LA ACTUALIDAD DE LOS CÓMICS EN BRASIL: LA BÚSQUEDA

DE UN NUEVO PÚBLICO 1
(A atualidade das histórias em quadrinhos no Brasil: a busca de um novo público)

Waldomiro Vergueiro 2

É indiscutível que, nos últimos anos, as histórias em quadrinhos passaram por
diversas transformações no mundo ocidental, visando sua adaptação a uma nova
realidade. O móvel de muitas dessas transformações esteve relacionado, em
grande parte dos casos, a um novo entendimento sobre o papel dos quadrinhos
na sociedade e à derrubada de antigos preconceitos, que preconizavam os
produtos da linguagem gráfica seqüencial como prioritariamente direcionados ao
público infanto-juvenil. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das tecnologias de
informação e comunicação eletrônicas representou o ápice de um processo de
concorrência entre os diversos meios de comunicação de massa que se iniciou
com o advento da televisão, em meados do século 20, fazendo com que as
histórias em quadrinhos passassem a enfrentar uma diversidade de meios de
entretenimento como nunca antes haviam enfrentado, freqüentemente saindo
perdedoras no objetivo de prender a atenção de seu público. Assim, a indústria
produtora de histórias em quadrinhos teve que buscar alternativas para responder
de forma eficiente à concorrência desses meios de comunicação e informação,
diversificando as características dos produtos que disponibilizava e redirecionando
seus esforços de disseminação para públicos que pudessem se mostrar mais
receptivos a seus produtos.
Esse movimento de adaptação dos produtos quadrinhísticos pôde ser
observado em várias partes do mundo, iniciando-se nas economias mais
avançadas da Europa e América do Norte, onde a indústria de quadrinhos
apresentava maiores proporções. No entanto, não tardou muito para que igual
necessidade ficasse patente para as indústrias de países em desenvolvimento,
especialmente na América Latina, em que às condições de concorrência
desfavoráveis vieram se juntar contextos econômicos ainda mais adversos, que
muitas vezes levaram ao fechamento de empresas editoriais estabelecidas no
mercado, aparentemente sólidas e com longa trajetória de atuação na área.
Assim, em diversos países da América Latina, períodos de recessão econômica
concorreram para que a editora Columba, na Argentina, encerrasse suas
atividades na área e para que a editora Abril, empresa brasileira, abandonasse a
publicação de quadrinhos produzidos pelas norte-americanas DC e Marvel Comics
e passasse, praticamente, a concentrar seu trabalho em quadrinhos na publicação
dos personagens Disney, tradicionais produtos dessa editora.

1
Prepared for delivery at the 2007 Congress of the Latin American Studies Association,
Montréal, Canada September 5-7, 2007”
2
Professor Titular do Departamento de Biblioteconomia e Documentação e Coordenador do
Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo, Brasil,

em que a história passa a ser lida da direita para a esquerda. enquanto que a primeira revista de caricaturas regular e de larga duração foi a Semana Ilustrada. do alemão Henrique Fleiuss. em língua portuguesa. ampliando sua visibilidade e colaborando para o aumento de sua aceitação pela sociedade brasileira. As tendências acima mencionadas tiveram impacto significativo na realidade brasileira. granjeando cada vez mais o interesse dos leitores de histórias em quadrinhos. Verifica-se. O humor gráfico como espaço privilegiado para a divulgação da linguagem gráfica seqüencial no Brasil Segundo Lailson de Holanda Cavalcanti (2005). que tem uma história de artistas combativos. espaços privilegiados para alcançar um consumidor de maior idade e maior nível de exigência. a precoce participação do humor gráfico na discussão da realidade política e social brasileira. assim. na publicação O Corcundão. o que apenas colaborou para o aumento da eficiência da indústria japonesa de quadrinhos em sua atuação no Ocidente. das comic stores ou comic shops norte-americanas -. que inter-relacionava produções de desenho animado para a televisão. que se constituiu no modelo de todas as publicações humorísticas brasileiras do século 19. e as grandes livrarias do país. . além de buscar sua justificação com o argumento de que tal medida concorre para a preservação da obra original. implicando no re-direcionamento de setores da indústria produtora e na emergência de produtos diferenciados de história em quadrinhos que buscaram ir além dos públicos tradicionais da indústria quadrinhística. bonecos e produtos assemelhados. produções cinematográficas. Essa transformação de mercado. os mangás. A par do impacto da inovação tecnológica no mundo do entretenimento. que ano a ano ampliou sua participação no mercado de quadrinhos dos diversos países. ainda em processo. também possibilitou o barateamento dos produtos e maior rapidez de publicação. a indústria produtora de quadrinhos do mundo ocidental passou a conviver nas últimas duas décadas com os materiais provenientes da indústria oriental. representou até o momento uma alternativa viável para a permanência dos produtos da linguagem gráfica seqüencial no país. Assim. Desta forma. que “invadiram” os diversos países com quadrinhos de diferentes proposições temáticas e produtos direcionados para públicos segmentados. além de contar com uma ousada estratégia de marketing e um esquema coordenado de lançamentos de novos produtos. inclusive incorporando a reversão do mecanismo de leitura tradicional e a adoção do modelo oriental de leitura. esta alternativa de publicação dos quadrinhos oriundos de países orientais. do estado de Pernambuco. grande número de obras no estilo mangá foi produzido nas últimas décadas nos países ocidentais. às tradicionais bancas de jornal vieram se juntar as gibiterias – adaptação. o que também implicou na diversificação dos pontos de venda. Isto representou o embate de duas estratégias industriais de dominação do mercado de entretenimento em quadrinhos. em que as vitórias iniciais foram predominantemente da indústria invasora de raízes orientais. jogos eletrônicos. Este contexto de produção também se reproduziu nos países latino-americanos. o primeiro exemplo no país de um “desenho que representa a realidade de forma humorística e alegórica” data de 1831.

criadas. primeira revista infantil a publicar regularmente quadrinhos no Brasil. SANTOS. pelo jornalista e editor Adolfo Aizen. identificado como o introdutor da linguagem gráfica seqüencial no país e como um dos precursores da 9ª Arte. A partir daí.cujas obras tiveram um grande impacto social. no país. com uma certa constância. realizaram intensa atividade de crítica social e política. Assim. No entanto. 2005). SILVA. 2004. 1996) e de publicações como O Pasquim. respectivamente. Agostini esteve também ligado à introdução das histórias em quadrinhos direcionadas ao público infantil brasileiro. A par disso. como foi o caso da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos. durante o período da ditadura militar brasileira. realizada em 1951 na cidade de São Paulo (MOYA. após viagem que este fez aos Estados Unidos e na qual se familiarizou com os suplementos ilustrados dos jornais norte-americanos (GONÇALO JÚNIOR. mais do que essa revista. D´ASSUNÇÃO. como foi o caso do italiano Angelo Agostini. pode-se afirmar que o direcionamento dos produtos da linguagem gráfica seqüencial para um público diverso ao do adulto – alvo primordial do humor gráfico veiculado nas publicações humorísticas do século 19 e início do século 20 -. ocorreu com a introdução. uma vez que elaborou o logotipo para a revista O Tico-Tico. em 1934. 2003). Esse autor é. a trajetória das histórias em quadrinhos no território brasileiro passaria pelos mesmos percalços enfrentados em outros países. as histórias em quadrinhos no Brasil conseguiram atrair a atenção de grandes artistas. em 1869 e 1883 (CARDOSO. grande crítico do período do Segundo Império no país. muitos dos quais não se satisfizeram em produzir apenas para o entretenimento das crianças mas buscaram utilizar a linguagem gráfica seqüencial como um instrumento de contestação e denúncia das mazelas sociais. do modelo norte-americano de quadrinhos. que. 2002). inclusive. a partir da publicação do Suplemento Juvenil. . entre outros (SILVA. de uma produção subterrânea de produtos quadrinhísticos veiculados fora do circuito comercial e destinados a leitores mais velhos. 2002). é importante destacar o trabalho de artistas como Henfil (SEIXAS. as histórias em quadrinhos no Brasil não escaparam da sina de serem consideradas produto cultural de segunda classe que devia ser objeto de desconfiança por parte de pais e educadores. e a quadrinização de obras da literatura e de biografias dos santos da Igreja Católica como demonstração da possibilidade de utilização dos recursos dos quadrinhos para a transmissão de mensagens de maior conteúdo cultural (MOYA. que durou de 1905 a 1962 e acompanhou a infância de várias gerações de brasileiros (VERGUEIRO. No entanto. o florescimento de uma significativa produção de revistas alternativas e de fanzines (MAGALHÃES. Nesse sentido. de 1964 a 1985. 2003) garantiu a existência. 2001). principalmente por suas séries As aventuras de Nhô Quim e As aventuras de Zé Caipora. sendo idolatrada por adolescentes e desacreditada pela maioria dos educadores e intelectuais. 2005). apesar do trabalho de divulgação e organização de eventos por muitos entusiastas do meio. apesar da atmosfera desfavorável predominante em grandes parcelas da sociedade. uma atividade que teve prosseguimento mesmo depois do término do período de exceção e que encontrou seguidores em artistas como Angeli e Laerte.

as últimas duas décadas apenas intensificaram a tendência de lançamentos de quadrinhos para públicos diferenciados. em conseqüência dessa busca de maior qualidade editorial. e também com uma grande variedade de títulos de editoras independentes americanas e européias. (DEVIR. restringe seu potencial de vendas. Uma análise da disponibilidade de obras desse segmento de mercado evidencia a presença de editoras com no máximo vinte anos de atuação na área de quadrinhos e a produção de artigos de maior qualidade gráfica. no entanto. de forma a encontrar esse material em diversos pontos em todo o Brasil. em grande parte. Isso permitiu que um público muito exigente. de uma tentativa de adequação do mercado consumidor brasileiro às características do mercado norte-americano. 2007) Tratava-se. Prioridade ao público adulto como elemento de renovação do mercado de quadrinhos brasileiro No Brasil. Nesse sentido. na medida em que intentava. em 1987. conhecido como "Sistema de Reservas". tradicionais consumidores das revistas de super- heróis e dos quadrinhos infantis de autores brasileiros como Maurício de Sousa e Ziraldo Alves Pinto. atender ao crescente número de leitores de histórias em quadrinhos que queriam discutir e acompanhar tudo sobre os seus personagens ou revistas preferidas. Tratam-se ainda. composto por colecionadores e amantes da imaginação. Os fatores acima assinalados colaboraram para que a busca de novos públicos e maior diversidade temática para os quadrinhos ocorresse de forma relativamente tranqüila no Brasil quando os primeiros indícios de declínio do mercado começaram a ser vislumbrados durante a década de 1980. Para isso (a editora) criou um sistema inovador similar ao de uma assinatura. segundo palavras da própria editora. embora provavelmente equivocada em suas premissas. o que. o que possibilitou o re-direcionamento de uma parcela significativa do que correntemente é disponibilizado ao público leitor. a criação da Editora Devir. pudesse ter acesso e criasse uma ponte com o mercado norte-americano de quadrinhos. então. sob muitos aspectos. outros empreendedores do ramo editorial brasileiro também começaram a se voltar para novos segmentos de mercado. LIVRARIA. na cidade de São Paulo. esses produtos também são comercializados a um maior custo para o consumidor. Na esteira do trabalho dessa editora. pode ser vista como uma primeira iniciativa no sentido de influenciar a mudança do mercado consumidor. cujas características os fazem ficar mais próximos do mercado livreiro tradicional do que do de histórias em . inicialmente alicerçando-se no trabalho de profissionais da linguagem gráfica seqüencial do exterior e posteriormente buscando o artista nacional. de títulos com tiragens relativamente modestas. acompanhando um processo de segmentação de mercados também ocorrido em outros países. ela estabeleceu as diretrizes para a publicação e disseminação de materiais voltados para um público diverso daquele composto por crianças e adolescentes.

tratem de temas mais ousados e incluam aspectos eróticos e realistas da vida social contemporânea. Uma análise do mercado brasileiro de quadrinhos nas últimas duas décadas permite constatar que o número de publicações direcionadas para segmentos de público adulto aumentou substancialmente. que proporcionam locais privilegiados para acesso e leitura de todos os tipos de publicações a todos os tipos de públicos. Osamu Tezuka (Adolf. bibliotecas com acervo especializado em histórias em quadrinhos. no primeiro caso encontram-se os trabalhos de artistas como Neil Gaiman (Sandman). tendo passado a adolescência. embora a participação das livrarias seja essencial para veiculação desses materiais. . Buda) e Hayao Miyazaki (Nausicaa) (Figura 1). Will Eisner (No Centro da Tempestade. A análise possibilita também identificar a presença de grande número de obras estrangeiras no mercado. é viável defender que a ampliação do público de quadrinhos não deve prescindir ou absolutamente descartar. no entanto. não mais se satisfazem com as temáticas aventureiras e humorísticas dos quadrinhos para essa faixa de pública e buscam produtos com maior profundidade narrativa. Grande parte dessa produção destinada ao público adulto é veiculada em espaços diferentes das tradicionais bancas de jornal. Do Inferno). o que pode levar a acreditar no abandono das bancas como espaço privilegiado para comercialização de histórias em quadrinhos no Brasil. composta majoritariamente por graphic novels e mangás para adultos. Avenida Dropsie). pois sinaliza para o atendimento a uma demanda que até recentemente se encontrava órfã. representada por aqueles leitores de histórias em quadrinhos que. Trezentos de Esparta) e Alan Moore (Watchmen. Nesse sentido têm atuado as gibitecas brasileiras. embora a publicação de títulos para o público infantil e adolescente seja ainda bastante substancial. Isto é muito significativo em relação ao futuro da linguagem gráfica seqüencial no Brasil. Joe Sacco (Palestina.quadrinhos propriamente dito. uma vez que os contextos para veiculação de histórias em quadrinhos devem ser vistos de forma complementar e não como ambientes de concorrência. Gorazde). a comercialização nesse popular espaço de vendas. enquanto que no segundo despontam os trabalhos de Keiji Nakazawa (Gen). Frank Miller (Sincity. a priori.

recuperando uma linha de publicações que foi bastante popular nas décadas de 1950 e 1960. inclusive. Angeli e Glauco já são veteranos na área de quadrinhos. Fernando Gonsalez dão continuidade à obra do já mencionado artista Henfil. No que diz respeito à produção brasileira propriamente dita. o mercado para adultos se divide em obras ligadas ao estilo underground e coletâneas com materiais de novos artistas. como Robert Crumb e Gilbert Shelton. com maior variedade de enfoques e estilos narrativos. Autores consagrados. a crônica de experiências pessoais e a exploração de temáticas sexuais. ainda é uma exceção no mercado brasileiro. o crescimento regular da publicação de álbuns oriundos da indústria européia. De uma maneira geral. além de seguidores diretos do trabalho dos artistas do quadrinho underground norte-americano. Laerte. O estilo underground De uma certa forma. Laerte. seu trabalho é objeto de coletâneas e republicações que mantêm satisfeito um público bastante fiel (Figura 2). Glauco. Milo Manara (Clic). atualmente. Moebius (Incal) e Guido Crepax (Valentina). com o lançamento de quadrinizações de obras literárias. nos últimos tempo. Infelizmente. com constante presença em jornais brasileiros e grande parte de sua produção mais representativa tendo sido realizada nas décadas de 1980 e 1990. alvo principal deste texto. Figura 1 Identifica-se também. autores como Angeli. pode-se identificar a paulatina ampliação do número de artistas no mercado. no entanto. a publicação dos trabalhos de autores latino-americanos de histórias em quadrinhos como Alberto Breccia. entre outros. nota-se também o incremento de obras de caráter educacional. Adão Iturrusgarai. . como Hugo Pratt (A balada do mar salgado). nos últimos tempos. enveredando para a crítica social e de costumes. Héctor Oesterheld. o humor irreverente. onde são veiculados apenas autores mais consagrados como Quino (Mafalda) e Maitena (Mulheres alteradas). Carlos Trillo. embora basicamente ainda restrita ao trabalho de autores mais conhecidos. em que prevalece a crítica de costumes. José Muñoz e Carlos Sampayo.

por sua vez. publicação que teve o apoio por parte de órgãos governamentais contestado judicialmente. enveredando para o estilo policial noir e se aproximando da produção de graphic novels. em que revistas desse tipo . no caso do primeiro. no caso do segundo. Adão Iturrusgarai ganhou notoriedade com a publicação da revista Dundun. como é o caso da Argentina. mas não atuam exclusivamente nesse segmento artístico. Apesar de ter surgido depois dos três artistas acima mencionados. sempre com ótima receptividade (Figura 2). Outros artistas que têm proximidade com este estilo mas que não poderiam ser rigorosamente nele enquadrados são os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Ba. com seu personagem Níquel Náusea sendo publicado no jornal A Folha de S. Caco Galhardo desenvolveu recentemente um trabalho que enfoca a transposição de uma obra literária para a linguagem dos quadrinhos. e ao componente humorístico de sua obra. nos últimos anos. Paulo há mais de 16 anos. que caíram no gosto do público (Figura 2). a publicação de coletâneas com histórias em quadrinhos de diversos artistas e diferentes estilos narrativos não obteve o sucesso que atingiu em outros países latino-americanos. Adão desenvolveu personagens próprios como a jovem Aline e a dupla homossexual Rock e Hudson. Seu trabalho de quadrinhos já ganhou vários prêmios e é regularmente publicado na forma de álbuns. principalmente devido às características autobiográficas de seu trabalho. Mutarelli. em um certo sentido também Fernando Gonsalez pode ser considerado um veterano dos quadrinhos. Oriundo do sul do país. mudando-se para o sudeste. tem se dedicado à elaboração de obras de conteúdo mais ficcional com seu personagem Diomedes. Artistas como Lourenço Mutarelli e Caco Galhardo podem também ser considerados como pertencentes ao estilo underground. afastando-se um pouco do estilo predominante em sua tira Os Pescoçudos. Posteriormente. devido a suas características de irreverência e ao teor erótico de seu conteúdo. Figura 2 Coletâneas No Brasil. que ganharam destaque com os álbuns da série 10 Pãezinhos e também diversificam bastante sua produção.

Outro trabalho digno de destaque é a edição de Galvez. Figura 3 Quadrinização de obras literárias Ocorrendo esporadicamente desde o início dos anos 2000. um na banheira e ninguém no gol. a produção de histórias em quadrinhos com esse enfoque narrativo parece ter incrementado no Brasil a partir da segunda metade da presente década. Entre as poucas iniciativas ocorridas na primeira metade da década destaca-se o livro Contos em Quadros. adaptação em quadrinhos de três contos de escritores brasileiros: Pai contra mãe (Machado de Assis). Na década de 1990. podendo abranger autores com as mais diferentes tendências e influências. normalmente organizada na forma de uma cooperativa de autores. representando a oportunidade de disseminação do trabalho de autores que antes restringiam sua produção a fanzines e revistas alternativas em sua maioria auto-editadas. esse tipo de publicações não se restringe a uma única linha de quadrinhos. Contrariamente aos quadrinhos produzidos no estilo underground acima mencionado. que é publicada com periodicidade irregular e dá espaço para quadrinhos de caráter humorístico. Rodrigues para a Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora. no entanto. entre outras. Na mesma linha da Front estão outras obras publicadas em anos recentes. Fábrica de Quadrinhos e Domínio Público. O Imperador do Acre. realizada por Célia Lima e J. o número de publicações desse tipo experimentou um evidente incremento no mercado brasileiro de quadrinhos. com roteiro de Domingos Demasi e Desenhos de Miguel Imbiriba. A mais importante publicação desse tipo é a “revista” Front (Figura 3). sarcástico e irônico. possibilitando um caleidoscópio de histórias que consegue atender a diferentes gostos. desde aficionados de super-heróis a adeptos de uma linha mais introspectiva. embora publicada por uma editora comercial. dramático. . adaptação da obra de Márcio Souza. que encontram cada vez maior receptividade entre os leitores brasileiros. a publicação costuma concentrar cada edição em uma linha temática específica. como Dez na Área. O Bebê de tarlatana rosa (João do Rio) e Apólogo brasileiro sem véu de alegoria (Alcântara Machado).dominaram o mercado durante boa parte da segunda metade do século 20.

obra realizada pelo artista Miguel Falcão – que poeticamente assina o trabalho em palíndromo. Leugim. que buscou manter a atmosfera um pouco dantesca que predomina na obra. preferiu inclusive utilizar o próprio texto original na sua quadrinização. O cortiço. de Machado de Assis. No entanto. de Manuel Antonio de Almeida. Miss Edith e seu filho.. A cartomante e O enfermeiro. transcrevendo praticamente de forma literal a tradução para a língua portuguesa feita por Sérgio Molina. A casa secreta. por serem publicados fora do circuito Rio-São Paulo. e publicada no final de 2005 pela Editora Massangana. com quadrinização do artista underground Marcatti. -. de Antonio Alcântara Machado. O autor brasileiro. também parecem ter colaborado para que a quadrinização de obras literárias encontrasse novo fôlego no país. e O Alienista. tendo até o momento publicado as edições de O homem que sabia javanês. colocando-as ao alcance dos estudantes do país. de Lima Barreto. . o “auto de Natal” Morte e Vida Severina.patrocinado pela Secretaria Executiva de Cultura. iniciada em 2005. (Figura 4) Os dois últimos anos no Brasil assistiram ao lançamento de diversos outros títulos voltados para a quadrinização de obras literárias. ficando infelizmente restrita a um pequeno número de admiradores. que chamaram a atenção de público e crítica por seu alto nível de qualidade artística. Em 2005. O alienista. publicado em 2004. voltada para a aplicação em sala de aula. A coleção busca transpor para a linguagem das histórias em quadrinhos obras consagradas de grandes autores brasileiros. um álbum esplendoroso. A mesma sorte teve a transposição para quadrinhos de um dos maiores poemas brasileiros. A nova Califórnia e Um músico extraordinário. Bexiga e Barra Funda. braço editorial da Fundação Joaquim Nabuco. debruçando-se sobre a obra de Cervantes. tais obras não obtiveram grande divulgação. Entre eles. podem ser destacados Os Lusíadas (Figura 4). de Aluísio Azevedo e Memórias de um sargento de milícias. do governo do Pará. As mudanças na educação brasileira nos últimos anos.. Esta é a linha seguida pela Editora Escala Educacional. principalmente a inclusão das histórias em quadrinhos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) como uma das alternativas de complementação didática no ensino formal. nas transposições realizadas tanto por Lailson de Holanda Cavalcanti como na de Fido Nesti. Brás. de Recife. seu trabalho se destacou por uma abordagem fidedigna. com a publicação da série Literatura brasileira em quadrinhos. com desenhos de Gabriel Bá e Fábio Moon (Figura 4). de São Paulo. em uma opção bastante feliz. de João Cabral de Melo Neto. Em traços caricaturais. de Eça de Queiroz. de Machado de Assis. Caco Galhardo mostrou estar à altura da tarefa de trazer ao público brasileiro mais uma quadrinização da obra do autor espanhol. A Relíquia. Uns braços.

Figura 4 Conclusão Embora seja provavelmente prematuro apontar para breve qualquer tipo de reversão significativa do mercado de produção e consumo de histórias em quadrinhos no Brasil. tomando-se o cuidado de não minimizá-la – o que ocorreria pelo desprezo em relação a seu potencial de transformação de mercado -. Se. o panorama traçado nas páginas anteriores parece sinalizar a existência de uma forte tendência em direção à diversificação de públicos e produtos. por si só. como o das mulheres. de uma das muitas estratégias possíveis para avanço da linguagem gráfica seqüencial no Brasil e certamente tem mostrado resultados satisfatórios até o momento. Sabe-se. essas mudanças serão suficientes para garantir a existência de uma indústria autóctone forte na produção de histórias em quadrinhos é ainda uma incógnita de difícil decifração. o que poderia ser feito pela definição de outros segmentos do público adulto. pois aponta caminhos para a superação da crise trazida pelo impacto da concorrência das novas tecnologias e da perda de leitores ocorrida nos últimos anos. de . devendo ser refinada para sua maior eficiência. que essa diversificação representa um trunfo considerável nessa luta e por isso não deve ter sua importância devidamente equacionada. no entanto. ou maximizá-la exageradamente – o que se daria por sua eleição como a única alternativa viável para sobrevivência dos quadrinhos no país. ao fim das contas. Esta é uma novidade alvissareira. Trata-se.

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