinha pouco a temer
ouvidos a todo o que a ouvir. 12Naquele mesmo dia do idoso Eli, mas é evidente seu temor
cumprirei contra EU, de principio a fim, tudo quanto diante de uma tarefa difícil. O verdadeiro
tenho falado a respeito da sua casa. 13Porque já profeta de Deus não sente prazer em comu­
lhe fiz saber que hei de julgar a sua casa para nicar uma mensagem de condenação e
sempre, por causa da iniqüidade de que ele bem punição.
sabia, pois os seus filhos blasfemavam a Deus, e Assim Deus te faça, e outro tanta Essa
ele não os repreendeu. 14Portanto, jurei à casa de é uma fórmula bem conhecida de jura­
Eli que nunca jamais será expiada a sua iniqüidade, mento no Antigo Testamento (cf. Rt 1.17;
nem com sacrifícios, nem com ofertas. ISm 14.44; lRs 2.23). Originalmente, era
provavelmente precedida por um ato simbó­
Durante o aparecimento noturno do lico, como o sacrifício de um animal (Jr
Senhor a Samuel, o juízo sobre a casa de 34.18), ou por uma temível maldição (cf.
Eli é anunciado pela segunda vez (cf. Jz 17.2). O que proferia as palavras apelava
para que sorte semelhante recaísse sobre
aquele contra quem a maldição era dirigida.
14 Veja W. F. Albright, Sam uel and the Beginnings o f the Prophetic
M ovem ent (Cincinatti: Hebrew U nion College Press, 1961).
Aqui a fórmula encontra-se abreviada, mas

32
os sentimentos de Eli estavam vividamente 4. A História da Arca (4.1b—7.2)
claros a Samuel. 1) A Arca é Capturada (4.1b-22)
A calma aceitação por Eli da sorte a. A Arca Levada Para Afeque (4.1b-4)
pronunciada contra seu lar é característica
Ora, saiu Israel à batalha contra os filisteus,
do fatalismo demonstrado por muitos povos e acampou-se perto de Ebenézer; e os filisteus se
do Oriente Próximo. Todos os aspectos da acamparam junto a Afeque. 2E os filisteus se dispu­
existência, mesmo o sofrimento e o mal, seram em ordem de batalha contra Israel; e, travada
são vistos como resultado do controle de a peleja, Israel foi ferido diante dos filisteus, que
mataram no campo cerca de quatro mil homens
Deus sobre o mundo (cf. Jó 9.13-24). Por do exército. ’Quando o povo voltou ao arraial,
sua reação, Eli estava simplesmente reco­ disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu
nhecendo que era uma criatura diante da o Senhor hoje diante dos filisteus? Tragamos para
irrestrita autonomia de Deus. nós de Siló a arca do pacto do Senhor, para que
ela venha para o meio de nós, e nos livre da mão
de nossos inimigos. 4Enviou, pois, o povo a Siló,
4) Samuel Torna-se Profeta (3.19—4.1a) e trouxeram de lá a arca do pacto do Senhor dos
exércitos, que se assenta sobre os querubins; e os
19SamueI crescia, e o Senhor era com ele e não dois filhos de Eli, Hofni e Finéias, estavam ali com
deixou nenhuma de todas as suas palavras cair em a arca do pacto de Deus.
terra. Z0E todo o Israel, desde Dã até Berseba,
conheceu que Samuel estava confirmado como Este capítulo introduz uma seção rela­
profeta do Senhor. 21E voltou o Senhor a aparecer tando histórias sobre a arca do Senhor, nas
em Sil6; porquanto o Senhor se manifestava a quais Samuel é raramente mencionado (ISm
Samuel em Siló pela sua palavra. 'E chegava a 4—6; 2Sm 6). Presumivelmente, estes capí­
palavra de Samuel a todo o Israel.
tulos outroia haviam circulado indepen­
À medida que ia amadurecendo, a repu­ dentemente, e aqui são introduzidos como
tação de Samuel como porta-voz de Deus importante material de fundo histórico. A
ia se espalhando pela terra. Os únicos crité­ significação da arca nesse período é confir­
rios pelos quais um profeta podia ser mada pelo fato de que quase um terço de
avaliado eram o cumprimento de suas todas as referências a ela no Antigo Testa­
mensagens por parte de Deus. Muitos mento encontram-se nos livros de Samuel.
homens poderiam dizer: “Assim diz o Em tempos antigos, a arca estava asso­
Senhor” mas somente aqueles cujas pala­ ciada com a jornada de Israel pelo deserto
vras eram respaldadas pelos acontecimentos (Nm 10.33) e com as guerras de conquista
preditos seriam considerados verdadeiros (Js 6). O termo “Senhor dos exércitos” reflete
profetas. O crisol da história fornece um lembranças de intervenções de Deus no
teste tanto para o Deus que fala (Is 41.26) passado em favor de Israel.
quanto para o homem que fala por ele Quando as forças israelitas foram postas
(Jr 14.13-16). a fugir pelos filisteus na batalha crucial em
Uma vez que o povo reconhecia que Afeque, a derrota foi atribuída não ao julga­
Deus estava falando mediante a palavra de mento de Deus sobre os pecados do povo,
Samuel, Siló novamente tornou-se um mas à sua ausência física do campo de
importante santuário em Israel. A presença batalha (cf. também Nm 14.43,44).
de Deus no culto não seria garantida por Parece que quase nenhuma distinção se
uma cerimónia impressionante e pomposa, fez entre a arca e o próprio Senhor. Quando
por uma história prestigiosa, ou mesmo pela a arca saía do acampamento no deserto,
posse de objetos sagrados, tal como a arca. Moisés dizia: “Levanta-te, Senhor, e dissi­
O verdadeiro culto dependia da disposição pados sejam os teus inimigos, e fujam diante
do homem em abrir sua vida ao controle de ti os que te odeiam” (Nm 10.35). Seme­
divino. A responsividade de Samuel à lhantemente, quando retornava, ele dizia:
direção de Deus inaugurava uma nova era “Volta, ó Senhor, para os muitos milhares
profética para Israel. de Israel” (v. 36). No tempo de Samuel, a

33
arca era provavelmente considerada o trono Os filisteus ficaram abatidos com as notí­
do Senhor, mas estava ainda associada com cias procedentes do arraial inimigo.
sua santidade e poder. Reconheceram o incentivo que a arca daria
Os filisteus, nos livros de Samuel mencio­ às desencorajadas tropas de Israel, pois
nados pela primeira vez aqui, estabele- tinham ouvido falar das proezas do Senhor
ceram-se na costa sudoeste de Canaã após contra os egípcios. Não obstante, resolveram
um ataque sem êxito contra o Egito por revelar toda sua valentia a fim de não se
volta de 1175 a.G. A herança militar e o tornarem eles próprios escravos.
melhor armamento desses povos deram-lhes Numa segunda batalha, Israel foi nova­
uma significativa vantagem sobre seus mal mente derrotado, mas dessa vez a um custo
organizados vizinhos. As batalhas de muito mais terrível. O exército foi deban­
Sansão (Jz 13—15) e a migração danita dado, e, pior ainda, a própria arca caiu em
(Jz 18) atestam quanto à seriedade e mãos inimigas.
duração da ameaça filistéia à segurança de
Israel. c. Notícias do Desastre Matam Eli (4.12-18)
12Então um homem de Benjamim, correndo do
b. A Arca Perdida em Batalha (4.5-11) campo de batalha chegou no mesmo dia a Siló, com
5Quando a arca do pacto do Senhor chegou ao as vestes rasgadas e terra sobre a cabeça. 13Ao
arraial, prorrompeu todo o Israel em grandes gritos, chegar ele, estava Eli sentado numa cadeira ao pé
de modo que a terra vibrou. 6E os filisteus, do caminho vigiando, porquanto o seu coração
ouvindo o som da gritaria, disseram: Que quer dizer estava tremendo pela arca de Deus. E quando aquele
esta grande vozearia no arraial dos hebreus? homem chegou e anunciou isto na cidade, a cidade
Quando souberam que a arca do Senhor havia toda prorrompeu em lamentações. 14E Eli, ouvindo
chegado ao arraial, 7os filisteus se atemorizaram; a voz do lamento, perguntou: Que quer dizer este
e diziam: Os deuses vieram ao arraial. Diziam mais: alvoroço? Então o homem, apressando-se, chegou
Ai de nós! porque nunca antes sucedeu tal coisa. e o anunciou a Eli. 15Ora, Eli tinha noventa e oito
8Ai de nós! quem nos livrará da mão destes deuses anos; e os seus olhos haviam cegado, de modo que
possantes? Estes são os deuses que feriram aos egip- jâ não podia ver. 16E disse aquele homem a Eli:
cios com toda sorte de pragas no deserto. Estou vindo do campo de batalha, donde fugi hoje
9Esforçai-vos, e portai-vos varonilmente, ó filisteus, mesma Perguntou Eli: Que foi que sucedeu, meu
para que porventura não venhais a ser escravos dos filho? 17Então respondeu o que trazia as novas, e
hebreus, como eles o foram vossos, portai-vos varo­ disse: Israel fugiu de diante dos filisteus, e houve
nilmente e pelejai. ,0Então pelejaram os filisteus, grande matança entre o povo; além disto, também
e Israel foi derrotado, fugindo cada um para a sua teus dois filhos, Hofni e Finéias, são mortos, e a
tenda; e houve mui grande matança, pois caí­ arca de Deus é tomada. 18Quando ele fez menção
ram de Israel trinta mil homens de infataria. da arca de Deus, Eli caiu da cadeira para trás, junto
"Também foi tomada a arca de Deus, e os dois à porta, e quebrou-se-lhe o pescoço, e morreu, por­
filhos de Eli, Hofni e Finéias, foram mortos. quanto era homem velho e pesada Ele tinha julga­
do a Israel quarenta anos.
Quando Hofni e Finéias trouxeram a
arca para o arraial, o povo deu um brado Embora o texto do versículo 13 seja algo
forte, que causou medo aos filisteus. Esse confuso, a situação geral é clara. Eli, idoso
grito de guerra tem sido associado com a e cego, estava sentado ao lado de uma das
fórmula que era recitada quando a arca vias da cidade, ansiosamente aguardando
entrava no arraial ou dele saía (Nm notícias da frente de batalha.
10.35,36). Porém, uma tão breve fórmula Um mensageiro benjamita, trazendo
de palavras dificilmente explicaria o deses­ evidentes sinais de lamentação, percorreu
pero que dominou o inimigo, pois não era pressurosamente mais de cinqüenta quilô­
uma fórmula muito longa nem causava sufi­ metros para trazer notícias da tragédia até
ciente empolgação. É mais provável que Siló. Um grito de desespero ia marcando
uma incontida explosão de regozijo frené­ a passagem do mensageiro, até que ele
tico tenha acompanhado a chegada do chegou ao idoso sacerdote.
objeto sagrado, despertando a esperança de Todo o universo de Eli estava ligado ao
uma vitória fácil. resultado da batalha. Seus dois filhos

34
estavam no meio da luta, filhos por quem permitir uma reconstrução precisa de como
ele mantinha um amor paternal a despeito era o governo israelita naquela época (veja
de suas persistentes más ações. As espe­ John Bright, p. 152-160).
ranças do país quanto ao futuro giravam A maioria do povo comum provavel­
em torno da sorte de milhares de jovens mente considerou a derrota de Israel em
que lá arriscavam suas vidas. A primeira Afeque e especialmente a captura da arca
preocupação de Eli, no entanto, era pela como uma derrota do Deus de Israel.
segurança da arca de Deus. Quando soube Muitos antigos criam que cada nação tinha
da sua captura pelos filisteus, sucumbiu o seu próprio deus, o qual dirigia os destinos
morto, tendo o pescoço quebrado. de seu povo (cf. Jz 11.24; lRs 11.33). Assim,
Para alguns líderes de Israel, a arca era alguns temiam que o Senhor não tivesse
sobretudo um objeto sagrado com poderes poder para defender seu povo ou mesmo
mágicos ou psicológicos a seres explorados. seu próprio trono pessoal entre os homens.
Para Eli, representava um modo de vida. Contudo, o autor desses versículos vê
Sua vida inteira tinha sido dedicada ao a derrota em Afeque como o resultado do
serviço do Senhor, cuja habitação terrena julgamento de Deus sobre a corrupção na
entre os homens era simbolizada pela linhagem sacerdotal de Eli. Acontecimentos
presença da arca. Sua perda para um povo subseqüentes (cap. 5-6) mostrarão que o
pagão era mais do que o homem idoso pôde Senhor não se tornara impotente, mas que
suportar. sua intervenção em favor de seu povo reque­
A teologia popular daquele tempo rerá a submissão deles à sua liderança.
também reconhecia a perda da arca como
assunto sério. A arca bem poderia ter sido
d. O Nascimento de Icabô (4.19-22)
o ponto de convergência de toda a estru­
tura política de Israel naquele tempo. WE estando sua nora, a mulher de Finéias,
grávida e próxima ao parto, e ouvindo estas novas,
Martin Noth foi o primeiro a reconhecer de que a arca de Deus era tomada, e de que seu
um paralelo entre o governo de Israel sob sogro e seu marido eram mortos, encurvou-se e
os juizes e as ligas anfictiônicas das civili­ deu à luz, porquanto as dores lhe sobrevieram. ME,
zações egéias de épocas bem posteriores. na hora em que ia morrendo, disseram as mulheres
As anfictionias eram sistemas mantidos que estavam com ela: Não temas, pois tiveste um
filha Ela, porém, não respondeu, nem deu atenção
unidos por um culto comum num santuário a ista 21E chamou ao menino Icabô, dizendo: De
central (no caso de Israel, a arca). Cada clã Israel foi-se a glória! Porque fora tomada a arca
ou tribo cuidava dos ritos do santuário de Deus, e por causa de seu sogro e de seu marida
durante um mês por ano, ou durante dois 22E disse: De Israel se foi a glória, pois é tomada
a arca de Deus.
meses numa liga de seis membros. À parte
desses deveres cultuais e da necessidade de A reação da nora de Eli ante as notícias
suprir tropas para defesa mútua, cada tribo sombrias vindas de Afeque deve ter sido
era completamente autônoma. Os juizes característica da reação de todo o Israel.
surgiam sobretudo durante dificuldades Ela lamentava o infortúnio que se abatera
políticas e tinham maior ou menor êxito sobre a linhagem sacerdotal de seu marido,
na tarefa de unificarem brevemente a Israel. mas sua preocupação era quanto ao desastre
Esse sistema logicamente atribuiria grande maior que recaíra sobre a nação: De Israel
importância à arca e ao sumo sacerdote que se foi a glória, pois é tomada a arca de Deus.
a servia. Num só dia Israel perdeu ambos. Mesmo a chegada de um herdeiro do sexo
Essa interpretação da estrutura tribal masculino, apressada pelo choque da
pré-monárquica tem muito a recomendá- derrota, foi insuficiente para aliviá-la da
la, mas não se pode forçar demais a angústia asfixiante. Ela, por isso, chamou
interpretação. Materiais disponíveis acerca ao filho de Finéias Icabô (“Onde está a
do período dos juizes são muito vagos para glória?” ou “Inglório”). Sua morte durante

35
o parto não é atribuída especificamente ao por um terremoto, ou por comandos guer­
juízo de Deus sobre seu povo, mas contribui rilheiros.
para aumentar a aura de desespero que Os filisteus a princípio atribuíram a pros­
acompanhou o desastre em Afeque. tração de Dagom diante da arca a mero
acaso. Somente o acúmulo de tais “coinci­
dências” convenceu-os de que o Deus de
2) A Arca Causa Transtorno aos Filisteus Israel poderia ser o responsável por seus
(5.1-12) infortúnios.
A natureza exata do costume pagão
a. Dagom Danificado em Asdode (5.1-5) envolvido no não pisar o limiar é incerta.
‘Os filisteus, pois, tomaram a arca de Deus, e A santidade do limiar entre os vizinhos de
a levaram de Ebenézer a Asdode. 2Então os filis­ Israel pode ter-se originado na inclusão dos
teus tomaram a arca de Deus e a introduziram na
casa de Dagom, e a puseram junto a Dagom. corpos das vítimas sacrificiais em fundações
3Levantando-se, porém, de madrugada no dia de edifícios importantes (lRs 16.34). Se tal
seguinte os de Asdode, eis que Dagom estava caído for o caso, a cabeça e mãos separadas de
com o rosto em terra diante da arca do Senhor; Dagom contêm uma ironia especialmente
e tomaram a Dagom, e tornaram a pô-lo no seu
lugar. 4E, levantando-se eles de madrugada no dia macabra. Não obstante, em clara contra­
seguinte, eis que Dagom estava caído com o rosto dição à teologia filistéia, os israelitas suprem
em terra diante da arca do Senhor; e a cabeça de (cf. v. 5) sua própria resposta zombeteira
Dagom e ambas as suas mãos estavam cortadas sobre o porquê de os sacerdotes de Dagom
sobre o limiar; somente o tronco ficou a Dagom. evitarem contato com o limiar de seu
sPelo que nem os sacerdotes de Dagom, nem
nenhum de todos os que entram na casa de Dagom templo.
pisam o limiar de Dagom em Asdode, até o dia A prática de saltar sobre o limiar era
de hoje. claramente proibida entre os israelitas (Sf
Tendo-se declarado livre de qualquer 1.9). Não obstante, Ezequiel pode estar
dependência física de Israel (cf. comentário deixando implícito que israelitas de época
sobre 4.12-18), Deus rapidamente demons­ posterior, por motivos decididamente dife­
trou que a derrota em Afeque não se deveu rentes, reverenciavam o limiar do templo
a uma falta de poder de sua parte. Em duas de Jerusalém. Uma oferta especial devia
cenas dramáticas, o Senhor demonstrou sua ali ser feita (46.2), e o rio sagrado fluindo
superioridade, primeiro sobre o deus filisteu do templo iria ter origem naquele ponto
e depois sobre o próprio povo belicoso. (47.1).15
A preocupação do leitor moderno com
as técnicas empregadas por Deus no exer­ b. Enfermidades Devastam a Filístia (5.6-12)
cício de seu domínio obscurece seriamente 6Entretanto a mão do Senhor se agravou sobre
o propósito principal da narrativa bíblica. os de Asdode, e os assolou, e os feriu com tumores,
a Asdode e aos seus termos. 70 que tendo visto
Os antigos israelitas careciam de nossa os homens de Asdode, disseram: Não fique conosco
compreensão da relação causa-efeito e atri­ a arca do Deus de Israel, pois a sua mão é dura
buíam todos os fenômenos naturais direta­ sobre nós, e sobre Dagom, nosso Deus. 8Pelo que
mente a Deus. Ele era autor tanto do bem enviaram mensageiros e congregaram a si todos
(SI 16.2) quanto do mal (ISm 16.14). Suas os chefes dos filisteus, e disseram: Que faremos
nós da arca do Deus de Israel? Responderam: Seja
obras portentosas poderiam ser ou muito levada para Gate. Assim levaram para lá a arca
espetaculares (Js 10.13) ou bastante comuns do Deus de Israel. 9E desde que a levaram para
(Is 8.18). O autor do presente contexto não lá, a mão do Senhor veio contra aquela cidade,
estava preocupado em como a imagem de causando grande pânico; pois feriu aos homens
daquela cidade, desde o pequeno até o grande, e
Dagom fora derrubada, mas com o signi­
ficado do acontecimento em si. Deus estava
tornando seu poder conhecido a todos — 15 O term o bastante desusual para designar “lim iar” m iphtan, que
aparece em ISm 5.4,5, é encontrado alhures no A ntigo Testamento
fosse o ato cumprido por sua própria mão, somente em Ez 9.3; 10.4,18; 42.6; 47.1; Sf 1.9.

36
nasceram-lhes tumores. 10Então enviaram a arca a disenteria como a praga são facilmente
de Deus a Ecrom. Sucedeu, porém, que, vindo a transmissíveis.
arca de Deus a Ecrom, os de Ecrom exclamaram,
dizendo: Transportaram para nós a arca do Deus Quando a praga atingiu Asdode e vizi­
de Israel, para nos matar a nós e ao nosso povo. nhanças, os homens da cidade começaram
‘'Enviaram, pois, mensageiros, e congregaram a a buscar uma explicação para seu infor­
todos os chefes dos filisteus, e disseram: Enviai daqui túnio. Estranhos acontecimentos cercavam
a arca do Deus de Israel, e volte ela para o, seu a presença da arca no templo de Dagom,
lugár, para que não nos mate a nós e ao nosso povo.
Porque havia pânico mortal em toda a cidade, e de modo que o povo, sem muita certeza,
a mão de Deus muito se agravara sobre ela. 12Pois conclui que o Deus de Israel poderia estar
os homens que não morriam eram feridos com buscando vingança sobre eles. Evidente­
tumores; de modo que o clamor da cidade subia mente, eles ainda tinham esperança de que
até o céu.
a praga e seu valioso troféu de guerra não
Para muitos observadores, a captura da tivessem relação entre si. Doutro modo, difi­
arca do Senhor pelos filisteus (4.12-18) cilmente estariam tão ansiosos por mandar
sugeria impotência da parte do Deus de a arca a outras importantes cidades filistéias.
Israel. O antigo escritor claramente Primeiro em Gate, e depois em Ecrom,
demonstra que a derrota em Afeque repre­ morte e sofrimento acompanharam sua
sentava o julgamento de Deus sobre a passagem.
corrupção nacional, não uma falta de poder
divino. Primeiro Deus provou sua superio­ 3) A Arca Volta a Israel (6.1—7.2)
ridade sobre o deus filisteu (5.1-5), e depois
demonstrou seu controle sobre aquele povo. a. Os Filisteus Pagam Reparações (6.1-9)
A natureza da doença que afligiu os filis­ *A arca do Senhor ficou na terra dos filisteus
teus é incerta. A palavra traduzida por sete meses. zEntão os filisteus chamaram os sacer­
dotes e os adivinhadores para dizer-lhes: que
tumores (’»phalim) é, no singular, provavel­ faremos nós da arca do Senhor? Fazei-nos saber
mente o mesmo que o nome Ofel (’ophel), como havemos de enviá-la para o seu lugar.
que refere-se a uma colina fortificada ou 3Responderam eles: Se enviardes a arca do Deus
acrópole dentro de uma cidade (Ne 3.26; de Israel, não a envieis vazia, porém sem falta envia­
reis a ele uma oferta pela culpa; então sereis curados,
cf. 2Rs 5.24; Is 32.14). Assim, qualquer e se vos fará saber por que a sua mão não se retira
inchaço ou tumor no organismo podia ser de vós. 4Então perguntaram: Qual é a oferta pela
indicado. A menção a ratos no capítulo culpa que lhe havemos de enviar? Eles responderam:
seguinte (6.4 e s.) sugere à mente moderna Segundo o número dos chefes dos filisteus, cinco
a peste bubônica. Essa praga mortal é acom­ tumores de ouro e cinco ratos de ouro, porque a
praga é uma e a mesma sobre todos vós e sobre
panhada por uma inchação das glândulas todos os vossos príncipes. sFazei, pois, imagens
linfáticas sem que estas mudem de cor, espe­ dos vossos tumores, e dos ratos que andam
cialmente na virilha e nas axilas. Contudo, destruindo a terra, e dai glória ao Deus de Israel;
no capítulo 5 não se faz qualquer referência porventura aliviará o peso da sua mão de sobre
vós, e de sobre vosso deus, e de sobre vossa terra.
a ratos. 6Por que, pois, endureceríeis os vossos corações,
Por outro lado, os massoretas, que preser­ como os egípcios e Faraó endureceram os seus
varam o texto hebraico, não pronuncia­ corações? Porventura depois de os haver Deus casti­
vam a palavra ’»phalim. Eles ignoravam o gado, não deixariam ir o povo, e este não se foi?
termo escrito e liam tehorim em seu lugar. 7Agora, pois, fazei um carro novo, tomai duas
vacas que estejam criando, sobre as quais não tenha
Emprega-se esta palavra para designar vindo o jugo, atai-as ao carro e levai os seus bezerros
inchações no intestino reto resultantes de de após elas para casa. 8Tomai a arca do Senhor,
tipos virulentos de disenteria. Daí, “hemor­ e ponde-a sobre o carro; também metei num cofre,
róidas” haveria de ser tradução mais ao seu lado, as jóias de ouro que haveis de oferecer
ao Senhor como ofertas pela culpa; e assim a envia­
adequada. De qualquer forma, sofrimento reis para que se vá. 9Reparai então: se ela subir
e morte podiam facilmente atingir pelo caminho do seu termo a Bete-Semes, foi ele
proporções epidêmicas, uma vez que tanto quem nos fez este grande mal; mas, se não, sabe-

37
remos que não foi a sua mão que nos feriu, e que As ações dos filisteus provavelmente
isto nos sucedeu por acaso. refletiam uma crença no efeito mágico de
O texto do capítulo 6 é confuso e os deta­ “simpatias”. O povo esperava que de algum
lhes da história são difíceis de ser recons­ modo as imagens ajudassem a desviar a
truídos. A princípio, os sacerdotes filisteus peste para longe. O valor de sua oferta
pareciam convencidos de que uma oferta destinava-se a reduzir a responsabilidade
aplacaria o Deus de Israel: então sereis por sua culpa.
curados, e se vos fará saber por que a sua O perdão de Deus, contudo, não pode
mão não se retira de vós. Posteriormente, ser comprado com a moeda do ritual vazio.
contudo, eles se revelaram incertos: dai Sem uma vida transformada, o sacrifício
glória ao Deus de Israel; porventura aliviará atrai o juízo de Deus, não a sua graça (Is
o peso da sua mão de sobre vós, e de sobre 1.11-17).
vosso Deus, e de sobre vossa terra. O Sem concordar com essa distorcida pers­
número de ratos de ouro também varia. O pectiva da religião, o antigo escritor emprega
versículo 4 indica que deveriam ser feitos aquela experiência para demonstrar mais
cinco deles, mas o 18 deixa implícito que uma vez a grandeza de Deus. O Senhor
seriam consideravelmente mais. Antigas humilhou o deus dos filisteus, debilitou seu
traduções gregas e aramaicas também povo e forçou-o a reconhecer publicamente
oferecem textos que diferem significativa­ sua subserviência a ele.
mente do Texto Massorético.
Embora circunstâncias que cercam o b. A Arca de Volta a Israel (6.10-18)
retorno da arca dos filisteus possam parecer 10Assim, pois, fizeram aqueles homens:
incertas, o impacto teológico do relato é tomaram duas vacas que criavam, ataram-nas ao
carro, e encerraram os bezerros em casa;
bastante claro. O Senhor que havia punido "também puseram a arca do Senhor sobre o carro,
Israel por permitir que a nação fosse derro­ bem como o cofre com os ratos de ouro e com as
tada em batalha, agora também havia imagens dos seus tumores. 12Então as vacas foram
humilhado os conquistadores filisteus. Ele caminhando pelo caminho de Bete-Semes, seguindo
a estrada, andando e berrando, sem se desviarem
promoveu o retorno de sua arca de um terri­ nem para a direita nem para a esquerda; e os chefes
tório inimigo e permaneceu pronto para dos filisteus foram seguindo-as até o termo de Bete-
defender sua privacidade contra israelitas -Semes. 13Ora, andavam os de Bete-Semes fazendo
abelhudos (6.19). a sega do trigo no vale; e, levantando os olhos, viram
a arca e, vendo-a, se alegraram. 14Tendo chegado
Após sete longos meses de devastação o carro ao campo de Josué, o bete-semita, parou
desanimadora, os filisteus estavam ansiosos ali, onde havia uma grande pedra. Fenderam a
por devolver a arca para o seu lugar, mas madeira do carro, e ofereceram as vacas do Senhor
em holocausto. 15Nisso os levitas desceram a arca
sentiram que deviam seguir um protocolo do Senhor, como também o cofre que estava junto
apropriado. Os sacerdotes e adivinhos filis­ a ela, em que se achavam as jóias de ouro, e puseram-
teus deram instruções para o preparo de -nos sobre aquela grande pedra; e no mesmo dia
imagens de ouro das pragas que os haviam os homens de Bete-Semes ofereceram holocaustos
e sacrifícios ao Senhor. 16E os cinco chefes dos
afligido. filisteus, tendo visto aquilo, voltaram para Ecrom
Os sacerdotes filisteus se expressaram no mesmo dia. 17Estes, pois, são os tumores de
ouro que os filisteus enviaram ao Senhor como
quase como iavistas praticantes, mas a refe­ oferta pela culpa: por Asdode um, por Gaza outro,
rência deles à experiência de Israel com o por Asquelom outros por Gate outro, por .Ecrom
Egito simplesmente declara: “Por que outra 18Como também os ratos de ouro, segundo
esperar até mais tarde? Vamos ver agora o número de todas as cidades dos filisteus, perten­
mesmo se Deus trouxe isso sobre nós.” Dar centes aos cinco chefes, desde as cidades fortificadas
até as aldeias campestres. Disso é testemunha a
glória ao Deus de Israel era admitir que grande pedra sobre a qual puseram a arca do
ele era o responsável pelos infortúnios que Senhor, pedra que ainda está até o dia de hoje no
haviam sobrevindo à terra. campo de Josué, o bete-semita.

38
Os adivinhos filisteus idealizaram uma 'Vieram, pois, os homens de Quiriate-Jearim,
última maneira para testar o envolvimento tomaram a arca do Senhor e a levaram à casa de
Abinadabe, no outeiro; e consagraram a Eleazar,
do Senhor nas calamidades que haviam filho dele, para que guardasse a arca do Senhor.
sobrevindo ao seu país. Duas vacas, sepa­ 2E desde o dia em que a arca ficou em Quiriate-
radas de seus bezerros, deveriam ser usadas -Jearim passou-se muito tempo, chegando até vinte
para puxar a arca numa carroça construída anos; então toda a casa de Israel suspirou pelo
Senhor.
especialmente para tal propósito. Se as vâcas
retornassem a seus bezerros ao serem soltas, A história da arca após ter retornado a
a peste que havia varrido a terra devia ser Israel representa o clímax do argumento
teológico que vem sendo desenvolvido ao
considerada um acontecimento casual. Se
longo dos capítulos 4—6. Como conse­
as vacas seguissem na direção de Bete-
qüência da corrupção dos filhos de Eli, que
-Semes, a cidade israelita mais próxima,
assistiam à arca, o Senhor permitiu que a
então o povo concluiria que o Senhor os
tinha afligido. Assim, o envolvimento de arca caísse em mãos inimigas em Afeque.
Deus na história humana foi mais uma vez Ele então defendeu sua honra e poder,
operando a libertação da arca das mãos dos
confirmado quando as vacas foram soltas
filisteus. Agora, para ter certeza de que sua
e a arca foi conduzida no rumo de seu terri­
lição inicial não foi esquecida, o Senhor
tório.
repreendeu seu povo por deixar de respeitar
Quando a arca foi devolvida a Israel, seu
primeiro ponto de parada foi Bete-Semes. a transcendência divina.
O carro e as vacas foram usados num sacri­ Os israelitas de Bete-Semes não sentiram
o perigo causado pela presença da arca entre
fício para comemorar o evento, e um grande
eles. Iavé, afinal de contas, era o seu Deus
altar de pedra ali serviu como testemunho
e acaba de exercer poder sobre seus
perpétuo da confirmação da honra do
inimigos. Presumiram que, por serem isra­
Senhor. Nada se diz sobre a arca retornar
a Siló, onde havia estado antes da Batalha elitas, o Senhor deveria estar aos lado deles.
de Afeque. Igualmente, a Bíblia em parte Sua falta de temor em relação à arca logo
os encorajou a satisfazerem a curiosidade
alguma menciona a destruição desse
quanto à relíquia religiosa. Julgaram que,
santuário estratégico, conquanto saiba-se
como povo escolhido de Deus, estavam
que caiu por volta desse tempo. O autor
livres das regras de conduta que dirigem
aparentemente tinha um propósito mais
os homens comuns. Logo aprenderam que,
importante em mente. Ele estava mostrando
não importa qual seja sua origem nacional,
que, embora a arca tivesse sido anterior­ biológica ou religiosa, todos os homens
mente guardada em Siló, poderia legiti­
devem sujeitar-se ao controle divino.
mamente ficar localizada em qualquer
Presumivelmente a praga que havia
outro lugar de Israel. Num sentido real,
portanto, a arca já havia retornado para devastado a Filístia dirigiu-se a Israel e
afligiu igualmente os israelitas. O sacrílego
casa.
tratamento dispensado à arca pelo povo de
Bete-Semes supriu uma pronta explicação
c. Mortandade em Bete-Semes (6.19—7.2) do juízo de Deus, e a arca foi transferida
19Ora, o Senhor feriu os homens de Bete- para Quiriate-Jearim.
-Semes; porquanto olharam para dentro da arca
do Senhor; feriu do povo cinqüenta mil e setenta
Nesse ponto a lição de teologia estava
homens; então o povo se entristeceu, porque o completa, a história chegara a um ponto
Senhor o ferira com tão grande morticínio. estacionário, e a arca passou vinte anos
20Disseram os homens de Bete-Semes: Quem em obscuridade. Permaneceu em Quiriate-
poderia subsistir perante o Senhor, este Deus santo? Jearim sob os cuidados de Abinadabe e seus
e para quem subirá de nós? 21Enviaram, pois,
mensageiros aos habitantes de Quiriate-Jearim, filhos até ser trazida, com honras, para Jeru­
para lhes dizerem: Os filisteus remeteram a arca salém, ao tempo de Davi (2Sm 6; mas cf.
do Senhor; descei, e fazei-a subir para vós. ISm 14.18).

39
5. Samuel Liberta o Povo (7.3-17) em prosperidade nacional. Sob a influência
da carreira notável de Samuel, Israel foi se
1) Vitória Alcançada em Mizpá (7.3-11) desviando cada vez mais dos cultos de ferti­
’Samuel, pois, falou a toda a casa de Israel, lidade cananeus e volveu a uma fé em
dizendo: Se de todo o vosso coração voltais para Deus, obtendo, assim, uma trégua tempo­
o Senhor, lançai do meio de vós os deuses estra­ rária da agressão filistéia.
nhos e as astarotes, preparai o vosso coração para O culto a Baal e Astarote era bastante
com o Senhor, e servi a ele só; e ele vos livrará
da mão dos filisteus. 4Os filhos de Israel, pois, difundido entre os vizinhos cananeus de
lançaram do meio deles os baalins e as astarotes, Israel. Ambos os nomes são empregados
e serviram só ao Senhor. 5Disse mais Samuel: no plural aqui para referir-se às muitas
Congregai a todo o Israel em Mizpá, e orarei por variedades ou manifestações locais das prin­
vós ao Senhor. 6Congregaram-se, pois, em Mizpá,
tiraram água e a derramaram perante o Senhor;
cipais divindades masculinas e femininas
jejuaram aquele dia, e ali disseram: Pecamos contra do panteão cananeu. O culto em seus
o Senhor. E Samuel julgava os filhos de Israel em santuários envolvia a prática ostensiva de
Mizpá. 7Quando os filisteus ouviram que os filhos ritos sexuais, tornando-os particularmente
de Israel estavam congregados em Mizpá, subiram repugnantes a iavistas zelosos. Esses dois
os chefes dos filisteus contra Israel. Ao saberem
disto os filhos de Israel, temeram por causa dos termos, baalins e astarotes, são usados
filisteus. 8Pelo que disseram a Samuel: Não cesses freqüentemente juntos para designar o culto
de clamar ao Senhor nosso Deus por nós, para de todos os deuses pagãos locais entre os
que nos livre da mão dos filisteus. 9Então tomou vizinhos de Israel (Jz 2X3; 10.6; ISm 12.10).
Samuel um cordeiro de mama, e o ofereceu inteiro
em holocausto ao Senhor; e Samuel clamou
As condições subjacentes à assembléia
ao Senhor por Israel, e o Senhor o atendeu. de Mizpá não são de modo algum claras.
,0Enquanto Samuel oferecia o holocausto, os filis­ A campanha inteira é relatada como um
teus chegaram para pelejar contra Israel; mas o único acontecimento, embora um conside­
Senhor trovejou naquele dia com grande estrondo rável período de tempo pareça mais pro­
sobre os filisteus, e os aterrou; de modo que foram
derrotados diante dos filhos de Israel. nOs vável (cf. v. 7).
homens de Israel, saindo de Mizpá, perseguiram Provavelmente devemos entender que
os filisteus e os feriram até abaixo de Bete-Car. Samuel era uma espécie de estrategista
militar, bem como profeta^ sacerdote e juiz.
Após a digressão um tanto quanto longa A ênfase do autor, contudo, não recai sobre
tratando do destino da arca, o autor bíblico esse homem notável, mas sobre Deus. O
reenceta a história da carreira de Samuel. planejamento, a obra e o sacrifício feitos
Em ambas as seções há importantes impli­ pelos homens foram todos esquecidos em
cações históricas, mas nenhum dos relatos face da voz de Deus (trovão), o qual,
está basicamente interessado na estrita sozinho, recebeu crédito pela vitória.
narração de detalhes. Sob a influência de
Eli e seus filhos corruptos, Israel se enfra­ 2) Resumo do Ministério de Samuel
quecera a ponto de ter sua existência (7.12-17)
nacional ameaçada pela expansão do poder l2Então Samuel tomou uma pedra, e a pôs
filisteu. Agora, sob a liderança de Samuel, entre Mizpá e Sem, e lhe chamou Ebenézer; e
as condições tendiam a melhorar um pouco. disse: Até aqui nos ajudou o Senhor. 13Assim os
O relato da reunião em Mizpá propicia filisteus foram subjugados, e não mais vieram aos
termos de Israel, porquanto a mão do Senhor foi
uma perspectiva concisa, quase estilizada, contra os filisteus todos os dias de Samuel. 14E as
do rumo que as questões nacionais toma­ cidades que os filisteus tinham tomado a Israel lhe
ram agora que uma nova era profética fora foram restituídas, desde Ecrom até Gate, cujos
instituída em Israel (3.19,20). O tema cen­ termos também Israel arrebatou da mão dos filis­
teus. E havia paz entre Israel e os amorreus.
tral (v. 3) é um bom exemplo duma aplica­ lsSamuel julgou a Israel todos os dias da sua vida.
ção da doutrina da retribuição divina (cf. l6De ano em ano rodeava por Betei, Gilgal e
Introdução): a pureza religiosa resultará Mizpá, julgando a Israel em todos esses lugares.

40
7

l7Depois voltava a Ramá, onde estava a sua casa, tório de Israel (cap. 13). Contudo, nada
e ali julgava a Israel; e edificou ali um altar ao
Senhor.
existe que torne improvável um período de
relativa paz e prosperidade durante os
Estes versículos marcam o ponto alto primeiros anos de Samuel. Essa paz vem
da carreira de Samuel, pois 0 capítulo em cumprimento da promessa anterior de
seguinte começa com a observação de que Samuel de que, se o povo fosse leal ao
ele está velho e de que seus filhos estão Senhor, este haveria de livrá-lo dos filisteus
pervertendo a justiça.16Seu papel no esta­ (7.3).
belecimento da monarquia e na escolha dos Assim, nesse ponto Israel havia se arre­
dois primeiros reis de Israel foi muito impor­ pendido de seus pecados e se livrado do
tante. Não obstante, na mente do autor, esse culto a deuses estrangeiros. O Senhor havia
papel pertencia a outra etapa da história. respondido fielmente, enviando um juiz
O período dos juizes terminou quando os muito capaz, Samuel, e livrando seu povo
anciãos do povo disseram: “constitui-nos dos opressores estrangeiros. Em visível tran­
(...) um rei” (8.5). qüilidade, o período dos juizes termina com
Este sumário das condições à época da Samuel administrando justiça como um juiz
administração de Samuel como juiz repre­ itinerante que serve de guia espiritual para
senta, portanto, não só a avaliação do autor o povo.
sobre Samuel, mas também seu entendi­
mento acerca do sistema político de Israel II. Ascensão e Reinado de Saul
sob os juizes. Primeiro ele registra o ergui- (8.1—14.52)
mento do memorial de pedra chamado
Após o resumo do ministério de Samuel
Ebenézer num local perto de Mizpá. em 7,12-17, subseqüentemente a atenção
Samuel explica que até aqui nos ajudou o
se concentra na ascensão de Saul ao poder
Senhor. A pedra em, si não desempenha (cf. Introdução, V, 1). Samuel ainda tem
qualquer parte no simbolismo. Samuel
um papel a desempenhar na narrativa, mas
simplesmente tomou um topónimo comum
não é mais o centro da atenção do leitor.
que significava “a pedra de ajuda” e, Antes que a história de Saul possa ser
mediante um jogo de palavras, criou um
narrada, contudo, algum relato deve ser
memoxiaLincorporando sua confissão de fé.
dado sobre a mudança na forma de governo
Neste contexto, Ebenézer. pode referir-
de Israel.
se à vitória anterior em Mizpá, mas sua
Esta seção de Samuel é claramente
inclusão neste ponto específico da história
marcada por atitudes ambivalentes para
sugere uma aplicação muito mais ampla. com o estabelecimento da monarquia. O
O autor está, na verdade, dizendo que o enfoque geral do editor é mais do que claro.
sistema sob a liderança dos juizes funciona O caráter essencialmente funcional da
quando o povo de Deus lhe permanece fiel.
estrutura tribal de Israel, administrada por
Em termos abrangentes o autor descreve,
um juiz político-religioso, foi firmemente
a seguir, uma retirada definitiva dos filis­
defendida (cf. 7.13). Limitações do sistema
teus de território israelita e a devolução
não são totalmente ignoradas, mas atribu­
das cidades capturadas. Essas expressões
ídas à falha do povo em ser fiel ao Senhor,
aparentemente descrevem condições exis­ o qual é, em última análise, o verdadeiro
tentes ao compará-las com outros tempos cabeça do governo de Israel (cf. especial­
mais difíceis, pois, quando a guerra foi-
mente os cap. 8 e 12).
reiniciada sob Saul, os filisteus haviam
POr outro lado, uma opinião contrária,
penetrado até mais profundamente no terri­ com uma disposição muito mais favorável
à monarquia (a porção principal dos cap.
Este sum ário m arca o fim da “ascensão e governo” de Samuel (]Sm
1.1—7.17). A “ascensão e reinado” de Saul é o que se segue 9—11), também é encontrada nesta seção.
(8.1— 14.52). Veja Introdução, V, 1. De acordo com esta posição, o próprio

41
Senhor estava propic ando um rei para ele claramente reconheceu muitas das limi­
livrar Israel da mão dos filisteus (9.15,16). tações da estrutura tribal de Israel sob os
Ele agiria de acordo com o novo sistema juizes. Um problema básico em qualquer
tal como havia feito mediante o velho sistema baseado em personalidades fortes
(12.14,15). gira em torno da dificuldade de propiciar
A seção como agora se apresenta está uma transição tranqüila de uma adminis­
arranjada de tal modo que o elemento anti- tração para outra. Primeiro no tempo de
monárquico é mais pronunciado. Não Abimeleque (Jz 9.6), depois sob Eli, e agora
obstante, não se pode negar o sentimento com Samuel, tentou-se estabelecer um
a favor de um reino israelita. Muito possi­ sistema dinástico. Contudo, caráter e capa­
velmente, ambas as posições foram man­ cidade de liderança não seguem obriga­
tidas independentemente por um longo toriamente linhagens sangüíneas.
período de tempo antes de terem sido final­ Nações emergentes encontram hoje uma
mente combinadas em sua forma atual. O dificuldade semelhante para encontrar
estudo dos processos subjacentes à compo­ líderes honestos e de confiança. Desafortu­
sição de textos bíblicos é um segmento nadamente, nem todas as pessoas que estão
legítimo da área técnica da pesquisa bíblica, se destacando na vida privada são capazes
o qual deveria ser reconhecido e encorajado. de suportar as pressões morais dos cargos
A principal tarefa que o leitor comum públicos. A corrupção nos altos escalões
enfrenta é, contudo, a da interpretação do finalmente solapará até o governo mais
registro bíblico em sua forma atual, de estável, e a perversão da justiça alienará
modo que possa ser visto como um guia uma população que doutro modo seria leal.
significativo para a vida moderna. De maneira que a experiência de Israel com
Longe de ser uma questão para preo­ os filhos de Samuel fornece munição para
cupação, a preservação de idéias contradi­ um sério ataque a todo o sistema tribal
tórias quanto a questões sociais é evidência administrado pelos juizes.
da vitalidade dos registros bíblicos. Sob a Por mais sérias que fossem tais questões,
liderança, seja de um juiz ou de um rei, o clamor por um rei poderia ter sido poster­
havia valores políticos e religiosos a se gado indefinidamente caso não tivesse sido
ganhar ou a se perder. Deus parece ter precipitado por uma crise militar de
estado empregando homens que advo­ proporções sem precedentes. Além das
gavam ambos os sistemas de governo para desgastantes guerras com os filisteus, Israel
guiar seu povo através desse difícil período. agora enfrentava uma eclosão de hostilidade
As tensões resultantes ajudaram a preservar com seus vizinhos da região transjordânica
os valores de ambos os sistemas. (12.12). A própria sobrevivência de Israel
como nação parecia estar em jogo e
1. A Influência de Samuel Diminui Gradual­ nenhuma solução fácil se podia avistar.
mente (8.1-22)
2) Israel Pede um Rei (8.4-9)
1) Os Filhos de Samuel Pervertem a Justiça 4Então todos os anciãos de Israel se congre­
(8.1-3) garam, e vieram ter com Samuel, a Ramá, 5e lhe
disseram: Eis que já estás veDra, e teus filhos não
'Ora, havendo Samuel envelhecido, constitui a andam nos teus caminhos. Constitui-nos, pois, agora
seus filhos por juizes sobre Israel. 20 seu filho um rei para nos julgar, como o têm todas as nações.
primogênito chamava-se Joel, e o segundo Abias; 6Mas pareceu mal aos olhos de Samuel, quando
e julgavam em Berseba. ’Seus filhos, porém, não disseram: Dá-nos um rei para nos julgar. Então
andaram nos caminhos dele, mas desviaram-se após Samuel orou ao Senhor. 7Disse o Senhor a
o lucro e, recebendo peitas, perverteram a justiça. Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te
dizem, pois não é a ti que têm rejeitado, porém a
Conquanto as convicções do autor mim, para que eu não reine sobre ele. 8Conforme
fossem fortemente contrárias à monarquia, todas as obras que fizeram desde o dia em que os

42
tirei do Egito até o dia de hoje, deixando-me a mim vez disso, buscaram impor uma solidarie­
e servindo a outros deuses, assim também fazem
a ti. 9Agora, pois, ouve a sua voz, contudo lhes dade artificial baseada sobre a força e a
protestarás solenemente, e lhes declararás qual será autoridade externa. Sob tais circunstâncias,
o modo de agir do rei que houver de reinar sobre o estabelecimento de uma monarquia
eles. prometia conseqüências funestas.
Em vista das muitas limitações e pro­
blemas dentro do sistema tribal, os anciãos 3) Descrição do Comportamento de um Rei
de cada tribo reuniram-se e pediram que (8.10-18)
Samuel dirigisse o estabelecimento duma 10Referiu, pois, Samuel todas as palavras do
monarquia em Israel. O desejo deles de Senhor ao povo, que lhe havia pedido um rei, ne
serem como (...) todas as nações provavel­ disse: Este será o modo de agir do rei que houver
de reinar sobre vós: tomará os vossos filhos, e os
mente deve ser interpretado como algo mais porá sobre os seus carros, e para serem seus cava­
do que mera conformidade social. Um leiros, e para correrem adiante dos seus carros;
governo teocrático incorporando princípios 12e os porá por chefes de mil e chefes de cinqüenta,
democráticos nem sempre garante adminis­ para lavrarem os seus campos, fazerem as suas
colheitas e fabricarem as suas armas de guerra e
tração eficaz. Estavam dispostos a aceitar os petrechos de seus carros. 13Tomará as vossas
um regime totalitário a fim de passar a ter filhas para perfumistas e padeiras. 14Tomará o
uma autoridade suficientemente centrali­ melhor das vossas terras, das vossas vinhas e dos
zada para atender rápida e eficientemente vossos olivais, e os dará aos seus servos. 15Tomará
às exigências de uma sociedade em trans­ o dizimo das vossas sementes e das vossas vinhas,
para dar aos seus oficiais e aos seus servos.
formação. 1‘Também os vossos servos e as vossas servas, e
Por mais sério que fosse o problema, os os vossos melhores mancebos, e os vossos jumentos
israelitas tinham outras opções em aberto. tomará, e os empregará no seu trabalha 17Tomará
Poderiam ter continuado sob a liderança o dízimo do vosso rebanho; e vós lhe servireis de
escravos. 18Então naquele dia clamareis por causa
de Deus para procurar melhorias na orga­ do vosso rei, que vós mesmos houverdes escolhido;
nização que incorporassem seus ideais mas o Senhor não vos ouvirá.
pessoais e teológicos. Em lugar disso,
volveram-se a uma nova estrutura social Aos olhos de Samuel, o grande perigo
baseada em valores estranhos à fé de Israel. em estabelecer uma monarquia em Israel
Não devemos concluir, porém, que o jazia no fato de que o novo sistema político
Senhor estivesse imutavelmente oposto à encorajaria a nação a realmente tornar-se
monarquia e irrevogavelmente preso ao “como todas as nações”. Sua descrição do
antigo sistema. Uma corrente importante modo de agir do rei retrata uma completa
desta narrativa (cap. 9-11) deixa implícito contradição aos valores pessoais encarnados
o apoio divino para a monarquia israelita. na fé iavista. As pessoas perderiam sua liber­
Também, uma vez estabelecida a monar­ dade individual, e a dignidade humana seria
quia, logo tomou-se norma aceita, mediante negligenciada. Moços seriam convocados
a qual Deus tratou com seu povo (cf. Jz para servir como trabalhadores, soldados
17.6; 18.1; 19.1; 21.25). ou artesãos; e moças, para servirem como
O pecado de Israel em solicitar um rei serviçais domésticas. Propriedades seriam
jaz no fato de que seus líderes externavam expropriadas. Israel poderia salvar-se, mas
fraquezas nacionais. Achavam que um novo o Israel do passado se perderia para
sistema de governo resolveria o seu sempre.17
problema, enquanto as maiores limitações
de Israel deviam-se a atitudes espirituais.
O povo poderia ter recuperado uma genuína As condições que Samuel descreve, como é sabido, existiram entre
os vizinhos de Israel no período compreendido dos séculos dezoito
unidade de propósito e ação pelo reexame a treze a.C. Veja I. M endelsohn, “Sam uel’s D enunciation o f King­
das bases de sua existência como nação — ship in the Light o f the Akkadian D ocum ents from U garit”, Bulletin
o f the A m erican Schools o f Oriental Research, 143 (October, 1956),
isto é, seu compromisso com o Senhor. Em p. 17-22.

43
A despeito de todos j s sombrios prenún­ Esta expressão da habilidade do homem
cios de Samuel, o rei em Israel não parece em resistir a Deus dificilmente parecerá har­
ter desfrutado o autoritarismo irrestrito que monizar-se com demonstrações anteriores
os monarcas tinham em outras nações do da autonomia divina nos negócios humanos
Oriente Médio. O iavismo, conquanto perio­ (cap. 4—6). Contudo, no pensamento do
dicamente acossado por cultos estrangeiros, Antigo Testamento, a onipotência de Deus
mantinha uma ênfase constante na digni­ e a liberdade do homem são mantidas como
dade do homem e no valor da personalidade um paradoxo sublime. O homem é capaz
humana. Vozes proféticas, encorajadas por de escolher seus próprios cursos de ação,
esta herança, ousavam criticar o rei e, assim, mas não é capaz de se declarar indepen­
serviam como um controle sobre seu poder dente das conseqüências de suas ações.
(Mq 3.1-4; Is 3.14,15). Assim, Israel pode ter um rei ao insistir em
Um sumário da função real a partir desta sua exigência por um, mas então ficará sem
perspectiva reflete-se em Deuteronômio desculpas. Quando a monarquia finalmente
17.14-20. O rei deveria ser israelita nato, produzir os temíveis frutos preditos pelo
escolhido por orientação divina. Devia porta-voz do Senhor, Israel não deverá
evitar toda forma de ostentação na vida, esperar absolvição da culpa. Nesse entre-
isto é, não deveria acumular para si gado, tempo, todavia, Deus ajudará na escolha
bens ou esposas. Devia seguir as normas de um rei.
divinas “para que seu coração não se exalte
sobre os seus irmãos”. 2. Deus Escolhe o Rei de Israel (9.1—10.27)
Na prática, o caráter dos reis de Israel
variava enormemente. Nem todos se confor­ 1) Saul Habilita-se ao Cargo (9.1,2)
mariam ao terrível retrato de um rei que ‘Ora, havia um homem de Benjamim, cujo
fora pintado por Samuel, mas o potencial nome era Quis, filho de Abiel, filho de Zeror, filho
estaria sempre ali. A nova forma de governo de Becorate, filho de Afias, filho dum benjamita;
incorporava perigos contra os quais Israel era varão forte e valorosa 2Tinha este um filho,
chamado Saul, jovem e tão belo que entre os filhos
constantemente deveria pôr-se em guarda. de Israel não havia outro homem mais belo do que
ele; desde os ombros para cima sobressaia em
4) Israel Continua Resoluto (8.19-22) altura a todo o povo.

190 povo, porém, não quis ouvir a voz de As credenciais de Saul como futuro rei
Samuel; e disseram: Não, mas haverá sobre nós de Israel são apresentadas concisamente,
um rei, 20para que nós também sejamos como sem apologia e sem maior elaboração. As
todas as outras nações, e para que o nosso rei nos qualificações naturais de Saul eram impor­
julgue, e saia adiante de nós, e peleje as nossas bata­
lhas. 21Ouviu, pois, Samuel todas as palavras do tantes porque mesmo sua unção por Sa­
povo, e as repetiu aos ouvidos do Senhor. 22Disse muel não era suficiente para torná-lo rei.
o Senhor a Samuel: Dá ouvidos à sua voz, e Antes que pudesse assumir o trono, preci­
constitui-lhes rei. Então Samuel disse aos homens sava obter apoio público de uma popula­
de Israel: Volte cada um para a sua cidade
ção seriamente dividida.
Mediante a voz de seu profeta Samuel, Um dos principais problemas enfren­
o Senhor expressou relutância em conceder tados por Israel nesse tempo era a divisão
uma mudança na estrutura política de do país de acordo com fronteiras geográfi­
Israel. O profeta demonstrou que a efici­ cas e tribais. Por mais de uma centena de
ência autoritária do rei, tão ansiosamente anos, as tribos do norte e as do sul haviam
buscada pelos anciãos, tenderia de fato a trilhado caminhos independentes. O Cân­
solapar os princípios básicos da fé iavista. tico de Débora, em Juizes 5, por exemplo,
Não obstante, o povo estava livre para retrata Israel como uma entidade coletiva,
decidir, e permaneceram teimando que defrontando um inimigo comum, mas
Israel devia ter um rei. somente dez tribos são mencionadas. Seis

44
são elogiadas por responderem ao chamado formação social e espiritual que o condu­
às armas, e quatro são repreendidas por ziu ao próprio limiar da grandeza.
sua indiferença, enquanto Judá e Simeão Provavelmente fosse também importante
são completamente ignoradas. Aparente­ para o êxito inicial de Saul a impressionan­
mente não eram consideradas parte da liga te aparência física' que possuía. Num
tribal de Israel nesse tempo. Uma vez que ,o tempo em que a proeza física e magnetis­
poema é geralmente considerado bastante mo pessoal eram considerados importantes,
antigo, sendo talvez até mesmo contem­ Saul parecia-se com um rei. Conquanto
porâneo dos eventos que descreve (c. 1150 seu físico avantajado não garantisse o
a.C.), a importância desse testemunho é êxito por si só, deu força a suas ameaças de
evidente. A busca por atender aos limitados violência quando foi necessária uma ação
interesses regionais deixou Israel tão seria­ decisiva numa campanha militar contra
mente dividido que realmente mais se Amom (11.7).
parecia como duas nações do que como
uma.18 2) Saul Procura as Jumentas Extraviadas
A própria origem tribal de Saul equipa­ (9.3-14)
va-o para um papel de mediador nessa dis­
3Tinham-se perdido as jumentas de Quis, pai
puta entre as várias regiões. Benjamim de Saul; pelo que disse Quis a Saul, seu filho:
ocupava uma posição central entre o norte Toma agora contigo um dos moços, levanta-te e
e o sul, de modo que o novo rei não estaria vai procurar as jumentas. 4Passaram, pois, pela
demasiadamente identificado com qualquer região montanhosa de Efiraim, como também pela
dos dois lados. Sendo que a tribo era terra de Salisa, mas não as acharam; depois
passaram pela terra de Saalim, porém tampouco
pequena, outros grupos interessados teriam estavam ali; passando ainda pela terra de Ben­
pouco a temer ou a invejar com a crescente jamim, não as acharam. 5Vindo eles, então, à terra
influência de Benjamim. de Zufe, Saul disse para o moço que ia com ele:
Por outro lado, os antigos israelitas Vem! Voltemos, para que não suceda que meu pai
deixe de inquietar-se pelas jumentas e se aflija por
consideravam uma origem destacada da causa de nós. 6M as ele lhe disse: Eis que há nesta
família como qualificação básica para a li­ cidade um homem de Deus, e ele é muito consi­
derança. Uma linhagem nobre era prova derado; tudo quanto diz, sucede infalivelmente.
de gerações de habilidade comprovada e de Vamos, pois, até lá; porventura nos mostrará o
caminho que devemos seguir. 7Então Saul disse ao
uma longa herança de serviços e realiza­ seu moço: Porém, se lá formos, que levaremos ao
ções. A proeminência da família de Saul homem? Pois o pão de nossos alforjes se acabou,
é atestada por uma genealogia que remon­ e presente nenhum temos para levar ao homem de
ta seus ancestrais a até cinco gerações Deus; que temos? sO moço tornou a responder a
passadas. Seu pai também é chamado de Saul, e disse: Eis que ainda tenho em mão um
quarto dum siclo de prata, o qual darei ao homem
varão forte e valoroso (em hebr. gibbor de Deus, para que nos mostre o caminha ’(Anti­
chayil), expressão que também pode ter o gamente em Israel, indo alguém consultar a Deus,
sentido de “homem de bens”. No mundo dizia assim: Vinde, vamos ao vidente; porque ao
antigo pessoas assim provavelmente cons­ profeta de hoje, outrora se chamava vidente.)
10Então disse Saul ao moço: Dizes bem; vem, pois,
tituíam uma nobreza proprietária de vamos! E foram-se à cidade onde estava o homem
terras.19 De sua família Saul recebeu a de Deus. uQuando eles iam subindo à cidade,
encontraram umas moças que saíam para tirar
As forças centrífugas que estavam solapando a unidade de Israel
água; e perguntaram-lhes: Está aqui o vidente?
a essa época eram bastante complexas, ftara um tratam ento mais 12Ao que elas lhes responderam: Sim, eis aí o tens
profundo veja Bright (p. í 54-160) ou M artin N oth, The H istory diante de ti; apressa-te, porque hoje veio à cidade,
o f Israel, traduzido para o inglês por P R. Ackroyd (New York: H arper porquanto o povo tem hoje sacrifício no alta
and Brothers Publishers, 1960), p. 154-163.
13Entrando vós na cidade, logo o achareis, antes
19 A referência de Saul a seu clã em 9.21 é um exemplo de modéstia que ele suba ao alto para comer; pois o povo não
exagerada, que realça à consciência do leitor o uso que Deus faz
de pessoas simples para realizar sua vontade Este tem a da “pessoa
comerá até que ele venha, porque ele é o que aben­
hum ilde que se to m a im portante” é bem difundido na literatura çoa o sacrifício, e depois os convidados comem.
bíblica (p. ex., Jz 6.15). Subi agora, porque a esta hora o achareis.

45
14Subiram, pois, à cidade; e, ao entrarem, eis que te é alguém que vê ou aprende aquilo que
Samuel os encontrou, quando saía para subir ao outros deixam de perceber.
alta A palavra “profeta” (nabi’) é muito mais
freqüente no Antigo Testamento, ocorrendo
O relato que temos acerca da ascensão
cerca de trezentas vezes. É geralmente
de Saul ao poder está dividido em três epi­
identificada com outras antigas raízes semí­
sódios mais curtos: sua escolha por Samuel ticas que têm o sentido de “chamar” ou
(9.3—10.16), sua apresentação a Israel
“anunciar”, mas o exato sentido etimoló­
(10.17-27) e sua conquista de apoio popular
gico do termo hebraico é incerto. Pode
(11.1-15).
significar “alguém que é chamado” ou
Saul atraiu a atenção de Samuel ao es­
“alguém que anuncia”. Todavia, mesmo que
tar ele e um servo procurando jumentas de as raízes de todas as três palavras pu­
seu pai que estavam extraviadas. O roteiro dessem ser analisadas com exatidão, seus
de sua jornada é obscuro, uma vez que as
significados ainda poderiam ter mudado ao
localidades de Salisa e Saalim são desco­
longo de séculos de emprego variado.
nhecidas, mas provavelmente concluíram
sua busca a não mais de trinta quilômetros Muito mais importante para nossos
de casa. Após um longo e infrutífero esfor­ propósitos são as funções e atividades do
ço, o servo de Saul persuadiu-o a consultar profeta no Antigo Testamento. Samuel é
o homem de Deus na cidade próxima para retratado como um clarividente (9.1-27),
que não tivessem de retornar para casa de um estadista preocupado (8.10-18), um fa­
mãos vazias. Assim, Samuel foi contatado zedor de reis (10.1; 16.1), e o líder de um
graças à sua reputação de clarividente. Saul grupo extático de profetas (19.20). Tais ati­
e seu servo encontraram Samuel enquanto vidades refletem os complexos envolvimen­
este ia supervisionar os sacrifícios no lugar tos dos profetas de Israel.
alto da cidade. O culto nesses santuários O êxito de Samuel em predizer o futuro
locais foi mais tarde condenado devido a está em harmonia com o legítimo papel
sua impureza (ex., 2Rs 23.18), mas ne­ desempenhado pelo elemento preditivo em
nhum estigma se prendia a cultos ali na profecia canônica. Presumia-se que Deus
época. respaldaria as palavras de seus porta-vozes,
Este episódio e passagens subseqüentes e o cumprimento da história era indicação
em Samuel (cap. 10 e 19) são muito impor­ de confirmação divina da mensagem do
tantes no estudo da profecia do Antigo profeta. A condição de Samuel como
Testamento. Conquanto o termo profeta profeta foi, portanto, demonstrada pelo fato
seja empregado já no período patriarcal de que o Senhor “não deixou nenhuma de
(Gn 20.7), pouco se conhece da natureza todas as suas palavras cair em terra” (3.19;
específica do papel de um profeta ou de cf. 9.6; observe também lRs 22.28).
suas atividades antes do tempo de Samuel. Predições exatas eram importantes ainda
Neste contexto, Samuel aparece inicial­ para os últimos profetas “escritores” (cf. Jr
mente como um vidente, mas o leitor é 28.9), mas cada vez mais se procurava, de
informado de que os videntes mais tarde outros modos, verificar a mensagem do
também foram chamados de profetas. profeta. Conquanto nenhum teste com
Infelizmente, um estudo etimológico das técnicas externas pudesse distinguir o
palavras hebraicas envolvidas apresenta profeta falso do verdadeiro, em qualquer
apenas idéias muito vagas quanto à função época o primeiro seria traído pelo caráter
dos primeiros profetas. Existem duas pala­ inferior de sua vida (Jr 29.23) e mensagem
vras traduzidas como “vidente” no Antigo (Jr 23.28). As mensagens morais e éticas
Testamento: ro’eh, que é empregada aqui, dos grandes profetas do oitavo ao sexto
e chozeh. Ambas derivam de raízes com séculos a.C. servem como padrão norma­
o sentido de “ver”, de modo que um viden­ tivo de percepção profética no Antigo

46
Testamento. Devemos, contudo, lembrar instituição. O Senhor preparou Samuel para
que Samuel está situado no início do movi­ a chegada de Saul, anunciando antecipada­
mento profético de Israel e deve, portanto, mente que o jovem de Benjamim seria o
ser avaliado em função de seu próprio futuro príncipe20 de Israel (v. 15,16). Pór
contexto, e não de um contexto posterior. sua ação Deus estava propiciando liderança
para seu povo, de modo que pudessem ser
3) Saul Encontra Samuel (9.15-27) libertos de seus senhores filisteus. Saul agiu
15Ora, o Senhor revelara isto aos ouvidos de com elogiável modéstia quando Samuel
Samuel, um dia antes de Saul chegar, dizendo: informou-o de sua (futura) posse de riqueza
16Amanhã a estas horas te enviarei um homem da de Israel (v. 20b). Até Samuel parece isento
terra de Benjamim, o qual ungirás por príncipe de hostilidade ao tornar Saul seu hóspede
sobre o meu povo de Israel; e ele livrará o meu de honra numa festa especial (v. 22-24) e
povo da mão dos filisteus; pois olhei para o meu
povo, porque o seu clamor chegou a mim. 17E ao oferecer-lhe o local mais agradável para
quando Samuel viu a Saul, o Senhor lhe disse: Eis dormir (v. 25,26).
aqui o homem de quem eu te falei. Este dominará
sobre o meu povo. 18Então Saul se chegou a 4) Samuel Unge Saul (10.1-16)
Samuel na porta, e disse: Mostra-me, peço-te, onde
é a casa do vidente. 19Respondeu Samuel a Saul: ‘Então Samuel tomou um vaso de azeite, e o
Eu sou o vidente; sobe diante de mim ao alto, derramou sobre a cabeça de Saul, e o beijou, e
porque comereis hoje comigo; pela manhã te disse: Porventura não te ungiu o Senhor para ser
despedirei, e tudo quanto está no teu coração to príncipe sobre a sua herança? 2Quando te apar­
declararei. “ Também quanto às jumentas que há tares hoje de mim, encontrarás dois homens junto
três dias se te perderam, não te preocupes com elas, ao sepulcro de Raquel, no termo de Benjamim, em
porque já foram achadas. Mas para quem é tudo Zelza, os quais te dirão: Acharam-se as jumentas
o que é desejável em Israel? porventura não é para que foste buscar, e eis que já o teu pai deixou de
ti, e para toda a casa de teu pai? 21Então pensar nas jumentas, e anda aflito por causa de
respondeu Saul: Acaso não sou eu benjamita, da ti, dizendo: Que farei eu por meu filho? 3Então dali
menor das tribos de Israel? E não é a minha família passarás mais adiante, e chegarás ao carvalho de
a menor de todas as famílias da tribo de Benjamim? làbor; ali te encontrarão três homens, que vão
Por que, pois, me falas desta maneira? 22Samuel, subindo a Deus, a Betei, levando um três cabritos,
porém, tomando a Saul e ao seu moço, levou-os outro três formas de pão>, e o outro um odre de
à câmara, e deu-lhes o primeiro lugar entre os vinha 4Eles te saudarãoi, e te darão dois pães, que
convidados, que eram cerca de trinta homens. receberás das mãos deles. 5Depois chegarás ao
23Depois disse Samuel ao cozinheiro: Traze a outeiro de Deus, onde está a guarnição dos filis­
porção que te dei, da qual te disse: Põe-na à parte teus; ao entrares ali na cidade, encontrarás um
contigo. “ Levantou, pois, o cozinheiro a espádua, grupo de profetas descendo do alto, precedido de
com o que havia nela, e pô-la diante de Saul. E saltérios, tambores, flautas e harpas, e eles profe-
disse Samuel: Eis que o que foi reservado está tizanda 6E o Espírito do Senhor se apoderará de
diante de ti. Come; porque te foi guardado para ti, e profetizarás com eles, e serás transformado
esta ocasião, para que o comesses com os convi­ em outro homem. 7Quando estes sinais te vierem,
dados. Assim, comeu Saul naquele dia com Samuel. faze o que achar a tua mão para fazer, pois Deus
25 Então desceram do alto para a cidade, e falou é contiga 8Tu, porém, descerás adiante de mim a
Samuel com Saul, no eirada “ E se levantaram de Gilgal, e eis que eu descerei a ter contigo, para
madrugada, quase ao subir da alva, pois Samuel oferecer holocaustos e sacrifícios de ofertas pací­
chamou a Saul, que estava no eirado, dizendo: ficas. Esperarás sete dias, até que eu vá ter contigo
Levanta-te para eu te despedir. Levantou-se, pois, e te declare o que hás de fazer. 9Ao virar Saul as
Saul, e saíram ambos, ele e Samuel. 27Quando costas para se apartar de Samuel, Deus lhe mudou
desciam para a extremidade da cidade^ Samuel disse o coração em outro; e todos esses sinais aconte­
a Saul: Dize ao moço que passe adiante de nós (e ceram naquele mesmo dia. 10Quando eles iam
ele passou); tu, porém, espera aqui, e te farei ouvir chegando ao outeiro, eis que um grupo de profetas
a palavra de Deus. lhes saiu ao encontro; e o Espírito de Deus se
apoderou de Saul, e ele profetizou no meio deles.
Ao contrário dos capítulos 8 e 12, este 20 O uso deste term o inagid) está limitado principalm ente a Samuel,
episódio descreve a monarquia de um ponto Reis e porções de Crônicas que se baseiam nesses dois primeiros
livros. É empregado sobretudo para designar o herdeiro divinam ente
de vista favorável, e todas as personagens indicado para um a posição de liderança. Seu emprego reforça a ênfase
surgem com uma atitude propícia à nova d o contexto q uanto ao papei do Senhor n a escolha de Saul.

47
"Todos os que o tinham conhecido antes, ao verem O contato de Saul com os profetas no
que ele profetizava com os profetas, diziam uns aos outeiro de Deus representa uma importante
outros: Que é que sucedeu ao filho de Quis? Está
também Saul entre os profetas? 12Então um
contribuição para a compreensão do profe-
homem dali respondeu, e disse: Pois quem é o pai tismo no Israel antigo. Embora fosse errado
dele? Pelo que se tornou em provérbio: Está também concluir que todos os profetas operassem
Saul entre os profetas? 13Tendo ele acabado de como um grupo, alguns grupos de consi­
profetizar, foi ao alto. 14Depois o tio de Saul derável tamanho eram comuns (19.20; lRs
perguntou-lhe, a ele e ao seu moço: Aonde fostes?
Respondeu ele: Procurar as jumentas; e, não as 22.6; 2Rs 3.15), e transes involuntários não
tendo encontrado, fomos ter com Samuel. 15Disse eram considerados incomuns (19.18 e ss.).
mais o tio de Saul: Declara-me, peço-te, o que vos Tais ocorrências parecem notavelmente
disse Samuel. 16Ao que respondeu Saul a seu tio: semelhantes a práticas entre profetas cana-
Declarou-nos, seguramente, que as jumentas tinham
sido encontradas. Mas quanto ao assunto do reino, neus. No tempo de Elias, por exemplo,
de que Samuel falara, nada lhe declarou. adoradores de Baal chegaram a um ponto
de frenesi, dança, gritos, e mesmo laceração
Como sinal de escolha divina, Samuel de seus corpos (ÍRs 18.26-29). Conquanto
ungiu a cabeça de Saul com óleo. Por tal nos primeiros tempos profetas hebreus
ato, comum em Israel e entre seus vizinhos, possam ter compartilhado de algumas
tanto homens quanto objetos podiam ser manifestações psicológicas de seus vizinhos
postos de parte para funções religiosas espe­ pagãos, tais semelhanças eram exclusiva­
ciais. Assim, a pedra em Betei (Gn 28.18), mente externas. Em contraste marcante
a arca (Ex 30.26), sacerdotes (Ex 28.41), com a grosseira imoralidade e licenciosidade
profetas (lRs 19.16), bem como reis, foram das religiões pagãs nas regiões vizinhas,
consagrados para o serviço divino. Samuel faz parte de uma longa lista de
A unção de Saul parece representar um profetas hebreus que se opunham firme­
reconhecimento exterior de uma função mente a tais práticas.
divinamente designada, e não um ato sacra­ Quando Saul submeteu-se ao espírito do
mental que transmitia bênçãos especiais ao Senhor e começou a profetizar (cf. v. 6,16),
novo rei. Na verdade, Saul seria mais tarde seus vizinhos notaram seu comportamento
rejeitado por Deus e afligido por um espí­ e começaram a perguntar: Está também
rito mau (16.14), mas seria reconhecido Saul entre os profetas? Esta declaração foi
como o “ungido do Senhor” até a morte feita repetidamente e tornou-se um pro­
(2Sm 1.16). O dom divino de um novo vérbio com um estigma social implícito. As
coração não implica necessariamente uma pessoas se admiravam de que Saul arriscasse
experiência espiritual do tipo encontrado trazer opróbrio ao nome de sua família e
no Novo Testamento. Antes, denota a força à sua chamada divina, participando do
da personalidade que era característica de excêntrico comportamento dos profetas
um homem de Deus. (cf. 19.24).
Para dar a Saul alguma confirmação Um morador local retrucou com outra
exterior do papel do Senhor em sua seleção, pergunta: Pois quem é o pai dele? Con­
Samuel ofereceu um sinal triplo que logo quanto a interpretação desta expressão seja
poder-se-ia verificar. Primeiro, Saul encon­ incerta, é provavelmente melhor entendida
traria dois viajantes que relatariam a como uma avaliação positiva do papel profé­
recuperação das jumentas perdidas e a preo­ tico. Está ele dizendo que Saul não é apenas
cupação de seu pai quanto a ele. Segundo, um dos profetas; é também ou o líder deles,
ele e seu servo receberiam alimento para ou o seu incentivador.21
sua viagem de volta aò lar (cf. 9.7) por A despeito do dramático cumprimento
homens que subiam a sacrificar em Betei. dos sinais preditos por Samuel, Saul
Terceiro, Saul seria dominado pelo espírito
do Senhor quando encontrasse um grupo 21 A palavra hebraica para “pai”, ’a b, è freqüentem ente utilizada como
de profetas em sua jornada para casa. um term o de respeito e honra (2Reis 2.12; 5.13; 6.21).

48
manteve segredo de sua unção real mesmo da monarquia. A solicitação de um rei pelo
para seus próprios familiares. povo foi novamente condenada como uma
rejeição da liderança do Senhor. A despeito
5) Saul Publicamente Aclamado Rei do cuidado de Deus durante o êxodo do
(10.17-27) Egito e a conquista de Canaã, Israel
17Então Samuel convocou o povo ao Senhor em recusava-se a confiar nele durante sua crise
Mizpá; 18e disse aos filhos de Israel: Âssim diz o atual. Não obstante, o Senhor continuou
Senhor Deus de Israel: Eu fiz subir a Israel do a agir em favor dos mais altos interesses
Egito, e vos livrei da mão dos egfpcios e da mão
de todos os reinos que vos oprimiam. 19Mas vós de seu povo quando dirigiu a escolha de
hoje rejeitastes a vosso Deus, àquele que vos livrou Saul, sobre quem se podia dizer que não
de todos os vossos males e angústias, e lhe dissestes: há entre o povo nenhum semelhante a ele.
Põe um rei sobre nós. Agora, pois, ponde-vos Admiração e respeito ante esta demons­
perante o Senhor, segundo as vossas tribos e
segundo os vossos milhares, ^ en d o , pois, Samuel tração da vontade divina foi salientada pelo
feito chegar todas as tribos de Israel, foi tomada fato de que, primeiramente, Saul não foi
por sorte a tribo de Benjamim. 21E, quando fez encontrado entre o povo. Somente depois.
chegar a tribo de Benjamim segundo as suas famí­ de consultas adicionais ao Senhor, foi ele
lias, foi tomada a família de Matri, e dela foi tomada
Saul, filho de Quis, e o procuraram, mas não foi localizado entre a bagagem. O sorteio tinha
encontrada 22PeIo que tornaram a perguntar ao o objetivo de fornecer respostas afirmativas
Senhor: Não veio o homem ainda para cá? E ou negativas, e não declarações factuais
respondeu o Senhor: Eis que se escondeu por entre orais, tal como a que se encontra em 10.22
a bagagem. “ Correram, pois, e o trouxeram dali;
e estando ele no meio do povo, sobressaía em altura
(cf. 14.41,42). Não obstante, uma seqüência
a todo o povo desde os ombros para cima. MEntão de perguntas poderia facilmente ter sido
disse Samuel a todo o povo: Vedes já a quem o idealizada, as quais, em essência, teriam
Senhor escolheu? Não há entre o povo nenhum fornecido aquela resposta.
semelhante a ela Então todo o povo o aclamou,
dizendo: Viva o rei! 25Também declarou Samuel Samuel persistiu em seus esforços por
ao povo a lei do reino, e a escreveu num livro, e preservar algumas das liberdades da antiga
pô-lo perante o Senhor. Então Samuel despediu todo liga tribal ao codificar os direitos e deveres
o povo, cada um para sua casa. “ E foi também do reino e sacramentá-los perante o Senhor.
Saul para sua casa em Gibeá; e foram com ele Um conjunto de “salvaguardas constitucio­
homens de valor, aqueles cujo coração Deus tocara.
27M as alguns homens ímpios disseram: Como nais” desse teor é refletido em Deute-
pode este homem nos livrar? E o desprezaram, e ronômio 17.14-20 (McKane, p. 79). Embora
não lhe trouxeram presentes; porém ele se fez como essas restrições fossem em grande parte
surda ineficazes após o reinado de Saul, alguns
Esta passagem reenceta a história da membros da sociedade israelita provavel­
escolha do rei de Israel no ponto em que mente trabalharam para manter vivos os
foi deixada em 8.22. Saul é retratado como antigos ideais. Certamente dentro do Reino
um exemplo soberbo de masculinidade do Norte a força da monarquia foi conti­
hebréia, mas seu papel como príncipe nuamente limitada pelas atividades políticas
(nagid) continua sem ser notado. Samuel dos profetas.
reuniu o povo em Mizpá e supervisionou Já desde o começo do reinado de Saul,
o sorteio como se Saul lhe fosse desconhe­ o povo de Israel esteve dividido em seu apoio
cido. Embora Samuel como vidente talvez ao governo. Conquanto todos bradassem
pudesse ter previsto a escolha de Saul no Viva o rei! e alguns homens cujo coração
sorteio, os “episódios de busca” (9.1—10.16) Deus tocara entusiasticamente seguissem
não se empenham em predizer sua escolha Saul por todo o caminho de volta para casa,
pública, e esta seção não dá atenção à outros indagavam como pode este homem
unção de Saul por Samuel. nos livrar? Revelavam desprezo pelo novo
Como no capítulo 8, o texto como um governante, negando-se a presenteá-lo,
todo indica oposição ao estabelecimento conforme era costume em tais ocasiões.

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A designação homens ímpios, atribuída censura a todos os israelitas por sua inca­
aos oponentes de Saul, reflete uma atitude pacidade de defender uma de suas cidades
favorável para com a monarquia, seme­ irmãs. A disposição de Naás em conceder
lhante à encontrada em 9.1—10.16, e uma trégua de sete dias demonstra ainda
divergindo da de 10.17-25. Claramente, o mais sua certeza de uma vitória derradeira.
autor final do livro de Samuel estava Estava convencido de que Israel era dema­
lidando muito conscienciosamente com as siado fraco para proporcionar qualquer
fontes à sua disposição, quaisquer que solução eficaz para Jabes, mesmo que
fossem seus próprios sentimentos. tivesse tempo para fazê-lo.

3. Saul Apoiado Pelo Povo (11.1-15) 2) Saul Derrota os Amonitas (11.5-11)


5E eis que Saul vinha do campo, atrás dos bois;
1) Amonitas Atacam Jabes-Gileade (11.1-4) e disse Saul: Que tem o povo, que chora? E
'Então subiu Naás, o amonita, e sitiou a Jabes- contaram-lhe as palavras dos homens de Jabes.
-Gileade. E disseram todos os homens de Jabes 6Então o espirito de Deus se apossou de Saul, ao
a Naás: Faze aliança conosco, e te serviremos. ouvir ele estas palavras; e acendeu-se sobremaneira
2Respondeu-lhes, porém, Naás, o amonita: Com a sua ira. 7Tomou ele uma junta de bois, cortou-
esta condição farei aliança convosco: que a todos -os em pedaços, e os enviou por todo o território
vos arranque o olho direito; assim porei opróbrio de Israel por mãos de mensageiros, dizendo: Qual­
sobre todo o Israel.3Ao que os anciãos de Jabes quer que não sair após Saul e após Samuel, assim
lhe disseram: Concede-nos sete dias, para que se fará aos seus bois. Então caiu o temor do Senhor
enviemos mensageiros por todo o território de sobre o povo, e acudiram como um só homem.
Israel; e, não havendo ninguém que nos livre, 8Saul passou-lhes revista em Bezeque; e havia dos
entregar-nos-emos a ti. 4Então, vindo os mensa­ homens de Israel trezentos mil, e dos homens de
geiros a Gibeá de Saul, falaram estas palavras aos Judá trinta mil. 9Então disseram aos mensageiros
ouvidos do pova Pelo que todo o povo levantou a que tinham vindo: Assim direis aos homens de
voz e chorou. Jabes-Gileade: Amanhã, em aquentando o sol, vos
virá livramento. Vindo, pois, os mensageiros,
As dificuldades de Israel ao final do anunciaram-no aos homens de Jabes, os quais se
período dos juizes são claramente visíveis alegraram. 10E os homens de Jabes disseram aos
pelo desprezo dos amonitas para com o povo amonitas: Amanhã nos entregaremos a vós; então
nos fareis conforme tudo o que bem vos parecer.
de Jabes-Gileade. Os amonitas eram um 11Ao outro dia Saul dividiu o povo em três compa­
bando de nômades semitas cujo território nhias; e pela vigília da manhã vieram ao meio do
situava-se no platô montanhoso a oriente arraial, e feriram aos amonitas até que o dia
do Rio Jordão. Embora remotamente aquentou; e sucedeu que os restantes se espalharam
de modo a não ficarem dois juntos.
aparentados com os israelitas (Gn 19.38),
eles periodicamente atacavam seus vizinhos As condições aqui descritas tornam
que estavam mais estabelecidos, tentando bastante claro que Saul não havia feito
aumentar a extensão de seus domínios a ainda qualquer esforço para organizar um
expensas dos israelitas (Jz 11). O ataque governo formal. O povo de Jabes ainda
amonita contra Jabes-Gileade, uma cidade seguia o costume da liga tribal, e mensa­
situada no Wadi Yabis, a provavelmente não geiros foram despachados “por todo o
mais de três ou cinco quilômetros do Jordão, território de Israel” (11.3). Saul estava
revela o enfraquecimento do poder hebreu. arando o solo em lugar de estar atendendo
Incapaz de imaginar qualquer saída, o povo os negócios de estado, e as notícias de além
de Jabes ofereceu-se para pagar tributo e do Jordão foram levadas ao público antes
tornar-se vassalo dos amonitas. de serem comunicadas ao novo rei.'
Naás, rei de Amom; estava, contudo, A reação de Saul estava em harmonia
inclinado a humilhar Israel bem como a com os padrões dinâmicos estabelecidos sob
tomar despojos. Suas condições para a capi­ os juizes militaristas do passado. O espírito
tulação, exigindo a mutilação de toda a de Deus veio poderosamente sobre Saul (cf.
população cativa, destinava-se a ser uma Sansão em Jz 14.19), e ele tomou medidas

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imediatas para assegurar a unidade de Israel Mesmo com manifestações públicas
nessa crise. Ele sacrificou os touros com (10.17-27) e privadas (9.1—10.16) de direção
os quais estava arando, partiu os corpos em divina no estabelecimento da monarquia,
vários pedaços e remeteu uma porção a cada Saul defrontou-se com firme resistência
tribo de Israel. As violentas atitudes de Saul (10.27). De modo que preferiu agir devagar
reforçaram a sombria advertência dos e aguardar a oportunidade para demonstrar
mensageiros: Qualquer que não sair* após o apoio do Senhor à sua causa (10.7). O
Saul e após Samuel, assim se fará aos seus papel de Saul na vitória decisiva sobre Naás
bois (cf. Jz 19.29). No ajuntamento que se granjeou-lhe o apoio de uma grande parte
seguiu, a enumeração em separado dos da população Logo o povo estava clamando
homens de Israel e Judá revela a frágil natu­ pelo sangue daqueles que ainda se opunham
reza da unidade imposta pela força da ao novo governo.
personalidade de Saul. Não obstante, uma A estabilidade da personalidade de Saul
das maiores deficiências da velha liga tribal nos primeiros anos de seu governo é clara­
havia sido remediada. As tribos foram mente retratada no seu tratamento
compelidas a honrar seu compromisso de compassivo daqueles que haviam feito
enviar tropas em tempo de crise militar. campanha contra ele. Saul reconhecia que
Relatos da batalha são quase um anti­ muitos dos seus adversários o combatiam
clímax. Saul reuniu um exército porque criam que a nação havia rejeitado
considerável22 em Bezeque, cerca de vinte a liderança do Senhor ao reivindicar um
quilômetros ao norte de Siquém, e mandou rei. A lealdade de súditos como esses não
avisar Jabes-Gileade de que socorro estaria poderia ser forçada, mas conquistada. Saul
chegando no dia seguinte. Após uma atingiu bem o cerne da questão quando,
marcha por toda a noite de cerca de vinte desvencilhando-se de qualquer crédito
e quatro quilômetros, Saul e suas tropas pessoal, declarou as simples palavras: Neste
chegaram ao amanhecer,23 e a matança dia o Senhor operou um livramento em
começou. Os amonitas que não sucum­ Israel.
biram foram implacavelmente dispersados Como atualmente se apresenta o registro,
e o flanco oriental de Israel ficou seguro. a injunção de Samuel para que o povo fosse
a Gilgal a fim de renovar o reino não é intei­
3) O Povo Proclama Saul Rei (11.12-15) ramente clara. Se somente agora o plano
divino estava se concretizando plenamente,
12Então disse o povo a Samuel: Quais são os
que diziam: Reinará porventura Saul sobre nós? esperar-se-ia então que o reino fosse esta­
Dai cá esses homens, para que os matemos. 13Saul, belecido, em vez de renovado. Por outro
porém, disse: Hoje não se há de matar ninguém, lado, a oposição à monarquia pode ter sido
porque neste dia o Senhor operou um livramento tão forte que as primeiras tentativas de Saul
em Israel. 14Depois disse Samuel ao povo: Vinde,
vamos a Gilgal, e renovemos ali o reina 15Foram,
em estabelecer um governo tinham sido
pois, para Gilgal, onde constituíram rei a Saul derrotadas. Sob tais circunstâncias o reino
perante o Senhor, e imolaram sacrifícios de ofertas precisaria ser renovado, mas os registros
pacíficas perante o Senhor; e ali Saul se alegrou existentes não fornecem provas de uma
muito com todos os homens de Israel. rejeição tão drástica da liderança de Saul.
a palavra hebraica p ara “milhares”, ’e leph, tem dois sentidos. Além
de seu significado estritam ente numérico, pode tam bém referir-se
4. Samuel Dá Conselhos à Monarquia
à subunidade de um a tribo, a partir da qual fazia-se a convocação (12.1-25)
(cf. Jz 6.15). A proporção de cerca de dez hom ens de Israel para
um de Ju d á está grosso modo de acordo com outros censos tribais.
Veja G. E. M endenhall, “T h e Census List o f Num ber 1 and 26”
1) Samuel Defende seu Pãssado de Serviços
Journal o f Biblical Literature, LX X V II (1958), p. 52-66. e Conduta (12.1-5)
23 Sendo que o dia hebreu começava ao pôr*do-sol, “vigilia da m anhã”
refere-se à noite em que a mensagem foi enviada. A noite era divi­
‘Então disse Samuel a todo o Israel: Eis que
dida em três períodos: o principio das vigílias (Lm 2.19), a vigilia vos dei ouvidos em tudo quanto me dissestes, e cons­
do meio (Jz 7.19) e a vigília da m anhã (Caird, p. 940). tituí sobre vós um rei. 2Agora, eis que o rei vai

51
adiante de vós; quanto a mim, já sou velho e enca­ mais aberta a sério questionamento. O
necido, e meus filhos estão convosco: eu tenho discurso de Samuel resume, portanto, os
andado adiante de vós desde a minha mocidade até
o dia de hoje. 3Eis-me aqui! testificai contra mim
princípios teológicos sobre os quais Deus
perante o Senhor, e perante o seu ungida De quem tratará com seu povo sob o novo sistema
tomei o boi? ou de quem tomei o jumento? ou a de governo.
quem defraudei? ou a quem tenho oprimido? ou Samuel começou seu discurso com uma
da mão de quem tenho recebido peita para enco­ defesa de seu próprio ministério como juiz.
brir com ela os meus olhos? E eu vo-lo restituirei.
4Responderam eles: Em nada nos defraudaste, nem O povo concordou que, como um jurista,
nos oprimiste, nem tomaste coisa alguma da mão ele estava acima de crítica. Não havia
de ninguém. sEle lhes disse: O Senhor é teste­ roubado a ninguém, recebido suborno ou
munha contra vós, e o seu ungido é hoje testemunha pervertido a justiça. Até seus filhos, que
de que nada tendes achado na minha m ãa Ao que
respondeu o povo: Ele é testemunha.
anteriormente eram a fonte de considerável
embaraço para ele (8.1-5), são aqui citados
Este capítulo é geralmente considerado sem qualquer censura. Por sua defesa
como o discurso de despedida de Samuel Samuel procurou exonerar-se não só a si
para Israel, comparável em escopo ao de próprio mas também a todo o sistema
Moisés (especialmente Dt 28 e ss.) ou Josué teocrático sob os juizes.
(Js 24). Se tal for o caso, contudo, o discurso
parece fora de lugar neste contexto. Um 2) Crônica da Rebelião de Israel (12.6-18)
sumário do ministério de Samuel foi ante­
6Então disse Samuel ao povo: O Senhor é o
riormente apresentado (7.12-17), quando que escolheu a Moisés e a Arão, e tirou a vossos
estava no auge do seu poder, antes de Saul pais da terra do Egito. 7Agora ponde-vos aqui,
ter começado a ascender ao poder (cf. Intro­ para que eu pleiteie convosco perante o Senhor,
dução, V, 1). Pòr outro lado, o ministério no tocante a todos os atos de justiça do Senhor,
ativo de Samuel ainda não está encerrado, que ele fez a vós e a vossos pais. 8Quando Jacó
entrou no Egito, e vossos pais clamaram ao Senhor,
pois ele deveria desempenhar um papel então o Senhor enviou Moisés e Arão, que tiraram
crucial na rejeição de Saul e unção de Davi, vossos pais do Egito, e os fizeram habitar neste
antes que sua morte seja registrada em lugar. 9Esqueceram-se, porém, do Senhor seu
ISamuel 25. Deus; e ele os entregou na mão de Sisera, chefe
do exército de Hazor, e na mão dos filisteus, e na
Parece provável, portanto, que o discurso mão do rei de Moabe, os quais pelejaram contra
de Samuel deva ser visto como uma impor­ eles. ‘“Clamaram, pois, ao Senhor, e disseram:
tante declaração de diretrizes, e não como Pecamos, porque deixamos ao Senhor, e servimos
seu discurso de despedida. Até este ponto, aos baalins e astarotes; agora, porém, livra-nos da
a ascensão de Saul ao poder como rei de mão de nossos inimigos, e te serviremos. "Então
o Senhor enviou Jerubaal, e Baraque, e Jefté, e
Israel tem sido complicada por um debate Samuel; e vos livrou da mão de vossos inimigos
sobre as implicações teológicas de um em redor, e habitastes em segurança. lzQuando
sistema monárquico dentro do estado isra­ vistes que Naâs, rei dos filhos de Amom, vinha
elita. Embora ambos os lados da questão contra vós, dissestes-me: Não, mas reinará sobre
nós um rei; entretanto, o Senhor vosso Deus era
sejam refletidos no registro bíblico, o ponto o vosso Rei. 13Agora, eis o rei que escolhestes e
de vista do autor nunca esteve em questão. que pedistes; eis que o Senhor tem posto sobre vós
Ele considerava o sistema teocrático sob um rei. 14Se temerdes ao Senhor, e o servirdes, e
a antiga liga tribal como a estrutura polí­ derdes ouvidos à sua voz, e não fordes rebeldes
tica legítima de Israel. A monarquia às suas ordens, e se tanto vós como o rei que reina
sobre vós seguirdes o Senhor vosso Deus, bem está;
representava, na melhor das hipóteses, uma lsmas se não derdes ouvidos à voz do Senhor, e
concessão de Deus ante a dureza do coração fordes rebeldes às suas ordens, a mão do Senhor
do povo. será contra vós, como foi' contra vossos pais.
No entanto, após a vitória de Saul sobre 16Portanto ficai agora aqui, e vede esta grande
coisa que o Senhor vai fazer diante dos vossos olhos.
os amonitas, a monarquia tomou-se um fato 17Não é hoje a sega do trigo? clamarei, pois, ao
estabelecido. Reis e dinastias podiam ser Senhor, para que ele envie trovões e chuvas; e sabe­
mudados, mas a instituição em si não estava reis e vereis que é grande a vossa maldade, que

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fizestes perante o Senhor, pedindo para vós um rei. 3) Samuel Promete Orações (12.19-25)
18Então invocou Samuel ao Senhor, e o Senhor
enviou naquele dia trovões e chuva; pelo que todo 19Disse todo o povo a Samuel: Roga pelos teus
o povo temeu sobremaneira ao Senhor e a Samuel. servos ao Senhor teu Deus, para que não morramos;
porque a todos os nossos pecados temos acrescen­
Samuel havia-se defendido como um tado este mal, de pedirmos para nós um rei.
administrador do sistema legal de Israel, 20Então disse Samuel at> povo: Não temais; vós
mas não fez qualquer reivindicação como fizestes todo este mal; porém não vos desvieis de
lídqr militar à maneira de Gideão ou Sansão. seguir ao Senhor, mas servi-o de todo o vosso
coraçãa 21Não vos desvieis; porquanto seguiríeis
Issó levou Samuel ao que talvez fosse a mais coisas vãs, que nada aproveitam, e tampouco vos
séria crítica à antiga liga tribal: ela tinha livrarão, porque .são vãs. 22Pois o Senhor, por
sido incapaz de unir a nação e, como resul­ causa do seu grande nome, não desamparará o seu
tado, Israel fora deixado à mercê de seus povo; porque aprouve ao Senhor fazer de vós o seu
povo. 23E quanto a mim, longe de mim esteja o
inimigos. pecar contra o Senhor, deixando de orar por vós;
Tal acusação contra a direção de Deus eu vos ensinarei o caminho bom e direita 24T3o-
(cf. v. 12) foi, contudo, vista como uma -somente temei ao Senhor, e servi-o fielmente de
incompreensão dos princípios sobre os quais todo o vosso coração, pois vede quão grandiosas
o Senhor baseava seu envolvimento na coisas vos fez. 25Se, porém, perseverardes em fazer
o mal, perecereis, assim vós como o vosso rei.
história humana. Samuel recapitulou os
pontos altos da história israelita para O povo de Israel temia que sua indepen­
demonstrar mais uma vez o plano de Deus dência, ao solicitar um rei, resultaria em
no trato com seu povo. Seguindo o mesmo sua rejeição final pelo Senhor. Samuel
esquema básico de raciocínio que se assegurou-lhes que somente a rebelião
encontra em Josué e Juizes, Samuel revelou contínua poderia separá-los do cuidado de
que Israel era entregue a um opressor Deus. Por causa do seu grande nome, isto
estrangeiro quando o povo pecava. Quando, é, simplesmente porque o Senhor é quem
porém, se arrependiam, o Senhor era fiel é, não despedirá seu povo arbitrariamente.
e logo enviava seus libertadores escolhidos: Deus livremente decidiu abrir-se para uma
Jerubaal, Baraque, Jefté e até o próprio comunhão especial com Israel. O povo
Samuel. Assim, a crise precipitada pelo podia interromper essa comunhão ao
ataque de Naás contra Jabes-Gileade buscar coisas vãs, que nada aproveitam, mas
deveria ter induzido Israel a arrepender-se o caminho estaria sempre aberto para eles
de seus pecados. Em vez disso o povo pediu retornarem ao Senhor.
um rei. Como prova adicional de que suas Também o povo temia que Samuel se
ações constituíam uma rebelião contra a retirasse, deixando de ser seu conselheiro
liderança divina, Samuel suplicou por uma espiritual, uma vez que haviam rejeitado
tempestade de trovões na época da colheita, seu conselho quanto ao reino. Ele, porém,
época em que esses fenômenos não eram prometeu continuar como intercessor em
comuns. O povo reconheceu sua culpa e favor deles em oração e como seu guia no
permaneceu reverente diante do Senhor e caminho bom e direito. Um homem menos
de Samuel. altruísta teria se revelado amargurado, acar­
No entanto, por mais errado que Israel retando assim sua própria rejeição como
possa ter sido ao solicitar um rei, o Senhor instrumento da graça de Deus.
concedeu liberdade para estabelecerem a
monarquia. Por seu profeta Samuel, ele
comprometeu-se a operar mediante o novo 5. Israel Conquista a Independência
chefe de estado da mesma maneira como, (13.1—14.52)
no passado, havia feito mediante os juizes. 1) Começa a Guerra de Libertação
Se o povo aceitasse a direção do Senhor, (13.1-15a)
tudo iria bem. Caso contrário, então ele iria 'Saul tinha... anos de idade quando começou
punir tanto o povo quanto o rei. a reinar; e tendo reinado dois anos sobre Israel,

53
2escolheu para si três mil homens de Israel; dois sua estabilidade mental. Os detalhes dessas
mil estavam com Saul em Micmás e no monte de duas lutas não são conhecidos com maior
Betei, e mil estavam com Jônatas em Gibeá de exatidão, mas, sem dificuldade, pode-se
Benjamim. Quanto ao resto do povo, mandou-o cada
um para sua tenda. 3Ora, Jônatas feriu a guar­ perceber suas linhas gerais.
nição dos filisteus que estavam em Geba, o que os Saul tinha (...) anos de idade. Este tipo
filisteus ouviram; pelo que Saul tocou a trombeta de fórmula introdutória, comum nos livros
por toda a terra, dizendo: Ouçam os hebreus. dos Çeis, é aqui usada em reconhecimento
4Então todo o Israel ouviu dizer que Saul ferira
a guarnição dos filisteus, e que Israel se fizera do fato de que o reinado de Saul começa
abominável aos filisteus. E o povo foi convocado propriamente neste ponto. É incomum,
após Saul em Gilgal. SE os filisteus se ajuntaram contudo, que tanto a idade como a duração
para pelejar contra Israel, com trinta mil carros, de seu reinado estejam faltando no texto
seis mil cavaleiros, e o povo em multidão como a
4reia que está à beira do mar; subiram e se acam­ hebraico. O numeral dois diz respeito à
param em Micmás, ao oriente de Bete-Áven. duração de seu reinado, mas aparece numa
'’Vendo, pois, os homens de Israel que estavam em tal posição que sugere que um outro núme­
aperto (porque o povo se achava angustiado), ro foi omitido (“Saul tinha (...) anos de ida­
esçonderam-se nas cavernas, nos espinhais, nos
penhascos, nos esconderijos subterrâneos e nas
de quando começou a reinar, e reinou (...)
cisternas. 7Ora, alguns dos hebreus passaram o e dois anos sobre Israel. Saul escolheu três
Jordão para a terra de Gade e Gileade; mas Saul mil homens de Israel”; v. 1,2a). A referência
ficou ainda em Gilgal, e todo o povo o seguia em Atos 13.21 a um reinado de quarenta
tremenda 8Esperou, pois, sete dias, até o tempo anos de Saul reflete uma tradição bem
que Samuel determinara; não vindo, porém, Samuel
a Gilgal, o povo, deixando a Saul, se dispersava. antiga, mas que não se fundamenta sobre
’Então disse Saul: Trazei-me aqui um holocausto, qualquer texto do Antigo Testamento.
e ofertas pacificas. E ofereceu o holocausto. 10Mal Israel passava por terríveis dificuldades
tinha ele acabado de oferecer o holocausto, eis que
Samuel chegou; e Saul lhe saiu ao encontro, para
quando Saul assumiu o cargo. O povo
o saudar. "Então perguntou Samuel: Que fizeste? enfrentava uma prèssão tão forte por parte
Respondeu Saul: Porquanto via que o povo, dos filisteus no ocidente que os territórios
deixando-me, se dispersava, e que tu não vinhas transjordânicos podiam ser atacados por
no tempo determinado, e que os filisteus já se tinham amonitas nômades (11.1-11). Os filisteus
ajuntado em Micmás, 12eu disse: Agora descerão
os filisteus sobre mim a Gilgal, e ainda não apla­ controlavam a Palestina com guarnições
quei o Senhor. Assim me constrangi e ofereci o locais tal como a de Geba, a menos de onze
holocausto. 13Então disse Samuel a Saul: Proce­ quilômetros a norte-nordeste de Jerusalém,
deste nesciamente; não guardaste o mandamento mas tinham completa liberdade de movi­
que o Senhor teu Deus te ordenou. O Senhor teria mento por todo o país. Os filisteus
confirmado o teu reino sobre Israel para sempre;
14agora, porém, não subsistirá o teu reino; já tem empregavam Micmás como sua própria
o Senhor buscado para si um homem segundo o base pouco depois de ter sido utilizada como
seu coração, e já o tem designado para ser príncipe um acampamento israelita. Ainda mais
sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que importante era o total embargo de armas
o Senhor te ordenou. 15Então Samuel se levantou,
e subiu de Gilgal a Gibeá de Benjamim.
pelos filisteus no território ocupado por
Israel. Só recentemente armas de ferro
Muitos dos detalhes da guerra de inde­ haviam entrado em uso no antigo Oriente
pendência de Israel são vagos e incertos, Médio, e os filisteus mantinham controle
mas dois fatos claramente se destacam. Já dos segredos de sua forja (13.19 e s.) Assim,
desde o início do reinado de Saul propria­ as primerias batalhas de Saul foram sobre­
mente dito sobre Israel, ele defrontou dois tudo ataques-relâmpagos, levados a cabo
conflitos principais: um contra seus domi­ por soldados civis mal equipados.
nadores filisteus, e o outro contra Samuel, A primeira vitória de Israel em sua
o homem de Deus. O primeiro iria, no final, guerra de independência foi conquistada
custar a vida de Saul, e o último contri­ não por Saul, mas por Jônatas, que somente
buiria para que, mais cedo ainda, perdesse mais tarde foi identificado como filho do

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rei (13.16). Como comandante de mil trono era realmente seu. Muito possivel­
homens, derrotou a pequena guarnição em mente ele temia que a combinação de
Geba e, com seu ato, enraiveceu os filisteus autoridade civil e religiosa finalmente
e despertou o coração de seus concidadãos levasse a uma situação em que a prática
para a liberdade. Quando um enorme exér­ religiosa seria considerada simplesmente
cito foi enviado para abafar a insurreição, como outro negócio de estado. Fossem quais
suas tropas se dispersaram para buscar fossem os fatores envolvidos, o autor deste
refúgio no território escarpado das proxi­ material estava firmemente convencido de
midades. que a quebra da comunhão entre o rei e
Nesse entretempo, Saul estava reunindo seu conselheiro religioso ocorrera bem cedo
uma força maior em Gilgal. Confrontado no reinado de Saul.
pelo exército filisteu muitas vezes maior, 2) Descrição das Condições da Guerra
sua própria posição era extremamente (13.15b-23)
precária. O moral dos soldados civis sob
15Saul contou o povo que se achava com ele, cerca
seu comando ia rapidamente se deterio­ de seiscentos homens. 16E Saul, seu filho Jônatas
rando à medida que chegavam notícias de e o povo que se achava com eles, ficaram em Gibeá
contramedidas dos filisteus. As deserções de Benjamim, mas os filisteus se tinham acampado
constantemente aumentavam, e, mesmo em Micmás. l7Nisso os saqueadores saíram do
aquelas tropas que permaneciam, não se arraial dos filisteus em três companhias: uma das
dispunham a engajar-se em batalha até que companhias tomou o caminho de Ofra para a terra
de Suai, 18outra tomou o caminho de Bete-
se realizassem os devidos rituais religiosos -Horom, e a outra tomou o caminho do termo que
(Dt 20.1-20; 23; cf. ISm 21.4,5). Após dá para o vaie de Zeboim, na direção do deserta
esperar por Samuel os sete dias prescritos 19Ora, em toda a terra de Israel não se achava um
(ISm 10.8), Saul decidiu resolver ele mesmo só ferreiro; porque os filisteus tinham dito: Não
façam os hebreus para si nem espada nem lança.
a questão, oferecendo os sacrifícios prepa­ 20PeIo que todos os israelitas tinham que descer
ratórios. Quando Samuel finalmente aos filisteus para afiar cada um a sua relha, a sua
chegou ao acampamento, indicou que Saul enxada, o seu machado e o seu sacha 21Tinham
seria rejeitado como rei por seu ato presun­ porém limas para os sachos, para as enxadas, para
as forquilhas e para os machados, e para consertar
çoso. as aguilhadas. 22Assim, no dia da peleja, não se
Sérios conflitos claramente existiam achou nem espada nem lança na mão de todo o
entre Saul e Samuel desde os primórdios povo que estava com Saul e com Jônatas; acharam-
da monarquia, sem estarem claros os reais -se, porém, com Saul e com Jônatas seu filha 23E
saiu a guarnição dos filisteus para o desfiladeiro
motivos de suas divergências. Samuel de Micmás.
simplesmente disse que Saul não havia guar­
dado o mandamento que o Senhor lhe As terríveis condições que a combativa
ordenara. A transgressão de Saul tem sido monarquia israelita defrontava são breve­
costumeiramente interpretada como uma mente sumariadas. Saul, com somente
violação da função sacerdotal de oferecer seiscentos de seus três mil soldados iniciais,
sacrifício (Lv 14.20). Por outro lado, sabe- mudou-se de Gilgal para Geba, uma forta­
se de outros não levitas que ofereceram leza natural logo em frente do posto
sacrifício sem incorrer na ira divina (Jz avançado dos filisteus em Micmás. Com
6.25,26; ISm 13.9; lRs 18.30 e s.) suas forças superiores, os filisteus enviavam
Talvez Saul tivesse violado acordos feitos bandos de atacantes para devastar os terri­
em seus primeiros contatos com Samuel. tórios de que os guerrilheiros israelitas
“Esperarás sete dias até que eu vá ter precisavam para obter suprimentos. Saul
contigo e te declare o que hás de fazer” só era capaz de impedir que os inimigos
(10.8). Talvez Samuel suspeitasse que o rei penetrassem o país até o sul, onde estava
abrigasse uma disposição indevida de sua maior força. Mesmo ali, contudo, seus
dispensar a orientação divina, agora que o seguidores estavam em nítida desvantagem

55
devido ao estrito controle dos filisteus na de Israel. 19E sucedeu que, estando Saul ainda
falando com o sacerdote, o alvoroço que havia no
manufatura de instrumentos e armas de arraial dos filisteus ia crescendo muito; pelo que
ferro. Os israelitas, entretanto, eram espe­ disse Saul ao sacerdote: Retira a tua m ãa 20Então
cialistas na arte de guerra de guerrilhas. Saul e todo o povo que estava com ele se reuniram
e foram à peleja; e eis que dentre os filisteus a espada
3) Israel Alcança Vitória (14.1-23) de um era contra o outro, e houve mui grande
derrota.21Os hebreus que estavam dantes com os
'Sucedeu, pois, um dia, que Jônatas, filho úe
filisteus, e tinham subido com eles ao arraial,
Saul, disse ao seu escudeiro: Vem, passemos à guar­ também se ajuntaram aos israelitas que estavam
nição dos filisteus, que está do outro lado. Mas com Saul e Jônatas. 22E todos os homens de Israel
não o fez saber a seu pai. 2Ora, Saul estava na que se haviam escondido na região montanhosa
extremidade de Gibeá, debaixo da romeira que havia de Efraim, ouvindo que os filisteus fugiam, também
em Migrom; e o povo que estava com ele era cerca os perseguiram de perto na peleja. 23Assim o
de seiscentos homens; Je Aíja, filho de Aütube,
Senhor livrou a Israel naquele dia, e a batalha
irmão de Icabô, filho de Finéias, filho de Eli, sacer­ passou além de Bete-Áven.
dote do Senhor em Siló, trazia o éfode. E o povo
não sabia que Jônatas tinha ida 4Ora, entre os Nos dias de hoje a guerra de guerrilhas
desfiladeiros pelos quais Jônatas procurava chegar difere da do antigo Oriente Médio num
à guarnição dos filisteus, havia um penhasco de
um e de outro lado; o nome de um era Bozez, e aspecto importante. Na ausência de explo­
o nome do outro Sené. 5Um deles estava para o sivos e outros armamentos mais recentes,
norte defronte de Micmás, e o outro para o sul pequenas forças podiam, com êxito,
defronte de Gibeá. 6Disse, pois, Jônatas ao seu defender com relativa facilidade cidadelas
escudeiro: Vem, passemos à guarnição destes incir-
cuncisos; porventura operará o Senhor por nós,
localizadas em posições bem situadas.
porque para o Senhor nenhum impedimento há de Assim chegou-se a um impasse com a guar­
livrar com muitos ou com poucos. 7Ao que o seu nição filistéia em Micmás, Jônatas com um
escudeiro lhe respondeu: Faze tudo o que te pequeno contingente em Geba, e Saul com
aprouver; segue, eis-me aqui contigo para o que cerca de seiscentos israelitas numa locali­
quiseres. 8Disse Jônatas: Eis que passaremos
àqueles homens, e nos descobriremos a eles.9Se dade próxima de Migrom. Micmás e Geba
nos disserem: Parai até que cheguemos a vós; então estão separadas uma da outra cerca de três
ficaremos no nosso lugar, e não subiremos a eles. quilômetros, e localizadas em lados opostos
I0Se, porém, disserem: Subi a nós; então subi­ de uma íngreme ravina rochosa chamada
remos, pois o Senhor os entregou em nossas mãos;
isso nos será por sinal. “Então ambos se desco­
Wadi Suweinit. Os filisteus, novamente a
briram à guarnição dos filisteus, e os filisteus força mais forte, foram capazes de estabe­
disseram: Eis que já os hebreus estão saindo das lecer um posto avançado no próprio
cavernas em que se tinham escondida l2E os desfiladeiro (13.23).
homens da guarnição disseram a Jônatas e ao seu Jônatas viu nesse posto uma situação
escudeiro: Subi a nós, e vos ensinaremos uma coisa.
Disse, pois, Jônatas ao seu escudeiro: Sobe atrás que poderia transformar-se em vantagem
de mim, porque o Senhor os entregou na mão de para Israel. O terreno escarpado ao redor
Israel. 13Então trepou Jônatas de gatinhas, e o seu impedia sua captura por uma força de
escudeiro atrás dele; e os filisteus caíam diante de grandes proporções, mas a ausência de forti­
Jônatas, e o seu escudeiro os matava atrás dele.
l4Esta primeira derrota, em que Jônatas e o seu
ficações abria a possibilidade de que pudesse
escudeiro mataram uns vinte homens, deu-se dentro ser tomada de surpresa. Respondendo a um
de meia jeira de terra. 15Pelo que houve tremor no sinal divino (v. 9,10), Jônatas foi convidado
arraial, no campo e em todo o povo; também a a avançar pelos filisteus, que foram enga­
própria guarnição e os saqueadores tremeram; e nados por sua aproximação aberta e pela
até a terra estremeceu; de modo que houve grande
pânica I601haram, pois, as sentinelas de Saul em presença de somente dois homens. Após
Gibeá de Benjamim, e eis que a multidão se derretia, escalar com dificuldade a face da escarpa,
fugindo para cá e para lá. 17Disse então Saul ao Jônatas e seu escudeiro caíram sobre os
povo que estava com ele: Ora, contai e vede quem guardiões do posto tão subitamente que os
é que saiu dentre nós. E contaram, e eis que nem
Jônatas nem o seu escudeiro estavam ali. ISEntão
filisteus não tiveram oportunidade de valer-
Saul disse a Aíja: Traze aqui a arca de Deus. Pois se de sua superioridade numérica dentro
naquele dia estava a arca de Deus com os filhos dos limites de seu posto no alto da colina.

56
Logo estavam mortos vinte homens, e Israel suas forças. Rapidamente a batalha ganhou
havia ultrapassado outro marco em sua ímpeto, e, logo, até simpatizantes dos filis­
viagem de volta rumo à liberdade. teus e antigos desertores israelitas foram
A esta altura, dois detalhes nesta história atraídos de volta para lutar ao lado de Saul.
são especialmente dignos de nota. Primeiro,
Jônatas, não Saul, obteve as duas primeiras 4) Vitória Interrompida (14.24-46)
vitórias dramáticas na guerra de libertação ^Ora, os homens de Israel estavam já exaustos
de Israel. Este conhecimento bem pode ter naquele dia, porquanto Saul conjurara o povo,
propiciado um argumento àqueles que, por dizendo: Maldito o homem que comer pão antes
outras razões, opunham-se ao reinado de da tarde, antes que eu me vingue de meus inimigos.
Saul. Em segundo lugar, de conformidade Pelo que todo o povo se absteve de comer. 25Mas
todo o povo chegou a um bosque, onde havia mel
com a teologia da antiga liga tribal, Jônatas à flor da terra. 26Chegando, pois, o povo ao
atribuiu totalmente ao Senhor o sucesso bosque, viu correr o mel; todavia ninguém chegou
de toda a sua ação militar. Como ele a mão à boca, porque o povo temia a conjuração.
ressaltou, para o Senhor nenhum impedi­ 27Jônatas, porém, não tinha ouvido quando seu pai
conjurara o povo; pelo que estendeu a ponta da
mento há de livrar com muitos ou com vara que tinha na mão, e a molhou no favo de mel;
poucos. A súbita agitação causada pelo e, ao chegar a mão à boca, aclararam-se os olhos.
ataque de Jônatas pôs em confusão toda 28Então disse um do povo: Teu pai solenemente
a força dos filisteus. O resultado do assalto conjurou o povo, dizendo: Maldito o homem que
comer pão hoje. E o povo ainda desfalecia. 29Pelo
surpreendeu até mesmo os atacantes, que que disse Jônatas: Meu pai tem turbado a terra;
ficaram igualmente chocados com a repen­ ora vede como se me aclararam os olhos por ter
tina mudança de sorte dos filisteus. provado um pouco deste mel. 30Quanto maior não
Certamente aquilo era uma reviravolta de teria sido a derrota dos filisteus se o povo hoje ti­
“tremer o mundo”. vesse comido livremente do despojo, que achou de
seus inimigos? "Feriram, contudo, naquele dia aos
Enquanto o ataque inicial de Jônatas filisteus, desde Micmás até Aijalom. E o povo des­
ainda estava em andamento, vigias no faleceu em extremo; 32então o povo se lançou ao
acampamento de Saul perceberam a despojo, e tomou ovelhas, bois e bezerros e,
confusão da batalha e levaram as notícias degolando-os no chão, comeu-os com sangue. 33E
para seu líder. Um rápido exame de suas o anunciaram a Saul, dizendo: Eis que o povo está
pecando contra o Senhor, comendo carne com o
tropas revelou que até ali somente Jônatas sangue. Respondeu Saul: Procedestes deslealmente.
e seu escudeiro estavam envolvidos na esca­ Trazei-me aqui já uma grande pedra. 34Disse mais
ramuça. Saul teria agora de decidir quanto Saul: Dispersai-vos entre o povo, e dizei-lhes: Tra­
ao envolvimento de sua força principal zei-me aqui cada um o seu boi, e cada um a sua
ovelha, e degolai-os aqui, e comei; e não pequeis
nessa luta. A princípio ele buscou a orien­ contra o Senhor, comendo com sangue. Então todo
tação divina a respeito. O texto hebraico povo trouxe de noite, cada um o seu boi, e os dego­
assinala a presença da arca de Deus laram ali. 35Então edificou Saul um altar ao
enquanto antigas traduções gregas referem- Senhor; este foi o primeiro altar que ele edificou
ao Senhor. ^Depois disse Saul: Desçamos de noite
-se ao éfode de Aíja. Qualquer dessas atrás dos filisteus, e despojemo-los, até o amanhe­
possibilidades é viável uma vez que tanto cer, e não deixemos deles um só homem. E o povo
a arca (Jz 20.27; cf. lRs 2.26) quanto o éfode disse: Faze tudo o que parecer bem aos teus olhos.
(ISm 23.9-12; 30.7,8) estavam associados Disse, porém, o sacerdote: Cheguemo-nos aqui a
com o Urim e o Tumim, que eram empre­ Deus. 37Então consultou Saul a Deus, dizendo:
Descerei atrás dos filisteus? entregá-los-ás na mão
gados para determinar a vontade do Senhor de Israel? Deus, porém, não lhe respondeu naquele
(Ex 28.30). Seja como for, Saul interrompeu d ia .18Disse, pois, Saul: Chegai-vos para cá, todos
o sacerdote, cuja mão já estava estendida os chefes do povo; informai-vos, e vede em que se
para lançar sortes e assim descobrir a cometeu hoje este pecado; 39porque, como vive o
vontade de Deus. O intenso fragor da Senhor que salva a Israel, ainda que seja em meu
filho Jônatas, ele será m orta Mas de todo o povo,
batalha inspirou Saul a, de sua própria ninguém lhe respondeu. 40Disse mais a todo o
iniciativa, atacar os filisteus com todas as Israel: Vós estaris dum lado, e eu e meu filho

57
Jônatas estaremos do outra Então disse o povo ro, mas não houve resposta alguma. Agora,
a Saul: Faze o que bem parecer aos teus olhos. o ímpeto para lutar estava lamentavelmen­
4IFalou, pois, Saul ao Senhor Deus de Israel: te perdido, e Saul exigiu com maior ênfase
Mostra o que é justa E Jônatas e Saul foram
tomados por sorte, e o povo saiu livre. 42Então saber quem fora culpado. Novamente os
disse Saul: Lançai a sorte entre mim e Jônatas, dados sagrados foram consultados e, por
meu filha E foi tomado Jônatas. 43Disse então fim, Jônatas foi sorteado. Ante a indaga­
Saul a Jônatas: Declara-me o que fizeste: E Jôna­ ção do pai, Jônatas prontamente admitiu
tas lho declarou, dizendo: Provei, na verdade, um
pouco de mel com a ponta da vara que tinha na
que havia, sem o saber, transgredido a mal­
mão; eis-me pronto a morrer.44Ao que disse Saul: dição de seu pai e declarou-se pronto a pa­
Assim me faça Deus, e outro tanto, se tu, certa­ gar com a vida. A justiça inata do povo
mente, não morreres, Jônatas. 45Mas o povo disse prevaleceu, contudo, e nenhum mal foi
a Saul: Morrerá, porventura, Jônatas, que operou permitido sobre aquele cuja incursão vito­
esta grande salvação em Israel? Tàl não suceda!
como vive o Senhor, não lhe há de cair no chão riosa tinha acarretado sucesso para Israel
um só cabelo da sua cabeça! pois com Deus fez naquele dia. O filho do rei foi resgatado,
isso hoje. Assim o povo livrou Jônatas, para que provavelmente com um sacrifício animal,
não morresse. 46Então Saul deixou de perseguir e o incidente foi encerrado com israelitas
os filisteus, e estes foram para o seu lugar.
e filisteus retornando a seus lugares.
Por grande que tenha sido a vitória de Não devemos, como leitores modernos,
Israel em Micmás, ela poderia ter sido ficar muito perturbados com indagações
ainda maior se não fosse o voto insensato teológicas após ler esta narrativa chocante.
de Saul. Em sua ânsia de perseguir os filis­ Na verdade, é precisamente em experiên­
teus, Saul pronunciou uma maldição sobre cias como essas que identificamos os seve­
qualquer que fizesse uma pausa antes do ros testes históricos em que a fé do Antigo
cair da noite, mesmo que fosse apenas para Testamento estava sendo refinada. Con­
comer. Apesar de exaustos como se acha­ quanto os israelitas não fossem filósofos
vam devido à fúria da luta, o povo perma­ especuladores, eles encaravam honesta e
neceu fiel às instruções do rei, mesmo corajosamente os problemas de sua fé, e
quando encontraram mel silvestre nas este incidente proporciona um bom exem­
matas por onde passavam. Somente Jônatas, plo de sua sensata perspectiva de vida.
que não estava ciente da maldição de seu Q antigo autor começou com um
pai, valeu-se do rico alimento que a natu­ conjunto de fatos aceitos: Israel iniciou a
reza concedia. guerra de independência com uma vitória
Quando a noite desceu, contudo, o povo espetacular, mas foi incapaz de manter o
caiu sobre o gado que havia tomado como ímpeto inicial. Ele então empregou uma
espólio e comeu sua carne sem esperar que percepção religiosa válida: Deus se envolve
o sangue fosse ritualmente drenado dela. na história e fortalece os braços daqueles
Assim consumiram o sangue, que era santo cuja causa é justa. Contudo, o escritor fica
ao Senhor e deveria ter sido derramado com um problema teológico. Fbr que Deus,
ao lado do altar por um sacerdote (Lv que havia concedido a primeira vitória,
17.10-15; 1.5). Quando Saul soube que não continuou arrasando com os filisteus?
haviam violado práticas religiosas da lei, A resposta-padrão e mais óbvia é qne
improvisou um altar para impedir viola­ alguém dentro das tropas de Israel havia
ções maiores da parte do povo. pecado e incorrido na ira divina (cf. Js 7).
Quando o povo se fartou, Saul estava O relato bíblico torna bastante claro que,
pronto para reencetar a perseguição aos fi­ nesse caso em particular, nenhuma das
listeus, até que um sacerdote sugeriu que personagens é completamente inocente.
o Senhor devia ser consultado primeiro. Saul havia entrado na batalha de Micmás
No que foi, sem dúvida, um longo proce­ sem terminar sua consulta em busca de-
dimento, o Senhor foi buscado o dia intei­ conselho divino (14.19). Também, no trans-

58
curso do combate, ele impulsivamente eram estes: o da mais velha Merabe, e o da mais
invocou uma maldição que privava seus nova Mical. 50O nome da mulher de Saul era
Ainoã, filha de Aünaaz; e o nome do chefe de seu
homens das energias necessárias para a exército, Abner, filho de Ner, tio de Saul. 51Quis,
perseguição dos inimigos. Igualmente, o filho de Saul, e Ner, pai de Abner, eram filhos de
povo como um todo havia incorrido em Abiel. 52E houve forte guerra contra os filisteus,
culpa ritual por ingerir indevidamente o por todos os dias de Saul; e sempre que Saul via
sangue de animais que matou para comer. algum homem poderoso e valente;, o agregava a si.
Por fim e sem tanta importância, havia
Jônatas que inadvertidamente quebrara o Este sumário do reinado de Saul é em­
juramento de seu pai por comer um pouco pregado pelo autor bíblico para mostrar
de mel. que sua história sobre o primeiro rei de
Israel alcançava agora o clímax. Está para
Agora o antigo teólogo está pronto para
se transferir a atenção para Davi, a próxi­
apresentar seu problema mais espinhoso.
O que se deve fazer quando o sorteio divi­ ma personagem principal no drama nacio­
nal (Introdução, V, 1). Ainda haverá rela­
no aponta alguém cuja ofensa parece ser
tos acerca de Saul; mas a partir deste ponto
a mais inócua, aliás, alguém que até esse
ponto tem sido o herói de Deus para a seu sucesso entra em declínio, enquanto o
de seu sucessor ganha brilho cada vez
ocasião? A despeito do amor paternal pelo maior.
filho, Saul estava preparado para executar
Jônatas devido a uma consciência de obri­ Até aqui, os principais esforços de Saul
foram gastos na tentativa de assegurar uma
gação diante de Deus. O povo, contudo,
sentiu que essa solução não refletiria transição suave de um sistema tribal para
adequadamente a justiça inerente à natu­ um sistema monárquico de governo em
meio a profundas alterações econômicas,
reza de Deus. Inconscientemente, eles se políticas e religiosas. Somente o inicio de
firmaram mais em sua percepção espiritual
inata do que em qualquer meio exterior de seu próprio reinado é apresentado com
maiores detalhes, mas o estabelecimento
compreensão da vontade divina. Recu-
saram-se a permitir que qualquer mal da monarquia e a sobrevivência da nação
viesse a seu herói, Jônatas, e decidiram que seguem de mãos dadas.
De fato, todo o reinado de Saul é avalia­
ele devia ser resgatado. Esta prática de
substituir a vida de um homem pela de um do com base em suas realizações militares.
animal é conhecida em outros trechos, do Enumeram-se campanhas bem-sucedidas
contra Amom, Moabe e Edom, a oriente
Antigo Testamento, principalmente no
do Jordão, e contra os amalequitas, no
tocante ao resgate do primogênito (Ex
13.13; 34.20; cf. 21.18,30). A medida foi extremo sul. Pelo menos alguns contatos
com povos arameus são indicados por suas
aparentemente tomada para que não se
desafiasse abertamente a revelação feita batalhas contra os reis de Zobá. Os filis­
teus, contudo, continuaram a perturbar
pelo sorteio divino, e ao mesmo tempo se
Israel por todos os dias de Saul e estavam
atendesse à causa da justiça.
novamente no controle da maior parte da
terra quando ele foi morto na batalha do
5) Sinopse do Reinado de Saul (14.47-52) monte Gilboa.
47Tendo Saul tomado o reino sobre Israel,
Saul também se destacou por suas
pelejou contra todos os seus inimigos em redor: inovações na organização militar de Israel.
contra Moabe, contra os filhos de Amom, contra A antiga liga tribal não mantinha um exér­
Edom, contra os reis de Zobá e contra os filisteus; cito regular, mas em vez disso utilizavam
e, para onde quer que se voltava, saía vitoriosa uma milícia convocada dentre as tribos que
‘‘‘Houve-se valorosamente, derrotando os amale-
q uitas, e libertando Israel da mão dos que o a constituiam. Saul continuava a depender
saqueavam. 49Ora, os filhos de Saul era Jônatas, grandemente de um exército convocado na
Isvi e Malquisua; os nomes de suas duas filhas hora de necessidade, mas foi o pioneiro no

59
desenvolvimento de uma liderança profis­ Segundo o arranjo global do material
sional treinada. Assim, quando quer que nos livros de Samuel, este capítulo, que tra­
visse um homem com destacada habilidade ta da rejeição de Saul como rei, é realmente
natural, o agregava a si. parte da história da ascensão de Davi ao
Mesmo nesses breves relatos do reinado poder (Introdução, V, 1). Como se pela
de Saul, somos capazes de ver nele uma primeira vez (cf. 13.1-15), as razões para a
das grandes figuras trágicas do Antigo Tes­ rejeição de Saul são rememoradas. Neste
tamento. Suas realizações foram consi­ capítulo Saul é condenado por seu fracasso
deráveis, contudo outros homens continua­ em seguir a instrução divina.
mente faziam-lhe sombra nas afeições do Novamente o palco para o incidente é
povo (18.7). Ele era um homem religioso uma guerra envolvendo Israel. Desta vez,
por natureza (10.10; 14.44), contudo foi contudo, o conflito é precipitado não por
finalmente rejeitado pelo Senhor, que o pressões exteriores sobre o estado hebreu,
havia escolhido para ser rei. Foi uma im­ mas por uma guerra de retaliação. O Se­
portante figura militar, mas Davi foi nhor pedira o total aniquilamento dos
maior. Todavia, quaisquer que possam ter amalequitas por sua oposição a Israel
sido suas deficiências, ele ajudou a prepa­ durante a conquista (Ex 17.8-16; Nm 14.45;
rar a nação para enfrentar os anos à frente. Dt 25.17-19). Essas pessoas pertenciam a
um pouco coeso grupo de nômades do
III. Ascensão e Reinado de Davi deserto meridional, que continuamente
(ISm 15.1—2Sm 8.18) realizava ataques à fronteira judaica.
1. Saul Rejeitado Como Rei (15.1-35) Esse aniquilamento era “guerra santa”
do tipo apropriadamente associado com a
1) Saul Transgride a Ordem de Deus (15.1-9) antiga liga tribal e posta em prática sobre­
tudo durante a conquista de Canaã. Num
'Disse Samuel a Saul: Enviou-me o Senhor a
ungir-te rei sobre o seu povo, sobre Israel; ouve, tal tipo de guerra, o inimigo e todos os seus
pois, agora as palavras do Senhor. 2Assim diz o bens eram postos sob interdição (cherem),
Senhor dos exércitos: Castigarei a Amaleque por isto é, nenhum despojo se deveria tomar
aquilo que fez a Israel quando se lhe opôs no do inimigo derrotado. Todas as pessoas e
caminho, ao subir ele do Egito. 3Vai, pois, agora
e fere a Amaleque, e o destrói totalmente com tudo
animais deviam ser mortos, e todos os bens
o que tiver; não o poupes, porém matarás homens de valor deviam ser queimados em consa­
e mulheres, meninos e crianças de peito, bois e gração ao Senhor (Js 6.17,21).
ovelhas, camelos e jumentos. 4Então Saul
convocou o povo, e os contou em Telaim, duzentos A destruição total do inimigo e seus
mil homens de infantaria, e mais dez mil dos de bens teoricamente removia todos os moti­
Judá. 5Chegando, pois, Saul à cidade de vos de ganho pessoal, e os que participa­
Amaleque, pôs uma emboscada no vale. f'E disse vam na batalha lutavam somente para a
Saul aos queneus: Ide, retirai-vos, saí do meio dos
amalequitas, para que eu não vos destrua junta­
glória de Deus. Na realidade, porém, po­
mente com eles; porque vós usastes de misericórdia dem continuar existindo muitas conside­
com todos os filhos de Israel, quando subiram do rações de ordem prática. Na batalha de
Egito. Retiraram-se, pois, os queneus do meio dos Saul contra os amalequitas, por exemplo,
amalequitas. 7Depois Saul feriu os amalequitas o conceito de “guerra santa”, que estava
desde Havilá até chegar a Sur, que está defronte
do Egito. 8E tomou vivo a Agague, rei dos amale­ associado com a antiga tribal, poderia ter
quitas, porém a todo o povo destruiu ao fio da ajudado a obter apoio para Saul entre os
espada. 9Mas Saul e o povo pouparam a Agague, que ainda favoreciam aquele sistema polí­
como também ao melhor das ovelhas, dos bois, e tico. Igualmente, o povo de Judá foi atraí­
dos animais engordados, e aos cordeiros, e a tudo
o que era bom, e não os quiseram destituir total­ do para mais perto de Israel com a ajuda
mente; porém a tudo o que era vil e desprezível de Saul em subjugar seus problemáticos
destruíram totalmente. vizinhos ao sul.

60
O ataque de Saul contra a cidade de respondeu Saul a Samuel: Pelo contrário^ dei
Amaleque provavelmente não deve ser ouvidos à voz do Senhor, e caminhei no caminho
considerado um cerco a uma cidade em pelo qual o Senhor me enviou, e trouxe a Agague,
rei de Amaleque, e aos amalequitas destruí total­
particular. Uma vez que esse povo era mente; 21mas o povo tomou do despojo ovelhas e
nômade, não dispondo de cidades muradas bois, o melhor do anátema, para o sacrificar ao
tais como as que eram comuns em outras Senhor teu Deus em Gilgal. 22Samuel, porém,
partes da Palestina, parece mais provável disse: Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em
holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça
que os israelitas mandaram dizer aos à voz do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do
queneus que se retirassem de território que o sacrificar, e o atender, do que a gordura de
amalequita (v. 6) antes de começarem uma carneiros. “ Porque a rebelião é como o pecado de
série de ataques e emboscadas contra os adivinhação, e a obstinação é como a iniqüidade
campos inimigos (v. 5). Obviamente» nem de idolatria. Porquanto rejeitaste a palavra do
Senhor, ele também te rejeitou a ti, para que não
todos os amalequitas foram aniquilados, sejas rei.
uma vez que Davi continuou a combatê-
los durante sua fuga de diante de Saul Parece que Saul estava tentando obter
(30.1). algum benefício pessoal duma expedição
que fora empreendida como uma “guerra
O relato bíblico está menos preocupado santa”. Conquanto o Senhor merecesse
com os detalhes da campanha do que com louvor por vencer as batalhas de Israel
sua conclusão: Saul fracassou em pautar-
se segundo a interdição Ele poupou o rei (14.6), Saul erigiu um monumento para si
e o melhor do gado, e, quando sua seleti­ próprio no Carmelo (logo ao sul de
vidade foi mencionada, suas motivações Hebrom). Ele aparentemente também
tencionava divertir-se à custa de Agague,
imediatamente se tornaram suspeitas.
o rei amalequita, ou talvez empregá-lo para
demonstrar sua própria grandeza. Mesmo
2) Saul Rejeitado Como Rei (15.10-23)
o desejo de Saul por sacrificar em Gilgal
10Então veio a palavra do Senhor a Samuel, os animais seletos pode ter um motivo
dizendo: uArrependo-me de haver posto a Saul oculto. O povo podia participar de um sacri­
como rei; porquanto deixou de me seguir, e não fício regular (veja comentário sobre 1.1-8),
cumpriu as minhas palavras. Então Samuel se
contristou, e clamou ao Senhor a noite toda. 1ZE mas não de animais separados sob o cherem.
Samuel madrugou para encontrar-se com Saul pela Para muitos leitores modernos a punição
manhã; e foi dito a Samuel: Já chegou Saul ao de Saul por violar o cherem (interdito) na
Carmelo, e eis que levantou para si uma coluna e, batalha contra Amaleque parece arbitrária
voltando, passou e desceu a Gilgal. BVeio, pois,
Samuel ter com Saul, e Saul lhe disse: Bendito sejas e irrefletida. Contudo, o belo salmo de
do Senhor; já cumpri a palavra do Senhor. 14Então Samuel ressalta a questão fundamental —
perguntou Samuel: Que quer dizer, pois, este balido obediência. Já se demonstrou que a alte­
de ovelhas que chega aos meus ouvidos, e o mugido ração das regras do cherem por Saul
de bois que ouço? 15Ao que respondeu Saul: De envolvia julgamentos questionáveis. O que
Amaleque os trouxeram, porque o povo guardou
o melhor das ovelhas e dos bois, para os oferecer está aqui envolvido é muito mais do que
ao Senhor teu Deus; o resto, porém destruímo-lo uma cega conformidade a regulamentos
totalmente. 16Então disse Samuel a Saul: Espera, cultuais. As regras para o cherem não eram
e te declararei o que o Senhor me disse esta noite. mais invioláveis do que as para sacrifício
Respondeu-lhe Saul: Fala. 17Prosseguiu, pois,
Samuel: Embora pequeno aos teus próprios olhos, Saul foi condenado porque seus julga­
porventura não foste feito o cabeça das tribos de mentos conflitavam com a vontade de Deus.
Israel? O Senhor te ungiu rei sobre Israel; I8e bem Na vida real, as decisões são inevitáveis,
assim te enviou o Senhor a este caminho, e disse: mas o homem tem responsabilidade derra­
Vai, e destrói totalmente a estes pecadores, os amale­ deira por perceber a revelação divina. Saul
quitas, e peleja contra eles, até que sejam
aniquilados. I9Por que, pois, não deste ouvidos à teve negada uma dinastia duradoura por
voz do Senhor, antes te lançaste ao despojo, e fizeste causa de sua rebelião contra a direção de
o que era mau aos olhos do Senhor? 20Então Deus.

61
O anúncio do Senhor de sua rejeição de -me aqui a Agague, rei dos amalequitas. E Agague
Saul produziu reações incomuns em veio a ele animosamente; e disse: Certamente já
Samuel. Primeiro, ele ficou irado, e depois passou a amargura da morte. 33Disse, porém,
Samuel: Assim como a tua espada desfilhou a
clamou ao Senhor a noite toda. Os motivos mulheres, assim ficará desfilhada tua mãe entre
para essa reação de Samuel não são indi­ as mulheres. E Samuel despedaçou a Agague
cados, mas presumivelmente estava irado perante o Senhor em Gilgal. 34Então Samuel se
porque a obra em que havia investido tanto foi a Ramá; e Saul subiu a sua casa, a Gibeá de
Saul. 35Ora, Samuel nunca mais viu a Saul até o
de sua vida agora parecia repudiada. Sua dia da sua morte, mas Samuel teve dó de Saul. E
ira também pode ocultar temor causado o Senhor se arrependeu de haver posto a Saul rei
pela evidente contradição entre esses novos sobre Israel.
acontecimentos e o que ele havia entendido
Os problemas de personalidade de Saul,
como a vontade do Senhor até aquele que mais tarde se tornariam evidentes a
tempo. Seja qual for a explicação para sua todos, já estavam se manifestando na
ira, Samuel emergiu de uma noite angus- batalha contra Amaleque. À medida que
\ tiosa de oração pronto para defrontar Saul diminuía seu senso de segurança interior,
com o juízo do Senhor. Saul ia se tornando excessivamente preo­
O lado trágico da personalidade de Saul
cupado com a opinião pública. Mesmo
vem novamente à tona pelo fato de ele
como rei, ele não estava disposto a resistir
parecer genuinamente não ter consciência aos desejos do povo. Estava também ansioso
de qualquer erro de sua parte no episódio por manter uma aparência de entrosamento
amalequita. Ele não hesitou em alegrar-se com Samuel após sua rejeição pelo Senhor
com a companhia de Samuel na jornada ter-se tornado definitiva. Conquanto essas
para Gilgal. Reivindicou o cumprimento
tensões interiores sejam compreensíveis à
da ordem do Senhor mesmo após ter ouvido
luz de sua luta inicial para estabelecer a
a condenação da parte de Samuel. Pode
monarquia, elas, não obstante, prejudi­
também ter-se sentido livre de responsabi­ caram severamente sua capacidade de atuar
lidade quanto às ações do povo. Foi, como rei de Israel.
contudo, precisamente essa falta de julga­
Como sinal exterior da rejeição, pelo
mento ético que mais severamente Senhor, de Saul como rei, Samuel realizou
questionou seu direito de governar. dois atos simbólicos. O primeiro tem a ver
com o rasgar a capa como sinal de que Deus
3) Samuel Abandona Saul (15.24-35) havia retirado o reino do controle de Saul.
Nossa tradução introduz um tom dramá­
Z4Então disse Saul a Samuel: Pequei, por­
quanto transgredi a ordem do Senhor e as tuas tico no versículo 27: E, virando-se Samuel
palavras; porque temi ao povo, e dei ouvidos à sua para se ir, Saul pegou-lhe pela orla da capa,
voz.25Agora, pois, perdoa o meu pecado, e volta a qual se rasgou. O texto hebraico, contudo,
comigo, para que eu adore ao Senhor. “ Samuel não contém o nome de Saul, e é Samuel
porém disse a Saul: Não voltarei contigo; por­ quem realiza o ato de simbolismo profético.
quanto rejeitaste a palavra do Senhor, e o Senhor
te rejeitou a ti, para que não sejas rei sobre Israel. O fato de Samuel se afastar de Saul, ocor­
Z7E, virando-se Samuel para se ir, Saul pegou-lhe rido contra suas próprias inclinações
pela orla da capa, a qual se rasgou. Z8Então pessoais, também simboliza a retirada do
Samuel lhe disse: O Senhor rasgou de ti hoje o apoio do Senhor. Assim como o ardente
reino de Israel, e o deu a um teu próximo, que é
melhor do que tu. “ Tkmbéin aquele que é a Força apelo de Saul conseguiu um adiamento
de Israel não mente nem se arrepende, porquanto temporário da partida de Samuel, da mésma
não é homem para que se arrependa. 30Ao que forma Deus permitiu que Saul continuasse
disse Saul: Pequei; honra-me, porém, agora diante a reinar até sua morte; seus herdeiros é que
dos anciãos do meu povo, e diante de Israel, e volta
comigo, para que eu adore ao Senhor teu Deus.
sofreram o golpe de sua rejeição.
31Entãoi, voltando Samuel, seguiu a Saul, e Saul Na expressão a Força de Israel vemos
adorou ao Senhor. 3ZEntão disse Samuel: Trazei- o uso de uma descrição ou de um atributo

62
de Deus como substituto para o nome e vem; enviar-te-ei a Jessé o belemita, porque den­
divino. Esta prática era especialmente tre os seus filhos me tenho provido de um rei.
2Disse, porém, Samuel: como irei eu? pois Saul o
comum no período final do Antigo Testa­ ouvirá e me matará. Então disse o Senhor: Leva
mento, quando os israelitas tomaram contigo uma bezerra, e dize: Vim, para oferecer
precauções especiais para não violarem o sacrifício ao Senhor. 3E convidarás a Jessé para
terceiro mandamento. o sacrifício, e eu te farei saber o que hás de fazer;
Na forma atual dos textos, há uma e ungir-me-ás a quem eu te designar. 4Fez, pois,
Samuel o que dissera o Senhor, e veio a Belém;
contradição patente entre o versículo 29 então os anciãos da cidade lhe saíram ao encontro,
e os versículos 11 e 35b. O problema parece tremendo, e perguntaram: Ë de paz a tua vinda?
ser precipitado pelo uso que o autor faz de sRespondeu ele: Ë de paz; vim oferecer sacrifício
termos denotando atividade humana ao Senhor. Santificai-vos, e vinde comigo ao sacri-
fício. E santificou ele a Jessé e a seus filhos, e os
mental ou emocional para referir-se a Deus. convidou para o sacrifício. 6E sucedeu que,
Surge a pergunta: Pode Deus mudar de entrando eles, viu a Eliabe, e disse: Certamente
“idéia”? É bem possível que um antigo está perante o Senhor o seu ungido. 7M as o
copista tenha incluído no corpo do texto Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua
comentários marginais contendo tais senti­ aparência, nem para a grandeza da sua estatura,
porque eu o rejeitei; porque o Senhor não vê como
mentos (cf. Nm 23.19). Por outro lado, um vê o homem, pois o homem olha para o que está
único autor pode ter reconhecido nessas diante dos olhos, porém o Senhor olha para o
declarações conflitantes um paradoxo da coração. 8Depois chamou Jessé a Abinadabe, e o
natureza divina. Qualquer declaração vis­ fez passar diante de Samuel, o qual disse: Nem
a este escolheu o Senhor. 9Então Jessé fez passar
ta isoladamente pode levar a uma com­ a Samá; Samuel, porém, disse: Ikmpouco a este
preensão errônea do caráter de Deus. escolheu o Senhor.10Assim fez passar Jessé a sete
Juntas representam uma idéia semelhante de seus filhos diante de Samuel; porém Samuel
àquela encontrada em Salmo 103.8,9: a disse a Jessé: O Senhor não escolheu a nenhum
paciência de Deus não é sem limites. Ele destes. “ Disse mais Samuel e Jessé: São estes
todos os teus filhos? Respondeu Jessé: Ainda falta
não se faz de surdo aos apelos do homem, o menor, que está apascentando as ovelhas. Disse,
mas é sempre fiel a seu próprio caráter. É pois, Samuel a Jessé: Manda trazê-lo^ porquanto
certo que, no final, haverá julgamento. não nos sentaremos até que ele venha aqui. 12Jessé
Em linguagem contemporânea não mandou buscá-lo e o fez entrar. Ora, ele era ruivo,
de belos olhos e de gentil aspecta Então disse o
diríamos abertamente que Saul atingira um Senhor: Levanta-te, e unge-o, porque é este mesma
ponto em que Deus não mais o perdoaria. 13Então Samuel tomou o vaso de azeite, e o ungiu
Contudo, sua rebelião tinha-se desenvolvido no meio de seus irmãos; e daquele dia em diante
tão completamente que sua vida teria de o Espírito do Senhor se apoderou de Davi. Depois
suportar os frutos das sementes que havia Samuel se levantou, e foi para Ramá.
plantado. A despeito da penitência de Saul, A atitude ambivalente de Samuel para
Samuel nada mais faria do que postergar com Saul é claramente demonstrada nesta
seu rompimento final com o rei. passagem. Até então a relutância de Sa­
Samuel nunca mais viu a Saul até o dia muel em ungir Saul como rei havia sido
da sua morte. Isto provavelmente significa enfatizada e só ocasionalmente indícios
que Samuel retirou-se da vida oficial na haviam sido deixados sobre uma amizade
corte de Saul, uma vez que Saul aparente­ entre os dois homens (10.1,24; 15.10).
mente o visitou em Naiote (19.24). Contudo,
Neste contexto Samuel é levado a agir
o povo de Israel sabia, pelo afastamento de
tanto por afeição quanto por temor diante
Samuel, que o rei não mais desfrutava da de Saul.
confiança ou apoio do profeta. O Senhor interrompeu as reflexões de
2. Davi Ungido Futuro Rei (16.1-13) Samuel sobre a sorte do rei e ordenou que
'Então disse o Senhor a Samuel: Até quando
o profeta fosse a Belém para ungir o gover­
terás dó de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que nante que sucederia a Saul. O temor de
não reine sobre Israel? Enche o teu vaso de azeite, Samuel em incorrer na ira real indica quais

63
seriam as realidades políticas da época. A Jessé, Davi, foi trazido do trabalho de cui­
influência do profeta repousava em seus dar das ovelhas de seu pai, Samuel recebeu
poderes de persuasão, e a influência do rei instrução para agir, pois aquele estava
repousava em seu contingente de soldados. destinado a ser o ungido do Senhor.
Para proteger tanto o profeta quanto o Com a unção por Samuel, daquele dia
recém-designado príncipe (nagid) de Israel, em diante o Espírito do Senhor se apode­
Samuel foi instruído a associar sua busca rou de Davi. As manifestações exteriores
por um rei com uma peregrinação rotineira que acompanham essa ocorrência variam
a Belém. consideravelmente Diferentemente de San-
Até este ponto, nada na história expli­ são (Jz 14.19) e Saul (ISm 10.10,11; 19.23,
caria a atitude temerosa dos anciãos da 24), Davi não revelou formas violentas de
cidade perante Samuel. Possivelmente eles atividade como prova visível dessa expe­
simplesmente ficaram tomados de respeito riência. Aparentemente a presença do
diante da visita de uma pessoa de proemi­ Espírito do Senhor na vida de Davi sim­
nência nacional em sua aldeia. A veemência plesmente indicava que ele, daí em diante,
da reação deles sugere, contudo, que estava divinamente equipado para desem­
questões mais poderosas estariam em jogo. penhar seu papel como rei de Israel.
Talvez, como imagina Hertzberg (p. 137),
os anciãos da cidade temiam verem-se envol­ 3. Davi Reúne-se à Corte de Saul
vidos na animosidade entre Samuel e Saul. (16.14—18.5)
Mais tarde a sorte dos habitantes de Nobe 1) Davi Torna-se Escudeiro de Saul
(22.11-19) indica que tal preocupação não (16.14-23)
teria sido sem motivo.
14Ora, o Espirito do Senhor retirou-se de Saul,
Samuel assegurou aos anciãos que suas e o atormentava um espírito maligno da parte do
intenções eram pacíficas e convidou-os a Senhor. 15Então os criados de Saul lhe disseram:
assistirem ao sacrifício juntamente com Eis que um espirito maligno da parte de Deus te
Jessé e seus filhos. O texto fala da consa­ atormenta; 16dize, pois, senhor nosso, a teus servos
gração dos participantes na cerimônia, que estão na tua presença, que busquem um homem
que saiba tocar harpa; e quando o espírito maligno
provavelmente por uma cerimônia de da parte do Senhor vier sobre ti, ele tocará com
lavagem, mas nada mais se diz sobre o a sua mão, e te sentirás melhor. 17Então disse Saul
próprio sacrifício. Claramente, a questão aos seus servos: Buscai-me, pois, um homem que
de maior interesse é a designação da esco­ toque bem, e trazei-mo. '“Respondeu um dos
lha do Senhor entre os filhos de Jessé. mancebos: Eis que tenho visto um filho de Jessé,
o belemita, que sabe tocar bem, e é forte e deste­
A escolha de Davi entre seus irmãos faz mido, homem de guerra, sisudo em palavras, e de
lembrar da escolha de Saul, por sorteio, gentil aspecto; e o Senhor é com ele. '’Pelo que
dentre todas as tribos de Israel (10.17-24). Saul enviou mensageiros a Jessé, dizendo: Envia-
Eliabe, o filho mais velho de Jessé, causou -me Davi, teu filho, o que está com as ovelhas.
“ Jessé, pois, tomou um jumento carregado de pão,
impressão favorável em Samuel, mas não e um odre de vinho, e um cabrito, e os enviou a
foi escolhido pelo Senhor. As instruções de Saul pela mão de Davi, seu filha 21Assim Davi
Samuel para não considerar a estatura dos veio e se apresentou a Saul, que se agradou muito
candidatos em potencial parece indicar um dele e o fez seu escudeira 22Então Saul mandou
dizer a Jessé: Deixa ficar Davi ao meu serviço,
repúdio às qualificações pelas quais Saul pois achou graça aos meus olhos. 23E quando o
foi escolhido (10.23). A preocupação de espirito maligno da parte de Deus vinha sobre
Deus agora se concentrava nas qualidades Saul, Davi tomava a harpa, e a tocava com a sua
invisíveis de caráter, liderança e obediência. mão; então Saul sentia alívio^ e se achava melhor,
A dramaticidade do momento foi nova­ e o espírito maligno se retirava dele.
mente realçada pela ausência do escolhido A história da unção de Davi é seguida
do Senhor quando do acontecimento (cf. por dois relatos de sua admissão na corte
10.22). Quando o filho mais jovem de de Saul. O primeiro está ligado à habilida-

64
de de Davi como músico, e o outro, à sua 2) Davi Combate o Gigante (17.1—18.5)
vitória sobre Golias.
Após a rejeição de Saul como rei, o Es­ a. Golias Lança um Desafio (17.1-11)
pírito do Senhor o deixou e um espírito
'Ora, os filisteus ajuntaram as suas forças para
maligno da parte do Senhor veio sobre ele. a guerra e congregaram-se em Socó, que pertence
Conquanto Deus houvesse abençoado os a Judá, e acamparam éntre Socó e Azeca, em Efes-
esforços de Saul nos primeiros anos de seu -Damim. 2Saul, porém, e os homens de Israel se
reinado, o rei agora achava-se cada vez ajuntaram e acamparam no vale de Elá, e orde­
naram a batalha contra os filisteus. 3Os filisteus
mais incapaz de agir com eficácia. Ele estavam num monte de um lado, e os israelitas
tornou-se sujeito a ataques em que sua estavam num monte do outro lado; e entre eles o
personalidade normal era “posta de lado”, vale. 4Então saiu do arraial dos filisteus um
e ele parecia motivado por um “espírito campeão, cujo nome era Golias, de Gate, que tinha
mau”. Esse espírito maligno estava asso­ de altura seis côvados e um palmo. SrD-azia na
cabeça um capacete de bronze, e vestia uma
ciado ao Senhor porque o antigo escritor couraça escameada, cujo peso era de cinco mil
não conseguia imaginar qualquer evento siclos de bronze. 6Tàmbém trazia grevas de bronze
importante ocorrendo à parte do controle nas pernas, e um dardo de bronze entre os ombros.
de Deus (cf. Is 45.7). Somente no pensa­ 7A haste da sua lança era como o órgão de um
tear, e a ponta da sua lança pesava seiscentos siclos
mento posterior do Antigo Testamento é de ferro; adiante dele ia o seu escudeira *Ele, pois,
que as possessões demoníacas foram intro­ de pé, clamava às fileiras de Israel e dizia-lhes: Por
duzidas como explicação para a origem do que saistes a ordenar a batalha? Não sou eu filisteu,
mal (lCr 21.1; cf. 2Sm 24.1). Num racio­ e vós servos de Saul? Escolhei dentre vós um
cínio análogo, os cristãos são advertidos a homem que desça a mim. 9Se ele puder pelejar
comigo e matar-me, seremos vossos servos; porém,
não atribuir as tentações do homem a se eu prevalecer contra ele e o matar, então
Deus (Tg 1.13-15). Hoje diríamos que Saul sereis nossos servos, e nos servireis. 10Disse mais
sofria de uma doença mental ou emo­ o filisteu: Desafio hoje as fileiras de Israel; dai-me
cional. um homem para que nós dois pelejemos. "Ouvin­
do, então, Saul e todo o Israel estas palavras do
Saul foi convencido por membros de sua filisteu, desalentaram-se, e temeram muita
corte a procurar um músico cuja habilida­
de em tocar harpa pudesse diminuir o Um segundo relato da apresentação de
impacto das explosões de gênio do rei. Davi a Saul encontra-se na história da
Davi foi recomendado por um dos servos vitória de Davi sobre Golias. Neste relato,
mais jovens de Saul como bom músico e Davi era um jovem que vivia em seu lar,
como um homem de guerra. Ele era sisudo cuidando das ovelhas do pai. Ele estava ali
em palavras, e de gentil aspecto, isto é, era no campo de batalha não por ser escudeiro
maduro e sereno, e o Senhor era com ele. de Saul, mas por estar levando de casa
Quando Davi veio para a corte, trouxe a provisões aos irmãos. Era forte o suficiente
Saul um presente simbólico de alimentos, para matar ursos ou leões com mão desar­
representando sua capacidade de sustentar- mada (17.34-37), mas faltava-lhe totalmente
se a si próprio. Ele veio a convite do rei, experiência militar (17.38,39). Até a hora
não por necessidade econômica. de sua vitória, ele parecia ser desconhecido
Sob a influência do talento musical de de Saul (17.58); mas, graças ao destaque
Davi, Saul encontrou um alívio pelo me­ que acabara de ganhar, tornou-se amigo
nos temporário do espírito maligno que o íntimo de Jônatas, que imediatamente
afligia, e logo tornou o jovem seu escudei­ assegurou-lhe um lugar na corte de Saul
ro. Nessa função, Davi servia como guarda- (18.2).
costas pessoal de Saul, posição reservada O manuscrito Vaticano da Septuaginta
somente para quem desfrutava completa preserva uma versão consideravelmente
confiança da parte do rei. Assim Davi mais curta da batalha de Elá, que elimina
tornou-se membro regular da corte de Saul. muitos dos conflitos entre os capítulos 16

65
e 17 (17.12-31 e 17.55—18.5 são omitidos). e oitenta centímetros de altura. Como se
A questão que permanece é: qual é o texto dera em outras ocasiões, na história de
original — o mais curto ou o mais largo? Israel, a vontade do povo em resistir estava
Geralmente é mais fácil entender como sendo erodida por um homem de propor­
uma passagem seria encurtada a fim de ções épicas (Nm 13.32,33; Dt 2.11,20; 3.11).
resolver problemas de harmonização. Seria Alguma confusão é criada pelo uso do
mais difícil explicar por que a história seria nome Golias em 2Samuel 21.19, onde um
expandida a ponto de fazer perder sua gigante chamado Golias, que carregava
coesão interna. A maioria dos estudiosos uma lança com haste “como órgão de
do texto concorda, portanto, que se deve tecelão”, foi morto por um belemita cha­
aceitar a versão hebraica. Uma vez que os mado El-Hanã. A semelhança entre esse
dois relatos, na forma em que agora se gigante e a vítima de Davi tem levado
apresentam, não podem ser harmonizados alguns a concluir que o mesmo episódio
com êxito, temos presumivelmente versões serve de base para ambos os relatos. Tem-se
independentes da maneira como Saul e aventado a hipótese de que Davi recebeu
Davi vieram a se encontrar pela primeira crédito pelas façanhas de um de seus
vez. soldados (21.22; cf. também 1.15—4.10).
Os filisteus ajuntaram as suas forças (...) Outros têm sugerido que El-Hanã era o
em Socó. A posição estratégica de Saul na nome de nascimento de Davi, sendo Davi
batalha de Socó melhorou consideravel­ o nome que ele assumiu ao ascender ao
mente em relação à de seu encontro ante­ trono. Conquanto esses argumentos sejam
rior com os filisteus. Em vez de lutar em demasiadamente complexos para serem
Micmás, no coração de seu próprio terri­ adequadamente considerados no limitado
tório (13.5), ele estava defendendo o vale espaço aqui disponível, podemos notar que
de Elá, uma das principais gargantas que noutras partes a tradição bíblica associa
conduziam desde a planície filistéia até o intimamente Davi à impressionante vitória
planalto de Judá. sobre o gigante filisteu na batalha pelo vale
Numa manobra clássica para exércitos de Elá (21.9; 22.10). É possível que, poste­
antigos que dispunham de aproximada­ riormente, um nome conhecido tenha sido
mente a mesma força, ambos se haviam acrescentado ao relato da vitória de Davi
retirado para posições defensivas, domi­ sobre o filisteu, como ele é normalmente
nando escarpas opostas do mesmo vale. chamado (exceto em 17.4,23), mas não há
Nenhum dos comandantes se dispunha a razões que nos forcem a dissociar Davi
deixar a vantagem do terreno mais elevado dessa vitória espetacular.
para conduzir a batalha até o inimigo. No
impasse assim estabelecido, os filisteus b. Davi Visita seus Irmãos (17.12-23)
estavam ganhando uma vantagem psicoló­ uOra, Davi era filho de um homem efrateu, de
gica por meio de seu gigantesco guerreiro, Belém de Judá, cujo nome era Jessé, que tinha oito
que diariamente desafiava os israelitas ao filhos; e nos dias de Saul este homem era já velho
e avançado em idade entre os homens. 13Os três
combate individual. filhos mais velhos de Jessé tinham seguido Saul
Golias, de Gate, que tinha de altura seis à guerra; eram os nomes de seus três filhos que
côvados e um palma No antigo Israel um foram à guerra: Eliabe, o primogênito, o segundo
Abinadabe, e o terceiro Samá. l4Davi era o menor;
côvado era a distância do cotovelo à ponta os três maiores seguiram a Saul, 15mas Davi ia e
do dedo médio, o que dava aproximada­ voltava de Saul, para apascentar as ovelhas de seu
mente de 42 a 45 centímetros. Um palmo pai em Belém. 16Chegava-se, pois, o filisteu pela
era a distância entre os dedos polegar e manhã e à tarde; e apresentou-se por quarenta dias.
17Disse então Jessé a Davi, seu filho: Toma agora
mínimo, estando a mão totalmente aberta, para teus irmãos uma efa deste grão tostado e estes
isto é, cerca de vinte centímetros. Portanto, dez pães, e corre a levá-los ao arraial, a teus
Golias tinha aproximadamente dois metros irmãos. 18Leva, também, estes dez queijos ao seu

66
comandante de mil; e verás como passam teus com tempo suficiente apenas para saudar
irmãos, e trarás notícias deles. 19Ora, estavam
Saul, e eles, e todos os homens de Israel no vale seus irmãos antes que o filisteu aparecesse.
de Elá pelejando contra os filisteus. 20Davi então c. Davi Aceita o Desafio (17.24-40)
se levantou de madrugada e, deixando as ovelhas
com um guarda, carregou-se e partiu, como Jessé 24E todos os homens de Israel, vendo aquele
lhe ordenara; e chegou ao arraial quando o exér­ homem, fugiam de .diante dele, tomados de pavor.
cito estava saindo em ordem de batalha e dava 25Diziam os homens de Israel: Vistes aquele
gritos de guerra. 21Os israelitas e os filisteus se homem que subiu? pois subiu para desafiar a Israel.
punham em ordem de batalha, fileira contra fileira. Ao homem, pois, que o matar, o rei cumulará de
22E Davi, deixando na mão do guarda da bagagem grandes riquezas, e lhe dará a sua filha, e fará livre
a carga que trouxera, correu às fileiras; e, che­ a casa de seu pai em Israel. “ Então falou Davi aos
gando, perguntou a seus irmãos que estavam bem. homens que se achavam perto dele, dizendo: Que
23Enquanto ainda falava com eles, eis que veio se fará ao homem que matar a esse filisteu, e tirar
subindo do exército dos filisteus o campeão, cujo a afronta de sobre Israel? pois quem é esse incir-
nome era Golias, o filisteu de Gate, e falou con­ cunciso filisteu para afrontar os exércitos do Deus
forme aquelas palavras; e Davi as ouviu. vivo? 27E o povo lhe repetiu aquela palavra,
dizendo: Assim se fará ao homem que o matar.
O autor bíblico agora apresentava Davi “ Eliabe, seu irmão mais velho, ouviu-o quando fa­
como se o leitor estivesse lendo a seu lava àqueles homens; pelo que se acendeu a sua ira
contra Davi, e disse: Por que desceste aqui, e a
respeito pela primeira vez. Ele é novamente quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto?
retratado como o mais jovem dos oito filhos Eu conheço a tua presunção, e a maldade do teu
de Jessé, o belemita. Os três filhos mais coração; pois desceste p ara ver a peleja.
velhos estavam servindo no exército de Saul 29Respondeu Davi: Que fiz eu agora? porventura
não há razão para isso? 30E virou-se dele para
em Elá, enquanto Davi ia e voltava de Saul, outro, e repetiu as suas perguntas; e o povo lhe
para apascentar as ovelhas de seu pai em respondeu como da primeira vez. 31Então, ouvidas
Belém. Este versículo pode ajudar a recon­ as palavras que Davi falara, foram elas referidas
ciliar a diferença entre os capítulos 16 e 17, a Saul, que mandou chamá-la 32E Davi disse a
ao mostrar por que Davi não estava ser­ Saul: Não desfaleça o coração de ninguém por causa
dele; teu servo irá, e pelejará contra este filisteu.
vindo como escudeiro de Saul. Mesmo 33Saul, porém, disse a Davi: Não poderás ir contra
assim, a razão por que Saul parece não esse filisteu para pelejar com ele, pois tu ainda és
conhecer Davi em 17.58 permanece inex- moço, e ele homem de guerra desde a sua moci­
plicada. Considerados independentemente, dade. 34Então disse Davi a Saul: Teu servo
porém, os detalhes da disputa de Davi com apascentava as ovelhas de seu pai, e sempre que
vinha um leão, ou um urso, e tomava um cordeiro
Golias e de sua apresentação a Saul não do rebanho, 3Seu saía após ele, e o matava, e lho
apresentam qualquer dificuldade para arrancava da boca; levantando-se ele contra mim,
compreensão. segurava-o pela queixada, e o feria e matava.
Jessé enviou Davi ao acampamento de teu servo matava tanto ao leão como ao urso; e este
incircunciso filisteu será como um deles, porquanto
guerra israelita para levar a seus filhos afrontou os exércitos do Deus viva 37Disse mais
mais velhos provisões suplementares. Um Davi: O Senhor, que me livrou das garras do leão,
“presente” extra para o oficial comandante e das garras do urso, me livrará da mão deste
foi incluído como garantia adicional de que filisteu. Então disse Saul a Davi: Vai, e o Senhor
as provisões receberiam permissão para seja contiga 38E vestiu a Davi da sua própria
armadura, pôs-lhe sobre a cabeça um capacete de
chegar a seu destino. bronze, e o vestiu de uma couraça. 39Davi cingiu
Como um jovem aproximando-se da fase a espada sobre a armadura e procurou em vão andar,
adulta, Davi estava ansioso por alcançar pois não estava acostumado àquila Então disse Davi
o campo de batalha. Ele saiu bem cedo de a Saul: Não posso andar com isto, pois não estou
acostumada E Davi tirou aquilo de sobre si.
casa, caminhou mais de 25 quilômetros, '"‘Então tomou na mão o seu cajado, escolheu do
e ainda chegou bem quando os israelitas ribeiro cinco seixos lisos e pô-los no alforje de
estavam se movimentando para suas pastor que trazia, no surrão, e, tomando na mão
posições de combate. Deixando seus a sua funda, foi-se chegando ao filisteu.
presentes com os que guardavam o acam­ Por mais de um mês nenhum confronto
pamento, Davi apressou-se até as fileiras importante tinha-se dado. Agora as ações

67
do gigante e as ameaças que ele represen­ normal de batalha, escolheu sua munição
tava para o moral das tropas de Israel eram do leito de um regato: cinco pedras, cada
conhecidas de todos. Entre os soldados, se uma de cerca do tamanho do punho de um
comentava sobre a recompensa oferecida homem. Ataques maciços com essa arma
como incentivo a quem derrotasse Golias. formidável faziam parte destacada de táticas
Vez após vez, Davi entrou nessas conversas, militares antigas (cf. Jz 20.16), mas Davi
não tanto para ouvir a repetição das recom­ teve a imaginação, o sangue-frio, e a técnica
pensas, mas para lançar uma idéia: Quem para aplicá-la com êxito também no com­
é esse incircunciso filisteu, para afrontar bate individual.
os exércitos do Deus vivo?
A intenção de Davi em colocar-se no d. Davi Derrota Golias (17:41-54)
próprio centro da ação foi claramente 4lO filisteu também vinha se aproximando de
notada por seu irmão mais velho, Eliabe. Davi, tendo à sua frente o seu escudeira 42Quando
Ele considerou Davi presunçoso ao tentar o filisteu olhou e viu a Davi, desprezou-o, por­
subir acima do lugar que lhe cabia na vida. quanto era mancebo, ruivo, e de gentil aspecta
43Disse o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para
Davi alegou inocência, perguntando, por tu vires a mim com paus? E o filisteu, pelos seus
sua parte, que mal havia em falar. deuses, amaldiçoou a Davi. “ Disse mais o filisteu
Logo os planos de Davi foram percebidos a Davi: Vem a mim, e eu darei a tua carne às aves
quando suas palavras foram transmitidas do céu e às bestas do campa 45Davi, porém, lhe
a Saul, e ele foi chamado perante o rei.24 respondeu: Tb vens a mim com espada, com lança
e com escudo; mas eu venho a ti em nome do Senhor
A atitude confiante de Davi aparentemente dos exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem
baseava-se em três fatores. Primeiramente, tens afrontada “ Hoje mesmo o Senhor te entre­
ele estava convencido de sua capacidade gará na minha mão; ferir-te-ei, e tirar-te-ei a cabeça;
física para enfrentar o filisteu. Como prova os cadáveres do arraial dos filisteus darei hoje
mesmo às aves do céu-e às feras da terra; para que
disso, Davi citou vezes em que, desarmado, toda a terra saiba que há Deus em Israel; 47e para
venceu animais selvagens que encontrou que toda esta assembléia saiba que o Senhor salva,
em seu trabalho. Talvez faltasse-lhe expe­ não com espada, nem com lança; pois do Senhor
riência no manejo de armamentos, mas ele é a batalha, e ele vos entregará em nossas mãos.
estava longe de ser um garoto despreparado, ‘"Quando o filisteu se levantou e veio chegando
para se defrontar com Davi, este se apressou e
imaginado por muitos leitores modernos. correu ao combate;, a encontrar-se com o filisteu.
Um segundo e ainda mais importante 49E Davi, metendo a mão no alforje, tirou dali uma
fator motivador da confiança de Davi pode pedra e com a funda lha atirou, ferindo o filisteu
ser visto na sua fé no Deus vivo. Ele apre­ na testa; a pedra se lhe cravou na testa, e ele caiu
com o rosto em terra. 50Assim Davi prevaleceu
sentou uma longa lista de experiências contra o filisteu com uma funda e com uma pedra;
pessoais para justificar a certeza que tinha feriu-o e o matou; e não havia espada na mão de
de que o Senhor o ajudaria a enfrentar os Davi. 51Correu, pois, Davi, pôs-se em pé sobre o
desafios do futuro. Conquanto Davi às filisteu e, tomando a espada dele e tirando-a da
vezes ficasse aquém dos mais elevados bainha, o matou, decepando-lhe com ela a cabeça.
Vendo então os filisteus que o seu campeão estava
níveis de conduta ética, essa marca de reli­ morto, fugiram. 52Então os homens de Israel e de
giosidade pessoal genuína parece tê-lo Judá se levantaram gritando, e perseguiram os filis­
acompanhado a vida inteira. teus até a entrada de Gai e até as portas de Ecrom;
A terceira razão para Davi confiar na e caíram os feridos dos filisteus pelo caminho de
Saraim até Gate e até Ecrom. 53Depois voltaram
vitória sobre o filisteu jazia no fato de que os filhos de Israel de perseguirem os filisteus, e
ele contava com uma arma secreta — a despojaram os seus arraiais. 54Davi tomou a
funda. Após pôr de lado a indumentária cabeça do filisteu e a trouxe a Jerusalém; porém
pôs as armas dele na sua tenda.
O m anuscrito Vaticano da LX X om ite a história inteira acerca dos
irmãos de Davi e das viagens deste a Belém (v. 12-31). Davi estava
presente no campo de batalha, portanto, com o escudeiro de Saul
Davi apareceu perante Golias como um
(veja com entário sobre 17.1-11). jovem simples, vestido e armado como um

68
pastor. Cada um de seus movimentos foi e. Jônatas Busca Amizade de Davi (17.
calculado para alimentar a complacência 55—18.5)
do gigante e, ao mesmo tempo, realçar o 55Quando Saul viu Davi sair e encontrar-se
impacto teológico de sua vitória iminente. com o filisteu, perguntou a Abner, o chefe do exér­
A ação começou com a troca de ataques cito: De quem é filho essç jovem, Abner? Respondeu
verbais. Golias fez pouco caso da aparência Abner: Vive a tua alma, ó rei, que não sei. 56Disse
então o rei: Pergunta, pois, de quem ele é filha
de menino que Davi tinha e amaldiçoou-o 57Voltando, pois, Davi de ferir o filisteu, Abner o
em nome dos deuses filisteus. Aceitando tomou consigo, e o trouxe à presença de Saul,
o desafio do gigante, Davi sumariou como trazendo Davi na mão a cabeça do filisteu. 58E
Israel via aquela guerra. A batalha estava perguntou-lhe Saul: De quem és filho, jovem?
Respondeu Davi: filho de teu servo Jessé, belemita.
nas mãos do Senhor, e ele determinaria o 'Ora, acabando Davi de falar com Saul, a alma
resultado não com base no poder militar, de Jônatas ligou-se com a alma de Davi; e Jônatas
mas segundo sua própria vontade. o amou como à sua própria alma. 2E desde aquele
dia Saul o reteve, não lhe permitindo voltar para
Terminados os embates preliminares, o a casa de seu pai. 3Então Jônatas fez um pacto
confronto rumou rapidamente até o seu com Davi, porque o amava como à sua própria alma.
clímax. Antes que os combatentes chegas­ 4 E Jônatas se despojou da capa que vestia, e deu
sem à distância das armas convencionais, a Davi, como também a sua armadura, e até mesmo
a sua espada, o seu arco e o seu cinta 5E saia Davi
Davi empregou sua funda e derrubou o aonde quer que Saul o enviasse, e era sempre bem
gigante ali mesmo. Utilizando a própria sucedido; e Saul o pôs sobre a gente de guerra,
espada de Golias, Davi degolou seu inimigo, e isso pareceu bem aos olhos de todo o povo, e até
confirmando assim a convicção israelita de aos olhos dos servos de Saul.
que o Senhor, e não as armas, determinam
o resultado da batalha (cf. 14.6). As indagações de Saul sobre a formação
de Davi são surpreendentes somente se o
Desmoralizados com a inesperada jovem guerreiro já tivesse servido como
derrota de seu campeão, os soldados filis­ escudeiro real (cf. 16.14-23). Se, como parece
teus fugiram de suas defesas no alto das provável, o relato da vitória de Davi sobre
montanhas e assim se tornaram presas Golias é uma narrativa independente da
fáceis para as hostes de Israel. Após perse­ apresentação de Davi a Saul, esta pergunta
guir o inimigo por aproximadamente quinze seria esperada. Desde que em seu encontro
a vinte e cinco quilômetros, os soldados de anterior só se preocupara basicamente com
Saul retornaram para desfrutar os espólios os preparativos para a batalha, Saul só
do acampamento filisteu. agora estava tomando conhecimento das
Davi tomou a cabeça do filisteu e a origens de seu futuro genro (cf. 17.25).
trouxe a Jerusalém. Por esse tempo Jeru­ Como resultado de sua vitória sobre
salém era ainda controlada pelos jebuseus, Golias, Davi recebeu imediatamente um
que não teriam razão alguma para celebrar lugar permanente na corte de Saul. Desde
uma vitória israelita sobre os filisteus. o começo, Davi teve uma receptividade
Talvez, como sugere Hertzberg (p. 153), esta surpreendentemente favorável por membros
referência reflita a existência de uma da corte real, especialmente em vista do
famosa relíquia dessa batalha na cidade de fato de que se destacara tão subitamente.
Jerusalém, muito tempo depois de ela ter Jônatas, por exemplo, tomou a iniciativa
sido capturada e transformada na capital no que se tomaria sua amizade imorredoura
de Israel. Porém pôs as armas dele na sua com Davi. A aliança em que os dois jovens
tenda. Antes não havia sido mencionado entraram numa fraternidade voluntária foi
nem sugerido tal abrigo. A espada de Golias estabelecida sob a direção de Jônatas. O
foi obviamente preservada, uma vez que espírito de todo o acordo da aliança é suma­
mais tarde ela aparece em posse dos sacer­ riado na dádiva de roupas e armas de
dotes de Nobe (ISm 21.9). Jônatas para Davi. Por tal ato todos ficaram

69
sabendo que Jônatas amava a Davi como o Senhor era com ele.15Vendo, então, Saul que ele
à sua própria alma. Apenas pouco tempo era tão bem sucedido, tinha receio dele. 16Mas
todo o Israel e Judá amavam a Davi, porquanto
depois Jônatas estava mesmo disposto a saía e entrava diante deles.
reconhecer que Davi, e não ele, seria o
próximo rei de Israel. Quando a popularidade de Davi atingiu
Em seu relacionamento com Davi, o auge, a frágil autoconfiança de Saul não
Jônatas se revela como um dos melhores pôde mais admitir aquilo. Sofrendo da frus­
personagens do Antigo Testamento. Ele tração de anos de luta com Samuel, com
nada tinha a ganhar, mas altruisticamente “homens ímpios” que se opunham a seu
deu de si mesmo em favor de um amigo. reinado (10.27) e com os filisteus, agora
A contribuição de Davi à amizade não é Saul concentrou suas hostilidades em cima
tão bem conhecida, mas algo de sua de Davi, o favorito do povo, o ungido do
consideração para com Jônatas pode-se Senhor.
perceber em seu lamento pala morte de No fundo, Saul estava enciumado com
Saul e de seu filho (2Sm 1.19-27). a atenção dispensada a Davi. O sentimento
O autor conclui esta seção, sumariando de insegurança de Saul não podia tolerar
a vida de Davi na corte de Saul. Ele teve competição pela afeição popular. Por outro
êxito em toda iniciativa que tomou; obteve lado, Saul estava começando a suspeitar que
uma importante promoção no exército; e Davi abrigasse ambições políticas. Con­
conquistou a amizade da população em quanto provavelmente ainda não estivesse
geral, bem como dos burocratas de Saul. Tal cônscio de que Davi já havia sido ungido
constatação haveria de provar-se dema­ por Samuel, Saul pôde ver que a popula­
siadamente perfeita para o próprio bem de ridade daquele jovem poderia, por fim,
Davi. levá-lo a querer o trono. Finalmente, pertur­
bando todos os processos de raciocínio de
4. Saul Procura Tirar a Vida de Davi Saul, havia o espírito maligno que o ator­
(18.6—20.42) mentava (cf. comentário sobre 16.14-23).
As ações de Saul são cada vez mais retra­
1) Tentativa de Homicídio por Parte de Saul tadas como as de uma personalidade
(18.6-16) demente. Seu confuso estado emocional
6Sucedeu porém que, retornando eles, quando
reflete-se em sua rápida mudança de
Davi voltava de ferir o filisteu, as mulheres de todas atitudes para com Davi. Ele foi sucessiva­
as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, mente motivado pelo amor (16.21), ira
cantando e dançando alegremente, com tamboris, (18.8), temor (18.12) e respeito (18.15).
e com instrumentos de música. 7E as mulheres, O rei finalmente decidiu que Davi devia
dançando, cantavam umas para as outras, dizendo:
Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus ser morto, fosse por assassínio direto (v. 10
dez milhares. ’‘Então Saul se indignou muito, pois e s.), ou mediante batalha contra os filisteus
aquela palavra pareceu mal aos seus olhos, e disse: (v. 20 e s.), ou mediante o empregos de assas­
Dez milhares atribuíram a Davi, e a mim somente sinos contratados (19.1 e s.).
milhares; que lhe falta, senão só o reino? ’Daquele As próprias tentativas de Saul em matar
dia em diante, Saul trazia Davi sob suspeita. 10No
dia seguinte o espírito maligno da parte do Senhor Davi estão associadas com o mau espírito
se apoderou de Saul, que começou a profetizar no que periodicamente o levava a agir como
meio da casa; e Davi tocava a harpa, como nos um louco.25 Davi estava servindo nova­
outros dias. Saul tinha na mão uma lança. UE Saul mente como escudeiro de Saul e músico,
arremessou a lança, dizendo consigo: Encravarei
a Davi na parede. Davi, porém,.desviou-se dele por
duas vezes. 12Saul, pois, temia a Davi, porque o A palavra hebraica para “irar-se” iyitnabbe) no versículo 10 tem
Senhor era com Davi e se tinha retirado dele. relação com a palavra para “profeta” {n a b i\ O verbo é geralmente
traduzido por “profetizar”, mas seu violento conteúdo está clara­
13Pelo que Saul o afastou de si, e o fez comandante m ente assinalado n o presente contexto. Esta passagem oferece
de mil; e ele saia e entrava diante do povo. 14E Davi testem unho adicional do com portam ento extático dos primeiros
era bem sucedido em todos os seus caminhos; e profetas.

70
quando o rei repetidamente tentou matá-lo rei, temendo a reação pública, hesitou em
com uma lança (v. 10,11; 19.9,10). Quando ordenar que Davi se expusesse a tal perigo.
essas tentativas falharam, Saul colocou Assim, ele tentou atrair Davi à aceitação
Davi num comando militar. No entanto, voluntária de tal atribuição.
em lugar de ocultá-lo da atenção pública, Saul estava publicamente comprometido
essa medida granjeou-lhe ainda maior popu­ em oferecer uma filha em casamento ao
laridade. homem que derrotou Golias; contudo, o
costume era que o noivo oferecesse à famí­
2) Saul Usa os Filisteus (18.17-30) lia da noiva um presente digno como seu
17Pelo que Saul disse a Davi: Eis que Merabe, dote. Saul primeiro ofereceu a Davi a mão
minha filha mais velha, te darei por mulher, contanto de sua filha mais velha, Merabe. Aparen­
que me sejas filho valoroso, e guerreies as guerras temente Davi não entendeu o pedido de
do Senhor. Pois Saul dizia consigo: Não seja contra Saul para que ele guerreasse as guerras do
ele a minha mão, mas sim a dos filisteus. 18Mas
Davi disse a Saul: Quem sou eu, e qual é a minha Senhor como a sugestão para um presente
vida e a família de meu pai em Israel, para eu vir matrimonial. De qualquer forma, ele
a ser genro do rei? 19Sucedeu, porém, que ao escusou-se do casamento, baseado na humil­
tempo em que Merabe, filha de Saul, devia ser dada dade de suas origens, isto é, sua família era
a Davi, foi dada por mulher a Adriel, meolatita. demasiado pobre para pagar um dote digno
20Mas Mical, a outra filha de Saul, amava a Davi;
sendo isto anunciado a Saul, pareceu bem aos seus de uma princesa.
olhos. 21E Saul disse: Eu lha darei para que ela lhe Uma segunda oportunidade de levar
sirva de laço, e para que a mão dos filisteus venha avante o “plano filisteu” de Saul ocorreu
a ser contra ele. Pelo que Saul disse a Davi: Com quando sua filha Mical anunciou que
a outra serás hoje meu genro. 22Saul, pois, deu
ordem aos servos: Falai em segredo a Davi, amava Davi. Desta vez Saul não se arris­
dizendo: Eis que o rei se agrada de ti, e todos os caria a ser mal compreendido. Enviou
seus servos te querem bem; agora, pois, consente mensageiros que asseguraram a Davi que
em ser genro do rei. 23Assim os servos de Saul o rei consideraria o preço pelo casamento
falaram todas estas palavras aos ouvidos de Davi.
Então disse Davi: Parece-vos pouca coisa ser genro
bem pago se seu candidato a genro lhe trou­
do rei, sendo eu homem pobre e de condição xesse provas de ter matado cem filisteus
humilde? ME os servos de Saul lhe anunciaram incircuncisos. Novamente o plano de Saul
isto, dizendo: Assim e assim falou Davi. 25Então fracassou quando Davi foi capaz de
disse Saul: Assim direis a Davi: O rei não deseja desincumbir-se de sua obrigação com segu­
dote, senão cem prepúcios de filisteus, para que
seja vingado dos seus inimigos. Porquanto Saul rança, tendo, dentro do espaço de tempo
tentava fazer Davi cair pela mão dos filisteus. estabelecido pelo rei,26 matado o dobro de
“ Tendo os servos de Saul anunciado estas palavras filisteus. Davi tomou-se genro do rei por
a Davi, pareceu bem aos seus olhos tornar-se genro seu casamento com Mical, mas Saul tornou-
do rei. Ora, ainda os dias não se haviam cumprido,
27quando Davi se levantou, partiu com os seus se mais desconfiado dele do que nunca.
homens, e matou dentre os filisteus duzentos
homens; e Davi trouxe os prepúcios deles, bem 3) Saul Procura Assassinos (19.1-7)
contados, ao rei, para que fosse seu gem a Então
Saul lhe deu por mulher sua filha Mical. “ Mas 'Falou, pois, Saul a Jônatas, seu filho, e a todos
quando Saul viu e compreendeu que o Senhor era os seus servos, para que matassem a Davi. Porém
com Davi e que todo o Israel o amava, 29temeu Jônatas, filho de Saul, estava muito afeiçoado a
muito mais a Davi; e Saul se tornava cada vez mais Davi. 2Pelo que Jônatas o anunciou a Davi,
seu inimiga ^Então saíram os chefes dos filisteus dizendo: Saul, meu pai, procura matar-te; portanto,
à campanha; e sempre que eles saiam, Davi era guarda-te amanhã pela manhã, fica num lugar oculto
mais bem sucedido do que todos os servos de Saul, e esconde-te; 3eu sairei e me porei ao lado de meu
pelo que o seu nome era muito estimada
6 N enhum período de tem po é registrado no texto em lide. A frase
A artimanha seguinte de Saul para traduzida por “com a outra” no versículo 21 (“com esta segunda”,
provocar a morte de Davi envolvia RA) realmente reza “por dois” (bishtayim ), o que não se ajusta bem
aqui. Acrescentando-se um a consoante, seria possível um a tradução
combates arriscados contra os filisteus. O mais significativa: “dentro de dois anos” (bishnatayim).

71
pai no campo em que estiveres; falarei acerca de Saul procurou encravar a Davi na parede, porém
ti a meu pai, verei o que há, e to anunciarei. 4Então ele se desviou de diante de Saul, que fincou a lança
Jônatas falou bem de Davi a Saul, seu pai, e disse- na parede Então Davi fpgiu, e escapou naquela
-lhe: Não peque o rei contra seu servo Davi, porque mesma noite. uM as Saul mandou mensageiros
ele não pecou contra ti, e porque os seus feitos para à casa de Davi, para que o vigiassem, e o matassem
contigo têm sido muito bons. 5Porque expôs a sua pela manhã; porém Mical, mulher de Davi, o avisou,
vida e matou o filisteu, e o Senhor fez um grande dizendo: Se não salvares a tua vida esta noite,
livramento para todo o Israel. Tu mesmo o viste, amanhã te matarão. 12Então Mical desceu Davi
e te alegraste; por que, pois, pecarias contra o por uma janela, e ele se foi e, fugindo, escapou.
sangue inocente, matando sem causa a Davi? 6E 13Mical tomou uma estátua, deitou-a na cama, pôs-
Saul deu ouvidos à voz de Jônatas, e jurou: Como -lhe à cabeceira uma pele de cabra, e a cobriu com
vive o Senhor, Davi não m orrerá.7Jônatas, pois, uma capa. 14Quando Saul enviou mensageiros
chamou a Davi, contou-lhe todas estas palavras, para prenderem a Davi, ela disse: Está doente.
e o levou a Saul; e Davi o assistia como dantes. ,stornou Saul a enviá-los, para que vissem a Davi,
dizendo-lhes: Trazei-mo na cama, para que eu o
Frustrado em seus dois planos anteriores mate. 16Vindoi, pois, os mensageiros, eis que estava
de livrar-se de Davi, Saul agora buscava a estátua na cama, e a pele de cabra à sua cabe­
converter seus servos e seu próprio filho ceira. 17Então perguntou Saul a Mical: Por que
em assassinos. Com esta ação Jônatas foi assim me enganaste, e deixaste o meu inimigo ir
a escapar? Respondeu Mical a Saul: Porque ele
submetido a um difícil teste de lealdade. me disse: Deixa-me ir! por que hei de matar-te?
Tivesse ele mantido em segredo as intenções
de Saul, seu pai teria sido culpado de Infelizmente o breve, mas bem acolhido
derramar sangue inocente Tampouco podia período de paz, que havia sido conseguido
Jônatas permanecer indiferente enquanto mediante a influência de Jônatas, não
a morte de seu amigo estava sendo insti­ perdurou. Outra escaramuça na guerra
gada. Num esforço por ser leal tanto a Davi com os filisteus levou Davi ao campo de
quanto ao pai, Jônatas tentou agir como batalha, e novamente voltou para casa
um pacificador. cercado de glórias. Como em ocasiões ante­
Os detalhes do encontro de Jônatas com riores, um espírito maligno inspirou Saul
seu pai no campo já não são mais conhe­ a praticar um novo atentado contra a vida
cidos, mas o esboço geral de seu plano é de Davi. Desviando-se de uma lança, Davi
claro. Ele já havia informado Davi do ardil fugiu para sua própria casa, mas mensa­
de seu pai e recomendou-lhe que se manti­ geiros foram enviados para impedi-lo de sair
vesse escondido até que suas negociações da cidade. Desta vez foi a filha de Saul que
com o rei se completassem. Depois, numa ajudou Davi a escapar.
conversa particular com o pai, Jônatas Não se deve dar demasiado valor ao
defendeu a inocência de Davi. apoio de Mical a seu marido. No antigo
Não peque o rei contra seu servo Davi. Israel, casamentos em famílias importantes
Pecado, no Antigo Testamento, não é exclu­ eram freqüentemente arranjados com
sivamente um termo teológico. Pode ser propósitos políticos, e a intriga era comum.
utilizado, como é o caso aqui, para designar O casamento de Davi com Mical não foi
erros cometidos contra outra pessoa. Ao exceção. Saul havia encorajado a união num
final do discúrso de Jônatas, Saul jurou dar esforço de fazer com que Davi fosse morto
por encerrada sua conspiração contra Davi; pelos filisteus. Ele mais tarde desfez o
e uma paz temporária foi restaurada. contrato matrimonial e deu Mical a outro
homem, provavelmente num esforço para
4) Saul Volta a Praticar Violência (19.8-17) impedir que Davi reivindicasse um laço legí­
'Depois tornou a haver guerra; e saindo Davi, timo com a casa governante de Israel (25.44;
pelejou contra os filisteus, e os feriu com grande 2Sm 3.15). Entretanto, a devoção de Mical
matança, e eles fugiram diante dele. ’Então o espi­
rito maligno da parte do Senhor veio sobre Saul, por seu marido revela sua honradez e
estando ele sentado em sua casa, e tendo na mão acentua a condenação contra os injustos
a sua lança; e Davi estava tocando a harpa. i°E ataques de Saul contra Davi.

72
O ardil que Mical empregou para ajudar tempo que desfrutava de seu primeiro con­
Davi a escapar foi provavelmente mais tato com Samuel desde sua unção (16.13).
complexo do que as traduções vernáculas Quando Saul foi notificado de que Davi
dão a entender. A imagem empregada foi estava com Samuel em Ramá, despachou
um teraphim, termo hebraico vertido de tropas com ordens de trazerem Davi de
diversas maneiras no Antigo Testamento: volta. Os planos de Saul, porém, foram frus­
ídolos ou deuses caseiros (Gn 31.19 e s.), trados quando os soldados caíram sob a
terafins ou ídolos do lar (Jz 17.5 e s.; 2Rs influência do Espírito de Deus e começaram
23.24; Os 3.4), idolatria (ISm 15.23), ou a “profetizar” entre os do grupo de Samuel.
estátua. Tivessem o uso que fosse, os tera­ Saul decidiu capturar Davi pessoalmente
fins foram finalmente rejeitados como parte após seus servos repetidamente fracassarem,
das práticas religiosas de Israel (ISm 15.23; mas ele também viu-se incapacitado por
2Rs 23.24). Com toda probabilidade, a utili­ um “ataque profético”. Aparentemente se
zação dessas imagens por Mical continha fazia quase nenhuma distinção entre os
conotações teológicas hoje perdidas de vista transes extáticos que acompanhavam a
pelos leitores modernos. atividade profética e a experiência religiosa
que os inspirava. Este contexto, de qualquer
5) Samuel Oferece Refugio (19.18-24) forma, destaca o aspecto comportamental,
18Assim Davi fugiu e escapou; e indo ter com e não tanto as conseqüências religiosas, da
Samuel, em Ramá, contou-lhe tudo quanto Saul influência do profeta. Assim, Saul, após
lhe fizera; foram, pois, ele e Samuel, e ficaram em chegar a Naiote, despiu-se e permaneceu
Naiote. E foi dito a Saul: Eis que Davi está em nu perante Samuel um dia inteiro.
Naiote, em Ramá. “ Então enviou Saul mensa­
geiros para prenderem a Davi; quando eles viram
À luz dessa experiência, o povo come­
a congregação de profetas profetizando, e Samuel çou a perguntar: Está também Saul en­
a presidi-los, o espirito de Deus veio sobre os mensa­ tre os profetas? Em seu contexto anterior
geiros de Saul, e também eles profetizaram. (10.10-12), a pergunta deixava implícito que
21Avisado disso, Saul enviou outros mensageiros, Saul trouxera opróbrio sobre si mesmo e
e também estes profetizaram. Ainda terceira vez
enviou Saul mensageiros, os quais também profe­ sua família por associar-se com os mal
tizaram . 22Então foi ele mesmo a Ramá e, conceituados profetas extáticos. Contudo,
chegando ao poço grande que estava em Sécu, no contexto atual, o provérbio parece
perguntou: O nde estão Samuel e Davi? questionar as qualificações de Saul para
Responderam-lhe: Eis que estão em Naiote, em
Ramá. “ Foi, pois, para Naiote, em Ramá; e o Espí­ ser membro da corporação de profetas
rito de Deus veio também sobre ele, e ele ia (McKane, p. 122). Os profetas e as atividades
caminhando e profetizando, até chegar a Naiote, deles estão intimamente associadas com
em Ramá. ME despindo as suas vestes, ele também Saul na tradição de tal modo que não se
profetizou diante de Samuel; e esteve nu por terra pode questionar a respeito. Por outro lado,
todo aquele dia e toda aquela noite. Pelo que se
diz: Está também Saul entre os profetas? Saul apropriou-se das manifestações ex­
teriores da atividade espiritual, sem sub­
meter-se às demandas éticas encontra­
Após fugir da corte real, Davi não se das numa genuína comunhão com o Deus
dirigiu a Belém, como Saul esperaria, mas vivo. Em qualquer época esta é uma prá­
rumou ao norte em direção a Ramá. Samuel
tica devastadora.
estava ali instalado como o ancião que
presidia um grupo de profetas. Fora deste
contexto não há confirmação de que Naiote 6) Davi e Jônatas se Separam (20.1-42)
fosse um topónimo, e talvez indique o nome a. Amigos Renovam a Aliança (20.1-23)
próprio dado à habitação dos profetas em, ‘Então fugiu Davi de Naiote, em Ramá, veio
ou perto de Ramá (veja Drivei; p. 158,159, ter com Jônatas e lhe disse: Que fiz eu? qual é a
para uma lista das possibilidades). Davi minha iniqüidade? e qual é o meu pecado diante
buscou proteção entre esse grupo ao mesmo de teu pai, para que procure tirar-me a vida? 2E

73
ele lhe disse: Longe disso! n.'o hás de morrer. Meu assim: Olha que as flechas estão para lá de ti; vai-te
pai não faz coisa alguma, neir< grande nem pequena, embora, porque o Senhor te manda ir. 23E quanto
sem que primeiro ma participe; por que^ pois, meu ao negócio de que eu e tu falamos, o Senhor é teste­
pai me encobriria este negócio? Não é verdade. munha entre mim e ti para sempre.
3Respondeu-lhe Davi, com juramento: Teu pai bem
sabe que achei graça a teus olhos; pelo que disse:
Não saiba isto Jônatas, para que não se magoe.
À luz dos muitos atentados que haviam
Mas, na verdade, como vive o Senhor, e como vive sido praticados contra a vida de Davi,
a tua alma, há apenas um passo entre mim e a morte: é de admirar que haja quaisquer dúvidas
4Disse Jônatas a Davi: O que desejas tu que eu te quanto às intenções de Saul. Jônatas, entre­
faça? 5Respondeu Davi a Jônatas: Eis que amanhã tanto, tinha ainda recentemente conseguido
é a lua nova, e eu deveria sentar-me com o rei para
comer; porém deixa-me ir, e esconder-me-ei no uma trégua entre seu pai e seu amigo
campo até a tarde do terceiro dia. ‘Se teu pai notar (19.1-7), e tais foram as ações subseqüentes
a minha ausência, dirás: Davi me pediu muito que de Saul que estavam sujeitas a diferentes
o deixasse ir correndo a Belém, sua cidade, por­ interpretações. Seu último ataque contra
quanto se faz lá o sacrifício anual para toda a
parentela. 7Se ele disser: Está bem; então teu servo
Davi, com uma lança, estava associado a
tem paz; porém se ele muito se indignar, fica sabendo um espírito maligno que o afligia só perio­
que ele já está resolvido a praticar o mal. 8Usa, dicamente e que, até certo ponto, justificava
pois, de misericórdia para com o teu servo, porque seu comportamento (19.8-10). Conquanto
o fizeste entrar contigo em aliança do Senhor; se, Davi estivesse convencido quanto às
porém, há culpa em mim, mata-me tu mesmo; por
que me levarias a teu pai? 9Ao que respondeu intenções de Saul nos incidentes em sua
Jônatas: Longe de ti tal coisa! se eu soubesse que casa em Ramá, não sofrera ataques em
meu pai estava resolvido a trazer o mal sobre ti, público. Entende-se, portanto, por que
não to descobriria eu? 10Perguntou, pois, Davi a Jônatas buscou confirmação adicional dos
Jônatas: Quem me fará saber, se por acaso teu pai
te responder asperamente? ‘‘Então disse Jônatas
desígnios assassinos de seu pai.27
a Davi: Vem. e saiamos ao campa E saíram ambos Davi propôs um teste envolvendo os
ao campa I2E disse Jônatas a Davi: O Senhor, rituais associados com a chegada da lua
Deus de Israel, seja testemunha! Sondando eu a nova. As disposições bíblicas prescreviam
meu pai amanhã a estas horas, ou depois de amanhã, o soar da trombeta e sacrifícios especiais
se houver coisa favorável para Davi, eu não enviarei
a ti e não to farei saber? 130 Senhor faça assim para a observância da lua nova (Nm 10.10;
a Jônatas, e outro tanto, se, querendo meu pai 28.11). Presumivelmente, aquelas eram cele­
fazer-te mal, eu não te fizer saber, e não te deixar brações mensais uma vez que se utilizava
partir, para ires em paz; e o Senhor seja contigo, um calendário lunar. O sacrifício fictício
assim como foi com meu pai. 14E não somente
usarás para comigo, enquanto viver, da benevolência
que Davi empregou como álibi para sua
do Senhor, para que não morra, 15como também ausência devia ter sido um acontecimento
não cortarás nunca da minha casa a tua benevo­ familiar sem qualquer conexão necessária
lência, nem ainda quando o Senhor tiver com outras festas de lua nova.
desarraigado da terra a cada um dos inimigos de A refeição envolvida no teste era uma
D avi.16Assim fez Jônatas aliança com a casa de
Davi, dizendo: O Senhor se vingue dos inimigos refeição íntima, dela participando somente
de Davi. 17Então Jônatas fez Davi jurar de novo, quatro personagens principais. A ausência
porquanto o amava; porque o amava com todo o de Davi não poderia ser passada por alto,
amor da sua alma. 18Disse-lhe ainda Jônatas: mas somente a irada rejeição por Saul do
Amanhã é a lua nova, e notar-se-â tua ausência,
pois o teu lugar estará vazia 19Ao terceiro dia
álibi de Davi seria interpretada como indício
descerás apressadamente, e irás àquele lugar onde de que o rei tencionava matá-lo.
te escondeste no dia do negócio, e te sentarás junto
à pedra de Ezel. 20E eu atirarei três flechas para
Outros com entaristas interpretam os capituios 19 e 20 com o relatos
aquela banda como se atirasse ao alva 21Então paralelos, mas divergentes, da fuga de Davi da corte de Saul (McKane,
mandarei o moço, dizendo: Anda, busca as flechas. p. 110). É possível que em certa época os dois capítulos tenham
Se eu expressamente disser ao moço: Olha que as experim entado circulação independente, m as têm estado m ais efeti­
flechas estão para cá de ti, apanha-as; então vem, vamente unidos do que m uitos com entaristas estão dispostos a
admitir. Em sua form a presente, os acontecim entos do capítulo 20
porque, como vive o Senhor, há paz para ti, e não estão mais destinados a revelar as intenções de Saul para com Jônatas
há nada a temer. 22M as se eu disser ao moço do que para com Davi (cf. especialmente 20.1-4).

74
Tanto Davi quanto Jônatas estavam morrer. 12Ao que respondeu Jônatas a Saul, seu
cientes de que o teste que haviam elaborado pai, e lhe disse: Por que há de morrer? que fez ele?
33Então Saul levantou a lança para o ferir; assim
poderia precipitar uma crise que iria pôr entendeu Jônatas que seu pai tinha determinado
seriamente em perigo sua amizade. Sen­ matar a Davi. “ Peio que Jônatas, todo encoleri­
tiram necessidade de reafirmar sua aliança zado, se levantou da mesa, e no segundo dia do
anterior (18.3,4). Ademais, Davi buscou mês não comeu; pois se magoava por causa de Davi,
garantia de que Jônatas o advertiria se Saul porque seu pai o tinha ultrajada ^Jônatas, pois,
saiu ao campo, pela manhã, ao tempo que tinha
conspirasse contra ele. Ele sabia que não ajustado com Davi, levando consigo um rapazinha
podia continuar a evadir-se dos ataques de “ Então disse ao moço: corre a buscar as flechas
Saul sem a ajuda de Jônatas. que eu atirar. Corrèu, pois, o moço; e Jônatas atirou
Jônatas, por outro lado, estava ciente de uma flecha, que fez passar além dela 37Quando o
moço chegou ao lugar onde estava a flecha que
que, se estourasse um conflito aberto entre Jônatas atirara, gritou-lhe este, dizendo: Não está
Saul e Davi, ele poderia facilmente perder porventura a flecha para lá de ti? ^E tornou a
qualquer reivindicação quanto ao trono. gritar ao moço: Apressa-te, anda, não te demores!
Em tal caso, desejou felicidades a Davi: O E o servo de Jônatas apanhou as flechas, e as trouxe
a seu senhor. 390 moço, porém, nada percebeu; só
Senhor seja contigo assim como foi com Jônatas e Davi sabiam do negócio. 40Então
meu pai. Jônatas pediu que, caso sobrevi­ Jônatas deu as suas armas ao moço, e lhe disse:
vesse a uma tal batalha pelo trono, os termos Vai, leva-as à cidade. 41Logo que o moço se foi,
de sua aliança fossem honrados, embora levantou-se Davi da banda do sul, e lançou-se sobre
tivessem lutado em posições opostas. Ele o seu rosto em terra, e inclinou-se três vezes; e
beijaram-se um ao outro, e choraram ambos, mas
especialmente estava buscando anistia para Davi chorou muito mais. 42E disse Jônatas a Davi:
sua família. Vai-te em paz, porquanto nós temos jurado ambos
Os dois amigos renovaram o compro­ em nome do Senhor, dizendo: O Senhor seja entre
misso de lealdade de um para com o outro, mim e ti, e entre a minha descendência e a tua
descendência perpetuamente. 43Então Davi se
combinaram um código secreto para levantou e partiu; e Jônatas entrou na cidade.
advertir Davi, e se separaram.
Não está limpa Inúmeros incidentes
b. Davi Foge da Corte de Saul (20.24-43) poderiam tornar um homem cerimonial-
^Escondeu-se, pois, Davi no campo; e, sendo mente imundo de modo que seria impróprio
a lua nova, sentou-se o rei para comer. 25E, para ele tomar parte numa celebração ritual
sentando-se o rei, como de costume, no seu assento (Lv 7.21; 11.24 e s.; 15.16). Saul supôs que
junto à parede, Jônatas sentou-se defronte dele, e Davi estava ausente do primeiro dia da festa
Abner sentou-se ao lado de Saul; e o lugar de Davi
ficou vazia 26Entretanto Saul não disse nada
por uma dessas razões.
naquele dia, pois dizia consigo: Aconteceu-lhe Então se acendeu a ira de Saul contra
alguma coisa pela qual não está limpo; certamente Jônatas. Saul rejeitou violentamente a
não está limpa 27Sucedeu também no dia seguinte, desculpa combinada para a ausência de
o segundo da lua nova, que o lugar de Davi ficou Davi no segundo dia e dirigiu sua ira contra
vazia Perguntou, pois, Saul a Jônatas, seu filho:
Por que o filho de Jessé não veio comer nem ontem Jônatas. Saul, ou já havia descoberto a
nem hoje? 28Respondeu Jônatas a Saul: Davi profunda lealdade de seu filho para com
pediu-me encarecidamente licença para ir a Belém, Davi, ou então tinha suspeitas disso, e
29dizendo: Peço-te que me deixes ir, porquanto a julgou que ele estivesse colocando aquela
nossa parentela tem um sacrifício na cidade, e meu
irmão ordenou que eu fosse; se, pois, agora tenho
amizade acima da lealdade que devia à sua
achado graça aos teus olhos, peço-te que me deixes própria família. A explosão de injúrias sobre
ir, para ver a meus irmãos. Por isso não veio à mesa Jônatas somente era dirigida de modo indi­
do rei. “ Então se acendeu a ira de Saul contra reto a sua mãe. Saul gritou, dizendo que
Jônatas, e ele lhe disse: Filho da perversa e rebelde! a preferência de Jônatas por Davi procedia
Não sei eu que tens escolhido o filho de Jessé para
vergonha tua, e para vergonha de tua mãe? 31Pois do fato de que ele havia sido um filho que
por todo o tempo em que o filho de Jessé viver sobre se comportava mal desde o próprio nasci­
a terra, nem tu estarás seguro, nem o teu reino; mento: tens escolhido o filho de Jessé para
pelo que envia agora e traze-mo, porque ele há de vergonha tua, e para vergonha de tua mãe.

75
Embora Saul tivesse mais uma vez come­ conflitantes, refletiram sobre a aliança que
tido o sério erro de interpretar erronea­ os unira. O Senhor devia permanecer como
mente a lealdade básica de Jônatas (veja mediador entre suas duas famílias para
comentário sobre 19.1-7; 20.1-23), ele sempre.
pensava estar fazendo um favor ao filho.
Podia ver que, enquanto Davi vivesse, 5. Davi Torna-se um Fugitivo (21.1—26.25)
Jônatas jamais se tornaria rei. Assim, pro­
curava justificar sua própria responsabili­ 1) Sacerdotes Ajudam Davi em Nobe
dade pessoal pelos impulsos que motivavam (21.1-9)
seu ódio por Davi. 'E ntão veio Davi a Nobe, ao sacerdote
Jônatas aparentemente não desejava Aümeleque, o qual saiu, tremendo, ao seu encontro,
tornar-se mesmo rei; certamente não dese­ e lhe perguntou: Por que vens só, e ninguém
java se isso implicasse em ir contra Davi. contigo? 2Respondeu Davi ao sacerdote
Aimeleque: O rei me encomendou um negócioi, e
Mesmo após ser advertido da ameaça que me disse: Ninguém saiba deste negócio pelo qual
Davi representaria a seu próprio governo, eu te enviei, e o qual te ordenei. Quanto aos
Jônatas respondeu serenamente: Por que mancebos, apontei-lhes tal e tal lugar. 3Agora, pois,
há de morrer? que fez ele? Talvez sentisse que tens à mão? Dá-me cinco pães, ou o que se
que Deus já tinha escolhido a Davi como achar. 4Ao que, respondendo o sacerdote a Davi,
disse: Não tenho pão comum à mão; há, porém,
o próximo rei de Israel, e estava preparado pão sagrado, se ao menos os mancebos se têm
para aceitar esse julgamento. Ele era dotado abstido das mulheres. 5E respondeu Davi ao sacer­
duma qualidade que faltava totalmente a dote, e lhe disse: Sim, em boa fé, as mulheres se
seu pai. Era capaz de apreciar a grandeza nos vedaram há três dias; quando eu saí, os vasos
dos mancebos também eram santos, embora fosse
em outros sem sentir-se inferior. para uma viagem comum; quanto mais ainda hoje
Assim entendeu Jônatas que seu pai não serão santos os seus vasos? 6Então o sacer­
tinha determinado matar a Davi. No dia dote lhe deu o pão sagrado; porquanto não havia
seguinte, Jônatas procedeu com o sinal pré- ali outro pão senão os pães da proposição, que se
combinado, pelo qual Davi seria informado haviam tirado de diante do Senhor no dia em que
se tiravam para se pôr ali pão quente. 7Ora,
da reação de Saul ante sua ausência. Para achava-se ali naquele dia um dos servos de Saul,
assegurar-se de que não haveria mal- detido perante o Senhor; e era seu nome Doegue,
-entendidos, Jônatas acrescentou instruções edomeu, chefe dos pastores de Saul. 8E disse Davi
orais tencionadas a Davi, mas dirigidas a a Aimeleque: Não tens aqui à mão uma lança ou
uma espada? porque eu não trouxe comigo nem
seu ajudante, que de nada suspeitava: a minha espada nem as minhas armas, pois o
Apressa-te, anda, não te demores. negócio do rei era urgente. ’Respondeu o sacer­
Com a mensagem enviada, o leitor dote: A espada de Golias, o filisteu, a quem tu
espera que Jônatas retome à corte de seu feriste no vale de Elá, está aqui envolta num pano,
pai, enquanto Davi inicia o seu exílio. Neste detrás do éfode; se queres tomar, toma-a, porque
não há outra aqui senão ela. E disse Davi: Não
ponto, porém, Jônatas manda seu jovem há outra igual a essa; dá-ma.
ajudante de volta à cidade com suas armas,
e Davi sai do esconderijo para uma emocio­ Após fugir da corte de Saul, Davi parou
nante despedida. Os dois amigos haviam em Nobe para obter provisões, armas e
combinado aquela detalhada mensagem em orientação divina (22.10). Presumivelmente,
código presumivelmente porque conside­ Nobe foi fundada pelos sacerdotes que
raram muito perigoso serem vistos juntos. fugiram da destruição de Siló pelos filisteus
Contudo, quando se tornou evidente que em meados do século onze a.C. No tempo
agora estavam percorrendo caminhos de Davi, abrigava um santuário de razoá­
opostos, não poderiam separar-se sem se veis proporções, no qual trabalhava uma
despedirem, equipe de cerca de 85 sacerdotes (22.18).
Ao se prepararem os dois amigos para Localizado à vista de Jerusalém, a cidade
seguir seus destinos separados, até mesmo ficava no caminho que Davi estava

76
tomando rumo ao sul (Is 10.27-32; Ne Quanto mais ainda hoje não serão santos
11.31,32). Encontrando-se com Davi, seus vasos? Este é um eufemismo para
Aimeleque, Kder do grupo em Nobe, tremeu indicar a continência sexual de um soldado
de apreensão, reação semelhante com que enquanto numa expedição militar. A parti­
os anciãos de Belém haviam saudado a cipação em guerra requeria pureza ritual
Samuel (veja comentário sobre 16.1-13).» no antigo Israel, de modo que as relações
Este episódio apresenta uma outra etapa sexuais tinham de ser evitadas enquanto
da história da ascensão de Davi ao poder. numa campanha (Lv 15.17). Esses jovens,
Aqui o tema ou propósito subjacente é porém, não existiam; eram parte da mentira
muito semelhante ao das narrativas prece­ de Davi.
dentes sobre sua vida na corte. O autor A habilidade do autor em narrar histó­
continuará a demonstrar mediante o relato rias é ilustrada por sua referência a Doegue,
da vida de Davi, que foi alguém que saiu o edomeu. Embora não desempenhe qual­
do nada, que o Senhor estava atuando na quer papel neste contexto, é introduzido
história para trazê-lo ao trono de Israel. numa única sentença que interrompe o
fluxo da história. O leitor pode assim prever
A lamentável condição de Davi perante um papel mais importante para ele poste­
Aimeleque é um quadro perfeito de um riormente.
começo humilde. Ele estava totalmente só,
tendo fugido sem comida, armadura ou 2) Davi Finge Loucura (21.10-15)
acompanhantes. Quando Aimeleque pediu
10Levantou-se, pois, Davi e fugiu naquele dia de
explicações quanto às condições que pare­ diante de Saul, e foi ter com Áquis, rei de Gate.
ciam estranhas para um oficial tão desta­ "M as os servos de Áquis lhe perguntaram: Este
cado do rei, Davi mentiu, mencionando não é Davi, o rei da terra? não foi deste que can­
realizar uma missão secreta para Saul. tavam nas danças, dizendo: Saul matou os seus
Fazendo vaga referência a um encontro milhares, porém Davi os seus dez milhares? 12E
Davi considerou estas palavras no seu coração, e
com um pequeno contingente de tropas teve muito medo de Áquis, rei de Gate. 13Pelo que
próximas, Davi conseguiu obter alimento se contrafez diante dos olhos deles, e fingiu-se doido
suficiente para sustentá-lo ao longo de uma nas mãos deles, garatujando-se nas portas, e
jornada considerável. deixando correr a saliva pela barba. 14Então disse
Áquis aos seus servos: Bem vedes que este homem
Certamente Aimeleque deve ter tido está louco; por que mo trouxeste a mim? lsFaltam-
ainda maiores suspeitas pelo fato de Davi -me a mim doidos, para que trouxésseis a este para
não ter armas consigo, mas por solicitação fazer doidices diante de mim? há de entrar este na
minha casa?
de Davi ele lhe ofereceu a espada de Golias.
Assim ele entregou a Davi uma espada e Muitos comentaristas consideram este
também um bom “prenúncio”. Que deleite relato da visita de Davi ao rei de Gate como
para um narrador de histórias! Davi não uma narrativa variante de sua experiência
dispunha sequer de uma espada quando como vassalo de Áquis (27.1-12). Eles assi­
fugiu de Saul; e, quando retomasse, teria nalam, por exemplo, a falta de sabedoria
um exército inteiro. em tentar alistar-se como um soldado filis­
Nada se diz neste contexto sobre Davi teu, enquanto armado com a espada de
buscar orientação divina por meio de Golias (Caird, p. 999; Rust, pi 112,113).
Aimeleque, mas isso é destacadamente É realmente estranho que Davi tivesse
mencionado no capítulo seguinte (22.10, planejado participar da corte de Áquis sem
13,15). Talvez este aspecto da visita de Davi ter previsto algumas das dificuldades para
tenha sido omitido para salientar à cons­ fazê-lo. Contudo, há no relato alguns
ciência do leitor a inocência de Aimeleque elementos que podem indicar ser ele um
de qualquer cumplicidade com os planos hóspede involuntário dos filisteus. Assim,
de Davi. especulam quanto à sua identidade. Davi

77
estava em suas mãos, e levaram-no perante em sua tentativa de escapar para Gate sem
o rei, e escapou para Adulão (22.1). Esta ser notado ali, mudou-se para Adulão, na
interpretação da situação de Davi está de fronteira entre Israel e a Filístia. Adulão
acordo com o título do Salmo 56: “Mictam é identificado com as ruínas de ’aid-el-ma,
de Davi, quando os filisteus o prenderam a cerca de vinte quilômetros a sudoeste de
em Gate”. Belém e a menos de cinco quilômetros de
Podemos, pois, especular que Davi distância do vale de Elá, onde Davi havia
percebeu o perigo que corria como um fugi­ combatido Golias. Ali, numa região de
tivo solitário em qualquer parte de Israel. ravinas pronunciadas e numerosas caver­
Tinha esperado viver anonimamente entre nas, Davi começou a formar um exército.
os filisteus em Gate, mas soldados descon­ Com o tempo, Davi reuniu ao seu redor
fiados o detiveram e o levaram perante cerca de quatrocentos homens de sua
Áquis. Quando parecia que sua identidade própria família e vários descontentes de
havia sido descoberta, mas antes de haver todo o IsraeL A despeito da origem póuco
provas a respeito, Davi fingiu demência e recomendável, esse grupo mais tarde
evitou ser identificada Novamente foi salvo formaria a espinha dorsal do exército
pelo cuidado do Senhor e por sua própria regular de Davi, uma inovação aprendida
esperteza. O ardil de Davi — fingiu-se doido com os filisteus. Mas primeiramente ele
— foi bem escolhido porque os loucos eram tinha de treiná-los, educá-los na hierarquia
considerados possuídos por espíritos (16.14). militar e sustentá-los, ao mesmo tempo em
Qualquer que seja a interpretação deste que se evadia de Saul.
texto, a experiência de Davi perante Áquis Enquanto membros da família de Davi
serve neste contexto como prova concreta podiam proteger-se de Saul, unindo-se aos
de seu total desamparo. Uma questão teoló­ fora-da-lei de Davi, seus idosos pais não
gica domina a mente de cada leitor: Como podiam acompanhar esse ritmo. Davi, pois,
o Senhor fará do seu ungido um rei? Os conseguiu arranjar refúgio para eles com
israelitas mais taide lembrariam de quando o rei de Moabe (cf. Rt 1.4; 4.18-22). A
ele teve que agir como um bobo para salvar tradição rabínica afirma que o rei de Moabe
a vida! traiu a confiança de Davi e matou seus pais.
Isso explicaria o tratamento perverso que
3) Davi Reúne um Exército (22.1-5) dedicou aos moabitas quando assumiu o
'Depois Davi, retirando-se desse lugar, escapou poder (2Sm 8.2). A Bíblia, contudo, não
para a caverna de Adulão. Quando os seus irmãos oferece qualquer outra referência explícita
e toda a casa de seu pai souberam dissoi, desceram a seus pais.
ali para ter com ele. 2Ajuntaram-se a ele todos os Não fiques no lugar forte. Comentaristas
que se achavam em aperto^ todos os endividados,
e todos os amargurados de espírito; e ele se fez têm tido dificuldade em concordar se o
chefe deles; havia com ele cerca de quatrocentos lugar forte refere-se a Mizpe de Moabe ou
homens. 3 Dali passou Davi para M izpe de a Adulão. Uma vez que referências subs-
Moabe; e disse ao íei de Moabe: Deixa, peço-te, qüentes (2Sm 23.13; lCr 11.15) colocam o
que meu pai e minha mãe fiquem convosco, até que
eu saiba o que Deus há de fazer de mim. 4E os lugar forte num contexto semelhante a
deixou com o rei de Moabe; e ficaram com ele por Adulão, Moabe parece descartado. No
todo o tempo que Davi esteve no lugar forte. 5Disse entanto, no Antigo Testamento os termos
o profeta Gade a Davi: Não fiques no lugar forte; caverna e lugar forte não são empregados
sai, e entra na terra de Judá. Então Davi saiu, e como sinônimos. Assim, é melhor consi-
foi para o bosque de Herete.
dérar o lugar forte, ou fórtaleza, um nome
Davi sabia que não conseguiria escapar próprio neste contexto, referindo-se a toda
de Saul se permanecesse no território isra­ a vizinhança ao redor de Adulão, onde os
elita, e que nem conseguiria resistir às fora-da-lei de Davi encontraram refúgio
forças reais por si só. Depois de fracassar (cf. também 2Sm 5.17).

78
Nos livros de Samuel o profeta Gade é a casa de teu pai. 17E disse o rei aos da sua guarda
mencionado somente aqui e em 2Samuel que estavam com ele: Virai-vos, e matai os sacer­
dotes do Senhor, porque também a mão deles está
24, mas ele é noutro lugar conhecido como com Davi, e porque sabiam que ele fugia e não mo
um dos cronistas do reinado de Davi (lCr fizeram saber. M as os servos do rd não quiseram
29.29). Seu conselho para que Davi retor­ estender as suas mãos para arremeter contra os
nasse a Judá parece estranho, uma vez que sacerdotes do Senhor. 18Então disse o rei a
Adulão foi por um tempo considerado parte Doegue: Vira-te e arremete contra os sacerdotes.
Virou-se, então^ Doegue, o edomeu, e arremeteu
daquela tribo (Js 15.35). Por outro lado, contra os sacerdotes, e matou naquele dia oitenta
havia sido anteriormente uma cidade cana- e cinco homens que vestiam éfode de linho.
néia (Js 12.15), e, como vimos, à época de 19Também a Nobe, cidade desses sacerdotes,
Davi, Adulão provavelmente ficava na fron­ passou a fio de espada; homens e mulheres, meninos
teira entre Judá e Filístia. Gade desejava e criancinhas de peito, e até os bois, jumentos e
ovelhas passou a fio de espada. “ Todavia um dos
que Davi estivesse mais intimamente unido filhos de Aímeleque, filho de Aitube, que se chama­
com o seu próprio povo durante aquele va Abiatar, escapou e fugiu para Davi. 21E Abiatar
período. anuneiou a Davi que Saul tinha matado os sacer­
dotes do Senhor. 22Então Davi disse a Abiatar:
Bem sabia eu naquele dia que, estando ali Doegue,
4) Saul Perde Apoio Sacerdotal (22.6-23) o edomeu, não deixaria de o denunciar a Saul. Eu
‘Ora, ouviu Saul que já havia noticias de Davi sou a causa da morte de todos os da casa de teu
e dos homens que estavam com ela Estava Saul pai. 23Fica comigo, não temas; porque quem
em Gibeá, sentado, debaixo datamargueira, sobre procura a minha morte também procura a tua;
o alto, e tinha na mão a sua lança, e todos os seus comigo estarás em segurança.
servos que estavam com ele. 7Então disse Saul a Quando Saul foi informado de que Davi
seus servos que estavam com ele: Ouvi, agora,
benjamitas! Acaso ofilho de Jessé ms dará a todos estava reunindo tropas e retomando ao terri­
vós terras e vinhas, e fàr-vos-á a todos chefes de tório de Israel, seus piores temores pareciam
milhares e chefes de centenas, 8para que todos vós confirmados. Davi parecia estar se prepa­
tenhais conspirado contra mim, e não haja ninguém rando para um ataque maciço contra o
que me avise de ter meu filho feito aliança com o
filho de Jessé, e não haja ninguém dentre vós que trono de Saul. Uma vez que dificilmente
se doa de mim,e me participeo ter meu filho suble­ se conseguiriam localizar os rebeldes de
vado meu servo contra mim, para me armar ciladas, Davi no deserto de Judá, Saul decidiu
como se vê neste dia? ’Então respondeu Doegue, deixar um exemplo para quantos ajudassem
o edomeu, que também estava com os servos de a causa de Davi. Uma oportunidade para
Saul, e disse: Vi o filho de Jessé chegar a Nobe,
a Aímeleque, filho de Aitube; 10o qual consultou isso surgiu quando um de seus servos,
por ele ao Senhor, e lhe deu mantimento, e lhe deu Doegue, o edomeu, relatou que Aímeleque,
também a espada de Golias, o filisteu. uEntão o um sacerdote de Nobe, tinha dado orien­
rei mandou chamar a Aímeleque, o sacerdote, filho tação, provisões e armas a Davi (cf.
de Aitube, e a toda a casa de seu pai, isto é, aos
sacerdotes que estavam em Nobe; e todos eles comentário sobre 21.1-9).
vieram ao rei. 1ZE disse Saul: Ouve, filho de Saul convocou todos os sacerdotes de
Aitube! E ele disse: Eis-me aqui, senhor meu. Nobe para se apresentarem perante ele em
13Então lhe perguntou Saul: Por que conspirastes Gibeá e acusou-os de terem papel impor­
contra mim, tu e o filho de Jessé, pois deste-lhe
pão e espada, e consultaste por ele a Deus, para
tante na conspiração de Davi para derrubar
que se levantasse contra mim a armar-me ciladas, o reino. 28Aímeleque admitiu ter dado
como se vê neste dia? 14Ao que respondeu ajuda a Davi, mas declarou-se inocente de
Aímeleque ao rei, dizendo: Quem há, entre todos quaisquer motivos subversivos. Ele não
os teus servos, tão fiel como Davi, o genro do rei, sabia da defecção de Davi da corte de Saul
chefe da tua guarda, e honrado na tua casa?
lsForventura é de hoje que comecei a consultar por e acreditava que apenas estava dando assis-
ele a Deus? Longe de mim tal coisa! Não impute
o rei coisa nenhuma a mim seu servo, nem a toda
H á um reconhecim ento de que profetas e sacerdotes tiveram parti-
a casa de meu pai, pois o teu servo não soube nada cipação ativa em tais m anobras políticas (2Sm 15.12); 16.23; lR s
de tudo isso, nem muito nem pouco. 160 rei, 1.7). Alguns até iniciaram m udanças dinásticas (lR s 11.26-40;
porém, disse: Hás de morrer, Aímeleque, tu e toda 19.15-17).

79
tência a alguém que era um servo leal do Conquanto ele não pudesse desfazer um
rei. erro anterior, Davi tentou pôr as coisas em
Saul, contudo, não se deixou dominar seus devidos lugares, oferecendo proteção
pela razão ou pela justiça, mas sim por um a Abiatar. Essa amizade durou enquanto
neurótico senso de perseguição. Incapaz de Davi viveu.
fazer com que qualquer israelita nativo
tomasse medidas contra os sacerdotes do 5) Davi Liberta Queila (23.1-14)
Senhor, Saul persuadiu Doegue, o edomeu, ‘Ora, foi anunciado a Davi: Eis que os filisteus
a executar sua sentença de morte contra pelejam contra Queila, e saqueiam as eiras. zPelo
eles. Insatisfeito com a morte de 85 homens, que consultou Davi ao Senhor, dizendo: Irei eu,
Saul colocou Nobe sob interdito e massa­ e ferirei a esses filisteus? Respondeu o Senhor a
Davi: Vai, fere aos filisteus e salva a Queila. 3Mas
crou cada habitante da cidade. Esse deveria os homens de Davi lhe disseram: Eis que tememos
ser o fim de quantos ajudassem Davi e seus aqui em Judá, quanto mais se formos a Queila
rebeldes. contra o exército de filisteus! 4Davi, pois, tornou
Todavia, o plano de Saul de deixar um a consultar ao Senhor, e o Senhor lhe respondeu:
Levanta-te, desce a Queila, porque eu hei de entregar
exemplo pavoroso para o povo, saiu-lhe pela os filisteus na tua mão. 5Então Davi partiu com
culatra, pois calculou erroneamente a os seus homens para Queila, pelejou contra os filis­
reação popular ante o assassinato dos sacer­ teus, levou-lhes o gado, e fez grande matança entre
dotes. Pbr suas ações o rei havia provocado eles; assim Davi salvou os moradores de Queila.
a hostilidade da comunidade religiosa e ‘Ora, quando Abiatar, filho de Aimeleque, fugiu
para Davi, a Queila, desceu com um éfode na mão.
levado Abiatar, o único membro sobrevi­ 7Então foi anunciado a Saul que Davi tinha ido a
vente da linhagem sacerdotal de Eli, para Queila; e disse Saul: Deus o entregou nas minhas
o lado de Davi. Assim, Davi ganhou a mãos, pois está encerrado, porque entrou numa
amizade daqueles que continuavam a cidade que tem portas e ferrolhos. 8E convocou
todo o povo à peleja, para descerem a Queila, e
manter instituições religiosas associadas cercar a Davi e os seus homens. ’Sabendo, pois,
com o período dos juizes. Agora Davi podia Davi que Saul maquinava este mal contra ele, disse
reivindicar endosso tanto profético (16.13; a Abiatar, sacerdote: Itaze aqui o éfode. 10E disse
22.5) quanto sacerdotal. Saul, por seu turno, Davi: Ó Senhor, Deus de Israel, teu servo acaba
havia afastado de si todo o apoio religioso. de ouvir que Saul procura vir a Queila, para destruir
a cidade por causa de mim. nEntregar-me-ão os
A frase tinha na mão a sua lança pode cidadãos de Queila na mão dele? descerá Saul, como
significar que a lança era um cetro, ou um o teu servo tem ouvido? Ah, Senhor Deus de Israel!
símbolo da autoridade de Saul. Por outro faze-o saber ao teu servo: Respondeu o Senhor:
lado, a freqüência com que ela é mencio­ Descerá. 12Disse mais Davi: Entregar-me-ão os
cidadãos de Queila, a mim e aos meus homens,
nada talvez reflita a crescente desconfiança nas mãos de Saul? E respondeu o Senhor: Entre­
de Saul para com aqueles que estavam ao garão. 13Levantou-se, então, Davi com os seus
seu redor (18.10; 19.9; 20.33; 26.7). Ele homens, cerca de seiscentos, e saíram de Queila,
sentia que tinha de cuidar de sua própria e foram-se aonde pnderam. Saul, quando lhe foi
proteção, o que fazia com que criasse anunciado que Davi escapara de Queila, deixou de
sair contra ele. 14E Davi ficou no deserto, em luga­
hábitos como o de sentar-se com as costas res forte, permanecendo na região montanhosa no
para a parede (20.25). deserto de Zife. Saul o buscava todos os dias, porém
Ouvi, agora benjamitas. Saul lembrou Deus não o entregou na sua m ãa
a seus companheiros de tribo que o trabalho
deles na corte dependia de seu governo Em função do conselho implícito nas
continuar existindo. Se Davi chegasse ao instruções do profeta Gade (22.5), Davi
poder, ele tenderia a favorecer os da tribo esperava obter apoio, apresentando-se como
de Judá como seus conselheiros e oficiais. um amigo do povo de Judá. Uma oportu­
Eu sou a causa da morte. Davi reco­ nidade surgiu com um ataque filisteu contra
nheceu que seu logro para Aimeleque tinha Queila, uma cidade murada na fronteira
sido responsável pela destruição de Nobe. de Judá, a cerca de cinco quilômetros

80
abaixo de Adulãa O ataque filisteu visava para ter os planos frustrados pela sensibi­
pilhagem, não propriamente conquista lidade de Davi à orientação divina.
permanente, mas a perda de uma safra de A exata natureza do éfode já não é mais
grãos de toda uma estação representaria conhecida. É geralmente descrito como um
considerável prejuízo aos camponeses item dos paramentos .vestidos pelos sacer­
locais. dotes (Ex 28.28,29; ISm 2.18; 22.18; 2Sm
Após buscar a direção divina por duas 6.14), mas às vezes parece ser uma imagem
vezes e ignorando as objeções de seus associada com um lugar específico de
homens, Davi avançou para romper o cerco adoração (Jz 8.27; ISm 21.9). Neste
filisteu a Queila. Conquanto pouco se diga contexto, porém, o éfode está claramente
sobre a batalha em si, os israelitas prova­ associado com a busca de Davi por orien­
velmente começaram com um ataque tação divina (23.6-12). Aparentemente, o
contra o comboio de suprimento dos filis­ éfode sacerdotal servia como receptáculo
teus (cf. Hertzberg, p. 191). Ali os homens do lançamento dos dados sagrados ou o
de Davi capturaram os animais de carga Urim e Tumim. Perguntas eram cuidado­
do inimigo e desviaram a atenção, de modo samente formuladas pelo sacerdote, e o
que a força principal de Davi irrompeu Senhor respondeu ao controlar o resultado
contra as forças filistéias e as pôs em deban­ das sortes lançadas, dando respostas afir­
dada. O cerco foi levantado, e os homens mativas ou negativas. A presença de
de Davi instalaram-se temporariamente na Abiatar com o éfode ao lado de Davi servia
cidade. como lembrete visível de que Deus dirigia
Ao ter notícias da ação em Queila, Saul a causa de Davi.
percebeu uma oportunidade de apanhar
Davi num erro estratégico. Se as tropas de 6) Amigos Ampliam Aliança (23.15-18)
Davi permanecessem comprometidas com 15Vendo, pois, Davi que Saul saíra à busca de
a defesa mesmo de um único local fortifi­ sua vida, esteve no deserto de Zife, em Hores.
cado:, não representariam adversário à altura l6Então se levantou Jônatas, filho de Saul, e foi ter
para as experientes tropas do rei. Davi, com Davi em Hores, e o confortou em Deus; 17e
disse-lhe: Não temas; porque não te achará a mão
contudo, reconhecia sua desvantagem tática de Saul, meu pai; porém tu reinarás sobre Israel,
e o perigo que sua permanência trazia ao e eu serei contigo o segundo; o que também Saul,
povo da cidade. Abandonando o local, meu pai, bem sabe. 18E ambos fizeram aliança
dispersou seus homens no território ao perante o Senhor; Davi ficou em Hores, e Jônatas
voltou para sua casa.
redor. Davi, portanto, recorreu a suas táticas
iniciais de guerrilha e evitou confrontos Em seguida a sua retirada de Queila,
diretos com as forças superiores de Saul. Davi dirigiu seus homens vinte e cinco a
Davi é novamente retratado de modo trinta quilômetros mais ao sudeste, para o
atraente nesta seção. Ele é um líder expe­ deserto de Judá, a leste de Zife e Maom.
riente e ousado, contudo modestamente não Essas cidades, localizadas respectivamente
aceita qualquer crédito pessoal e reconhece a cinco quilômetros e meio e a treze quilô­
a necessidade de buscar a orientação divina. metros e meio ao sul de Hebrom, jazem
Em contraste com o ataque criminoso de ao longo das partes mais elevadas da árida
Saul contra os habitantes de Nobe, Davi encosta ocidental que desce para o Mar
é compreensivo e cheio de consideração Morto. Esse território propiciou a Davi e
para com as pessoas de Queila, que teriam- seus homens alguma pastagem e conside­
no entregue a Saul se tivessem sido rável proteção, embora a persistente
convocadas a fazê-lo. O impacto do mas­ perseguição por Saul (23.14) tornasse difícil
sacre dos sacerdotes de Nobe por Saul ocultar-se.
começa a ser vista Saul dirige suas campa­ Bem quando as crescentes pressões da
nhas com considerável visão tática somente vida clandestina de Davi estavam para

81
minar sua fé e sua vontade de resistir, reinado de Davi, não devia haver qualquer
Jônatas apareceu, novamente querendo paz idéia de, à força, remover Saul do trono.
com seu amigo. A aliança que foi firmada Eles tinham de esperar pacientemente e
aqui no deserto de Zife marca um decidido aguardar que o Senhor tratasse com Saul
progresso além de quaisquer outras alianças segundo a sua vontade e seu próprio tempo.
anteriormente feitas entre os dois homens. Ikmbéin Saul, meu pai, bem sabe (veja
Estritamente falando, essa era uma proposta comentário sobre 24.16-22).
para formar um governo de coalizão, com
Davi como chefe e Jônatas como a segunda 7) Zifeus Traem Davi (23.19-29)
pessoa em importância. 19Então subiram os zifeus a Saul, a Gibeá,
A narrativa biblica não apresenta qual­ dizendo: Não se escondeu Davi entre nós, nos
quer informação sobre os acontecimentos lugares fortes em Hores, no outeiro de Haquila,
que conduziram ao encontro de Davi e que está à mão direita de Jesimom?20Agora, pois,
6 rei, desce apressadamente, conforme todo o desejo
Jônatas, e nenhuma interpretação de seu da tua alma; a nós nos cumpre entregá-lo nas mãos
significado para Israel se faz notar. Con­ do re i.21Então disse Saul: Benditos sejais vós do
tudo, podemos especular que a aliança de Senhor, porque vos compadecestes de mim. 22Ide,
Zife foi o resultado de planejamento cuida­ pois, informai-vos ainda melhor; sabei e notai o lugar
doso da parte dos dois jovens. Ambos que ele freqüenta, e quem o tenha visto ali; porque
me foi dito que é muito astuta 23Pelo que atentai
entenderam que o profundo abismo que se bem, e informai-vos acerca de todos os esconde­
desenvolvia dentro de Israel era o resultado rijos em que ele se oculta; e então voltai para mim
da insegurança e temor irracionais de Saul, com noticias exatas, e eu irei convosco. E há de
que forçaram Davi a sair da corte do rei. ser que, se estiver naquela terra, eu o buscarei entre
todos os milhares de Judá. MEles, pois, se levan­
Igualmente podiam prever que a preo­ taram e foram a Zife adiante de Saul; Davi, porém,
cupação de Saul com a perseguição a Davi e os seus homens estavam no deserto de Maom,
estava reabrindo caminho para um ressur­ na campina ao sul de Jesimom.25E Saul e os seus
gimento do poder filisteu (cf. 23.1-14,27; homens foram em busca dele. Sendo isso anunciado
28.1—31.13). Do jeito como tudo se achava, a Davi, desceu ele à penha que está no deserto de
Maom. Ouvindo-o Saul, foi ao deserto de Maom,
nem Davi nem Jônatas conseguiriam a perseguir Davi. “ Saul ia de uma banda do
formar um governo viável sem a colabo­ monte, e Davi e os seus homens da outra banda.
ração do outro, porque cada um deles era E Davi se apressava para escapar, por medo de Saul,
respaldado por grupos que representavam porquanto Saul e os seus homens iam cercando
interesses por demais poderosos para serem a Davi e aos seus homens, para os prender. 27Nisso
veio um mensageiro a Saul, dizendo: Apressa-te,
ignorados. e vem, porque os filisteus acabam de invadir a terra.
Uma coalizão, entretanto, ainda era “ Pelo que Saul voltou de perseguir a Davi, e se
possível. Conquanto a paciência e fé de foi ao encontro dos filisteus. Por esta razão aquele
Davi tivessem diminuído bastante, ele não lugar se chamou Selá-Hamalecote. 29Depois disto,
Davi subiu e ficou nos lugares fortes de En-Gedi.
havia empregado suas forças contra Israel.
Jônatas, de sua parte, estava em posição Este é o primeiro de dois relatos de uma
de garantir que Saul não conseguiria tentativa pelo povo de Zife de entregar Davi
capturar seu amigo Davi. Juntos seriam nas mãos de Saul (cf. 26.1-25). Em ambos
capazes de restabelecer um governo pací­ os contextos, a tradição dos zifeus precede
fico para Israel. Primeiro, porém, era pre­ imediatamente uma experiência em que
ciso levar Saul em conta. Davi demonstra seu respeito por Saul como
Desde o princípio da doença de Saul, o ungido do Senhor, após o rei ter milagro­
nem Jônatas nem Davi têm sido descritos samente ficado ao alcance de Davi.
em ações que fossem contrárias aos mais Numerosos outros paralelos também
elevados interesses do rei. Conquanto esti­ existem (cf. 23.19 e 26.1; 24.2 e 26.2; 24.16
vessem convencidos de que o Senhor estava e 25.17; 24.30 e 26.25; 24.22 e 26.25). Os
em processo de demonstrar seu apoio ao dois relatos respaldam mutuamente a auten-

82
ticidade histórica em geral da experiência, 5Sucedeu, porém, que depois doeu o coração de
mas é difícil ter certeza acerca das Davi, por ter cortado a orla do manto de Saul. 6E
circunstâncias que cercam o incidente disse aos seus homens: O Senhor me guarde de
que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do
básico. Senhor, que eu estenda a minha mão contra ele,
O acordo entre Davi e Jônatas para pois é o ungido do Senhpr. 7Com essas palavras
formar um governo de coalizão para Israel Davi conteve os seus homens, e não lhes permitiu
(cf. 23.15-18) ainda se deparava com um que se levantassem contra Saul. E Saul se levantou
da caverna, e prosseguiu o seu caminha “Depois
problema básico: Saul permanecia no trono também Davi se levantou e, saindo da caverna, gritou
e continuava perseguindo Davi. Os zifeus, por detrás de Saul, dizendo: Ó rei, meu senhor!
bem cientes do poderio e espírito de Quando Saul olhoii para trás, Davi se inclinou com
vingança de Saul, estavam preparados para o rosto em terra, e lhe fez reverência. ’Então disse
entregar Davi da mesma forma como o Davi a Saul: Por que dás ouvidos às palavras dos
homens que dizem: Davi procura fazer-te mal?
povo de Queila estivera antes deles (23.1-14). 10Eis que os teus olhos acabam de ver que o
Sabendo que os fora-da-lei de Davi tinham Senhor hoje te pôs em minhas mãos nesta caverna;
sido vistos no deserto ao redor de Maom, e alguns disseram que eu te matasse, porém a minha
Saul e suas forças estavam inspecionando mão te poupou; pois eu disse: Não estenderei a
minha mão contra o meu Senhor, porque é o ungido
aquela área quando notícias de um ataque do Senhor. nOlha, meu pai, vê aqui a orla do teu
filisteu contra Israel chegaram ao rei. Saul manto na minha mão, pois cortando-te eu a orla
interrompeu a busca e retirou-se para do manto, não te matei. Considera e vê que não
combater os filisteus sem saber que Davi há na minha mão nem mal nem transgressão
estava logo ali depois da próxima escarpa. alguma, e que não pequei contra ti, ainda que tu
andes à caça da minha vida para ma tirares.
Indubitavelmente, gerações posteriores assi­ lzJulgue o Senhor entre mim e ti, e vingue-me o
nalaram uma montanha específica onde Senhor de ti; a minha mão, porém, não será contra
Davi tinha por tão pouco escapado de ser ti. 13Como diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios
capturado por Saul: Por esta razão aquele procede a impiedade. A minha mão, porém, não
será contra ti. 14Após quem saiu o rei de Israel?
lugar se chamou Selá-Hamalecote, sendo a quem persegues tu? A um cão morto, a uma pulga!
Selá-Hamalecote termo hebraico que signi­ 15Seja, pois, o Senhor juiz, e julgue entre mim e
fica “a penha de escape”. ti; e veja, e advogue a minha causa, e me livre da
A providência divina novamente se tua m ãa
revelou no espetacular livramento de Davi,
Após escapar por pouco de ser pego por
cuja captura pelo rei era quase certa. O Saul no deserto de Zife, Davi dirigiu-se uns
chocante contraste entre as personalidades 25 quilômetros para o leste, entrando no
de Saul e Davi é visto na comparação deste deserto de Judá até chegar a uma área que
incidente com o que se segue. margeava o Mar Morto. A vida nessa área
é basicamente sustentada por uma fonte
8) Saul Entregue a Davi (24.1-22) de águas quentes chamada En-Gedi, que
a. Davi Poupa Saul (24.1-15) emerge das rochas quase 120 metros acima
‘Ora, quando Saul voltou de perseguir os filis­ do Mar Morto. O território circunvizinho,
teus, foi-lhe dito: Eis que Davi está no deserto de exceto o oásis adjacente à fonte, é árido e
En-Gedi. 2Então tomou Saul três mil homens esco­ acidentado, sendo assim ideal para fugitivos
lhidos dentre todo o Israel, e foi em busca de Davi em busca de esconderijo.
e dos seus homens, até sobre as penhas das cabras
monteses. 3E chegou no caminho a uns currais de
A narrativa bíblica não registra o resul­
ovelhas, onde havia uma caverna; e Saul entrou nela tado da expedição de Saul contra os filis­
para aliviar o ventre. O ra Davi e os seus homens teus. Pode ter-se tratado de um rápido
estavam sentados na parte interior da caverna. ataque de fustigação ou mesmo um alarme
4Então os homens de Davi lhe disseram: Eis aqui falso, pois não se registra qualquer batalha.
o dia do qual o Senhor te disse: Eis que entrego
o teu inimigo nas tuas mãos; far-lhe-ás como parecer Não obstante, mais uma vez o rei não
bem aos teus olhos. Então Davi se levantou, e de deixaria de procurar Davi. Com três mil
mansinho cortou a orla do manto de Saul. homens de elite, Saul seguiu a Davi até En-

83
-Gedi. Uma vez mais, porém, o Senhor 19Pois, quem há que, encontrando o seu inimigo,
interveio. Desta vez para entregar Saul nas o deixará ir o seu caminho? O Senhor, pois, te pague
com bem, pelo que hoje me fizeste.20Agora, pois,
mãos de Davi. sei que certamente hás de reinar, e que o reino de
Davi estava agora em condições de, Israel há de se firmar na tua mão. 21Portanto jura-
numa oportunidade aparentemente dada -me peio Senhor que não desarraigarás a minha
por Deus, remover o último obstáculo que descendência depois de mim, nem extinguirás o
bloqueava o plano seu e de Jônatas para meu nome da casa de meu pai. 2ZEntão jurou Davi
a Saul. E foi Saul para sua casa, mas Davi e os
restaurar a estabilidade do governo de Israel seus homens subiram ao lugar forte.
(23.15-18). O rei poderia ser morto, ou
mesmo capturado, e a dissipação das ener­ Davi provou que era inocente de
gias de Israel, acarretada por sua intenções traiçoeiras, recusando-se a matar
perseguição a um súdito leal, teria fim. Com Saul na caverna de En-Gedi. O rei, portanto,
Saul fora do caminho, um governo de foi forçado a admitir que suas suspeitas
coalizão poderia ser estabelecido, devol­ quanto a Davi tinham sido injustas o tempo
vendo assim a razão e a ordem à estrutura todo e que ele tinha estado tratando injus­
política de Israel. tamente seu súdito. Davi provara a si mesmo
Davi, contudo, não estava ansioso por que era um homem superior ao manter sua
tomar controle pessoal de questões sob juris­ compostura diante da séria provocação e
dição divina. Diferentemente de Saul, ele por recusar a violar sua integridade, retri­
estava disposto a aguardar o tempo divi­ buindo o mal com o mal. Ao reconhecer
namente apontado (cf. 13.1-15) para levar tal fato, Saul estava admitindo que não
a efeito a ordem do Senhor (cf. 15.1-23). tinha mais condições para governar. A
Davi, portanto, controlou seus homens,
administração de justiça era uma respon­
que recomendavam a pronta execução de sabilidade básica do rei, e seu julgamento
Saul, e, em vez disso, apenas cortou a barra tinha-se provado seriamente deficiente.
do seu manto.29 Se Saul devia ser deposto À luz de sua confissão de que era injusto,
como rei de Israel, Deus teria de prover seus Saul reconheceu que Davi reinaria em
próprios meios para depô-lo. Davi não Israel; e pediu um tratamento magnânimo
ergueria a mão contra o ungido do Senhor. para sua família quando Davi chegasse ao
Não obstante, a oportunidade devia ser poder. Esta passagem é geralmente consi­
totalmente aproveitada. Mostrando a barra derada tão-somente uma declaração
do manto de Saul para provar que o rei havia antecipada do papel que Davi iria futura­
realmente estado à mercê dele, Davi repre­ mente desempenhar em Israel (Hertzberg,
endeu Saul por sua insistente disposição p. 197; McKane, p. 147). Como tal, porém,
em considerá-lo desleal. está apenas remotamente ligado à situação
difícil de Davi em En-Gedi. O reconheci­
b. Saul Admite a Injustiça (24.16-22) mento por Saul aparentemente significou
16Acabando Davi de folar a Saul todas estas
muito pouco para Davi em termos de enco­
palavras, perguntou Saul: É esta a tua voz, meu rajamento, e nada significou para Saul se
filho Davi? Então Saul levantou a voz e chorou. julgarmos por suas atitudes.
17E disse a Davi: Di és mais justo do que eu, pois Por outro lado, as declarações de Saul
me recompensaste com bem, e eu te recompensei fora da caverna em En-Gedi são notavel­
com mal. 18E tu mostraste hoje que procedeste
bem para comigo, por isso que, havendo-me o mente semelhantes às de Jônatas quando
Senhor entregado na tua mão, não me mataste. se. encontrou com Davi no deserto de Zife
(23.15-18). Ali ambos fizeram aliança para
29 M cKane (p. 148,149) sugere que n o cortar o m anto do rei, Davi
estabelecer um governo de coalizão com
uniu*se a Samuel era rejeitar Saul como o ungido do Senhor (cf. Davi à frente e Jônatas como o segundo
15.27). Isto explicaria sua contrição diante de seu a to (v. 5-7)quando
veio a perceber a natureza duradoura da bênção de Deus. Observe-
em importância. Parece mesmo que as
-se a sem elhança deste ato com o de Aias (lR s 11.26*40). negociações de Jônatas foram feitas com

84
pleno conhecimento de seu pai e sua apro­ de Davi ao poder experimenta uma pausa,
vação: “E [Jônatas] disse-lhe: Não temas; e interessantes facetas de sua existência
porque não te achará a mão de Saul, meu clandestina são apresentadas: Samuel morre
pai; porém tu reinarás sobre Israel, e eu serei (25.1); Davi arranja duas esposas (25.2-43)
contigo o segundo; o que também Saul, meu e perde uma outra (25.44). Somente com
pai, bem sabe” (23.17). uma segunda versão da traição dos zifeus
É verdade que as ações de Saul subse­ e da miraculosa entrega de Saul às mãos
qüentes à visita de Jônatas não refletem de Davi (26.1-25) é que o relato retoma seu
qualquer disposição de sua parte em renun­ ritmo. Então, grandemente descoroçoado,
ciar a seu reinado. Não obstante, Saul pode Davi torna-se vassalo de Áquis, rei de Gate,
ter encorajado essa aliança e a amizade de enquanto aguarda maiores mudanças em
Jônatas para com Davi para dar a seu Israel. Talvez, mais profundamente do que
inimigo uma falsa sensação de segurança. temos percebido, a nova direção que a narra­
Caso soubesse das intenções do pai, Jônatas tiva bíblica toma tenha sido influenciada
jamais teria empreendido tal missão, mas pela morte de Samuel (25.1; cf. lCr 29.29).
Saul parecia capaz de enganar seu próprio É esta a tua voz? Estas palavras melhor
filho a fim de alcançar seus propósitos (cf. se encaixam em 26.17, onde a escuridão
20.3). impede que Saul reconheça facilmente a
Se Saul de fato tentou ludibriar Davi com Davi. Neste contexto Saul parece estar
uma aliança falsa, seu conluio com os zifeus expressando surpresa diante da bondade de
foi ainda mais condenável. Igualmente, o Davi: “Você está realmente falando sério,
ato pelo qual Deus frustrou seus planos na Davi?”
Psnha de Escape (23.28) foi ainda mais Sei. Esta palavra em hebraico (yada‘ti)
apropriado, porque a traição de Saul fora pode transmitir uma ampla variedade de
inútil e o Senhor o havia entregue às mãos sentidos, além deste mais comum que
de Davi em En-Gedi. A poderosa demons­ aparece em nossa tradução. A tradução
tração divina de apoio a Davi forçou Saul “confesso” ou “reconheço” estaria bem mais
a estabelecer um acordo ainda menos vanta­ de acordo com a interpretação do parágrafo
joso do que aquele que Jônatas fizera com acima (cf. Jr 3.13; 14.20; SI 51.3).
Davi em Zife. Desta vez Jônatas não foi
mencionado, mas Davi reafirmou seu 9) Davi se Casa com Abigail (25.1-44)
compromisso anterior de agir generosa­ Este relato do casamento de Davi com
mente para com a família de Saul (Jônatas) Abigail coloca-se entre as obras-primas lite­
(20.42). rárias do Antigo Testamento. O autor
É possível que Saul nunca tenha dese­ combinou nítidas descrições das persona­
jado cumprir sua parte neste novo acordo, gens, romance, intriga, sabedoria e humor
e Davi certamente teve todos os motivos num dos mais belos exemplos de redação
para ser cauteloso. Ainda mais desconfiado de breves histórias da literatura antiga. Não
da integridade de Saul do que antes, Davi se trata, porém, duma simples história. O
retornou à fortaleza quando Saul foi para que a princípio parece ser apenas um relato
Gibeá, talvez para preparar uma transfe­ bem feito de um dos casamentos mais inte­
rência de poder. ressantes de Davi, na realidade fala de uma
Desafortunadamente, nada mais se diz sutil, mas séria crise moral na vida de Davi.
quanto ao resultado do reconhecimento por Em En-Gedi Davi havia recusado fazer
Saul do direito de Davi governar (cf. comen­ justiça divina com suas próprias mãos. Ele
tário sobre 24.16-22). É interessante, conseqüentemente havia tratado Saul com
contudo, observar que a natureza da narra­ extrema generosidade a despeito das repe­
tiva bíblica muda um pouco ao final do tidas tentativas do rei em tirar sua vida. Ao
capítulo 24.0 rápido progresso da ascensão tratar Nabal, contudo, Davi esteve pronto

85
para liquidar todos os membros do sexo todos os dias que andamos com eles apascentando
masculino de toda uma família por causa as ovelhas. 17Considera, pois, agora e vê o que hás
de fazer, porque o mal já está de todo determinado
de um insulto e de alimento de que neces­ contra o nosso amo e contra toda a sua casa; e
sitava. Somente a oportuna intervenção de ele é tal filho de Belial, que não há quem lhe possa
Deus na pessoa da bela esposa de Nabal falar.
reteve a mão de Davi. O Senhor novamente
demonstrou seu providencial cuidado por Numa sociedade moderna, bem organi­
seu príncipe ungida zada, a maneira de Davi sustentar sua tropa
pareceria uma forma de extorsão ilegal. Bar
a. Davi Vende Proteção (25.1-17) controlar seu bando heterogêneo (22.2) e
'O ra, faleceu Samuel; e todo o Israel se
impedir ataques por parte de beduínos que
ajuntou e o pranteou; e o sepultaram na sua casa, passavam por ali (cf. 30.1 e s .), Davi espe­
em Ramá. E Davi se levantou e desceu ao deserto rava receber tributo da população local,
de Parã. 2Havia um homem em Maom que tinha estando preparado para fazê-lo.
as suas possessões no Carmela Este homem era Conquanto alguns proprietários de terra
muito rico, pois tinha três mil ovelhas e mil cabras:
e estava tosquiando as suas ovelhas no Carmela obviamente objetassem às exigências de
3Chamava-se o homem Nabal, e sua mulher Davi, o tributo que ele esperava receber não
chamava-se Abigail; era a mulher sensata e formosa; parece ter sido considerado excessivo para
o homem, porém, era duro, e maligno nas suas os padrões da época. Aparentemente os
ações; e era da casa de Calebe. 4Ouviu Davi no próprios servos de Nabal e mesmo sua
deserto que Nabal tosquiava as suas ovelhas, se
enviou-lhe dez mancebos, dizendo-lhes: Subi ao esposa julgaram que Davi merecia alguma
Carmela, ide a Nabal e perguntai-lhe, em meu nome, compensação pela proteção que havia dado
como está. 6Assim lhe direis: Paz seja contigo, e aos pastores de Nabal no deserto. Ademais,
com a tua casa, e com tudo o que tens. 7Agora, os homens de Davi apareceram para receber
pois, tenho ouvido que tens tosquiadores. Ora, os
pastores que tens acabam de estar conosco; agravo pagamento ao final da época da tosquia,
nenhum lhes fizemos, nem lhes desapareceu coisa quando se podia esperar que o proprietário
alguma por todo o tempo que estiveram no Carmela normalmente oferecesse uma festa e
8Pergunta-o aos teus mancebos, e eles to dirãa compartilhasse seus ganhos com os vizi­
Que achem, portanto, os teus servos graça aos teus
olhos, porque viemos em boa ocasiãa Dá, pois,
nhos (cf. 2Sm 13.23).
a teus servos e a Davi, teu filho, o que achares à Conquanto não esteja explícito em parte
mão. ’Chegando, pois, os mancebos de Davi, alguma, nosso autor parece dar a entender
falaram a Nabal todas aquelas palavras em nome que a recusa de Nabal tinha motivação polí­
de Davi, e se calaram.10Ao que Nabal respondeu tica. Davi é comparado a um servo que
aos servos de Davi, e disse: Quem é Davi, e quem
o filho de Jessé? Muitos servos há que hoje fogem fugiu de seu mestre, a um rebelde a quem
ao seu senhor. uTomaria eu, pois, o meu pão, e a Nabal não estava disposto a sustentar. Davi
minha água, e a carne das minhas reses que degolei aparentemente encontrara um considerável
para os meus tosquiadores, e os daria a homens número de pessoas que, como Nabal, os
que não sei donde vêm? 12Então os mancebos de
Davi se puseram a caminho e, voltando, vieram zifeus e o povo de Queila, permaneciam
anunciar-lhe todas estas palavras. uPelo que disse leais a Saul. Abigail, por outro lado, levou
Davi aos seus homens: Cada um cinja a sua espada. provisões a Davi não apenas porque ele era
E cada um cingiu a sua espada, e Davi também um poderoso combatente, mas porque o
cingiu a sua, e subiram após Davi cerca de quatro­ Senhor o havia designado como príncipe
centos homens, e duzentos ficaram com a bagagem.
14Um dentre os mancebos, porém, o anunciou a (nagid) sobre Israel (25.30). A disputa pelo
Abigail, mulher de Nabal, dizendo: Eis que Davi trono de Israel tinha se tornado qúestão
enviou mensageiros desde o deserto a saudar o de acirrada controvérsia e que até mesmo
nosso amo; e ele os destratou. I5Todavia, aqueles trouxera dissensão a muitos lares entre o
homens têm-nos sido muito bons, e nada nos desa­
pareceu por todo o tempo em que convivemos com povo de Deus.
eles quando estávamos no campa 16De muro em Faleceu Samuel (veja comentário sobre
redor nos serviram, assim de dia como de noite, 24.16-22).

86
Davi então desceu ao deserto de Parã. de meu senhor, que enviaste.26Agora, pois, meu
O manuscrito Vaticano da Septuaginta reza senhor, vive o Senhor, e vive a tua alma, porquanto
o Senhor te impediu de derramares sangue, e de
aqui Maom, e o restante do contexto indica te vingares com a tua própria* mão, sejam agora
essa localidade. Carmelo (palavra hebraica como Nabal os teus inimigos e os que procuram
que significa terra-jardim) designa uma fazer o mal contra o meu senhor.27Aceita agora
aldeia cerca de onze quilômetros a sul- este presente que a tua serva trouxe a meu senhor;
seja ele dado aos mancebos que seguem ao meu
-sudeste de Hebrom e não ao promontório senhor. P erd o a, pois, a transgressão da tua serva;
ao sul de Aco (Js 15.55; ISm 15.12). O porque certamente fará o Senhor casa firme a meu
deserto de Parã associado à época de Moisés senhor, pois meu senhor guerreia as guerras do
(Nm 13.26; cf. Dt 1.1-22) estava localizado Senhor; e não se achará mal em ti por todos os
perto de Cades-Baméia e, portanto, muito teus dias. 29Se alguém se levantar para te perseguir,
e para buscar a tua vida, então a vida de meu senhor
mais ao sul para ser o território aqui mencio­ será atada no feixe dos que vivem com o Senhor
nado. teu Deus; porém a vida de teus inimigos ele arro­
Nabal era da casa de Calebe. O autor jará ao longe, como do côncavo de uma funda.
demonstra ter uma apreciação bem ^Quando o Senhor tiver feito para com o meu
senhor conforme todo o bem que já tem dito de
pequena pelos descendentes de Calebe, que ti, e te houver estabelecido por príncipe sobre Israel,
formavam um clã dentro da tribo de Judá. 31então, meu senhor, não terás no coração esta tris­
Note-se como o autor associa o clã de Nabal teza nem este remorso de teres derramado sangue
com o seu caráter (duro, isto é, grosseiro, sem causa, ou de haver-se vingado o meu senhor
e maligno nas suas ações) em vez de com a si mesma E quando o Senhor fizer bem a meu
senhor, lembra-te então da tua serva.
sua cidade natal.
De muro em redor nos serviram.
O papel de Davi como o protetor não
Compare-se esta figura de linguagem com
oficial, e às vezes não bem acolhido, da vida
a experiência de Israel no Mar Vermelho
no deserto de Judá parece ter sido consi­
(Ex 14.22).
derado razoavelmente legítimo (cf.
comentário sobre 25.1-16). Não obstante,
b. Abigail Intercede (25.18-31) não devemos concluir que os planos de Davi
para uma violenta represália ao insulto de
18Então Abigail se apressou, e tomou duzentos
pães, dois odres de vinho, cinco ovelhas assadas, Nabal mereçam complacência. Tais atitudes
cinco medidas de trigo tostado, cem cachos de seriam de se esperar de um bandoleiro
passas, e duzentas pastas de figos secos, e os pôs ocioso, mas não eram dignas do líder esco­
sobre jumentos. 19E disse aos seus mancebos: Ide lhido por Deus para seu povo. Davi havia
adiante de mim; eis que vos seguirei de perta Porém
não o declarou a Nabal, seu marido. “ E quando
decidido na caverna de En-Gedi que não
ela, montada num jumento, ia descendo pelo enco­ elevaria a mão contra o legítimo rei de
berto do monte, eis que Davi e os seus homens lhe Israel. Agora, em Carmelo, ele é levado a
vinham ao encontro; e ela se encontrou com eles. ver que não deve igualmente empregar seu
21Ora, Davi tinha dito: Na verdade que em vão poder para prevalecer-se sobre seus
tenho guardado tudo quanto este tem no deserto,
de sorte que nada lhe faltou de tudo quanto lhe oponentes entre o povo em geral (25.26,33).
pertencia; e ele me pagou mal por bem .22Assim Quando Abigail soube que seu marido
faça Deus a Davi, e outro tanto, se eu deixar até recusara insultuosamente atender o pedido
o amanhecer, de tudo o que pertence a Nabal, um de Davi, imediatamente preparou uma
só varão. 23Vendo, pois, Abigail a Davi, apressou-
-se, desceu do jumento e prostrou-se sobre o seu
dádiva de provisões e secretamente partiu
rosto diante de Davi, inclinando-se à terra, Me, para aplacar a ira de Davi. Assumindo plena
prostrada a seus pés, lhe disse: Ah, senhor meu, responsabilidade pela afronta ao orgulho
minha seja a iniqüidade! Deixa a tua serva falar de Davi, ela suplicou-lhe que não fizesse
aos teus ouvidos, e ouve as palavras da tua serva. vingança com as próprias mãos, mas que
2SRogo-te, meu senhor, que não faças caso deste
homem de Belial, a saber, Nabal; porque tal é ele esperasse a justiça divina, que seguramente
qual é o seu nome. Nabal é o seu nome, e a loucura adviria no tempo certo. A reaçao dela foi
está com ele; mas eu, tua serva, não vi os mancebos sábia, indicando ter consciência tanto dos

87
acontecimentos políticos que estavam divi­ de rei; e o coração de Nabal estava alegre, pois
dindo Israel como também de sua ele estava muito embriagado; pelo que ela não lhe
deu a entender nada daquilo^ nem pouco nem muito,
significação teológica. até a luz da manhã. 37Sucedeu, pois, que, pela
Ide adiante. Abigail remeteu sua dádiva manhã, estando Nabal já livre do vinho, sua mulher
à frente dela a fim de que Davi tivesse uma lhe contou essas coisas; de modo que o seu coração
atitude favorável para encontrá-la quando desfaleceu, e ele ficou como uma pedra. 38Passados
uns dez dias, o Senhor feriu a Nabal, e ele morreu.
ela chegasse (cf. Gn 32.13-21). O tamanho 39Quando Davi ouviu que Nabal morrera, disse:
do presente parece bem modesto se compa­ Bendito seja o Senhor, que me vingou da afronta
rado com o número de homens sob Davi. que recebi de Nabal, e deteve do mal a seu servo,
Abigail proferiu um jogo de palavras fazendo cair a maldade de Nabal sobre a sua cabeça.
com o nome de Nabal: porque tal é ele qual Depois mandou Davi falar a Abigail, para tomá-la
por mulher. 40Vindo, pois, os servos de Davi, a
é o seu nome. O nome Nabal vem de uma Abigail, no Carmelo, lhe falaram, dizendo: Davi
raiz hebraica que significa “insensato” ou nos mandou a ti, para te tomarmos por sua mulher.
“tolo”. A palavra é especialmente usada para 41Ao que ela levantou, e se inclinou com o rosto
designar alguém que carece de percepção em terra, e disse: Eis que a tua serva servirá de
criada para lavar os pés dos servos de meu senhor.
de valores éticos ou morais, pelo que o troca­ 42Então Abigail se apressou e, levantando-se,
dilho de Abigail é bem apropriado. montou num jumento, e levando as cinco moças
Agora, pois, meu senhor, vive o Senhor. que lhe assistiam, seguiu os mensageiros de Davi,
Meu senhor designa Davi, e o Senhor indica que a recebeu por mulher. 43Davi tomou também
Deus. Esta confusão não ocorre no texto a Aínoã de Jizreel; e ambas foram suas mulheres.
"Pois Saul tinha dado sua filha Milca, mulher de
hebraico, onde as consoantes para o nome Davi, a Palti, filho de Laís, o qual era de Galim.
próprio de Deus (YHWH) aparecem toda
vez que nossa tradução traz o Senhor. Ao evitar que Davi consumasse seu
Atada no feixe dos que vivem é uma ataque retaliatório, Abigail impediu-o de
figura de linguagem que parece ter origem derramar sangue inocente, o que teria
no fato de que o chefe de família fazia um causado censura ao seu governo antes que
feixe de seus bens mais preciosos de modo este começasse. Não obstante, o autor deixa
que os pudesse proteger e dedicar-lhes sua claro que, em última instância, Deus é o
atenção pessoal (Smith, p. 227). Os antigos ator principal desse drama. Abigail tinha
julgavam que especialmente os que vivem servido como porta-voz do Senhor quando
estavam sob a supervisão direta de Deus. ele novamente protegeu e dirigiu a vida de
Desse modo, essa declaração revela a seu príncipe ungido.
convicção de Abigail de que Davi viveria Conquanto o clímax da história tivesse
uma existência longa, cheia de vida, sob sido alcançado, o desfecho não era menos
o cuidado pessoal de Deus. interessante para o leitor da antigüidade.
O antigo senso de justiça e a antiga teologia
c. Davi Renuncia à Vingança (25.32-44) concordavam em requerer que todos os
erros fossem reparados antes que a ação
32Ao que Davi disse a Abigail: Bendito seja o chegasse a um fim. Renunciando à reta­
Senhor Deus de Israel, que hoje te enviou ao meu
encontro! 33E bendito seja o teu conselho, e bendita liação contra Nabal, Davi permitiu que a
sejas tu, que hoje me impediste de derramar sangue, responsabilidade pela vingança ficasse a
e de vingar-me pela minha própria mão! ^Pois, na cargo do Senhor, como apropriadamente
verdade, vive o Senhor Deus de Israel que me devia ser.
impediu de te fazer mal, que se tu não te apressaras
e não me vieras ao encontra, não teria ficado a Nabal A morte precoce de Nabal e o casamento
até a luz da manhã nem mesmo um menina subseqüente de sua viúva foram entendidos
35Então Davi aceitou da mão dela o que lhe tinha como demonstração divina da inocência
trazidoi, e lhe disse: Sobe em paz à tua casa; vê de Davi e de seu comportamento correto
que dei ouvidos à tua voz, e aceitei a tua foce;
“ Ora, quando Abigail voltou para Nabal, eis que
em todo o episódio. A honra de Davi fora
ele fàzia em sua casa um banquete, como banquete defendida pelo próprio Senhor!

88
Quando Abigail contou a Nabal o que se deitavam Saul e Abner, filho de Ner, chefe do
havia ocorrido, o seu coração desfaleceu. seu exércita E Saul estava deitado dentro do acam­
pamento, e o povo estava acampado ao redor dela
O papel do coração na circulação sangüínea 6Então Davi, dirigindo-se a Aümeleque, o heteu, e
era desconhecido aos povos antigos. Na a A bisai, filho de Zeruia, irmão de Joabe, pergun­
psicologia hebréia, o coração representava tou: Quem descerá comigo a Saul, ao arraial?
o centro do ser íntimo do homem, donde Respondeu Abisai: Eu descerei contiga 7Foram,
partiam sua vontade, ação e razão. Nabal, pois, Davi e Abisai de noite ao povo; e eis que Saul
estava deitado, dormindo dentro do acampamento,
portanto, ficou mudo e paralisado pelo e a sua lança estava pregada na terra à sua cabe­
choque. Após permanecer em coma por dez ceira; e Abner e o povo estavam deitados ao redor
dias, sofreu outro ataque e morreu. dela “Então disse Abisai a Davi: Deus te entregou
Mandou Davi falar a Abigail. Davi hoje nas mãos o teu inimigo; deixa-me, pois, agora
encravá-lo na terra, com a lança, de um só golpe;
aparentemente tinha grande respeito pela não o ferirei segunda vez. 9Mas Davi respondeu
sabedoria de Abigail bem como apreciação a Abisai: Não o mates; pois quem pode estender
por sua beleza. Por sua parte, Abigail estava a mão contra o ungido do Senhor, e ficar inocente?
disposta a servir a Davi como um de seus I0Disse mais Davi: Como vive o Senhor, ou o
Senhor o ferirá, ou chegará o seu dia e morrerá,
mais humildes servos. Nada se diz do ou descerá para a batalha e perecerá; uo Senhor,
respaldo material ou moral que esse casa­ porém, me guarde de que eu estenda a mão contra
mento propiciou a Davi, mas deve ter sido o ungido do Senhor. Agora, pois, toma a lança que
considerável (Hertzberg, p.205). O mesmo está à tua cabeceira, e a bilha d’âgua, e vamo-nos.
se poderia dizer de seu casamento com I2Tomou, pois, Davi a lança e a bilha d’âgua da
cabeceira de Saul, e eles se foram. Ninguém houve
Ainoã de Jizreel, em Judá. que o visse, nem que o soubesse, nem que acordasse;
Saul tinha dado (...) Mical (...) a Pálti. porque todos estavam dormindoi, pois da parte do
Saul talvez tenha justificado sua atitude, Senhor havia caído sobre eles um profundo sona
alegando que Davi havia rejeitado a Mical As semelhanças entre o conteúdo do
e lhe trazido má reputação quando a aban­ capítulo em pauta e os acontecimentos
donou em sua fuga da corte (cf. Dt 22.13-21; narrados em 23.19—24.22 são tão impres­
24.1-4). Por outro lado, pode ser que Saul sionantes que não podem ser ignoradas. A
tenha sido movido por motivos políticos. maioria dos comentaristas têm concluído
Talvez estivesse tentando negar a Davi qual­ que as duas passagens são versões diferentes
quer direito a um laço legítimo com a do mesmo incidente e que o autor incluiu
família real de Israel. Certamente esse casa­ ambas para atingir seu objetivo particular.
mento teve um significado incomum para Por outro lado, muitos ainda insistem em
Davi (2Sm 3.14-16). que Davi foi traído duas vezes pelos zifeus,
que Saul empregou 3 mil soldados nas duas
10) Novo Ato de Traição dos Zifeus expedições, que Deus milagrosamente
(26.1-25) entregou Saul nas mãos de Davi em ambas
as ocasiões, e que nas duas vezes Saul disse:
a. Davi Penetra no Acampamento de Saul “Não é esta tua voz, meu filho Davi?”, e
(26.1-12) que, por fim, Saul confessou suas injustiças
'O ra, vieram os zifeus a Saul, a Gibeá, para com Davi.
dizendo: Não está Davi se escondendo no outeiro A questão real, entretanto, não é se essas
de Haquila, defronte de Jesimom? 2Então Saul se
levantou, e desceu ao deserto de Zife, levando
passagens refletem acontecimentos distintos
consigo três mil homens escolhidos de Israel, para ou um único. Muito mais importante é
buscar a Davi no deserto de Zife. 3E acampou-se descobrir por que o autor bíblico preferiu
Saul no outeiro de Haquila, defronte de Jesimom, incluir dois incidentes semelhantes dentre
junto ao caminho; porém Davi ficou no deserto, todos os inúmeros acontecimentos em que
e percebendo que Saul vinha após ele ao deserto,
4enviou espias, e certificou-se de que Saul tinha tanto Saul como Davi estiveram envolvidos.
chegada 5Então Davi levantou-se e foi ao lugar Logicamente nunca podemos dizer em defi­
onde Saul se tinha acampado; viu Davi o lugar onde nitivo o que ia na mente de pessoas que

89
viveram milhares de anos atrás. Não do Senhor (cf. comentário sobre 24.1-15,
obstante, podemos notar as diferenças 16-22). O máximo que ele pôde fazer foi
marcantes entre os dois episódios e tirar tomar a lança e o cantil de Saul como prova
certas conclusões a partir de nossas desco­ de que conseguira penetrar no acampa­
bertas. mento do rei.
A forma dos relatos apresenta diferenças Contudo, tal como no relatório anterior,
quanto aos detalhes, que são por demais é evidente que Davi não estava agindo
numerosas para serem aqui enumeradas, sozinho. O Senhor tornara toda a aventura
mas, no geral, as mesmas questões básicas possível, fazendo com que um sono
ou interesses teológicos se refletem em profundo e incomum caísse sobre o rei e
ambas as passagens. O presente contexto, todos os seus homens.
contudo, varia significativamente do
primeiro relato da traição dos zifeus e dos b. Davi Confronta Saul (26.13-25)
acontecimentos subseqüentes em quatro
aspectos principais: retrata Davi num papel 13Então Davi, passando à outra banda,pôs-se
no cume do monte, ao longe, de maneira que havia
mais ousado (v. 4 e s.); menciona a repre­ grande distância entre eles. 14E Davi bradou ao
ensão de Abner por Davi (v. 15 e s.); reflete povo, e a Abner, filho de Ner, dizendo: Não respon­
o temor de Davi em deixar Israel (v. 19 e derás, Abner? Então Abner respondeu e disse:
s.); e oferece uma idéia bem mais ampla da Quem és tu, que bradas ao rei? ISAo que disse
bênção de Saul a Davi (v. 25). Essas dife­ Davi a Abner: Não és tu um homem? e quem há
em Israel como tu? Por que, então, não guardaste
renças serão discutidas em maiores detalhes o rei, teu senhor? porque um do povo veio para
numa análise de versículos específicos. destruir o rei, teu senhor. 16Não é isso bom que
Defronte de Jesimom é a área entre a fizeste. Vive o Senhor, que sois dignos de morte,
porque não guardastes a vosso senhor, o ungido
região montanhosa de Judá e o Mar Morto. do Senhor. Vede, pois, agora onde está a lança do
É mais freqüentemente chamada deserto rei, e a bilha dágua que estava à sua cabeceira.
de Judá. Sendo que se desconhece qual era 17Saul reconheceu a voz de Davi, e disse: Não é
a área de Jesimom, pode-se dizer que ficava esta a tua voz, meu filho Davi? Respondeu Davi:
tanto a leste como ao sul (23.19). Os locais É a minha voz, ó rei, meu senhor. 18Disse mais:
Por que o meu senhor persegue tanto o seu servo?
exatos são desconhecidos, mas a área em que fiz eu? e que maldade se acha na minha mão?
questão situava-se num triângulo entre 19Ouve, pois, agora, ó rei, meu senhor, as palavras
Hebrom, Zife e En-Gedi. de teu servo: Se é o Senhor quem te incita contra
Quem descerá comigo a Saul, ao arraial? mim, receba ele uma oferta; se^ porém, são os filhos
dos homens, malditos sejam perante o Senhor, pois
Os relatos anteriores do livramento de Davi eles me expulsaram hoje para que eu não tenha
da mão de Saul na Pbnha do Escape (23.38) parte na herança do Senhor, dizendo: Vai, serve
e na caverna de En-Gedi (24.1 e s.) ressal­ a outros deuses. 20Agora, pois, não caia o meu
taram a instrumentalidade divina. Ali Davi sangue em terra fora da presença do Senhor; pois
era retratado quase como que um recipiente saiu o rei de Israel em busca duma pulga, como
quem persegue uma perdiz nos montes. 21Então
passivo da graça e poder do Senhor. Neste disse Saul: Pequei; volta, meu filho Davi, pois não
contexto, contudo, Davi é retratado como tornarei a fazer-te mal, porque a minha vida foi
um guerreiro ousado, cujas façanhas e hoje preciosa aos teus olhos. Eis que procedi como
conquistas são ansiosamente relatadas. um louco, e errei grandissimamente. 22Davi então
respondeu, e disse: Eis aqui a lança, ó rei! Venha
Após atrair Saul para o deserto, Davi pesso­ cá um dos mancebos, e leve-a. 230 Senhor, porém,
almente penetra no acampamento de Saul pague a cada um a sua justiça e a sua lealdade;
e localiza-o dormindo no meio de todo seu , pois o Senhor te entregou hoje na minha mão, mas
exército. não quis estender a mão contra o ungido do Senhor.
Novamente, como na caverna de En- 24E assim como foi a tua vida hoje preciosa aos
meus olhos, seja a minha vida preciosa aos olhos
-Gedi, Davi recusa-se a permitir que qual­ do Senhor, e livre-me ele de toda a tribulação.
quer mal sobrevenha ao ungido do Senhor, 25Então Saul disse a Davi: Bendito sejas tu, meu
preferindo deixar o destino de Saul nas mãos filho Davi, pois grandes coisas farás e também certa-

90
mente prevalecerás. Então Davi se foi o seu caminho outra escolha. O autor selecionou e orga­
e Saul voltou para o seu lugar.
nizou seu material com extrema habilidade,
O autor realça a consciência que temos de modo a transmitir o significado dramá­
do perigo que Davi corria em sua aventura, tico dos eventos momentosos que estavam
assinalando como ele estabelece uma ocorrendo. Ao ter Davi de enfrentar no capí­
distância segura entre ele e o exército de tulo seguinte sua peregrinação entre os
Saul ãntes de ousar despertar o rei. Então, filisteus, este ousado ataque no deserto
como que para prolongar o drama, ele se oferece ao autor uma oportunidade para
dirige a Abner. O sarcasmo mordaz de Davi explorar a relutância de Davi em dar os
ao repreender Abner não é tanto dirigido passos decisivos que estão à sua frente.
ao próprio homem quanto à futilidade de Vai, serve a outros deuses. Em algumas
sua tarefa. A lealdade de Abner a Saul é etapas do pensamento do Antigo Testa­
inquestionável. Fora ele quem apresentara mento, o povo cria que o Senhor podia ser
Davi a Saul (17.55-58) e quem se sentava adorado somente entre seu próprio povo
em posição de honra ao lado do rei ao serem e no território ocupado por eles. Assim, a
tratadas as questões de estado (20.25). Após decisão de Rute de ficar com Noêmi
a morte de Saul em Gilboa, foi Abner quem envolvia a aceitação do Deus de Noêmi (Rt
tentou pôr o filho de Saul no trono de Israel 1.16; 2.12). Também, quando Naamã
(2Sm 2.8). Davi até mesmo parece ter um desejou adorar a Deus em sua terra natal,
profundo respeito por seu adversário de ele levou consigo um pouco de terra isra­
longa data (2Sm 3.31-35). A reprimenda elita sobre o qual erigiria um altar (2Rs
sarcástica de Davi para com alguém com 5.17). Davi relutava em deixar Israel porque
credenciais tão impecáveis assinalava a futi­ sentia que isto iria de algum modo separá-
lidade de quando mesmo o melhor homem lo de sua muito íntima comunhão com
empreende um trabalho em que Deus não Deus (cf. 22.5). Outras passagens do Antigo
está presente. Abner havia falhado, não Testamento retratam o domínio universal
porque fosse um mau soldado, mas porque de Deus (Jz 5.19-23; ISm 6.1-9; Jr 2.5-11),
o Senhor estava operando contra ele. e talvez Davi mesmo tenha conhecido este
Ao continuar a conversa entre Davi e aspecto da natureza divina. Não obstante,
Abner, Saul reconheceu a voz familiar, as emoções de Davi levam-no a temer
ouvida no meio da escuridão da noite, e separar-se de sua terra, de seu povo, de seu
supôs que fosse Davi. Este imediatamente Deus.
atacou o ponto crucial da questão e per­ Davi empregou uma interessante
guntou a Saul por que estava a persegui-lo. descrição da perseguição de Saul: como
Se Deus estava usando Saul como um quem persegue uma perdiz nos montes.
instrumento de sua ira, Davi suplicava que, Essa ave não voaria do perigo a menos que
sem demora, lhe fosse concedido perdão. fosse abruptamente assustada, mas correria
Contudo, se a perseguição de Saul era de pelo chão. Os caçadores mantinham a ave
origem humana, Davi pedia que uma em movimento até ficar exausta, e então
maldição recaísse sobre os responsáveis. podia ser capturada com facilidade. Esta
Davi reconheceu que estava sendo expulso era exatamente a estratégia de Saul em sua
de Israel. Numa súplica dirigida tanto a perseguição de Davi.
Deus quanto a Saul, Davi rogou que lhe Grandes coisas farás e também certa­
fosse dada uma oportunidade, de modo que mente prevalecerás. As declarações de Saul
não tivesse de deixar seu próprio povo. acerca do futuro de Davi são aqui muito
Estava ciente de todos os perigos do exílio: mais reservadas do que aquelas que fez
pessoais, políticos e religiosos. Ansiava por quando do encontro de ambos em En-Gedi
outro caminho, mas estava sendo caçado (24.20). Neste contexto, o pronunciamento
como um animal e parecia-lhe não haver de Saul está na forma de um oráculo enig-

91
mático, que tanto pode refletir esperança 6Então lhe deu Aquis naquele dia a cidade de
quanto ameaça, dependendo de sua inter­ Ziclague; pelo que Ziclague pertence aos reis de
Judá, até o dia de hoje 7E o número dos dias que
pretação. Saul apenas disse: “você fará Davi habitou na terra dos filisteus foi de um ano
muitas coisas e terá êxito nelas”. Vistas de e quatro meses. 8Ora, Davi e os seus homens
uma perspectiva positiva, essas palavras subiam e davam sobre os gesuritas, e os girzitas,
reconhecem a habilidade de Davi e prevêem e os amalequitas; pois, desde tempos remotos, eram
um futuro brilhante para ele. Para o ingênuo estes os moradores da terra que se estende na
direção de Sur até a terra do Egita 9E Davi feria
e crédulo soaria como se o rei estivesse nova­ aquela terra, não deixando com vida nem homem
mente admitindo a vitória dos rebeldes, nem mulher; e, tomando ovelhas, bois, jumentos,
num reconhecimento de que Davi final­ camelos e vestuários, voltava, e vinha a Aquis. 10E
mente triunfaria. quando Áquis perguntava: Sobre que parte fizeste
incursão hoje? Davi respondia: Sobre o Negebe
Davi, que conhecia Saul melhor, deve de Judá; ou: Sobre o Negebe dos jerameelitas; ou:
ter notado as coisas que Saul deixou de Sobre o Negebe dos queneus. "E Davi não
dizer. Saul, por exemplo, não deu qualquer deixava com vida nem homem nem mulher para
indicação de que sentisse a perda da direção trazê-los a Gate, pois dizia: Para que porventura
divina ou de que reconhecesse o poder de não nos denunciem, dizendo: Assim fez Davi. E
este era o seu costume por todos os dias que habitou
Deus operando através dos atos de Davi. na terra dos filisteus. 12Áquis, pois, confiava em
Ainda mais evidentemente, deixou de fazer Davi, dizendo: Fez-se ele por certo aborrecível para
qualquer associação entre Davi e o trono com o seu povo em Israel; pelo que me será por
de Israel. servo para sempre
Em resumo, Davi foi informado de que Davi saiu do deserto de Zife com uma
estava livre para continuar vivendo em compreensão mais clara de seu futuro
Israel somente se desistisse de qualquer idéia pouco promissor em Israel. Mesmo que
de Davi se tomar rei. Quaisquer esperanças, pudesse confiar que Saul pouparia sua vida
que, após a experiência em En-Gedi, ainda (26.21), o preço da paz seria elevado. Davi
existissem de uma solução pacífica para as teria de deixar de lado seu senso de missão
disputas dinásticas de Israel, estavam agora divina para garantir sua segurança pessoal.
perdidas. Plenamente resolutos, Davi e Saul Sendo que não era capaz de confiar em
seguiram caminhos diferentes. Saul, nem estava disposto a ignorar sua
unção como futuro rei de Israel, a con­
6. Davi se Une aos Filisteus (ISm tínua perseguição por Saul deixou Davi
27.1—2Sm 1.27) sem qualquer outra alternativa a não ser
sair do território israelita.
1) Davi Torna-se Vassalo (27.1-12) No entanto, a vida de Davi entre os filis­
‘Disse, porém, Davi no seu coração: Ora, pere­ teus estava também eivada de perigos. Por
cerei ainda algum dia pela mão de Saul; não há um lado, sempre havia a possibilidade de
coisa melhor para mim do que escapar para a terra que Áquis descobrisse os verdadeiros obje­
dos filisteus, para que Saul perca a esperança de
mim, e cesse de me buscar por todos os termos tivos de Davi e tomasse medidas contra ele.
de Israel; assim escaparei da sua mão. 2Então Davi O exército pessoal de Davi, uma força de
se levantou e passou, com os seiscentos homens razoáveis proporções, poderia ter propiciado
que com ele estavam, para Aquis, filho de Maoque, uma certa proteção para ele, mas não teria
rei de Gate. 3E Davi ficou com Aquis em Gate, ele esperança alguma de suportar um ataque
e os seus homens, cada um com a sua família, e
Davi com a suas duas mulheres, Ainoã, a jizre- maciço pelos filisteus.
elita, e Abigail, que fora mulher de Nabal, o Põr outro lado, Davi poderia experi­
carmelita. 4Ora, sendo Saul avisado de que Davi mentar o rompimento com o seu próprio
tinha fugido para Gate, não cuidou mais de buscá- povo ao associar-se com os inimigos filis­
-la 5Disse Davi a Aquis: Se eu tenho achado graça
aos teus olhos, que se me dê lugar numa das cidades teus. As ações de Davi devem ter parecido
do pais, para que eu ali habite; pois, por que haveria traiçoeiras na ocasião, e somente mais tarde
o teu servo de habitar contigo na cidade real? seus verdadeiros motivos se tornaram

92
conhecidos. Não obstante, por meio de uma Áquis desejasse que o período parecesse
série de argumentos ardilosos, Davi conse­ maior (29.3).
guiu convencer Áquis de sua lealdade, sem Gesuiitas, e os girzitas, e os amalequitas.
ser obrigado a lutar contra seu próprio povo. Os amalequitas eram remanescentes da
A narrativa bíblica apresenta com evidente matança de Saul entre os inimigos de Israel
admiração a habilidade de Davi em mani­ no deserto ao sul de Judá (cf. comentário
pular os filisteus, mas em toda a sua ex­ sobre 15.4-9). Os gesuritas eram um
tensão há um sentimento não declarado de pequeno grupo nômade que vagueava no
que o Senhor está manifestando seu cuida­ norte do Sinai a leste do Egito (Js 13.2).
do contínuo pelo futuro rei de Israel. Os girzitas são desconhecidos.
Davi ficou com Áquis em Gate, ele e os Davi feria aquela terra, não deixava com
seus homens. Davi havia anteriormente vida nem homem nem mulher. As ações de
aparecido sozinho perante Áquis (21.10-15). Davi não tinham absolutamente nada a ver
As circunstâncias são, contudo, tão dife­ com as determinações de natureza religiosa
rentes, que somente as personagens de uma “guerra santa” (cf. comentário sobre
principais são as mesmas. Os filisteus agora 15.1-3). Com toda liberdade Davi pilhava,
tinham tido tempo para saber que Davi era mas matava todas as pessoas para impedir
um fugitivo da corte de Saul. Como líder que notícias de sua dissimulação chegassem
de 600 homens desprezados pela sociedade até os filisteus. O registro bíblico não
israelita, Davi representava um poderoso censura Davi por suas ações brutais. Dessa
instrumento político que Áquis esperava maneira, na mente do escritor bíblico ele
utilizar contra seus inimigos. Esses homens é aparentemente justificado, seja com base
com suas famílias provavelmente represen­ no fato de que aqueles povos eram inimigos
tavam um contingente com um total de de Israel ou de que, como estrangeiros, não
2.000 pessoas. O problema de alimentar esse mereciam a consideração dada a Nabal (cf.
grupo teria ajudado a persuadir Áquis a 25.26).
que empregasse proveitosamente os homens Davi alegava falsamente estar atacando
de Davi. o Negebe (região árida) dos clãs israelitas
ao sul. Os jerameelitas foram mais tarde
Então lhe deu (...) Ziclague. Ziclague era considerados uma parte de Judá (lCr 2.9),
uma cidade a cerca de 26 quilômetros ao e os queneus eram tradicionalmente amigos
sul-sudeste de Gate. Quase à mesma dos hebreus (ISm 15.6; 30.29). Ambos eram
distância a sudoeste de Hebrom, a cidade grupos nômades, cujos territórios são atual­
ficava na fronteira filistéia-israelita e, assim, mente de localização incerta.
num ponto ideal para ataques contra Judá.
Não temos informações sobre como Áquis
2) Saul Consulta uma Médium (28.1-14)
veio a possuir a cidade, mas, em outras
passagens, ela é associada com as cidades 'Naqueles dias ajuntaram os filisteus os seus
ocupadas por Judá (Js 15.31) ou Simeão (Js exércitos para a guerra, para pelejarem contra
Israel. Disse Áquis a Davi: Sabe de certo que
19.5). A referência aos reis de Judá, nos sairás comigo ao arraial, tu e os teus homens.
livros de Samuel, encontrada apenas nesta 2Respondeu Davi a Áquis: Assim saberás o que teu
passagem, reflete um ponto de vista edito­ servo há de fazer. E disse Áquis a Davi: Por isso
rial após a divisão da monarquia. te farei para sempre guarda da minha pessoa.
3Ora, Samuel já havia morrido, e todo o Israel o
Um ano e quatro meses refere-se ao tinha chorado, e o tinha sepultado em Ramá, que
tempo total que Davi passou entre os filis­ era a sua cidade E Saul tinha desterrado os necro-
teus, não somente em sua estada em Gate. mantes e os adivinhos. 4Ajuntando-se, pois, os
filisteus, vieram acampar-se em Suném; Saul ajun­
Porém, este é um período tão curto que não tou também todo o Israel, e se acamparam em
é de surpreender que os outros líderes filis­ Gilboa. 5Vendo Saul o arraial dos filisteus, temeu
teus se recusassem a confiar nele ou que e estremeceu muito o seu coração. 6Pelo que

93
consultou Saul ao Senhor, porém o Senhor não divina. Profundamente alarmado com as
lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, notícias da mobilização filistéia, Saul bus­
nem por profetas. 7Então disse Saul aos seus
servos: Buscai-me uma necromante, para que eu cou por todos os meios a instrução do
vá a ela e a consulte. Disseram-lhe os seus servos: Senhor, mas foi-lhe negada orientação
Eis que em En-Dor há uma mulher que é necro­ mediante os recursos normais de revelação
mante. 8Então Saul se disfarçou, vestindo outros divina. Completamente desesperado, fez
trajes; e foi ele com dois homens, e chegaram de
noite à casa da mulher. Disse-lhe Saul: Peço-te que com que localizassem uma médium espí­
me adivinhes pela necromancia, e me faças subir rita, de modo que pudesse consultar o es­
aquele que eu te disser.9A mulher lhe respondeu: pírito de Samuel, que, em certa época,
lii bem sabes o que Saul fez, como exterminou da havia sido o seu mentor espiritual.
terra os necromantes e os adivinhos; por que, en­
tão, me armas um laço à minha vida, para me fa­ Os detalhes do triste abismo em que
zeres morrer? 10Saul, porém, lhe jurou pelo Se­ Saul caíra são todos bem evidentes no re­
nhor, dizendo: Como vive o Senhor, nenhum cas­ lato. Afastado do legítimo aconselhamen­
tigo te sobrevirá por issa "A mulher então lhe to profético (15.35) e sacerdotal (22.11-23),
perguntou: Quem te farei subir? Respondeu ele:
Faze-me subir Samuel. 12Vendo, pois, a mulher a Saul voltou-se para os necromantes e fei­
Samuel, gritou em alta voz, e falou a Saul, di­ ticeiros, que eram proibidos por lei (Lv
zendo: Por que me enganaste? pois tu mesmo és 19.31; 20.6), e que ele próprio havia elimi­
Saul. 13Ao que o rei lhe disse: Não temas; que é nado de Israel no início de seu reinado.
que vês? Então a mulher respondeu a Saul: Vejo Parece que o relato bíblico não considerou
um deus que vem subindo de dentro da terra.
14Perguntou-lhe ele: Como é a sua figura? E disse a consulta aos mortos uma impossibilida­
ela: Vem subindo um ancião, e está envolto numa de ou mesmo como um embuste perpe­
capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou- trado pela “feiticeira” de En-Dor. Em vez
-se com o rosto em terra, e lhe fez reverência. disso, tais práticas eram consideradas co­
Pbr cerca de dezesseis meses Davi ti­ mo influências contaminadoras, cuja ori­
nha conseguido evitar quaisquer atos hos­ gem eram as práticas religiosas dos vizi­
tis contra seu próprio povo enquanto vivia nhos de Israel (Dt 18.9-14). O patético
entre os filisteus. Durante esse tempo, ele quadro de um rei rejeitado é completado
tinha enganado Áquis, fazendo-o pensar quando Saul deixou de lado suas vestes
que lhe era totalmente leal, ao fingir que reais para vestir um disfarce humilde e
realizava ataques contra Judá, quando, na buscou, numa desesperada tentativa final,
verdade, estava atacando os inimigos nô­ receber uma palavra favorável da parte do
mades de Israel no extremo sul. A oportu­ Senhor.
nidade para continuar tal engano, porém, Ajuntando-se (...) os filisteus, vieram
parecia ter chegado ao fim quando Áquis acampar-se em Suném. Ao organizar seu
informou Davi de que esperava que ele e material, o autor aparentemente colocou
seus homens lutassem ao lado dos filisteus outros valores acima da ordem cronoló­
na ofensiva iminente contra Israel, Nessas gica. Os acontecimentos aqui descritos
circunstâncias, Davi não poderia evitar que tiveram lugar na véspera da batalha em
suas ações fossem diretamente observadas Monte Gilboa (28.19) e se encaixariam
pelos chefes filisteus, em vista de que Áquis muito bem entre os capítulos 30 e 31. O
o designara seu próprio guarda--CQStas prin­ contexto mais amplo descreve o avanço
cipal. Como recurso para aumentar o sus- dos filisteus a partir de Afeque, cerca de
pense da história, o autor permite ao lei­ dezesseis quilômetros a nordeste de Jope
tor contemplar o destino de Davi (resu­ (29.1), pelo vale de Jizreel (29.11; cf. 31.7),
mido em 29.1 — 30.31), enquanto apresenta até Suném, cerca de dez quilômetros a
um interessante relato da rejeição final de nordeste da fonte do Monte Gilboa (28.4;
Saul pelo Senhor (28.3-25). cf. 29.1). A jornada de Saul a En-Dor,
Saul é retratado como uma figura trá­ cerca de treze quilômetros a norte de seu
gica, cuja vida trazia as marcas da rejeição acampamento em Gilboa, era, portanto,

94
uma aventura ousada através das linhas para que tenhas forças quando te puseres a cami­
inimigas. nha 23Ele, porém, recusou, dizendo: Não come­
rei. Mas os seus servos e a mulher o constrange­
Vendo (...) a mulher a Samuel, gritou ram, e ele deu ouvidos à sua voz; e levantando-se
em alta voz. Nenhuma explicação é dada do chão, sentou-se na cama. 24Ora, a mulher ti­
para a razão pela qual a mulher reconhe­ nha em casa um bezerro c,evado; apressou-se, pois,
ceu Saul somente quando viu Samuel. Al­ e o degolou; tambénr tomou farinha, e a amassou,
guns manuscritos gregos trazem Saul, em e a cozeu em bolos ázimos. 25Então pôs tudo
diante de Saul e de seus servos; e eles comeram.
vez de Samuel. Assim, quando ela viu (e Depois levantaram-se e partiram naquela mesma
reconheceu) Saul, gritou. Aparentemente noite.
só a mulher viu a figura fantasmagórica
Levado à beira da histeria pela crescen­
de Samuel. Saul, contudo, parece ter ou­
vido a voz de Samuel e ter conversado te ameaça da máquina de guerra dos filis­
com ele (28.15). teus, Saul buscou instruções do espírito
Vejo um deus que vem subindo de den­ mal-humorado de seu falecido conselhei­
ro profético. Saul se apresentou como um
tro da terra. A palavra deus (’elohim) é um
substantivo comum. Empregada no Anti­ homem que havia se esforçado por tentar
go Testamento, tem uma variedade de conhecer a vontade do Senhor através dos
.sentidos, que incluem o Deus de Israel, meios regulares de revelação, mas a quem
ídolos, e seres espirituais de vários tipos. havia sido negado conselho divino. Sa­
Samuel é retratado como um espírito, des­ muel, porém, havia-o confrontado com o
pertado de seu sono no Seol, onde a exis­ juízo do Senhor, mas Saul recursou-se a
tência era vista como um estado de fra­ admitir, que havia sido rejeitado em favor de
queza e esquecimento (SI 88.4,12). Davi como íei de Israel.
Saul havia, a princípio, tentado alterar
pela força os planos do Senhor, buscando
3) Condenação da Casa de Saul (28.15-25) matar Davi. Tendo falhado neste intento,
,5Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, estava freneticamente procurando receber
fazendo-me subir? Então disse Saul: Estou muito um oráculo favorável que lhe desse alguma
angustiado^ porque os filisteus guerreiam contra esperança de vitória em sua luta iminente
mim, e Deus se tem desviado de mim, e já não me
responde, nem por intermédio dos profetas nem contra os filisteus. Infelizmente, conquanto
por sonhos; por isso te chamei, para que me fa­ o juízo de Deus pudesse ser retardado (de
ças saber o que hei de fazer. 16Então disse Sa­ 15.26 em diante), não poderia ser evitado.
muel: Por que, pois, me perguntas a mim, visto Samuel anunciou antes mesmo de come­
que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito
teu inimigo? nO Senhor te fez como por meu in­ çar a batalha que era certo que se cum­
termédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino priria a sentença de Deus sobre Saul. Este
da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi. foi informado de que, em combate no dia
,8Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, seguinte, os exércitos de Israel seriam der­
e não executaste o furor da sua ira contra Ama- rotados e que ele e seus filhos unir-se-iam
leque, por isso o Senhor te fez hoje isto. 19E o
Senhor entregará também a Israel contigo na a Samuel no Seol. Abalado pelo impacto
mão dos filisteus. Amanhã tu e teus filhos esta­ emocional das predições sombrias de Sa­
reis comigo, e o Senhor entregará o arraial de muel e enfraquecido pelo jejum de um dia
Israel na mão dos filisteus. “ Imediatamente Saul inteiro, Saul caiu desmaiado no chão.
caiu estendido por terra, tomado de grande medo
por causa das palavras de Samuel; e não houve
A descrição das atenções da mulher
força nele, porque nada havia comido todo aquele pelo seu rei ali prostrado é marcada por
dia e toda aquela noite. 2lEntão a mulher se apro­ uma ternura e piedade que caracterizam
ximou de Saul e, vendo que estava tão perturbado, a atitude oculta que o autor tem para com
disse-lhe: Eis que a tua serva deu ouvidos à tua Saul. Conquanto Saul teimosamente recu­
voz; pus a minha vida na minha mão, dando ou­
vidos às palavras que disseste.22Agora, pois, ouve sasse reconhecer a escolha pelo Senhor de
também tu as palavras da tua serva, e permite que seu sucessor, havia feito uma contribuição
eu ponha um bocado de pão diante de ti; come;, inigualável à história do seu povo. Como

95
primeiro rei de Israel, havia ganho um chama a atenção para o contraste existen­
respeito e amor que mesmo suas falhas te entre os papéis de Saul e de Davi nos
posteriores não apagariam. Recuperando planos do Senhor para Israel. Com o re­
as forças com a refeição preparada pela sultado da batalha em Gilboa já conheci­
mulher de En-Dor, Saul partiu, como um do, o fim da vida trágica de Saul está à
homem condenado, para enfrentar o seu vista. Davi, por outro lado, estava sendo
destino no dia seguinte. firmemente conduzido ao destino que es­
tivera implícito em sua unção pelas mãos
4) Davi é Excluído da Guerra (29.1-11) de Samuel (16.1-13).
'Os filisteus ajuntaram todos os seus exércitos
Uma vez mais o Senhor estava operan­
em Afeque; e acamparam-se os israelitas junto à do mediante processos históricos para fa­
fonte que está em Jizreel. 2Então os chefes dos zer com que sua vontade se cumprisse.
filisteus se adiantaram com centenas e com milha­ Um governo estava sendo deixado de lado,
res; e Davi e os seus homens iam com Áquis na e o caminho estava sendo preparado para
retaguarda. 3Perguntaram os chefes dos fiÜsteus:
Que fazem aqui estes hebreus? Respondeu Áquis um outro governo chegar ao poder. Agora,
aos chefes dos filisteus: Não é este Davi, o servo ao final de um perigoso exílio na Filístia,
de Saul, rei de Israel, que tem estado comigo al­ Davi estava na iminência de livrar-se da
guns dias ou anos? e nenhuma culpa tenho acha­ necessidade de ir à batalha contra seu
do nele desde o d!a em que se revoltou, até o dia próprio povo, o que o impediria de reivin­
de hoje. 4Mas os chefes dos filisteus muito se in­
dignaram contra ele, e disseram a Áquis: Faze dicar o trono de Israel de modo pacífico.
voltar este homem para que torne ao lugar em No momento em que as tropas filistéias
que o puseste; não desça ele conosco à batalha, estavam sendo passadas em revista em
a fim de que não se torne nosso adversário no Afeque, antes de começar sua marcha pa­
combate; pois, como se tornaria este agradável a
seu senhor? porventura não seria com as cabeças
ra Jizreel (veja comentário sobre 28.4),
destes homens? 5Este não é aquele Davi, a respei­ seus líderes perceberam alarmados a pre­
to de quem cantavam nas danças: Saul feriu os sença de hebreus no fim da coluna. Áquis
seus milhares, mas Davi os seus dez milhares? defendeu sua decisão de trazer Davi e seus
‘Então Áquis chamou a Davi e disse-lhe: Como
vive o Senhor, tu és reto, e a tua entrada e saída
homens, baseado no fato de que não ti­
comigo no arraial é boa aos meus olhos, pois nham lhe dado qualquer razão para sus­
nenhum mal tenho achado em ti, desde o dia em peitar da lealdade deles, uma vez que Da­
que vieste ter comigoi, até o dia de hoje; porém vi havia desertado para o seu lado um
aos chefes não agradas. 7Volta, pois, agora, e vai bom tempo antes. Os líderes filisteus, con­
em paz, para não desagradares os chefes dos filis­
teus. sÁo que Davi disse a Áquis: Por quê? que tudo, lembrando-se da deserção de mer­
fiz eu? ou, que achaste no teu servo, desde o dia cenários hebreus na batalha de Gibeá
em que vim ter contigo, até o dia de hoje, para (14.21), insistiram em mandar Davi de
que eu não vá pelejar contra os inimigos do rei volta a Ziclague.
meu senhor? ’Respondeu, porém, Áquis e disse a
Davi: Bem o sei; e, na verdade, aos meus olhos és Áquis transmitiu as ordens dos coman­
bom como um anjo de Deus; contudo os chefes dantes filisteus a Davi e, nos termos mais
dos filisteus disseram: Este não há de subir co­ fortes possíveis, professou confiança na leal­
nosco à batalha. 10Levanta-te, pois, amanhã de dade de seu vassalo. Conquanto Davi
madrugada, tu e os servos de teu senhor que vie­
ram contigo; e, tendo vos levantado de madruga­ provavelmente estivesse muito relutante em
da, parti logo que haja luz. “Madrugaram, pois, ir à guerra contra seu próprio povo, o papel
Davi e os seus homens, a fim de partirem, pela que estava desempenhando requeria que
manhã, e voltaram à terra dos filisteus; e os filis­ protestasse contra a decisão de mandá-lo
teus subiram a Jizreel.
para a retaguarda. Não obstante, Davi e seus
homens estavam preparados para partir
Sem expressar abertamente juízo de para casa no alvorecer do dia seguinte.
valor, mais uma vez o autor dispõe o ma­ A Sm de que não se torne nosso adver­
terial de sua narrativa de um modo que sário no combate. O termo para adversário

96
é o mesmo que está por detrás do nome por causa de seus filhos e de suas filhas. M as Davi
Satanás. É empregado aqui como substan­ se fortaleceu no Senhor seu Deus. 7Disse Davi a
Abiatar, o sacerdote, filho de Aimeleque: Traze-me
tivo comum num contexto que lança aqui o éfode. E Abiatar trouxe o éfode a Davi.
importante luz sobre outras ocorrências 8Então consultou Davi ao Senhor, dizendo: Perse­
desse nome no Antigo Testamento (cf. Jó guirei eu a esta tropa? alcançá-la-ei? Respondeu-lhe
1 e 2; Zc 3.1,2). Os filisteus temiam que o Senhor: Persegue-a; porque de certo a alcançarás
e tudo recobrarás. 9Ao que partiu Davi, ele e os
Davi empregasse essa ocasião para recon­ seiscentos homens que com ele se achavam e
quistar o favor de Saul, voltando-se contra chegaram ao ribeiro de Besor, onde pararam os
eles (cf. 18.25-27). que tinham ficado para trás. 10Mas Davi ainda os
Volta, pois, agora, e vai em paz. Áquis perseguia, com quatrocentos homens, enquanto que
esperava que Davi ficasse desapontado ao duzentos ficaram atrás, por não poderem, de
cansados que estavam, passar o ribeiro de Besor.
ser-lhe negada permissão de participar da uOra, acharam no campo um egipcioi, e o trou­
batalha contra Israel, e provavelmente xeram a Davi: deram-lhe pão a comer, e água a
muitos de seus homens assim ficaram. Os beber; 12deram-lhe também um pedaço de massa
soldados lucravam ao tomar despojos em de figos secos e dois cachos de passas. Tendo ele
comido, voltou-lhe o ânimo; pois havia três dias e
batalha, e agora, após uma longa marcha, três noites que não tinha comido pão nem bebido
os homens de Davi retornavam para casa água. 13Então Davi lhe perguntou: De quem és tu,
de mãos vazias. Em pelo menos uma outra e donde vens? Respondeu ele: Sou um moço egípcio,
ocasião, tem-se notícia de que, em servo dum amalequita; e o meu senhor me aban­
donou, porque adoeci há três dias. 14Nós fizemos
circunstâncias semelhantes, mercenários uma incursão sobre o Negebe dos queretitas, sobre
atacaram cidades de seus até então empre­ o de Judá e sobre o de Calebe, e pusemos fogo
gadores (2Cr 25.9-13). Áquis está enco­ a Ziclague. lsPerguntou-lhe Davi: Poderias descer
rajando Davi a evitar tais incidentes in­ e guiar-me a essa tropa? Respondeu ele: Jura-me
convenientes em sua viagem para casa. tu por Deus que não me matarás, nem me entre­
garás na mão de meu senhor, e eu descerei e te
No capítulo seguinte, a ênfase na questão guiarei a essa tropa.
de despojos de guerra confirma que o saque
era algo importante para os homens de Após completar uma jornada de uns cem
Davi. quilômetros através do coração do território
filisteu, Davi e seus homens retornaram a
5) Amalequitas Atacam Ziclague (30.1-30) Ziclague para encontrá-la abandonada e em
ruínas. Deparando-se com a perda de
a. Atacantes Nômades Saqueiam Ziclague esposas, filhos e bens, os homens de Davi
(30.1-15) se extenuaram de tanto chorar e então
'Sucedeu, pois, que, chegando Davi e os seus voltaram sua ira contra seu líder. Davi, na
homens ao terceiro dia a Ziclague, os amalequitas verdade, havia cometido um sério erro tático
tinham feito uma incursão sobre o Negebe, e sobre que, além do perigo imediato para sua
Ziclague, e tinham ferido a Ziclague e a tinham própria vida, poderia também pôr em risco
queimado a fogo; 2e tinham levado cativas as
mulheres, e todos os que estavam nela, tanto seu papel como futuro rei de Israel. Ao
pequenos como grandes; a ninguém, porém, conduzir todo o seu grupo de soldados para
mataram, tão-somente os levaram consigo, e foram Afeque, ele havia deixado sua base sem
o seu caminha 3Quando Davi e os seus homens defesa contra o bando de amalequitas pilha-
chegaram à cidade, eis que estava queimada a fogo,
e suas mulheres, seus filhos e suas filhas tinham dores.
sido levados cativos. 4Então Davi e o povo que se O erro militar de Davi não era, contudo,
achava com ele alçaram a sua voz, e choraram, até irreparável, pois o Senhor ainda estava
que não houve neles mais forças para chorar. agindo em seu favor. Após receber um
5Também as duas mulheres de Davi foram levadas
cativas: Ainoã, a jizreelita, e Abigail, que fora
oráculo divino favorável, de que o resgate
mulher de Nabal, o carmelita. 6Tkmbém Davi se ainda era possível, Davi e seus homens
angustiou; pois o povo falava em apedrejá-lo^ por­ partiram em marcha forçada no encalço dos
quanto a alma de todo o povo estava amargurada atacantes do deserto. Numa época em que

97
a velocidade era essencial, os homens de b. Davi Avança Sobre os Amalequitas
Davi encontraram um egípcio faminto, que, (30.16-31)
como ex-escravo amalequita, estava pronto l6Desceu, pois, e o guiou; e eis que eles estavam
a conduzir os hebreus ao acampamento dos espalhados sobre a face de toda a terra, comenda,
atacantes. bebendo e dançando, por causa de todo aquele
A ninguém mataram (...) tão-somente os grande despojo que haviam tomado da terra dos
filisteus e da terra de Judá. 17Então Davi os feriu,
levaram. Os amalequitas haviam raptado desde o crepúsculo até a tarde do dia seguinte, e
as pessoas para vendê-las como escravas. nenhum deles escapou, senão só quatrocentos
O fato de que ninguém foi morto no ataque mancebos que, montados sobre camelos, fugiram.
sugere que Davi deixara a cidade comple­ 18Assim recobrou Davi tudo quanto os amalequitas
haviam tomado; também libertou as suas duas
tamente indefesa. Se ele tivesse planejado mulheres. 19De modo que não lhes faltou coisa
conseguir que seus homens fossem dispen­ alguma, nem pequena nem grande, nem filhos, nem
sados antes da batalha contra Israel, é difícil filhas, nem qualquer coisa de tudo quanto os amale­
compreender por que conduziu toda sua quitas lhes haviam tomado; tudo Davi tornou a
trazer. 20Davi lhes tomou também todos os seus
guarnição, dessa forma deixando Ziclague rebanhos e manadas; e o povo os levava adiante
seriamente exposta. Talvez, como McKane de outro gado, e dizia: Este é o despojo de Davi.
(p. 166) sugere, ele tivesse originalmente 21Quando Davi chegou aos duzentos homens que,
planejado empregar suas tropas para atra­ de cansados que estavam, não tinham podido segui­
palhar o ataque filisteu. Em tal caso, dos, e que foram obrigados a ficar ao pé do ribeiro
de Besor, estes saíram ao encontro de Davi e do
precisaria de todos os homens disponíveis povo que com ele vinha; e Davi, aproximando-se
para resistir a uma retaliação dos filisteus. deles, os saudou em paz. 22Então todos os
Mas Davi se fortaleceu no Senhor seu malvados e perversos, dentre os homens que tinham
ido com Davi, disseram: Visto que não foram
Deus. Ao longo dos livros de Samuel, Davi conosco, nada lhes daremos do despojo que reco­
é retratado como um homem de genuína bramos, senão a cada um sua mulher e seus filhos,
religiosidade pessoal. Aqui, em meio a sua para que os levem e se retirem. 23Mas Davi disse:
própria dor e desespero, sua comunhão com Não fareis assim, irmãos meus, com o que nos deu
o Senhor, que nos guardou e entregou nas nossas
Deus propiciara o vigor e a estabilidade de mãos a tropa que vinha contra nós. 24E quem vos
que ele carecia para perceber que era neces­ daria ouvidos nisso? pois qual é a parte dos que
sário haver ação, caso quisesse salvar o seu desceram à batalha, tal será também a parte dos
povo. Somente na força do Senhor ele foi que ficaram com a bagagem; receberão partes
capaz de resistir às pressões impostas por iguais. assim foi daquele dia em diante, ficando
estabelecido por estatuto e direito em Israel até
seus soldados, cuja dor os levou à beira de o dia de hoje. g u a n d o Davi chegou a Ziclague,
um motim. enviou do despojo presente aos anciãos de Judá,
seus amigos, dizendo: Eis aí para vós um presente
Duzentos ficaram atrás. Com a totali­ do despojo dos inimigos do Senhor; 27aos de Betei,
dade de seu exército fatigado pela marcha aos de Ramote do Sul, e aos de Jatir; “ aos de
extenuante, Davi deixou os mais esgotados Aroer, aos de Sifmote, e aos de Estemoa; 2,aos de
protegendo equipamento e suprimentos que Racal, aos das cidades dos jerameelitas, e aos das
havia em excesso. Fica-se a imaginar se tal cidades dos queneus; 30aos de Horma, aos de
Corasã, e aos de Atace; aos de Hebrom, e aos
providência não foi inspirada pela lição de todos os lugares que Davi e os seus homens costu­
aprendida com o desastre de Ziclague. mavam freqüentar.
Descerei e te guiarei a essa tropa. A
descoberta do ex-escravo amalequita deve Guiados pelo escravo amalequita que
ter sido percebida como uma prova da fora deixado para morrer no deserto, Davi
direção divina, pois sem ele a expedição de e seus homens chegaram até o grupo que
Davi teria pouquíssima esperança de êxito. assaltara Ziclague, enquanto esse grupo
Mesmo o mais leve sinal teria dado aos comemorava o saque. Após observar a
amalequitas oportunidade de empregar seus situação atentamente, os israelitas atacaram
reféns para tirar o máximo proveito. logo após o crepúsculo e continuaram perse-

98
guindo os restantes do inimigo por todo o (nesheph) pode referir-se ao lusco-fusco do
dia seguinte. O vingativo resgate que Davi entardecer ou alvorecer (Is 5.11; Jr 13.16;
fez de seu povo foi completo, exceto quanto cf. 2Reis 7.5-12; Jó 7.4). Uma vez que a
aos cavaleiros amalequitas, que conse­ escuridão teria permitido aos amalequitas
guiram escapar para o deserto em seus fugir, um único dia dé batalha parece o mais
camelos. provável. A frase do dia seguinte ocorre no
Os despojos tomados por Davi foram Antigo Testamento somente aqui, e parece
maiores do que suas perdas, pois, além de estranha no hebraico. Emendas sugeridas
seus pertences pessoais, os amalequitas para essa frase, que associaram a matança
estavam levando presas tomadas de comu­ de Davi entre os amalequitas com o
nidades do deserto tanto filistéias quanto conceito de cherem (cf. comentário sobre
israelitas. Os homens de Davi, que prova­ 15.1-3), são, contudo, muito improváveis.
velmente ainda estavam aborrecidos pela A versão aqui utilizada captou a interpre­
ida a Afeque, a qual não tinha propiciado tação mais provável.
proveito algum, começaram a discutir a A referência no versículo 17 a quatro­
respeito da distribuição de sua riqueza centos mancebos designa a elite das forças
recém-encontrada. Os soldados mais amalequitas. Exceto no que toca à influ­
robustos, que tinham chegado a participar ência do Senhor apoiando seu ungido, esses
do combate, desejavam excluir os que homens sozinhos teriam sido suficiente­
haviam ficado para trás, incumbidos de mente fortes para infligir pesadas baixas às
cuidar dos suprimentos. Davi, porém, forças de Davi.
lembrando-se de sua própria culpa e
fracasso em Ziclague, reconheceu que a 6) Israel Derrotado em Gilboa (ISm
providência divina, e não a força das armas 31.1—2Sm 1.27)
israelitas, dera-lhes a vitória sobre os amale­
quitas. Ele, portanto, insistiu em que os a. Saul Comete Suicídio (31.1-13)
despojes fossem distribuídos igualmente por 'Ora, os filisteus pelejaram contra Israel; e os
todos os soldados, não importa onde homens de Israel fugiram de diante dos filisteus,
houvessem atuado. e caíram mortos no monte Gilboa. 2E os filisteus
apertaram com Saul e seus filhos, e mataram a
Ao retornar a Ziclague, Davi também Jônatas, a Abinadabe e a Malquisua, filhos de Saul.
enviou parte de seus despojos para os 3A peleja se agravou contra Saul, e os flecheiros
anciãos de Judá, para distribuição nas áreas o alcançaram, e o feriram gravemente. 4Pelo que
onde ele e seus homens haviam perambu­ disse Saul ao seu escudeiro: Arranca a tua espada,
lado enquanto fugiam de Saul. Além de e atravessa-me com ela, para que porventura não
venham esses inciraindosos, e me atravessem e
servir como compensação parcial por quais­ escarneçam de mim. M as o seu escudeiro não quis,
quer inconvenientes que o povo pudesse ter porque temia muita Então Saul tomou a espada
sofrido nas mãos dos homens de Davi, esses e se lançou sobre ela. 5Vendo, pois, o seu escudeiro
despojos também serviam como importante que Saul já era morto, também ele se lançou sobre
a sua espada e morreu com ele. 6Assim morreram
lembrete de que ele não tivera parte na juntamente naquele dia Saul, seus três filhos, o seu
batalha de Gilboa. Queria que ninguém se escudeiro, e todos os seus homens. 7Quando os
esquecesse de que, quando os filisteus israelitas que estavam no outro lado do vale, e os
atacaram as forças israelitas ao norte, em que estavam além do Jordão, viram que os homens
Jizreel, ele havia estado combatendo os de Israel tinham fugido, e que Saul e seus filhos
estavam mortos, abandonaram as suas cidades e
inimigos do Senhor no Negebe. Ademais, fugiram; e vieram os filisteus e habitaram nelas.
estava desejoso por compartilhar os frutos 8No dia seguinte quando os filisteus vieram para
de sua vitória para prová-lo. despojar os mortos, acharam Saul e seus três filhos
estirados no monte Gilboa. ’Então cortaram a
Desde o crepúsculo até a tarde do dia cabeça a Saul e o despojaram das suas armas; e
seguinte. O linguajar aqui é incomum, mas enviaram pela terra dos filisteus, em redor, a anunciá-
não impossível. A palavra para crepúsculo -lo ho templo dos seus ídolos e entre o povo.
\
99
‘“Puseram as armas de Saul no templo de Asta- em exibição no templo de uma deusa filis-
rote; e penduraram o seu corpo no muro de Bete-Sã.
"Quando os moradores de Jabes-Gileade ouviram
téia, e seu corpo decapitado foi exposto
isso a respeito de Saul, isto é, o que os filisteus lhe juntamente com os cadáveres de seus fi­
tinham feito, 12todos os homens valorosos se levan­ lhos nos muros de Bete-Sã. Uma demons­
taram e, caminhando a noite toda, tiraram o corpo tração do respeito que alguns israelitas
de Saul e os corpos de seus filhos do muro de Bete- conservavam pelo seu falecido rei é vista
-Sã; e voltando a Jabes, ali os queimaram.
,3Depois tomaram os seus ossos, e os sepultaram no ousado resgate desses corpos pelos ho­
debaixo da tamargueira, em Jabes, e jejuaram sete mens de Jabes-Gileade. Lembrando-se do
dias. resgate de sua cidade, por Saul, no início
Com o relato da morte de Saul e da de seu reinado, eles arriscaram a vida pa­
derrota de Israel em Gilboa, chegamos ao ra oferecer aos corpos da casa real um se-
ponto a que as narrativas bíblicas estive­ pultamento decente.
ram se encaminhando desde a rejeição de Não venham esses incircuncisos, e me
Saul no capítulo 15. Após o trágico en­ atravessem sugere que Saul parece não ter
contro de Saul com o espírito de Samuel temido a morte tanto quanto a vida entre
ou as aventuras de Davi em Afeque e Zi- os filisteus. O relato paralelo em lCrônicas
clague, esse relato parece quase um anti­ 10.1-12, que omite e me atravessem deste
clímax. Não obstante, é narrado de modo versículo, preserva melhor o sentido origi­
simples e com considerável grau de empa- nal (v. 4).
tia e respeito pelo rejeitado rei de Israel. Saul tomou a espada, e se lançou sobre
A história começa no final do dia em ela. O suicídio era tão raro quanto despre­
que as linhas de combate israelitas come­ zível no pensamento do Antigo Testamen­
çam a desmoronar e em que uma retirada to. Somente três outros exemplos são en­
se transforma em pandemônio. Saul, com contrados em toda a Bíblia: 2Samuel
a lembrança da experiência devastadora 17.23; IReis 16.18; e Mateus 27.5 (Caird,
em En-Dor na noite anterior ainda viva p. 1.039).
em sua mente (28.3-25), assistiu a três de Desampararam as suas cidades e fugi­
seus filhos tombarem em combate antes ram. É duvidoso que os filisteus tenham
de ele próprio ser gravemente ferido. Não penetrado em território a leste do Jordão.
temendo a morte em si, mas, sim, a tortu­ Jabes-Gileade, a menos de trinta quilôme­
ra e humilhação tal como Sansão havia tros de distância, era obviamente ainda
experimentado (Jz 16.21-25), Saul buscou israelita; e Isbosete baseou seu reino isra­
a morte pelas mãos de seu escudeiro. elita no território transjordaniano (2Sm
Quando o jovem, tal como Davi antes de­ 2.9). O texto de lCrônicas 10.7 está me­
le, recusou golpear o ungido do Senhor, lhor, omitindo além do Jordão.
Saul lançou-se sobre a própria espada. No dia seguinte. Caso os filisteus não
Assim terminou a primeira fase da expe­ estivessem próximos demais para identifi­
riência de Israel com a monarquia. car e roubar os corpos do rei e de seus fi­
A morte de Saul e de seus filhos, con­ lhos, os israelitas teriam tido condição de,
jugada com a dizimação de suas tropas em até o dia seguinte, cuidar dos cadáveres
Gilboa, teve um efeito desastroso sobre da família real.
Israel. Os filisteus estavam uma vez mais As palavras os queimaram, talvez fosse
controlando amplos vales produtivos ao melhor omiti-las em face da passagem pa­
norte, e os hebreus ficaram limitados ao ralela de lCrônicas 10.12. A queima de
interior montanhoso. corpos humanos era nofmalmente um ato
Notícias da derrota de Israel espalha­ de punição ou reprovação no Antigo Tes­
ram-se rapidamente, com os filisteus can­ tamento (Am 2.1; Js 7.25; Lv 20.14). Es­
tando a vitória e tomando o máximo pro­ tudos recentes, contudo, indicam que a
veito disso. A armadura de Saul foi posta raiz hebraica normalmente traduzida por

100
“queimar” (saraph) também pode signifi­ assemelha ao primeiro em muitos aspec­
car “ungir”, como se dá com relação a tos, diferindo, contudo, em outros pontos
ungiientos para sepultamento (veja Hertz- cruciais. A principal diferença entre os
berg, p. 233, nota de rodapé). dois encontra-se no papel do mensageiro
Deve-se notar que 2Samuel é, na ver­ amalequita que trouxe a Davi a notícia da
dade, uma continuação de ISamuel — morte de Saul. Ele falou de um encontro
daí a continuidade de esboço (veja a In­ casual com o ferido rei de Israel, que lhe
trodução a ambos os livros). pediu para ser morto depressa a fim de
evitar uma morte lenta. Depois de ter
b. Um Jovem Reivindica a Morte de Saul atendido à solicitação de Saul, o jovem
(1. 1-16) disse que apanhou a coroa e o bracelete
'Depois da morte de Saui, tendo Davi voltado do rei, os quais apresentou a Davi como
da derrota dos amalequitas e estando há dois dias confirmação de sua história.
em Ziclague, 2ao terceiro dia veio um homem do
arraial de Saul, com as vestes rasgadas e a cabe­ Conquanto em parte nenhuma expres­
ça coberta de terra; e, chegando ele a Davi, pros­ samente se declare que o amalequita esti­
trou-se em terra e lhe fez reverência. 3Pergun- vesse mentindo, o cotejo dos dois relatos
tou-lhe Davi: Donde vens? Ele lhe respondeu: Es­ sugere que o mensageiro observou os acon­
capei do arraial de Israel. 4Davi ainda lhe inda­
gou: Como foi isso? Dize-mo. Ao que ele lhe tecimentos em Gilboa mais ou menos co­
respondeu: O povo fugiu da batalha, e muitos do mo são descritos no capítulo precedente.
povo caíram, e morreram; também Saul e Jôna­ Após pilhar o cadáver de Saul, ele se
tas, seu filho, foram mortos. 5Perguntou Davi ao apressou a Ziclague com a história de sua
mancebo que lhe trazia as novas: Como sabes participação pessoal na morte do rei a fim
que Saul e Jônatas, seu filho, são mortos? 6Então
disse o mancebo que lhe dava a notícia: Achava-me de cair na graça de Davi. Entretanto, se
por acaso no monte Gilboa, e eis que Saul se en­ esse foi o plano do amalequita, ele estava
costava sobre a sua lança; os carros e os cava­ fatalmente equivocado.
leiros apertavam com ele. 7Nisso, olhando ele pa­ Davi, como um verdadeiro israelita,
ra trás, viu-me e me chamou; e eu disse: Eis-me
aqui. 8Ao que ele me perguntou: Quem és tu? E tinha persistentemente recusado erguer a
eu lhe respondi: Sou amalequita. ’Então ele me mão contra o ungido do Senhor. Somente
disse: Chega-te a mim, e mata-me, porque uma um estrangeiro, tal como Doegue, o edo-
vertigem se apoderou de mim, e toda a minha vi­ meu (ISm 22.18), ou agora esse anônimo
da está ainda em mim. l0Cheguei-me, pois, a ele,
e o matei, porque bem sabia eu que ele não vive­ amalequita, ousaria com tanta arrogância
ria depois de ter caído; e tomei a coroa que ele admitir um fato desses. Embora há muito
tinha na cabeça, e o bracelete que trazia no bra­ houvesse sido rejeitado como rei, Saul era
ço, e os trouxe aqui a meu senhor. “ Então pegou a pessoa escolhida por Deus e somente
Davi nas suas vestes e as rasgou; e assim fize­
ram também todos os homens que estavam com
Deus deve julgar. O Senhor poderia feri-lo
ele; 12e prantearam, e choraram, e jejuaram até a diretamente, provocar sua morte em com­
tarde por Saul e por Jônatas, seu filho, e pelo bate, ou deixá-lo morrer naturalmente,
povo do Senhor, e pela casa de Israel, porque ti­ mas nenhum homem devia tirar a vida do
nham caído à espada. l3Perguntou então Davi ao rei escolhido por Deus (ISm 26.10). Davi,
mancebo que lhe trouxera a nova: Donde és tu?
Respondeu ele: Sou filho de um peregrino amale­ portanto, chamou seus soldados para exe­
quita. 14Davi ainda lhe perguntou: Como não cutarem o amalequita devido à culpa que
temeste estender a mão para matares o ungido do ele havia espontaneamente admitido com
Senhor? 15Então Davi, chamando um dos mance­ seus próprios lábios.
bos, disse-lhe: Chega-te, e lança-te sobre ele. E o
mancebo o feriu, de sorte que morreu. 16Pois Seja o que for que tenha acontecido na
Davi lhe dissera: O teu sangue seja sobre a tua encosta do Monte Gilboa, o autor bíblico
cabeça, porque a tua própria boca testificou con­ usa este capítulo para tornar um fato bas­
tra ti, dizendo: Eu matei o ungido do Senhor. tante claro: Davi nada tinha a ver com a
A passagem em lide contém um segun­ morte de Saul. Ele estava ocupado bem
do relato sobre a morte de Saul, que se longe, no sul, quando o rei encontrou a

101
morte na batalha, e se dispunha a matar nunca recuou o arco de Jônatas,
qualquer um que se atrevesse a reivindicar nem voltou vazia a espada de Saul.
ter levantado o braço contra o rei. 23Saul e Jônatas, tão queridos e amados na
sua vida,
Estando [Davi] há dois dias em Zicla- também na sua morte não se separaram;
gue. Gilboa ficava a 135 quilômetros em eram mais ligeiros do que as águias,
linha reta, e a uma distância bem maior mais fortes do que os leões.
pelo caminho que uma pessoa teria de 24Vós, filhas de Israel, chorai por Saul,
tomar. Uma tal jornada consumiria quase que vos vestia deliciosamente de escarlata,
que três dias, especialmente para alguém que vos punha sobre os vestidos adornos de
oura
já exausto pela batalha. Presumivelmente,
“ Como caíram os valorosos
Davi estava retornando de sua batalha no meio da peleja!
com os amalequitas quando Saul defron­ Jônatas nos teus altos foi morto!
tou a morte. 26Angustiado ^estou por ti, meu irmão J ô ­
Prantearam, e choraram, e jejuaram até natas;
a tarde. A primeira emoção de Davi, ao muito querido me eras!
Maravilhoso me era o teu amor,
tomar conhecimento da morte de Saul, foi ultrapassando o amor de mulheres.
de pesar. Embora possa ter-se sentido 27Como caíram os valorosos,
aliviado por ficar livre da perseguição de e pereceram as armas de guerra!
Saul, e conquanto o caminho agora esti­
vesse livre para seguir seu destino como
rei de Israel, sua dor parece genuína. Seus A tragédia inteira da rejeição e declínio
laços com Jônatas eram fortes, e seu rela­ de Saul é captada na elegia de Davi, na
cionamento inicial com Saul tinha sido qual lembrava a morte do rei e de seu fi­
bem afetuoso. lho Jônatas. A despeito de sua liderança
A demora ocasionada pelo período de inconstante contra os filisteus e de sua
pranto formal, que durou até o entardecer, perseguição injusta contra Davi, Saul ain­
indica que a execução do amalequita por da desfrutava bastante afeição por parte
Davi não foi um ato passional. Provou-se de seus súditos. Conquanto o povo tivesse
uma reação bem pensada à violência feita percebido que o Espírito do Senhor o ha­
ao ungido do Senhor. via deixado (ISm 16.4), não se deleitava
em observar seu progressivo declínio. Se­
c. Davi Lamenta a Perda de Israel (1.17- melhantemente, Davi muito havia sofrido
27) nas mãos de Saul, embora seu sentimento
de perda com a morte de velhos amigos
l7Lamentou Davi a Saul e a Jônatas, seu filha, não fosse menos real.
com esta lamentação, 18mandando que fosse ensi­ Compreende-se provavelmente melhor
nada aos filhos de Judá; eis que está escrita no
livro de Jasar: a elegia de Davi, contrastando-a com os
19Hia glória, ó Israel, foi morta sobre os teus complexos costumes funerários do antigo
altos! Oriente Médio, em que o pranto público
Como caíram os valorosos! se apresentava tão destacadamente (Jr
20Não o noticieis em Gate,
nem o publiqueis nas ruas de Asquelom;
16.4; 22.18; ISm 25.1). Carpideiras, sobre­
para que não exultem as filhas dos incircun- tudo mulheres, eram amplamente empre­
cisos. gados (2Cr 35.25; Jr 9.17; Am 5.16; cf.
21Vós, montes de Gilboa, 2Sm 1.24). Assim, num sentido real, este
nem orvalhoi, nem chuva caia sobre vós, ó lamento poético reflete a dor tanto pessoal
campos de morte; quanto nacional de Isráel.
pois ali desprezivelmente foi arrojado o escu­
do dos valorosos,
No Antigo Testamento, os cantos fune­
o escudo de Saul, ungido com ólea rários empregavam um ritmo especial em
22Do sangue dos feridos, que a segunda parte do verso é mais breve
da gordura dos valorosos, do que a primeira. Tal padrão contrasta

102
fortemente com as formas normais de condições de aplicar óleo (cf. Is 21.5). Por
poesia hebraica, que dependem grande- outro lado, a passagem pode sugerir que
mênte de construções simétricas ou para­ Saul não estava ritualmente preparado pa­
lelas. O desequilíbrio resultante cria uma ra a batalha (cf. comentário sobre ISm
espécie de eco, com um efeito assustador 28.1-14).
que é especialmente apropriado para trans­ Na sua vida (:..) na sua morte não se
mitir sentimentos de tristeza e desespero separaram. Novamente chama-se atenção
(cf. especialmente v. 25-27). para o fato de que, a despeito da íntima
A beleza e vigor da maneira como Davi amizade de Jônatas com Davi, ele jamais
expressa seu lamento confirmam sua capa­ foi desleal com o pai (cf. comentário sobre
cidade como poeta de reconhecido valor. ISm 19.1-7; 20.24-42).
Sem dúvida alguma, esta obra é com toda
razão reconhecida como a maior elegia da 7. Davi Torna-se Rei (2.1—8.18)
língua hebraica.
O âmago do poema como um todo é 1) Davi Reina Sobre Judá (2.1—4.12)
captado no lamento propriamente dito:
Como caíram os valorosos (v. 19,25,27): a a. Formados Reinos Rivais (2.1-11)
nação perdera os mais primorosos exem­ 'Sucedeu depois disto que Davi consultou ao
plos de masculinidade israelita. A angús­ Senhor, dizendo: Subirei a alguma das cidades de
tia do poeta é tão intensa que ele não Judá? Respondeu-lhe o Senhor: Sobe. Ainda per­
consegue suportar o pensamento de que guntou Davi: Para onde subirei? Respondeu o
Senhor: Para Hebrom. 2Subiu, pois, Davi para lá,
os filisteus estavam se gabando da impor­ e também as suas duas mulheres. Ainoã, a jizreeli-
tância de sua vitória. Ele até pediu que ta, e Abigail, que fora mulher de Nabal, o carme­
uma maldição perpétua caísse sobre os lita. 3Davi fez subir também os homens que
campos da batalha onde Saul e Jônatas estavam com ele, cada um com sua família; e habi­
taram nas cidades de Hebrom. 4Então vieram os
perderam a vida. homens de Judá, e ali ungiram Davi rei sobre a
Após expressar a terrível sensação de casa de Judá. Depois informaram a Davi, dizendo:
perda experimentada por Israel, Davi pas­ Foram os homens de Jabes-Gileade que sepulta­
sou a elogiar os falecidos. Unidos na mor­ ram a Saul. 5Pelo que Davi enviou mensageiros
te como na vida, Saul e Jônatas tinham aos homens de Jabes-Gileade, a dizer-lhes: Ben­
ditos do Senhor sejais vós, que fizestes tal bene­
sido guerreiros capazes, pessoas atraentes volência, sepultando a Saul, vosso senhor! ‘Agora,
e fortes. Saul foi destacado pela prosperi­ pois, o Senhor use convosco de benevolência e fide­
dade que trouxera à nação; mas, para Jô­ lidade; e eu também vos retribuirei esse bem que
natas, Davi não conseguiu pensar em ne­ fizestes. 7Esforcem-se, pois, agora as vossas mãos,
nhum elogio mais elevado do que chamá- e sede homens valorosos; porque Saul, vosso
senhor, é morto, e a casa de Judá me ungiu por
lo de irmão. seu rei. 8Ora, Abner, filho de Ner, chefe do exér­
O livro de Jasar tem um significado cito de Saul, tomou a Isbosete, filho de Saul, e o
especial. Jasar significa justo. Esta é uma fez passar a Maanaim, 9e o constituiu rei sobre
Gileade, sobre os asuritas, sobre Jizreel, sobre
das duas referências canônicas ao que pa­ Efraim, sobre Benjamim e sobre todo o Israel.
rece ter sido uma antiga antologia de po­ 10Quarenta anos tinha Isbosete, filho de Saul,
emas sobre temas de interesse nacional quando começou a reinar sobre Israel, e reinou
(cf. Js 10.13). dois anos. A casa de Judá, porém, seguia a Davi.
UE foi o tempo que Davi reinou em Hebrom,
O escudo de Saul, ungido com óleo. sobre a casa Judá, sete anos e seis meses.
Melhor tradução é “e o escudo de Saul
não ungido com óleo”, embora seja difí­ Com a morte de Saul e a monstruosa
cil de se entender tal frase. Pôde lamentar derrota de Israel em Gilboa, Davi defron­
o fato de que após Gilboa, o escudo de tou-se em Israel com uma situação politica
Saul fora abandonado e negligenciado, is­ radicalmente diferente. Conquanto os he­
to é, o couro não fora mais mantido em breus ainda controlassem muitas cidades

103
fortificadas, que não podiam ser capturadas após Gilboa. Conquanto muitos israelitas
sem prolongados sítios, os filisteus eram o possam ter seguido Isbosete por motivos
poder militar dominante a oeste do Jordão. sentimentais, ele carecia de legitimidade
Uma vez que após sua vitória no vale de teológica, e as leis de primogenitura não
Jizreel não deram seguimento a outras tinham ainda sido estabelecidas em Israel.
campanhas no sul, suspeita-se que deci­ Não obstante, Davi novamente teve que
diram tentar enfraquecer ou controlar decidir sobre o tipo de tática que empre­
Israel através de Davi, o “vassalo” de Áquis garia em sua ascensão ao poder como rei
(ISam 27). Iriam descobrir no devido tem­ de todo o Israel.
po que a verdadeira lealdade de Davi sem­ Não está bem definido o tempo que foi
pre permaneceu com o seu próprio povo. necessário para Davi ganhar autoridade
Nesse meio tempo, sem dúvida alguma sobre as tribos do norte. É dito que Isbo-
Davi empregou o período de paz que se sete reinou por dois anos (2.10), mas Davi
seguiu à guerra para solidificar sua posição é mencionado como tendo reinado em
em Israel. Hebrom, sobre a casa de Judá sete anos
Entre seu próprio povo, Davi nova­ e meio (2.11). Comumente se explica isso
mente encontrou uma nação seriamente subentendendo-se que Davi mudou sua
dividida em facções políticas. De acordo capital para Jerusalém sete anos e meio
com uma resposta favorável do Senhor, após chegar ao poder em Hebrom. Sendo
Davi deslocou-se com seu exército parti­ que Davi provavelmente se tornou rei em
cular de Ziclague para o aglomerado de todo Israel logo após o assassinato de Isbo-
pequenas cidades ao redor de Hebrom. sete. Aproximadamente nos últimos cinco
Agindo independentemente das tribos do anos de sua residência em Hebrom, ele foi
norte, os homens de Judá estabeleceram mais do que simples rei sobre a casa de
um reino independente ao sul e ungiram Judá.30
Davi como seu líder. O restante de Israel A argúcia e reserva com que Davi lidou
era nominalmente controlado por um com seus opositores israelitas são refletidas
governo no exílio, estabelecido em na maneira como tratou o povo de Jabes-
Maanaim, a leste do Jordão. O governante -Gileade, os mais firmes e leais aliados de
titular das tribos do norte era o filho de Saul, Saul. Ao saber de sua ousada expedição a
Isbosete, mas o poder real por trás do Bete-Sã (ISm 31.8-13), Davi imediatamente
trono repousava em Abner, o parente de enviou uma mensagem elogiando-os por
Saul que era comandante dos exércitos de sua coragem e expressando sua própria
Israel. afeição por Saul. Ao conluir, porém, Davi
Era bem pronunciado o contraste entre lembrou-lhes de que Saul estava morto e
os dois reinos disputando a lealdade de de que ele era o rei de Judá devidamente
Israel. Davi chegou ao poder recém-saído eleito. Sem criticar o filho de Saul ou
da vassalagem aos filisteus e apoiado por deixar implícita qualquer ameaça de coer­
um tipo não-israelita de estrutura militar, ção, Davi claramente pediu o apoio deles.
seu exército particular. Não obstante, Conquanto não saibamos o resultado de
havia sido ungido por Samuel e estava seu apelo, tais atitudes ilustram ampla­
sendo apoiado por Abiatar, que remontava mente seu esforços conciliatórios.
sua linhagem a Eli. Davi foi eleito rei por
b. Irrompe a Guerra Civil (2.12-32)
representantes do povo e consagrado em
l2Depois Abner, filho de Ner, com os servos
seu ofício em Hebrom. de Isbosete, filho de Saul, saiu de Maanaim para
Isbosete, por outro lado, tinha quase Gibeão. 13Saíram também Joabe, filho de Zeruia,
nada a recomendá-lo, além do fato de ser e os servos de Davi, e se encontraram com eles
filho de Saul e de ter o apoio de Abner,
M artin N oth, The H istory o f Israel, traduzido para o inglês por
que comandava o que restara do exército P R. Ackroyd (New York: H arper and Brothers, i960), p. 191.

104
perto do tanque de Gibeão; e pararam uns de um A despeito dos contínuos esforços de
lado do tanque, e os outros do outro lada 14Então Davi para manter relações pacíficas com
disse Ábner a Joabe: Levantem-se os mancebos,
e se batam diante de nós. Respondeu Joabe:
Israel, as hostilidades logo vieram à tona.
Levantem-se. 15Levantaram-se, pois, e passaram, Apanhado numa guerra civil que nenhum
em número de doze, por Benjamim e por Isbosete, dos lados desejava npm podia vencer, os
filho de Saul, e doze dos servos de Davi. 16E cada dois reinos em luta fizeram um esforço
um lançou mão da cabeça de seu contendor, e para conciliar suas diferenças.
meteu-lhe a espada pela ilharga; assim cairam
juntos; pelo que se chamou aquele lugar, que está Delegações sob a liderança dos coman­
junto a Gibeão, Helcate-Hazurim. 17Seguiu-se dantes militares dos dois reinos se encon­
naquele dia uma crua peleja; e Abner e os homens traram em Gibeào, dez quilômetros a noro­
de Israel foram derrotados de diante dos servos
de Davi. 18O ra, estavam ali os três filhos de
este de Jerusalém, na fronteira entre Israel
Zeruia: Joabe, Abisai e Asael; e Asael era ligeiro e Judá. Embora não se diga claramente
de pés, como as gazelas do campa I9Perseguiu, quais foram as circunstâncias que envol­
pois, Asael a Abner, seguindo-o sem se desviar viam essa reunião, o nível de importância
nem para a direita nem para a esquerda. “ Nisso dos participantes sugere que sérias nego­
Abner, olhando para trás, perguntou: És tu Asael?
Respondeu ele: Sou e u .21Ao que lhe disse Abner: ciações diplomáticas estavam em anda­
Desvia-te para a direita, ou para a esquerda, e mento. Os dois grupos sentaram-se defron­
lança mão de um dos mancebos, e toma os seus te um do outro, em lados opostos do tan­
despojos. Asael, porém, não quis desviar-se de que de Gibeão, provavelmente a não mais
segui-la zzEntão Abner tornou a dizer a Asael:
Desvia-te de detrás de mim; por que hei de ferir-te
do que 15 a 22 metros de distância en­
e dar contigo em terra? e como levantaria eu o meu tre si.
rosto diante de Joabe, teu irmão? “ Todavia ele Como introdução à reunião de negó­
recusou desviar-se; pelo que Abner o feriu com o cios, Abner, o comandante israelita, su­
conto da lança pelo ventre, de modo que a lança
lhe saiu por detrás; e ele caiu ali, e morreu na­
geriu que os jovens de ambos os lados en-
quele mesmo lugar. E sucedeu que, todos os que tretivessem o grupo com uma brincadeira
chegavam ao lugar onde Asael caira morto, pa- de guerra. As regras do “jogo” não são
ravam. Z4M as Joabe e Abisai perseguiram a mais conhecidas, mas parece que doze
Abner; e pôs-se o sol ao chegarem eles ao outeiro jovens de cada lado se engajaram num
de Amá, que está diante de Giá, junto ao caminho
do deserto de Gibeãa 25E os filhos de Benjamim combate simulado. Traição ou excesso de
se ajuntaram atrás de Abner e, formando-se entusiasmo levou a brincadeira a um
num batalhão, puseram-se no cume dum outeira conflito fatal. Pbr fim, todos os 24 comba­
“ Então Abner gritou a Joabe, e disse: Devorará tentes iniciais estavam mortos, e as forças
a espada para sempre? Não sabes que por fim
haverá amargura? até quando te demorarás em
de Israel sofreram pesadas baixas nos
ordenar ao povo que deixe de perseguir a seus combates que se seguiram.
irmãos? 27Respondeu Joabe: Vive Deus, que, se No transcorrer da batalha subseqüente
não tivesse falado, só amanhã cedo teria o povo tomamos conhecimento da origem da
cessado, cada um, de perseguir a seu irm ãa
^Então Joabe tocou a buzina, e todo o povo desavença assassina que se desenvolveu
parou; e não perseguiram mais a Israel, e tam­ entre as famílias dos comandantes dos
pouco pelejaram mais. Z9E caminharam Abner e exércitos adyersários. Ao serem os israeli­
os seus homens toda aquela noite pela Arabá; e, tas postos em fuga, Abner estava sendo
passando o Jordão, caminharam por todo o Bitrom,
e vieram a Maanaim. “ Voltou, pois, Joabe de
perseguido por Asael, irmão mais novo de
seguir a Abner; e quando ajuntou o povo, faltavam Joabe, que era um guerreiro inexperiente,
dos servos de Davi dezenove homens, e Asael. mas um corredor veloz. Abner reconheceu
31Mas os servos de Davi tinham ferido dentre os seu perseguidor e em vão insistiu para que
de Benjamim, e dentre os homens de Abner, a se afastasse para encontrar um oponente
trezentos e sessenta homens, de tal maneira que
morreram. 3ZE levantaram a Asael, e os sepul­ cujas habilidades estivessem mais pró­
taram no sepulcro de seu pai, que estava em ximas da sua limitada experiência militar.
Belém. E Joabe e seus homens caminharam toda Reconhecendo que não poderia ganhar
aquela noite, e amanheceu-lhe o dia em Hebrom. distância ou escapar de Asael, Abner

105
atacou pelas costas com sua lança e matou a jizreelita; 3o segundo Quileabe, de Abigail, que
seu jovem oponente n*>local. fora mulher de Nabal, o carmelita; o terceiro
Os judeus continuaram a perseguir isra­ Absalão, filho de Maacá, filha de Talmai, rei de
Gesur; 4o quarto Adonias, filho de Hagite; o
elitas até que Abner reuniu seus homens quinto Sefatias, filho de Abital; 5e o sexto Itreão,
numa elevação, obtendo assim uma van­ de Eglá, também mulher de Davi; estes nasceram
tagem tática. Na troca de palavras que se a Davi em Hebrom.
seguiu, feita aos gritos, consegue-se ter
uma idéia melhor sobre o propósito inicial Na longa guerra que se seguiu ao inci­
do encontro. Abner deixou implícito que dente de Gibeão, Davi prosperou enquan­
a guerra civil já vinha se desenvolvendo to os descendentes de Saul continuaram
por algum tempo e perguntou: Devorará em decadência. A crescente força política
a espada para sempre? (...) até quando te de Davi encontra paralelo em sua crescen­
demorarás em ordenar ao povo que deixe te família. Juntas, ambas serviam como
de perseguir a seus irmãos? Ele podia lembrete do contínuo respaldo do Senhor
prever que uma continuação do derrama­ à sua causa.
mento de sangue seria tão devastadora Seis filhos, de tanta importância nas
quanto inútil. Joabe respondeu que a sociedades antigas, nasceram-lhe em sete
guerra teria acabado já naquela manhã, anos e meio, e esta lista parece estar incom­
não fora o funesto pedido de Abner por pleta. Não se menciona nenhuma menina,
entretenimento. e somente uma criança é mencionada para
A frase amanhã cedo (mehabboker) é cada esposa. Presumivelmente esses me­
costumeiramente interpretada como re- ninos são mencionados aqui como exem­
ferindo-se à manhã seguinte. Isto é grama­ plos da generosidade de Deus para com seu
ticalmente possível. Mas uma tradução servo Davi.
mais literal, “desde a manhã”, parece mais A lista também tem, contudo, seu lado
provável neste contexto. Os judeus inter­ trágico. Três dos meninos, Amnom, Absa­
romperam sua perseguição não devido ao lão e Adonias, desempenharam papéis
pedido de Abner, mas porque os israelitas proeminentes, mas infelizes, na história de
haviam obtido uma posição estratégica Davi como rei. Os outros três presumivel­
superior. O discurso malfadado a que mente morreram na infância, uma vez que
Joabe se referia ocorrera na manhã daque­ não são mencionados novamente.
le mesmo dia. Não houvesse o pedido de Filha de lalmai, rei de Gesur, mãe de
Abner precipitado tal carnificina, uma Absalão, era uma princesa de Gesur,
trégua já poderia estar em vigor. (Mas, cf. pequeno estado sírio a nordeste do Mar da
McKane, p. 186, que sustenta que o com­ Galiléia. Davi pode ter arranjado esse
bate persistiria por toda a noite se Abner casamento como meio de assegurar um
não tivesse pedido que a batalha chegasse aliado que estivesse situado à retaguarda
a um fim). Uma vez interrompida a luta, de Isbosete, em Maanaim (Bright, p. 176).
os sobreviventes de ambos os exércitos Eglá, também mulher de Davi. O signi­
começaram marchas forçadas para casa, ficado da expresão qualificativa é incerto,
presumivelmente para informar seus go­ uma vez que presumivelmente todas essas
vernantes acerca da ruptura de suas nego­ mulheres eram esposas de Davi. Talvez o
ciações. nome de Davi tenha substituído o de um
antigo marido, numa expressão semelhan­
c. Cresce a Família de Davi (3.1-5) te àquela relativa a Abigail no v. 3.
'Ora, houve uma longa guerra entre a casa de d. Abner Negocia com Davi (3.6-21)
Saul e a casa de Davi; porém Davi se fortalecia
cada vez mais, enquanto a casa de Saul cada vez 6Enquanto havia guerra entre a casa de Saul
mais se enfraquecia. 2Nasceram filhos a Davi em e a casa de Davi, Abner ia se tornando poderoso
Hebrom. Seu primogênito foi Amnom, de Ainoã, na casa de Saul. 7Ora, Saul tivera uma concubi-

106
na, cujo nome era Rizpa, filha de Aias. Perguntou, unir o reino sob Davi por meios pacíficos
pois, Isbosete a Abner: Por que entraste à con­ (cf. comentário sobre ISm 23.15-18; 2Sm
cubina de meu pai? ‘Então Abner, irando-se muito
pelas palavras de Isbosete, disse: Sou eu cabeça
2.12-32).
de cão, que pertence a Judá? Ainda hoje uso de Esta tentativa de tentar a conciliação
benevolência para com a casa de Saul, teu pai, e entre os reinos de Israel e Judá tem origem
para com seus irmãos e seus amigos, e não te em um incidente pessoal entre Isbosete e
entreguei nas mãos de Davi; contudo tu hoje queres Abner. Conquanto Abner sempre tivesse
culpar-me no tocante a essa mulher. ’Assim faça
Deus a Abner, e outro tanto, se, como o Senhor sido a verdadeira fonte de poder por trás
jurou a Davi, assim eu não lhe fizer, “ transferin- do trono de Israel, parece que ele se es­
do o reino da casa de Saul, e estabelecendo o forçou sinceramente por manter o governo
trono de Davi sobre Israel, e sobre Judá, desde de Saul intacto com o próprio filho de Saul
Dã até Berseba. nE Isbosete não pôde responder
a Abner mais uma palavra, porque o temia.
como rei. Não obstante, à medida que
12Então enviou Abner da sua parte mensageiros crescia a força de Davi, e se desvanecia a
a Davi, dizendo: De quem é a terra? Comigo faze influência de Israel, tornou-se mais e mais
a tua aliança, e eis que a minha mão será contigo, evidente que o governo em Maanaim
para fazer tornar a ti todo o Israel. 13Respondeu estava nas mãos de um só homem. Final­
Davi: Está bem; farei aliança contigo; mas uma
coisa te exijo; não verás a minha face, se primeiro mente, Isbosete confrontou Abner, ex­
não me trouxeres Mical, filha de Saul, quando pressando suspeitas de que ele estava
vieres ver a minha face. 14Também enviou Davi tentando tornar-se rei tanto de direito
mensageiros a Isbosete, filho de Saul, dizendo: como de fato.
Entrega-me minha mulher Mical, que eu desposei
por cem prepúcios de filisteus. 15Enviou, pois,
A pergunta a Isbosete no versículo 7 é
Isbosete, e a tirou a seu marido, a Paltiel, filho de bem objetiva:
Laís, 16que o seguia, chorando atrás dela até Por que entraste à concubina de meu
Baurim. Então lhe disse Abner: Vai-te; volta! E ele pai? Isso era mais do que uma acusação
voltou. 17Falou Abner com os anciãos de Israel, de escandalosa imoralidade. As concubi­
dizendo: De há muito procurais fazer com que
Davi reine sobre vós; 18fàzei-o, pois, agora, porque nas do rei eram consideradas sua proprie­
o Senhor falou de Davi, dizendo: Péla mão do meu dade particular, e como tal, tornavam-se
servo Davi livrarei o meu povo da mão dos filisteus possessão de seu sucessor. Reivindicar
e da mão de todos os seus inimigos. 19Do mesmo uma concubina do rei era, portanto, o
modo falou Abner a Benjamim, e foi também dizer
a Davi, em Hebrom, tudo o que Israel e toda a
mesmo que reclamar o trono (cf. 2Sm
casa de Benjamim tinham resolvida 20Abner foi 16.22; IReis 2.22,23). É incerto se Abner
ter com Davi, em Hebrom, com vinte homens; e era culpado da acusação que Isbosete
Davi fez um banquete a Abner e aos homens que assacou-lhe. Alguns comentaristas, com
com ele estavam. 21Então disse Abner a Davi: base em apoio textual de recensões de
Eu me levantarei, e irei ajuntar ao rei meu senhor
todo o Israel, para que faça aliança contigo; e tu uma versão grega, afirmam que as pala­
reinarás sobre tudo o que desejar a tua alma. vras “e Abner a tomou” deveriam ser
Assim despediu Davi a Abner, e ele se foi em paz. acrescentadas ao versículo 7 (Hertzberg,
p. 257). Essas palavras, porém, não são
A história da ascensão de Davi ao poder encontradas nos melhores textos, e não se
é ao mesmo tempo simples e complexa. harmonizam bem com o restante da his­
De uma perspectiva teológica, o resultado tória.
final da história nunca esteve em dúvida: Abner, ao que parece, nunca negou ter
Davi estava destinado por Deus a tornar-se grande poder em suas mãos; mas ficou
rei de todo Israel (ISm 16.1). Historica­ indignado com o fato que sua constante
mente, contudo, o caminho percorrido por generosidade para com a família e amigos
Davi até chegar a essa posição de destaque de Saul não tivesse deixado claro que ele
foi extremamente sinuoso e imensuravel- não alimentava desejo de ser rei. Desani­
mente frustrante. O capítulo em lide conta mado com a influência cada vez menor de
acerca de outra tentativa abordada de seu governo em Israel e desapontado por­

107
que suas motivações tinham sido mal mente a Davi que se tornasse o seu rei
interpretadas, Abner decidiu pôr sua in­ (cf. 5.3).
fluência a favor daqueles que estavam se
empenhando por reunir Israel sob a lide­ e. Joabe Mata Abner (3.22-39)
rança de Davi. 22Eis que os servos de Davi e Joabe voltaram
de uma sortida, e traziam consigo grande despojo;
Uma vez que havia feito de Isbosete rei, mas Abner já não estava com Davi em Hebrom,
esta uma função que naquela época não porque este o tinha despedido, e ele se fora em paz.
representava um poder de verdade, Abner “ Quando, pois, chegaram Joabe e todo o exército
não precisava ocultar suas intenções. Con­ que vinha com ele, disseram-lhe: Abner, filho de
sultou abertamente os anciãos de Israel, Ner, veio ter com o rei; e o rei o despediu, e ele
se foi em paz. 24Então Joabe foi ao rei, e disse:
alguns dos quais tinham estado apoiando Que fizeste? Eis que Abner veio ter contigo; por
Davi por todo o tempo, e obteve o apoio que, pois, o despediste, de maneira que se fosse
deles para seus planos. Mesmo a tribo de assim livremente? “ Bem conheces a Abner, filho
Benjamim, que estivera mais intimamente de Ner; ele te veio enganar, e saber a tua saída e
a tua entrada, e conhecer tudo quanto fazes. “ E
envolvida na administração de Saul, reco­ Joabe, retirando-se de Davi, enviou mensageiros
nhecia que a esperança de Israel para o atrás de Abner, que o fizeram voltar do poço de
futuro jazia na reunificação sob a lide­ Sira, sem que Davi o soubesse. 27Quando Abner
rança de Davi. voltou a Hebrom, Joabe o tomou à parte, à en­
trada da porta, para lhe falar em segredo; e ali,
Abner imediatamente iniciou nego­ por causa do sangue de Asael, seu irmão, o feriu
ciações, enviando emissários a Hebrom, os no ventre, de modo que ele morreu. 28Depois
quais proclamaram sua autoridade sobre Davi, quando o soube, disse: Inocente para sempre
sou eu, e o meu reino, para com o Senhor, no
o reino do norte e anunciaram sua dispo­ tocante ao sangue de Abner, filho de Ner. 29Caia
sição de negociar com Davi. Entretanto, ele sobre a cabeça de Joabe e sobre toda a casa
Davi exigiu que sua esposa Mical, filha de de seu pai, e nunca falte na casa de Joabe quem
Saul, fosse-lhe devolvida antes de se chegar tenha fluxo, ou quem seja leproso, ou quem se
atenha a bordão, ou quem caia à espada, ou quem
a qualquer acordo final (cf. ISm 18.20-27). necessite de pão. 30Joabe, pois, e Abisai, seu
Suas razões foram provavelmente mais de irmão, mataram Abner, por ter ele morto a Asael,
ordem prática do que romântica, uma vez irmão deles, na peleja em Gibeãa 11Disse Davi a
que seu casamento com Mical propiciava- Joabe e a todo o povo que com ele estava: Rasgai
lhe um laço legítimo com a primeira casa as vossas vestes, cingi-vos de sacos e ide prante­
ando diante de Abner. E o rei Davi ia seguindo o
governante de Israel. Num esforço para se féretro. 32Sepultaram Abner em Hebrom; e o rei,
assegurar de que suas condições eram levantando a sua voz, chorou junto da sepultura
compreendidas e de que o rei de Israel de Abner; chorou também todo o pova ’’Pranteou
participava das negociações, Davi enviou o rei a Abner, dizendo:
Devia Abner, porventura, morrer como morre
mensageiros a Isbosete com suas exigên­ o vilão?
cias. Sem o poder nas mãos, Isbosete não 34As tuas mãos não estavam atadas,
tinha escolha senão atender. Acompanha­ nem os teus pés carregados de grilhões;
da pela lamentação do marido, a quem Mas caíste como quem cai diante dos filhos da
tinha sido dada por seu pai, Mical partiu iniqüidade.
Então todo o povo tornou a chorar por ele.
para estar com Davi. 35Depois todo o povo veio fazer com que Davi
Após esses arranjos preliminares terem comesse pãoi, sendo ainda dia; porém Davi jurou,
dizendo: Assim Deus me faça, e outro tanto, se^
sido completados, o próprio Abner fez antes que o sol se ponha, eu provar pão ou qual­
uma viagem a Hebrom para tratar dos quer outra coisa. 36Todo o povo notou isso, e
detalhes para a reunificação do reino. pareceu-lhe bem; assim como tudo quanto o rei fez
Após ter sido cordialmente recebido, e pareceu bem a todo o pova 37Assim todo o povo
cercado de honrarias por seus anfitriões e todo o Israel entenderam naquele mesmo dia que
não fora a vontade do rei que matassem a Abner,
judeus, Abner partiu para reunir os an­ filho de Ner. 38Então disse o rei aos seus servos:
ciãos de Israel que iriam solicitar formal­ Não sabeis que hoje caiu em Israel um príncipe,

108
um grande homem? 39E quanto a mim, hoje estou da família de Joabe. A seguir, Davi pre­
fraco, embora ungido rei; estes homens, filhos de
Zeruia, são duros demais para mim. Retribua o
parou para Abner um funeral com honras
Senhor ao malfeitor conforme a sua maldade. de chefe de estado e exigiu que Joabe e
seus amigos assistissem a ele como lamen-
Bem quando a reunificação pacífica de tadores vestidos de pano de saco. O próprio
Israel e Judá parecia ter êxito garantido, Davi participou do evento, expressando
as delicadas negociações de Davi com o tanto um lamento pela morte de Abner
reino do norte foram complicadas pela como um tributo por sua grandeza em vida.
intervenção insubordinada de seu general Devia Abner (...) morrer como morre um
e sobrinho, Joabe. Por determinação de vilão? é uma frase que não tem o mesmo
Davi ou por circunstâncias fortuitas, Joa­ sentido afetivo da lamentação de Davi por
be estava longe de Hebrom quando Abner Saul e Jônatas (1.19-27). Davi deplora a
chegou para discutir os arranjos do trata­ morte de Abner como obra de homens
do. Abner mal tinha deixado a cidade, após perversos, mas sugere que se deveu em
completar sua missão, todavia, quando parte à própria negligência de Abner.
Joabe, retomando duma expedição mili­ Sendo que ele não era um prisioneiro,
tar bem-sucedida, soube de sua visita a deveria estar atento contra seu inimigo.
Hebrom. Note-se que a morte de Abner é, no versí­
Motivado pelo desejo de vingar a morte culo 30, atribuída tanto a Joabe quanto a
do irmão (2.18-28) e por uma desconfiança Abisai.
das intenções de Abner, Joabe repreendeu O autor corajosamente se esforça por
Davi por ter deixado de deter Abner, mas demonstrar que Davi não era cúmplice
sem resultado. Joabe, portanto, agiu inde­ desse episódio. Ele chamou a atenção duas
pendentemente e enviou mensageiros para vezes ao fato de que a morte de Abner foi
trazerem Abner de volta a Hebrom. Agin­ motivada por questões pessoais, não polí­
do como se em missão oficial, Joabe en­ ticas, e fez notar que até mesmo o povo de
controu seu adversário junto ao portão da Israel estava convencido da inocência de
cidade e subitamente, sem qualquer aviso, Davi.
o feriu. Não obstante, a falta de habilidade de
O portão de uma cidade fortificada era Davi em manter controle sobre Joabe e o
composto por uma série de câmaras me­ fato de deixar de tomar medidas punitivas
nores, que podiam ser fechadas com pesa­ contra Joabe parecem incomuns, para
das portas de madeira e defendidas suces­ dizer o mínimo. Davi tinha pouco a ga­
sivamente. Exceto em tempo de guerra, nhar e muito a perder com a morte inopor­
essas áreas eram utilizadas para fins judi­ tuna de Abner, uma vez que Abner já
ciários e em outras funções da adminis­ estava se movimentando para unir o reino
tração pública (15.2). Presumivelmente o sob o governo de Davi. Portanto, pareceria
assassinato teve lugar numa dessas cortes que outros feitores, além de envolvimento
interiores, à entrada da porta, literalmente, pessoal, impediram que Davi tomasse
“no interior da porta”. medidas contra Joabe. As decisões de Davi
Reconhecendo a seriedade da ofensa de podem ter sido influenciadas pelo fato de
Joabe e o modo em que isso seria recebido que Joabe era filho de sua irmã Zeruia,
em Israel, Davi agiu com rapidez para mas a situação política foi provavelmente
dissociar-se do assassinato de Abner. A o fator decisivo por trás de sua indulgên­
maldição que Davi pronunciou sobre a cia. Sem dúvida, havia muitos em Judá
casa de Joabe era particularmente ade­ que se lembravam do incidente em Gibeão
quada, uma vez que Abner fora morto (2.12-32) e eram, portanto, céticos quanto
como resultado de uma querela assassina, às intenções pacíficas de Abner. De qual­
morte cujo propósito era reafirmar a honra quer modo, Davi lamentou sua inabilidade

109
em tomar as medidas corretas e colocou pedaçar-se quando primeiramente Abner
a questão toda perante o Senhor para que e depois os anciãos de Israel decidiram
julgasse a questão de um modo definitivo obter um tratado pelo qual Davi se
e com isenção. faria rei de todo Israel. Nesse período o exér­
f. Isbosete Assassinado (4.1-12) cito, há muito a verdadeira fonte de
autoridade no reino do norte, era controlado
‘Quando Isbosete, filho de Saul, soube que pela personalidade dominante de Abner.
Abner morrera em Hebrom, esvaíram-se-lhe as
forças, e todo o Israel ficou perturbado. 2Tinha
Agora que ele estava morto, a posição do
Isbosete, filho de Saul, dois homens chefes de guer­ rei ficou mais precária do que nunca
rilheiros; um deles se chamava Baaná, e o outro quando vários grupos começaram a fazer
Recabe, filhos de Rimom, e beerotita, dos filhos manobras para tirar vantagem do vazio de
de Benjamim (porque também Beerote era contado poder que se desenvolvera no reino do norte.
de Benjamim, Hendo os beerotitas fugido para
Gitaim, onde têm peregrinado atê o dia de hoje). Reconhecendo que o futuro da nação
4Ora, Jônatas, filho de Saul, tinha um filho alei­ inteira jazia agora nas mãos de Davi, dois
jado dos pés. Este era da idade de cinco anos quando ambiciosos oficiais do exército tentaram
chegaram de Jizreel as novas a respeito de Saul conquistar seu favor, eliminando o seu rival.
e Jônatas; pelo que sua ama o tomou, e fugiu; e
sucedeu que, apressando-se ela a fugir, ele caiu, Os homens, dois irmãos oriundos de
e ficou coxo. O seu nome era Mefibosete. 5Foram Beerote, em Benjamim, entraram furtiva­
os filhos de Rimom, o beerotita, Recabe e Baaná, mente na casa de Isbosete durante a sesta
no maior calor do dia, e entraram em casa de Isbo- do início da tarde e mataram o rei em seu
sete, estando ele deitado a dormir a sesta. leito. Após decapitarem a vítima,
6Entraram ali até o meio da casa, como que vindo
apanhar trigo, e o feriram no ventre; e Recabe e marcharam a noite inteira pelo Vale do
Baaná, seu irmão, escaparam. 7Porque entraram Jordão para levar a Davi, em Hebrom, a
na sua casa, estando ele deitado na cama, no seu prova de seu ato.
quarto de dormir, e o feriram e mataram, e cortando-
-lhe a cabeça, tomaram-na e andaram a noite toda Os dois conspiradores apresentaram seu
pelo caminho de Arabá.8Assim trouxeram a cabe­ tétrico troféu a Davi e reivindicaram que
ça de Isbosete aDavi em Hebrom, e disseram ao Fei: fora por suas mãos que o Senhor tinha
Eis aqui a cabeça de Isbosete, filho de Saul, teu ini­ operado vingança sobre a casa de Saul.
migo, que procurava a tua morte; assim o Senhor Davi, contudo, persistiu em sua crença de
vingou hoje ao rei meu senhor, de Saul e da sua des­
cendência. 9M as Davi, respondendo a Recabe e a que o Senhor era capaz de levar a cabo sua
Baaná, seu irmão, filhos de Rimom, o beerotida, dis­ vontade sem pôr o seu povo uns contra os
se-lhes: Vive o Senhor, que remiu a minha alma de to­ outros (ISm 26.10,11). Após relatar a sorte
da a angústia! 10Se àquele que me trouxe novas, do amalequita que alegou ter matado Saul,
dizendo: Éis que Saul è morto, cuidando que trazia
boas novas, eu logo lancei mão dele, e o matei em Davi fez com que os assassinos fossem
Ziclague, sendo essa a recompensa que lhe dei pelas executados, e seus corpos, mutilados e
novas, "quanto mais quando homens cruéis expostos. Enquanto os cadáveres dos benja-
mataram um homem justo em sua casa, sobre a mitas serviam como um lembrete público
sua cama, não requererei eu o seu sangue de vossas de que Davi recusava obter o trono de Israel
mãos, e não vos exterminarei da terra? 1ZE Davi
deu ordem aos seus mancebos; e eles os mataram pela força, a cabeça de Isbosete foi sepul­
e, cortando-lhe as mãos e os pés, os penduraram tada no sepulcro de Abner, em Hebrom.
junto ao tanque em Hebrom. Tomaram, porém, a A nota parentética nos versículos 2, 3,
cabeça de Isbosete, e a sepultaram na sepultura
de Abner, em Hebrom.
Beerote (...) até o dia de hoje, tem suscitado
muita especulação quanto ao seu sentido.
Quando as notícias do assassinato de Ao tempo da conquista, Beerote era uma
Abner alcançaram Maanaim, a capital de das quatro cidades numa liga comandada
Israel, a confusão deu origem ao caos. por Gibeão (Js 9.17). Sua localização, bem
Jamais tendo sido por si mesmo um líder como a de Gitaim, é desconhecida. Alguns
forte, Isbosete tinha anteriormente teste­ comentaristas sugerem que o povo de
munhado seu mundo de realeza des­ Beerote fugiu devido à severa perseguição

110
por Saul, que suspeitava que eles (»labo­ outros candidatos capazes para o ofício que
ravam com os filisteus (Bright, p. 168; ele buscava.
McKane, p. 197). Se tal fosse o caso, porém, O relato da ascensão de Davi ao trono
a presença de Baaná e Recabe como oficiais é impressionantemente simples. Os anciãos
no exército de Isbosete seria difícil de de Israel, como reprçsentantes de todas as
explicar. Nenhuma resposta inteiramente tribos, juraram a Davi sua lealdade numa
satisfatória pode ser dada com base nas cerimônia de aliança e ungiram-no rei. Base­
informações disponíveis. aram sua ação na comprovada habilidade
O versículo 4, que interrompe a história de Davi como líder militar sobre Saul e na
do assassinato de Isbosete, serve para intro­ crescente convicção que tinham de que ele
duzir Mefibosete como personagem de era o governante escolhido pelo Senhor para
certa importância numa narrativa futura o seu povo.
(9.1-13). Num exemplo clássico de anteci­ É dito que Davi reinou quarenta anos.
pação literária, o leitor é levado a antecipar Uma vez que quarenta anos era freqüen­
sua aparição posterior e, então, à luz dessa temente empregado como um número
experiência, a reinterpretar a primeira. A redondo próprio para indicar um longo
casa de Saul estava chegando a uma período de duração indeterminada, o
situação triste quando somente um neto número pode ou não ser exato. Com base
aleijado sobreviveria para herdar seus bens. em sincronismo com outros acontecimentos
conhecidos mencionados nas obras de
2) Davi Soberano Sobre Todo o Israel Josefo, a data da ascensão de Salomão é
(5.1—8.18) calculada com relativa precisão como tendo
ocorrido em 961 a.C.31 O reinado de Davi,
a. Os Anciãos “Elegem” Davi Rei (5.1-5) portanto, teria se estendido de cerca de 1000
'Então todas as tribos de Israel vieram a Davi
a 961 a.C.
em Hebrom e disseram: Eis-nos aqui, teus ossos Em Hebrom reinou. A captura de Jeru­
e tua carne! 2Além disso, outrora, quando Saul salém por Davi está aqui associada com o
ainda reinava sobre nós, eras tu o que saias e início de seu governo sobre Israel, sete anos
entravas com Israel; e também o Senhor te disse: e meio após ter-se tornado rei sobre Judá,
Tu apascentarás o meu povo de Israel, e tu serás
chefe sobre Israel. 3Assim, pois, todos os anciãos
em Hebrom. Esta afirmação, contudo, não
de Israel vieram ter com o rei em Hebrom; e o rei leva em consideração o reinado de Isbosete
Davi fez aliança com eles em Hebrom, perante o de somente dois anos sobre o reino do norte
Senhor; e ungiram a Davi rei sobre Israel. 4Trinta (2.10). Sendo que não há qualquer indicação
anos tinha Davi quando começou a reinar, e reinou de Israel ter esperado cinco anos e meio
quarenta anos. 5Em Hebrom reinou sete anos e
seis meses sobre Judá, e em Jerusalém reinou trinta após a morte de Isbosete antes de ungir a
e três anos sobre todo o Israel e Judá. Davi rei, é melhor entender que Davi
capturou Jerusalém cinco anos após os
A corrente que por tanto tempo havia
reinos se unirem sob o seu governo. Daí,
carregado Davi rumo ao trono de Israel era
numa seqüência cronológica exata, 5.6-10
agora forte demais para ser detida pelas
viria após 5.17-25.
mortes de Abner e Isbosete. Em vista da
resolução anterior de Israel de “ir com Davi”
b. Davi Instala sua Corte (5.6-16)
(3.17-19), sua ascensão como rei de modo
algum dependia do assassinato dos princi­ 6Depois partiu o rei com os seus homens para
pais líderes do reino do norte. Uma forte Jerusalém, contra os jebuseus, que habitavam
naquela terra, os quais disseram a Davi: Não
reação pública poderia ter temporariamente entrarás aqui; os cegos e os coxos te repelirão;
postergado o inevitável, mas aparentemente
Davi foi capaz de convencer a nação como David Noel F reedm an, “T he Chronology o f Israel and the A ncient
um todo de sua inocência nesses assassi­ N ear East: Section A. Old Testament Chronology”, The Bible and
the A n c ien t N ea r East, editado por G. E rnest W right (Garden City,
natos. Contudo, na verdade não havia New York: Doubleday, 1961), p. 209.

ill
querendo dizer: Davi de maneira alguma entrará A passagem paralela de lCrônicas 11.4-9,
aqui. 7Todavia Davi tomou a fortaleza de Sião; esta
é a cidade de Davi. 8Ora, Davi disse naquele dia: que, em outros aspectos, segue o conteúdo
Todo o que ferir os jebuseus, suba ao canal, e fira de Samuel quase palavra por palavra, omite
a esses coxos e cegos, a quem a alma de Davi abor­ a referência toda aos coxos e cegos. A última
rece. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará metade de 2Samuel 5.6 é omitida e o versí­
na casa. 9Assim habitou Davi na fortaleza, e culo 8 é alterado para rezar: “Davi disse:
chamou-a cidade de Davi; e foi levantando edifícios
em redor, desde Milo para dentro. 10Davi ia-se Qualquer que primeiro ferir os jebuseus será
engrandecendo cada vez mais, porque o Senhor chefe e capitão. E Joabe, filho de Zeruia,
Deus dos exércitos era com ele. "Hirão, rei de subiu primeiro, pelo que foi feito chefe” (lCr
Tiro, enviou mensageiros a Davi, e madeira de cedro, 11.6).
e carpinteiros e pedreiros, que edificaram para Davi
uma casa. 12Entendeu, pois, Davi que o Senhor o
A Septuaginta, contudo, reflete um texto
confirmara rei sobre Israel, e que exaltara o reino bastante semelhante ao adotado neste
dele por amor de seu povo Israel. 13Davi tomou comentário, com exceção duma pequena
ainda para si concubinas e mulheres de Jerusalém, alteração no versículo 8. Onde lemos a
depois que viera de Hebrom; e nasceram a Davi quem a alma de Davi aborrece, a versão
mais filhos e filhas. 14São estes os nomes dos que
lhe nasceram em Jerusalém: Samua, Sobabe, Natã, grega pode ser traduzida por “e aqueles que
Salomão, 15Ibar, Elisua, Nefegue, Jafia, 16Elisama, odeiam a alma de Davi”. Isto requereria só
Eliadá e Elifelete. uma pequena alteração do texto hebraico,
mas doutro modo permanece a dificuldade.
As dificuldades textuais desses versículos
são por demais complicadas para serem aqui c. Davi Detém os Filisteus (5.17-25)
enumeradas, mas os resultados gerais das 17Quando os filisteus ouviram que Davi fora
ações de Davi podem ser prontamente ungido rei sobre Israel, subiram todos em busca
percebidas. Cerca de cinco anos após ele dele. Ouvindo isto, Davi desceu à fortaleza. 18Os
filisteus vieram, e se estenderam pelo vale de Refaim.
ter-se tornado rei sobre todo Israel (cf. nota 19Pelo que Davi consultou ao Senhor, dizendo:
sobre v. 5), Davi mudou sua capital para Subirei contra os filisteus? entregar-mos-ás nas
Jerusalém, que capturou graças à habilidade mãos? Respondeu o Senhor a Davi: Sobe, pois eu
e coragem de suas tropas pessoais. Essa entregarei os filisteus nas tuas mãos. “ Então foi
cidade proporcionou-lhe uma base facil­ Davi a Baal-Perazim, e ali os derrotou; e disse: O
Senhor rompeu os meus inimigos diante de mim,
mente fortificada, que fazia divisa tanto como as águas rompem barreiras. Por isso chamou
com Israel quanto com Judá, mas que, o nome daquele lugar Baal-Perazim. 21Os filisteus
sendo propriedade particular, não devia leal­ deixaram lá os seus ídolos e Davi e os seus homens
dade a qualquer dos dois. os levaram. 22Tbrnaram ainda os filisteus a subir,
e se espalharam pelo vale de Refaim. 23E Davi
A prosperidade de Davi e o bem-estar consultou ao Senhor, que respondeu: Não subirás;
geral de seu reino durante os primeiros anos mas rodeia-os por detrás, e virás sobre eles por
de seu reinado confirmam-se em sua defronte dos balsameiros. 24E há de ser que,
conquista duma nova capital, em seu ouvindo tu o ruído de marcha pelas copas dos balsa­
programa de edificações bastante ambicioso meiros, então te apressarás, porque é o Senhor que
sai diante de ti, a ferir o arraial dos filisteus. “ Fez,
e em sua crescente família. pois, Davi como o Senhor lhe havia ordenado; e
Esses coxos e cegos, a quem a alma de feriu os filisteus desde Geba, até chegar a Gezer.
Davi aborrece parece uma expressão cruel
e preconceituosa para um homem do calibre Os filisteus tinham desejado, tinham até
de Davi. Comentaristas recentes têm ofere­ mesmo ansiado, que Davi se tornasse rei
cido várias interpretações, nenhuma das de Judá, uma vez que qualquer aconteci­
quais oferece uma solução plenamente satis- mento que dividisse Israel apenas operaria
fatória para o problema. Contudo, para o seu benefício. Provavelmente
aparentemente os leitores modernos não também esperavam que Davi, um ex-vassalo
são os primeiros a terem dificuldade com de Áquis, rei de Gate, se inclinaria a favo­
o texto. recer seus antigos senhores (cf. comentário

112
sobre 2.1-11). Sem dúvida, notaram com lo típico de guerrilha, os homens de Davi
satisfação os efeitos debilitadores da guerra reuniram os despojos, inclusive os deuses
civil de Israel e os esforços repetidamente de batalha dos filisteus, e desapareceram
frustrados de promover a reconciliação no campo.
entre o norte e o sul. Os filisteus reagruparam suas forças e
Quando Davi emergiu como o líder de retornaram ao mesmo campo, e provavel­
um único estado, a política dos filisteus mente à mesma estratégia. Novamente
mudou, pois agora enfrentaria a oposição Davi consultou o Senhor, mas desta vez foi
de um povo unido, dirigido por um expe­ aconselhado a evitar um ataque frontal em
riente líder militar de comprovada favor de um assalto pela retaguarda.
habilidade. Imediatamente começaram a Utilizando-se de balsameiros como cober­
mobilizar seus exércitos para uma expedição tura, Davi e seus homens puseram-se em
contra o novo rei. posição ao redor do acampamento filisteu
Sem tempo para organizar e treinar o e esperaram por um som nas copas daque­
potencial humano vindo de todo Israel, las árvores como sinal divino para avançar.
Davi teve de apoiar-se principalmente em Novamente os israelitas foram vitoriosos,
suas tropas pessoais e na milícia de Judá. e os filisteus, desalojados das montanhas
Com limitados recursos, não ousou designar da região centro-sul da Pelestina.
seus homens para a defesa de locais forti­ A referência no versículo 17 a desceu
ficados, onde poderiam ser isolados e à fortaleza não é bem clara. Pela atual
subjugados pelos filisteus a seu bel-prazer seqüência do texto, a fortaleza parece
(cf. sua decisão em Queila: ISm 23.1-14). referir-se à cidadela em Jerusalém. Se, no
Davi, portanto, retirou suas forças para a entanto, a captura de Jerusalém ocorreu
fortaleza no deserto, nos arredores de bastante depois da unificação do reino
Adulão. A partir de bases volantes nessa (cf. comentário sobre 5.5), Davi não havia
área, estava livre para promover o tipo de ainda tomado Jerusalém quando derrotou
guerra de guerrilha que conhecia melhor. os filisteus em Refaim. A fortaleza men­
Uma vez que Davi não oferecia aos cionada aqui então se refere ao deserto ao
filisteus um alvo estacionário, eles prova­ redor de Adulão, onde Davi encontrou
velmente decidiram-se por uma tática proteção quando primeiro começou a
designada para atraí-lo para fora do terri­ organizar um exército de guerrilha (cf. co­
tório que lhe era familiar e onde tivera mentário sobre ISm 22.5).
início sua experiência militar. Estabele­
cendo uma base no vale de Refraim, a d. A Arca Retorna a Jerusalém (6.1-23)
sudoeste de Jerusalém, os filisteus podiam 'Ibrnou Davi a ajuntar todos os escolhidos de
enviar comandos de ataque para o norte Israel, em número de trinta mil. 2Depois levan-
ou para o sul, para devastar território isra­ tou-se Davi, e partiu para BaaRJudá com todo o
elita até que Davi viesse em socorro. povo que tinha consigo, para trazerem dali para
cima a arca de Deus, a qual é chamada pelo nome,
Sentindo o perigo representado pela o nome do Senhor dos exércitos, que se assenta
posição dos filisteus, Davi buscou o con­ sobre os querubins. 3Puseram a arca de Deus em
selho do Senhor quanto a se devia se man­ um carro novoi, e a levaram da casa de Abinadabe,
que estava sobre o outeiro; e Uzá e Alô, filho de
ter em sua base no sul ou subir a Refaim. Abinadabe, guiavam o carro nova 4Foram, pois,
Assegurado da vitória por indicação divi­ levando-o da casa de Abinadabe, que estava sobre
na, Davi conduziu secretamente suas for­ o outeiro, com a arca de Deus; e Aiô ia adiante
ças desde o deserto a fim de passar a ter da arca. 5E Davi, e toda a casa de Israel, tocavam
a iniciativa. Avançando sobre as hostes dos perante o Senhor, com toda sorte de instrumentos
de pau de faia, como também com harpas, salté­
filisteus tal qual uma enchente que arre­ rios, tamboris, pandeiros e címbalos. 6Quando
benta um açude de terra, os israelitas chegaram à eira de Nacom, Uzá estendeu a mão
puseram seus inimigos em fuga. Num esti­ à arca de Deus, e pegou nela, porque os bois trope-

113
çaram. 7Então a ira do Senhor se acendeu contra das e tenham circulado como parte de um
Uzá, e Deus o feriu ali; e Uzá morreu junto à arca grupo de narrativas que tratam da história
de Deus. 8E Davi se contristou, porque o Senhor
abrira rotura em Uzá; e passou-se a chamar àque­ da arca (ISm 4—6). Não obstante, em seu
le lugar, Pérez-Uzá, até o dia de hoje. ’Davi, pois, atual contexto este incidente é mais do que
teve medo do Senhor naquele dia, e disse: Como um simples episódio interessante sobre a
virá a mim a arca do Senhor? 10E não quis levar arca. Na verdade, a história carrega vis­
a arca do Senhor para a cidade de Davi; mas fâ-la lumbres tanto políticos como religiosos
entrar na casa de Obede-Edom, o gitita. nE ficou
a arca do Senhor três meses na casa de Obede- dos primeiros tempos do reinado de Davi.
-Edom, o gitita, e o Senhor o abençoou e a toda No pensamento israelita, a arca sim­
a sua casa. l2Então informaram a Davi, dizendo: bolizava a presença do Senhor entre seu
O Senhor abençoou a casa de Obede-Edom, e
tudo quanto é dele, por causa da arca de Deus. povo, tanto em marcha pelo deserto (Nm
Foi, pois, Davi, e com alegria fez subir a arca de 10.33-36) quanto em batalha (Js 6). A
Deus, da casa de Obede-Edom para a cidade de partir da arca, Deus dispensava sabedoria
Davi. >3Quando os que levavam a arca do Senhor e poder a seu povo. Á época dos juizes, a
tinham dado seis passos, ele sacrificou um boi e arca servia de ponto de convergência da
um animal cevada 14E Davi dançava com todas as
suas forças diante do Senhor; e estava Davi cin­ religião de Israel e, provavelmente, tam­
gido dum éfode de linha 15Assim Davi e toda a bém de seu governo tribal (cf. comentário
casa de Israel subiam, trazendo a arca do Senhor sobre ISm 4.12-18). No entanto, a arca foi
com júbilo e ao som de trombetas. 16Quando virtualmente ignorada a partir de seu re­
entrava a arca do Senhor na cidade de Davi,
Mical, filha de Saul, estava olhando pela janela;
torno da captura pelos filisteus (ISm 7.1,2),
e, vendo ao rei Davi saltando e dançando diante e Saul aparentemente não empreendeu
do Senhor, o desprezou no seu coraçãa ^Intro­ qualquer esforço sério para restaurá-la a
duziram, pois, a arca do Senhor, e a puseram no uma posição central na vida de Israel.
seu lugar, no meio da tenda que Davi lhe armara;
e Davi ofereceu holocaustos e ofertas pacíficas Saul chegou ao poder com a aprovação
perante o Senhor. 18Quando Davi acabou de relutante dos líderes principais desse sis­
oferecer os holocaustos e ofertas pacificas, aben­ tema mais antigo (ISm 8—11), mas suas
çoou o povo em nome do Senhor dos exércitos. ações logo levaram à alienação tanto de
19Depois repartiu a todo o povo, a toda a multi­
dão de Israel, tanto a homens como a mulheres, profetas (ISm 13—15) quanto de sacerdotes
a cada um, um bolo de pãoi, um bom pedaço de (ISm 22.11-19). Durante os últimos anos de
carne e um bolo de passas. Em seguida todo o povo Saul e por todo o reinado de Isbosete, os
se retirou, cada um para sua casa. 20Então Davi anciãos tribais tinham pouquíssimas influ­
voltou para abençoar a sua casa; e Mical, filha de
Saul, saiu a encontrar-se com Davi, e disse:
ências à medida que a autoridade centra­
Quão honrado foi o rei de Israel, descobrindo-se lizava-se cada vez mais no rei e em sua corte.
hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem Indubitavelmente, essas tensões envene­
pejo se descobre um individuo qualquer.21Disse, navam as mentes de muitos para com a
porém, Davi a Mical: Perante o Senhor, que me própria monarquia.
escolheu a mim de preferência a teu pai e a toda
a sua casa, estabelecendo-me por chefe sobre o Davi, contudo, era sensível a esses senti­
povo do Senhor, sobre Israel, sim, foi perante o mentos e, sempre que possível, agia de
Senhor que dancei; e perante ele ainda hei de acordo com a estrutura organizada por
dançar. 22Também ainda mais do que isso me
envilecerei, e me humilharei aos meus olhos; mas
uma geração anterior. Repetidas vezes
das servas, de quem falaste, serei honrado. evitou o emprego da força bruta entre seu
23E Mical, filha de Saul, não teve filhos, até o dia próprio povo, mesmo para cumprir o que
da sua morte. cria ser a vontade de Deus (cf. comentário
sobre ISm 24.6; 25.26). Aparentemente,
Este capítulo prossegue o sumário de Davi também tinha considerável respeito
acontecimentos significativos associados pelos anciãos tribais, uma vez que somente
com a conquista de Jerusalém por Davi a pedido deles assumiu o trono tanto em
(5.1-16). É possível que as próprias tradi­ Judá (2Sm 2.4) quanto em Israel (5.1-3).
ções tenham sido originalmente preserva­ Agora ficamos sabendo que Davi decidiu,

114
com a aprovação dos anciãos (lCr 13.2-4), -se de Quiriate-Jearim (lCr 13.5,6), onde
trazer a arca à sua nova capital, Jerusalém. a arca fora posta sob os cuidados de Abina-
Após fazer detalhados preparativos, dabe, após retornar dos filisteus (ISm 7.1)
Davi partiu com um séquito apropriado Talvez o antigo nome de Quiriate-Jearim,
para transferir a arca para seu novo lar. Baalá, tenha sido usado, explicando-se
A morte súbita de Uzá, um ajudante que assim a confusão no texto. Se, ao tempo
tocóu na arca, foi considerada um pressá­ de Davi, a arca estava ainda situada em
gio da ira do Senhor; e a procissão foi Quiriate-Jearim, a jornada não seria longa,
imediatamente interrompida. Davi aparen­ pois ficava somente a onze quilômetros a
temente tomou precauções para que parte noroeste de Jerusalém.
da fúria do Senhor não fosse atribuída à O hebraico dos versículo 6 e 7 é proble­
sua família ou à sua nova capital. Por mático, e os detalhes deste incidente não
três meses a arca foi deixada com Obede- são claros. A morte súbita sob tais cir­
-Edom, um forasteiro de Gate; e, quando cunstâncias seria bem compreensível,
se tomou evidente que ele estava sendo contudo, mesmo ocorrendo devido a meios
abençoado, e não amaldiçoado, a jornada naturais, isto é, por causa de temor, esgo­
foi reencetada. tamento etc.
A arca foi trazida pelo restante do e. Natã Profetiza a Dinastia (7.1-17)
caminho até a cidade com toda pompa e
cerimônia possível. Quando ela avançou 'Ora, estando o rei Davi em sua casa e tendo-
seis passos, foi oferecido um sacrifício, -Ihe dado o Senhor descanso de todos os seus
inimigos em redor, 2disse ele ao profeta Natã: Eis
celebrando um auspicioso início da jor­ que en moro numa casa de cedro, enquanto que
nada. Vestido numa estola sacerdotal de a arca de Deus dentro de uma tenda. 3Respondeu
linho, o próprio Davi dançava perante a N atã ao rei: Vai e faze tudo quanto está no teu cora­
arca e dirigia-a rumo à tenda que fora ção^ porque o Senhor ê contigo. 4M as naquela mes­
erguida para abrigá-la. Outros sacrifícios ma noite a palavra do Senhor wio a Natã, dizendo:
5Vai, e dize a meu servo Davi: Assim diz o Se­
foram feitos, dádivas generosas de alimen­ nhor: Edificar-me-ás tu uma casa para eu nela
tos foram distribuídas entre o povo, e Israel habitar? ‘Porque em casa nenhuma habitei,
teve um dia que por muito tempo recor­ desde o dia em que fiz subir do Egito os filhos de
daria. Israel até o dia de hoje, mas tenho andado em
tenda e em tabernáculo. 7E em todo lugar em que
Nem todos, porém, se alegraram com tenho andado com todos os filhos de Israel, falei
a ocasião. Para Mical, filha de Saul e porventura alguma palavra a qualquer das suas
esposa de Davi, o expor-se em público e tribos a quem mandei apascentar o meu povo de
Israel, dizendo: For que não me edificais uma casa
os gestos frenéticos de um êxtase religioso de cedro? 8Agora, pois, assim dirás ao meu servo
pareceram indignos de um rei (cf. comen­ Davi: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eu te tomei
tário sobre ISm 10.1-6). Foi de um modo da malhada, de detrás das ovelhas, para que fosses
bem trágico, ainda que tão característico, principe sobre o meu povo, sobre Israel; e fui' con­
que ela deixou de compreender as obri­ tigo, por onde quer que foste, e destruí a todos os
teus inimigos diante de ti; e te farei um grande nome,
gações que aquela posição de destaque como o nome dos grandes que há na terra.
impunham. Contudo, Davi entendeu mais 1“Também designarei lugar para o meu povo, para
claramente que suas responsabilidades eram Israel, e o plantarei ali, para que ele habite no seu
primeiro para com Deus e depois para com lugar, e não mais seja perturbadoi, e nunca mais
o seu povo. os filhos da iniqüidade o aflijam, como dantes, ne
como desde o dia em que ordenei que houvesse
Observe-se que Baal-Judá, no versículo juizes sobre o meu povo Israel. A ti, porém, darei
2, não é um topónimo, mas uma expressão descanso de todos os teus inimigos. Tunbém o
que significa “dirigentes de Judá”. É assim Senhor te declara que ele te fará casa. 12Quando
teus dias forem completados, e vieres a dormir
que está traduzida na Septuaginta. Toda­ com teus pais, então farei levantar depois de ti um
via, aparentemente perdeu-se do texto um dentre a tua descendência, que sair das tuas entra­
nome geográfico. Provavelmente tratava- nhas, e estabelecerei o seu reina °Este edificará

115
uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para alcançada quando Deus fizesse com que
sempre o trono do seu reina MEu lhe serei pai, e se cumprissem as três principais predições
ele me será filha E, se vier a transgredir, castigá-
-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos da profecia de Natã. Primeiro, Israel gozaria
de homens; 15mas não retirarei dele a minha paz para habitar com segurança sobre a
benignidade como a retirei de Saul, a quem tirei terra, livre de qualquer opressão estrangeira.
de diante de ti. 16A tua casa, porém, e o teu reino Segundo, quando Davi morresse, seria suce­
serão firmados para sempre diante de ti; teu trono dido no trono por uma linhagem duradoura
será estabelecido para sempre. 17Conforme todas
estas palavras, e conforme toda esta visão, assim de seus próprios descendentes, os quais
falou Natã a Davi. teriam o domínio para sempre. Terceiro,
Deus prometeu dirigir esses futuros reis,
Neste capítulo chegamos ao ponto enviando adversidades quando se
teológico crucial dos livros de Samuel. desviassem. A dinastia de Davi, contudo,
De fato, a história toda do reino do sul não seria rejeitada, como Saul tinha sido
e a expectativa que ia surgindo de um por suas transgressões.
messias davídico se devem aos vislumbres Compreensivelmente, esta visão da
teológicos e políticos aqui expressos. dinastia davídica tinha profundas impli­
A profecia de Natã é, na verdade, for­ cações para a história e a religião de Israel,
mada por dois oráculos que são unidos especialmente após o reino do sul tornar-se
mediante um jogo de palavras com o termo um estado independente. A confiança de
casa. O primeiro oráculo era um desenvol­ Judá derivava do fato de que seus gover­
vimento do plano de Davi em edificar uma nantes pertenciam à casa de Davi (cf. SI
casa (templo) para o Senhor. Como parte 78) e, em tempos de adversidade, as
de seus esforços para centralizar a vida reli­ promessas de Deus na profecia de Natã figu­
giosa e política de Israel em Jerusalém, raram destacadamente nas liturgias do
Davi propôs a construção de um templo templo (SI 89).
rico em detalhes para substituir a tenda Entretanto, os reis posteriores de Judá
que abrigava a arca.32 revelaram ter uma influência tão corrupta
Na qualidade de poderoso conselheiro sobre a nação que as esperanças de um
profético de Davi, Natã concordou inicial­ governante justo do calibre de Davi foram
mente (cf. v. 3) com o novo plano do rei. cada vez mais lançadas para o futuro.
Contudo numa noite de reflexão passada Quando a monarquia fracassou completa­
em oração, Natã foi levado a ver que o mente após a destruição de Jerusalém pelos
maior serviço de Davi para Deus não era babilônios, essas esperanças então se trans­
a construção de um templo, mas resolver formaram na expectativa da vinda de um
com êxito os problemas de sucessão em messias celestial (Is 55; Ez 34).
Israel, daí o segundo oráculo e o jogo de Conquanto outros textos bíblicos obvia­
palavras envolvendo o termo casa. Davi mente se inspirem nos conceitos subjacentes
não construiria uma casa ao Senhor (tem­ à profecia de Natã, permanece em aberto
plo), mas o Senhor construiria uma casa uma questão acerca das condições que
(dinastia) para Davi. deram origem ao surgimento da expectativa
A ênfase maior da profecia de Natã de uma linhagem perpétua de Davi.
A profecia de Natã influenciou práticas
encontra-se no segundo oráculo (v. 8-16).
dinásticas judaicas, ou esta passagem é uma
Esse oráculo fala da contínua atividade de
profecia depois do fato acontecido? Infeliz­
Deus em favor de Davi, que estava desti­
mente, as opiniões variam amplamente.
nado a ser alistado entrè os homens mais
Alguns, tais como H. P. Smith (p. 297) e
ilustres do mundo. A grandeza de Davi seria
R. H. Pfeiffer,33 consideram a profecia de
32 Para um a análise dos fatores motivadores subjacentes ao plano de
Davi, veja R. E. Clements, G o d a n d Temple (Philadelphia: R>rtress 33 Robert H . Pfeiffer, Introduction to th e O ld Testament (New York:
Press, 1965), p. 40-62. H arper and Brothers, 1941), p. 371.

116
Natã como uma criação de teólogos pós- Davi e os remanescentes da casa de Saul.
-exílicos, colocada nos lábios de uma Somente após repetidos fracassos nas nego­
personagem que vivera anteriormente. ciações de paz, numerosos assassinatos, e
Outros, incluindo Martin Noth34 e H. W. finalmente a morte do rei de Israel foi o
Hertzberg (p. 283), consideram os conceitos reino novamente reunificado sob a liderança
básicos subjacentes ao material como de Davi.
produtos do mesmo contexto histórico que Em contraste com tudo isto, tornou-se
o capítulo descreve. Contra tal diversidade novamente claro que o futuro do povo de
de opiniões, pareceria apropriado tentar Deus estaria seriamente comprometido a
fazer uma análise do papel que o pronun­ menos que os israelitas encontrassem uma
ciamento de Natã (especialmente o v. 16) solução pacífica para seus problemas de
desempenharia na empolgante história polí­ sucessãa Assim, a profecia de Natã era mais
tica do reino unido de Davi. do que uma simples declaração das
À época da antiga liga tribal de Israel condições que automaticamente ocorreria
quase inexistia uma efetiva centralização em Israel. Na verdade, o profeta realmente
de autoridade. Em tempos de guerra, o povo expressara o juízo do Senhor numa solução
era forçado a unir-se sob a liderança dos que estava sendo proposta para as dificul­
juizes militares, mas a eficácia de tal dades dinásticas de Israel. Daí em diante,
unidade variava em função da seriedade o rei legítimo sairia dentre os descendentes
da ameaça externa existente e da capaci­ de Davi. Não havia ainda qualquer acordo
dade de persuasão pessoal de cada juiz sobre qual de seus filhos ocuparia o trono
individual. Contudo, com o ressurgimento (este problema é tratado na Narrativa da
de uma política agressiva por parte dos filis­ Sucessão — 2Sm 9-20; IReis 1,2; cf. Intro­
teus, a falta em Israel de um sistema que dução, V, 2); mas pelo menos um passo foi
proporcionasse uma liderança contínua e dado para o restabelecimento da lei e da
efetiva a nível nacional revelou ser uma defi­ ordem.
ciência de proporções quase fatais. Num Costumeiramente tem-se interpretado os
esforço por corrigir essa deficiência, Samuel, versículos 5-7 como uma polêmica contra
como o destacado expoente da velha lide­ os perigos da religião institucionalizada.
rança tribal, orientou no estabelecimento Natã é visto como alguém proibindo a cons­
de um governo mais centralizado sob o trução do templo, com a fundamentação
controle de um rei. teológica de que o Senhor não habitara
O reinado de Saul, contudo, revelou-se permanentemente em uma casa: Em casa
um fiasco. Após um começo auspicioso nenhuma habitei. Antes, ele havia acam­
tanto internamente quanto no campo de pado com seu povo em tendas desde que
batalha, Saul fortaleceu as forças seriamente o dirigiu para fora do Egito. O culto ao
desagregadoras já existentes em Israel Senhor não devia, portanto, confinar-se a
devido à sua insana perseguição de Davi. um edifício em particular. Indubitavel­
A nação estava uma vez mais mutilada por mente, esses versículos propiciaram uma
condições semelhantes àquelas que haviam importante fonte de inspiração para os
trazido a monarquia à existência. Após a profetas que mais tarde se manifestaram
morte de Saul, a difícil situação do país quanto aos abusos do ritualismo vazio do
tornou-se ainda mais crítica. Com o reino culto no templo (Is 1.11-17; Jr 7; Ez 8; 9).
dividido, Israel logo se viu envolvido numa Contudo, comentaristas que têm
cruel guerra civil entre os que apoiavam adotado essa interpretação têm-se revelado
embaraçados com o versículo 13, que fala
4 The Laws in the fentateuch: Their Assum ptions an d M eaning, tradu- do filho de Davi que edificaria uma casa
zido para o inglês por D. R. Ap-Thomas (Philadelphia: Fortress Press,
1966), p. 16. Esse artigo foi originalm ente publicado em alemão
para o nome do Senhor. Geralmente têm
em 1940. sustentado que esse versículo, que parece

117
contrariar frontalmente a teologia dos versí­ que falaste acerca do teu servo e acerca da sua casa,
culos 5-7 é uma adição posterior feita por e faze como tens falado, 20para que seja engran­
decido o teu nome para sempre, e se diga: O Senhor
um escriba mais recente que sabia da exis­ dos exércitos é Deus sobre Israel; e a casa do teu
tência do templo de Salomão. servo será estabelecida diante de ti. 27Pois tu,
Por outro lado, é possível interpretar mais Senhor dos exércitos, Deus de Israel, fizeste uma
naturalmente a passagem inteira não como revelação ao teu servo, dizendo: Edificar-te-ei uma
uma proibição, mas como um adiantamento casa. Por isso o teu servo se animou a fazer-te esta
oraçãa 28Agora, pois, Senhor Jeová, tu és Deus,
da construção de um templo.35 O Senhor e as tuas palavras são verdade, e tens prometido
sempre se contentara em viver como tinha a teu servo este bem. 29Sê, pois, agora servido de
vivido seu povo. Tendas eram perfeitamente abençoar a casa do teu servo, para que subsista
adequadas enquanto Israel estivera em pere­ para sempre diante de ti; pois tu, ó Senhor Jeová,
o disseste; e com a tua bênção a casa do teu servo
grinação, e Deus não havia requerido será abençoada para sempre.
qualquer habitação permanente. Depois o
Senhor havia escolhido Davi como príncipe Davi reagiu às promessas divinas ditas
sobre Israel e havia fortalecido suas mãos por Natã com uma oração formal de ação
contra os inimigos de seu povo. Quando de graças e consagração. A oração parece-
o povo de Israel estivesse firmemente esta­ se com um hino de louvor porque, embora
belecido em seu próprio lugar e quando trate de questões relacionadas com o
experimentasse a paz, o Senhor criaria uma homem e suas necessidades, seu alvo final
linhagem duradoura para a casa de Davi é a glorificação do Senhor. Davi começou
sobre o trono de Israel. Quando seu povo sua oração, louvando a Deus por seus
estivesse assim instalado, então seria apro­ inúmeros atos graciosos na própria vida de
priado que o Senhor estivesse associado Davi. Não foi devido a qualquer bondade
com uma “casa” fixa. inerente de Davi, mas por causa da graça
do próprio coração de Deus, que ele tomou
f. Davi Rende Graças (7.18-29) um insignificante pastor e fê-lo rei.
l8Então entrou o rei Davi, e sentou-se perante Igualmente, a própria existência do povo
o Senhor, e disse: Quem sou eu, Senhor Jeová, e de Israel reflete glória sobre o Deus de Israel.
que é a minha casa, para me teres trazido até aqui? O Senhor inverteu a seqüência usual, em
19E isso ainda foi pouco aos teus olhos, Senhor
Jeová, senão que também falaste da casa do teu que as nações do mundo escolhem o deus
servo para tempos distantes; e me tens mostrado a quem servem. Em vez disso, o Senhor
gerações futuras, ó Senhor Jeová? 20Que mais te chamou Israel à existência e repetidamente
poderá fazer Davi? pois tu conheces bem o teu servo, operou ativamente na história em benefício
ó Senhor Jeová. 21Fk>r causa da tua palavra, e
segundo o teu coração, fizeste toda esta grandeza,
de seu povo.
revelando-a ao teu serva “ Portanto és grandioso, Davi concluiu sua oração com um
ó Senhor Jeová, porque ninguém há semelhante ardente apelo para que o Senhor concluísse
a ti, e não há Deus senão tu só, segundo tudo o o que havia iniciado entre seu povo. Davi
que temos ouvido com os nossos ouvidos. “ Que prometeu que enquanto Israel existisse e
outra nação na terra é semelhante a teu povo Israel,
a quem tu, ó Deus, foste resgatar para te ser povo, enquanto um membro de sua linhagem se
para te fazeres um nome, e para fazeres a seu favor assentasse sobre o trono, o nome do Senhor
estas grandes e terríveis coisas para a tua terra, não deixaria de receber louvor.
diante do teu povoi, que tu resgataste para ti do Egito,
desterrando nações e seus deuses? 24Assim esta­ g. Panorama do Reinado de Davi (8.1-18)
beleceste o teu povo Israel por teu povo para sempre,
e tu, Senhor, te fizeste o seu D eus.25Agora, pois, 'Sucedeu depois disso que Davi derrotou os
ó Senhor Jeová, confirma para sempre a palavra filisteus, e os sujeitou; e Davi tomou a Metegue-
■Ama das mãos dos filisteus. 2Também derrotou
os moabitas, e os mediu com cordel, fazendo-os
35 Esta passagem, contudo, não associa este adiam ento com qualquer
culpa relacionada ao papel de Davi com o um grande com batente
deitar por terra; e mediu dois cordéis para os matar,
UCr 22.8; 28.3). Em Samuel o próprio Senhor recebe o reconhe­ e um cordel inteiro para os deixar com vida. Ficaram
cim ento peia derrota dos inimigos de Davi. assim os moabitas por servos de Davi, pagando-

118
-lhe tributos. 3Davi também derrotou a Hadadézer, lhidos para inclusão no registro bíblico
filho de Reobe, rei de Zobá, quando este ia esta­ (5.17-25; 21.15-22; 23.9-17; e as passagens
belecer o seu domínio sobre o rio Eufrates. 4E
tomou-lhe Davi mil e setecentos cavaleiros e vinte
paralelas em lCr). Essas passagens não
mil homens de infantaria; e Davi jarretou a todos parecem estar dispostas em ordem crono­
os cavalos dos carros, reservando apenas cavalos lógica, e a referência aqui feita ao domínio
para cem carros. 5Os sírios de Damasco vieram de Davi sobre os filisteus simplesmente
socorrer a Hadadézer, rei de Zobá, mas Davi matou declara o resultado final da disputa. Os filis­
deles vinte e dois mil homens. 6Então Davi pôs
guarnições em Síria de Damasco, e os sírios ficaram teus nunca mais representaram uma séria
por servos de Davi, pagando-lhe tributos. E o ameaça a Israel, e Davi logo estava empre­
Senhor lhe dava a vitória por onde quer que ia. gando mercenários filisteus, tal como antes
7E Davi tomou os escudos de ouro que os servos havia trabalhado para Áquis, rei de Gate.
de Hadadézer usavam, e os trouxe para Jerusalém.
sDe Betá e de Berotai, cidades de Hadadézer, o Desconhece-se a localização de Metegue-
rei Davi tomou grande quantidade de bronze. -Ama.
’Quando Toí, rei de Hamate, ouviu que Davi ferira Nenhuma explicação é dada para o
todo o exército de Hadadézer, 10mandou-lhe seu tratamento extremamente severo que Davi
filho Jorão para saudá-loi, e para felicitá-lo por haver dispensou aos moabitas cativos. Outrora
pelejado contra Hadadézer e o haver derrotado;
pois Hadadézer de contínuo fazia guerra a Toí. E ele havia confiado o cuidado de seus pais
Jorão trouxe consigo vasos de prata, de ouro e de a eles (cf. comentário sobre ISm 22.1-5).
bronze, uos quais o rei Davi consagrou ao Senhor, Aparentemente, táticas assim perversas
como já havia consagrado a prata e o ouro de todas não eram consideradas tão excepcionais
as nações que sujeitara; 12da Síria, de Moabe, dos
amonitas, dos filisteus, de Amaleque e dos despojos no mundo antigp, uma vez que o autor
de Hadadézer, filho de Reobe, rei de Zobá. não se sentiu na obrigação de justificar
13Assim Davi ganhou nome para si. E quando as atitudes de Davi. A omissão dos terrí­
voltou, matou no Vale do Sal a dezoito mil edomitas. veis atos subseqüentes a essa vitória em
WE pôs guarnições em Edom; pô-las em todo o lCr 18.2 sugere, contudo, que gerações
Edom, e todos os edomitas tornaram-se servos de
Davi. E o Senhor lhe dava a vitória por onde quer posteriores consideravam isto uma mácula
que ia. 15Reinou, pois, Davi sobre todo o Israel, no registro do reinado de Davi. Tal trata­
e administrava a justiça e a eqüidade a todo o seu mento dos moabitas de modo algum cor­
pova 16Joabe, filho de Zeruia, estava sobre o exér­ responde ao conceito de guerra santa do
cito; Jeosafá, filho de Aiílude, era cronista;
17Zadoque, filho de Aitube, e Aüneleque, filho de
cherem, em que a população toda e todos
Abiatar, eram sacerdotes; Seraías era escrivão; os seus deuses deviam ser destruídos
18Benaías, filho de Jeoiada, tinha o cargo dos (cf. comentário sobre ISm 15.1-9).
quereteus e peleteus; e os filhos de Davi eram minis­ Davi encontrou oportunidade para
tros de estada estender sua influência na direção do
norte, explorando as tensões que já exis­
O autor bíblico emprega este sumário
tiam entre os reis de Zobá, Hamate e
do império israelita em expansão e da cres­ Damasco. Enquanto Hadadézer, rei de
cente corte em Jerusalém para indicar que Zobá, estava ocupado, abafando uma rebe­
sua narrativa da ascensão e reinado de Davi lião de seus súditos perto do Eufrates,
(ISm 15.1—2Sm 8.18) atingiu agora o Davi lançou uma expedição rumo às
clímax (cf. Introduçãoi, V, 1). A obra de Davi
nascentes do rio Jordão, entre o Monte
ainda não terminou, mas daí em diante seu
Líbano e o Monte Hermom, para atacá-lo
papel será retratado de uma perspectiva pela retaguarda.36 Uma vez que Hada­
ligeiramente diferente. As fraquezas de Davi dézer não podia lutar em duas frentes
(11.1-27; 13.21,22) são mais prontamente
simultaneamente, Davi teve condições de
reconhecidas na seção subseqüente, e a
atacar quase a seu gosto. Os despojos da
atenção se dirige para a escolha de seu
região incluíam ouro, bronze, e cavalos de
sucessor.
Somente episódios representativos das 36 Este roteiro parece provável, um a vez que doutro m odo Davi teria
guerras de Davi com os filisteus foram esco­ defrontado os sírios hostis de Damasco.

119
guerra em quantidade suficiente para casos mais importantes ou difíceis. A auto­
propósitos de vanglória. Aparentemente ridade militar estava dividida entre Joabe,
Davi julgou que carros seriam de pouco comandante da milícia, e Benaías, líder do
uso para combates em região montanhosa, pequeno exército regular de soldados pro­
aos quais estava acostumado, uma vez que fissionais. Não se conhece com precisão as
na sua maioria esses animais foram sim­ diferenças entre o papel do escrivão e o do
plesmente aleijados e abandonados. cronista, mas ambos serviam como im­
Tensões políticas existentes na área se portantes conselheiros e oficiais do rei
refletem no fato de que, enquanto o rei de (cf. 2Reis 18.18; Jr 36.12 e s.). São abun­
Hamate enviava a Davi um rico presente dantes os problemas técnicos relacionados
de congratulações por derrotar Hadadézer, com a identificação dos sacerdotes oficiais
o povo de Damasco enviava um exército da corte de Davi e na explicação de como
para atacar os israelitas. Contudo, essas os filhos de Davi (não levitas) também
tropas foram igualmente incapazes de atuaram como sacerdotes. Não obstante,
deter os desordeiros homens de Davi. podemos ver que Davi não deixou de ter
Após uma campanha muito bem-sucedida, o apoio religioso, que narrativas anteriores
Davi retirou-se, deixando algumas poucas demonstraram ser tão essencial para qual­
guarnições em torno de Damasco para quer rei israelita.
simbolizar seus interesses no que ainda Assim, Davi é retratado no auge do seu
era essencialmente território inimigo poder como um rei eminentemente bem-
(cf. 10.6-19).37 sucedido. Ele havia sido capaz de trans­
Após uma vitória sobre os edomitas formar sua nação de um povo dividido,
numa campanha só vagamente lembrada sujeito à autoridade filistéia, numa impor­
(cf. lCr 18.12; SI 60), Davi tornou-se o tante potência mundial. Tem-se visto a
principal poder entre a Mesopotâmia e o mão de Deus por detrás dessa intricada
Egito. Ele controlava firmemente o ter­ seqüência de episódios históricos que le­
ritório desde o deserto, no leste, até o varam Davi ao pináculo do êxito, e o autor
Mediterrâneo, no oeste; desde o Mar da duas vezes insere neste sumário a obser­
Galiléia, no norte, até a extremidade infe­ vação do papel do Senhor nas vitórias de
rior do Mar Morto, no sul. Suas guarni­ Davi (cf. v. 6,14). Deste ponto em diante,
ções avançadas mantinham um mínimo de o Senhor continuará operando na história
controle sobre tributários hostis, amplian­ de Israel, mas Davi, como um monarca em
do assim sua influência desde Cades, no declínio, desempenhará papel cada vez
rio Orontes, até o Golfo de Ácaba. Verda­ menor nessa história.
deiramente, o Senhor lhe dava a vitória
por onde quer que ia. IV. Narrativa da Sucessão (9.1—
Conquanto Davi fosse lembrado como 20.26)
rei principalmente por suas façanhas mili­ 1. Davi Poupa o Filho de um Amigo (9.1-13)
tares, ele também introduziu inúmeras
mudanças na administração do reino. 'Disse Davi: Resta ainda alguém da casa de
Saul, para que eu use de benevolência para com
Mesmo durante a monarquia, o papel do ele por amor de Jónatas? 2E havia um servo da
juiz era de suprema importância; assim casa de Saul, cujo nome era Ziba; e o chamaram
Davi supervisionava a aplicação da justiça à presença de Davi. Perguntou-lhe o rei: Tu és
e indubitavelmente ele próprio ouvia os Ziba? Respondeu ele: Teu servo! 3Prosseguiu o
rei: Não há ainda alguém da casa de Saul para
que eu possa usar com ele da benevolência de
37 A palavra hebraica traduzida por “guarnição" (neís/v) parece ter Deus? Então disse Ziba ao rei: Ainda há um filho
um a conotação semelhante às palavras “posto/poste” em português. de Jônatas, aleijado dos pés. ‘Perguntou-lhe o rei:
Fbde tanto referir-se a um estabelecimento militar (cf. v. 14) como
a um a coluna ou pilar (Gn 19.26). Davi pode, portanto, ter erigido
Onde está? Respondeu Ziba ao rei: Está em casa
m onum entos ou pilares comemorativos em lugar de guarnições ao de Maquir, filho de Amiel, em Lo-Debar. sEntão
redor de Damasco. mandou o rei Davi, e o tomou da casa de Maquir,

120
filho de Amiel, em Lo-Debar. 6E Mefibosete, filho Sete já haviam sido entregues aos habitan­
de Jônatas, filho de Saul, veio a Davi, e, pros-
trando-se com o rosto em terra, lhe fez reverência.
tes de Gibeão para compensarem a culpa
E disse Davi: Mefibosete! Respondeu ele: Eis aqui de sangue incorrida por seu pai, Saul
teu servo. 7Então lhe disse Davi: Não temas, (veja comentário sobre 21.1-9). Ao tempo
porque de certo usarei contigo de benevolência por deste episódio, os descendentes de Saul
amor de Jônatas, teu pai, e te restituirei todas as tinham quase desaparecido completamente.
terras de Saul, teu pai; e tu sempre comerás à
minha mesa. 8Então Mefibosete lhe fez reverência, Pelo menos alguns em Israel suspeitavam
e disse: Que é o teu servo, para teres olhado para que Davi estava preparando a oportuna
um cão morto tal como eu? ’Então chamou Davi eliminação de seus adversários (16.7,8).
a Ziba, servo de Saul, e disse-lhe: Tudo o que
pertencia a Saul, e a toda a sua casa, tenho dado
O autor bíblico, portanto, situou a
ao filho de teu senhor. 10Cultivar-lhe-ás, pois, a história do relacionamento de Davi com
terra, tu e teus filhos, e teus servos; e recolherás Mefibosete em posição destacada para
os frutos, para que o filho de teu senhor tenha pão demonstrar que Davi, como um homem
para comer; mas Mefibosete, filho de teu senhor, de caráter, permanecia fiel à sua aliança
comerá sempre à minha mesa. Ora, tinha Ziba
quinze filhos e vinte servos. "Respondeu Ziba ao com Jônatas (ISm 29.42; cf. 24.21 e s.).
rei: Conforme tudo quanto meu senhor, o rei, Após considerável investigação, Mefibose­
manda a seu servo, assim o fará ele. Disse o rei: te foi localizado em Lo-Debar, uma cidade
Quanto a Mefibosete, ele comerá à minha mesa desconhecida em algum lugar perto de
como um dos filhos do rei. 12E tinha Mefibosete
um filho pequena, cujo nome era Mica. E todos Maanaim. O jovem ficou compreensivel-
quantos moravam em casa de Ziba eram servos mente aterrorizado pela súbita convocação
de Mefibosete. I3M orava, pois, Mefibosete em para comparecer perante o rei. Usando
Jerusalém, porquanto sempre comia à mesa do uma figura de linguagem que o próprio
rei. E era coxo de ambos os pés. Davi havia criado, Mefibosete negou
Até este ponto os relatos sobre Davi quaisquer ambições políticas ao dizer:
ressaltaram sua miraculosa ascensão ao Quem é o teu servo, para teres olhado para
poder e seu espetacular êxito em formar um cão morto tal como eu? (cf. ISm 24.14).
um império israelita. Contudo, com a Devemos provavelmente entender melhor
visão panorâmica do reino e da corte, no que ele era realmente inocente de quais­
capitulo 8, o autor indicou que a vida de quer ambições quanto ao trono. Não
Davi alcançou um ponto decisivo. Dai em obstante, enquanto ele ou seu filho vi­
diante a atenção se concentrará na inda­ vessem, Davi estava correndo o risco de
gação levantada pela profecia de Natã em que algum dia Israel se voltasse à casa de
7.1-17: Quem sucederá a Davi no trono de Saul em busca de liderança (cf. 16.3;
Israel? Este é o tema da Narrativa da 19.24-30).
Sucessão (2Sm 9-20; IReis 1; 2). Portanto, conquanto Davi fosse genero­
A introdução do filho de Jônatas, Mefi­ so com Mefibosete, também foi cauteloso.
bosete, bem no princípio desta secção, Concedeu a Mefibosete posição de prín­
destaca o fato de que os descendentes de cipe e lhe deu as propriedades da família
Saul representavam uma ameaça substan­ de Saul, assegurando-lhe assim uma renda
cial ao cumprimento da profecia de Natã. vitalícia adequada. Davi, contudo, reque­
Em circunstâncias semelhantes, era costu­ reu sua presença à mesa real, onde podia
meiro que o governante de uma nova observar cada uma de suas atitudes. Ele
dinastia exterminasse toda a casa de seu até encarregou Ziba de administrar as
predecessor (2Reis 10.8; 11.1) ou mesmo terras de Saul, de modo que os negócios
membros de sua própria família, se fossem não dessem a Mefibosete motivos para
possíveis pretendentes ao seu trono (Jz 9.5; ausentar-se da corte.
2Sm 13.30). Assim, novamente Davi empregou
A verdade é que os filhos de Saul não discrição e generosidade ao dar vazão a
estavam se saindo muito bem em Israel. seu senso de vocação divina.

121
2. Davi Enfrenta Sírios e Amonitas centos carros, e quarenta mil homens de cavalaria;
(10.1-19) e feriu a Sobaque, general do exército, de sorte
que ele morreu ali. “ Vendo, pois, todos os reis,
servos de Hadadézer, que estavam derrotados
'Depois disto morreu o rei dos amonitas, e seu
diante de Israel, fizeram paz com Israel, e o
filho Hanum reinou em seu lugar. 2Então disse
serviram. E os sírios não ousaram mais socorrer
Davi: Usarei de benevolência para com Hanum,
aos amonitas.
filho de Naás, como seu pai usou de benevolência
para comigo. Davi, pois, enviou os seus servos
para o consolar acerca de seu pai; e foram os
servos de Davi à terra dos amonitas. 3Então Conquanto a maior parte dos relatos
disseram os príncipes dos amonitas a seu senhor, das guerras estrangeiras de Davi foram
Hanum: Pensas, porventura, que foi para honrar relatadas antes do sumário de seu reinado
teu pai que Davi te enviou consoladores? Não te
enviou antes os seus servos para reconhecerem ou como parte dele (8.1-18), estas narra­
esta cidade e para a espiarem, a fim de transtorná- tivas sobre a guerra amonita são aqui
-la? 4PeIo que Hanum tomou os servos de Davi, incluídas para prover um pano de fundo
rapou-lhes metade da barba, cortou-lhes metade para a história de Bate-Seba. Embora os
dos vestidos, até as nádegas, e os despediu.
5Quando isso foi dito a Davi, enviou ele mensa­ relatos de guerra contenham bem poucas
geiros a encontrá-los, porque aqueles homens referências cronológicas, esta narrativa
estavam sobremaneira envergonhados; e mandou parece suprir uma explicação para a eclo­
dizer-lhes: Deixai-vos estar em Jericó, até que vos são de hostilidades tanto com os amonitas
torne a crescer a barba, e então voltai. 6Vendo, como com os sírios. De fato, Bright (p. 181,
pois, os amonitas que se haviam feito abomináveis
para com Davi, enviaram e alugaram dos sírios de 182) considera que a guerra de Davi com
Bete-Reobe e dos sírios de Zobá vinte mil homens Amom foi a primeira que ele travou na
de infantaria e do rei Maacá mil homens, e dos formação do império de Israel. A ação
homens de Tbbe doze mil. 70 que ouvindo Davi, contra Moabe (8.2,13 e s.), Edom (8.13,14;
enviou contra eles a Joabe com todo o exército
dos valentes. *E saíram os amonitas, e ordenaram lRs 1.15-18) e Síria (8.3-12) viriam então
a batalha à entrada da porta; mas os sírios de em seguida.
Zobá e de Reobe, e os homens de Tobe e de Maacá
estavam à parte no campa ’Vendo, pois, Joabe Se a seqüência precedente estiver cor­
que a batalha estava preparada contra ele pela reta, deve-se compreender o crescimento
frente e pela retaguarda, escolheu alguns homens do império não como o produto da ambi­
dentre a flor do exército de Israel, e formou-os em ção de Davi, mas como o resultado da
linha contra os sírios; 10e entregou o resto do proteção divina em face da provocação
povo a seu irmão Abisai, para que o formasse em
linha contra os amonitas. UE disse-lhe: Se os internacional. Certamente, na campanha
sírios forem mais fortes do que eu, tu me virás em amonita, foi Hanum, e não Davi, quem
socorro; e se os amonitas forem mais fortes do que desejou a guerra.
tu, eu irei em teu socorra 12Tem bom ânimo, e
sejamos corajosos pelo nosso povo, e pelas cidades Embora Israel e Amom tivessem sido
de nosso Deus; e faça o Senhor o que bem lhe inimigos durante os primeiros anos do
parecer. 13Então Joabe e o povo que estava com reinado de Saul (ISm 11.1-11), Davi fora
ele travaram a peleja contra os sírios; e estes capaz de restabelecer — e aparentemente
fugiram diante dele. 14E, vendo os amonitas que
os sírios fugiam, também eles fugiram de diante tencionava manter — relações amistosas
de Abisai, e entraram na cidade. Então Joabe com seus vizinhos do leste. Com a morte
voltou dos amonitas e veio para Jerusalém. do rei de Amom, Davi enviou represen­
>5Os sirios, vendo que tinham sido derrotados tantes diplomáticos para transmitir suas
diante de Israel, trataram de refazer-se. 16E Hada-
dézer mandou que viessem os sírios que estavam condolências e reafirmar suas intenções
da outra banda do rio; e eles vieram a Helã, tendo pacíficas. Não obstante, tomando medidas
à sua frente Sobaque, chefe do exército de Hada- cujo propósito era humilhar os enviados
dézer. l7Davi, informado disto, ajuntou todo o oficiais de Davi e lançar seu governo no
Israel e, passando o Jordão, foi a Helã; e os sirios
se puseram em ordem contra Davi, e pelejaram
ridículo, Hanum, o novo rei de Amom,
contra ele. 18Os sirios, porém, fugiram de diante mandou a delegação de Israel de volta em
de Israel; e Davi matou deles os homens de sete- condição humilhante. Dificilmente Hanum

122
lhes teria causado tal humilhação se não 3. A Tragédia no Rastro do Pecado
estivesse razoavelmente bem assegurado de (11.1—12.31)
respaldo militar no caso de uma retaliação
por Israel. 1) Davi Sucumbe à Concupiscência (11.1-13)
De qualquer maneira, Hanum tinha um 'Tendo decorrido uii) ano, no tempo em que os
reis saem à guerra, Davi enviou Joabe, e com ele
bom exército quando Davi inevitavelmente os seus servos e todo o Israel; e eles destruíram
buscou resgatar a dignidade de seus homens os amonitas, e sitiaram a Rabá. Porém Davi ficou
(cf. a reação de Davi ante a recusa sarcás­ em Jerusalém. 2Ora, aconteceu que, numa tarde,
tica de Nabal, ISm 25.21,22). Quando Davi se levantou do seu leito e se pôs a passear
no terraço da casa real; e do terraço viu uma mulher
Joabe se aproximou com a nata dos que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa
soldados do exército de Israel, os amonitas à vista. 3Tendo Davi enviado a indagar a respeito
se reuniram fora dos portões da cidade, daquela mulher, disseram-lhe: Porventura não é
convidando ao ataque, enquanto mercená­ Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu?
rios dos estados sírios próximos esperavam 4Então Davi mandou mensageiros para trazê-la;
e ela veio a ele, e ele se deitou com ela (pois já estava
para atacar os israelitas pela retaguarda. purificada da sua imundicia); depois ela voltou para
Percebendo as conhecidas táticas de cilada, sua casa. 5A mulher concebeu; e mandou dizer a
Joabe empregou parte de suas tropas para Davi: Estou grávida. 6Então Davi mandou dizer
combater os sírios, enquanto o restante, sob a Joabe: Envia-me Urias, o heteu. E Joabe o enviou
a Davi. 7Vindo, pois, Urias a Davi, este lhe per­
o comando de Abisai, enfrentava os guntou como passava Joabe, e como estava o povo,
amonitas. Quando os sírios sucumbiram e como ia a guerra. 8Depois disse Davi a Urias:
diante de Joabe e seus homens, os amonitas Desce a tua casa, e lava os teus pés. E, saindo Urias
se retiraram para dentro da cidade, de modo da casa real, logo foi mandado apôs ele um presente
que o embate terminou com a vitória de do rei. 9Mas Urias dormiu à porta da casa real,
com todos os servos do seu senhor, e não desceu
Israel, mas com Hanum em, segurança. a sua casa. 10E o contaram a Davi, dizendo: Urias
não desceu a sua casa. Então perguntou Davi a
Os aliados sírios de Amom, sem dúvida Urias: Não vens tu duma jornada? por que não
alarmados com notícias da vitória de Joabe, desceste a tua casa? “ Respondeu Urias a Davi: A
reagruparam suas tropas e começaram a arca, e Israel, e Judá estão em tendas; e Joabe,
meu senhor, e os servos de meu senhor estão acam­
trazer reforços dos mais distantes recantos pados ao relento; e entrarei eu na minha casa, para
de seus domínios. Sabendo dessa imensa comer e beber, e para me deitar com minha mulher?
mobilização de forças inimigas, Davi tomou Como vives tu, e como vive a tua alma, não farei
a iniciativa, cruzando o Jordão e atacando tal coisa. 12Então disse Davi a Urias: Fica ainda
com todo o exército israelita. Os sírios hoje aqui, e amanhã te despedirei. Urias, pois, ficou
em Jerusalém aquele dia e o seguinte. 13E Davi o
fugiram novamente, após sofrerem pesadas convidou a comer e a beber na sua presença, e o
perdas tanto de vidas como de bens. Daí embebedou; e à tarde saiu Urias a deitar-se na sua
em diante, os sírios cessaram de se intro­ cama com os servos de seu senhor, porém não
meter nos assuntos da Transjordânia. desceu a sua casa.

Rapou-lhes metade da barba (v. 4). No Esta história do pecado de Davi com
antigo Oriente Médio considerava-se uma Bate-Seba serve como uma introdução
barba inteira como marca de masculinidade teológica ao corpo da Narrativa da
e maturidade. Normalmente a barba era Sucessão. Nosso estudo até este ponto tem
rapada só como sinal de lamentação ou revelado uma convicção por parte do autor
desgraça iminente. (Is 15.2; Jr 41.5). Davi de que Deus se envolvia nos negócios dos
fez com que seus diplomatas ficassem em homens, recompensando o bem e punindo
Jericó até que suas barbas crescessem para o mal. Em particular, o progresso de Israel
que a presença deles em Jerusalém não era influenciado pela condição espiritual
servisse como uma acusação de que eram do povo e especialmente pela estatura moral
pequenos o poder e o prestígio de Davi. de seus líderes.

123
Assim, a nação prosperou sob a orien­ Esses problemas não foram ignorados,
tação correta de Samuel (ISm 7.13), mas mas o autor concentrou a atenção no cerne
seus filhos corruptos contribuíram bastante da questão. As falhas de Davi como líder
para o fracasso da antiga liga tribal sob os de seu povo eram resultado não da magni­
juizes (ISm 8.1-9). Semelhantemente, os tude dos problemas que ele defrontava, mas
exércitos de Israel experimentaram consi­ das deficiências pessoais de natureza moral
derável êxito durante os primeiros anos do e espiritual. O poder tendia e ainda tende
reinado de Saul, mas os filisteus recupe­ a corromper os poderosos. O que Davi havia
raram a vantagem quando ele foi rejeitado aprendido como um fugitivo (ISm
por resistir à direção de Deus (cf. comen­ 25.32-35), tinha esquecido como rei de
tário sobre ISm 13.1-15; 15.10-23). Israel. Seu pecado com Bate-Seba era
Por outro lado, Davi, sendo um homem apenas a expressão exterior de sua resis­
segundo o coração de Deus (ISm 13.14), tência interior à direção divina.
havia desfrutado extraordinário êxito. Ele O restante da Narrativa da Sucessão se
não era retratado como um homem perfeito ocupará, portanto, da repercussão teológica
(ISm 20.5,6; 21.1-5), mas o Senhor repetidas dessa experiência, dando especial destaque
vezes interveio para protegê-lo e ajudá-lo à disputa pelo trono israelita. As mais terrí­
a evitar uma séria transgressão moral (ISm veis tragédias a se abaterem sobre Davi e
25.32,33). Sob a liderança de Davi, Israel a nação serão vistas como a devida retri­
foi transformado de dois reinos em conflito, buição para os erros que ele cometeu contra
sujeitos ao domínio filisteu, numa impor­ Urias (12.10-12).
tante potência do mundo mediterrâneo Os exércitos partiram para o campo no
oriental. tempo em que os reis saem à guerra —
Contudo, quando Israel começou a normalmente entre abril e junho, após as
enfrentar sérias dificuldades internas, o chuvas de primavera terem cessado e após
povo buscou uma explicação teológica para os camponeses das milícias terem terminado
a mudança da sorte do país. Uma resposta o trabalho em suas terras, no cultivo de
imediata foi dada pelas flagrantes transgres­ cereais fundamentais à economia do país.
sões morais de Davi no caso Bate-Seba. Após suspenderem o ataque no outono
Conquanto este sórdido episódio sem precedente, Davi reiniciou o cerco de Rabá,
dúvida acentuasse os muitos problemas atual Amã, enviando uma força expressiva
nacionais e precipitasse outros, a cobiça da sob o comando de Joabe para pilhar a terra
esposa de Urias por Davi não foi a única e acampar-se ao redor da cidade.
causa das dificuldades de Israel. As rivali­ O passeio de Davi no terraço da casa
dades regionais que Saul enfrentara (cf. real era algo bastante natural. As coberturas
comentário sobre ISm 9.1,2) tinham sido planas das casas antigas eram freqüente­
simplesmente ignoradas quando Davi mente empregadas como excelente lugar
tornou-se rei de todo Israel. Elas, portanto, para dormir e para estar (cf. ISm 9.25).
estavam aguardando somente uma provo­ Bate-Seba era filha de Eliã, um membro
cação mínima para irromperem novamente das tropas de elite de Davi (23.34), e neta
(20.1; lRs 12.1-5). Além disso, sob a lide­ de Aitofel, um de seus conselheiros. Aitofel
rança de Davi o país havia embarcado numa posteriormente apoiou a rebelião de
política de atuação internacional, e o Absalão (15.12,31), talvez como conse­
trabalho de construção da nova capital em qüência do relacionamento ilícito de Davi
Jerusalém se fazia de acordo com um plano com Bate-Seba.
fenício (5.11). Desenvolviam-se até mesmo Davi mandou mensageiros para trazê-
planos para tirar a arca do Senhor de sua -la. Não se poderia manter em segredo um
tenda e colocá-la num templo comparável arranjo desses numa cidade tão pequena
ao palácio do rei (7.1-7,13). quanto Jerusalém era na época. O autor

124
bíblico não menciona qualquer cumplici­ chegado, referiu a Davi tudo o que Joabe lhe orde­
dade de Bate-Seba, mas sob a lei judaica nara. 23Disse o mensageiro a Davi: Os homens
ganharam uma vantagem sobre nós, e saíram contra
ela era igualmente culpada por ter deixado nós ao campo; porém nós os repelimos até a entrada
de gritar (Dt 22.22-24). Ambos estavam da porta. 24Então os flecheiros atiraram contra os
sujeitos à pena de morte. teus servos desde o alto do muro, e morreram alguns
Pois já estava purificada da sua imun­ servos do rei; e também morreu o teu servo Urias,
dícia. Veja Levítico 15.19-24. Esse era o heteu. “ Disse Davi ao mensageiro: Assim dirás
a Joabe: Não te preocupes com isso, pois a espada
considerado o período mais fértil de uma tanto devora este como aquele; aperta a tua peleja
mulher. contra a cidade, e a derrota. Encoraja-o tu assim.
Quando se tornou evidente que a natu­ “ Ouvindo, pois, a .mulher de Urias que seu marido
reza havia apanhado Davi e Bate-Seba na era morto, o chorou. 27E, passado o tempo do nojo,
mandou Davi recolhê-la a sua casa; e ela lhe foi
armadilha do pecado, Davi tentou esconder por mulher, e lhe deu um filha Mas isto que Davi
sua culpa. Urias foi chamado da frente de fez desagradou ao Senhor.
batalha e encorajado, num gesto de
aparente benevolência por parte do rei, a Davi tinha sido bastante desajeitado em
cumprir novamente seu papel de marido. seus esforços por encobrir seu adultério com
Lava os teus pés é provavelmente um eufe­ Bate-Seba. Primeiro, envolvera alguns
mismo para designar relação sexual; pelo servos em sua insensatez e, depois, revelara
menos assim o entendeu Urias. Seja porque uma atitude abertamente solícita para com
suspeitava dos verdadeiros motivos do rei, um marido desconfiado. Seu plano de
seja porque não estava disposto a desfrutar desfazer-se de Urias não era menos trans­
um privilégio que seus companheiros de parente. Com profunda crueldade, Davi
armas não podiam ter, Urias recusou voltar determinou a Joabe que ordenasse a suas
para casa e, em vez disso, se alojou com tropas que deixassem Urias sozinho no meio
a guarda real. Quando fracassou o plano da batalha para que ali encontrasse a morte.
de Davi de, com bebida forte, fazer Urias
Reconhecendo os efeitos perniciosos que
mudar de idéia, não conseguiu enxergar uma traição aberta dessa natureza teria
nenhuma saída de seu dilema a não ser fazer sobre o moral de suas tropas, Joabe revelou
com que Urias fosse morto. um desrespeito ainda maior pela vida
humana ao manter os planos do rei em
2) Davi Manda Matar Urias (11.14-27) segredo e ao determinar que seus soldados
14Pela manhã Davi escreveu uma carta a Joabe, marchassem para a batalha. Empregando
e mandou-lha por mão de Urias. lsEscreveu na táticas que, com certeza, resultariam em
carta: Ponde Urias na frente onde for mais renhida elevadas baixas, Joabe enviou um contin­
a peleja, e retirai-vos dele, para que seja ferido e
morra. 16Enquanto Joabe sitiava a cidade, pôs gente de seus melhores soldados para um
Urias no lugar onde sabia que havia homens assalto infrutífero perto do muro da cidade
valentes. 17Quando os homens da cidade saíram (o suprimento dágua do inimigo? cf. 12.27).
e pelejaram contra Joabe, caíram alguns do povo, A capital amonita não foi tomada na
isto é, dos servos de Davi; morreu também Urias,
o heteu. 18Então Joabe mandou dizer a Davi tudo ocasião, mas Urias, juntamente com um
o que sucedera na peleja; 19e deu ordem ao mensa­ bom número de seus companheiros, foi
geiro, dizendo: Quando tiverdes acabado de contar morto. Quase como se estivesse atraindo
ao rei tudo o que sucedeu nesta peleja, 20caso o a ira do rei, Joabe instruiu seu mensageiro
rei se encolerize, e te diga: Por que vos chegastes a só dar notícia da morte de Urias no fim
tão perto da cidade a pelejar? Não sabieis vòs que
haviam de atirar do muro? 21Quem matou a de seu relatório. De qualquer forma, o
Abimeleque, filho de Jerubesete? Não foi uma acesso de ira que Davi teve por causa da
mulher que lançou sobre ele, do alto do muro, a violação por Joabe dos mais elementares
pedra superior dum moinho, de modo que morreu princípios táticos de cerco foi subitamente
em Tebez? Por que chegastes tão perto do muro?
Então dirás: Também morreu teu servo Urias, o interrompido quando soube que o marido
heteu. 22Partiu, pois, o mensageiro e, tendo de Bate-Seba estava morto (veja o comen­

125
tário sobre o v. 23, abaixo). O leitor fica a cordeira do pobre e a preparou para o seu
a imaginar quantas outras vezes Joabe foi hóspede. 5Então a ira de Davi se acendeu em
grande maneira contra aquele homem; e disse a
tentado a empregar seu conhecimento desse Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o
sórdido acontecimento como um instru­ homem que fez issa 6Pela cordeira restituirá o
mento para manipular seu comandante- quádruplo, porque fez tal coisa, e não teve com­
em-chefe. paixão. 7Então disse N atã a Davi: Esse homem és
tu! Assim diz o Senhor Deus de Israel: Eu te ungi
Após um breve período de luto por seu rei sobre Israel, livrei-te da mão de Saul, *e te dei
marido, Bate-Seba mudou-se para o palá­ a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor
cio e deu à luz um filho de Davi. Assim, em teu seio; também te dei a casa de Israel e de
parecia que Davia tinha com êxito evitado Judá. E se isso fosse pouco, te acrescentaria outro
tanta ’Por que desprezaste a palavra do Senhor,
pagar as conseqüências de seu pecado. A fazendo o mal diante de seus olhos? A Urias, o
questão, porém, não estava encerrada, pois heteu, mataste à espada, e a sua mulher tomaste
embora Urias estivesse morto, a questão para ser tua mulher; sim, a ele mataste com a
não estava. A medida do desprazer do espada dos amonitas. 10Agora, pois, a espada
jamais se apartará da tua casa, porquanto me
Senhor ainda se faria mostrar. desprezaste, e tomaste a mulher de Urias, o heteu,
Na Septuaginta, o versículo 22 indica para ser tua mulher. "Assim diz o Senhor:
que Davi reagiu tal como Joabe previra. Eis que suscitarei da tua própria casa o mal sobre
Deve-se provavelmente dar preferência a ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos,
essa versão, uma vez que no hebraico o e as darei a teu próximo, o qual se deitará com
tuas mulheres à luz deste sol. 12Pois tu o fizeste
relatório do mensageiro a Davi, no versí­ em oculto; mas eu farei este negócio perante todo
culo 23, começa com uma palavra (Ki) que o Israel e à luz do sol. 13Então disse Davi a Natã:
freqüentemente introduz a resposta a uma Pequei contra o Senhor. Tornou Natã a Davi:
pergunta anterior. Assim Davi perguntara: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não
morrerás. 14Todavia, porquanto com este feito
Por que vos chegastes tão perto do muro? deste lugar a que os inimigos do Senhor blas­
O mensageiro respondeu, dizendo que os femem, o filho que te nasceu certamente morrerá.
homens ganharam uma vantagem sobre 15Então Natã foi para sua casa.
nós. (Cf. McKane, p. 231).
Passando o tempo do nojo. O período Como um hábil porta-voz de Deus,
costumeiro de luto estrito era de sete dias Natã reconhecia que uma repreensão é
(Gn 50.10; ISm 31.13). O novo casamento inútil a menos que seja atendida, e que os
de uma viúva logo após a morte do marido assuntos mais difíceis com freqüência
era provavelmente bastante comum no podem ser abordados indiretamente. Natã
antigo Oriente Médio. A menos que tal apelou às mais elevadas qualidades do
mulher retornasse para a casa de seu pai caráter de Davi ao fazer um teste com o
ou tivesse filhos para sustentá-la, ela não rei, apresentando um pleito perante o mais
tinha qualquer proteção nem direito aos alto magistrado da nação. A história é
bens (Gn 38.11; Nm 27.8-11). simples e soberbamente narrada. Com sua
inteira atenção fisgada por aquela situa­
3) Natã Acusa Davi (12.1-15a) ção, e enfurecido com ela, Davi irada­
'O Senhor, pois, enviou N atã a Davi. E, mente pronunciou sua sentença antes de
entrando ele a ter com Davi, disse-lhe: Havia numa saber quem era o réu. Muito cedo, contu­
cidade dois homens, um rico e outro pobre. do, ouviu as palavras diretas de Natã:
20 rico tinha rebanhos e manadas em grande
número; 3mas o pobre não tinha coisa alguma, Esse homem és tu.
senão uma pequena cordeira que comprara e Tanto o rei quanto o profeta basearam
criara; ela crescera em companhia dele e de seus seus julgamentos na lei da retribuição
filhos; do seu bocado comia, do seu copo bebia, (Ex 21.24; Lv 24.20; Dt 19.21), em que a
e dormia em seu regaço; e ele a tinha como filha.
4Chegou um viajante à casa do rico; e este, não punição era determinada de modo a equi-
querendo tomar das suas ovelhas e do seu gado parar-se precisamente ao crime. Conquan­
para guisar para o viajante que viera a ele, tomou to as emoções de Davi lhe indicassem que

126
o homem rico merecia morrer, ele restrin­ como tais tornavam-se posse de seu suces­
giu a punição à compensação quádrupla sor (cf. comentário sobre 2.7).
prescrita na lei (Ex 22.1). Este é um exem­ O filho que te nasceu morrerá. A idéia
plo excelente das intenções humanas da de que Deus pune uma criança pelos
filosofia do “olho por olho” na lei do pecados de seus pais é modificada em
Antigo Testamento. Restrições faziam-se outras passagens do Antigo Testamento.
necessárias para proibir sentenças excessi­ Os antigos hebreus reconheciam que as
vamente severas, pronunciadas por juizes conseqüências do pecado do homem são
dominados pela emoção. Os pecados de freqüentemente transferidas a seu descen­
Davi talvez merecessem a pena capital, dente (Ex 20.5,6). Contudo, também sa­
mas o roubo pelo homem rico de um biam que cada indivíduo é punido por seu
simples cordeiro, por mais valioso que próprio pecado (Ez 18.1-4,20).
fosse, certamente não mereceria tal cas­
tigo. 4) Davi Perde um Filho (12.15b-25)
O julgamento de Natã sobre Davi l5Depois o Senhor feriu a criança que a
esteve igualmente à altura de sua trans­ mulher de Urias dera a Davi, de sorte que adoeceu
gressão. Tal como Davi havia empregado gravemente. 16Davi, pois, buscou a Deus pela
a espada dos amonitas para alcançar os criança, e observou rigoroso jejum e, recolhendo-
-se, passava a noite toda prostrado sobre a terra.
seus propósitos contra Urias, assim sua 17Então os anciãos da sua casa se puseram ao
própria casa (dinastia) seria continuamen­ lado dele para o fazerem levantar-se da terra;
te atingida pela violência (cap. 13-18). porém ele não quis, nem comeu com eles. 18Ao
Como Davi havia secretamente tomado a sétimo dia a criança morreu; e temiam os servos
mulher de outro homem, suas próprias de Davi dizer-lhe que a criança tinha morrido; pois
diziam: Eis que, sendo a criança ainda viva, lhe
esposas seriam desonradas publicamente falávamos, porém ele não dava ouvidos à nossa
(16.20-23). A declaração seguinte de Natã voz; como, pois, lhe diremos que a criança mor­
parece, contudo, unir tanto a lógica quanto reu? Poderá cometer um desatina 19Davi, porém,
a justiça. Seria de esperar-se que o juizo percebeu que seus servos cochichavam entre si, e
entendeu que a criança havia morrido; pelo que
seguisse as diretrizes anteriores. Uma vez perguntou a seus servos: Morreu a criança? E eles
que Davi havia tirado a vida de Urias, responderam: Morreu. “ Então Davi se levantou
esperava-se que ele pagasse com a sua da terra, lavou-se, ungiu-se, e mudou de vestes;
própria vida. Não obstante, o filho de e, entrando na casa do Senhor, adorou. Depois
Bate-Seba sofreu essa parte da sentença. veio a sua casa, e pediu o que comer; e lho deram,
e ele comeu. 21Então os seus servos lhe disseram:
Davi viveria, mas a criança nascida em Que é isso que fizeste? Pela criança viva jejuaste
conseqüência desse caso ilícito teria de e choraste; porém depois que a criança morreu te
morrer. levantaste e comeste. 22Respondeu ele: Quando a
criança ainda vivia, jejuei e chorei, pois dizia:
A frase digno de morte capta o sen­ Quem sabe se o Senhor não se compadecerá de
tido da expressão idiomática hebraica mim, de modo que viva a criança? 23Todavia,
(o homem que fez isto é “um filho da agora que é morta, por que ainda jejuaria eu?
morte”). Contudo, não se deve interpretar Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei para ela, porém
tal frase como uma sentença de morte ela não voltará para mim. 24Então consolou Davi
a Bate-Seba, sua mulher, e entrou, e se deitou
pronunciada pelo rei, uma vez que, em com ela. E teve ela um filho, e Davi lhe deu o nome
outras vezes que o Antigo Testamento de Salomãa E o Senhor o amou; 25e mandou, por
emprega a expressão, não há provas de sua intermédio do profeta Natã, dar-lhe o nome de
execução (cf. especialmente ISm 26.16 e Jedidias, por amor do Senhor.
uma frase parecida em lRs 2.26). Pela segunda vez pelo menos, Davi
Assim diz o Senhor: (...) dei-te (...) as reconheceu que havia sido responsável
mulheres de teu senhor em teu seio. As pelo infortúnio que caiu sobre outras
mulheres do harém do rei eram conside­ pessoas (cf. ISm 22.22). Conquanto
radas como propriedade pessoal dele, e buscasse em cada caso minorar o sofri-

127
mento que havia causado, foi incapaz de da vida do homem assim como o nasci­
evitar as conseqüências de seus atos. mento é o seu início. Vista pela perspecti­
Quando seu filho com Bate-Seba ficou va de Deus, a morte em si não é necessa­
doente, Davi expressou seu pesar e con­ riamente má ou desagradável. Davi viu
trição, jejuando e dormindo diretamente que a punição aplicada caiu sobre ele
no chão. Ele implorou fervorosamente que mediante a perda de seu filho.
a vida do menino fosse poupada, até que Eu irei para ela, porém ela não voltará
se esgotaram todas as esperanças de um para mim. Esta declaração não implica
adiamento da sentença de Natã. Quando, necessariamente que já estava desenvol­
contudo, seus servos anunciaram que a vida entre os antigos hebreus a crença de
criança morrera, ele lavou-se, adorou e vida após a morte. Davi está simplesmente
retomou as atividades normais do dia-a- dizendo que, em harmonia com sua natu­
-dia. Ao inverter de modo surpreendente reza mortal, ele finalmente se unirá ao
a seqüência normal das práticas de luto, filho no Seol, a habitação dos mortos
Davi demonstrou que suas ações eram (cf. comentário sobre ISm 28.1-14).
sinceras, não o resultado de uma mera
formalidade religiosa. Seu declarado prag­ 5) Davi Derrota os Amonitas (12.26-31)
matismo teria sido amplamente satisfató­ 26Ora, pelejou Joabe contra Rabá, dos amoni­
rio para os antigos hebreus, que com tas, e tomou a cidade real. 27Então mandou Joabe
freqüência enfrentavam a morte, reconhe­ mensageiros a Davi, e disse: Pelejei contra Rabá,
cendo que, sempre que possível, a vida e já tomei a cidade das águas. “ Ajunta, pois,
agora o resto do povo, acampa contra a cidade e
tem de continuar. toma-a, para que eu não a tome e seja o meu
A morte do filho de Bate-Seba, entre­ nome aclamado sobre ela. 29Então Davi ajuntou
tanto, chamou a atenção para realidades todo o povo, e marchou para Rabá; pelejou contra
políticas, bem como religiosas. O pecado ela, e a tomou. 30Também tirou a coroa da cabeça
do seu rei; e o peso dela era de um talento de ouro
de Davi contra Urias foi grave o bastante e havia nela uma pedra preciosa; e foi posta sobre
para solapar a estabilidade da monarquia a cabeça de Davi, que levou da cidade mui grande
de Israel. A promessa de Natã de que o despoja 31E, trazendo os seus habitantes, os pôs
Senhor não destituiria a casa governante a trabalhar com serras, trilhos de ferro, machados
de Davi (7.14-16) estava sendo posta à de ferro, e em fornos de tijolos; e assim fez a
todas as cidades dos amonitas. Depois voltou
prova. Davi e todo o povo para Jerusalém.
É com esse pano de fundo que o nasci­
mento de um segundo filho de Davi e Após o autor bíblico concluir a história
Bate-Seba teve importância notável. Em­ de Davi e Bate-Seba, ele então falou do
bora o Senhor, como sinal de seu desagra­ final vitorioso da guerra contra os amoni­
do, tivesse negado descendência a Mical, tas. Uma vez que o pecado de Davi,
deu a Bate-Seba um filho para mostrar diferentemente da transgressão de Acã
que ainda estava agindo para edificar para (Js 7.1-26), foi abertamente confessado e
Davi uma casa duradoura a ocupar o trono plenamente expiado, não afetou adversa­
de Israel. Assim, Davi chamou seu fi­ mente o resultado do cerco de Rabá por
lho Salomão (relacionado com a palavra Israel.
hebraica para paz) em reconhecimento de Após Joabe ter ganho o controle do
sua comunhão renovada com o Senhor, suprimento dágua de Rabá, tornando sua
e Natã chamou o menino de Jedidias rendição inevitável, convidou Davi a co­
(Amado do Senhor) como um meio de mandar o exército por ocasião da queda
prenunciar o papel da criança no futuro final da cidade. Davi reuniu a milícia de
de Israel. Israel e chegou em tempo para que suas
Quem sabe se o Senhor não se compa­ tropas participassem do combate final e
decerá de mim. A morte é o fim natural do saque da cidade. O próprio Davi re-
128
cebeu o crédito pela vitória, e a coroa de parecia impossível a Amnom fazer coisa alguma
Amom foi acrescentada à de Israel e Judá, com ela. 3Tinha, porém, Amnom um amigo, cujo
que ele já possuía (5.1-5). nome era Jonadabe, filho de Simêia, irmão de Davi;
e era Jonadabe homem mui sagaz. 4Este lhe
A expressão tomou a cidade real suge­ perguntou: Por que tu de dia para dia tanto
riria normalmente toda a capital, mas no emagreces, ó filho do,rei? não mo dirás a mim?
versículo 27 Joabe reivindicou a posse Então lhe respondeu Amnom: Amo a Ikmar, irmã
somente da cidade das águas. Alguns de Absalão, meu irmão. 5Tornou-lhe Jonadabe:
Deita-te na tua cama, e finge-te doente; e quando
têm sugerido que o versículo 26 seja teu pai te vier visitar, dize-lhe: Peço que minha irmã
emendado para rezar cidade das águas, Tkmar venha dar-me de comer, preparando a comida
como no versículo 27, mas as duas expres­ diante dos meus olhos, para que eu veja e coma
sões talvez designem posições defensivas da sua mão. 6Deitou-se, pois, Amnom, e fingiu-se
dentro da cidade, as quais sucessivamente doente: Vindo o rei visitá-lo, disse-lhe Amnom: Peço-
-te que minha irmã Ikmar venha, e prepare dois
caíram diante da pressão israelita. Se é bolos diante dos meus olhos, para que eu coma
esse o caso, então essa foi uma batalha da sua mão. 7Mandou, então, Davi a casa, a dizer
especialmente penosa e demorada. Note- a làmar: Vai a casa de Amnom, teu irmão, e faze-
se, por exemplo, o relato de Josefo quanto •lhe alguma comida. 8Foi, pois, Ikmar a casa de
Amnom, seu irmão; e ele estava deitada Ela tomou
à luta final pela torre Antônia durante a massa e, amassando-a, fez bolos e os cozeu diante
batalha de Jerusalém em 70 d.C. (Guerra dos seus olhos. 9E tomou a panela, e os tirou
Judaica, cap. 20). diante dele; porém ele recusou comer. E disse
A coroa (...) o peso dela era de um Amnom: Fazei retirar a todos da minha presença.
talento de ouro. Conquanto seja impos­ E todos se retiraram dele. 10Então disse Amnom
a Ikmar: H-aze a comida à câmara, para que eu
sível calcular com exatidão os equivalen­ coma da tua mão. E Ikmar, tomando os bolos que
tes entre sistemas antigos e modernos de fizera, levou-os à câmara, ao seu irmão Amnom.
medida, um talento parece ter pesado nQuando lhos chegou, para que ele comesse,
aproximadamente 165 quilos. O imenso Amnom pegou dela, e disse-lhe: Vem, deita-te
comigo, minha irmã. 12Ela, porém, lhe respondeu:
tamanho da coroa amonita sugere que Nãoi, meu irmão, não me forces, porque não se faz
adornava um ídolo e que Davi usou ape­ assim em Israel; não faças tal loucura. 13Quanto
nas uma gema dela para sua própria a mim, para onde levaria o meu opróbrio? E tu
coroa. Nesse caso, deve-se ler a frase do passarias por um dos insensatos em Israel. Rogo-
seu rei (malkam) como uma referência à -te, pois, que fales ao rei, porque ele não me negará
a ti. >4Todavia ele não quis dar ouvidos à sua voz;
divindade amonita Milcom (cf. IReis 11.5). antes, sendo mais forte do que ela, forçou-a e se
O tratamento que Davi dispensou deitou com ela. 15Depois sentiu Amnom grande
aos amonitas capturados não está claro. aversão por ela, pois maior era a aversão que sentiu
A IBB, fazendo alterações mínimas num por ela do que o amor que lhe tivera. E disse-lhe
texto que de outro modo seria ininteligí­ Amnom: Levanta-te, e vai-te. 16Então ela lhe
respondeu: Não há razão de me despedires assim;
vel, retrata Davi empregando o povo em maior seria este mal do que o outro que já me tens
várias atividades como trabalhadores es­ feita Porém ele não lhe quis dar ouvidos, 17mas,
cravos. Outras traduções (RC e RA), con­ chamando o moço que o servia, disse-lhe: Deita
tudo, indicam que ele os torturou com fora a esta mulher, e fecha a porta após ela. 18Ora,
trazia ela uma túnica talar; porque assim se vestiam
implementos agrícolas. Conquanto Davi as filhas virgens dos reis. Então o criado dele a
tenha-se demonstrado capaz de tais atos deitou fora, e fechou a porta após ela. 19Pelo que
desumanos (8.2), a IBB provavelmente Ikmar, lançando cinza sobre a cabeça, e rasgando
captou melhor o sentido. a túnica talar que trazia, pôs as mãos sobre a cabeça,
e se foi andando e clamando. “ Mas Absalão, seu
4. Amnom Viola Tamar (13.1-22) irmão, lhe perguntou: Esteve Amnom, teu irmão,
contigo? Ora pois, minha irmã, caia-te; é teu irm ãa
‘Ora, Absalão, filho de Davi, tinha uma irmã Não se angustie o teu coração por ista Assim ficou
formosa, cujo nome era Ikmar; e sucedeu depois Ikmar, desolada, em casa de Absalão, seu irm ãa
de algum tempo que Amnom, filho de Davi, 21Quando o rei Davi ouviu todas estas coisas,
enamorou-se dela. 2E angustiou-se Amnom, até muito se lhe acendeu a ira .22Absalão, porém, não
adoecer, por Ikmar, sua irmã; pois era virgem, e falou com Amnom, nem mal nem bem, porque

129
odiava a Amnom por ter ele forçado a Tamar, sua uma vez que não conseguia controlar
irmã. adequadamente a si mesmo.
O protesto de Tamar de que não se faz
Agora que o autor da Narrativa da assim em Israel aparentemente presumia
Sucessão apresentou um relato das causas que as intenções de Amnom eram elevadas,
históricas para a agitação que se avizinhava isto é, que pretendia casar-se com ela. Ela
dentro da família de Davi (cf. comentário comentou que casamentos em que o noivo
sobre 11.1-13), ele retoma à questão básica arrebatava sua noiva (cf. Jz 21.16-24) eram
subjacente a seu trabalho: Quem sucederá próprios somente de pessoas loucas ou
a Davi no trono? Tudo quanto se segue deve rudes. Um compromisso de casamento refle­
ser lido levando em conta a situação de tiria a boa formação tanto do homem
intriga política em que cada um dos perso­ quanto da mulher. Amnom poderia conse­
nagens principais deve ser visto como um guir devidamente o casamento, pedindo a
rei de Israel em potencial. Dos dezessete seu pai (Davi) permissão, a qual ela tinha
filhos de Davi já mencionados (3.2-5; certeza de que ele concederia: porque ele
5.14,15), somente quatro irão figurar com não me negará a ti. Somente mais tarde
destaque nas narrativas seguintes: Amnom, Tamar percebeu que Amnom não tinha
Absalão, Adonias e Salomão. Cada um em qualquer intenção de se casar com ela.
sua vez será examinado e rejeitado até que Aparentemente, os casamentos entre
fique o escolhido pelo próprio Deus. meio-irmãos não eram condenados em
Num relato tragicamente semelhante ao Israel nesse tempo (cf. Abraão e Sara; Gn
caso de Davi com Bate-Seba, o autor 20.12), porém mais tarde foram expressa­
descreve Amnom, o príncipe herdeiro de mente proibidos (Dt 27.22; Lv 18.9,11). Tais
Israel, como um homem de caráter vil, sem casamentos consangüíneos eram provavel­
quaisquer qualidades superiores ou mente comuns entre os vizinhos de Israel
circunstâncias atenuantes que compen­ e eram a regra, antes que a exceção, dentro
sassem seu caráter. A fria piemeditação com da família real egípcia.
que planejou sua investida em cima de Maior seria este mal do que o outro que
Tamar foi repugnante mesmo numa socie­ já me tens feito. O pecado mais grave de
dade há muito familiarizada com abusos Amnom foi ter deixado de aceitar a respon­
sexuais de todo tipo (Gn 19; Jz 19.22-26; sabilidade moral da violação de Tamar. A
21.16-24). Embora fosse a poligamia ainda lei israelita determinava que o homem que
praticada, e a fraqueza humana tolerada houvesse forçado e violado uma virgem
(Gn 38; Jz 16; 2Sm 11; IReis 11), o reino descompromissada casasse com ela (Dt
de Israel não devia ser confiado a alguém 22.28,29). Quando um homem chegava a
que utilizasse a força bruta para atingir seus ter o contato mais íntimo de todos os
objetivos sem levar em conta os direitos de contatos humanos com uma mulher, ele
outros. Esta, logicamente, era precisamente se tornava moralmente obrigado a cuidar
a questão com que Davi tinha tantas vezes do bem-estar pessoal dela.
se debatido ao empregar a força (ISm 25; Minha irmã, cala-te; é teu irmão.
2Sm 11). Davi, contudo, fora rápido em Absalão viu como seria fútil tornar pública
admitir a culpa e corrigir o erro quando a situação lamentável de Tamar. Uma vez
confrontado a respeito. Amnom, por outro que a ofensa não havia transposto os
lado, arrogantemente expulsou Tamar após círculos familiares, uma inimizade de morte
violentá-la e teimosamente recusou aceitar não seria aplicável; mas, sendo uma briga
as determinações que a lei prescrevia para em família, a aplicação da justiça era da
tais casos (Dt 22.28,29). Mesmo que responsabilidade de Davi. Infelizmente, sua
houvesse vivido, Amnom obviamente indignação não resultou em qualquer ação
estaria desqualificado para governar Israel construtiva, e a semente da discórdia aqui

130
plantada pôde crescer e frutificar na vida Na segunda metade do capítulo, Absalão
de seus dois filhos. Amnom sem dúvida e Davi emergem como personagens prin­
continuou egoisticamente abusando dos cipais — Absalão pelo que fez e Davi pelo
outros, e Absalão ficou por dois anos silen­ que não fez. Quando, após dois anos
ciosamente maquinando sua vingança. completos, Davi não havia tomado medidas
para punir Amnom por seu ataque contra
5. Absalão Vinga sua Irmã (13.23-39) Tamar, Absalão tomou providências para
tratar ele mesmo do problema. Assim, ao
^Decorridos dois anos inteiros, tendo Absalão
tosquiadores em Baal-Hazor, que está junto a buscar aplicar a justiça dentro da família,
Efraim, convidou todos os filhos do rei. MFoi, pois, Absalão já está usurpando deveres que, por
Absalão ter com o rei, e disse: Eis que agora o direito, pertenciam a seu pai. Embora o
teu servo faz a tosquia. Peço que o rei e os seus autor não haja atribuído qualquer moti­
servos venham com o teu serva “ O rei, porém, vação política ao assassinato premeditado
respondeu a Absalão: Não, meu filho, não vamos
todos, para não te sermos pesados. Absalão instou de seu irmão mais velho, pode-se ver aqui
com ele; todavia ele não quis ir, mas deu-lhe a sua as mesmas atitudes que mais tarde emergem
bênçãa “ Disse-lhe Absalão: Ao menos, deixa ir nas tentativas de Absalão de apossar-se do
conosco Amnom, meu irm ãa O rei, porém, lhe trono (2Sm 15—19).
perguntou: Para que iria ele contigo? 27Mas como
Absalão instasse com o rei, este deixou ir com ele O autor, contudo, retrata o papel de
Amnom, e os demais filhos do rei. “ Ora, Absalão Absalão em todo esse complexo narrativo
deu ordem aos seus servos, dizendo: Tomai sentido; (cap. 13—19) com uma grande parcela de
quando o coração de Amnom estiver alegre do
vinho, e eu vos dissen Feri a Amnom; então matai- compaixão e calor humano. Ele de modo
-a Não tenhais medo; não sou eu quem vo-lo algum pode fazer vista grossa à recusa de
ordenou? Esforçai-vos, e sede valentes. 29E os Absalão em deixar a vingança de Tamar
servos de Absalão fizeram a Amnom como Absalão nas mãos do Senhor (cf. ISm 25.33), mas
lhes havia ordenada Então todos os filhos do rei está ciente de que o fracasso de Davi em
se levantaram e, montando cada um no seu mulo,
fugiram. 30Enquanto eles ainda estavam em exercer o papel de pai e rei havia criado um
caminho, chegou a Davi um rumor, segundo o qual vazio de autoridade que clamava por ser
se dizia: Absalão matou todos os filhos do rei; preenchido. A história é narrada sem reto­
nenhum deles ficou. 31Então o rei se levantou e, ques editoriais visíveis, mas o leitor pode
rasgando as suas vestes, lançou-se por terra; da
mesma maneira todos os seus servos que lhe assis­
facilmente perceber a ambivalência do autor
tiam rasgaram as suas vestes. 32Mas Jonadabe, na maneira de tratar os dois personagens
filho de Siméia, irmão de Davi, disse-lhe: Não principais.
presuma o meu senhor que mataram todos os
mancebos filhos do rei, porque só morreu Amnom; Absalão criou uma oportunidade de se
porque assim o tinha resolvido fazer Absalãoi, desde vingar de Amnom, organizando uma
o dia em que ele forçou a Tàmar, sua irmã. 33Não grande festa para a qual convidou toda a
se lhe meta, pois, agora no coração ao rei meu corte de Davi. A festa seria realizada no
senhor o pensar que morreram todos os filhos do auge da estação de tosquia das ovelhas na
rei; porque só morreu Amnom. 34Absalão, porém,
fugiu. E o mancebo que estava de guarda, levan­ fazenda de Absalão, em Baal-Hazor, a cerca
tando os olhos, olhou, e eis que vinha muito povo de 24 quilômetros ao norte de Jerusalém
pelo caminho por detrás dele, ao lado do monte. (cf. ISm 25.1-17). Como Absalão sem
35Então disse Jonadabe ao rei: Eis ai vêm os filhos dúvida havia previsto, Davi declinou o
do rei; conforme a palavra de teu servo, assim
sucedeu. 36Acabando ele de falar, chegaram os
convite para participar, mas concordou em
filhos do rei e, levantando a sua voz, choraram; e dar sua bênção à ocasião. Absalão, contudo,
também o rei e todos os seus servos choraram amar­ provavelmente fingindo interesse em
gamente. 37Absalão, porém, fugiu, e foi ter com preparar uma lista de convidados de pres­
Talmai, filho de Amiur, rei de Gesur. E Davi pran­ tígio, insistiu até que Davi finalmente
teava a seu filho todos os dias. ^ e n d o Absalão
fugido para Gesur, esteve ali três anos. 39Então o concordou em enviar um representante em
rei Davi sentiu saudades de Absalão, pois já se tinha seu lugar. (O hebraico indica que Davi
consolado acerca da morte de Amnom. enviou [wayyishlach] Amnom com

131
Absalão.) O príncipe herdeiro Amnom iria tidos de luto, não te unjas com óleo, e faze-te
assistir à festa à frente de todo o grupo dos como uma mulher que há muitos dias chora al­
filhos do rei. Ante um sinal preestabelecido, gum morto; 3vai ter com o rei, e fala-lhe desta
maneira. Então Joabe lhe pôs as palavras na bo­
os servos de Absalão assassinaram Amnom, ca. 4A mulher tecoíta, pois, indo ter com o rei e
e os demais filhos do rei fugiram. prostrando-se com o rosto em terra, fez-lhe uma
A primeira notícia da traição de Absalão reverência e disse: Salva-me, ó rei. 5Ao que lhe
indicava que todos os filhos de Davi haviam perguntou o rei: Que tens? Respondeu ela: Na
verdade eu sou viúva; morreu meu marido. '’Ti­
sido mortos. Absalão matou todos os filhos nha a tua serva dois filhos, os quais tiveram uma
do rei. A dor do rei com a perda de seus briga no campo e, não havendo quem os apar­
filhos acrescentou-se o temor de que as tasse, um feriu ao outro, e o matou. 7E eis que
ações de Absalão assinalassem uma inves­ toda a parentela se levantou contra a tua serva,
tida ao trono. Israel logo poderia estar dizendo: Dá-nos aquele que matou a seu irmão,
para que o matemos pela vida de seu irmão, a
envolvido numa guerra civil. Mas o fato quem ele matou, de modo que exterminemos tam­
de que Absalão não matou todos os filhos bém o herdeira Assim apagarão a brasa que me
do rei indica que motivos políticos não eram ficou, de sorte a não deixarem a meu marido
a preocupação principal nesse assassinato nem nome, nem remanescente sobre a terra. 8En-
tão disse o rei à mulher: Vai para a tua casa, e
de Amnom. eu darei ordem a teu respeita ’Respondeu a mu­
O sofrimento de Davi foi diminuído lher tecotta ao rei: A iniqüidade, ó rei meu se­
somente em parte quando a verdade sobre nhor, venha sobre mim e sobre a casa de meu pai;
os fatos se tornou conhecida, pois ainda e fique inculpável o rei e o seu trona 10Tornou o
assim ele tinha perdido dois filhos. Amnom rei: Quem folar contra ti, traze-mo a mim, e nunca
mais te tocará. uDisse ela: Ora, lembre-se o rei
tinha sido assassinado e Absalão partira do Senhor seu Deus, para que o vingador do san­
para um exílio do qual não haveria retorno gue não prossiga na destruição, e não extermine
fácil. As próprias emoções de Davi também a meu filha Então disse ele: Vive o Senhor, que
ficaram confusas quando percebeu que os não há de cair no chão nem um cabelo de teu fi­
lh a 12Então disse a mulher: Permite que a tua
dois candidatos mais prováveis a futuro rei serva fale uma palavra ao rei meu senhor. Res­
de Israel não mais estavam disponíveis. pondeu ele: Fala. 13Ao que disse a mulher: Por
Quaisquer outras dificuldades que tivesse que, pois, pensas tu tal coisa contra o povo de
de enfrentar, Davi sempre estaria preo­ Deus? Pois, falando o rei esta palavra, fica como
cupado com uma sucessão pacífica ao trono culpado, visto que o rei não torna a trazer o seu
desterrada 14Porque certamente morreremos, e
de Israel. seremos como águas derramadas na terra, que
Absalão, porém, fugiu, e foi [a] (...) Gesur. não se podem ajuntar mais; Deus, todavia, não ti­
Absalão exilou-se em Gesur, país de onde ra a vida, mas cogita meios para que não fique
viera sua mãe, um pequeno reino a nordeste banido dele o seu desterrada l5E se eu agora
do Mar da Galiléia. Davi logo sentiu-se vim falar esta palavra ao rei meu senhor, é porque
o povo me atemorizou; pelo que dizia a tua serva:
inclinado a convidar Absalão a retornar, Falarei, pois, ao rei; porventura fará o rei segun­
mas aparentemente não se sentia à vontade do a palavra da sua serva. 16Porque o rei ouvirá,
para fazê-lo. O texto parece confuso, uma para Hvrar a sua serva da mão do homem que in­
vez que a fuga de Absalão está registrada tenta exterminar da herança de Deus tanto a mim
como a meu filha 17Dizia mais a tua serva: Que
três vezes, e os versículos 37 e 38 se a palavra do rei meu Senhor me dê um descanso;
sobrepõem seriamente. porque como o anjo de Deus é o rei meu senhor,
para discernir o bem e o mal; e o Senhor teu Deus
seja contiga 18Então respondeu o rei à mulher:
6. Absalão Retorna à Corte (14.1-33) Peço-te que não me encubras o que eu te pergu­
ntar. Tornou a mulher: Fale agora o rei meu se­
1) Joabe Testa Davi (14.1-20) nhor. 19Perguntou, pois, o rei: Não é verdade que
a mão de Joabe está contigo em tudo isso!? Res­
‘Percebendo Joabe, filho de Zernia, que o pondeu a mulher: Vive a tua alma, ó rei meu se­
coração do rei estava inclinado para Absalão, nhor, que ninguém se poderá desviar, nem para a
2mandou a Tecoa trazer de lá uma mulher sagaz, direita nem para a esquerda, de tudo quanto diz
e disse-lhe: Ora, finge que estás de nojo; põe ves­ o rei meu senhor; porque Joabe, teu servo, é quem

132
me deu ordem, e foi ele que pôs na boca da tua para seu retorno do exílio. Enquanto se
serva todas estas palavras; 29para mudar a feição opusesse ao retorno de Absalão, Davi era
do negócio é que Joabe, teu servo, fez isso. Sábio, levado a crer que tinha um libelo contra
porém, é meu senhor, conforme a sabedoria do
anjo de Deus, para entender tudo o que há na o povo de Deus. Aparentemente, Joabe e
terra. muitos do povo sentiam que o futuro de
Israel corria perigo, a menos que Absalão
Davi suportava um infortúnio comum retornasse como príncipe herdeiro. Final­
em que era capaz de tratar com os filhos mente, convencido pela eloqüência da mu­
de outros homens mais eqüitativamente lher e pela consciência de que até Joabe
do que com seus próprios filhos. Joabe, estava contra ele, Davi permitiu que Ab­
portanto, sentindo a ambivalência de Davi salão retornasse de Gesur para casa.
para com Absalão, fez com que a mulher A iniqüidade, ó rei meu senhor, venha
viesse de Tecoa para trazer um caso pen­ sobre mim. Esta provavelmente é uma
sado perante o rei. sentença declarativa. Quando Davi prome­
Conquanto esse episódio não tenha a teu dar uma ordem protegendo o filho da
objetividade da parábola de Natã (12.1-6), viúva, ela alegou estar temerosa, uma vez
é, não obstante, em si mesmo artistica­ que o povo a culparia, e não ao rei. Davi
mente elaborado. A mulher de lècoa dei­ prometeu-lhe proteção real, mas a mulher
xou de lado o porte e a condição implíci­ insistiu até que ele declarou sua sentença
tos em seu título de mulher sagaz (chaa- num juramento diante de Deus. A “atriz”
kamah), isto é, sábia, e se apresentou com de Tecoa estava conduzindo Davi até que
a rudeza humilde que se esperaria de uma ele não teve como escapar.
mulher duma pequena cidade no deserto
judaico. Usando um linguajar redundante, 2) Absalão Retorna a Jerusalém (14.21-33)
efusivo e repetitivo, ela desempenhou seu 2lEntão o rei disse a Joabe: Eis que faço o que
papel de modo tão convincente que Davi pedes; vai, pois, e faze voltar o mancebo Absalão.
foi apanhado em sua armadilha. 22Então Joabe se prostrou com o rosto em terra
A história de Joabe não fazia o parale­ e, fazendo uma reverência, abençoou o rei; e disse
lo exato com as dificuldades de Davi com Joabe: Hoje conhece o teu servo que achei graça
aos teus olhos, ó rei meu senhor, porque o rei fez
Absalão, mas envolvia alguns dos mesmos segundo a palavra do teu serva 23Levantou-se,
princípios básicos. Em cada caso, uma so­ pois, Joabe, foi a Gesur e trouxe Absalão para
lução justa requeria que as determinações Jerusalém. 24E disse o rei: Torne ele para süa ca­
da lei de vingança do sangue (cf. Gn 9.6) sa, mas não venha à minha presença. Tornou,
pois, Absalão para sua casa, e não foi à presença
fossem modificadas à luz de circunstâncias do rei. 25Não havia em todo o Israel homem tão
especialmente atenuantes. No relato apre­ admirável pela sua beleza como Absalão; desde a
sentado por Joabe, Davi reconheceu que planta do pé até o alto da cabeça não havia nele
não se fazia justiça executando-se o último defeito algum. ME, quando ele cortava o cabelo,
sobrevivente masculino numa família que, o que costumava fazer no fim de cada ano, por­
quanto lhe pesava muito, o peso do cabelo era de
doutro modo, estava ameaçada de extin­ duzentos siclos, segundo o peso real. 27Nasceram
ção. Ele, portanto, ordenou ao clã que a Absalão três filhos, e uma filha cujo nome era
cancelasse a vendeta. Tamar; e esta era mulher formosa à vista.28Assim
Assim, Davi foi forçado a reconhecer a ficou Absalão dois anos inteiros em Jerusalém,
sem ver a face do rei. 29Então Absalão mandou
complexidade do caso de Absalão. Ele era chamar Joabe, para o enviar ao rei; porém Joabe
legalmente culpado de assassinato, mas não quis vir a ele. Mandou chamá-lo segunda vez,
parecia que a própria negligência de Davi mas ele não quis vir. MPelo que disse aos seus
era pelo menos um fator que contribuía servos: Vede ali o campo de Joabe pegado ao
meu, onde ele tem cevada; ide, e ponde-lhe foga
para o acontecido. Em última análise, E os servos de Absalão puseram fogo ao campa
contudo, a necessidade que Israel tinha de 31Então Joabe se levantou, e veio ter com Absa­
Absalão foi o argumento mais eloqüente lão, em casa, e lhe perguntou: Por que os teus

133
servos puseram fogo ao meu campo? 32Respondeu Os comentários nos versículos 25-27
Absalão a Joabe: Eis que enviei a ti, dizendo: Vem quanto à beleza de Absalão e a sua família
cá, para que te envie ao rei, a dizer-lhe: Para que
vim de Gesur? Melhor me fora estar ainda lá.
são introduzidos aqui para antecipar os
Agora, pois, veja eu a face do rei; e, se há ent mim eventos seguintes. Absalão é retratado co­
alguma culpa, que me mate. 33Foi, pois, Joabe à mo um homem maduro, com considerável
presença do rei, e lho disse Então o rei chamou atração e influência sobre o público. Ele,
Absalão, e ele entrou à presença do rei, e se pros­ de fato, é o homem que representará o
trou com o rosto em terra diante do rei; e o rei
beijou Absalão. maior desafio para Davi; um homem que
terá êxito em se apossar do trono para, em
O autor não se demora nas razões de seguida, perder a vida numa batalha.
Joabe para desejar o retorno de Absalão
do exílio, mas o tom da narrativa prece­ 7. Absalão Usurpa o Trono (15.1—18.33)
dente sugere que sentia ser isto para o bem
do país. Presumivelmente, temia que algo 1) Absalão Torna-se Rei (15.1-12)
pudesse acontecer a Davi antes que um
herdeiro em condições tivesse sido desig­ Aconteceu depois disso que Absalão adquiriu
para si um carro e cavalos, e cinqüenta homens
nado para o trono. Em tal caso, a luta que corressem adiante dele. 2E levantando-se
interna pelo poder deixaria Israel como Absalão cedo, parava ao lado do caminho da
presa fácil para seus inimigos. Joabe apa­ porta; e quando algum homem tinha uma deman­
rentemente esperava que, com o retorno da para vir ao rei a juízo, Absalão o chamava a
si e lhe dizia: De que cidade és tu? E, dizendo
de Absalão, Davi apoiasse a causa daque­ ele: De tal tribo de Israel é teu servo, 3Absalão
le que parecia tanto o futuro rei de Israel lhe dizia: Olha, a tua causa é boa e reta, porém
e tanto se comportava como tal. não há da parte do rei quem te ouça. 4Dizia mais
Porém, as esperanças de Joabe não se Absalão: Ah, quem me dera ser constituído juiz
concretizaram. Absalão teve permissão de na terra! para que viesse ter comigo todo homem
que tivesse demanda ou questão, e eu lhe faria
voltar a Jerusalém, mas Davi recusou vê- justiça. 5Sucedia também que, quando alguém se
lo. Por dois anos Absalão permaneceu chegava a ele para lhe fazer reverência, ele esten­
como um virtual prisioneiro dentro da dia a mão e, pegando nele o beijava. 6Assim fazia
própria casa (cf. Hertzberg, p. 334), e a Absalão a todo o Israel que vinha ao rei para
juízo; desse modo Absalão furtava o coração dos
questão em torno da linha de sucessão ao homens de Israel. 7Aconteceu, ao cabo de quatro
trono de Israel permanecia sem resolução. anos, que Absalão disse ao rei: Deixa-me ir pagar
Quando Absalão não mais conseguiu em Hebrom o voto que flz ao Senhor. ‘Porque,
suportar seu crescente isolamento, provo­ morando eu em Gesur, na Síria, fez o teu servo
cou um incêndio para chamar a atenção um voto, dizendo: Se o Senhor, na verdade, me fi­
zer tornar a Jerusalém, servirei ao Senhor. ’En­
de Joabe e exigir uma audiência com o tão lhe disse o rei: Vai em paz. Levantou-se, pois,
rei. Tem-se um vislumbre do caráter de e foi para Hebrom. “ Absalão, porém, enviou
Absalão no fato de que ele era capaz de emissários por todas as tribos de Israel, dizendo:
enfrentar o exílio ou a morte, mas não Quando ouvirdes o som da trombeta, direis: Ab­
salão reina em Hebrom. UE de Jerusalém foram
conseguia tolerar ser ignorado. Seu deses­ com Absalão duzentos homens que tinham sido
perado estratagema funcionou, porém, e convidados; mas iam na sua simplicidade, pois na­
ele reconquistou o favor do rei. da sabiam daquele desígnio. 12Íàmbém Absalão,
Torne ele para sua casa, mas não venha enquanto oferecia os seus sacrifícios, mandou vir
à minha presença. Poucas diferenças pes­ da cidade de Silo, Aitofel, o gilonita, conselheiro
de Davi. E a conspiração tornava-se poderosa,
soais são resolvidas quando os envolvidos crescendo cada vez mais o número do povo que
se isolam um do outro. A comunicação é estava com Absalão.
essencial para que haja reconciliação. Pa­
receria que Davi devia ter punido Absa­ Após Absalão ter retornado à sua po­
lão severamente ou tê-lo perdoado com­ sição normal na corte do rei, tornou-se o
pletamente. De qualquer forma, o meio- ponto de convergência de um movimento
termo era totalmente ineficaz. planejado para solapar a autoridade de

134
Davi entre seu povo. Conquanto até este duma peregrinação como pagamento de um
ponto o leitor tenha estado livre para es­ voto que fizera enquanto no exílio. Sem
pecular quanto às ambições políticas de dúvida, ele esperava obter apoio daqueles
Absalão, o autor deixa claro que agora que se lembravam que havia nascido ali (3.3)
Absalão está determinado a tornar-se rei e daqueles que ficaram ofendidos com a
de Israel. Ele e seus conspiradores experi­ transferência da.capital por Davi para Jeru­
mentam um êxito considerável, em grande salém (Hertzberg, p. 337). De qualquer
parte devido a que podiam-se fazer quei­ forma, Hebrom era o lugar de um venerável
xas procedentes contra o governo de Davi. santuário, no qual o próprio Davi havia
As pessoas viajavam grandes distâncias anteriormente se tomado rei (cf. comentário
para levar suas demandas legais perante o de 2.1-4). Acertos foram feitos para que
rei em Jerusalém somente para descobri­ Absalão fosse aclamado rei mediante
rem que ninguém tinha sido designado demonstrações populares por todo o país.
para ouvir seus casos. Conquanto dificul­ Essas demonstrações foram marcadas para
dades com o exercício da justiça pudessem ocorrer simultaneamente com sua ascensão
ser identificadas já nos dias de Moisés (Ex ao trono em Hebrom.
18.13), as exigências de um governo em Tudo correu bem e a conspiração de
expansão inevitavelmente isolavam Davi Absalão rapidamente ganhou impulso.
do homem comum. Alguns inocentemente seguiram a Absalão
Absalão, contudo, explorava o distan­ sem compreender plenamente seus verda­
ciamento do rei, fazendo um esforço para deiros objetivos ou as questões envolvidas.
aparecer em público como o amigo do po­ Outros, como Aïtofel, o avô de Bate-Seba,
vo. Ele se solidarizava com aqueles que deram pronto apoio por causa de antigas
tinham de ficar esperando uma audiência mágoas contra Davi. Fossem quais fossem
na corte do rei, e protestava publicamente seus motivos, tantas pessoas por todo Israel
que não lhe tinha sido dada uma oportu­ se opunham a Davi que seu governo corria
nidade para servir ao povo. Ah! quem me sério perigo.
dera ser constituído juiz na terra! (lit.,
“Ah! se ele me designasse juiz”) sugere que 2) Davi Foge de Jerusalém (15.13-37)
Absalão sofria pelo fato de que Davi recu­
13Então veio um mensageiro a Davi, dizendo:
sara dar-lhe uma função importante no O coração de todo o Israel vai após Absalão.
governo. Ele dedicava tempo para conhe­ 14Disse, pois, Davi a todos os seus servos que
cer os reclamantes e suas causas, e tratava estavam com ele em Jerusalém: Levantai-vos, e
todos os forasteiros não como súditos, mas fujamos, porque doutra forma não poderemos
como amigos. O autor da Narrativa da escapar diante de Absalão. Apressai-vos a sair; não
seja caso que ele nos apanhe de súbito, e lance sobre
Sucessão assinala, contudo, a superficiali­ nós a ruina, e fira a cidade ao fio da espada.
dade do método popularesco de Absalão, 15Então os servos do rei lhe disseram: Eis aqui os
fazendo notar que ele também se envolvia teus servos para tudo quanto determinar o rei, nosso
nas questões militares da realeza. Seu car­ senhor. 16Assim saiu o rei, com todos os de sua
casa, deixando, porém, dez concubinas para guar­
ro e seus cinqüenta guarda-costas certa­ darem a casa. 17Tendo, pois, saído o rei com todo
mente teriam sido desnecessários, exceto o povo, pararam na última casa. 18E todos os seus
como um indício de seu desejo de se tor­ servos iam ao seu lado; mas todos os quereteus,
nar rei. Como um comentário final quan­ e todos os peleteus, e todos os giteus, seiscentos
homens que o seguiram de Gate, caminhavam
to a seus métodos demagógicos, o autor adiante do rei. 19Disse o rei a Itai, o giteu: Por que
declara que Absalão furtava (não conquis­ irias tu também conosco? Volta e fica-te com o rei,
tava) o coração dos homens de Israel. porque és estrangeiro e exilado; torna a teu lugar.
20Ontem vieste, e te levaria eu hoje conosco a
Após quatro anos em tais atividades, a vaguear? Pois eu vou para onde puder ir; volta, e
conspiração veio à tona. Absalão primeiro leva contigo teus irmãos; a misericórdia e a fide­
fez arranjos para ir a Hebrom sob o pretexto lidade sejam contigo.21Respondeu, porém, Itai ao

135
rei, e disse: Vive o Senhor, e vive o rei meu senhor, tivesse permanecido em Jerusalém, não
que no lugar em que estiver o rei meu senhor, seja importa quão fortes fossem suas defesas,
para morte, seja para vida, ai estará também o teu
serva 22Então disse Davi a Itai: Vai, pois, e passa a influência de Davi em Israel teria sido
adiante. Assim passou Itai, o giteu, e todos os seus neutralizada, e a fome iria provocar, no fim,
homens, e todos os pequeninos que havia com ele; a sua rendição. Contudo, com uma força
23Toda a terra chorava em alta voz, enquanto todo de soldados profissionais de grande mobi­
o povo passava; e o rei atravessou o ribeiro de lidade, Davi era ainda um fator ponderável,
Cedrom, e todo o povo caminhava na direção do
deserta 24E chegou Abiatar; e veio também até mesmo decisivo, na política israelita.
Zadoque, e com ele todos os levitas que levavam O autor descreve uma cena tensa e
a arca do pacto de Deus; e puseram ali a arca de tocante com Davi decidindo às pressas quais
Deus, até que todo o povo acabou de sair da cidade.
“ Então disse o rei a Zadoque: Torna a levar a arca de seus seguidores permaneceriam em Jeru­
de Deus à cidade; pois, se eu achar graça aos olhos salém e quais o acompanhariam em sua
do Senhor, ele me fará voltar para lá, e me deixará fuga pelo deserto. Seus servos (civis) o acom­
ver a arca e a sua habitaçãa 26Se ele, porém, panhariam para manterem intacto o seu
disser: Não tenho prazer em ti; eis-me aqui, faça governo; e seu exército regular, inclusive
a mim o que bem lhe parecer. 27Disse mais o rei
a Zadoque, o sacerdote: Não és tu porventura todos os mercenários filisteus, seria abso­
vidente? volta, pois, para a cidade em paz, e contigo lutamente indispensável.
também teus dds filhos, Aímaaz, teu filha, e Jônatas, Outros, contudo, ficaram. Davi ali
filho de Abiatar. “ Vede eu me demorarei nos vaus
do deserto até que tenha notícias da vossa parta deixou dez concubinas para enfrentarem
29Zadoque, pois, e Abiatar tornaram a levar para uma sorte desconhecida (16.20-23), como
Jerusalém a arca de Deus, e ficaram ali. “ Mas símbolos de sua permanente reivindicação
Davi, subindo pela encosta do monte das Oliveiras, do palácio real. Abiatar e Zadoque, guar­
ia chorando; tinha a cabeça coberta, e caminhava
com os pés descalços, làmbém todo o povo que diães da arca, estavam dispostos a segui-lo,
ia com ele tinha a cabeça coberta, e subia chorando mas Davi decidiu deixá-los em Jerusalém
sem cessar. 31Então disseram a Davi: Aitofel está como espiões. A posição deles como sacer­
entre os que conspiraram com Absalãa Pelo que dotes na adoração institucionalizada em
disse Davi: Ó Senhor, torna o conselho de Aiitofel Jerusalém dava-lhes uma desculpa para
em loucura! 32Ora, aconteceu que, chegando Davi
ao cume, onde se costumava adorar a Deus, Husai, ficarem, e também propiciava-lhes uma
o arquita, veio encontrar-se com ele, com a roupa certa medida de proteção. Finalmente, Davi
rasgada e a cabeça coberta de terra. 33Disse-lhe deixou Husai, um conselheiro amigo e de
Davi: Se fores comigoi, ser-me-ás pesado; Mporém confiança, para que se infiltrasse no corpo
se voltares para a cidade, e disseres a Absalão: Eu
serei, ó rei, teu servo; como fui dantes servo de teu
de assessores de Absalão. Ali, se fosse capaz
pai, assim agora serei teu servo; dissipar-me-ás então de conquistar a confiança de Absalão, ele
o conselho de Aitofel. 35E não estão ali contigo poderia solapar a influência de Aitofel, o
Zadoque e Abiatar, sacerdotes? Portanto, tudo o mais astuto dos estrategistas de Absalão.
que ouvires da casa do rei lhes dirás. “ Eis que Finalmente, feitos os acertos, Davi fugiu
estão também ali com eles seus dois filhos, Aümaaz,
filho de Zadoque, e Jônatas, filho de Abiatar; por pouco antes de Absalão entrar na cidade.
eles me avisareis de tudo o que ouvirdes. 37Husai, Tendo, pois, saído o rei com todo o povo.
pois, amigo de Davi, voltou para a cidade. E Absalão Davi deveria estabelecer um acampamento
entrou em Jerusalém.
de base em Maanaim (17.24-29), onde as
Ao saber do sucesso da ousada ação de famílias de suas tropas poderiam perma­
Absalão em Hebrom, Davi ordenou que necer em relativa segurança. Até que
seu governo e suas tropas saíssem de Jeru­ atravessassem o Jordão e estabelecessem
salém. Em vista da ampla base popular que seu acampamento, o bando de Davi estaria
apoiava Absalão, Davi podia ver que estava longe de constituir a força móvel de que
novamente se deparando com uma força carecia. Durante essa marcha crucial Davi
tática superior. Uma vez mais teria de esteve praticamente desamparado porque
recorrer a táticas de guerrilhas (cf. comen­ sua partida precipitada impediu-o de fazer
tário sobre ISm 23.1-4; 2Sm 5.17-25). Caso preparativos adequados e organizar melhor

136
o cuidado às famílias daqueles que o acom­ inclinando-se, disse: Que eu ache graça aos teus
panhavam (15.16,22). olhos, ó rei meu Senhor. 5Tendo o rei Davi
chegado a Baurim, veio saindo dali um homem da
Faça a mim o que bem lhe parecer. A linhagem da casa de Saul, cujo nome era Simei,
filosofia religiosa de Davi estava bem filho de Géra; e, adiantando-se, proferia maldições.
distante da concepção fatalista tão comum 6làmbém atirava pedras contra Davi e todos os
no Oriente Média Enquanto um fatalista seus servos, ainda.que todo o povo e todos os valo­
rosos iam à direita e à esquerda do rei. 7E,
se resigna passivamente a qualquer que seja amaldiçoando-o Simei, assim dizia: Sai, sai, homem
a sorte que lhe determine o seu deus, Davi sanguinário, homem de Belial! “O Senhor te deu
estava ativamente empenhado em fazer agora a paga de todo o sangue da casa de Saul,
tudo ao seu alcance para determinar seu em cujo lugar tens reinado; já entregou o Senhor
o reino na mão de Absalão^ teu filho; e eis-te agora
próprio futuro. Não obstante, estava na desgraça, pois és um homem sanguinária
convencido de que o Senhor basicamente ’Então Abisai, filho de Zeruia, disse ao rei: Por
tinha o controle da vida, e sua vontade por que esse cão morto amaldiçoaria ao rei meu senhor?
fim se cumpriria na história humana. Deixa-me passar e tirar-lhe a cabeça. '"Disse,
Davi saiu de Jerusalém chorando. O porém, o rei: Que tenho eu convosco, filhos de
Zeruia? Por ele amaldiçoar e por lhe ter dito o
autor retrata vividamente a relutância de Senhor: Amaldiçoa a Davi; quem dirá: Por que
Davi em partir, ao descrever suas paradas assim fizeste? "Disse mais Davi a Abisai, e a todos
na última casa da cidade (v. 17 e s.), ao lado os seus servos: Eis que meu filho, que saiu das
do Cedrom (v. 23 e s.), e sobre o monte das minhas entranhas, procura tirar-me a vida; quanto
Oliveiras (v. 30 e s.). Sem dúvida, Davi mais ainda esse benjamita? Deixai-o; deixai que
amaldiçoe, porque o Senhor lho ordenou. >2Forven-
chorava porque aquela era considerada a tura o Senhor olhará para a minha aflição, e me
sua cidade, mas sobretudo porque se pagará com bem a maldição deste dia. MProsse-
lembrava de que era seu filho que buscava guiam, pois, o seu caminho, Davi e os seus homens,
tirar-lhe a vida (16.11; 17.3,4). enquanto Simei ia pela encosta do monte, defronte
dele, caminhando e amaldiçoando, e atirava pedras
Dissipar-me-ás então o conselho de contra ele, e levantava poeira. 14E o rei e todo o
Aitofel. O conselho de Altofel era conside­ povo que ia com ele chegaram cansados ao Jordão,
rado quase em pé de igualdade com um e ali descansaram.
oráculo divino (16.23). Davi conhecia-o
bem, e Absalão tinha-o em alta estima. Davi A atenção dedicada aos detalhes da fuga
reconheceu que sua maior ameaça estava de Davi de Jerusalém confirma a seriedade
na sabedoria de Aítofel. Por tal razão, o da rebelião de Absalão. Não só a posse do
papel de Husai como espião era importan­ trono por Davi estava sendo desafiada, mas
tíssimo. também rivalidades tribais e regionais outra
vez ameaçavam destruir a unidade de Israel.
Embora o golpe de estado dado por Absalão
3) A Família de Saul Opõe-se a Davi não constituísse uma mudança dinástica
(16.1-14) nem um movimento de secessão, tal evento
proporcionou aos seguidores de Saul uma
'Tendo Davi passado um pouco além do cume,
eis que Ziba, o moço de Mefibosete, veio encontrar-
oportunidade para restabelecerem um reino
-se com ele, com um par de jumentos albardados, independente sobre as tribos do norte. A
e sobre eles duzentos pães, cem cachos de passas, nação não estava desta vez dividida em
e cem de frutas de verão e um odre de vinha função das fronteiras regionais, mas os dois
zPerguntou, pois, o rei a Ziba: Que pretendes com incidentes seguintes revelam que poderosas
isso? Respondeu Ziba: Os jumentos são para a casa
do rei, para se montarem neles; e o pão e as frutas pressões desagregadoras estavam ocultas,
de verão para os moços comerem; e o vinho para movendo-se logo abaixo da superfície da
os cansados no deserto beberem. ^Perguntou ainda política israelita.
o rei: E onde está o filho de teu senhor? Respondeu Mal havia Davi perdido Jerusalém de
Ziba ao rei: Eis que permanece em Jerusalém, pois
disse: Hoje a casa de Israel me restituirá o reino
vista quando encontrou-se com Ziba, o
de meu pai. ‘‘Então disse o rei a Ziba: Eis que tudo mordomo sobre as propriedades de Saul,
quanto pertencia a Mefibosete é teu. Ao que Ziba, oferecendo apoio simbólico à causa de Davi

137
e notícias de ambições de Mefibosete. Absalão, disse-lhe: Viva o rei, viva o rei! 17Absa­
Conquanto os presente i de Ziba fossem de lão, porém, perguntou a Husai: É esta a tua bene­
volência para com o teu amigo? Por que não foste
proporções modestas, eram, não obstante, com o teu amigo? 18Respondeu-lhe Husai: Não;
importantes. Forças guerrilheiras, que não pois daquele a quem o Senhor, e este povo, e to­
dispõem de adequado apoio logístico, não dos os homens de Israel têm escolhido, dele serei
podem sobreviver sem essas muitas provas e com ele ficarei. 19E, demais disto, a quem servi­
de apoio popular (17.27-29). ria eu? Porventura não seria a seu filho? Como
servi a teu pai, assim servirei a ti. “ Então disse
Mefibosete mal podia esperar pela vinda Absalão a Altofel: Dai o vosso conselho sobre o
de Absalão para Jerusalém a fim de que devemos fazer. 21Respondeu Altofel a Absa­
convidá-lo a ser rei de todo Israel. É muito lão: Entra às concubinas de teu pai, que ele dei­
provável, porém, que ele estivesse esperando xou para guardarem a casa; e assim todo o Israel
ouvirá que te fizeste aborrecivel para com teu pai,
se aproveitar da confusão para estabelecer e se fortalecerão as mãos de todos os que estão
um reino como o de Isbosete sobre as tribos contigo. 22Estenderam, pois, para Absalão uma
do norte (a casa de Israel). Por outro lado, tenda no terraço; e entrou Absalão às concubinas
Ziba pode ter caluniado o seu senhor para de seu pai, à vista de todo o Israel. 23E o conse­
lho que Aítofel dava naqueles dias era como se o
tirar vantagem pessoal. Quando Davi mais oráculo de Deus se consultara; tal era todo o
tarde retornou a Jerusalém, não sabia se conselho de Altofel, tanto para com Davi como
acreditava em Ziba ou em Mefibosete; por para Absalão.
isso, dividiu os bens de Saul.
Em Baurim, a pequena distância a leste Quando Absalão chegou a Jerusalém,
de Jerusalém, Davi encontrou Simei, um soube que por pouco não conseguira rea­
lizar seu plano de sitiar Davi na cidade.
parente distante de Saul, que expressou os
sentimentos hostis de muitos de seus conci­ O fato de Davi ter escapado por um triz
dadãos de tribo (cf. 20.1). Lançando pedras para o deserto com o núcleo de um exér­
e amaldiçoando, Simei acusou Davi de cito respeitável apresentava às forças de
cumplicidade nas mortes violentas que Absalão uma nova situação tática, reque­
haviam dizimado a casa de Saul (cf. 1.10; rendo uma estratégia completamente dife­
3.27; 4.8; 21.1-14). Abisai, irmão do feroz rente. Era claro que a vitória final podia
e sanguinário Joabe, ofereceu-se para deca­ ser ganha ou perdida em função das deci­
pitar Simei por sua impertinência. Davi, sões tomadas nas primeiras horas cruciais
porém, reconheceu que tinha mais a ganhar após a chegada de Absalão a Jerusalém.
com a tolerância do que com uma enérgica Das pessoas que permaneceram na ci­
exibição de força. Assim, suportou silencio­ dade, provavelmente a maioria parecia
samente as imprecações desse benjamita, pronta a ajudar o novo regime. Absalão
prosseguindo em sua jornada rumo ao sabia que muitas dessas pessoas não mere­
Jordão. Quando Davi voltou ao poder, deve ciam confiança, mas as demais poderiam
ter apreciado o humilhante pedido de oferecer valiosos bens e serviços à sua
desculpas de Simei (19.16-23), pois nunca causa. Husai, conselheiro de Davi, era um
perdoara verdadeiramente aquela ofensa. bom exemplo do dilema representado por
Ao final de sua vida, quando algumas das tais pessoas. Se ele estivesse sendo sincero
tensões regionais haviam esfriado um em sua transferência de lealdade, ninguém
pouco, Davi instruiu Salomão a procurar poderia dar a Absalão uma melhor expli­
uma oportunidade de vingar-se do insulto cação quanto aos planos e táticas de Davi.
em Baurim (lRs 2.8,9). É claro que ele teria de ser vigiado, mas
o potencial de sua utilidade era grande
demais para que seu ofçrecimento de aju­
4) Absalão Entra em Jerusalém (16.15-23) da fosse rejeitado de pronto.
,5Absalão e todo o povo, os homens de Israel, Embora Davi tivesse escapado por pou­
vieram a Jerusalém; e Altofel estara com ele 16E co de ficar cercado em Jerusalém, a cap­
chegando Husai, o arquita, amigo de Davi, a tura da capital de Israel por Absalão ain­

138
da representava uma tremenda vitória psi­ desmaiará; porque todo o Israel sabe que teu pai
cológica para os que o apoiavam. Enquan­ é valoroso, e que são valentes os que estão com
ela "Eu, porém, aconselho que com toda a pressa
to todos os olhares ainda estavam voltados se ajunte a ti todo o Israel, desde Dã até Berseba,
para os acontecimentos relacionados com em multidão como a areia do mar; e que tu em
a queda da cidade, Absalão procurou um pessoa vás à peleja. 12Então iremos a ele, em
meio de tirar o maior proveito propagan- qualquer lugar em que se achar, e desceremos so­
bre ele, como o orvalho cai sobre a terra; e não
dístico com sua vitória. Por sugestão de ficará dele e de todos os homens que estão com
Aítofel, outro dos antigos conselheiros de ele nem sequer um só. MSe ele, porém, se retirar
Davi, Absalão decidiu-se proclamar-se rei, para alguma cidade, todo o Israel trará cordas
mediante o ato de tomar publicamente àquela cidade, e. arrastá-la-emos até o ribeiro, até
posse das concubinas de seu pai (cf. co­ que não se ache ali nem uma só pedrinha. 14Então
Absalão e todos os homens de Israel disseram:
mentário sobre 3.7). Além do significado Melhor é o conselho de Husai, o arquita, do que
político, tal ato foi planejado para produ­ o conselho de Aitofel. Porque assim o Senhor b
zir um abismo pessoal entre pai e filho ordenara, para aniquilar o bom conselho de Aíto-
(Dt 22.30). Aparentemente, alguns dos fel, a fim de trazer o mal sobre Absalãa
seguidores de Absalão desejavam uma ga­
rantia de que seu líder não iria arranjar
uma trégua de último momento com Da­ A decisão básica perante Absalão e seus
vi, deixando seus companheiros de cons­ conselheiros dizia respeito às táticas a se­
piração em situação bastante difícil (Mc rem empregadas contra Davi, que ainda
Kane, p. 257). Talvez Aítofel também estava a apenas poucas horas de distância
pensasse que as ações de Absalão servi­ de Jerusalém. Aítofel era favorável a um
riam como retribuição adequada para o ataque imediato, a ser lançado naquela
tratamento dispensado por Davi a Urias mesma noite de modo que Davi pudesse
e Bate-Seba (cf. comentário sobre 11.3). ser apanhado antes de poder atravessar o
Rio Jordão. Aítofel compreendeu que,
5) Husai Ganha Tempo (17.1-14) uma vez que Davi conseguisse se infiltrar
no deserto além do Jordão, seria capaz de
'Disse mais Aítofel a Absalão: Deixa-me esco­
lher doze mil homens, e me levantarei, e perse­
prolongar a luta e combater de acordo
guirei a Davi esta noite. 2Irei sobre ele, enquanto com o tipo de guerra que suas tropas me­
está cansado e fraco de mãos, e o espantarei: en­ lhor conheciam. Se, contudo, pudessem
tão fugirá todo o povo que está com ele. Ferirei ser apanhadas junto com suas famílias e
tão-somente o rei; 3e farei tornar a ti todo o po­ bagagens antes de cruzarem o Jordão
vo, como uma noiva à casa do seu esposo; pois é
a vida dum só homem que tu buscas; assim todo (15.16,22), as forças de Absalão levariam
o povo estará em paz. 4E este conselho agradou uma vantagem decisiva. Ademais, havia
a Absalão e a todos os anciãos de Israel. 5Disse, uma clara possibilidade de que o próprio
porém, Absalão: Chamai agora a Husai, o arqui- Davi fosse morto, em cuja hipótese toda
ta, e ouçamos também o que ele diz. 6Quando a resistência ruiria por terra.
Husai chegou a Absalão, este lhe disse: Desta
maneira falou Aítofel; faremos conforme a sua Contudo uma expedição dessas não
palavra? Se não, fala tu. 7Então disse Husai a deveria ser feita de qualquer modo, os
Absalão: O conselho que Aitofel deu desta vez homens de Davi eram soldados profissio­
não é bom. 8Acrescentou Husai: Tii bem sabes nais; e, uma vez que haviam abandonado
que teu pai e os seus homens são valentes, e que
estão com o espírito amargurado, como a ursa no Jerusalém voluntariamente, as condições
campo, roubada dos seus cachorros; além disso de batalha poderiam ser de sua própria
teu pai é homem de guerra, e não passará a noite escolha. Uma marcha forçada durante a
com o povo. ’Eis que agora está ele escondido noite seria particularmente arriscada,
nalguma cova, ou em qualquer outro lugar; e será
que, caindo alguns no primeiro ataque, todo o que
pois tal manobra quase atrairia uma em­
o ouvir dirá: Houve morticínio entre o povo que boscada.
segue a Absalão. “ Então até o homem valente, Absalão, portanto, chamou a Husai pa­
cujo coração é como coração de leão, sem dúvida ra uma proposta alternativa. Reconhecen-

139
do que Davi não tini ia previsto que as 6) Davi Foge Para Maanaim (17.15-29)
forças de Absalão poderiam lançar sua
l5Também disse Husai a Zadoque e a Abiatar,
perseguição imediatamente além de Jeru­ sacerdotes: Assim e assim aconselhou Aitofel a
salém (15.28; cf. 17.16), Husai tentou de­ Absalão e aos anciãos de Israel; porém eu acon­
ter o ataque. Comparando os soldados de selhei assim e assim.16Agora, pois, mandai apres­
Davi e suas famílias a ursas que tiveram sadamente avisar a Davi, dizendo: Não passes
seus filhotes roubados, Husai recordou a esta noite nos vaus do deserto; mas passa sem
falta à outra banda, para que não seja devorado
Absalão a força de seu oponente. Ele en­ o rei, e todo o povo que com ele estiL 17Ora, Jô-
tão descartou a idéia de que a guerra pu­ natas e Aimaaz estavam esperando junto a En-
desse ser vencida com um único ataque, -Rogel; e foi uma criada, e lhes avisou, para que
uma vez que Davi, um ardiloso comba­ eles fossem e dissessem ao rd Davi; pois não de­
viam ser vistos entrando na cidade. 18Viu-os to­
tente do deserto, dificilmente seria tão davia um moço, e avisou a Absalãa Ambos, po­
ingênuo para dormir no descampado com rém, partiram apressadamente, e entraram em
o grosso de suas tropas. Finalmente, Husai casa de um homem, em Baurim, o qual tinha no
fez notar que nessa primeira batalha até pátio de sua casa um poço, para o qual eles des­
ceram. 19E a mulher, tomando a tampa, colocou-a
mesmo baixas modestas nas tropas de sobre a boca do poço, e espalhou grão triturado
Absalão poderiam ter efeitos desastrosos sobre ela; assim nada se soube. ^Chegando, pois,
sobre seus seguidores em qualquer confli­ os servos de Absalão àquela casa, perguntaram à
to prolongado. Em resumo, desaprovava o mulher: Onde estão Ai'maaz e Jônatas? Respon­
plano de Aitofel. deu-lhes a mulher: Já passaram a corrente das
águas. E, havendo-os procurado sem os encon­
Em lugar disso, Husai recomendou um trarem, voltaram para Jerusalém. 21Depois que
jogo de força que parecia bom, mas que eles partiram, Aimaaz e Jônatas, saindo do poço,
na realidade representava as próprias tá­ foram e avisaram a Davi; e disseram-lhe: Levantai-
-vos, e passai depressa as águas, porque assim e
ticas que Davi esperava que seus perse­ assim aconselhou contra vós Aitofel. “ Então se
guidores tivessem. Em contraste com a levantou Davi e todo o povo que com ele estava,
força móvel de homens bem treinados, e passaram o Jordão; e ao raiar da manhã não
Husai recomendou um exército bem nu­ faltava nem um só que não o tivesse passada
“ Venda, pois, Aitofel que não se havia seguido o
meroso de recrutas trazidos de todo o Is­ seu conselho^ albardou o jumento e, partindo, foi
rael. Em lugar de aceitar o oferecimento para casa, para a sua cidade; e, tendo posto em
da liderança madura de Aitofel, o próprio ordem a sua casa, se enforcou e morreu; e foi se­
Absalão iria comandar a expedição. Para pultado na sepultura de seu pai. 24Então Davi veio
afastar os líderes de Israel para ainda mais a Maanaim; e Absalão passou o Jordão, ele e to­
dos os homens de Israel com ela “ E Absalão
longe das verdadeiras táticas de Davi, colocou Amasa em lugar de Joabe sobre o exér­
Husai deixou subentendido que, em vista cito. Ora, Amasa era filho de um homem que se
de tão esmagadora força, Davi provavel­ chamava Itra, o jizreelita, o qual entrara a Abi-
mente buscaria refúgio numa cidade on­ gail, filha de Naás e irmã de Zeruia, mãe de Joa-
b a "Israel e Absalão se acamparam na terra de
de pudesse ser facilmente capturado. Hu­ Gileada 27Tendo Davi chegado a Maanaim, Sobi,
sai havia desempenhado muito bem seu filho de Naás, de Rabá dos filhos de Amom, e
papel de espião! Maquir, filho de Amiel, de Lo-Debar, e Barzilai,
A despeito do fato de que o conselho o gileadita, de Rogelim, “ tomaram camas, bacias
e vasilhas de barro; trigoi, cevada, farinha, grão
de Husai ignorava a vida pregressa de Da­ tostado, favas, lentilhas e torradas; 2’mel, mantei­
vi como um líder guerrilheiro, os dirigen­ ga, ovelhas e queijos de vaca, e os trouxeram a
tes de Israel aceitaram o seu plano. Esse Davi e ao pow que com ele estava, para come­
abandono da sabedoria e da lógica moti­ rem; pois diziam: O povo está faminto, cansado
e sedento, no deserta
varam um raro comentário editorial do
antigo autor. Tal decisão era compreensí­ Ao final de sua conversa com Absalão,
vel somente se o Senhor o ordenara para Husai ainda estava incerto quanto aos
aniquilar o bom conselho de Aitofel, a fim planos finais de batalha do rei rebelde. Os
de trazer o mal sobre Absalão. anciãos de Israel pareciam impressionados

140
com as propostas de Husai, mas podiam segredo com que se desenvolvera a cons­
estar tentando enganá-lo, a fim de arma­ piração de Absalão e o caráter repentino
rem uma cilada para Davi. Por uma ques­ de seu ataque contra Jerusalém haviam
tão de segurança, Husai fez arranjos para deixado pouquíssimo tempo para os prepa­
informar Davi de toda a discussão sobre rativos para uma longa jornada através do
a estratégia e advertiu-o a buscar ime­ deserto. Felizmente, os vassalos de Davi
diatamente refúgio no deserto da Trans- além do Jordão decidiram permanecer-lhe
jordânia. fiéis. É possível que estivessem buscando
A linha de comunicação d,e Davi com vantagens na hipótese de que, como espe­
seus espiões em Jerusalém envolvia os sa­ ravam, ele surgisse como vitorioso nessa
cerdotes Zadoque e Abiatar, e os filhos luta. Por outro lado, podem ter tido a espe­
deles, Aímaaz e Jônatas. Estes dois ti­ rança de incentivar outra devastadora
nham-se escondido fora de Jerusalém, pro­ guerra civil israelita, que os deixaria livres
vavelmente por preverem que todos os para seguirem seu próprio destino. Fossem
antigos membros da corte de Davi seriam quais fossem os seus motivos, forneceram
proibidos de deixar a cidade. Zadoque e os suprimentos que eram essenciais para
Abiatar confiaram a mensagem de Husai que a causa de Davi se mantivesse em pé.
a uma criada que regularmente trazia Nesse entretempo, Absalão não ficara
água de En-Rogel, uma fonte localizada ocioso. Enquanto Davi apressadamente
uns quatrocentos metros ao sul dos muros reunia provisões (e talvez mais soldados?)
da cidade. O perigo que rodeava os aliados dentre seus aliados, Absalão ajuntava um
de Davi em Jerusalém é sugerido pelo fato exército de todo o Israel, pondo-o sob o
de que os filhos dos sacerdotes foram reco­ comando de Amasa, primo de Joabe e outro
nhecidos na fonte e conseguiram escapar dos sobrinhos de Davi. Acompanhado por
da perseguição somente por se esconderem esse imenso exército, Absalão cruzou o
no poço de amigos em Baurim. As opor­ Jordão e acampou em Gileade em busca
tunidades em que Davi e seu povo esca­ de Davi e seus homens.
param por pouco do perigo servem para
tornar o leitor ainda mais cônscio da par­ Então Davi veio a Maanaim. Conquanto
ticipação de Deus nessas ocorrências. a localização de Maanaim seja hoje desco­
Deus estava operando para livrar Davi e nhecida, parece ter sido uma cidade
derrotar Absalão. Assim, Davi pôde con­ bastante fortificada no planalto de Gileade.
duzir seu rebanho até o lugar seguro do Tinha logicamente sido a capital do reino
outro lado do Jordão. do norte sob o reinado de Isbosete (2.8).
Quando Aitofel soube que Absalão se Parece bem possível que, de conformidade
decidira pela estratégia de Husai, conven- com as táticas guerrilheiras de Davi, muitos
dos seus estavam acampados no deserto que
ceu-se de que sua própria sorte estava
rodeava a cidade (17.29).
selada. Pôde antever que os rebeldes não
teriam esperanças de uma vitória militar Sobi, filho de Naás. Davi havia nomeado
sobre Davi enquanto interpretassem tão Sobi para governar Amom após a queda
erroneamente as táticas do inimiga Não de Rabá (10.1—12.31). Maquir, de Lo-Debar,
tendo meios de prever a surpreendente em Gileade oriental, havia outrora prote­
consideração de Davi para com os que, gido Mefibosete e dele cuidado. Talvez
sem êxito, se rebelaram contra ele (19.13), apoiasse Davi por seu tratamento bondoso
Aitofel pôs seus negócios em ordem e para com o herdeiro de Jônatas (9.4-13).
matou-se. Barzilai, homem rico e idoso, obteve a
Quando Davi e seus homens chegaram eterna gratidão de Davi pelo apoio que lhe
a Maanaim, estavam totalmente sem propiciou naquela hora sombria (cf.
condições, quer de viver, quer de lutar. O 19.31-39; lRs 2.7).

141
memória do meu nome. E deu o seu próprio nome
7) Àbsalão Morto em Batalha (18.1-18) àquela coluna, a qual até o dia de hoje se chama
'Então Davi contou o povo que tinha consigo, o Pilar de Absalãa
e pôs sobre ele os chefes de mil e chefes de cem.
2E Davi enviou o exército, um terço sob o mando Davi não havia abandonado Jerusalém
de Joabe, outro terço sob o mando de Abisai, filho para ser apanhado dentro da cidade murada
de Zeruia, irmão de Joabe, e outro terço sob o
mando de Itai, o giteu. E disse o rei ao povo: Eu
de Maanaim! Ele havia escolhido lutar no
também sairei convosca -’Mas o povo respondeu: bosque de Efraim (na realidade, um local
Não sairás; porque se fugirmos, eles não se impor­ a leste do Jordão, na altura de Gileade),
tarão conosco; nem se importarão conosco ainda onde a densa vegetação no meio do bosque
que morra metade de nós; porque tu vales por dez dispersaria a milícia inexperiente de
mil tais como nós. Melhor será que da cidade nos
mandes socorra 4Respondeu-lhes o rei: Farei o Absalão, concedendo a seus próprios
que vos parecer bem. E o rei se pôs ao lado da soldados profissionais enorme vantagem.
porta, e todo o povo saiu em centenas e em milhares. Sabendo que manobras em larga escala
5E o rei deu ordem a Joabe, a Abisai e a Itai, seriam impossíveis em tal terreno, Davi
dizendo: Tratai brandamente, por amor de mim,
o mancebo Absalãa E todo o povo ouviu quando
dividiu suas tropas em três grupos, sob o
o rei deu ordem a todos os chefes acerca de Absalãa comando de Joabe, Abisai e Itai, o giteu,
6Assim saiu o povo a campo contra Israel; e deu- todos eles leais veteranos. Ficando na reta­
-se a batalha no bosque de Efraim.7Ali o povo de guarda, Davi enviou seus homens com as
Israel foi derrotado pelos servos de Davi; e naquele instruções finais de que tratassem branda­
dia houve ali grande morticínio, de vinte mil homens.
8Pois a batalha se estendeu sobre a face de toda mente o jovem Absalão.
aquela terra, e o bosque consumiu mais gente A batalha propriamente dita ocorreu
naquele dia do que a espada. 9Por acaso Absalão como Davi havia esperado. Ambos os exér­
se encontrou com os servos de Davi; e Absalão ia citos se espalharam, e seus próprios soldados
montado num mulo e, entrando o mulo debaixo profissionais infligiram pesadas baixas às
dos espessos ramos de um grande carvalho, pegou-
-se a cabeça de Absalão no carvalho, e ele ficou tropas de Absalão em combates corpo-a-
pendurado entre o céu e a terra; e o mulo que estava -corpo. Maior foi o número de recrutas
debaixo dele passou adiante. “ Um homem, vendo israelitas despreparados que desertaram
issoi, contou-o a Joabe, dizendo: Eis que vi Absalão para as matas do que os que foram feridos
pendurado dum carvalha "Então disse Joabe ao
homem que lho contara: Pois que o viste, por que em batalha (cf. a engraçada figura de
não o derrubaste logo por terra? E eu te haveria linguagem do v. 8).
dado dez siclos de prata e um cinta 12Respondeu, Finalmente, o acontecimento que Aitofel
porém, o homem a Joabe: Ainda que eu pudesse havia imaginado (17.2) realmente veio a se
pesar nas minhas mãos mil siclos de prata, não passar: porém Absalão, e não Davi, foi a
estenderia a mão contra o filho do rei; pois bem
ouvimos que o rei deu ordem a ti, e a Abisai, e vítima. Num momento de distração,
a Itai, dizendo: Guardai-vos, cada um, de tocar no Absalão se deixou embaraçar numa árvore,
mancebo Absalãa 13E se eu tivesse procedido ficando assim sem defesa diante dos homens
falsamente contra a sua vida, coisa nenhuma se de Davi. Não obstante, os soldados comuns
esconderia ao rei, e tu mesmo te oporias a mim.
14Então disse Joabe: Não posso demorar-me assim recordaram-se das palavras de Davi e não
contigo aqui. E tomou na mão três dardos, e tras­ se dispunham nem mesmo a serem subor­
passou com eles o coração de Absalão, estando nados para golpear o pobre rei rebelde.
ele ainda vivo no meio do carvalha 15E o cercaram Somente quando seu destemido e brutal
dez mancebos, que levavam as armas de Joabe; e comandante, Joabe, desferiu o primeiro
feriram a Absalão, e o mataram. 16Então tocou
Joabe a buzina, e o povo voltou de perseguir a Israel; golpe, alguns dos homens de Davi levan­
porque Joabe deteve o povo. 17E tomaram a taram a mão contra Absalão. Então todos
Absalão e, lançando-o numa grande cova no bosque, os guarda-costas de Joabe feriram Absalão
levantaram sobre ele mui grande montão de pedras. a fim de que nenhum homem recebesse
E todo o Israel fugiu, cada um para a sua tenda.
18Ora, Absalão, quando ainda vivia, tinha feito sozinho a descarga da ira de Davi. O corpo
levantar para si a coluna que está no vale do rei; foi então sepultado sob uma pilha de rochas
pois dizia: Nenhum filho tenho para conservar a no bosque, e a batalha teve fim.

142
Vales por dez mil tais como nós. Davi teu Deus, que entregou os homens que levantaram
era insubstituível, uma vez que sem ele a a mão contra o rei meu senhor. 29Então perguntou
o rei: Vai bem o mancebo Absalão? Respondeu
resistência a Absalão se desmoronaria. Aimaaz: Quando Joabe me mandou a mim, o servo
Tratai brandamente. As instruções de do rei, vi um grande alvoroço; porém não sei o que
Davi podem ter por base mais do que era. “ Disse-lhe o rei: Põe-te aqui ao lado. E ele
simples preocupação paternal. Por toda sua se pôs ao lado, e esperou> de pé. 31Nisso chegou
carreira ele foi impressionantemente tole­ o cuchita, e disse: Novas para o rei meu senhor.
Pois que hoje o Senhor te vingou da mão de todos
rante com os israelitas de nascimento que os que se levantaram contra ti. 32Então perguntou
a ele se opunham politicamente (cf. comen­ o rei ao cuchita: Vai bem o mancebo Absalão?
tário sobre 2.1-32; 19.22). Enfrentou uma Respondeu o cuchita: Sejam como aquele mancebo
luta constante para manter unidos o norte os inimigos do rei ineu senhor, e todos os que se
levantam contra ti para te fazerem mal. 33Pelo que
e o sul. Joabe, por exemplo, era muito mais o rei ficou muito comovido e, subindo à sala que
brutal do que Davi desejava (3.39). estava por cima da porta, pôs-se a chorar; e andando,
Traspassou (...) o coração de Absalão. dizia assim: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho
Somente um homem de grande poderio era Absalão! quem me dera que eu morrera por ti
capaz de desafiar dessa forma uma ordem Absalão^ meu filho, meu filho!
do rei. Joabe comandava tropas que sem Após chegar ao clímax da batalha no
dúvida eram leais à sua pessoa. Se Abner bosque de Efraim, o autor passa a relatar
foi a força por trás do trono de Isbosete o modo por que Davi soube da morte do
(2.8,9), então Joabe deve ter sido uma filho. A história é narrada artisticamente
importante força por detrás de Davi. com plena consciência do caráter marcante
e comovente daquele episódio. O rei, que
8) Relato da Morte de Absalão (18.19-33) já está ficando idoso, é descrito como
alguém que está ainda esperando ansiosa­
19Então disse Aímaaz, filho de Zadoque:
Deixa-me correr, e anunciarei ao rei que o Senhor mente bem junto ao portão da cidade, do
o vingou da mão de seus inimigos. “ Mas Joabe lado de dentro, por qualquer notícia da
lhe disse: Di não serâs hoje o portador das novas; frente de batalha. Finalmente um corredor
outro dia as levarás, mas hoje não darás a nova, apareceu à distância e, logo em seguida,
porque é morto o filho do rei. 21Disse, porém, outro! O primeiro relatou somente que
Joabe ao cuchita: Vai tu, e dize ao rei o que viste.
O cuchita se inclinou diante de Joabe, e saiu Absalão havia sido derrotado na batalha,
correndo. 22Então prosseguiu Aimaaz, filho de mas o segundo trouxe notícias de sua morte.
Zadoque, e disse a Joabe: Seja o que for, deixa-me A torturante ambivalência dos homens de
também correr após o cuchita. Respondeu Joabe: Davi fica evidente com os relatos desses
Para que agora correrias tu, meu filho, pois não
receberias recompensa pelas novas? 23Seja o que dois, quando a comemoração de vitória foi
for, disse Aimaaz, correrei. Disse-lhe, pois, Joabe: silenciada pelo culposo conhecimento que
Corre. Então Aimaaz correu pelo caminho da tinham da morte de Absalão.
planície, e passou adiante do cuchita. 24Ora, Davi É fato digno de encómios que Davi ainda
estava sentado entre as duas portas; e a sentinela se preocupasse com o bem-estar de um filho
subiu ao terraço da porta junto ao muro e, levan­
tando os olhos, viu um homem que corria só. que buscava tirar-lhe a vida (16.11). A dor
25Gritou, pois, a sentinela, e o disse ao rei. de Davi, porém, levou-o a perder o ânimo
Respondeu o rei: Se vem só, é portador de novas. de viver e a ignorar as necessidades de
Vinha, pois, o mensageiro aproximando-se cada homens que tinham sido filhos mais verda­
vez mais. “ Então a sentinela viu outro homem que
corria, e gritou ao porteiro, e disse: Eis que lá vem deiros do que jamais Absalão havia sido.
outro homem correndo só. Então disse 0 rei: Desde o assassinato de Amnon, a falta de
Também esse traz novas. 27Disse mais a sentinela: comunicação significativa entre pai e filho
O correr do primeiro parece ser o correr de Aimaaz, provavelmente complicara o ajuste à morte
filho de Zadoque: Então disse o rei: Este é homem do filho. Deve Davi ter tido consciência de
de bem, e virá com boas novas. “ Gritou, pois,
Aimaaz, e disse ao rei: Paz! E indinou-se ao rei que seus fracassos como pai haviam contri­
com o rosto em terra, e disse: Bendito seja o Senhor buído para o ignóbil fim do filho. Com

143
muita freqüência, a dor excessiva procede filho! 5Então entrou Joabe na casa onde estava o
de um senso de culpa reprimido. rei, e disse: Hoje envergonhaste todos os teus servos,
Tu não serás hoje o portador das novas. que livraram neste dia a tua vida, a vida de teus
filhos e filhas, e a vida de tuas mulheres e concu­
A palavra novas regularmente se aplica a binas, 6amando aos que te odeiam, e odiando aos
boas novas (contudo cf. ISm 4.17, que é que te amam. Forque hoje dás a entender que nada
uma exceção). Esta cláusula não é uma valem para ti nem chefes nem servos; pois agora
ordem direta; é uma simples declaração de entendo que se Absalão vivesse, e todos nós hoje
fato: hoje você não será um homem de boas fôssemos mortos, ficarias bem contente. 7Levanta-
-te, pois, agora; sai e fala ao coração de teus servos.
novas. Não podia haver boas novas naquele Porque pelo Senhor te juro que, se não saires, nem
dia porque o filho do rei estava morto. um só homem ficará contigo esta noite; e isso te
Vai tu, e dize ao rei o que viste. Comen­ será pior do que todo o mal que tem vindo sobre
taristas têm especulado que Joabe enviou ti desde a tua mocidade até agora. “Pelo que o rei
se levantou, e se sentou à porta; e avisaram a todo
o cuchita, um etíope, para evitar que em o povo, dizendo: Eis que o rei está sentado à porta.
sua mente Davi associasse Aimaaz com as Então todo o povo veio apresentar-se diante do rei.
más notícias da morte de Absalão (1.15,16; Ora, Israel havia fugido, cada um para a sua tenda.
3.10; cf. McKane, p. 266). Esta suposição* ’Entrementes todo o povo, em todas as tribos de
Israel, andava altercando entre si, dizendo: O rei
contudo, deixaria sem resposta a questão nos tirou das mãos de nossos inimigos, e nos livrou
de por que Joabe finalmente acedeu ante das mãos dos filisteus; e agora fugiu da terra por
os insistentes apelos de Aimaaz. Parece mais causa de Absalãa 10Tkmbém Absalão, a quem
provável que Aimaaz sabia dos resultados ungimos sobre nós, morreu na peleja. Agora, pois,
gerais da batalha (v. 6-8), mas só naquele por que vos calais, e não fazeis voltar o rei?
nEntão o rei Davi mandou dizer a Zadoque e a
momento estava sendo informado da morte Abiatar, sacerdotes: Falai aos anciãos de Judá,
de Absalão. O etíope fora enviado para levar dizendo: Por que seríeis vós os últimos em tornar
a notícia por que não conhecia os detalhes a trazer o rei para sua casa? Porque a palavra de
sobre o fim de Absalão. todo o Israel tem chegado ao rei, até a sua casa.
12Vós sois meus irmãos; meus ossos e minha carne
Não sei o que era. Aimaaz, contudo, sois vós; por que, pois, serieis os últimos em tornar
havia tido alguma informação da morte de a trazer o rei? 13Dizei a Amasa: Porventura não
Absalão. Essa declaração ou é uma mentira és tu meu osso e minha carne? Assim me faça Deus,
intencional, ou era costume que um mensa­ e outro tanto, se não fores chefe do exército diante
geiro devia relatar somente sua própria de mim para sempre, em lugar de Joabe. 14Assim
moveu ele o coração de todos os homens de Judá,
experiência. Ao mencionar a atividade que como se fosse o de um só homem; e enviaram ao
havia contemplada, Aimaaz preparou Davi rei, dizendo: Volta, com todos os teus servos.
para as más notícias que se seguiriam, mas 15Então o rei voltou, e chegou até o Jordão; e Judá
descartou qualquer conhecimento direto do veio a Gilgal, para encontrar-se com o rei, a fim
de fazê-lo passar o Jordãa
assunto. Assim, Aimaaz apareceu perante
o rei como sendo inocente de cumplicidade
r_a morte de Absalão. Contrariamente às expectativas de
Joabe, o assassinato de Absalão provocou
uma rápida queda no moral das tropas de
8. Davi Volta a Ocupar o TVono (19.1-40) Davi. Naquele exato momento em que
medidas rápidas e decisivas eram necessá­
1) Israel Chama Davi de Volta (19.1-15) rias para tirar vantagem da falta de liderança
'Disseram a Joabe: Eis que o rei estâ chorando em Israel, Davi estava imobilizado por seu
e se lamentando por Absalãa 2Então a vitória se próprio remorso, repleto de culpas, por
tornou naquele dia em tristeza para todo o povo, causa da morte do filho. Homens que
porque nesse dia o povo ouviu dizer: O rei estâ haviam arriscado a vida em batalha estavam
muito triste por causa de seu filha 3E nesse dia compreensivelmente desapontados ao
o povo entrou furtivamente na cidade, como o faz
quando, envergonhado, foge da peleja. 4Estava, saberem que seu líder pensava exclusiva­
pois, o rei com o rosto coberto^ e clamava em alta mente na morte de um a quem haviam sido
voz: Meu filho Absalão, Absalão meu filho, meu levados a considerar como o inimigo. Prova-
144
velmente muitos outros temiam que Davi As motivações de Davi para fazer essa
pudesse estar planejando punir os que eram mudança têm sido acaloradamente deba­
suspeitos de violar sua ordem de poüpar tidas e exaustivamente criticadas (McKane,
Absalão. Assim, quanto mais Davi demo­ p. 271,272). Deve-se notar, contudo, que
rasse para aparecer em público, mais incerto Joabe manteve o. posto de menor prestígio,
se tomava o futuro de sua causa. mas de maior poder imediato, de coman­
Em seu confronto com Joabe, Davi foi dante do exército regular de Davi de
forçado a reconhecer os fatos sombrios na mercenários estrangeiros (20.7). Esse era
realidade política. Suas políticas estavam o exército que acabara de derrotar a milícia
sendo desafiadas, e ele enfrentava deserção de Israel no bosque de Efraim. Em prin­
por atacado. Para muitos, parecia que sua cípio, Amasa podia estar numa posição de
atitude conciliatória para com o inimigo exercer grande influência no governo de
(16.11; 19.22) e sua dor diante da morte do Davi, mas até ser enviado para convocar
filho rebelde derivavam de uma falta de inte­ e treinar um exército de soldados alistados,
resse pelos que o apoiavam. Davi, portanto, seu papel era em grande parte honorífico.
deixou de parte todos os outros interesses No final das contas, não viveu muito tempo
(20 . 10).
e reuniu-se a seu povo nas ruas.
Davi pode ter decidido ignorar a respon­
Em vista da dificuldade que Davi estava sabilidade de Joabe pela morte de Absalão
tendo com seu próprio partido, é surpreen­ para evitar dissensão naquele momento. O
dente que fosse capaz de reconquistar o segredo de Joabe dificilmente poderia ser-
trono de um Israel unido. Entretanto, após lhe ocultado (18.13), mas o autor bíblico
a morte de Absalão, o suicídio de AJtofel, não expressa qualquer interesse da parte
e a desastrosa derrota de Amasa, nem Israel de Davi em conhecer os detalhes da morte
nem Judá possuíam um líder que pudesse de Absalão. Conquanto Davi não repreen­
ganhar apoio suficiente para dirigir a nação. desse Joabe publicamente pela sua
Finalmente, as pessoas do povo do reino desobediência, tornaram-se evidentes os
do norte prevaleceram sobre seus anciãos claros indícios de tensão entre o rei e seu
e pediram a Davi que retornasse ao trono. general (19.13). Sem dúvida, Davi teve a
Num esforço para reunir seu antigo intenção de repreender Joabe como, por
reino, Davi fez um apelo especial aos exemplo, quando Abisai foi feito coman­
anciãos de Judá para que seguissem o dante supremo da expedição contra Sebá
exemplo de seus vizinhos do norte. Conti­ (20.6). Não obstante, durante toda a
nuando com sua antiga política para com campanha, Joabe permaneceu a persona­
seus concidadãos israelitas, Davi tratou com lidade dominante. Embora a morte de
muita generosidade aqueles que estiveram Absalão não seja especificamente mencio­
profundamente implicados na revolta nada como uma causa, Davi finalmente
contra ele (v. 16-30). Até concordou em apelou a Salomão para vingar o sangue
aceitar Amasa, o general de Absalão, em inocente derramado por Joabe (IReis 2.5,6).
seu próprio governo como comandante da 2) Davi Volta a Jerusalém (19.16-40)
milícia, desde que pudesse reunir um exér­
cito desses (20.4,5). Aparentemente, Davi “ Ora, apressou-se Simei, filho de Gêra, benja-
mita, que era de Baurim, e desceu com os homens
era motivado principalmente por fatores de Judá a encontrar-se com o rei Davi; 17e com
políticos, uma vez que Amasa não era ele mil homens de Benjamim, como também Ziba,
parente mais próximo de Davi do que o era servo da casa de Saul, e seus quinze filhos, e seus
Joabe (cf. 8.16; 17.25). Davi empregou vinte servos com ele; desceram apressadamente ao
Jordão adiante do rei, 18atravessando o vau para
termos semelhantes ao reivindicar paren­ trazer a casa do rei e para fazer o que aprouvesse
tesco com Amasa e com todo o povo de a ele. Quando o rei ia passar o Jordão, Simei, filho
Judá (v. 12,13). de Gêra, se prostrou diante dele, 19e lhe disse: Não

145
me impute meu senhor a minha culpa, e não te 39Havendo, pois, todo o povo passado o Jordão,
lembres do que tão perversamente fez teu servo, e tendo passado também o rei, beijou o rei a Barzilai,
no dia em que o rei meu senhor saiu de Jerusalém; e o abençoou; e este voltou para o seu lugar. 40Da*
não conserve o rei isso no coração. 20Porque eu, li passou o rei a Gilgal, e Quimã com ele; e todo
teu servo, deveras confesso que pequei; por isso o povo de Judã, juntamente com a metade do po­
eis que eu sou o primeira, de toda a casa de José, vo de Israel, conduziu o rei.
a descer ao encontro do rei meu senhor.
21Respondeu Abisai, filho de Zeruia, dizendo: Não
há de ser morto Sitnei por haver amaldiçoado ao Embora Davi tivesse recebido um
ungido do Senhor? 22Mas Davi disse: Que tenho convite das tribos tanto do norte quanto
eu convosco, filhos de Zeruia, para que hoje me
sejais adversários? Será morto alguém hoje em do sul para retornar como rei de Israel, o
Israel? pois não sei eu que hoje sou rei sobre Israel? resultado da rebelião de Absalão tinha
23Então disse o rei a Simei: Não morrerás. E o rei demonstrado quão extremamente débil real­
lho jurou. 24Também Mefibosete, filho de Saul, mente era seu domínio sobre o trono
desceu a encontrar-se com o rei, e não cuidara dos hebreu. Absalão havia desfrutado amplo,
pés, nem fizera a barba, nem lavara as suas vestes
desde o dia em que o rei saíra até o dia em que embora não universal, apoio popular, e Judá
voltou em paz. BE sucedeu que, vindo ele a Jeru­ havia estado particularmente relutante em
salém a encontrar-se com o rei, este lhe per­ fazer Davi retomar o poder. Davi, portanto,
guntou: Por que não foste comigo, Mefibosete? utilizou toda ocasião possível para demons­
“ Respondeu ele: Ó rei meu senhor, o meu servo trar sua disposição de perdoar erros
me enganou. Porque o teu servo dizia: Albardarei
um jumento, para nele montar e ir com o rei; pois
passados a fim de que obtivesse apoio para
o teu servo é coxa 27E ele acusou falsamente o teu seu esforço de conservar unido o povo de
servo diante do rei meu senhor; porém o rei meu Deus.
senhor é como um anjo de Deus; faze, pois, o que Ao retornar Davi para Jerusalém, foram
bem te parecer. 28Pois toda a casa de meu pai não ao seu encontro junto ao Jordão represen­
era senão de homens dignos de morte diante do
rei meu senhor; contudo, puseste teu servo entre tantes de Israel e Judá, os quais deveriam
os que comem à tua mesa. E que direito mais tenho escoltá-lo de volta à cidade. Algumas
eu de clamar ainda ao rei? 29Ao que lhe respondeu daquelas pessoas que haviam tido parti­
o rei: Pbr que falas ainda de teus negócios? Já decidi: cipação destacada em sua fuga da capital
Tu e Ziba reparti as terras. “ Então disse Mefibo­
sete ao rei: Deixe que ele tome tudoi, uma vez que
estavam presentes para fazer as pazes com
o rei meu senhor já voltou em paz à sua casa. o rei que retornava.
31Também Barzilai, o gileadita, desceu de Simei, que havia amaldiçoado Davi com
Rogelim, e passou com o rei o Jordão, para tanta desenvoltura enquanto o rei passava
acompanhá-lo até a outra banda do r ia 32E era por Baurim, estava à frente dos benjamitas
Barzilai mui velho, da idade de oitenta anos; e ele para pedir perdão ao rei pela imprudência
tinha provido o rei de viveres enquanto este se demo­
rara em Maanaim, pois era homem muito rica que cometera. Tendo a mesma visão vinga­
33Disse, pois, o rei a Barzilai: Passa tu comigo e tiva e cruel de seu irmão Joabe, Abisai
eu te sustentarei em Jerusalém, em minha compa­ sugeriu que Simei fosse executado por sua
nhia. “ Barzilai, porém, respondeu ao rei: Quantos ofensa contra o rei ungido do Senhor. Davi,
anos viverei ainda, para que suba com o rei a Jeru­
salém? 35Oitenta anos tenho hoje; poderei eu contudo, repreendeu os filhos de Zeruia e
discernir entre o bom e o mau? poderá o teu servo proclamou uma anistia para comemorar seu
perceber sabor no que comer e beber? poderei eu retorno ao trono. Na verdade, Davi não era
mais ouvir a voz dos cantores e das cantoras? e mais perdoador que Abisai ou Joabe (cf.
por que será o teu servo ainda pesado ao rei meu lRs 2.8,9), mas acreditava que a necessi­
senhor? %0 teu servo passará com o rei até um
pouco além do Jordãa Por que me daria o rei tal dade política requeria uma atitude
recompensa? 37Deixa voltar o teu servo, para que conciliadora, pelo menos até que a monar­
eu morra na minha cidade^ junto à sepultura de quia conquistasse aceitação mais ampla.
meu pai e de minha mãe. Mas eis ai o teu servo As tensões que freqüentemente eclodiam
Quimã; passe ele com o rei meu senhor, e faze-lhe
o que for do teu agrada 38Ao que disse o rei:
entre Davi e Joabe deviam, em última
Quimã passará comigo, e eu lhe farei o que te análise, remontar a esta controvérsia básica
parecer bem, e tudo quanto me pedires te farei. sobre o tratamento a ser dado aos oponentes

146
do regime de Davi (cf. 3.28,39; 16.10; 19.13; ele algum presente? 43Ao que os homens de Israel
20.6; lRs 2.5,6). responderam aos homens de Judá: Dez partes te­
Também entre aqueles que vieram mos no rei; mais temos nós em Davi do que vós.
Por que, pois, fizestes pouca conta de nós? Não
encontrar-se com Davi estava Mefibosete, foi a nossa palavra a primeira, para tornar a tra­
filho de Jônatas, que anteriormente havia zer o nosso rei? Porèm a palavra dos homens de
sido acusado de tentar promover suas Judá foi mais forte do que a palavra dos homens
próprias ambições políticas durante a fuga de Israel.
’Ora, sucedeu achar-se ali um homem de Be-
de Davi diante de Absalão (16.1-4). Uma lial, cujo nome era Sebá, filho de Bicri, homem
vez que Davi não tinha meios para discernir de Benjamim, o qual tocou a buzina, e disse: Não
quem estava certo — se Ziba com sua temos parte em Davi, nem herança no filho de
acusação, se Mefibosete com sua contra- Jessé; cada um à sua tenda, ó Israel! 2Então to­
dos os homens de Israel se separaram de Davi, e
acusação (v. 26) —, ele decidiu dividir a seguiram a Sebá, filho de Bicri; porém os homens
propriedade de Saul entre ambos. Embora de Judá seguiram ao seu rei desde o Jordão até
possa ter mantido sérias desconfianças Jerusalém.
quanto à correção das ações de Mefibosete
A frágil natureza do reino unido, nessa
durante sua ausência, continuaria fiel a sua
aliança de amizade com Jônatas (ISm altura da história de Israel, revela-se nas
20.42; cf. 2Sm 21.7). queixas triviais que eram suficientes para
precipitar um novo surto de resistência
Ao aproximar-se do Jordão, em sua volta
ao reinado de Davi. Nas festividades que
a Jerusalém, Davi estava chegando ao final acompanharam o retorno de Davi a Jeru­
de um dos períodos mais sombrios de sua
salém, os homens de Israel sentiam que a
existência. Havia sido deposto por um filho
tribo de Judá tinha recebido injustamente
rebelde que obtivera apoio de uma porção
considerável do povo de Israel. Mal conse­ o papel mais destacado. Os laços de pa­
guira escapar de Jerusalém para chegar, sem rentesco com Judá estavam tendo o mes­
mo peso que o tamanho maior de Israel
provisões, com suas tropas mercenárias ao
planalto além do Jordão. Compreensivel- e a primazia deste em pedir ao rei que
mente, Davi sentia-se profundamente voltasse, e o parentesco venceu o embate.
endividado com seus súditos leais, cujo Essa disputa insignificante sobre ques­
apoio material dera-lhe condições de recon­ tões de protocolo teria acabado sem maio­
quistar o trono. O idoso Barzilai simbolizava res problemas, não fora pela presença de
um inflamado benjamita que provavel­
aqueles a quem Davi jamais poderia recom­
pensar adequadamente e por quem sentia mente esperava alimentar suas próprias
uma obrigação eterna. Os descendentes de ambições monárquicas a expensas de Da­
Barzilai iriam, portanto, sempre encontrar vi. Aproveitando-se da proclamação de
pronta aceitação na corte de Israel (lRs 2.7). anistia por Davi, Sebá, filho de Bicri, re­
jeitou a liderança de Davi e persuadiu o
contingente israelita a retirar-se da procis­
9. Sebá Lidera a Revolta Israelita (19.41 são para Jerusalém. Os da tribo de Judá,
—20.26) contudo, provavelmente acompanhados
por alguns indivíduos das tribos do norte
1) A Desconfiança Provoca a Guerra (cf. Simei, o benjamita, lRs 2.8), conti­
(19.41—20.2) nuaram a escoltar Davi rumo à capital.
41Então todos os homens de Israel vieram ter Dez partes temos no rei. As dez tribos
com o rei, e lhe disseram: Por que te furtaram do norte teoricamente experimentavam a
nossos irmãos, os homens de Judá, e fizeram oposição de Judá e Simeão no sul (cf.
passar o Jordão o rei e a sua casa, e todos os comentário sobre ISm 9.1,2). Na realida­
seus homens com ele? 42Responderam todos os
homens de Judá aos homens de Israel: Porquanto de, contudo, Simeão não mais existia, e
o rei é nosso parente. Por que vos irais por isso? Judá havia crescido tanto a ponto de in­
Acaso temos comido à custa do rei, ou nos deu cluir todo o território ao sul de Benja­

147
mim. O sistema ideal de doze tribos esta­ pois, e cercaram a Sebá em Abel de Bete-Maacá;
va tão firmemente implantando nas men­ e levantaram contra a cidade um montão, que se
elevou defronte do muro; e todo o povo que estava
tes do povo que conservou-se o número com Joabe batia o muro para derrubá-la 16Então
maior mesmo quando o desaparecimento uma mulher sábia gritou de dentro da cidade: Ou­
de uma tribo foi claramente reconhecido vi! ouvi! Dizei a Joabe: Chega-te cá, para que eu
(lRs 11.29-32). Deve-se notar que isso te fale. 17Ele, pois, se chegou perto dela; e a mu­
ocorreu muito depois da divisão da tribo lher perguntou: 1b és Joabé? Respondeu ele: Sou.
Ela lhe disse: Ouve as palavras de tua serva. Dis­
de José para compensar o desaparecimen­ se ele: Estou ouvinda '“Então falou ela, dizendo:
to de Levi como uma tribo secular (Gn Antigamente costumava-se dizer: Que se peça
48.1-22; Nm 1.47-54; cf. Dt 33.1-29). conselho em Abel; e era assim que se punha ter­
mo às questões. 19Eu sou uma das pacíficas e das
fiéis em Israel; e tu procuras destruir uma cidade
2) Os Homens de Davi Perseguem Sebá que é mãe em Israel; por que, pois, devorarias a
(20.3-22) herança do Senhor? 20Então respondeu Joabe, e
3Quando Davi chegou à sua casa em Jeru­ disse: Longe, longe de mim que eu tal faça, que
salém, tomou as dez concubinas que deixara para eu devore ou arruine! 21A coisa não é assim; po­
guardarem a casa, e as pôs numa casa, sob guar­ rém um só homem da região montanhosa de
da, e as sustentava; porém não entrou a elas. As­ Efraim, cujo nome é Sebá, filho de Bicri, levantou
sim estiveram encerradas até o dia da sua morte, a mão contra o rei, contra Davi; entregai-me só
vivendo como viúvas. 4Disse então o rei a Amasa: este, e retirar-me-ei da cidade. E disse a mulher
Convoca-me dentro de três dias os homens de a Joabe: Eis que te será lançada a sua cabeça pelo
Judá, e apresenta-te aqui. sFoi, pois, Amasa para m ura 22A mulher, na sua sabedoria, foi ter com
convocar a Judá, porém demorou-se além do tem­ todo o povo; e cortaram a cabeça de Sebá, filho
po que o rei lhe designara. 5Então disse Davi a de Bicri, e a lançaram a Joabe. Este, pois, tocou
Abisai: Mais mal agora nos fará Sebá, filho de a buzina, e eles se retiraram da cidade, cada um
Bicri, do que Absalão; toma, pois, tu os servos para sua tenda. E Joabe voltou a Jerusalém, ao
de teu senhor, e persegue-o, para que ele porven­ rei.
tura não ache para si cidades fortificadas, e nos
escape à nossa vista. 7Então saíram atrás dele os Ao chegar a Jerusalém, Davi agiu ime­
homens de Joabe, e os quereteus, e os peleteus, diatamente para esclarecer a situação de
e todos os valentes; saíram de Jerusalém para suas concubinas que haviam sido publica­
perseguirem a Sebá, filho de Bicri. 8Quando che­ mente possuídas por Absalão (16.20-22).
garam à pedra grande que está junto a Gibeão,
Amasa lhes veio ao encontra Estava Joabe cin­ Davi tomou providências para seu susten­
gido do seu traje de guerra que vestira, e sobre to material uma vez que ainda lhe perten­
ele um cinto com a espada presa ao seus lombos, ciam, mas isolou-as sob guarda, devido ao
na sua bainha; e, adiantando-se ele, a espada caiu tratamento dado por Absalão. A atitude
da bainha. 9E disse Joabe a Amasa: Vais bem, de Davi não deixa implícito que tivesse
meu irmão? E Joabe, com a mão direita, pegou
a barba de Amasa, para o beijar. 10Amasa, po­ havido um comportamento impróprio por
rém, não reparou na espada que estava na mão de parte das mulheres, mas, caso o rei tivesse
Joabe; de sorte que este o feriu com ela no ventre, reiniciado as relações conjugais com elas,
derramando-lhe por terra as entranhas, sem feri-lo isso poderia ter sido interpretado politica­
segunda vez; e ele morreu. Então Joabe e Abisai,
seu irmão, perseguiram a Sebá, filho de Bicri.
mente (cf. comentário sobre 16.20-22).
"M as um homem dentre os servos de Joabe fi­ Uma vez que Davi negou qualquer legiti­
cou junto a Amasa, e dizia: Quem favorece a Joa­ midade ao breve reinado de Absalão, cum­
be, e quem é por Davi, siga a Joabe. 12E Amasa priu suas responsabilidades para com suas
se revolvia no seu sangue no meio do caminha E concubinas, mas evitou maiores contatos
aquele homem, vendo que todo o povo parava,
removeu Amasa do caminho para o campo, e lan­ com elas.
çou sobre ele um manto, porque viu que todo Conquanto a fuga de Sebá com cerca
aquele que chegava ao pé dele parava. l3Mas re­ de mil correligionários (19.17 e s.) não re­
movido Amasa do caminho, todos os homens se­ presentasse uma ameaça militar imediata,
guiram a Joabe, para perseguirem a Sebá, filho
de Bicri. 14Então Sebá passou por todas as tribos Davi sabia muito bem que, com o tempo,
de Israel até Abel e Bete-Maacá; e todos os beri- um rebelde podia obter apoio suficiente
tas, ajuntando-se, também o seguiram. I5Vieram, para ser bastante problemático. Ele, por-

148
tanto, concedeu a Amasa, seu antigo ini­ no que Joabe encontrou retribuição para
migo, somente três dias para retornar com sua excessiva crueldade e brutalidade
a milícia judaica. Quando Amasa deixou (lRs 2.31,32).
de retornar dentro do tempo determinado, As forças de Davi, unidas agora sob o
Davi sentiu que não podia esperar mais. comando de Joabe, avançaram rumo ao
Desfazendo-se de todas as forças de reser­ norte, mantendo Sebá em movimento até
va e de proteção pessoal, Davi despachou que procurou refugiar-se em Abel de Bete-
suas fiéis tropas mercenárias e soldados -Maacá, cerca de oito quilômetros a oeste
profissionais para irem atrás de Sebá antes de Dã. É possível que uma desanimadora
que ele ganhasse apoio decisivo. reação à sua convocação para a guerra
Enquanto as tropas de Davi partiam em tenha forçado Sebá a percorrer todo o ca­
busca de Sebá, a posição do rei ficara mui­ minho em retirada até a fronteira de Israel,
to precária. Não só estava ele se deparando ou talvez tenha tido a esperança de obter
com uma insurreição dentro das tribos do apoio dos estados arameus vizinhos, que
norte, mas também só conseguia exercer anteriormente haviam se oposto a Davi
um controle parcial sobre suas próprias (10.6-8; 13.37-39). Seja como for, cometeu
forças. Após o fracasso da rebelião de um sério erro tático que lhe custou a vida
Absalão, Davi havia reorganizado sua es­ (cf. comentário sobre ISm 23.1-14 e 2Sm
trutura militar. Como resultado da insu­ 15.13-23). Em vez de ocultar-se no campo
bordinação de Joabe no bosque de Efraim aberto ou de deixar o território israelita até
(18.9-15), Davi havia procurado restringir ter força suficiente para retornar, Sebá
seu poder e influência. Amasa fora posto buscou a segurança numa cidade fortifi­
à frente da milícia (cf. comentário sobre cada. Joabe, então, cercou a cidade e co­
19.13); e agora, na campanha contra Sebá, meçou a preparar-se para destruir seus
Abisai, irmão de Joabe, recebera o coman­ muros.
do dos soldados profissionais de Davi (v. Quando a sorte inevitável de Abel tor-
6,7). Joabe, embora continuamente leal a nou-se evidente, uma mulher local, conhe­
Davi, tinha o temperamento forte demais cida por sua sabedoria, negociou uma
para aceitar essas mudanças sem resis­ anistia par a cidade em troca da vida de
tência. Sebá. Quando a cabeça de Sebá foi, sem
A campanha contra Sebá mal estava qualquer cerimônia, atirada por sobre o
em andamento quando Joabe agiu rápida muro, chegou ao fim a última séria amea­
e traiçoeiramente para tomar o controle ça ao trono de Davi.
da expedição. Quando Amasa chegou a Joabe permaneceu um fator importante
Gibeão, trazendo um tanto tardiamente a a ser levado em conta, mas aparentemente
milícia de Judá, foi ardilosamente assassi­ não tinha ambições pessoais de empunhar
nado. Como nas ocasiões anteriores, nos a coroa. Conquanto Davi tivesse muitas
casos de Abner e Absalão, Joabe agiu razões para desaprovar as táticas de seu
sozinho e com profunda brutalidade para general, nunca teve motivos para duvidar
eliminar seu oponente. A despreparada de sua lealdade. Ao retornar a Jerusalém
milícia judaica, tendo pouquíssimo ou ne­ com o controle de todas as forças militares
nhum sentimento de lealdade pessoal por de Israel, Joabe era o governante de facto
seu líder, mal teve tempo para uma pausa sobre a nação. Não obstante, permaneceu
antes de unir forças com o assassino de fiel a Davi, que aguardava na capital sem
Amasa (v. 11-13). Joabe emergiu como um mesmo ter a proteção de suas tropas mer­
comandante militar de tal força que Davi cenárias. Sem dúvida, Joabe teria enfren­
foi incapaz de tomar quaisquer outras tado considerável resistência dentro do
medidas contra ele. Não foi senão algum exército caso se lançasse contra Davi, mas
tempo após a ascensão de Salomão ao tro­ por certo ninguém jamais tivera melhor

149
oportunidade de assumir o controle do no final do reinado de Davi. Joabe havia
governo de Israel. reconquistado seu papel como líder militar
Davi havia sobrevivido a muitas crises de Israel a despeito de seu rebaixamento
graves, e o caminho ainda estava aberto logo após ter assassinado Absalão e de
para um cumprimento da profecia de Natã suas repetidas divergências com Davi.
(7.12-16), mas a questão básica permanecia Benaías era ainda o comandante do sempre
sem resposta. Até o momento, Davi não importante exército profissional, que cons­
fizera qualquer movimento para designar tituía o principal esteio do poder de Davi.
seu sucessor, e postergaria essa decisão até A única mudança de maior conse­
bem o fim de sua vida (IReis 1; 2). qüência está na inclusão de Adorão como
Para que ele porventura não ache para supervisor de um batalhão de trabalhos
si cidades fortificadas, e nos escape. Ou forçados. O emprego de trabalho escravo
Davi julgava que Sebá tinha mais apoio do em projetos da coroa pode ter tido início
que era realmente o caso, ou estava empre­ numa tentativa de explorar os serviços
gando um estratagema para levar seu ini­ de estrangeiros capturados em batalha
migo a um erro tático. Davi sabia que uma (12.31). Não obstante, com o tempo Ado­
pequena força deve evitar a tentação de rão (Adonirão em lRs 5.13,14) comanda­
esconder-se por detrás dos muros de uma ria 30.000 israelitas natos que foram con­
cidade (cf. comentário sobre 15.13-23), vocados para servir nos projetos de cons­
mas aparentemente Sebá não o sabia. trução de Salomão. Adorão tornou-se tão
E todos os beritas, ajuntando-se, tam­ identificado com esse aspecto detestado da
bém o seguiram. Tal como está, o texto monarquia de Israel que foi apedrejado até
hebraico deste versículo está repleto de a morte quando o reino se dividiu sob
problemas. Há muitas leituras possíveis, e Roboãó (lRs 12.18). O sistema de traba­
esta, preferivelmente à IBB, encaixa-se lhos forçados não havia crescido a tais
bem no contexto; “Então Sebá passou por proporções sob Davi, mas ele introduziu
todas as tribos de Israel até Abel de Bete- esse significativo desvio dos processos
-Maacá; e todos os bicritas ajuntaram-se democráticos existentes sob a velha estru­
e o seguiram.” Em lugar de desfrutar o tura tribal de Israel.
apoio de todo Israel, Sebá havia atraí­
do somente seus próprios parentes para V. Anexos (21.1—24.25)
segui-lo.
Antigamente costumava-se dizer. A 1. Gibeonitas Executam os Filhos de Saul
partir do texto hebraico é impossível res­ (21.1-14)
gatar a natureza do antigo provérbio sobre
‘Nos dias de Davi houve uma fome de três
Abel. anos consecutivos; pelo que Davi consultou ao
Senhor; e o Senhor lhe disse: É por causa de Saul
3) Relação dos Líderes de Davi (20.23-26) e da sua casa sanguinária, porque matou os gibe-
onitas. 2Então o rei chamou os gibeonitas e falou
23Ora, Joabe estava sobre todo o exército de com eles (ora, os gibeonitas não eram do filhos de
Israel; e Benaías, filho de Jeoiada, sobre os quere- Israel, mas do restante dos amorreus; e os filhos
teus e os peleteus; 24e Adorão sobre a gente de de Israel tinham feito pacto com eles; porém Saul,
trabalhos forçados; Jeosafá, filho dé Ailude, era no seu zelo pelos filhos de Israel e de Judá, pro­
cronista; 25Seva era escrivão; Zadoque e Abiatar, curou feri-los); 3perguntou, pois, Davi aos gibeo­
sacerdotes; 26e Ira, o jairita, era o oficial-mor de nitas: Que quereis que eu vos faça? e como hei de
Davi. fazer expiaçãoi, para que abençoeis a herança do
Senhor? 4Então os gibeonitas lhe disseram: Não
Esta lista de oficiais na corte de Davi é por prata nem ouro que temos questão com Saul
e com a sua casa; nem tampouco cabe a nós matar
é bastante semelhante à encontrada em pessoa alguma em Israel. Disse-lhes Davi: Que
8.15-18. A atual relação serve como um quereis que vos faça? 5Responderam ao rei:
comentário sobre a natureza da monarquia Quanto ao homem que nos consumia, e procurava

150
destruir-nos, de modo que não pudéssemos subsis­ do Davi por ataques aos descendentes de
tir em termo algum de Israel, 6de seus filhos se Saul (16.5-14), ele é aqui retratado sob uma
nos dêem sete homens, para que os enforquemos
ao Senhor em Gibeá de Saul, o eleito do Senhor. ótica bastante favorável. Caso seu envolvi­
E o rei disse: Eu os darei. 70 rei, porém, poupou mento no episódio tivesse sido motivado
a Mefibosete, filho de Jônatas, filho de Saul, por politicamente, dificilmente teria ignorado
causa do juramento do Senhor que entre eles o filho de Jônatas para atacar o filho de
houvera, isto é, entre Davi e Jônatas, filho de
Saul. 8Mas o rei tomou os dois filhos de Rizpa,
uma concubina ou os filhos das filhas de
filha de Aias, que ela tivera de Saul, a saber, a Saul.
Armoni e a Mefibosete, como também os cinco A queixa dos gibeonitas derivava do
filhos de Merabe, filha de Saul, que ela tivera de ataque de Saul contra eles, uma violação
Adriel, filho de Barzilai, meolatita, 9e os entre­
gou na mão dos gibeonitas, os quais os enforcaram da aliança de seus ancestrais com Israel
no monte, perante o senhor; e os sete caíram todos durante a conquista (v. 2,5; cf. Js 9.15,19).
juntos. Foi nos primeiros dias da sega que foram Ele provavelmente havia suspeitado de eles
mortos, no principio da sega da cevada. 10Então e outras populações estrangeiras dentro de
Rizpa, filha de Aias, tomando um pano de cilicio,
estendeu-o para si sobre uma pedra e, desde o Israel colaborarem com os filisteus. Como
principio da sega até que a água caiu do céu sobre membros de uma minoria estrangeira
os corpos, não deixou que se aproximassem deles dentro de Israel, os gibeonitas não tinham
as aves do céu de dia, nem os animais do campo direitos e não estavam em posição de
de noite. uQuando foi anunciado a Davi o que iniciar uma inimizade de morte para pro-
fizera Rizpa, filha de Aias, concubina de Saul,
l2ele foi e tomou os ossos de Saul e os de Jônatas tegerem-se. Saul, contudo, havia quebrado
seu filho, aos homens de Jabes-Gileade, que os uma aliança solene firmada sob a égide do
haviam furtado da praça de Bete-Sã, onde os filis­ Senhor. Em tais casos, entendia-se que
teus os tinham pendurado quando mataram a Saul havia um envolvimento da honra de Deus
em Gilboa; 13e trouxe dali os ossos de Saul e os
de Jônatas seu filho; e ajuntaram a eles também em trazer a parte culpada a juízo. De
os ossos dos enforcados. 14Enterraram os ossos acordo com a compreensão que os hebreus
de Saul e de Jônatas seu filho, na terra de Ben­ tinham da responsabilidade coletiva, a
jamim, em Zela, na sepultura de Quis, seu pai; e família inteira de Saul, aliás, todo o Israel,
fizeram tudo o que o rei ordenara. Depois disto tinha uma parcela de responsabilidade na
Deus se aplacou para com a terra.
culpa de Saul (Js 7; cf. comentário sobre
ISm 2.27-36).
Este capítulo introduz uma série de Quando Davi buscou uma explicação
materiais não diretamente relacionados divina para uma fome particularmente
com o tema da seção precedente (cap. severa que havia afligido a terra, a violação
9—20), que dizia respeito à sucessão ao por Saul da aliança de Israel com os gibe­
trono de Davi. Os incidentes que se se­ onitas foi trazida à lembrança (cf. comen­
guem estão em ordem aleatória, e deve-se tário sobre ISm 5.6-12 e 2Sm 14.24-46).
determinar individualmente o contexto Embora a expiação da culpa com paga­
específico de cada um. Alguns dos mate­ mento de dinheiro de resgate fosse possível
riais obviamente remontam aos dias de sob certas circunstâncias (Ex 21.20), neste
Davi como fugitivo (cf. 23.13 e s.). A caso os gibeonitas recusaram-se a aceitar
conclusão da Narrativa da Sucessão está isso. Em consonância com a lei da retalia­
associada com o início do reinado de Sa­ ção (Ex 21.14; Lv 24.20), exigiram pena
lomão (lRs 1; 2), de acordo com os prin­ capital para membros que representassem
cípios discutidos na Introdução (V, 2). a família de Saul. Os gibeonitas provavel­
Este relato do conflito entre os gibeo­ mente expuseram os cadáveres dos des­
nitas e a casa de Saul está só indiretamente cendentes de Saul como uma lembrança
relacionado com as histórias das dificul­ de que qualquer que violasse o tratado de
dades dinásticas de Davi. Conquanto Israel com Gibeom sofreria sorte seme­
pareça que algumas pessoas tenham culpa­ lhante nas mãos do Senhor.

151
Quando as execuções tiveram lugar no obviamente reunidos por serem descrições
início da colheita de cevada (por volta de que revelam um interesse comum em vi­
meados de abril), Rizpa, concubina de tórias israelitas sobre os gigantes filis­
Saul e mãe de dois dos jovens, iniciou uma teus. Somente um relato chega a dedicar
vigília para proteger os corpos de serem alguma atenção, mesmo que pequena, às
atacados por animais de rapina. Sua circunstâncias em torno da ação, de modo
heróica vigília, que pode ter durado até o que é impossível falar com certeza da
princípio do outono, sem dúvida despertou natureza das guerras. Muitos comentaris­
a imaginação e a simpatia de todo o Israel. tas associam essas disputas com as guerras
Com a atenção do povo voltada para o filistéias que se seguiram à reunificação de
acontecimento, Davi reconheceu naquilo Israel e Judá por Davi sob uma só coroa
uma oportunidade para dissociar-se de (5.17) e s.). Inerentemente, não há nada
qualquer responsabilidade por aquelas improvável num reinicio do conflito filis­
mortes. Ele, portanto, trouxe os ossos de teu mais tarde no reinado de Davi. Na
Saul e Jônatas de Jabe-Gileade para tornar realidade, a desintegração da autoridade
a sepultá-los no túmulo da família de Saul. central após as rebeliões de Absalão e Sebá
Quando as chuvas de outono chegaram a quase certamente atraíram ataques agres­
seu tempo, simbolizando um retorno do sivos pelos vizinhos de Israel. Os interesses
favor do Senhor, Davi reuniu os restos dos e o escopo restritos das narrativas bíblicas
jovens, dando-lhes um sepultamento hon­ não nos permitem, contudo, reconstruir os
roso entre seu próprio povo em Benjamim. detalhes deste período do reinado de Davi.
A localização de Zela é desconhecida. O primeiro gigante foi morto por
Abisai, que veio em socorro de Davi quan­
2. Os Filisteus Voltam a Guerrear do este se fatigava numa batalha contra os
(21.15-22) filisteus. Os homens de Davi, que se preo­
15De novo tiveram os filisteus uma guerra
cupavam por sua segurança, e pelo futuro
contra Israel. E desceu Davi, e com ele os seus de Israel, requereram que ele deixasse
servos; e tanto pelejaram contra os filisteus, que de acompanhar suas tropas às batalhas
Davi se cansou. 16E Isbi-Benobe, que era dos (cf. 18.3). É interessante que o autor de
filhos do gigante, cuja lança tinha o peso de Crônicas omitiu essa admissão de fragili­
trezentos siclos de bronze, e que cingia uma
espada nova, intentou matar Davi. 17Porém, dade humana da parte de Davi, ao passo
Abisai, filho de Zeruia, o socorreu; e, ferindo ao que incluiu as três histórias seguintes
filisteu, o matou. Então os homens de Davi lhe de vitórias sobre os gigantes filisteus
juraram, dizendo: Nunca mais sairás conosco à (lCr 20.4-8).
batalha, para que não apagues a lâmpada de
Israel. 18Aconteceu depois disto que houve em O autor de Crônicas, todavia, aparente­
Gobe ainda outra peleja contra os filisteus; então mente sentia haver um problema no relato
Sibecai, o husatita, matou Safe, que era dos filhos da morte de Golias, o giteu, nas mãos de
do gigante. 19Houve mais outra peleja contra os El-Hanã, o belemita (cf. comentário sobre
filisteus em Gobe; e El-Hanã, filho de Jaaré-
Oregim, o belemita, matou Golias, o giteu, de cuja ISm 17.1-11). De qualquer modo, a pas­
lança a haste era como órgão de tecelão. 20Houve sagem em Crônicas não dá lugar a con­
ainda também outra peleja em Gate, onde estava fusão com as façanhas anteriores de Davi
um homem de alta estatura, que tinha seis dedos uma vez que o texto difere considera-
em cada mão, e seis em cada pé, vinte e quatro por
todos; também este era descendente do gigante.
valmente do que consta em Samuel:
21Tendo ele desafiado a Israel, Jônatas, filho de “El-Hanã, filho de Jair, feriu Lami, irmão
Simei, irmão de Davi, o matou. 22Estes quatro de Golias, o giteu, cuja lança tinha a haste
nasceram ao gigante em Gate; e caíram pela mão como órgão de tecelão” (lCr 20.5).
de Davi e pela mão de seus servos.
Em Gobe ainda outra peleja contra os
Esses breves comentários de um rei­ filisteus. Gobe não é citada em qualquer
nicio de guerra com os filisteus foram outra passagem do Antigo Testamento, e

152
sua localização não é mais conhecida. O raios, e os desbaratou.
relato de Crônicas paralelo a este situa a 16Então apareceram as profundezas do mar;
ação como tendo ocorrido em Gezer os fundamentos do mundo se descobriram,
(lCr 20.4). pela repreensão do Senhor,
pelo assopro do vento das suas narinas.
Então Sibecai, o husatita, matou Safe. I7Estendeu do alto a sua mão e tomou-me;
Sibecai foi um dos homens poderosos de tirou-me das muitas' águas.
Davi (lCr 11.29; mas cf. 2Sm 23.27). Ele 18Livrou-me do meu possante inimigo,
e daqueles que me odiavam;
comandava um contingente de 24.000 porque eram fortes demais para mim.
homens na divisão da milícia que ser­ 19Encontraram-me no dia da minha calamidade;,
via durante o oitavo mês de cada ano porém o Senhor se fez o meu esteia
(lCr 27.11). Os husatitas parecem ter sido 20Conduziu-me para um lugar espaçoso;
livrou-me, porque tinha prazer em mim.
originários de Judá, de um lugar próximo 21Recompensou-me o Senhor conforme a minha
de Belém (lCr 4.4). justiça;
conforme a pureza de minhas mãos me
retribuiu.
3. Cântico de Ação de Graças de Davi 22Porque guardei os caminhos do Senhor,
(22.1-51) e não me apartei impiamente do meu
Deus.
23Pois todos os seus preceitos estavam diante de
‘Davi dirigiu ao Senhor as palavras deste cântico, mim,
no dia em que o Senhor o livrou das mãos de todos e dos seus estatutos não me desviei.
os seus inimigos e das mãos de Saul, dizendo: “ Fui perfeito para com ele,
20 Senhor é o meu rochedo, a minha fortaleza e guardei-me da minha iniqüidade.
e o meu libertador. 25Por isso me retribuiu o Senhor conforme a
3É meu Deus, a minha rocha, nele confiarei; minha justiça, conforme a minha pureza
é o meu escudo, e a força da minha diante dos seus olhos.
salvação, “ Para com o benigno te mostras benigno;
o meu alto retiro, e o meu refugia para com o perfeito te mostras perfeito,
Ó meu Salvador! da violência tu me livras. 27Para com o puro te mostras puro,
4Ao Senhor invocarei, pois é digno de louvor; mas para com o perverso te mostras
assim serei salvo dos meus inimigos. avessa
5As ondas da morte me cercaram, “ Livrarás o povo que se humilha,
as torrentes de Belial me atemorizaram. mas teus olhos são contra os altivos, e tu
‘Cordas do Seol me cingiram, os abaterás.
laços de morte me envolveram. 29Porque tu, Senhor, és a minha candeia;
7N a minha angústia invoquei ao Senhor; e o Senhor alumiará as minhas trevas.
sim, a meu Deus clamei; “ Pois contigo passarei pelo meio dum esqua­
do seu templo ouviu ele a minha voz, drão;
e o meu damor chegou aos seus ouvidos. com o meu Deus transporei um mura
8Então se abalou e tremeu a terra, 31Quanto a Deus, o seu caminho é perfeito,
os fundamentos dos céus se moveram; e a palavra do Senhor é fiel;
abalaram-se porque ele se irou. é ele o escudo de todos os que nele se
’Das suas narinas saiu fumaça, refugiam.
e da sua boca um fogo devorador, 32Pois quem é Deus, senão o Senhor?
que pôs carvões em chamas. e quem é rocha, senão o nosso Deus?
10Ele abaixou os céus, e desceu; 33Deus é a minha grande fortaleza;
e havia escuridão debaixo de seus pés. e ele torna perfeito o meu caminha
nMontou num querubim, e voou; MFaz ele os meus pés como os das gazelas,
apareceu sobre as asas do venta e me põe sobre as minhas alturas.
12E por tendas pôs trevas ao redor de si, 35Ele instrui as minhas mãos para a peleja,
ajuntamento de nuvens, espessas nuvens do de modo que os meus braços podem
céu. entesar um arco de bronze.
13Pelo resplendor da sua presença acenderam-se “ Também me deste o escudo da tua salvação,
brasas de foga e tua brandura me engrandece.
14Do céu trovejou o Senhor, 37Alargaste os meus passos debaixo de mim,
o Altíssimo fez soar a sua voz. e não vacilaram os meus artelhos.
15Disparou flechas, e os dissipou; ^Persegui os meus inimigos e os destruí,

153
e nunca voltei atrás sem que os consu­ experiências de toda sua vida parecem ter
misse. sido empregadas para o desenvolvimento
39Eu os consumi, e os atravessei, de modo que
nunca mais se levantaram;
de formas literárias que serviram para
sim, caíram debaixo dos meus pês. expressar todos os sentimentos de gratidão
‘"’Pois tu me cingiste de força para a peleja; e louvor dos homens. Uma análise deta­
prostraste debaixo de mim os que se levan­ lhada do contexto e da estrutura do poema
taram contra mim. será considerada no volume que trata do
41Fizeste que me voltassem as costas os meus
inimigos, Saltério, mas umas poucas palavas sobre
aqueles que me odiavam, para que eu os seu papel nas atuais narrativas estão em
destruísse. ordem a esta altura.
"Olharam ao redor, mas não houve quem os
salvasse; O cântico destina-se explicitamente a
clamaram ao Senhor, mas ele não lhes celebrar o livramento de Davi de sob Saul
respondeu. e outros inimigos não identificados. De fato,
"Então os moi como o pó da terra; as comparações do Senhor com uma rocha
como a lama das ruas os trilhei e dissipei. (v. 2,3,32,47), uma fortaleza (v. 2), um
““Também me livraste das contendas do meu
povo; escudo (v. 3) e uma grande fortaleza, isto
guardaste-me para ser o cabeça das é, um refúgio (v. 33), sugerem as experiên­
nações; cias de Davi como fugitivo do ciúme
um povo que eu não conhecia me serviu. irracional de Saul. De igual maneira, a preo­
45Estrangeiros, com adulação, se submeteram a
mim; cupação pessimista de Davi quanto ao seu
ao ouvirem de mim, me obedeceram. futuro logo antes de seu exílio entre os filis­
‘‘‘Os estrangeiros desfaleceram teus (ISm 27.1) se harmonizaria bem com
e, tremendo, saíram dos seus esconderijos. as condições extremas do salmista, descritas
470 Senhor vive; bendita seja a minha rocha,
e exaltado seja Deus, a rocha da minha
no versículos 5 e 6.
salvação, Por outro lado, o salmo também parece
‘“o Deus que me deu vingança, tratar de condições que surgiram num
e sujeitou povos debaixo de mim, período bem posterior da vida de Davi. O
49e me tirou dentre os meus inimigos;
porque tu me exaltaste sobre os meus êxito dele na formação de um império a
adversários; expensas de seus vizinhos pode estar refle­
tu me livraste do homem violenta tido na subserviência obsequiosa que os
50Por isso, ó Senhor, louvar-te-ei entre as estrangeiros lhe devotavam (v. 44-46). Seme­
nações, lhantemente, as vitórias de Davi nas várias
e entoarei louvores ao teu nome.
5>Ele dá grande livramento a seu rei, guerras civis dirigidas contra ele parecem
e usa de benignidade para com o seu estar aqui sugeridas. Desse modo, ele foi
ungido, livrado de conflitos com seu próprio povo.
para com Davi e a sua descendência para Seus inimigos apelaram ao Senhor, mas ele
sempre.
rejeitou seus apelos (v. 42). A referência à
fuga de Davi de diante de inimigos que lhe
Uma versão ligeiramente modificada eram demasiado fortes (v. 18) é sugestiva
deste poema é também encontrada no livro de sua posição precária durante a rebelião
de Salmos (cap. 18). Um título em ambos de Absalão, mas as circunstâncias são vagas
os casos associa o cântico com Davi, e demais para estabelecer uma relação entre
parece não haver argumentos internos rele­
ambos os eventos.
vantes contra tal relação.38 Não obstante,
o escopo de salmo é amplo demais para Alguns versículos dentro do poema,
permitir uma identificação com qualquer contudo, não parecem ajustar-se às conhe­
período específico da vida de Davi. De fato, cidas condições da vida de Davi. O salmista,
por exemplo, parece considerar as bênçãos
38 Mitchell D ahood, Psalms / ( “The A nchor Bible”. (Garden City, New
e livramentos do Senhor como o resultado
York: Doubleday, 1965]), p. 104. de sua própria bondade (v. 21-31). Ele alega

154
ter mãos limpas (v. 21) e uma consciência tanto, enquanto reconhecia-se que a proeza
limpa de transgressões contra a lei de Deus e habilidade física com armas desempe­
(v. 23). Tais declarações dificilmente nhavam um importante papel no resultado
parecem apropriadas para alguém que se da batalha, o Senhor era visto como a fonte
sentiu forçado a cometer assassinato a fim mesma dessas artes seculares (v. 34-43).
de acobertar sua infidelidade marital (cap. Assim, Deus estava operando na história
11). para cumprir sua promessa de uma
À primeira vista esses versículos não se linhagem duradoura para Davi sobre o
aplicariam verdadeiramente a qualquer trono de Israel (v. 51; cf. 7.1-29).
homem, certamente não a Davi. São,
porém, o desenvolvimento de uma teologia 4. As Últimas Palavras de Davi (23.1-7)
que sustentava que o Deus justo de Israel ‘São estas as últimas palavras de Davi:
sempre recompensava o bem e punia o mal Diz Davi, filho de Jessê,
neste m undo. Os repetidos livramentos de diz o homem que foi exaltado,
Davi foram, portanto, tidos como prova o ungido do Deus de Jacó,
aparente de que havia agradado a Deus. o suave salmista de Israel:
20 Espirito do Senhor fala por mim,
Mesmo assim, a alegação do salmista é e a sua palavra está na minha língua.
exagerada; mas este pode ser o resultado 3Falou o Deus de Israel,
da freqüente indulgência no Oriente Antigo a Rocha de Israel me disse:
quanto ao uso de hipérbole. Na realidade, Quando um justo governa sobre os homens,
quando governa no temor de Deus,
o próprio salmista parece estar ciente dos 4será como a luz da manhã ao sair do sol,
perigos de pensar o homem mais elevada­ da manhã sem nuvens,
mente de si mesmo do que deveria (v. 28). quando, depois da chuva, pelo resplendor do
O Senhor, portanto, era visto como o liber­ sol, a erva brota da terra.
tador do humilde que se submetesse à sua 5Pois não ê assim a minha casa para com
Deus?
direção, mas como um juiz severo para com Porque estabeleceu comigo um pacto
o exaltado que resistisse a suas ordens. eterno,
Vistos sob esta luz, tais versículos podem e tudo bem ordenado e seguro;
ainda ser tomados como um desdobra­ pois não fará ele prosperar toda a minha
salvação e todo o meu desejo?
mento da experiência de Davi, pois estava 6Porém os ímpios todos serão como os espi­
nptavelmente disposto a confessar a sua nhos, que se lançam fora,
culpa quando fora levado a reconhecê-la porque não se pode tocar neles;
(ISm 25.32; 2Sm 12.13). 7mas qualquer que os tocar
se armará de ferro e da haste de uma
O tema de todo o salmo é sumariado lança;
nos dois versículos finais, em que o Senhor e a fogo serão totalmente queimados no
é louvado como o poder efetivo por detrás mesmo lugar.
de todos os êxitos de Davi. Quer explícita,
quer implícita, uma consciência da provi­ Este breve salmo é de capital importância
dência divina é subjacente a toda a no estudo do papel ideal do rei no pensa­
narrativa, desde a unção de Davi às mãos mento do Israel antigo. As idéias aqui
de Samuel até sua vitória sobre Sebá e seus expressas têm relação com as encontradas
seguidores. O salmista fala da intervenção no discurso de despedida de Samuel (cf.
do Senhor em seu favor em termos de uma especialmente ISm 12.14,15), e na profecia
teofania divina em que Deus aparece caval­ de Natã (2Sm 7.1-17), mas vão além. A loca­
gando sobre uma tempestade para dispersar lização do cântico no final da carreira de
seus inimigos (v. 8-16). Tal linguagem figu­ Davi parece modelar-se segundo os
rada era comum no mundo antigo (cf. Is discursos de “bênçãos” ou despedida dos
19.1 e SI 104.3 e ss.), mas não excluía uma grandes líderes anteriores de Israel (Jacó,
visão mais mundana do êxito militar. Entre­ Gn 49; Moisés, Dt 33; Samuel, ISm 12;

155
cf. também a obra posterior O Testemunho Joabe, filho de Zeruia, era chefe dos trinta; e este
dos Doze Patriarcas). 39 alçou a sua lança contra trezentos, e os matou, e
Nestes versículos, o papel sacro do rei tinha nome entre os três. 19Porventura não era este
o mais nobre dentre os trinta? portanto se tornou
emerge bem claramente. Ele fora exaltado o chefe deles; porém aos primeiros três não chegou.
e separado pelo Senhor, e seus pronuncia­ 20Iambém Benaías, filho de Jeoiada, filho dum
mentos tinham a chancela divina. Quando homem de Cabzeel, valoroso e de grandes feitos,
o rei governava conforme a liderança de matou os dois filhos de Ariel de Moabe; depois
desceu, e matou um leão dentro duma cova, no
Deus, conduzia toda a nação a um relacio­ tempo da neve. 21M atou também um egípcio,
namento correto com o Senhor. Trazia homem de temível aspecto; tinha este uma lança
prosperidade ao seu povo da mesma forma na mão, mas Benaías desceu a ele com um cajado,
como o sol e a chuva trazem fertilidade ao arrancou-lhe da mão a lança, e com ela o matou.
22Estas coisas fez Benaías, filho de Jeoiada, pelo
solo. Sendo a própria escolha de Deus para que teve nome entre os três valentes. “ Dentre os
o trono, Davi recebeu a promessa de uma trinta ele era o mais afamado, porém aos três
linhagem duradoura (cf. 7.11-14), ao passo primeiros não chegou. Mas Davi o pôs sobre os
que era certa a destruição final do usur­ seus guardas. MAsael, irmão de Joabe, era uni dos
pador, muito embora este fosse trinta; El-Hanã, filho de Dodó, de Belém; 25Samá,
o harodita; Elica, o harodita; “ Helez, o paltita;
potencialmente perigoso (cf. ISm 12.15). Ira, filho de Iques, o tecoíta; 27Abiezer, o anatotita;
Mebunai, o husatita; “ Zalmom, o aoíta; Maarai,
5. Relação dos “Valentes” de Davi (23.8-39) o netofatita; 29Helebe, filho de Baaná, o netofatita;
Itai, filho de Ribai, de Gibeá dos filhos de Benjamim;
8São estes os nomes dos valentes de Davi: “ Benaías, o piratonita; Hidai, das torrentes de
Josebe-Bassebete, o taquemonita; era este principal Gaás; 31Abi-Albom, o arbatita; Azmavete, o baru-
dos três; foi ele que, com a lança, matou oitocentos mita; 32Eliabá, o saalbonita; Bene-Jásen; e
de uma vez. 9Depois dele Eleazar, filho de Dodó, Jônatas; "Samá, o hararita; Aião, filho de Sarar,
filho de Aoí, um dos três valentes que estavam com o hararita; 34Elifelete, filho de Acasbai, filho do
Davi, quando desafiaram os filisteus que se haviam maacatita; Eliã, filho de Aitofel, o gilonita;
reunido para a peleja, enquanto os homens de Israel 3SHezrai, o carmelita;Paarai, o arbita; %Igal, filho
se retiravam. 10Este se levantou, e feriu os filisteus, de Natã, de Zobá; Bani, o gadita; "Zeleque, o
até lhe cansar a mão e ficar pegada à espada; e amonita; Naarai, o beerotita, o que trazia as armas
naquele dia o Senhor operou um grande livramento; de Joabe, filho de Zeruia; wIra, o itrita; Garebe,
e o povo voltou para junto de Eleazar, somente para o itrita; 39Urias, o heteu; trinta e sete ao toda
tomar o despoja "Depois dele era Samá, filho de
Agé, o hararita. Os filisteus se haviam ajuntado
em Lei, onde havia um terreno cheio de lentilhas;
e o povo fugiu de diante dos filisteus. 12Samá, A inclusão das façanhas e dos nomes
porém, pondo-se no meio daquele terrenoi, defendeu- dos soldados mercenários mais importantes
-o e matou os filisteus, e o Senhor efetuou um grande de Davi está em consonância com a
livramento. ,3Também três dos trinta cabeças importância do papel que o grupo desem­
desceram, no tempo da sega e foram ter com Davi,
à caverna de Adulão; e a tropa dos filisteus acam­ penhou no reinado de Davi. Nos dias dos
para no vale de Rafaim. 1JDavi estava então no juizes e mesmo sob o governo de Saul, o
lugar forte, e a guarnição dos filisteus estava em poder israelita tinha se baseado sobretudo
Belém. 15E Davi, com saudade, exclamou: Quem na milícia, que era reunida somente em
me dera beber da água da cisterna que está junto
à porta de Belém! 16Então aqueles três valentes
casos de emergência. O exército freqüente­
romperam pelo arraial dos filisteus, tiraram água mente experimentava uma deficiência de
da cisterna que está junto à porta de Belém, e a contingente, uma vez que o governo central
trouxeram a Davi; porém ele não quis bebê-la, mas carecia de um meio para impor uma
derramou-a perante o Senhor; 17e disse: Longe de convocação às armas. Saul havia começado
mim, ó Senhor, que eu tal faça! Beberia eu o sangue
dos homens que foram com risco das suas vidas? a reunir os mais promissores guerreiros de
De maneira que não a quis- beber. Isto fizeram Israel em torno de si como um núcleo de
aqueles três valentes. 18Ora, Abisai, irmão de líderes militares profissionais (ISm 14.52),
mas foi somente com Davi que ocorreu um
39 Aubrey R. Johnson, Sacral K ingship in A n c ien t Israel, segunda
afastamento maior dessa antiga prática
edição (Cardiff: University of Wales Press, 1967), p. 16-19. tribal.

156
O primeiro grupo de soldados profissio­ durante o ataque dos filisteus a Davi após
nais de Davi não era do mais alto gabarito ele ter-se tornado rei sobre todo o Israel
(ISm 22.2), mas proporcionou-lhe um meio (5.17-25). O grupo principal dos filisteus
de proteção contra os intentos assassinos estava acampado no vale de Refaim, perto
de Saul. Após Saul e Jônatas serem mortos de Jerusalém, e uma guarnição menor
em batalha no Monte Gilboa, o exército ocupava Belém. Três Soldados não identi­
pessoal de Davi provavelmente teve bastante ficados do exército de Davi, que estava perto
influência na decisão de Judá em elegê-lo de Adulão, infiltraram-se corajosamente
rei (2.1-4). Daí, seguindo-se à sua ascensão pelas linhas filistéias e levaram a seu coman­
ao trono sobre todo o Israel, Davi empregou dante a bebida que ele havia desejado num
seus homens para capturar Jerusalém, sua momento de extravagância. Sentindo que
nova capital (5.6-10). A mais clara demons­ os homens haviam santificado a água ao
tração da importância das inovações arriscarem tão seriamente a vida, Davi
militares de Davi veio, contudo, durante as derramou-a como uma oferta ao Senhor
revoluções destinadas a destroná-lo do (Lv 17.11-13). Este episódio ilustra ampla­
poder. Não fosse pela lealdade inabalável mente a intensa lealdade que prevalecia
de suas tropas de mercenários estrangeiros entre Davi e seus valentes.
(15.13-23), Davi dificilmente teria sobrevi­ Os membros do grupo dos trinta parecem
vido à rebelião de Absalão, seguida ter mudado de tempos em tempos conforme
imediatamente pela revolta de Sebá. se tornassem necessárias as substituições.
Obtendo uma base de poder comprometida Assim, Crônicas alista dezesseis homens
pessoal e totalmente com ele, Davi fez com que não são encontrados aqui (lCr
que a profecia de Natã (ISm 7.1-17) estivesse 11.41-47). A lista presente começa com
mais perto de seu cumprimento. Asael, irmão de Joabe, que fora anterior­
Feitos de destaque ou dignos de mérito mente morto por Abner (2.18-23), e o último
entre as tropas mercenárias de Davi homem incluído era Urias, o heteu, ao qual
parecem ter sido recompensados com a Davi havia assassinado. Conquanto Joabe
inclusão do combatente em uma das duas não seja mencionado como membro do
ordens militares especiais honoríficas. A grupo, presumivelmente deve ser incluído.
menor, um grupo mais de elite, denominado Ele é mais destacado do que seus dois
simplesmente os três, compunha-se dos irmãos, Abisai e Asael, e certamente mais
homens que se haviam distinguido por faça­ ainda do que seu escudeiro, que também
nhas espetaculares contra o inimigo durante compunha a lista (v. 37). A omissão de
as campanhas de Israel contra os filisteus Joabe provavelmente se explica com a obser­
(v. 8-12). Membros desse grupo não estão vação final de que havia trinta e sete ao
enumerados com o grupo maior dos trinta, todo (v. 39), quando somente 36 nomes são
mas Josebe-Bassebete (Jasobeão, cf. lCr dados no capítulo (para uma boa análise
11.11; 27.2) noutra parte aparece como o panorâmica dos nomes, cf. Driver, p.
comandante de um contingente da milícia 362,363). Uma comparação com a
de Davi. Outros homens alcançaram fama passagem paralela em lCrônicas 11.10-4la
semelhante (v. 22) ou ascenderam para revela, contudo, considerável variação na
posição mais elevada (20.23), mas nenhum enumeração, e deve-se evitar qualquer
outro conquistou o mesmo grau de destaque dogmatismo a respeito.
que estes haviam conquistado.
6. Davi Ordena o Censo (24.1-17)
Os três homens que haviam arriscado
a vida para buscar água para Davi no poço 'A ira do Senhor tornou a acender-se contra
Israel, e o Senhor incitou a Davi contra eles,
de Belém eram membros dos trinta e, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá. 2Disse,
portanto, distinguidos dos homens anterior­ pois, o rei a Joabe, chefe do exército, que estava
mente mencionados. O incidente ocorreu com ele: Percorre todas as tribos de Israel, desde

157
Dã até Berseba, e numera o povo, para que eu saiba onde o Templo deveria ser construído (v.
o seu número. 3Então disse Joabe ao rei: Ora, 18-25).
multiplique o Senhor teu Deus a este povo cem vezes
tanto quanto agora é, e os olhos do rei meu senhor O episódio todo parece basear-se em
o vejam. Mas, por que tem prazer nisto o rei meu mudanças que Davi estava implantando na
Senhor? 4Todavia a palavra do rei prevaleceu estrutura militar de Israel. Antes do esta­
contra Joabe, e contra os chefes do exército; Joabe, belecimento da monarquia, Israel havia
pois, saiu com os chefes do exército da presença desfrutado um governo bastante descentra­
do rei para numerar o povo de Israel. 5Tendo eles
passado o Jordão, acamparam-se em Aroer, à direita lizado, em que cada tribo era virtualmente
da cidade que está no meio do vale de Gade e na independente em todas as questões, exceto
direção de Jazer; 6em seguida foram a Gileade, e nas relacionadas com religião e guerra.
à terra de Tatim-Hódsi; dali foram a D âJaã, e ao Durante o período dos juizes, Israel se
redor até Sidom; 7depois foram à fortaleza de Tiro,
e a todas as cidades dos heveus e dos cananeus; reunia basicamente para prestar seu culto
e saíram para a banda do sul de Judá, em Berseba. em conjunto e pela necessidade de prover
*Assim, tendo percorrido todo o país, voltaram a tropas para defesa mútua (cf. comentário
Jerusalém, ao cabo de nove meses e vinte dias. sobre ISm 4.12-18). Mesmo em épocas de
’Joabe, pois, deu ao rei o resultado da numeração
do povo. E havia em Israel oitocentos mil homens
emergência nacional, cada tribo era
valorosos, que arrancavam da espada; e os homens responsável por reunir suas próprias tropas,
de Judá eram quinhentos mil. 10Mas o coração de e freqüentemente uma tribo podia recusar-
Davi o acusou depois de haver ele numerado o povo; se a dedicar sua própria milícia para servir
e disse Davi ao Senhor: Muito pequei no que fiz; numa região distante do país (cf. Jz 5). Em
porém agora, ó Senhor, rogo-te que perdoes a iniqüi­
dade do teu servo, porque tenho procedido mui face de crescentes pressões externas, líderes
nesciamente. "Quando, pois, Davi se levantou pela dentro de Israel sentiram-se obrigados a
manhã, veio a palavra do Senhor ao profeta Gade, buscar uma nova forma de governo que
vidente de Davi, dizendo: 12Vai, e dize a Davi: seria bem mais capaz de propiciar uma força
Assim diz o Senhor: D-ês coisas te ofereço; escolhe dissuasiva permanente para a agressão
qual delas queres que eu te faça. 13Yfeio, pois, Gade
a Davi, e fez-lho saber dizendo-lhe: Queres que te estrangeira (cf. ISm 8.20; 12.12).
venham sete anos de fome na tua terra; ou que por Uma vez que Saul havia enfrentado pres­
três meses fujas diante de teus inimigos, enquanto sões de quase todos os lados, opondo-se à
estes te perseguirem; ou que por três dias haja peste própria idéia de uma nonarquia israelita,
na tua terra? Delibera agora, e vê que resposta hei
de dar àquele que me enviou. 14Respondeu Davi seu governo reteve os principais aspectos
a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos da antiga federação tribal (cf. Bright, p. 169).
nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas Davi, por outro lado, havia introduzido
misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia reformas profundas e inovadoras, parti­
eu. 15Então enviou o Senhor a peste sobre Israel,
desde a manhã até o tempo determinado; e
cularmente em relação à estrutura militar
morreram do povoi, desde Dã até Berseba, setenta da nação. Desde o começo de seu reinado,
mil homens. 16Ora, quando o anjo estendeu a mão Davi havia dependido grandemente de seu
sobre Jerusalém, para a destruir, o Senhor se arre­ exército profissional regular (cf. comentário
pendeu daquele mal; e disse ao anjo que fazia a sobre 23.8-39); e agora aparentemente está
destruição entre o povo: Basta; retira agora a tua
mão. E o anjo do Senhor estava junto à eira de propondo também uma reorganização da
Araúna, o jebuseu. 17E, vendo Davi ao anjo que milícia tribal.
feria o povo, falou ao Senhor, dizendo: Eis que eu Conquanto recenseamentos para outros
pequei, e procedi iniquamente; porém estas ovelhas, propósitos fossem permissíveis (Ex 30.11 e
que fizeram? Seja, pois, a tua mão contra mim,
e contra a casa de meu pai.
ss.; Nm 1.2 e ss.; 26.1 e ss.), os interesses
militares inerentes na enumeração de Davi
(v. 9) sugerem que ele estava planejando
estabelecer uma quota de convocação de
A última narrativa sobre Davi no vigor soldados para cada uma das tribos.40
de sua vida envolve três acontecimentos
principais: um recenseamento (v. 1-9); uma 4U George E. M endenhall, “T h e C ensus Lists o f Num bers 1 and 26”,
praga (v. 10-17); e a aquisição de uma área Journal o f Biblical Literature, LX X V II (1958), p. 56.

158
Mesmo Joabe pôde ver que as pessoas iriam 21.1-14. Contudo, nenhuma menção à ira
resistir violentamente a um tal alistamento do Senhor é encontrada no contexto ante­
militar e inutilmente instou Davi a aban­ rior.
donar o plano (v. 3). Havia em Israel oitocentos mil homens
Infelizmente, Davi não havia previsto valorosos, que arrancavam da espada; e os
a forte reação religiosa a esse censo militar. homens de Judá erâm quinhentos mil. Os
Em vista da íntima relação anterior entre números são incertos uma vez que a
o culto de Israel e a guerra, as pessoas consi­ passagem paralela em Crônicas indica
deravam sua decisão como um ataque aos 1.100.000 homens em Israel e 470.000 em
princípios teológicos sobre os quais a nação Judá, sem nenhum de Levi ou Benjamim
fora estabelecida. Quando uma grave praga (lCr 21.5,6).
atingiu Israel logo após o censo ter-se O Senhor se arrependeu daquele mal.
completadoi, foi tida como sinal do desprazer A seqüência parece confusa aqui. O versí­
do Senhor. Presumivelmente, o Senhor, que culo 16 deixa implícito que Deus já havia
estava irado com Israel por alguma razão interrompido a praga pouco antes de
não declarada, tinha incitado Davi a levan­ alcançar Jerusalém, e contudo o restante
tar o censo a fim de que pudesse ter oca­ do capítulo não toma conhecimento desse
sião de descarregar a ira sobre o seu povo. fato (cf. especialmente v. 17,21,25). Talvez
Conquanto tal opinião sem dúvida este versículo tenha sido transposto de outro
local.
tivesse o objetivo de exaltar a Deus como
dirigente de toda a vida e história humana
(cf. Is 45.7), não deixa de apresentar difi­ 7. Davi Constrói um Altar (24.18-25)
culdades teológicas. É verdade que o
universo inteiro é, em última análise, 18Naquele mesmo dia veio Gade a Davi, e lhe
disse: Sobe, levanta ao Senhor um altar na eira de
operado sob a autoridade e controle de Araúna, o jebuseu. '“'Subiu, pois, Davi, conforme
Deus, mas o pensamento bíblico posterior a palavra de Gade, como o Senhor havia ordenada
torna claro que o Senhor busca dirigir o 20E olhando Araúna, viu que vinham ter com ele
homem para o bem, e não para o que lhe o rei e os seus servos; saiu, pois, e inclinou-se diante
é prejudicial. O autor dos livros de Crônicas do rei com o rosto em terra. 21Perguntou Araúna:
Por que vem o rei meu senhor ao seu servo?
parece ter aprendido este fato, pois sua Respondeu Davi: Para comprar de ti a eira, a fim
versão desta passagem indica que Satanás de edificar nela um altar ao Senhor, para que a
incitou Davi a fazer o recenseamento do praga cesse de sobre o povo. 22Então disse Araúna
povo (lCr 21.1; cf. também Rm 8.28; Tg