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O QUE É GEOPOLÍTICA? E GEOGRAFIA POLÍTICA?

É freqüente a confusão entre geografia política e geopolítica, que na


verdade são imbricadas, se sobrepõem em grande parte, mas não se
identificam totalmente. Existe uma história de cada um desses saberes
que mostra suas origens, suas especificidades, embora em alguns
momentos eles tenham se mesclado, se identificado.

A expressão geografia política existe há séculos. Há inúmeros livros dos


séculos XVII, XVIII e XIX com esse título. Mas considera-se que geografia
política moderna, pelo menos tal como a entendemos hoje -- isto é, como
um estudo geográfico da política, ou como o estudo das relações entre
espaço e poder -- nasceu com a obra Politische Geographie [Geografia
Política], de Friedrich RATZEL, publicada em 1897. Ratzel, na verdade,
não criou o rótulo "geografia política"; ela apenas redefiniu o seu
conteúdo, apontando para o que seria um verdadeiro estudo geográfico
da política, uma concepção de política que muito deve à leitura de
Maquiavel. Antes dele era comum encontrar em obras com esse título a
descrição dos rios ou montanhas de tal ou qual Estado - ou seja, qualquer
fenômeno ligado ao Estado (o ser político por excelência) era tido como
assunto de geografia política. Ratzel mostrou que o estudo da geografia
política só vai se preocupar com o meio ambiente - as características
"naturais" do território, por exemplo (localização, formato, proximidade
do mar, etc.) - desde que isso tenha relações com a vida política. Ele
procurou estabelecer uma série de temas pertinentes à geografia política,
que continuam a ser atuais (embora outros tenham surgido
posteriormente): o que é o Estado e quais as suas relações com o
território, soberania e território, o que é política territorial (uma expressão
criada por ele), a questão das fronteiras, o que significa uma grande
potência mundial, etc.

Em síntese, esse geógrafo alemão não foi o primeiro autor a empregar


esse rótulo, geografia política, nem mesmo o primeiro a escrever sobre o
assunto - a questão do espaço geográfico na política. Essa análise a
respeito da dimensão geográfica ou espacial da política é bastante antiga.
Podemos encontrá-la em Aristóteles, em Maquiavel, em Montesquieu e
em inúmeros outros filósofos da antiguidade, da Idade Média ou da época
moderna. Mas normalmente essa preocupação com a dimensão espacial
da política -- tal como, por exemplo, a respeito do tamanho e da
localização do território de uma cidade-estado, em Aristóteles; ou sobre a
localização e a defesa da fortaleza do príncipe, em Maquiavel; ou a ênfase
na importância da geografia (física e principalmente humana) para a
compreensão do "espírito das Leis" de cada Estado, em Montesquieu --
era algo que surgia en passant, como um aspecto meio secundário da
realidade, pois o essencial era entender a natureza do Estado ou das Leis,
os tipos de governo ou as maneiras de alcançar e exercer eficazmente o
poder. Com Ratzel inicia-se um estudo sistemático da dimensão
geográfica da política, no qual a espacialidade ou a territorialidade do
Estado era o principal objeto de preocupações. E com Ratzel a própria
expressão "geografia política", que era comumente empregada nos
estudos enciclopédicos dos séculos XVII, XVIII e mesmo XIX (as
informações sobre tal ou qual Estado: sua população, contornos
territoriais, rios, montanhas, climas, cidades principais, etc.), ganha um
novo significado. Ela passa a ser entendida como o estudo geográfico ou
espacial da política e não mais como um estudo genérico (em "todas" as
suas características) dos Estados ou países.

A palavra geopolítica, por sua vez, foi criada no início do século XX, mais
precisamente em 1905, num artigo denominado "As grandes potências",
escrito pelo jurista sueco Rudolf KJELLÉN. (Mas atenção: a palavra
geopolítica é que foi criada por Kjellén, pois não há dúvida que essa
temática é bem mais antiga, ou seja, as grandes preocupações
geopolíticas não surgiram no início do século XX (preocupações sobre o
que é e quem é uma potência mundial, como se dá a disputa mundial pelo
poder entre os Estados, que estratégias seriam adequadas para tal ou
qual Estado tornar-se a potência regional nesta ou naquela parte do
globo, etc.). Isto é, já existiam anteriormente juízos ou análises a respeito
do poderio de cada Estado, das grandes potências mundiais ou regionais,
com a importância ou o uso do espaço geográfico na guerra ou no
exercício do poder estatal.

Normalmente se afirma -- em quase todas as obras sobre "história da


geopolítica" -- que os geopolíticos clássicos, ou os "grandes nomes da
geopolítica", foram H.J. MacKinder, A.T. Mahan, R. Kjellén e K. Haushofer.
Desses quatro nomes, dois deles (o geógrafo inglês Mackinder e o
almirante norte-americano Mahan) tiveram as suas principais obras
publicadas antes da criação dessa palavra geopolítica por Kjellén e,
dessa forma, nunca fizeram uso dela. O outro autor, o general alemão Karl
Haushofer, foi na realidade quem popularizou a geopolítica, devido às
circunstâncias (ligações, embora problemáticas, com o nazismo e
possível contribuição indireta para a obra Mein Kampf, de Hitler),
tornando-a tristemente famosa nos anos 1930 e 40, em especial através
da sua Revista de Geopolítica [Zeitschrift für Geopolitik], editada em
Munique de 1924 a 44 e com uma tiragem mensal que começou com 3 mil
e chegou a atingir a marca dos 30 mil exemplares, algo bastante
expressivo para a época.

A geopolítica, enfim, conheceu um período de grande expansão no pré-


guerra, na primeira metade do século XX, tendo se eclipsado -- ou melhor,
ficado no ostracismo -- depois de 1945. Ela sempre se preocupou com a
chamada escala macro ou continental/planetária: a questão da disputa do
poder mundial, que Estado (e por que) é uma grande potência, qual a
melhor estratégia espacial para se atingir esse status, etc. Existiram
"escolas (nacionais) de geopolítica", em especial dos anos 1920 até os
anos 1970, em algumas partes do mundo, inclusive no Brasil. Não escola
no sentido físico (prédio e salas de aula), mas sim no sentido de corrente
de pensamento, de autores -- mesmo que um tenha vivido distante do
outro, no espaço ou às vezes até no tempo -- com uma certa
identificação: no caso da geopolítica brasileira, ela consistiu
principalmente no desenvolvimento de um projeto ("Brasil, grande
potência") que se expressa como uma estratégia (geo)política e militar
com uma clara dimensão espacial. A natureza pragmática, utilitarista (e
para o Estado, único agente visto como legítimo) ou de "saber aplicável"
sempre foi uma tônica marcante na geopolítica. Ela nunca se preocupou
em firmar-se como um (mero?) "conhecimento" da realidade e sim como
um "instrumento de ação", um guia para a atuação de tal ou qual Estado.

A partir de meados dos anos 1970 a geopolítica sai do ostracismo. Ela


volta a ser novamente estudada (a bem a verdade, ela nunca deixou de
ser, mas de 1945 até por volta de 1975 esteve confinada em pequenos
círculos, em especial militares). Só que agora, ao invés de ser vista como
"uma ciência" (como pretendia Kjellén) ou como "uma técnica/arte a
serviço do Estado" (como advogavam inúmeros geopolíticos, inclusive
Haushofer), ela é cada vez mais entendida como "um campo de estudos",
uma área interdisciplinar enfim (tal como, por exemplo, a questão
ambiental). Em várias parte do globo criaram-se -- ou estão sendo criados
-- institutos de estudos geopolíticos e/ou estratégicos, que via de regra
congregam inúmeros especialistas: cientistas políticos, geógrafos,
historiadores, militares ou teóricos estrategistas, sociólogos e, como não
podia deixar de ser (na medida em que a "guerra" tecnológico-comercial
hoje é mais importante que a militar) até mesmo economistas.

Enfim, a palavra geopolítica não é uma simples contração de geografia


política, como pensam alguns, mas sim algo que diz respeito às disputas
de poder no espaço mundial e que, como a noção de PODER já o diz
(poder implica em dominação, via Estado ou não, em relações de
assimetria enfim, que podem ser culturais, sexuais, econômicas,
repressivas e/ou militares, etc.), não é exclusivo da geografia. (Embora
também seja algo por ela estudado). A geografia política, dessa forma,
também se ocupa da geopolítica, embora seja uma ciência (ou melhor,
uma modalidade da ciência geográfica) que estuda vários outros temas
ou problemas. Exemplificando, podemos lembrar que a geografia também
leva em conta a questão ambiental, embora esta não seja uma temática
exclusivamente geográfica (outras ciências -- tais como a biologia, a
geologia, a antropologia, a história, etc. -- também abordam essa
questão). Mas a geografia -- da mesma forma que as outras ciências
mencionadas -- não se identificam exclusivamente com essa questão,
pois ela também procura explicar outras temáticas que não são
rigorosamente ambientais tais como, por exemplo, a história do
pensamento geográfico, a geografia eleitoral, os métodos cartográficos,
etc.

Esquematizando, podemos dizer que existiram ou existem várias


interpretações diferentes sobre o que é geopolítica e as suas relações
com a geografia política. Vamos resumir essas interpretações, que
variaram muito no espaço e no tempo, em quatro visões:

1. "A geopolítica seria dinâmica (como um filme) e a geografia política


estática (como uma fotografia)". Esta foi a interpretação de inúmeros
geopolíticos anteriores à Segunda Guerra Mundial, dentre os quais,
podemos mencionar Kjellén, Haushofer e vários outros colaboradores da
Revista de Geopolítica, além do general Golbery do Couto e Silva e
inúmeros outros militares no Brasil. Segundo eles, a geopolítica seria
uma "nova ciência" (ou técnica, ou arte) que se ocuparia da política ao
nível geográfico, mas com uma abordagem diferente da geografia: ela
seria "mais dinâmica" e voltada principalmente para a ação. Eles viam a
geografia como uma disciplina tradicional e descritiva e diziam que nela
apenas colhiam algumas informações (sobre relevo, distâncias, latitude e
longitude, características territoriais ou marítimas, populações e
economias, etc.), mas que fundamentalmente estavam construindo um
outro saber, que na realidade seria mais do que uma ciência ou um mero
saber, seria um instrumento imprescindível para a estratégia, a atuação
político/espacial do Estado. Como se percebe, foi uma visão adequada ao
seu momento histórico -- não podemos esquecer que o mundo na
primeira metade do século XX, antes da Grande Guerra, vivia uma ordem
multipolar conflituosa, com uma situação de guerra latente entre as
grandes potências mundiais -- e à legitimação da prática de quem fazia
geopolítica naquele momento. Ela também foi coeva e tributária de todo
um clima intelectual europeu -- especialmente alemão -- da época, que
fustigava o conhecimento científico ( a "ciência real", que era contraposta
a uma "ciência ideal" ou "novo saber", que deveria contribuir para um
"mundo melhor") pela sua pretensa "desconsideração pela vida concreta,
pelas emoções, pelos sentimentos".

2. "A geopolítica seria ideológica (um instrumento do nazi-fascismo ou


dos Estados totalitários) e a geografia política seria uma ciência". Esta foi
a interpretação de alguns poucos geógrafos nos anos 1930 e 40 (por
exemplo: A. Hettner e Leo Waibel) e da quase totalidade deles (e também
de inúmeros outros cientistas sociais) no pós-guerra. Um nome bastante
representativo desta visão foi Pierre George, talvez o geógrafo francês
mais conhecido dos anos 50 aos 70, que afirmava que a geopolítica seria
uma "pseudo-ciência", uma caricatura da geografia política. Esta visão foi
praticamente uma reação àquela anterior, que predominou anteriormente,
no período pré-Segunda Guerra Mundial. Como toda forte reação, ela
caminhou para o lado extremo do pêndulo, desclassificando
completamente a geopolítica (da qual "nada se aproveita", nos dizeres de
inúmeros autores dos anos 50 e 60) e até mesmo se recusando a explicá-
la de forma mais rigorosa.

3. "A geopolítica seria a verdadeira (ou fundamental) geografia". Esta foi a


interpretação que Yves Lacoste inaugurou com o seu famoso livro-
panfleto A Geografia - isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra,
de 1976, e que serviu como ideário para a revista Hérodote - revue de
géographie et de géopolitique. Nessa visão, a geografia de verdade (a
"essencial" ou fundamental) não teria surgido no século XIX com
Humboldt e Ritter, mas sim na antiguidade, junto com o advento dos
primeiro mapas. O que teria surgido no século XIX seria apenas a
"geografia dos professores", a geografia acadêmica e que basicamente
estaria preocupada em esconder ou encobrir, como uma "cortina de
fumaça", a importância estratégica da verdadeira geografia, da
geopolítica enfim. A geopolítica -- ou geografia dos Estados maiores, ou
geografia fundamental -- existiria desde a antiguidade na estratégia
espacial das cidades-Estado, de Alexandre o Grande, por exemplo, de
Heródoto com os seus escritos (obra e autor que, nessa leitura enviesada,
teria sido um "representante do imperialismo ateniense"). Esta
interpretação teve um certo fôlego -- ou melhor, foi reproduzida,
normalmente por estudantes e de forma acrítica -- no final dos anos 1970
e nos anos 80, mas acabou ficando confinada a um pequeno grupo de
geógrafos franceses que, inclusive, em grande parte se afastaram do
restante da comunidade geográfica (ou mesmo científica) daquele país.
Existe uma visível falta de evidências nessa tese -- de comprovações, e
mesmo de possibilidade de ser testada empiricamente (inclusive via
documentos históricos) -- e, na realidade, ela surgiu mais como uma
forma de revalorizar a geografia, tão questionada pelos revoltosos do
maio de 1968, tentando mostrar a sua importância estratégica e militar.

4. "A geopolítica (hoje) seria uma área ou campo de estudos


interdisciplinar". Esta interpretação começa a predominar a partir do final
dos anos 1980, sendo quase um consenso nos dias atuais. Não se trata
tanto do que foi a geopolítica e sim do que ela representa atualmente. E
mesmo se analisarmos quem fez geopolítica, os "grandes nomes" que
teriam contribuido para desenvolver esse saber, vamos concluir que eles
nunca provieram de uma única área do conhecimento: houve juristas (por
exemplo, Kjellén), geógrafos (Mackinder), militares (Mahan, Haushofer) e
vários outros oriundos da história, da ciência política, da economia, da
engenharia, etc. Não tem nenhum sentido advogar o monopólio desse
tipo de estudo -- seria o mesmo que pretender deter a exclusividade das
pesquisas ambientais! --, já que com isso estaríamos desconhecendo a
realidade, o que já se fez e o que vem sendo feito na prática. Existem
trabalhos recentes sobre geopolítica, alguns ótimos, oriundos de
geógrafos, de cientistas políticos (Luttuak...), de historiadores (H.
Kissinger, P. Kennedy...), de sociólogos (Huntington...)de militares, etc. E
ninguém pode imaginar seriamente que num instituto ou centro de
estudos estratégicos e/ou geopolíticos -- onde se pesquise os rumos do
Brasil (ou de qualquer outro Estado-nação, ou mesmo de um partido
político) no século XXI, as possibilidades de confrontos ou de crises
político-diplomáticas ou econômicas, as estratégias para se tornar
hegemônico no (sub)continente, para ocupar racionalmente a Amazônia,
etc. -- devam existir apenas geógrafos, ou apenas militares, ou apenas
economistas ou juristas. Mais uma vez podemos fazer aqui uma ligação
com o nosso tempo, com o clima intelectual do final do século XX e
inícios do XXI. A palavra de ordem hoje é interdisciplinariedade (ou até
transdisciplinariedade), pois o real nunca é convenientemente explicado
por apenas uma abordagem ou uma ciência específica. O conhecimento
da realidade, enfim, e mesmo a atuação nela com vistas a um mundo mais
justo, é algo muito mais importante do que as disputas corporativistas.

A NOVA ORDEM MUNDIAL

O que é uma ordem [geopolítica] mundial? Existe atualmente uma nova


ordem ou, como sugerem alguns, uma desordem? Quais são os traços
marcantes nesta nova (des)ordem internacional?

Esse tema é clássico na geografia política, na geopolítica, na ciência


política e nos estudos de relações internacionais. Um dos mais
importantes (pelo número de citações que recebeu e ainda recebe)
teóricos a abordar esse tema foi o geógrafo e geopolítico inglês Halford J.
MacKinder, que produziu várias obras sobre o assunto no final do século
XIX e no início do século XX. A idéia de uma ordem mundial pressupõe
logicamente um espaço mundial unificado, algo que só ocorreu a partir da
expansão marítimo-comercial européia (e capitalista) dos séculos XV e
XVI. Daí os autores clássicos, em especial aqueles do século XIX, terem
cunhado a expressão "grande potência" ou "potência mundial",
indissociavelmente ligada à idéia de ordem mundial. Esta normalmente é
vista como uma situação de equilíbrio (sempre instável ou provisório) de
forças entre os Estados. (Afinal é o Estado quem atua nas relações
internacionais e executa tanto a diplomacia quanto a guerra).

E como esses atores privilegiados no cenário global, os Estados, são


equivalentes apenas na teoria -- pois há alguns fraquíssimos, em termos
de economia, de população e de poderio militar, e alguns poucos outros
extremamente fortes --, o conceito de potências (médias ou regionais e
principalmente grandes ou mundiais) é essencial na medida em que
expressa algo que ajuda a definir ou a estabilizar a (des)ordem mundial.
Como assinalaram Norberto BOBBIO e Outros (Dicionário de Política,
editora Universidade de Brasília, 1986, pp.1089-1098), cada Estado possui
a sua soberania ou poder supremo no interior de seu território, não
estando portanto submetido a nenhuma outra autoridade supraestatal, o
que em tese redundaria numa espécie de "anarquia internacional". Mas a
existência das grandes potências e a própria hierarquia entre os Estados
introduz um elemento estabilizador, uma "ordem" afinal, nessa situação
em que não há um poder global ou universal, isto é, acima das soberanias
estatais.

É exatamente essa hierarquia que vai dos "grandes Estados" -- a(s)


grande(s) potência(s) -- até os "pequenos", esse sistema de países onde
na prática há o exercício do poder pela diplomacia (ou, no caso extremo,
pela força militar) e pelas relações cotidianas (comerciais, financeiras,
culturais...), o que se convencionou denominar ordem mundial. Por esse
motivo, via de regra se define uma ordem mundial pela presença de uma
ou mais grandes potências mundiais: ordem monopolar, bipolar, tripolar,
pentapolar, multipolar etc. Como podemos perceber, não se avança muito
quando se nega a idéia de uma (nova) ordem e se enfatiza o termo
desordem, pois toda ordem mundial é instável e plena de conflitos e de
guerras. Estas normalmente, salvo raras exceções, são explicáveis pela
lógica que preside a ordem mundial e, portanto, não a denegam. Podemos
dizer, assim, que o conceito de ordem mundial não é positivista (no
sentido de ordem = ausência de contestações e de conflitos) e sim, na
falta de um conceito melhor, dialético (no sentido de ordem = algo sempre
instável e na qual as disparidades, as tensões e os conflitos são
"normais" ou inerentes).

A atual ordem internacional, nascida com a ruína da bipolaridade -- que


foi o mundo da guerra fria e das duas superpotências, que existiu de 1945
até 1989-91--, ainda suscita inúmeras controvérsias e costuma ser
definida ora como multipolar (por alguns, provavelmente a maioria dos
especialistas), ora como monopolar (por outros) ou ainda como uni-
multipolar (por Huntington). Aqueles que advogam a mono ou
unipolaridade argumentam que existe uma única superpotência militar, os
Estados Unidos, e que a sua hegemonia planetária é incontestável após o
final da União Soviética. E aqueles que defendem a idéia de uma
multipolaridade não enfatizam tanto o poderio militar e sim o econômico,
que consideram como o mais importante nos dias atuais. Eles sustentam
que a União Européia já é uma potência econômica tão ou até mais
importante que os EUA -- e continua se expandir -- e tanto o Japão (que
logo deverá superar a sua crise) quanto a China (a economia que mais
cresce no mundo desde os anos 1990) também são economias
importantíssimas a nível planetário. Além disso, raciocinam, a Rússia
ainda é uma superpotência militar, apesar de sua economia fragilizada; a
China vem modernizando rapidamente o seu poderio militar; e as forças
armadas da Europa, em especial as da Alemanha, França, Itália e Reino
Unido, tendem a se unificar com o desenrolar da integração continental.
Até mesmo os momentos de crise (Guerra do Golfo, em 1991, conflitos na
Bósnia e no Kosovo, em 1993 e 1999, a luta contra o terrorismo, em 2001,
e a ocupação do Iraque, em 2003) são vistos sob diferentes perpectivas
por ambos os lados. Os que insistem na monopolaridade pensam que
essas crises exemplificam a hegemonia absoluta e sem concorrentes dos
Estados Unidos, enquando que os que advogam a multipolaridade
explicam que essa superpotência em todos esses momentos críticos
necessitou do imprescindível apoio da Europa, em primeiro lugar, e até
mesmo da ONU, além de ter feito inúmeras concessões à Rússia e à
China em troca do seu suporte direto ou indireto nesses bombardeios
contra o Iraque, contra a Sérvia e contra o Afeganistão.

Mas, independentemente do fato de ser uni ou multipolar -- ou talvez uni-


multipolar, uma fórmula conciliatória que admite uma monopolaridade
militar (mesmo que provisória) e uma multipolaridade econômica --, a
nova ordem mundial possui outros importantes traços característicos: o
avançar da Terceira Revolução Industrial, ou revolução técnico-científica,
e de uma globalização capitalista junto com uma nova regionalização que
lhe é complementar, isto é, a formação de "blocos" ou mercados
regionais. A revolução técnico-científica redefine o mercado de trabalho
(esvaziando os setores secundário e primário e ao mesmo tempo
exigindo cada vez mais uma mão-de-obra qualificada e flexível) e
reorganiza ou (re)produz o espaço geográfico (com novos fatores sendo
determinante para a alocação de indústrias: não mais matérias primas e
sim telecomunicações e/ou força de trabalho qualificada, dentre outros).
Ela é condição indispensável para a globalização na medida em que esta
não existe sem as novas tecnologias de informática e de
telecomunicações. Ela influi até mesmo na guerra, pois permite a
construção de armas "inteligentes", que destroem alvos específicos sem
ocasionar matanças indiscriminadas (e são mais precisas que as armas
de destruição em massa, o que significa que não é mais necessário o
transporte de grande quantidade delas) e torna as informações algo
estratégico para a supremacia militar. Esta última deixa de ser ligada ao
tamanho da população ou mesmo à quantidade de soldados (existe uma
tendência no sentido de haver menos militares, só que com maior
qualificação) e passa a depender da economia moderna, da tecnologia
avançada.

PARA SABER MAIS: Como sugestões de leituras sobre o tema, indicamos


os seguintes livros bastante acessíveis (e que contêm no final uma vasta
bibliografia):
- Ascensão e queda das grandes potências, de Paul Kennedy (editora
Campus, 1989). Um exaustivo estudo sobre as "grandes potências
mundiais" desde o século XVI até o final dos anos 1980. Ele procura
mostrar como era a ordem mundial em cada período e dá uma ênfase
especial à ordem bipolar de 1945 até 1989-91.
- A nova ordem mundial, de José William Vesentini (editora Ática, 1996).
Um sucinto texto paradidático sobre as razões da crise da bipolaridade e
as características da nova ordem mundial dos anos 1990 e do início do
século XXI.
- Novas geopolíticas, de José William Vesentini (editora Contexto, 2000).
Uma análise crítica sobre as principais representações geopolíticas sobre
o mundo pós-guerra fria: o conflito de civilizações, a universalização da
democracia liberal, a nova geoestratégia, o mundo visto como caos ou
desordem, etc.
- Nova Ordem, Imperialismo e Geopolítica global, de José William
Vesentini (editora Papirus, 2003). Um estudo sobre a pertinência (ou não)
das categorias imperialismo e império para a ordem internacional do
início do século XXI, com novas reflexões sobre as desigualdades
internacionais e sobre a uni-multipolaridade das relações de poder no
espaço mundial.

Terrorismo e Nova Ordem Mundial - alguns comentários (*)

José William Vesentini, de 17 a 21 de outubro de 2001.

1. Colocando o problema

O terrorismo é o grande assunto do momento. Ele afetou as bolsas de


valores e as perspectivas de crescimento das economias, a começar pela
norte-americana -- a mais poderosa do globo -- e vem suscitanto uma
série de discussões sobre como evitá-lo, com algumas propostas que, se
adotadas, vão certamente alterar algumas de nossas rotinas do dia a dia.
E também a ordenação geopolítica mundial começa a sofrer significativas
modificações em função do desenrolar dos acontecimentos, em especial
da luta contra o terrorismo. Tudo começou, como se sabe, com os
recentes atentados do dia 11 de setembro deste ano, que destruíram as
duas torres do World Trade Center, em Nova Iorque, e parte das
instalações do Pentágono, em Washington. A reação norte-americana, ao
contrário do que temiam alguns -- e do que sugeriam as primeiras
declarações atabalhoadas do Presidente George W. Bush --, foi
relativamente cautelosa na medida em que essa superpotência militar
procurou, antes de iniciar uma contra-ofensiva, cimentar toda uma aliança
internacional de apoio. Quase um mês após os atentados, as forças
armadas estadunidenses -- com o aval da ONU e com a colaboração ativa
(envio de tropas) ou passiva (apoio logístico) de inúmeros outros países
-- iniciaram uma série de fortes bombardeios sobre o Afeganistão, país
onde se localizam o quartel general e vários campos de treinamento do
grupo terrorista El Quaeda [A base], liderado pelo milionário saudita
Osama Bin Laden, considerado pelas organizações de inteligência dos
Estados Unidos, do Reino Unido e de outros Estados como o responsável
pelo planejamento daqueles atos destrutivos. Bin Laden nega qualquer
envolvimento naqueles atentados -- algo, por sinal, coerente com o
posicionamento do terrorismo atual ou pós-moderno, que quase nunca
assume a autoria de suas ações --, mas o seu envolvimento com o
terrorismo é patente (algo que ele próprio admite, inclusive as ameaças
que fez contra os Estados Unidos no início deste ano, prometendo uma
onda de atentados caso o novo governo desse país continuasse com a
sua política de abandonar os palestinos e deixar Israel à vontade) e ele já
foi exaustivamente apontado como o responsável por alguns outros
violentos atentados ocorridos anteriormente.

O objetivo destes comentários é analisar o que é o terrorismo atual ou


pós-moderno e realizar algumas inferências a respeito do seu significado
na nova ordem mundial, que mais uma vez se redefine neste momento.
Não pretendemos analisar exaustivamente este episódio específico -- os
atentados de 11 de setembro e a reação norte-americana --, que por sinal
ainda não chegou ao seu término (nem mesmo no que diz respeito ao
futuro do Afeganistão). Provavelmente o governo deste país vai mudar,
com a saída do Teleban e a entrada de uma coalisão formada pela Liga do
Norte e por representantes do antigo rei, do Paquistão, do Irã (afinal 20%
da população afegã é constituída por muçulmanos xiitas, que foram
fortemente reprimidos no governo do Teleban; e o apoio iraniano é
fundamental para amenizar os protestos islâmicos) e talvez até da facção
moderada do Teleban, que nestes últimos dias vem procurando se
distanciar do terrorismo e passou a denunciar o "exagerado poder" do El
Quaeda no Estado afegão. Mas isso não é o fundamental -- e nem mesmo
o futuro de Bin Laden e do seu grupo terrorista (que provavelmente vai
continuar mesmo sem ele). O essencial são as mudanças permanentes
que todo esse episódio deverá ocasionar nas relações (econômicas,
político-diplomáticas e militares) internacionais. O terrorismo -- que
constitui verdadeiras redes (CASTELLS, 2001) e não se resume a este
grupo referido -- passou a ocupar o antigo papel do "comunismo", o de
"inimigo" ou ameaça maior à continuidade do sistema global. Qualquer
que seja o desfecho deste episódio específico, a luta do e contra o
terrorismo, infelizmente, deverá prosseguir por anos ou talvez até
décadas. E, mais uma vez (pois isso já ocorreu anteriormente, em outros
momentos nos quais ocorreram sucessivos atentados ou "ondas"
terroristas), o movimento terrorista deverá produzir um efeito contrário ao
que almeja: ao invés de desestabilizar as instituições dominantes (em
especial o Estado), as fortalecerá; ao invés de gerar mais pânico,
insegurança e desestruturação social (algo que de fato produz, a curto
prazo), ele deverá a médio e a longo prazo fortalecer e até legitimar novas
e mais severas medidas de segurança e de vigilância sobre a vida
cotidiana das pessoas em geral.

2. O que é o terrorismo pós-moderno?

O terrorismo é uma forma violenta de protesto (e de tentativa de


desestabilizar algum regime) conhecida desde a antiguidade. Existem
referências a atos terroristas desde a Grécia antiga, passando pelo
Império Romano e por inúmeros outros momentos da história. Uma
primeira e intensa "onda terrorista" ocorreu no final do século XIX e
inícios do XX. Naquele momento ninguém se sentia seguro e a salvo do
terrorismo, confome relata um estudioso do assunto, Walter LAQUEUR
(1996). Em 1894 um anarquista italiano assassinou o Presidente francês
Sai Carnot; em 1897 anarquistas mataram a punhaladas a imperatriz
Elizabeth da Áustria e assassinaram o Primeiro-Ministro espanhol
Antonio Canovas; em 1900 o rei Humberto I, da Itália, foi vítima de outro
ataque terrorista e, no ano seguinte, um anarquista matou o Presidente
norte-americano William McKinley. E não podemos nos esquecer que a
Primeira Guerra Mundial foi deflagrada após o assassinato, em 1914, de
um arquiduque austríaco por um terrorista sérvio. O terrorismo, assim, é
uma ação desesperada e violenta, feita por grupos (ou eventualmente por
um indivíduo) que almejam mudar alguma coisa na vida política e social --
derrubar um regime, lutar contra uma potência colonialista ou
imperialista, alterar radicalmente os valores de uma sociedade, alcançar
uma independência nacional -- e ele costuma ser diferenciado da guerra
(choque entre Estados) e da guerrilha (na qual um grupo almeja controlar
um território). A principal finalidade dos atos terroristas é semear o
pânico, desestabilizar as instituições e com isso suscitar mudanças
radicais. Talvez estejamos vivendo uma segunda "onda terrorista" neste
momento, pois existem centenas de grupos terroristas no mundo e os
atentados, ao que parece, estão ficando mais freqüêntes.

Mas o terrorismo atual -- chamado de pós-moderno ou de global -- é


diferente das formas anteriores. E os atentados terroristas do dia 11 de
setembro último, ao contrário do que escreveu CHALLIAND (2001),
simbolizam muito bem este "novo terrorismo", em especial pelo
planejamento e pelos objetivos, pela natureza globalizada e pelo uso
inteligente da mídia. O "velho terrorismo", em especial aquele do final do
século XIX e inícios do XX, era formado por organizações anarquistas ou
nacionalistas que tinham propostas políticas bem definidas e em geral
assumiam os seus atos. Elas inclusive tinham orgulho de suas ações --
normalmente assassinatos de autoridades do regime que combatiam -- e
acreditavam que uma boa parcela da população os apoiava. Já o "novo
terrorismo", o pós-moderno ou global, não tem um objetivo político
preciso e normalmente as organizações que o praticam não fazem muita
questão de assumir a autoria de inúmeros atos terroristas (LESSER,
2001), embora ocasionalmente o façam após uma premeditada demora. O
"velho terrorismo" procurava eliminar figuras estratégicas do regime que
combatia, evitando atingir inocentes. Já para o "novo terrorismo" não há
inocentes, todos devem sofrer as consequências dos atos do regime sob
o qual vivem e eventualmente apoiam. (Nem mesmo as populações que
em tese seriam "libertadas" ou "esclarecidas" pelos terroristas são afinal
inocentes que devem ser poupados, pois na lógica de sua argumentação
existe a idéia de que "quem morre pela causa" deve se sentir realizado).
Além disso, a destruição de edifícios símbolos (como as torres do WTC
ou o Pentágono, dentre outros) e a matança de centenas ou milhares de
pessoas é algo que chama a atenção da mídia e justamente esta é uma
das grandes preocupações do terrorismo pós-moderno. Ele busca a
cobertura por parte da mídia internacional, suas ações só têm sentido no
contexto de sociedades democráticas onde a mídia em geral e em
especial a televisão (que transmite imagens e sons e influencia uma
parcela maior da população) é mais ou menos livre e procura dar uma
cobertura imediata aos acontecimentos considerados "quentes" ou de
grande importância. Podemos até dizer que existe uma relação simbiótica
entre o "novo terrorismo" e a "nova mídia": ambos são globalizados e
visam a opinião pública internacional (que logicamente é mais intensa e
influente nos países desenvolvidos), sem a qual não existiriam; ambos
preocupam-se com o sensacionalismo, com acontecimentos trágicos que
têm que ser (re)produzidos constantemente para prender a atenção do
público (como se sabe, "dá muito mais ibope" uma notícia sobre uma
chacina do que uma outra sobre o avanço da unificação européia ou
sobre o perdão da dívida externa de alguns países pobres). Basta atentar
para o fato de que, nos dias e semanas que se seguiram aos recentes
atentados terroristas nos Estados Unidos, algumas redes de televisão
alcançaram altíssimos e atípicos índices de audiência (algo que permite
cobrar mais pelo minuto de propaganda e conseqüentemente amplia os
lucros), em visível contraste com os preços das ações das empresas em
geral (principalmente das companhias aéreas e de seguros), que cairam
bastante nesse período.

O terrorismo de inspiração anarquista, intenso no final do século XIX e no


início do XX, praticamente não existe mais. Uma possível exceção seria a
figura isolada do Unabomber, terrorista que agiu durante cerca de 18
anos nos Estados Unidos e foi capturado em 1996. Mas mesmo ele pouco
se identifica com o anarquismo clássico (a não ser talvez com o
individualismo de inspiração stirneriana), pois este não é contra o
progresso (a eletricidade, as máquinas, a tecnologia moderna) e sim
contra o Estado e as desigualdades sociais. E os anarquistas atuais -- ou
neoanarquistas --, por sua vez, preferem as manifestações de massas,
sejam pacíficas ou até violentas, as quais também se apóiam na mídia
internacional e fazem amplo uso da internet, tais como aquelas rotuladas
equivocadamente como antiglobalização: Seattle, Toronto, Genebra,
Praga, Davos, Porto Alegre, Gênova, etc. Mas eles não são cúmplices nem
simpatizantes do "novo terrorismo", pois este prejudica a sua causa ao
confundir protestos com matanças indiscriminadas e ao contribuir para a
legitimação de novas e mais severas medidas de segurança e de
repressão por parte dos aparatos estatais. Já o terrorismo de cunho
nacionalista ainda sobrevive e é importante em algumas regiões do
mundo, em especial na Espanha -- o ETA -- e na Irlanda do Norte (com
reflexos na Inglaterra) -- o IRA. Mas a princípio ele não é global(1) e sim
circunscrito à região (ou nação) que pretende libertar e à(s) outra(s) que a
domina(m). E ele também não mata civis de forma indiscriminada, pois
uma de suas maiores preocupações é obter o apoio da opinião pública
para a sua causa(2).

As principais modalidades do terrorismo pós-moderno são as seitas ou


organizações fundamentalistas, apocalípticas e tradicionalistas (LIFTON,
1999; FLYNN, 2000; LAQUEUR, 1996). Essa é mais uma diferença
essencial entre ele e o "velho terrorismo". Este último -- em especial o
terrorismo anarquista -- era de "esquerda" (e se considerava como
"progressista") no sentido de lutar por uma maior igualdade social, de se
opor violentamente não ao progresso em si, mas sim ao seu usufruto por
somente uma minoria da população. Já o terrorismo pós-moderno é
essencialmente conservador e, ao contrário do que muitos pensam, é
radicalmente contrário aos ideais de igualdade e liberdade para todos. A
bem da verdade, normalmente ele combate esses ideais democráticos,
taxando-os de "ocidentais" (num sentido pejorativo) ou então
de"artificiais" e "anti-naturais". Ele não está nem um pouco preocupado
com as desigualdades internacionais ou com a pobreza ou a exclusão de
inúmeros povos e sim com a ameaça a certos valores tradicionais
(religiosos ou não) que considera absolutos: por exemplo, a
superioridade masculina e outros princípios do Islão, a superioridade do
homem branco anglo-saxônico e protestante (no caso de Timothy
MacVeigh, o terrorista de Oklahoma, que praticou o maior atentado
terrorista já visto nos EUA até o dia 11 de setembro último), a destruição
da ordem atual das coisas com vistas à construção de um mundo novo
alicerçado em determinadas crenças religiosas (no caso da seita
apocalíptica japonesa Aum Shinrikyo, que há alguns anos espalhou o gás
sarim no metrô de Tóquio) etc. Sem dúvida que a situação precária dos
palestinos, que piorou muito com os novos governos de Israel (Sharon) e
dos Estados Unidos (Bush), serviu como motivo mais imediato destes
recentes atos terroristas nos EUA, que foram praticados por grupos (uma
verdadeira rede) extremistas islâmicos. Mas confundir isso com um
protesto furioso contra a globalização ou contra as exclusões e
desigualdades em geral, como fizeram muitos recentemente, é não
entender nada sobre tais grupos terroristas e as suas motivações.

Uma outro traço característico do terrorismo pós-moderno é que ele não


se limita a assassinatos ou explosões isoladas, que eram as tônicas no
"velho terrorismo". Ele é global -- ele convive com e se alimenta da
globalização -- e dispõe de todo um sofisticado arsenal de financiamento
e de artefatos: novos meios de destruição (químicos, biológicos,
tecnológicos), contas bancárias numeradas na Suiça ou em "paraísos
fiscais" e membros recrutados em vários países (e treinados em outros),
alguns inclusive com um nível educacional elevado (pós-graduação ou
até doutorado em microbiologia, química, eletrônica, sistemas de redes
etc.). Ele é financiado tanto por contribuições dos membros e
principalmente dos simpatizantes -- muitos dos quais arquimilionários,
pessoas muito bem inseridas no sistema global e que reconditamente
combatem a atual supremacia de determinados valores que detestam --
como também em alguns casos pela associação com o tráfico de drogas.
Ele dispõe do indispensável apoio de alguns Estados que os escondem
ou até que permitem (ou financiam em parte) os seus campos de
treinamento: como se sabe, nos anos recentes esse papel foi
desempenhado, em maior ou menor proporção, pelo Sudão, pela Somália,
pela Líbia, pela Síria, pelo Iraque e pelo Afeganistão. E o terrorismo pós-
moderno dispõe de novos e mais potentes instrumentos de ação: não
somente os assassinatos e as explosões, mas também gases nocivos
(como o sarim), agentes biológicos patogênicos (como o antraz) e talvez
até, desde que exista a ajuda de algum Estado com essa tecnologia,
material radioativo e no limite armamentos atômicos. Devido à grande
sofisticação dos atuais meios de destruição, que mais cedo ou mais tarde
acabam ficando à disposição de grupos que têm recursos para adquirí-
los, o terrorismo torna-se, pelo menos potencialmente, cada vez mais letal
ou até catastrófico (CARTER, DEUTCH e ZELIKOW, 1998).

3. As redefinições na ordenação geopolítica mundial

Ao que tudo indica, as conseqüências dos atos terroristas do dia 11 de


setembro serão variadas e permanentes. Os bombardeios sobre o
Afeganistão e a provável troca de seu regime político constituem apenas
uma pequena amostra delas. Um novo sistema de alianças deverá ser
construído a partir desse episódio. É algo que já estava latente desde o
final da guerra fria, mas que precisava de uma iniciativa deflagradora. A
tradicional rivalidade entre Estados -- e principalmente entre as grandes
potências --, mesmo sem deixar de existir, deverá se enfraquecer e dar
lugar a um sistema de apoio interestatal e uma luta contra outras
alternativas (contra as redes terroristas, em primeiro lugar, e também
contra as máfias, o tráfico de drogas, determinadas organizações não
governamentais que desestabilizam o poder dos Estados etc.).

A aceitação da Rússia como parceira do Ocidente -- ou talvez até como


parte deste num futuro próximo -- é o exemplo mais significativo dessas
mudanças. Isso foi favorecido pela perspicaz política externa de Vladimir
Putin, que ao invés de se opor aos bombardeios norte-americanos sobre
um país estrangeiro (posição tradicionalmente adotada por Moscou),
colaborou com a coalisão liderada pelos Estados Unidos oferecendo
assessoria (e até tropas) e pressionando as ex-Repúblicas soviéticas que
fazem fronteira com o Afeganistão -- o Turcomenistão, o Tajiquistão e a
Quirguízia -- a aceitarem o uso de seus territórios como bases de apoio
nessa guerra. Com isso cessaram as críticas do Ocidente em relação aos
massacres russos na Chechênia e esta república rebelde passou a ser
vista pelos norte-americanos e pelos europeus não mais como uma vítima
das atrocidades russas e sim como uma área onde há muitos
fundamentalistas e grupos terroristas. E também algo que até há alguns
meses parecia impossível de ocorrer, hoje tornou-se numa hipótese
viável para os próximos anos ou no máximo para a próxima década: uma
futura inserção da Rússia na OTAN (WINES, 2001). Somente depois de 10
anos do final do império socialista soviético, o Ocidente capitalista
começa a eliminar a sua antiga desconfiança frente à Rússia e começa a
ver esse Estado-nação como um membro de fato do sistema global e
inclusive da Europa. Nesse sentido, o terrorismo no final das contas pode
ter sido benéfico para os interesses econômicos e estratégicos russos.

Um outro provável ganhador dessas redefinições geopolíticas é a China.


Ela também adotou um posicionamento de realpolitik, isto é, de perseguir
os seus interesses específicos e esquecer o seu antigo discurso anti-
capitalista e de "simpatia para com os oprimidos". Nesse sentido, ela
procurou ganhar algo em troca de sua aceitação dos bombardeios sobre
o Afeganistão e do seu apoio no combate aos grupos terroristas. Ela até
aproveitou o momento para intensificar a repressão sobre os grupos
islâmicos que existem na parte oeste do seu território, na região de
Xinjiang. E o governo Bush começou a esquecer o seu discurso anterior,
de considerar a China como o grande "competidor estratégico", e passou
a vê-la como um parceiro na luta contra o terrorismo e os demais fatores
de instabilidade do sistema global. Com isso fica mais fácil a assimilação
da China na OMC e tendem a diminuir as críticas da mídia ocidental
contra a brutal repressão promovida pelas tropas chinesas no Tibete e em
outras áreas onde há etnias que almejam uma libertação nacional. Mas o
grande sonho ou objetivo geoestratégico da China ainda está distante e,
pelo menos até o presente, não foi incluído na pauta das negociações
entre Washington e Pequim: a incorporação de Taiwan.

A ONU, paradoxalmente (pois afinal ela foi criada para evitar as guerras e
não para lucrar com elas), deverá ser mais uma ganhadora com o
desenrolar da luta contra o terrorismo. Os Estados Unidos em meados de
setembro último de repente pagaram as suas dívidas para com essa
organização internacional e solicitaram a sua intermediação no sentido de
legitimar os bombardeiros contra o Afeganistão. Os estrategistas norte-
americanos perceberam afinal que não podem dominar o mundo
sozinhos, nem mesmo via OTAN, e que é necessário haver uma base legal
de sustentação, um fórum internacional que legitime determinadas
medidas duras, que ferem a soberania de inúmeros Estados, na luta
contra o terrorismo. Além disso qualquer ação com o aval da ONU sempre
será mais palatável para os demais povos do que uma outra decidida
exclusivamente pelos Estados Unidos ou mesmo pela OTAN. E como
todos os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da
ONU estão atualmente alinhados nessa luta contra o terrorismo, fica mais
fácil usar essa organização internacional. Mas o preço ou a condição para
isso é fortalecê-la, o que a longo prazo poderá ser uma faca de dois
gumes na medida em que algumas resoluções lá aprovadas poderão não
corresponder aos interesses norte-americanos.

Também a Europa deverá redefinir ao menos parcialmente a sua política


de expansão e construção de um continente unificado. Como observou
muito bem ASH (2001), existem na Europa cerca de 20 milhões de
muçulmanos, portanto bem mais que nos Estados Unidos, e, além disso,
o continente está praticamente cercado pelo mundo islâmico. Isso
significa que a Europa deverá se empenhar muito mais no apaziguamento
do descontentamento islâmico, talvez até encararando com mais
seriedade as pretensões da Turquia de ingressar na União Européia e
procurando se envolver com mais afinco nos conflitos ainda pendentes
na região dos Balcãs. Mas o tema da segurança e do controle sobre as
fronteiras, com vistas principalmente a selecionar quem entra no
continente, deverá ocupar um privilegiado papel que não tinha antes
deste episódio. Isso poderá retardar a expansão da União Européia. É
bastante provável que primeiro ocorra uma expansão da OTAN para o
leste e, só depois de muitos anos ou décadas, é que poderá ocorrer a
incorporação na União Européia daqueles países não ocidentais ou não
cristãos.

Quando aos prováveis perdedores desse episódio, a curto prazo


evidentemente é o regime do Taleban no Afeganistão. Mas a longo prazo
outros participantes do cenário mundial poderão sofrer algumas
conseqüências da ação preventiva contra o terrorismo, em especial
aqueles Estados que escondem terroristas e/ou permitem a existência de
campos de treinamento terroristas no seu território. Eles deverão ser
objeto de uma pressão muito maior -- e agora não apenas decidida pelos
Estados Unidos e sim pela ONU --, que pode chegar desde a boicote
econômico até a bombardeios localizados. E ao contrário do que ocorria
até há pouco, eles não deverão mais contar com o apoio -- mesmo que
indireto -- de países como a China ou a Rússia, cada vez mais afinados
com o Ocidente, e talvez nem mesmo com os recursos financeiros
oriundos da Arábia Saudita e de outras economias árabes exportadoras
de petróleo, pois a pressão sobre elas será imensa e também haverá um
maior controle sobre as transações bancárias internacionais. E
provavelmente Israel deverá ser alvo de uma intensa pressão norte-
americana e européia no sentido de negociar seriamente com a OLP e
aceitar a existência de um Estado palestino autônomo. Isso inclusive já
começou a ocorrer com as recentes declarações de Colin Powell a
respeito da "falta de vontade" das autoridades israelenses em promover a
paz na região. Mas o caso de Israel é complicado devido ao poderoso
lobby judaico nos Estados Unidos e também em face de todo o seu
poderio militar, inclusive a posse de armamentos nucleares. Além disso,
os grupos radicais de ambos os lados, em especial os fundamentalistas
islâmicos que fogem ao controle da OLP e promovem atentados nos
momentos de negociações ou de trégua, dificultam sobremaneira a
resolução da questão palestina. As pressões ocidentais para Israel ser
mais transigente certamente ocorrerão, mas ainda não se sabe a
intensidade delas -- que será maior no caso dessa guerra contra o
terrorismo continuar gerando intabilidades na região e no globo e menor
se a situação se acalmar em poucas semanas -- e nem se os radicais de
ambos os lados deixarão que elas surtam algum efeito. Uma outra
possível mudança é um golpe de Estado com a troca do governo -- ou
talvez até o final da monarquia -- na Arábia Saudita. A família real saudita
encontra-se bastante enfraquecida e pressionada por dois lados fortes:
pelos fundamentalistas islâmicos, que a vêm como demasiadamente
atrelada aos interesses ocidentais; e pelas autoridades norte-americanas,
que pensam que esse governo saudita é ambíguo e pouco confiável, pois,
como assinalou LUTTWAK (2001), uma boa parte do financiamento do
terrorismo islâmico sai de contas bancárias localizadas nesse país árabe
e as investigações sobre ataques terroristas anteriores -- contra as
Khobar Towers, no litoral saudita, em 1996, e contra o US Cole, no Iêmem,
em 2000 -- sempre apontaram para grupos radicados ou com fortes
conexões na Arábia Saudita, sendo que o governo deste país recusou-se
a colaborar com essas investigações.

Finalmente, uma série de medidas deverão ser adotadas com vistas a


uma maior prevenção do terrorismo e, infelizmente, muitas delas poderão
restringir o direito de privacidade e as liberdades individuais. Desde um
maior controle sobre aeroportos e alfândegas até uma maior vigilância
sobre as transações financeiras internacionais, passando por novas
medidas de segurança nos aviões (portas blindadas que vedem o acesso
dos passageiros à cabina de comando, mecanismos que impossibilitem o
desligamento das comunicações com as torres de controle etc.), deverão
ser operacionalizadas nos próximos anos. Também a internet e as
telecomunicações internacionais deverão ser objeto de novas medidas de
vigilância (novos sistemas de escuta, novos softwares para detectar
certas palavras chave, etc.), assim como os laboratórios e centros de
pesquisas em física nuclear e em microbiologia. Isso sem contar as
maiores pressões internacionais, agora com o aval da ONU, sobre os
Estados que escondem terroristas e/ou sediam os seus campos de
treinamento. Tudo isso, é lamentável dizer, deverá contar com o apoio de
grande parte da opinião pública, em especial aquela dos países
desenvolvidos, que sofreu uma espécie de paranóia com esta crise e
apoia todo um clamor por mais segurança. Mas no final das contas o
terrorismo não vai cessar -- no máximo poderá ser mais controlado e
reduzido --, pois ele é indissociável deste novo mundo globalizado com
as permanências das inúmeras diversidades sócio-econômicas e
alteridades culturais (as quais, é bom ressaltar, são positivas e não
deploráveis) e com todo um avanço tecnológico que por um lado melhora
a qualidade de vida de muitos e, por outro lado, possibilita a outros tantos
o acesso a novos e mais sofisticados meios de destruição.

4. O episódio e as suas leituras

Os atentados de 11 de setembro e os bombardeios ao Afeganistão deram


origem a inúmeros artigos, reportagens e entrevistas veiculados pela
mídia. Alguns poucos são de excelente qualidade, porém, a maioria tão
somente reproduziu determinados estereótipos que via de regra pouco
elucidam a questão e tão somente refletem determinados valores de
quem os profere. Uma boa parcela deles é maniqueísta: ao invés de
procurar analisar os diversos aspectos (ou pelo menos algum deles) da
problemática, eles imediatamente assumem um lado (visto como o
"correto" ou o "bem") e passam a desancar o outro lado (o "incorreto").
Muitos afirmaram reiteradamente que os atentados seriam uma
decorrência das desigualdades internacionais ou do capitalismo
globalizado. Outros proclamaram que o seu significado estaria numa
"vingança dos excluídos" da globalização ou do império norte-americano.
Alguns ainda, uma minoria de evangélicos, os exorcizaram como uma
decorrência do "excesso de liberdade" e dos exageros das conquistas
feministas, homossexuais e de outras minorias. Também se enxergou
nesse episódio mais um capítulo do "choque de civilizações", com o
islamismo enfrentando à sua maneira o Ocidente. E um professor de
estratégia e política internacional chegou a proclamar, numa entrevista
televisiva, que eles foram uma consequência da "nova política
isolacionista de Washington", na qual os Estados Unidos teriam deixado
de atuar como uma superpotência na resolução dos problemas mundiais
e inclusive teriam "diminuído os gastos militares". E, por fim, muitos dos
que comemoraram, discreta ou ruidosamente, os ataques kamikazes que
vitimaram milhares de pessoas e levaram à destruição de edifícios
simbólicos, argumentaram que eles foram suscitados pela "arrogância"
da política externa estadunidense, mencionando a falta de interesse
dessa grande potência mundial em "resolver" os problemas planetários
do meio ambiente, das desigualdades, das epidemias e da fome, das
inúmeras guerras etc.

Alguns desses posicionamentos são tão absurdos que nem vale a pena
refutá-los. Outros são equivocados pelo seu exagero. Examinemos, em
primeiro lugar, a idéia de que esta guerra seria, em última instância, um
"choque de civilizações". O próprio autor dessa polêmica tese segundo a
qual os principais conflitos da nova ordem mundial são culturais -- idéia
que já dissecamos num escrito anterior (VESENTINI, 2000) --, numa
entrevista sobre o assunto, afirmou que "Claramente, Osama Bin Laden
deseja que seja um choque de civilizações entre o Islã e o Ocidente. A
principal prioridade do nosso governo é tentar impedir que se transforme
em um" (HUNTINGTON, 2001). Ou seja, os acontecimentos não são
"fechados", não estão completamente determinados a priori, mas são
"abertos" ou relativamente indeterminados no sentido de se redefinirem
constantemente, de adquirirem novas nuances dependendo do
entrecruzamento das ações de cada participante. Seria uma completa
vitória de Bin Laden e dos extremistas islâmicos se eles conseguissem
transformar esses atos terroristas numa "guerra santa" e,
conseqüentemente, a reação norte-americana numa "cruel retalização
contra o Islã". Mas essa versão, ao que tudo indica -- principalmente pelo
repúdio de inúmeras autoridades políticas e religiosas do mundo
islâmico, que afirmaram que o terrorismo é algo inaceitável pelo Alcorão
--, não vai prevalecer. E toda a diplomacia dos EUA (depois que as
primeiras reações de Bush foram corrigidas pelos seus assessores, que
inclusive promoveram uma visita dele a uma mesquita em Washington), e
também de seus aliados (a começar por Tony Blair), foi planejada com
vistas a isolar os fundamentalistas e estreitar os laços com as lideranças
islâmicas moderadas. Assim, a idéia que começa a vingar, e que deverá
prevalecer no final das contas, é a que esta é uma "luta contra o
terrorismo", promovida não apenas pelo Ocidente mas pelos Estados em
geral -- inclusive a maioria dos islâmicos --, em especial por aqueles mais
comprometidos ou mais ativos na construção de uma ordem
internacional menos instável e na qual os negócios possam prosseguir e
até se expandir.

Vejamos agora determinadas opiniões simplistas, que foram bastante


divulgadas nos últimos dias, a respeito da "impossibilidade de se vencer
essa guerra no Afeganistão". Algumas delas foram propagadas por
pessoas que se intitulam "especialistas" em estratégia ou em geopolítica.
Conforme já demonstrou de forma pertinente RADU (2001), são
improcedentes e até míticos os argumentos do tipo "o terreno
impossibilita o uso de tecnologia avançada" ou que "tal como nos
exemplos britânico (1838-42) e soviético (1979-89)", ou "tal como na
guerra do Vietnã", os norte-americanos "certamente sairão derrotados
desse país aguerrido e com uma natureza hostil". Sobre isso cabe apenas
lembrar uma lição elementar sobre a guerra, que foi reproduzida tanto por
Sun Tzu quanto por Clausewitz: ela é antes de tudo um choque entre
vontades, entre sociedades diferenciadas, o que significa que a coesão
social normalmente é mais importante para a vitória a longo prazo do que
os combates no front. Não foram os terrenos (as montanhas, num caso, e
as florestas tropicais, no outro), e nem mesmo um "maior conhecimento
do terreno" pelos nativos, o que determinou as derrotas da ex-União
Soviética, no Afeganistão, e dos Estados Unidos, no Vietnã. Foi a coesão
social desses países na luta contra o invasor -- algo que não existe hoje
no Afeganistão, onde, pelo contrário, a imensa maioria da população
gostaria de se livrar do Taleban --, isto é, todo um extenso apoio e suporte
popular aos guerrilheiros. E também o auxílio militar -- armamentos,
treinamento, assessoria -- fornecido pela outra superpotência da época
(pelos soviéticos aos vietnimitas e pelos norte-americanos aos
guerrilheiros afegãos, inclusive ao Taleban) foi fundamental no desfecho
dessas duas guerras. É por isso que a grande chance de vitória do El
Quaeda ou do Taleban nesta guerra não está no relevo montanhoso, nem
mesmo nos armamentos ou nas milhares de minas encravadas no solo
afegão, mas sim na propaganda via mídia. O principal front -- se é que
podemos usar aqui este conceito militar -- desta guerra, não se iludam,
não está no território afegão e sim na mídia internacional, em parte na
opinião pública das nações desenvolvidas internacional e de outra parte
na consciência das populações islâmicas. Só um temor generalizado de
revoltas populares em países islâmicos, algo tão forte que pudesse
desestabilizar os regimes políticos atualmente vigentes nesses Estados,
especialmente naqueles produtores de petróleo ou naquele que detêm
armas nucleares (Paquistão), é que poderia levar os Estados Unidos e
seus aliados a transigir, a cessar os bombardeios sobre o Afeganistão e
inclusive realizar inúmeras outras concessões (maiores pressões sobre
Israel com vistas a criar um Estado palestino independente e talvez até o
desmantelamento da base militar norte-americana no território saudita).
Provavelmente foi por esse motivo que nos últimos dias Bin Laden
concentrou os seus esforços na tentativa de conceder várias entrevistas
aos principais canais de televisão do Oriente Médio e dos EUA e, segundo
alguns jornais, ele chegou a veicular a hipótese de se entregar desde que
seja para um país "neutro" e onde ele possa ter um julgamento "isento"
(isto é, podendo falar à vontade e assim prosseguir com o seu combate
via mídia). E também é por esse motivo que a principal frente desta
"guerra contra o terrorismo" por parte dos Estados Unidos e de seus
aliados não se encontra no Afeganistão -- esta é apenas uma frente
provisória -- e sim em primeiro lugar na consciência das populações
muçulmanas, procurando tornar vitoriosa a idéia de que "esta não é uma
guerra contra a religião ou a civilização islâmica", e, em segundo lugar na
opinião pública e nas organizações internacionais, procurando legitimar e
operacionalizar novas medidas de proteção (das fronteiras, dos
aeroportos e aviões, dos edifícios símbolo etc.) e de vigilância (sobre
contas bancárias, sobre laboratórios que manipulam bactérias ou virus,
sobre determinadas instalações químicas ou laboratórios de física
nuclear, sobre "atividades suspeitas" de alguns indivíduos ou grupos
etc.).

E, por fim, existem aqueles, que por algum dos motivos apontados acima,
festejaram os atos terroristas e torcem para uma derrota norte-americana
e uma vitória do Taleban no Afeganistão (além de exultarem com os
protestos populares contra seus governos e contra o Ocidente,
promovidos por religiosos fundamentalistas, no Paquistão e na
Indonésia). Cabe apenas indagar se eles são movidos pela razão ou por
um ódio irracional e até mesmo fascista. Pois por mais que o capitalismo
globalizado e os Estados Unidos tenham promovido ou sido coniventes
com determinadas desigualdades e injustiças, a alternativa oferecida por
esses grupos extremistas é muito pior. É uma completa destruição da
frágil democracia -- que, apesar de incompleta, deve ser preservada e
inclusive expandida (e não combatida) -- e um predomínio da
intransigência, de uma rígida hierarquia que não admite contestações e
de um caminho único que não aceita a pluralidade ou sequer o diálogo
com o(s) outros(s). Basta lembrar dos massacres e das severas
proibições promovidos pelo Taleban -- fuzilamento de pessoas sem
julgamento, interdição de qualquer música ou arte que não seja islâmica,
fechamento de todos os cinemas, canais de televisão e jornais
independentes etc. --, da destruição das estátuas gigantes de Buda (um
rico patrimônio histórico-cultural do Afeganistão) e da incapacidade
desse regime em gerenciar minimamente a economia e alimentar a
população (a maior parte dos alimentos que a população afegã consumiu
nestes últimos anos veio da ajuda humanitária promoviada pelas
organizações internacionais). Basta lembrar ainda do ódio intenso que
todos esses militantes fudamentalistas -- e não apenas o Taleban ou o El
Quaeda -- alimentam contra as conquistas (mesmo que ainda
incompletas) feministas no Ocidente, contra alguns direitos mínimos
concedidos aos homossexuais, contra a liberdade de expressão, contra a
idéia de um sistema judiciário independente, contra as eleições e a
rotatividade dos partidos no poder, enfim contra toda uma filosofia de
direitos dos homens e dos cidadãos, que é a base da democracia. Esse
tipo de posicionamento -- a identificação com os terroristas porque eles
atacaram o "centro do imperialismo" -- lembra muito aquela imagem,
sugerida por Hannah Arendt num escrito sobre a "crise da educação", a
de uma criança serrando o galho da árvore sobre o qual está sentada. Ele
se assemelha ainda ao equívoco cometido por alguns na Alemanha da
década de 1920 e inícios dos anos 30, que detestavam (com alguma
razão) a República de Weimar e manifestavam uma certa complacência ou
até alegria frente à baderna e aos atos violentos promovidos pelo partido
nacional-socialista de Hitler. O resultado é conhecido por todos. Convem
aqui recordar a lição de que nem sempre o inimigo do meu adversário é
meu amigo. Muitas vezes ele é pior ainda que o adversário, em especial
quando não respeita as regras do jogo democrático, quando semeia o
pânico, o terror e a intolerância, quando nos considera a todos infiéis que
têm que ser convertidos pela força.

NOTAS:

(*) Esta é uma versão inicial e provisória de um texto que estamos


escrevendo a pedido de uma revista especializada em relações
internacionais.
1. Parece que isso começa a mudar, pelo menos no que diz respeito do
IRA, pois instrutores dessa organização foram encontrados neste ano
(2001) na Colômbia, onde estavam assessorando e treinando grupos
terroristas locais.
2. No que diz respeito ao ETA isso também parece estar mudando nos
últimos anos: o desespero ocasionado pela baixa popularidade tem levado
essa organização a praticar atos de matança indiscriminada. Tanto este
exemplo como aquele da nota anterior sugerem que talvez esta "velha" ou
clássica forma de terrorismo esteja mudando e se identificando cada vez
mais com o terrorismo "novo", global ou pós-moderno.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASH, Timothy G. "O Afeganistão e o novo mapa da Europa". In: Folha de


S.Paulo, 21/10/2001, caderno Mais, p.10-11.
CARTER, A., DEUTCH, J. e ZELIKOW, P. "Catastrophic Terrorism". In:
Foreign Affairs, novembro/dezembro de 1998. (Disponível no site da
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