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JUAN G.

ATIENZA

Os Sobreviventes
da Atlântida
Título original: Los supervivientes de la Atlántida
© 1978, Ediciones Martinez Roca, S. A.

Traduzido por: Carlos Garcia Diaz

NOVA ÉPOCA EDITORIAL LTDA.


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SÃO PAULO

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Existiu uma civilização superior nos países atlânticos?
Quem eram os deuses do Dilúvio?
Homens transformados em deuses deixaram-nos as
suas marcas
JUAN G. ATIENZA, diretor o argumentista de cinema e televisão,
estudioso da história, observou Espanha palmo a palmo e parte de Portugal,
e no seu incessante recorrer encontrou uma série de fatos, de costumes, de
fenômenos e de restos arqueológicos que o levaram às mais ousadas
teorias.

Todas as lendas míticas das civilizações antigas contam uma


só história: a dos homens que, em tempos perdidos da memória
humana, trouxeram consigo a civilização de um lugar que havia
desaparecido depois de um cataclismo cósmico.
E a coincidência das lendas míticas não se limita a recordações
obscuras da mente coletiva do ser humano.
Observando com objetividade os restos arqueológicos que o
passado mais remoto nos legou, comprovaremos que está presente
neles a realidade irrefutável daqueles mitos.
Porque é que os Templários, em troca da sua ajuda na
Reconquista, solicitavam a propriedade de certos lugares cem anos
antes da sua conquista? Porque é que estes lugares eram sempre
centros de cultura megalítica?
Houve um só Noé ou vários? Eram sobreviventes da Atlântida
que levavam com eles o «conhecimento total» que os Templários
procuravam e que nós continuamos a procurar?
A história mais antiga da humanidade deixou uma mensagem
nas pedras, nas pinturas rupestres, no mistério ainda indecifrado dos
petroglifos, na mole dos megalitos.
E essa mensagem fala-nos de um tempo perdido em que os
deuses do Dilúvio eram ainda homens e tinham chegado de alguma
parte desconhecida para transmitir o seu saber aos caçadores da Pré-
história.
ÍNDICE

Prólogo: morte e exéquias por um humanismo integral ...... 4


1. Algo mais que uma surpresa.............................................. 14
2. Elos para uma cadeia......................................................... 21
3. Os núcleos mágicos .......................................................... 29

Os indícios de um passado desconhecido


4. A Idade de Ouro................................................................. 36
5. A velha história de Noé .................................................... 47
6. Seres gigantescos e povos dispersos ................................ 58
7. O mito serpentário ........................................................... 71
8. Ritos e mitos da ave........................................................... 81
9. O enigma das pedras escritas............................................. 93

Um passado à luz dos seus indícios


10. A incerta origem das crenças .......................................... 109
11. A cabeça de Jano..............................................................137
12. As pedras de Roldán........................................................ 137
13. Os lugares e a sua magia..................................................152
14. Pedras, metais e tudo o resto............................................162
15. Os elos da cadeia mágica............ ................................ 177

Notas...................................................................................... 185
Prólogo: morte e exéquias por um humanismo
integral

Acontece-nos freqüentemente a todos: as verdades mais


significativas, precisamente aquelas que, por serem as mais evidentes,
representam, uma resposta efetiva às perguntas eternas do homem
sobre a sua própria natureza e sobre o seu Fim último, têm de ser
relatadas sob a forma de parábolas ou de lendas para que sejam
aceites. E dá-se o caso de que tais narrações simbólicas são capazes de
revelar, mais que qualquer explicação abstrata ou metafísica, os que
nos parecem ser os mais profundos mistérios do conhecimento.
Vou contar uma parábola. Não, não é minha. Extraí-a, quase
textualmente da página 32 do Evangelho de Rama-khrisna, e tenho-a
lido, com poucas, variantes, em textos místicos:
Quatro cegos apalparam o corpo de um elefante.
Um tocou-lhe na perna e exclamou:
— O elefante é como um pilar.
O segundo tocou-lhe na tromba e disse:
— O elefante é como uma serpente.
O terceiro apalpou a barriga do paquiderme:
— O elefante é igual a um tonel - disse.
E o quarto tocou-lhe nas orelhas e afirmou:
— O elefante é como um abano.
Começaram a discutir entre si sobre a forma do animal, sobre o seu
aspeto. E quase chegaram a vias de fato. Um transeunte, vendo-os a
discutir, perguntou-lhes o que se passava, e eles apresentaram os seus
pontos de vista pedindo-lhe que decidisse sobre quem tinha razão. O
transeunte pensou alguns momentos.
— Nenhum de vocês viu o elefante.
O elefante não é como um pilar: as suas pernas é que são como
pilares. Não é como um tonel: a sua barriga é que é como um tonel.
Também não é como um abano: são as suas orelhas as que parecem
abanos. E também não é como uma serpente, porque unicamente a sua
tromba é que é semelhante a uma serpente. O elefante é como que
uma combinação de tudo isso, mas é também muito mais do que isso.
Da mesma forma discutem muitos, sectários que apenas viram um
aspeto da verdade.
Mas aquele que viu toda a verdade em todos os seus aspetos, pode
decidir em todas as discussões.
Freqüentemente ponho-me a pensar — porque o vivo na própria
carne — que a nossa civilização alcançou já um estádio em que o fato
de viver como os cegos da parábola se tornou moeda corrente. O
rápido avanço da tecnologia e das ciências repercutiu-se no homem,
obrigando-o a uma rigorosa especialização dos seus conhecimentos e
das suas atividades, sem qualquer possibilidade de fuga.
O humanismo, em grande parte, morreu.
Já não existe o estudioso, mas sim o especialista de um
determinado ramo particular de qualquer ciência subsidiária.
O filólogo já não tem qualquer idéia sobre o funcionamento de um
computador.
O médico ignora as origens da civilização ocidental. O advogado
não conhece a evolução dos estudos matemáticos que se realizam
sobre a constante espaço-tempo. E este fato, por desgraça, é
absolutamente irreversível, pelo menos de acordo com os planos
culturais que nos regem.
Há muitos que conseguem adaptar-se perfeitamente a esta situação
na qual o homem se defronta com a obrigação irreversível de viver
dentro de um compartimento estanque em que a sua atividade
imediata tem o seu sítio certo, sem outra visão que não seja a que lhe
permite — apenas — vislumbrar os outros compartimentos que estão
na sua imediata vizinhança.
Há outros, contudo, que querem ver para além do pequeno
compartimento em que lhes coube vegetar. São aqueles seres que,
ainda hoje, têm a percepção de que há um lugar — e possivelmente
muitos mais dos que a lógica pura pode vislumbrar — em que se
unem, respondendo a uma verdade única, humana e natural, as
ciências matemáticas, biológicas, filológicas, químicas, médicas,
históricas, físicas e metafísicas. Um ponto no qual a geometria se faz
história, em que a biologia se converte em religião, em que a ciência
da linguagem se identifica com a música, com os cálculos
arquitetônicos de um templo, com os componentes químicos das águas
medicinais ou com a mais abstrata compreensão da Verdade — com
maiúscula — e disso tão impreciso a que chamamos Vida Ultraterrena
e que é, no fim de contas, a mais imediata e urgente preocupação dos
homens de todos os tempos.
É como se tudo o que nos rodeia e constitui a essência dos nossos
conhecimentos não fosse, na sua origem mais remota, apenas uma
coisa: uma realidade desconhecida que vai para além das limitações
científicas que nos levam a partir, seguramente, dos mesmos
princípios da civilização tecnológica em que estamos inseridos.
Desde o limitado ponto de vista que nos foi demarcado pelo
progresso científico, sentimo-nos já humanamente incapazes de
abarcar a totalidade de uma Verdade que os filósofos da antiga Grécia
tentaram conhecer ou, ainda antes, os sacerdotes — científicos dos
santuários egípcios. Poderemos, possivelmente, estudar o
comportamento dos genes que constituem a raiz da nossa
hereditariedade. Poderemos calcular, com um erro muito relativo, a
antigüidade de um fóssil pré-histórico. Poderemos medir a trajetória
de uma galáxia no espaço curvo e inclusive, usando os meios incríveis
que nos proporciona a ciência, poderemos transformar os metais em
ouro, como tentaram fazer os alquimistas no passado. Mas seremos
incapazes de unir numa só verdade superior a relação indubitável que
tem a nossa hereditariedade com o movimento das galáxias, com a
idade real da espécie humana no Cosmos, com as mais abstratas
realidades matemáticas ou com a mística profunda que orientou a obra
paciente dos alquimistas.
Por isso, quando chega o momento ou a ocasião de dar explicações
sobre um fenômeno que, mesmo sendo evidente e natural, foge aos
cânones estabelecidos pela ciência racionalista que oficialmente se
aceitou, o investigador é rotulado de visionário ou de alucinado por ter
a inqualificável ousadia — digamos assim, em linguagem
deliberadamente vetusta — de falar ou de escrever sobre questões cujo
conhecimento absoluto tem forçosamente de lhe escapar.
É preferível calar, limitando-nos a catalogar os fenômenos e as
incógnitas sem tentar descobrir os porquês de uma unidade cósmica
que, por pouco que aprofundemos, se tornará absolutamente evidente
e irreversível. Uma verdade que abarca e totaliza o conhecimento sem
distinção de ciências nem dos seus compartimentos estanques.
E, contudo...
O segundo parágrafo da chamada Tábua de Esmeralda do mestre
Hermes Trimegisto diz:
«O que está por baixo é como o que está por cima e o que está por
cima é como o que se encontra por baixo, para fazer o milagre de uma
coisa única».
Por cima. Por baixo. Sabemos — e, mais do que saber, temos a
intuição e aceitamos — que tudo é relativo. Que o que significa por
baixo para nós poderia ser o por cima dos nossos antípodas.
Que o que é infinitamente pequeno para o cientista que estuda a
estrutura do átomo é igual ao infinitamente grande que investiga o
astrônomo que mede matematicamente a natureza das galáxias e dos
quasars, impossíveis de obáervar através da objetiva de um
radiotelescópio: massas de matéria e de antimatéria, de luz e de
energia, que a imaginação apenas pode conceber e que só as
matemáticas são capazes de efetuar um trabalho de catalogação.
Porque, em última análise, tão sujeita às mesmas leis cósmicas está
a trajetória de um elétron em torno do seu núcleo como a de um
satélite ou de um planeta em volta do sol. E isto numa total e
incontroversa proporção matemática. Porque, se tomarmos o ser
humano como unidade ideal e a esse metro convencional que
implantou, como medida de todas as coisas do céu e da Terra,
comprovaremos como o núcleo atômico — a unidade mínima aceite
pela física — mede dez mil milionésimas do metro, 10-10. E o sol, o
nosso Sol, dez mil milhões de metros: 1010. E entre o átomo e o
cosmos, entre o microcosmo e o macrocosmo, se encontra Tudo,
absolutamente tudo o que o nosso conhecimento é capaz de abarcar,
em todos os campos de uma ciência que bem poderíamos classificar
de Ciência Total, de Ciência única.
Mas essa intuição da Ciência Total é precisamente a que, tanto nos
chamados séculos obscuros da Idade Média, como nestes anos que —
não sei porque razão — chamamos diáfanos, se rotulou de
«ocultismo». E essa denominação implicou, por sua vez, desprezo,
temor, anátema e castigo.
Porquê? Por três motivos bem definidos.
O primeiro, porque os especialistas — ou aqueles a que a si
mesmos assim se chamaram — limitados às matérias da sua atividade,
demonstraram — coisa que não era rigorosamente impossível — que
aquele que sentiu a intuição da Ciência Total e tocou de uma maneira
ou de outra o seu parcial "saber científico na determinada matéria que
eles dominavam, mostrava conhecimentos incompletos, parciais e
aparentemente falsos ou pelo menos, não aceites pela experiência
empírica.
O segundo, porque os poderes constituídos, qualquer que seja o
seu tipo: políticos ou religiosos, declararam-se sempre contrários e
inimigos de teorias ou hipóteses que ficassem fora dos limites do
oficialmente aceite e permitido, pelo qual aqueles que professaram em
qualquer altura idéias — nem sequer lhe chamamos crenças —
diferentes do pensamento autorizado, tiveram que ocultá-las ao longo
da história, conservando-as no maior segredo ou expondo-as de uma
maneira velada, sob a forma de símbolos ou de signos que só podiam
ser conhecidos e reconhecidos pelos seus correligionários.
O terceiro, porque muitos dos investigadores, teóricos ou práticos,
desta ciência que podíamos denominar Ciência Universal, têm
sustentado as suas idéias dentro de uma sabedoria da qual eles
próprios, por pretendida inspiração superior, seriam os únicos
detentores. E assim se chamam a si próprios Iniciados ou adeptos e
sustentam que as suas convicções não podem tornar-se públicas
devido ao mau uso que delas ou dos seus eventuais poderes, os outros
seres humanos pudessem fazer. Talvez tal asserção tenha uma origem
verdadeira, mas atrevo-me a insistir — e insistirei enquanto a
experiência não me demonstre o contrário — na capacidade natural do
ser humano para captar e aprender o Saber, e inclusive fazer desse
saber um uso honesto, a não ser que os poderes repressivos o levem a
atuar violentamente para defender-se.
A conseqüência imediata e histórica destas atitudes foi que, por
segredo de uns, por ignorância de outros e por tácito anátema dos
poderosos, as ciências — tanto históricas como naturais, tanto
humanas como abstratas — alcançaram um determinado ponto no seu
estudo a partir do qual é absolutamente impossível prosseguir. E essa
impossibilidade provem, precisamente, de que o impasse coincide
com a intersecção dessa matéria científica com outra que apenas
aparentemente lhe é diametralmente oposta.
Se tomássemos, por exemplo, o caso da linguagem e do seu
escudo, dos sinais escritos ou orais que o expressam, poderíamos
remontar no tempo à procura de umas possíveis origens.
Retrocedendo até ao mais remoto passado chegaríamos, sem lugar
a dúvidas, das línguas modernas ao latim, do latim às línguas
primitivas indo-européias e ao sânscrito. Mas ficaremos sem a menor
possibilidade de interligar as origens comuns — se na realidade
existiram, pois a ciência oficial ignora-as - destas línguas indo-
européias com outras que se falaram e até se escreveram no continente
americano antes da conquista européia. Apenas a sincera aceitação de
uma língua matemática originária comum, tal como contam as
tradições que se falava na Terra antes da tentativa da Torre de Babel,
poderia levar-nos a compreender o elo que na atualidade não só não é
compreendido, como nem sequer é aceite.
E, contudo, a simbologia religiosa dos números e dos sinais
coincide nos dois núcleos culturais, aparentemente sem conexões
históricas anteriores.
Para despeito de filólogos e de historiadores, essas relações
planetárias originais existem. E são umas relações que entram
plenamente no campo de uma ciência matemática que, por sua vez,
contém o desenvolvimento último de toda uma razão metafísica e
inclusive religiosa do aparecimento do homem na Terra. Os filósofos
matemáticos seguidores de Pitágoras o entendiam assim. Da mesma
forma o compreenderam os arquitetos de Gizé, e os alquimistas que
procuravam o aperfeiçoamento do homem através de umas práticas
nas quais o ascetismo se combinava com o saber científico e com o
desejo de colaborar ativamente na obra sem fim da Natureza.
Que há uma Ciência Total na qual se unem todos os saberes e
estão englobadas todas as crenças é algo que, a despeito de pequenos
conhecimentos e de credos particulares, não podemos pôr em dúvida.
Que essa Ciência Total foi è continua a ser uma aspiração dos
seres humanos a todos os níveis pode, ser constatado analisando os
símbolos que os seres humanos têm ido deixando através da sua
história e da história dos seus costumes.
Que essa mesma Ciência Total possa ter sido, num momento
perdido do passado, patrimônio da Humanidade, ou pelo menos de
uma parte dela, está certificado precisamente pela constante procura
da sua recuperação ao longo dos tempos.
Este livro pretende empreender, neste sentido, uma peregrinação
anásquica através dos caminhos do passado, à procura das marcas que
deixou, desde um tempo perdido na obscura noite da história, a
memória e o testemunho de uns tempos que a ciência oficial se nega a
reconhecer.
Quero deixar bem patente que não pretendo dar respostas a muitas
perguntas que eu próprio, provavelmente, continuarei a fazer a mim
próprio durante toda a vida.
Pretendo apenas mostrar que, num momento indeterminado do
passado humano, essa Ciência Total poderá ter estado, de algum
modo, presente nas terras da Península e que, desde então, homens e
povos inteiros têm caminhado sem descanso sobre elas, à procura de
testemunhos e da sobrevivência daquela desconhecida Idade de Ouro
na que havia uma resposta às mais urgentes perguntas do gênero
humano.
Estudando juntos as marcas dessa brecha no tempo é possível que
encontremos também juntos a resposta — parcial — à surpresa que
sente o professor Sánchez Albornoz quando encontra, «na Espanha
posterior ao ano 700 muitas características da Espanha anterior a
Cristo».
Porque, efetivamente, Espanha contém, na sua terra e nas suas
gentes, uma continuidade histórica e ideológica que creio que pode ser
seguida passo a passo. E isso, mesmo que eventualmente faltem ainda
alguns elos que, em qualquer caso, podiam ser completados pela
recordação de histórias alheias e por sedimentos míticos que ainda não
foram convenientemente estudados e que convinha trazer à luz.
Infelizmente atravessamos um tempo no qual se perdem, de um dia
para o outro, os testemunhos mais preciosos que poderiam servir para
ajudar-nos a desentranhar o nosso passado real, a nossa personalidade
mágica e, em muitos casos, a própria razão dos nossos credos, das
nossas fobias e dos nossos desejos ancestrais.
Um exemplo arrepiante, vivido ainda recentemente, vêm-me à
memória e obriga-me a dar testemunho do que um tempo inconsciente
pode ser capaz de destruir.
Em plena serra da Demanda, no limite das províncias de Burgos e
Sônia, no meio de pinhais municipais que tapam caminhos e desviam
os passos de caminhantes pouco habituados, há um monumento
megalítico único e desconhecido. Um enorme rochedo perdido entre
os montes mostra ainda o rasto de gentes desconhecidas que habitaram
ali em tempos obscuros da história e deixaram nas rochas os depósitos
de água que lhes serviam para beber, as cavernas em que se
refugiavam, e os degraus escavados na rocha viva que trabalharam
para fazer praticáveis os movimentos mais inverossímeis. As marcas
de séculos sucessivos estão patentes nas rochas trabalhadas. Há sinais
de cultos pré-históricos, cruzes e sepulturas escavadas por
comunidades que já praticavam os cultos cristãos, moradas de
eremitas e sinais inequívocos de edifícios complementares que
proclamam a continuidade de um culto religioso num espaço
ascentralmente mágico. Séculos de crenças e de símbolos acumulam-
se em pedras cujo contorno não foi ainda desenterrado por falta de
meios.
Mas.... aqui surge a tragédia histórica: uma parte que pode guardar
a chave de muitos enigmas de tempos passados está sendo destruída
sistematicamente por canteiros que aproveitam aquelas pedras para a
construção de hotéis residenciais de uma urbanização que se eleva a
vários quilômetros dali. Ninguém respondeu aos apelos urgentes dos
que têm consciência daquela perda. Ninguém reivindicou a
responsabilidade perante um monumento do passado desconhecido
que se está perdendo de hora a hora. Em pouco tempo talvez tenha
acontecido já desde o dia em que pude ver aquele enclave até hoje,
dois meses depois, quando escrevo — um testemunho da nossa
história mais intima e mais desconhecida terá desaparecido, sem
qualquer possibilidade de recuperação.
Fatos como este incitam-me, talvez mais que qualquer outro, a
escrever e a contar.
Sinto a íntima convicção de que há um interesse tácito em manter
desconhecidos uns aspetos do nosso passado que poderiam fazer-nos
transportar sobre distintas realidades boa parte da nossa história.
Não sei se esse interesse é consciente ou se, pelo contrário, se trata
de uma elevada ignorância e de um deixar que as circunstâncias
mandem sobre a paixão irreversível de saber, de conhecer.
Penso que, nesta procura do Saber Total pelo homem -uma procura
que muitas vezes é secreta e, na maioria das vezes, absolutamente
inconsciente — todos os caminhos de entrada são bons e válidos.
Penso que nenhum deles deve ser desaproveitado e que, na medida
das nossas forças, todos os que sentimos o afã de ir um pouco mais
além no conhecimento teríamos de comunicar as nossas ansiedades e
intuições para que, a partir delas, outros pudessem reexaminar
conscientemente aqueles aspetos que dizem respeito aos seus
específicos campos de conhecimento.
Penso também que tanto valem as intuições como as provas e que,
muitas vezes, as perguntas sem resposta são tão valiosas - ou mais -
que os axiomas irreversíveis de uma experiência sem finalidade.
Prefiro caminhar à procura de fontes inseguras do que vegetar sobre
princípios agarrados a uma experiência estatística.
Nestas andanças pelo passado têm-me faltado, muitas vezes,
crônicas fidedignas que esclarecessem os fenômenos que
aparentemente não tinham explicação. Interpretações parciais e outras
voluntária ou involuntariamente falseadas procuram — quase sempre
— desviar a atenção para caminhos equívocos de um racionalismo
mal compreendido. Tem sido necessário recorrer a maior parte de
Espanha com os olhos bem abertos para ter a sensação de que não há
nada que deva ser posto de parte. Nem o homem de um pequeno
povoado, nem a data incerta de uma fundação, nem o passo de uma
dança popular, nem o sabor especial de uma história meio esquecida.
Na hora de saber, tudo me interessa. E desejava que o leitor se
sentisse também afetado por este desejo de abarcar a essência de tudo
o que nos cerca, desde o significado transcendente de um mito de
aparência absurda até à circunstância banal que tenha provocado um
acontecimento bem definido em determinado lugar geográfico de
qualquer freguesia; desde o carrossel das feiras populares às obras dos
mestres dos melhores museus. Porque acredito em que há sempre um
sinal e um significado por trás de cada manifestação humana; porque
julgo que o homem, desde que apareceu sobre a superfície do Planeta,
tem procurado consciente ou inconscientemente a razão última da sua
existência. E essa procura tem transparecido em cada um dos seus
atos, como testemunho de mais uma tentativa para alcançar esse Saber
Total.
Se estas páginas servissem também, para aprender a conhecer uma
Espanha diferente, na qual a surpresa de uma descoberta insólita
pudesse conduzir a uma pergunta concreta e deixasse de ser motivo de
assombro inexplicado, reforçaria a minha confiança de que vivemos
para algo mais importante que satisfazer as nossas mais imediatas
necessidades e esperar de braços cruzados sobre a nuca de que alguma
coisa imensa e terrível nos rebente em cima qualquer dia e nos
destrua. Assim sem motivo, sem razão... Ou talvez com ambas as
coisas?
1

ALGO MAIS QUE UMA SURPRESA

Há algum tempo li nas páginas dominicais de um jornal um


daqueles artigos em que nos querem descobrir a chamada Espanha
Desconhecida. O autor daquele artigo é meu amigo e o lugar descrito,
que não interessa para o caso, era-me bastante familiar. Mas havia,
quase no início daquele trabalho, um parágrafo que merece a pena
analisar. Dizia: «Entre as surpresas que de quando em quando saltam
aos olhos dos viajantes espanhóis, surge, percorrendo a extensa
geografia de Espanha, uma aldeia, um lugar, uma paisagem de que o
viajante ou o turista nunca podiam suspeitar».
Artigos que começam nestes termos — ou bastante parecidos —
aparecem na imprensa constantemente. Transformam-se, se assim se
pode dizer, num subgênero da reportagem turística. São sem dúvida
elogiáveis pelo interesse que possam despertar, mas, lamentavelmente,
na melhor das hipóteses, apenas passam por ser um malabarismo
estilista onde, sob o pretexto da descoberta de um lugar perdido numa
comarca qualquer, se brinca fundamentalmente com a imagem do
viajante com bornal ao ombro e botas cardadas, disposto a
desentranhar o que outros que passaram por aqueles mesmos sítios
apenas observaram.
Se isto é um mal, teríamos de esclarecer que é um mal menor,
porque é fundamentalmente bom que se recorra a própria terra e que
se conte acerca dela tudo quanto seja possível. Em qualquer caso, é
um fato que vem de longe, tanto no tempo como no espaço; faz parte
dessa necessidade humana de contar coisas vividas e explicá-las
mostrando ao leitor, ao mesmo tempo, que quem as narra, percorreu
os sítios que outros percorreram antes dele, fá-lo com os olhos mais
abertos de que os que o precederam. Certamente com o olhar mais
aguçado que aquelas pessoas que habitualmente vivem nesses recantos
desconhecidos, naqueles caminhos intransitáveis, naquela capital de
província que fica um pouco retirada das estradas nacionais ou dos
centros de forte atracção turística. Para estes eventuais caminhantes de
botas e bornal, Espanha é uma constante surpresa. São amantes de
caminhadas, acreditam mais no valor das suas anotações à medida que
caminham do que na objetividade da câmara fotográfica, gostam de
falar com pastores e camponeses e — algumas vezes, não sempre —
repartem a sua comida e o vinho. Gostam, eventualmente, de repetir
histórias, costumes e mitos que viram ou ouviram por donde andaram.
Viajam quase sempre ao acaso ou, em última análise, seguem uma
linha das estradas em amarelo ou branco do mapa da Firestone.
Contam o que vêem e, então, acontecem as surpresas. Como é
possível que em tal sitio se conserve tal costume? Como pode ser
contada aqui, quase com as mesmas palavras, a lenda já ouvida a
centenas de quilômetros?
Lamentavelmente — e, se antes falamos do mal, aqui está
precisamente esse mal — tudo fica nisso: numa pergunta; na
constatação de um fato; num recontar de dados mais ou menos
transformados pela capacidade estilística do autor.
Contudo, o simples fato de viajar, ver e contar tudo não é a
essência última do conhecimento de uma terra. Ou, pelo menos, não
deve sê-lo. Uma terra, uma comarca, ou o seu enclave mais remoto,
compõe-se, não só da sua estrutura geográfica, histórica ou humana,
mas também de uma série de motivos que se vão entrelaçando como
os elos de uma cadeia que não tem principio nem fim, desde os
tempos até aos quais o conhecimento humano é ainda incapaz de
chegar.
Uma terra leva, escritos em código, os indícios do seu próprio
passado. E o conhecimento desses indícios poderá levar-nos a decifrar
fatos, pessoas e lugares que não estão numa determinada comarca por
si, mas por razões históricas ou proto históricas que sobreviveram,
escritas nas pedras, na paisagem ou nos costumes: é um inconsciente
coletivo, enfim, que os homens arrastam nas suas vidas com uma
memória de séculos.
Procurando e reconhecendo tais indícios chegaremos a pôr em
dúvida muitas certezas tradicionais e uma boa quantidade de razões
históricas e arqueológicas. Veremos como muitos fatos que antes nos
pareciam perfeitamente lógicos e evidentes não o são tanto, após um
análise séria dos indícios.
Surgirão dúvidas, mas as dúvidas e os inconformismos têm o valor
de fazer-nos sentir insatisfeitos com tudo aquilo que sempre nos
asseguraram como certo. Só assim estaremos em condições de tirar as
nossas próprias conclusões e, mantendo ativa a dúvida,, poderemos
escolher os caminhos mais difíceis, mas também os menos
convencionais.
Tenho que fazer, a partir de agora, uma advertência para os que
vão continuar a ler: não tenho a pretensão de abrir portas fechadas a
pedra e cal. Gostaria, isso sim, que essas portas se tornassem um
pouco mais translúcidas, para poder observar através delas o que fica
por detrás de esses indícios que juntos iremos procurar. Quem desejar
poderá juntá-los e formar com eles a presença de algo superior —
atrever-nos-emos a chamar-lhe divino? — que vela, desde os alvores
do gênero humano, pelo futuro da espécie. Quem o desejar, poderá
procurar a recôndita sobrevivência de uma civilização que pôde
florescer muito antes do que qualquer documento histórico ou
arqueológico pudesse demonstrá-lo. E, por fim, haverá sempre quem
se incline pela presença de mentalidades estranhas ao nosso planeta
que, num dado momento e por meios que ignoramos, influíram no
futuro da história do gênero humano.
Deliberadamente nego-me a tomar posição por uma ou outra
solução, e per esse mesmo motivo ser-me-ia terrivelmente difícil
influenciar alguém numa direção diferente daquela que não signifique
conformar-se com o primeiro enigma histórico, etnológico ou
religioso que se nos queira fazer aceitar, sem discussão. E, neste caso,
não me refiro nem a um determinado dogma nem a uma posição
histórica definida. Declaro-me desde agora absolutamente inimigo de
aqueles que fecham portas e negam possibilidades. Estou ao lado dos
que desejam ir sempre um pouco mais além, mesmo com. o risco de
ter de' voltar, eventualmente, ao ponto de partida para começar de
novo por outro caminho.
Apenas tenho uma certeza íntima: a que proclama que o homem
sentiu sempre a tentação de considerar mágico tudo aquilo que, sendo
indubitavelmente natural, foge às suas imediatas possibilidades de
interpretação.
Há pouco mais de cem ou duzentos anos, por exemplo, o fato de
voar estava exclusivamente reservado aos santos . ou a demônios, e o
ser considerado uma coisa ou outra dependia do grau de relação que
tinha o voador com os poderes estabelecidos.
Hoje, o fato de voar é uma operação quotidiana para muitos de
nós. Mas... e se falássemos da possibilidade de voar sem asas, sem
aparelhos, sem motor: por um simples desejo ascensional da mente?
Dir-nos-ão: Meu Deus! E recordar-nos-ão Santa Teresa de Jesus
ou São José de Cupertino — aquele Giuseppe Desa, nascido em
Apúlia em 1603, a quem um bispo contemporâneo classificou de
inocente (isto é, de idiota). Ou gritarão aos nossos ouvidos com a
exclamação de bruxedo! e por-nos-ão mesmo diante do nariz a
execrável recordação do doutor Torralba ou o não menos omisso
bruxo oannes de Bargota.1
Contudo, os estudiosos da parapsicologia contemporânea não têm
dúvidas da possibilidade natural da teletransportação ou da levitação.
Apenas nos falta saber o como, o porquê .. e o quem.
Exatamente o mesmo poderíamos afirmar de tantas outras
manifestações estranhas ou insólitas que hoje ainda temos de colocar
na estante do proibido. Ainda há, para nós, palavras tabu e, sobre tudo,
fatos tabu. Trata-se, naturalmente, de palavras e de fatos que não é
permitido discutir sem que aqueles que os defendem sejam acusados
de visionários ou dementes.
E, contudo, os acontecimentos qualquer que seja a sua aparência
estão aí, nas páginas dos diários, na mente dos homens, no fim de
caminhos, secundários ou à volta de qualquer pequeno atalho.
Estão aí gravadas nos capitéis de um mosteiro românico ou na
aparência sumida de qualquer pintura conservada num museu
diocesano. Chamam-se astrologia, recordações obscuras, símbolos
alquímicos, ou telecinesis, imposição de mãos, bruxeria, simbolismo,
esotérico. Tanto faz: são formas infinitas disso a que chamamos magia
porque ignoramos que se trata de ciência, de história; de
possibilidades ainda desconhecidas pelo cérebro humano.
Lembro-me que há uns anos, durante as festas anuais de Santo
Domingo da Calzada, na província de Logrofto, estranhei a presença
na aldeia de um ser que — na altura — me parecia insólito. Juro
solenemente que não exagero na sua descrição. Tratava-se de um
velho de idade impossível de calcular. Ia vestido com uma samarra
coberta, na parte da frente, com medalhas piedosas e talismãs menos
piedosos. Era quase totalmente calvo e a sua barba — muito branca,
com a de um velho dos contos de fadas — misturava-se com as
medalhas que lhe pendiam do peito, tilintando a cada passo como se
fosse cheio de campainhas. Era velho, já o disse, mas andava com um
rapaz de vinte anos; não falava com ninguém e limitava-se a assistir,
como um devoto mais — mas mais devoto que todos os outros
devotos juntos — aos atos religiosos ou profanos que se celebraram
naqueles dias.
Alguns daqueles atos eram comidas votivas, e pude observar a sua
presença também ali, fazendo honras devotas e comendo bastante
mais que qualquer outro dos assistentes.
Numa daquelas tardes encontrei-o sozinho, sentado no banco de
pedra de uma ermida que há perto da aldeia, junto da estrada de Haro.
Aproximei-me dele, ofereci-lhe tabaco que ele não aceitou, mas
pudemos falar, por fim. Confessou-me que não sabia a sua própria
idade, mas que julgava que já passava dos oitenta; que não tinha
residência fixa, que deambulava de terra em terra, pela meseta e pelas
serras, atravessando Castela ao som das festas ou pela necessidade que
dele pudessem ter as terras e as aldeias.
Porque tinha um ofício: era nuveiro — afasto as grandes nuvens,
sabe? — disse-me, num tom que não estranharia na boca do
Arcipreste.
Não tive ocasião de comprovar a sua eficácia como nuveiro, mas
pessoas daquela terra, de Santo Domingo, com as quais falei dele,
asseguraram-me que aquele velho era capaz de deter as pedriscas,
valendo-se de orações que ninguém mais conhecia. Naturalmente, o
velho também não quis recitar-me gratuitamente aquelas orações, mas
acredito que, ainda no caso improvável de que me tivesse
proporcionado a oportunidade de aprendê-las, dificilmente eu me
converteria em nuveiro como ele.
Porque tenho a certeza de que se alguém é nuveiro — por exemplo
— a sua capacidade para desfazer trovoadas estará mais nas suas
próprias possibilidades mentais que nas orações mais ou menos
esotéricas que seja capaz de decorar. E tudo isto mesmo que o
presumível fazedor de prodígios seja um firme crente da sua própria
graça através do significado oculto de determinadas palavras.
Os indícios de tais fenômenos — que continuaremos a chamar
mágicos, porque não temos possibilidades de defini-los mais
racionalmente — encontram-se por toda a Península. Estão patentes
em toponímias de origem duvidosa; em pórticos de igrejas; em lendas
de santos que nunca existiram; em sótãos de velhos castelos, que
guardam passagens secretas com tesouros que ninguém viu mas de
que todos falam; em dólmenes perdidos nas serranias; em petroglifos
de significado desconhecido; em desertos nos que, por qualquer razão
determinada, se refugiaram anacoretas milagrosas; em festas,
ancestrais de significado desconhecido; nalgumas dezenas de nuveiros
de curandeiros, de charlatães, de feiticeiros, de adivinhos que ainda
andam por terras esquecidas, ou que dão consultas com grandes lucros
nalgum bairro periférico de qualquer cidade de província, com o
consenso ou a admiração veladas dos vizinhos e das autoridades, ou
escondendo-se da ação da polícia que, possivelmente, seria incapaz de
compreender as suas razões se insistisse em exercer as suas ações
legais com o código penal na mão.
Mas ainda há mais qualquer coisa. Qualquer coisa que faz com que
o aparecimento de tais indícios se torne inquietante: o fato de que
vistos em conjunto, todos estes fenômenos — ou grande parte deles,
porque seria impossível separá-los todos —, apreciados nas suas
relações míticas, avaliados, comparados e fixados no tempo e no
espaço, deixam de ser manifestações isoladas de fenômenos mais ou
menos inexplicáveis ou demonstrações esotéricas individualizadas da
arte antiga ou moderna. Há uma relação causa-efeito, uma conexão
que leva ao convencimento de que, a partir de um determinado
momento da história — um momento que está para além de uma
qualquer data fixada de antemão — e em lugares bem definidos,
produziram-se certos fatos cujo efeito chega até aos nossos dias e que
abarcam com a sua influência todo o imenso campo humanístico em
que se inserem, sem possibilidades de determinar os seus limites
exatos, o histórico, o etnológico, o fenômeno religioso ortodoxo e o
heterodoxo, o sociológico, o folclórico, o artístico... e inclusive a
manifestação política.
Poderemos ver, por exemplo, como um campo de dólmenes está
estreitamente ligado a uma lenda e a um costume ancestral que
aparentemente nada tem a ver com ela.
A lenda irá por seu lado ligada aos efeitos-milagrosos de uma
fonte próxima, ligada à adoração de um hipotético Santo de nome
mitológico. Nas proximidades encontraremos talvez um convento
beneditino ou franciscano, junto de uma comarca vinícola na que
subsistirão tradições ligadas aos ritos misteriosos de épocas pagas e na
que, num determinado momento da história, se produziu um
movimento específico libertário ou uma heresia singular condenada à
fogueira e desacreditada pelo tribunal do Santo Oficio.
Não são fatos casualmente ligados a determinados lugares. Isso
poderia acontecer uma vez, mas não da maneira sistemática como se
produz. Os indícios agrupam-se, entrelaçam-se e obrigam-nos a
considerá-los seriamente, sem lugar para dúvidas, como partes
desconexas de uma realidade desconhecida, ou pelo menos não
reconhecida, que representa com a sua presença a essência do nosso
passado... e do nosso presente.
2

ELOS PARA UMA CADEIA

Muitas vezes, a relação entre fatos que nada têm entre si, pelo
menos aparentemente, surge por acaso. Também por acaso, um dia dei
o primeiro passo pelo labirinto de um mundo que não está explicado
nos livros da história, mas que existe, latente, na névoa de um passado
que nos querem apresentar como diáfano e que está muito longe de sê-
lo. Este passo não o dei com uma intenção pré-concebida.
Foi a curiosidade o que me levou direito à surpresa e, a partir dela,
à convicção pela qual, desde então, me tenho certificado cada dia com
provas que parecem surgir dos pontos mais inesperados. Era o
primeiro elo de uma cadeia que se prolongava em ambos os sentidos,
até ao presente e num passado perdido na mais profunda ignorância.
Aconteceu (sim, quero contá-lo neste caso tal como foi, ainda que,
de um modo geral, sinta apreensão pelos processos na primeira
pessoa) que em determinado momento desejei conhecer alguma coisa
acerca dos movimentos peninsulares da ordem dos Templários. A
minha primeira surpresa ficou a dever-se à quase nula bibliografia que
existe no nosso pais sobre os templários: um estudo incompleto e
quase desconhecido .do século XVIII, escrito por Campomanes,
alguns livros baseados nos documentos conservados nos arquivos
históricos, e algumas alusões — escassíssimas — nos livros de
história mais minuciosos.
Contudo, desde que a ordem dos Templários se estabeleceu em
território peninsular, pouco depois da sua fundação em 1118, até que o
concilio de Vienne a condenou definitivamente em 1312, os cavaleiros
templários foram, de fato, elementos fundamentais na política e na
própria vida dos reinos hispânicos, e a sua influência manteve-se até
muito depois do seu desaparecimento. Vejamos alguns fatos que
tornarão ainda mais insólito o silêncio dos historiadores.
Pouco depois de fundada a Ordem, e mesmo antes de serem
aprovadas as suas normas no concilio de Troyes (1128), o reino de
Portugal, que começava então a ter personalidade política própria,
acolhia-os no seu território e concedia-lhes terras para bailias e
comendas.
Em 1134 — apenas seis anos depois do reconhecimento oficial dos
templários e das normas que para eles preparara Bernardo de Claraval
— Afonso I, o Batalhador, rei de Aragão e Navarra, nomeia-os no seu
testamento herdeiros dos seus reinos, com a condição de
compartilharem o governo com as ordens mais antigas do Hospital e
do Santo Sepulcro.
Só a reação imediata dos nobres aragoneses e navarros permitiu
que esse testamento não se chegasse a cumprir. Mesmo assim, os
templários cederam os seus direitos em troca do seu estabelecimento
definitivo nos dois reinos. Convém ainda esclarecer o seguinte: o
reino de Aragão foi entregue pela nobreza precisamente a Ramiro II, a
quem chamaram o Monge, porque, até ao momento de ser proclamado
rei, foi frade num convento beneditino, e não se pode esquecer que
nessa altura o mais qualificado representante da ordem beneditina
reformada era Bernardo de Claraval, artífice da reforma cistercense e
aparentado com dois dos fundadores dos Templários, para cuja ordem
mandou escrever o Regulamento que tinha sido aprovado no concilio
de Troyes. 2
Os monges templários, estabelecidos com toda a sua força política
e militar em Aragão e na Catalunha, foram em grande parte os árbitros
da Reconquista empreendida pelos seus reis até 1312, e
provavelmente influenciaram de modo decisivo esse fenômeno
histórico que se chamou «expansão mediterrânica da coroa de
Aragão». O mais popular daqueles reis — se não o mais ilustre —,
Jaime I, foi durante dois anos da sua infância pupilo dos templários do
castelo de Monzón que, sem dúvida alguma, influenciaram de modo
decisivo a sua política de expansão territorial. Posteriormente, a
Ordem dos Templários, através dos seus representantes nas Cortes,
influiria definitivamente na política catalã-aragonesa.
Se levarmos em conta alguns fatos que apenas passaram por ser
meros pormenores aparentes, comprovaremos que, por exemplo, os
templários pensavam já em fixar-se na ilha de Mallorca cem anos
antes da sua conquista, porque o nome desta ilha aparecia já na divisão
das províncias templárias fixada pelo primeiro Superior de França,
Payen de Montdinier, em 1130, por incumbência do Primeiro Grande
Mestre e fundador da ordem, Hugues de Payns.
Se provarmos — e tê-mo-lo como certo — que no seu
estabelecimento nos reinos de Leão, Portugal e Castela, os templários
seguiram uma política paralela, chegaremos a conclusão de que a idéia
de um estabelecimento em determinados lugares da Península Ibérica
era um fim para o qual apontavam, praticamente, desde o momento da
sua fundação. Nas suas intervenções junto dos monarcas pediam — e
obtinham, como podemos comprovar — possessões muito específicas
que lhes eram prometidas quando os territórios ainda não tinham sido
conquistados aos muçulmanos. E, se estudarmos um pouco a fundo
estes territórios solicitados pelos templários, veremos sem grande
dificuldade que a escolha dos monges brancos não era baseada em fins
estratégicos nem — na maioria das vezes — em interesses
econômicos diretos. Por que é que pediam precisamente aquelas
terras, que eles não podiam conhecer diretamente visto estarem na
possa do Islão?
A repetição destas circunstâncias tornaria mais apaixonante o
aprofundar do estudo da ordem dos templários na Península. Havia
ainda outros pontos que despertavam a curiosidade: em primeiro lugar
o já mencionado silêncio dos historiadores sobre estes fatos e o
trabalho geral dos templários. Apenas algumas referências, umas
alusões que parecem querer tirar significado à sua verdadeira
importância em benefício das outras ordens militares exclusivamente
ibéricas, mas nascidas ao abrigo — e inclusive como reação
nacionalista — da todo poderosa ordem multinacional dos
Templários. Mais ainda: o fato incontestável de que, enquanto em
França, seu país de origem, a ordem foi brutalmente destruída;
queimados publicamente os seus máximos representantes e
perseguidos, presos e mortos a maior parte dos seus membros, nos
reinos da Península tudo se resumiu a uns processos quase
circunstanciais em Salamanca e Tarragona uma discreta dissolução da
ordem, cumprindo o mandato de Roma, e a quase imediata
incorporação dos seus cavaleiros em novas ordens criadas
praticamente para eles — a ordem de Cristo em Portugal, a de
Montesa na Coroa de Aragão — ou, com prerrogativas e cargos, às
ordens já existentes de Santiago, Alcântara e, sobretudo Cala-trava.
Procurei por donde pude, acumulei todos os dados que me
chegaram às mãos e, com todas as referências obtidas marquei sobre
um mapa mudo da Península todos os lugares que, pelas referências
obtidas, tinham relação com os templários. As possessões templárias
espalhavam-se por todo o norte e ocidente da Península, chegavam
pelo lado do sudoeste aos limites das atuais províncias de Huelva e
Sevilha e, pela costa oriental, chegavam até enclave murciano de
Caravaca. Além disso, a partir do centro de Aragão, as cruzes
templárias deslocavam-se em direção à nascente do Douro, até
alcançar o coração da terra Soriana.

Figura 1 — Área máxima da influência templária. As cruzes assinalam as


possessões mais importantes

Umas cruzes sobre o mapa era tudo, por agora. Mas, porquê cruzes
precisamente naqueles lugares?
A comparação quase casual com outro mapa deu-me a resposta.
Era a resposta que, naquele momento, apenas significava um pouco
mais que uma constatação pouco explicável; mas era impossível
considerá-la como casual: os templários peninsulares tinham-se
expandido precisamente por toda a área da cultura megalítica pré-
histórica. E por aquelas comarcas de onde se encontrava o testemunho
mais importante da cultura do vaso campaniforme.
Para além de explicações circunstanciais que podemos obter dos
arqueólogos, a cultura megalítica é a manifestação religiosa cultural
mais estranha e inexplicável de toda a pré-história. Expande-se por
zonas bem determinadas da Terra ao longo dos séculos obscuros,
prolongando-se no passado até à Idade da Pedra Lascada — se me é
permitido usar ainda este nome —, projetando-se em plena época do
Bronze. O significado dos monumentos megalíticos — menhires,
dólmenes, cromlechs, alinhamentos ou pedras oscilantes, plataformas
e túmulos, navetas ou monumentos em T — suscita uma quantidade
de perguntas que não têm uma resposta racional sinceramente válida.
Diz-se, por.exemplo, — um exemplo entre muitos — que se trata na
sua maioria de monumentos funerários ou comemorativos. O fato é
que debaixo de muitos dólmenes foram encontradas sepulturas. Mas
se tomarmos em consideração que na maioria dos casos essas
sepulturas se referem a datas muito diferentes, que vão
ocasionalmente desde o neolítico até à dominação visigótica, poderia
pensar-se — e com fortes razões — que os dólmenes não eram
sagrados por servirem de sepulturas, mas que pelo contrário, as
pessoas desejavam ser enterradas neles pelo seu caráter de monumento
sagrado: de templo.
Cavemos um pouco mais fundo. Demos crédito aos arqueólogos
que estudaram minuciosamente a cultura megalítica, e veremos como,
por exemplo, Ferdinand Niel 4 constata, comparando estruturas
cranianas dos restos encontrados nas escavações megalíticas que os
homens que erigiram aqueles monumentos — os que os utilizaram —
não correspondiam a um povo determinado. E acrescenta: «É como se
uma espécie de missionários, portadores de uma idéia e de uma
técnica, originários de um centro desconhecido, tivessem percorrido o
mundo. A sua rota principal foram os mares. Estes propagandistas
teriam estabelecido contato com determinadas tribos e não com outras,
o que poderia explicar as zonas claras nas que não aparecem
megalitos... Isto explicaria também o como é o porquê dos
monumentos megalíticos se sobreporem à civilização neolítica. Ter-
se-ia também uma explicação de todas as lendas que atribuem a sua
construção a seres sobrenaturais. Saber-se-ia igualmente como
homens'capazes de pôr vertical' mente blocos de trezentas toneladas e
de levantar blocos de pedra de cem mil quilos não nos tenham deixado
mais vestígios do seu saber. Porque é bem claro que estes missionários
limitaram-se a tentar convencer (e a ensinar, diria eu) autóctones a
erigirem dólmenes e menhires».
Mais adiante teremos oportunidade de voltar a este tema dos
megalitos, mais pormenorizadamente. Poderemos constatar então,
possivelmente, as razões pelas quais o povo, ainda nos nossos dias,
lhes rende um culto incerto que transforma estes monumentos
misteriosos em pedras de Roldán ou em casas de fadas ou em covas de
mouros.
Referir-nos-emos às tradições que atribuem a sua construção a
anões ou a gigantes, às superstições ainda vigentes que lhes atribuem
virtudes curativas ou que os convertem em esconderijos de tesouros
fabulosos. Tradições que ocasionaram a triste conseqüência, repetida
até à saciedade, de que muitos destes monumentos tivessem sido já
profanados pelo povo quando os estudiosos chegaram para iniciar o
seu estudo.
Mas por agora vamos contentar-nos com a constatação, já
mencionada atrás de que os Monges Guerreiros da ordem

Fig. 2 — Espaço peninsular de expansão megalítica. Os sinais indicam a máxima


concentração de megalitos

Templária, aqueles que possuíam, no dizer dos seus detratores, o


fabuloso Baphomet ou cabeça falante, aqueles que se tinham tornado
os únicos guardas do Templo do rei Salomão, procuraram na
Península Ibérica o estabelecimento das suas conquistas na
proximidade de zonas abundantes em monumentos megalíticos e em
jazigos pré-históricos... nos quais ainda hoje se encontram
representações paleográficas que, ou que ainda não foram decifradas,
ou se lhes negou, simplesmente, toda a possibilidade de representar
ideogramas ou sinais escritos.

Fig. 3 —Expansão primária da cultura do vaso campaniforme

E quando aconteceu tudo isto? Precisamente em tempos — e


refiro-me aos anos compreendidos entre o primeiro quartel do século
XII e o princípio do século XIV — em que não só as ciências
arqueológicas eram uma coisa inexistente — pelo que dificilmente se
poderia ter obtido uma referência documental sobre determinados
monumentos ou sobre jazigos específicos —, como também boa parte
de tais enclaves se encontravam em territórios ocupados pelos
muçulmanos quando os templários os solicitavam como futuras
possessões e se comprometiam formalmente a colaborar na sua
reconquista.
3

OS NÚCLEOS MÁGICOS

Aqueles lugares — ou as suas imediações — deviam conter algo


que atraia por algum motivo a atenção dos templários. Aqueles
lugares, além disso, eram do seu conhecimento através de Informações
cujas fontes estão, nos nossos dias, totalmente perdidas.
Em qualquer caso, aqueles enclaves constituíram, para mim, a
partir daquela coincidência que não podia sê-lo, centros de atenção
nos que merecia a pena deter-se, para estudá-los e descobrir qualquer
fator novo ou insólito que contivessem.
Em primeiro lugar, deveria ter-se bem presente a missão, digamos
oficial, que tinha sido confiada aos templários; assegurar a vigilância
dos caminhos para os lugares santos, guardar o Templo de Salomão,
custodiar as cisternas « defender os peregrinos do assédio dos
muçulmanos. Deixemos de lado, por agora, a possível existência de
uma interpretação esotérica de tais missões.
Muitas vezes há uma diferença substancial entre as palavras e os
seus mais profundos significados. Em qualquer caso, muito pouco
tempo depois da sua criação, os fins oficiais dos templários tinham
sido já amplamente ultrapassados por funções que não estavam
especificadas na sua regra: os monges guerreiros iam a caminho de
converter-se nos primeiros banqueiros da Idade Média. No que à
Península Ibérica se refere — e aos reinos em que então estava
dividida —, a segurança do principal caminho dos peregrinos, a
Estrada de Santiago, estava já firmemente assegurada pela distância a
que estava dos territórios que ainda se mantinham sob o poder
maometano. Na verdade, a Península tinha já assegurada uma época
em que as rotas de peregrinação deviam ser vigiadas. Mas o sentido
final que guiou tanto as Cruzadas como as ordens militares nascidas à
sua sombra continuava vigente: era o desejo do Poder Total, — de
procura da poder e de luta para mantê-lo — inclinado sobre duas
vertentes paralelas que seguiam uma via histórica comum sem se
chocarem; pelo menos aparentemente: de um lado o poder comercial e
do outro o poder religioso. Os dois poderes, mesmo sem se chocarem
nos seus respectivos interesses, convergiam num vértice dos seus
planos paralelos com outro poder que, de certo modo, os homologava:
o poder político. Porque a força econômica tendia, em última análise,
para esse poder — tal como continua a acontecer nos nossos dias —, e
a força religiosa confirmava-o, conferindo-lhe a auréola de
espiritualidade superior de que todo o poder necessita para sentir-se
assegurado.
Seria necessário recordar como a força religiosa, ao longo da
história das crenças tem estado sempre na posse de uns Iniciados. Que
esses iniciados possuíam — ou convenceram os outros de que
possuíam — aqueles segredos espirituais, esotéricos e inclusive
paranormais que lhes permitiam uma efetiva ascendência sobre todos
os crentes.
Eles — os iniciados, qualquer que tenha sido o seu credo —
proclamavam-se sábios em relação a todos os outros e definiam o seu
saber, a sua ciência, os seus poderes, como mistérios que não devem
ser revelados perante a plebe. Por seu lado, essa plebe é obrigada a
acatar os poderes dos iniciados e, aceitando-os humildemente,
dependem deles em todas as decisões e rumos vitais que possam ser
tomados para a comunidade.
Ao mesmo tempo, dentro de um mesmo credo religioso,
encontram-se muitas vezes grupos de iniciados pretendendo, à sua
maneira, ser os autênticos usufrutuários — ou investigadores — dos
mistérios primitivos, perante os poderes religiosos oficiais que os
tinham tergiversado com o tempo. Poderíamos encontrar exemplos
destas divisões ao longo de toda a história das religiões, desde os
Orphanoi dos cultos dionisíacos até fatimitas do credo maometano. E,
se aprofundarmos no passado histórico — cultural do cristianismo —
como o iremos fazer ao longo destas páginas — não nos será difícil
detectar sinais evidentes, se bem que desapercebidos, de iniciações
esotéricas em ordens religiosas que, apesar de tudo, souberam manter-
se dentro dos estritos cânones do dogma oficial. Estou a referir-me,
entre outros casos particulares, à ordem beneditina, da que voltaremos
a falar e que, através da sua evolução histórica, lutou pelo poder
absoluto dentro da Igreja Católica, ainda que à custa de umas
periódicas adaptações das suas regras e de uma continua correção de
caminhos Inoperantes.
Da efetividade desse poder em determinados momentos históricos
dar-nos-á uma idéia o fato de que, durante a época em que os
beneditinos viveram sob a reforma cluniacense (910 a 1124), tiveram
na Europa três mil mosteiros sob as suas normas e quatro papas da
ordem ocuparam o trono romano.
Pois bem, a decadência de Cluny seguiu-se a reforma de Cister,
que transmitiu um novo brio — ao mesmo tempo que uma
transformação radical de rumo que afetaria até a história da arte — à
ordem beneditina.
E não esqueçamos, uma vez mais, que Bernando de Claraval foi o
principal promotor dessa reforma, ao mesmo tempo que era, de fato, o
autêntico inspirador da ordem dos Templários, à qual o ligavam ideais
políticos — religiosos e laços familiares.
Seja como for, à margem de observações que iremos
desenvolvendo, interessa agora perceber como os cistercienses e, ao
mesmo tempo, também os seus filhos espirituais e o seu braço
armado, os templários, procuravam muitos dos seus conhecimentos
primários em crenças religiosas que eram muito anteriores ao
cristianismo e que, logicamente, estavam condenadas pelo poder
eclesiástico. Devido a essa procura, os beneditinos conseguiram
guardar para a posteridade — em Montecassino principalmente, a
casa-mãe da ordem — textos de Platão, de Aristóteles, de Pitágoras e
dos filósofos helenistas de Alexandria, por exemplo, numa época em
que tais textos, normalmente, teriam sido atirados, com absoluta e
total segurança, às chamas purificadoras.
Devido também a esta procura, durante a evangelização das Gálias
pelo beneditino celta São Columbano, haviam-se conservado e
inclusive fomentado os lugares sagrados dos mestres druidas. Seria,
pois, adiantar-nos muito se afirmássemos agora que também na
Península, tanto os templários como os seus companheiros iniciáticos,
os padres beneditinos procuraram fixar-se precisamente naqueles
enclaves onde, de um ou de outro modo, se mantinha a vivência
ancestral de crenças remotas e de cultos esquecidos, perseguidos
oficialmente?
Confirmada a presença templária e beneditina em determinados
pontos do território peninsular, continuei a procurar o que haveria
realmente naqueles lugares — para além das já referidas
manifestações megalíticas ou pré-históricas — que tivesse provocado
o desejo ou a necessidade de estabelecer-se precisamente ali e não em
qualquer outro lugar, talvez mais fértil e menos agreste. Pouco a
pouco, esses lugares foram revelando a sua natureza e, em alguns
casos, os seus próprios segredos. Efetivamente, não eram comarcas
escolhidas por acaso, mas sim pontos chave nos que se mantinha a
recordação — e em muitos casos a presença escondida — de cultos
ancestrais e de uma forma de vida de certo modo superior, mantida
sob a forma de indícios ou de símbolos desde tempos
indubitavelmente anteriores à própria entrada na Península dos povos
invasores conhecidos da proto-história.

Fig. 4—-Localizações templárias mais meridionais da Península e as zonas de


concentração dolménica e da cultura de El Argar

Aqueles cultos, aquelas recordações, aqueles indícios, estavam


concentrados precisamente ali e não em qualquer outro lugar.
Manifestavam-se em lendas de origem incerta; em toponímias que
rejeitam uma origem latina; em tradições de aparência fantástica que
se têm mantido desde épocas possivelmente muito remotas; em
símbolos vindos de tempos antigos e que se mantiveram até aos
nossos dias ou que resistiram até à pouco mais de uma centena de
anos; em cultos a Santos cuja origem cristã é bastante menos provável
que a posterior cristianização circunstancial de uma personagem ou de
uma divindade do paganismo; em manifestações folclóricas que,
transformadas pelo tempo e pelos credos, conservaram, de um modo
ou 'de outro, o núcleo primitivo da sua origem. Enfim, fatos,
realidades, acontecimentos que, por qualquer causa bem determinada,
acontecem" e aconteceram, ao longo da história, ali, precisamente
naqueles lugares e não em qualquer outro.

Fig 5 — 6 — As ruínas do castelo templário do Aracena (Huelva e a gruta das Maravilhas,


também em Aracena. A gruta foi descoberta em 1916, prolonga-se por mais de três
quilômetros debaixo da terra, e precisamente a sala chamada A Catedral coincide com o
cruzeiro da igreja templária que se eleva na superfície. A tradição popular atribui aos templários
a construção de uma passagem secreta que foi encontrada, e que ligaria a Igreja à gruta, na
qual se celebrariam os ritos esotéricos dos monges guerreiros

Os cultos ancestrais encontram-se presentes até em fenômenos


naturais divinizados, através dos tempos, por crenças populares. Há
montes sagrados, grutas mágicas, fontes milagrosas que ainda hoje são
conhecidas pelas suas indubitáveis virtudes medicinais. Há montes e
vales donde as antigas divindades esquecidas se transformaram em
bruxas e demônios por obra c graça de uma religião dominante e
exclusivista.
Cultos que se traduzem — podemos senti-lo, vê-lo a cada passo —
mesmo em culturas muito determinadas: a videira, sobretudo. Gostaria
de frisar que não me parece coincidência fonética a semelhança do
vocábulo culto com o som cultivo, posto que, na remota origem da
agricultura e para além do restrito significado das palavras e das suas
raízes primitivas, as culturas foram autênticos processos de culto, no
que as crenças religiosas e as práticas de determinados ritos formavam
parte integrante e fundamental do desenvolvimento e o fim último do
produto cultivado.
A grande quantidade de indícios encontrados nas zonas dos
templários — depois constataria como tais indícios se concentravam
também em lugares que os templários nunca chegaram a dominar —
obrigou-me, numa fase imediata, a assinalar sobre a superfície
peninsular uma série de pequenas comarcas nas que uma especial
abundância de indícios apontava para a existência de possíveis centros
de expansão mágico-religiosa muito concretos.
Desse modo surgiram os que resolvi chamar — e não sei se outro
nome teria tido a mesma validez, mas este serve-me para que nos
entendamos — os «núcleos mágicos hispanos».
Os indícios, misturados, acumulados muitas vezes sem uma lógica
aparente nestes centros de expansão, adquirem valor testemunhal.
Testemunho tanto mais válido para nós enquanto, como tais, se
transformam em símbolos de uma tradição religiosa pura, bem
distante temporalmente da criação das que poderíamos chamar, como
as denomina Olivier Reigbeder ¹ as religiões organizadas, que
correspondem a momentos de debilidade do pensamento simbólico e,
ao mesmo tempo, a uma eventual atribuição da revelação a seres
humanos que encarnariam de um ou de outro modo o Ser Divino. Os
símbolos — ou os indícios simbólicos — explicar-se-iam pelo labor
ancestral de uma ignorância coletiva governada por arquétipos que
sobrevivem através de milênios desde civilizações possivelmente
ignoradas que tiveram que conhecer as fontes'primárias e
fundamentais de todo o conhecimento. Que esse conhecimento fosse
empírico ou tecnológico é o que iremos vendo lá mais para diante.

Fig. 7 — Não multo longe do último reduto templário da Andaluzia Villalba dei Alcor, está o
dólmen de Soto, um dos templos megalíticos mais Impressionantes da Península

Agora interessa-nos, fundamentalmente, a existência, remota de


um saber.
Quanto aos indícios, quando os encontramos baseados nos núcleos
mágicos — como advertiremos imediatamente —, sentimos que umas
vezes provêm do próprio íntimo do povo e são, então, como que uma
necessidade de exprimir de algum modo os arquétipos do inconsciente
—, que o homem leva consigo como parte substancial do seu próprio
ser, como qualquer coisa que tem de ser exteriorizada por necessidade
vital, como prova concludente do seu ser-homem. Outras vezes — e
não nos será difícil distingui-los dos anteriores, mesmo sem
explicações prévias — os indícios constituirão como que insígnias
simbólicas de manifestações gregárias, amostras palpáveis de
separação, por vezes violenta, de uma elite de iniciados — reais ou
presumíveis — que com a utilização desses símbolos, inclusive com à
aceitação firme dos seus significados, manifestarão esotericamente o
seu afastamento voluntário do resto da sociedade, a sua constituição
numa célula à parte, a sua condição de seres situados - pelo seu saber,
pelos seus poderes, ou pelo simples conhecimento do significado dos
seus símbolos — a milhares de quilômetros acima da comunidade.
Terá de distinguira também — e não haverá grandes dificuldades
para fazer esta distinção — entre os indícios correspondentes ao que
Mircea Eliade considera Espaço Sagrado e os que poderiam englobar-
se na sua denominação de Tempo Sagrado. Os primeiros, em linhas
gerais, estão presentes em monumentos e em lugares naturais, e
conservaram o seu significado tal e como quiseram transmiti-lo os que
os edificaram, ou ocuparam, precisamente ali. Os segundos, trazidos
através de ritos e de mitos, têm sofrido variações do tempo e das
gerações que os repetiram e transformaram. Neles haverá que
procurar, sempre que possível, a forma primitiva, o significado inicial,
a mais antiga razão da sua existência e da sua permanência. Só então
poderemos estabelecer a correta relação de causas e efeitos, se bem
que nem sempre nos seja possível e, então teremos de aceitar
suposições que, por mais realistas que possam parecer-nos, não terão a
prova documental da sua verdadeira existência.
Por último, haveria que estabelecer, nessa imensidade de indícios
uma nova distinção entre os que poderíamos chamar exotéricos — isto
é, os que se referem diretamente ao mito cósmico ou religioso que
representam — e os esotéricos que, por chamarem a atenção para um
conhecimento superior — não apenas religioso, mas também
científico — podem ter maiores dificuldades para ser esclarecidos
convenientemente.
Apesar de tudo, as anteriores distinções e divisões dos indícios que
se encontram nos núcleos mágicos peninsulares se entrelaçam e,
muitas vezes se confundem. Por isso, numa tentativa para encontrar
umas divisões que clarifiquem sem interferências de significado e sem
confusões ideológicas — que aparecerão por si mesmas — procurei
dividir os indícios em quatro alíneas:

a) Os indícios de um passado desconhecido: são indícios que estão


aí, sem que ninguém tenha chegado a por-se de acordo no que respeita
ao seu significado real ou à sua origem certa, às suas funções e aos
seus fins.
b) Os indícios de uma lembrança incerta: estão feitos por homens e
povos que os testemunharam, mas que de uma forma ou de outra,
tinham um conhecimento obscuro do seu passado que nós já
perdemos. E expressaram-no a seu modo, com os seus sentimentos e
as suas obras.

c) Os Indícios de uma pesquisa: uma pesquisa das fontes


primitivas do conhecimento Total, levada a cabo por homens mais
próximos de nós com o fim de descobrir as raízes da sua própria
realidade e as fontes de um saber Total que, talvez, pudesse recuperar-
se.

d) Os indícios de uma repressão: realizada pelos que quiseram a


todo o custo apagar a recordação anterior e o perigo de que a sua
redescoberta pudesse acarretar a sua própria anulação.

É precisamente nessa altura que os pesquisadores - os exploradores


do passado — escondem também, quando inventam o seu próprio
código secreto, quando começam a expressar-se mediante uma
simbologia esotérica, que tornam deliberada-mente indecifrável, as
suas pesquisas, a sua fraternidade marginada.
Estudar detidamente as quatro alíneas não é trabalho de um, mas
de muitos livros. Por isso, uma vez apontados, prefiro que a atenção
do leitor não se disperse nem chegue, dentro do possível, a perder-se.
Neste livro limitar-nos-emos a estudar a estranha e inexplicável
brecha aberta no tempo por um passado de que apenas nos ficaram
testemunhos que nos permitam reconstruí-lo.
Limitaremos, pois, o nosso esforço comum de escrever a ler, à
primeira das alíneas que acabo de assinalar.
Mais adiante teremos ocasião de incidir sobre as outras.
OS INDÍCIOS DE UM PASSADO DESCONHECIDO

4 A IDADE DE OURO

Por volta de 1944, quando se publicou a edição castelhana do


estudo de Braghine sobre a Atlântida ¹ o autor confessava que, por
aquelas alturas, tinham-se publicado uns vinte e cinco mil livros e
folhetos sobre o tema. Pela minha parte, sinto-me incapaz de fazer um
cálculo nem sequer aproximado de quantos estudos se terão publicado
a propósito do Continente Perdido desde aqueles anos até à atualidade.
Um leitor que tivesse a paciência e o tempo de folheá-los todos —
ou apenas a décima parte deles — encontrar-se-ia com duas
constatações: a primeira, que as fontes para acreditar na' existência da
Atlântida ou para saber alguma coisa a seu respeito são sempre as
mesmas. Platão, com as alusões às fontes de Sólon nos seus diálogos
Timeo e Critias; os paralelismos de crenças e construções entre as
civilizações supostamente pós-atlantes de ambos os lados do Oceano
Atlântico; o relato de Teopompo...
Segunda constatação que o leitor poderia fazer: o mosaico
indefinido de teorias que cada investigador — ou cada vidente, que
existem aos montes — desenvolvem para demonstrar a sua verdade.
Desde o estabelecimento no continente atlante de uma raça superior
extraterrestre até à existência, na época terciária, de uma civilização
humana super-tecnológica que desapareceu vitimada pelo seu próprio
progresso.
O curioso, entre tantas divergências e variadas opiniões, é o fato de
que, se nada demonstra a realidade da Atlântida, nada se opõe
igualmente a que acreditemos nela se esse é o nosso desejo ou a nossa
convicção. Por isso prescindiremos aqui — pelo menos por agora —
de tomar uma posição, e muito menos discutir — juntando mais um
lado, ou recolhendo parte dos anteriores — a existência ou a invenção
pura do continente atlântico.
Desejaria, dentro do possível que pudéssemos evitar as teses
apriorísticas que depois fossem indemonstráveis em última análise.
Isto não significa que vá fugir à controvérsia tomando uma posição
eclética, mas sim que tentarei caminhar por aqueles caminhos que
possa defender.
Não posso jurar — e desafio a quem quer que seja que o faça —
que a Atlântida existiu alguma vez. Apenas posso dizer, e isto com
total segurança, que todas as civilizações, por mais prósperas e
avançadas que tenham sido, mantiveram a tradição de uma época
melhor que a sua: uma Idade de Ouro habitada por homens — o seu
aspeto físico pode variar — que foram melhores e mais sábios que
aqueles que os relembram na sua obscura recordação. O Jardim de
Éden e o Dilúvio não são patrimônio exclusivo da Bíblia e do povo
hebreu.
Esses dois símbolos, com mais ou menos variantes, são evocados
por todos os povos da Terra, como lembrança inconsciente de um
mundo melhor, situado em qualquer parte determinada, que se perdeu
pela maldade dos seus habitantes no meio de um desastre de
amplitudes cósmicas.
Júlio Caro Baroja encontrou o mito da Idade de Ouro em Vera de
Bidasca, por volta dos anos trinta, e acrescenta com razão que ainda
pode encontrar-se nos nossos dias em comunidades rurais de toda a
Península. Pela nossa parte, poderíamos acrescentar que todo o conto
popular que fale dessa Jauja que sonhávamos quando meninos como
sendo o lugar donde tudo é possível e abundante, está a referir-se
diretamente à Idade de Ouro de todas as civilizações da Terra.
Mas detenhamo-nos nessa Jauja por uns momentos. Donde dizem
as histórias que está? Procurando nas narrações populares chegaremos
a uma localização fantasmagórica que leva diretamente ao fato de que
existe, mas que se encontra escondida nalguma parte que ninguém
podia alcançar, a não ser que contasse com a ajuda de um elemento
mágico.
Jauja é umas vezes uma cidade, porque muitas vezes se sobrepõe a
recordação inconsciente da cidade — estado de etapas posteriores da
história. Outras vezes é um país. Mas, cidade ou território, tem a sua
localização em lugares aparentemente inverossímeis: no fundo de uma
gruta inacessível, debaixo das águas do mar ou de um lago. Numa
longínqua ilha a que se chega atravessando o mar. Ou no Céu, para
além das estrelas. Ou perto do Sol. As duas últimas hipóteses
despertam diretamente a lembrança inconsciente de seres civilizados
vindos das estrelas.
Os que situam o reino desconhecido sob as águas, rememoram sem
sabê-lo um suposto desastre atlante, por vezes sob o prisma
ingenuamente popular que tende a converter todas as verdades
cósmicas em histórias ao alcance da sua mentalidade, muito mais
simples — e mais sincera, sem dúvida — que todos os complicados
estudos que pudessem ser feitos sobre o passado ou o destino do
gênero humano.
Em São Martin de Castanheda, perto do lago da Sanabria, conta-se
uma lenda que D. Miguel de Unamuno tomou como base para o seu
melhor relato: São Manuel Bom, mártir. Contam em São Martin que,
antigamente, existiu uma cidade importante no lugar onde agora está o
lago. Chamava-se Valverde de Lucerna e a ela dizem que chegou um
dia o próprio Deus Nosso Senhor vestido como um mendigo e
pedindo esmola que todos lhe negaram, à exceção de um justo.
Continua a lenda que o Bom Deus, agradecido, avisou o justo para que
saísse da cidade coma sua família porque toda ela iria desaparecer.
Assim o fez o justo e, logo que abandonou Valverde com os seus,
brotou água das entranhas da terra e alagou a aldeia, afundando-a nas
profundezas que hoje ocupa no lago de Sanabria. Conforme escutamos
esta lenda em Puebla, San Martin ou em Ribadelago, a conclusão é a
de que aquele justo foi o fundador da terra em que ela é contada. Mas
estas diferenças têm em si muito pouca importância, porque o que
verdadeiramente interessa é a localização exata e o nível popular de
um mito cósmico que está presente em todas as civilizações. Um mito
situado aqui e já, porque a lenda de Sanabria desenrola-se com o
testemunho não menos mítico de que todos os anos, precisamente na
noite de São João, voltam a repicar, através das águas do lago, os
sinos da igreja da aldeia afundada.
Fixemo-nos num pormenor sobre o que voltaremos mais adiante:
sempre que nos encontremos com o protótipo mítico da cidade perdida
- chame-se Atlântida, Valverde de Lucerna, Posseidônis ou a terra do
Prestes João —, encontrar-nos-emos, também com a figura do justo ou
com a do Mestre.
Fig. 8 — O lago de Sanabria. Uma tradição atlante conta que no fundo das suas águas há
uma cidade submersa pela iniqüidade dos seus habitantes

Conforme seja um ou outro, criará uma nova aldeia depois do


afundamento da antiga, ou ensinará aos homens o saber que se perdeu
com o cataclismo.
Mas voltemos à Atlântida. De todos os testemunhos mais ou
menos míticos ou pretensamente históricos que convergem na
hipótese da sua existência, há um que se sobrepõe a todos os outros e
lhe dá toda a dimensão trágica: o próprio fato da sua destruição, com
as interrogações que procuram explicá-la: porquê? e como?
O porquê do afundamento ou o desaparecimento do continente
atlante é uma resposta reservada aos mitos e aos Iniciados; mas uns e
outros coincidirão, geralmente, na certeza de que o poder e a ciência
dos atlantes os levou à guerra, e que essa guerra trouxe consigo a
destruição, por forças que eles próprios foram incapazes de controlar.
No como, contudo, intervém já os científicos ou os que pretendem
dar uma explicação científica aos fatos. E aqui, as teorias e as
demonstrações multiplicam-se. Quase poderíamos afirmar que há
tantas destruições atlantes como livros se publicaram sobre o desastre:
desde a queda de uma lua no meio do continente - Hörbiger, Saurat -²,
até à seqüela de um cataclismo muito mais violento que deve ter-se
produzido no planeta Vênus - Caries e Granger - ³, passando pela
deslocação voluntária do eixo terrestre - Poeson - 4 e pela mais
divulgada teoria do desastre nuclear nas suas mais diferentes versões,
defendidas por muitos autores. Chegaram a estabelecer-se inclusive,
datas concretas, se bem que essas datas são quase tão diferentes como
os autores que as tentaram fixar.
Recordemos como exemplo, a cronologia atlante estabelecida pela
fundadora da Sociedade Teosófica, a Sr.a Blavatski. Escolho esta
cronologia como amostra de muitas outras que diferiram pouco dela.
Pois bem, H.P.B. — são as iniciais do seu nome, pelas que ainda é
referida, de certo modo isotermicamente, pelos seus seguidores —
refere que há uns oitocentos mil anos se verificou o maior
afundamento do Continente.
Daquele afundamento ficaram imersas duas grandes ilhas: Rutha
(as atuais Canárias) e Daitía (os Açores). Há uns duzentos mil anos
teria acontecido o segundo afundamento. Depois dele ficaria uma só
ilha Poseidonis — a mesma região a que se referia Platão — unida a
Gades — Cádiz — por uma cadeia de ilhas menores. O afundamento
definitivo de Poseidonis vereficar-se-ia uns dez mil anos antes da era
cristã, e naquele desastre abrir-se-ia o Estreito de Gibraltar: as colunas
de Hércules.
Até aqui, as datas determinadas pelos teósofos. Mas, que indícios
nos aproximam na Península a esse continente misterioso e
desaparecido? A maior parte deles — e são muitos — irão sendo
revelados nestas páginas. Por agora, contudo, interessa-nos mais
tomar em consideração alguns bens determinados que, de certo modo,
justificam e englobar todos os restantes; certos fatos que, além disso,
ficam bastante esbatidos pelos arqueólogos que os descreveram e
estudaram.
Cerca de vinte e cinco mil anos antes de Cristo, os homens da raça
denominada de Cró-Magnon substituem os da raça muito mais
atrasada de Neanderthal, cuja presença na Península está
testemunhada pelos restos encontrados em Gibraltar, em Bafiolas ou
na Cova Negra. Assim, num curto período — curto em relação à
presença do homem sobre a Terra —, uma raça muito primitiva, de
tosca habilidade e de inteligência limitada, desaparece sem deixar
rasto e surge, no seu lugar, um tipo humano, que é, praticamente, igual
ao que hoje ocupa e domina a Superfície do Planeta.
E isso sem que a passagem do paleolítico inferior para o superior
tenha significado a descoberta, entre a grande quantidade de restos
escavados, do elo que poderia justificar racionalmente a evolução
humana de um para o outro tipo.
É como se, de repente, a teoria evolucionista se quebrasse
inexplicavelmente. Alguns historiadores sugerem a hipótese de que os
homens do Cró-Magnon vieram da Ásia; mas uma afirmação como
essa, ainda que pudesse ser comprovada, não justificaria a sua
permanência e praticamente a imediata desaparição do homem de
hábitos mais primitivos que o precedeu nos lugares que foi ocupar.
Creio que é melhor pensar numa permanência que levou à eliminação
sistemática e consciente dos espécimes da raça anterior por parte dos
recém-chegados. Se fosse assim, poderíamos encontrar-nos perante o
primeiro progrom da história humana.
O novo Povo - o do Cró-Magnon — traz inovações culturais
importantes.
Substitui o primitivo .emprego de lascas por uma indústria da
pedra polida em forma de folha, que permite uma diversidade de
instrumentos até então desconhecidos, machados, pontas de flechas,
arpões, facas. Além disso, leva consigo o gérmen de umas crenças
religiosas que se traduzem em sepulturas e na 'utilização das cavernas
não só para habitação, mas também como centros de iniciação de
magia totêmica. Estes centros mágicos contêm ainda, os restos de uma
cultura artística avançada nas pinturas rupestres, que aliam o seu
significado mágico a um considerável desenvolvimento do sentido
estético e a certos enigmas sem resposta que unicamente cabe aflorar,
se bem que nos neguemos a fazer suposições conseqüentes.
Este enigma, por exemplo. Quem tenha visitado as grutas de
Altamira verificou que se fez um corredor que circunda a sala de
pinturas para permitir que os visitantes possam contemplá-la com
comodidade. O chão primitivo desta sala estava à altura do que hoje
parece o túmulo central da mesma, e dista menos de um metro do teto
das pinturas. Este fato confirma-nos que o pintor - ou os pintores —
que trabalharam nela se encontravam numa posição bastante
incômoda para executar a sua obra; que aquela obra, portanto, não
estava ali precisamente para ser contemplada; e, por último, que
devido às condições de profundidade e situação da sala, não entrava a
luz solar e as pinturas não podiam efetuar-se às escuras, necessitaram
de uma fonte de luz que iluminasse a superfície sobre a qual se pintava
e as saliências da rocha que serviam para delimitar os corpos dos
animais pintados, dando-lhes um relevo natural.
Contudo, se noutras partes da caverna se encontraram restos de
fogachos com o conseqüente enegrecimento pelo fumo das paredes e
tetos; se a maneira lógica de iluminação fosse um archote aceso'— ou
vários —, dá-se o caso mais que curioso de que a sala das pinturas de
Altamira nunca teve resíduos ou sinais de fumo nos tetos ou nas
paredes. Como é que se iluminaram naquele interior totalmente escuro
os artífices do teto? Os arqueólogos aceitam a possibilidade de
lamparinas alimentadas com uma gordura animal que deixariam muito
menos marcas de fumo que a madeira. Contudo, é lógico pensar que
essa relativa falta de fumo poderia verificar-se em tetos altos, mas
nunca num teto tão baixo como o da sala de pinturas de Altamira.

Fig. 9 — Este cervo pintado as grutas do Monte Castilho, encontra-se num dos lugares
mais inacessíveis da caverna. Para chegar até ele têm de se conhecer os sinais indicadores

A meu ver, os homens da cultura de Cró-Magnon, possuidores da


grande cultura das grutas Franco-Cantábricas conheciam — se bem
que não a possuíam — uma cultura superior que se estava a
desenvolver noutro lado, talvez não muito distante, naquela mesma
altura.
Uma cultura que, sendo apenas previsível, produzia naqueles seres
primitivos o sentimento de superstição religiosa perante umas
manifestações às quais não podiam dar uma explicação válida para o
seu próprio meio cultural.
Avancemos um pouco mais no tempo. Um pouco mais, em termos
de pré-história, pode significar uns tantos milhões de anos e não ser,
apesar disso, um lapso de história intransponível. Avancemos, então,
uns quinze mil anos e teremos chegado ao período que os pré-
historiadores chamam mesolítico, e que corresponde aos milênios
imediatamente posteriores — e contemporâneos — da última
glaciação denominada de Wurm. Que está acontecendo ao clima da
Europa Ocidental? Os gelos deslocam-se rapidamente para o Norte e,
com eles, desloca-se a fauna fria e surgem novas espécies vegetais
próprias dos climas mais quentes.
Contudo, a aparente benignidade do clima dessa Europa Ocidental,
devida fundamentalmente, à ação da corrente do Golfo do México,
apresenta um problema: se -essa corrente se criou precisamente nessa
altura ou se, pelo contrário, chegou então, por um caminho que, até
aqueles momentos, terá estado cortado por um obstáculo que se
interpunha no meio do oceano. Se tal obstáculo existia teve que ser
uma terra.
Que estará acontecendo com o ser humano nessa mesma época?
Estamos no momento histórico que separa a longa era do paleolítico
do neolítico que virá imediatamente a seguir, caracterizado pelo
trabalho sobre pedra polida, pelo aparecimento das primeiras amostras
de cerâmica e por grande quantidade de insólitos avanços que veremos
em seguida. Mas o período mesolítico — situado entre os nove mil e
os seis mil anos antes de Cristo — é uma época estranha. «Durante o
mesolítico, período muito pobre em manifestações culturais, perduram
na região atlântica, desde o Sul do Tejo ao Bidasoa, uma série de
povos epipaleolíticos, caracterizado por um gênero de vida humilde5.
Isto afirma Jaime Vicens Vives. Por seu lado, M. H. Alimen e M.
J. Steve falam do marasmo mesolítico como «uma profunda divisória
entre dois mundos totalmente diferentes».
Há uma modificação violenta nas condições climatéricas que
destrói a relativa harmonia da existência anterior dos povos caçadores.
Durante um tempo indeterminado, mas não superior a um par de
milênios, os habitantes do ocidente europeu sofrem uma terrível
regressão cultural.
As suas manifestações vitais são pobres, mais pobres do que
nunca, e, se nos detemos a analisá-las sem levar apenas em
consideração as afirmações da arqueologia tradicional,
comprovaremos que são realmente trágicas.
Na Península Ibérica, nessa época, aparece a chamada cultura
asturiense, porque, dentro do território peninsular as suas
manifestações apareceram de preferência em jazidas cantábricas da
costa asturiana. Aos homens que ocuparam aqueles abrigos chamou-
se-lhes «comedores de conchas», porque se supõe que a sua
alimentação básica era constituída por moluscos, devido aos montes
de conchas que se encontraram à entrada de certas cavernas.
Manifestações deste mesmo tipo — enormes depósitos de conchas que
sedimentavam a entrada de certas cavernas ou de lugares habitados -
encontraram-se ao longo das costas atlânticas, desde a Dinamarca
onde se lhes deu o nome hoje quase oficial de Kjökkenmöddings, até
às Ilhas Canárias, onde ainda hoje é normal encontrar, junto a lugares
habitados outrora pelos Guanches, grandes extensões cobertas de
conchas de lapas, muito maiores que as que existem na atualidade.
Contudo, perante essa afirmação generalizada que declara que os
homens destes lugares «comedores de conchas», teríamos de admitir
que parece muito estranho para aceitá-lo, pelo menos nos termos em
que se expressa a explicação arqueológica. Em primeiro lugar porque
os homens — seja qual for a época em que viveram — dificilmente se
alimentariam quase exclusivamente de moluscos, por não serem
suficientemente abundantes nem ricos em substâncias alimentícias de
modo a constituir uma dieta total. Em segundo lugar, porque me
parece difícil de admitir que precisamente nessa altura, e não antes
nem depois, a entrada das cavernas se tivesse convertido em
vazadouro de resíduos alimentícios.
Ocorre-me uma explicação que, possivelmente, seja mais racional
e mais lógica se bem que, em qualquer caso seria tão difícil de
verificar como a teoria oficial.
Penso que as grutas, mais do que refúgios habitáveis, constituíam
naqueles tempos templos, santuários ou centros de iniciação e ensino.
Penso também que em épocas posteriores às cavernas - santuário
foram freqüentadas por peregrinos que depositavam à entrada as
oferendas de que eram portadores.
Recordemos os santuários ibéricos de Jaen ou de Murcia, a gruta
de Peal de Becerro, por exemplo, em cujo acesso se encontravam
milhares de pequenas figuras de bronze que hoje, na sua maioria, estão
depositadas em salas de vários museus arqueológicos espanhóis. Ora
bem, se isto acontecia uns milênios mais tarde, e se sabemos — como
teremos oportunidade de demonstrar mais à frente — que as conchas
de certos moluscos — a Vieira Galega, por exemplo - foram objeto de
culto e símbolo iniciático para certas comunidades, existem bases para
supor que os montes de conchas empilhadas à entrada das cavernas
asturianas e atlânticas pudessem ser também oferendas populares
depositadas ali por homens para os quais, precisamente naqueles
momentos cruciais, uma série de acontecimentos desconhecidos e
talvez aterradores provocaram, de uma maneira ou de outra, a
exacerbação do sentimento religioso. Acontecimentos que — tal como
pode suceder após um desastre geológico ou bélico a nível planetário
— provocaram, além do mais, um considerável retrocesso na natural
continuidade evolutiva do homem.
Se isto está correto, as grutas asturianas do Penical, da Riera, de
Balmori e de Lledias seriam, em vez de vazadouros, Santuários onde
os homens do período epigravetiense suplicavam pelo fim de um caos
cosmológico que eram incapazes de compreender.
5

A VELHA HISTÓRIA DE NOÉ

Depois disse Yavé a Noé: «Entra na arca tu e toda a tua casa. pois
apenas tu foste considerado justo nesta geração» (Gênesis, 7, 1)
Dizíamos anteriormente, comentando as variações da lenda atlante
do lago de Sanabria, que as figuras do justo e do mestre vão sempre
unidas ao mito universal da Jauja desaparecida.
Já temos aqui essa figura, quase nas primeiras páginas das
Escrituras Sagradas do povo judeu.
Tais mestres dos mitos, por vezes, vêm ao encontro dos homens.
Outras vezes são os homens que se deslocam em longas e difíceis
peregrinações para procurá-los. Em ambos os casos, justos ou mestres,
eventualmente elevados à categoria de deuses nos mitos, ensinam aos.
homens as fontes originais de todo o saber: a agricultura, a
domesticação dos animais, a ai te da construção, a ciência de navegar.
Mas, antes de chegar ao seu destino, os vários Noés das
mitologias, sob os mais diversos — se bem que em ocasiões não tão
diferentes — nomes, tiveram de recorrer um longo caminho
escapando ao desastre que acabou com todos os seus.
Na Grécia, Noé chamou-se Deucalión. Foi filho de Prometeo e,
com sua esposa Pirra, o único homem salvo do dilúvio enviado por
Zeus para exterminar a raça corrompida.
Numa nave construída sob a orientação do seu próprio pai,
Deucalión e Pirra navegaram durante nove dias, até que a nave se
deteve no alto do monte Parnaso. O oráculo de Temis augurou-lhes
que seriam os regeneradores da raça humana e que, para isso,
deveriam tapar as suas cabeças e deitar para trás deles os ossos de sua
mãe. Os náufragos interpretaram o oráculo à sua maneira e,
concluindo que aquela mãe seria na realidade a mãe terra, deitaram
pedras para trás de si. Das que deitou Pirra nasceram deuses; das que
deitou Deucalión, homens. A história foi narrada por Ovídio
(Metamorfoses, 1, 260 e seguintes).
Na Índia, o náufrago divino chama-se Manú. O primeiro Manú —
pois de acordo com a mitologia hindu houve mais catorze,
personagens heróicas e cabeças de manwatara — 1 construiu uma nave
para se livrar do dilúvio ordenado por Brahma. A nave, acabado o
dilúvio, ficou também sobre um monte, enquanto as águas
regressavam aos seus caudais. Este primeiro Manú foi o pai do gênero
humano, segundo o Rig Veda.
O Noé das mitologias nórdicas chama-se Bergelmir. Conta o seu
mito que os filhos de Bör mataram Iotne Ymir, a personificação do
deus original. Das suas feridas correu tanto sangue que inundou o
mundo e apenas um homem se salvou, Bergelmir, montado com sua
esposa num odre — de vinho, claro —. Dele procede a raça dos
hrimthursars.
No México, Noé chamou-se Nala. No Peru, Viracocha. Na Pérsia,
Yima. Entre os Celtas, Dwifah. E entre os babilônios, Oanes. E Oanes
aparece-nos já, claramente, como o mestre — vindo-das-águas. Os
babilônicos, devido às suas condições de vida num território
continental como aquele que habitavam, dificilmente poderiam ter-se
convertido em homens do mar. Apenas tinham uma saída estreita para
o Eritreu. Contudo, chamavam ao mar «A mansão da sabedoria». E
isto porque em tempos remotos - remotos já para eles — surgiu de
Apsu (o vasto oceano) o homem-peixe Oanes, um ser de aparência
monstruosa e de inteligência privilegiada, de corpo escamoso, com
cabeça humana e fortes braços. Todas as manhãs, durante tempo
indefinido, Oanes saía da água e ensinava aos homens todo o seu
saber: a lei, a arte, a ciência, a matemática, a geometria, os segredos
da construção e a ciência do governo. Todas as noites, Oanes
desaparecia no meio das ondas até à manhã seguinte. E graças a ele —
continua a contar o mito — os babilônicos construíram estaleiros em
Ninive e em Turbar-Sip, trouxeram madeira da Armênia e recrutaram
carpinteiros das regiões mediterrânicas para construir uma poderosa
frota.
Abandonemos agora o mito e fixemos a atenção, por momentos,
na realidade histórica que a arqueologia nos possibilita entrever. Após
um longo período em que a raça humana primitiva caçou em
condições adversas de clima e devido às particularidades naturais —
raça de Neanderthal, paleolítico inferior —, sucedem-se quinze mil
anos aproximadamente com um povo muito mais evoluído de
caçadores — raça Cró-Magnon, paleolítico superior — e apenas cinco
mil anos do chamado marasmo mesolítico. Surge então um período
que começa uns quatro mil e quinhentos anos antes de Cristo e no
qual, súbita e prodigiosamente, se verificam circunstâncias evolutivas
singulares:
O homem aprende a arte da agricultura
Domestica animais
Descobre o segredo da cerâmica
Inventa a roda
Aplica novas técnicas para transformar a pedra num instrumento
realmente útil e funcional
Veste-se com tecidos Conhece técnicas cirúrgicas 2
Adquire, por fim, uma consciência religiosa definida
Procuremos mostrar-nos lúcidos e, mesmo com o risco de voltar a
referir o que há pouco se enumerou, sobrecarreguemos a nossa
inteligência com períodos de tempo que poderão pôr-nos os cabelos
em pé devido à sua extensão: 300 000 — ou talvez 500 000 - anos de
Neanderthal. 15 000 anos de Cró-Magnon. 4000 anos de mesolítico
obscuro E um mundo subitamente evoluído que anuncia diretamente a
passagem, sem solução de continuidade, às origens do mundo
moderno!
Se analisarmos o fenômeno, se bem que na análise não possamos
prescindir de um certo entusiasmo, teremos que chegar à conclusão de
que o homem de Cró-Magnon, com as chaves técnicas de que
dispunha, dificilmente poderia ter dado por si e em tão curto espaço de
tempo um passo tão grande na sua evolução.
Não temos qualquer motivo para negar a teoria de Gordon Childe,
pela qual a técnica da cultura dos cereais poderá ter surgido através da
observação direta do modo de como se desenvolviam na natureza os
cereais silvestres que foram os antecedentes próximos do trigo e da
cevada: a alforja e a escândea 3
O homem, nesse caso, pode ter interrompido o seu constante
caminhar num lugar apto para a cultura das sementes, e esperar que as
espigas dessem grão. Mas, que acontece no caso da videira, que foi
uma das primeiras culturas racionais do homem?
Pensemos um pouco: a videira — e a sua imediata aplicação, a
droga alcoólica produto da sua fermentação - necessita de vários anos
para que a cepa plantada dê os seus primeiros frutos; e mais anos
ainda para que o sumo desses frutos, convenientemente prensado,
fermente e produza vinho. Perguntemos sobre as dificuldades da sua
manutenção a qualquer agricultor das nossas regiões vinícolas.
Pois bem, apesar dessa circunstância e também de que as bebidas
que provêm da videira não são alimentos básicos da humanidade as
vinhas foram as primeiras culturas que a espécie humana empreendeu
neste período da sua evolução.
Noé, agricultor, começou a lavrar a terra e plantou uma vinha.
Bebeu do seu vinho, embriagou-se e ficou nú meio da sua tenda
(Gênesis, 9, 20-21).
A fermentação do sumo da uva implica um conhecimento — ou
uma intuição — da química. A arte da cerâmica implica também uma
ampliação, consciente ou inconsciente, de princípios químicos, posto
que, para a sua fabricação, é necessário expulsar, por meio de calor,
algumas moléculas de água do silicato alumínico hidratado que
constitui a componente básica da argila.' Tudo, em suma, nos conduz a
um determinado instante da pré-história em que o homem, devido a
qualquer fator externo que as descobertas arqueológicas não
revelaram, recebe certos conhecimentos que, por si só, não podia ter
adquirido em tão curto espaço de tempo.
Uns conhecimentos e umas técnicas que, se acreditamos nos mitos
— e os mitos são sempre uma fonte importante, quando escasseiam as
descobertas — foram ensinados pelos homens oriundos do mar. Seres
humanos transformados ocasionalmente em deuses; homens que
surgiram das águas ou chegaram às costas sobre naves desconhecidas.
Voltaremos de novo a esta questão, mas agora interessa-nos
determinar, se bem que de forma esquemática, até que ponto os
indícios Noé se encontram nas terras peninsulares.
Noé, o patriarca, o mestre, o homem que sobreviveu ao desastre do
Dilúvio Universal, está presente, e não apenas com topônimos, na
geografia ibérica.
Na Galiza fica a ria de Noya e a terra com o mesmo nome nas suas
margens, a menos de quarenta quilômetros de Santiago de
Compostela. Sobre o escudo de Noya vê-se a arca das Escrituras
Sagradas, e a tradição local afirma que a cidade foi fundada por uma
filha de Noé, chamada Noela, e que a arca ainda está enterrada,
contrariando o que diz a Bíblia, no monte Barbanza que domina a
cidade.

Fig. 10 — Pontos principais da tradição Noé em Espanha

A atual cidade de Gijón, nas Astúrias, chamou-se primitivamente


Noega, e dizem também as tradições que foi fundada pelo próprio Noé
depois do Dilúvio. Bem perto de Gijón, para o lado Este, existe uma
pequena praia escondida entre rochas e que se chama flora.
Mais para Oriente, perto de Santoña, na província de Santander,
está a praia de Noja. Dela se diz que foi o sitio donde o patriarca
bíblico desembarcou.
Por seu lado, o licenciado Pozas, quando fala de Noya Galega, cita
outra que existiu na Andaluzia: «Noela, vila e porto, antiga fundação
do patriarca Noé, assim como a de Noela localizou-se nas Astúrias, se
bem que ao certo não se sabe em que parte». 6
O viajante árabe El Idrisi 6 refere-se também a uma cidade Nojoa
na costa portuguesa, que hoje seria provavelmente Nojoes e teria tida
uma etimologia intermédia: Nojoes, cidade que foi importante no
século XII, situada no concelho de Castelo de Paiva, perto do rio
Douro.
Interessa-nos bastante comprovar a localização destes topônimos,
porque não estão ali por acaso, mas precisamente em pontos da costa
peninsular nos que — se considerarmos o destino lógico das naves
vindas do Atlântico - podiam perfeitamente ter pisado terra náufragos
procedentes de um naufrágio ou de desastre ou, apenas, marinheiros
em viagem de exploração. Ou de colonização, talvez!
Fixemos a atenção nestes pontos e descobriremos que, além disso,
são autênticos centros de expansão cultural da mais remota
antigüidade. Se traçássemos um arco de círculo de uns sessenta
quilômetros de raio, que tivesse por centro a Noja Santanderina,
veríamos como, precisamente nesse setor, se encontram todas as
grutas importantes — e fundamentais na pré-história cultural — da
arte rupestre franco-cantábrica santanderina.
Mais ainda: se repetíssemos esse arco de círculo tomando para
centro a atual Gijón, ou a sua próxima praia de Nora, comprovaríamos
igualmente que, dentro, dele, estão localizadas todas as grutas —
santuário das Astúrias — desde a de Pindal, a Este, até à de Candamo,
a Oeste —, e todos os seus testemunhos megalíticos.
A Noya galega é também o centro ideal de uma zona em que se
encontrou a maior parte dos dólmenes e dos petroglifos da Galiza. E
essa estranha Noela desaparecida de que fala o licenciado Pozas teve
de estar na zona donde se desenvolveu o ainda misterioso império de
Tartessos.
O próprio Cabo da Nau, no litoral mediterrânico, é também o
centro ideal de quase todas as descobertas importantes na cultura
ibérica levantina.
Mas os testemunhos pré-históricos não são tudo. Dentro desses
núcleos compreendidos na área ideal de influência dos centros Noé —
chamemos-lhe assim — concentraram-se secularmente os términos
das peregrinações de povos chegados desde os quatro pontos cardeais
à procura de ensinamentos mais do que a expiação de uns supostos
pecados. Não o esqueçamos: na área de influência de Noya encontra-
se Compostela.
E o hipotético sepulcro de Santiago foi, durante séculos, tanto um
término cristão de romaria ortodoxa como o lugar donde, de um modo
ou de outro, podiam obter-se conhecimentos das chamadas ciências
ocultas.
As zonas Noé serão lugares donde proliferarão de modo especial
as tradições seculares de seres marinhos e homens-peixes. Vejamos os
exemplos recolhidos por Júlio Caro Rarojo.7
Plínio, na sua História Natural, fala de um homem marinho do
oceano Gaditano, cuja presença foi testemunhada por vários cidadãos
romanos.
O padre Torquemada, no seu Jardim de Flores Curiosas...,
publicado em 1570, fala da crença de seres marinhos nas praias da
Galiza e escreve sobre uma «linhagem de homens chamados
marinhos» que descendem dos tritões.
O padre Nieremberg refere-se também a um homem marinho
aparecido em Portugal soprando num caracol do mar.
Posteriormente, o padre Fuentelapefia insistirá nesta e noutras
aparições portuguesas. E o mesmo padre Nieremberg fala de marinhos
bascos, referidos por Pedro Mártir de Angléria, que ouviram cânticos
no mar.
Por seu lado, o doutor Marañfión8 cita Berreda, que viu, segundo
parece, em 1838, na ria de Requejeda — Santander —, um homem
marinho que desaparecia como um peixe, «de cor escura e olhos
brancos».
De acordo com o citado testemunho, o ser foi visto dois dias
seguidos por vários assistentes. Recordemos que a ria de Requejeda
encontra-se perto do Cabo de Quejo, na parte Oeste da povoação de
Noja.
Mas possivelmente, entre todas estas provas mais ou menos
lendárias, é a história de Francisco da Vega Casar, o homem-peixe de
Liérganes, a que desperta em nós maior curiosidade, tanto pelas suas
características como pelos dados que nos fornecem aqueles que
acreditaram nela e os que a negam, já que, freqüentemente, uma
realidade incrível pode surgir precisamente das provas adquiridas para
demonstrar a sua falsidade.
A história do homem-peixe de Liérganes chega a nós com
bastantes pormenores através do padre beneditino frei Jerónimo de
Feijoo, que falou dela, dando-lhe todo o crédito do seu espírito
racionalista no volume V, discurso VI, do seu Teatro Crítico
Universal, sob ó título «Exame filosófico de um acontecimento
extraordinário destes tempos». A partir da referência do padre Feijoo,
a história deste estranho ser passou a fazer parte dessa que poderíamos
chamar mitodologia contemporânea, porque o grande beneditino do
século XVIII, tanto pelos seus escritos como pela época enciclopedista
em que viveu, não pode ser apontado como crédulo ou supersticioso,
pois em muitas passagens da sua extensa obra — na maior parte delas
— ataca violentamente, com toda a força do seu pensamento, os mitos
e as fraudes que estavam, no seu tempo como agora, presentes e vivos
no espírito popular.
Consideramos, nem que seja a paços largos, essa história de
Francisco da Vega, cujo registro de nascimento se encontra ainda nos
arquivos diocesanos de Santilhana. Dizem as testemunhas que este
homem entrou no mar na véspera de São João, em 1673, e que
desapareceu nele durante seis anos, período em que se considerou
como afogado. Após esse tempo apareceu de novo, também no mar,
mas desta vez para os lados de Cádiz, com a sua pele coberta por uma
espécie de escamas e incapaz de expressar-se por palavras.
Francisco da Vega, ao que parece, foi conduzido de regresso à sua
terra montanhesa por um padre, permaneceu durante nove anos ao
lado.dos seus, sem recuperar a fala e, ao fim deste tempo, desapareceu
definitivamente, sem que ninguém voltasse a dar ou a ter notícias
suas.
O doutor Marafión, no seu estudo sobre o padre Feijoo, sente-se
incapaz de dar uma explicação racionalista que justificasse a figura
que ele próprio traçou do escritor beneditino e diz: «Este erro é a
mancha da, obra do nosso subtil frade».
E, ao mesmo tempo que reprova a sua pretensa credulidade,
procura explicar cientificamente as razões que puderam levar frei
Jerónimo a defender a veracidade da sua história. Para isso acrescenta
dados que, apesar de serem aparentemente negativos, devemos tê-los
em consideração, pois poderiam levar-nos à convicção de que as
ramificações da história do homem-peixe são bastante mais amplas do
que a aparência deixava supor.
Para demonstrar o seu diagnóstico, Marafión afirma muito
acertadamente que há organismos afetados por uma débil função
tiroideia, lesão que por um lado pode conduzir a estados de
cretinismo, e por outro proporciona ao paciente a estranha virtude
física de que precisa para as suas funções vitais menos quantidade de
oxigênio que a necessária para organismos normais. Para o doutor
Marafión, o homem-peixe de Liérganes pode ter sido um hipotiroideo
cretino que, devido à sua própria doença, tivesse tido a faculdade de
poder estar submerso na água mais tempo do que uma pessoa normal.
Por outro lado, indica que os afetados por lesões na glândula tiróide
sofrem freqüentemente de uma doença secundária, a itiose, que
consiste num ressecamento da pele que, consequentemente, se torna
rugosa e até em muitos casos escamosa, quase como a de um peixe.
Daí o seu nome. Afirma igualmente que o cretinismo endêmico, ainda
não há muito tempo, era habitual nas montanhas do norte peninsular:
Santander, Astúrias e Galiza. Precisamente as mesmas comarcas
donde encontramos as tradições de Noé! E acrescenta que uma das
características deste mal era precisamente a mudez que o padre Feijoo
e outras testemunhas atribuíram a Francisco da Vega Casar,
Acaba Marafión afirmando que outros pormenores físicos
encontrados no homem-peixe de Liérganes coincidem com este
diagnóstico a distância que esboçou: o cabelo encarnado, a gula, o
constante sentimento de frio que leva o paciente a uma permanente
necessidade de aquecer-se, a onicofagia e a já mencionada itiose.
Creio firmemente que estas explicações científicas, e sem dúvida
perfeitamente.válidas, do doutor Marañón, longe de destruir a possível
autenticidade do mito são uma ajuda valiosa no momento de abordar a
verossimilhança da história narrada pelo padre Feijoo. Não apenas
isto, já que constituem indícios que nos ressurgirão muitas vezes na
mitologia e que constituirão dados para completar uma cadeia de.fatos
que agora apenas começamos a enumerar.
Prestemos atenção, em primeiro lugar, à prova — ao diagnóstico
— de cretinismo. Citei anteriormente, sem deter-me a analisar o fato,
São José de Cupertino, o Santo que levitava e que tinha dado bastantes
provas às testemunhas de ser um inocente: um imbecil, um cretino
patológico. Pensemos uma coisa: até que ponto os cretinos, ou os que
consideramos como tais, não serão seres diferentes, seres à parte de
um gênero da humanidade de inteligência mais tosca e talvez mais
rico o indício mais evidente — a mais diáfana chamada de atenção em
qualidades impossíveis de alcançar por nós, os que nos consideramos
intelectualmente muito mais avançados?
Vejamos agora o pormenor do cabelo encarnado. Para além de
constituir um distintivo racial — e negativo no caso de uma possível
segregação — de certos povos malditos da Península, aos quais
voltaremos, foi a denominação mítica de uma das raças atlantes: os
Ghómara, os vermelhos, construtores de megalitos que, desde as
comarcas de Xanen e o Rif, se expandiriam (denominados Keftin
pelos egípcios) até às margens do Mar Vermelho — o qual tomaria o
seu nome precisamente deles — e originariam posteriormente o povo
fenício (phoéniké: vermelho para os gregos).
Por outro lado, o hipotiroidismo — volto às idéias antes não
mencionadas pelo doutor Marañón — faz com que, precisamente pela
pouca necessidade de oxigênio desses doentes, aqueles que o sofrem
tenham uma maior facilidade para suportar atmosferas rarefeitas: as
grandes alturas, por exemplo — montanhas acima dos três mil metros
— e as profundidades marítimas.
Juntemos agora estes indícios e procuremos tirar conclusões que
não pretendam ser axiomas, mas apenas sugestões um pouco
inquietantes.
Nas proximidades das comarcas que estão assinaladas com
topônimos procedentes do nome do patriarca- Noé, nascem mitos e
dá-se conhecimento de homens marinhos, chamemos-lhe tritões ou
Francisco da Vega Casar, conforme venham do mar ou regressem a
ele, que se prolongam até tempos relativamente recentes. A origem
destes mitos podemos situá-la numa época em que os homens
sofreram uma aceleração cultural que dificilmente poderiam ter
empreendido com as suas próprias forças, e que leva a considerar
como provocada por homens ou por povos já possuidores desses
conhecimentos — e muito mais, provavelmente —, chegados às
costas ocidentais da Europa depois de um desastre cósmico assinalado
tanto por mitos como por -indícios religiosos e culturais que
coincidem com eles.
Neste sentido, a nave em que vêm estes homens procedentes do
mar, precisamente por constituir o sinal externo da sua chegada,
converter-se-á, para os que recebem a sua visita, em objeto de culto. O
barco, para eles, contém a sabedoria, e por isso mesmo, chegam a
transformá-la em sinônimo dessa sabedoria e fazer com que tudo o
que esteja dentro dela seja sábio e santo. A Nave — a arca — trouxe à
Mesopotâmia os sete sábios que ensinaram à humanidade Os
princípios da civilização. A barca de Caronte transporta os mortos ao
outro mundo onde tudo se acaba por saber.
Outra barca, a de Osíris, transporta os defuntos do Egito para a
terra dos seus antepassados sábios, que está precisamente no Ocidente.
As primitivas igrejas normandas têm forma de drakkar invertido, e os
próprios templos cristãos estão compostos por naves.
Navegar — vir do mar pu embrenhar-se nele — converte-se numa
arte para iniciados.
A arca ou a nave do templo de Salomão contém no seu interior a
chave de todo o saber, e os cavaleiros templários tornaram-se seus
vigilantes.
Ao longo dos séculos, a barca — e, por conseguinte, quem a ocupa
— converter-se-á em símbolo de iniciação. Simão Pedro aparecerá nos
Evangelhos como pescador e será portador da chave — a clave.
Lohengrin, o cavaleiro do Cisne da mitologia germânica, chegará
numa barca desde um lugar desconhecido de todos. O próprio corpo
do apóstolo Santiago, depois do seu legendário martírio, chegará
também até Iria Flávia noutra barca que terá sido lançada sem rumo
pelos seus discípulos no longínquo oriente mediterrânico. Essa barca
terá percorrido absolutamente só apenas com a força do sopro divino,
a rota do Sol, originando, com a sua mítica chegada às costas galegas,
o indício mais evidente — a mais diáfana chamada de atenção —
sobre uma das peregrinações mais constantes e mais controvertidas da
História.
6

SERES GIGANTESCOS E POVOS DISPERSOS

Confesso que ainda não pude averiguar se há nalgum ponto


obscuro do passado da evolução lingüística, uma raiz comum para a
palavra tritão e ao vocábulo titãs. Mas inclino-me para essa suposição
porque, por pouco que aprofundemos na mitologia arcaica, as
referências aos seres marinhos seguem caminhos paralelos às noticias
que poderíamos acumular sobre os gigantes que aparecem em todas as
mitologias.
Vamos agora recordar, precisamente pelo muito que tem que ver
com essa memória perdida do nosso passado peninsular — se bem que
à primeira vista possa parecer que se trata de algo totalmente diferente
— a lenda mitológica dos titãs. E queria solicitar a atenção e a
memória posterior sobre muitos pormenores aparentemente sem
importância, porque depois veremos como esses pormenores contam
no momento de estabelecer paralelismos fundamentais.

A LENDA DOS TITÃS


Urano — deus do céu - e Gea —a Terra— tiveram por filhos os
ciclopes e os titãs. Um destes titãs era Cronos, o deus personificador
do tempo que passa. Urano, zangado com os seus filhos, os ciclopes,
porque se dedicavam à forja, lançou-os nas profundidades do Tártaro:
Gea, a mãe, influenciou Cronos e os titãs para vingar os ciclopes. E
Cronos, com a ajuda dos seus irmãos, arrebatou o poder a Urano, que
foi mutilado pelo seu próprio filho e do sangue que saiu da sua ferida
nasceram as Fúrias, as Mélias e Vênus.
Mas Cronos, logo que alcançou o triunfo e o poder, hão libertou os
ciclopes, da sua prisão no Tártaro donde os tinha lançado Urano. Pelo
contrário, temendo por sua vez ser destronado pelos filhos que tinha
tido com Rea, foi-os devorando todos: Poseidon, Plutão, Vesta, Ceres.
Unicamente Zeus se salvou de ser devorado por seu pai, e foi
precisamente ele quem, depois de fazer com que Metis tirasse os seus
irmãos do ventre de Cronos, empreendeu uma longa guerra de dez
anos contra ele e os titãs: a chamada Titanomaquia. Para conseguir a
vitória, Zeus libertou os ciclopes da sua prisão do Tártaro, matando o
seu guardião Campé, e os ciclopes, agradecidos, proporcionaram a
Zeus o relâmpago, o ralo e o trovão, a Plutão o capacete mágico, e a
Poseidon o tridente.
Com esta poderosíssima ajuda, Cronos e os titãs foram vencidos ,e
lançados pelos seus vencedores ao mesmo Tártaro onde os ciclopes
tinham estado prisioneiros.
Tenhamos em consideração que, de acordo com os ciclopes eram
gigantes, com uma diferença: enquanto os titãs se limitavam a ser
grandes e fortes, os ciclopes, além disso, cumpriam uma função que
hoje poderíamos chamar tecnológica. Eram forjadores e ferreiros, e
fabricavam instrumentos mágicos, como temos podido comprovar.
Se captamos a continuidade do mito helênico, aproxime-mo-nos
agora do mito originário da religião egípcia, e veremos como se trata
de um mito totalmente diferente em aparência daquele que acabamos
de narrar. Contudo, quando o observamos com atenção, os
paralelismos surgem imediatamente. E não apenas os paralelismos,
mas também uma série de ramificações que se ligarão com outros
mitos e irão constituir um todo, prolongado profundamente no
processo histórico total da humanidade.

O MITO DE OSÍRIS
Nuit — a noite, o firmamento escuro — e Geb — a Terra —
tiveram três filhos: Osíris, Isis e Seth. Osíris casou com sua irmã Isis
e, depois de ter fundado Tebas, depois de ter escrito as leis para o
povo e de ter instituído os cultos e ensinado a agricultura, iniciou
expedições colonizadoras, deixando Isis como governadora dos seus
estados. Quando regressou, o seu irmão Seth, com a ajuda de setenta e
dois cúmplices governadores ou chefes de tribos do seu reino,
organizou um banquete em honra de Osíris e assassinou-o, metendo o
seu corpo numa arca e lançando-o ao Nilo. A arca contendo o corpo
de Osíris foi dar às proximidades de Tiro, a madeira de acácia de que
era feita deitou raízes1 e ali permaneceu durante muitos anos.
Isis, irmã e esposa, procurou sem descanso o cadáver de Osíris
durante todo aquele tempo, mas, quando por fim o encontrou, foi-lhe
arrebatado novamente por Seth, que o desmembrou em catorze
bocados e espalhou-os pelo mundo. Os catorze fragmentos do corpo
de Osiris foram parar a outras tantas cidades, até que Isis, após longa e
angustiante peregrinação, os reuniu todos e lhes deu vida efêmera,
mas suficientemente fecunda para que Osiris lhe desse um filho. O
filho chamou-se Horus e foi encarregado de vingar a morte do pai e de
unificar o Egito num só reino, depois de arrebatar a Seth a sua coroa.
Comecemos agora a explicar paralelismos que possam ter ficado
um tanto perdidos pela aparente diversificação dos mitos.
Em primeiro lugar, Cronos e Seth. Cronos é a divindade que
domina o tempo; Seth é o deus do tempo meteorológico. Cronos é
ajudado pelos titãs na luta contra seu irmão Urano; Seth recebe ajuda
de setenta e dois pequenos chefes que se tornaram seus sicários.
Continuemos com Osiris. Reparte a herança de Geb (a Terra) da
mesma maneira que os ciclopes deveriam ter distribuído a herança de
Gea com Cronos e os titãs. Os seus pais, por outro lado, são idênticos:
Urano é, decididamente, o mesmo personagem que Nuit; Gea e Geb
parecem-se inclusive na própria raiz do seu nome. Mas chega o
momento em que Osiris deixa de ser protagonista para tornar-se num
objeto destroçado. Não uma, mas duas vezes. Um sacrifício diferente,
mas paralelo, ao dos ciclopes, afundados pela primeira vez no Tártaro
por Urano e conservados na sua prisão por Cronos.
Isis, no centro destes mitos, aparece como uma divindade nova —
apesar dos seus evidentes paralelismos com Vênus e inclusive com as
Fúrias e as Mélias — para surgir como uma força apaixonada que,
como poderemos comprovar, faz do mito egípcio um espécime mais
evoluído do Mito Total, já que personifica, com as suas angústias e
incessante procura —e não apenas uma vez, mas duas — a vontade de
união que implica uma evidente evolução do pensamento.
Por seu lado, Horus e Zeus constituem o que poderíamos chamar
segunda geração teológica.
Se Horus é o fruto da união de Isis com os fragmentos de Osiris,
Zeus é o filho - único não devorado - da união de Cronos e Rea.
E se Horus é o vingador da morte de seu pai Osiris e o unificador
do Egito, Zeus é o libertador dos ciclopes do Tártaro e o unificador da
tradição religiosa helênica.
As duas vezes que Seth se apodera do corpo de Osíris, lançando-o
ao Nilo na primeira vez e despedaçando-o na segunda, correspondem
às duas ocasiões em que os ciclopes são primeiro lançados ao Tártaro
por Urano e depois mantidos na sua prisão por Cronos. Esses ciclopes
ajudaram Zeus, enquanto os bocados dispersos de Osíris unidos por
Isis, procriaram Horus.
Procuremos esquematizar os paralelismos nos seus principais
elementos comuns e teremos o seguinte quadro:

a) União do Universo e da Terra


União de Urano e Gea União de Nuit e Geb

b) Hostilidade dos irmãos


Urano lança os ciclopes no Seth assassina Osíris e envia os
Tártaro seus restos numa arca

c) Tentativa de rebelião
Zeus inicia a luta contra Cronos e Horus é gerado pelos bocados de
os titãs, e nessa luta, a ajuda dos Osíris reunidos por Isis.
ciclopes é fundamental para a Posteriormente será o vingador de
unificação olímpica seu pai, o assassino de Seth e o
unificador do Egito.

O resumo comum de ambos os mitos apresentar-se-ia assim:


1. Há dois irmãos inimigos
2. Um deles aparece como mestre e colonizador (Osíris)
3. O outro vence-o num primeiro choque e dispersa-o. Num
segundo encontro mantém-no afastado e disperso.
4. O descendente da geração imediata põe as coisas no seu lugar,
vinga a injustiça e unifica o seu mundo circundante.
Admitamos que, à primeira vista, estes paralelismos podiam estar
sujeitos a diferenças de opinião e a diferentes interpretações. Contudo,
arrisco-me a admitir esta apreciação, pelo menos até que o leitor
conheça a outra história mítica clarificadora que porá as coisas no seu
lugar certo e dar-lhes-á uma dimensão histórica que por agora ainda
não se pode apreciar nelas.
Refiro-me ao mito irlandês — céltico — dos Thuata-de-Dannan,
provável origem de todos os mitos irlandeses posteriores e relatados
no livro Leabhar Gabhala2. A pretensa antigüidade originária do mito
tem sido discutida por diversos autores, dado que as primeiras notícias
desta história chegaram-nos através dos manuscritos cristãos a partir
do século IX.3
Contudo, a fonte destes manuscritos é, sem a menor dúvida, muito
anterior. A versão conhecida tenta coligir as antigas tradições célticas
com um cristianismo recém implantado, mas o mito originário é
susceptível de ser extraído da versão citada, provavelmente escrita
pela primeira vez depois da evangelização da Irlanda pelo monge celta
S. Columbano.

A LENDA DOS THUATA-DE-DANNAN


Após o Dilúvio Universal, duas raças irmãs mas inimigas
enfrentaram-se numa guerra no solo gaélico. Ambas as raças tinham
chegado dos mares e tinham ocupado o lugar deixado livre pela raça
inferior de Partholon, subitamente desaparecida, vítima de um mal
inexplicável. As duas raças enfrentadas eram os Fir-Bolg e os Thuata-
de-Dannan. A primeira, de acordo com a lenda mítica, possuía a
magia negra; a segunda a magia branca. Na primeira batalha de Mag-
Tured, os Thuata-de-Dannan foram vencidos e obrigados a vaguear
pelo mundo, em pequenos grupos divididos que'foram bordejando o
Mediterrâneo e contatando os outros povos, aos que ensinaram parte
da sua magia. O seu deus era Lug, dono do ralo e do trovão, mestre
em técnicas de construção e conhecedor de todos os segredos da
natureza. Sob a sua invocação e com a sua ajuda os Thuata seguiram o
seu longo caminhar e chegaram a fundar quatro cidades mágicas
nalguma parte da Europa Ocidental. As cidades chamavam-se Falias,
Morias, Semias e Flinnias.
A partir delas, passado tempo, agruparam as suas forças —
mágicas —e regressaram para vingar a afronta da sua antiga derrota,
precisamente no mesmo enclave de Mag-Tured donde a sofreram.
Mas agora tinham consigo a proteção do poder de Lug e quatro
objetos mágicos que provinham cada um de uma das suas cidades e
todos eles tinham sido conseguidos graças à sabedoria de Lug. Os
quatro objetos eram: Lia-Fail, a pedra do Destino; a Lança Encantada
de Lug, que dava sempre a vitória; o Caldeiro de Dagda, impossível
de ser despejado e ressuscitador dos mortos que eram banhados nele; e
a Espada Mágica de Nuada, cujas feridas nunca saravam.
A vitória definitiva dos Thuata-de-Dannan obrigou aos Fir-Bolg a
refugiarem-se nas cavernas e, desde então, os descendentes do povo
vitorioso (e justo) reinaram na terra irlandesa.
Que resumo tem esta história mítica?
1. Há dois povos irmãos e ao mesmo tempo inimigos
2. Um deles aparece como colonizador e portador de cultura
3. O outro vence-o e dispersa-o pelo mundo
4. Ao fim de muito tempo, o povo vencido vinga a sua derrota e,
atirando o seu inimigo para as cavernas, unifica o seu mundo
circundante.
Se retrocedermos algumas páginas paria nos determos novamente
no resumo comum que estabelecemos com os mitos precedentes
comprovaremos que um mesmo resumo serve para unificar três lendas
surgidas em três pontos distintos e com um desenvolvimento cultural
totalmente diferente! E — isto é ainda mais revelador —o mito
irlandês, com todos os seus elementos fantásticos, coloca os outros
dois num plano da realidade de que o sentido simbólico — religioso,
dos outros, estava afastado.
Temos ainda, além disso, uma explicação à escala mítica, e em três
versões diferentes, dos que pudessem ter sido os homens que vieram
do mar após o Dilúvio, para instruir os povos do neolítico. Alguns
pormenores complementares esclarecê-lo-ão.
Conta o mito egípcio que Osíris, morto e metido na arca de
madeira de acácia, criou raízes durante vários anos em Tiro. Ora bem,
de acordo com outro mito fenício — paralelo ao mito babilônico de
Oanes estudado anteriormente — o civilizador Uonos, o homem
marinho que ensinou a arte de navegar a este povo fundamentalmente
marinheiro, chegou do mar a Sidón sobre um tronco de árvore.
Um pormenor mais. O já mencionado licenciado Pozas 4, ao que
não se pode logicamente conceder mais crédito — que até nem é
pouco —que o de ter atuado como recompilador de histórias e de
mitos que se ouviam na sua época, mas que provinham de fontes
anteriores, diz numa passagem do seu livro: «Os citas foram árabes
que para cá vieram com Osiris e se fixaram junto à foz do Guadiana, o
qual passava pelo meio das suas terras. O cabo cítico foi uma ponta
marítima na costa dos citas, que depois se chamou Cabo Sagrado e
agora é o Cabo de São Vicente».

Fig. 11 — Tineo, nas Astúrias, tem um nome semelhante ao da cidade egípcia de Thynis
donde provinham as dinastias tinitas.

Não pára aqui a aparente coincidência. A região asturiana conserva


uma série de curiosos paralelismos com o Egito pré-dinástico e mítico,
que convém ter em conta mesmo que seja arrojado tirar alguma
conclusão de tais coincidências. Recordemos primeiramente como
Sílio. Itálico dizia que Osiris, nas suas expedições culturais, nas suas
deslocações marítimas para ensinar a agricultura aos povos, ia
acompanhado pelos astyres. A coincidência pode ser um simples
acaso, mas transforma-se em motivo de inquietação e de suspeita
quando comprovamos:
a) Que a cidade e a comarca asturiana de Tineo têm um evidente
paralelismo toponímico com Thinis, a primitiva capital egípcia de que
surgiram as dinastias chamadas tinitas.
b) Que nas proximidades de Tineo há um monte com uma fonte
secularmente sagrada que tem por nome Fonfaraón.
c) Que a Sueste de Cangas de Narcea existe ainda uma aldeia,
metida nos vales da cordilheira Cantábrica chamada Mosteiro de
Hermo, com nítida parecença toponímica com Hermes-Tot — se bem
que o nome de Hermes lhe fosse dado ao deus egípcio pelos gregos.

Fig. 12— A aldeia do Mosteiro do Hermo recorda imediatamente o nome do deus egípcio
Hermes-Tot

d) Que o rio Nalón mantém no seu nome uma estranha semelhança


com o Nilo egípcio.
e) Que na quase já abandonada aldeia de Albamia - na comarca de
Cangas de Onis, muito perto de Corao — guarda-se um sepulcro, hoje
destruído e coberto de ervas silvestres, que todos os da comarca
afirmam conter os restos do mítico Pelayo, libertador das Astúrias
contra os muçulmanos.
Prescindindo mesmo de que o nome de Pelayo (Pelagio) significa
homem-vindo-do-mar, recordemos apenas que na cidade egípcia de
Ombos se guardava cuidadosamente o sepulcro de Osíris depois de
Horus se ter convertido em libertador e unificador do Egito ao vencer
Seth.
f) Que o inferno egípcio, o lugar para onde iam todos os mortos
para serem julgados chamava-se o Amenti. E nas Astúrias, apenas a
um quilômetro de Villaviciosa, há um curioso lugar chamado
precisamente Amandi!, em cuja igreja de São João, construída nos fins
do século XII, se vêem, adornando todo o pórtico, umas curiosas
cabeças de seres marinhos rodeados pela clássica linha quebrada que
em todo o simbolismo medieval representava a presença do mar.

Fig. 13 — O rio asturiano Nalón, cuja raiz é a mesma que originou o nome do rio Nilo

Creio que são demasiadas coincidências para pensar simplesmente


no acaso.
Teríamos que aprofundar os motivos e encontrar, precisamente, a
causa destes fatos.
Prestemos atenção. Estamos já — se bem que a longa introdução
mítica nos tenha afastado aparentemente da nossa meta em pleno
campo dos indícios peninsulares. Porque as ramificações dos três
mitos que descrevemos e comparamos - esses três mitos que, no
fundo, são apenas um — estendem-se pelo território peninsular ao
longo do tempo e nos mais inesperados aspetos e lugares.
A Galiza, por exemplo, será provavelmente o cenário mais
concreto de um episódio da lenda dos Thuata-de-Dannan. Num
determinado momento do mito, quando nos é contada a história de
Brath — e Brath não é mais do que o rei de um dos grupos dispersos
dos Thuata —, diz-se que ele veio ao território peninsular procedente
do Norte de África, sendo portador da pedra de Lia-Fail e que, depois
de travar batalhas com os Toisona, com os Bachra e com os
lombardos — este último pode muito bem ter sido um prolongamento
dos copistas do século IX, através dos quais nos foi transmitido o mito
—, se fixou no noroeste, nas terras que hoje formam a Galiza, e que
um filho seu, Breoghan, fundou ali uma cidade chamada Brigantium.
Durante a sua estada naquele reino provisório que se chamou Briga5, a
pedra Lia-Fail serviu de trono aos seus reis, e quando um deles voltou
à Irlanda, para travar batalha com os Fir-Bolg, levou-a consigo6.

Fig. 14—Na igreja em ruínas de Abamia, nas


Astúrias, conserva-se o sepulcro de Pelayo. Numa cidade de nome paralelo, Ombos, no Egito

Considerando que a pedra Lia-Fail — outra pedra que ainda hoje


recebe o mesmo nome - servia em tempos recentes para que sobre ela
se sentassem os reis da Inglaterra quando aceitavam simbolicamente a
coroa da Irlanda — falo, naturalmente, do tempo em que a atual
república da Irlanda formava parte do Reino Unido —, e se
recordamos que o historiador Marco Varrão disse que a antiga Irlanda
foi conquistada por gentes que chegavam do noroeste da Ibéria,
comprovaremos que a lenda tem umas raízes históricas que nos
levariam incontestavelmente a um reajustamento cronológico e ao
reconhecimento evidente de uns acontecimentos que não deverão ter
sido tão míticos como poderiam parecer devido à sua procedência.
Fig. 15 — O Amanti era o inferno do Livro dos Mortos egípcio. Na Igreja asturiana de São
João de Amandi existem figuras que bem podiam interpretar-se como passagens do livro
sagrado

Por outro lado, pode ainda perguntar-se que aspeto teriam aqueles
homens que, fazendo parte de um mesmo povo — irmãos, em todos os
mitos já referidos —, se odiaram de morte e criaram com as suas lutas
o gérmen da civilização nacional. O mito grego classifica-o de
gigantes. Porque gigantes, como vimos, foram tanto os ciclopes como
os titães. E gigantes foram os homens que habitaram a terra antes do
Dilúvio, segundo as Escrituras Sagradas:
«Existiam, então, os gigantes na Terra. E também depois, quando
os filhos de Deus se juntaram às filhas dos homens e geraram filhos»
(Gênesis, 6, 4).
Os gigantes aparecer-nos-ão no solo peninsular em todos os seus
aspetos: como protagonistas — ou antagonistas — de contos
populares; como origem de famílias que ainda os ostentam — por
vezes, inclusive, com certo aspeto remoto de homens marinhos —
com os seus escudos nobiliários; como habitantes mitológicos do
território ibérico em lendas posteriores — e conseqüentes com — às
que temos narrado.
Porque, não foi o gigante Gerión, guardador das vacas vermelhas,
que Hércules roubou no seu décimo trabalho7 E não foi o caminho da
Península o que seguiu para chegar até ele e roubar-lhe o seu gado?
Quanto a Hércules, voltou a atravessar de ponta a ponta a
Península a caminho de Tingis para, no seu trabalho seguinte, roubar
ao gigante Anteo as três maças de ouro do Jardim das Hespérides. E se
o décimo trabalho — o de Gerión e da sua manada - constitui uma
clara alusão à aprendizagem da arte de ganadaria, este outro contém
um simbolismo indubitável da procura do saber na ciência agrícola.
Deste modo comprovamos como, através dos mitos se vai
contatando com um povo vindo do mar depois do Dilúvio Universal
ou do cataclismo cósmico; trata-se de um povo de gigantes — muito
grego —, de magos — mito irlandês —, e de sábios—mito egípcio—,
que ensinou aos homens da Europa Mediterrânica e do próximo
Oriente os primeiros fundamentos da civilização, mas com notáveis
diferenças.
Se observarmos atentamente, verificaremos que, enquanto o ramo
disperso destes povos — cíclopes/Osíris/Thuata-de Dannan — ensina
princípios «tecnológicos» aos outros povos com quem contata no
oriente mediterrânicos, o ramo sedentário ou não viajante—
titãs/Seth/Fir-Bolg — aparece como negativa não só em relação ao
protagonismo dos seus mitos, mas também quanto ao avanço aparente
— tecnológico, visível — que proporciona aos povos autóctones com
quem convive: os povos peninsulares, os irlandeses, os habitantes da
zona oriental da França..
Abandonemos por momentos os mitos e olhemos para o fato
aparente, o fato arqueológico. Ficará bem clara essa diferença técnica
e — aparentemente cultural:
1. Por volta do ano 3700 a.c. aparecem os primeiros instrumentos
de cobre na Assíria.
2. Por volta do ano 3200 a.c. inicia-se a contração como mosaicos,
no mediterrâneo oriental.
3. Por volta do ano 2950 a.c. fabricam-se já objetos de estanho e,
na mesma época aparecem barcos à vela sulcando as costas
mediterrânicas.
Contudo, os trabalhos em pedra continuam a dominar totalmente o
ocidente europeu — e particularmente a Península Ibérica — até cerca
de 2000 a.c, em que começaram a aparecer os primeiros objetos de
cobre nas jazidas arqueológicas da chamada cultura de El Argar
(Almeria).
Significam estes fatos um atraso cultural do ocidente europeu em
relação aos países do oriente mediterrânico? Pelo menos
aparentemente assim é; e os defensores da história tradicional aceitam
essa idéia. A arqueologia, realmente, nada mais pode fazer do que
contar o que vê.
É impossível analisar a alma ou a mente dos seres humanos, dos
que apenas se conhecem o esqueleto e os objetos que usavam,
desconhecendo-se mesmo o uso real que podiam fazer deles. Apesar
disso, uma série de indícios — em parte já vistos e outros ainda para
ver — poder-nos-ão levar a uma conclusão oposta: no ocidente
europeu — e particularmente na Península Ibérica — desenvolvia-se
paralelamente à cultura tecnológica do oriente mediterrânico, uma
cultura mental, superior, menos reconhecível que a outra porque,
como parece lógico pensar, não deixou vestígios que a possam definir.
Com esta premissa, teremos de chegar à conclusão de que
protagonismos e antagonismos nos mitos — personagens míticos
positivos e negativos — são apenas apreciações pessoais que variarão
segundo a fonte donde provêm.
Seres míticos e povos serão bons ou maus conforme sejam
interpretados e julgados por amigos ou inimigos. Mas a verdade da
história, a verdade do homem, continuará a estar onde o pensamento
objetivo possa ser capaz de conduzir-nos.
7

O MITO SERPENTÁRIO

Há uma figura simbólica que faz parte, sob um ou outro aspeto,


com significados bastante diferentes, do material mítico que a
humanidade conserva nas suas tradições, Poderá chamar-se
Quetzalcoatl entre os aztecas e Apop entre os egípcios, multiplicar-se-
á sobre a cabeça de Medusa no mito grego ou será a origem de toda a
sabedoria sob a forma de um ofídio mordendo a própria cauda na
teosofia blavastskiana, será morta por São Miguel ou afugentada pela
ágata de São Alberto, originará a letra S do nosso alfabeto e será o
símbolo fálico dos sonhos freudianos. Mas não poderá deixar de
chocar-nos o seu constante aparecimento e as quase infinitas facetas
das suas representações e significados.
Vladimir Propp confessa que é «uma das figuras mais complicadas
e indecifráveis do folclore e da religião em todo o mundo»¹
E quantos mais autores — estudiosos, científicos ou videntes -
tenhamos possibilidade de consultar, tantos mais significados e
variante veremos dar à figura imprecisa do réptil. Procuraremos aqui
esclarecer o mito e, dentro do possível, encontrar a sua origem, pelo
menos no setor que afeta, direta ou indiretamente, a Península Ibérica.
Não pretendo, evidentemente, decifrar todas as ramificações do
mito serpentário. Mas acredito que possamos chegar juntos a algumas
conclusões válidas no que se refere à interpretação das nossas
representações serpentárias.
Em primeiro lugar, tentemos comprovar como a serpente tem, nos
mitos das antigas civilizações mediterrânicas. o significado impreciso
de alguma coisa que está oculta, que é secreta, de alguma coisa
intimamente relacionada com a sabedoria esotérica, com a magia
negra, com a consecução do poder com a audácia, com a astúcia:
«Mas a serpente, o mais astuto de todos os animais do campo feitos
por Yavé Deus»...
E disse a serpente à mulher: «Não, não morreras; é que Deus sabe
que o dia que dele comeis os vossos olhos abrir-se-ão e sereis como
Deus, conhecedores do bem e do mal (Gênesis, 3, 1 e 4-5)».
A serpente é guardiã de segredos. No país asturiano abundam as
tradições que falam de cavernas com tesouros guardados por
serpentes: ali chama-se-lhes cuélebres.
Inclusivamente, em certas ocasiões, uma inscrição críptica chama a
atenção para o significado misterioso que pode conter, como uma que
lemos na igreja paroquial de Paola de Somiedo, também nas Astúrias:
«A França foi um fidalgo dos Flórez de Estrada. Ali, lutando com uma
cobra obteve uma cobra donzela».
Voltemos, novamente, aos mitos helênicos. Outra serpente, Ladón,
guardava as maçãs de ouro do Jardim das Hespérides e foi morta por
Hércules, que ia roubá-las. O herói grego enfrentou-se durante a sua
vida mítica com numerosas serpentes e, desde este ponto de vista,
aparece-nos como um eterno lutador contra os segredos que esconde
tradicionalmente o simbolismo serpentário. Conta a sua lenda que, já
menino, o seu berço foi atacado por duas serpentes, que seu irmão
Iphiclés ficou aterrorizado, mas o futuro herói apanhou uma com cada
mão e estrangulou-as. Posteriormente, no segundo dos seus doze
trabalhos, enfrentou-se à hidra de Lerna, um monstro com cem
pescoços, terminando cada um numa cabeça de serpente. Conta o mito
que Hércules começou por atacar as cabeças uma a uma com a sua
clava, mas que de cada cabeça destruída apareciam mais duas. Então,
o semideus incendiou o bosque donde estava a hidra e queimou-a lá
dentro.
No Egito, os faraós exibiam-na na testa como símbolo do seu
poder. Ligada ao drama da Criação Original, a serpente aparece nos
templos de Angkor. E como representação simbólica das sucessivas
reencarnações do homem, aparece reproduzida nos prisos da pirâmide
de Zoser, em Saggarah.
Imortalidade, poder, segredo, •criação, perigo, muitos variantes
para um único símbolo. E ainda encontraríamos mais, desde o caduceu
de Hermes até à figura com pés de serpente que aparece no selo dos
templários debaixo da inscrição: Secretum Templum. Muitas
designações... a não ser que todas elas coincidam num determinado
vértice. Diversidade numa unidade que parece distante, desconhecida,
múltipla nas suas representações, impossível de abarcar. Sempre?
Talvez não.
Inclusivamente o caminho que nos leve à explicação mais imediata
pode estar precisamente na Península Ibérica.
Há uns versos (153 a 157) da Ora Marítima de Rufo Festo Avieno2
que logo chama a atenção: «Dizem que Ophiussa é tão larga como a
ilha de Pélope na Grécia. Chamou-se-lhe primeiro Oestrymnia, porque
habitaram esses lugares e campos os Oestrymnicos; depois, enorme
quantidade de serpentes obrigou os seus habitantes a fugir e recebeu
novo nome».
Quer dizer, que uma terra, precisamente a Península Ibérica, troca
o seu nome antigo quando, depois de uma invasão, a dominam novos
habitantes. Julgo que não é preciso esclarecer que Avieno, consciente
ou inconscientemente, se refere não a serpentes, mas a seres humanos.
Talvez a homens que tinham adotado a serpente como símbolo da sua
personalidade totêmica, mas em qualquer dos casos a homens
suficientemente afastados no tempo para já terem perdido as suas
características pessoais em aras do símbolo que ds representava.
Mais alguns dados, obtidos direta ou indiretamente da mitologia
popular. Lluch Arnal 3 recolheu tradições nas terras valencianas de
Náquera, Museros e Cabãnal nas que mencionava a antiga marcha
para o mar de manadas de serpentes peludas que se apoiavam sobre a
cauda e lançavam bramidos aterradores. E ei Idrisi, viajante e
geógrafo muçulmano do século XII, que trabalhava para o rei
normando Rogério II da Sicília, escreve sobre Saragoça que naquela
cidade não há serpentes, e que se alguma é para lá levada desde o
exterior, morre imediatamente.4
É fácil adivinhar, através da superstição popular, a passagem dos
homens que fogem a caminho do mar; e na informação do geógrafo
muçulmano, a total segregação, numa cidade concreta — Saragoça -,
de um determinado grupo humano.
As serpentes, pois, foram homens que, num momento impossível
de determinar na história remota, combateram e conquistaram (veja-se
a citação de Avieno); homens aos que, noutro momento igualmente
impreciso da história, se combateu, se venceu e se segregou
violentamente. Poderíamos mesmo prever como foram combatidos,
mas as raízes deste combate teríamos de procurá-las noutra lugar: no
campo dos contos populares.
Vladimir Propp dar-nos-á dados suficientes para constatar que o
combate serpentário, nos contos populares, tem umas características
muito concretas. Acontece, porém, que Propp chega na sua contagem
para trás com os mitos originários até uma fase ritual da humanidade,
isto é, a um ponto histórico
do inconsciente coletivo em que as recordações se transpuseram
para praticas mágicas pelas quais o homem pretendia recuperar - ou
adquirir! - poderes e conhecimentos que tinha esquecido ou tinha
entrevisto sem chegar a possuir. Neste período totêmico em que o
homem deseja aproximar-se à sabedoria e aos poderes do deus que
adotou, os ritos de iniciação conduzem-no a uma série de atos pelos
quais, como neófito, se deixa engolir simbolicamente pelo animal
totêmico: então vence-o a partir de dentro, ou facilita com a sua acção
interna que o animal — a serpente — seja vencido desde fora. Como
afirma o mesmo Propp, «para matar o devorador tem de se estar
dentro dele». Este rito implica a realidade de conhecer o monstro, isto
é, a assimilação dos seus poderes pelo fato concreto de viver um certo
tempo no seu interior.
Se transplantarmos o rito para a realidade, teríamos de estabelecer
uma quinta coluna no território do inimigo, que conheceria as suas
táticas e os seus métodos, que adotaria os seus costumes e aprenderia
o seu saber, e que, uma vez digerida toda essa amálgama de
componentes da natureza inimiga, miná-la-ia e a venceria. Tática
guerreira, ao fim e ao cabo. E também tática de aprendizagem e de
iniciação!
Avancemos um pouco mais. Os povos do oriente mediterrânico,
como já indicamos no capítulo anterior, conheceram a influência dos
atlantes dispersos — cíclopes/Osíris/Thuata-de-Dannan —,
possuidores da magia branca que transmitiram aos seus aliados E
esses povos tinham contribuído para a derrota dos atlantes
sendentários — titães/Seth/Fir-Bolg —, possuidores da magia negra.
Os vencidos, após a sua derrota, levaram consigo para as cavernas
onde se refugiaram os segredos da sua sabedoria esotérica.
Podemos tirar agora as primeiras conclusões provisórias? Talvez
pudéssemos fazê-lo, mas vamos procurar mais dados, mais indícios
que possam apoiar esta suposição ou afastar-nos dela:
Primeiro indicio: Rufo Festo Avieno, na sua Ora Marítima, chama
eventualmente aos povos serpentários Dragani. Faremos o mesmo e
identificaremos numa única família de répteis as serpentes e os
dragões dos mitos.
Segundo indicio: Seres aparentemente humanos dos mitos, sábios
ou magos, são apresentados como descendentes diretos das serpentes
ou têm uma componente serpentária na sua genealogia. Outras vezes
trata-se de animais, como no caso do leão de Nemea, filho de
Echydna, como a hidra de Lerna..., e ambos filhos de Typhon, que era
um titã. Recordemos a identidade que estabelecemos anteriormente:
titães/Seth/Fir-bolg/ /serpente.
Muitos outros mitos terão igualmente a componente serpentária e,
em alguns casos, também encontraremos personagens históricos com
um passado mítico no seu haver biográfico: Alexandre Magno, por
exemplo, de quem se disse que era filho de uma serpente e não do
monarca macedônio Filipe.
Terceiro Indicio: A serpente — tal como os seus descendentes — é
detentora de poderes mágicos, que transmite a quem a tenha vencido.
Sigurd, o herói da lenda nórdica dos Nibelungos, vence a serpente-
dragão Fafnir, banha-se no seu sangue e adquire o dom de aprender a
linguagem dos pássaros5. Por seu lado, Apoio — Dionisos vencerá a
serpente Python e sobre o seu cadáver colocar-se-á, em Delphos, a
pedra Omphalos, na qual terão lugar os augúrios da pitonisa do
oráculo.
Quarto indicio: A serpente pode ser vencida por elementos da
mesma estirpe.
A caminho do Mar Vermelho, uma praga de serpentes ameaça o
povo de Israel (Números, 21, 6-9). Yavé manda Moisés construir uma
serpente de bronze e «quando alguém era mordido por uma serpente,
olhava para a serpente de bronze e curava-se».
Os titães — gigantes, não o esqueçamos - foram vencidos
finalmente pelos ciclopes — gigantes também —, e os magos Fir-
Bolg pelos seus irmãos de raça os magos Thuata-de-Dannan.
Quinto indício: a serpente não constitui para todos os homens um
símbolo negativo portador de poderes malditos. O caduceu de Hernes
— adotado por Asclepio — é símbolo de sabedoria:
Inclusivamente, com um desvio na direção, será igualmente
símbolo da razão última das ciências exatas: o infinito.

Recentemente na história, a serpente foi precisamente o espírito


positivo dos gnósticos chamados ofitas, para os quais o réptil do
jardim do Éden tinha sido enviado por Sophia — a sabedoria — para
que o homem, ao adquirir através dela a ciência do bem e do mal,
estivesse em condições de romper com conceitos absurdos e as
proibições arbitrárias que lhe tinham sido impostas pela tirania de
Demiurgo.
Detenhamo-nos agora numa ramificação curiosa e possivelmente
esclarecedora de uma determinada faceta da influência serpentária. As
grutas neolíticas do Pais Basco — Santimamiñe, Lumentxa,
Belinkoba, Ermitia, etc. — têm sido férteis em descobertas de objetos
fabricados de pedra polida. Grande parte destes machados e facas
foram trabalhados num material bem determinado que,
provavelmente, representou para o homem do neolítico um avanço
considerável na qualidade dos utensílios fabricados em pedra. Pois
bem, este material chama-se ofita. Não sei na realidade se o nome
desta pedra é moderno, fruto das denominações mineralógicas mais
recentes, ou se, pelo contrário, procede de uma época indefinida, mas
estou convicto de que não foi um nome posto ao acaso, da mesma
forma que guardo a impressão de que não é uma coincidência gratuita
a semelhança das raízes etimológicas primitivas de ofídio e ofício,
dado que o rito serpentário — mas não o mito — traz consigo um
ensinamento das artes, dos trabalhos que o homem, em todas as suas
lendas originárias, confessa ter recebido dos deuses. Os deuses
ensinaram a sabedoria, a agricultura, a arquitetura, a magia, as leis e
os princípios religiosos.
Deuses que depois, vencidos por outros deuses mais poderosos —
leia-se também magos vencidos por outros magos —, se esconderam
nas cavernas, nas profundidades da Terra, longe do olhar dos que não
eram seu adeptos e, desde ali — ou desde lugares secretos e
escondidos, desconhecidos em geral e temidos pela maioria dos
homens — guardaram o seu saber oculto — esotérico —, repartindo-o
unicamente aos eleitos, aos que faziam prometer o segredo e não
quebrar as suas leis iniciáticas.
A tradição do culto e do esotérico generalizou-se e converteu-se,
com o tempo, primeiro em rito e depois em mito. A serpente, no conto
popular, tem de ser vencida para que o herói adquira os seus poderes.
Por isso o Cid Campeador, numa narração mítica que se conta no
bairro de Pañizares da aldeia burgaleza das Bosconcillos de Tozo,
lutou com uma serpente e venceu-a com a ajuda do brilho
deslumbrante das suas armas de ferro. Igualmente a Gorgona Medusa
tenha sido vencida muito antes por Perseu, cegada pelo reflexo do
escudo no qual o herói grego olhava a sua imagem, porque Medusa
hão podia ser olhada diretamente.
Por isso também as sacerdotisas cretenses são representadas com
outras tantas serpentes enroscando-se nos seus pulsos.
O mesmo motivo faz com que o Velo de Ouro seja guardado por
um dragão e que, na Rig Veda, uma serpente guarde as vacas de Paní,
e que as cuélebres sibilantes olhem pelos tesouros escondidos que há
no fundo das grutas asturianas.
Que a serpente mítica possuía, eventualmente, atributos de
serpente verdadeira do reino animal é algo que não deve espantar-nos.
É mesmo muito possível que tais atributos fossem a origem do seu
simbolismo para os seres humanos que a adotaram como emblema.
Em qualquer caso, é muito significativo que a serpente seja
considerada um ser longevo e que, como réptil, renasça tal como o
Fênix da sua própria pele abandonada cada primavera. Senecta, em
latim, significa ancianidade, velhice, mas o naturalista Plínio chama
senecta serpentium à pele abandonada da serpente. Se continuarmos
com o paralelismo, veremos como os mitos nos contam que as
serpentes se refugiaram nas cavernas; além disso, é absolutamente
certo que a serpente verdadeira, pela sua própria natureza, tem uma
grande facilidade para encontrar esconderijos Inverossímeis debaixo
da terra. Por último, já vimos como o simbolismo serpentário aparece
umas vezes como maléfico e outras como benéfico; no plano da
realidade, também o veneno das serpentes, conforme seja utilizado,
pode ter virtudes terapêuticas.
A meu modo de ver, todos os indícios que assinalamos levam-nos
diretamente a uma particular imagem serpentária. Possuidora e
transmissora de sabedoria secreta que os seus próprios inimigos
desejam possuir, a serpente mítica aparece-nos sempre - para além da
sua bondade ou da sua maldade -como símbolo ou marca de
identidade de todo o esotérico e dessa imortalidade procurada
incansavelmente pelo homem desde o início da sua fase intelectual
que, ao fim e ao cabo, constitui fundamentalmente o fim último de
todo o ensino esotérico, chame-se religião misteriosa ou pedra
filosofal alquímica. O homem, para além de tudo o mais, vai à procura
da sua própria imortalidade e precisa, seja como for, da prova da sua
sobrevivência. Essa prova, nos mitos, está em poder da serpente que a
guarda zelosamente; e há que arrancar-lhe pela violência para
conhecê-la, porque a serpente, em todos os casos, fará o possível para
conservá-la, secreta e desconhecida, para o ser humano.

Fig. 16 — Na fachada de Santa Maria de Sanguesa proliferam as figuras simbólicas que


tem a serpente como protagonista
Por isso, Gilgamesh, o herói da mitologia babilônica, encontra
uma erva da eterna juventude no fundo de um lago, mas . enquanto
toma banho, após o seu achado, uma serpente roubou-lha da barca. E
Sigurd, o escandinavo, mata também a serpente e, banhando-se no seu
sangue, torna-se invencível — isto é, imortal — mas... uma folha que
caiu sobre as suas costas determinará o único ponto vulnerável do seu
corpo, que lhe será fatal na hora da traição.
A luta dos heróis míticos contra as serpentes será, deste modo, a
luta simbólica em pró do conhecimento da vida ultraterrena.
E aqueles que julguem deter esse saber — como a sabedoria de
todos os poderes que vencem a morte e dão ao homem a sua afirmação
última —, aqueles que se julguem possuidores dos mais recônditos
segredos de Mais Além, tomarão a serpente como animal simbólico.
Se compreendemos todo o sentido profundo que se criou à volta do
mito serpentário, a interpretação do motivo fundamental das
esculturas da catedral de Jaca (Huesca) ficará mais patente. A maioria
das figuras deste templo românico foi esculpida por um desconhecido
mestre canteiro do século XII, a quem se chamou o «Mestre das
Serpentes», devido ao tema mais generalizado da sua obra. Pois bem,
os capitéis da catedral de Jaca estão repletos de motivos serpentários
até à sociedade. Umas vezes, estas atacam os seres humanos com uma
fúria quase insólita no estatismo do românico. Outras vezes são os
homens que levam as serpentes mansamente agarradas pela mão. Os
primeiros representam — na mentalidade indubitavelmente ocultista
do seu autor — os inimigos, esta vez vencidos, do esoterismo
serpentário. Os segundos, os seguidores dos saberes mágicos
simbolizados pela figura do ofídio. E esses saberes tornar-se-ão
patentes ainda mais noutra obra atribuída ao mesmo desconhecido
mestre: o tímpano de Santa Maria a Real de Sanguesa (Navarra), entre
cujas figuras nos surpreende a de uma mulher - de atributos sem
dúvida divinos, a julgar pelo lugar que ocupa na parte direita do
pórtico — que ama-menta um menino quase rã com ó peito direito e
uma serpente com o esquerdo.
Estamos perante umas reminiscências, parcialmente cristianizadas
— e não seriam as únicas que encontraríamos numa procura
sistemática de indícios mágicos —, da Grande Mãe das religiões
misteriosas. Já a encontramos muito tempo antes, em Cnossos, donde
a figura dessa Grande Mãe traz a serpente, como atributo da sua
divindade, envolta na mão esquerda, enquanto sustem uma ave na
palma da direita. Essa deusa de Cnossos, reconciliadora de inimigos
no seu grande seio materno, onde todos têm lugar, é portadora,
precisamente, dos símbolos antagônicos, dos dois esquemas paralelos
do saber e do atuar, e irreconciliáveis desde os alvores da história.
A serpente poderá ter como inimigos humanos os heróis, mas o
símbolo serpentário terá a sua oponente noutro símbolo não menos
estranho e tão divulgado como ele, que procuraremos esclarecer
imediatamente: a ave, a palmípeda; muitas vezes, o ganso.
8

RITOS E MITOS DA AVE

Creio que, até ao momento em que Louis Charpentier lhe deu a sua
verdadeira importância, ¹ o nome de Lug significava bem pouco para
os estudiosos do fenômeno religioso. Historiadores das religiões e da
cultura ignoram esta divindade e muitos deles — como o próprio
Frazer — 2 citam derivações suas sem terem em conta a origem dos
ritos e as crenças que não são senão restos, já quase desnaturalizados
de um culto — e podíamos mesmo dizer, de uma devoção autêntica —
bem determinado que deixou infinitas marcas vivas, muitas mais que
todos os deuses juntos do panteão greco-romano.
Devo advertir, portanto, que em grande parte deste capítulo
tomarei por base os trabalhos de Charpentier, posto que foi ele quem,
com os seus estudos e intuições, me proporcionou a matéria-prima
para o desenvolvimento de uns indícios de Lug que — estou
convencido — são fundamentais para a compreensão desse processo
que poderíamos denominar mágico da Península Ibérica. E dou à
palavra magia o significado amplo de uma indagação sobre algo que,
não tendo na verdade características especificamente sobrenaturais,
ainda não deu provas suficientes para obter a entrada nos cânones
limitados das ciências racionalistas.
Em páginas anteriores, quando relatava a história quase mítica dos
Thuata-de-Dannan, apareceu pela primeira vez este misterioso
personagem chamado Lug. Ali — vamos recordá-lo uma vez mais —
aparecia como protetor dos Thuata-de-Dannan, como principal artífice
da sua vitória definitiva sobre os FirBog, após longos anos de exílio e
de ensino entre os povos que habitavam as costas orientais do
Mediterrâneo. Durante este período de tempo indefinido, os atlantes
dispersos — de acordo com o poema Leabhar Gabhala já citado —
refugiaram-se em cavernas, dentro das quais construíram as suas
vivendas e, conviveram com os autóctones de civilização primitiva e
lhes transmitiram o saber.
Observemos, contudo, que esta transmissão de saber através dos
documentos e dos restos estudados pela arqueologia, não foi de modo
nenhum uma transmissão esotérica reservada a iniciados que tivessem
jurado guardar o segredo do conhecimento. Era pura e simplesmente
um ensino que conduziu aqueles povos a um espetacular avanço da
civilização. Foi, em suma, um ensino a nível exotérico; ou pelo menos
foi-o para a generalidade dos homens, criadores reais e beneficiários
desse ensino.
Não há, no entanto, dúvida de que houve outro ensino, desta vez
secreto, que se transmitiu ao longo da história sempre nos meios
sacerdotais — ou de profissões, ou iniciáticos de qualquer tipo —
muito restritos.
Tenhamos bem presentes estes dados, porque, chegado o
momento, poderemos comprovar como, para além de qualquer mito e
de qualquer manifestação ritual, a luta profunda entre diferentes
estamentos da humanidade teve lugar, sobretudo, entre os que
pretenderam guardar a chave do saber — e, por reflexo e em
conseqüência, também a do poder — e aqueles que têm proclamado a
igualdade dos homens no seu inalienável direito ao conhecimento. É
nem mais nem menos o mesmo problema que após séculos e séculos
chegou até nós, como poderemos comprovar se nos preocupássemos
em analisar objetivamente — e não é mais que um exemplo entre mil
— os problemas criados pelo colonialismo e os mais recentes de
descolonização. Porque faríamos muito mal em avaliar a igualdade
dos seres humanos apenas no plano econômico, se bem que o
materialismo histórico tenha de ser uma consideração absolutamente
fundamental — senão a única — na altura de calibrar e interpretar a
história da humanidade. £ muito importante o fator econômico, mas
não o é menos a luta por uma igualdade que seja capaz de dar a todos
a possibilidade de alcançar as mais distantes metas do conhecimento;
isto é: a igualdade do homem a todos os níveis.
Mas prossigamos a história narrada pelo Leabhar Gabhala,
analisando conceitos que anteriormente tínhamos passado por alto.
Há um momento do poema mítico em que aparece este Lug sobre
que desejamos esclarecer tanto as origens como a natureza e as
funções. Aparece precisamente quando os Thua-ta-de-Dannan,
dispostos a conseguir uma nova terra depois do Dilúvio, estabelecem
um pato - mágico — com o povo dos Fomoré, descritos como
gigantes donos dos mares. Observemos como também nesta história,
na que até agora os gigantes pareciam brilhar pela sua ausência, fazem
uma aparição precisamente quando se tem de decidir um destino
fundamental; exatamente o mesmo que acontece com os ciclopes do
mito helênico. Mas a aliança dos Thuata-de-Dannan com os gigantes
Fomoré é de tipo diferente, quase diríamos genético. O seu rei, Balor,
dá a sua filha por esposa a um príncipe dos Thuata: Cian, e dessa
união nascerá Lug.
A partir desse momento da história mítica irlandesa, Lug aparecer-
nos-á como um condutor nato de povos, quase como um autêntico
Messias, podemos dizer. E Messias a todos os níveis, porque Lug é
mestre em todas as artes: carpinteiro, ferreiro, vencedor em todas as
provas de força e destreza, músico, construtor, poeta, feiticeiro e
muitas coisas mais. É em suma, o encarregado estratégico de dirigir a
última batalha de Mag-Tured e alcança a vitória dos seus valendo-se
de todos os seus poderes mágicos: os guerreiros mortos serão metidos
na caldeira de Dagda e sairão dela ressuscitados e sãos, perfeitamente
aptos para voltarem ao combate; uma espessa névoa, provocada por
Lug, ocultará p avanço dos Thuata e a sua situação no campo de
batalha, até que, chegado o momento, surgirão ante os seus inimigos
pelo flanco mais fraco.
O mesmo Lug intervém diretamente na batalha e, com um disparo
certeiro da sua funda mágica, cega o gigante de um só olho que
comanda os exércitos inimigos. A história bíblica de David e Golias
aproxima-se muito deste mito.
Após estas façanhas, com o estabelecimento definitivo dos
vencedores e a sujeição pacífica dos povos autóctones — que pouco
ou nada parecem ter participado nas lutas internas dos povos atlantes
— Lug converte-se no patrono originário de todo o saber e de toda a
ciência. Perde-se a sua origem e são-lhes dadas as mais diversas
genealogias consoante predominem nele, eventualmente, uns ou
outros atributos. Mas a sua importância é fundamental e a influência
do seu culto — ou da sua memória — aparece patente até aos nossos
dias, tanto através dos topônimos que procedem dele ou dos seus
símbolos, como através de povos e de grupos humanos que dele
tomaram o nome.
Louis Charpentier descobriu uma infinidade de topônimos Lug
sobre a geografia francesa.
Quando nos embrenhamos no dédalo geográfico da Península, os
nomes Lug surgem como cogumelos. Umas vezes com a raiz
inequívoca da sua origem diretamente refletida: em Lugo, em Luco,
em Lugones, no Lluch das Baleares. Outras vezes sob a capa do
princípio feminino paralelo que acompanhou o seu culto: Lusina. O
nome aparece em Lucena, em Luceni, em Leona. Noutras ocasiões a
recordação de Lug está meio disfarçada pelos animais que o
representaram ou que representaram o seu par: o lobo, o corvo e o
ganso. Finalmente os nomes de Lug e de Lusina patentar-se-ão de um
modo diáfano através de cristianizações tardias que aconteceriam
precisamente, nos mesmos enclaves donde, ao mesmo tempo vão
aparecendo referências diretas à antiga e todo-poderosa divindade pós-
atlante. Acontece que, à volta ou dentro das zonas em que se impôs o
nome de Lug — pelas razoes que iremos vendo — encontraremos
também, e não propriamente por acaso, cultos a S. Lourenço, a S.
Lucas, a Santa Lusia e, eventualmente, a S. Lúcio e à Virgem da Luz.

Fig. 17— Concentração dos topônimos LUG na Península Ibérica. Compare-se com os
mapas que delimitam as áreas da Cultura Megalítica e do Vaso Campaniforme.
Cultos sob a forma de santuários e ermidas, monumentos que
lembram povos, barrancos, montes, e sempre em lugares muito
definidos, em núcleos geográficos nos que domina, sob um ou outro
dos seus nomes, a herança de Lug.
Mas — tal como dizíamos — o nome de Lug não se limita a
batizar localizações geográficas, também os povos que beneficiarão do
seu saber e do seu culto adotaram o seu nome.
Contudo, não creio que este nome o tenham adotado os povos
atlantes que expandiram a sua cultura — a cultura de Lug —, mas sim
aqueles outros povos mais atrasados que eles, que receberam os
ligures. Porque, apesar de sempre termos descrito os supostos atlantes
como um povo, devemos pensar que, enquanto sobreviventes de um
desastre a nível cósmico, constituíram uma minoria de seres de
civilização superior, encarregados de transmitir a sua cultura — e as
suas crenças sob a forma de magia — aos povos que encontraram
onde acabaram por fixar-se.
Muito se tem falado dos povos Ligures. Tem havido até
historiadores que negaram rotundamente a sua existência, pelo menos
na Península Ibérica. Outros, como o próprio D. Ramón Menéndez
Pidal, têm-nos designado com o patronímico de ambrones, negando
parcialmente a defesa ousada que deles tinha feito anteriormente o
professor Schulten.
Outros historiadores chamam-lhes capsienses, e outros, por fim,
conservam e defendem o primitivo nome de oestrymnicos com que,
como Já vimos atrás, os denominava o poeta latino Rufo Festo
Avieno. Vamos agora ver o que há de comum em todos estes nomes e,
sobretudo, procurar vislumbrar onde está a realidade que aparece,
comparando e calibrando, na natureza de certos povos que podem
parecer diversos e sem a menor relação.
Detenhamo-nos primeiro sobre as fontes que provocaram tanta
confusão e leiamos Hesíodo no fragmento XXXII da sua Teogonia,
quando declara: «Citas, ligures e etíopes são hipomolgos».
Hipomolgos significa, em grego, ordenhadores de éguas. Mas
podemos imaginar sem grande esforço, que este epíteto não significa
exatamente o ato que a sua tradução literal parece indicar-nos. Nos
mitos de todo o mundo, e ainda mais nos contos populares, o cavalo
vai ter uma importância fundamental enquanto montada ou suporte da
sabedoria»
Os cavalos — ou seus filhos os centauros, metade homens e
metade cavalos — aparecerão muitas vezes como mestres e como-
dirigentes do saber. Se Hesíodo chama a estes povos «ordenhadores
de éguas», parece evidente a imagem de povos que, de certo modo,
ordenham saber; povos que extraem leite de sabedoria.
Mas há algo mais: estes povos de que fala Hesíodo, vivem juntos,
de acordo com ele, não no que hoje chamamos Etiópia — se bem que
Etiópia tiraria deles o nome —, mas sim no ocidente da Europa, tal
como confirma Homero no Canto I da Odisséia: «Os etíopes,
colocados no fim do mundo, estão divididos em duas nações: uma está
virada para o poente e outra para o nascente».
Os confins do mundo eram, para os escritores do mundo clássico,
o ocidente europeu, as terras que confinam com o Oceano Atlântico.
De acordo com isso, encontramo-nos perante uma identificação destes
três povos às quais muitos escritores chamam «as três raças atlantes»,
que se personificam nas três filhas de Atlas, nas hespérides
possuidoras do jardim das Maçãs de Ouro: possuidoras, pois, do
segredo da agricultura. Aretusa, a hespéride negra seria a
personificação mítica do povo etíope de Hesíodo e Homero; Eglé, a
hespéride branca, seria a raça branca dos citas; e Hespéria, a vermelha,
o símbolo ou a personificação dos poyos ghomara.
Houve, pois na Península Ibérica uma diversidade de povos com
diferentes traços étnicos e uma característica comum: estarem fixados
no solo que habitavam, pelo menos desde muito antes de qualquer
notícia conhecida - e, sobretudo, reconhecida — de invasões proto-
históricas. A diferença de traços étnicos fica confirmada, inclusive,
pelos historiadores que se convencionou chamar racionalistas ou
tradicionalistas. Tomemos um fragmento de um deles, mas não porque
a sua citação seja mais concreta que a dos outros e traduza com
claridade e em poucas palavras este conceito geralmente aceite: «A
população espanhola do mesolítico seria um tanto amorfa
racialmente.. Talvez se assemelhasse a uma população do Norte e Este
de África, na que se encontram caracteres negroides e também
bosquimanes misturados com tipos muito evoluídos de homo sapiens
relacionados com possíveis protótipos de raças posteriores
mediterrânicas e camitas»3.
Noutro passo, referindo-se aos mesmos capsienses do parágrafo
anterior: «mais tarde deixarão na Europa crânios de homens
dolicocéfalos e branquicéfalos, e entre eles, não faltarão os de
características negróides».
Temos, pois, a evidência arqueológica de uma multiplicidade de
povos autóctones habitando a Península proto-histórica anterior à
chegada das que chamamos invasões indo-européias. Porquê então o
nome de ligures dado a estes povos pelos escritores da antigüidade
clássica? Possivelmente porque, por alguma razão bem determinada
um desses povos predominou sobre os restantes, e porque sendo
dominador por causas dimanadas dos ensinamentos recebidos pelos
homens de Lug, tomou o seu nome como crença e expandiu-o. Talvez
por isso mesmo, retomando a épocas que estavam para além da sua
lembrança histórica, Eratóstenes, ainda no século III a.c, relaciona a
Península com os povos ligures: «Desde o norte estendem-se três
penínsulas: numa delas está o Peloponeso, na segunda a Itália, na
terceira Ligustiké».
Ligustiké, terra de ligures... ou de adoradores de Lug. Um povo
que, por qualquer razão, teve de permanecer durante muito tempo
escondido, tal como os seus mestres, tal como os oestrymnicos que
foram invadidos por serpentes conforme vimos na citação de Avieno
do capítulo anterior. O mesmo escritor é quem, falando depois dos
ligures, conta no seu poema algumas particularidades desta época
infeliz de perseguição e procura de esconderijos: «São freqüentes os
lugares escarpados donde as rochas são enormes e os picos dos
montes penetram até ao céu; e certamente este povo fugitivo passou
muito tempo atemorizado nesses limites, afastado das ondas dos
mares; porque o mar era temido por eles devido aos perigos passados.
Depois, o sossego e o repouso, reanimando a audácia pela
segurança persuadiu-os a abandonar os seus covis e a aproximarem-se
das costas» (versos 137-145).
Estas citações e muitas outras — muito diferentes e procedentes na
maior parte das vezes de autores da Antigüidade — asseguraram a
Schulten, sem qualquer dúvida, a implantação ligur em Espanha.
Essa existência autóctone foi mais ou menos discutida por
Menéndez Pidal e, depois dele, por. todos os arqueólogos e
historiadores da Península. Menéndez Pidal nega a importância dos
ligures e concede, por seu lado essa mesma importância aos que ele
chama ambrones, com os que, de certo modo, os identifica. E um dos
apoios mais firmes das suas hipóteses está baseado, precisamente, nas
toponímias de raiz AMBR —, nos sufixos toponímicos — GANDA
ou — KANTA, e nos nomes com base BORM - e BAD.
Nunca poderia negar-se a importância — e inclusive a relativa
abundância — deste tipo de topônimos no solo peninsular do mesmo
modo que não há que discutir a razão dos historiadores que chamam
oestrymnicos ou oestrymnios aos povoadores autóctones da proto-
história peninsular. É que não pode haver nem discussão nem negativa
por uma razão simples: porque, para além dos nomes que possam ter
recebido nas diferentes épocas da história, batizados pelos distintos
povos que chegaram à Península na que eles já estavam anteriormente,
acontece que, mesmo se deitarmos mão de algumas simples razões
etimológicas, poderemos concluir que todos esses nomes identificam
o mesmo povo, chame-lhe cada um como queira.
Façamos uma pirueta lingüística que, talvez, não resulte tão
perigosa como possa parecer à primeiro vista. Não poderia acontecer
que a palavra ÂMBAR, se bem que a sua raiz conhecida — perdão,
insisto, reconhecida — seja árabe, tenha a sua origem num povo
ambrón que se dedicasse, de algum modo, à importação deste
material? Se assim fosse, a raiz árabe seria imediata, mas teria que
existir uma raiz anterior da qual os árabes tinham formado o seu
vocábulo.
Pois bem, se esta hipótese pode resultar aceitável, que diríamos
perante o fato de que o âmbar, em grego, se chamava ligyrion?
Tenhamos em consideração que o valor do som «Y» é o de um «u»
francês ou de um «u» germânico. Ligyrion, então, teria algo que ver
com ligur, do mesmo modo que âmbar teria que ver com o povo
ambrón.
Continuemos com estas piruetas: Júlio César, nos seus
Comentários à guerra das Gálias, refere-se a um povo, chamado dos
Ambarri, que tinha a sua sede precisamente nos territórios da Gália
Lugdunenense, isto é, a zona que hoje tem por capital Lyon, a antiga
Lugdunum: fortaleza de Lug!, território de origem ligur, portanto.
E ainda mais. Rufo Festo Avieno situa a terra dos lucis na
desembocadura do rio Tejo, que em determinado momento se chamou
rio Lyssus, ainda em tempos romanos. Estes lucis de César seriam os
fundadores'de Lisboa, a antiga Olyssipo e centro da Lusitânia. E se
assim for, os lucis de Avieno, além de proclamarem a sua origem Lug,
seriam também uma denominação primitiva dos lusitanos. E os
lusitanos são extremenhos.
E eu, com o perdão de tão valiosas como repetidas conquistas
lingüísticas, que falam de origem medieval das Extremaduras como
extremos ou limites do domínio cristão, ou como baluartes extremos
do poderio castelhano, não posso evitar o sentimento da íntima relação
entre o extremenho e o oestrymnico. E, através dessa relação e das
piruetas anteriores, considerar que oestrymnicos e ambrones — um
mesmo povo — chamaram-se a si próprios — ou chamaram-nos os
outros — ligures, precisamente porque tinham por Deus e Mestre o
próprio Lug; porque, através dele, possuíam uns conhecimentos bem
determinados; porque, graças a ele, tinham adquirido um tipo bem
definido de civilização que provocaria apesar da tecnologia lítica no
meio da qual viviam, a peregrinação de povos indo-europeus que
chegariam até aos seus territórios à procura do seu saber e da sua
cultura que, para nós, e totalmente desconhecida, porque não era
tecnológica mas mental e não deixava sinais nos restos que nos
chegaram.
Os ambrones — aestrymnicos ou capsienses - chamar-se-iam em
tal caso, ligures. E isso não por uma razão etnológica, mas por
motivos religiosos, da mesma forma que hoje chamamos cristãos aos
povos que, seja qual for a sua etnia professam a religião dos
seguidores de Cristo, para além de qualquer outra razão etnológica ou
territorial.
Ainda uma última sugestão como possível prova complementar
das hipóteses anteriores. Recordemos por um instante as invasões
bárbaras que tiveram lugar na Península com a decadência do Império
Romano do Ocidente. Além dos povos visigodos entraram os suevos,
os alanos e os vândalos. Pois bem: um ramo dos vândalos, os
asdingos, chamam-se a si próprios lugios. Faziam parte da
confederação germânica implantada pelo caudilho Marbod e
apareciam como crentes arianos já no umbral do século V, em que
emigraram para a Península. O seu centro étnico e religioso era o
bosque de Haln. Foram já citados como lugios por Tácito e Ptolomeu,
e — estranha e significativa coincidência — quando entraram no
território da Península Ibérica foram fixar-se, com os suevos,
justamente na zona noroeste, o enclave mais especificamente Lug da
Península Ibérica.
Mas não o esqueçamos: indicamos anteriormente que Lug seria a
divindade mestra deste povo que nada obriga a que não chamemos
ligur. Seria o mesmo deus - mestre que Charpentier encontrou,
difusamente espalhado, pela toponímia francesa. Lug representaria,
para os seus seguidores, o bem e a felicidade dos seres humanos, para
além dos avanços tecnológicos de que eles não precisavam, porque a
sua civilização era especificamente mental.
Lug batizaria bosques que posteriormente os colonizadores
romanos adaptariam sem mudanças, como o bosque de Lugo de
Llanera, tradicionalmente sagrado, nas Astúrias. E batizaria fontes,
montes, cavernas ...
Lug, enquanto deus-mestre, precisa de uma matéria sagrada para a
trabalhar. Uma matéria feminina que, em contato com a masculinidade
sagrada, dê um fruto também sagrado. A necessidade dos dois aspetos
masculino e feminino, é constante na história e no desenvolvimento de
todos os fenômenos religiosos e de culto. Por isso, seja qual for o
sentimento do divino que adote o homem, terá de senti-lo desde o seu
duplo aspeto masculino-pensador e feminino-criador. O feminino-
divino será a obra e o resultado do masculino-divino e, detrás de cada
divindade teremos de procurar sempre os dois aspetos
complementares.
Lug tem também a sua parte feminina. Chama-se Lusina e é algo
assim como a sua patentização, o resultado sagrado da sua obra. Por
isso Lusina, nas suas manifestações externas, aparecerá como
condutora e realizadora dos ensinamentos de Lug, como sua
mensageira, como o contato entre o imenso Lug e os seres humanos,
como mediadora e patrona dos seus saberes. Se Lug é ar e fogo,
Lusina será terra e água, matéria trabalhada e divinizada. E se o corvo
é, como o cão, o símbolo de LUG, o símbolo que identificará Lusina
será o ganso ou a ave palmípede, e será um símbolo que os homens
tomarão para si declarando-se seguidores incondicionais dos seus
ensinamentos.
Lug e Lusina não têm uma representação direta porque também
não têm imagem nem forma para os seus crentes. Como divindades
superiores, é impossível representá-los por si próprios e apenas se
pode desenhar ou citar os símbolos que os classificam. Deste modo, o
corvo de Lug e o cão de Lug terão de ser a representação gráfica da
divindade mestra do saber. E, da mesma maneira, a ave de Lusina —
ganso — será, de certo modo, a bandeira dos que captaram e exercem
o ensino de Lug: os filhos de Lusina.
Mas tomemos atenção, porque estamos em presença de
ensinamentos' exotéricos.
Já o dissemos anteriormente e há que repeti-lo uma vez mais.
Encontramo-nos perante símbolos que fazem parte — se bem que com
o tempo se tenham esquecido — do acervo cultural ao que devem ter
acesso todos os homens. Estamos, pois, muito longe do esoterismo
serpentário, guardado por uns poucos que fazem parte — ou
pretendem fazer parte — da elite de iniciados que, com os seus
conhecimentos, procuram deter o poder sobre todos os outros
membros da comunidade humana. Lug não é, de modo nenhum, uma
divindade esotérica ou oculta, se bem que uma cristianização tardia o
tenha convertido em Lucifer, diabo maldito. Lug é uma divindade
mestra, benfeitora do gênero humano, sem distinção de elites nem de
iniciações. Só se ocultará quando, com o tempo, já embrenhado no
que chamamos história tenha de enfrentar-se com os poderes
repressivos exercidos por pretensos iniciados, tanto religiosos como
políticos.
Ora, este embate secular de ensinamentos e saberes, entre o
exotérico e o esotérico, provocará também e já desde o alvor das
civilizações conhecidas, o enfrentamento dos símbolos. Precisamente
por isso, a serpente e o pássaro — repitamo-lo: quase sempre
palmípede — serão inimigos irreconciliáveis. Teremos ocasião de
constatá-lo continuamente. Iremos ver disfarces serpentários
perseguindo inocentes palmípedes nas festas populares da meseta. E
comprovaremos que se a ave sagrada dos egípcios foi precisamente o
íbis — um palmípede - é porque o seu alimento, segundo a idéia
popular, eram as serpentes do Nilo.
Não esqueçamos o confronto desta dualidade. Poderemos constatá-
la sobre o terreno muito mais' vezes do que agora poderíamos
imaginar.
9

O ENIGMA DAS PEDRAS ESCRITAS

Lembro-me que, ainda não há muito tempo, lendo um livro


absolutamente caótico e alucinado em que o seu autor pretendia
demonstrar a todo o custo a realidade histórica da batalha de Clavijo e
a presença naquele combate mítico de Santiago Matamoros como
Caudilho e condutor das hostes cristãs,.vi algumas referências a
determinadas esculturas antigas e a algumas amostras das pinturas
religiosas que, em geral,, me interessaram por motivos completamente
alheios às intenções triunfalistas e messiânicas do autor do livro.
Entre aquelas alusões houve uma que quis comprovar de modo
especial. Dizia o pretenso historiador que em Fuenmayor, perto da
cidade de Logroño, há um relevo na fachada de uma casa em que,
segundo ele — não cito textualmente — se via perfeitamente Santiago
Matamoros atacando de lança em riste um cão que, com toda a certeza
representava o «cão muçulmano — porque há o Alcorão — que seria
exterminado pela cristandade em armas».
Fui a Fuenmayor, procurei no bairro velho da cidade e não
demorei a encontrar a aludida fachada do cronista alucinado, na rua
Mayor Alta. Efetivamente ali estava esculpido em relevo um
cavaleiro, mas esse cavaleiro não tinha nenhum aspeto de querer
atacar ninguém. Havia, isso sim, uma caveira sobre a sua figura, mas a
sua atitude tranqüila — a do cavaleiro, evidentemente — parecia
dirigir os seus passos para outro relevo bastante longe na mesma
fachada — uma grande janela os separava — que representava um
cão.
Esse cão tinha um pergaminho entre as patas e estava como a lê-lo.
Por conseguinte, não acredito que o pergaminho tenha nada que ver —
pelo menos diretamente — com o Alcorão maometano. Tudo o mais
— e aí estava precisamente o interesse da figura - tinha que ver com o
fato curioso de que o cão o estava a ler.
Pelo aspeto, a casa donde estão incrustados estes relevos é dos fins
do século XVI ou princípios do XVII. Mas a tradição do cão leitor e
sábio vem de muito antes. Podíamos encontrá-la numa infinidade de
construções do românico e nos pórticos de muitas igrejas cristãs,
donde a cabeça do cão surge — como no caso de Santa Maria de
Piasca, na comarca Santanderina de Liébana — junto às cabeças dos
santos patronos do templo. O cão aparece igualmente em contos
populares e em mosaicos de vilas romanas.

Fig. 18 — A fachada de uma casa da rua Mayor Alta de Fuenmayor (Logrono). Um


cavaleiro — presidido por um crânio—dirige-se para o cão que le, mas para lá da janela que os
separa. O caminho é longo, mas quem procura saber não se detém perante os obstáculos.

Se o cavaleiro do relevo de Fuenmayor se dirige para ele não é


precisamente para atacá-lo mas para chegar a seu lado — exatamente
em cima do cavalo — e aprender dele a sabedoria de que é portador.
Porque esse cão, cujo significado imediato que lhe deu o escultor que
o fez há quatro séculos já foi certamente esquecido, não é mais do que
uma representação simbólica e tardia, mais persistente apesar de tudo,
do cão de Lug, o deus-mestre dos povos ligures, o deus que conhecia a
arte da escrita e transmitiu-a aos homens. O mesmo deus que,
transformado em cão sábio ou em corvo Inteligente, protagonizou
contos populares e fábulas, desde Esopo a Samaniego.
Parece um pouco arriscado, depois de ter arremetido contra um
alucinado que ousou defender a autenticidade histórica da batalha de
Clavijo, aparecer agora com a hipótese de que o homem da pré-
história hispânica conhecera a escrita ou, pelo menos, que tivesse
certos ideogramas que lhe permitissem expressar-se e entender-se.
Não desejava adiantar possibilidades. Limito-me. a fazer perguntas e a
pôr problemas.
Problemas como o que levanta uma das salas da gruta do Castillo,
em Santander, donde aparece de repente, no meio dos desenhos mais
diversos e incompreensíveis, entre tectiformes e claviformes, e mãos
impressas em negativo, uma autêntica inscrição escrita pelos homens
do magdaleniense há vinte mil anos.

Fig. 19 — Um letreiro pró-histórico na gruta do Castilho. Perante ele, ninguém poderia


pensar numa abstração, nem sequer num esquema. Aí há algo “dito”, uma mensagem que
ainda ninguém decifrou.

A amostra é única. Nenhuma outra inscrição da mesma índole


permite fazer sequer á mais pequena hipótese sobre o que significa.
Mas a Inscrição aí está e é absolutamente impossível negar a sua
realidade ou dar-lhe outro significado que aquele que tem: uma
mensagem escrita.
Vamos agora dar um salto geográfico, deslocando-nos até ás Ilhas
Canárias. As Canárias, de acordo com algumas das teorias atlantes,
são o que resta — justamente com as Ilhas dos Açores - da grande ilha
de Poseidónia, último resto do continente, que se afundou
definitivamente uns nove mil anos antes de Cristo. Pois bem, quando
os normandos ao serviço do rei de Castela conquistaram as ilhas nos
primeiros anos do século XV,x encontraram nelas um povo singular:
os guanches. Um povo que vivia em plena civilização neolítica,
utilizando para os seus instrumentos exclusivamente o osso e a pedra
polida, a cerâmica sem tomo e a madeira.
Eram, de acordo com os cronistas, bastante mais altos que a
estatura média dos seus conquistadores. Inclusivamente alguns destes
cronistas — os franciscanos Boutier e Le Verrier — contaram ter visto
entre eles autênticos gigantes «de nove pés de altura». Este povo, a
julgar pela opinião que lhe mereceu ao grande Boccaccio, que os viu
quando trouxeram alguns aborígines depois da expedição ordenada
por Afonso IV em 1341, «eram... de bela presença. Tinham os cabelos
longos e louros... de membros robustos... de grande inteligência... o
seu cantar era muito doce... apareciam risonhos e bastante civilizados,
mais do que o são muitos hispanos».

Fig. 20 — A torre de Idafe, na ilha de La Palma, foi altar sagrado dos guanches, como a
Caldeia de Taburiente, para o qual dá passagem.

Os franciscanos que acompanharam a expedição de conquista e


que escreveram sobre eles dão-nos uma idéia bastante exata do que
eram: um povo que vivia numa fase tecnologicamente lítica de
civilização. Não conheciam o uso dos metais
— apesar de viverem num território vulcânico —, ignoravam a
cultura citadina, construíam, por vezes, pirâmides toscas, vestiam-se
com peles e tecidos feitos de juncos e dedicavam-se à pastorícia e a
uma agricultura rudimentar. Adoravam montes como a Torre Idafe de
La Palma e os Santillos de ilha de Ferro, e veneravam as
árvores,exóticas, como o drago. Mumificavam os seus mortos, tal
como os antigos egípcios. E mostravam, por fim, a imagem justa e
insólita ao mesmo tempo, de um povo neolítico que, contudo — os
conquistadores deixaram notícia disso — se regiam por leis e
conheciam acontecimentos históricos do seu passado remoto.
A propósito dessa história, merece a pena que consideremos um
dado curioso.

Fig. 21 — Uma múmia guanche. Este povo canário assemelhava-se aos egípcios no
costume de embalsamar os seus mortos. Talvez os tenha mesmo precedido.

De acordo com as tradições guanches conservadas na ilha de La


Palma, houve uma sangrenta guerra de que foram protagonistas
Schenique, Mencey de Abenquarema, e Mayantingo, Mencey de
Aridana. Na batalha decisiva, Mayantingo, o vencedor, perdeu um
braço e, por esse motivo recebeu o nome de Aganeye: Braço Cortado.
Se, saltando no espaço e no tempo, voltamos de novo à nossa
velha e mítica história dos Thuata-de-Danna, veremos que uma das
aventuras descritas na segunda batalha de Mag-Tured, na que foram
vencidos os Fir-Bolg e o seu caudilho morto, aparece a história de
Nuada, o chefe guerreiro dos Thuata vencedores, que perdeu na
batalha o seu braço direito e os médicos-magos do seu povo
implantaram-lhe uma prótese de prata valendo-se das suas artes. Claro
está que esta história pode ter apenas um certo paralelismo casual com
a dos guanches de La Palma, mas não acredito, porque mais adiante
teremos ocasião de comprovar paralelismos ainda mais curiosos.
O que já não seria casual, em nenhum caso — porque tem sido
amplamente confirmado pelas descobertas arqueológicas —, é que os
guanches, sendo ilhéus e vivendo, portanto, num meio ambiente
marítimo, desconhecessem a arte de navegação. Contudo, essa era a
realidade. Apesar de bons nadadores, os guanches não tinham
embarcações e, por conseguinte, resultava impossível uma relação de
vizinhança entre umas ilhas e outras dentro do arquipélago. Contudo,
ainda que cada comunidade insular se regesse pelas suas próprias leis,
diferentes de uma ilha para outra, havia entre todas elas uma
identidade étnica, uma identidade de idioma — com ligeiras variantes
— e uma identidade de alfabeto. Porque é uma realidade incontroversa
que os guanches, um povo que vivia numa fase neolítica da
civilização, conheciam a escrita.
Os símbolos escritos dos guanches canários são, em linhas gerais,
de dois tipos. O primeiro deles é o que fundamentalmente, está
representado pelos Símbolos de Anaga — Tenerife — e nos albergues
da fonte da Zarza e de Belmaço, na ilha de La Palma. Os ideogramas
ali representados tendem para a espiral, o labirinto, os círculos
concêntricos de diversos tamanhos, que oscilam entre os quinze
centímetros de diâmetro e os quarenta ou cinqüenta. Entre estas
representações encontram-se, eventualmente algumas figuras
serpentárias e ideogramas semelhantes à figura humana ou a animais
marinhos: polvos e peixes. As representações surgem isoladas ou
agrupadas e, sem lugar para dúvidas seguem uma ordem ideográfica
muito definida.
Mas o mais curioso, o que não pode considerar-se, desde o meu
ponto de vista pelo menos, como uma casualidade, é que tais
esquemas sejam, essencialmente, os mesmos que aparecem
representados em grande parte dos petroglifos do noroeste peninsular.
São de tal forma coincidentes que poderia pedir-se a qualquer
arqueólogo que distinguisse, entre duas fotografias concretas destes
ideogramas, a que foi tirada na fonte da Zarza e a que se obteve, por
exemplo, nas pedras de Mogor ou nos complexos rupestres de Campo
Lameiro.
Em nenhum desses lugares — Canárias ou Galiza — pode pensar-
se que representações deste tipo fossem simples ornamentos de pedras
sagradas. O significado deve ser invertido: aquelas pedras eram
sagradas precisamente pelo que havia representado nelas. E isso que
estava representado não podia ser outra coisa senão o esquema ou o
símbolo de uma determinada instrução.
Leva-me a pensar isto um exemplo muito significativo. A espiral,
e as suas variantes, é, possivelmente o símbolo mais repetido.

Fig. 22— Um dos petroglifos galegos de Campo Lameiro. A milhares de quilômetros de


distância e a milhares de anos no tempo repetem-se os símbolos e. provavelmente, os seus
significados.

Encontramo-lo constantemente, e não só nas rochas dos santuários


guanches e nos petroglifos da Galiza, mas também nos castros e nos
torques célticos, nos capiteis românicos, na melhor arte esquemática
helênica. Mas se nos detemos a pensar no porquê da espiral, não
demoraremos a compreender até que ponto a espiral constitui o
esquema mais repetido na natureza invisível, isto é, a figura que rege
fundamentalmente o universo que existe mas que não vemos.
Notemos: uma espiral traduz o movimento dos elétrons em volta do
núcleo; uma espiral é a molécula dos ácidos nucléicos que constituem
o germe de toda a nossa natureza de seres vivos; uma. espiral
descrevem os planetas no seu movimento conjunto de rotação e
translação em torno do Sol; uma espiral têm de recorrer os engenhos
espaciais para irem ao encontro do corpo celeste para o qual foram
lançados; uma espiral é também a nossa galáxia; uma espiral seria o
esquema ideal do Universo Curvo no qual vivemos. Não é por acaso a
espiral o esquema mais claro que poderia traçar-se de tudo quanto
existe?
Fig. 23 — Quatrocentos metros de rocha basáltica repletos de símbolos escritos,.nas
ladeiras ida costa de Julán, cortam uma história que ainda não foi decifrada.

O segundo tipo de símbolos escritos que encontramos nas Canárias


podiam muito bem classificar-se de autênticas letras. Aparecem em
grande profusão, no precipício de Baios — Gran Canária — nas
ladeiras do Julán e nos abismos de Tejeleite e na Candia, na ilha de
Hierro. Todas estas inscrições — pois de autênticas inscrições se trata
sem a menor dúvida — foram localizadas quando os descendentes dos
primitivos guanches já não estavam em condições de conhecer o seu
significado: tinham já sido «civilizados» pela cultura colonial. Mesmo
assim, surgiram hipóteses impossíveis de comprovar de momento, que
indicam a possibilidade de que algumas destas inscrições — as
gravadas no barranco de Candia, concretamente — relatem a
comemoração de algum acontecimento. Mas é tão vaga esta suposição
e significa tão pouco no contexto dessa realidade mostrada claramente
pela escrita em si mesma, que, pelo menos por agora, apenas nos
interessa a presença cultural incontroversa e, sobretudo, a relação que
pode saltar-nos à vista com outras representações com as que na lógica
racionalista histórica, nada deveriam ter que ver.
Contudo, os estudos levados a cabo até agora conduziram já a
conclusões provisórias que muito esclarecem a questão. Wölfel
mostrou a semelhança que existe entre as inscrições guanches do
barranco de Baios e certas ruínas megalíticas nórdicas. Pela minha
parte estas semelhanças vão muito além do que a aparência permite
constatar. Creio que muitos dos símbolos do abismo de Candia e do
barranco de Tejeleite coincidem ponto por ponto com os inscritos no
túmulo de Marie Lud, em Lockmariaker (Morbihan, França).
Da mesma forma surge-me a identidade imediata entre os símbolos
escritos do Julán com as pinturas esquemáticas das cavernas de Puente
Viesgo e inclusive com as lápides misteriosas que surgiram, não há
muitos anos, na localidade burgaleza de Palácios de La Sierra,
procedentes, ao parecer, de um cemitério paleocristão mas que
resultaram, até ao momento totalmente impossíveis de interpretar.
Que os símbolos guanches pertençam, de acordo com os estudos
realizados, aos séculos II e III antes de Cristo, e que os signos
europeus e peninsulares abarquem períodos de tempo que vão de
paleolítico superior aos primeiros séculos da Idade Média, não altera,
a meu modo de ver, as coisas. Os guanches, quando foram
conquistados, viviam em pleno período neolítico. O tempo absoluto se
é que por acaso existe, não conta na altura de determinar a antigüidade
relativa de uma manifestação cultural, porque as diferentes
comunidades humanas passam, em cada momento da história, por
idênticas fases culturais. O importante é comprovar como existe,
acima do tempo e do espaço, uma identidade de representações
ideográficas que tem de ter uma origem comum situada num instante
ainda não determinado do passado. Desde este ponto de vista, seria
necessário rever a afirmação de vários estudiosos da arqueologia
canária que classificaram as escrituras guanches como de tipo líbio-
berbere pela sua identidade com representações similares encontradas
no norte de África. Mas, dada a semelhança que existe também com as
representações européias, não seria melhor designar guanches às
inscrições dos petroglifos africanos?
Em toda a Europa e, por conseguinte na Península Ibérica,
encontraram-se símbolos pintados e gravados que, apesar dos
arqueólogos os terem interpretado como estilizações de figuras
animais ou humanas, ou de árvores e utensílios, contêm na sua própria
forma os indícios que permitem antecipar fundadamente que se trata
de um tipo de escrita utilizado por homens que, na aparência, viviam
num período anterior a qualquer meio de comunicação escrita.
Fig. 24 — Símbolos escritos guanches no barranco da Candia, na Ilha de Hierro

A comparação que realizamos anteriormente entre os símbolos


guanches e os seus correspondentes paralelismos europeus — e
africanos — estendem-se, se desejamos vê-los, a muitas outras
representações ideográficas da pré-história. Vejamos mais exemplos.
Os chamados macarrões das grutas cantábricas e castelhanas são,
pelo menos nas aparência, gravações feitas sobre a rocha com
instrumentos parecidos a pentes duros, ou sobre o barro, hoje já
endurecido, apenas com os dedos. Os macarrões, geralmente não se
encontram nas salas chamadas «de pinturas» das grandes cavernas-
santuário, mas sim espalhadas pelas paredes das passagens de
comunicação.
Têm, muitas vezes, a aparência de labirintos e também têm sido
considerados como representações esquemáticas de animais, porque
nas imediações se encontraram animais representados de modo
realista. Contudo, se comparamos estes macarrões feitos
aparentemente sem qualquer fim premeditado
— com a chamada inscrição de Munsinger, gravada durante a pré-
história numa pérola de vidro, assaltar-nos-á imediatamente desejo de
comprovar a semelhança de ambas as representações. Os macarrões
correspondem ao paleolítico; a inscrição de Munsinger, encontrada na
Suíça, procede da Idade do Ferro, da época da Têne.
Na Península Ibérica encontraram-se pinturas e gravações de
numerosas gravações pré-históricas: no penhasco de Cabras das
Batuecas, em Albuquerque, na gruta do penhasco de Mahoma, no
albergue das Viñas, na Pedra Escrita de Fuencaliente de Sierra
Morena... Praticamente, todo o solo peninsular contém estações pré-
históricas com símbolos escritos; como uma singular particularidade
que não devemos passar por alto: conhecendo a localização dos
núcleos mágicos, poderíamos comprovar, sem a menor dificuldade,
que é precisamente neles donde se acumulam as pedras escritas. Pelo
contrário, se deparamos com a presença de um albergue pré-histórico
dos chamados «com inscrições», por pouco que investiguemos
poderemos comprovar que nas suas vizinhanças há diversos indícios
mágicos: montes sagrados ou sacralizados por velhas tradições
populares, costumes de origem esotérico ou misterioso e, em geral,
marcas de atos de culto que se prolongaram ao longo dos séculos, e
indícios — inclusive recentes por vezes — de fatos insólitos, milagres,
aparições e até fenômenos parapsicológicos. Fatos que nos hão-de
levar a considerar estes lugares e estas pedras escritas há muitos
milhares de anos com um indício, com uma mensagem ainda não
decifrada de desconhecidas culturas possuidoras de saberes cuja
natureza ainda nos foge. Seria necessário descobrir o significado real
desses aparentes rabiscos, e as causas de que estejam precisamente aí
e não noutro lugar, para saber que móbil levou aqueles homens a
deixarem essa mensagem — essa fórmula, talvez — que pode conter
uma informação que os nossos,arqueólogos e epigrafistas se têm
negado sistematicamente a investigar com seriedade objetiva.
Contudo...
Ao longo destas páginas referimo-nos, uma vez por outra, ao
poema mítico irlandês do Leabhar Gabhala, que tantas relações nos
tem mostrado com os grandes mitos das culturas, antigas e com
elementos existentes na Península Ibérica. Uma vez mais —, e
certamente, não vai ser a ultima — voltamos a ele. O manuscrito
intitulado Book of Lecan, compilado em 1416 e que se encontra na
biblioteca da Royal Irish Academy — era esse o seu nome, pelo
menos quando a Irlanda fazia parte do Commonwealtr britânico —,
relata a genealogia de Ogma, um dos mestres reis dos Thuata-de
Dannan, chamado o das letras e da eloqüência, e também o de rosto do
Sol rutilante. Parece ser que a este Ogma se lhe atribuía a invenção do
alfabeto denominado dos Ogam-Craobs, do qual outro manuscrito
irlandês, chamado Códice de Ballymote, traz uma longa explicação
sobre o modo de ser interpretado.
A escrita ogámica, de acordo com estes manuscritos esquecidos,
remonta aos tempos míticos dos Thuata-de-Dannan, isto é, a uma
época em que, se recordamos a localização temporal aproximada da
história, nem sequer podiam ter aparecido os símbolos escritos mais
antigos dos povos do oriente mediterrânico. Com uma particularidade:
que enquanto aqueles símbolos, egípcios e babilônicos, faziam parte
de uma escrita ideográfica - primeiros estádios lógicos da expressão
escrita — o alfabeto ogámico seria já uma série de símbolos
alfabéticos no sentido mais limitado da expressão; uma escrita já
evoluída, de tipo fonético. E, o que é ainda mais importante, com
ramificações matemáticas e simbólicas que o converteriam num tipo
de escrita altamente avançado.
O alfabeto ogámico foi encontrado em rochas e em tábuas rúnicas
da Irlanda e, de acordo com a interpretação e as explicações que dele
dá o Códice de Ballymote, a cada uma das letras corresponderia, ao
mesmo tempo, o nome de uma árvore e de um número, de tal modo
que, de um total de vinte e cinco símbolos, os vinte primeiros
corresponderiam a quatro grupos de cinco letras x einco números.
O primeiro grupo, chamado do B, incluiria os fonemas
correspondentes a

e aos números 1 a 5.
O segundo grupo, chamado do H, incluiria os fonemas
equivalentes a
e os números 6 a 10.
O terceiro grupo chamar-se-ia do M, e compreenderia os fonemas
correspondentes a

e os números 11 a 15.
O quarto grupo, chamado das vogais, estaria formado pelas
seguintes:

e os seus números seriam do 16 ao 20.


O último grupo estaria formado por ditongos: a sua apresentação
difere substancialmente da grande simplicidade, dos outros e, nos seus
cinco ideogramas, representa os sons:

e a números que se completam com os anteriores para


estabelecer uma numeração continuada: 10, 0, 50, 20, 100.
Como podemos ver, toda a sua aparente simplicidade não é outra
coisa senão uma efetiva evolução do pensamento escrito, que
demonstra um grau de cultura que de nenhum modo poderíamos
chamar primitivo. Mas as suas coordenadas simbólicas não são menos
inquietantes que a sua simplicidade conceptual.
Em certas ocasiões esta simbologia é curiosamente ingênua e
quase arrepia pensar até que ponto existe uma concordância com o
alfabeto que utilizamos na atualidade e com os nossos próprios
conceitos gerais da existência, muitas vezes a nível subconsciente.
Consideremos um exemplo bastante significativo: o símbolo
corresponde ao número 10 — precisamente o que os pitagónihos
atribuem a Io, a esotérica Isis — e ao som «Ku», ou seja, a letra
Mas atenção: dissemos que, no alfabeto ogámico, cada Um dos
símbolos tem correspondência com uma árvore. E a árvore que
corresponde a este grafismo é a macieira: QUEIRT, de acordo com o
primeiro nome gaedhélico. Assalta-me então o desejo de divagar.
Hércules foi à procura das maçãs de ouro do jardim das Hespérides.
As maçãs têm o mesmo simbolismo da sabedoria iniciática que Isis ou
Io... e, tem uma grande semelhança com o esquema simples de uma
maçã! Coincidências? Não me atrevo a pensá-lo.
Poderíamos encontrar mais derivações estranhas e alucinantes, mas
não é este precisamente o lugar. Porque agora somos, simplesmente,
os participantes do fato — já por si mesmo bastante revelador — de.
que possivelmente — eu diria certamente — existiu uma escrita
absolutamente evoluída numa época pré-histórica à que arqueólogos e
historiadores, por definição, negam toda a possibilidade de que tal
escrita tenha existido.
Por isso mesmo se chama pré-histórica, porque é anterior — no
seu conceito — às primeiras manifestações escritas!
Agora o leitor poderá fazer, se quiser, uma pergunta totalmente
lógica. Eu também a fiz: então, se há testemunhos da sua utilização,
porque é que não se estudou a fundo esse alfabeto ogámico, para
analisar até às últimas conseqüências e permitir que a história possa
ser vista de um angulo que até agora se ignorou?
Ferdinand Niel(2) explica que se trata de um alfabeto céltico
nascido na Grã-Bretanha não antes do século TV- Mas admite, sem
deter-se a analisar a razão, que há inscrições — classificadas por ele
de tardias — em monumentos megalíticos: os chamados Ogham-
Stones.
Por seu lado, J. Vendryes(3) diz que foi um alfabeto constituído na
Irlanda sobre o modelo do alfabeto latino, com linhas gravadas no
ângulo de pedras levantadas (menhires?), e acrescenta: «estas
tentativas estavam destinadas ao fracasso certo».
Com estas e semelhantes informações doutorais, de pouco valeram
os estudos que tentaram programar-se, em dado momento, dando uma
beligerância aos códices irlandeses. Os manuscritos ogámicos dormem
o sono dos justos na Royal Irish Academy e no Trinity College de
Dublin.
Contudo, o alfabeto ogámico — ou uma variante dele — está
constituído de maneira muito semelhante — se bem que não tenha
relação direta — ao alfabeto hebreu.
Por outro lado também... indícios paralelos da escrita ogámica são
as que aparecem em formações pré-históricas peninsulares e canários
e têm sido interpretadas como estilizações pictóricas sem qualquer
transcendência.
Fixemo-nos nestes símbolos procedentes da Pedra Escrita de
Fuencaliente:

Pessoalmente, tenho a impressão de que existe um conformismo


tácito nos estudiosos da história (4), uma espécie de pensamento
prévio do tipo: «o que está dito, está dito», que se transforma em
axioma e não permite investigar por caminhos que não estejam
previamente autorizados ou sobre questões que ficam para além do
oficialmente reconhecido. Como se não houvesse que deixar cabos
soltos; como se esses cabos, quando aparecem — e aparecem mais
vezes do que se poderia desejar —, tivessem de cortar-se sem mais
explicações, para não suscitar perguntas difíceis ou impossíveis de
responder; como se constituísse uma vergonha não poder esclarecer
todas as perguntas, quando a essência do homem está, precisamente,
mais nas dúvidas que formula que naquelas para as quais já tem
resposta antecipada.
Não acredito de maneira nenhuma que o homem de hoje tenha que
obrigar-se a aceitar as respostas conhecidas. Tem de se deixar que
exponha abertamente toda a espécie de perguntas que digam respeito à
sua essência mais íntima. Ajudar a essa formulação e fomentar a
correspondente inquietação teria de ser uma das tarefas do
investigador, em vez de esconder a cabeça debaixo da asa quando
chega aos pontos chave das perguntas transcendentes.
Por isso, uma vez acrescentado o início da escrita e da sua origem,
continuaremos a apresentar todos os indícios possíveis, os que tenham
uma resposta exata — estes talvez ,sejam em menor número — e os
que desesperadamente a exigem. As pedras escritas, os petroglifos,
não contêm apenas símbolos que possam classificar-se como pura
escrita, há neles, muitas vezes, autênticas idéias desenvolvidas,
conceitos que gravaram na pedra gentes que conheciam perfeitamente
o sentido do que queriam expressar, da mesma forma que um
matemático conhece o exato significado e utilização dos símbolos que
utiliza. Depois, com os séculos, vieram cada vez em maior número e
com maior crueldade as repressões exercidas por aqueles que queriam
ter em exclusivo a chave dos conhecimentos. Nas nossas mãos está
agora o incitamento, ou pelo menos o desejo, de que esses
conhecimentos cheguem aos outros. Temos que fazer um esforço para
que se desperte a curiosidade e o desejo de saber um pouco mais além
do que nos é permitido através de idéias pré-concebidas que se
repetem livro a livro, homem a homem, geração a geração.
UM PASSADO A LUZ DOS SEUS INDÍCIOS

10

A INCERTA ORIGEM DAS CRENÇAS

Estou convencido de que o homem, qualquer que seja o estado da


sua evolução cultural, tende a considerar como naturais todos os
fenômenos que tem possibilidade de descobrir pelo seu próprio
esforço, seja qual for a sua natureza ou a sua origem.
Por outro lado, considerará como mágicos todos aqueles fatos que
não compreende, mesmo que sejam tão lógicos ou naturais como os
outros. E, ainda de acordo com as suas concepções mágicas, passará
por dois momentos diferentes, por dois graus de magia: o primeiro, o
das coisas que podem acontecer no dia a dia — ou em determinados
momentos da vida —, cujos motivos e alcance são impossíveis de
entender de modo imediato. Para o homem primitivo, estariam neste
caso uma trovoada, um aguaceiro, um eclipse. Para o homem de todos
os tempos, desde a pré-história até ontem, o fenômeno constante e
desconhecido da morte.
O segundo grau, tão mágico como o primeiro, produz-se quando o
homem vê realizar-se um determinado efeito cujas causas, por mais
que sejam verificadas, cairão sempre no poço da sua última
incompreensão. A verdade explicada e comprovada — não quer dizer
compreendida — converter-se-á em mistério, e o próprio ato dessa
verdade incompreensível mas que tem de ser aceite tornar-se-á
revelação, lei, axioma,... E o autor dessa revelação será messias,
profeta, deus ou Mestre com maiúscula, ou todas as coisas numa única
pessoa.
Temos estado a ver juntos, até este momento, os indícios mágicos
e míticos reveladores de uma parte desconhecida da história humana.
Uma parte que até nem é aceite em geral. Têm sido indícios chegados
através dos mitos e das lendas, indícios que iam encaixando-se uns
nos outros, mostrando uma possível realidade histórica que nos é
desconhecida. Quero agora, mesmo com o risco de voltar alguma vez
a focar aspetos de que já tratamos, que analisemos a traços largos os
nossos conhecimentos sobre a pré-história à luz destes indícios. Será
como se observássemos a mesma paisagem desde o passeio defronte,
desde uma perspectiva nova que terá de ajudar-nos a compreender o
conjunto de fatos que, involuntariamente — ou deliberadamente — a
história não nos ensina.
Se vimos, até ao momento, como os mitos conduzem a uma
realidade histórica desconhecida, ignorada e oficialmente não aceite,
agora iremos vendo como os fatos remotos, apenas aflorados nas
descobertas arqueológicas, se converteram em mitos e originaram todo
um envolvimento mágico do inconsciente religioso coletivo do
homem.
Apontava anteriormente (na nota 1 do capitulo ,7), como o escritor
Vladimir Propp, arraigando a origem dos contos populares
maravilhosos numa etapa ritual proto-histórica do desenvolvimento
humano, dá um passo consideravelmente importante na descoberta das
origens mágicas das crenças. Contudo, não posso abandonar a idéia de
que esses riscos remotos não nasceram por si, pelo único impulso
natural do homem primitivo. O rito, necessariamente, tem que ter
nascido de uma experiência exterior, ao procurar imitá-la de um modo
primitivo, torpe e com desconhecimento da verdadeira relação entre a
causa e o efeito. Procurarei esclarecê-lo com alguns exemplos.
Julgo que todos tivemos ocasião de observar um menino no ato
ritual de conduzir um automóvel. Fá-lo, geralmente, em segredo,
quando os mais crescidos não o observam. Senta-se numa cadeira, põe
as mãos à sua frente como se agarrassem um volante invisível e, ao
mesmo tempo que as mexe, imita com a boca os sons normais de um
automóvel em andamento. Em certas ocasiões, com um pouco de
sorte, o volante não é tão invisível. Um prato ou um aro qualquer pode
servir-lhe.
Pois bem, neste caso o menino está a cumprir, à sua maneira, um
rito.
Por seu intermédio e com a ajuda da Imaginação, converte-se
numa pessoa crescida. Da mesma maneira que a menina que mistura
um pouco de terra, uns grãos de arroz, umas ervas e água de um
charco e fax com tudo isso, uma «comidinha». Ela tem visto fazer
comida com meios mais ou menos parecidos aos que utiliza e, no seu
Íntimo acredita que o resultado possa ser o mesmo. A menina com as
suas misturas, e o menino com os seus gritos e os seus movimentos de
mãos, cumprem o que poderíamos chamar um rito mágico.
O segundo exemplo vi-o, há algum tempo, num filme
documentário intitulado Recordações do futuro (1). Quase no princípio
do filme vemos os membros de uma tribo da Nova Guiné que, com os
seus meios primitivos, construíram à base de folha e de ramos de
árvore uma espécie de maquete de avião. Acenderam duas filas
paralelas de fogueiras e, ao anoitecer, sentados ao longo dessa dupla
fila, olham reverentemente para o ar esperando que se produza o
milagre ritual. A explicação de semelhante rito é perfeitamente
compreensível para nos, mas as suas origens são alucinantes. Estes
homens, autênticos espécimes paleolíticos, receberam durante a
Segunda Guerra Mundial a visita dos aviões norte-americanos, que
tinham instalado uma base militar na ilha. Os homens do céu
trouxeram aos aborígines comida fácil e entreabriram-lhes as portas de
um mundo incompreensível. Depois, aqueles deuses do ar foram-se
embora e os indígenas da ilha seguiram acendendo os fogos de pista
rituais numa espera religiosa de que os pássaros de ferro voltem algum
dia com os seus estranhos alimentos e sua aparência — infelizmente
só aparência — de deuses.
Se estes homens da Nova Guiné nunca tivessem visto um avião ou
uma pista de aterragem seria absurdo penar que tivessem estabelecido
o seu rito para conseguir algo que eles próprios — ou seus pais — não
soubessem do que se tratava. Se a menina nunca tivesse visto a sua
mãe fazer a comida, já mais teria tido a idéia de ritualizá-la na sua
brincadeira. Porque o rito, ao fim e ao cabo, não é mais que uma
brincadeira tomada a sério até às suas últimas conseqüências religiosas
e transcendentes(²).
Se assim é, temos que admitir que o rito é conseqüência de uma
imitação, acompanhada da esperança — próxima ou remota — de que,
repetindo um determinado ato, se produza o efeito desejado.
Demos agora o nosso habitual salto no tempo e mostremos a mais
remota história humana através das únicas fontes materiais com que
podemos contar neste estudo da evolução: os restos arqueológicos e
antropológicos.
E perguntemo-nos: em que poderia acreditar o homem pré-
histórico? Qual seria a sua mais remota Meia religiosa? Lemos em O.
E. James(3): «O estudo dos testemunhos arqueológicos revelou que a
religião pré-histórica se centrou e desenvolveu à volta dos três fatos
mais desconcertantes com que teve de enfrentar-se o homem primitivo
no decurso da sua existência quotidiana: o nascimento, a morte e a
obtenção dos meios de subsistência nas precárias condições em que
vivia .
Quando o sustento e, por conseguinte a vida, dependia
principalmente dos acasos da caça, das mudanças das estações e de
tantos fatos ou circunstâncias imprevisíveis, a angústia devia ser
constante. Por isso se instituiu imediatamente uma técnica ritual que
mitigasse essa constante ansiedade e que chegou a arreigar e a
desenvolver-se indefinidamente, a fim de satisfazer todas as
exigências e manter o equilíbrio de uma estrutura social em formação
e de uma organização religiosa.
Fixemos a atenção nas cursivas que tomei a liberdade de
acrescentar ao texto de O. E. James. Correspondem, precisamente —
daí a escolha deste texto — a uma idéia que faz parte de toda uma
tendência arqueológica na que estão integrados os estudiosos mais
ativos ou, pelo menos, uma boa parte deles. A tendência, contudo, não
tem uma origem arqueológica, se bem que se tenha recorrido à
arqueologia para demonstrar a sua verdade. Consiste, essencialmente,
em demonstrar — é uma velha aspiração eclesiástica, presente até no
catecismo escolar de há poucos anos — o fato de que o homem, desde
as suas origens, teve uma consciência monoteísta, um sentido do deus
primitivo, do deus criador, do deus-origem-de-todas-as-coisas-que-há-
no-mundo,(4) isto é, do deus individualizado.
Vejamos esse conceito de angústia na que, segundo o historiador
inglês, vivia o homem da pré-história. Tenho a impressão de que há
um erro — sempre relativo, nunca absoluto —, que consiste em
equiparar os sentimentos e o intelecto desse antepassado nosso com o
intelecto e os sentimentos do homem atual. Como se pode sentir
angústia permanente por algo — seja o que for — que o gênero
humano vem sofrendo desde a sua origem? O homem pode ter uma
origem anterior ao milhão de anos. O Sinantropus ou o Atlantropus ou
o homem de Java remontam quase a quinhentos mil.
Quinhentos mil anos de dificuldades, de penúrias, de mudanças
climatéricas, de frios e de calores, de trovoadas e de inundações.
Podem ser motivo de angústia permanente para uma mentalidade mais
que primitiva como a do homem do paleolítico inferior? Porquê, se
não havia conhecido outra coisa melhor? Poder-se-ia compreender a
sua angústia, em tal caso, seria a mesma para o homem do paleolítico
que para qualquer de nós, porque faria parte do nosso instinto mais
íntimo. Apenas uma angústia — e mesmo esta muito relativa — se
poderia admitir no homicídio mais primitivo: a da morte. Ver, de
repente, que o companheiro com quem se casou, a mulher com a que
procriou ou o pai ou a mãe que lhe ensinaram como se caça e o que se
pode comer, está aí imóvel, frio, provavelmente cheirando mal. Grita-
se, chama-se esse ser em altos gritos e ele não responde. Está aí e não
está aí. Este sim pode ser — e não outro — um princípio cabal, um
autêntico motivo de angústia.
Mas a angustia exige remédio e o homem primitivo - o mais
primitivo — desde o sinantropus — procura por si mesmo,
instintivamente esse remédio. Por algum motivo é um pré-hominídeo
capaz de servir-se das coisas para seu proveito e não apenas de garras
e de dentes como os restantes animais(5). Por qualquer razão é capaz,
de servir-se de algo mais que ele sabe — instintivamente — que está
na cabeça e que lhe permite ver, ouvir, comer... Inclusive, à sua
maneira, pensar.
Os primeiros restos humanos que se encontraram têm o aspeto —
ao que parece inequívoco — de ter-se efetuado neles um banquete
canibal. Os restos do homem de Pequim e do pitecantropo de Java
encontrados parecem demonstrar que se extraiu deles o cérebro e
talvez a medula para serem devorados. No monte Circeo, na costa do
mar Tirreno, encontrou-se igualmente uma espécie de túmulo do
paleolítico mais remoto com um crânio do qual se tinha extraído o
cérebro para ser também comido.
O homem de Morin, descoberto recentemente na entrada de uma
gruta santanderina, o único molde humano encontrado até agora no
mundo, apareceu também com a cabeça separada do tronco.
A reação ritual demonstrada por estes fatores parece clara. À
margem de interpretações radicais, (6) há um fato que não custa ser
admitido; comer o cérebro do morto significa assimilá-lo, herdar a sua
força, o seu saber, as suas virtudes, talvez a sua própria personalidade
primitiva.
Até esse momento, relativamente longo —, durou pelo menos
trezentos mil anos — o homem limitou-se a efetuar um rito que, no
seu pensamento primitivo, lhe servia de algo. O seu cérebro
embrionário não precisava de mais provas. Bastava-lhe com a
sensação, neste caso particularmente físico, de herdar o morto.
Mas chegamos a um dos tantos momentos obscuros da história
humana: esse momento, na metade da última glaciação de Wurm, em
que desaparece misteriosamente o espécime humano chamado homem
de Neanderthal e surge o homo sapiens(7). Um homem anatômico e
cerebralmente semelhante a nós, diferenciado em tipos raciais
definidos e com a caixa craniana em condições de armazenar tantos
conhecimentos como o homem atual, pelo menos em teoria. Esse
homem, que parece originado mais por uma mutação violenta(8) do
que por uma evolução, a julgar pela simultânea desaparição do seu
antecessor, dá mostras — e seguimos sempre atendendo apenas aos
achados arqueológicos — de uma mudança nos seus sentimentos ante
o fato imutável da morte.
Tanto nas sepulturas da Chapelle-aux-Saints (Corrèze, França)
como em La Farraise e noutras sepulturas apontadas como do primeiro
paleolítico superior, encontram-se os esqueletos com os seus pertences
— isto é, os seus utensílios de sílex — e partes de animais enterrados
com eles. Há como que uma nova consciência de viagem na qual o
morto terá que levar os seus pertences e presas de caça, para comer.
Mas, de que viagem se trata? Uma viagem a regiões etéreas, à
outra vida, ao mundo desconhecido dos mortos? Isso é o que se repete
constantemente, mas parece-me contudo uma idéia demasiado abstrata
para a mentalidade primitiva do homo sapiens, por mais evoluída que
se encontre já a sua abóboda craniana.
Estes termos poderão encontrar o seu lugar mais adiante, na época
do nascimento dos mitos. O rito limita-se, neste momento, a imitar, e
imita uma viagem na qual o morto deve levar o seu enxoval e a sua
comida. O homem do paleolítico essencialmente caçador e nômade,
sabe Instintivamente que o caminho, seja qual for o seu fim, comporta
perigos e necessidades que há que ir vencendo.
Esta pode ser uma explicação.
A outra, unida ao mesmo nomadismo que caracteriza a vida do
caçador paleolítico, suporia que são os vivos os que têm de seguir o
seu caminho. Os mortos não podem: ficam. Foram seres próximos,
familiares, para um ou vários componentes da tribo: devem ficar, pois,
protegidos e com alimentos, para quando acordarem. Deixam-se-lhe
as suas coisas, mais um pouco de comida..., e a tribo —ou grupo, clã,
família — segue à procura de outros terrenos propícios para a caça.
Em ambos os casos, as possibilidades do rito funerário não
permitem supor mais do que uma imitação das condições de vida que
regem o caçador nômade, sem mais preocupações metafísicas sobre a
eventual vida do além túmulo. O rito é instintivo e, a meu modo de
ver, não há ainda qualquer razão para atribuir-lhe um sentido religioso
transcendente. O homem, que devido à sua mutação se afastou há
apenas um segundo cósmico da categoria de animal superior, vive
exclusivamente da caça. Anda ali donde andam as suas presas e, com
um sentimento que só pode ser instintivo, observa o que o rodeia,
acasala-se, concebe e convive. E apenas se apercebe que é homem
porque sabe fabricar uns determinados utensílios de pedra talhada
mais ou menos engenhosos que lhe facilitam a caça, e outros —
produto dessa mesma caça — que lhe permitem defender-se de um
frio a que a sua natureza fraca não poderia resistir.
Aqui, precisamente aqui, há um mistério. Se a evolução do homem
se deve, como a dos animais e as plantas, a uma seleção natural, como
é sensível que esta mutação — a que fez com que o homem do Cro-
Magnon substitua o de Neanderthal — tenha produzido por si só um
ser que é fundamentalmente débil perante as condições
meteorológicas em que vive? Agora, mais do que nunca, dá a
impressão de que o ser humano foi lançado subitamente num meio
que lhe. é naturalmente hostil. Mas esse homem tem umas
possibilidades cerebrais das que carecia o seu antepassado
desaparecido. A sua mente, ainda virgem, está aberta à aprendizagem.
O seu cérebro é capaz de ir armazenando dados e evoluindo devagar,
sempre que se lhe dê uma oportunidade de aprender.
De quem?
De si mesmo, impossível. Da sua própria experiência não pode
tirar nenhum resultado, porque foi, desde a sua aparição, uma
experiência imutável, arrastada sem variações sensíveis desde, pelo
menos, quinhentos mil anos. Contudo, podemos talvez contar com
dados — se bem que muito escassos e ainda incompletos — que
podem permitir-nos entrever de onde, comp e através de quem,
chegou a essa instrução. E para deduzir, inclusive, que essa instrução
se converteu em rito se traduziu, num momento determinado, no
primeiro sentimento religioso.
Há uma grande série de túmulos paleolíticos, procedentes de
períodos cronologicamente posteriores ao que mencionamos em
último lugar, que, em termos gerais, se caracterizam por dois fatos
mais que curiosos.
O primeiro deles, que os cadáveres estão adornados em maior ou
menor grau com conchas marinhas.
O segundo, que os mortos foram deliberadamente .tingidos de
vermelho por meio do peróxido de ferro. (9)
Além disso, os cadáveres tinham consigo objetos de sílex, de osso
e de marfim. Todos utensílios de caça ou de pesca. Entre eles apenas
há dois elementos que não são utensílios no sentido mais restrito: as
conchas e os ossos tingidos.
Que razões pode haver para isto?
O professor Macalister(10) é de opinião que a cor vermelha é
símbolo de saúde. Por conseguinte, tingir os cadáveres de vermelho
seria como fazer uma tentativa para que o corpo se conservasse de
modo que pudesse servir-lhe ao morto na hora de despertar.
Pela sua parte, E. O. James (¹¹) adianta a idéia de que as couraças
de certos moluscos, como a ciprea, recordam o canal pelo qual o
homem vem ao mundo. Estes moluscos, portanto, estariam ligados a
um rito remoto de encantamento assegurador de sobrevivência ou de
reencarnação.
São duas razões entre muitas outras que seguem caminhos
paralelos. Parecem-me válidas dado que'estes paleontólogos e
arqueólogos devem ter observado suficientes crânios paleolíticos para
serem capazes de adivinhar-lhe a intenção.
Contudo, não posso evitá-lo: sinto o homem pré-histórico bastante
mais longe de nós e tenho que confessar que não consigo encontrar
nele as subtilezas rituais que lhe querem imputar. Em compensação,
creio descortinar um princípio de aprendizagem. E penso que o
primeiro indício de uma aprendizagem é a imitação. Mas, imitação de
que ou de quem? Imitação de algo que vem do mar. Algo que vem do
mar e que sabe mais que o homem que o recebe em terra. Algo —
quero dizer, alguém — mais poderoso, ao qual há que imitar para por-
se, na medida do possível, à sua altura.
E a imitação surge sob duas formas. Pela primeira, o caçador
paleolítico adota um enfeite mágico, as conchas, que não são mais que
um símbolo primário que representa o mar e a quem vem dele ou
surge dele. Utilizando as conchas, o homem paleolítico julgará
adquirir parte desse poder— ou desse saber — do visitante. E a
concha será, neste sentido, um utensílio inútil, um talismã. Uma
representação simbólica; a primeira do gênero humano possivelmente.
Estamos metidos no estádio da «magia contagiosa» de que fala
Frazer.
Segunda forma de imitação possível, a tingidura a vermelho. Algo
que provavelmente nunca poderemos saber é se, nessa mesma época
em que os esqueletos se tingiam de vermelho, também se tingiam de
vermelho os vivos. Mas sou levado a pensar que sim — pelo menos
fá-lo-iam ocasionalmente — porque essa coloração vermelha dos
cadáveres não parece senão uma tentativa pós-mortem para que essa
cor perdurasse. E para que essa tingidura de vivos e de mortos se não
fosse para imitar os que tinham algo de vermelho como característica
própria? Vermelho da pele, vermelho do cabelo,... Em qualquer caso,
vermelho. A magia imitativa de Frazer, esta vez.
Tenho conhecimento de que, num momento contemporâneo ou
imediatamente anterior à conquista, os índios do México, quase
imberbes, punham para celebrar algumas cerimônias barbas brancas
de algodão para recordar — e imitar — o mítico Quetzalcoatl, que
chegou ao Yucatán em tempos remotos e de que se afirmava que tinha
também a barba branca.
Algumas tribos negras de África, na época das primeiras
expedições brancas, tingiam-se ritualmente de cor clara a pele, para se
parecerem, aos poderosos senhores que faziam a honra de visitá-las e
explorá-las.
E ainda hoje, na nossa sociedade civilizada, os pequenos atos
rituais imitativos são como que uma homenagem ou uma tentativa de
parecer-se à pessoa ou à entidade que se admira. Recordemos a
quantidade de bigodes hitlerianos que se viram durante a mítica
existência do III Reich. Recordemos as boinas e as barbas ao estilo
«Che Guevara», ou os longos e riçados penteados dos seguidores e
admirados de Angela Davis e do «Black Power».
Tudo é a mesma imitação ritual, se bem que o conceito de rito se
tenha transformado radicalmente. Mas então como agora, o ritual/
mágico consiste numa tentativa de mudar a natureza, ou mudar-se a si
próprio, ou adotar objetos ou emblemas de procedência mágica para
alcançar fins que não é possível atingir com os meios que o homem
tem normalmente ao seu alcance. E aí tem de estar, precisamente, a
origem da idéia divina — que não é mais, em princípio, que abstração
da idéia mágica — e não numa pretensa concepção de remoto
monoteísmo, como reiteradamente se tem afirmado.
Com um paralelismo histórico que poderia ser válido podemos
imaginar que os que vinham do mar — homens, naturalmente —
seriam algo parecido aos primeiros exploradores europeus que
chegaram às ilhas do Pacífico. Ou — salvaguardando a eventual
existência de culturas superiores ao conceito que temos formado do
paleolítico - às praias americanas. Gentes que teriam como
característica pessoal algum elemento vermelho — cabelos, cor da
pele — e que, talvez, adotassem as conchas como prendas — sem
valor, tal como os exploradores do século XVI repartiam espelhos e
contas coloridas aos aborígines das terras descobertas. Com uma
diferença, tão hipotética' como tudo o que indiquei anteriormente: os
homens do ar, ao contrário dos exploradores europeus do século XVI,
levavam consigo o germe de um ensino.
Mas, que ensino? — poder-me-iam perguntar — Temos por acaso
provas dela? Pela minha parte, creio que há uma base verossímil de
conjetura, do mesmo modo que ela existe para supor que houve
retratos desses eventuais mestres.
Afortunadamente, já se admite de uma maneira geral, que as
cavernas com pinturas rupestres da vertente franco-cantábrica foram
centros ou santuários mágicos. Começou por indicá-lo Salomón
Reinach em L'Art et la Magie, aceitou-o Freud, e hoje seria difícil
encontrar um paleontólogo ou um arqueólogo que o negasse. Contudo,
penso que seria conveniente especificar o termo e delimitá-lo. Não
creio que tenhamos que pensar, neste caso, — alguns o fizeram —,
nessa magia esotérica, em que se converteria mais adiante a iniciação,
mas numa magia esotérica, uma especial escola de ensino.
A primeira — perfeitamente possível — é a que foi aceite
oficialmente, e hoje por hoje, é & explicação que poderíamos ler em
qualquer livro sobre os fins mágicos das cavernas com pinturas. Estas
cavernas seriam escolas mágicas de caça e nelas sob a aparência e os
métodos do que hoje denominaremos magia totêmica, se ensinava a
caçar racionalmente, se indicariam os momentos propícios para a caça,
as épocas mais adequadas, as partes do corpo do animal que melhor
serviam para ser reservadas, os pontos débeis da anatomia da presa.
Pensemos na perfeição anatômica dos bisontes de Altamira. Pensemos
nas suas variadas posições. Pensemos que absolutamente todos os
animais pintados nas grutas — exceto as serpentes gravadas, irias essa
é outra questão — eram comestíveis. Pensemos que ocasiões há em
que está representado, de modo mais ou menos esquemático, o
coração do animal como ponto vulnerável para ser ferido de morte,
como o elefante da gruta do Pindal, nas Astúrias. Pensemos, por fim,
que em algumas dessas grutas, se encontravam marcas deixadas pelas
nádegas dos que se sentaram em semicírculo para ouvirem o mestre-
mago. Um mestre-mago que, certamente, seria o autêntico pintor das
melhores figuras, feitas precisamente para influenciar a atmosfera
mágica que se criava nos lugares, mais obscuros e inacessíveis das
cavernas de Ariège; de Altamira, do Pindal, de Lascaux, do Castillo,
de Candamo, de Tito Bustillo ..
Para o caçador paleolítico, aquela instrução ajustaria a sua magia
ritual e, de certo modo, constituiria os germes da sua religião, uma
religião revelada pelos deuses-magos que lhe ensinavam secretamente
as bases da caça; bases que eram, ao fim e ao cabo, parte importante
dos segredos da vida.
Contudo, creio que há uma segunda possibilidade, de certo modo
ligada à primeira, mas parece-nos tão lógica como ela e estaria talvez
mais de acordo com os motivos que, à margem do ensino, poderiam
ter os homens vindos do mar para exercer o seu magistério — se é que
efetivamente o era — com os caçadores paleolíticos. Púnhamos umas
quantas perguntas e analisemos os motivos:
a) Os animais representados nas cavernas mágicas da vertente
franco-cantábrica são sempre animais de grande envergadura,
herbívoros e comestíveis;
b) Há uma espécie de distribuição racional destes animais
conforme as grutas, apesar de várias delas se encontrarem a distâncias
que permitem supor que haveria nos arredores certa identidade na
fauna. Assim, por exemplo, em Altamira predominam os bisontes,
ainda que eventualmente haja enormes corvos e algum javali. Nas
grutas do Monte Castillo abundam as representações de corvos. Na
gruta de Tito Bustillo as representações são quase exclusivamente de
cavalos. O Pindal tem um único animal: um elefante.

Tiremos a conclusão. Não seria de pensar que a iniciação de cada


gruta estaria dedicada a um animal fundamental, com o fim de que os
adeptos que assistissem a cada ato mágico se especializassem num
determinado tipo de caça? Inclusive, avançando um pouco mais no
caminho abrupto das possibilidades imponderáveis, não poderíamos
pensar que os colonizadores vindos do mar ensinassem aos caçadores
do paleolítico o que tinham de caçar para eles? Que as terras dos
caçadores fossem, de certo modo, as reservas de caça do homem do
mar, que se converteriam em magos para exercer a sua influência
sobre os caçadores e ensinar-lhes a obter as grandes peças que
poderiam servir-lhe para o seu próprio sustento? Se assim fosse, os
símbolos — tão abundantes nas grutas pré-históricas — a que chamam
tectiformes, e que segundo alguns arqueólogos representariam talvez
armadilhas de caça, teriam, efetivamente, este significado: armadilhas
para caçar vivos animais de grande porte; ou currais de ramas para
mantê-los vivos até que os homens do mar os viessem buscar.
Naturalmente, estes animais, em quanto se convertiam em tributos
para os deuses, seriam para os caçadores animais totêmicos, animais
tabu, cuja caça representaria já um ato ritual, um acontecimento
religioso.
Ainda uma terceira possibilidade: é sugerida pela dupla
coincidência da abundância de animais nas pinturas e a escassez dos
seus restos nas habitações encontradas e escavadas. Poderia acontecer
também que os mestres-magos induzissem os caçadores não à caça
daqueles animais, mas sim à sua preservação, convertendo-os nas
cavernas em animais sagrados que, precisamente por sê-lo, teriam que
respeitar-se religiosamente.

Não afirmo nenhuma das possibilidades apontadas, limito-me a


uma tentativa de demonstração de que, admitida a sacralização da
caverna, há mais do que um caminho que possa motivar o fato dessa
iniciação mágica.
Mantém-se a realidade de uma relação e um contato entre estes
singulares mestres-magos e os seus discípulos — adeptos, e nessa
realidade há também um lugar para que o catecúmeno deixasse a sua
marca de aprendiz. Nas mesmas cavernas observam-se muitas vezes
diferentes estilos de desenhos e de gravuras. Há alguns de incrível
perfeição e, contudo, noutros pontos aparecem desenhos muito mais
toscos que não podiam sei obra da mesma mão. Detenhamo-nos em
Altamira, por exemplo, e nela deixemos a sala das pinturas e fixemo-
nos especialmente num dos desenhos do interior, que representa uma
figura antropomorfa com cabeça de pássaro. Uns riscos esquemáticos
no corpo parecem indicar algum tipo de túnica desenhada por um
menino. Mas é precisamente essa cabeça de pássaro a que desperta o
nosso interesse. Porque, depois do que já vimos até agora, surge
indefectivelmente a pergunta de se essa cabeça de pássaro, enquanto
símbolo primário, terá algo a ver através dos séculos com o pássaro
que sustem a Gran Madre de Cnossos na sua mão, ou com o Ganso
que seria, milhares de anos depois, o símbolo da Lusina-Maestra, ou
com todos os pássaros palmípedes, símbolo de mestrança e de
comunhão fraternal de construtores e matemáticos.
Há que advertir que essa espécie de pássaro-mestre não é uma
representação isolada: em Lascaux (Dordonha, França) voltaremos a
encontrá-lo em circunstâncias muito especiais. Há ali um bisonte
pintado pela mão de um mestre, sem dúvida sem a genialidade do
mago de Altamira, mas isso não interessa por agora; pois bem,
defronte desse bisonte há um outro homem pássaro pintado com a
mesma ou maior falta de habilidade que o antropomorfo de Altamira,
mas numa atitude que transforma a cena num drama: o ser-pássaro
parece ter sido atacado e morto pelo bisonte. Desse modo, aquilo a
que se costuma chamar «a tragédia pré-histórica de Lascaux»
transforma-se no elo exato que une os mestres-magos vindos do mar
com os discípulos caçadores do paleolítico (12).
Passado um tempo determinado — ou talvez contemporâneo ao
ensino da caça —, os mestres adestrariam alguns dos seus discípulos
— talvez os destinados a serem condutores do clã: jefes ou sacerdotes
— em conhecimentos mais abstratos e menos imediatos. A capacidade
craniana do homo sapiens dava-lhe essa possibilidade. As amostras de
escrita ideográfica que estudamos no capítulo anterior fariam parte
desse ensino, como o uso de outros símbolos que serviriam de
reconhecimento ou teriam um significado que hoje, vistos em
conjunto, necessariamente nos escaparão
Depois de tudo isto terá surgido uma pergunta ao leitor: Porque é
que os mestres-magos teriam de ser esses homens vindos do mar e não
magos nascidos nas próprias tribos paleolíticas?
Acredito que existe uma razão para o que suponho, se bem que não
possa constituir uma prova, pelo menos de momento. A razão aparece
no período cultural seguinte, nesse marasmo mesolítico que já
tratamos atrás. Durante um longo período de tempo — longo desde o
nosso ponto de vista, mas apenas um segundo na evolução humana —
um número indeterminado e imprevisível de cataclismos, vividos
dramaticamente pelos povos caçadores, provocaram mudanças bruscas
no clima, fuga de espécies animais habituais, dissecação das terras
úmidas, desaparecimento de espécies vegetais que serviam de dieta
complementar. E, sobre as dificuldades às que o homem estava já
habituado surge um período especialmente trágico, apocalíptico. É
precisamente então que não há qualquer rasto de pinturas rupestres em
toda a zona franco-cantábrico. Desaparece todo o rasto direto da obra
dos magos-mestres. Algo aconteceu — talvez do outro lado do mar?
— que os fez desaparecer. Então, os caçadores mesolíticos começam a
prestar culto a esses homens que as suas tradições recordam e que já
não vêm. E como prova desse culto ao que vem do mar, surge o rito
da acumulação de conchas à entrada de algumas cavernas mágicas. É
a época da cultura asturiense e dos Kjökkenmöddings. É a época em
que o rito mágico deve ter sido mais desesperado porque não tinha
uma resposta afirmativa, porque todos os esforços para invocar os
deuses do passado chocavam contra a natureza adversa e contra uns
conhecimentos parcialmente aprendidos que nada ou muito pouco
podiam contra os cataclismos que caíam sobre a vida efêmera da
comunidade. Os concheiros, neste sentido, — repito e amplio o que
disse anteriormente—, eram santuários devotos e, se alguma dúvida
houvesse a respeito dos fins desses montes de conchas, bastaria
recordar que neles se encontram sepulturas. E se deixássemos bem
assente que havia um efetivo culto dos mortos — ou, pelo menos, um
verdadeiro respeito por eles —, não podemos deixar de perguntar
como pode casar esta realidade com sepulturas no que se quer chamar
«vazadouros». O próprio O. E. James, que já citamos anteriormente,
diz: «Debaixo dos restos dos seus vazadouros enterravam os seus
mortos em posição horizontal, rodeando-os por vezes com algumas
pedras grandes».
Não pode, portanto, tratar-se de mortos caldos ali por acaso, mas
sim deliberadamente enterrados entre as conchas. Não será mais
lógico aceitar esses montes como acumulações de ex-votos ou tributos
sagrados pertencentes a uma idéia religiosa primitiva?
Surgem então representações esquematizadas que poderiam ser, no
seu aparente absurdo, a recordação desses mestres. Como um dos
desenhos da Pedra Escrita de Fuencaliente, na Serra Morena:

Ou quando se representam, em pinturas vermelhas, os truques de


caça que eles deviam ensinar. Porque as pinturas de caça dos
albergues levantinos devem ser, mais do que relatos de expedições e
de aventuras de um povo, lições gráficas de como se deve caçar, de
como se há-de recolher o mel.
É então que a recordação dos antigos ensinamentos adquire
realmente valor religioso, que surge em símbolos misteriosos que
teríamos que comparar com representações esotéricas posteriores para
encontrar-lhes um sentido. Símbolos que são apenas, ainda hoje, um
sinal incoerente. Pelo menos, aparentemente. Mas detenhamo-nos
num exemplo, entre tantos outros. Na gruta Clotilde de Albarracin
aparecem estas representações:

O que são? Simples ensaios de desenho? Estilização de árvores ou


estilizações humanas?
Se avançarmos um par de milênios — arrepiante período de
tempo, comparado com a vida de um homem — encontraremos a
resposta nos dólmenes do neolítico(13):

São rostos sem boca. Rostos de seres que não podem falar rostos,
pois, que mantêm o segredo do que sabem e não podem transmiti-lo
aos outros, porque são rostos de iniciados, de um mestre ou de um
adepto que deve manter em segredo os ensinamentos recebidos. O
mesmo — exatamente o mesmo — que o iniciado esculpido no capitel
do abside de San Pantaleón de Losa (Século XII), que mantém a boca
fechada e apresenta as mãos, mostrando o sentido secreto da arte
iniciática da construção.

Este mesmo significado tinha tido, na pré-história, a representação


do ídolo de Pena Tú, nas Astúrias — não esqueçamos o paralelismo
do nome: Tú e Túbal, o neto de Noé — e os chamados ídolos
cilíndricos dos museus de Sevilha e de Madrid.

Mas, para quê manter um segredo? Por uma simples razão


humana: porque o segredo do que se sabe dá poder. Porque quem sabe
e não divulga o seu saber tem ascendência sobre os outros homens.
Porque o ser humano — tenhamo-lo sempre em conta — tende a
manter o segredo do seu saber, a convertê-lo em saber mágico-
Porque, detendo o saber, se tem a chave do poder; e o homem, seja
qual for a época em que viveu, procurará que a sabedoria se conserve
nas mãos dos iniciados, que assim terão força sobre os demais e
poderem indicar-lhes o que têm de fazer, mandar neles, usar do
primeiro ascendente que um ser humano pode ter sobre a comunidade.
Porque saber mais é o mesmo que poder mais.
E aqui, precisamente no segredo que têm mantido do seu saber os
que a si mesmos se chamaram iniciados em todas as épocas da história
do homem, residem as grandes dificuldades perante as quais nos
encontramos para interpretar e adivinhar tudo aquilo que uma minoria
humana, em qualquer época e em qualquer lugar, guardou como
próprio e exclusivo, impedindo que os seus contemporâneos, ou os
que, como nós, viriam depois, pudessem ter uma idéia do que
constituía realmente o seu conhecimento ou as razões profundas do
seu poder sobre os outros.
11

A CABEÇA DE JANO

A história do homem sobre a Terra — e refiro-me tanto à história


conhecida e aceite como a essa outra história oculta que estamos
procurando esclarecer com os escassos meios de que dispomos — é a
aventura de um constante processo de colonização.
Em termos gerais, e sem ter em conta nenhum caso particular
concreto, mas apenas os elementos comuns que podemos deduzir de
todos, esse processo contém em si mesmo umas constantes que se
repetem sem necessidade de admitir a história como um eterno
regresso.
Acontece, pouco mais ou menos, do seguinte modo:
Um povo com um determinado avanço cultural fixa-se em terras
habitadas por outro povo num estado cultural menos evoluído — ou
mais degenerado —. As razões da fixação podem ser múltiplas, desde
a expansão territorial devida a um excesso de população, até à procura
de umas determinadas explorações econômicas. Em qualquer caso, o
processo implica sempre um domínio do povo colonizador sobre o
colonizado, e esse domínio pode manifestar-se tanto numa ocupação
militar como na direta influência política, econômica ou — menos
correntemente — espiritual. Com o tempo, o povo colonizado irá
adquirindo hábitos e costumes dos seus colonizadores e, na medida
em que estes o permitam, cultivar-se-á à sua imagem e semelhança,
com a correspondente perda da sua própria personalidade primitiva.
Chegado o momento final do processo colonizador, o povo invasor
desaparecerá como potência exterior e, violenta ou pacificamente,
integrar-se-á com o povo colonizado, originando com ele o arranque
de um novo processo sócio-cultural a todos os níveis: religioso,
político, tecnológico, econômico e cultural.
Não interessa que a colonização tenha sido levada a cabo por um
exército de soldados ou por um reduzido número de missionários.
Haverá sempre um transvaze, como tem acontecido desde que o
mundo é história humana, que guiará os passos pequenos .ou grandes,
do futuro do homem.
Detenhamo-nos, como caso particular e pelo que significará
posteriormente de paralelismo com algo que terá acontecido milhares
de anos antes, no processo geral da colonização hispânica no
continente americano. Enquanto a América foi um lugar de exploração
e de conquista, os europeus não procuraram influir decisivamente na
vida e nos costumes dos aborígines, mas apenas nas suas crenças.
Quando a colonização se fixou, quando a ação colonial já estava
realizada, começou a transmitir-se a cultura e a língua e a impor-se
drasticamente a religião aos nativos. E dessa cultura unicamente se
lhes ensinou aquilo que convinha aos conquistadores, o que lhes podia
interessar tendo em vista uma relação geral de colonizador a
colonizado, e não as coisas que teriam permitido aos indígenas ser tão
poderosos como os seus conquistadores.
Hoje, terminado há quase cento e cinqüenta anos o processo
colonial, a vida no continente americano, salvo diferenças locais e
influências socioeconômicas particulares, é uma simbiose entre a
antiga cultura indígena e a civilização colonizadora hispânica- Refiro-
me, claro está, à vida fora das grandes cidades, porque nestas
influíram muitos outros fatores estranhos à questão.
Não esqueçamos estas considerações gerais. Servir-nos-ão
imediatamente para a intuição de outro processo colonial que a
história desconhece oficialmente. Veremos como os poucos dados
com que contamos podem, por si sós, fazer-nos adivinhar algo que
deve ter sucedido há uns oito mil anos, entre o 6 000 e o 4500 AC.
As comprovações e os cálculos geológicos demonstram-nos que as
alterações climatéricas que correspondem ao período mesolítico — e
que tinham começado entre os 10 000 e os 9 000 anos A.C. —
acabaram entre os 6 000 A.C. — África do Norte — e os 4 500 — em
Espanha e no resto da Europa. Pois bem, pelo menos um testemunho
inexplicável e uma conjetura aventureira podem conduzir-nos à
dúvida de que um certo tipo de colonização começou a produzir-se
entre aquelas datas.
Vejamos em primeiro lugar o testemunho. Falamos anteriormente
nos montes de conchas e da convicção de que eram testemunhos de
um certo tipo de ritual primitivo, paralelo ao que, em mistérios
posteriores, corresponderia aos santuários ibéricos. Vimos igualmente
que uma das razões que podem comprovar esta hipótese é o fato de
que, no meio das conchas, se tenham encontrado sepulturas humanas.
Ora bem dá-se o caso de que em muitos destes jazigos mesolíticos,
fundamentalmente em Ofnet (Baviera, Alemanha) e no Cabeço da
Arruda (Mugem, Portugal)1, encontravam-se restos humanos de crânio
braquicéfalo junto a uma maioria de restos de crânio dolicocéfalo,
próprios e característicos dos povos cro-magnonenses. Uma primeira
hipótese lançada pelos arqueólogos, que indicava a .possibilidade de
uma emigração asiática para a Europa, teve que ser abandonada
quando se comprovou que os restos braquicéfalos portugueses eram
anteriores aos encontrados na Alemanha. E, visto que em estratos
mesolíticos do noroeste de África se achavam crânios braquicéfalos,
apenas resta pensar que esta misteriosa raça braquicéfala veio — de
algum modo — desde o Oceano Atlântico (2).
Consideremos uns quantos fatos comprovados nas escavações:
1. Que a proporção de crânios dá uma vantagem aproximada de 3
ou 4 para 1, aos crânios dolicocéfalos, isto é, que os indivíduos de raça
braquicéfala eram uma minoria.
2. Que os enterros são em comum ou, pelo menos, contíguos;
enterram-se juntos indivíduos de raças diferentes. Boa prova de
relações inter-raciais cordiais.
Cabe pensar, creio que com bastante fundamento, que restos de um
povo braquicéfalo procedente do Oceano se refugiou entre os povos
mesolíticos europeus e que foi bem acolhido por eles, até ao ponto de
que alguns dos seus membros puderam infiltrar-se no coração da
Europa e continuar a ser considerados pelas tribos caçadoras, que
inclusive lhes concederam o privilégio — se assim se pode chamar —
de serem enterrados nos seus santuários de conchas junto dos
membros ilustres dos seus próprios clãs. Em troca de quê? Depressa o
iremos ver.
Passemos agora a analisar a que chamei «conjetura aventureira».
Os historiadores e antropólogos dizem-nos que, por volta do ano 6 000
A.C. acabou o processo de mudanças climatéricas no norte de África;
o aspeto daquela zona continental adquiriu as características desérticas
que tem na atualidade. É então — continuam a contar-nos — que a
falta de água e da caça pressiona os povos daquela zona para a
emigração que os dispersa, em primeiro lugar, em direção ao vale do
Nilo — Sudão, Núbia, Egito — e, posteriormente, para os vales férteis
da Ásia Menor.
Chegados a este ponto, não temos mais remédio do que perguntar
com a maior lógica como é possível que uns povos que viviam nos
seus primitivos enclaves de um modo absolutamente pré-histórico e
que, como se ainda fosse pouco, acabaram de atravessar um período
autenticamente trágico da sua sobrevivência, puderam emigrar do
modo que nos asseguram e criar quase de imediato — penso num
imediato histórico — as bases das civilizações mais importantes do
mundo antigo mediterrânico. Eis uma pergunta que, tal como vem
sendo posta pela história oficial, não tem uma resposta convincente.
Aventuremos uma conjetura: Suponhamos que não foram os povos
autóctones do Saara os que emigraram para as regiões orientais do
Mediterrâneo. Suponhamos que foram outros povos chegados desde o
oceano, salvos numa pequena proporção do desastre atlântico e
previstos dos elementos de uma civilização superior que eles mesmos,
pelo seu escasso número, não podiam desenvolver, mas que estavam
em condições de ensinar aos povos com os quais iam conviver. Como
uma espécie de Robinsons da pré-história.
Aqui poderia começar a montagem de um puzzle que nos deu o
seu modelo nos mitos que estudamos em capítulos anteriores.
Recordemos o grande êxodo dos Thauata-de-Dannan narrado no
Leabhar Gabhala e a sua mítica permanência no Egito.
Recordemos que no Saara marroquino, não longe da cidade de
Sekelmesha, está o oásis de Thwat. Recordemos, finalmente — apesar
de ainda voltarmos a este tema — que nos poemas gaedhélicos se
contam profusamente as relações de um dos heróis dos Thwata com o
faraó Cingeris e com o êxodo dos israelitas para a Palestina(3).
Continuemos agora com os cálculos geológicos. Na Europa —
desde a Península Ibérica até ao Norte — o processo de mudanças
climatéricas deve ter concluído, como já indicamos, por volta dos anos
4500 a c. Quase imediatamente começam a aparecer sinais
inequívocos de que os povos da Europa ocidental praticam em maior
ou menor grau, a agricultura e a criação de gado. Mas não de uma
maneira geral. O processo está, num princípio, circunscrito a certas
áreas geográficas que, mais do que a qualidade fértil dos seus terrenos,
parecem corresponder a zonas de fixação dos colonos ou a refúgios de
gentes que, deliberadamente, desejavam permanecer isoladas dos
habitantes autóctones daqueles territórios.
E - coisa curiosa, que não pode ser explicada pelo acaso — essas
áreas geográficas têm correspondência, quase passo a passo na
Península Ibérica, com os núcleos mágicos de que falamos desde o
princípio deste estudo.
Vejamos agora apenas um exemplo: um povo cujas características
são ainda desconhecidas pelos arqueólogos que o tem estudado,
concentrou-se nas cavernas situadas nas alturas de Montserrat nos
últimos lustros do V milênio A.C. E, enquanto as suas cercanias
continuavam constituídas por caçadores mesolíticos, desenvolveu-se
naqueles enclaves uma agricultura e uma tentativa de civilização das
que deixaram a prova — escassa, insuficiente, mas inequívoca — da
cerâmica chamada monserratina, anterior à própria cultura do vasa
campaniforme, intensamente decorada, antes da sua cozedura, com
valvas de molusco cardium e com punções especiais. Assim pois,
encontramo-nos com um reduzido núcleo de agricultores que se
desenvolve — certamente em condições precárias, mas mantendo à
sua volta o segredo do seu saber agrícola — entre povos caçadores. Eu
ainda acrescentaria que, mais de que um povo de agricultores, trata-se
neste caso de um povo que, além de outras coisas, conhece a
agricultura (4).
Mas o curioso deste fenômeno aparentemente inexplicável é que,
quando antropólogos e historiadores se agarram à idéia - e
demonstram à sua maneira — de que tanto a agricultura como a
criação de gado foram o resultado de um processo lógico e linear da
evolução humana, todas as lendas giram mais ou menos abertamente
à.volta destes temas, os mitos e os ritos de cujo a existência nos
chegam informações desde todos os continentes, e inclusive esse
inconsciente coletivo jungiano que para muitos parece apenas
aplicável as doenças mentais, e se traduz também em forma de relato e
de contos populares (pequenos mitos), proclamam a origem divina ou
sobrenatural e o processo mágico desta evolução incompreensível,
desta descoberta transcendente na história da evolução humana. "
Na Grécia, Triptolemo, com os ensinamentos de Ceres, a sua
madrinha, foi o encarregado de transmitir os conhecimentos agrícolas
ao gênero humano.
Na Babilônia — já o vimos anteriormente —, o mestre foi o
homem — peixe Oanes.
No Egito, Osíris transformou-se com o tempo em parte de um mito
agrícola dos mistérios isíacos.
Podemos procurar nas voltas e reviravoltas da mitologia: sempre
encontraremos o mesmo fenômeno. Os deuses, ou os seus discípulos,
ou os seus enviados, ensinaram aos homens a agricultura e a arte de
reunir e cuidar dos rebanhos.
No caso do conto popular, o processo da evolução agrícola aparece
sempre — pelo menos naqueles contos que parecem ter uma origem
mais remota — como um processo sobrecarregado de elementos
mágicos. E, como vimos, o mágico é aquele que tem lugar sem que o
homem chegue a assimilar racionalmente as causas primárias do seu
processo. Quando as compreende, o processo em questão deixa de ser
mágico automaticamente. Contudo, nos contos maravilhosos da mais
antiga procedência, a magia preside a tudo o que se refere à
agricultura e à criação de gado. Podemos comprová-lo em numerosos
casos de contos populares espanhóis (5).
A versão toledana do conto A adivinha do pastor contém uma
prova a que o herói tem que se submeter. Deve tratar de uma centena
de lebres sem que lhe fuja nenhuma — um mito indubitavelmente
ganadeiro —, e depois separar em cem fanegas de grão o trigo da
cevada — uma autêntica prova agrícola —. Uma bruxa virá ajudar o
herói e, com a sua intervenção mágica, se resolverá o problema.
Em Branca Flor, um conto procedente da província de Cuenca,
propõe-se ao herói uma tripla prova agrícola- Tem que plantar vides
de manhã e recolher vinho ao meio-dia. Tem que semear trigo e dessa
colheita servir o pão ao meio-dia. Tem que enterrar uma pinha no chão
e cortar a lenha do pinheiro que cresceu dela, para coser o pão da
prova anterior.
Ainda mais. No conto A fera do roseiral(e), procedente de Almenar
(Soria). propõe-se o argumento paralelo ao conhecido do conto A bela
e a fera: um pai apanha uma rosa de um jardim proibido e o seu
proprietário, de aparência monstruosa, obrigá-lo-á a pagar-lhe com a
entrega de uma das suas filhas. Precisamente a mais pequena.
Noutros contos aparecerão de uma maneira constante, mitificações
agrícolas. Podíamos recordar aquele, com tantas versões, da planta da
ervilha ou de feijão que cresce até ao céu. Ou aquele outro em que
uma menina enterra ossos de um animal e os rega. Uma vez por outra,
o fenômeno agrícola aparece como um processo mágico, maravilhoso,
incompreensível, proibido. Ser agricultor e o mesmo que desenvolver
poderes mágicos. Um jardim pode ser um lugar vetado - mágico
também, portanto — ao que unicamente certas pessoas podem ter
acesso. E, mesmo em tal caso, permite-se-lhe entrar ocasionalmente
em troca de um sacrifício pessoal, em troca de algo que faz parte da
vida ou da personalidade do que quer descobrir
o segredo do jardim, ou entrou nele por puro acaso das
circunstancias: o caso da filha em A fera do roseiral. Noutros casos
deve entregar-se o dedo de uma mão(7). E ainda noutros, a própria
liberdade.
Da mesma forma que o fato de cultivar alimentos vegetais aparece
como um processo de qualidades mágicas, o possuir animais
domésticos e saber cuidá-los, retê-los,... e aumentá-los em sucessivas
gerações, sem necessidade de arriscar a vida na caça, isto também é
magia.
Pensemos agora, a partir de dados precisos que nos traz
inconscientemente o conto popular, o que seria a realidade de uns
povos ainda caçadores — no mesolítico europeu e africano — que, em
determinado instante da sua existência precária atormentados pela
fome, contemplassem nas suas proximidades outros homens mais
poderosos que eles, reduzidos em número, que possuíam animais
próprios — por acaso não transportou Noé no Dilúvio uma parelha de
cada espécie animal? — e plantas comestíveis que eles próprios
faziam crescer à sua vontade — não era Noé agricultor e plantou uma
vinha logo que desceu da arca? — Se somos capazes de compenetrar-
nos com esta situação quase limite, compreenderemos de imediato
que, para eles, para os caçadores, o ganadeiro - agricultor era
realmente um mago Ou um deus. E constataremos igualmente que a
origem desses contos, para além da época ritual, têm de estar,
necessariamente, nesse momento crucial da cultura.
Pois bem, com a advertência prévia de que ainda nos encontramos
no desenvolvimento de uma conjetura, pensemos juntos na realidade
possível de uma pergunta lógica: Qual o fator pelo que se pode reger
um povo caçador para encaminhar a sua vida?
Sem qualquer dúvida, pela fecundidade de caça e pelos períodos
que regem tal fecundidade; pelo tempo de cio dos animais; pelas
épocas da criação; pelos períodos de fecundidade da própria fêmea.
Em resumo, por um fator primário de fecundidade geral, determinado
fundamentalmente pelas fases da lua. Parece lógico que, em tais
circunstâncias e — não o esqueçamos — sob o influxo remoto dos
ensinamentos assimilados magicamente desde uma época que o tempo
tinha transformado num rito, pela recordação dos primeiros mestres —
magos das cavernas paleolíticas, a lua e as suas fases tinham-se
convertido em elementos de uma crença primitiva, ritualizada.
Lua e fertilidade teriam de ser, para eles, a mesma coisa. Ou ainda
mais logicamente, a lua teria de ser o guia dessa fertilidade, tanto dos
homens como dos animais. Por isso, quando a fertilidade está em jogo,
trata-se de um principio feminino. Essa é a causa de que a mulher,
com os seus contributos exagerados até à monstruosidade é a primeira
representação plástica conhecida inclusive antes de que
representassem os animais nas paredes das cavernas (8).
Assim, pois, fecundidade e lua identificam-se para os caçadores. E
pelo próprio fato de se identificarem — ou de terem sido identificados
por uns mestres remotos cuja recordação subsistia tradicionalmente
entre os caçadores até épocas posteriores—, identificam-se numa
personalidade divina bem determinada: a Grande Mãe, fecundadora
dos animais e dos homens;. A Grande Mãe Lua que rege nascimentos
e mortes. A deidade mágica feminina de uns povos para os que, por
muitos motivos, há-de ser o próprio fato de feminidade criadora de
vida o princípio e o fim de todas as coisas conhecidas.
Mas de repente, devido a uma mudança radical nas perspectivas
vitais, os princípios confundem-se. Os colonos atlantes, estabelecidos
em pequenos enclaves, trabalhariam para a sua imediata sobrevivência
e, possuidores de uma cultura superior ao dos povos caçadores que os
rodeavam, seriam os possuidores de uma magia que conservavam para
seu próprio proveito e que transmitiriam — e isto apenas em parte —
aos que viviam à sua volta.
Este fato havia de produzir-se simultaneamente ou com pouco
intervalo de tempo — falo sempre de um tempo relativo — na parte
oriental e na parte ocidental do Mediterrâneo(9), mas com uma
diferença fundamental que os mitos também nos transmitiram. A
colonização do Oriente foi levada, a cabo por povos mestres que, por
motivos bem determinados, ensinaram os seus conhecimentos de um
modo mais aberto e assim chegaram a criar — ou a recrear — uma
série de civilizações florescentes.
Por seu lado, a colonização ocidental foi obra de colonos — magos
que conservaram os seus colonizados numa ignorância cultural da que
unicamente podiam escapar uns determinados eleitos por meio de uma
certa forma, de pato servil pelo que se colocariam — em troca de uma
parte dos conhecimentos — ao serviço da minoria colonizadora.
Recordamo-lo: dois povos atlantes, inimigos irreconciliáveis,
origem remota de mitos que os transformaram em deuses e em heróis.
Mas, em qualquer caso, povos —ou minorias étnicas — que, por
conhecerem e praticarem a agricultura, tinham que reger-se por uns
princípios cronológicos diferentes dos que podiam ser válidos para os
povos caçadores com os que conviviam. Porque a germinação das
plantas que iam servir de alimento não correspondia ao principio
fecundante que tinha orientado a vida e as crenças dos caçadores. O
próprio clima tinha mudado. Havia - já - estações definidas. Havia
uma época de frio — mais ou menos como antes — e épocas
anteriormente desconhecidas de calor. Épocas em que a natureza
parecia morrer e épocas em que o calor ambiente e a umidade eram
capazes de fazer germinar, crescer e amadurecer os alimentos
vegetais.
É o momento exato em que o sol se converte no princípio
ordenador da vida e motor da subsistência. O momento em que o sol
será o novo eixo religioso que surgirá nos povos que adotem a
agricultura transmitida em contraposição às crenças lunares imbuídas,
em circunstâncias climatéricas muito diferentes, aos caçadores
paleolíticos. O Sol, pois, converter-se-á, neste exato momento da
proto-história, num princípio ativo e criador e a sua origem agrícola
persistirá durante milênios inteiros (10).
A Grande Mãe Fecunda dos povos caçadores transformar-se-á em
esposa do Sol, na realizadora dos seus altos desígnios, numa Mãe-
Terra — Fértil que albergará no seu seio a vida e a morte das plantas e
dos seres humanos. Desse modo, as que puderem ser em determinado
momento crenças discordes ainda contrapostas, uniram-se num só
princípio vital e religioso dualista, origem — mágica, naturalmente —
de todo o conhecimento.
Não percamos de vista esta dualidade porque, de acordo com a
evolução das crenças, aparecerá constantemente, impondo a sua
presença como testemunha muda dessa Primeira Verdade do Cosmos.
O reconhecimento de duas forças sempiternamente encontradas e
complementárias terá de construir o princípio de toda a manifestação
religiosa e cultural, o princípio básico de toda a civilização, seja do
tipo que for. E a sua representação plástica poderá ir reconhecendo-se
como uma constante imprescindível e insubstituível do homem e das
suas mais Íntimas e inconscientes crenças.
Estará em todas as representações bifrontes desse jano romano que
não é mais do que uma representação do eterno dualismo religioso e
científico. Estará nos cruzeiros galegos, que sempre terão o Sol-Cristo
Crucificado num dos seus lados e a Lua-Virgem Mão do outro Estará,
dando testemunho oculto ou inconsciente de uma idéia religioso
superior, nos dois capiteis misteriosos do templo visigodo de
Quintanilla de las Viñas, na província de Burgos, com a representação
solar num deles e a lunar no outro. E estará na própria celebração do
dia de San Benito de Nursia. pelas Igrejas e a ordem beneditina, da
que foi fundador, no dia 21 de Março, precisamente o dia em que o
Sol e a Lua se encontraram igualados pelo equinócio da primavera.
Talvez se trate unicamente de uma coincidência pura e simples, mas
conhecendo pelo menos parte dos motivos ocultistas que têm guiado a
Ordem desde o seu aparecimento, não deixa de ser uma coincidência
inquietante e até com aspetos de revelação esotérica.
Com o tempo, à medida que o homem histórico foi avançando no
seu processo cultural, à medida também que se complicaram os seus
conceitos e se foi sentindo capaz de abstrair o mundo das idéias, os
cultos solares e lunares continuaram a representar essa mesma
dualidade de que falámos. Mas, dado que num principio traduziram
duas tendências contrapostas, e não somente uma tendência dualista,
encontramos adoradores teóricos - e irreconhecíveis - de cultos de
origem solar e lunar.

Fig. 25 — Um dos cruzeiros de Allariz Os


símbolos lunisolares de crenças remotas estão presentes sob aparências cristãs.

Dado que a aparição quotidiana do Sol inspirou a idéia de


regularidade e de rigidez, os seus adeptos — reconhecidos ou não —
impuseram a si mesmos e aos seus seguidores preceitos regidos pela
austeridade, o ascetismo e o autoritarismo Por sua vez, os adeptos
lunares - uns que a si próprios assim se chamavam, reconhecendo a
sua origem, e outros que tivemos nós de reconhecer apesar do seu
segredo — tinham na origem das suas crenças uma certa anarquia
aparente, um certo conceito orgiástico da vida e da morte, uma
ordenada desordem luxuriosa e, em geral, um sentido libertário das
idéias que defendiam.
12

AS PEDRAS DE ROLDÁN

Viajando pelo País Basco deparamos muitas vezes com a


recordação viva dos gentis (jentilla em éuscara). O nosso primeiro
encontro, provavelmente, será com os numerosos topônimos que vão
aparecendo referidos a estes gentis nas comarcas rurais. Em Leiza, por
exemplo, está Jentillzulo; na Pena Aizkoate, o pico de Jentilbarata; em
Ataún — Burunda, os dólmenes de Jentilletxek; e encontraremos
Jentilbatza, Jentillarrijak, Jentileioa. Os gentis estão por todo o lado.
E se investigamos nas profundidades do folclore basco pela mão
de José Miguel de Barandiarán(¹), poderemos obter preciosas notícias
sobre esses gentis que persistem, ainda como uma realidade certa, na
mente popular. Os gentis, segundo o povo, são seres gigantescos, de
força hercúlea, que habitam nos abismos e nas cavernas do País
Basco. São bons com as pessoas, mas procuram não deixam-se ver
com freqüência. São também, tradicionalmente, construtores de
dólmenes e diz-se que vivem, em média, uns quatrocentos anos.
Várias lendas fazem coincidir o seu desaparecimento — ou quase
interpretaríamos melhor, a sua clandestinidade — com a chegada de
Jesus Cristo à Terra. Sempre de acordo com as tradições populares, os
gentis foram precedidos pelos baxajaunak(2), mas eles, por sua vez
vinham já de antes de Sansão, de Errolán — Roldán — os mairuk —
os mouros. Na zona Sul do País Basco, as pessoas chamam ainda
gentis aos habitantes de Urdiain e de Aya, duas aldeias situadas a Sul
do maciço de Aralar, porque, de acordo com a tradição, as pessoas
destas localidades são descendentes dos ocultos e misteriosos jentilla.
As tradições bascas contar-nos-ão vezes sem conta, sempre que
encontremos menhires espetados no meio dos campos, que foram
pedras que Roldán ou Sansão quiseram lançar sobre uma determinada
localidade situada talvez a dez ou vinte quilômetros de distância, mas
que o lançamento foi curto e caíram ali donde agora se encontram.
Essas mesmas personagens, hercúleos lançadores de rochas, aparecem
associados a Hercules — precisamente! — ou a um Gargantua em
todo o norte da Península Ibérica, desde a Galiza até Ampurdan. Se
aparecessem unicamente no País Basco ou na Catalunha, poderíamos
pensar que revivia, de um modo mais ou menos mitificado ou
popularizado, a recordação do conde franco Roldán que fazia parte do
exército de Carlos Magno e que foi morto, de acordo com a canção, na
passagem de Roncesvalles(3)- Inclusive poderíamos pensar que a sua
lembrança na Galiza corresponde a uma tardia tradição comunicada
pelos peregrinos do Caminho de Santiago. Mas sucede que também
muito longe de qualquer possível revivência ou transmissão da
tradição carolíngia podemos encontrar-nos com um mito paralelo.

Fig. 26—Meninos da aldeia basca de Urdam. Para os habitantes da comarca, as pessoas


desta terra são descendentes dos remotos jentilla.

Em frente de Benidorm, na Costa alicantina, há uma ilhota que


ninguém conhece senão pelo nome de La Islã. A uma rocha espetada
no mar. A sua parte de cima forma um ângulo reto quase perfeito,
como se se tratasse de um prisma retangular meio afundado nas águas.
Pois bem, do outro lado da cidade, na parte mais alta da serra de
Bernia, há uma enorme brecha regular na rocha da montanha, que
poderia ter sido precisamente o lugar primitivo de La Islã, tanto pela
sua forma como pelas suas dimensões. Toda a gente na comarca,
conhece esta brecha com o nome de «O Corte de Roldán» e a tradição
popular confirma que a sua espada — ou o seu machado -fendeu a
rocha e que o próprio Roldán atirou com a sua imensa força a rocha
para o mar.
Na comarca de Ronda (Málaga) existe uma tradição semelhante. E
o nome do paladino Roldán, associado à força e aos megalitos da
região, voltamos a encontrá-lo em Badajoz, em Salamanca e em
Portugal.
Vamos admitir — porque pode ser uma realidade fora de qualquer
dúvida —que o fato de associar Roldán, Hércules, Sansão ou
Gargantúa com provas de força sobre-humana não seja mais que um
ato do inconsciente tradicional perante a recordação de míticos
violentos com nomes próprios-
Mas do que não restam dúvidas é que, antes de adjudicar-lhes
determinadas provas de força, existia já a convicção de um fato, que o
povo proclama através das suas tradições: há uma série de
testemunhos, obra da mão do homem, que proclamam que os que os
deixaram tinham poderes e saberes que já não tinham aqueles que os
recordam agora e contemplam a sua obra. Força, chama o povo a tais
poderes. E gigantes aos que os possuíam, num tempo que se perde na
sombra da recordação.
Realmente, se nos detemos a pensar sem juízos preconcebidos
perante um molhe como a do dólmen de sorginetxe — Salvatierra,
Alava — ou ante as lousas que servem de teto ao dólmen de
Vallgorguina ou de Soto, não podemos imaginar de um modo que
satisfaça plenamente a lógica racionalista a maneira como aquelas
grandes pedras foram fixadas no chão ou a técnica que se utilizou para
levantar as lousas que os cobrem. Se juntarmos a estas duvidosas
provas como as que asseguram- que o dólmen de Soto está formado
por pedras trazidas desde jazigos muito distantes (4), já não há lógica
possível que justifique não só o esforço sobre-humano que supõe a sua
construção, mas também a necessidade - por mais profundamente
religiosa que a representemos - de obra de tal envergadura.
Uma das razões mais lógicas com que se pode esgrimir na
investigação da história do Egito para defender a tese de que as
pirâmides do Egito nunca terão sido construídas para se pulcro dos
faraós que lhe deram seu nome, é o fato de que a sua construção —
tendo em conta os supostos meios técnicos disponíveis naqueles
séculos e a distância a que se encontram as pedreiras de donde se tirou
a pedra — teve que se prolongar durante vários séculos. E isso mesmo
considerando que pelo menos, uma terça parte dos habitantes do Egito
faraônico estivessem dedicados ao transporte e à elevação dos imensos
blocos de pedra que formam a estrutura das pirâmides. No Egito além
disso, encontram-se enormes monolitos já cortados nas pedreiras,
preparados para serem transportados para os lugares onde iriam ser
erigidos. Mas transportá-los como? Da mesma forma incerta e
arrepiante que se empregaria para transportar as imensas lousas dos
jardins de Baalbek. Da mesma maneira que seriam levados os moais
da ilha da Páscoa. Em todos os casos, também se têm feito conjeturas
sem fim para encontrar uma explicação racional que justificasse o
impossível.
Bastar-nos-ia recordar um fato recente: as grandes dificuldades que
se tiveram de superar para o transporte da Agulha de Cleópatra — o
monolito egípcio que se ergue no meio dos Campos Elíseos de Paris
— no princípio do nosso século; imaginemos pois, o modo real e não
simplesmente ideal de como aquelas massas de pedra puderam ser
cortadas da sua pedreira, medidas, levantadas, trabalhadas, levadas de
um lado para outro e encaixadas depois exatamente, perfeitamente,
matematicamente — porque o conhecimento matemático intervinha
em alto grau — no seu lugar definitivo.
Arqueólogos, historiadores, astrônomos, geólogos, todos
coincidem no cálculo de que o tempo megalítico de Stonehenge
demorou em erguer-se várias centenas de anos. Mas pensemos que o
templo era — e isto torna-se já indubitavelmente certo — um
autêntico observatório solar e astronômico. De que podia servir aos
homens que o idealizaram se tinham a consciência de que não iam
podê-lo acabar e utilizar em vida?
São perguntas que nunca poderão ter uma resposta definitiva se
apenas nos orientarmos pela lógica racionalista que nos tem sido
imposta por decreto. Terei de insistir nesta questão até à saciedade: há
fatos, circunstâncias e acontecimentos cujo evidente mistério não
poderemos nunca esconder sob a capa de explicações que, no mais
profundo, não poderiam satisfazer nem sequer aqueles que as
inventam. E, contudo, estas pretensas razões, preparadas num esforço
incrível para não reconhecer que há algo que se escapa à nossa
compreensão racionalista, são as que estão contribuindo, dia & dia,
século a século, milênio a milênio, para fazer a história do gênero
humano.

Fig. 27 — Dólmen de Sorginetxe, porto de Salvatierra. O significado deste nome é “A casa


da bruxa”.

Voltemos à cultura megalítica, que é precisamente a que temos de


expor neste capítulo. E vamos ver como, tanto pela distribuição
geográfica das descobertas testemunhais na Península como pela sua
própria natureza e inclusive pelos dados e interpretações que fez desta
cultura uma ciência arqueológica a meu modo de ver modestamente
desorientada, podemos chegar à suspeita mais que fundamentada de
que não são insensatas as possibilidades históricas apontadas em
capítulos anteriores.
Repararemos, em primeiro lugar, na distribuição geográfica dos
monumentos megalíticos. A partir do Cabo de Creus, em cuja comarca
— a de Ampurdan — abundam de modo extraordinário os dólmenes e
os menhires, a presença destes testemunhos dolmênicos estende-se por
todo o norte da Península, seguindo uma franja de território que ocupa
todo o norte do paralelo 42. A franja estende-se no noroeste abarcando
toda a região galega e as províncias leonesas e depois desce para o sul,
donde os monumentos megalíticos estão presentes em todo o Portugal
e nas províncias espanholas que têm fronteira com ele, até Huelva e ao
cabo de S. Vicente, numa ampla faixa cujo limite oriental estaria
assinalado um pouco a Este da antiga Calzada de la Plata(e). Os
megalitos, a partir daqui, estendem -se — com características
variáveis que veremos mais adiante — por quase toda a Andaluzia, e o
limite dessas descobertas alcança, na província de Almeria, os baixios
do rio Almanzora(7). De modo um tanto diferente, sem construir
precisamente zonas seguidas, encontramos ainda monumentos
megalíticos nos contrafortes meridionais da cordilheira ibérica, em
volta dos montes Obarenes e da serra da Demanda, nas províncias de
Soria e Burgos. Mas a característica destes dólmenes situados mais no
interior da Península é a de não possuírem — pelo menos nos
encontrados até ao momento — a grande lousa central que serve de
teto. Tal cobertura foi substituída, de acordo com os já encontrados,
por uma série de pedras colocadas sobre as lousas laterais, formando
uma falsa cúpula, que se cobriria provavelmente com um teto de
ramas sustidas por um tronco de madeira central, do qual se
encontraram marcas nas escavações. Nestes dólmenes surge a idéia de
que, ao serem construídos, continuava o rito que tinha inspirado o
levantamento dos grandes megalitos mais ao norte, mas que faltava
algo: a técnica ou o poder que permitia precisamente a colocação da
enorme lousa no teto.

Fig. 28 — O dólmen burgalês de mazariegos, um «tos maiores e mais completos dos que
se encontram à altura do paralelo 42.
Megalitos de todos os tipos — excetuando talvez os alinhamentos
— multiplicam-se por estas zonas peninsulares que temos assinalado.
E estou certo de que houve na antigüidade — mesmo na menos
remota — muitos mais, hoje desaparecidos, se bem que se conserva a
sua lembrança nos topônimos de muitos lugares, em muitas terras:
Pedrozas, Piedrahitas, Tragoarri(8), Antas(9), Teriñuelos(10).
Se procuramos assimilar as explicações arqueológicas que se
deram a propósito da origem e desenvolvimento da cultura dolménica,
o único que teremos oportunidade de comprovar será infelizmente, a
absoluta falta de critério unitário de uma tal diversidade de teorias e de
explicações que dificilmente poderíamos resumir num esquema geral
que pudesse conduzir o estudioso ou o amante da história antiga por
um caminho claro e compreensível. Jaime Vicens Vives, que foi até à
sua morte um dos poucos historiadores lúcidos entre os espanhóis e
mais amante da verdade — por muitas dúvidas que levantasse — que
de teorias alicerçadas no ar, diz: «Nos meus bons tempos, o neófito
pré-historiador tinha de ser ocidentalista, sobretudo na questão dos
megalitos. Agora, pelo contrário, tudo provém do Oriente» (¹¹)
A seguir a este parágrafo, também ele expõe a sua convicção,
baseado na origem oriental da cultura megalítica. Não o analisaremos
nem o criticaremos agora; limitar-nos-emos a expor a realidade geral
tal como aparece na Península e é aceite pela maioria dos pré-
historiadores. Seguirei para isso a exposição do professor Alberto dei
Castillo(¹²), com a advertência — apresentada por ele próprio — de
que a grande maioria dos estudiosos espanhóis duvidam desde Bosch
Gimpera até Pericot, da existência de um autêntico neolítico
Peninsular. O próprio Luis Pericot, depois de um estudo minucioso
das grutas valencianas, comprova que unicamente a cerâmica aparece
como elemento próprio deste período, enquanto que os restantes
utensílios continuam a ser fabricados de pedra trabalhada. É
importante que assinalemos a existência desta dúvida insólita, posto
que precisamente a cultura dos dólmenes começa a verificar-se neste
momento da pré-história, a partir de uns 3000 anos antes de Cristo,
prolongando-se até depois do início da Idade do Bronze e inclusive -
afirmam-nos alguns —, em ocasiões isoladas, até à época da
dominação romana (¹³).
De acordo com a realidade aceite pelos arqueólogos, entre o fim do
período mesolítico e o começo da Idade do Bronze, aparecem na
Península Ibérica três culturas diferentes. A primeira seria, para eles, a
chamada Cultura das Grutas, a segunda a Cultura Megalítica, a
terceira a Cultura de Almeria. Vamos ocupar-nos das duas primeiras e
trataremos de vislumbrar até que ponto serão, efetivamente, duas
culturas diferentes.

CULTURA DAS GRUTAS


As suas manifestações parecem estar disseminadas por toda a
Península. De acordo com os lugares produz, eventualmente,
diferentes técnicas de fabricação de utensílios, mas apresenta em todo
o território peninsular idêntica mentalidade. Caracteriza-se — atenção
a esta circunstância — pela ocupação, como habitações, de grutas
paleolíticas que anteriormente tinham sido utilizadas como santuários.
E atribui-se esta ocupação ao abandono da vida nômade dos caçadores
pela vida sedentária dos agricultores. As cavernas, por profundas que
sejam, apenas são habitadas na sua parte mais próxima da entrada, até
onde chega a luz solar. O fundo da caverna continua a utilizar-se como
lugar mágico, para o culto.
Personaliza-se esta chamada Cultura das grutas por uma série de
características que devemos ter em consideração:
a) Por uma cerâmica abundante, de vasos de grande tamanho.
b) Por uma indústria pobre de osso.
c) Pela utilização da pedra polida-
d) Pelo uso de objetos de cestaria modesta: cestos e calçado.
e) Pela coincidência das suas localizações com os núcleos mais
importantes da chamada arte rupestre esquemática.
f) Pela paralela coincidência com a proximidade de construções
dolmênicas.
g) Pela existência de uma considerável quantidade de talismãs de
osso e de conchas, nos jazigos.
h) Mas não se encontram jóias de nenhum tipo, sem uma única
excepção(¹4).
i) Nas descobertas efetuadas nestas grutas, nunca se encontravam
armas ou utensílios de guerra (15).
j) Os restos dos ocupantes destes locais desapareceram quase na
totalidade (l6).
k) A talha do sílex é muito tosca, como que realizada por gente
não habituada a esta técnica, que vinha praticando-se desde há
milhares de anos em toda a superfície do planeta.
O professor Alberto de Castillo reconhece: «A origem da Cultura
das grutas é algo obscura, já que desconhecemos os seus primitivos
estádios de evolução e quando aparece tem já as suas características
próprias e definidas». E, um pouco mais à frente, acrescenta: «O
caráter genuinamente espanhol desta cultura ressalta dos fatos que
observaremos. Em primeiro lugar, o fenômeno cultural do vaso
campaniforme, que nela se forma e consegue impor-se em toda a
Península durante o Pleno Eneolítico e transmiti-lo à Europa inteira
até um momento adiantado da Idade do Bronze. Por outro lado, deve
apontar-se a longa duração dos seus fenômenos culturais».
De todas as características que enumeramos e das deduções que se
tiram, não creio que possamos negar certas conclusões que
tacitamente já estejam dadas, se bem que os próprios que as
expuseram talvez tentassem negá-las.
Umas grutas que até aos períodos imediatamente anteriores foram
utilizadas como santuários, vêm a ser habitadas por gentes de quem
conhecemos as raízes étnicas, mas que têm a singular característica de
desconhecer a talha da pedra — ou de conhecer, em troca, o uso da
cerâmica e o segredo do cultivo das plantas. Curiosa espécie de gente
que pinta símbolos incompreensíveis, curiosa gente que não faz a
guerra nem pratica a caça, curiosa gente que faz desaparecer os seus
próprios cadáveres. Curiosa gente a quem os seus vizinhos não ataca.
Curiosa gente que parte à procura das suas habitações em velhos
santuários- Curiosa gente que, depois de um milhão de anos de vida
do homem sobre a Terra, descobre a necessidade de andar calçada.

CULTURA MEGALÍTICA
Seguindo sempre a exposição de Alberto dei Castillo, a cultura
dolménica aparece na Península com o princípio do chamado período
neolítico. Localiza-se em primeiro lugar - num primeiro estágio - nas
comarcas portuguesas da Beira e Trás-os-Montes, e estende-se
rapidamente pelas terras do Atlântico e até à Estremadura num
primeiro impulso expansivo; depois, pela zona peninsular que
descrevemos anteriormente: todo o norte do paralelo 42 e a quase
totalidade da Andaluzia, a sul. O material encontrado nos megalitos e
à sua volta caracteriza-se em linhas gerais por:
a) Abundância de sílex, sob a forma de microlitos e de pedras
talhadas em figuras geométricas: triângulos e trapézios. Encontram-se
igualmente raspadeiras e instrumentos pontiagudos.
b) Abundante material de pedra polida, fabricada em deorite e
basalto. Fundamentalmente o material consiste em machados de tipos
muito diferentes.
c) Aparição de uma cerâmica pobre, geralmente de pequeno
tamanho, sem asas que são substituídas por saliências com buracos,
como que para serem penduradas.
d) Adornos feitos à base de ossos de animais e de conchas
perfuradas.
e) Os megalitos situam-se em lugares de penetração: passagens,
desfiladeiros, vales.
f) Há abundância de armas.
A partir destas características, o professor Alberto de! Castillo
define este povo como «empreendedor e comerciante, hábil
guerreiro», sem ter em conta que precisamente muitas das
características anteriormente apontadas por ele próprio como
específicas desta cultura parecem querer desmentir uma afirmação tão
rotunda. Por exemplo poderíamos considerar como próprio de um
povo comerciante e empreendedor a fabricação de microlitos, que
exigiriam sem sombra de dúvida uma paciência bastante maior que a
fabricação de sílex de tamanho normal?
Poderíamos considerar comerciante e empreendedor um povo que
aplica o seu esforço na construção — aparentemente gratuita, ou pelo
menos pouco dinâmica — de monumentos para os quais, logicamente
haveria de ser necessário um esforço sobre-humano de grande parte
dos componentes da tribo que habitasse o enclave?
Examinemos os fatos anteriormente expostos de outro ponto de
vista e comprovaremos que se podem tirar outras conclusões. Não
digo que sejam certas e inamovíveis, mas podem resultar, pelo menos,
tão lógicas como as indicadas.
Consideraremos em primeiro lugar, que os enclaves da chamada
cultura das grutas estão, muitas vezes, nas proximidades de
construções dolmênicas.
Observemos em segundo lugar, que se as cerâmicas das grutas são
grandes e próprias para conter alguma coisa — poderíamos chamá-las,
utilitárias — as dos megalitos são pequenas e sem asas, como se
fossem feitas para serem penduradas.
Não indica isto que poderia tratar-se de uma mesma gente, que
construiu um outro tipo de vasilhas conforme as destina para conter
alimentos ou para um uso talvez ritual nos dólmenes?
Não será possível que os habitantes das grutas sejam os mesmos
construtores dos dólmenes? Não serão homens procedentes de outra
cultura — de uma origem hoje desconhecida —, que expressavam as
suas idéias em pinturas crípticas e que demonstravam os seus poderes
construindo monumentos incríveis que seriam venerados pelos
homens através de centenas de anos, como obra de seres sobrenaturais
dotados de poderes que as comunidades vizinhas consideravam como
mágicos?
Imperceptivelmente procuro ver estes homens como robinsons
herdeiros de uma cultura superior, da que ainda conservam uma parte,
lançados na necessidade de sobreviverem pelos seus próprios e
escassos meios numas condições a que não estavam acostumados- A
cerâmica tosca seria, portanto, produto de uns homens que sabiam
perfeitamente que existiam as vasilhas, mas que não eram
profissionais da sua construção. O calçado fá-lo-iam para proteger os
seus pés, que ao contrário dos pés dos vizinhos autóctones, não
estavam acostumados a caminhar descalços.
As grutas seriam habitadas porque, como herdeiros dos mestres —
deuses, tinham o direito adquirido de ocupá-las. Não tinham
necessidade de armas, porque os seus vizinhos respeitavam-nos como
deuses. E as armas encontradas nos dólmenes seriam fabricadas por
esses mesmos vizinhos, que as depositariam nos templos de
construção mágica como ex-votos e como demonstrações de respeito
mítico que ainda hoje se tem no País Basco pelos jentilla.
Recordemos novamente estes gentis: seres mágicos, protetores dos
homens, gigantescos, de força incrível, habitantes de cavernas e
construtores de megalitos. Seres aparte, seres de origem mítico,
desconhecidos, capazes de deslocarem prodigiosamente pedras
enormes: magos, enfim, dotados de poderes que não possuíam os seres
primitivos que viviam nas suas vizinhanças. Poderes que sem dúvida,
não se limitavam unicamente ao conhecimento da agricultura, se bem
que esta seja a característica mais concisa que nos mitos bascos se
atribui aos gentis. Por isso, as suas obras testemunhais — os megalitos
— foram objeto de culto, como obra realizada pelos deuses chegados
de um lugar desconhecido e cujos poderes os tornavam, sob todos os
aspetos, tão superiores que só como deuses ou mestres podiam ser
considerados.

Fig. 29—-Em Sahelices (Salamanca) os camponeses converteram em armazém de


reparações um dólmen quo se erguia perto de uma ermida abandonada. A continuidade do
lugar mágico é evidente

A falta de restos nas grutas impede-nos de fazermos uma idéia do


seu aspeto físico.
Mas os bascos, nas suas lendas, consideram-nos — já o vimos —
como gigantes. E também como gigantes os relembra o mito grego de
Hércules, que lutou com Gerión e com Anteo — ambos gigantes —
para arrebatar-lhes, respectivamente, os segredos da ganaderia — as
vacas vermelhas — e da agricultura — as maçãs de ouro —. O
historiador Plutarco, ao relatar a vida de Sertório e ao descrever as
suas vitórias sobre os tingitanos recorda: «Dizem os tingitanos que
está ali enterrado

Fig. 30 — Na cripta da Capela de Santa Cruz, em Cangas de Onis, um dólmen recorda a


existência dos cultos nos mesmos lugares através dos tempos.

Anteo, e Sertório fez abrir o seu sepulcro, não querendo dar crédito
àqueles bárbaros, devido à sua desmedida grandeza; mas à vista do
cadáver, que tinha de comprimento, conforme se conta, sessenta
braços, voltou a fechar a sepultura, tendo-lhe com isso dado maior
honra de fama(17).
Que os habitantes das grutas foram efetivamente gigantes ou que
tiveram a força e o poder que se podia atribuir aos gigantes é algo que,
pelo menos agora, é impossível de comprovar. Não há restos
humanos, mas apenas obras, templos megalíticos que só uma força
inconcebível..., ou poderes para-normais teriam sido capazes de erigir
e que, século após século e civilização após civilização, foram objetos
de culto e de peregrinação por parte daqueles que quiseram talvez
aprender nas suas fontes o poder dos que os tinham construído.
A sua obra em pedra bruta é o único vestígio visível e inamovível
da sua presença. Mas deixaram algo mais: os ensinamentos secretos de
uns conhecimentos que, ao longo do tempo, outros homens quiseram
aprender, procurando descobrir os mistérios que pudessem ter deixado
nos lugares que tinham habitado Um ensino que devia fazer parte da
própria natureza do homo sapiens e que o homo saber esqueceria ao
substituir as suas próprias possibilidades naturais pela técnica (18). Um
ensino que, possivelmente limitado a gerações de adeptos, se
conservou secreto e constante nas mãos de uma rigorosa minoria que
através dos séculos, continuou a possuir — ou tentando possuir — os
poderes e os conhecimentos dos primitivos mestres.

Fig. 31—Na pilastra que sustenta a ermida da Santa Cruz o relevo de uma cruz (feita de
espinhos) sobre uma lua contam em clave simbólica a existência do rito perdido no tempo.

Um ensinamento, enfim, ao mesmo tempo desejado e repudiado


pelas minorias detentoras do poder ao longo da história: desejado
enquanto beneficiava essas minorias: repudiado quando podia existir
perigo de que uma parte daquela sabedoria chegasse sequer a ser
entendida pela generalidade dos homens que essas mesmas elites de
iniciados tinham sob o seu domínio. Precisamente por isso, os
concílios toledanos dos anos 681 e 682 condenaram os veneratores
lapidum, os adoradores das pedras. Por isso o concilio de Rouen, em
698, denuncia os que põem velas votivas nos dólmenes ou fazem
promessas e orações perante eles. Por isso também há dólmenes com
símbolos cristãos. Por isso grande parte dos dólmenes galegos se
encontram materialmente rodeados de cruzeiros que nem por não
serem de natureza cristã deixam de proclamar a sua origem luar e
solar anterior.
Mas precisamente pelo contrário, a causa desse poder que os que o
possuem querem adquirir da sabedoria antiga, há ainda por Espanha
dólmenes que servem de mesa de altar em templos cristãos, dólmenes
que formam os alicerces de capelas veneradas pelo culto popular(19);
por isso muitos mosteiros foram edificados nas proximidades de
aglomerações dolmênicas. Por isso, os nossos nunca bem conhecidos
amigos templários solicitaram aos reis castelhanos e aragoneses o seu
estabelecimento em determinados enclaves megalíticos, para
estabelecer neles as suas ordens.
Os megalitos eram para eles — como o foram, antes e depois, para
muitos outros — sinais inequívocos de uns lugares tradicionalmente
sacralizados pela presença ou pela herança de uns seres
excepcionalmente sábios e poderosos, capazes, através dos milênios,
de fazer chegar os seus ensinamentos aos que tivessem força e valor
suficiente para encontrá-los, a eles ou aos herdeiros do seu saber.
13

OS LUGARES E A SUA MAGIA

Nos montes guipuzcoanos que rodeiam a localidade de Oyarzún há


uns vinte cromlechs. Os camponeses chamam-nos mairubaratzak:
hortas de mouros.
A volta da contígua localidade de Arano existem outros cromlechs,
mas ali denominam-se jentillbatzak: hortas de gentis.
Os cromlechs, em linhas esquemáticas, são recintos rodeados de
penhascos que os delimitam, espetados no chão e formando figuras
geométricas que quase sempre coincidem com o círculo, mas que
eventualmente podem configurar retângulos, pentágonos e até
octógonos ou outros polígonos. Acontece freqüentemente que muitos
dos cromlechs retangulares estão orientados de acordo com os pontos
cardeais ou de frente para o nascimento do sol nos solstícios ou nos
equinócios. Verifica-se igualmente o caso de que grande parte deles
mantêm nas suas medidas aparentes — comprimento, largura e altura
das pedras que os formam — a proporção 3-4-5, clássica e
característica da proporção pitagórica: 32+42=52.
Muitos dos cromlechs do País Basco — a maior parte deles,
poderíamos assegurar — encontram-se em zonas que foram no
passado imediato focos de bruxaria e albergaram muitos dos
processados e condenados pelo Tribunal do Santo Ofício de Logrono
do processo inquisitorial que teve lugar em 1610, caso conhecido na
história da Inquisição como o de «As bruxas de Zugarramurdi»( 1) Os
cromlechs daquelas zonas seriam, sem dúvida, lugares habituais de
reunião dos bruxos, e é mais que provável que as danças em círculo
próprias dessas reuniões tiveram lugar precisamente nos recintos
daqueles cromlechs, alguns dos quais — situados na comarca de
Ataúm, nas imediações do monumento atual ao padre Donostia —
chega a ter vinte metros de diâmetro. À volta da zona em que
abundam os cromlechs bascos — que compreenderia um triângulo
ideal, definido pelas cidades de San Sebastian, Biarritz e Pamplona -
multiplicam-se os topônimos ancestrais derivados de LUG: Saint-
Jean-de-Luz, Leiza, Lesaca, Lezo, Louhossoa, Luzurriaga, Lizasoain,
Loyola (!); há várias ermidas dedicadas a Santa Luzia e por aquelas
mesmas paragens corre o rio Leizarán...

Fig. 32 — A ermida templária de Eunate segue na sua estrutura as características dos


cromlechs megalíticos
Mas ainda há mais: dentro deste triângulo ideal ou muito perto
dele, encontram-se as cavernas pré-históricas de Santimamiñe, de
Lumentxa, de Bolinkoba, de Urtiaga e outras mais, todas elas
santuários paleolíticos e habitadas depois por gentes que no capítulo
anterior definimos como criadores da chamada Cultura das grutas.
E ligeiramente para o Sul deste triângulo ideal encontra-se a
ermida templária de Eunate. Detenhamo-nos em alguns fatores: o
primeiro deles, que Eunate é uma transposição fonética de Ataúm, o
enclave com mais cromlechs da comarca; o segundo, o claustro
poligonal que contorna os oito lados do templo dos monges
guerreiros. Há quem assegure que também os templários bailavam em
círculo ao redor daquele claustro.
Se assim fosse, Eunate viria a ser o equivalente de um cromlech
cristianizado pelos princípios religiosos, não demasiado ortodoxos,
dos templários.
Mas disse-o o concilio toledano, anatema sit veneratoribus
lapidum.
Em Autol — província de Logroño - duas grandes pedras ao alto,
chamadas pelo povo o Picuezo e a Picueza, parecem ameaçar — ou
proteger, isso depende de como se olhe — a própria sobrevivência do
povo.

Fig. 33.— Ao pó dos Mallos a povoação de Riglos acolhe-as às influências benéficas dos
enormes rochedos que, como menhires naturais, influem na terra que circundam.

Em Riglos — província de Huesca — os Mallos, enormes


penhascos como falos ou dedos de arenisco vermelho, dominam as
casas da aldeia e, marcam, com a sua presença, a estrada de um vale
mágico donde se localiza, escondido detrás de bosques muito espessos
de faias e de robles, o mosteiro beneditino de San Juan de Ia Pena,
antigo mosteiro eremítico encravado na entrada de uma concavidade
da rocha.
Em ambos os casos, a sobrevivência das povoações depende, de
certo modo, da presença dos imensos molhes de pedra suspensos
sobre eles, que não se sabe se constituem um perigo ou uma proteção.
Sou levado a pensar que sempre tenham sido considerados como uma
proteção, porque seria absurdo imaginar que ambas as localidades, a
riojana e a oscense, tivessem sido construídas sob a evidência de uma
ameaça latente. Pode tratar-se de uma corrente de águas subterrâneas,
cuja passagem controlariam, de certo modo, os penhascos. Ou pode
tratar-se de uma determinada característica meteorológica ou climática
que os penhascos contribuiriam para que se verificasse naqueles locais
e não em outros das proximidades, afastados da sua influência direta.
Em qualquer caso, a localização de Autol e de Riglos não é de modo
algum obra do acaso(2).
Se pudéssemos estabelecer uma estatística sobre a localização de
muitos menhires, também poderíamos comprovar sobre números
exatos que uma proporção considerável deles se encontra sobre uma
corrente de águas subterrâneas ou põem em contato capas geológicas
superficiais de diferentes características. A impressão geral é de que
homens com conhecimentos especiais da natureza da Terra tivessem
espetado os menhires em lugares muito concretos para que atuassem
de um modo paralelo à ação das massas rochosas naturais, como
Millos ou as rochas de Autol. Por isso não é por uma circunstância
casual que os menhires estão presentes nas proximidades de
importantes balneários e ao" pé de muitas fontes de águas termais e
medicinais É como se, com a sua presença, o menhir chamasse a
atenção sobre as propriedades das nascentes próximas. Ou como se o
fato de estar ali ajudasse de algum modo a que as águas continuassem
a brotar e a conservar as suas qualidades.
Na zona Ampurdán, já na encosta dos Pirineus, ao lado do
pequeno desvio que conduz da estrada principal da Junquera até à
pequena povoação de Cantallops, vi construções dolmênicas no meio
de campos lavrados e os sinais do arado rodeavam cuidadosamente o
penhasco, como se ele próprio fizesse parte do rito da própria cultura.
O fenômeno — que não o é, mas apenas um fato perfeitamente natural
— assinala-o Louis Charpentier referido a Marrocos, donde diz que os
camponeses consideram estas pedras como benéficas, porque retêm a
água que Deus manda desde o céu. Este fato faz com que Charpentier
lance uma idéia que de nenhum modo devemos deixar passar por alto:
a possibilidade de que, de uma maneira ou de outra, o menhir tivesse
sido colocado com a idéia racional de atuar positivamente sobre a terra
que atravessa, de um modo semelhante a como a acupuntura atua
sobre o corpo humano, isto é regulando e coordenando as correntes
internas que exercem a sua função sobre os estratos geológicos dos
terrenos. Os menhires traduziam, pois, uma ação direta do homem
sobre a terra que lhe há-de dar alimentos e vida; mas a ação direta —
evidentemente — de uns homens que necessitavam ter conhecimentos
agrícolas superiores, ou uma intuição muito especial, ou uns poderes
mentais e uma típica sensibilidade natural semelhante a que ainda hoje
possuem certos zahories, capazes de descobrir as correntes
subterrâneas de água com a ajuda de um pêndulo ou de uma vara de
zambujeiro em forma de forquilha.

Fig. 34 — Menhir de Moraña (Pontevedra). O homem introduziu a rocha na terra para


extrair do solo beneficio desconhecido que vinha das profundidades.

Na lenda mitológica grega de Orestes conta-se que o herói


arrancou um dedo em Messena, defronte do templo das maniai(³). Este
ato simbólico, que tem indubitável paralelismo com os dedos cortados
das moldagens de mãos das grutas paleolíticas e que significaria um
sacrifício ou um esforço para obter um determinado favor ou um
ensinamento mágico, completa-se no mito grego com um testemunho
significativo: a pouca distância do templo, sobre uma colina chamada
precisamente daktilu mnema (recordação do dedo), erigiu-se um dedo
enorme de pedra que, conforme pudemos deduzir, seria um menhir! O
menhir, neste caso, seria a comemoração de um pedido para aplacar as
iras, o testemunho e a ação de graças ao mesmo tempo pelo favor
obtido, nem mais nem menos que as figuras, de cera que os católicos
penduram nas paredes de certos santuários milagrosos. Ou - ainda é o
mais provável o ato ritual levado a cabo por Orestes, ou pelo
personagem que Orestes representava, seria a construção penosa do
menhir, tão significativa do espaço e do sacrifício tal como o da
própria mutilação mitológica.
Em muitas localidades hispânicas, atribui-se aos menhires a
qualidade de conceder a fecundidade às mulheres estéreis. Inclusive,
em algumas ocasiões, o rito desta fecundidade exige que a mulher se
esfregue materialmente contra a pedra, para que a virtude possa
cumprir-se.
Fecundidade dos seres humanos e fertilidade dos campos. Um
paralelismo que nos leva, sem qualquer esforço, à progressiva
transformação das crenças, impostas, a partir da Grande Mãe
fertilizadora dos povos caçadores à Mãe Terra fecundadora dos
camponeses e protetora da germinação de sementes plantadas.
Mas anatema sit veneratoribus lapidum.
Quase sem exceção no mundo e, portanto, sem exceção na
Península Ibérica, os megalitos encontram-se a menos de 150
quilômetros da costa.
Em Portugal, aos dólmenes dá-se-lhes o nome de mameoas ou
arcas.
Nas Baleares, as construções megalíticas são ses navetes, pela sua
forma de nave invertida.
As maiores concentrações européias de monumentos megalíticos
aparecem precisamente, nas três comarcas que mais entram pelo
Oceano Atlântico: Cornualha, Bretanha e Galiza. Além disso, nessas
zonas é donde se descobriram os que aparentemente são mais antigos.
Uma lenda bretã conta que as pedras de Carnac vão beber no
Oceano na noite de 24 de Dezembro, a maior noite do ano.
Em várias ocasiões se têm descoberto barcas votivas de terracota
entre os restos encontrados sob dólmenes.
Em Muxia (Corunha), perto do mar, há uma grande pedra oscilante
a Pedra d'Abalar, que pesa aproximadamente mais de sessenta
toneladas, e conta a tradição que serviu de barca a Nossa Senhora
quando chegou à Galiza para visitar o apóstolo Santiago. Nas
proximidades há outra pedra, chamada dos Cadrises, que cura as dores
das costas a quem passar por baixo da sua concavidade. Diante de
ambas está o Santuário de Nossa Senhora da Barca. Diz a crença
popular que a grande pedra Abalar só se mexe se quem se senta sobre
ela se acha em estado de Graça (4).

Fig. 35 — A singular Pedra dos Cadrisses, em Muxial (Corunha). Dizem que quem passa
por debaixo dela se sentirá curado de qualquer dor nas costas.

Mas anatema sit veneratoribus lapidum. Disseram-no os concílios


toledanos.
Os megalitos, tanto pela sua situação como pela sua difusão,
proclamam a sua procedência atlântica. Existem contemporaneamente
a oriente e a ocidente do Mediterrâneo, e se no oriente constituem de
certo modo o arranque de culturas importantes, no ocidente conservam
um caráter esotérico e misterioso, alheio por completo a qualquer
significado artístico, nem sequer secundário, como existe nas
construções megalíticas egípcias ou mesopotâmicas ou mais recente,
nas de Creta e inclusive de Malta, das ilhas Baleares e da Córsega.
O megalitismo ocidental parece obra de seres que, mais do que
deixar marca futura da sua presença, apenas quiseram erguer um
testemunho direto e imediato do seu poder e dos cultos e crenças que
queriam impor. Utilizando uma comparação próxima da nossa
mentalidade a diferença seria equivalente à que vai de uma catedral à
ermida perdida no meio do campo. A catedral está feita para
impressionar a lembrança das gerações presentes e futuras, como se
fosse uma amostra, tão do gosto da história, do que um povo
dominado por uma determinada fé é capaz de realizar. A catedral é,
enquanto obra do povo, um testemunho cultural. Por seu lado, a
ermida não tem pretensões de sobrevivência; é fruto da necessidade
imediata que tem o homem — ou a comunidade reduzida — de
refugiar-se e estabelecer um lugar íntimo de culto. A catedral está feita
para os outros; a ermida para o próprio. A catedral é pública; a ermida
é privada.
Contudo observemos um fenômeno curioso e revelador; há sempre
uma devoção das pessoas, uma devoção supersticiosa que é
infinitamente superior em relação a uma ermida do que em relação a
uma catedral. Ermidas milagrosas há muitas. Catedrais, não conheço
nenhuma.
A ermida, como o dólmen, tem qualquer coisa de escondido, de
secreto. Está, geralmente, longe dos núcleos povoados e
freqüentemente localiza-se no alto dos montes de difícil acesso ou no
fundo de vales escondidos dos olhares curiosos. O segredo por seu
lado, tem relação imediata com o conhecimento das coisas que
geralmente não são reveladas ao domínio público. São coisas mágicas,
coisas secretas, poderes ocultos que começam pelo próprio segredo
que rodeia a construção do dólmen ou a elevação de menhir.
Por isso, para as pessoas, para o povo, os dólmenes e os cromlechs
e os menhires foram sempre, geração após geração objeto de magia e
culto. O seu próprio aspeto: uma enorme pedra colocada aí não se sabe
como, ou uma lousa de várias toneladas transportada misteriosamente
desde muito longe e posta em estranho e perfeito equilíbrio sobre
outras lousas fixadas na terra, tudo favorecendo a idéia mágica.
E se essas obras eram o testemunho direto de uns seres
considerados como superiores que viviam nas grutas, longe dos
homens e capazes de sobreviver com o cultivo das suas próprias
hortas e com a criação dos seus próprios animais, tanto os seres como
as suas obras impossíveis de compreender e os seus. conhecimentos
impossíveis de captar converter-se-iam em matéria de magia, em
objeto de culto, em origem de crenças e de venerações.
Por isso, não acredito que seja um simples fato sem sentido que os
dólmenes palestinos se tenham chamado, desde sempre, betilos (de
Bethel, casa de Deus). O dólmen era um autêntico templo para os que
foram testemunhas da magia da sua incrível construção e para os que
conheceram a magia dos que o ergueram. E esse fato faz supor aos
arqueólogos que os dólmenes eram monumentos funerários, sem se
deterem a pensar que a descoberta de sepulturas no seu interior ou na
sua base faria parte do próprio culto que se prestava no templo. A
prova mais palpável poderá ser encontrada no fato aparentemente
absurdo de que o templo megalítico de Stonehenge, finalmente
reconhecido por todos os estudiosos como templo solar — se bem que
possa ter sido muito mais do que isso —, contenha numerosos túmulos
no seu interior e nas suas redondezas.
Que diríamos de um culto moderno que recomendasse aos seus
fiéis serem enterrados nas imediações do observatório do Monte
Palomar ou à volta do Cabo Kennedy?
Mas ainda há mais- Debaixo do dólmen do Monte Abraão, em
Portugal, foram exumados oitenta esqueletos; muitos mais do que o
tamanho do dólmen permitiria, se tivesse sido construído
expressamente para albergar mortos. E no de Monastier (Lozére,
França), encontraram-se sessenta esqueletos.
Em muitos dólmenes encontraram-se corpos de diferentes tipos
raciais e de diferentes épocas, enterrados juntos. Até no mesmo
dólmen se encontram corpos sepultados e corpos incinerados, metidos
em urnas (5).
E inclusive, como indicamos em páginas anteriores, foram
descobertos em dólmenes peninsulares enxovais, que abarcam
períodos de tempo desde o neolítico até à época visigótica.
Não significam estes testemunhos que os dólmenes foram, sem
quaisquer dúvidas, templos donde era uma honra — e um rito —
enterrar os mortos?
É possível que peque por crédulo quando se trata de dar crédito às
tradições populares. Contudo, vejo que há sempre nelas um fundo de
verdade maior que o que nos é sugerido pelas suas aparentes
ingenuidades. É verdade que, muitas vezes, essas tradições têm de ser
selecionados, e tirar delas o que sucessivos estratos culturais foram
acrescentando e deformando. Porém, subsistem esquemas que são
perfeitamente válidos, quando só eliminam os pormenores acessórios.
Pois bem, no esquema que resta, uma vez retirados os aditamentos
supérfluos, um fato aparece perfeitamente claro nenhuma das
tradições, lendas, atribuições e superstições populares que eu conheço
referentes aos monumentos megalíticos alude a um possível caráter
funerário dos dólmenes.
Serão casas de fadas, refúgios de anões, palácios de fantasmas ou
grutas de piratas ou de ladrões ou de mouros, mas nunca — nunca!,
atenção — se lhe chamará casas de mortos, nem cemitérios de nada,
nem túmulos de nenhuma coisa ou ser.
Túmulos os chamarão unicamente .. os arqueólogos que; uma vez
mais. racionalizam uma evidência sem se deterem a analisar os
significados e as razões que essa mesma evidência possa ter, para
além do que se sente e do que se vê.
14

PEDRAS, METAIS E TUDO O RESTO

Vamos começar este capítulo resumindo a idéia da evolução


humana que temos vindo a desenvolver até agora. É uma idéia que, no
meu entender, permite explicar tanto a permanência do fato mágico
através dos séculos — e que esta permanência tenha que parecer-lhe
inegável a quem quer que seja, mesmo que não compartilhe a
explicação que se dá como causa nestas páginas - como a possível
origem de ritos e idéias religiosas cujo o ponto de arranque
desconhecemos. A evolução de ambos os conceitos, da mesma forma
que a sua persistência, vivemo-la ainda nos nossos dias, e as suas
marcas encontram-se ao longo da história e sobre o próprio terreno da
nossa geografia.
Mas, em qualquer caso, muitas páginas de explicações e de
hipóteses podem esquematizar-se na enunciação de alguns passos que
são fatos consumados no.que se refere à sua realidade, se bem que
sejam hipóteses quanto à sua causa:
1. O homem do paleolítico superior, variante estranha e anômala
dos hominídeos que o precederam, pôde receber esporadicamente ou
de forma continuada, a visita dos exploradores — mestres precedentes
do mar que lhe ensinaram magicamente a racionalização da sua vida,
da caça e dos mais elementares princípios da fertilidade animal.
2. Durante o período mesolítico — epipaleolíticos — grandes
transformações na estrutura geológica e climatérica da Terra
produziram, num principio, um forte traumatismo nos povos
primitivos, cuja forma ancestral de vida caçadora se viu alterada pela
emigração de espécies animais, devido a alucinantes mudanças
climáticas e por alterações geológicas que para ele resultavam
incompreensíveis.
3. Nos finais deste período, e durante tempo indeterminado,
começavam a aparecer, nas zonas contíguas com as vertentes
atlânticas, os restos de povos desconhecidos até então, provavelmente
sobreviventes e herdeiros de uma civilização Superior desaparecida
nos cataclismos geológicos que se produziram.
4. Estes sobreviventes, pelo seu escasso número e pelas precárias
condições de vida que têm de adotar depois da sua salvação do
desastre, não atuam como povo diretamente dominador, pelo menos
ao princípio, mas levam consigo a semente de uns conhecimentos
superiores e, em muitos casos, de um desenvolvimento mental que.
lhes dá a possibilidade de dominar de modo efetivo os povos
primitivos com os que têm de conviver.
5. Uma parte destes sobreviventes atlantes — chamamos-lhe assim
para manter o nome transmitido pelos mitos — permanece na frente
atlântica européia, exercendo uma espécie de colonialismo mágico que
tem o seu testemunho no desenvolvimento ainda misterioso da cultura
megalítica mais primitiva.
6. Outra parte travessa o norte de África e, estabelecendo-se nas
zonas férteis de aluvião dos grandes rios — o Nilo, o Tigre, o
Eufrates, o Indo — constituem o arranque das primeiras e mais
importantes civilizações históricas reconhecidas: Egito, Suméria e
Mohenjo Daro.
Até aqui existe uma idéia geral que, certamente, não satisfará os
historiadores e arqueólogos racionalistas. Porque sem dúvida alguma,
faltam as provas materiais suficientemente reveladoras da sua certeza,
se bem que abundem já os testemunhos mitológicos e tradicionais,
deformados pela transmissão oral através do tempo. Esta idéia geral,
em qualquer caso, orientar-nos-á na explicação de alguns fatos, de
alguns fenômenos e de algumas mudanças históricas que não
poderiam ter uma razão válida se atendêssemos unicamente aos restos
arqueológicos e antropológicos que foram encontrados até agora.
Fica contudo, um ponto que necessita de esclarecimento mais
pormenorizado: precisamente a relação existente entre os pontos 5 e 6
do esquema estabelecido.
Porque motivo, sendo uns e outros sobreviventes do mesmo
cataclismo e possuidores, uns e outros — em teoria — do mesmo
saber superior, os colonos atlantes estabelecidos no ocidente europeu
não deram origem a civilizações tão intensamente brilhantes e
espetaculares como as que surgiram no oriente mediterrânico ou no
vale do Indo?
Se nos socorremos, de novo, dos mitos originários citados e
relatados anteriormente, veremos de uma forma clara — a seu modo,
naturalmente, uma claridade necessitada de interpretação - que a
razão, a Cultura, a sabedoria, a bondade e, enfim, todas as virtudes,
todas!, estavam nesses mitos praticamente do lado dos que acabaram
vencendo na luta ancestral: Horus/Zeus/Thuata-de-Dannan. E que,
pelo contrário, todas as maldades, todas as adversidades, todos os atos
negativos faziam parte dos que perderam a batalha decisiva:
Seth/Cronos/Fir-Bolg.
Mas esta, infelizmente, é uma lei universal: a história, mítica ou
racional, sempre foi escrita pelo vencedor em qualquer batalha. Por
isso estamos acostumados a ver, ler e ouvir que o BEM sempre vence
o MAL. E isso, não porque realmente tenha sido assim, não porque
realmente o tenha vencido, não porque o vencedor seja melhor que
aquele que perde, mas porque esse vencedor é o que escreve a história,
sempre, e logicamente se atribui todas as virtudes e atribui todos os
pecados ao seu inimigo vencido. Porque tem de ser assim. Porque é a
lei da vida e a lei da história. Porém possivelmente a verdade eqüidista
de ambos os extremos em todas as batalhas.
E isso poderíamos comprová-lo sempre que fossemos capazes de
compreender as circunstâncias que rodearam cada ciclo do
desenvolvimento cultural humano nas áreas mais características.
Então, e só então, veríamos como há freqüentemente, fatores
alheios ao homem que o obrigam a atuar de determinada maneira
quando, em diferentes circunstâncias, se teriam portado de forma
diametralmente oposta. Inclusivamente acontece que, mesmo
comportando-se da mesma maneira — nem melhor nem pior —, essas
mesmas circunstâncias conduziriam ao desenlace final por caminhos
imprevistos até resultados muito diferentes.
V. Gordon Childe(¹) abre-nos os olhos perante esta circunstância
que pode, com idênticas causas, transformar os efeitos e dar diferentes
resultados culturais no Oriente e no Ocidente. Quero resumir as suas
próprias palavras para julgar a descrever a situação que se produzia
nos vales dos grandes rios orientais na época imediatamente posterior
à aceleração neolítica:
“Nelas (refere-se as depressões dos grandes rios mencionados
anteriormente), uma dotação abundante e infalível de água e um solo
fértil, renovado cada ano pelas cheias, asseguravam um abastecimento
superabundante de alimentos e permitia os crescimentos da
população”.
O crescimento da população aumenta também o número e a
natureza das necessidades que se têm de satisfazer.
A irrigação pôs nas mãos das comunidades um meio eficaz para
fortalecer a disciplina.
«Apesar da abundância de alimentos, os vales de aluvião são
extraordinariamente pobres noutras matérias-primas fundamentais
para a vida civilizada. O vale do Nilo necessitava de madeira para a
construção de pedra solta, de minerais e de pedras mágicas. A Suméria
encontrava-se em condições ainda piores. O Sind e o Penjab
(referência às comarcas do vale do Indo) sofriam da mesma escassez
de matérias-primas essenciais, como a Suméria.»
«Nas extensas planícies de aluvião e nos terrenos planos das
ribeiras, a necessidade de realizar grandes obras públicas para regar e
drenar a terra e proteger as povoações, fez com que a organização
social tendesse a consolidar-se e o sistema econômico a centralizar-se.
Ao mesmo tempo(...) viram-se obrigados a organizar algum
sistema regular de comércio e de trocas, para assegurar o
abastecimento de matérias-primas essenciais. A fertilidade das terras
deu aos seus habitantes os meios para satisfazerem as suas
necessidades de importações. Mas tiveram que sacrificar a sua auto-
suficiência econômica e criar uma estrutura econômica completamente
nova».
Continua contando Childe que o excedente agrícola permitiu a
esses povos manter uma elite de artesãos e comerciantes que
fabricariam e comercializariam os produtos de troca, e que depressa se
tornou necessária a criação de corpos armados para proteger os
transportes, e uma série de escribas para fazer o registro das
transações.
«Assim, pelo ano 3000 A.C., o quadro arqueológico do Egito,
Mesopotâmia e o Vale do Indo, já não concentra a atenção sobre as
comunidades de simples agricultores, mas sim em estados que
compreendem várias profissões ou classes.
O primeiro plano está ocupado pelos sacerdotes, nobres, escribas,
funcionários e um exército de artesãos e especializados, soldados
profissionais e trabalhadores de diferentes ofícios todos eles afastados
da ocupação primária de produzir alimentos».
Peço perdão por ter utilizado uma citação tão extensa, mas há que
reconhecer que dificilmente poderia resumir-se melhor a explosão do
processo civilizador.
A partir daqui, o progresso, a força do Estado, a necessidade de
empreender a guerra contra o vizinho que tem aquilo que o outro
deseja, a expansão e a lógica abundância de ofícios e ritos que se
transformam rapidamente — agora sim por um processo lógico e
natural - em manifestações artísticas e culturais, assim como a
concentração citadina, com todas as especiais condições de vida que
esse Estado leva consigo, tudo, absolutamente tudo, se torna diáfano e
compreensível, porque é humanamente necessário. Primeiro criam-se
as necessidades. Depois, a procura da satisfação de tais necessidades
cria, por sua vez, o progresso e o processo sócio-cultural.
E tudo isso acontecia, não nos esqueçamos, precisamente porque o
núcleo vital se localizou, naquelas determinadas circunstâncias, em
vales de fertilidade superabundante, dependentes ao mesmo tempo dos
ciclos espetaculares das estações.
Que circunstâncias vigoravam, naquelas épocas, no Ocidente
Europeu e, concretamente, na Península Ibérica?
Aproximadamente as mesmas que hoje, com uma discreta
abundância de vegetação que nos nossos dias se perdeu em grande
parte. Os rios relativamente pequenos e de curso normalmente regular,
criam vales donde a agricultura é sempre possível, mas não
precisamente luxuriosa. Nas zonas altas e nas mesetas cresceram os
bosques, mas a secura dominou o ambiente e as chuvas foram bastante
escassas. Invernos frios e verões muito secos obrigaram o homem a
lutar contra adversidades climáticas que não tinham a compensação
periódica das cheias espetaculares das águas. Os seres humanos em
tais circunstâncias, tiveram de aguçar o seu engenho para extrair da
terra o fruto necessário e, mesmo assim, tiveram de criar gado de
preferência à agricultura, porque as zonas de pastos abundavam em
maior grau que as propícias para as tarefas agrícolas. Como hoje. Uma
precária auto-suficiência nos meios de vida permite sobreviver, mas
em nenhum momento as circunstâncias naturais cooperam para uma
superabundância de produtos que fizesse crescer a população de modo
espetacular, nem muito menos que fizesse possível a necessária troca
de mercadorias.
Deste modo, para além de uma possível mudança de caráter dos
povos atlantes conferida pelos mitos — não esqueçamos os virtuosos
magos brancos que eram no poema gaedhélico os Thuata — vemos
como certas condições vitais — de vida dura, entenda-se —
influenciaram decisivamente no diferente desenvolvimento de uns
processos culturais que, pela sua origem comum, deveriam ter-se
desenvolvido paralelamente nos seus resultados.
No oriente mediterrâneo, as características especiais da natureza
obrigaram as castas sacerdotais — que eu identifico com os herdeiros
ou com os descendentes dos emigrantes atlantes — a transmitir uma
parte importante dos, seus conhecimentos, ao menos sob a forma de
magia, em favor de um trabalho coletivo que necessariamente tinha de
ser desenvolvido e conhecido por toda a comunidade ou, pelo menos,
por uma maioria. Por isso surge a grande surpresa de descobrir, já nos
alvores da civilização oriental mediterrânica, certos conhecimentos
metalúrgicos, geológicos, arquitetônicos, geográficos, astronômicos e
até matemáticos que ainda não foram realmente analisados nem, por
conseguinte, compreendidos pelos historiadores. Perante o fato
consumado, atribui-se o progresso a um ilògicamente acelerado
processo cultural. Mas custa a crer, contudo, que pudesse nascer do
nada todo este caudal de saber que ainda nos nossos dias por
inverossímil não se pôde catalogar.
Pois bem, todo esse conhecimento — e ainda muito mais, que
fazia também parte do saber secreto das castas sacerdotais do Oriente
— tiveram-no os construtores de dólmenes do ocidente atlântico
europeu. Com uma diferença: que determinadas condições vitais e um
número menor de colonizados aborígines permitiu, para além de um
regime especificamente agrícola e ganadeiro de subsistência, a
manutenção de uma modalidade esotérica de domínio colonial,
messiânico e primitivo, pelo qual os colonos atlantes conservariam
para si os princípios fundamentais do seu conhecimento, impedindo os
homens entre os que viviam que tomassem desse saber mais do que o
rigorosamente necessário para ajudá-los a sobreviver, e utilizando os
seus poderes superiores para seguir sendo considerados como seres
equiparados aos deuses.
Por esse motivo, a frente atlântica, mesmo sendo indubitavelmente
mais rica em jazigos metalúrgicos que o oriente mediterrânico
desconhecia na prática a técnica de trabalhar os metais, quando já no
Egito, Mesopotâmia e no vale do Nilo se tinha passado do ouro ao
cobre e do cobre ao bronze. Por isso, à construção das pirâmides
egípcias e dos zigguraths mesopotâmicos, imponentes obras coletivas
dirigidas por mentes evoluídas, corresponderam contemporaneamente
os dólmenes, Já periclitados no Oriente. E estes dólmenes tiveram que
ser erigidos por mentes também superiores, sem a colaboração da
coletividade, mas como uma demonstração de poder e como princípio
mágico de adoração. Da mesma forma que aos imensos obeliscos
monolíticos corresponderam de certo modo os menhires, e aos
templos de impressionantes colunatas os cromlechs. Contudo,
acontece o caso curioso de que no Oriente, no berço da civilização, a
lembrança de uma terra ou de um lugar no Ocidente — quase me
atreveria a chamá-lo, mais do que lembrança, vivência ou querença —
sobreviveu continuamente e em múltiplas manifestações, como se
aquele Ocidente donde tinham chegado os primeiros mestres fosse a
meta sonhada para a qual um dia se dirigiriam os vivos e os mortos.
Seria interessante fazer um catálogo exaustivo da querença
ocidentalista das civilizações. Mas na falta de tal catálogo, bastarão
agora alguns exemplos.
A grande maioria dos túmulos egípcios e mesopotâmicos têm os
seus mortos voltados para o Ocidente.
As grandes migrações de povos — dórios, ários, citas, mongóis,
hunos, muçulmanos — seguem a rota Este-Oeste, apenas com a
exceção do êxodo judeu para a Palestina.
As viagens mitológicas — com mais ou menos interesse comercial
— de Hércules, dos Thuata, de Ulisses, de fenícios, de egeus, e até a
própria viagem de Enéas, se dirigiram para Oeste.
No Ocidente situa-se o Hades grego e, em geral, o reino dos
mortos de todas as formas religiosas do Oriente. Não esqueçamos que,
nesse sentido, há um evidente paralelo entre o morto e o antepassado.
A terra para onde vão os mortos é terra dos antepassados. Certamente,
nesta querença ocidental — sobretudo nos rituais mortuários — houve
uma interferência dos ritos solares agrícolas.
O Oeste é, neles, a região do ocaso, o lugar por onde cada dia
morre o Sol para renascer pelo Oriente na manhã seguinte. Mas não
esqueçamos que esses ritos — forma mágico — religiosa de
conhecimentos profundos em matéria científica — também foram
instituídos pelas castas sacerdotais atlantes, tanto no oriente como no
ocidente mediterrânico. E, contudo, é um fato comprovado que nem
nos ritos funerários ocidentais se enterram os mortos voltados para
ocidente, nem há informações míticas nas lendas desta zona que
apontem para esse concreto ponto cardeal, mas sim «na direção do
mar» em geral. Um mar — o Atlântico — que, numas comarcas, fica
para Sul, noutras para oeste e noutras para Norte. Só a partir de
tempos históricos relativamente recentes — primeiro com a conquista
castelhana das Canárias e posteriormente com as viagens de Colombo
à América — a rota para Ocidente começa a revestir importância
primária nesta parte da Europa(2).
Mas ainda estamos cronologicamente muito longe destes tempos
históricos. Todavia a querença Ocidental é exclusiva dos povos
orientais do Mediterrânea E a essa querença responderá, precisamente
na Península Ibérica, a terceira cultura eneolítica da que nos falam os
manuais de história.
Disse algumas páginas atrás, seguindo a divisão geral das culturas
aceite hoje por grande parte dos historiadores e desenvolvida pelo
professor Alberto dei Castillo, que a etapa neolítica
— e prolongando-se no período seguinte da Idade do Bronze —
apareciam umas formas culturais diferenciadas sobre a superfície
geográfica da Península. Já comentei em capítulos anteriores a Cultura
das grutas e a Cultura chamada megalítica. Resta-nos a terceira: a
cultura de Almeria. Deixei-a deliberadamente para esta posição por
dois motivos fundamentais:
Primeiro, porque, cronologicamente, a sua aparição é um pouco
posterior às outras duas. Provas com o carbono 14 realizadas num
fragmento de madeira encontrado ao pé das muralhas argáricas deu-
nos uma data concreta: 2340 A. C.
Segundo, porque as suas características, reconhecidas amplamente
pelos historiadores, permitem-nos avaliar a possível procedência de
um povo que, tanto pelas suas manifestações culturais como pela sua
difusão, entronca novamente a arqueologia com os mitos ancestrais.
Contudo, chegado a um determinado e ao mesmo tempo impreciso
momento do progresso histórico, acontece que os historiadores
encontram, juntos e misturados, restos que pertencem indistintamente
a umas ou outras culturas. E este fato, tão normal por outro lado, faz
com que se tenham multiplicado teorias, opiniões e concessões.
Desejaria prescindir, dentro do possível, destas disputas que não
conduzem a nada. Penso que é sempre preferível ficar-se um pouco
aquém do que afundar-se num caos de opiniões dispares que nunca
chegarão a por-se de acordo. Creio firmemente que existe uma
realidade, que aparece mesmo involuntariamente, e que essa realidade,
em certas ocasiões, foi divisada pelos próprios historiadores que
depois a combateram.
Tudo começa quando, nos últimos lustres do século XIX — entre
1881 e 1887 para ser exatos —, os irmãos Henrique e Luis Siret,
belgas e engenheiros de minas, apaixonados pela arqueologia,
descobriram os preciosos restos que tinham o seu centro geográfico na
província de Almeria, precisamente entre os vales dos pequenos rios,
o Antas e o Almanzoras numa única comarca pouco distante do mar.
Publicadas as suas descobertas³ e fabricada sobre elas toda uma teoria
do passado histórico peninsular, que depois seria rebatida, reaceite,
transformada e deformada, o único que aparecia como certo, o que
ninguém podia por em dúvida, era o fato de que as descobertas
arqueológicas dos irmãos Siret eram um inestimável elo — com
discussões mais que discutíveis — na história da Península Ibérica. E
uma descoberta sem precedentes, por ser completa e exaustiva sobre
tais jazigos.
«Se o senhor deseja o mais belo museu do mundo, apenas tem que
cobrir com um enorme teto os noventa quilômetros que separam
Cartagena de Almeria» Estas palavras de Luis Siret, dirigidas ao
ministro de Instrução Pública do Estado espanhol, confirmam e
proclamam uma realidade preciosa que também resultará fundamental
na localização dos nossos indícios mágicos Peninsulares.
A primeira surpresa que nos oferece a cultura de Almeria a partir
das descobertas cronologicamente mais antigas — correspondentes,
certamente, a 2500 A. C. - é que, a diferença da Cultura dolménica e
da Cultura das grutas, põe de manifesto numerosos elementos exóticos
que mostram o contato das suas gentes com países mediterrânicos.
De que lado? Atenção, Jaime Vicens Vives é claro e taxativo na
sua afirmação: «Andaluzia conhece um grande desenvolvimento sobre
a tutela de jefes tribais que podem acumular tesouros e mandar
construir um ou outro túmulo monumental, recordação longínqua do
Egito faraônico, núcleo já esquecido da nova cultura hispânica4».
A Cultura de Almeria,.pois, parece vir já formada de outro lado.
As descobertas dos irmãos Siret, que contêm uma perfeita
continuidade cronológica, não referem, em nenhuma ocasião, que a
cultura da região de Almeria seja uma cultura em formação. A própria
descoberta de talismãs de marfim extraídos dos dentes de elefantes e
de rinocerontes, indica o caminho que seguiram os homens desta
Cultura Almeriense na sua migração: O continente africano.
Por outro lado, uma série de características distintivas fazem deste
povo um núcleo humano muito singular:
Viveram em povoações fortificadas sobre pequenas colinas perto
das costas. São pois, os primeiros habitantes da Península que
possuem uma cultura de certo modo urbana, em contraste com todos
os povos vistos até então e que, se viveram formando algum tipo de
comunidade, não tinham chegado ainda nessa época, a construir
núcleos organizados de população.
Nas proximidades das povoações construíram cemitérios para
enterrarem os seus mortos.
Esses enterramentos, muito numerosos, apresentam os cadáveres
metidos em grandes talhas de barro e sepultados em cistas de pedra.
Fabricam uma cerâmica de superfície lisa, rica em formas, mas
pobre na decoração.8
Nos estratos mais antigos, abunda o sílex em forma de facas e
pontas de flecha de trabalho delicado. Desde as povoações mais
arcaicas nota-se a presença de instrumentos metálicos. E o metal,
desde as primeiras provas conservadas de cobre, é Já trabalhado com
elementos da fundição e não — como acontece noutras culturas —
como elemento de percussão, isto é, trabalhado a golpes, como se
trabalha a pedra e sem prévia fundição- O primeiro metal encontrado é
o cobre. Em estratos posteriores encontra-se o cobre aliado com o
chumbo e, finalmente, a liga cobre — estanho clássica: o bronze.
Não percamos de vista este fato, e consideremos uma realidade
incontroversa: que os jazigos de piritas cupríferas em Almeria,
prolongando-se para o Norte até Cartagena e' para o Este — seguindo
pelo interior a linha costeira — até Huelva e o Sul de Portugal, são o
filão cuprífero mais importante da Europa. Ainda hoje são de capital
importância as minas de Rio Tinto em Huelva, e várias outras no resto
de Andaluzia.7 Isto sem contar com os jazigos de Vélez Rubio, e de
Huércal e da Serra Almagrera, na própria Almeria, muito perto das
concentrações urbanas da Cultura de El Argar.
Pois bem, é de supor que se o povo de Almeria tivesse descoberto
o cobre após a sua chegada aos lugares peninsulares, teria começado
por trabalhá-lo sem prévia fundição, como se tratasse de uma pedra8.
Contudo já nas povoações mais antigas, encontram-se tanto moldes de
fundição como escórias produzidas pelo tratamento do metal fundido.
Isto é, que o povo da chamada Cultura de Almeria chegou aos seus
primeiros enclaves do Antas e do Almanzora conhecendo já as
técnicas de trabalhar metal.
A primeira liga que utilizam os homens da Cultura de Almeria é a
do cobre com o chumbo, e só nas etapas posteriores da sua cultura —
se bem que essas etapas não sejam tão longas como se poderia pensar,
porque ocupam apenas uns poucos centos de anos — aparece o
bronze. Se levarmos em conta que também nas proximidades das suas.
povoações se encontram jazigos de chumbo — na serra dos Filabres
—, enquanto que o estanho necessário para obter o bronze só se
encontrava no norte de Espanha e, sobretudo, no noroeste»,
poderemos fazer uma idéia não só do tempo que demorou este povo
em abarcar com a sua influência a Península inteira, como dos fins e
das conseqüências da sua implantação no território peninsular.
No respeitante às possíveis crenças e à natureza dos seus ritos,
acredito que eram - se bem que procedentes de um ramo diferente -
povos de ascendência atlante, tal como os representantes,
anteriormente tratados, da Cultura das grutas. Levam-me a esta
conclusão dois fatos que merece a pena aprofundar.
O primeiro deles é a quantidade de topônimos LUG que
encontramos nas comarcas donde esteve primeiramente fixado o povo
da Cultura de Almeria: na própria província encontramos Lúcar —
aldeia e leito -, o rio Luchena, Lijar, Los Lobos, Lubrin, Lucainema, o
barranco Lagón, Laujar...; isto sem contar com outros nomes que têm
origem paralela. Trata-se de uma concentração de topônimos apenas
comparável às concentrações semelhantes da Galiza e do País Basco10.
O segundo é a utilização de elementos megalíticos na arquitetura.
A presença de megalitos argáricos tem sido a causa principal de
muitas polêmicas arqueológicas, pois têm-se identificado as obras
megalíticas da Andaluzia com as manifestações dolmênicas do resto
da Península. Contudo, acredito que, partindo de um princípio
arquitetônico e religioso — chamemos-lhe religioso — único, não tem
absolutamente nada a ver com o dólmen do tipo de Eguilaz, Dombate,
ou Vallgorguina, com os também chamados dólmenes do El Romeral,
da Menga ou de Matarrubilla. Os primeiros são templos primitivos,
demonstração mágica e direta de poderes sobre-humanos que devem
ser respeitados e que têm que ser divinizados. Os magos construtores
trataram unicamente de plasmar neles a marca dos seus poderes, de
demonstrar palpavelmente o que eram capazes de fazer e, sobretudo,
de divinizar um solo que ficava assinalado com a marca da sua magia.
E, ainda mais do que a sua magia, da sua presença.
Pelo contrário, as construções megalíticas andaluzas — com
algumas outras, que aparecem mais esporadicamente no interior da
Península — são, nas palavras Vicens Vives, as grandes catedrais da
época.
Certamente, tal como os templos megalíticos malteses, os
dólmenes andaluzes eram lugares donde se celebrava um culto¹¹. Por
isso as enormes pedras que os formavam — tão grandes ou mais que
as que constituem os dólmenes abertos não são deixados ao ar. Deixá-
las ao ar seria, como acontece nos dólmenes abertos, demonstrar que o
que se fez é um repto para que os outros o realizem. Pelo contrário, a
construção megalítica andaluza é coberta por um montículo de terra,
de tal modo que, das imponentes lousas que a compõem, unicamente
se vê desde fora o dintel que serve de entrada. E é precisamente essa
entrada a que indica a localização do templo e não, como nos
dólmenes abertos, a totalidade imponente das lousas deixadas à vista12.
Nesse sentido parece-me claro que, num determinado momento
histórico - ou proto-histórico - da Península, convivem nelas duas
culturas megalíticas diferentes e julgo que antagônicas.
A primeira delas, a que estudamos em capítulos anteriores,
formou-se na própria Península e, pelas amostras arquitetônicas que
legou, parece retratar-nos uma comunidade reduzida, que manteve os
aborígines num regime de colonialismo baseado no exercício dos
poderes mágicos de que eram possuidores, e que em nenhum
momento legaram à comunidade.
A segunda, formada muito provavelmente no Egito ou nas suas
proximidades, instalou-se nas comarcas cupríferas do sudoeste
peninsular e, portadora de uma cultura mais evoluída — no sentido
tecnológico — e com líderes — príncipes ou sacerdotes —
possuidores da mesma sabedoria atlante que os colonos da Cultura das
grutas, foram tomando o lugar dos magos construtores dos dólmenes e
expandindo a sua própria técnica e a sua cultura por todo o território
peninsular. Posteriormente—e voltamos a usar palavras de Vicens
Vives13 — «levaram a sua boa nova até Portugal e à Galiza, que nesse
momento adquirem a sua primeira plenitude cultural; mais longe
foram até à Bretanha, à Cornualha e à Irlanda. Em .todas essas regiões
triunfaram os megalitos, nas suas várias formas Sob a sua influência, o
Sul de Espanha alcança a sua primeira Idade do Ouro».
E agora, momentaneamente, voltemos aos mitos. Concretamente
ao mito do Leabhar Gabhala, que tantas vezes apareceu nestas linhas
para surgir como uma espécie de corroboração da história ignorada ou
apenas suposta.
Recordemos os Fir-Bolg: possuidores de magia negra, obrigaram
os Thuata-de-Dannan a deslocarem-se para o oriente mediterrânico.
Mas os Thuata eram magos brancos. Os Thuata conquistaram de novo
a terra da sua salvação e os magos negros tiveram que esconder-se em
grutas secretas, no mais profundo da terra, desde donde — conta o
poema —. ainda continuam a exercer a sua maligna- influência sobre
os mortais. Prescindamos da, bondade ou malignidade objetiva de um
ou de outro povo do mito. A essência deste é que os Thuata
deslocaram os Firg-Bolg e obrigaram-nos a viver na clandestinidade, a
eles e aos seus descendentes. A realidade arqueológica é que a Cultura
de Almeria se estendeu a toda a Península, substituindo a Cultura dos
dólmenes. E que, tal como os Thuata, essa cultura passou à Bretanha,
Cornualha e à Irlanda, para continuar ali impondo a sua influência.
A realidade da magia dos atlantes, magos brancos ou negros, está
nas suas obras. Não apenas nos megalitos de uns e outros, mas
também nas culturas históricas que criaram a partir do nada, depois da
sua aparição. Está na origem da agricultura, nas origens das ciências
astronômicas, e nas idéias religiosas que inculcaram nos povos que
viveram sob a sua influência.
A realidade concreta dessa magia — como também desse poder -
está em todo um mundo extravagante de superstições, de mitos, de
símbolos, de esoterismos e de ciências ocultas, de tradições quase
incompreensíveis e de manifestações não menos alucinantes e que
nasceram e se desenvolveram, através dos séculos, nos lugares
definidos donde a história já se esqueceu que se refugiaram os magos
deslocados. Quase me custa a mim próprio reconhecê-lo, mas tenho
sido o primeiro surpreendido perante fatos que não teria sido capaz de
imaginar. Por isso precisamente procurei fazer, até este momento, a
mais objetiva exposição histórica que pude assimilar. Porque só a
constatação objetiva dos fatos pode convencer-me a mim mesmo de
que é possível penetrar, pelos caminhos da história, em tudo o que
comporta o auge das idéias mágicas dos séculos posteriores ao
aparecimento humano, com a consciência segura de não me ter
deixado levar por imaginações febris. Há uma realidade mágica que se
encandeia, ao longo da história do homem, como a lembrança - ou
como a presença — de gentes que, em boa lógica racional, teriam que
ter desaparecido totalmente do panorama cultural e religioso da
história. E, contudo, não foi assim. Os ritos e os símbolos mágicos que
inculcaram no homem continuam a aparecer no meio de múltiplas
manifestações, muitas delas até aparentemente contraditórias e até
inimigas abertas de qualquer reconhecimento tácito dessa magia. As
práticas mágicas mantiveram-se e nem sequer a evolução tecnológica
dos últimos cem anos conseguiu apagá-las. Os lugares mágicos,
enfim, continuam a conservar o mistério que arrastam desde que os
magos os descobriram como tais lugares. E só encandeando sinais
aparentemente dispersos e símbolos quase inexplicáveis será possível
primeiro localizá-los e depois, com um pouco de ajuda da sorte,
comprovar as realidades quase incríveis de uma existência com que
apenas poderíamos ter sonhado.
15

OS ELOS DA CADEIA MÁGICA

Seria muito atrevido da minha parte pretender que tudo quanto


apontei nas páginas anteriores se considerasse a título de realidade
indiscutível. Não só desejo a discussão, mas também creio que tudo
quanto adiantei não é mais que um caminho a partir do qual pode
empreender-se a investigação.
Com a prévia aceitação de qualquer crítico que pudesse refutar o
que expus, quero que o leitor não considere este livro como uma meta,
mas sim como uma via de saída. Uma via que pode permitir que
muitos fatos, tanto históricos como religiosos — e ainda muitos
outros, pretensamente fantásticos e até inverossímeis — passem pela
crivagem das possibilidades que, há algum tempo, poderíamos ter
negado por serem absurdas ou contrárias aos dogmas.
O único que creio que não oferece a menor dúvida é o fato de que
o ser humano, inconscientemente, transformou sempre em magia ou
em rito religioso o arremedo daquilo que se produziu à sua volta sem a
sua prévia compreensão.
O rito reproduziu torpemente, uma técnica ou um fato. O mito por
seu lado, narrou as vicissitudes mágicas dos que realizaram esse fato
ou praticaram essa técnica. Mas os mitos, considerados quase até hoje
mesmo como pura e simples criação instintiva do povo e dos poetas
saídos dela, pode ser explicado. E, ainda mais que explicado, pode ser
decifrado e encontra-se dentro dele a realidade histórica que encerra.
Porque não há-de suceder exatamente o mesmo com o rito que c
precedeu?
A. memória perdida do homem recorda, num inconsciente
coletivo, fatos e gentes que a história ignora ou se recusa a reconhecer.
Estas gentes que aparecem nos mitos sob a forma de deuses ou de
seres fantásticos, de heróis ou de santos, de diabos ou de monstros,
têm em comum uma característica que aparece esporadicamente em
todos os mitos, à margem da simpatia, ou repulsa com que uns e
outros seres sejam tratados. Essa característica é o poder. E, sem
exceções esse poder é dado pelo conhecimento.
Mas notemos: em nenhum caso - comprová-lo-emos se revivermos
os mitos com atenção - será dado o poder por um saber determinado
ou parcial. O saber é, em todos os mitos, total, completo, universal ou
seja, que aquele que sabe, sabe tudo. Tem em si o segredo do
Conhecimento Universal.
Analisemos agora os nossos próprios conhecimentos. Podemos
comprovar como, à margem da super-especialização que acarreta
necessariamente um mundo moderno, o homem foi sempre - no
melhor dos casos — conhecedor de algo: de uma parte mínima do que
poderíamos chamar esse Saber Total que parecem ter os personagens
retratados nos mitos. Há no ser humano — e sempre assim foi desde o
principio da. história — uma atomização do saber, uma distribuição
em compartimentos estanques que fez com que o ser humano, para
alcançar o progresso e levantar as civilizações, tenha tido que
associar-se com os outros para completar os seus poderes. Como um
reino de formigas ou de abelhas à escala humana. Mas mesmo assim,
o saber do homem foi sempre parcial e incompleto. Porque se dividiu
em ciências cujo campo de ação nasceu e morreu, geralmente, nelas
próprias, sem que se haja admitido quase nunca a interação de uns
conhecimentos nos outros. E é curioso: quando se tentou esta
interação, surgiram imediatamente forças reacionárias que negaram e
proibiram e até castigaram qualquer tentativa, por tímida que fosse, de
universalização do saber.
Vamos esclarecer isto com alguns exemplos. É muito provável que
nenhum astrônomo nem nenhum psicólogo admitam à priori, que
existe uma correspondência entre as ciências cosmológicas e a alma
humana. E, contudo, os astrônomos têm tentado — e continuam a
tentar — esta conexão. Mas a astrologia é a ciência proibida e até
anatematizada.
Outro exemplo: nenhum matemático reconhecerá que o homem,
pela sua própria natureza, seja capaz de converter em fatos práticos as
lucubrações abstratas sobre as dimensões espaço — temporais. E,
contudo, existem pessoas que — reconhecidas ou não — conseguem
atravessar a barreira do tempo enquanto dimensão e sabem o que
acontecerá amanhã tal como nós podemos conhecer o que há em
determinado lugar seis quilômetros além de donde nos encontramos
agora.
Da mesma forma, certos construtores medievais conheceram as
equivalências musicais da arquitetura e as plasmaram nas catedrais. E
outros homens — os alquimistas — descobriram como a ação mística
do ser humano sobre a natureza pode contribuir para um
aperfeiçoamento da matéria.
De certo modo, as ciências paralelas - ou ocultas, ou proibidas, ou
secretas - foram na Sua origem, uma tentativa mágica para unificar o
conhecimento, para transformar num so todos os saberes do homem e
de muitos outros que o homem ainda não alcançou.
Julgo que esse conhecimento total, que leva à união de todas as
ciências e de todos os saberes parciais, existiu na terra. O que, pelo
menos, tem sido basicamente perceptível- E creio também que os que
o possuíram ou tiveram consciência dele, quiseram administrá-lo
fragmentadamente aos homens quando lhes chegou a oportunidade de
ensinar. Desta forma alcançava-se um duplo objetivo: por um lado,
que os homens precisassem uns dos outros para conseguir, com os
seus próprios conhecimentos parciais, o progresso efetivo das
civilizações; por outro, que os homens tivessem sempre consciência
de que, por muito que julgassem ter alcançado no tempo especifico do
seu particular conhecimento, havia alguém acima deles que sabia mais
e que, portanto, tinha poder sobre eles.
Esses seres humanos superiores e aparentemente todo-poderosos
são os seres divinos ou semi-divinos dos mitos, os deuses-pais das
civilizações, os heróis bons e os demônios maléficos dos livros
sagrados dos diferentes povos. Por isso, comparando os mitos —
como nós fizemos nas páginas anteriores —, surge imediatamente a
comunidade dos fatos, se bem que as interpretações, as opiniões e até
os pormenores possam diferir até tornar quase irreconhecíveis os seus
evidentes paralelismos.
Os homens, através da história, tiveram a intuição inconsciente de
certos lugares donde estes seres tinham estado e deixado a sua marca.
Ou, pelo menos, sentirão a realidade de uma direção, e que
caminhando para ela poderiam chegar a por-se em contato com o
passado desconhecido e com o que restasse da realidade daqueles
mitos mágicos que conheciam e adoravam.
Este lugar ou esta direção, nas civilizações mediterrânicas, têm
sido, sem exceção, o Ocidente. O Ocidente tem sido a terra dos
mortos: a terra dos antepassados, portanto. No Ocidente — ou para
Ocidente — teria de estar a sua marca e o que existisse da sua
sabedoria e do seu possível ensino. Por isto, o Ocidente converte-se
em meta de migrações e de peregrinações.
Já pensamos — e não é este o momento de acumular exemplos —
quantos povos emigraram, através da história, do Oriente para o
Ocidente?
Já encaramos seriamente a questão de que estas migrações
pudessem obedecer a motivos muito mais transcendentes que os
meramente econômicos?
Creio que, nos povos mediterrânicos e inclusive nos asiáticos,
sempre houve uma necessidade ancestral e religiosa de ir para o
Ocidente. Porque, de uma maneira ou de outra, os seus mitos, as suas
crenças, lhes diziam que ali. no fim daquele caminho, estava a
resposta para as suas preocupações transcendentes, o fim da
ignorância como seres de um saber incompleto que todos, na medida
das suas forças e do seu grau de civilização, procuraram superar.
Apenas com esta premissa, que reparte em partes iguais o principio
mágico do sentimento religioso com o desejo inato de alcançar o
maior grau possível de consciência, pode compreender-se que
determinados lugares, muito específicos e de modo nenhum
escolhidos ao acaso, foram, povo após povo, rito após rito, centros
concretos de culto e enclaves de acontecimentos prodigiosos
convertidos em mito ou em milagre e tidos sempre como origem ou
fim das esperanças mais transcendentes dos seres humanos.
Vistos desde a nossa perspectiva, estes enclaves mágicos, objeto
secular de cultos através dos tempos e das crenças, têm, de certo
modo, uma correspondência insólita que, muitas vezes, se mantém até
ao momento atual. Muitos deles conservam, ainda hoje, uma série de
características que nos tornam diferentes ou, dito em linguagem mais
grata ou esoterismo, nos lugares propícios.
Mas propícios para quê?
Para o fenômeno mágico, para o conhecimento insólito, para
acumulação de uma série de experiências e de' situações que, mesmo
tendo uma razão natural na sua origem — não tenho a menor dúvida
sobre isto —, manifestaram-se sob a forma de fenômenos ou de
situações consideradas como prodigiosas pelo homem Isto é, quero
ainda repeti-lo, durante milênios. Aqui reside, precisamente, essa
memória perdida do homem, que segue inconscientemente os passos
marcados no seu mais remoto passado e que, de tempos a tempos,
volta a experimentar os mesmos fatos e tira deles as conseqüências
próprias da crença ou da maneira de ser ou de viver a que está sujeito
conforme a época ou a circunstância vital que atravessa neste
momento.
À margem dos estudos que agora estou a efetuar relativamente a
estes enclaves mágicos sobre a geografia peninsular - e que serão
objeto de outro livro, quando tiver acumulado material que hoje ainda
é escasso em relação à grande quantidade de dados que, quase dia a
dia, se me deparam —, gostaria de apresentar um exemplo que pode
resultar bastante explícito e clarificador do que apontei. Não é um
exemplo único. Nem sequer pretendo que seja dos mais diáfanos na
relação do fato mágico com o solo. Tem — quanto muito — o valor
de uma relativa atualidade que os acontecimentos recentes lhe deram.
Fixemos o lugar. Trata-se do curso alto do rio Guadalquivir. Uma
zona que abarca geograficamente desde Despeñaperros ao norte, até
ao limite da província de Jaén ao sul, e desde a Serra de Segura a
oeste, até Linares a Este.
O norte desta zona é fundamental no encontro de santuários
Ibéricos aos que já os povos primitivos chegavam em peregrinações,
desde os mais longínquos lugares da Península. Castellar de
Santisteban, a Aliseda e a colina dos Jardins proporcionaram o mais
rico material arqueológico e religioso dos chamados povos Ibéricos
anteriores à dominação romana e também contemporâneos dela.
Mas a marca dos cultos ancestrais não se detêm nos restos
arqueológicos. O nome Belerda que tem uma localidade naquela zona,
é uma chamada a antigos cultos Célticos aos deus Belenos. Peal de
Becerro, por seu lado, apresenta cultos antigos da era de Aries. E
Lupión — a Este de Baeza — proclama com a sua etimologia uma
raiz LUG que provém dos ainda mais antigos povos ligures.
Na zona há uma gruta ancestralmente consagrada por cultos proto-
históricos, na qual o cristianismo venerou e continua a venerar uma
virgem de claros antecedentes isíacos: Nossa Senhora de Tiscar, e no
Santuário da Cueva del Água, a sul de Quesada e junto à mencionada
Belerda.
A linha do prodígio mágico continua ali mesmo, na figura do
místico Juan de la Cruz, que residiu naquela zona durante muitos anos
— entre Baeza e Beas de Segura — e alcançou nela as suas mais
definitivas experiências místicas, as que lhe permitiram escrever a sua
Subida ao Monte Carmélo.(¹)
A presença de elementos mágicos ou supersticiosos já perdidos
para a história, mantêm-se em alguns topônimos que indicam, ali
precisamente, presenças esquecidas: Brujuelo, Sabiote. E o culto a
determinados santos de origem iniciático ou ocultista — São
Cristóvão, a Virgem da Estrela — dão-nos algo mais do que
recordações perdidas de iniciações e fenômenos paranormais que se
produziram em momentos indeterminados da história, provavelmente
depois da reconquista castelhana daquelas terras no século XIII.
Desde alguns anos, um lugar daquela zona voltou a recuperar um
primeiro plano de interesse, orientando agora para as investigações
parapsicológicas, tendo sempre um insólito atrativo que se manifesta
desde as psicofonias registradas até aos resultados conseguidos com
provas de acupuntura.
Enclaves assim multiplicam-se sobre a Península,, abarcando
zonas que vão desde poucos quilômetros quadrados a lugares, como
este que semi-analisámos, que ocupam quase a quarta parte de uma
província. Em todos eles se repetem uma série de elementos que vão
desde indícios antiqüíssimos da cultura pré-histórica a referência a
Santos ou imagens comuns. Santos e imagens que têm, geralmente
muito mais de sobrevivência de cultos ancestrais adaptados pelo
cristianismo que recorde ou devocione personagens chave
proclamadas historicamente pela Igreja Apostólica Romana.
Em todos estes lugares se repetem os topônimos relativos a
divindades e cultos procedentes de uma mitologia pós-atlante, que
correspondem — se raspamos na sua superfície mágica — à
lembrança perdida de seres sábios e poderosos que ensinaram, em
tempos remotos, os homens e dominaram-nos com os seus
conhecimentos e as suas faculdades paranormais.
Em muitos destes enclaves, igualmente, produziram-se prodígios
relembrados como milagres pela tradição popular. Mantêm-se
pequenos mitos de origem ocultista ou mágica e repetem-se,
eventualmente, fenômenos místicos ou paranormais que deram lugar a
casos paralelos de santidade e de bruxaria heterodoxa recordados
pelos anais eclesiásticos e pelas lendas — e até pelas experiências —
populares.
Na zona de merinos de Sotoscuevas, na província de Burgos,
poucos há que não conheçam o «Bruxo» de Ojo Guareña. É um
homem que hoje tem quase setenta anos. Foi caçador furtivo até à
pouco tempo e os seus dotes paranormais, extraordinários, têm sido
corroborados por testemunhas presenciais, da maior credibilidade (2).
A zona .de Sotoscuevas tem, na sua área, o abismo de Ojo Guareña,
com indícios importantes de cultos mágicos pré-históricos e com uma
continuidade cultural evidente que se vê fundamentalmente, na ermida
de São Barnabé e Santo Tirso, construída numa das entradas da
caverna. As tradições dessa zona, por outro lado, mostram de forma
clara como, até tempos recentes, a influência exercida pela caverna
mágica era considerada Gomo uma emanação — digamos energética?
— pela qual se guiava, em grande parte, a vida pública da
comunidade. Não será lógico pensar que, desde épocas imprecisas da
pré-história - dessa pré-história de cuja realidade transcendente
procuramos dar uma idéia diferente -, houve quem aproveitou já as
propriedades naturais da Terra, e, conhecendo-as, fez uso delas para a
superação a todos os níveis, do estado psíquico do homem? Não se
deverá supor também que, nesses lugares, se partilhou um ensino que
hoje nos é absolutamente desconhecido, mas que, sem dúvida, foi
bastante superior ao nível mental que os nossos historiadores se
dignam atribuir aos homens da pré-história Peninsular?
Muitas vezes recusamos conceder às civilizações do mais remoto
passado possibilidades tanto psíquicas como culturais que pudessem
ao menos aproximá-las do nosso próprio grau de evolução. Quando se
trata de analisar os símbolos das cavernas paleolíticas ou as figuras
abstratas gravadas nos petroglifos, os nossos eruditos limitam-se a
dar-lhes — na melhor das hipóteses — uma importância meramente
utilitária ou um simbolismo a nível de religião primitiva e tosca.
Contudo, há fatos que julgo tão evidentes que a sua ignorância me
preocupa, sobretudo a nível das possibilidades analíticas dos seus
atuais intérpretes.
O caso, por exemplo, de que, os mesmos símbolos!, se repitam em:
a) petroglifos na Galiza
b) rochas gravadas nos guanches canários
c) pinturas pré-históricas cantábricas
d) lápidas sepulcrais de épocas cristãs primitivas (3)
e) pedras talhadas da pré-história centro-européia
f) gravuras culturais da Índia
g) símbolos das culturas americanas pré-hispânicas
h) livros esotéricos tibetanos
conduz-me, não a pensar que haja esquemas instintivos na mente do
ser humano!, à convicção de que, numa época indeterminada da
história desconhecida do homem, houve uma linguagem comum ao
gênero humano, uma linguagem do abstrato, que hoje ainda nos é
incompreensível, mas que teria paralelismo exato com os símbolos
matemáticos que, nos nossos dias, mais ou menos e em todas as partes
do mundo, o homem costuma utilizar.
Pouco a pouco, contudo, o obscurantismo cultural que tem sido
atribuído aos tempos desconhecidos, que chamamos pré-históricos,
vai-se desanuviando. Hoje começa já a encarar-se que aquela
pretendida obscuridade cultural não é outra coisa que a obscuridade
em que nós próprios vivemos em relação àquelas culturas e àqueles
antepassados dos que desconhecemos tudo, excetuando — e mesmo
assim com restrições - o seu aspeto físico. Porque nem sequer fomos
capazes de interpretar corretamente o legado da sua cultura, da sua
mente, do seu possível saber, e deixamos de lado o povo que, através
do seu inconsciente coletivo, guardasse a memória perdida desse
passado que não temos querido interpretar, agarrados a umas
evidências aparentes que, com absoluta segurança, nos contam e
mostram muito mais do que nós aceitamos ver.
Nesse legado do povo — legado de mitos e de contos - definimos
apenas o que é totalmente evidente: o que é mais superficial. Negamo-
nos, por sistema, a todas as restantes perguntas, a todas as
interrogações e comprovações que, de forma aberta, nos poderiam ter
levado pelos caminhos de infinitos porquês, comos e quandos, até ao
caminho da nossa própria superação, até ao conhecimento e até ao
pleno desenvolvimento das nossas melhores faculdades como homens.
Ainda — julgo eu — estamos a tempo. Já sabemos, com a
evidência que muitos ainda negam, que as pirâmides e Stonehenge
foram, antes de templos ou túmulos, sínteses de muitos conhecimentos
superiores. Já são muitos os que estudam os caminhos difíceis
paranormais pelos que pode andar a mente humana. Já há quem se
interrogue, com humildade, até que ponto a nossa civilização foi a
primeira a alcançar o alvo do saber que nos atribuímos a nós próprios.
O passado é ainda, sem dúvida, uma incógnita maior à medida que
olhamos — para trás —, no tempo. Uma incógnita que não deixará de
assombrar-nos quanto mais sinceramente tratemos de analisá-la com a
mente livre de preconceitos.
Teremos de esquecer — e isto de forma aberta e gritante — todos,
absolutamente todos!, os tabus que nos impuseram as crenças
artificiais e as conveniências que regeram ditatorialmente cada
período da história, até ao presente.
Apenas nesse preciso momento da nossa evolução verdadeira,
quando tenhamos separado tudo o que é imposto, tudo o que é
prescrito nos dogmas, tudo o que é aconselhado pelos bons costumes,
tudo o que tem sido anatematizado pelos doutos tribunais da história,
estaremos — começaremos a estar — em condições de conhecer os
nossos antepassados na sua autêntica dimensão. E, através deles,
começaremos também a estar em condições de nos conhecermos a nós
próprios.
NOTAS

Capítulo 1

1. Voltaremos mais adiante a esta questão dos homens voadores


reais ou fictícios. Contudo, para os que sintam curiosidade por
constatar a grande quantidade destes fatos ao longo da história
espanhola, recomendo Júlio Caro Baroja: Vidas mágicas e
Inquisicion (Taurus, Madrid, 1967) e Arfredo LEFEBVRE: Los
españoles van a otro mundo (Pomaire, Barcelona, 1968).

Capítulo 2

1. O mais complexo e sério destes livros, se bem que referido a


um reino peninsular, foi escrito e editado fora de Espanha. Trata-se
de The Templars in the Corona da Aragón, da A. J. Forey (Oxford
University Press, Londres, 1973). Por outro lado, o antigo escrito de
Campomanes foi recentemente reeditado em facsímil: Pedro
Rodriguez Campomanes: Dissertaciones históricas dei orden y
Cavalleria de los Templarios (edições Ei Albir, Barcelona, 1975).
2. San Bernardo de Clara vai era sobrinho do Templário André de
Montbart, um dos fundadores da Ordem, companheiro do primeiro
mestre, Hugues de Payns. Ao mesmo tempo* tinha laços de
parentesco com outro deles, Hugues de Champagne, precisamente
quem lhe cedeu os terrenos para construção da nova abadia d
Clairvoix (Claraval), que seria a casa mãe da reforma cisterciense.
3. A influência dos templários sobre a política de conquista do rei
Jaime I de Aragão — e inclusive sobre os seus sentimentos e as
suas crenças — é tratada com maior amplitude no seu livro Crônica
sin tiempo del rey conquistador (Gnosis, Madrid, 1976). Ainda que se
trate do texto para um espetáculo teatral, o livro vai acompanhado de
numerosas notas, que, a meu modo de ver, aclaram bastante esta
idéia.
4. Ferdinand NIEL: Dolmens el Menhirs (P. U. F., Paris, 1966). A
bibliografia sobre as culturas megalíticas é muito vasta, tanto sob o
ponto de vista da história da arte como das causas histórico-
religiosas das suas origens. Contudo, há uma coincidência quase
absoluta no que respeita aos fins que promoveram a construção dos
megalitos. Praticamente, todos os autores coincidem em que se trata
de monumentos funerários— no caso dos dólmenes — e de
monolitos comemorativos ou sinalizadores dos limites comunais ou
tribais — no caso dos menhires—. De nada serviu a constatação dos
motivos científico-religiosos que levaram à construção do cromlech
de Stonehenge: os estudiosos do fenômeno megalítico continuam a
apontar as finalidades funerárias imediatas de todos estes
monumentos.

Capítulo 3

1. Oliver REIGBEDER, La Symbolique (P.U.F., Paris, 1968).

Capítulo 4

1. Coronel A. BRAGHINE, El enigma de Ia Atlantida (trad. de Luís


Echávani, Lotada, Buenos Aires, 1944).
2. Hörbiger, seguido em muitas das suas asserções por Saurat,
apresentou em determinada altura uma teoria que teve — e ainda
tem — bastantes adeptos e que. decerto modo, constitui o «credo
cosmológico» do esoterismo do III Reich. Em linhas gerais, a
hipótese de Hörbiger baseia-se na idéia de que a Terra, desde a sua
criação, foi absorvendo sucessivos planetas, convertendo-os em
satélites próprios, com os conseqüentes problemas de atrações
mútuas e mudanças climatéricas. Uma a uma, estas luas foram
caindo sobre a terra, interrompendo com essas quedas catastróficas
os períodos geológicos pelos que ia atravessando o nosso planeta. A
luta atual, de acordo com Hörbiger, foi atraída pela terra há uns doze
mil ou treze mil anos, e era, anteriormente, também um planeta em
torno do Sol. Seguindo a sua idéia — já num plano previsto por ele
— esta lua ir-se-á aproximando cada vez mais da Terra, juntará um
dia as águas dos mares e serão inundados os trópicos. Esta
circunstância será acompanhada pelo rebentamento da lua, cujos
fragmentos formarão um anel de rochas a volta do planeta, e estas
rochas, ao cair, provocarão o aniquilamento da humanidade.
Saurat, por seu turno, diz que, na Era Terciária, havia duas luas
dando voltas em torno da Terra. Uma delas girava a uma distância
de cinco raios provocando uma atração que permitia a existência dos
enormes sáurios— cujo esqueletos se encontram — e dos gigantes
— dos que ainda não se encontrou nenhuma prova material da sua
existência —. Foi aquela uma época em que, de acordo com Saurat,
os gigantes dominaram a Terra. A queda daquela lua provocou a
catástrofe que chamamos atlante e a conseqüente extinção da raça.
dos gigantes.
3. L’AIchimie superscience extraterrestre? (Albin Michel, Paris,
1972. Há uma tradução espanhola publicada por Plaza & Janés,
Barcelona, 1974), A tese mantida por estes autores baseia-se na
possibilidade de que o planeta Vênus fosse povoado por uma raça
humanóide supertecnológica, que tinha sofrido um desastre a nível
cósmico. Este desastre, por sua vez, tinha provocado como
conseqüência o cataclismo atlante. Os autores baseiam-se em que
Vênus foi um planeta praticamente desconhecido até uns 300 anos
A.C., e que então, subitamente, começou a surgir com um resplendor
inusitado, possível — segundo os autores — conseqüência da sua
autodestruição.
4. A tese de Poesson não carece de atrativo. Segundo ela a
diferença que existe entre o perpendicular e o eixo terrestre foi uma
mudança provocada pelos supertécnicos atlantes. Anteriormente, a
Terra giraria sobre um eixo perpendicular, pelo que a sua inclinação
em relação ao Sol seria constante. Assim, a Terra primitiva teria tido
uma zona tropical muito fértil — o Jardim de Éden, o Jardim das
Hespérides — limitada por casquetes frios nos quais seria impossível
praticamente a sobrevivência. A inclinação provocada do eixo
terrestre arrastou consigo um aquecimento periódico regular de toda
a Terra, mas teria provocado, de imediato, um cataclismo do qual à
Atlântida tinha cabido a pior parte. Junta como provas, algumas
muito curiosas, como é o fato da que a pirâmide de Kufú ou Keops,
marque, na sua orientação, essa mesma diferença com o polo atual.
Para Poesson, tal diferença é recordação ao mesmo tempo que
testemunho, do desastre. Para nós poderia ser, simplesmente,
conhecimento que teriam os sábios egípcios dessa inclinação. Mas
mesmo como teoria natural tem o seu atrativo. Talvez a Terra tenha,
nalguma época, mudado o ângulo da sua rotação. Talvez essa
alteração tenha produzido um desastre cósmico. O que se torna mais
difícil da aceitar é que essa mudança tenha sido provocada pelo
homem. Porque, mesmo pensando que houvesse em dado momento
da história da Terra uma civilização tão super-tecnológicamente
desenvolvida que fosse capaz de provocar essa mudança, é de
supor que teria sido igualmente conhecedora das possíveis
conseqüências que tal experiência iria de provocar.
5. Aproveito esta citação do Atlas da História de Espanha que,
seguido de uma Cronologia, publicou o professor Vicens Vives na
Editorial Teide (Barcelona 1955), não porque se trate de alguma das
obras fundamentais desse autor, mas pelo fato de tratar-se dele.
Jaime Vicens Vive foi promotor de uma autêntica grande escola de
historiadores espanhóis, uma escola baseada no estudo crítico do
fato histórico, quando a historia era estudada — ate então — apenas
por uma inexplicável sucessão de fatos bélicos e heróicos. Mais de
uma vez voltaremos, ao longo deste livro, às suas citações a à sua
opinião, que traduziu uma visão mais objetiva e, obviamente, privada
de triunfalismo, dos acontecimentos históricos peninsulares.
6. Maria — Henriette ALIMEN e P. Marie-Joseph STEVE,
Préhistória (Tomo I da Historio Universal, Século XX, Madrid, 1970).

Capitulo 5
1. Os manwatera do Rig Veda são períodos de tempo pelos que o
mundo passa entre as destruições cósmicas. Houve no planeta
catorze manwatara, e os catorze formam um Kalpa. Tão extenso
período de tempo — praticamente, a história inteira da Terra — não
significa, contudo, mais do que uma noite e um dia na existência
infinita de Brahma, e terminara com o aniquilamento da criação
inteira.
2. Descobriram-se crânios trepanados procedentes do período
neolítico e chegou-se à conclusão de que a trepanação foi praticada
em vida, pelos sinais evidentes de regeneração que apresenta o
tecido ósseo perfurado.
3. V. Gordon ChiIde, Men makes Himself (Trad. espanhola de
edições do Fundo de Cultura Econômica, com o título As Origens da
Civilização, Breviários, num. 92, México, 1965).
4. V. GORDON CHILDE, op. cít
5. De Ia antigua lengua, poblaciones, y comarcas de Ias
Españas, em que de paso se tocan algunas cosas de Ia Cantabria.
Compuesto por ei Licenciado Andrés de Poça, natural de Ia ciudad
de Orduña y auogado en ei muy noble y leal señorio de Vizcaya. Este
livro tão curioso, impresso em VIscava em 1587, é a primeira
tentativa histórica conhecida para unificar a origem da língua
castelhana através das suas eventuais origens bascas. Nem mais
nem menos que o que tentaria Humboldt muitos séculos depois. Mas
o livro, para além da sua curiosidade lingüística, tem muitos outros
dados curiosos, e demonstra uma sincera preocupação histórico-
filológica que merece ter-se em conta. Dele fizeram-se edições m
1901 (na Biblioteca Bascongada de Fermin Herrán, totalmente
esgotado) e em 1959 (Minotauro, Biblioteca Vasca, volume IV
Madrid).
6. ABU-ABD-ALLAH MOHAMMED-EL-IDRISI, «Descrição de
Espanha», publicada no T. I. das Viagens de estrangeiros por
Espanha e Portugal (Aguilar, Madrid, 1952). Esta descrição faz parte
de uma longa Diversão para quem deseja percorrer o mundo que o
geógrafo muçulmano terminou nos últimos dias de Xawal do ano
548» (Janeiro de 1154) por incumbência do rei normando da Sicília,
Rogério II. Para fazer o livro, o rei e o seu geógrafo escolheram
homens de olhos abertos que percorrem o mundo conhecido
acompanhados de hábeis desenhadores. El Idrisi compilou todos os
dados e deu forma coerente a todas as notas, «tomadas segundo
observações diretas e não segundo os livros», o que dá um valor
especial à sua obra.
Há um ponto que convém frisar desde já: é a freqüência com que
os normandos medievais apareceram em contato com fatos
históricos ou geográficos que poderíamos classificar de insólitos.
Agora basta-nos com a curiosidade geográfica deste Rogério H da
Sicília, mas teríamos motivos bastantes para falar de outros: dos
normandos que invadiram uma e outra vez as costas norocidentais
da Península, dos que assolaram as costas gaditanas e onubenses e
depois, atraídos por algo que se encontrava para o interior,
abandonaram os seus barcos e se integraram, misturando-se
misteriosamente, com os habitantes muçulmanos daquelas
comarcas. Poderíamos recordar igualmente aquele outro normando,
Juan de Bethencourt, que foi o conquistador oficial das ilhas
Canárias para a Coroa de Castela. Singularmente, os normando*
surgem sempre em tentativas de penetração de comarcas mágicas
ou à procura dessas comarcas.
7. Júlio CARLO BAROJA, Algunos mitos españoles y otros
ensayos (Editara Nacional de Madrid, 1944).
8. GEGORIO MARAÑON, Las ideas biológicas del padre Feijoo
(Espasa-Calpe, Madrid, 1941). O doutor Marañón, como médico, foi
fundamentalmente um especialista em endocrinologia. Quando
efetuou as suas investigações históricas, os caracteres endócrinos
dos personagens que tratava destacaram fundamenta Invente ao
estabelece' diagnósticos de caráter e comportamento, assim como
de eventuais anomalias que pudessem influenciar o processo
biográfico ou histórico.

Capítulo 6

1. Não esqueçamos que a Arca da Aliança que construíram os


israelitas por ordem de Moisés era também feita de madeira de
acácia. «Besalel fez a arca de madeira de acácia...» (<Ex. 37,1) e,
mais adiante: «Fez as traves de acácia e revestiu-as de ouro...» (Ex.
37,4). Não vamos insistir neste ponto, mas desejava- chamar a
atenção para o fato, já referido por Daniken (Recordações do futuro),
segundo o qual a Arca da Aliança pode ter sido, na realidade, uma
enorme pilha seca sacralizada, um singular acumulador elétrico, na
qual a madeira de acácia atuaria precisamente, como isolador. Ora
bem: pensemos que um dos primeiros produtos comercializados pelo
homem pré-histórico foi o âmbar. E que o primeiro metal útil utilizado
pelo homem foi o cobre. Dá-se a estranha coincidência —
chamemos-lhe assim — de que o âmbar é um acumulador de
eletricidade estática de primeira ordem. E não é preciso dizer nada
sobre as propriedades do cobre como condutor elétrico. Pode tratar-
se de simples coincidência, mas quando essas coincidências se
multiplicam num determinado sentido, pessoalmente sinto-me
inclinado a ver nelas uma razão de ser muito definida. Recordemos
finalmente que num capítulo anterior falamos das estranhas
circunstancias em que se pintaram os bisontes de Altamira a o fato
de que naquela sala não se tenham encontrado quaisquer restos de
fumo, lógico em qualquer Iluminação primitiva, mesmo tratando-se de
gorduras de animais. Terá por acaso qualquer relação um fato com o
outro?
2. O primeiro, da acordo com as minhas informações, a debruçar-
se sobre este poema e as suas origens foi, certamente, o irlandês
Richard ROLT BRASH, The Ogams Inscribed Morruments ot the
British islands (Atkinson, Londres, 1872). O poema conta o mito
primitivo das origens da Irlanda, mas teremos oportunidade de
comprovar que, tal como o mito grego ou egípcio, tem
importantíssimas ramificações que chegam a Península Ibérica. Do
Leabhar Gabhala há uma versão galega, publicada na revista
«NOS», de Orense (ano XIII, pp 23, 68, 139 e 206).
3. Os códices donde pareceram versões totais ou parciais do
Leabahr Gabhala ou referências sobre ele foram os seguintes: o
charriado Book of Leinster, um manuscrito do Trinty College de
Dublin que, ao que parece, foi compilado por Finn Mac Gorman,
bispo de Kildare, que morreu em 1160. O Códice de Ballymote,
manuscrito da Royal Irish Academy, compilado por Ballymote Co.
Sligo por volta de 1370, que ó uma coleção de diversos tratados de
história, mitologia, genealogia e hagiografia e lingüística. Fontes
posteriores são o Book ot Lecan, compilado em 1416, na R.I.A.. 0
código do Leabahr Gabhala ou Gabata compilado por Friar Miohael
O'Cleary em 1627. O Book of Invasions, do Trinity College, que faz
parte da compilação anterior. E, por fim, os manuscritos das
Aventuras de los siete hermanos e ei Códice dei destino de los Mjos
de Tuirinn, assim como o Book ot Lismore, que contém um chamado
«Diálogo dos Sábios».
4. Veja-se a nota 5 do capítulo 5.
5. Na geografia peninsular há numerosos topônimos nos que
intervém a palavra Briga. Menédez Pidal atribui esta voz a uma
origem celta que se conservou até è época romana: Sebobriga (a
atual Segóvla), Auguatobriga (hoje Astorga) e outras várias
localidades. O seu significado não se conhece com exatidão, mas
pode supõe-se que tem que ver com a «fundação» mais que com
«cidade», que é o sentido que lhe deu Menédez Pidal. Há que
pensar que a própria raiz—Briga 6 a origem da palavra inglesa
bridge (ponte) —. E as fraternidades de construtores medieval*
designaram os construtores de pontes como pontífices e
consideraram-nos como o grau mais alto é* entre os iniciados na arte
da construção. Não esqueçamos que os nossos santos arquitetos
peninsulares, S. Domingos da Calçada e S. João de Ortega, foram,
ambos, construtores de pontes.
Mas tenhamos em conta, também, que tanto Segóvia como
Astorga são centros indubitáveis de remotas comarcas mágico-
religiosos, que nos seus arredores se encontram importantes indícios
mágicos que mostram a tradição remota de terem sido centros de
expansão religiosa e cultural. O Briga pode significar nelas a sua
origem religiosa, como pode ter esse mesmo significado' em cidades
inglesas como Cambridge, que ainda hoje — através da sua velha
universidade — mantém a sua elevada tradição cultural. Por outro
lado, se Corunha foi a antiga Brigantium de Breoghan, não
esqueçamos que, perto dela, existe uma cidade cujo topônimo é
muito parecida a Cambridge: Cambre. E que outra cidade com um
topônimo muito semelhante pode ter a mesma raiz: Cambrils, na
província de Tarragona.
6. Quando este livro já estava terminado chega-me a notícia
(«Gallaecia», núm. 2, ed. do Castro, 1976. Publicação da Faculdade
de Geografia e História) de que estudantes e professores de
Santiago de CompôsteIa prepararam uma expedição à Irlanda onde,
ao que parece, se tentará a viagem por mar, utilizando os meios que
supõe pudessem ter usado os antigos habitantes da Galiza. A
tentativa tem como nome de guerra «Operação Breoghan».

Capítulo 7

1. Vladimir PROPP, Las raices históricas del cuento


(Fundamentos, Madrid, 1974). Propp é um escritor soviético que,
seguindo um método estritamente estrutural, analisou com
extraordinário rigor científico as origens rituais e míticas de conto
popular. E, se 6 verdade que se limitou, na sua maior parte, ao conto
popular russo» e siberiano, o estudo é perfeitamente válido para
estabelecer uma reconsideração do conto popular universal.
Contudo, Propp, tal como tantos outros estudiosos da etnologia e da
sociologia, chegou na sua «contagem para trás» até às etapas rituais
da evolução humana, tem sequer considerar a possibilidade de que,
se é certo que os mitos procedem dos ritos, estes por sua vez, tem
que ser necessariamente práticas mágicas .realizadas em princípio
para que se produza um fenômeno ou um fato que, num momento
desconhecido da evolução, teve uma existência real, seja qual for a.
sua origem ou natureza.
2. Rufo Festo Avieno foi um geógrafo latino do século IV que,
entre outros tratados geográficos em verso, escreveu esta Ora
Marítima, descrição da costa da Península Ibérica. Mas os termos
arcaicos e os modismos desusados que utiliza no seu latim tardio faz
pensar aos filo logo s que o poema terá sido, pelo menos em parte,
uma transcrição de alguma obra anterior perdida. Admite-se já de
modo tácito que o poema geográfico de Avieno procede de um
«Périplo» grego que pode datar do século VI a. C, pelo qual muitas
das suas descrições terão mil anos de antigüidade em relação à data
em que Avieno compõe a sua obra.
3. Esta Informação procede do livro de Nicolau Primitlu, Os Ibero-
Sicanos, que cita este estudo de Lluch-Arnol publicado na «Revista
de Cultura Valenciana», ano 1931, num artigo intitulado La por, l'odii
el cult a Ia serp.
4. Veja-se a nota 6 do capítulo 6.
5. O mito escandinavo e germânico dos Nibelungos tem sido um
dos mais divulgados nas suas dimensões aventureiras. Contudo, sob
a sua aparência de grande epopéia mítica esconde constantemente
simbologias esotéricas que, em grande parte, foram acrescentadas à
medida que as sucessivas vers&es se iam complicando. Ricardo
Wagner utilizou o poema mítico para construir a sua grande obra
operista da Tetralogia. E os indícios mistéricos misturam-se nele com
uma deliberada exaltação da raça ariana até limites insuspeitos. Não
é de estranhar que, durante o domínio político do III Reích, esta e
outras óperas wagnerianas do mesmo tipo tenham sido exemplo das
novas gerações guerreiras hitlerianas.
Contudo, o mito original, para além da ser terrivelmente
complexo, tem um valor bastante mais universal que o que lhe
atribuem os exaltados defensores da raça ariana.

Capítulo 8

1. De Louis Charpentier publicaram-se recentemente em


Espanha vários livros: El enigma de Ia catedral de Chartres, Los
gigantes y el mistério de los origines, El mistério de Compostela y El
mistério vasco, todos eles na coleção «Otros Mundos», da ed. Plaza
& Janés. E El Mistério de los templarios; Ed. Bruguera (Libro Amigo);
Barcelona, 1967. Creio sinceramente que a contribuição de
Charpentier é importantíssima devido à sua atitude de nào se
conformar com o estabelecido pela história oficial e querer sempre
procurar sobre o que há mais além, se bem que muitas vezes as
interrogações apresentadas superem em muito as respostas
possíveis. 0 simples fato de mostrar essa inconformismo e de situar-
se num ponto de vista objetivo no respeitante aos enigmas que se
apresentam seria já um ponto Importante a favor de Charpentier.
Mas, além disso, soube conduzir as suas Investigações por um
caminho de total aceitação a tudo o que pudesse esclarecer qualquer
ponto apaixonante do passado, e estabelecendo uma série de
relações lógicas de que até ao momento nem sequer se tinha
suspeitado.
2. Sir James George FRAZER, La Rama Dorada (ed. castelhana
de Fundo de Cultura Econômica, México, 1944). Desde que iniciou
os seus estudos sobre religiões comparadas, Frazer tornou-se numa
referência obrigatória para todos os que se têm interessado pelo
fenômeno religioso sob qualquer dos seus aspetos. Hoje muitas das
suas idéias podem estar sujeitas a revisão e a crítica, mas é
indiscutível que, sem ele, o fenômeno religioso não se teria
apresentado no campo das possibilidades históricas e etnológicas da
forma com que atualmente se apresenta.
3. Antônio RAMOS OLIVEIRA, Historia de España (Compaña
General de Ediciones, México, s. f.). Creio que este livro, que esteve
proibido pela censura espanhola durante muitos anos, foi editado em
Espanha. Para o leitor que não conheça o livro advertirei que foi
escrito principalmente em função da sua última parte, dedicada à
Guerra Civil espanhola. E o resto — 2/3 do livro — é, em boa parte,
uma descrição dos caminhos que desembocariam nessa Guerra
Civil. Contudo, o estudo realizado por Ramos Oliveira sobre a
Antigüidade e a Idade Média peninsulares, apesar de ter lacunas
importantes — porque há séculos inteiros esquecidos
deliberadamente— constitui uma síntese valiosíssima do processo
histórico dos povos peninsulares.

Capítulo 9

1. Na nota 6 do capitulo 5 chamei a atenção para a presença


normanda, durante toda a Idade Média, em pontos chave das zonas
mágicas donde, de uma forma ou de outra, havia indícios — e ainda
há — da existência de uma sabedoria remota ou, se preferirmos, de
uma circunstância mágica que sobrevive muitas vezes escondida. 0
caso de Juan de Bethencourt ó mais um desta procura normanda;
procedia do condado de Eu, na Normandia francesa, e, conhecedor
de alguma expedição anterior às Canárias — talvez a de Fernán
Pérez, em 1393 — ofereceu-se a Henrique III de Castela para levar a
cabo a conquista. Uma vez autorizado, rodeou-se de gente muito
curiosa,, entre a que se destaca o nobre Gadifer de Ia Salle, um
autêntico protagonista de novelas de cavalaria, que haveria de
converter-se, pela boca dos novelistas trovadorescos, no Don
Gaiferos dos romances. Acompanham-no também, como cronistas, o
franciscano frei Pedro Bontier e o clérigo Juan de le Verrier. Dessa
forma, para além dos seus resultados a expedição às Canárias,
depois das estranhas notícias que se tinha delas, podemos ver que
foi planeada, de certo modo, como uma peregrinação — guerreira
sem dúvida — a um mundo insólito de antecedentes mágicos.
2. Ferdinand NIEL, op. cit.
3. J. VENDRYES, «El lenguaje», na síntese coletiva La evolución
de Ia humanidade (ed. Cervantes, Barcelona, 1943).
4. A minha idéia não deve interpretar-se como uma convicção de
que o homem paleolítico tivesse já uma escrita alfabética. Pelo
contrário, aceito os Ogam-Craobs como evolução de um sistema
ideográfico que, de um modo mais primitivo, estava já estabelecido
entre as comunidades sociais iniciáticas do paleolítico. Os Ogam-
Craobs estariam para os símbolos aparecidos nos albergues pré-
históricos como um alfabeto fonético pode ser a correspondência
lógica de um sistema ideográfico hieróglifo anterior.

Capítulo 10

1. O filme — que na realidade são dois, adaptados em Espanha


num mesmo programa — baseia-se nos livros de Von Daniken
Recuerdos del futuro y Regreso a Ias estrellas, os seus dois êxitos
populares fulminantes. Em ambos os livros, o autor recorre o mundo
à procura dos indícios de possíveis visitantes extraterrestres
civilizadores na pré-história e na história antiga. As duas obras são
uma impressionante aglomeração de dados curiosíssimos e
inquietamos, alguns demasiado repetidos, outros absolutamente
insólitos. Para mim, a teoria de Von Daniken é válida no respeitante à
intuição e eventuais provas da existência de uma civilização superior
que, através de uma tecnologia muito mais avançada do que seria
lógico esperar nas épocas em que deixou os seus indícios, visitou o
planeta Terra e deixou entre os homens a sua recordação a os seus
ensinamentos. Que essa civilização superior — idéia que comparto
plenamente—-fosse a de uns seres vindos de outros mundos é algo
que, apesar da acumulação de provas, me parece prematura afirmar.
E não porque não a tenha corto possivelmente certa, mas porque
antes há que excluir a possibilidade — difícil de excluir, por agora —
da existência de uma civilização superior de origem puramente
terrestre.
2. Sigmund Freud teve uma intuição deste fenômeno, que foi
desprezado quando arqueólogos e historiadores tiveram de decifrar
as origens do rito. Em Totem e tabu. Freud disse: «O homem
primitivo tem uma enorme confiança no poder dos seus desejos. No
fundo, tudo o que tenta obter por meios mágicos, sucede apenas
porque ele o deseja. Desta forma não deparamos, a princípio, senão
com o desejo».
«Em relação ao menino, que se encontra em condições psíquicas
análogas, mas não possui ainda as mesmas aptidões motoras...
começa por procurar nos seus desejos uma satisfação
verdadeiramente alucinante, fazendo nascer a situação satisfatória
por meio de excitações centrífugas dos seus órgãos sensoriais».
3. O. E. JAMES, Prehistorie Religions (vers. esp. de J. M. Gomes
— Tabanera, La religião del hombre prehistórico, Guadarrama, Madri
d, 1973).
4. O padre Wilhelm Schmidt (veja-se o seu Ursprung des
Gottesidee. Munster, 1912-54) foi, provavelmente, o arqueólogo
cristão que deu uma forma mais coerente è idéia—creio que
preconcebida—de que o homem pré-histórico teve um conceito
exclusivamente monoteísta da divindade. Mas a idéia de uma religião
superior primitiva na «Urkultur» não foi exclusivamente sua. Eu
próprio recordo os esforços desesperados do livro de texto de
religião escolar — de não sei que ano do meu curso liceal — no qual,
ao longo de páginas e páginas, se procurava sugestionar o aluno
com provas de fraca evidência para demonstrar que esta idéia
monoteísta está presente nas civilizações mais primitivas. Freud,
contudo, põe em jogo a sua extraordinária intuição ao aceitar que o
homem passa por três fases sucessivas de crenças: a fase animista
que é, ao fim e ao cabo, a única que era possível ao homem nas
suas origens culturais—, a religiosa e a cientifica. E, referindo-se
concretamente à primeira, diz: «Na fase da amnistia, atribui-se o
tomem a si próprio a onipotência». E acrescenta, ao descrever as
outras duas: «... na religiosa, cede-a (refere-se à onipotência) aos
deuses, sem renunciar, contudo, seriamente a ela, pois reserva-se o
poder de influenciar os deuses, de modo a fazê-los atuar conforme
os seus desejos. Na concepção científica do mundo não existe já
lugar para a onipotência do homem, o qual reconheceu a sua
insignificância, resignou-se à morte e submeteu-se a todas as outras
necessidades naturais. Na nossa confiança no poder da inteligência
humana, que considera já as leis da realidade, encontramos ainda
marcas da antiga fé na onipotência».
5. O padre Teilhard de Chardin (El fenômeno Humano). Taurus,
Madrid, 1963) utiliza a palavra prehominideo com algumas lógicas
dúvidas, referindo-se ao homem de Pequim, e recolhe — sem
pronunciar-se sobre ela — a idéia de que os utensílios que se
encontraram perto dos restos não pertenceram, como afirma Boule,
ao sinantropus, mas a outro tipo humano mais evoluído e não
encontrado, para quem o sinantropus serviria de presa.
6. Há um livro curioso, apesar de que a tese que sustenta ser,
precisamente, essa interpretação radical da que falo no texto. O livro,
que inclusive contém erros de tipo médico e fisiológico bastante
notáveis, intitula-se, na sua versão castelhana, El principio era el fin,
e o seu autor, Oskar Kiss Maerth (Barral editores, Libros de
Respuesta, Barcelona, 1973), tirou das filosofias orientais, entre as
que parece ser que vive, alguns conceitos tão, ao pé da letra que se
convertem em axiomas inflexíveis: exata-mente o contrário, pois, do
que a filosofia oriental sempre defendeu. A sua teoria evolucionista
baseia-se, precisamente, nos restos humanos de cérebros
devorados que aparecem nos restos humanos mais antigos.
Segundo Kiss Maerth, o próprio costume de devorar cérebros,
originado por um pretenso aumento da força sexual, provocou o
aumento da massa encefálica e, como conseqüência, a evolução do
cérebro humano — a partir do mais primitivo protosimio — até reduzir
a caixa craniana aos limites atuais. Pensando bem, a teoria de Kiss
Maerth tem a sua resposta nesse conselho, tão popular em Espanha
— ouvi-o em várias ocasiões e no mais diferentes locais — de que
daquilo que se come se cria», referido tanto à crista do galo —
beleza — como aos testículos de bezerro. Em qualquer caso, tenha
ou não um fundamento de credibilidade, o autor alemão registra
freqüentes viragens na sua teoria e chega a contradizer-se a si
mesmo proclamando, por outro Lado, a evolução humana graças à
mastigação de cérebros e, por'outro lado, defendendo rigorosamente
a necessidade de um regime vegetariano para que O homem queira
encontrar a sua mais profunda razão de existência.
7. Continua a haver arqueólogos e paleontólogos que negam a
existência desta mudança violenta da evolução, mas a verdade ó que
há uma gradação evolutiva que vem desde o crânio de Taung até ao
homem de Palestina, passando suavemente pelos estádios dos
sinantropo, do pitecantropo robusto e ereto, pelo homem da Rodésia
e o homem de Solo ao Neanderthal arcaico e ao homem de
Steinheim.
Contudo, a passagem daqui para o homo sapiens do Cro-Magnon
destrói umas etapas nas que nem sequer o crânio de Piltdown pode
considerar-se como elo de ligação.
8. O padre Tellhard de Chardin, cujos textos deveriam servir de
livro de cabeceira não apenas a arqueólogos mas também a
teólogos, coincide com esta surpresa inexplicável: «lgual é a
perplexidade do antropólogo quando descobre apenas separados
nas grutas por um nível de estalagmites, o homem de Le Mousieur e
o homem do Cro-Magnon ou o homem de Aurignac. Neste caso,
nenhuma ruptura geológica. E, não obstante, um rejuvenescimento
fundamental da humanidade. Obrigado pelo clima ou empurrado
pelas inquietações da sua alma, eis a brusca invasão, por sobre os
neanderthalenses, do «homo sapiens: (El fenômeno humano).
9. Eis alguns dados, obtidos de entre muitos outros: Grotte des
Énfants, na fronteira italiana com a França, entre Menton e
Ventimiglia. Abrigos chamados Grutas de Grimaldi. Encontrou-se 0
esqueleto de um jovem de uns 16 anos, com o crânio rodeado por
uma fila de conchas marinhas esburacadas, que formariam
possivelmente um diadema; o esqueleto aparecia tingido de
vermelho, por ter sido colocado sobre uma câmera de peróxido de
ferro. Na camada superior do jazigo descobriu-se o esqueleto de
outro homem com uma coroa de conchas; numerosas canchas
estavam espalhadas sobre o tórax. Numa camada sucessiva do
jazigo, encontraram-se os esqueletos de dois meninos, envoltos num
autêntico sudário de conchas tipo Nassa Naritea. e, junto aos
meninos, os restos mutilados de uma mulher, rodeados de concha
tipo Trocchus.
Na vizinha gruta de Cavillon encontraram-se nada menos de
7868 conchas — é um dado exato que devemos agradecer aos
paleontólogos —, muitas delas esburacadas. Oitentas destas
conchas rodeavam um esqueleto colorado de vermelho por meio de
uni peridoxita, como o jovem da primeira gruta. 0 esqueleto pertencia
a um homem, cujo crânio estava coberto por uma rede de conchas
marinhas.
No Cro-Magnon — os jazigos que deram o nome à raça do homo
sapiens — encontraram-se 300 conchas do tipo Littorina entre os
ossos de um esqueleto tingido de vermelho.
Em Bronö — Brunn —, seiscentas conchas Dentalium Bedense
sobre um esqueleto tingido de vermelho.
Em 1918, nas escavações realizadas em Três Puntas —
província de Alava — sob um montículo próximo do moinho de
Axpea, apareceram restos humanos com conchas perfuradas e ocre
vermelho nos ossos.
10. Textbook of European Archeology (Cambridge, 1921).
Aproveito a referencia « O. E. JAMES, op. cit.
11. Op. Cit.
12. Não queria que se prestasse a confusão a presença, por um
lado, destes mestres-pássaros, e por outro de outras figuras
antropomorfas aparecidas nas grutas e às que se deu,
provavelmente sem razão, significado mágico. Refiro-me ao
chamado «El pequeno brujo» e o «Hechiero disfrazado» das grutas
de Arrióge (França). Pela sua vestimenta e pelas suas
características, assim como pelo seu estilo e inclusive pelas figuras
que os rodeiam estas imagens de homens, revestidos com vestes.
de animais não podem significar mais do que ensinamentos gráficos
de métodos racionais de caça: homens que se cobrem com a pele
dos animais da mesma espécie dos que pensam caçar, para
disfarçar o seu próprio cheiro no meio da manada. Bastaria saber
que esses mesmos métodos de caça os utilizaram os peles
vermelhas da América do Morte quando caçavam os bisontes nas
pradarias.
13. Os cinco esquemas deste desenho foram conseguidos nos
seguintes lugares:
1. Talismã doiménico de Hissarlik
2. Stonehenge
3. Esteias de Spezia (Itália)
4. Dólmen de Soto (Huelva)
5. Menhir esculpido do vale do Marne (França).

Capítulo 11

1. A acumulação de conchas no Cabeço d Arruda foi descoberto


em 1865 ó encontra-se no vale pantanoso de Mugem, na margem
esquerda do Tejo. Consta de um túmulo que tem na atualidade uma
superfície de 100x60 metros e uma altura de 7, e é composto, quase
na sua totalidade, de conchas partidas do tipo lutraria pressa y lapas
que hoje apenas te podem encontrar vivas em lugares muito
afastados e a níveis muito mais baixos. Cartailhac (Les ages
préhistoriques de l'Espagne et du Portugal. Paris, 1886) indicava a
possibilidade de que, na época em que se construiu o túmulo, as
águas do Atlântico subissem até muito perto daquele lugar. Em
qualquer caso, dada a escassez de restos neolíticos na Península
Ibérica, a existência de Mugem é altamente reveladora.
2. Os crânios do li coce fatos foram representantes típicos da
raça de Cro-Magnon e remontam para além do período
magdaleniense, que foi, como já sabemos, o período geológico em
que surgiram as pinturas rupestres da zona cantábro-aquitana ou
franco-cantábrica. Nos jazigos mesolíticos de Gibraltar encontrou-se
também uma quantidade considerável de crânios dolicocéfalos, com
a característica racial de um alto posterior que fez com que ficassem
conhecidos por crânios com monho.
3. O estranho poema Leabhar Gabhala, sempre insuficientemente
estudado, tem interessantíssimas relações cronológicas e
genealógicas com o Pentateuco que, mesmo de relance, convém
sublinhar. Conta como Noé, filho de Lamech, depois do Dilúvio
repartiu as suas terras — diríamos melhor as terras — pelos seus
trás filhos: Sem, Cam e Jafet. A Jafet correspondeu-lhe a Europa e a
Ásia setentrional e teve sete filhos. Devo pedir desculpa por esta lista
de nomes que poderá parecer fastidiosa a um leitor com pressa, mas
creio ser importante entretê-lo — mesmo que seja apenas uma nota
— com dados que, num determinado momento, podem resultar
preciosos pelas suas coincidências clarificadoras. Posto isto, esta é a
lista dos filhos de Jafet: Gomer, Magog, Tiras, Javan, Masec, Maday
e Tubal.
Notemos que Gomer tem o mesmo nome que a ilha de Gomere,
nas Canárias. E recordemos que os próprios cronistas das ilhas
especificaram que a ilha pertenceu ao descendente de Noé.
Observemos Igualmente que outro destes filhos de Jafet, Tubal, é o
ídolo de Peña-Tú representado nas rochas da costa asturiana perto
de Ribadesella. Mas foi Magog quem, quando Jafet fez a repartição
das suas terras, recebeu como herança a Grécia e a Citia. E Magog,
por seu Lado, teve cinco filhos: Baath, Ibath, Barachan, Emot e
Aitrecht.
Deste último — dos seus descendentes — surgiram as quatro
invasões da Irlanda: a dos Partholon, a dos Naimhed, a dos Fir-Bolg
e a dos Thuata-de-Dannan. Mas outro dos filhos de Magog, Baath,
foi o pai de Fenius-Far-Saidh, que seria o construtor da Torre de
Babel. Recordemos que precisamente a arte da construção — e
pode dizer-se que a mítica Torre de Babel foi o compêndio do ideal
arquitetônico universal — será, através da história, como um grau
superior da Sabedoria. A obra arquitetônica equiparar-se-á, quase
sempre, ao Saber Supremo, desde esta mesma torre até ao Grande
Arquiteto da maçonaria, passando pela construção menos mítica
mas absolutamente simbólica do Templo de Salomão e pelas
fraternidades de canteiros medievais que foram os responsáveis,
primeiro das maravilha* criptográficas do romântico e,
posteriormente, das grandes mensagens em pedra das catedrais
góticas.
Continuando com o poema, encontramo-nos com a reveladora
noticia de que um dos filhos deste Fenius-Far-Saidh, construtor da
Torre de Babel, foi NeL E a história da Nel não ó menos curiosa. Foi
instruído na aprendizagem das língua* que se criaram durante a
construção da Torre e, chamado ao Egito com os seus pelo Faraó
Cingeris — cujo a Identidade ainda não pude averiguar, mas poderia
pensar-se que fosse o último faraó das dinastias hiksas, Sekenera I
—, este casou-o com uma sua filha chamada, no Leabhar Gabhala,
Scota. (Atenção a Escócia!). O filho de ambos Gaedhel Glas, sofreu
o ataque de uma serpente venenosa — recordemos uma vez mais a
simbologia serpentária tratada anteriormente — e foi salvo por
Moisés. Nel encontrava-** no Egito quando os Israelitas fugiram do
reino e, ao que parece, assinou um pato de amizade com o próprio
Aarão, irmão de Moisés.
Os descendentes de Nel, e do seu filho Gaedhel Glas, foram os
gaedhil e, de acordo com o poema irlandês, mantiveram lutas
constantes na Citia com os descendentes de Naenbal, irmão de Nel.
Um destes gaedhil, Leimfhind — chamado assim porque as suas
mãos brilhavam na noite—, chegou com as suas gentes, em trinta
barcos da três linhas de remeiros, a uma ilha chamada Caronia, a
caminho das suas antigas possessões irlandesas.
4. Não percamos de vista a montanha de Montserrat, porque
aparecerá, ao longo de toda a história religiosa peninsular, como um
lugar mágico preponderante. Há quem a identificou com o
Monsolvate do Graal. Em qualquer caso, foi sede de uma extensa e
perdurável comunidade de eremitas no mais obscuro da Idade
Média, que deixaram as suas grutas — santuários anteriores ao seu
próprio estabelecimento—para admiração dos atuais peregrinos.
Pela sua parte, a ordem beneditina, de cujas localizações mágicas já
falamos e voltaremos a insistir constantemente, tomou-a como
própria e continua a conservá-la atualmente.
5. As versões que sigo dos contos populares são, por agora, as
publicadas por Aurélio M. Espinosa, Cuentos populares españoles
(C.S.I.C, Madrid, 1946, 3 volumes).
6. Se bem que não tenhamos tratado concretamente este tema,
consideraremos que a rosal y Ia espina «parecem na simbologia
esotérica medieval como designação de algo que está oculto, e
inclusive por vezes corno guia — seguindo os topônimos espinhosos
— de um caminho para o enclave mágico de primeira grandeza.
7. É curioso consignar agora que, entre as numerosas impressões
de mãos que aparecem nas cavernas paleolíticas do magdaliniense,
adverte-se a eventual presença de mãos as que lhe foram
amputados um ou mais dedos. Impressões deste tipo encontramo-las
nas grutas santanderinas. E não seria despropositado que
relacionássemos o fenômeno dos dedos cortados com os motivos de
sacrifício pessoal que aparecem nos contos. Seriam as impressões
de mãos mutiladas como uma espécie de passaporte iniciático que
tinham que exibir os alunos dos magos — mestres?
8. As representações sexuais são correntes nos mais remotos
estádios da cultura paleolítica, anteriores inclusive às pinturas
rupestres do magdaleníense. Mas é significativo e inexplicável — de
momento — o fato de que estas representações sexuais estejam
praticamente ausentes a sul dos Pirinóus, se prescendimos das
vulvas das grutas do Castrlio (Santander) e de Tito Bustillo
(Ribadesella, Astúrias). Ao descobertas de França e da Europa
centrai parecem corresponder ao período gravetiense, uns 10 000
anos antes do magdaleniense das pinturas cantábro-equitanas. A
Vênus de Wíllendorf pode datar de 30 000 anos A.C.; a de Laussel
de uns 20 000 anos como a dama de Brassempuy. Mas as
representações sexuais não se limitam a estas figuras femininas de
exagerados atributos. Em Anglés-sur-Anghn existe um friso de
origem femininos; em Laussel há uma cena de parto e uma rmilher
com um como; em Tuo dAudubert, um bisonte macrto persegue uma
fêmea. Encontram-se falos de argila e representações masculinas ás
que se chamou “sátiros”.
9. Deliberadamente prescindi do testemjnr.o precioso do
continente americano, riquíssimo em testemunhos clarificadores,
mas fora dos limites que fixei.
10. Osíris, identificado com o Sol, sobreviveu no Egito como
elemento fundamental da agricultura. Os sacerdotes da época
ptolomaica mandavam ainda construir estátuas de Osiris com barro e
sementes de trigo, de modo que, quando a estátua era regada, o
trigo brotava do próprio corpo de deus.

Capitulo 12

1. José Miguel de Barandiarán é um investigador apaixonado das


manifestações folclóricas do Pais Basco. A ele se deve a
conservação de numerosas lendas e o testemunho de uma infinidade
de costumes que, provavelmente, se teriam perdido sem o seu
incansável trabalho. A ele se deve um amor profundo pelos homens
e pelas coisas da própria terra. 0 trabalho de Barandiarán criou uma
verdadeira escola de estudiosos bascos que, para além de paixões
nacionalistas, revelam — ou deixam aberto o caminho para revelar
— uma profunda realidade do passado basco.
2. O baxajaun é, na mitologia éuscara, um ser terrorífico e,
geralmente de caráter maligno ao que se designa como senhor da
selva. Eventualmente aparece no plural — baxajaunak —, como uma
raça de homens que viveram nas montanhas bascas em tempos
remotos. Distinguem-se do resto dos homens pela soa religião e
pelos seus conhecimentos superiores de agricultura. O mesmo
personagem ó conhecido no Pais Basco francês como o Bassajaon.
Notemos que, dado que a tradição os considera anteriores aos
gentiles. os baxajaunak poderiam ser identificados como os mestres-
magos do paleolítico.
Uma curiosa tradição que persiste na localidade de Ataún—
Guipúzcoa — conta que os baxajaunak viviam na gruta de Muskia,
que cultivavam os cumes mais altos e recolhiam neles o trigo.
Entretanto, na planície viviam os cristãos e não conheciam o trigo
nem sequer a semente. San Martin;—continua dizendo a tradição —
calçou umas botas enormes, subiu até à gruta dos baxajaunak e
desafiou-os a saltar sobre os montes de trigo que armazenavam. Os
baxajaunak, devido ao seu tamanho e à sua força, conseguiram
saltar sobre eles, mas San Martin caiu em cima,deles
deliberadamente e, ao cair, ficou com as botas cheias de trigo. Fugiu
então da gruta. Um baxajaun lançou-lhe um machado, que se cravou
no tronco de um castanheiro em Olagasti. Os cristãos não sabiam o
que fazer com aquele trigo que lhes tinha trazido San Martin, mas um
dia ouviram ao longe contar um baxajaun que dizia: «Ao cair da
folha...», e os cristãos aprenderam. (Júlio CARO BAROJA, Mitos y
ritos equívocos, edições Istmo, Madrid, 1974).
3. O paladino Roldán — Roland na tradição e no canto da gesta
francesa — foi sempre apresentado no mito medieval como tendo
uma força hercúlea. Recordemos que, antes de morrer, quando
sentia que as suas forças faltavam tentou partir a tua espada —
Durandal — contra uma rocha, mas a rocha foi fendida pelo
moribundo sem que a espada apresentasse qualquer marca.
4. O dólmen de Soto (veja-se a figura 7) foi descoberto em 1929.
Comprovações geológicas realizadas sobre a natureza das rochas
que o compõem confirmam que as mesas da cobertura foram
transportadas desde jazigos que se encontram a 38 quilômetros de
distância. As rochas que formam essa mesa têm um comprimento de
20,90 metros, dos quais 14 formam o corredor, que pouco se
distingue da câmara central e que está amparado por dois menhires,
um a 4 metros da entrada, formando dintel, e o outro a 5 metros,
sustendo a lousa que serve de cobertura. As dimensões do
monumento aumentam para o interior até 3,40 metros de altura e
3,10 metros de, largura na parte posterior da câmara mais profunda.
O dólmen está formada por lousas graníticas cobertas com
numerosas gravações. Numa delas, uma estilizada figura humana de
grande tamanho parece proteger a outra menor. Ao pó desta lousa
encontrou-se o esqueleto de um adulto e outro esqueleto
correspondente a um menino de uns cinco anos. Em todo o dólmen
havia um total da oito sepulturas. Um dos cadáveres estava sentado
sobre os calcanhares, precisamente ao pó de uma determinada
lousa na que aparecem gravadas estilizações indecifráveis.
Na câmara há, ainda, uma lousa de pedras lisas cimentadas com
argila. Da mesma forma, o interior do dólmen apareceu cheio de
argila endurecida e compata, como se se tratasse de uma proteção
contra eventuais violações.
5. Louis Charpentier, cujas contribuições no campo do estudo dos
povos atlantes poderiam classificar-se de reveladoras, aponta com
surpreendente intuição este paralelo 42 como limite ao norte do qual
se produzem, ao longo da proto-história, uns acontecimentos cujos
testemunhos poderiam os considerar como excepcionais: ali se
encontraram os exemplos mais importantes das culturas dolmênicas;
ali se desenvolveram igualmente as mais antigas culturas esotéricas.
As peregrinações mais importantes têm lugar a norte desse paralelo
42, e os topônimos de significado «estrela» andam igualmente
paralelos e, muitas vezes, na sua mesma linha. Inclusive os
misteriosos enclaves da sabedoria esotérica do Nepal encaixam na
linha ideal deste paralelo geográfico.
6. Não esqueçamos o significado das rotas ancestrais de
peregrinações. E lembre mos que, na Península Ibérica, existem
duas dessas fitas fundamentais. Uma delas, o caminho de Santiago.
A outra, a que — ainda não se sabe exatamente porquê — chama-se
desde tempos imemoriais A Calçada da Prata, que corre de Sul para
Norte desde a província de Huelva até Ponferrada, em Leão, para
unir-se ali com a rota Jacobea
7. Há ainda mais monumentos megalíticos na Península mas, por
agora, significam testemunhos isolados que não parecem seguir uma
linha definida de penetração. Neste sentido poderíamos citar o
exemplo do sepulcro megalítico de corredor que se encontra na
localidade de Aguilar de Anguita, na província de Guadalajara.
8. Na língua basca, Zirrigo-arri significa «pedra posta ao alto» e
«Trebegoi-arri» pedras colocadas habilmente». Os topônimos com
esta raiz multiplicam-se em Euskadi e prolongam-se até ao Condado
Treviño, esse enclave incompreensível da província de Burgos que
engloba quase a quarta parte da província de Alava.
9. Antas é o nome que se dá aos menhires na província de Sala
manca. Numerosos topônimos com esta raiz indicam a presença
ancestral de pedras postas ao alto que desapareceram na sua maior
parte.
10. Em Zamora chama-se terinuelos ou turrunuelos (talvez
procedente da torre) aos menhires e aos dólmenes.
11. Jaime VICEINS VIVES, Aproximación a Ia historia de Espana.
A edição que pode estar mais ao alcance do leitor é a de Salvat,
Biblioteca RTVE, número 57.
12. Historia de España (sob a direção de Ramón Menéndez Pidal.
Tomo I: «Pré-história», Espasa Calpe, 1947). A parte correspondente
ao período neolítico foi encomendada ao professor Alberto del
Castillo.
13. Os pré-historiadores insistem uma e outra vez no fato de que
as construções megalíticas se prolongaram durante milênios, até à
época do domínio romano na Ibéria. baseando-se na evidencia de
que nos dólmenes escavados, apareceram ex-votos procedentes da
época pré-histórica, ibérica, celta, romana... e também da época
visigótica. A única prova desta evidência ó que o culto aos
monumentos megalíticos prolongou-se até essas datas e que as
gentes para quem os dólmenes tinham um significado religioso
depositaram neles as suas oferendas ou os seus ex-votos em
épocas muito posteriores à da sua eventual construção.
14. Esta única exceção foi encontrada na gruta dos Morcegos
(Albunol, Granada a consiste num diadema simples de ouro, sem
adornos nem molduras. Se esta descoberta corresponde à época
desta chamada Cultura das grutas, o diadema"— que se conserva no
Museu Arqueológico Nacional de Madrid — seria a primeira amostra
de trabalho em metal encontrada na Península.
15. Um fato que me põe os cabelos em pé pelas vezes que se
assinala sem conceder-lhe a menor importância ó, precisamente, o
de que não se encontrem armas guerreiras em determinados jazigos
arqueológicos. Porque o fato de não haver armas não significa
apenas que os seus ocupantes pré-históricos não fossem guerreiros,
mas que se negavam a defender-se perante um eventual ataque de
possíveis inimigos. Ou, se queremos pensar para além da lógica, que
tinham outros meios de defesa que não eram precisamente as
armas. Blas Taraceri, nas suas investigações arqueológicas na
província de Sória, assinala este mesmo fato, precisamente nas
ruínas de Numancial Não se encontraram armas celtiberas, que
deveriam corresponder aos defensores da praça, e, em troca
encontravam-se numerosas armas romanas contemporâneas.
Recordemos, por outro lado, que Filón falando das comunidades
hebraicas de uma seita dos antigos judeus (essênios), diz «Em vão
se procurava entre eles um fabricante de setas ou de dardos ou de
espadas ou de armaduras ou de couraças ou de escudos, numa
palavra, de armas ou máquinas militares ou qualquer instrumento de
guerra e até de objetos pacíficos que pudessem servir para o mal».
Estou convencido de que este é, precisamente, o motivo pelo
qual estes colonos-mestres, que deviam conhecer necessariamente
a técnica e o uso dos metais, se negaram a comunicá-lo aos
aborígines mesolíticos que os rodeavam e aos que, a pouco o pouco
iam ensinando outras artes, sempre pacíficas. O conhecimento e o
uso dos metais teria significado o ensino de uma técnica que poderia
converter-se imediatamente em arma de guerra, tal como aconteceu
no oriente mediterrânico, onde foram parar, como indicamos em
capitules anteriores, outros povos atlantes diferentes, Não se pode
pensar de modo algum numa descoberta — ou numa série de
descobertas casuais — que se verificasse no oriente e não no
ocidente, posto que precisamente a Península Ibérica foi, séculos
depois, a mais rica fonte de metais com que puderam contar os
povos do oriente fértil mediterrânico, que chegaram até ela em busca
de jazigos que, pela sua evolução para a idade dos metais, lhes
eram absolutamente necessários.
Veremos como uma tradição que não pode explicar-se senão
como repúdio aos instrumentos metálicos como possíveis armas
ofensivas fez com que os ferreiros e, em geral, os trabalhadores do
metal, fossem considerados como seres marginais e afastados por
uma sociedade que conservava a aversão ao metal — e à guerra—
de um modo Inconsciente. Hoje mesmo, os ciganos são chamados
«gente do cobre» pelo fato de se dedicarem muitos deles è
soldadura.
18. Não esqueçamos que o único método seguro para determinar
a idade de um jazigo — sempre que a sua antigüidade não
ultrapasse os 45 000 anos — é o Carbono 14, mas acontece que
esta determinação apenas se pode verificar sobre restos de matéria
orgânica. Esta ó a causa de que não se tenha podido determinar com
segurança a época em que estas grutas foram habitadas no
neolítico.
17. PLUTARCO, Vidas Paralelas. Sertório. IX (Calpe, col.
Universal, Madrid, 1920).
18. Henri Bergson, em La evolución creadora, expõe uma idéia
que merece ser considerada. Na sua opinião, a queda do homem
está na passagem do homo sapiens ao homo faber. O homem teria
sido sapiens (isto é, sábio em toda a acepção da palavra) enquanto
usou utensílios de necessidade imediata, utensílios de pedra e de
madeira que são, ao fim e ao cabo, a própria vida da Terra, a própria
natureza vivente. Por seu lado, a utilização dos metais significou a
necessidade de fabricar utensílios. O homem, nesta etapa da sua
evolução, deixaria de ser «sábio» (sapiens) para converter-se em
«operário» (faber). Por isso, para Bergson, a história, que começa
oficialmente na idade dos metais, é na realidade a história de uma
decadência, o registro de uma decadência.
19. Este é o caso da Capela da Ascensão—chamada pelo povo
«Os fornos» — em Santa Marina de Águas Santas, perto de Allariz
(Orense), que está erguida sobre um monumento megalítico tardio
que constitui ainda grande parte da sua cripta. 0 curioso deste lugar
é que conservou o seu caráter sagrado através de épocas muito
diferentes, já que há provas arqueológicas de que foi também ninfeu
na época da dominação romana.
Um monumento de certo modo paralelo é a Capela de Santa
Cruz em Cangas de Onis (Astúrias), construída sobre outra que
mandou edificar o rei Silo, sobre um dólmen que ainda se pode ver
no fundo da criptaI Na parte exterior da capela há uma gravação—
provavelmente do século XVII—que explica, em clave simbólica, todo
este processo cultural: uma cruz e, debaixo dela, uma lua crescente.
0 símbolo tardio dos cristãos—>o símbolo que antes foi signo solar—
sobre o culto lunar que personifica o dólmen do interior da capela.

Capítulo 13

1. O processo das bruxas de Zugarramurdi foi, provavelmente, o


mais falado nos anais da Inquisição espanhola. E isto devido,
precisamente, ao fato de que, por motivos bem determinados, o
tribunal espanhol do Santo Ofício se dedicou de uma forma mais
eficaz e encolerizada à procura e captura de hereges, protestantes,
criptojudeus e muçulmanos que à repressão da bruxaria que na
Península — e, sobretudo, em determinadas comarcas — proliferava
tanto como noutros países nos que a caça às bruxas constituía o
principal desporto doa Inquisidores.
2. Apenas alguns dados bastariam para comprovar que tanto
Riglos como Autol não construíram casualmente os seus casarios
debaixo doa penhascos que os caracterizam. Em Autol, o Picuezo e
a Picueza têm a sua lenda. As gentes chamam-lhes “Ladrões de
Uvas”. Pelo fato de Autol se localizar no coração da Rioja Alta.
rodeado de vinhedos fertilíssimos que produzam as melhores uvas
da comarca, é Impossível deixar de relacionar os penhascos com
primitivos ritos referentes à fecundidade dos campos de vinha, para
cuja fecundidade colaborariam sem dúvida o Picuezo e a Picueza.
Quanto a Riglos, nada na atualidade nos poderia fazer supor que,
numa época determinada da Idade Media, tivesse podido ter uma
preponderância sobre as restantes povoações da comarca. E,
contudo, essa preponderância existiu, até ao ponto de que, por volta
de 1105, Riglos foi efêmera cabeça de um reino governado por
Berta, viúva de Pedro I de Aragão. Se alcançou essa categoria, não
restam dúvidas de que Riglos, por uma circunstância dependente do
terreno em que se localiza, era uma terra suficientemente rica e fértil
para defender-se por si própria e bastar-se com os seus recursos.
3. As maníai ou manias eram, na mitologia grega, uma espécie
de fúrias ou euménides, divindades terrorificas que tiveram a sua
origem nas forças adversas da natureza e que, portanto, estavam
intimamente ligadas aos mitos agrícolas.
4. As pedras oscilantes são os monumentos megalíticos que mais
rareiam ou que menos se conservaram. É lógico, porque o seu
próprio equilíbrio instável terá podido provocar a sua destruição.
Contudo ainda restam algumas, como.este de Abalar e a Dracontia
de Montánchez, na Estremadura. Não há dúvida de que se trata de
monumentos megalíticos, tanto pelas suas características como pela
sua situação, que demonstra claramente a impossibilidade de terem
ido colocadas onde se encontram por causas naturais. A sabedoria
popular chamou-as, muitas vezes, pedras da verdade e concedeu-
lhes o poder de adivinhar e augurar. Sabe-se que na Pérsia e na
antiga índia, eram utilizados para a eleição dos reis. Na Eneida (VI,
27) há um verso revelador: “Mens agitat molem et magno se corpore
miscet” (a mente move e pedra e o seu imenso corpo se agita). Não
nos estará este verso de Virgílio a dar a explicação natural destas
pedras? Não serão enormes antenas captadoras de mensagens
mentais transmitidas de muito longe por mentes capazes de fazê-las
mexer apenas com a força do pensamento? Continuo a não desejar
ser crédulo, mas estou absolutamente convencido da possibilidade
mental do homem, demonstrada e reconhecida pela parapsicologia.
A telecinésia é um fato; o que não sabemos ainda são os seus
limites. Existe todo um mundo parapsicológico que está integrado
nessas nove décima partes do cérebro que o homem ainda não sabe
utilizar, mas que — creio que os monumentos megalíticos o provam
— existiu quem, num momento determinado e obscuro da história,
soube utilizá-las. Compreender e captar estes sinais é — e sempre
foi — o desejo Inconsciente do homem. Ser testemunha delas e não
entender o seu motivo e o seu significado tem sido a origem de ritos,
cultos e religiões.
5. Tenho a impressão de que, na sua origem, a incineração não
foi um rito, mas uma comodidade. Os megalitos e as suas sepulturas
dão-nos provas suficientes e testemunhos abundantes de que. em
multas ocasiões, gentes que habitavam comarcas muito distantes
das zonas mágicas dos megalitos, levaram para lá os seus mortos
em longa peregrinação votiva. Não será de pensar, corri certa lógica,
que esse transladar dos mortos, que se prolongava por meses e
talvez por anos Inteiros, se tomava mais cômodo e mais higiênico se
o morto fosse previamente reduzido a cinzas? Creio que esta forma
de enterro poderia ter-se chamado, pelo menos nas suas mais
antigas manifestações, algo como “enterro migratório”.
Posteriormente, o próprio ato de incinerar o morto converter-se-ia
num rito, pelo qual se farta chegar o morto muito mais rapidamente à
sua morada celestial.
Se esta idéia tem visos de certeza, creio que ajudaria a
compreender melhor um mistério tão Indecifrável como o da
existência dos campos de urnas, testemunho das primeiras
migrações célticas na Península Ibérica. Os campos de urnas são
cemitérios de incineração enormes, que se encontram a Sul dos
Pirineus, precisamente em regiões megalíticas, mas posteriores à
Cultura dos dólmenes. Nas suas redondezas não se encontram
quase nunca quaisquer restos de habitações de vivos. Não poderiam
ser, então, cemitérios de enterros migratórios trazidos desde o outro
lado das montanhas?

Capitulo 14

1. V. GORDON CHILDE, Los origenes de Ia civilization (México,


F.C.E., 1954. Trade Man makes himself, The Racionalist Press
Association, Ltd. Londres, 1936).
2. Mas pensemos que o fato de que comece a revestir
importância nesse momento histórico não significa que até então não
a tivesse.- De acordo com a hipótese lançada por Louis Charpentier
(Le Mystére des Templiers) os cavaleiros templários puderam chegar
com as suas naves até às costas americanas e os seus
conhecimentos geográficos legados nos seus arquivos — que em
Espanha foram parar, em grande parte, à ordem de Calatrava —,
puderam ser conhecidos pelo Almirante Cristóvão Colombo através
— talvez — dos franciscanos de La Rábida, antes de empreender a
sua primeira viagem atlântica.
3. Luis SIRET, Las primeras edades del metal en el sudeste de
España (Barcelona, 1890). Corresponde à edição em francês
publicada dois anos antes em Amberes. As escavações dos irmãos
Siret começaram com uma série de descobertas realizadas na gruta
de Vera e continuaram com a descoberta de mais de quarenta
estações arqueológicas que abarcavam períodos pré-históricos
desde o neolítico até à Idade do Bronze.
4. A Aproximación a Ia historia de España, ed. Cit.
5. Se nos detemos a observar no que consiste uma cista,
comprovaremos que consta de uma espécie de caixa, formada de
lousas verticais feche das por uma lousa maior horizontal, que se
apóia nelas. Nessa espécie de caixa está encerrado o cadáver com o
seu enxoval. Mas a cista, pela sua forma, não será um dólmen
pequeno? ,Não se enterrariam os mortos dessa maneira para que o
seu corpo repousasse dentro de uma espécie de templo megalítico
em miniatura? A idéia, sem comprovação possível, surge-me ao
constatar que também nos nossos cemitérios se edificam templos em
miniatura — pequenas capelas mortuárias—para que o lugar donde
repousam os mortos seja um pouco mais sagrado, até na própria
aparência.
6. (Entre as formas da cerâmica, muito numerosas, há uma sobre
a que nos devemos deter. Trata-se do vaso argárico, cujo a
característica forma de cálice ir-se-á repetindo ao longo das liturgias
religiosas com caráter especialmente mágico, até converter-se no
Grial possuidor simbólico da Sabedoria Universal — O Sangue de
Cristo — e objetivo dos pesquisadores do conhecimento.
7. Há jazigos cupríferos em Peñaflor (Sevilha), Linares (Jaén),
Serra de Córdova, Serra Nevada e Guadix (Granada). Nas
proximidades de todos eles encontram-se restos da cultura argárica.
8. Não devemos esquecer que, num princípio, o metal foi
trabalhado a partir das rochas meteóricas. Talvez por isso, línguas de
origem muito remota, como a língua basca, conservam ainda nos
nossos dias raízes fonéticas derivadas de “pedra” para designar
objetos que normalmente são metálicos. Assim, em éuscara, pedra
denomina-se aitr, e desta raiz provém vocábulos como aizpil (pratos
de comida), aislau (bandeja), aizto (faca), aizpillu (espelho), aiztur
(tesoura), aizkore (machado), aizkon (flecha), aizagaza (dardo). E a
palavra que designa a escrita, idazkai, provém de ide (gravar), eitz
(pedra) e kai (punção) São restos neolíticos da linguagem que se
prolonga até aos primeiros tempos da utilização do metal.
9. Os jazigos mais importantes de estanho na Península
encontram-se na Galiza (Noya, Lalin, Carballino e Ribadavia) entre
Santiago e Orense e, a Sudeste de Orense, Viana do Bollo, a Gudiña
e Verin. Em jazigos mais ao norte — Salabe (Ribadeo) a Ablaneda
(Salas, perto de Oviedo) — encontraram-se vestígios de trabalhos
mineiros pré-históricos. Este estanho, que se extrai da cassiterita, fez
com que, para muitos historiadores, o noroeste peninsular fosse
identificado com as ilhas Cassitérides das viagens míticas e
clássicas.
10. Se aceitamos a procedência egípcia de Almeria, não
esqueçamos que também no Egito se encontra o topônimo LUG,
precisamente nos templos mais característicos da civilização
faraônica: LUXOR.
11. Os templos megalíticos da ilha de Malta datam de 2 500 A.C..
Constituem salas geralmente em forma de ferradura, com altares de
pedra e bancos para uma assistência reduzida. Uma característica
desses tempos malteses .é a existência de uma espécie de buzina
que fazia chegar — misteriosa e magicamente, supõe-se — a voz do
sacerdote que falava oculto numa câmara secreta construída no
interior dos muros megalíticos.
12. As opiniões mais divulgadas entre os arqueólogos estudiosos
da cultura megalítica é a que supõe que todos os dólmenes, na sua
origem, estiveram cobertos. Não acredito nessa opinião. Observando
os dólmenes setentrionais da Península' adivinha-se —«julgo eu —
que tiveram que ser constituídos ao ar livre. Nunca poderiam muitos
deles ter sido cobertos pelo montículo de terra sem que a câmara se
tivesse ofuscado. Mas há ainda algo mais: o próprio lugar da
localização de muitos deles — como os que se encontram, por
exemplo, nos cumes de Aralar, na montanha basco-navarra —
tornam impossível a idéia de que, pelo fato de se encontrarem no
alto dos montes, tivessem, ainda, que ser cobertos de terra.
13. Op cit.

Capítulo 15

1. As experiências místicas de S. Juan Ia Cruz ultrapassam


amplamente os limites da fé católica, alcançando uma categoria de
experiência universal. Assim, pelo menos, o estudou o filósofo hindu
SWAMI SIDDHESWARANANDA no seu livro El raja yoga do San
Juan de Ia Cruz (trad. J. Garcia, Rigal, ed. Orión, México, 1959).
2. Muitos destes dados foram-me proporcionados por José Luis
Uribarri, delegado de escavações arqueológicas da Deputação de
Burgos, que investigou a gruta de Ojo Guareña muito mais
profundamente que qualquer outra pessoa e conheceu pessoalmente
o Bruxo, de quem teve experiências parapsicológicas realmente
assombrosas. Sobre o Bruxo pode testemunhar igualmente Pedro
Macho, o guarda e guia oficial da gruta, a quem o Bruxo se dirigiu
numerosas vezes anunciando-lhes visitas e acontecimentos futuros
que nenhum dado nacional poderia fazer previsíveis no momento
que lhe foram transmitidos.
3. Lápidas sepulcrais fechadas por volta do século VIII foram
recentemente encontradas na povoação de Palácios de Ia Sierra
(Burgos) e estudadas, sem que se tenha tirado qualquer conclusão
sobre o significado dos seus símbolos, por historiadores da categoria
de Alberto dei Castillo. Contudo, pude comprovar a coincidência de
muitos destes símbolos com os gravados pelos guaches primitivos
nos barrancos de Cindia e Tejeleite, na ilha de Hierro, assim come a
coincidência com muitos dos desenhos nos petroglifos galegos de
Campo Lameiro (Pontevedra).