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INDÍCIOS DE AUTORIA E MARCAS IDENTITÁRIAS

EM TEXTOS NOTA MIL DO EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO (ENEM) 

Maristela Rabaiolli
Valéria Brisolara

RESUMO: Desde 1998, ano de sua primeira versão, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem se
consolidado como um dos principais instrumentos não só de avaliação da educação básica, como também de
ingresso à universidade. Uma dessas avaliações diz respeito ao nível de proficiência dos estudantes em leitura
e escrita, habilidades que o Enem também avalia quando solicita a escrita de uma redação. Um dos critérios
contemplados na matriz de avaliação do exame refere-se ao investimento autoral do candidato no momento
da escritura do texto. Logo, a capacidade do estudante de exercer uma autoria na redação, posicionando-se
frente ao tema proposto, é avaliada. Afinal, o texto instancia o lugar de dizer do candidato e reflete suas
convicções a respeito do mundo, da cultura e da historicidade, num espaço enunciativo no qual, ainda que
pese o caráter artificial do contexto de produção, ele se pretende autor. Diante desse contexto, este trabalho
objetiva identificar traços de autoria e marcas identitárias presentes em cinco redações que obtiveram nota
mil no concurso 2014, cujo tema foi A publicidade infantil no Brasil. Para embasar este trabalho, buscam-se
os conceitos de autoria e de identidade elucidados por teóricos como Michel Foucault, Roland Barthes,
Mikhail Bakhtin, Stuart Hall e Sírio Possenti. As noções de indícios de autoria de Possenti contribuem para a
construção de uma matriz de avaliação específica cujos critérios servem para investigar marcas autorais e
identitárias deixadas no texto pelo candidato.

PALAVRAS-CHAVE: Autoria. Identidade. Enem.

1. Introdução

O Enem existe há dezesseis anos e tem se consolidado como um dos principais
instrumentos de avaliação da educação brasileira. A importância do exame para os jovens
aspirantes a uma vaga na universidade é incontestável, tendo em vista que, para muitos, ele é a
única forma de obtenção do diploma de curso superior. O exame foi criado em 1998 pelo
Ministério da Educação do Brasil (MEC) e é utilizado para avaliar a qualidade do Ensino Médio
no país. Seu resultado promove o acesso dos estudantes ao ensino superior em universidades
públicas brasileiras, através do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), assim como em algumas
universidades públicas portuguesas.
Com relação à estrutura, o Enem divide as provas em cinco áreas do conhecimento:
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e
suas Tecnologias, Ciências Humanas e suas Tecnologias e Redação. No ano de 2014, o tema
solicitado para a escrita da redação foi A publicidade infantil em questão no Brasil, e o problema
extraído desse assunto poderia ser o seguinte: como o Brasil e os brasileiros devem lidar com a
veiculação de publicidade voltada a crianças? Ao escrever sobre esse tema, de cunho social e
político, o candidato deveria também elaborar uma proposta de intervenção que não ferisse os
direitos humanos para solucionar ou minimizar o problema apresentado.


Texto completo de trabalho apresentado na Sessão ESTUDOS EM LÍNGUA MATERNA, do Eixo Temático
ESTUDOS DE LINGUÍSTICA APLICADA, do 4º Encontro da Rede Sul Letras, promovido pelo Programa de
Pós-graduação em Ciências da Linguagem, no Campus da Grande Florianópolis, da Universidade do Sul de
Santa Catarina (UNISUL), em Palhoça (SC).

Mestre em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Letras da UniRitter Laureate International
Universities. E-mail: maristellarabaiolli@gmail.com.

Docente do Programa de Pós-graduação em Letras da UniRitter Laureate International Universities.
Doutora em Letras. E-mail: valeria_brisolara@uniritter.edu.br.

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ele faz referência à sociedade. são essenciais os conceitos de Stuart Hall (2010) para tratar das questões que envolvem identidade). 668 . 3 Este trabalho é fruto da dissertação de mestrado de mesmo título defendida em 2016 na UniRitter/Laureate International Universities (RABAIOLLI. de forma consistente. e a generalização dessas operações a diversos conteúdos. dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa. tais como a capacidade de considerar todas as possibilidades para resolver um problema. 41). é mostrar dados parciais referentes às marcas autorais e identitárias deixadas pelos candidatos em cinco textos nota mil produzidos no Enem 20143. (Enem. Essas marcas funcionam como uma espécie de impressão digital do autor do texto. de combinar todas as possibilidades e separar variáveis para testar a influência de diferentes fatores. 2 As habilidades decorrem das competências adquiridas e referem-se ao plano imediato do “saber fazer”. da interpretação. mas não detalha esses critérios. contudo. o objetivo. qual seja. é preciso considerar que. fatos e opiniões relacionados ao tema.11). relacionar. (Enem. com indícios de autoria. Tais instrumentos podem ser traduzidos em uma matriz de referência de avaliação contendo critérios específicos para esse fim. Para a realização desta pesquisa. análise. Também são relevantes os estudos de pesquisadores brasileiros como Maria José Coracini (2010) e Sírio Possenti (2002). aqui. à cultura e ao momento histórico nos quais se insere. Para atingir esse objetivo. A esse respeito. Cada competência possui níveis de habilidades2 que vão de 0 a 5. Da mesma forma. pois esse nível caracteriza Fuga ao tema. Nesse cenário. com exceção da competência II que não possui o nível 0. Por meio das ações e operações. Roland Barthes (2004) e Mikhail Bakhtin (1986). configurando autoria. opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. e): Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado. nas redações produzidas pelos candidatos. Nesse contexto de leitura e escrita. são primordiais os conceitos de autoria elucidados por pensadores como Michel Foucault (2011). Relatório Pedagógico. 1 As competências gerais que são avaliadas no Enem estão estruturadas com base nas competências descritas nas operações formais da teoria de Piaget. contempla aspectos referentes à autoria. a capacidade de formular hipóteses. em defesa de um ponto de vista e (5) [o candidato] apresenta informações. fatos. sobretudo nos níveis 4 e 5. possibilitando nova reorganização das competências. o uso do raciocínio hipotético-dedutivo. Essa competência está estritamente relacionada à investigação aqui pretendida. Documento básico. a de encontrar. marcas identitárias e autorais deixadas por eles durante a escritura do texto. d): Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação. comparação e argumentação. o autor-candidato deixa. b): Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema. a competência III. Conforme se verifica na matriz de avaliação do Enem. Como não existe neutralidade na escrita nem texto sem ideologia. o pesquisador precisa utilizar instrumentos adequados. vestígios referentes à sua individualidade e à sua identidade. Eles estão assim descritos: (4) [o candidato] apresenta informações. respeitando os direitos humanos. p. no texto. De igual maneira. durante o processo de escrita. 2002. em defesa de um ponto de vista. A competência III da matriz do Enem contempla critérios referentes à autoria. 2007. p. de forma organizada. organizar e interpretar informações. as habilidades aperfeiçoam-se e articulam-se. é possível ao investigador seguir as pistas deixadas pelo autor da redação a fim de revelar esses vestígios autorais e identitários. fatos e opiniões relacionados ao tema. c): Selecionar. 2016). o desempenho do candidato na redação é avaliado conforme a matriz de referência do Enem por meio das seguintes competências1: a): Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa.

p. pois o anonimato não era empecilho para fazer com que uma obra circulasse e fosse valorizada. p. O princípio da exotopia é “o fato de uma consciência estar fora de outra. defende a tese segundo a qual “o artista nada tem a dizer sobre o processo de sua criação. histórico e culturalmente construído. ou seja. Segundo Foucault (2011).. esse sujeito que produzia obras artísticas e literárias passou a ser chamado de autor. pois ele é social. por assim dizer. pois ela aponta para as marcas pessoais que aquele que escreve costuma deixar em seu texto. e é de fato.282).). Ele defende a tese de que a obra deve ser analisada independentemente de quem a escreve. Nesse mesmo ensaio. mas é. mais especificamente no capítulo 9. Assim. pois só o leitor lê cada palavra na sua duplicidade.) até o início da Idade Média (476 d. Na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem. 2001. ao estabelecimento de um regime de propriedade dos textos. evidentemente não faz isso – nem poderia fazê-lo – apenas explica que “o texto é um tecido de citações” e que a autoria vai além da mão que o escreveu. Tal princípio implica um distanciamento do autor-pessoa em relação àquilo que escreve. a exaltação ao indivíduo passou a ter grande relevância devido a fatores sociais. Barthes. só aí que iremos procurá-lo. o filósofo assim se pronuncia com relação ao discurso citado e ao discurso do outro: O discurso citado é o discurso no discurso. 1984. o discurso citado conserva sua autonomia estrutural e semântica sem nem por isso alterar a trama linguística do contexto que o integrou. pois para ele. pois os prosadores podiam modificá-las à medida que iam contando suas histórias. Nesse período. de distanciamento em relação ao texto. dependendo do gênero discursivo adotado. No texto “A morte do autor”. principalmente a partir da Renascença (1453 d. não na escritura. Bakhtin (1986) trata dessa questão. Com relação ao romance. a 476 d. “o verdadeiro lugar da escritura é a leitura” (BARTHES. publicado por Barthes em 1968. um discurso sobre o discurso. a 1789 d. não o nome do autor. de uma epopeia ou de uma comédia. A esse respeito. as obras eram consideradas mais “abertas”. é desvendado na leitura. pois este era considerado secundário. em “O Discurso de outrem”. isto é. podemos verificar que da Antiguidade (4000 a. ele pode entrar no discurso e na sua construção sintática. políticos e econômicos. no final do século XVIII e no início do século XIX. embora tenha sido acusado de matar o autor empírico. 2011.C. (BAKHTIN. Bakhtin chama a atenção para a confusão que comumente se faz entre autor-pessoa e autor-criador. Se voltarmos no tempo.). contudo. Nesse sentido. contudo. como uma unidade integral da construção. o objetivo disso era impedir a apropriação.. as autoridades religiosas buscavam os responsáveis pelos livros “heréticos” com dois objetivos: punir seus autores e queimar as obras que contrariavam a doutrina estabelecida. de uma consciência ver a outra como um todo acabado. Essa afirmação pode ser estendida para outros gêneros discursivos que não somente os literários. esse distanciamento.C. Mas o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso. de 1969. o autor- criador é uma posição discursiva e faz um exercício de exotopia. todo situado no produto criado.C. 1986.C. O texto.). o que ela não pode fazer consigo mesma” (TEZZA. da propriedade intelectual de um determinado autor. criaram-se regras sobre os direitos do autor e sobre os direitos de reprodução das obras.” (BAKHTIN. segundo Barthes.C. p. p. em seu texto “O que é o autor”.C. uma enunciação sobre a enunciação (. Bakhtin (2011) no ensaio “O autor e a personagem”. Nas artes. Na Modernidade. A garantia de autenticidade de uma obra era a sua antiguidade.Autoria e Identidade Vivemos em um sistema de autoria bastante complexo. 70). 5). restando a ele apenas nos indicar a sua obra. 144) 669 . a 1453 d. a enunciação na enunciação. não havia a preocupação em saber quem era o autor de uma tragédia. “em pessoa”. ao mesmo tempo. por terceiros. Barthes (1984) afirma que os primeiros movimentos para se responsabilizar um autor pelo que ele havia escrito começaram na Idade Média. Isso levou. pode ser maior ou menor. O filósofo também considera que a autoria de um texto depende muito mais do leitor do que do autor. Na Antiguidade.

para ser autor é preciso possuir tais características. a autoria corresponde a uma obra. para Foucault. receitas culinárias. seja por meio de uma simples imitação. seja através de diferentes formas de transposição. Logo. dentro de uma esfera de circulação também específica. na verdade. não há obra sem autor. que cada estudioso oferece uma parcela de contribuição ao assunto aqui discutido. e também distingue o autor na literatura do autor na ciência. que. a função-autor está atrelada à obra. conferência proferida em 1969. Possenti (2001) defende a tese de que autoria é um conceito que não deve ser aplicado apenas a personalidades. “o discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de uma outra pessoa. 101) As formulações de Bakhtin remetem a Foucault e à função-autor. que comportam diferentes níveis de distanciamento da palavra alheia: a palavra entre aspas. ainda. artigos de opinião ou redações escolares. 2008. A incorporação do discurso de outrem ajuda (o narrador) não só na formulação do próprio posicionamento social. assim. assim como não há autor sem obra. travessões e recursos gráficos. Possenti (2013). as quais dificilmente são perceptíveis em autores de textos cotidianos que escrevem notícias de jornal. e b) a noção de autor como “fundador de discursividade”. para Bakhtin (1986). ou de vestibular. por sua vez. isto é. é preciso introduzir uma nova noção de autoria que remeta ao que ele chama de indícios de autoria. É importante mencionar que o gênero. a crítica. a autoria é definida por uma certa relação de quem escreve (ou fala) textos que Possenti chama de comuns. Percebe-se. só existe quando publicada ou reconhecida por um grupo de pessoas. o autor espera ser lido/questionado/interpelado por alguém. ao elaborá-lo. quais sejam a) a de que a noção de autor se constitui a partir de um correlato autor-obra. ao narrador. Indícios de autoria Embora se refira às duas noções de autor de Foucault. para se verificar a autoria em textos de estudantes em idade escolar. completamente independente na origem. dotada de uma construção completa. assim se manifesta: Falamos sempre através da palavra dos outros. o comentário. Possenti (2002) ressalta que estas não costumam se adequar a um escolar. o repúdio. uma redação escolar. também. O que os autores desses textos revelariam. foi escrita como uma resposta ao texto de Barthes. isto é. Esta modalidade de utilização do discurso de outrem é a mais próxima do que se entende por citação. segundo Bakhtin (2011) contém o tema. p. na acepção Foucaultiana do termo. pontua que há uma diferença nítida na concepção de autoria em Foucault e na de alguns estudiosos brasileiros. abordar os eventos narrados a partir de diferentes perspectivas. como uma pura citação. pois este não tem uma obra nem fundou uma discursividade. Ao que parece. segundo Possenti (2013) seriam indícios de autoria. O autor argumenta. etc. E ela normalmente é assinalada por marcas linguísticas como aspas. o modo composicional e o estilo e. em determinada relação 670 . e não a autoria a que Foucault se refere. Para o filósofo francês. No entanto. no texto “Notas sobre a questão da autoria”. o filósofo diferencia o autor de uma obra do autor de uma discursividade. 1986. Também Ponzio (2008). permitindo. a respeito da palavra alheia. por exemplo. como também abre possibilidades para novos posicionamentos. alguém que dá origem a regras para formação de novos textos. Já para alguns estudiosos brasileiros. assim. contudo não há dúvida de que ambas estão relacionadas. No texto O que é o autor?. 144). p. (PONZIO. e situada fora do contexto narrativo” (BAKHTIN. e esta. a função autor está intimamente associada à assinatura do autor em textos que se inserem em um gênero discursivo específico. isto é. que a maioria dos pesquisadores brasileiros considera autor aquele que escreve um texto adequado. Referindo-se a essa questão autoral. Se. seja em uma tradução literal ou. o pesquisador propõe que. por vezes. como.

para não esquecer. Existe. isto é. da forma como é concebida. um sujeito cartesiano. o uso da terceira pessoa. concebido como uma particularidade de uma pessoa específica. busca expor sua subjetividade e seu envolvimento naquilo que escreve. pois a comunidade sociológica ainda está profundamente dividida quanto a esse assunto. e quando lemos. assim como os indícios de autoria. tampouco. mas não real). ainda que pretendam camuflar o envolvimento do pesquisador. para contar uma história. se debruçando sobre a questão da subjetividade e da identidade na escrita. segundo elas. Escrever. A autoria. 2003. Coracini e Eckert-Hoff (2010) e seus colaboradores vêm. para tirar uma boa nota. porque as mudanças estruturais na sociedade contemporânea do século XX passaram a tratar questões de classe. Enunciados assertivos. pois toda escrita é inscrição de si. ao mesmo tempo. segundo Faraco e Tezza (2004) para dar ordens. para resolver problemas e por inúmeras outras razoes. Isso vale tanto para a identidade social ou nacional quanto para a identidade subjetiva. marcas identitárias e escrita As concepções. Identidade. Essas marcas de inscrição. 9-10). as quais buscam efeito de objetividade. 202). argumente e escreva o texto apresentando 671 . No entanto. para ele. “é na medida em que se internaliza um traço que ele se faz corpo no corpo do sujeito. Sabe-se. revelando sua subjetividade e construindo uma identidade. dirigimo-nos a um leitor virtual (possível. A autora evidencia que o que somos. mas o fazemos por muitos outros motivos. modalidades lógicas.” (CORACINI E ECKERT-HOFF. social ou nacional. há muito tempo. Segundo a autora.autor-obra. fogem ao controle dele. para pedir. No caso do Enem. o indivíduo era visto como um sujeito inteiro. dá especial importância ao raciocínio. contudo. A definição do termo identidade é bastante antiga e divide opiniões. de etnia. seja esta em papel ou virtual. e. “é sempre uma ação que se dá. Escrevemos. imaginamos o autor e suas intenções ao percorrermos as pistas por ele deixadas no texto. Quando escrevemos. romances. etc. quem escreve não tem a intenção de se ocultar.). ambíguo. pois esse outro nos constitui e ao nosso discurso também. Coracini (2003) defende a tese de que o outro é determinante na construção da nossa identidade. segundo Hall (2004) complexo. dentre outros recursos. unificado. se inscreve naquilo que escreve. as formas passivas. para avisar alguém. A prova de redação do Enem 2014 e suas possíveis abordagens A prova de Redação exige que o candidato escreva um texto dissertativo-argumentativo contendo. segundo ele. imparcial. 30. Isso porque “todo texto carrega em si traços daquele que escreve” e que. no entanto. ao contrário. Hall (2004) ainda sustenta que as identidades modernas se tornaram “descentradas”. p. em dois sentidos: de fora para dentro e de dentro para fora. no mínimo. Essas transformações mudaram nossas identidades pessoais. uma relação bastante estreita entre identidade e escrita. quaisquer que sejam. Apresentada a situação-problema.” (CORACINI. são muitas e existem em todas as composições. pouco desenvolvido e pouco compreendido. 8 linhas. de sexualidade. o que vemos e o que pensamos está carregado do dizer alheio. de gênero. 2010. de raça e de nacionalidade de outra forma. Isso ocorre. para dizer um pouco do que sentimos. poemas. isto é. deslocadas e fragmentadas. com aquele “traço pessoal” que alguns estudiosos chamam de singularidade. nem. O conceito é. isto é. Nos textos chamados criativos (contos. o candidato também escreve porque tem um propósito. não há texto neutro. no máximo. o uso de adjetivos. para advertir. pede-se que o candidato reflita. tem forte relação com estilo. portanto. abalando a ideia que tínhamos de nós próprios como sujeitos integrados. Para as autoras. que até um determinado período da história. seja ela subjetiva. até mesmo nas ditas científicas. à reflexão e à análise crítica do candidato. p. para receitar. não escrevemos apenas quando somos obrigados. Essa prova. são social e historicamente construídas.

por sua vez. Tal posicionamento é indicado não só através do conhecimento teórico. o candidato poderia fazer a defesa da publicidade institucional ou educativa. b) Contexto legal: nessa abordagem. ou (ii) a de que esse papel caberia à família e à escola. esperava-se. já no Brasil. em 2014 o Enem abordou o tema A publicidade infantil em questão no Brasil. d) Contexto da defesa da liberdade de expressão: nessa perspectiva. como a publicidade infantil é tratada em outros países. revistas. Daí a importância do posicionamento do candidato frente ao tema abordado. e) Contexto pragmático: o candidato aqui poderia analisar como ocorre a publicidade infantil no Brasil e. O texto III. e a relevância social envolvida no tema diz respeito ao fato de que os candidatos. individualmente. Códigos e suas Tecnologias ao fim da escolaridade básica. Quanto ao tema proposto. Considerando os textos motivadores e as palavras-chave. Nesse contexto. Também salienta o papel da educação para a conscientização do consumo. uma vez que ainda está em formação. c) Contexto educacional: adotando essa perspectiva. o candidato precisaria considerar o seguinte problema: como o Brasil deve lidar com a veiculação de publicidade voltada a crianças? O problema é exposto no texto I da prova de Redação. e seus respectivos níveis de habilidades. por exemplo. O Guia do Participante mostra que a prova de Redação. assim como a de língua portuguesa. traz o excerto de um livro que discute a influência do marketing sobre a criança apontando a vulnerabilidade dela. que os candidatos pudessem direcionar o texto para os seguintes contextos e abordagens: a) Contexto de proteção às crianças: com base no pressuposto de que ela é vulnerável e influenciável. que trata da resolução do Conanda. livros. segundo o Relatório Pedagógico 2014. ou socialmente. visa à avaliação dos conhecimentos na área de Linguagens. mas também de um repertório que pode incluir leitura de jornais. o candidato poderia assumir duas posições: (i) a de que o Estado deve regulamentar a publicidade infantil (proibindo-a ou restringindo-a). através de um mapa. A discussão que envolve a abordagem diz respeito à veiculação da publicidade infantil no Brasil. a fim de construir uma argumentação convincente a favor de seu ponto de vista. Países como a Noruega e a província de Quebec. é o mercado que a autorregulamenta. expressas na matriz de avaliação abaixo: 672 . os textos são corrigidos eletronicamente por meio de um sistema Web. As redações são avaliadas com base em cinco competências. o candidato poderia discutir e comparar a legislação brasileira com a de outros países e propor mudanças na lei. Metodologia e matriz de avaliação da prova de redação Quanto à metodologia de avaliação da redação do Enem. no Canadá. além da escuta de noticiários televisivos.uma solução para o problema proposto sem ferir os direitos humanos. em alguma medida. na infância. O Texto II busca ampliar a reflexão na medida em que evidencia. Apresentadas as informações. Também poderia defender a livre veiculação da publicidade infantil no Brasil. propor mudanças ou a manutenção do cenário atual. proíbem totalmente a publicidade voltada às crianças. foram ou são expostos nesse contexto publicitário: na condição de cidadãos. a partir da análise. o candidato poderia defender a tese de que não caberia ao Estado fazer a autorregulamentação. ao conviver com outras crianças. pois isso caberia ao mercado.

com alguns desvios gramaticais e de convenções da escrita. de forma sistemática. fatos e opiniões não interpretar informações. argumentação e conclusão. de escolha de registro e de convenções da escrita. tangenciando o tema. Competência Notas Nível de habilidade 0 Demonstra desconhecimento da modalidade escrita formal da língua portuguesa. 4 Desenvolve o tema por meio de argumentação consistente e apresenta bom domínio do texto dissertativo-argumentativo. 0 Fuga ao tema/não atendimento à estrutura dissertativo-argumentativa 1 Apresenta o assunto. com traços constantes de outros tipos textuais. relacionados ao tema e sem defesa de um 673 . não atendendo à estrutura redação e aplicar conceitos das várias com proposição. fatos. com muitos desvios gramaticais. dentro dos limites previsível e apresenta domínio mediano do estruturais do texto dissertativo- texto dissertativo-argumentativo. Desvios gramaticais ou de convenções da escrita serão aceitos como excepcionalidade e quando não caracterizam reincidência. 2 Demonstra domínio insuficiente da modalidade escrita formal da língua portuguesa. com proposição. com argumentativo em prosa. áreas de conhecimento para 3 Desenvolve o tema por meio de argumentação desenvolver o tema. 2 Desenvolve o tema recorrendo à cópia de trechos dos textos motivadores ou apresenta domínio insuficiente do texto dissertativo- II – Compreender a proposta de argumentativo. a partir de um repertório sociocultural produtivo e apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registro. ou demonstra domínio precário do texto dissertativo-argumentativo. de escolha de registro e de convenções da escrita. 1 Demonstra domínio precário da modalidade escrita formal da língua portuguesa. III – Selecionar. I – Demonstrar domínio da modalidade 3 Demonstra domínio mediano da modalidade escrita formal da língua portuguesa. 5 Demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registros. proposição. argumentação e conclusão. argumentação e conclusão. com poucos desvios gramaticais e de convenções da escrita. 5 Desenvolve o tema por meio de argumentação consistente. organizar e 0 Apresenta informações. relacionar. 4 Demonstra bom domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registro. com diversificados e frequentes desvios gramaticais.

detalhada. com indícios de autoria. de forma consistente. de forma insuficiente. 3 Elabora. limitados aos argumentos dos textos motivadores e pouco organizados em defesa de um ponto de vista. fatos e opiniões relacionados ao tema. mas desorganizados ou contraditórios e limitados aos argumentos dos textos motivadores em defesa de um ponto de vista. IV – Demonstrar conhecimento dos 3 Articula as partes do texto de forma mediana. proposta de respeitando os direitos humanos intervenção relacionada ao tema e articulada à discussão desenvolvida no texto. 2 Elabora. precária ou relacionada apenas ao assunto. configurando autoria. em defesa de um ponto de vista. 4 Articula as partes do texto com poucas inadequações e apresenta repertório diversificado de recursos coesivos. fatos e opiniões pouco relacionados ao tema ou incoerentes e sem defesa de um ponto de vista. mecanismos linguísticos necessários com inadequações e apresenta repertório para a construção da argumentação pouco diversificado de recursos coesivos. 1 Articula as partes do texto de forma precária. 1 Apresenta informações. fatos e opiniões relacionados ao tema. um ponto de vista. 0 Não apresenta proposta de intervenção ou apresenta proposta não relacionada ao tema ou ao assunto. 2 Articula as partes do texto de forma insuficiente. 5 Apresenta informações. fatos e opiniões relacionados ao tema. com muitas inadequações e apresenta repertório limitado de recursos coesivos. de forma mediana. fatos e opiniões relacionados ao tema. de forma organizada. proposta de intervenção relacionada ao tema ou não articulada com a discussão desenvolvida no V – Elaborar proposta de intervenção texto. 5 Elabora muito bem proposta de intervenção. relacionada ao tema e articulada à discussão desenvolvida no texto. em defesa de um ponto de vista. 4 Elabora bem proposta de intervenção relacionada ao tema e articulada à discussão desenvolvida no texto. 1 Apresenta proposta de intervenção vaga. 3 Apresenta informações. 4 Apresenta informações.opiniões e argumentos em defesa de ponto de vista. 674 . 5 Articula bem as partes do texto e apresenta repertório diversificado de recursos coesivos. 0 Não articula as informações. 2 Apresenta informações. para o problema abordado.

explicações detalhadas do que seriam esses indícios de autoria. Essa falta de explicação pode acarretar dificuldades para os avaliadores. N. em defesa de um ponto de vista e (5) [o candidato] apresenta informações. de forma organizada. E. contempla aspectos referentes à autoria. Além da matriz de avaliação do Enem. Ela. S. S. assim como a matriz do Enem. caso seja do interesse dos órgãos competentes. E. E- 3 S+ S+ S+ S+ S+ S+ Satisfatório 2 S. em defesa de um ponto de vista. que elementos configurariam a autoria. 01 02 03 04 05 06 Estilo criatividade/originalidade Controle da dispersão (coesão e Domínio do texto dissertativo- Assunção de responsabilidade (aproximação e afastamento) Tomada de posição do autor capacidade de ressignificar coerência textual) Densidade textual argumentativo sentidos Escore Item/nível de 5 E+ E+ E+ E+ E+ E+ Excelente 4 E. busca avaliar o candidato por meio de competências e habilidades. com indícios de autoria. N. pois estas não costumam considerar esses aspectos. tampouco. construiu-se uma matriz específica contendo apenas critérios autorais e identitários. futuramente. públicas e privadas. não constam. sobretudo nos níveis 4 e 5 (em destaque). ou podem ser usados por professores em sala de aula. de forma consistente. nem. fatos e opiniões relacionados ao tema. N. Os critérios adotados podem. S. E. no material pesquisado.Matriz específica Conforme se verifica na matriz de avaliação do Enem acima. pela UniRitter Laureate 675 . caso queiram valer- se de uma matriz de avaliação que não contemple apenas critérios linguístico-gramaticais de avaliação de textos. E. Eles estão assim descritos: (4) [o candidato] apresenta informações. fatos e opiniões relacionados ao tema. ou os consideram apenas superficialmente. N. a competência III. S. foram analisadas as planilhas de avaliação utilizadas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). para a análise do corpus aqui estudado. Dessa forma. Essa matriz difere de outras matrizes utilizadas por instituições de ensino superior. S- 1 N+ N+ N+ N+ N+ N+ Não satisfatório 0 N. Sua construção surgiu da necessidade de se verificar com mais precisão os vestígios autorais e identitários deixados pelo candidato no momento da escritura no texto. configurando autoria. compor a matriz de avaliação do Enem. N- Escore Afora essa descrição. pois nem todos têm domínio desses conceitos.

Em sentido amplo. ao mesmo tempo. Controle da dispersão (coesão e coerência textual) – A ordem das frases no período. uma vez que a coerência está ligada à compreensão e à possibilidade de interpretação dos sentidos. Pontuação. os referidos conceitos perfazem seis possibilidades que permitem ao avaliador diferenciar entre textos excelentes (E+ e E-). de verificar a forma como o autor se presentifica e se distancia no texto. seduzir o leitor são aspectos referentes ao estilo. as marcas de gênero e de número. e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). 676 . a coerência é um princípio de interpretabilidade e supõe relações sociodiscursivas de produção e de uso. Espera-se que o candidato dê voz a outros enunciadores e. O uso de citações diretas e indiretas empregadas também é verificado nesse quesito. e não todos. ainda. Tomada de posição do autor – Este quesito refere-se ao grau de aproximação e de afastamento do autor do texto em relação à posição adotada. 2. Da mesma forma. dando coerência a esse novo texto/discurso. 3. Léxico. Estilo criatividade/originalidade (capacidade de ressignificar sentidos) – A capacidade de articular de modo diferente a linguagem já empregada por alguém em um texto/discurso anterior. o uso de figuras de linguagem e o modo inovador de dizer o que já foi dito antes são também analisados nesta competência. sintaxe. Para haver coerência é necessário que elementos formais e funcionais atuem para constituírem uma unidade. pois eles são inúmeros. assim como a forma como o candidato toma a palavra e a concede a outrem. operadores discursivo-argumentativos. da mesma forma. Trata- se. se há domínio linguístico por parte do candidato. o jogo de imagens. fundamentação argumentativa e capacidade lógica de produzir sentido. as preposições. O jogo entre os já-ditos. Os critérios abaixo descritos referem-se à matriz de avaliação criada especificamente com o objetivo de investigar mais acuradamente os traços autorais e identitários deixados pelos candidatos nos textos. é avaliada neste quesito. Na tabela abaixo. Densidade textual – Este critério busca verificar se o candidato caracteriza minimamente objetos e lugares. se a conexão entre as frases é complexa. A matriz aqui proposta é pautada por conceitos e está baseada nas diretrizes da prova de Redação do Enem e na planilha da UFRGS. garantindo a construção de sentido de acordo com as expectativas do leitor. a capacidade de desarranjar as palavras do seu lugar comum dando novos sentidos a elas para surpreender. contemplados neste quesito. isto é. são apresentados os critérios. se o texto faz relação com elementos da cultura e com outros discursos. já que as planilhas das outras duas universidades não mencionam o investimento autoral. ambas de Porto Alegre. A primeira é da rede federal de ensino. Verifica. A elegância. ultrapassando os significados das formas da língua e de suas ligações lógico-semânticas. Cada um desses elementos estabelece articulações que concatenam ideias e permite a progressão textual em direção à comprovação da tese que o candidato visa a defender. os pronomes pessoais. clareza. é necessário verificar a relação que o candidato estabelece entre o texto e o conhecimento dos interlocutores. Como se pode verificar na tabela abaixo. Este quesito está ligado ao controle da deriva do texto. e outras duas são da rede particular. objetividade. a não banalidade e a habilidade de manipular as palavras para projetar os efeitos pretendidos estão. os tempos verbais e os conectores textuais funcionam como elos coesivos. O registro formal da língua portuguesa moderna e a obediência às regras gramaticais vigentes também contribuem para tornar o texto mais denso. e. sinônimos. frases com sentido completo. levando- se em conta o contexto em que o texto é produzido. É importante salientar que a matriz que serve à análise e discussão dos textos focaliza alguns critérios autorais e identitários. O afastamento do autor e a tentativa de apagamento das suas características individuais são contemplados nesta competência. 4. se há precisão vocabular. satisfatórios (S+ e S-) e não satisfatórios (N+ e N-). mantenha distância em relação ao próprio texto. No que diz respeito à coerência. em seguida eles são detalhados. retomadas lexicais e a alternância entre termos também são constitutivos do estilo.International Universities. vocabulário variado e preciso também colaboram para a densidade textual. portanto. encantar. desestabilizar. concisão. São eles: 1.

o candidato seria desclassificado. pois. Nível excelente – o conceito E+ equivale ao nível excelente.3.1. dependendo da pontuação exigida pelo curso no qual o candidato deseja ingressar. possibilitando ao candidato conseguir a vaga na universidade. ao escrever. Os candidatos que satisfizerem plenamente a exigência focalizada receberiam esse conceito. no texto. também em nível satisfatório. pois. a redação obteria uma nota que alcançaria entre 800 e 900 pontos. pode haver uma diversidade de eus. o eu cidadão que. goza de certo status pelo resultado de seu trabalho e tem direitos sobre o seu texto/discurso. e. Mesmo assim. Nível não satisfatório – está no nível N+ a redação do candidato que observar apenas minimamente o que é exigido na matriz de referência. finalmente. Essas estratégias podem ser apresentadas em forma de exemplos. porém a habilidade demonstrada pelo candidato.3. comparações. oscila. Da mesma forma. O texto é considerado argumentativo. pois a exigência é parcialmente satisfeita. Filiação ao tipo dissertativo-argumentativo – O modelo prototípico da dissertação é o que contém introdução. aspectos como o tema. demonstrando total habilidade na manipulação deles. Em ambos os casos. grosso modo. o texto receberia uma nota entre 600 e 700 pontos. ainda assim.3. 5. Esse tipo de texto é composto da seguinte tríade: tese. a redação alcançaria 1000 pontos. Logo. 4. Dessa forma. desenvolvimento e conclusão. pois a pontuação obtida ficaria aquém do exigido. em um ou mais critérios.também equivale ao nível excelente. argumentos e estratégias argumentativas. Está no nível excelente o participante que obtiver nota máxima em todos os critérios exigidos. 677 . desejos. por isso. A aproximação ou o distanciamento em relação aos critérios o aproximam o afastam das exigências a serem atendidas na matriz de referência. assume uma posição ideológica no discurso. Tais conceitos são assim descritos: 4. e é dissertativo porque se utiliza de explicações para justificá-la. Este texto situa-se abaixo dos 500 pontos. é reconhecido/lido pela sociedade. O E.3. neste caso. Nível satisfatório – a redação que está no nível S+ é considerada uma redação mediana. é considerada uma boa redação. situa-se numa escala inferior ao S+. etc. Cada critério da matriz contém exigências que devem ser observadas pelo candidato no momento da escrita do texto. A assunção de responsabilidade do candidato ao Enem presume quatro eus distintos segundo Lima (2014): o eu pessoa em sua individualidade. A nota obtida giraria em torno dos 500 pontos. Assunção de responsabilidade – Este quesito relaciona-se à posição foucaultiana de que há alguém que assume a responsabilidade pelo enunciado. A qualidade do texto cai consideravelmente em relação ao nível excelente. que possui sonhos. porque defende uma tese. 4. No nível N. 6. Esse alguém (autor). publica o que escreve. especialmente na conclusão. Nesse nível. que é pautada também por conceitos. dados estatísticos. o que significa que não houve a observância dos critérios exigidos. expectativas e frustrações. deve apresentar uma proposta clara e inovadora para resolver os problemas que ele criou. precisar de quem é a voz que escreve torna-se difícil. mas. alusões.2. pesquisas. o eu candidato que precisa basear-se na coletânea da prova de redação para construir sua argumentação. o eu estudante que precisa demonstrar em um raciocínio de trinta linhas que apreendeu todos os conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação escolar de doze anos. o candidato tende a se distanciar da exigência solicitada na matriz. fatos comprováveis. o modo composicional e o domínio linguístico são contemplados nesta competência.o candidato se afasta ainda mais das exigências. essa nota possibilitaria ao a conquista da certificação do ensino médio. O conceito S-.

Procedimentos de Análise e Resultados Os cinco (5) textos que compõem o corpus da pesquisa foram encaminhados pelos próprios autores-candidatos ao site Globo. cada uma das competências expressas na matriz específica. E-. que os candidatos tentam se afastar da sua escrita. da expressão. provavelmente porque esses vários eus vão se constituindo autoral e identitariamente à medida que o candidato escreve. S+. para conseguir uma vaga na universidade.com4. daí porque as abordagens do tema são sempre diversas. c) após a identificação dos traços autorais e identitários presentes nos textos. O que se percebe nos textos analisados. a nota atribuída à redação foi aquela. html> 678 . b) os textos foram analisados individualmente por diversas vezes. o fazem de forma singular. em alguma medida. ou seja. Os candidatos. de uma forma ou de outra. isto é. isto é. nela. por vezes. Ao acessar o site. já são limitadoras. o candidato. durante as análises. Para a análise dos textos. que os candidatos não têm consciência dos vários eus que os compõem durante o processo de escrita. N+ e N-). Eles o fazem para tirar nota na escola e passar de ano. nos textos. para ser bem avaliado. dando voz aos outros. Como os critérios possuem o mesmo valor. Essa falta de consciência autoral pode ocorrer porque.com/educacao/ENEM/2015/noticia/2015/05/leia-redacoes-do-ENEM- que-tiraram-nota-maxima-no-exame-de-2014. sem qualquer alteração da ordem do conteúdo. para passar num concurso. o que também configura autoria. e publicados na Internet em 21 de maio de 2015. 4Disponível em: <http://g1. S-. assim. em relação às regularidades observadas. não necessariamente seguem a ordem da matriz específica. embora cumpram as regras impostas na prova de redação do Enem. para ganhar uma bolsa de estudos. ao escrever um texto do tipo dissertativo-argumentativo. os jovens contam seus segredos sobre como escrever um bom texto. com introdução. particular. precisa mostrar que. os ingredientes (a linguagem verbal escrita) e o tema da redação sejam os mesmos para todos os candidatos. em relação àquilo que se mostrou recorrente nos textos. tendo. o texto sempre pode ser associado a quem o produziu. um nível considerável de investimento autoral. não fogem ao modelo prototípico do tipo dissertativo-argumentativo. Também há uma reportagem sobre cada um deles e. tem estilo. de fato. As redações estão identificadas e foram digitadas na íntegra. é que todos eles. é possível verificar que há um recorte do espelho da redação com foto e caligrafia próprias do autor. o que é obrigatório a todos. atingido os mil (1000) pontos. dentre outras habilidades. que. Alguns dos candidatos enviaram ao site o boletim de desempenho com as notas obtidas no exame para comprovar que. a maioria dos alunos não produz textos com o objetivo de usá- los nas mais variadas funções sociocomunicativas. Ainda que a fôrma (o tipo de texto). o equivalente ao nível 5 da competência III da matriz do Enem. igualmente. eles foram anotados na planilha conforme o respectivo nível (E+. as análises foram descritas. a sua abordagem. etc. na tentativa de apagar suas características individuais.globo. por si só. a partir das leituras. ou qualquer outra. apresentam tanto marcas de identidade quanto de autoria. Parece. basta saber localizar os vestígios deixados pelo autor. Embora as marcas identitárias apareçam mais sutilmente. desenvolvimento e conclusão. Além disso. isto é. d) identificadas as marcas identitárias e os indícios de autoria que poderiam levar cada texto a atingir a nota máxima. a “mão” que escreve será sempre única. Porém. foram utilizados os seguintes procedimentos: a) foram realizadas diversas e atentas leituras com o objetivo de identificar. A autoria é posta em evidência quando. nenhum tem peso maior ou menor que outro. Percebe-se. Conquanto sejam textos canônicos. há. mais conhecido como G1. no dia a dia. neles. deve-se ressaltar que todos os candidatos satisfizeram plenamente as exigências expressas na matriz de referência do Enem 2014 inclusive as que correspondem aos critérios de autoria.

br/index. cada teórico. ao serem contrastadas. 2000. Discurso e Escrit(ur)a: entre a necessidade e a (im)possibilidade de ensinar. Secretaria de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC). 2010. Disponível em: <http://seer. Assim é que se instaura o dialogismo. sobretudo na perspectiva bakhtiniana. Instituto Nacional de Pesquisa e Estatística Anísio Teixeira (INEP). Assim. Roland. (Org. logo não são noções óbvias. é (inter)ação e não um mero instrumento de comunicação. dependendo de sua filiação teórico-metodológica. 1984. pelos estudos realizados neste trabalho. Afinal. e. Maria José. Orientações Curriculares para o Ensino Médio. O Rumor da Língua. 1986 BARTHES. Acesso em 23 de abril de 2015. Estética da criação verbal. In: Marxismo e Filosofia da Linguagem. provavelmente. BRASIL. BAKHTIN/VOLOCHINOV. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. não se revelam nem melhores nem piores. Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): textos teóricos e metodológicos. Estética da criação verbal. ENEM: Documento básico. que os conceitos de autoria e de identidade não são uniformemente empregados nem. Para Bakhtin. In: ECKERT-HOFF. por isso. isto é. CORACINI. Ministério da Educação (MEC). 2009. A linguagem. ela constitui o produto da interação entre o locutor e o ouvinte (ou entre o autor e o leitor). São Paulo.) Escrit(ur)a de Si e alteridade no espaço papel-tela. tampouco. CORACINI. notam-se diferenças. E é justamente essa falta de respostas que faz com que os estudos proliferem no meio acadêmico. Mikhail. 2003. Mikhail. objetivamente definidos. enfim. mais amiúde. São Paulo: Martins Fontes. Outra questão importante de se colocar aqui é que um discurso nunca é original: ele sempre faz referência a outros discursos/textos. frequentemente encontram-se traços que se superpõem. v.Considerações finais Num texto ou discurso. porém. São Paulo. olhará para o objeto de um ângulo específico. 1986 BAKHTIN. CORACINI. BAKHTIN.ufrgs. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Campinas: Mercado das Letras. Maria José. 15. Organon. Brasília: MEC/SEMTEC. a questão não foi. e mesmo divergências que. As diversas áreas que envolvem os estudos da linguagem não dispõem ainda de todas as respostas para as questões que envolvem os conceitos de autor. E nem poderiam ser. São Paulo: Edições 70. Referências BAKHTIN.php/organon/article/view/30024/18620>. devido à heterogeneidade de abordagens que envolvem o tema e às filiações teórico-metodológicas dos estudiosos que se debruçam a estudá-lo. que é um princípio constitutivo da linguagem e condição de sentido do discurso. n. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Maria José. a palavra comporta duas faces: ela procede de alguém e se dirige a alguém. raramente podemos colocar ponto final. O Discurso de Outrem. não será resolvida. propósitos e possibilidades. BRASIL. 679 . abordará o tema sob uma determinada perspectiva. 2006. de autoria e de identidade. Mikhail. Hucitec. 35. Brasília: INEP. que dialogue com ele. 3ª ed. visto que sempre haverá alguém que com ele concorde ou do qual discorde. Hucitec. Apenas mostram diferentes aportes teóricos com seus limites. A celebração do outro na constituição da identidade. Nesse contexto de linguagem. Entre os teóricos analisados. Beatriz. BRASIL. 3ª ed. pois serve de expressão de um em relação ao outro. 2002. Talvez. São Paulo: Martins Fontes. é possível constatar. Brasília: MEC/INEP. 2011. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira.

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