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Medicina sexual

Sexualidade em oncologia
Heloisa Junqueira FleuryI, Helena Soares de Camargo PantarotoII, Carmita Helena Najjar AbdoIII

Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo

INTRODUÇÃO infertilidade, inquietação quanto à possibilidade de recidiva,
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, sexua- incerteza sobre o futuro e sentimento de inadequação pesso-
lidade e intimidade são essenciais ao bem-estar e à qualidade al são manifestações emocionais comuns em pacientes com
de vida.1 O diagnóstico de câncer, bem como suas diferentes câncer.9-11 A despeito desse quadro, a maioria dos profissionais
abordagens terapêuticas, afetam o bem-estar psicológico e a de saúde não aborda questões relativas à sexualidade no con-
qualidade de vida do(a) paciente oncológico, de sua família texto clínico, concentrando-se nos resultados do tratamento,
e, especialmente, de sua(seu) parceira(o).2 Há evidências bem no controle de efeitos adversos não sexuais e na sobrevida
estabelecidas de que o câncer e os fatores físicos, psíquicos e do(a) paciente.12
sociais a ele associados podem resultar em prejuízos significa-
tivos à função sexual, ao estado emocional e ao relacionamen- Ciclo de resposta sexual e disfunção sexual
to do casal.3,4 O modelo tradicional para a compreensão da resposta se-
Fatores físicos, como alterações anatômicas (amputação xual foi primariamente formulado como um ciclo composto
colorretal, peniana, testicular, mamária, estenose vaginal), por quatro fases: excitação, platô, orgasmo e resolução. Tal
alterações fisiológicas (desequilíbrio hormonal, incontinência modelo preconizava que o estímulo sexual (fantasias ou sen-
urinária ou fecal, alteração de peso, fístulas, estomas) e os efei- sações) promoveria a excitação, manifestada por ereção (no
tos adversos do tratamento (náuseas, vômitos, diarreia, fadiga homem) e por vasocongestão vulvovaginal (na mulher). Se o
e alopecia) podem impedir o funcionamento sexual satisfató- estímulo fosse mantido, o indivíduo seria conduzido à fase de
rio, mesmo quando o desejo sexual estiver mantido. Apesar de platô e, na sequência, ao orgasmo, acompanhado de ejacula-
os efeitos fisiológicos tenderem a diminuir com o tempo, o ção, no homem. Sucederia, então, um período refratário (fase
dano à função sexual pode persistir por anos em sobreviventes de resolução), quando o organismo retornaria às condições
de vários tipos de câncer.5 anteriores ao início do estímulo sexual.13
Problemas sexuais não se limitam aos portadores de cânce- Numa revisão crítica desse modelo, Kaplan valorizou o de-
res genitais e de mama. Cânceres ósseo, de pele e de cabeça e sejo por sexo como “gatilho” para o início do ciclo de resposta
pescoço resultam em alterações estéticas. Linfoma e câncer de sexual, antecedendo a fase de excitação. A fase de platô não se
pulmão são altamente debilitantes. Tais condições, associadas justificaria, dado que se a excitação fosse mantida progressiva-
às sequelas do tratamento, podem causar autoimagem negati- mente, culminaria no orgasmo.14
va e disforia, além de desconforto do(a) parceiro(a), o que leva A Associação Psiquiátrica Americana adotou uma combi-
à evitação da intimidade sexual.6,7 nação dessas duas formulações, definindo o ciclo de resposta
O diagnóstico de câncer pode significar pensar na própria sexual como um esquema constituído por quatro fases linea-
morte, possivelmente pela primeira vez. Vários tratamentos res, indistintas entre homens e mulheres, o qual é admitido
são dolorosos, temidos e intrusivos, podendo minar o senso até hoje: (1) desejo (inclui as fantasias sexuais e o interesse
de integridade e de imagem corporal. A lembrança da doença na atividade sexual); (2) excitação (caracteriza-se pelo prazer e
e de seu tratamento, associada às sequelas emocionais, pertur- pelas mudanças fisiológicas associadas); (3) orgasmo (o clímax
bam o funcionamento sexual.5 do prazer); (4) resolução (sensação de bem-estar geral, relaxa-
O enfrentamento da doença é geralmente acompanhado mento e retorno às condições fisiológicas anteriores ao início
de difícil adaptação psicológica e social, tanto do(a) paciente da atividade sexual).15 Esse é o modelo que vigora e norteia as
como de sua(seu) parceira(o).8 Ansiedade, depressão, temor à classificações das disfunções sexuais atualmente.

I
Psicóloga, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Supervisora em Psicoterapia do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital
das Clínicas da FMUSP.
II
Enfermeira estomaterapeuta TiSOBEST (titulada pela Associação Brasileira de Estomaterapia) e pós-graduada em Sexualidade Humana pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
III
Psiquiatra, livre-docente e professora associada do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade
(ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.

Diagn Tratamento. 2011;16(2):86-90.

da disfunção sexual. oclusão das artérias penianas e redução dos níveis de testoste- função erétil em 60% a 90% dos casos versus 67% a 85% da.26. uso de medicamen. dificuldade de excitação (por falta de lubrificação da reação a estímulos prazerosos. Mulheres que recebem terapia hormonal podem experi- pia afeta a função gonadal. frequentemente os pacientes experimentam náuseas. Por magem e. pênis e bexiga. concorrem elementos de or.30 de mulheres e homens. em uma ou mais de suas fases.32 das quais metade não conseguia completar o intercurso. 50% a 64% apresentam a excitação. incluindo bexiga. que sexual em homens e mulheres submetidos a tratamento onco.16 Para tal situação. cirurgias e hormoniotera.26. Uma Efeitos adversos da radiação comuns em homens e mulhe- metanálise encontrou 40% a 100% de incidência de disfunção res são fadiga. (devido à quimio e radioterapia. disfunção erétil em homens e dispareunia na mulher são tecido normal.20 dolorosa. há casos em que o desinteresse por sexo ou sua anos de radioterapia para câncer cervical. estes nuindo o interesse por sexo. vulvectomia. funcionamento sexual. pode ao suprimento vascular dos órgãos pélvicos. anor- da excitação.26 Durante o curso do tratamento com agentes quimioterá.17 Ausência ou inibição do desejo em homens e mulhe. sua(seu) parceira(o) ou para o desconforto durante o intercurso e afetam o interesse para ambos. diarreia. amputações e cicatrizes interferem na autoestima e na autoi- pia). anorgasmia.29 Prevalência de disfunções sexuais em pacientes oncológicos Vários tipos de cânceres e seus respectivos tratamentos Radioterapia frequentemente se associam a alguma disfunção sexual. o efeito é Diagn Tratamento. falta de lubrificação e dispareunia picos. o que afeta a res- ser afetada por vários fatores. Alterações fisiológicas associadas à menopausa. ondas de calor. Inibição do desejo sexual. disfunções sexuais são frequentes em pacientes dade.28 Em homens.25 Cirurgia Impacto do câncer e de seu tratamento na função sexual As cirurgias frequentemente causam prejuízo à inervação e A resposta sexual. caracterizando diferentes causas a excitação. alterações fisiológicas. a falên. resultando em disfunção erétil. pode ocorrer atrofia testicular. atrofia vaginal e dispareunia. Pacientes submetidos à prostatectomia radical referiram dis. em mulheres.27 Em mulheres. no tratamento estão associadas à falta de desejo sexual.16(2):86-90. tanto em homens quanto crônicas debilitantes ou incapacitantes.26. levando à inibição do desejo e mentar problemas musculoesqueléticos. a quimiotera. .27. rona. vômitos e danos à pele. Em pacientes com câncer. náusea. vaginal) e consequente dispareunia. tais como proc- de frequência sexual e intimidade foi relatada por 59% e 79% tite.27.33 Dor pós-cirúrgica e fadiga fatores tendem a coexistir no curso da doença.26. 85% das mulheres evitação (por temor à dispareunia) persistem durante dois a queixaram-se de baixo ou nenhum interesse sexual. desejo e lubrificação.19 Disfunção erétil Em homens. para si.34 oncológicos. em engajar-se em atividade sexual e a habilidade de manter dem somática e/ou psíquica.30 Em homens dificuldade de excitação.25. distúrbios ejaculatórios e infertilidade são complicações sexuais comuns em homens submetidos às Quimioterapia cirurgias colorretal. provoca queles tratados com radioterapia para tumor de próstata. tais como presença de doenças posta fisiológica ao estímulo sexual. A produção de esteróides sexuais é afetada em tos que inibem a libido. casos de orquiectomia. por vezes. ovariectomia e adrenalectomia.18 Disfunção erétil. a irradiação pélvica pode levar à ejaculação acomete 75% dos homens tratados de câncer colorretal. respectivamente. bem como disfunção erétil devido a alterações hormonais e neuropatia autonômica. diosamente meses após o tratamento. 35% de cinco anos após a radioterapia. perda da sensação de bem-estar e gasmia. de resposta sexual podem desencadear as disfunções sexuais.33 Em homens. cistite e estenose vaginal. no senso de feminilidade ou masculini- essa razão. frequentemente acometem mulheres submetidas à histerecto- vômitos. contribuem sexual de forma satisfatória. há risco de as disfunções sexuais mais comuns. dependendo da dose e do agente utilizado. bem como resultar em lesão ao nervo pudendo. próstata. reto e vagina. Excisão de órgãos.22 danos vasculares ou nervosos que dificultam a lubrificação. Heloisa Junqueira Fleury | Helena Soares de Camargo Pantaroto | Carmita Helena Najjar Abdo 87 Alterações ou bloqueios em uma ou mais das fases do ciclo cia da função ovariana pode induzir à menopausa prematura.24 Após dois e mulheres. dimi- tados emocionais negativos.26 Hormonioterapia Tanto em homens quanto em mulheres. a libido e o lógico.18 Ausência ou diminuição complicações que prejudicam o desejo sexual. o orgasmo e causa dispareunia. Quando a radiação danifica áreas com res. no manejo da sintomatologia e no pós-tratamento. afetando a fertilidade. 2011. Dessas mulheres. Em mulheres com câncer de mama.27 variam em intensidade e duração. 50% apresentavam estenose vaginal.23. exercem impacto negativo sobre a autoimagem. de testículo. Esses efeitos adversos mia.31 Em mulheres.10. enquanto o prejuízo à função dificuldade de lubrificação e 50% de dispareunia moderada a sexual (por danos vasculares ou nervosos) se manifestam insi- grave. alopecia e mucosite. mastectomia e ostomia. fadiga. tais como fal- definidas como a incapacidade do indivíduo de realizar o ato ta de lubrificação. cirurgias e es.21.

2007. Ostermann HJ. os parceiros A maior sobrevida de pacientes com câncer. três dimensões: 1. Randle J. 2010. obtida pelos que enfrentam a doença podem se sentir isolados.24(2):71-9. Biglia N.18(6):659-65. Sexuality after breast cancer: a review. 1966. 2002. Semin nhamento do(a) paciente com câncer. (Dis)embodying que o bem-estar psíquico do parceiro cuidador também é gender and sexuality in testicular cancer. Sexuality in chronic lung disease. em caso cancer patients.16(2):86-90. condição. social.26(3):241-8. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Soc Sci Med. sentimentos e não compartilharem a mesma necessidade de intimidade.12(3):267-79. Sexual life after breast cancer. An approach to evaluation of sexual problems ser abordados os aspectos objetivos (alterações corporais e in the cancer patient. J Sex Marital Ther.60(1):1-12. pações com a vida sexual. 6. Humphris GM. Butow P. 13. inapropriado ou não possível fisica. adaptação a essa nova realidade.58(9): 1597-607. 1997. Brown incapacidade e dor.38 Portanto. influência de medicações) e também os subjetivos. os(as) pacientes frequentemente não expressam suas preocu.78(3):298-304. ansiosos ou recentes avanços de diferentes abordagens terapêuticas. Organização Mundial da Saúde.19. para diagnóstico de câncer e seu tratamento. a adaptação à nova imagem corporal e ao estilo de vida comportamento da CID-10. alterado é facilitada se houver orientação adequada. Post-treatment sexual adjustment following cervical and endometrial cancer: a qualitative insight.28 REFERÊNCIAS A resposta afetiva às condições impostas pela doença e o 1.38 além da resiliência do(a) paciente e do(a) Quando a frequência sexual é interrompida.66(4):397-407. intimidade e câncer nesse processo. também.37 Cabe ressaltar. disfunção erétil e anorgasmia. Bower J.7(5):1891-900. outro lado. além da atenção às re. Goodell TT. Gurevich M. biológicos. Soc Sci Med. de enfrentamento. alterações fisiológicas e estéticas. Kourlesis SM. Porto Alegre: na dinâmica do relacionamento). As abordagens atuais para avaliação da disfunção sexual são 10. Boston: Little. 4a ed. 2005.42 Devem 17. Bishop S. inadequados ou emocionalmente distantes. grau de comprometimento. Soc Sci Med. estilo 1977. no acompa. Moggio G. implica- cancer: a review. Por nou essencial a intervenção ampla. Classificação de transtornos mentais e de gicas. Atuação do profissional de saúde Psychooncology.9 Saliente-se que 7. Diagn Tratamento. Mercadante S. The World Health Organization Quality of Life Assessment (WHOQOL): position paper from the World Health Organization. visando o bem-estar físico. 16.31(1):46-50. Brown H. Living with a stoma: a review of the literature. Vitrano V. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. todos os membros da Nurs. and Co. Juraskova I.19 4. ansiedade e depressão. 2003. Ussher JM. . de disfunção.41(10):1403-9. caso o(a) paciente que ambos possam desenvolver aceitação e adaptação às alte- oncológico(a) e sua(seu) parceira(o) deixarem de comunicar rações provocadas pelo câncer e às sequelas dos tratamentos.. outras formas de contato físico também diminuem. referen- do. Effects of surgical and adjuvant therapies for breast cancer on sexuality. tal como se o(a) paciente apresentar maior necessidade the relationship between the psychological distress of cancer patients and de atenção e contato físico não sexual.26 tes às dimensões psicossociais e relacionais. viii. 2011.41 Após cirurgias oncoló. paciente e da(o) parceira(o) à doença (resposta afetiva. tor- deprimidos. Associação Psiquiátrica Americana. Um grande desafio é atender às questões rela- Dificuldades no relacionamento podem surgir após o cionadas à sexualidade do(a) paciente e da(o) parceira(o).36 suas parcerias. Derogatis LR. Human sexual response. afetado. reação do(a) 14.37 Artmed. no contexto parceiro(a) para superação das limitações inerentes à nova do câncer. intensi. A meta-analytic investigation of casal. Tan G. equipe que atende esse(a) paciente devem estar preparados 9. and body weight. Nurs Clin North Am. imagem corporal e bem-estar geral). Macfarlane G. et al. Masters WH. 2010. 5. CA Cancer J Clin. Monga TN. sendo reportadas inibição da libi. impacto da imagem corporal e alterações 15. Kaplan HS. Peano E.14(1):74-81. idade. CONCLUSÃO mente. Porto Alegre: Artes Médicas. podem dificultar a their carers. Support Care Cancer. 2004. Nyhof-Young J.88 Sexualidade em Oncologia similar ao da orquiectomia.39 Med.43 A qualidade do relacionamento anterior à doença é um fator determinante Sexualidade. ções de cada tipo de câncer (risco. Arch Phys Med Rehabil. A nova terapia do sexo. também houver avaliação da função sexual e. Hodges LJ. recomendação de tratamento. 1993. 2008. 2005. Perz J. 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afetam o bem-estar psicológico e a qualidade de vida do(a) paciente oncológico. excitação. Em pacientes com câncer. no manejo da sintomatologia e no pós-tratamento. 2011. Diagn Tratamento. ao estado emocional e ao relacionamento. visando o bem-estar físico. de sua(seu) parceira(o). A maior sobrevida de pacientes com câncer. RESUMO O câncer.16(2):86-90. Por essa razão. Na maioria das vezes. Alterações ou bloqueios em uma ou mais das fases do ciclo de resposta sexual (desejo. resolução) podem desencadear disfunções sexuais. Qualidade de vida. . bem como suas abordagens terapêuticas. o controle de efeitos adversos não sexuais e a sobrevida do(a) paciente. para que ambos possam desenvolver aceitação e adaptação às alterações provocadas pelo câncer e às sequelas dos tratamentos. orgasmo. não são abordadas questões relativas à sexualidade no contexto clínico.90 Sexualidade em Oncologia PALAVRAS-CHAVE: Oncologia. no tratamento. social. as alterações físicas. Para tal situação. o uso de medicamentos que inibem a libido. concorrem elementos de ordem somática e/ou psíquica. especialmente. Comorbidade. de sua família e. tornou essencial a intervenção ampla. Sexualidade. a presença de condições debilitantes ou incapacitantes. Um grande desafio é atender às questões relacionadas à sexualidade do(a) paciente e de sua parceria. as cirurgias e os estados emocionais negativos tendem a coexistir no curso da doença. disfunções sexuais são frequentes em pacientes oncológicos. As abordagens atuais para avaliação da disfunção sexual são baseadas em modelos que combinam aspectos psicológicos e biológicos. valorizando-se apenas os resultados do tratamento. relacional e sexual desses pacientes e suas parcerias. Terapêutica. psicológico. obtida pelos recentes avanços de diferentes abordagens terapêuticas. podendo resultar em prejuízos significativos à função sexual.