LA ACTUALIDAD DE LOS CÓMICS EN BRASIL: LA BÚSQUEDA

DE UN NUEVO PÚBLICO 1
(A atualidade das histórias em quadrinhos no Brasil: a busca de um novo público)

Waldomiro Vergueiro 2

É indiscutível que, nos últimos anos, as histórias em quadrinhos passaram por
diversas transformações no mundo ocidental, visando sua adaptação a uma nova
realidade. O móvel de muitas dessas transformações esteve relacionado, em
grande parte dos casos, a um novo entendimento sobre o papel dos quadrinhos
na sociedade e à derrubada de antigos preconceitos, que preconizavam os
produtos da linguagem gráfica seqüencial como prioritariamente direcionados ao
público infanto-juvenil. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das tecnologias de
informação e comunicação eletrônicas representou o ápice de um processo de
concorrência entre os diversos meios de comunicação de massa que se iniciou
com o advento da televisão, em meados do século 20, fazendo com que as
histórias em quadrinhos passassem a enfrentar uma diversidade de meios de
entretenimento como nunca antes haviam enfrentado, freqüentemente saindo
perdedoras no objetivo de prender a atenção de seu público. Assim, a indústria
produtora de histórias em quadrinhos teve que buscar alternativas para responder
de forma eficiente à concorrência desses meios de comunicação e informação,
diversificando as características dos produtos que disponibilizava e redirecionando
seus esforços de disseminação para públicos que pudessem se mostrar mais
receptivos a seus produtos.
Esse movimento de adaptação dos produtos quadrinhísticos pôde ser
observado em várias partes do mundo, iniciando-se nas economias mais
avançadas da Europa e América do Norte, onde a indústria de quadrinhos
apresentava maiores proporções. No entanto, não tardou muito para que igual
necessidade ficasse patente para as indústrias de países em desenvolvimento,
especialmente na América Latina, em que às condições de concorrência
desfavoráveis vieram se juntar contextos econômicos ainda mais adversos, que
muitas vezes levaram ao fechamento de empresas editoriais estabelecidas no
mercado, aparentemente sólidas e com longa trajetória de atuação na área.
Assim, em diversos países da América Latina, períodos de recessão econômica
concorreram para que a editora Columba, na Argentina, encerrasse suas
atividades na área e para que a editora Abril, empresa brasileira, abandonasse a
publicação de quadrinhos produzidos pelas norte-americanas DC e Marvel Comics
e passasse, praticamente, a concentrar seu trabalho em quadrinhos na publicação
dos personagens Disney, tradicionais produtos dessa editora.

1
Prepared for delivery at the 2007 Congress of the Latin American Studies Association,
Montréal, Canada September 5-7, 2007”
2
Professor Titular do Departamento de Biblioteconomia e Documentação e Coordenador do
Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo, Brasil,

granjeando cada vez mais o interesse dos leitores de histórias em quadrinhos. além de buscar sua justificação com o argumento de que tal medida concorre para a preservação da obra original. representou até o momento uma alternativa viável para a permanência dos produtos da linguagem gráfica seqüencial no país. assim. às tradicionais bancas de jornal vieram se juntar as gibiterias – adaptação. do estado de Pernambuco. do alemão Henrique Fleiuss. produções cinematográficas. bonecos e produtos assemelhados. em língua portuguesa. que se constituiu no modelo de todas as publicações humorísticas brasileiras do século 19. e as grandes livrarias do país. Desta forma. A par do impacto da inovação tecnológica no mundo do entretenimento. também possibilitou o barateamento dos produtos e maior rapidez de publicação. que tem uma história de artistas combativos. a precoce participação do humor gráfico na discussão da realidade política e social brasileira. Assim. que “invadiram” os diversos países com quadrinhos de diferentes proposições temáticas e produtos direcionados para públicos segmentados. ampliando sua visibilidade e colaborando para o aumento de sua aceitação pela sociedade brasileira. das comic stores ou comic shops norte-americanas -. As tendências acima mencionadas tiveram impacto significativo na realidade brasileira. esta alternativa de publicação dos quadrinhos oriundos de países orientais. grande número de obras no estilo mangá foi produzido nas últimas décadas nos países ocidentais. Verifica-se. . implicando no re-direcionamento de setores da indústria produtora e na emergência de produtos diferenciados de história em quadrinhos que buscaram ir além dos públicos tradicionais da indústria quadrinhística. O humor gráfico como espaço privilegiado para a divulgação da linguagem gráfica seqüencial no Brasil Segundo Lailson de Holanda Cavalcanti (2005). em que as vitórias iniciais foram predominantemente da indústria invasora de raízes orientais. Isto representou o embate de duas estratégias industriais de dominação do mercado de entretenimento em quadrinhos. jogos eletrônicos. espaços privilegiados para alcançar um consumidor de maior idade e maior nível de exigência. inclusive incorporando a reversão do mecanismo de leitura tradicional e a adoção do modelo oriental de leitura. que inter-relacionava produções de desenho animado para a televisão. Este contexto de produção também se reproduziu nos países latino-americanos. que ano a ano ampliou sua participação no mercado de quadrinhos dos diversos países. o primeiro exemplo no país de um “desenho que representa a realidade de forma humorística e alegórica” data de 1831. na publicação O Corcundão. ainda em processo. a indústria produtora de quadrinhos do mundo ocidental passou a conviver nas últimas duas décadas com os materiais provenientes da indústria oriental. o que apenas colaborou para o aumento da eficiência da indústria japonesa de quadrinhos em sua atuação no Ocidente. em que a história passa a ser lida da direita para a esquerda. além de contar com uma ousada estratégia de marketing e um esquema coordenado de lançamentos de novos produtos. Essa transformação de mercado. o que também implicou na diversificação dos pontos de venda. enquanto que a primeira revista de caricaturas regular e de larga duração foi a Semana Ilustrada. os mangás.

2004. 1996) e de publicações como O Pasquim. durante o período da ditadura militar brasileira. no país. D´ASSUNÇÃO. grande crítico do período do Segundo Império no país. a trajetória das histórias em quadrinhos no território brasileiro passaria pelos mesmos percalços enfrentados em outros países. uma vez que elaborou o logotipo para a revista O Tico-Tico. do modelo norte-americano de quadrinhos. de uma produção subterrânea de produtos quadrinhísticos veiculados fora do circuito comercial e destinados a leitores mais velhos. Esse autor é. criadas. respectivamente. 2003). que durou de 1905 a 1962 e acompanhou a infância de várias gerações de brasileiros (VERGUEIRO. 2002). pelo jornalista e editor Adolfo Aizen. 2003) garantiu a existência. realizada em 1951 na cidade de São Paulo (MOYA. Nesse sentido. 2005). A par disso. como foi o caso da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos. que. como foi o caso do italiano Angelo Agostini. e a quadrinização de obras da literatura e de biografias dos santos da Igreja Católica como demonstração da possibilidade de utilização dos recursos dos quadrinhos para a transmissão de mensagens de maior conteúdo cultural (MOYA. A partir daí. apesar do trabalho de divulgação e organização de eventos por muitos entusiastas do meio. após viagem que este fez aos Estados Unidos e na qual se familiarizou com os suplementos ilustrados dos jornais norte-americanos (GONÇALO JÚNIOR. 2002). o florescimento de uma significativa produção de revistas alternativas e de fanzines (MAGALHÃES. a partir da publicação do Suplemento Juvenil. inclusive. primeira revista infantil a publicar regularmente quadrinhos no Brasil. entre outros (SILVA. identificado como o introdutor da linguagem gráfica seqüencial no país e como um dos precursores da 9ª Arte. No entanto. é importante destacar o trabalho de artistas como Henfil (SEIXAS. apesar da atmosfera desfavorável predominante em grandes parcelas da sociedade.cujas obras tiveram um grande impacto social. em 1869 e 1883 (CARDOSO. Assim. sendo idolatrada por adolescentes e desacreditada pela maioria dos educadores e intelectuais. mais do que essa revista. . pode-se afirmar que o direcionamento dos produtos da linguagem gráfica seqüencial para um público diverso ao do adulto – alvo primordial do humor gráfico veiculado nas publicações humorísticas do século 19 e início do século 20 -. muitos dos quais não se satisfizeram em produzir apenas para o entretenimento das crianças mas buscaram utilizar a linguagem gráfica seqüencial como um instrumento de contestação e denúncia das mazelas sociais. uma atividade que teve prosseguimento mesmo depois do término do período de exceção e que encontrou seguidores em artistas como Angeli e Laerte. 2001). em 1934. principalmente por suas séries As aventuras de Nhô Quim e As aventuras de Zé Caipora. SANTOS. SILVA. No entanto. 2005). com uma certa constância. as histórias em quadrinhos no Brasil não escaparam da sina de serem consideradas produto cultural de segunda classe que devia ser objeto de desconfiança por parte de pais e educadores. ocorreu com a introdução. Agostini esteve também ligado à introdução das histórias em quadrinhos direcionadas ao público infantil brasileiro. de 1964 a 1985. as histórias em quadrinhos no Brasil conseguiram atrair a atenção de grandes artistas. realizaram intensa atividade de crítica social e política.

de forma a encontrar esse material em diversos pontos em todo o Brasil. inicialmente alicerçando-se no trabalho de profissionais da linguagem gráfica seqüencial do exterior e posteriormente buscando o artista nacional. Para isso (a editora) criou um sistema inovador similar ao de uma assinatura. pudesse ter acesso e criasse uma ponte com o mercado norte-americano de quadrinhos. Isso permitiu que um público muito exigente. o que. Nesse sentido. atender ao crescente número de leitores de histórias em quadrinhos que queriam discutir e acompanhar tudo sobre os seus personagens ou revistas preferidas. de títulos com tiragens relativamente modestas. pode ser vista como uma primeira iniciativa no sentido de influenciar a mudança do mercado consumidor. ela estabeleceu as diretrizes para a publicação e disseminação de materiais voltados para um público diverso daquele composto por crianças e adolescentes. Prioridade ao público adulto como elemento de renovação do mercado de quadrinhos brasileiro No Brasil. segundo palavras da própria editora. na medida em que intentava. em conseqüência dessa busca de maior qualidade editorial. de uma tentativa de adequação do mercado consumidor brasileiro às características do mercado norte-americano. esses produtos também são comercializados a um maior custo para o consumidor. restringe seu potencial de vendas. tradicionais consumidores das revistas de super- heróis e dos quadrinhos infantis de autores brasileiros como Maurício de Sousa e Ziraldo Alves Pinto. a criação da Editora Devir. sob muitos aspectos. embora provavelmente equivocada em suas premissas. acompanhando um processo de segmentação de mercados também ocorrido em outros países. então. cujas características os fazem ficar mais próximos do mercado livreiro tradicional do que do de histórias em . conhecido como "Sistema de Reservas". no entanto. 2007) Tratava-se. o que possibilitou o re-direcionamento de uma parcela significativa do que correntemente é disponibilizado ao público leitor. na cidade de São Paulo. composto por colecionadores e amantes da imaginação. LIVRARIA. Uma análise da disponibilidade de obras desse segmento de mercado evidencia a presença de editoras com no máximo vinte anos de atuação na área de quadrinhos e a produção de artigos de maior qualidade gráfica. as últimas duas décadas apenas intensificaram a tendência de lançamentos de quadrinhos para públicos diferenciados. em grande parte. outros empreendedores do ramo editorial brasileiro também começaram a se voltar para novos segmentos de mercado. Os fatores acima assinalados colaboraram para que a busca de novos públicos e maior diversidade temática para os quadrinhos ocorresse de forma relativamente tranqüila no Brasil quando os primeiros indícios de declínio do mercado começaram a ser vislumbrados durante a década de 1980. Na esteira do trabalho dessa editora. Tratam-se ainda. e também com uma grande variedade de títulos de editoras independentes americanas e européias. em 1987. (DEVIR.

Gorazde). Osamu Tezuka (Adolf. embora a participação das livrarias seja essencial para veiculação desses materiais. tratem de temas mais ousados e incluam aspectos eróticos e realistas da vida social contemporânea. . bibliotecas com acervo especializado em histórias em quadrinhos. enquanto que no segundo despontam os trabalhos de Keiji Nakazawa (Gen). que proporcionam locais privilegiados para acesso e leitura de todos os tipos de publicações a todos os tipos de públicos. tendo passado a adolescência. composta majoritariamente por graphic novels e mangás para adultos. Buda) e Hayao Miyazaki (Nausicaa) (Figura 1). a comercialização nesse popular espaço de vendas. embora a publicação de títulos para o público infantil e adolescente seja ainda bastante substancial. Joe Sacco (Palestina. Isto é muito significativo em relação ao futuro da linguagem gráfica seqüencial no Brasil. Do Inferno). Trezentos de Esparta) e Alan Moore (Watchmen. representada por aqueles leitores de histórias em quadrinhos que.quadrinhos propriamente dito. Will Eisner (No Centro da Tempestade. o que pode levar a acreditar no abandono das bancas como espaço privilegiado para comercialização de histórias em quadrinhos no Brasil. pois sinaliza para o atendimento a uma demanda que até recentemente se encontrava órfã. Uma análise do mercado brasileiro de quadrinhos nas últimas duas décadas permite constatar que o número de publicações direcionadas para segmentos de público adulto aumentou substancialmente. não mais se satisfazem com as temáticas aventureiras e humorísticas dos quadrinhos para essa faixa de pública e buscam produtos com maior profundidade narrativa. no entanto. a priori. A análise possibilita também identificar a presença de grande número de obras estrangeiras no mercado. Grande parte dessa produção destinada ao público adulto é veiculada em espaços diferentes das tradicionais bancas de jornal. Nesse sentido têm atuado as gibitecas brasileiras. é viável defender que a ampliação do público de quadrinhos não deve prescindir ou absolutamente descartar. no primeiro caso encontram-se os trabalhos de artistas como Neil Gaiman (Sandman). Avenida Dropsie). uma vez que os contextos para veiculação de histórias em quadrinhos devem ser vistos de forma complementar e não como ambientes de concorrência. Frank Miller (Sincity.

ainda é uma exceção no mercado brasileiro. pode-se identificar a paulatina ampliação do número de artistas no mercado. José Muñoz e Carlos Sampayo. Moebius (Incal) e Guido Crepax (Valentina). recuperando uma linha de publicações que foi bastante popular nas décadas de 1950 e 1960. nos últimos tempo. Glauco. Adão Iturrusgarai. alvo principal deste texto. Fernando Gonsalez dão continuidade à obra do já mencionado artista Henfil. Carlos Trillo. no entanto. o crescimento regular da publicação de álbuns oriundos da indústria européia. atualmente. com constante presença em jornais brasileiros e grande parte de sua produção mais representativa tendo sido realizada nas décadas de 1980 e 1990. onde são veiculados apenas autores mais consagrados como Quino (Mafalda) e Maitena (Mulheres alteradas). a publicação dos trabalhos de autores latino-americanos de histórias em quadrinhos como Alberto Breccia. como Hugo Pratt (A balada do mar salgado). De uma maneira geral. Figura 1 Identifica-se também. entre outros. No que diz respeito à produção brasileira propriamente dita. . O estilo underground De uma certa forma. nota-se também o incremento de obras de caráter educacional. com o lançamento de quadrinizações de obras literárias. a crônica de experiências pessoais e a exploração de temáticas sexuais. Laerte. Autores consagrados. Milo Manara (Clic). o humor irreverente. Angeli e Glauco já são veteranos na área de quadrinhos. como Robert Crumb e Gilbert Shelton. autores como Angeli. em que prevalece a crítica de costumes. nos últimos tempos. além de seguidores diretos do trabalho dos artistas do quadrinho underground norte-americano. inclusive. embora basicamente ainda restrita ao trabalho de autores mais conhecidos. Laerte. Infelizmente. seu trabalho é objeto de coletâneas e republicações que mantêm satisfeito um público bastante fiel (Figura 2). o mercado para adultos se divide em obras ligadas ao estilo underground e coletâneas com materiais de novos artistas. enveredando para a crítica social e de costumes. Héctor Oesterheld. com maior variedade de enfoques e estilos narrativos.

Caco Galhardo desenvolveu recentemente um trabalho que enfoca a transposição de uma obra literária para a linguagem dos quadrinhos. nos últimos anos. no caso do primeiro. a publicação de coletâneas com histórias em quadrinhos de diversos artistas e diferentes estilos narrativos não obteve o sucesso que atingiu em outros países latino-americanos. Artistas como Lourenço Mutarelli e Caco Galhardo podem também ser considerados como pertencentes ao estilo underground. Seu trabalho de quadrinhos já ganhou vários prêmios e é regularmente publicado na forma de álbuns. que caíram no gosto do público (Figura 2). Outros artistas que têm proximidade com este estilo mas que não poderiam ser rigorosamente nele enquadrados são os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Ba. devido a suas características de irreverência e ao teor erótico de seu conteúdo. tem se dedicado à elaboração de obras de conteúdo mais ficcional com seu personagem Diomedes. mudando-se para o sudeste. que ganharam destaque com os álbuns da série 10 Pãezinhos e também diversificam bastante sua produção. Mutarelli. Adão Iturrusgarai ganhou notoriedade com a publicação da revista Dundun. em que revistas desse tipo . Figura 2 Coletâneas No Brasil. sempre com ótima receptividade (Figura 2). em um certo sentido também Fernando Gonsalez pode ser considerado um veterano dos quadrinhos. no caso do segundo. como é o caso da Argentina. afastando-se um pouco do estilo predominante em sua tira Os Pescoçudos. Posteriormente. publicação que teve o apoio por parte de órgãos governamentais contestado judicialmente. com seu personagem Níquel Náusea sendo publicado no jornal A Folha de S. enveredando para o estilo policial noir e se aproximando da produção de graphic novels. mas não atuam exclusivamente nesse segmento artístico. principalmente devido às características autobiográficas de seu trabalho. Oriundo do sul do país. Paulo há mais de 16 anos. Apesar de ter surgido depois dos três artistas acima mencionados. Adão desenvolveu personagens próprios como a jovem Aline e a dupla homossexual Rock e Hudson. e ao componente humorístico de sua obra. por sua vez.

. representando a oportunidade de disseminação do trabalho de autores que antes restringiam sua produção a fanzines e revistas alternativas em sua maioria auto-editadas. Entre as poucas iniciativas ocorridas na primeira metade da década destaca-se o livro Contos em Quadros. a publicação costuma concentrar cada edição em uma linha temática específica. que encontram cada vez maior receptividade entre os leitores brasileiros. adaptação em quadrinhos de três contos de escritores brasileiros: Pai contra mãe (Machado de Assis). Contrariamente aos quadrinhos produzidos no estilo underground acima mencionado. possibilitando um caleidoscópio de histórias que consegue atender a diferentes gostos. a produção de histórias em quadrinhos com esse enfoque narrativo parece ter incrementado no Brasil a partir da segunda metade da presente década. Figura 3 Quadrinização de obras literárias Ocorrendo esporadicamente desde o início dos anos 2000. Rodrigues para a Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora. esse tipo de publicações não se restringe a uma única linha de quadrinhos. Na mesma linha da Front estão outras obras publicadas em anos recentes. Na década de 1990. dramático.dominaram o mercado durante boa parte da segunda metade do século 20. O Bebê de tarlatana rosa (João do Rio) e Apólogo brasileiro sem véu de alegoria (Alcântara Machado). podendo abranger autores com as mais diferentes tendências e influências. A mais importante publicação desse tipo é a “revista” Front (Figura 3). normalmente organizada na forma de uma cooperativa de autores. O Imperador do Acre. desde aficionados de super-heróis a adeptos de uma linha mais introspectiva. como Dez na Área. o número de publicações desse tipo experimentou um evidente incremento no mercado brasileiro de quadrinhos. Outro trabalho digno de destaque é a edição de Galvez. um na banheira e ninguém no gol. com roteiro de Domingos Demasi e Desenhos de Miguel Imbiriba. adaptação da obra de Márcio Souza. que é publicada com periodicidade irregular e dá espaço para quadrinhos de caráter humorístico. no entanto. entre outras. sarcástico e irônico. embora publicada por uma editora comercial. Fábrica de Quadrinhos e Domínio Público. realizada por Célia Lima e J.

seu trabalho se destacou por uma abordagem fidedigna. e publicada no final de 2005 pela Editora Massangana. Em traços caricaturais. de Manuel Antonio de Almeida. do governo do Pará. (Figura 4) Os dois últimos anos no Brasil assistiram ao lançamento de diversos outros títulos voltados para a quadrinização de obras literárias. de Recife. ficando infelizmente restrita a um pequeno número de admiradores. voltada para a aplicação em sala de aula.. preferiu inclusive utilizar o próprio texto original na sua quadrinização. A Relíquia. de Aluísio Azevedo e Memórias de um sargento de milícias. principalmente a inclusão das histórias em quadrinhos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) como uma das alternativas de complementação didática no ensino formal. Miss Edith e seu filho. O autor brasileiro. tais obras não obtiveram grande divulgação. de Machado de Assis. A cartomante e O enfermeiro. nas transposições realizadas tanto por Lailson de Holanda Cavalcanti como na de Fido Nesti. tendo até o momento publicado as edições de O homem que sabia javanês.. colocando-as ao alcance dos estudantes do país. Leugim. transcrevendo praticamente de forma literal a tradução para a língua portuguesa feita por Sérgio Molina. A coleção busca transpor para a linguagem das histórias em quadrinhos obras consagradas de grandes autores brasileiros. com desenhos de Gabriel Bá e Fábio Moon (Figura 4). também parecem ter colaborado para que a quadrinização de obras literárias encontrasse novo fôlego no país. de Lima Barreto. podem ser destacados Os Lusíadas (Figura 4). Em 2005. -. Uns braços. Caco Galhardo mostrou estar à altura da tarefa de trazer ao público brasileiro mais uma quadrinização da obra do autor espanhol. que chamaram a atenção de público e crítica por seu alto nível de qualidade artística. de Machado de Assis. A nova Califórnia e Um músico extraordinário. e O Alienista. braço editorial da Fundação Joaquim Nabuco. de São Paulo. Entre eles. debruçando-se sobre a obra de Cervantes. As mudanças na educação brasileira nos últimos anos. com quadrinização do artista underground Marcatti. Bexiga e Barra Funda. um álbum esplendoroso. A casa secreta. de João Cabral de Melo Neto. o “auto de Natal” Morte e Vida Severina. O alienista. Esta é a linha seguida pela Editora Escala Educacional. em uma opção bastante feliz. de Antonio Alcântara Machado. O cortiço. por serem publicados fora do circuito Rio-São Paulo. com a publicação da série Literatura brasileira em quadrinhos. . publicado em 2004. A mesma sorte teve a transposição para quadrinhos de um dos maiores poemas brasileiros. que buscou manter a atmosfera um pouco dantesca que predomina na obra. obra realizada pelo artista Miguel Falcão – que poeticamente assina o trabalho em palíndromo. Brás.patrocinado pela Secretaria Executiva de Cultura. de Eça de Queiroz. iniciada em 2005. No entanto.

Esta é uma novidade alvissareira. como o das mulheres. Se. de uma das muitas estratégias possíveis para avanço da linguagem gráfica seqüencial no Brasil e certamente tem mostrado resultados satisfatórios até o momento. Trata-se. ao fim das contas. essas mudanças serão suficientes para garantir a existência de uma indústria autóctone forte na produção de histórias em quadrinhos é ainda uma incógnita de difícil decifração. que essa diversificação representa um trunfo considerável nessa luta e por isso não deve ter sua importância devidamente equacionada. tomando-se o cuidado de não minimizá-la – o que ocorreria pelo desprezo em relação a seu potencial de transformação de mercado -. de . Figura 4 Conclusão Embora seja provavelmente prematuro apontar para breve qualquer tipo de reversão significativa do mercado de produção e consumo de histórias em quadrinhos no Brasil. o que poderia ser feito pela definição de outros segmentos do público adulto. por si só. Sabe-se. pois aponta caminhos para a superação da crise trazida pelo impacto da concorrência das novas tecnologias e da perda de leitores ocorrida nos últimos anos. no entanto. devendo ser refinada para sua maior eficiência. o panorama traçado nas páginas anteriores parece sinalizar a existência de uma forte tendência em direção à diversificação de públicos e produtos. ou maximizá-la exageradamente – o que se daria por sua eleição como a única alternativa viável para sobrevivência dos quadrinhos no país.

MOYA. Rio de Janeiro: Oficina do Autor. etc. Tudo indica que. Edições Maravilhosas: as adaptações literárias em quadrinhos. São Paulo: Companhia das Letras. CAVALCANTI. p. A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos. Lleida: Editorial Milenio. São Paulo: Annablume. João Pessoa: Marca de Fantasia. MOYA. O rebuliço apaixonante dos fanzines. SILVA. 2005. Angelo. DEVIR LIVRARIA. 1933-64. Roberto Elísio dos. essa estratégia poderá continuar a trazer bons resultados no futuro. AIZEN.php.com. 2001. São Paulo: Opera Graphica. Fantasias e cotidiano nas histórias em quadrinhos. Morte e vida Zeferino: Henfil & humor na revista Fradim. Diamantino da. Literatura em quadrinhos no Brasil: acervo da Biblioteca Nacional. . 38-79. Nhô-Quim e Zé Caipora. Álvaro de. Octacílio. SILVA. MAGALHÃES. SEIXAS. Rozeny Silva.devir. Athos Eichler. 2002. Álvaro de. 2003. 2004. 2005. 2007. SANTOS. Acessado em 24 jul. Ópera Graphica. Octacílio. 19-32. Referências CARDOSO. Conselho Editorial. [site] Disponível em: http://www. VERGUEIRO. Brasília: Senado Federal. Nadilson Manoel da.profissionais liberais. 2003. D´ASSUNÇÃO. de grupos étnicos. In: AGOSTINI. As aventuras Nhô-Quim e Zé Caipora: os primeiros quadrinhos brasileiros 1869-1883. O Tico-Tico: centenário da primeira revista de quadrinhos do Brasil. São Paulo: Ed. Henrique.br/quem. In: CIRNE. Waldomiro. Álvaro de. 2002. devidamente trabalhada. 2005. Historia del humor gráfico en el Brasil. 1996. Anos 50/50 anos: São Paulo 1951/2001: Edição comemorativa da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos. Moacy. Quadrinhos dourados: a história dos suplementos no Brasil. MOYA. D´ASSUNÇÃO. Naumin. São Paulo: Opera Graphica. p. Lailson de Holanda. Fortaleza: Secult. GONÇALO JÚNIOR.

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