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ARTIGO DE REVISÃO

Atualidades proteômicas na sepse
RODRIGO SIQUEIRA-BATISTA1, EDUARDO GOMES DE MENDONÇA2, ANDRÉIA PATRÍCIA GOMES3, RODRIGO ROGER VITORINO4, RENATO MIYADAHIRA5,
MARIO CASTRO ALVAREZ-PEREZ6, MARIA GORETI DE ALMEIDA OLIVEIRA7
1
Doutor em Ciências, Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ); Professor Adjunto do Departamento de Medicina e Enfermagem, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa, MG, Brasil
2
Doutor em Bioquímica Agrícola, Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, UFV, Viçosa, MG, Brasil
3
Doutora em Ciências (Saúde Pública), Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), FIOCRUZ; Professora Adjunta do Departamento de Medicina e Enfermagem, UFV, Viçosa, MG, Brasil
4
Aluno de Graduação em Medicina, Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO), Teresópolis, RJ, Brasil
5
Aluno de Graduação em Medicina, Departamento Medicina e Enfermagem, UFV, Viçosa, MG, Brasil
6
Doutor em Medicina, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Professor Adjunto da UERJ; Professor Titular da UNIFESO, Teresópolis, RJ, Brasil
7
Doutora em Bioquímica e Imunologia, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Professora-associada do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, UFV, Viçosa,
MG, Brasil

RESUMO
A ampliação do conhecimento das técnicas de análise proteômica tem permitido maior
compreensão das bases moleculares relacionadas à identificação de vias de sinalização
celular, de proteínas modificadoras, de modificações pós-traducionais, além de caracte-
rizar marcadores biológicos específicos. Desta feita, a documentação de determinadas
proteínas expressas na sepse constitui uma promissora abordagem para elucidação dos
aspectos fisiopatológicos, diagnósticos, terapêuticos e prognósticos dessa condição, com
a finalidade de aplicação na prática clínica. Embora os resultados sejam ainda prelimi-
nares, a proteômica poderá oferecer bons subsídios para o melhor manejo dos pacientes
sépticos. Dessa feita, o objetivo do presente artigo é apresentar uma breve revisão das
aplicações dos estudos proteômicos na sepse.
Unitermos: Proteômica; sepse; diagnóstico; terapêutica; prognóstico.
©2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados.

SUMMARY
Proteomic updates on sepsis
The increased knowledge regarding proteomic analysis techniques has allowed for better
understanding of the molecular bases related to the identification of cell signaling, modi-
Trabalho realizado no fying protein, and post-translational modification pathways, in addition to the charac-
Departamento de Medicina e
terization of specific biological markers. Thus, documenting certain proteins expressed
Enfermagem e no Departamento
de Bioquímica e Biologia in sepsis is a promising approach to elucidate pathophysiological, diagnostic, therapeu-
Molecular da Universidade Federal
de Viçosa (UFV) e no Curso de
tic, and prognostic aspects in this condition with a purpose of applying them to clinical
Graduação em Medicina do Centro practice. Although the studies are still preliminary, proteomics may offer good benefits
Universitário Serra dos Órgãos
(UNIFESO), Viçosa, MG, Brasil for the better management of septic patients. Thus, this article aims to introduce a short
review of the applications of proteomic studies to sepsis.
Keywords: Proteomics; sepsis; diagnosis; therapeutics; prognosis.
Artigo recebido: 30/10/2011
Aceito para publicação: 30/12/2011 ©2012 Elsevier Editora Ltda. All rights reserved.

Correspondência para:
Rodrigo Siqueira-Batista
Universidade Federal de Viçosa
Departamento de Medicina e
Enfermagem (DEM)
Avenida P. H. Rolfs s/n
Campus Universitário
CEP: 36571-000
Viçosa, MG, Brasil
rsbatista@ufv.br

Conflito de interesse: Não há.

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pós-traducionais. também foram consulta. dependendo do beira do leito. (2) a identificação de novas moléculas bioativas em + desfecho (outcome). moléculas endógenas ou exó- Além da utilização de artigos. Esses estudos podem Estratégia 2 – sepse (sepsis) + proteoma (proteome). as investigações através da análi- estratégia de busca definida. (SIRS. tecidos Scientific Electronic Library Online (SciELO). com consequente redução da le. do sistema biológico em condições fisiológicas específicas. O proteoma reflete a expressão funcional do genoma. líquido cefalorraquidia- de 01/01/2000 a 01/09/2011. Os artigos foram procura. como complemento ao processo de levantamento extremamente útil no diagnóstico precoce de doenças e Rev Assoc Med Bras 2012. A desenlace mais favorável. despeito desses elementos. mações dos estudos proteômicos10. National Library of Medicine (PubMed) e na grande número de peptídeos contidos nas células. SIRS. Além da questão científica – comparabilidade entre Essa característica faz com que a investigação do proteo- casuísticas –. do diagnós. ou ção. a distinção de situações como infec. Com efeito. se proteômica – envolvendo o rastreio sistemático de um dos na U. da presença de ativadores ou estratégias para a abordagem do doente pode levar a um inibidores e também das condições do meio ambiente. a definição terminológica tem objetivado a ma se torne um importante desafio. (4) proteoma e o tratamento da sepse. cimento sem precedentes na biologia celular e na bioquí- Estratégia 5 – sepse (sepsis) + proteômica (proteomic) mica. aos conjuntos de proteínas reguladoras. ou seja. pesquisa denominado proteômica. 58(3):376-382 377 376_382_2739_Atualidades. A busca empreendida permitiu a obtenção de A sepse – síndrome de resposta inflamatória sistêmica citações distribuídas de acordo com o exposto na Tabela 1. atualmente. na dependência do estágio na qual na fisiopatologia da sepse. este arti. contemporânea. são cada vez mais completas as infor- tico. Esses novos conheci- go apresenta uma breve revisão das aplicações dos estudos mentos estão relacionados às vias de sinalização celular. levar a três vertentes básicas de elucidação de eventos. a proteômica tem sido consi- talidade. elegendo-se apenas estudos no. Trata-se de uma das da sepse e nos aspectos fisiopatológicos e clínico-terapêu- mais importantes complicações infecciosas da medicina ticos. Embora a identificação de todas as papel que as técnicas proteômicas – identificação de todas proteínas codificadas no genoma de um organismo pareça as proteínas codificadas no genoma9 – têm adquirido no uma tarefa bastante difícil de se realizar. proteômicos na sepse. levando ao desenvolvimento Estratégia 6 – sepse (sepsis) + proteômica (proteomic) de novos medicamentos. genas específicas de determinada entidade nosológica. vivos mais simples. dores biológicos. tendo em vista sua futura incorpo. gerando conhe- + tratamento (treatment). a ferramenta mais apropriada para se focos de investigação científica – o que leva à ampliação entender o funcionamento dos genes. urina. mesmo em seres estudo da sepse. capacidade de identificar essas moléculas pode se tornar tensiva. pois a expressão gê- detecção precoce dos enfermos vitimados pela condição à nica de uma célula é bastante dinâmica. sepse grave. Nesse domínio.indd 377 31/05/12 08:48 . sangue. sapiens sapiens e os mais diferentes agentes etiológicos6 tornam possível diferentes contextos de apresentação clí. S. pois analisa o pro- dos conhecimentos no campo –. (2) proteoma óbito (alta letalidade. (5) proteoma e As díspares possibilidades de interação entre o Homo o prognóstico da sepse e (6) considerações finais. assim. tanto por sua incidência. foram selecionados desencadeada por infecção (suposta ou ratificada) – é uma 25 textos – resultantes de pesquisas empíricas e de revisões condição extremamente importante do ponto de vista dos da literatura – . do inglês systemic inflammatory response syndrome) Do total de artigos encontrados. extratos biológicos naturais. Estratégia 3 – sepse (sepsis) + proteômica (proteomic) com implicações diretas em vários campos da biologia. o estado atual de funcionamento de um determina- de múltiplos órgãos e sistemas (DMOS)7. sepse. líquido pancreático e fluido amniótico) realizados em seres humanos. choque séptico e disfunção seja. sepse.8. A dos livros-texto de clínica médica. caracterizando o campo de Estratégia 1 – sepse (sepsis) + proteômica (proteomic). MÉTODOS Desde que Wasinger et al. quanto por sua Os artigos foram lidos e as informações organizadas em gravidade e por seu grande potencial de evolução para o diferentes seções: (1) o conceito de proteoma. infectologia e terapia in. As inovações no diagnóstico e na terapêutica são derada. com foco principal no estudo proteômico cuidados clínicos e da saúde pública1. cabendo. e (3) a caracterização de marca- + prognóstico (prognostic). em 1995. da terapêutica e do prognóstico. da + diagnóstico (diagnosis). no período e fluidos biológicos (por exemplo. ATUALIDADES PROTEÔMICAS NA SEPSE INTRODUÇÃO bibliográfico.12 propuseram o conceito O texto foi elaborado a partir de revisão da literatura com de proteoma. os quais subsidiaram a presente investigação. em termos da fisiopatologia. (3) proteoma e o diagnóstico da for estabelecido o diagnóstico)2-5. a instituição de adequadas estado de desenvolvimento. enfatizando-se o recente duto final do genoma9. Os termos utilizados foram: – têm avançado velozmente. às modificações ração à prática clínica. biotecnologia e da ciência médica: (1) a descoberta de vias Estratégia 4 – sepse (sepsis) + proteômica (proteomic) metabólicas nas diversas etapas celulares. bem como aos estados de células e orga- nismos11 em contextos de saúde e de doença. O CONCEITO DE PROTEOMA nica.

indd 378 31/05/12 08:48 . necrose tumoral beta). 2 (IL-2). há ativação do domínio intracelular desses últi- descoberta de novos biomarcadores para descrição fisio. no acompanhamento da evolução do tratamento11. Atual. as quais formam o dí- A fisiopatologia da sepse depende das relações estabeleci. 8 (IL-8). por sua vez. publicados entre 01/01/2000 e 01/09/2011. como as interleucinas 4 (IL-4). nos tecidos. Muitos (inibidor de NF-κB) ligada ao fator de transcrição nuclear dos aspectos atinentes ao desencadeamento dessa condi. usualmente. incluindo a sepse. cujas em outras amostras. 58(3):376-382 376_382_2739_Atualidades. mos. A interação de MyD88 de doenças. responsável pela ativação de ge- ção mórbida permanecem em aberto. Todavia. Vale ressaltar que alguns enfer- inicia pelo reconhecimento das substâncias not-self (não mos evoluem para o óbito precocemente. nos órgãos ou deve ser destacada a significativa família Toll-like. uma serina-treonina-quinase) leva a ati- PROTEOMA NA FISIOPATOLOGIA DA SEPSE vação das quinases IκKa e IκKB. (RRP). previamente. mero IkK. possibilitando o desenvolvimento de anergia 378 Rev Assoc Med Bras 2012.20. 10 (IL-10). tais como inter- ração patógeno/sistema imune inato. em âmbitos fismos nesses receptores parecem ter implicação decisiva fisiológicos e patológicos. e choque séptico17. o que culmina na ativação da proteína MyD88 (pro- patológica têm sido relatados para uma ampla variedade teína de diferenciação mieloide)18. células dendríticas e neutrófilos16. RODRIGO SIQUEIRA-BATISTA ET AL. esforços para aplicar análises proteômicas na Toll-like. de inúmeras citocinas proinflamatórias. determinam a produção e secreção a gênese da sepse. foram utilizados os seguintes limites: artigos em humanos. Em paralelo com o avanço da Após a ligação envolvendo PMRP e os receptores proteômica. Os mais potentes e melhor estudados PMRP são massa. TNF-α (fator de necrose tumoral alfa) e TNF-β (fator de gulação. em decorrência próprias do hospedeiro) do micro-organismo. cruciais te produzidas – sobretudo em situações nas quais o en- para a virulência e/ou sobrevivência do organismo – iden. as principais técnicas usadas na proteômica são germinativa e expressas pelas células do sistema imune a eletroforese bidimensional (2D) e a espectrometria de inato15. «desconecta» a proteína IkB das entre o agente etiológico e o hospedeiro8. nhecimento. os cha. evento considerado crucial no de- A interação entre agente microbiano e hospedeiro se senvolvimento de sepse. empregando termos em língua inglesa. de intensa reação inflamatória sistêmica. moléculas são identificadas na superfície de monócitos. as endotoxinas de bactérias Gram-negativas. advêm díspares eventos de ativação celular e enquanto microarrays permitem somente a medição dos produção de citocinas. elucidar macrófagos. provavelmente pela nes para transcrição de inúmeras citocinas partícipes da falta de uma compreensão mais adequada dos aspectos síndrome de resposta inflamatória sistêmica19. adultos (maiores de 19 anos).14. Tabela 1 – Número de artigos obtidos na pesquisa bibliográfica Base consultada Estratégia de busca PubMed* SciELO Estratégia 1 (sepse + proteômica) 69 1 Estratégia 2 (sepse + proteoma) 40 0 Estratégia 3 (sepse + proteômica + diagnóstico) 34 0 Estratégia 4 (sepse + proteômica + tratamento) 26 0 Estratégia 5 (sepse + proteômica + desfecho) 5 0 Estratégia 6 (sepse + proteômica + prognóstico) 0 0 *Para pesquisa na base de dados PubMed. sendo pensadas em termos (1) da inte. parede celular de tais células e formadas principalmen- gem de peptídeos cujo escopo é documentar a distribuição te por lipopolissacarídeos (LPS). (2) da inflamação/ leucinas 1 (IL-1). especialmente a rio6. são igualmen- de agentes etiológicos. identificando e caracterizando pro. 12 (IL-12). cujo resultado é a SIRS. Comparado com a técnica de na possibilidade – ou não – de evolução para sepse grave microarray genômico. 6 (IL-6). as quais são. a abordagem proteômica tem a van. com a enzima IRAK (quinase associada ao receptor de   interleucina-1. fermo sobrevive aos distúrbios relacionados à inflamação tificados pelos receptores de reconhecimento de padrão sistêmica –. (PMRP) – moléculas não variáveis expressas por grupos 5 (IL-5). Algumas hipóteses têm sido propostas para explicar liberação de NF-κB. Os eventos intracelulares descritos. 11 (IL-11) e 13 (IL-13). bioquímicos da resposta imune e do processo inflamató. Continuamente a essa fase de reco- tagem de ser capaz de detectar. que. Em relação aos RRP. derivadas da A apreciação proteômica pode ser vista como uma tria. Polimor- suas interações e papéis na biologia da célula. estruturas celulares codificadas pela linhagem mente. peptídeos. finalmente. conforme já discutido em publicação anterior8. teínas individuais de interesse para.13. genes que já estão definidos. cito- mados padrões moleculares relacionados aos patógenos cinas anti-inflamatórias. mediação imunológica adaptativa e (3) do sistema de coa. NF-κB (fator nuclear κB). global de peptídeos nas células.

dos pacientes. apropriada – mormente a instituição de antimicrobia- dos têm sugerido a presença de polimorfismos genéticos nos – que passa a ter grande impacto na sobrevida dos específicos durante a sepse27. bulina de cadeia leve kappa região VLJ. interferon delta (INF-δ) e IL-2. aqueles pró- cróticas ou bactérias. ativam o fenótipo linfocitário Th2. estudos de expressão gênica recebe diferentes denominações: imunoparalisia. torial da sepse. apolipoproteina A-1 (duas isoformas). proteína dedo mos que sobrevivem e aqueles que evoluem para o êxito de zinco 222. na qual há pre. assim como uma proteína não pregados para elucidar perfis proteicos em doentes com expressa em todos os estágios. são diferencial de proteínas no soro de enfermos sépticos. quer para o óbito8. Destaque-se que o diagnóstico precoce da sepse. prios das modificações pós-traducionais29. ATUALIDADES PROTEÔMICAS NA SEPSE e alentecimento da resposta aos agentes etiológicos. na sepse. após o diagnóstico de choque séptico. se. Admite-se. tal como à atuação dos monócitos/macrófagos como ativadores ocorre em análises de díspares padrões proteômicos de da resposta imune adaptativa. identificadas 14 proteínas expressas diferencialmente en. ao fagocitarem células ne. A regulação de tal equilí. do metabolismo lipí. Isso pode ser protídeos identificados está envolvida no sistema imune verificado em amostras coletadas nas primeiras 12 horas com predomínio das proteínas inibidoras de proteases25. incluindo a proteína do de intensa “dissonância imunológica”. A proteína C reativa (CRP)30. há alterações de proteínas espe- do complemento e da coagulação. a sepse ainda permane. PRO 2619. resposta pró-inflamatória22. é. urgentemente necessária. Vários estu. letal. 58(3):376-382 379 376_382_2739_Atualidades. através de técnicas proteômicas. Os padrões de RNA não refletem bem o padrão brio pró/anti-inflamatório é complexa. o uso articulado mentos para a compreensão desta complexa teia fisiopa. imunoglo. Mais recentemen- nossupressores23. cíficas entre sobreviventes e não sobreviventes no 28º dia. utilizando uma abor- empregado a tecnologia de microarray para comparar dagem proteômica denominada SELDI-TOF MS (do Rev Assoc Med Bras 2012. De fato. o qual. de forma cada vez mais con. importância terapêutica32.26. para a resolução. como interferon alfa tem sido investigado como mediadores bioquímicos e/ (INF-α). permitindo o início imediato da terapia ce uma entidade de difícil manejo clínico2. Al- sença simultânea de SIRS e CARS no mesmo paciente24 – é guns biomarcadores de sepse. imunoglobulina Em primeiro lugar. novos mediadores envolvidos na fisiopatologia da sepse. mica das respectivas proteínas características do quadro inflamatória compensatória)21. Em um estudo piloto realizado por Paiva et al. Além disso. de modo que a modulação dessas substâncias pode ter Os estudos proteômicos têm trazido importantes ele.31 e a IL-6 são consideradas úteis no diagnóstico. cabendo destaque proteômico – ou seja. as tentativas de demonstrar a utilidade clínica como sistente. Outras investigações têm enfermos33. os macrófagos induzem os linfó. bem como de novos biomarcadores que permitam um em diferentes estágios de gravidade (sepse. com precisão. Tais estudos apontam dois resultados importantes. ba- PROTEOMA E DIAGNÓSTICO DE SEPSE seado somente em elementos clínicos pode ser muito Apesar da expressiva produção de conhecimento acerca difícil. Paugam-Burtz et al. que o balanço entre mediados proinflamatórios biomarcadores de sepse foram documentadas para uma e anti-inflamatórios – podendo-se chegar a uma situação ampla variedade de moléculas. sugerindo a existência de sepse e choque séptico. a procalci- que leva à produção de IL-4 e IL-10. de múltiplos marcadores moleculares ou escores de prog- togênica. de sepse. a estrutura ou a dinâ- de imunodeficiência ou CARS (síndrome da resposta anti. realizou-se a identificação e a análise da expres. como as citocinas. Foram elas: amiloide sérico no mapeamento proteico eletroforético entre os enfer- A. denominada MARS grupo de alta mobilidade (HMGB-1) e os receptores de (resposta inflamatória mista antagônica).34. as quais “freiam” a tonina30. Em segundo lugar. então. Os resultados obtidos na expressão de protídeos em pacientes com choque sép- neste estudo piloto demonstram a participação das vias tico. citos a assumir um fenótipo Th1. processos regulatórios. te. a análise proteômica pode se tornar M monoclonal de aglutinação a frio e sete inibidores de um instrumento viável para excluir alterações precoces proteases – alfa-1 antitripsina25. fagocitam-se ou biomarcadores candidatos para investigação labora- células apoptóticas. sepse grave e diagnóstico mais preciso e a predição do prognóstico da choque séptico). dico e da informação genética na sepse. ainda que seja fator essencial para a abordagem da fisiopatologia e do tratamento. o que leva à liberação Um bom número de compostos de origem biológica de substâncias proinflamatórias. janela não podem prever. a apoptose é um dos bem como para o estabelecimento da gravidade da sep- significativos eventos deflagradores dos processos imu. nósticos mais precisos da gravidade permite a classifica- em busca da maior compreensão das bases moleculares ção e a previsão do desfecho da sepse8.indd 379 31/05/12 08:48 . gatilho expressos em células mieloides (TREM-1)8. de proteínas expressas –. Sem embargo. endotoxina28. Foram sepse. A descoberta de da sepse. também a chave que explica a evolução da entidade mórbida. A maioria dos em um estágio inicial de choque séptico. em os níveis de expressão de genes após a administração de um contexto típico de imunossupressão5. quer são considerados significativos mediadores do quadro. embora com algumas limitações. albumina humana. desvendando assim disparidades um possível biomarcador. Métodos de apreciação proteômica podem ser em- tre os estágios da sepse. como por exemplo.25.

As alterações que ocorrem no proteoma sérico diferentes amostras de protídeos marcados com coran- dos pacientes submetidos a CRRT não estão ainda es. 380 Rev Assoc Med Bras 2012. tanto. inglês Surface Enhanced Laser Desorption/Ionization . que normalmente estão envolvidos com a resposta do A maioria dos estudos proteômicos envolvendo sepse en. no próprio artigo. obtiveram um tratamento com CRRT e em pacientes-controle (enfermos perfil contendo cinco protídeos que identificaram a sep. Dez proteínas foram sempenha um papel na lesão relacionada à isquemia e à identificadas como sendo diferencialmente expressas du.35. com sepse. Para validar o estudo. precursor da apolipoproteína A-IV. levar a falência de múltiplos órgãos e sistemas39. cotejo entre dados proteômicos de doentes tivamente elevado no soro de pacientes antes da CRRT. Distintas células são ca- (CRRT) têm ocupado uma posição importante nas uni. O pondo comparações entre soros de enfermos sépticos e precursor do antígeno CD5-like apresentou-se significa- não sépticos. rante a CRRT. a fim de comprovar a expressão do precursor do antígeno tria de massas com ionização por dessorção a laser. mediador que desempenha um papel estratégico na sepse grave. tentando identi. RODRIGO SIQUEIRA-BATISTA ET AL. O aumento da detecção no soro insuficiência renal aguda7. albumina. em algumas cir- foca a fisiopatologia da doença e a detecção de proteínas cunstâncias. enquanto 15 foram reprimidas. são capazes de elevar os níveis plasmá- das no tratamento da sepse grave quando já sobreveio ticos de fibrinogênio41.e anti-inflamatórias desempe. sugere que as funções do nham significativos papéis no processo fisiopatológico da sistema imunológico dos enfermos foram parcialmente sepse grave e são mediadoras da resposta inflamatória. durante CRRT. podem. Muitos dos componentes da resposta imune ina- PROTEOMA E TRATAMENTO DA SEPSE ta. por- que possam servir de biomarcadores ao diagnóstico. perimentação35. real. da enzima de ativação da ubiquitina E1-like. Holly et al. remoção dessas proteínas solúveis pode ser um dos ele. sépticos sem disfunção dos órgãos e não tratados com se. mas não nos en- proteína diferencialmente expressos em comparação fermos controle37. foi realizado Western blot Time-Of-Flight Mass Spectrometry. A comparação dos perfis proteicos obtidos no gru. Muitas proteínas solúveis da isoforma gamma-A do precursor da cadeia gama do em água com ação pró. Como não há uma perfeita compreensão da no número de proteínas urinárias de ratos. Quatorze perfis O precursor do antígeno CD5-like diminuiu no soro peptídicos tiveram sua expressão aumentada no grupo durante CRRT. CRRT37.35 identificaram mudanças clarecidas. enzimas das bordas-em-escova dos rins (por crever o progresso do tratamento – Gong et al. um inibidor da meprina. 58(3):376-382 . Ainda são ra.34 destacam vas e Gram-negativas e (3) inibe a secreção de TNF-α.37 investi. essas proteínas ainda estão sendo tivo38. O fibrinogênio participa de eventos de cas proteômicas. do precursor da cadeia gama do fibrinogênio. Usando eletroforese em gel diferencial (DIGE) – mentos responsáveis por alguns dos efeitos benéficos da uma técnica proteômica em gel 2D que utiliza até três CRRT36. A restauradas37. ou seja. aguda e. proteína SPTAN1 (fragmento). Como se trata de tante na regulação dos sistemas imunes inato e adapta- um estudo preliminar. Essas duas proteínas foram detectadas nos soros po com sepse (n = 31) mostrou um total de 29 picos de dos pacientes em tratamento com CRRT. sepse grave e choque séptico. CRRT). proteína MYH2. tendo minorado após o tratamento de CRRT37. du- ros os estudos de tratamento da sepse que utilizem técni. portanto. Isso demonstra o uso potencial da me- Dentre as mesmas. Homo sapiens sapiens à infecção. causar danos às células e aos tecidos e. pazes de produzir citocinas que induzem reação de fase dades de tratamento intensivo (UTIs). reperfusão renal. uma isoforma gamma-A da induzida por sepse (mormente no choque séptico). tes fluorescentes –. A inibição da meprina previne lesões rante o tratamento de CRRT. exemplo meprina 1-α) e inibidores de serino proteases. Essa proteína (1) exerce um papel impor- séptico. garam as alterações do proteoma de doentes com sepse A meprina é uma enzima da borda-em-escova que de- grave em tratamento com CRRT. sendo emprega. homeostasia e é um reagente de fase aguda estando ma- As técnicas de terapia contínua de substituição renal jorado nos casos de estresse40. pro. precursor da cadeia gama do fibrinogênio no soro. (2) induz agregação de bactérias Gram-positi- identificadas conforme Paugam-Burtz et al. incluindo CRRT – e não existe biomarcador específico para des. por hipoxia in vitro e injuria por isquemia e reperfusão 1B1 – uma variante da antitrombina III –. pre. com as do grupo não séptico (n = 30). isoforma 2 O tratamento com actinonina. sete proteínas estavam diminuídas no prina como biomarcador da sepse e alvo para fármacos soro e três foram aumentadas durante o tratamento com no tratamento da sepse. CD5-like e da isoforma gamma-A do precursor da cadeia çada por superfície) para a avaliação do soro de pacientes gama do fibrinogênio nas amostras séricas dos doentes em cinco dias após o transplante de fígado. espectrome. borda-em-escova dos rins após insuficiência renal agu- cursor da apolipoproteína B-100. O incremento dessa enzima reflete a perda da tígeno CD5-like. proteína de preveniu a insuficiência renal aguda em animais de ex- 36 kDa. ficar protídeos que sejam especificamente expressos nessa Observou-se incremento da isoforma gamma-A do condição mórbida ou em uma de suas fases. destacando-se sintaxina . fibrinogênio. in vivo42. precursora do an.

atenção plena ao paciente. Tais elementos podem ser estudados por meio de técni. Atheneu. com efeito. ainda que a melhor estratégia níveis das proteínas e as concentrações plasmáticas de to- para essa finalidade seja o escore Sequential Organ Failure das as citocinas e mediadores humorais avaliadas estavam Assessment (SOFA). elevadas. p. contribuindo para a necessária terapêutica47. – empregáveis para a compreensão de diferentes condi- xistente (O = falência orgânica)46. Sogayar AMCB. exemplo. cardiovascular. para os quais novas investigações qualidade e abrangência da injúria (I = insulto). Gomes AP. Sepse e choque séptico.  Desde esta perspectiva. 2003. assim como níveis de procalcitonina e proteína C reativa. Calixto-Lima L.10:136. de modo objetivo. Rev Assoc Med Bras 2012. Hanumanthu GR. 2006. as quais. 9. as concen- a revisão. 2001 vestigações têm demonstrado que na fase inicial da sepse SCCM/ESICM/ACCP/ATS/SIS International Sepsis Definitions Conference. Siqueira-Batista R. em conjunto com APACHE II. cardiovasculares. enigmática sob diferentes pontos de vista. à acurá- cativo para a avaliação dos enfermos com sepse é o con. se relacionam ao desconhecimento de muitos aspectos do incluindo condições predisponentes (P = predisposição). Pedroso ERP. Rio de Janeiro: Rubio. hepático. Moss M. à condição mórbida. in. Poucos são os estudos de prognóstico da sepse que 6. procalcitonina e proteína C – foram e renais43. The epidemiology of sepsis in the United States from 1979 through 2000. que seleciona seis sistemas orgânicos (res. destacam-se os estudos proteômicos letéria) e grau da disfunção orgânica resultante ou pree. pacientes com sepse – com e sem choque séptico –. No entanto. fundamentado em elementos multivariados. Foi + proteômica + prognóstico não redundou na obtenção realizado por Oberholzer et al. Fernandes Júnior CJ. Na apreciação do prognóstico do enfermo com sepse. tamento. recentes in. As concentrações de IL-6 e sTNFR I – mas não hematológicas. já demonstram sando o desenvolvimento de investigações que se destinem grande potencialidade para se tornarem ferramentas úteis à compreensão da fisiopatologia e ao aprimoramento da ao manejo dos enfermos. 5. ou MODS32. mações imunológicas e no status inflamatório do paciente. Hotchkiss RS. permitindo que se meça a gravidade da si. Proteomics to study genes and genomes. Sepse. O referencial PIRO é ções infecciosas –. ainda se mantém enfermos com sepse45. 2011. apesar de se tratar de uma condição clínica ex- a esses escores possa ampliar a avaliação prognóstica nos tremamente frequente na prática clínica. Geller M. pacientes que sobrevivem. 3. pode-se utilizar o escore Acute Physiologic Chronic Health Foram estabelecidas correlações desses parâmetros com os Evaluation (APACHE II). a qual formações foram coligidas dos artigos selecionados para avaliou. Karl IE. especular que há uma A pesquisa bibliográfica realizada com os termos sepse reação imunológica mais propícia em sobreviventes. 2009. vação de proteínas envolvidas com citotoxicidade mediada 2000. Akamine M. ver o desfecho clínico em pacientes com sepse grave por das de forma fácil. Gene. Sepse: atualidades e perspectivas. 2003. Crit Care. ou caso esteja combinada com os escores APACHE II disfunção orgânica na admissão e no acompanhamento. Reddy R et por monócito independente de anticorpos. tipo e poderão.348:138-50. IL-10. tos bastante obscuros em relação à fisiopatologia. hepáticas. propagação de al. p. no prognóstico e no desfecho da sepse. 3ª ed.364:13-8. Siqueira-Batista R. N Engl J Med. De fato. Ensino de imunologia na educação médica: lições de Akira Kurosawa.61-78. a proteômica31. Martin GS.405:837-46. Rev Bras Educ Med. Recentemente. Angus D. ATUALIDADES PROTEÔMICAS NA SEPSE PROTEOMA E PROGNÓSTICO DA SEPSE linfócitos B. Mendonça EG et al. CONSIDERAÇÕES FINAIS derado que a associação de biomarcadores de inflamação A sepse. 2006. os pesquisadores buscam marcadores para se determinar o prognóstico da doença. à terapêutica e ao prognóstico – os quais ceito PIRO. o Multiple Organ Dysfunction significativamente maiores em pacientes que morreram do Score (MODS). 2003. Nesse domínio. sistema imunológico–. ou não. trações de citocinas proinflamatórias e anti-inflamatórias. os quais. tem-se pon. A con- piratório. Epidemiology studies in critical care. Perez MCA. Tem-se. Mann M. Siqueira-Batista R.32. renal. apesar dos resultados ainda interessante para a classificação dos pacientes sépticos. Albuquerque VS. Pessoa-Júnior VP.31:1250-6.567-90. The pathophysiology and treatment of sepsis. São Paulo. N Engl J Med. macrófagos. 2009. avaliando a deterioração das disfunções no decorrer da internação44. Condutas no paciente grave. Eaton S. Nature. como. É factível. cas proteômicas. 2. por drowicz AMC. permitindo avanços muito maiores no tra. Martin G. Crit Care Med. Pandey A. 7. neurológicas de TNF-α. Marshall JC. In: Knobel E. baseando-se nas infor. Aleksan- utilizem tais conceitos e estudos moleculares. IL-8. hematológico e centração de IL-6 é uma siginificativa candidata para pre- neurológico) e pontua cada uma das disfunções observa.33:186-90. além dos escores APACHE II e MODS. Suresh M. muito incipientes na investigação da sepse.23:207-16. vi. Fink MP. há pon- Um dos elementos que pode ser considerado signifi. trazer alguma luz.32 uma pesquisa com 124 de citações nas duas bases consultadas. Proteomic resources: integrating biomedical information in humans. 58(3):376-382 381 . ainda. REFERÊNCIAS tentando identificar a evolução da mesma e o que pode 1. Gomes AP. nos próximos anos. SOFA e PIRO. Abraham E.48. Fundamentos em infectologia. Mishra G. Levy MM. Cook D et al.348:1546-54. Mannino DM. Nesse domínio. 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