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A Intuição como Método—Tentativa de Síntese Gabriel Escobar No texto A Intuição como Método, Deleuze traz as questões relativas ao trabalho de Henri Bergson, principalmente na aplicação da intuição como um método científico, uma vez que essa compõe parte de uma certa precisão. Compõem-se algumas partes nesse jogo, entre elas a memória, a duração e a própria intuição. Enquanto essas em si dizem de uma experiência vivida, o método possibilitaria uma relação análoga à científica, ou seja, cabendo uma dose de rigor metódico. Mesmo essa constituindo algo de um ato simples, isso não indicaria um fechamento às multiplicidades virtuais que compõem um certo mundo, mas de entender como essas se atualizam através do tempo, ou duração. De fato, isso diz de uma certa constituição de objeto, que antes de ser espacializado e conformado, tem de ser entendido como algo que tem natureza cambiável nesse tempo. Não entender o grau como natureza parece ser um dos pontos gerais dessa problemática do método. Acho que isso ficaria mais claro a partir da explanação em respeito às 5 regras propostas aqui, não sei se são um resumo do próprio Bergson ou uma invenção do Deleuze para formar um certo corpo teórico, enfim a invenção também cabe aqui. Confesso também que não entendi muito durante esse primeiro ponto qual seria o papel dessa relação que atravessa a vivência, mas acho que com as regras delineadas essa aproximação se tornariam um pouco mais claras. 1ª Regra: Quanto à prova do verdadeiro e do falso e as relações dos problemas com a sua colocação; Uma primeira diferenciação concerne ao estabelecimento do problema somente em relação a uma possível solução. Essa solução é o que conforma, ou seja, o problema é colocado perante ela, que não necessariamente tenha de ser resolvida, mas sim conter uma noção que poderia ser descoberta. Deleuze comenta que o bergsonismo não quer dizer isso em si, já que em uma colocação há a possibilidade da invenção. Em outras palavras, descobrir algo é encontrar o que já existe, mesmo que virtualmente e inventar dá um ser aquilo que ainda não é. [Comentário: Aqui aparece uma primeira relação com o espaço, durante a explicação de uma linguagem quanto à operação do problema, já que o vocabulário é eminentemente espacial, mas encontrar e colocar são diferenciados, o primeiro enquanto uma forma prévia e o segundo como constituinte de uma certa virtualidade, já que o problema recebe a solução que a sua colocação merece. Colocação também no tempo talvez. Não sei o quanto isso faz parte de uma linha que comunica com as regras posteriores, já que tempo e espaço são demarcados na direção da duração e “extensão”(?). Fica uma dúvida, talvez melhor explicitada quando se chega ao capítulo referente aos dualismos.] Entretanto, isso não quer dizer partir para um dualismo entre problema e solução, ou seja, a preponderância de um sobre o outro. Aqui a questão confere uma crítica à noção que um problema verdadeiro é aquele que contém uma solução, além da importância da colocação do problema, que determinará essa solução. Regra complementar: Há dois tipos de problemas falsos: os inexistentes e os mal colocados. No primeiro caso, são dados como exemplo a desordem e o possível, são inexistentes pois contém em si já a sua própria solução. Uma vez que a desordem pressupõe a ordem mais a sua negação, a problemática é a mesma da ordem. Os negativos em si projetam- se nas possibilidades. Seria possível dizer que haveria um nada ou uma desordem a ser preenchida, se não tivéssemos primeiramente a noção de ordem? É essa crítica que se põe aqui em relação aos falsos problemas, como sendo de relações amparados em um dualismo de positividade e negatividade, [porém não sei se isso não caberia também a uma má colocação do problema, já que esses termos se referem a uma linguagem utilizada. Desordem é uma palavra que sim contém esse positivo mais um negativo, mas será que a colocação com outros termos também teria o mesmo efeito? (A segunda parte retoma isso, mas a diferenciação dos termos como memória e percepção também poderia ser vista como de linguagem, ou, pelo menos, eu veria esses conjuntos assim, será que estou indo muito fora da proposta. No texto, coloca-se isso como um vício da inteligência, mas a minha dúvida é se ele não seria também um vício da própria linguagem.) Deleuze falou anteriormente da matemática e da metafísica, em que a colocação é a procura dos termos e a solução já estaria pronta, não sei como relacionar os dois.] A segunda diferenciação vem em respeito a natureza e o grau. É uma crítica a confusão entre ambos. Por exemplo, a felicidade e o prazer referem-se a multiplicidades diversas, não é preciso incluí-las sob aproximações, são estados muito diversos. Deleuze retoma a primeira categoria para explicitar melhor isso, os falsos problemas também são colocados em termos de mais ou menos, enquanto, na verdade, estão postos como sendo de naturezas diversas. Na idéia de desordem, existe uma noção onde está a vida e o mecanismo e onde ela não está, então também seria um problema mal colocado. Isso seria um próprio erro que intuição teria de repelir: a miragem de colocar uma “retroprojeção do possível”. A intuição aparece então como crítica, que informa a inteligência sobre os falsos problemas, onde não estamos vendo as diferentes naturezas e onde podemos distinguir e como colocar os problemas. Surge a próxima regra. Regra nº 2: lutar contra a ilusão, reencontrar as verdadeiras diferenças de natureza ou as articulações do real. Deleuze começa por lembrar os dualismos dos títulos de Bergson, a explicar que esses colocam uma divisão de uma experiência que é mista. Em outras palavras, elas são articulações de naturezas diversas, mas não quer dizer que não são mistas, porém as tratamos como marcas de gradações diferentes. Os exemplos trazidos são da duração e da extensão, são presenças que se misturam, mas para diferenciá-las só conseguimos excluí-las dos princípios. Melhor entendido no segundo exemplo, que explicita as misturas entre percepção e memória, cuja separação produziu uma gradação entre lembrança-percepção e percepção-lembrança. Deleuze afirma que é esse um motivo principal dos estudos de Bergson: colocar as diferenças de natureza onde só se viram as de grau. Deleuze coloca as relações entre a resposta, a excitação, a percepção e as delimitações de um próprio objeto em duas linhas que configuram a representação. O autor procede pela intuição a encontrar onde essa diferença de natureza não pode existir, nesse caso, entre percepção da matéria e a própria matéria. Essa é uma primeira linha do método da representação, existe outra para compor com os afetos, ou a ocupação do corpo no espaço, além da memória que contrai a matéria (relacionada à duração?) e faz surgir outra coisa que não a qualidade. Disso surge a linha da subjetividade, ambas se misturam na experiência. Os problemas mal postos não surgem de uma aplicação da experiência, mas de uma dificuldade entender as condições para que elas ocorram, ou seja, as linhas que a compõe. O resto da regra segue pela via de entender como operam essas linhas nas diferenciações. Não é uma via de sair da experiência, já que sair de uma dimensão humana é apenas uma problematização para entender de que articulações as particularidades surgem. Não sei se consigo escrever algo melhor que isso, talvez a regra complementar explique melhor essa relação ao método. Regra complementar: o real não é somente o que se divide segundo articulações naturais ou diferenças de natureza, mas é também o que se reúne segundo vias que convergem para um mesmo ponto ideal ou virtual. Aqui Deleuze traz o estudo Matéria e Memória como exemplo. Da mistura lembrança-percepção, Bergson pôde dilatar e determinar onde haviam diferenças de natureza entre alma e corpo e entre espírito e matéria. Entretanto, a solução do problema parte de entrecruzar novamente essas linhas e enfim explicitar a razão da colocação do problema. Essas linhas, objetvidade e subjetividade, procedem por estreitamento até a resolução do problema. Terceira regra: Colocar os problemas e resolvê-los em relação ao tempo. A intuição pressupõe uma duração, essa se refere a principal divisão de natureza do trabalho bergsonista e que coloca necessária para entender as naturezas. A duração e o espaço configuram algumas das linhas previstas nas regras anteriores, enquanto a primeira se coloca pelas diferenças de natureza, a segunda procede por diferenças de grau. Primeiramente, Deleuze lembra o exemplo de um monte de açúcar para explicitar essa diferença: enquanto ele pode ser diferenciado das outras coisas na relação do espaço, porém é com a duração ou colocar o derretimento no tempo, que nos abrimos para diferenças de natureza, ritmos ou durações que são diferentes das de quem percebe. Então, nessa intensidade é que esse método se institui, em uma experiência do que as coisas podem sair de uma dimensão iminentemente "humana" das existências. A duração então torna-se mais que uma dimensão psicológica, ela é a própria divisão das naturezas possíveis e formando uma ontologia complexa. Assim, forma-se o absoluto de Bergson, com dois lados: o espírito, penetrado por uma metafísica e a matéria, tal como é conhecida pela ciência.