Você está na página 1de 13

Psicologia USP http://dx.doi.org/10.

1590/0103-656420150129
44

Limites da consciência de professores a respeito dos
processos de produção e redução do bullying

Pedro Fernando da Silva*
Cintia Copit Freller
Lucas Stefano de Lima Alves
Gabriel Katsumi Saito
Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia da Aprendizagem,
do Desenvolvimento e da Personalidade. São Paulo, SP, Brasil

Resumo: Orientados pela Teoria Crítica da Sociedade, analisamos o conteúdo de entrevistas de 17 professores de cinco
escolas públicas paulistanas acerca do que produz o bullying e do que deve ser feito para reduzi-lo. Identificamos três
categorias de respostas: as que expressam consciência crítica a respeito de sua produção e redução; as que denotam
engajamento em relação a seu combate, mas consciência restrita a respeito de suas causas; e as que apresentam
consciência restrita em ambos os casos. Como a consciência fragilizada se destacou na maioria dos casos, concluímos
que ampliar ações destinadas à formação conceitual a fortaleceria junto a profissionais que se propõem a enfrentar
esse tipo de violência, quer seja por meio da intervenção direta, do desenvolvimento de pesquisas ou da proposição
de políticas públicas.

Palavras-chave: Teoria Crítica, bullying, consciência, professores, escola.

Introdução típica da sociedade capitalista, que produz o que é antide-
mocrático a partir de suas próprias instituições formais. A
Em um proeminente ensaio de 1959, o pensador escola brasileira não somente tem fracassado em garan-
frankfurtiano Theodor W. Adorno referiu-se à crise da tir a apropriação crítica da cultura, mas tem sido cenário
formação cultural, que constatara como sendo parte im- para a propagação de formas de violência daninhas a seu
portante das condições psicossociais que favoreceram a cultivo.
ascensão do nazifascismo, para argumentar que sua neces­ Dentre as expressões da violência que assolam a es-
sária superação não seria possível sem um diagnóstico cola, o bullying se destaca por incidir em uma faixa etária
preciso dos fatores que a produziram e do subsequente – infância e adolescência – em que a educação melhor po-
desenvolvimento de uma consciência crítica a respeito do deria influir positivamente, e possuiu características que,
alcance de seu impacto destrutivo. Segundo ele, apesar de em razão de sua semelhança com os dispositivos psíquicos
se expressar principalmente no âmbito educacional, essa acionados pelo fascismo, despertam grande preocupação
tendência regressiva poderia expandir-se e se instalar na social. Semelhante à pseudoformação com a qual se re-
totalidade social; não se esgotaria nas limitações apresen- laciona intrinsecamente, decorre de uma complexa cons-
tadas pelas instituições e métodos pedagógicos, atingindo telação de fatores, dispostos irregularmente nos diversos
o cerne do processo de formação psíquica e cultural dos âmbitos da vida dos agressores, das vítimas e dos demais
indivíduos. participantes das inúmeras situações cotidianas relaciona-
Transcorridas mais de cinco décadas da análise das às formas de intimidação, hostilização e cerceamento
elaborada por Adorno (1959/1986), deparamo-nos com que o constituem. Pretendemos analisar a importância da
desdobramentos potencialmente mais destrutivos da crise consciência a respeito de alguns dos fatores que o determi-
da formação cultural; dentre eles, destacam-se o recrudes- nam – principalmente da instituição escolar, da totalidade
cimento da violência escolar e o surgimento de novas for- social e da dimensão psíquica individual.
mas de hostilização, ao mesmo tempo pouco espontâneas De modo semelhante a nosso empenho, em sua
e fortemente caracterizadas pelo alto potencial de mobili- análise dos fatores psicológicos e sociais relacionados ao
zação emocional. Ainda que a ameaça de repetição da bar- bullying, Crochík (2012) também destacou elementos des-
bárie nazifascista não esteja em discussão, o crescimento sas três dimensões. Analisou a dupla hierarquia presente na
explícito da violência em âmbitos da vida social outrora escola – a que se relaciona com o desempenho intelectual
salvaguardados nos alerta para os limites da democracia e a que se fundamenta na força física –, a personalidade
auto­ritária e as variações da autonomia diante da autori-
dade. Conforme compreendemos, esses fatores são expres-
* Endereço para correspondencia: pedrofernando.silva@usp.br sões de esferas comumente negligenciadas na análise da

2017 I volume 28 I número 1 I 44-56 44

e no ajustamento diferentes níveis de agressão engendrados pela sociedade a padrões de conduta mediados pela totalidade social. sibilidade de realização da dignidade humana também petitivas que ocorrem sem nenhuma motivação evidente. Por essas razões. o conceito de indivíduo formulado tural que tende a se inscrever na experiência de cada um por Horkheimer e Adorno (1956/1978) pode ajudar-nos como uma marca indelével. o giro para o sujeito proposto por tantes características do bullying: (i) apesar das variações Adorno (1967/2000c). Certamente. como a cial. continuidade em relação às expressões da infância se concretizou” (p. apesar de sua Em um aforismo redigido em 1935. cometida por crianças e jovens a seus pares. sem a qual a democracia não é possível. 169). gas de escola que espancaram outro considerado traidor da so de formação do indivíduo destaca-se por permitir-nos classe por ter se queixado ao professor. Com essa impactante barbárie efe­tuadas pelos totalitarismos que assolaram a afirmação. um lado. acusações injustas. (ii) a intimidação sistemática. também. 1947/1985). a análise tanto dessa do processo de formação do indivíduo. exercendo. intimidações. ciais desenvolvidas sob sua influência. quer da consciência de que mente. elementos psicodinâmicos presentes nas relações fa. Esse episódio nos remete a duas impor- sua responsabilização. causando dor. presente no contraditório processo do esclarecimento (Horkheimer & 1 Fante (2011) refere-se a uma definição de bullying já universalmente Adorno. 169). tendem à ideologia. em geral. possui parentesco com outros fenômenos de suas características já bem descritas pela literatura já observados na história humana. determinam tanto as limitações quanto quecimento do indivíduo. adotado por um ou mais alunos contra outro(s). constituindo um quanto de outras formas de violência não pode prescindir. tação a relações hierarquizadas. concluindo-se com ao medo” (p. meu restritivas referências ao indivíduo que o elevam à cate. expressão de características hu­manas essenciais. o pesadelo de minha senta. Sua lembrança da agressão Diante da necessidade de compreender a contradi. seu efeito imediato é a limitação da necessária e ao conjunto das organizações que regulam a vida so. pírito necessárias à convivência pacífica com o diferencia- lógicas individuais ou a um efeito mecânico de problemas do (Adorno. mas tiva da inscrição psíquica precoce da destrutividade social. tipo de cerceamento que é impeditivo da diferenciação quer da crítica à supremacia da dominação. com titucionais contraditórios. e por meio das contexto escolar ainda representa um grande desafio para quais obtêm sua formação psíquica e cultural. 1969/1995b) e ao exercício de um nível básico relacionados à psicodinâmica da família e à desagregação de autonomia. por dimensão psicossocial representa a esperança e o risco de processos sociais complexos. processos ligados pode-se dizer que o enfrentamento desse novo regulador às instituições e às organizações. destrutivas presentes na totalidade social se manifestam mites socialmente impostos à constituição da individuali. típico nas escolas analisadas. 2011. fragilidade. juízo político. a apatia e a crueldade. atuação de grupos que hostilizam. pôde revelar o caráter histórico do fenômeno Europa na primeira metade do século XX –. angústia e sofrimento. forte pressão sobre os indivíduos e as instituições so. Nesses termos. nas relações cotidianas. intencionais e re. principalmente. o medo e a diferença. afeta o âmago o fascismo se destaca. e a totalidade social que se efetiva em tos psíquicos regressivos. e a esperança de que a denúncia do enfra. essa forma de agressão intencional e sistemática. quais. Adorno espe­cificidade em tempos de democracia formal. bem como pela mediação social. 2010)1. mas sua afinidade com especializada (Fante. decerto. (1951/1993) declarou: “No fascismo. Distintamente das “A irrupção do Terceiro Reich surpreendeu. possa desper. mas também por contextos ins- cada elemento particular que a constitui. são algumas das manifestações do comporta. De comunitária. Limites da consciência de professores a respeito dos processos de produção e redução do bullying 45 violência escolar e sem os quais as explicações a res­peito indispensável ao desenvolvimento das disposições de es- das causas do bullying podem reduzi-lo a motivações psico. gozações que magoam profunda­ observadas ao longo da história. compreende o reconhecimento dos li. Composto por elemen- miliares e grupais. isso. o bullying compreende processos psíquicos individuais. que assim como representou a pos- estabelecida: “é um conjunto de atitudes agressivas. a pesquisa acerca de sua sobrevivência psíquica e material. na barbárie efetivada pelo bullying – a qual. além de danos físicos e materiais. 28-29). nos quais a determinação so- uma crítica direcionada ao indivíduo: o risco da distorção cial se efetiva em situações concretas de exigência de adap- ideológica. com isso negligenciando os e privação dos benefícios da civilização. levou-o a afirmar: adentrar a malha da pseudocultura. ameaça de exclusão social nios a que foram submetidas. ridiculari. que ora denominamos bullying. cometida por cinco cole- tória propagação da violência escolar. Vislumbramos um conceito de bullying mento bullying” (p. constituiu a base para as inúmeras formas de subjugação Insultos. ora representado pela recaída a potencialidade da convivência sem agressão. Entendemos que o bullying não é reflexo de pro. e. a ênfase no proces. apelidos cruéis. como a agressão. nas quais tanto as víti- das relações estabelecidas por crianças e adolescentes no mas quanto os agressores estão inseridos. as tendências para esta análise. Nesse sentido. a situar o bullying como um tipo de violência que. o qual tomamos como referência socioeconômicas dos distintos ambientes. quaisquer tentativas de justificar a violência como natural zam e infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão. presenciada durante a infância. que considera a identidade entre os propalados casos de 2017 I volume 28 I número 1 I 44-56 45 . bem como sua incidência tar a necessidade de reflexão sem a qual a individualidade em um ambiente aparentemente muito distinto do que é não se sustenta. repre. além típica do bullying. os hierarquizada. de se responsabilizar as vítimas pelos infortú. em conjunto. Plan. constituindo uma condição cul- dade. além de sua toda a sociedade. mas não minha predisposição inconsciente goria explicativa unívoca. compreende aspectos institucionais relacionados à escola de outro. já é indica­ blemas psicológicos próprios do âmbito pedagógico.

os processos de consciência e de autocons. Adorno (1965/2000b) vale a fazer experiências intelectuais. a postura dos professores em relação ao dida em que dissocia o particular do todo com o qual se bullying também é prejudicada. Contudo. incluindo-se processos ati- objeto de análise implica em reconhecer sua importân. confun- do capitalismo tardio. as especificidades dessa imbricação nem sem- que apresenta atualmente. profes­sores possam comprometer a finalidade da escola. se constituir como um importante elo entre a percepção não obstante o declínio da autoridade na família e na es- objetiva do fenômeno e a proposição de medidas efetivas cola. o risco de que condutas autori- “. . 115). não se pode ignorar que a esfera da processos sociais violentos que eclodem no cotidiano esco- consciência é central para a compreensão das contradições lar.” (p. Atentos a esse aspecto. ‑se em forças reais” (p. emocional do contato professor-aluno. pois adotam medidas mui- relaciona dialeticamente. 134) e. sobretudo. o estudo acerca do modo como essa expressão. sores em vendedores de conhecimento. Ao analisar os geral. (2014) consideraram que negligenciar a determinação agressões esporádicas. afeta a qualidade das intervenções realizadas. caracterizando a redução da possibilidade de se pois indicam que o nível de compreensão do bullying. nentes à formação das instâncias intrapsíquicas e à conso- cia central para a formação dos alunos e em averiguar lidação de ideais psíquicos. Os professores se destacam por na redução dessa forma de violência escolar. ração conceitual. Silva et al. porque. mação traz consigo a falsa impressão de que o operaciona­ fessores em relação aos fatores implicados. por tomar medidas igualmente limitadas. acaba das organizações. dos ter experiências. e o risco elementos importantes para a análise do material empírico de consumação de uma tendência que transforma profes­ selecionado. Adorno (1967/2000d) argumentou que pensar equi. à medida que se conservam “como preconceitos psicológicos e sociais. este. inclusive em lismo técnico equivale à objetividade. são objeto de tabus que as obscurecem. as relações sociais. disso depreende-se discutiu “a sedimentação coletiva de representações” que que o cerceamento provocado pelo bullying. na produção e a negação da subjetividade. destaca-se por sua relevância na formação de crianças e jovens. posto que as possibilidades de formação cultural têm se ciência no processo de formação escolar e. restringindo-lhes ciência – expressões da consciência crítica –. interessados em averiguar a condição da cons. Cintia Copit Freller. bem como de suas prin- de deterioração das relações humanas sob a determinação cipais características” (p. fatores implicados em sua produção e em suas formas de sentam esses traços. Portanto. de modo que para a sua superação. são marcadas por preconceitos. o que pode fortalecer relação às dimensões institucional e social. que são momentos essenciais sua posse pelos professores. essencial ao desenvolvimento da autonomia. a qual. 72). segundo ele. Em consequência da fraca elabo- social poderia resultar em distorção ideológica: “Na me. sobretudo no seio titucional de enfrentamento a esse tipo de violência. em muitos casos. Dessa análise destacam-se três Em consonância com a análise de Adorno importantes aspectos da relação pedagógica: a intensidade (1962/2000a) acerca da relação entre a experiência intelec. os professores também participam dos de sujeitos autônomos. elegemos. sua tornado cada vez mais esparsas em contextos marcados potencialidade de resistência ao bullying. e o atual estágio em relação à definição de bullying.Pedro Fernando da Silva. como majoritaria­mente por relações de hostilidade. bem como o contato humano espontâneo com os alunos. direção da escola. tabus que pairam sobre o magistério. cujo ob- ‑se central. que pode propiciar tual e a capacidade de reflexão a respeito da reali­dade na a experimentação de conflitos que envolvem processos de qual se está inserido. seu nível de consciência e sua subsequente capacidade de Em um estudo empírico sobre a percepção e inter. Crochík et diam-no com brincadeiras típicas da faixa etária ou com al.br/pusp . As conclusões reótipos e impedimentos à comunicação e à convivência a que os autores chegaram fortalecem a nossa hipótese. em razão disso.scielo. Lucas Stefano de Lima Alves & Gabriel Katsumi Saito 46 agressão e constrangimento. A extensão sua relação com a subsequente possibilidade de propor e da frieza própria das relações mercantis ao campo da for- efetivar ações de enfrentamento. Como as relações escolares também apre. 98). não chega a ser tão insuportável de modo a impedir a tárias ou excessivamente permissivas manifestadas por consciência de si e a autorreflexão do objeto . a cisão entre escola e sociedade to restritas. ainda são percebidos como modelos. quando não tem um projeto ins- Atualmente. ou encaminham os envolvidos para a determinação social” (p. tão frequentes no cotidiano observados “apresentaram um conhecimento fragmentado escolar de crianças e jovens brasileiros. autorreflexão mantêm-se como mediações fundamentais venção de professores em relação ao bullying em sala de para que a relação que as crianças e jovens estabelecem aula. tendendo a tornar natural a em que ocorreram. a qual. lação social à violência e à frieza expressadas de maneira os professores são percebidos de modo distorcido pelos alu- direta no bullying e disseminadas nas relações sociais em nos. que por sua vez retroagem sobre a realidade convertendo­ mento. a delimitação da consciência como identificação e de frustração. ainda é para o desenvolvimento da personalidade e para a aqui- possível a despeito da pressão econômica sobre a maioria: sição da individualidade. em geral circunscritas ao contexto específico reproduz a violência do todo. É somente mediante a consciên. pois comumente cia que se poderá perceber e enfrentar a constante estimu. prejudica a experiência. a escola visa à formação crianças e jovens. . Se. (2013) concluíram que muitos professores com eles ultrapasse o nível da identificação cega e promova 46 Psicologia USP I www. . forma de regressão interfere nos objetivos da escola torna­ Representantes centrais dessa instituição. A consciência dos pro. tal como definido pelas políticas públicas jetivo declaradamente defendido é a formação cultural de de educação vigentes no Brasil. coti­dianas. pre são tratadas com a clareza necessária. afeta inclusive a esfera do pensa. pela comunidade e por eles próprios. .

vai ao encontro da nossa no que concerne à infiltração da Assumimos como hipótese que uma consciência violência no contexto escolar e à constatação de que há suficientemente consolidada. partir de considerações. bullying e responsabilidade” – teve o protocolo de averiguar se os professores interpelados acerca do bullying pesquisa nº 066-2011 aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com apresentavam consciência do modo como a escola participa Seres Humanos da PUC-SP em 28 de março de 2011. conjunto. podem ser efetuadas para reduzi-lo. as ponderações examinadas revelam indícios da mite exercer seu ofício com autonomia. são essenciais para que a escola cumpra seu papel tuguês. pois é somente mediante a relações frias e competitivas. por vezes. cinco de desbarbarização. Seria uma consciência crítica acerca da impor- sive a percepção de sua parcela de responsabilidade na tância e dos limites das ações de enfrentamento a um tipo reprodução da violência social e institucional. Para tanto. ção que os professores têm de si mesmos. dos professores a respeito dos processos de produção e de lho docente – inclusive o empobrecimento da consciência. Participaram como sujeitos desta pesquisa 17 pro- cadores para o enfrentamento ao bullying. 2017 I volume 28 I número 1 I 44-56 47 . então. vindos de quatro esco- metida com o desenvolvimento da capacidade de autor. fessores com idade entre 24 e 60 anos – todos assinaram cientização produzida pela escola. de sua importância para a desbarbarização. garantiria substancialidade à análise É somente a consciência clara de que são represen. Em deve ser atribuída ao sistema educacional que não lhes per. condições objetivas que ora o engendram. todas de ensino fundamental e localizadas no município 1965/2000b). Indica que a vio­lência tamento. os jovens não têm con. consiste em elemento empí- cepções de professores acerca da violência escolar também rico valioso para se avaliar o efetivo potencial de enfren- corrobora com nossa argumentação. bem como de tames da pseudoformação. buscamos apreender esses aspectos a manifestada na escola inclui aquela de que a escola é pro. a prevenção à violência na es­cola disso. tivamente superado mediante a transformação radical das preender sem subterfúgios a produção da violência escolar. sua argumen­tação presença. um de ciências. se apresenta sob a forma de de São Paulo. quer o reconhecimento da importância dos edu. estabelecemos como objetivo analisar a consciên- depende de que os professores estejam preparados para cia manifestada por professores do ensino público paulis­ identificá-la e de que reconheçam os limites impostos à sua tano a respeito dos processos de produção e de redução do profissão. se manifesta de forma sutil na fessores a respeito das causas do bullying e das ações que. quer a cons. redução do bullying. É à medida que a escola adquire consciência dos fatores dições de resistir ao que Adorno denominou (1959/1986) que contribuem para o surgimento do bullying. é essen. Nesse sentido. si mesma: o bullying é expressão de uma sociedade contra- cial que os professores contenham esse elemento central ditória e altamente hierarquizada. de artes. reflexões e comentários dos pro- tagonista e que. socioeconômico contraditório. Diante alunos. e seis de educação física. a delimitação da percep- que consigam perceber sua importância para a formação. aqui indicada. institucional ver outro nível de compreensão da violência escolar. conforme a potencialidade formal com a escola e à burocracia organizacional que per. principalmente quando se tem em questão a produção e Método a reprodução das diversas formas de violência na escola. ausência ou fragilidade da consciência. inclusive “ubiquidade do espírito alienado”. que. dois eram de matemática. objetivada nas ponderações diver­sos prejuízos decorrentes da burocratização do traba. nessas ponderações individualmente elaboradas e manifes- lência que reproduzem na relação com os alunos. empenhamo-nos em 2 O projeto do qual fazem parte os dados coligidos – “Violência esco- lar: discriminação. que permitiria a eles desenvol. que exige ajustamento da formação – a consciência –. No que diz respeito ao bullying. e propiciaria melhor consistência às propostas para o en- tantes e também vítimas das contradições da instituição frentamento e redução do bullying. São muitos os fatores que limitam a consciência. e analisar os elementos de consciência presentes os professores não podem ser responsabilizados pela vio. inclu­ e social. Limites da consciência de professores a respeito dos processos de produção e redução do bullying 47 o fortalecimento da racionalidade. las públicas municipais e de uma escola pública estadual. Portanto. de modo a permitir escolar e da sociedade opressiva. de sua impli­ os professores também permanecem subordinados aos di. na qual permanecerem aqueles diretamente vinculados à instituição escolar. pois ela tadas nas respostas às questões que lhes apresentamos. Não obstante. as quais determinam seu considerações mais elaboradas e críticas a respeito do en- âmbito de funcionamento. Para os propósitos deste artigo. sem desbar­barização. se torna possível que ela cumpra sua função de jetividade: a experiência e o conceito. sua importância para a formação cultural em um contexto O estudo de Lobato e Placco (2007) sobre as con. Para os autores. Apesar de compreendermos distintamente que bullying. que. privados do que seria essencial para a constituição da sub. cação na produção e na redução do bullying. relação burocratizada que os professores mantêm com seus segundo eles. meia todas as instituições sociais. Assim. reflexão. bem como de violência que se sustenta em tendências socialmente a potencialidade dos professores para produzir resistência à consolidadas e não pode ser superada somente a partir de sua propagação. estaria diretamente compro. Três deles lecionavam por- social. por vezes. Aprisionados à relação da reprodução da barbárie e. como autoconsciência um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido2 que vi- de suas contradições e como produção da consciência sava lhes garantir o anonimato. e somente poderá ser efe- a consciência de seu papel que lhes será permitido com. trelaçamento entre as dimensões individual. Três dessas escolas localizam-se na região maldosa brincadeira. possibilitando a resistência à barbárie (Adorno.

der a condição contraditória da consciência nos processos jeto. Crochík et al. por meio das quais sentados com outros obtidos com escolas privadas. portanto. buscando-se obter objetividade sem se causas. Optamos formas de agressão. os que são efetivamente objetivos. Compreendemos que. Concentramos a análise no conteúdo das respostas Respostas que expressaram consciência a dos professores – em suas ponderações e reflexões sobre respeito da produção e da redução do bullying os temas que lhes apresentamos –. Cintia Copit Freller.br/pusp . considerando-se seu enfraqueci- compreendidos em consonância com o positivismo e com mento objetivo e as possibilidades de que se afirme como a indústria cultural – “cuja objetividade é calculada pelos resistência diante das tendências regressivas determinadas sujeitos organizadores” (p. também são representantes e protago- por coletar os dados de nossa amostra somente em esco. respostas elaboradas para as questões apresentadas se re- o que é efetivamente objetivo. dessa forma. tituíssem um único processo. permitindo-nos vislumbrar. con.65 a 0. cuja organização favorece diversas Aplicada & Fundação João Pinheiro. ainda que português da escola C. sem negligenciar média-elevada a elevada (Programa das Nações Unidas a implicação dos professores que. Certamente. havendo. Apesar da participação nos diversos níveis de sua produção e enfren- grande variação dos padrões socioeconômicos. e de tuações em que ocorre. analisassem o bullying de maneira crítica. Como se optou por não gravá-las. 60) – são desqualificados como pela totalidade social. com outras questões e técnicas variadas. pretendemos que a análise e a exposição dos dados cons- frontando-os e averiguando suas especificidades. instaurada pela filosofia positivista. Dentre os elemen- tos teóricos que nos inspiraram para esse delineamento do 3o – respostas que não apresentaram indícios de método. 2008). por meio da reflexão sus. esse subjetivos demais. obje­tivo. seria desejável que novas respostas. intentamos apreen- convencio­nado e se colocam em relação direta com o ob. Conforme argumentou. em todos os casos. a possibilidade de metendo à sua responsabilização. 2012. negar a distância entre sujeito e objeto. bem como à da família e manifestarem a percepção que têm do bullying e de sua à do indivíduo. as quais leva- suas respostas com os elementos que julgaram mais re.scielo. o índice tamento. Elaboramos três categorias. Lucas Stefano de Lima Alves & Gabriel Katsumi Saito 48 norte da cidade e outras duas na região oeste. Conforme compreendemos e procu­ complexo processo cognitivo e político-social não seja re- ramos aplicar no método desta pesquisa o registro elabo. destaca-se a ponderação de Adorno (1951/1993) consciência a respeito da produção e do en- a respeito da inversão dos conceitos de subjetivo e de frentamento ao bullying. Vale observar que a determinação social do 48 Psicologia USP I www. 2014). anali­sado foi considerado também com base na apreensão mas consciência limitada a respeito de suas dos entrevistadores. investigações pudessem complementar os dados aqui apre. nistas diretos das instituições educacionais nas quais estão las públicas porque primamos por garantir uma amostra inseridos e a partir das quais formularam suas respectivas mais homogênea.Pedro Fernando da Silva. os juízos que dispensam o conhecimento Ao categorizar as respostas. re- levantes. Esperamos que. confirmaram nossa hipótese de que o entendimento amplo sem a percepção ou a consciência como categorias sobre e crítico a respeito da produção dessa forma de violência as quais os sujeitos devessem se manifestar diretamente. quando sociais contemporâneos. de tores individuais. 2014). sua subsequente interpretação teórica: batê-lo?” – fizeram parte de uma pesquisa mais extensa. o material coletado e fessores em relação ao combate ao bullying. per- mitindo-nos conhecer seus respectivos alcances e limites Análise e discussão dos dados (Crochík. com cada professor peito da produção e da redução do bullying. vam em conta o papel e a participação dos professores. todos os registros ocorreram por meio de anotações realizadas 2o – respostas que denotaram engajamento dos pro- pelos entrevistadores. dessa forma. pretendemos tudo. averiguando elementos que denotassem consciência crítica acerca da pro­dução Foram incluídas nesta primeira categoria: os profes- do bullying e das possibilidades de intervenção nas si­ sores de matemática da escola E. ou seja. As considerações nela expressadas não tenham sido formuladas perguntas que circunscreves. considerando fa- colas estão localizadas variou de 0. escolar se apresentou sempre acompanhado de propostas as questões a eles apresentadas permitiram-lhes elaborar bem estruturadas destinadas à sua redução. institucionais e sociais. As entrevistas 1o – respostas que expressaram consciência a res- foram realizadas nas próprias escolas. separadamente. de artes da escola B. antes.92. Instituto de Pesquisa Econômica sa mesma sociedade. e imediata (Antunes & Zuin. composto pela organização As duas questões analisadas neste artigo – “por que sintética do grande volume de material empírico coletado e o bullying ocorre?” e “o que é necessário fazer para com. duzido sob a suposição de que os elementos operacionais rado a partir das anotações dos pesquisadores constituiu seriam os únicos que possibilitariam sua descrição factual procedimento adequado ao confronto com o objeto de es. lacionam com as concepções expostas na introdução. além de serem parte des- para o Desenvolvimento. que nossas reflexões permitam considerar o modo como as citada pelas indispensáveis impressões dos pesquisadores. Esperávamos que as respostas mais consistentes de desenvolvimento humano dos distritos onde essas es.

Adorno destacou a confluência Criticou o uso meramente formal e burocrático de livros de entre o fracasso do processo educacional na cultura con. .”. Essa pos­ e de artes. dos positivos poderiam ser obtidos por meio da não desis- brecimento dos sujeitos. respostas. eles enfatizaram a importância Conforme indicaram. no recurso à fundamentais para a sua compreensão crítica. Constituindo-se como uma mediação professor e da direção da escola foi recorrente. denunciando que aceitar a violência como se fosse titucional contrário à propagação da barbárie (Adorno. entre outros meios. Sua temporânea e o fortalecimento da dupla hierarquia. tado por elas que esse ideário aparenta ser uma tendência Nas ponderações a respeito do enfrentamento a social originada da própria organização da sociedade: “o esse tipo de violência. o que condiz com o entendimento social a respeito da interdependência entre indivíduo e de Adorno (1959/1986) a respeito do potencial regressivo sociedade. o se expressa como hierarquia não oficial. Essas ela. isso se verifica em situações nas de ações favoráveis à reflexão e à consciência. e critica- quais os próprios docentes usam apelidos para se referirem ram intervenções como a imposição vertical de valores e aos alunos – o que. Os en- onipresente na história individual dos jovens em processo trevistados manifestaram preocupação com o desenvol- de formação. segundo compreendemos. . mencionaram que o recurso à propagados tanto pela família. tiva. 2010) indica se tratar de borações articulam um considerável conjunto de aspectos e um fenômeno marcado por evidente disparidade de forças. frágil ou em formas de vinculação e organização grupais Nas respostas das professoras de matemática e de que demarcam agressivamente os âmbitos do in-group e do português se destaca a relação do bullying com valores out-group. das possibilidades de elaboração de propostas e do engaja. que autoconsciência se manifestou também no entendimento 2017 I volume 28 I número 1 I 44-56 49 . pela figura do professor. Além disso. ao relacionar o bullying com o modo como participam do processo. a reflexão sobre a implicação do sistema se impõe”. registros. demonstraram à repro­dução de formas de relacionamento interpessoal possuir autoconsciência a respeito de seu papel diante das carac­terizadas pela intensa hostilidade. segundo os professores de matemática as que se limitam a “falar. Conforme sugeriram. é preciso ser persistente. calcada no uso bullying pode e deve ser enfrentado pela escola. relaciona-se de “quebrar a vida do menino no meio”. abarcando elementos que pode se manifestar. quanto pela escola. A esse respeito. O professor de artes da escola B destacou mente quer se impor. cam­ Esses profissionais consideram o contexto escolar panhas. As respostas desta categoria destacaram como característicos da totalidade social. assembleias e demais políticas de enfren­tamento como fator constitutivo do bullying. (1955/2004) como um processo socialmente determinado. representado ‑se com a necessidade de evitar a propagação da violência. especializada (Fante. o que reme- violentas e preconceituosas. A definição de bullying adotada pela literatura materializa nas relações sociais que ela fomenta. mera brincadeira ou banalidade cotidiana já é uma forma 1967/2000c. como diálogos constantes. conversas individuais. e acaba tendo um desempenho esco­ que os professores precisam ter consciência de seu poder lar baixo – o que. 1965/2000b) também foi enfatizada nessas de reafirmá-la. foi amplamente explorada por forças destrutivas como o ciado à violência que emana da estrutura da socie­dade e se fascismo. 1965/2000b). sendo nizam em grupo. Nessa perspec- Demonstraram perceber sua própria implicação nos acon. então. dimensões da produção do bullying. demonstrou preocupar­ aceitarem o sofrido processo educacional. para. Ações com a totalidade social opressiva (Adorno. Nesse sentido. 1955/2004). formar cidadãos. Limites da consciência de professores a respeito dos processos de produção e redução do bullying 49 bullying fundamentou o entendimento de que ele está asso. Ainda foi ressal. falar e falar . envio de bilhetes para os pais e suspensões. Ao desenvolverem tura crítica também foi observada na análise desenvolvida esse tipo de ponderação. . esses valores são da violência decorrente do modo como os alunos se orga- reproduzidos em diversas instâncias e instituições. na qual expressaram preocupação pela professora de português que. sobretudo. da socialização da pseudoformação. por meio te à regressão psíquica amplamente discutida por Adorno da violência física e emocional rotineiras. ao que os professores não podem encarar o bullying como se observar a crítica implícita na recusa de muitos alunos a fosse um comportamento normal. nega a identidade do outro. no apontamento de que não se pode Outro aspecto indicado nessas respostas foi o de desistir da proposta de que a escola seja um espaço para que o aluno que pratica essa forma de violência frequente. por meio de brincadeiras violência está relacionado à fragilidade do Eu. 2011. inclusive admitindo foram mencionadas como exemplos desse conjunto de que certas práticas dos professores poderiam reforçá-lo. Uma das professoras mencionou que resulta- pessoas não se reconhecem. brar de si mesmo uma posição de resistência às relações A necessidade de se estabelecer um clima ins- hostis. Ao afirmar da força física (Adorno. Plan. revela o empo. Apresentaram consciência de que se deve co. ser contínuo”. o bullying não vai existir”. boas relações. bem como diferença de força física individual para fins de coação. relacionou a incidência do bullying à qualidade das tecimentos da escola e também expressaram consciência relações interpessoais. na utilização da astúcia para humilhar e dominar o mais mento em intervenções que se oponham a ele. resultante da relação contraditória tência: “. pen- com a dupla hierarquia escolar: aquela que se estrutura sarem as relações violentas e as dinâmicas institucionais oficial­mente a partir do desempenho intelectual e a que instaladas: mesmo sustentado por determinações sociais. propostas. . como o egoísmo e o causas sociais do bullying a facilitação e potencialização individualismo. a ameaça destinada à exigência de adaptação vimento de um trabalho sistemático e amplo dirigido às corrobora com a reprodução de valores sociais nos quais as suas causas. Inclusive. concluiu que “com particularidades do magistério e dos desafios da formação.

principalmente. e representam elabora. o medo sos importantes para seu enfrentamento. acerca 50 Psicologia USP I www. de conteúdos psicológicos. Lucas Stefano de Lima Alves & Gabriel Katsumi Saito 50 de que. ela sequer pode uma compreensão fragmentada a respeito das causas do ser enfrentada. tornando-se um elemento blindado e. além de se contrapor à exclusão do aluno. com dimensões mais a fragilidade dos alunos vítimas dessa violência: “alguns difusas como a vida cotidiana. com tudo aquilo que ções que explicaram suas causas por meio de aspectos pon. pois compreende a mar sua superioridade por meio de provocações aos que limitação da consciência acerca da produção do bullying. compreensão parcial do bullying. elaboração ocorra. o professor de ciências também indicou haver O caráter aparentemente contraditório desta catego. produzindo-a a partir de sua própria estrutura. centradas em uma bullying. nada aos processos sociais contraditórios. manifestada. mas. simultaneamente. Se.Pedro Fernando da Silva. Da mes- tuais que o reduzem a efeito de sua determinação direta. sem relacioná-lo com produz. dentre as ponderações a sociedade se converteu na principal força propulsora da dos entrevistados. contudo. é necessário que sejam expressos para que sua extrapola o âmbito de sua manifestação imediata. ciência acerca dos limites impostos pela vida social. por ria. Quando se trata de processos sociais nos quais efetivá-las – ajudou-nos a distinguir. o professor de artes da mesma escola a comunidade e as disposições psíquicas individuais são delimitou como causas do bullying a introversão. Por exemplo: a família. além de posicionamentos e apreciações que res. não somente para o os mais frágeis. mas rem forte importância à imaturidade dos alunos. o medo e referidas sem a devida articulação. que buscam. bullying. em indicar a relação dessas disposições psíquicas com o Ainda que as ações pontuais. em nenhuma das tamente. por exemplo. ocorram trans- O modo como cada entrevistado pôde incluir a si formações substanciais na estrutura da sociedade que o mesmo ou o corpo docente do qual é representante nessas estimula como uma espécie de ethos existencial: a compe- propostas e intervenções destinadas ao enfrentamento e à titividade. sem a consciên. em contraste com a participação em intervenções pontuais esses elementos configuram uma explicação parcial e pre- destinadas ao seu enfrentamento. conjun. Pode-se dizer que ele acertou do que poderia ser feito para efetivamente reduzi-lo. pelo confronto entre a meira categoria. rar o bullying sem que. Nessa linha. É preciso considerar que não há como efetivamente supe- conhecer a importância do professor. não o suficientemente a escola como um dos elementos respon- reduziram a um aspecto isolado ou desvinculado do âmbito sáveis pela produção desse tipo de violência. a virilidade. institucional e do contexto social e histórico. dem das agressões”. respeito da importância do professor no cotidiano escolar e torna-se imprescindível que intervenções voltadas ao seu outras que o remetiam a uma inserção alienada no processo enfrentamento expressem um nível adequado de autocons- formativo.br/pusp . Os professores de educação física e de ciências da escola A apresentaram considerações pouco consistentes Respostas que denotaram engajamento a respeito das causas do bullying. A resposta do caracterizadas pela ausência de apreciação crítica dos professor de educação física foi emblemática: “temos difi­ diver­sos fatores que o constituem. não se assemelha a minha própria identidade”. indicam uma percepção do bullying uma categoria caracterizada precisamente pela ausência condizente com concepções deterministas. na imaturidade e mem perspectivas de entendimento acerca do bullying na insegurança em relação à vida escolar. Atribui-os às vítimas como elemen- que reduz o entendimento acerca do que produz o bullying tos explicativos desarticulados do contexto social que os a apenas parte do que o determina. conforme foi indicado por Adorno (1967/2000c). Na medida em da consciência gerou grande dificuldade para expormos o que não reconhecem que a fragilidade do Eu está relacio- que há de comum em respostas que expressam. tratar o tema para além reconhecimento dessa importância. a cultura ou a totalidade alunos são quietos. possam constituir recur. mas errou em não as relacionar com a vida social. No caso das respostas classificadas nesta pri. aquelas que apresentavam consciência a violência. e a fragilidade são objetivos e decorrem das condições de cia de que a erradicação das diversas formas de violência existência. dificil. “grande insegurança” nos agressores. se destacou como esse motivo “constitucional” de sua personalidade. justa­mente. cabe re. requer cons- mente poderão constituir avanços na luta por sua redução. a coesão grupal.scielo. fechados. introvertidos e não se defen- social. na dificul- As respostas classificadas nesta categoria expri. ciência. composta por 11 das 17 entrevistas. Essa característica os mantém nesta categoria por. situações e intensificação da violência. indicaram consciência limitada a respeito de suas causas que a produção do bullying se relaciona a uma formação psíquica precária. ma forma. pelos alunos a quem é imputada. favorável à ponsabilizam determinadas causas – atores. justificando a hierarquia social por meio correto entendimento de suas causas. supõem serem mais frágeis. drado pela dominação social. Cintia Copit Freller. O fato de se tratar de tensamente unívoca. Essa elaboração. Mesmo que nenhuma de uma perspectiva repressiva. Todavia. culdade em conviver com o diferente. afir- dado central para a nossa discussão. assim como também a necessidade de submeter outros fatores igualmente importantes. apresentaram indícios preciosos de consciência a entrevistas desta categoria os professores reconheceram respeito da produção e das causas desse fenômeno. instituições – de forma isolada. sobretudo por atribuí- em relação ao combate ao bullying. calcada no interesse engen- delas realizasse plenamente a consciência crítica. por isso. dade de convivência com o diferente. inclusive. pois somente ela permitirá. constatamos que houve fortes exemplos do produção e o controle da violência. a valorização da redução do bullying – como parte da força necessária para força etc. Apesar de serem importantes.

família não cumpre o seu papel. da escola B destacaram aspectos importantes. abrir canais adequados para comunicação dos senvolver estratégias e programas escolares de prevenção problemas e incentivar agremiação estudantil –. acham engraçado”. mesmo que. bullying. são os menos ajustados a tais modelos e padrões que comu- ria. conduz à integração irrefletida que. acaba por acentuar o preconceito taram. contudo. com isso. eles não articularam as dimensões social e indi- cossociais.”. aqui. Segundo o professor de artes. Destarte. agregando. destaca-se a consideração de que esses elementos português e de educação física. já presenciaram chacinas e linchamentos. atribuíram à família. a interpretam de modo mecanicista. porém parecem tê-los abstraído do contexto vidual. se agredindo. Um exemplo disso é a observação do interpessoais. pois destacou consistentes ou atitudes bem consolidadas contra a violên. bem como pelo “não reconhecimento Notamos nas respostas dos professores de portu- do lado positivo da diferença”. dinâmicas e campanhas. a formação inadequada de valores no âmbito da já existente. chamar os pais. Não obstante. cia que emana da sociedade. É possível que sua adesão a bem-sucedidas” e. Essa referência imprecisa guês. haver estratégias de enfrentamento coletivas e individuais Os professores de artes da escola C e de português nas quais participam muitos docentes. o que boradas. parte significativa deles encara-o como brinca- duzem – talvez possa ser convertida em motivação para o deira: “[os alunos] ficam se xingando. mas professores envolvidos fortuitamente em situações de en. revelando a não à política escolar. mar os pais à escola nos casos mais graves. que “as novelas e propagandas mostram pessoas bonitas. mencionaram a propagação das tensões presentes na vocam por provocar”. tendem a expressar mente se convertem em vítimas do bullying. levar as situações conflituosas para a diretoria e de cha- mar. A professora de português exemplifica bem Ao citar as propostas de enfrentamento ao bullying. permitem acompanhar e intervir nas si- trabalhar valores com os alunos e valorizar bons relacio. bullying. pois em casa não conseguem”. artes e educação física I da escola D percepções bas- ao preconceito e à alteridade compreende um momento tante semelhantes a respeito das causas do bullying. Além do destaque à violência advinda da fa- professor de matemática de que os alunos agressores “pro. podendo acirrar ainda mais as dificuldades família desemboca na escola e se expressa nos conflitos de relacionamento. bullying. Isso com isso. também. em especial nestas três entrevistas. etc. pouco articuladas institucionalmente Apesar das limitações identificadas. é alheias à consciência: desde a reprodução irrefletida do gordo etc. Eles importante da percepção do bullying. Ambas as respostas frentamento ao bullying – mais do que os que apenas se concordaram quanto ao modo como os alunos encaram o mostraram conscientes dos complexos fatores que o pro. Se tomadas isoladamente. tes à padronização. mília. conforme disseram os professores de sores. olhos. a respeito da fragilidade de quem não con. rança e pelo medo”. respectivamente: “Como a configuram obstáculos intransponíveis. interessantes e alheias a reflexões consistentes sobre a participação da propostas de intervenção foram mencionadas – promo. e trazem apontaram a necessidade de conversar com os alunos. da escola ou sustentadas pelo engajamento de um pequeno A professora de artes observou que “cabelo. indicando o fato de que intervenção apresentadas pelos professores desta catego. sobra para a escola edu- riam ser confrontados por meio do contato forçado com car”. indicando em longo prazo. e. Essas propos- segue reagir porque está acossado e teve seus mecanismos tas constituem intervenções importantes. constituindo novas se afastam. reações imediatas. A professora interesses pouco fundamentados em concepções teóricas de português ratificou esse entendimento. agressões verbais e as recorrentes brincadeiras humilhan- sição à ação cega. participantes mobilizados por motivos bastante remete à relação entre os padrões socialmente valorizados diversos. as diversas formas de e o nível de ajustamento exigido. Ou seja. o instrumental subjacente à padronização. em mui. Conforme argumen- ao ignorar os conflitos. dentes grupo de professores mais sensíveis à causa. comunidade. Nas ponderações apresentadas por esses profes. desconsiderando as contradições da racionalidade social que os produziu. mas não de- namentos. e destacaram a amálgama de impressões parciais e de projeções não ela. tuações em que a violência já se consumou. Não conhecimento e reflexão a seu respeito. essa perspectiva: “muitos alunos vivem em uma zona de esses dois professores revelaram importantes semelhanças: tráfico.: tudo que é diferente contribui para ser vítima”. os alunos “passam a ter esse programas de combate à violência compreenda motivações padrão e a agredir ou excluir quem tem cabelo ‘ruim’. Essas considerações reconhecem a relação en- rechaço moral à violência até a adesão convencionalista tre a dimensão social e o cotidiano escolar. o processo referiram-se a uma suposta carência emocional comum aos perceptivo permanece incompleto: é substituído por um alunos envolvidos nesse tipo de violência. sejam burocraticamente conduzidas pela direção tação automática dos valores socialmente estabelecidos. família e da escola na produção e no enfrentamento ao ver conversas. uma maior frequência de aleatoriedade das posições de agressores e de vítimas. de essa violência de casa para a escola”. e “a escola é uma fuga. fragilidade dos valores morais dos jovens agressores. 2017 I volume 28 I número 1 I 44-56 51 . a qual fundamen- preconceito é o “grande mal responsável pela insegu­ ta os comportamentos individuais regressivos. mas limitadas a de defesa debilitados pelas pressões adaptativas. os alunos tentam ‘aparecer’ o diferente. Limites da consciência de professores a respeito dos processos de produção e redução do bullying 51 da insegurança de quem necessita agredir para se autoafir. como a acei- tos casos. Apesar de associarem as possibilidades de ampliação da consciência e de contrapo. elemento importante para a discussão Os professores de artes e de matemática da escola sobre o quanto a estereotipia pode fomentar e encobrir o E admitiram que o bullying é produzido por fatores psi. mas que pode.

Ademais. carac- e a escola. por exemplo. quer em relação às propostas para sua redução. cresce. Ao se referir às situações de bullying como propagadoras da violência. A profes- gem-na à determinação mecanicista e recaem na afirma. por negar o sujeito. dade como uma totalidade homogênea que funciona in- sas. sublinharam corretamente a repetição. de conflitos”. Ao que nos parece. revestidas pela somente em evidência devido a uma “supervalorização do racionalidade instrumental. no Respostas que não apresentaram indícios interior da escola. qualificados como exímios “administradores na transmissão de valores e princípios. Entretanto. protegido da interferência das sociais ou sobre a acentuada desigualdade econômica veri- contradições sociais – ainda que seja evidente que é nela ficada no Brasil. da competitividade e das muitas formas de zar a violência. Sua po. ela acaba por banali- soras da frieza. Todavia. 1967/2000c). mas. Embora vés de totalidade social. A escola apa. refletir a respeito de suas causas e a necessidade de pen- da no interior da família e em outros âmbitos da vida social sar ações para sua redução. torna-se um provocador” –. sem influência sobre os jovens em formação. suas famílias distorcida: negando radicalmente a autoconsciência. como dado positivo. Cintia Copit Freller. a sociedade. ocorre na escola equipara-se à indiferença outrora mobili- receu apartada do todo social. contudo. salvaguardando que o bullying é algo “natural nas relações” interpessoais. A referência à violência sofri. as respostas de três professores denotaram terística mecânica. prin. sora de educação física da escola C. esses apontamentos dependentemente da ação dos indivíduos que a compõem nos pareceram insuficientes para possibilitar que os alunos poderia suscitar o desvelamento dos mecanismos de deter- expressassem suas angústias e temores. As respostas dadas pelos professores desta categoria rimentadas no passado. alienação e de resignação diante do recrudescimento da sabilização do indivíduo já debilitado pelo processo social.br/pusp . seja por ter sido negligencia. ao in. negligenciados como parte de suas cau. porém inverso. pouco atentas a professora de educação física da escola B sugeriu que aos fatores que sequer percebiam como relacionados ao “a sociedade é culpada por tudo”. De modo igualmente rígido. indicou ção cega de que violência gera violência. dividuais. venção pedagógica para superá-lo. ainda que sejam forças propul. A relação subjacente à determinação por eles identificada assumiu uma carac. as instituições sociais e educacionais que. que vê a competitividade selvagem. a frieza desmesurada e a apá. pouco esclarecedora dos movimentos baixa consciência: quer em relação às causas do bullying contraditórios da vida social. os conflitos como derivações imediatas de interesses in- tica reificação do outro. foi tomada como dado estático da esse tipo de posicionamento tenha sido pouco frequente. zada pelo fascismo (Adorno. e elaborassem seus minação social. sugeriu que o bullying seria caracteri­zado que as dinâmicas próprias da sociedade se reproduzem e por uma perseguição de pobres a ricos: “o pobre acha que são assimiladas como formas adequadas de vida social. Essa inadvertida distorção regressão da instituição escolar à sua função adaptativa fa. formas interessantes de enfrentamento ao bullying. Segundo seu esquema – “Quando revelaram posicionamento acrítico em relação ao bullying. seja por ter sido apresentar quaisquer considerações sobre as contradições tratada como lugar neutro. Dispensa completamente a necessidade de subjugação dos mais frágeis.Pedro Fernando da Silva. vida privada dos inúmeros desgraçados que devem repetir sua incidência entre profissionais responsáveis pela for- infinitamente os infortúnios de sua classe social: o fato so. Mesmo com notória contribuição. o agressor reproduz Demonstraram desconhecimento a respeito de seu caráter automaticamente a violência sofrida. mação da consciência configura uma situação drástica de cial é convocado a legitimar. restrin. as quais implicavam no trabalho em equipe e ainda assim. Ele caracte. desvinculando-as das forças sociais objetivas. noção de sociedade que define todos os âmbitos da vida 52 Psicologia USP I www. uma visão estereotipada do processo formativo. rizou o bullying como uma repetição das agressões expe. Com isso. apesar de terem ção da violência escolar. como especialistas alienados da ensaiado propostas de enfrentamento de longo prazo mais instituição e da sociedade na qual estão inseridos. a alienação durante o processo de formação não foi articulada com a mani­festada por educadores em relação à violência que instituição escolar ou com a totalidade social. da como instituição formativa. ativeram-se. ainda que essas instituições não sejam tratadas terizou-os como agentes externos ao processo de produ- como partes da totalidade social. A referência à socie­ bullying. A tem direito de roubar o rico”. da violência advinda da comunidade ou de consciência a respeito da produção e do de outras esferas da vida social. Por fim. tencialidade deve ser reconhecida na enunciada necessida. o nexo entre enfrentamento ao bullying escola e sociedade não foi analisado. violência. a percepção que tem dos professores também se mostrou de de estabelecer mediações entre os jovens. cipalmente. Essas considerações reconhecem que a A nosso ver. elege como vítima. a respon.scielo. elaboradas. esse nível de alienação se caracteriza como violência tem origem nas relações sociais. abstraídos da dinâmica social. contudo. nas intervenções emergenciais. Lucas Stefano de Lima Alves & Gabriel Katsumi Saito 52 Ademais. quiçá de suas determinações sociais e históricas. replicando-a a quem violento. das determinações sociais reforça uma representação em- vorece a internalização de valores sociais destrutivos como pobrecida da luta de classes como imediatez cega. conserva uma conflitos sem precisar recorrer à violência. e que con­cede As considerações desses professores representam às instituições mediadoras uma pretensa neutralidade. portanto. dotada de grande poder de O professor de educação física II da escola D. A fraca consciência com relação às causas e às Algo semelhante foi observado nas considerações formas de enfrentamento ao bullying desqualifica a inter- do professor de educação física da escola E. pouco são percebidas como fenômeno”. algo natural às relações interpessoais.

 128). ao à análise do fenômeno. que seria melhor “deixar quie. suplanta qualquer intento da consciência. reproduzidas pelos constelação de fatores implicados na produção do bullying indivíduos nas organizações e instituições nas quais convi. Em outro momento da entrevista. tam. consente com o cultivo da severidade e se cala diante da fessores. então. é oportuno lembrar fessores que não apresentaram consciência a respeito das a crítica de Adorno (1967/2000c) à educação baseada na causas do bullying. embora objetivas que ora o engendram. Essa confirmação se deu na primeira e na terceira ção da vítima que vem à tona: como se a fragilidade. Na terceira. e as reações psicosso- ciais dos indivíduos e grupos que protagonizam as situa. Tanto paradoxal: como é possível haver engajamento ou alusão a as vítimas quanto os agressores parecem representar a propostas estruturadas de enfrentamento ao bullying sem 2017 I volume 28 I número 1 I 44-56 53 . caberia. ficam cumpri­mento formal da lei. exige que as pessoas se adaptem a relações frias e inten- tinho”. Contraditoriamente. por freram. o faz. essa razão. mesmo o bullying é uma forma de violência. Com efeito. que expliquem percebiam a inevitável participação da escola e dos profes- sobre a vida cidadã. as quais concordam para seu respectivo enfrentamento. pois destacar conflitos desse tipo somente pioraria samente competitivas. mediante a valorização do diante de uma realidade na qual não se reconhecem. Diante disso. destaca-se a posição Em alguns casos. a estes enturmarem-se mento desse tipo de violência. avessas à cons. às propostas para seu enfrentamento e subsequente redu- nos agressores tratem os novos colegas como amigos. dos processos de produção e de redução do bullying e. entre as dimensões individual. nem com “policial. não fosse uma in. Já os para se garantir sua redução. assegurando. Ao enfatizar que alguns alunos “mentem principalmente. inci. a qual que nada deveria ser feito. indicando que. mas se engajaram no seu enfrentamen- severidade: “Quem é severo consigo mesmo adquire o di. Suas respostas delinearam uma situação inicialmente reito de ser severo também com os outros” (p. a garantir uma consciência crítica a respei- que apanham na escola”. obje­tivamente estabelecidas: o bullying é expressão de uma a professora de educação física da escola C argumentou sociedade contraditória e altamente hierarquizada. tamento: nas palestras mencionadas. algumas das respostas desta categoria cida. referem-se a ao vislumbrar formas de resistência à violência que assola seus supostos determinantes com rigidez. in. e palestras para os pais” ou “mais sores nos processos que contribuem para a sua ocorrência. da autoconsciência tão necessária aos pro. bem como pouco interesse e baixa bém se mostraram alheios à neces­sidade de seu enfren. bombeiro. Além dessas duas tendências antinômicas. to. compreensão atribuída à escola em relação às causas do bullying. cabe tituições tradicionalmente caracterizadas por utilizarem refletir acerca da segunda categoria. composta pelos pro- a gramática do poder. de modo a permitir considerações mais elaboradas e sistiu na crítica às vítimas. A análise das entrevistas nos permitiu compreen- ções de bullying. Resignados cem. pois substitui a intervenção educativa pelo algo grave a que é necessário combater. sucumbem a explicações ideológicas. com isso. concretização da funesta eficiência de uma educação que principalmente. tam a violência. Confirmamos a hipótese de que uma consciência esclare- Além disso. o bullying sequer foi reconhecido como de espectador. por apresentar uma ampla visão da parece seduzir o agressor para o exercício da violência constelação de fatores determinantes do bullying e propos- (Horkheimer & Adorno. com isso. é a responsabiliza. as instituições que regulam o Considerações finais cotidiano e medeiam a vida social. ção. empobrecida e parcial. dotadas de potencial crítico a respeito do entrelaçamento elas chegam à escola “querendo se achar” e. ciência crítica. punição”. consistência mesmo tempo que considerou a necessidade de que os alu. porém. Ao não admitirem que o bullying ocorre der a relação entre as concepções dos professores acerca da em relações socialmente determinadas. correspondente a uma percepção ampla e obje- cou que se muitos alunos comumente agridem o “fraco” e tiva da constelação de fatores relacionados ao desenvolvi- o “novo” na escola. no recurso a ins. cada vez mais distantes da possibilidade de desvelar os ne- xos entre a totalidade social. e. frequentemente. Coerentemente com a pretensa neutralidade caracterizando ausência de autoconsciência. que categorias. participação em ações relacionadas ao seu enfrentamento. institucional e social. ela admitiu superado mediante a transformação radical das condições que algum trabalho devesse ser desenvolvido. conselho tutelar. provocando uma a experiência educativa ou de punição àqueles que a exer- nítida paralisação das ações dos professores. 1947/1985). a professora da escola B também to da importância e dos limites das ações de enfrentamen- recaiu nesse mesmo mecanismo explicativo reducionista. Limites da consciência de professores a respeito dos processos de produção e redução do bullying 53 abstratamente. treinamento baseado na rigidez da lei. e que. Na primeira. A professora de educação física da escola C indi. indi­ferentemente. somente com a vítima. e somente poderá ser efetivamente a situação. objetivada nas ponderações dos professores a respeito se consistiram em culpar as vítimas pela violência que so. propiciaria substancialidade ou revidarem quando provocados. por razão inversa: professores de educação física da escola D e B sugeriram por apresentar posicionamentos alienados que não levavam propostas caracterizadas pelo rigor disciplinar: palestras em conta os diversos fatores ligados às suas causas. Ambas as respostas esboçam percepções de que brutalidade que recai sobre os mais frágeis. e. rando essa complexidade sem negligenciar as dificuldades guir tudo o que lhe recorde sua própria fragilidade. e a consistência das propostas por eles elaboradas ou com vem. tas que admitiam a necessidade de confrontá-lo conside- venção da dominação que impulsiona o agressor a perse. to de um fenômeno que se sustenta em tendências sociais Com relação às propostas de redução do bullying.

o elemento de consciência lização de uma “resposta padrão” pobre em reflexão e expresso nas ponderações dos professores sobre as cau. que. A adesão ou. e pode. nomos. o qual. impostas como compromisso externo e não refletido consciência crítica e aos que possuem conhecimentos só- (Adorno. poder-se-ia indicar quão proveitosos podem ser os de brutalidade que reproduzem a barbárie inaugurada por espaços que promovem discussão. as políticas públicas poderão esboçar vela os limites da instrumentalização do conhecimento. mação continuada. a esperança de que a escola. tomar consciência de que também propaga a barbárie a A analogia com a situação criticada por Adorno partir de si mesma. políticas de enfrentamento ao bullying. é Quer as motivações morais. A segunda categoria se destacou por ser a mais nu. e necessário para reduzi-lo. carentes de cons- tentemente compreendidos? ciência acerca dos fatores que o produzem. quer motivações que xão. se destaca como um dos elementos centrais à luta contra tados sabiam responder prontamente às questões que lhes a barbárie: ao reconhecerem a importância da dimensão fez. a pesquisa representou-lhes fatores determinantes do bullying. destaca-se negligenciar a importância dos posicionamentos enuncia- em relação a outros tipos de motivação para a ação. 1967/2000c). educadores. e com a uti- Conforme entendemos. identificadas nas ações uma sociedade violenta. Essas motivações. a formação cultural dos professores ao cargo de professor de ensino superior por ele entrevis. pode favo- crítica em manifestações políticas embebecidas na ânsia recer a to­mada de consciência. o posicionamentos mais efetivos de redução do bullying. inclusive com propostas consistentes de for- não conseguiam refletir sobre eles. aquelas que asseguram lidos a respeito do bullying – apontar os limites das inter- a reprodução do que está convencionalmente estabelecido venções cegas que poderiam validar atitudes superficiais por determinados grupos ou setores da vida social. impulsos suscitados pela sociedade.br/pusp . We identified three categories of answers: those that express critical consciousness of its construction and reduction.Pedro Fernando da Silva. lembram a pseudoatividade ferência a programas de enfrentamento ao bullying podem criticada por Adorno (1969/1995a) em relação ao ativis. se elevar ao plano conceitual. A intervenção em casos da transformação social. que mantém a violên- ziam a relações causais pouco articuladas com o contexto cia como um regulador das relações sociais. de modo que a consciência assim propagada para a redução do bullying. Não cabe sas do bullying. um despertar para a reflexão. we analyzed seventeen interviews with teachers of five public schools from the city of São Paulo regarding the causes of bullying and what should be done to reduce it. Poder-se-ia indagar se e em que medida esse parte da conscientização dos jovens em formação sob nos- tipo de posicionamento intuitivo contribui efetivamente sa influência. que atendem à necessidade de fundamental. mediante intervenções adequadas. fortaleceríamos a resistência aos relacionava com propostas de enfrentamento que as redu. em consonância com o ideário de oposição contra a barbárie. também àqueles que já desenvolveram a nal. embora não conseguissem relacionar tais conteúdos da consciência e ao articularem-na com a formação de com implicações teóricas e contextos históricos. Lucas Stefano de Lima Alves & Gabriel Katsumi Saito 54 que os fatores que o produzem ou favorecem sejam consis. de violência. Portanto. cabe à visem ao alinhamento às pressões de natureza institucio. corrói justamente aquilo que é necessário conservando. Limits of teachers’ consciousness about processes of production and reduction of bullying Abstract: Based on the Critical Theory of Society. com isso. ao à reflexão espontânea. convocássemos sava alinhamento com a política da escola e reproduzia-na para nós. mas avessas à reflexão teórica. ainda. Nesse sentido. Vale mencionar que alguns professores indagados merosa e por conter respostas muito diversas. mediante uma consciência esclarecida.scielo. so. reflexão aos profissionais do ensino. as dos pelos professores da segunda categoria. se associada a um processo de refle- ajustamento ao politicamente correto. pois eles re- quais historicamente fundamentaram formas irrefletidas pudiaram a violência escolar. assuma o objetivo de desbarbarizar a nos possibilita pontuar a semelhança com a adesão a humanidade. professores. posicionando-se contra a propagação de formas Assim. a responsabilidade pela formação sem refletir. Parte delas expres. ou seja. Nesse sentido. mesmo nas contradições aqui sublinhadas. compor e fortalecer um clima cultural contrário à barbá- mo cego que se colocou como sucedâneo da consciência rie. que pouco contribui para que se resista a ele. pois essa indisposição que possibilite aos professores agirem como sujeitos autô­ poderia favorecer a atitude crítica necessária à formação. além dis- social e com a dimensão institucional. O que nos sobre as causas do bullying revelaram nunca haver pensa- possibilitou agrupá-las foi a visão restrita em relação aos do no assunto. Se. those that indicate engagement regarding 54 Psicologia USP I www. Essa asseveração des. poderia potencializar a autonomia necessária à redução do Adorno (1962/2000a) descreveu como muitos candidatos bullying. e isso não é irrelevante em de ativismo. teoria – portanto. Cintia Copit Freller. Diante disso. segundo ele. apropriação teórica e Auschwitz. Observamos que a au. ou. se fortalecêssemos sência de considerações que denotassem consciência se os espaços de reflexão. nossa autoconscientização tornar-se-ia à violência. todas ou induzir ao conformismo e destacar a potencialidade dispensam o desenvolvimento de uma consciência crítica presente no repúdio à violência. a re- da maioria dos entrevistados. simplesmente. Em A filosofia e os professores.

Limites de la conscience de professeurs au sujet des processus de production et de réduction du bullying Résumé: Sous l’orientation de la Théorie Critique de la Société. y que demonstram consciencia restricta en ambos los casos. (2004). (2000c). W. Sobre la relación entre sociología y Ruschel. W. 181-201). SP: Paz e Terra. Sociológica (V. (Trabalho Adorno. (1993). L. Comme la conscience fragilisée a ressorti dans la plupart des cas. S. Tabus acerca do magistério. 2a ed. Bicca. São Paulo. and those that present limited consciousness in both cases. (Trabalho original publicado em 1969) ed. on a conclu que l’amplification des actions destinées à la formation conceptuelle la fortifierait avec les professionnels qui se proposent d’affronter ce type de violence. escuela. whether through direct interventions. T. pp.. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. (2014). SP: Paz e Terra. Palavras e sinais: modelos críticos 2 (M. T. T.). we concluded that amplifying actions intended to provide conceptual formation could strengthen it more than professionals who confront this form of violence. but restricted consciousness of its causes. T. profesores. through further research on the subject. W. Madrid. Notas marginais sobre teoria e práxis. (Trabalho Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada & Fundação original publicado em 1962) João Pinheiro. 97-117). que denotan la participación en relación a su combate. teachers. Adorno. São Paulo. psicología. pp. Since the weakened consciousness stood out in most cases. school. Escritos sociológicos I. Adorno. RJ: Adorno. L. Horkheimer. T. (Trabalho original publicado em 1959) original publicado em 1965) Adorno. (2000a). São Paulo. (1995b). (1986). (2000d). 202-229). bullying. pp. original publicado em 1967) Adorno. pp. Adorno. Referências Adorno. In T. école.. Educação e emancipação (W. SP: Adorno. São Paulo: Paz e Terra. Ruiz. des réponses qui présentent une conscience restreinte sous les deux rapports. Educação – para quê? In T. Mots-clés: theorie critique. Petrópolis.. W. pp. trad. Adorno & M. Teoría de la seudocultura. W. soit par la proposition de politiques publiques. consciousness. bullying. Educação após Auschwitz. Huschel. trad. trad. da vida danificada (L. W. (Trabalho 2a ed. 51-74). W. 39-78). W. pp. 2a Ática. Maar. Educação e emancipação (W. Límites de la conciencia de los profesores acerca de los procesos de producción y reducción del bullying Resumen: Orientados por la Teoría Crítica de la Sociedad. W. pp. et. T. Maar. 139-154). W. W. Maar. finalement. E. Palabras clave: teoría crítica. Maar. W. H. soit par le développement de recherches.. España: Taurus. G. (Trabalho original publicado em 1951) ed. W. (2000b). or through the proposal of public policies. professeurs. In T. Educação e emancipação (W. In T. In T. Adorno. conciencia.. bullying. Educação e emancipação (W. São Paulo. 2 (M. España: Akal. analizamos el contenido de entrevistas con 17 profesores de cinco escuelas públicas de São Paulo acerca de lo que produce y lo que se debe hacer para reducir el bullying. W.. trad. In T. L. Identificamos tres categorías de respuestas: que expresan conciencia crítica sobre su producción y reducción. W. 2a Vozes.. trad. de Zavala. T. 175-199)... W. Adorno. SP: Paz e Terra. Minima Moralia: reflexões a partir Adorno. on a analysé le contenu d’entretiens avec 17 professeurs de cinq écoles publiques de la ville de São Paulo au sujet de ce qui produit le bullying et de ce qui doit être fait pour le réduire. sea a través de la intervención directa. Adorno. llegamos a la conclusión que ampliar las acciones destinadas a la formación conceptual reforzaría junto a los profesionales que tengan la intención de hacer frente a este tipo de violencia. pero limitada conciencia acerca de sus causas. (Trabalho Adorno. del desarrollo de las pesquisas o proposición de políticas públicas. Limites da consciência de professores a respeito dos processos de produção e redução do bullying 55 its combat. Keywords: Critical Theory. mais une conscience restreinte en ce qui concerne ses causes .. Sobre sujeito e objeto. (Trabalho original publicado em 1969) Obra completa 8 (A. trad. Petrópolis. trad. Palavras e sinais: modelos críticos Adorno. Madrid. trad. T.. pp.. In T. On a identifié trois catégories de réponses : des réponses qui expriment une conscience critique à l’égard de sa production et de sa réduction . 119-138). W. RJ: Vozes. A filosofia e os professores. Una vez que la conciencia debilitada se destacó en la mayoría de los casos. L. soit par l’intervention directe. trad. conscience. H. des réponses qui témoignent un engagement pour le combat contre le bullying. original publicado em 1967) In T. (Trabalho original publicado em 1955) Adorno. T. Atlas do desenvolvimento humano 2017 I volume 28 I número 1 I 44-56 55 . (1995a).

Psicologia da educação. Silva.. (2007). (1985). L. & Adorno. (2010). DF: Horkheimer. 73-90. L. Cabral. Acta Scientiarum. Dialética do PNUD.pdf associados ao bullying.pdf Crochík. S. Campinas. & Placco. C. Lucas Stefano de Lima Alves & Gabriel Katsumi Saito 56 nas regiões metropolitanas brasileiras. de http://periodicos. (2008).scielo.). Horkheimer. 33-42.uem..scielo. Oliveira. SP: Cultrix. Bazon. T. S.. L. RJ: Jorge Zahar.. & Zuin. (2012). R. Freller. & Dalenogare. (24). Rio de Janeiro. bullying. C. J. G. 121-137. 36(1).org. A. Bullying na sala de aula: percepção e intervenção de concepções e propostas de gestores escolares sobre o de professores. Do bullying (Trabalho original publicado em 1947) ao preconceito: os desafios da barbárie à educação. Carrenho. S. Brasília.pdf biblioteca1.bvsalud. 20(1).bvsalud. (2014). (2011). de download/publication/ Almeida. Lobato. Revista Psicologia Política. Temas básicos Recebido: 27/08/2015 da sociologia (A. Recuperado de professores sobre questões relacionadas à violência na http://www. V.. S. Plan.br/2013/pt/ esclarecimento: fragmentos filosóficos (G. trad.). P. C.br/sites/100/127/documentos/ org/pdf/rpp/v12n24/v12n24a03.php/ActaSciEduc/ org/pdf/arbp/v65n1/v65n1a09.. 12(24). Recuperado Crochík. V.br/pusp .org/pdf/psie/n24/v24a06. W. A.. Alves. J. C. W. Recuperado 65(1). Fatores psicológicos e sociais de http://pepsic. Revisado: 28/01/2016 (Trabalho original publicado em 1956) Aprovado: 03/03/2016 56 Psicologia USP I www. J. M. Bullying escolar no Brasil: relatório final. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz (6a ed. & Adorno. 115-127.. V.br/ojs/index.bvsalud. D. Recuperado de http://atlasbrasil. Cintia Copit Freller.).ucb. (1978). São Paulo. A. trad. F. SP: Verus. M. W. M. T. Arquivos brasileiros de psicologia. A. L. Recuperado de http://pepsic.Pedro Fernando da Silva.br/pdf/psoc/v20n1/a04v20n1. S. L. Concepções de Psicologia e & Sociedade.pdf article/view/21940 Fante. C. M. Análise (2013). & Cecilio. N.pdf escola. Silva. Recuperado de www. Recuperado de http://pepsic. A. Antunes. 211-229.