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AULA 15: MARX II – LUTA DE CLASSES, REVOLUÇÃO E COMUNISMO E NICOLAU MAQUIAVEL

A noção de classes sociais

SOCIOLOGIA

De acordo com os estudos de Karl Marx, as sociedades europeias foram constituídas através

da contradição entre classes sociais. Classe social, na ótica de Marx, significa um conjunto de sujeitos sociais que realizam, para com os meios de produção, ou uma relação de monopólio

ou de privação. Meio de produção é todo o instrumento ou técnica intelectual utilizado pelo modo de produção específico de uma sociedade para gerar riqueza. E, por fim, modo de produção é a forma pela qual uma sociedade se organiza para gerar riqueza. Por exemplo, suponhamos que estamos analisando um sujeito que trabalha nas lavouras de trigo do seu senhor, durante a alta Idade Média. O sujeito que trabalha do campo está privado da terra que, por sua vez, é de monopólio do seu senhorio, portanto, este trabalhador pertence a classe social camponesa (desprovida de terra), enquanto o senhor pertence a classe social nobre (monopolizador da terra). O camponês utiliza-se de arados, foices entre outros meios de produção geralmente emprestados ou alugados do senhor, e trabalha sob o modo de produção feudal, no qual a produção da riqueza não permanecia nas mãos de quem a produzia (nas mãos dos camponeses), mas, em vez disso, concentrava-se nas mãos de quem detinha a terra (nas mãos dos senhores de terras).

Isto posto, precisamos deixar claro que a originalidade de Marx está não apenas na criação do conceito de classe social, mas na descoberta de que elas se manifestam através da contradição, ou seja, só existe a classe nobre enriquecida e ociosa, porque existe uma classe de camponeses que sustentam os privilégios nobiliários com o suor de seus rostos. Constatando a contradição, Marx afirma ainda que as classes estão em conflito, as classes dominadas lutando para pôr fim a sua exploração e as classes dominantes agarrando-se com unhas e dentes em um sistema social que garante seus privilégios e sua hegemonia no poder.

Desigualdade X diferenças

Após conhecermos um pouco da vida e da obra de Karl Marx, antes de começarmos a refletir sobre sua noção de classe social, precisamos deixar claro a distinção entre desigualdade e diferença, e igualdade e indiferença. Em primeiro lugar, a sociedade moderna foi fundamentada

na tese de que todos os seres humanos são iguais, porém isso não significa que todos os sujeitos sociais pensam, ajam e sintam da mesma maneira, ou seja, NÃO QUER DIZER QUE os seres humanos sejam indistintos entre si. Em vez disso, quando afirmamos que todos nós somos iguais, queremos dizer que todos nós temos, ou melhor, deveríamos ter, as mesmas condições de acesso àquilo que foi produzido na sociedade e temos as mesmas condições para realizar nossos sonhos. Portanto, o direito à igualdade é um pressuposto básico para que as pessoas possam diferir, possam pensar, a gir e sentir da maneira que desejarem. Portanto, desigualdade e diferença não só são questões diferentes, mas também são opostas. Por exemplo, em uma sociedade desigual, as pessoas não são tratadas com igualdade, ou seja, alguns tem acesso ao que a sociedade produz, outros não; alguns conseguem realizar seus sonhos, outros não. Em resumo, desigualdade significa uma condição em que as pessoas não são tratadas como iguais, ou não tem igualdade de acesso ao que a sociedade produz. O contrário de desigualdade é igualdade. Diferença, significa que os sujeitos sociais pensam, sentem e agem de forma diferente de acordo com sua formação. O contrário de diferença é indiferença, isto é, quando as pessoas seguem modelos definidos de beleza ou comportamento, quando se quer ser exatamente como o outro.

A luta de classes

Antes de estudarmos as ideias propriamente ditas de Marx e Engels, precisamos ter em mente que eles elaboraram uma obra muito importante, na qual a maioria das suas ideias produzidas até 1848 está resumida. Essa obra é o Manifesto do partido comunista. Baseando- nos na leitura desse livro podemos começar a refletir sobre uma das suas primeiras ideias: A história de todas as sociedades até agora 1 tem sido a história das lutas de classe”

(MARX&ENGELS, 2008. p. 8). Está frase de abertura do livro mais famoso de Marx e Engels nos demonstra uma concepção a respeito do mundo que não só é dialética, mas também materialista, pois ambos os autores procuravam os agentes sociais específicos que se manifestassem de forma contraditória na história ocidental e, posteriormente, transformaram sua luta cotidiana em um conflito direto e aberto. Em outras palavras, os autores do Manifesto elaboraram a teoria da revolução social e da luta de classes.

Em resumo, a dialética desenvolvida por Marx e Engels

é

material, porque leva em

1 Marx e Engels estavam se referindo as sociedades que surgiram na Europa e nos países do Oriente que conheciam. Além disso, todas as suas informações sobre a formação históricas das populações do continente americana vinham do antropólogo Lewis Henry Morgan (1818 – 1881), portanto, ainda eram demasiados recentes para serem associadas a teoria da luta de classes.

consideração a potência transformadora do trabalho (ou melhor da práxis) dos agentes sociais na realidade história em que eles se manifestam. Além disso a dialética de Marx e Engels também é histórica, pois busca analisar os conflitos que se desenvolveram entre os sujeitos sociais, em diversos momentos da história, por exemplo, o conflito entre nobres e burgues durante a revolução francesa, ou o conflito entre proletários e burgueses no capitalismo, entre outros). Portanto, podemos entender a corrente filosófica que inspira esses autores como materialismo histórico e dialético (ou só materialismo 2 histórico). Por fim, vale ressaltar que o foco desses filósofos na atividade material humana (muitas vezes essencialmente econômica, por exemplo, um serviço manual, um trabalho dentro de uma indústria ou oficina artesã, etc) NÃO NEGLICENCIA A QUALIDADE SUBJETIVA DOS HOMENS. Em outras palavras, a perspectiva da luta de classes enxerga um processo de mudança social que atua sobre todos os campos da vida humana 3 , ainda que, sejam focalizados as relações de produção, no momento no qual os autores elaboram suas reflexões filosóficas.

Exemplos de luta de classes

  • Luta de classes na antiguidade (XXXV a. C – V d. C):

A luta de classes antiga se expressava por meio do conflito entre as classes proprietárias de terras (monopolizadores do prestígio e da riqueza social) e os sujeitos por ela escravizados (os verdadeiros produtores da riqueza social). Faz-se necessário lembrar que nesta época todas as pessoas que fossem derrotadas em batalhas entre populações ou entre cidades-estado eram escravizados. Essa tipo de contradição foi responsável pela possibilidade da filosofia grega, haja vista que a sua prática requisitava muito tempo livre e esforço intelectual, enquanto isso, aqueles que foram escravizados ficavam responsáveis por todo o trabalho braçal que mantinha a pólis grega em pleno desenvolvimento. Se os sujeitos escravizados não fizessem todo o trabalho duro, talvez a filosofia não surgiria da forma como a conhecemos, isto é, como fruto do ócio e da reflexão contemplativa. Além do mais, as cidades-estados da Grécia Antiga, as civilizações egípcias e os impérios babilônicas provavelmente ruiriam.

  • Luta de classes na civilização romana ocidental (I – V): A luta de classes na Roma antiga se expressava por meio do conflito entre patrícios (uma

  • 2 Esse materialismo não tem nada a ver com aquilo que as correntes espíritas e exotéricas entendem por materialismo,

ou seja, não significa, em nenhum sentido, a defesa pelo prazer pelos bens materiais. O materialismo de Marx e Engels

faz uma discussão filosófica e crítica ao pensamente metafísico.

  • 3 Tanto na vivência objetiva quanto na subjetiva; no âmbito econômico quanto no político e, assim por diante.

espécie de aristocrata com exagerados ares de soberba), monopolizadores da terra e detentores do poder político, e a plebe, a camada da população responsável pelo trabalho rural e braçal do Império. Do embate entre essas classes surgiram medidas exploradoras e opressoras, mas também conquistas significativas e humanas, no entanto, nossa aula se focará em somente duas dessas consequências da luta de classes que, inclusive, refletem-se em nossa história até hoje. O primeiro deles foi a conquista do tribuno da plebe 4 e, o segundo, foi a estratégia de controle político da população mais eficiente até então criada, a política do pão e circo [panem at circenses 5 ]. A contradição entre patrícios e plebeus explodiu em diversas formas de resistências, no entanto, as mais conhecidas foram as “revoltas plebeias”, por meio das quais foram conquistados diversa reformas políticas na civilização romana. Contudo, a forma de manifestação que mais ameaçou a hegemonia do império Romano foi a revolta dos sujeitos escravizados, simbolizada pela figura de Spartacus, um homem escravizado que fugiu e inspirou os demais a também conquistar sua própria liberdade.

  • Luta de classes no feudalismo (V – XV) O início da Idade Média, cujo sistema de produção era o feudalismo, pode ser demarcado

pela queda do império romano do ocidente em 476, arruinando consigo a contradição entre patrícios e plebeus, ao mesmo tempo que inaugurava uma nova e tensa contradição social, a saber: o antagonismo entre o do senhor feudal e seus servos. Desse embate surgem inúmeros fenômenos, dentre os quais merece destaque a hegemonia da religião cristã católica e, consequentemente, a primazia das suas principais instituições, por exemplo: a igreja católica, a Inquisição, as cruzadas (XI – XIII), entre outras. Durante toda a Idade Média foi ignorado o sentido abstrato da troca entre mercadorias, emblematizado na concepção do dinheiro enquanto mercadoria que serve como meio universal de troca, e o sistema produtivo estava restrito a manufatura e às famosas oficinas de ofício, onde os aspirantes ao artesanato aprendiam sua arte por meio dos ensinamentos dos grandes mestres artesãos. O quadro histórico começa a mudar, por conta das incursões militares católicas (cruzadas) e ao processo de Renascimento Comercial (XIV – XV) impulsionado pelas

  • 4 Era um magistrado, ou seja, um membro do governo, atuante no senado que visava manter a garantia dos interesses e direitos da plebe, frente a arbitrariedade e mesquinharia dos políticos patrícios. Em outras palavras, representou uma

possibilidade história da camada mais desfavorecida participar da política e ter suas demandas atendidas, caso isso não acontecesse eles mostravam suas forças deixando de produzir alimento e matando os patrícios de fome

  • 5 Estratégia de manipulação poplítica da população, a qual aproveitava-se da geral falta de informações e do elitizado

processo educacional (responsável por alfabetizar somente os patrícios) para manter os plebeus sempre fiéis ao governos, através da garantia de alimentação e divertimento e, tendo em vista, que o circo era o único divertimento da época, tal esquema foi denominado de pão e circo.

rotas comerciais fundadas a partir das expedições católicas em sua “guerra santa”. Tais fenômenos possibilitaram o fortalecimento e a organização dos pequenos vendedores nômades que se concentravam ao redor dos feudos. Essa região onde os comerciantes ficavam foi chamada de “burgo” (daqui surge o termo usado por Marx e Engels para se referir aos grandes comerciantes responsáveis pelo caráter explorador da realidade do século XIX, os tão conhecidos hoje como burgueses). Esse sistema que já se mostrava obsoleto recebeu seu golpe de misericórdia, por meio das revoluções burguesas e revoluções industriais que, respectivamente, destruíram as antigas classes em luta (senhor feudal e servos) e o antigo sistema de produção (agrário e manufatureiro).

  • Luta de classes no capitalismo (desde o século XVI até os dias de hoje):

Sem dúvida, o conflito de classes no qual Marx e Engels se debruçaram por mais tempo foi aquele que se originou após a ruína do feudalismo. A luta que se formava neste momento era entre dois agentes sociais importantíssimos: a burguesia e ao proletariado. No entanto, não podemos nos esquecer que tais seres sociais tão contraditórios não surgiram do nada, muito pelo contrário, são frutos do movimento dialético da história que se manifesta por meio dos processos de revolucionamento do sistema material de produção. O proletariado, classe oposta a burguesia, originou-se de inúmeras formas, variando de acordo com a especificidade história de cada região, no entanto, o processo que ilustra mais claramente o surgimento deles é o terrível processo dos cercamentos 6 que foram levadas a cabo na Inglaterra. Por conta deste processo, milhares de pequenos produtores foram expulsos de suas terras que, posteriormente, foram alugadas para

a burguesia rural criar ovelhas 7 . Nessas condições, os pequenos produtores não tiveram outra escolha senão migar para as cidades recém-construídas, sobrevivendo unicamente através da venda da única coisa que não tinha sido expropriadas deles, a saber: sua força de trabalho. Muitas vezes isso não era o suficiente para sustentar sua família, por isso, tentava colocar toda a sua “prole” para trabalhar junto com eles nas fábricas, com esperança de aumentar a renda mensal, a fim de não passar fome. Foi assim que o termo proletariado surgiu. Assim, surgiu um novo sistema de produção simbolizado pela máquina e pela contradição entre burguesia e proletariado, surgia então o Capitalismo. Contudo, antes de finalizarmos nossa discussão acerca da luta de classe na idade moderna, é preciso levantarmos duas importantes observações:

  • 6 Esse foi o nome dado ao processo de expulsão sistemática dos pequenos produtores de suas próprias terras que, em seguida, eram cercadas com arame farpado para tornarem-se grandes latifúndios usados pelos burgueses como área de produção de lã na embrionária indústria têxtil inglesa.

  • 7 No livro “A utopia” de Thomas Morus (1478 – 1535), o autor afirma que na Inglaterra, “as ovelhas devoram os homens”.

  • I. O caráter essencial da burguesia “A burguesia não pode existir sem revolucionar os instrumentos de produção, portanto

as relações de produção e, por conseguinte, todas as relações sociais”

(MARX&ENGELS,2008. p. 13). A partir desta citação do Manifesto do partido comunista, podemos destacar o fato da burguesia iniciar seu movimento de ascensão política e econômica como uma classe revolucionária que lutava contra os privilégios e a arbitrariedade da nobreza feudal e do clero. Vale ressalta que, para tornar a sua crítica uma verdadeira revolução social, precisou aliar-se aos camponeses e aos artesãos. Contudo, após a derrubada de uma vez por todas da hegemonia do feudalismo, a burguesia trai o campesinato, impedindo que a revolução fosse levada até as últimas consequências – isto é, impediram que os seus privilégios fossem também questionados e depois abolidos. Aliando-se novamente a nobreza (mais especificamente ao exército) a burguesia reprime o movimento jacobino. Aqueles que contam a história a partir do ponto de vista das classes que saem vitoriosas dos processos históricos, denominam o momento em que os jacobinos queriam levar a revolução francesa para cima dos privilégios da burguesia como Período do Terror (1792 – 1794), entretanto, nós preferimos entender este momento como um dos poucos, mas verdadeiro, períodos democráticos da história francesa.

II. O fundamento da história

A essência do movimento dialético da história é sempre gerar novas contradições sociais, que, por sua vez, criam a necessidade de mudança social. Por exemplo, a burguesia representou o elemento contraditório dentro do feudalismo, levando a cabo um processo de mudança social

que destruiu a hegemonia feudal e preparou o campo para o surgimento do capitalismo. Em seguida ela trai a classe com que estabeleceu parceria, adquiri hegemonia na política e na economia

e começa a profetizar a incontestabilidade, a naturalidade e eternidade do seu domínio, ou seja, passa agora a se dedicar em construir a sua ideologia (uma consciências da realidade que se propaga em todos os âmbitos da sociedade, favorecendo a burguesia). Marx já nos alerta sobre isso quando afirma que a burguesia começou como uma classe revolucionária e depois se tornou uma classe conservadora, deixando o papel histórico da revolução para a classe proletária. Segundo ele, nossa realidade histórica é tão mutável quanto qualquer outra, por isso, é passível das leis da dialética, como qualquer sociedade humana.“As relações rígidas e enferrujadas, com suas representações e concepções tradicionais, são dissolvidas, e as mais recentes se tronam antiquadas antes que se consolidem. Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo que era sagrado é profano…” (MARX&ENGELS, 2008. p. 14). Além disso, o próprio poder hegemônico

cria os meios e os agentes sociais para a sua destruição, no caso da burguesia, os responsáveis pela sua destruição é o proletariado. “A burguesia produz, antes de mais nada, seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis” (MARX&ENGELS, 2008. p. 30).

A questão da classe média

Até agora nossa reflexão se debruçou sobre as classes essencialmente antagônicas, isto é, os exploradores e explorados, os oprimidos e os opressores. No entanto, não podemos esquecer de mencionar a classe que se estabelece no meio destes dois polos, qual seja: a classe média. Marx denomina a classe média como ideólogos enérgicos, isto é, são aquela parcela da sociedade que não detém os meios de produção, portanto, são tão explorados quanto o proletariado, porém recebem salários maiores do que a média dos trabalhadores ou ocupam funções dentro das empresas que são consideradas menos pesadas. Por conta disso, se dedicam ativamente na criação de ilusões, propagandas, dogmas, entre outros métodos de apologia dos privilégios das classes dominantes, acreditando que eles mesmo fazem parte dela 8 quando, na realidade, jamais farão, haja vista que, caso fiquem desempregados, estarão na miséria, diferente dos verdadeiros membros das classes dominantes que não precisam trabalhar, ao contrário, vivem da exploração do trabalho dos outros.

A questão da revolução

A teoria da revolução em Marx consiste em pensar na história como uma espécie de movimento perpétuo de ascensão e queda de formas de sociedade, nas quais os próprios poderes hegemônicos e aparentemente absolutos são os responsáveis pela por gerar os meios necessários para a sua ruína. A revolução assume sua expressão clássica (leia-se semelhante a revolução francesa), ou seja, um levante explosivo, massivo e violento da classe oprimida contra a classe dominante. Desse choque entre agentes e desejos tão contraditórios surge uma realidade completamente distinta, na qual os interesses da classe anteriormente dominada, finalmente podem ser vivenciados. Durante a revolução, os agentes sociais vivenciam um momento único, inventivo e extremamente rico de possibilidades, denominamos essa época transitória de história aberta, ou

8 É realmente muito interessante observar que a análise realizada por Marx e Engels durante a segunda metade do século XIX consegue, ainda hoje, compreender a nossa realidade, principalmente quando a classe média brasileira resolve “bater suas panelas” em benefício da manutenção do poder e dos privilégios de uma parcela reduzidíssima no Brasil, da qual inclusive ela mesmo não faz parte, nem jamais fará.

momento de abertura da história. Nesse intervalo curto de tempo, os destinos da revolução não estão trassados, a criatividade, a genialidade e a liberdade do espírito humano são levadas as últimas consequências. Tudo se opina, tudo se cria e a única ordem do dia e destruir o velho e criar da forma mais livre o quanto possível, isto é: o novo. Durante a derrubada do feudalismo, essa época de história aberta foi denominada de Renascimento (século XVI).

Ilustrando:

momento de abertura da história. Nesse intervalo curto de tempo, os destinos da revolução não estão

A questão da ideologia

Todo saciedade possui um conjunto de leis, ideias, costumes, visões de mundo, as quais atuam na defesa da realidade vigente, fazendo com que seus membros esqueçam o fato da sua vivência em sociedade ser histórica, ou seja, seus valores e crenças não são imutáveis, perpétuos e eternos. Muito pelo contrário, são provenientes de um momento específico da história, portanto, possuem um começo um meio e um fim.

Tendo realizado tais observações, podemos nos debruçar sobre pelo menos três aspectos apontados por Marx e Engels para entender o desenrolar da ideologia como “falsa consciência”. O primeiro deles diz respeito a tendência da ideologia expressar-se como uma espécie de universalização abstrata do conjunto particular de ideias próprias das classes dominantes. Em outras palavras, as ideias dominantes aparecem como se por si mesmas contemplassem a totalidade das necessidades do meio social. Dessa forma, essa tendência falseia a complexidade e abrangência do processo histórico-material encarregado de produzir tanto ideias dominantes, quanto ideias não dominantes, as quais, por sua vez, entram em contradição umas com as outras, constituindo a dinâmica da realidade histórica como um todo.

O segundo deles, corresponde a tendência mistificadora da ideologia, isto é, as ideias hegemônicas, como se não bastasse por si só o fato de se apresentar como sendo as ideias de toda a sociedade, também estão propensas ao desligamento das suas origens de classe. Noutras palavras, é possível compreender a história de uma maneira exclusivamente ideológica, deixando de lado o fato dela ser um processo proveniente da produção material dos sujeitos sociais (leia-se práxis 9 ); e, em vez disso, entendê-la apenas enquanto resultado da força de ideias hegemônicas soltas no ar. Por exemplo, dentro desta perspectiva, é possível analisar o feudalismo por meio das ideias isoladas de fé, de honra, de prestígio e de lealdade nobiliária; esquecendo-se de observar, tal como pontuam Marx e Engels, que a religião e a ética são, antes de mais nada, frutos de relações concretas do trabalho dos sujeitos sociais. Enfim, a ideologia procura ignorar tudo isso, transformando a ideia no sujeito por excelência da história. O terceiro deles, refere-se ao potencial de deturpação histórica da ideologia, ou seja, quando a história é analisada segundo o ponto de vista ideologicamente dominante, todos os acontecimentos desenvolvidos no presente tendem a ser explicados como se fossem resultados de uma série retilínea, invariável, natural e determinada de fenômenos desenvolvidos durante o passado. Por exemplo, a partir da perspectiva ideológica vigente, a diversidade das históricas e das conquistas do continente americano, anteriores a chegada de Colombo, são todas reduzidas e abstraídas num único objetivo, a saber: concretizar a Revolução Francesa, ou melhor, o capitalismo europeu10 10 . Portanto, supor a existência de uma “finalidade histórica necessária”, ou melhor, de um “destino histórico inexorável”, definindo o movimento da história presente a partir da abstração da realidade histórica passada não significa outra coisa senão a própria distorção do movimento real da história, bem como da relação entre passado, presente e futuro 11 . Desse modo, segundo o ponto de vista materialista e dialético da história, “quase toda a ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida dessa história ou a uma abstração total dela. A ideologia, ela mesma,

9 Para uma explicação mais didática e aprofundada sobre o conceito de práxis em Marx consultar: NETTO, J. P. & BRAZ, M. Economia política: uma introdução crítica. São Paulo: Cortez, 2006. 259p.

  • 10 Essa noção de reapresentar o presente a partir da suposição de finalidades necessárias desenvolvidas durante o

passado é evidente na tradição positivista de pensamento, principalmente na tese dos três estágios evolutivos da humanidade, nos quais os elementos do estágio posterior eram consequências diretas do anterior. Isso fica ainda mais claro durante o evolucionismo cultural – teoria antropológica que defendia a existência de uma escala retilínea e universal de desenvolvimento do ser humano, invariável no tempo e no espaço. Os evolucionistas partiam do pressuposto de que todos os países deveriam evoluir da selvageria, passando pela barbárie e terminando na civilização – convenientemente entendida como a condição sócio-histórica alcançada pela Europa do século XIX e por meio da exploração do chamado Novo Mundo.

  • 11 Em contraposição a essa história abstrata e ideológica, Marx e Engels desenvolvem a perspectiva materialista

histórico-dialética, na qual o passado, o presente e futuro se articulam por meio da luta de classes, da contradição e da revolução – fenômenos que abrem a história em infinitas possibilidades indeterminadas, mas que aos poucos vão se

fechando numa possibilidade específica e desenvolvida de acordo com o desenrolar das relações sócio-históricas materiais de cada período histórico.

é apenas um dos lados dessa história 12 ”. Em síntese, o comportamento da ideologia enquanto “falsa consciência” pode ser entendido como uma espécie de lobo em pele de cordeiro13 13 , cujo intuito é distrair o “rebanho” de sujeitos sociais, por meio de suas ardilosas fantasias, a fim de que eles não tenham consciência da própria miséria de sua realdade (leia-se a condição de presa fácil) e, consequentemente, não sejam capazes de reagir até que seja tarde de mais para tanto.

A questão do mais valor

  • A mercadoria

Para entender o fenômeno do mais valor precisamos entender o fundamento da sociedade capitalista, a saber: a mercadoria. Uma das primeiras observações de Marx no campo da economia foi existência dúplice das mercadorias, ou seja, seu comportamento tanto como valor de uso , quanto como valor de troca. O valor de uso, tal como o próprio nome já indica, significa a utilidade específica que os artigos produzidos pelo homem possam ter para aqueles que os desejam possuir; logo, não adquire qualquer tipo de sentido fora do consumo. Já o valor de troca pode ser entendido como uma forma específica de quantificação dos produtos do trabalho humano, realizada apenas dentro do processo de intercâmbio. Assim sendo, para que um objeto seja considerado uma mercadoria precisará ter um valor de uso e um valor de troca determinados. Em outras palavras, Marx percebeu que o caráter duplamente valorativo que se manifestava na mercadoria era recíproco, ou seja, um não existe isolado do outro. Por exemplo, imaginemos uma pessoa que faz uma encomenda de móvel a um marceneiro. Por um lado, para esta pessoa, o móvel tem um valor de uso específico que pode ser tanto ornamental, quanto representar um utensílio de trabalho, como também outras inúmeras utilidades. Portanto, esta pessoa, dentro do processo de troca atua na forma de consumidor. Por outro lado, o móvel que o marceneiro produziu não representa um valor de uso para ele, em vez disso, adquire a realidade de mediação de troca, do qual ele se utiliza para acumular dinheiro. Assim, o marceneiro, dentro do processo de troca, se manifesta como aquele que criou a mercadoria e, consequentemente, pode vendê-la. Em síntese, para o marceneiro a mercadoria não representa um valor de uso, ao contrário, é apenas um meio de troca, entretanto, para que ela seja meio de troca, ao mesmo tempo, precisa que um consumidor sinta necessidade dela, enxergado-a enquanto um objeto que tenha valor de uso para ele.

  • 12 Karl Marx & Friedrich Engels. A ideologia alemã… op. cit., p. 86 – 7.

  • 13 Op. cit., p. 525.

  • Trabalho abstrato e fetichismo da mercadoria Além de perceber o caráter duplo da mercadoria, Marx ainda se perguntou de que forma

seria possível quantificar o valor de troca das mercadorias para que elas pudessem ser

intercambiadas no mercado. Para responder esta pergunta precismos ter em mente, por um lado, que

o valor de uso de uma mercadoria é extraído do trabalho individual duplamente fruído

durante o processo de produção, logo, nada mais é do que justamente a materialização de trabalho social. Contudo, os consumidores – embora satisfaçam suas necessidades sociais quando adquirem uma mercadoria – não necessariamente tem consciência do processo produtivo do qual os seus objetos de consumo se originam. Se retomarmos nosso exemplo da pessoa que desejava comprar um móvel, nesta relação o consumidor não sabe se o marceneiro fez o móvel com suas próprias

mãos; ou se utilizou do auxílio de máquinas; ou ainda, se lançou mão de trabalho informal, mau pago e superexplorado para tal. Tudo que o consumidor sabe é que o móvel lhe servirá de alguma forma. Por outro lado, é igualmente essencial entender que o valor de troca se expressa como uma espécie de relação quantitativa, cujo intuito é a organização por equivalência dos valores de uso dentro do processo de troca como um todo. Noutros termos, caso ampliemos nosso exemplo, imaginando que o consumidor do móvel de madeira seja também um agricultor de soja e, por conta disso, pretendesse medir o valor do produto de seu trabalho para vendê-la no mercado, amparado por princípios de valoração e concorrência iguais aos que foram aplicados aos móveis de madeira feitos por um marceneiro. E, em seguida, suponhamos que ele chegasse à seguinte equação: duas toneladas de soja equivalem a um móvel de madeira, isto é, ambos tem o mesmo valor de troca. Nesse sentido, a fim de que seja estabelecida a relação de equivalência própria a circulação simples no mercado, os respectivos valores de uso da soja e do móvel de madeira foram desconsiderados e, como se isso não bastasse, o trabalho evidentemente diverso aplicado para a produção de cada um destes artigos reduz-se a um trabalho indiferenciado, monótono, e simplório. Aqui nos deparamos com aquilo que Marx chama de trabalho abstrato. Nesse sentido, a partir do processo de produção de mercadorias, o trabalho criativo e duplamente fruído, bem como os valores de uso criados por ele são abstraídos, ou melhor, alienados, reduzindo-se a uma quantidade de trabalho padronizada, “padronizada” e sem

physis. Por um lado, este movimento é responsável pela constituição da mercadoria, no entanto, por outro lado, pouco a pouco transforma a relação entre seres sociais autônomos e criativos numa relação alheia a eles próprios, a tal ponto que não parece mais ser estabelecida entre seres humanos, mas somente entre os frutos do trabalho deles. Dessa forma, as mercadorias aparentam ter vida própria e ser independentes da ação e da vontade do próprio ser humano, e é justamente esta confusa inversão de papéis na qual a coisa usurpa o lugar por excelência do ser humano que se abre

margem à existência misteriosa e abstrata das mercadorias. Aqui nos deparamos com aquilo que Marx chama fetichismo da mercadoria.

  • A mercadoria dinheiro Entretanto, uma nova pergunta há de surgir durante nossa explanação: como é possível

determinar quantitativamente o valor de troca das mercadorias produzidas pelo trabalho abstrato? A resposta que Marx encontrou por meio da sua análise crítica da economia política foi a

quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de uma mercadoria qualquer. Nesse sentido, aparentemente o valor de uma mercadoria seria calculado de acordo com a quantidade de tempo gasto durante a sua produção, entretanto, se assim o fosse, seriamos induzidos a pensar que quanto mais preguiçosos ou caprichosos fossem os trabalhadores, mais tempo necessitariam para finalizar suas criações e, consequentemente, agregariam um valor maior

ao produto de seus respectivos trabalhos. Todavia, tal aparência é falsa, justamente porque concebe a atividade humana como puramente individual e atomizada, quando, na realidade, ela é eminentemente social. Além do mais, o tempo de trabalho necessário para a geração de mercadorias é calculado a partir da existência equivalente que as mercadorias desenvolvem dentro do mercado. Retomando exemplo anterior, imaginemos que um agricultor e um marceneiro, realizando uma jornada de trabalho de 8 horas diárias, produzam no final do expediente, respectivamente, duas toneladas de soja e um móvel de madeira. Portanto, de acordo com a economia política podemos afirmar que duas toneladas de soja e um móvel de madeira tem valores de troca equivalentes, pois foram gastos a mesma quantidade de tempo de trabalho

abstrato para produções de acada um deles, ou melhor, como o próprio Marx diria, para a produção de duas toneladas de soja e de um móvel de madeira foram necessários um mesmo quantum de trabalho. Não podemos deixar de notar que na circulação capitalista não se trocam as mercadorias diretamente umas pelas outras, tais como se fazia nos sistemas de escambo, em vez disso, a sociedade capitalista se utiliza de uma mercadoria que serve como mediador universal da troca, isto é: o dinheiro. Ilustrando: se retomarmos nosso exemplo do agricultor de soja que almejava comprar móveis de madeira de um marceneiro, levando em consideração que o agricultor, ao final de uma jornada de trabalho de oito horas, produza 2 toneladas de soja, enquanto o marceneiro, submetido as mesmas condições, crie um móvel de madeira. Entretanto, consideremos ainda que quando o agricultor e o marceneiro vão ao mercado vender suas mercadorias, também se deparam com um pecuarista produtor de 20 arrobas de carne bovina, respeitando o tempo da jornada de trabalho supracitada, e um fazendeiro de lacticínios que gera dois mil litros de leite, sob as mesmas

condições dos demais. Nestas circunstâncias, isto é, dentro da lógica da circulação simples no mercado capitalista, todas as mercadorias obtém um valor equivalente entre si, pois são frutos de um mesmo trabalho abstrato e são calculadas em função de uma mesma quantia de tempo

necessário para que este tipo de trabalho produza mercadorias, formando uma série de equivalência de valor, nos moldes da seguinte equação: 1 tonelada de soja = um móvel de madeira = 10 arrobas de carne bovina = mil litros de leite. Dentro desta lógica, qualquer mercadoria da série pode ser isolada e servir como valor referência para o cálculo das demais. Nesta ilustração, o valor

de troca da soja transforma-se na referência universal para o cálculo do valor de troca de todas as mercadorias levadas à venda no mercado. Por questões de facilidade de fração e trabalho, o metal precioso se tornou a mercadoria universal para calcular o valor de todas as outras no mercado, para se tornar dinheiro.

  • Mais valor Finalmente, chegou o momento de entendermos como se fundamenta a exploração na

sociedade burguesa. Uma das ideologias mais básica da sociedade do capital é que todos possam igualmente ir ao mercado com seus produtos e trocar igualmente, mercadoria pela sua

referência em dinheiro. Todavia, essa aparente troca entre iguais sem mostra uma troca entre desiguais e veremos isso agora. Suponhamos a produção de soja do exemplo do nosso agricultor, ele como qualquer outro capitalista pretende produzir uma mercadoria a partir da compra de força de trabalho, de matérias-primas ou insumos e dos gastos com a manutenção dos meios de produção (máquinas, por exemplo) utilizadas no processo produtivo da soja. Retomando e complementando o exemplo que usamos durante toda a aula, imaginemos que as 1 tonelada de soja que o agricultor produziu custem no mercado 1500,00 R$, preço no qual estão contidos os gastos com força de trabalho, insumos e meios de produção. Se a condição básica da circulação simples fosse respeitada, o móvel de também madeira custaria 1500,00 R$, bem como todas as quantidades de mercadorias que fossem produzidas durante uma jornada de trabalho. No entanto, o capitalista não quer trocar valor por valor, não deseja realizar uma troca igual, muito pelo contrário, almeja trocar seus gastos obtidos na produção por mais valor, ou melhor, anseia lucrar. Mas como o capitalista faz isso? A resposta é revoltante: ele não remunera a força de trabalho de uma forma justa e equivalente ao trabalho que ela realiza. Sendo mais claros, todos os trabalhadores recebem em uma jornada de trabalho o equivalente a terem trabalhado aproximadamente metade de tal jornada de trabalho. Por que isso? Porque metade de uma jornada de trabalho é o suficiente para os trabalhadores não morreram de fome, voltando no dia seguinte na mesma condição que entraram no processo produtivo, isto é, como trabalhadores (essa remuneração necessária para manter somente

as condições de subsistência dos trabalhadores é o que chamamos hoje de salário-mínimo). Este trabalho não pago ao trabalhador é o que enriquece o capitalista e é denominado cientificamente por Marx como mais valor.

O comunismo

O comunismo pode ser entendido como uma realidade histórica ou um sistema político e econômico que surge por meio da revolução do proletariado, levada a cabo a fim de extinguir o domínio de uma classe social sobre a outra (mais especificamente o a opressão que a burguesia exercia sobre ele, a qual depois de extinta, acreditava-se que também se acabaria com todo o domínio de classes). Esse processo se fundamenta em três intuitos: em primeiro lugar; é preciso demolir a propriedade privada, em segundo lugar; destruir o mercado capitalista e; em último lugar; acabar de uma vez por todas com a divisão social do trabalho. A abolição destes três pilares do capitalismo não acontece de uma hora para outra, mas precisa ser realizado em um momento de transição denominado como socialismo. Durante o socialismo a estrutura da sociedade capitalista é superada, ou seja, mostrou já ter cumprido seu papel histórico e foi substituída por outra ralidade histórica. Passada esta etapa transitória de socialismo, o estado e as classes sociais e até mesmo as religiões como nós a conhecíamos (COMO FORMAS DE DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO) deixam de existir, não tem mais necessidade de existir da forma tal como existiam antes. A nova sociedade que surge, o comunismo, significa, nas palavras de seus próprios teóricos, uma realidade na qual: “(…) o livre desenvolvimento de cada um é o pressuposto para o livre desenvolvimento de todos” (MARX&ENGELS, 2008. p. 46). É válido ressaltar que, o comunismo não representa, em nenhum aspecto, o fim da história, pois a dialética há de promover novas contradições e manter a realidade social-histórica em movimento. O comunismo representa, na visão de Marx e Engels, o fim do mundo como nós o conhecemos, desigual, autoritário e injusto. Outra ressalta sobre o comunismo que veremos nessa aula é a crítica aos falsos marxistas que afirmam ser o comunismo um caminho futuro natural da sociedade, inevitavelmente acontecerá, sem que os agentes sócias nada precisem fazer. Isso é um grande erro interpretativo. Talvez o único caráter inevitável seja a exploração do sistema capitalista, nada pode evitá-la, pois faz parte estrutural desse tipo de sociedade. Mas o que Marx e Engels queriam deixar claro no manifesto, era a crescente conscientização da população sobre os males do capitalismo, por isso, o apelo final dos nossos filósofos comunistas é a união dessa indignação em um movimento proletário mundial: “Proletários de todos os países, uni-vos!” (MARX&ENGELS, 2008. p. 66).

Referências bibliográficas

MARX, K. & ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

72p.

MARX, K. O capital. São Paulo: Boitempo, 2013 894p.