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Discurso do Papa Pio XII aos Recém Casados

Pio XII e a Família Cristã


LVIII - A Mulher na Família
II – A Esposa e Mãe – Sol do Lar Doméstico
11 de Março de 1942

No curso de vossa vida, amados recém casados, a lembrança que conservareis da casa do Pai
Comum e da sua bênção apostólica os acompanhará como doce consolo e presságio no caminho
que começareis com tantas esperanças, sob a proteção divina, em um tempo tão complicado
como o presente, em direção a uma meta que apenas os deixa adivinhar a escuridão do futuro.
Mas diante dessa escuridão vosso coração não tem medo, os impulsionam o ardor e a audácia da
juventude; a união dos espíritos e dos desejos dos passos da vida, o mesmo caminho que pisais,
não os perturbam a tranqüilidade do espírito, mas os renovam e dilatam. Sois felizes dentro de
vossos lares; não vedes escuridão; a família tem um sol próprio: a esposa. Ouvi como dela nos
fala a escritura: “A graça de uma mulher cuidadosa rejubila seu marido, e seu bom
comportamento revigora os ossos. É um dom de Deus uma mulher sensata e silenciosa, e nada se
compara a uma mulher bem educada. A mulher santa e honesta é uma graça inestimável; não
há peso para pesar o valor de uma alma casta. Assim como o sol que se levanta nas alturas de
Deus, assim é a beleza de uma mulher honrada, ornamento de sua casa”.[1]

Sim, a esposa e mãe é o sol da família. Sol com sua generosidade e submissão, com sua
constante prontidão, com sua delicadeza vigilante e previdente em tudo o que serve para tornar
alegre a vida ao marido e aos filhos. Em torno dela difunde-se luz e calor; e costuma-se dizer
então que um matrimônio é bem-aventurado, quando cada um dos cônjuges, ao contraí-lo, mira
fazer a felicidade não própria, mas da outra parte; este nobre sentimento e esta intenção,
embora dizendo respeito a ambos, é porém antes de tudo virtude da mulher, que nasce com as
palpitações de mãe e com a maturidade de coração; aquela maturidade que, se recebe
amargura, não quer dar senão alegria; se recebe humilhações, não quer dar senão dignidade e
respeito; à semelhança do sol que alegra a manhã nebulosa, com seus albores e doura os ninhos
com raios de seu ocaso.

A esposa é o sol da família pela clareza de seu olhar e pela chama de sua palavra; olhar e
palavra que penetram docentemente na alma, dobram-na e a enternecem e a solevam fora do
tumulto das paixões, e reclamam para o homem a alegria do bem e da conversação familiar,
depois de um longo dia de contínuos, por vezes penosos trabalhos profissionais ou campestres,
ou de imperiosos afazeres do comércio ou da indústria.

Seu olhar, seus lábios lançam lume e têm um acento de mil fulgurações em um luzir, mil afetos
em um som. São lampejos e sons que saem do coração da mãe, criam e vivificam o paraíso da
infância, e sempre irradiam bondade e suavidade, ainda quando avisam e reprovam, porque os
ânimos juvenis, que mais forte sentem, mais intimamente e profundamente acolhem os ditames
do coração.

A esposa é o sol da família com sua cândida naturalidade, com sua digna simplicidade e com seu
decoro honesto e cristão, tanto no recolhimento e na retidão do espírito, como na sutil harmonia
de seu comportamento ou de seu vestido, de seu ajustamento e atitude, ao mesmo tempo
reservados e afetuosos. Sentimentos leves, delicados acenos do rosto, ingênuos silêncios e
sorrisos, um condescendente movimento de cabeça, dão-lhe a graça de uma flor eleita e
simples, que abre suas corolas para receber e refletir as cores do sol.

Oh! se vós soubésseis que profundos sentimentos de afeição e reconhecimento tal imagem de
esposa e de mãe suscita e imprime no coração do pai e dos filhos!

Ó anjos, que guardais a casa e escutais suas preces, espargi de perfumes celestes este lar de
felicidade cristã!

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Mas se suceder que a família permaneça sem este sol, como será? Se a esposa continuamente e a
cada circunstância, mesmo nas relações mais íntimas, não titubeia em fazer sentir quantos
sacrifícios lhe custa a vida conjugal? Onde está sua amorosa doçura, quando com uma excessiva
dureza na educação, com uma excitabilidade mal dominada e uma irritante frieza no olhar e na
palavra sufoca nos filhos o sentimento e a esperança de encontrar alegria e feliz paz junto da
mãe?

Quando ela não faz senão perturbar triste e amargamente, com voz áspera, com lamentos e
reprovações, a confiante convivência no círculo familiar? Onde está a generosa delicadeza e o
terno amor, quando ela, em vez de criar com natural simplicidade e prudente uma atmosfera de
agradável tranqüilidade na casa, toma ares de irrequieta, nervosa e exigente senhora, bem de
moda hoje?

Seria isso difundir benévolos e vivificantes raios solares, ou é antes um esfriar, com vento glacial
o jardim da família? Quem não se maravilhará então se o homem, não encontrando naquele lar o
que o atraia, retenha e conforte, afaste-se o mais que puder, provocando semelhante
afastamento da mulher, da mãe, quando o afastamento da mulher já não tenha preparado o
afastamento do marido; um e outra indo-se assim à procura, fora – com grave perigo espiritual e
com dano para a união familiar – do sossego, do repouso, do bem-estar, que lhes não concede a
casa? Em tal estado de coisas os mais desventurados a sofrer são, fora de qualquer dúvida, os
filhos! Eis ó esposas, até onde pode chegar a vossa parte de responsabilidade para a concórdia
da felicidade doméstica.

Se ao vosso marido e ao seu trabalho cabe procurar e estabelecer a vida do lar, a vós e ao vosso
cuidado cabe ajustar o conveniente bem-estar e providenciar a pacífica serenidade comum de
vossas duas vidas. Isto é para vós não somente uma obrigação de natureza, mas também um
dever religioso e uma obrigação da virtude cristã, para o vigor de cujos atos e de cujos méritos
vós crescereis no amor e na graça de Deus.

“Mas – dirá talvez alguma dentre vós – desta maneira nos pede uma vida de sacrifício!”. Sim; a
vossa é vida de sacrifícios, mas não somente de sacrifícios. Acreditais vós, por acaso, que aqui
embaixo se possa gozar de uma verdadeira e sólida felicidade? Que em algum ângulo deste
mundo se encontre a plena e perfeita beatitude do paraíso terrestre? E pensais talvez que vosso
marido não deva também ele sacrificar-se, por vezes gravemente, para conseguir um pão
honrado e seguro para a família? Exatamente estes mútuos sacrifícios, suportados juntos e em
comum vantagem, dão ao amor conjugal e à felicidade da família a sua cordialidade e
estabilidade, sua profundidade santa e aquela especial nobreza que se exprime no mútuo
respeito dos cônjuges e os exalta no afeto e no recolhimento dos filhos.

Se o sacrifício materno é o mais agudo e doloroso, a virtude do alto os tempera. De seu sacrifício
a mulher aprende a compaixão às dores alheias. O amor para a felicidade de sua casa não a
fecha em si; o amor de Deus, que a exalta no seu sacrifício acima de si, abre-lhe o coração a
toda piedade e a santifica.

“Mas - objetar-se-á talvez ainda – a moderna estrutura social, operária, industrial e


profissional, leva em grande número a mulher, também as casadas, a sair de fora do lar, da
família e a penetrar no campo do trabalho e da vida pública”. Nós não o ignoramos, queridas
filhas. É muito duvidoso se essa condição de coisas constitui para uma mulher casada o que se
diz do ideal. No entanto, é preciso ter presente o fato. Com tudo a Providência, sempre
vigilante em seu governo da humanidade, inseriu no espírito da família cristã forças superiores
que servem para mitigar e vencer a dureza de um tal estado social e obviar os perigos, que
indubitavelmente em si escondem.

Não tendes vós talvez observado como o sacrifício de uma mãe, que, por especiais motivos, deve
além de seus deveres domésticos, se engenha para buscar, a custa de um duro trabalho
cotidiano o sustendo da família, não somente conserva, mas alimenta e aumenta nos filhos a
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veneração e o amor para com ela, e obtém seus reconhecimentos por suas angústias e fadigas,
quando o sentimento religioso e a confiança em Deus constituem o fundamento da vida familiar?

Se tal é o caso no vosso matrimônio, com plena confiança em Deus, o qual ajuda sempre quem o
teme e o serve, ajuntai, nas horas e nos dias que podeis dar inteiramente aos vossos entes
queridos, um redobrado amor e um ciumento cuidado, não somente para assegurar à verdadeira
vida da família o mínimo indispensável, mas também para deixar que de vós procedam no
coração do marido e dos filhos tantos luminosos raios de sol, que confortem, fomentem e
fecundem, também nas horas da separação exterior, a espiritual união do lar.

E vós, esposos, colocados por Deus como cabeça de vossas esposas e de vossas famílias, ao
mesmo tempo que contribuís com vosso trabalho para o seu sustento, prestai vossa ajuda
também à obra de vossas mulheres no cumprimento da santa e elevada – e não raras vezes
fatigosa – missão. Colaborai com elas, com aquela solicitude e afeto que faz um de dois
corações, e uma mesma força e um mesmo amor. Mas sobre esta colaboração e seus deveres, e
as responsabilidades que derivam também para o marido, teria muito o que dizer, e por isso nos
reservamos para vos falar em outras audiências.

Ante vós, recém-casados, que sucedeis a outros grupos semelhantes que vos precederão adiante
de nós e por nós foram abençoados, nosso pensamento nos traz à mente o grande dito do
Eclesiastes: “Passa uma geração e sucede outra; mas fica sempre a terra”[2]. Assim correm
novos séculos, mas Deus não muda; não muda o Evangelho nem o destino do homem para a
eternidade; não muda a lei da família; não muda o inefável exemplo da família de Nazaré,
grande sol de três sóis, um deles, um dos fulgores mais divinos e mais ardentes que os outros
dois que os rodeiam. Olhe aquela modesta e humilde casa, oh pais e mães: contemplai Aquele
que se cria “filho do carpinteiro”[3], nascido do Espírito Santo e da Virgem escrava do Senhor; e
conforta-os nos sacrifícios e nos trabalhos da vida; ajoelhai-vos ante eles como crianças; invocai-
os, suplicai-lhes; e aprendei deles como as contrariedades da vida familiar não humilham, e sim
exaltam; como não fazem ao homem nem a mulher menores para o céu, e sim que valem uma
felicidade, que em vão se busca entre as comodidades deste mundo, onde tudo é efêmero e
fugaz.

Terminaremos nossas palavras elevando à Santa Família de Nazaré uma ardente súplica por todos
e cada um de vossos lares, para que vós, queridos filhos e filhas, cumprais vosso oficio à
imitação de Maria e de José, e assim possais educar e fazer crescer aqueles pequenos cristãos,
membros vivos de Cristo, que estão destinados a gozar convosco um dia a eterna bem-
aventurança do céu.

É o que pedimos ao Mestre divino, enquanto com todo o coração vos damos nossa paterna
benção apostólica.

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[1]Eclo XXVI, 16-21.
[2]Eccles. I, 4.
[3]Mt. XIII, 55. 107

Tradução não oficial do discurso em espanhol.