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Interação em Psicologia, 2003, 7(1), p.

9-17 1

Enurese na adolescência: estudo de caso com intervenção comportamental
Noel José Dias da Costa
Edwiges Ferreira de Mattos Silvares
Universidade de São Paulo

Resumo

Um relato de caso de tratamento em terapia cognitivo-comportamental de dois adolescentes que
apresentavam enurese noturna é descrito. Um padrão usual de intervenção clínica cognitivo-
comportamental foi empregado tendo o aparelho de alarme de urina brasileiro como adjunto
terapêutico. Primeiro, uma avaliação comportamental foi desenvolvida através de entrevista com o
adolescente e com os familiares, aplicação de inventários e automonitoria das molhadas noturnas para
construção de uma linha de base do controle urinário. Depois, foram processadas sessões individuais
com os adolescentes e seus familiares. As sessões terapêuticas foram semanais, para o participante e
seus pais, separadamente. Os questionários aplicados ao início e final do trabalho foram: o CBCL
(Child Behavior Checklist, Achenbach, 1991), a Escala de Intolerância (Morgan & Young, 1975), o
Formulário de Avaliação de Enurese (Blackwell, 1989), a Entrevista Semi-Estruturada de Butler
(1987). O registro de freqüência de molhadas foi obtido durante todo o tratamento. Utilizou-se o
treino familiar em resolução de problemas, do modelo triádico de atendimento comportamental,
considerando-se diversas variáveis cognitivas além das dificuldades específicas do adolescente. A
freqüência inicial de “molhadas à noite” caiu de 3-4 vezes por semana para zero, ao cabo de oito
semanas. O critério de alta de oito semanas consecutivas sem molhadas noturnas foi alcançado para os
dois adolescentes. Os resultados indicam a utilidade desta metodologia como um potente instrumento
para atender adolescentes com essa queixa.
Palavras-chave: aparelho de alarme; enurese; adolescência.

Abstract

Enuresis in adolescence: behavioral intervention case study
This describes a case study report on cognitive-behavioral therapy of two adolescents with nocturnal
enuresis. The treatment followed the usual pattern of cognitive- behavioral intervention, using a
Brazilian designed urine alarm device as a therapeutic adjunct. Firstly a behavioral assessment was
conducted of interviews with the adolescent and with his/her parents, application of inventories and
self-monitoring of wet nights in order to define a urine control baseline. Secondly, therapeutic
sessions on cognitive behavioral orientation were developed individually and on a weekly basis, for
both participants (adolescent and his parents, separately interviewed). The applied questionnaires at
the beginning and at the end of the study were the CBCL (Child Behavior Checklist, Achenbach,
1991), the Scale of Intolerance (Morgan & Young, 1975), the Blackwell (1989) Form to evaluate
enuresis (Blackwell, 1989), and Semi-Structured Interview of Butler (1987). Self monitory of wet
nights was followed during treatment. Parent training on resolution of the problem was selected as a
model for cognitive-behavioral intervention and several cognitive variables besides the adolescent’s
specific difficulties were focused upon. The frequency of wet nights fell from 3 to 4 per week to zero,
after eight weeks. The criterion of eight consecutive weeks without wet nights was reached by both
adolescents. The results show the usefulness of this methodology as a powerful instrument to help
adolescents with this particular problem.
Keywords: urine alarm device; enuresis; adolescence.

A enurese é considerada como um ato de micção que requer tratamentos médico-psicológicos (Mellon
repetida e inadequada (Souza, Oliveira & Von Poser, & Houts, 1995).
1995) e se refere ao urinar acidental ou incontrolado O DSM-IV estabelece quatro critérios para
(Mellon & Houts, 1995) sendo definida diagnóstico da enurese: a) micção repetida, diurna ou
funcionalmente como “o molhar-se que ocorre na noturna, na cama ou na roupa; b) a micção deve
ausência de patologia urológica ou neurológica” ocorrer no mínimo duas vezes por semana por pelo
(Doleys, 1977). É enquadrada pela psicopatologia menos três meses, ou então causar um sofrimento ou
atual como uma desordem funcional de eliminação prejuízo significativo no funcionamento social,

uma psicológico. complexas. (Houts. angústia e ansiedade diante de um meninos e 3% das meninas (Oliveira. Os pais também podem crianças de idade pré-escolar. pode ser primária (contínua. nós ainda estamos muito longe período de pelo menos seis meses (Doleys. marcado sobre a dinâmica familiar e as formas de tratamento para esta condição não podem ser A Relação Familiar e a Enurese ignoradas. 2003. As associações são condição geral (por exemplo. da enurese secundária (Gontard. espinha bífida. tem servido como acordada) e noturna ou durante o sono (ocorrendo à embasamento para progressos posteriores. Vários A enurese pode ser classificada pelo momento em aspectos do sistema nervoso central. as crianças afetadas por esta condição estima (Silvares. o fato de a sido classificada em diurna ou em vigília (ocorrendo enurese ser uma condição heterogênea. além de obrigá-lo a manter o serem suportivos. que se tornam intolerantes à enurese noturna (Aberastury & Knobel. 8. pares o seu grupo de referência? Este. Enurese e adolescência Enquanto o problema da enurese não é resolvido. a enurese pode ter um efeito tratamento é imperioso. tem sido vez que as limitações impostas pela enurese implicam reportada depois de tratamentos bem sucedidos. persistente ou cromossômicos. incluindo que ela ocorre na vida da criança e o momento do dia capacidade de excitação e reflexos. 1999). 1991). O ato de urinar na cama pode se tornar um fator As estatísticas norte-americanas apontam 5 desencadeante de problemas emocionais para o milhões de crianças sofrendo de enurese noturna adolescente. contudo. recebendo impacto negativo sobre sua auto- estes autores. acima “segredo” pelo receio de rejeição do grupo de 30%. estão em foco. tais como ansiedade. diuréticos) ou a uma cromossomos n. onde há na cama. Tomando-se o primeiro relação entre a enurese e diferentes marcadores critério. Felizmente. controle vesical (continência urinária) em uma idade Djurhuus e Rittig (2002). se evidencia pela falta do Lehmkuhl. Apesar de subordinado a afirmam que um dos fatores etiológicos da enurese processos neurofisiológicos de amadurecimento. acabam dormindo em colchões molhados e dificuldade de acordar. por ter maior complementam os autores. Segundo sofrem. 1992). enquanto a criança dorme ou deveria estar dormindo). 1999). Alexander & Este distúrbio. que nesse período evolutivo tem nos emocionais e baixa auto-estima. vergonha. em revisão da literatura. viajar em crianças. 12 e 13. Para eles. a “onset”. O estudo da anos na cultura ocidental (Oliveira. quando a criança está ou deveria estar pesquisas diferenciadas. 1996). ela tem desconfortante. Então. com fatores psicológicos ocorrendo junto transtorno convulsivo) (American Psychiatric com a enurese. sofre ainda mais.2 Enurese na adolescência acadêmico (ocupacional) ou outras áreas importantes mesma é normal. tristeza. 1997). (7)1. jan. bem como envolvidos com a etiologia Association. portanto. no funcionamento discernimento que as crianças. que requer durante o dia. p. e a no qual ocorrem os episódios de “molhadas” genética molecular tem trazido firmes evidências da (episódios enuréticos). há um número significante. afetando 9-13% das crianças de nove anos e excursões escolares etc. Estudos também têm demonstrado uma exclusivamente aos efeitos fisiológicos diretos de uma ligação entre a enurese noturna e regiões dos substância (por exemplo. impedimento de realizar enurese noturna é marcadamente prevalente em atividades. diabete. envolvendo 7% dos sentir vergonha. com problemas adolescente. c) é esperado que a continência todos os estágios do sono. fato que não conseguem explicar: As queixas em torno da enurese costumam ser a Etiologia dificuldade que os pais enfrentam em acordar à noite A enurese noturna caracteriza-se por uma interação numa tentativa de prevenir que a criança molhe a altamente complexa entre fatores orgânicos e cama. A enurese é um problema comum entre desânimo e auto-estima baixa. e o desconforto das crianças que. a arquitetura do sono em si com cheiro de urina (Oliveira. portanto. Uma melhora. ao urinarem psíquicos. Ainda segundo Djurhuus e Rittig (2002). Epidemiologia outros problemas comportamentais vão se ampliando Butler. noite. apesar de a maioria dos pais atividades sociais. Se a criança e sua família 1-2% dos adolescentes e adultos jovens. o de seus filhos. A despeito do sono profundo. 1977). regressiva ou adquirida) – no caso de a despeito dos avanços recentes em nosso entendimento continência já ter sido verificada na criança por um sobre enurese noturna. 9-17 . Holland e Robinson (2001) afirmam que a (discriminação social. 1999). e episódios enuréticos ocorrem em na vida do indivíduo. incluindo a auto-estima. o que dizer então do podem se tornar isoladas socialmente. como dormir na casa de amigos. da completa compreensão desta condição cientificamente intrigante e socialmente Quanto ao momento do dia dos episódios. 1994). crônica) – no caso de a criança nunca ter apresentado o controle vesical – ou secundária (descontínua. noturna é a deficiência na secreção da vasopressina existem variações culturais relacionadas à idade ideal mas que outros mecanismos etiológicos atuam para aquisição do mesmo – geralmente entre 3 e 5 concomitantemente no organismo.). em que já se deveria tê-lo. a impossibilidade da participação em algumas Butler (2001) relata que. Interação em Psicologia. capacidade de armazenamento da bexiga tem ganho notoriedade pois este fator tem provado ser um dos Tipos maiores preditores da resposta ao tratamento./jun. Mudanças no ritmo ocorra com a idade cronológica de no mínimo cinco circadiano com enurese noturna têm sido muito anos: d) a incontinência urinária não se deve relatadas.

(7)1. tais como treinadas com o aparelho. crianças tratadas sem o de tempo crescente a cada nova micção. Essa participação Aparelho de Alarme implica atitudes de acolhimento. de prevalência achado aos 13 anos (2%) é similar à durante o urinar. compreensão e Wille (1986) comparou o tratamento feito com cooperação para com o adolescente que necessita de aparelho de alarme para enurese com a administração reforçadores para boa adesão ao tratamento. a auto-imagem associada a um estigma e a tratamento mais eficaz. estabilização do músculo da bexiga (Houts. independente de idade. (2000) cama”. como apresentam Laberg e cols. p. acordam no meio da noite consiste em reter-se a urina por um período de tempo para urinar no banheiro. espontânea./jun. As perdas experimentadas pelo adolescente Van Kampen (2002) sugere que a terapia de amplo que se vê limitado em seus relacionamentos. e combinações de terapia do sucedido do que o das crianças que receberam outros tratamentos. a terapia alimentar. Em deve ser crescente a cada nova micção. que é de 15%. Segundo Silvares grupo que utilizou o aparelho de alarme. O follow-up de crianças tratadas disto. ao receberem alta. efetivos do que os tratamentos farmacológicos. acordam no meio da noite para urinar. Duas com aparelho de alarme diminuíram o número de formas bastante conhecidas desde a implantação do noites em que acordavam molhadas. além das Pesquisas recentes sobre a etiologia e dificuldades específicas da criança (como por patofisiologia do problema oferecem promissoras exemplo: conflitos conjugais). 9-17 . O segundo. O familiar. utilizou-se o modelo triádico de freqüência de declínio na taxa de enurese foi entre o atendimento comportamental. Ao longo do (1998). o hormônio antidiurético (ADH). na qual evitam-se alimentos com o aparelho de alarme foi quase duas vezes melhor diuréticos. como no treinamento de retenção. como se sendo o primeiro o processo pelo qual. Tratamento Este último mecanismo de ação pode explicar o fato Entre as técnicas de tratamento para enurese de que. 2003. de desmopressina. 42% das crianças que receberam intervenção possíveis e desejáveis para as desmopressina e 82% das crianças que foram tratadas especificidades das diferentes famílias-clientes. ao urinar-se. 1994). informações recentes sobre Interação em Psicologia. de se considerar outras variáveis. é o casa. O autor encerra seu texto 1966) e b) Contrato de Contingências (Miller & dizendo acreditar que o alarme de enurese é a primeira Kelley. pode aumentar a produção de ADH prevalência de 1. Há também o particular. jan. Além tipo de intervenção. esses aspectos tornam imperiosa a condicionamento e desmopressina são usadas para o participação dos mediadores (pais ou responsáveis) no tratamento de enurese noturna (Moffat. todos esses cliente. possibilitando a retenção de urina através da familiar em crianças e adolescentes até 11 anos. envolvendo aparelho de alarme para urina. crianças existem as de terapia comportamental. musculatura da bexiga ao preenchimento desta com inclusive a enurese. em nossa experiência clínica. surgiu outra pistas para o entendimento de como os tratamentos modalidade: c) Treino Familiar em Resolução de com o alarme-urina produzem efeitos positivos e Problemas. Além disto. 1997). Enurese na adolescência 3 Dentre outros. aumentassem sua capacidade de retenção de urina na retem-se a urina após o primeiro jato por um período bexiga. mas quando não for possível o apenas as variáveis: comportamentos inadequados e as acesso a ele. de fazer passeios em que tenha de dormir fora de sua treino de retenção de urina e terapia motivacional. processo. Este Tratamentos psicológicos são geralmente mais período de tempo. superiores aos demais métodos atualmente A necessidade da participação dos pais e da família disponíveis. Shweid e Bijou.5% a 3% achado na população endógeno. tornam imperativo o envolvimento dos pais no processo. cada vez que se manifeste o desejo de urinar. O estudo envolver o condicionamento das respostas da achou relação entre todas as parassonias estudadas. Peterson. através de estudo comparativo com sujeitos de 3 a 13 Houts (1991) aponta para a possibilidade de o anos de idade aplicando-lhes escalas que mensurariam aparelho atuar no aumento da liberação de o nível de ansiedade e o índice de adversidade vasopressina. Os autores consideraram a enurese noturna autor afirma que aumentos no nível plasmático de como uma parassonia e não acharam correlação entre vasopressina correspondem a uma parte da resposta a enurese e a ocorrência de outras parassonias. adulta. o tratamento alternativo é a conseqüências ambientais sobre eles. aspectos. Os resultados também confirmaram uma Outro mecanismo de ação do aparelho pode maioria de enuréticos do sexo masculino. 1991). O nível fisiológica ao stress. ao receberem alta. desmopressina e anticolinérgicos. Nestes dois tipos são consideradas escolha de tratamento. Os resultados parecem indicar efetiva no tratamento tem um papel importante na diminuição liberação noturna de ADH endógeno e a regulação das da ansiedade potencializada pelas adversidades respostas musculares que envolvem o “molhar a familiares. não treinamento de retenção e o treinamento de contenção. Pela necessidade desmopressina. esse modelo possibilita a utilização de tipos de tratamento. o tratamento psicológico aliado ao aparelho uso de agentes farmacológicos: antidepressivos de alarme para enurese é superior a qualquer outro tricíclicos. Seus achados mostram que a maior Por isso. aparelho. impedido espectro. Por outro lado. Em ambos os modelo são: a) Treino de pais em manejo de grupos a taxa de cura foi maior do que a taxa de cura contingências (Hawkins. dentre outros. Ser acordado no meio da noite. capacidade da bexiga e história familiar do dificuldade já vencida pelos seus pares. e altos índices de adversidade urina. sensação de impotência frente à superação de uma gênero.

o múltiplos etc). de Blackwell Ao perceberem sua falta de controle vesical. Ele é composto de uma dores que exigiram cuidados médicos./jun. ele atingiu os treze anos. p. Nenhum desses métodos resultou em Foram utilizados os seguintes instrumentos de ganhos para o seu comportamento. era (Questionário de Auto-Avaliação para Jovens. para superar essa barreira. Apresentava enurese noturna primária com freqüência O primeiro adolescente. Achenbach. Durante o dia. As sessões subseqüentes As instruções quanto ao procedimento no uso do foram mais produtivas. o participante deve abster-se tratar suas tensões e expectativas quanto à queixa. decidiu ameaçá-lo. Ele acordar espontâneo durante a noite. identificado como J. ambas ligadas por um cabo. de 15 anos de idade. h) em todas as manhãs deve fazer sessões com os pais. Através dos episódio de molhada. porém. b) deve Inicialmente o conteúdo de sua fala apresentava temas também evitar uso de refrigerantes. o pai caso ocorram (por exemplo: eventos estressantes. ao final emergiam temas ligados chocolate à noite. e o também quando ele dormia de dia. pais tentaram superá-la a princípio através de primária ou secundária. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. ficando seu cuidado a Achenbach. que diziam respeito à queixa. não suportando mais Em ambos os casos. será recorrido a estratégias de recompensa e punição. conseguiu adaptar-se melhor. de tecnologia inglesa. que se tornou objeto de algumas sessões. que é um circuito impresso em Esse episódio. Os dados do CBCL de ambos assinalavam para Interação em Psicologia. deve trocar de roupa.f) depois. feitos por ele. foi possível perceber a deitar-se. entretanto. antes de passar pela psicoterapia. através do qual coletamos A história de vida de L. através do qual coletamos cargo da avó. do sexo semanal de 5 molhadas. após uma análise funcional registro indicando se houve ou não episódio de inicial. recursos lúdicos unidade de alarme. a mãe. na forma de um pequeno “tapete” (para ser clínica de psicologia. chá. parece mostrar como esse informações sobre a percepção dos pais acerca de seus comportamento se instalara e como se mantinha. terminar a micção. c) antes de deitar. café e periféricos. Através de jogos ele Quando a urina molha o tapete.. confirmando assim a respeito de sua enurese e do comportamento dos baixa tolerância deles para com o problema. e Buscou-se. então. buscou-se abordar questões ligadas às trocas molhadas. L. avaliação: a) CBCL (Inventário do Comportamento Infantil. então. Seus pais trabalhavam. o tratamento se deu através de o problema. 9-17 . a começar com a exigência de freqüência etc. Como conseqüência teve lesões e Universidade de São Paulo. não conseguia manter rejeição dos pais a cerca da enurese dos filhos. g) em seguida deve ligar o eventos. Depois. sua constantes punições. d) interações com seus pares. Quando outros (família e colegas) com relação a ela. 1994). 2003. tímido. que delimita se a enurese é noturna ou diurna. Ao contrário deles. com uma sessão semanal para punição. de líquidos até duas horas antes de deitar-se. (7)1. Eram-lhes si mesmos antes e após a intervenção. do sexo feminino. filhos antes e após a intervenção. contudo. relação existente entre aumento da freqüência do deve desligá-lo e em seguida ir ao banheiro para comportamento enurético com eventos estressantes. Foi poder ir ao banheiro no momento em que a bexiga utilizado como recurso auxiliar um aparelho de alarme estivesse cheia. ele passou a tentar não dormir à noite para o adolescente e uma sessão para seus pais. 1991). Inicialmente ele demonstrou-se colocado sobre o colchão e sob o lençol) e uma muito reservado. buscou-se avaliar e período do tratamento. Primeiro cliente Descreveremos a seguir os procedimentos O cliente L. episódios manifestou as dificuldades de interação com o filho. que retrata a percepção do indivíduo a privação de atividades de lazer. deve providenciar às suas dificuldades de interação e problemas outro lençol e outra roupa para se trocar. de 14 anos. Nas aparelho e deitar-se. Com receio da atendimento individual. Formulário de Avaliação de Enurese. decorrentes de seu problema. bem como as observações referentes a afetivas. jan. Os episódios ocorriam masculino. apenas sua mãe comparecia à clínica. em caso de familiares. os (1989). o também começou a participar das sessões. método de despertar o filho à noite e supressão de líquidos à noite. aparelho resumem-se no seguinte: a) durante o Nas sessões com o cliente. dentre outros temas. A princípio outros eventos relacionados a esse comportamento. Os pais já haviam segundo. múltipla ou não. levou a mãe a procurar a poliéster.4 Enurese na adolescência os efeitos cardiotóxicos em potencial da intoxicação por imipramina trazem sérios questionamentos sobre o RELATO DE CASO uso indiscriminado da imipramina no tratamento de enurese (Houts e cols. esteve sob cuidados médicos durante empregados no tratamento de dois adolescentes dois anos. será aqui identificado como L. quando sentia de urina de fabricação nacional. vantagens como liberdade para brincar com colegas através do qual aferimos o nível de tolerância ou vizinhos. o alarme é acionado. b) YRF Terceiro filho de uma família de seis irmãos. d) deve ligar o aparelho ao registros diários. Os irmãos mais velhos possuíam mais informações sobre a percepção dos adolescentes sobre habilidades nas interações sociais. atendidos na clínica psicológica do contudo obter sucesso no controle vesical. e) no caso de o aparelho tocar o alarme. bem como a superação dos mesmos. Utilizamos. 1991). e) Entrevista semi-estruturada de que ele mesmo lavasse suas roupas de cama até Butler (1987). unidade sensora. c) Escala de confiadas responsabilidades e desfrutavam algumas Intolerância à Enurese de Morgan e Young (1975). focar a administração desses também de lençol. sono tentava obstruir a micção através do uso de desenvolvido em parceria com a Escola Politécnica da pregador de roupa. sem enuréticos.

Nesse processo. que consiste num método que também tomara iniciativas até então não percebidas visa reduzir a possibilidade de recaídas ao se usar o em seu repertório. a queixa de enurese era um compreensão. ou seja. possível identificar o processo denominado Fig. assim. 2003. jan.L 70 60 50 Distúrbio Total 40 Distúrbio 30 Internalizante 20 Distúrbio Externalizante 10 0 Antes Depois Antes Depois Pai Mãe Após cinco semanas de tratamento. interação com o cliente. Interação em Psicologia. 9-17 . o uso Após a terceira semana de uso não ocorreram mais do aparelho de alarme deve prosseguir normalmente. optou-se por um período de enurético. cooperação e acolhimento. principalmente nas questões inferiores a 60. progressivamente fortalecido. Após estas mas deve ser fornecida à criança – uma hora antes de houve apenas uma ocorrência na semana subseqüente. Contudo. como interagir com garotas e até aparelho de alarme. os pais modificaram sua de seu filho. molhada sequer. 1: Escores de distúrbio total. p. superaprendizagem. Ao se analisar os mecanismos mesmo namorar. que não implicava que seu filho Eles também não mais reforçaram o comportamento tivesse dificuldades globais. foi introduzido superaprendizagem no fato de que os músculos o aparelho de alarme como auxiliar no tratamento. O critério para o término do tratamento tem sido de Ao término do atendimento pode-se verificar seus oito semanas consecutivas sem ocorrência de efeitos positivos na extinção do comportamento molhadas. Na medida em cuidados com o aparelho (conforme descrito que isso é tolerado. iniciando de meio até se chegar a um copo e meio). como também em outros aspectos da vida tempo maior para que se efetuasse a do cliente. molhadas por sete semanas consecutivas. Também conseguiu inserir-se em fisiológicos envolvidos no controle urinário. pois ambos tiveram escores baixos. problema isolado. tolerância. ela se deitar – uma quantidade maior de líquido que reiniciando-se um ciclo de 13 semanas sem uma ela possa confortavelmente beber (comumente. Além de haver ampliado seu campo social. através de atitudes de clínico. CBCL . viam seu filho como não ligadas à sua queixa. O detrussores da bexiga são tensionados adicionalmente cliente e seus pais receberam instruções sobre o uso e através da ingestão de líquido extra. Fig. o controle da bexiga é anteriormente) bem como seus possíveis desconfortos. distúrbio internalizante e distúrbio externalizante obtidos no CBCL dos pais de L. (7)1. é grupos artísticos com atividades regulares. enurético pela excessiva atenção nos dias em que ele se manifestava. Enurese na adolescência 5 uma percepção bem focal quanto à queixa de enurese Ao longo do processo. 2: Freqüência semanal de episódios de molhadas (acidentes enuréticos) do Adolescente L antes e durante a intervenção. para eles./jun.

de afetos negativos sempre presentes nos maturacional. seis meses. como recompensa e punições e abstenção ocorriam. sinalizam para a superação da queixa e manutenção de novos comportamentos adquiridos no Os pais pareciam ter tolerância em relação ao atendimento. As feminino. solicitaram atendimento na clínica psicológica do IP- USP. Foram orientados a aguardarem por uma quanto ao mesmo. para afetos positivos desse processo. o que não aconteceu. Aos sete anos de da enurese. entretanto. pois. adquiriu a continência urinária. no item Segundo cliente distúrbios internalizantes (Fig. As trocas afetivas foram melhora espontânea. idade. 2003. 14 anos de idade. ocasião em que se verificou ser a taxa de Dados fornecidos por telefone. resultante do desenvolvimento modificadas. é a segunda possibilitou sua compreensão do manejo de filha de um casal com quatro filhos. Isto ocasionou uma interação mais positiva de líquido à noite. Interação em Psicologia. J. seus fatores e estratégias de controle. Os pais imaginavam que familiar. procuraram algumas soluções na forma de reforços sociais nos dias em que elas não domésticas. O atendimento A adolescente J. 3). os dados do CBCL (Achenbach. p. s/ Atendtº c/ atendtº aparelho aparelho Follow -up 7 freqüência semanal 6 5 4 3 2 1 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 meses Os resultados sinalizaram melhora na dinâmica se os episódios de molhadas. idade. procuraram tratamento médico. e reiniciaram- Fig. 9-17 . Entretanto. e integrada da família. o que também não ocorreu. nasceram suas irmãs. jan. ao completar três anos de vista. o fenômeno passariam logo./jun. ao compreenderem os pais. 1991) indicaram que o pai a percebia como limítrofe no quesito distúrbio total.. Aos quatro anos. interações foram alteradas possibilitando diálogo e abertura para exposição de sentimentos e pontos de Segundo relato dos pais. velho do sexo masculino e as duas mais novas do sexo bem como outros aspectos relativos à queixa. sem obter tiveram suas tensões diminuídas e maior tolerância êxito.6 Enurese na adolescência Freqüência de molhadas . no seguimento de freqüência de molhadas de 4 por semana. (7)1. problema. e como clínica. Depois de tentarem vários métodos. e gêmeas.L Sem Atend. sendo o mais contingências e de seu papel na alteração das mesmas. distúrbio internalizante e distúrbio externalizante obtido no CBCL dos pais de J. Ao longo dias em ocorriam as molhadas. 3: Escores de distúrbio total.

jan. levando-se em respeito aos supostos privilégios delas em detrimento conta. seus relatos diziam Essas questões foram abordadas. Procurou-se desenvolver sua esses incidentes ocupou considerável espaço nas percepção dos possíveis determinantes e das melhores primeiras sessões. dela. 2003. abordados. Outros temas foram também estratégias de enfrentamento. principalmente das irmãs. tais como: sua timidez e dificuldade em fazer novos relacionamentos. e também pelos relatos de seus pais. 4: Freqüência semanal de episódios de molhadas (acidentes enuréticos) da Adolescente J antes e durante a intervenção. sem manifestavam./jun. p. pelos seus relatos e registros diários. Geralmente. Enurese na adolescência 7 CBCL . e relação com a freqüência das mais velho trabalhavam. apresentava com freqüência natureza ocorriam.J 70 60 50 Distúrbio Total 40 Distúrbio Internalizante 30 Distúrbio Externalizante 20 10 0 Antes Depois Antes Depois Pai Mãe Nas sessões iniciais J. seu medo de perder diminuição dos episódios de molhadas é demonstrada os relacionamentos já estabelecidos. enquanto os pais e o irmão irritabilidade. 9-17 . principalmente. suas semelhanças e associação de seus esforços e sacrifícios para auxiliá-las e para ao comportamento ansioso. quando eventos dessa Fig. Interação em Psicologia. sua baixa tolerância a A evolução do caso apresentado em termo da críticas. 4. as molhadas noturnas se questões ligadas à sua rivalidade com as irmãs. afirmar tal fato. (7)1. Na percepção quantitativamente através da Fig. Sua adequada adaptação ante molhadas noturnas. de insegurança e manter a casa em ordem.

Ao final do atendimento. Revista CONSIDERAÇÕES FINAIS ABP-APAL. D. pathophysiologic. e os próprios pais relataram statistical manual of mental disorders (4. Diagnostic and academia de ginástica. A. ton. jan. Ramos. (1987). Sinalizaram para a mudança do humor que ela Bethencourt. Bristol: Wright.. Bristol: Enuresis Através de contato telefônico pode-se verificar que Resource and Information Center. comportamento enurético. P. A Guide to Enuresis: A guide to a treatment of enuresis for professionals. 709-726.C. portanto. associations. YSR. Mart. & Fernandez. Behavioral treatments for nocturnal importante para tal resultado foi a colaboração dos enuresis in children: a review of the recent literature. and psychiatric mudanças na interação familiar. Nocturnal Enuresis: Psychological comportamental com uso de aparelho de alarme de Perspectives. P. M. A. V. imagem e nas interações com familiares. muito mais agradável” (Sic). pais. verificou-se também mais Achenbach. os resultados do atendimento eram mantidos no Bordin. C. e a resposta foi muito favorável. manteve o REFERÊNCIAS controle sem nenhum episódio enurético desde então. s/ Atendtº c/ atendtº aparelho aparelho Follow -up 7 Freqüência semanal 6 5 4 3 2 1 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 Meses Na sexta sessão de atendimento foi introduzido o melhoras nas interações no ambiente familiar. and TRF Profiles. R. 46 (10). A. M. Um fator Doleys. S. Praxis der Kinderpsychologie und Kinderpsychiatrie.. University of Vermont. J. A. Nocturnal enuresis: a freqüência aos encontros semanais quanto nas review of genetic. através de relatos Houts. (7)1. 9-17 . 39-57. (1997). J. Integrative guide for the 1991 atenção aos cuidados pessoais por parte de J. & Caeiro. 23 (87). M. 22. DC: American Psychiatric Association. P. Validação da versão brasileira do 'Child Behavior Checklist' (CBCL) (Inventário de Comportamentos da Infância e Adolescência): dados preliminares. totalizando.F. F. I. & Knobel. seguimento de 6 meses. Aberastury. p. Análisis y Modificación irritadiço. tanto na Gontard. Foi realizada superaprendizagem nas semanas finais. 20 semanas segundo caso. antes quase sempre deprimido e C. A. 2003. M.. Ao final do atendimento. No primeiro caso. Adolescência normal. Em ambos os casos foram relatadas Interação em Psicologia. & Lehmkuhl.). que manifestava maior molhadas continuaram por mais três semanas. No até a 29ª semana. Washing- melhoria nas interações com as irmãs e entre eles.8 Enurese na adolescência Freqüência de molhadas . J. seguindo-se as instruções propiciando melhor adaptação e relações mais já mencionadas anteriormente. Behavior Therapy. processo demonstraram-se colaboradores. Ela mesma se percebia como “alguém de Conducta. verificaram-se efeitos positivos além da superação da queixa inicial.. urina foi eficaz em ambos os casos. Burlington: também passou a dedicar-se a atividades físicas. foi mais visível a mudança na auto- sem um episódio sequer. G. Diaz. Nocturnal enuresis as a biobehavioral espontâneos dos participantes e de seus pais. J. (1991). O atendimento continuou no ambiente familiar como também fora dele. T. apresentava. Ela CBCL/ 4-18. foi marcante a mudança das quais desapareceram. (1991). (1989). freqüentando regularmente aulas esportivas e American Psychiatric Association. C. J. 30-54. aparelho de alarme de urina. (1997). ao final isolamento e grande timidez. (1995). Os episódios de saudáveis. 33-151. além da extinção do Porto Alegre: Artes Médicas. J. (1994).J Sem Atend. 84 (1). Blackwell. (1977). ed. 17 (2): 55-56. (1992). Garcia. M. Em todo o Psychological Bulletin. M./jun. confirmando Silvares (1995). Os resultados indicam que a intervenção cognitivo Butler. problem.

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/dez. Enurese na adolescência 11 Interação em Psicologia. 141-148 . p. jul. (6)2. 2002.