Você está na página 1de 66
CLÁSSICOS INQUÉRITO Tenro -12 HORÁCIO ARTE POÉTICA Introdução, K. M. faculdade Tradução e Comentário
CLÁSSICOS
INQUÉRITO
Tenro
-12
HORÁCIO
ARTE POÉTICA
Introdução,
K.
M.
faculdade
Tradução e Comentário
Rosado Fernandes
da
de Letras de Lisboa
de
IHQPgRITO
EDITORIAL
INQUÉRIT O
LIMITADA
LISBOA
V
NOT A Ã PRESENTE EDIÇÃO Esteve uma anterior edição portuguesa da Arte À MEMÓÍUA DO
NOT A
à PRESENTE
EDIÇÃO
Esteve uma
anterior
edição portuguesa
da Arte
À MEMÓÍUA DO MEU QUERIDO MESTRE
PROF. SCARLAT LAMB RINO
Poética boraciana esgotada durante vários anos. Por
ser peça indispensável para a compreensão
da
feitu-
ra da obra literária, por ter influenciado até ao sé-
H EM LEMBRANÇA
DA SUA GRANDE BONDADE
E VASTA ERUDIÇÃO.
culo XVIII a literatura ocidental, foi essa edição pro-
curada. Por ser procurada,
tornou-se
rara e,
uma
vez quase desaparecida,
tem
sido submetida
ã
tor-
tura de fotocópias
se sentem os livros,
sem número.
Não
se sabe
como
mas alegramo-nos
com
a
pre-
sente edição da Inquérito,
que
aparece
quase
inal-
terada, excepto no que respeita a indicações
biblio-
gráficas,
que
foram
actualizadas,
e
a
dois
ou
três
casos do texto português,
que foram
melhorados.
PREFÁCIO A presente edição tem como único fim proporcionar mais um instrumento de trabalho aos
PREFÁCIO
A presente edição tem como único fim proporcionar
mais um instrumento de trabalho aos estudiosos portu-
gueses interessados no conhecimento da teoria literária
antiga e da sua influência nas literaturas modernas. Fal-
tava-lhes, com-efeito, desde há muito tempo, uma tra-
dução portuguesa da Arte Poética horaciana e faltava-
-Ihes, sobretudo, a edição desta, acompanhada por um
comentário actualizado. Este lhes permitirá averiguar
em que medida progrediu, neste nosso século, a ciência
filológica ocupada em esclarecer este texto fundamental
de Horácio.
Tal carência foi a razão mais preponderante, sem
falar do meu gosto por Horácio, que me levou a abordar
o assunto e a levá-lo a cabo, muito embora não igno-
rasse as dificuldades e as contingências de tal empreen-
dimento.
Não deve o leitor procurar, no que se lhe apresenta
no comentário, originalidade de métodos e de matérias.
Não é possível, sem ser a longo prazo, fazer investiga-
ções originais sobre o texto da Arte Poética, pois a bi-
bliografia'fundamental sobre o assunto amontoa-se desde
há séculos e, ainda que de qualidade desigual, a verdade
é que o seu conhecimento se torna indispensável. Ora ele
9
só é materialmente possível, pela leitura aturada de vários anos. No entanto, para suprir essa
só é materialmente possível, pela leitura aturada de
vários anos.
No entanto, para suprir essa lenta posse de conheci-
mentos e idéias, decidi tomar como fontes orientadoras
da rainha informação os estudos mais modernos sobre
Horácio e a sua Arte Poética, entre os quais se salientam
os de Rosíagni, Perret e, muito especialmente, o de
Brink. A estes utilizei-os profusamente.
Quanto ao plano, é este livro, por assim dizer, canó-
nico. Na introdução, situei a Arte Poética no meio am-
biente em que foi criada e assim também no lugar que
lhe compete no brilhante processo e evolução da obra
horaciana. Não descurei igualmente a problemática que
subsiste, no que respeita a estrutura do poema, as suas
fontes e a sua finalidade. Por fim, tomei em considera-
ção as edições portuguesas da Arte Poética, para que o
leitor possa fazer uma idéia segura do interesse desper-
tado, no nosso país, por este texto.
da forma, ou seja, da língua e da estrutura do discurso
horaciano.
O' texto latino fundamenta-se fprmfcipalrnenite nos
textos estabelecidos por Villeneuve e Klingner, cujas
edições estão citadas na bibliografia. Só se introduziram algu- 1
mas ligeiras alterações no tocante à ortografia, como,
p . ex. , na substituição de uolt por tmlt (v. 348), a fim
de facilitar a compreensão dos versos horacianos ao leitor
menos versado na leitura do 'latim. Oxalá esta edição- lhe
sirva de algum auxílio.
|
Na tradução, que confronta o texto latino, procurei
observar com fidelidade o texto original, fazendo o pos-
sível para que o leitor o sinta cm todas as suas caracte-
rísticas de documento literário, feito por um espírito
perspicaz e crítico.
No tocante ao comentário, é ele o mais completo pos-
sível, sem que esteja demasiado sobrecarregado por mi-
nudências inúteis, que em nada facilitam a compreensão
do texto e que não interessam senão ao especialista.
Atendi sobretudo às dificuldades levantadas pelo con-
teúdo, mas esclareci também os aspectos mais insólitos
Cumpre-me recordar agora a contribuição dada a
este trabalho pelo Prof. Scarlat Lambrino que a morte
aeafxnu de roubar, tão' bruscamente, à nossa convivên-
cia. Ele leu e melhorou o original com várias sugestões
ditadas pelo espírito crítico, severo e justo, que todos
lhe conhecíamos. Também ele deveria ter escrito o pre-
fácio para esta edição, se a morte o não tivesse sur-
preendido no meio dos seus trabalhos. Todas as palavras
são poucas para descrever a sua acçao benéfica de di-
dacta e investigador, mas estou certo de que a obra dos
seus discípulos a comprovará largamente, pois, através
deles, a sua figura continuará a viver.
Reata-me agradecer a o Prof. Prado Coelho o interesse
qu e demonstro u n a publicaçã o dest e trabalh o le a o me u
Amigo Antônio Coimbra Martins a paciência com que i
leu o original^ e as sugestões com que enriqueceu este y
íívto. Desejo finalmente lembrar a colaboração' dada pelo
Dr. Victor Buescu na comecção das provas tipográficas
e no melhoramento de vários pormenores.
tl
;í í:
10
INTRODUÇÃO HORÁCIO E A SUA ARTE POÉTICA Foí na Apúlía e mais precisamente Vida em
INTRODUÇÃO
HORÁCIO E A SUA ARTE
POÉTICA
Foí na Apúlía e mais precisamente
Vida
em Venúsía que Quintus Horatius Na8c, 65 a.C.
Flaccus nasceu, em 8 de Dezembro
de 65 a.C. Ele próprio o diz nas Odes., II , 17, 17 e
segs., referindo-se aos signos astrais que presidiram ao
seu nascimento. Filho d e um libertas (escravo forro)
que, entretanto, grangeara uma posição e uma pequena
quinta, foi enviado por seu pai a estudar em Rom a
com o retor Orbilius, sentando-se nos mesmos bancos
que os filhos de senadores e cavaleiros, seus condis-
cípulos.'
Continuará os estudos em Atenas e, aos vinte anos
(44 a.C.) , alistar-se-á no exército de Bruto como tri-
bunus militum, voltando a Roma em 42, depois ido
desastre de Filipos, que levara Bruto ao suicídio.
No retorno a Roma espera-o a adversidade: o pai
morrera, e a pequena quinta, que possuía, fora confis-
cada. A pobreza esperava-o, pois, e só com o trabalho
quotidiano a poderia Horácio enfrentar. Emprega-se
então como scriba quastorius, ou seja, qualquer coisa
13
só é materialmente possível, pela leitura aturada de vários anos. No entanto, para suprir essa
só é materialmente possível, pela leitura aturada de
vários anos.
No entanto, para suprir essa lenta posse de conheci-
mentos e idéias, decidi tomar como fontes orientadoras
da minha informação os estudos mais modernos sobre
Horácio e a sua Arte Poética, entre os quais se salientam
os de Kostagni, Perret e, muito especialmente, o de
Brink. A estes utilizei-os profusamente.
Quanto ao plano, é este livro, por assim dizer, canó-
nico. Na introdução, situei a Arte Poética no meio am-
biente em que foi criada e assim também no lugar que
lhe compete no brilhante processo e evolução da obra
horaciana. Não descnrei igualmente a problemática que
subsiste, no que respeita a estrutura do poema, as suas
fontes e a sua finalidade. Por fim, tomei em considera-
ção as edições portuguesas da Arte Poética, para que o
leitor possa fazer uma idéia segura do interesse desper-
tado, no nosso país, por este texto.
da forma, ou seja, da língua e da estrutura do discurso
horaciano.
O texto latino fundamenta-se prmt ipaimente nos
textos estabelecidos por Villeneuve e Klingner, cujas:
edições estão citadas na bibliografia. Só se introduziram algu-
mas ligeiras 'alterações no tocante à ortografia, como,
p. ex. , n a substituição de uolt por uult (v. 348), a fim
de facilitar a compreensão dos versos horacianos ao leitor
menos versado na leitura do' 'latim. Oxalá esta edição lhe
sirva de algum aruxAio.
Na tradução, que confronta o texto latino, procurei
observar com fidelidade o texto original, fazendo o pos-
sível para que o leitor o sinta em todas as suas caracte-
rísticas de documento literário, feito por um espírito
perspicaz e crítico.
No tocante ao comentário, é ele o mais completo pos-
sível, sem que esteja demasiado sobrecarregado por mi-
nudências inúteis, que em nada facilitam a compreensão
do texto e que não interessam senão ao especialista.
Atendi sobretudo às dificuldades levantadas pelo con-
teúdo, mas esclareci também os aspectos mais insólitos
Cumpre-me recordar agora a contribuição dada a
este trabalho pelo Prof. Scarlat Lambrino que a morte
acabou de roubar, tão bruscamente, à nossa convivên-
cia. Ele leu e melhorou o original com várias sugestões
ditadas pelo espírito crítico, severo e justo, que todos
lhe conhecíamos. Também ele deveria ter escrito o pre-
fácio para esta edição, se a morte o não tivesse sur-
preendido no meio dos seus trabalhos. Todas as palavras
são poucas para descrever a sua acção benéfica de di-
dacta e investigador, mas estou certo de que a obra dos
seus discípulos a comprovará largamente, pois, através
deles, a sua figura continuará a viver.
Rcsta-mc agradecer ao Prof. Prado Coalho o> interesse
que demonstrou na publicação deste trabalho e ao meu
Amigo Antônio Coimbra Martins a paciência com que
leu o original e às sugestões com que enriqueceu este i
livro. Desejo finalmente lembrar a colaboração dada pelo
Dr. Victor Buesou na correcção das provas tipográficas
e no melhoramento de vários pormenores.
como amanuense do Ministério das Finanças, setm que, todavia, deixasse a ocupação que lhe era
como amanuense do Ministério das Finanças, setm que,
todavia, deixasse a ocupação que lhe era mais agradável,
a publicação de versos, que o ajudava a aumentar o
pecúlio mensal.
Foi exactamente nesta fase difícil que travou conhe-
cimento com Vário e Virgílio que o apresentaram a Me-
cenas, proporcionando-lhe, por volta de 38 a.C., um
lugar no círculo de literatos que se reunia na casa do
grande benfeitor das letras. Com esta entrada para
aquela sociedade de artistas e escritores, começará para
Horácio uma nova era de suoesso literário, de melhoria
financeira e uma longa amizade com Mecenas e alguns
dos poetas protegidos por este. Também, como conse-
qüência natural do meio que passara a freqüentar, as
suas relações sociais estenderam-se às personalidades do-
minantes da Roma de então e chegaram mesmo ao pró-
prio imperador que igualmente passou a protegê-lo. Al-
guns anos depois, já Horácio estava definitivamente
a poesia, comprazendo-se em publicar poemas que, ainda;
na juventude, o tornam célebre.
A obra poética que nos deixou é o
Obra poética
reflexo da sua personalidade equili-
brada, sem ser demasiado satisfeita, do seu carácter am-
bicioso, sem que por isso fosse possuído por eterno des-
contentamento. Combinava um bom-gosto muito seu,
uma ironia prazenteira e um labor incansável, com os
resultados da sua experiência poética, com a leitura da
poesia grega e romana e com os conhecimentos teóricos
que aprendera na escola de Orbílio, nas escolas de Atenas
e nos estudos que fez pala vida fora.
Desta sorte, a sua obra — em que a té^v^ ( w s )
grega se combina admiràvelmente com o Italum facetum
e com a ironia que ao poeta era peculiar — , ainda que
apresente certa diversidade, não deixa de estar unida
interiormente pelo seu equilíbrio e bom senso estético.
•liberto das preocupações financeiras e na posse reconfor-
tante de uma propriedade na região sabina, que, com a
sua casa de Roíma, formava um dos dois polos que deli-
Horácio inicia-se e dá-se a conhecer
ao grande público com os Epodos
Epodos
(:iambi)
tem númer o d e dezassete, composto s entr e 41 ! e
mitava m a sua existência d e home m e die artista.
Eim
31i a.C . e publicado s e m 30. Embor a aind a
incipient e
Roma, desejava ter a tranqüilidade, a simplicidade que
o esperavam na sua quinta. Uma vez nesta, porém, logo
ihe voltava o spleen da vida turbulentamente intelectual
e imaturo, o poeta já aqui nos traz inovações importan-
do meio artístico de Roma.
Até à sua morte, em 27 de Novem-
bro de 8 a.C., nunca mais abandonou
Morte 8 a.C.
tes, como ale próprio diz, ao 'dar a conhecer ao Lácio
os jambos de Arquíloco de Paros {Epíst., I , 19, 23-5).
Neles se ocupa da crítica social e política—-não tão
mordaz e pessoal como a de Arquíloco — , do amor e da
tranqüilidade que a vida do campo proporciona.
aa
15
Aos Epodos seguem-se as Sátiras Sátiras ftí (Satum ou Sermoties) constituídas por pidoi s livros
Aos
Epodos
seguem-se
as
Sátiras
Sátiras
ftí (Satum
ou Sermoties)
constituídas por
pidoi s livros ( o primeiro, publicado cerca de 35 a.C., con-
Ipf^tém dez poemas, e o segundo, que vem a lume cerca de
30, contém oito), em que Horácio apresenta temática
j> variada que percorre todas as gamas da vida contempo-
rânea e da sua própria vida. Tomando Lucílio, o velho
poeta satírico, como seu modelo romano, Horácio vai
dor um novo rumo à sátira .tornando-a mais dúctil, mais
bem humorada: tem a arte de a (fazer tão contun-
dente como a do .seu modelo, mas menos directa e me-
lembrar os pequenos lugares (fonte de Bandúsia), que, de
qualquer modo, lhe tinham agradado e excitado a ima-
ginação. A sede de perfeição que nas Odes se revela,
j á nã o escapara a o juíz o ida antigüidade qu e diz , pela
'boca de Quintifiano, que «dos líricos é o mesmo Horácio
quasie o único digno de ser lido, pois se inspira por vezes
e está cheio de alegria e beleza, é múltiplo nas figuras,
audaz, com extremo bom gosto na escola das pala-
vras» ( l ) . Este juízo da antigüidade define com exacti-
dão, julgamos nós, tudo quanto se possa pensar acerca
do poeta.
\ nos grosseira. Os temas vão desde a gastronomia, litera-
ri . tura e observação >de tipos sociais, à descrição dos mais
no
fim da
vida
encomenda-lhe
Carmen
I insignificantes incidentes da vida quotidiana, e neles
í : semeia Horácio, a cada passo, pormenores autobiográ-
ficos, idéias literárias, morais e filosóficas, nas quais
sobressai notável tendência epicurista, a que apregoa o
meio termo e o prazer moderado.
É, no entanto, nas Odes
(quatro li-
Odes
vros e cento e três poemas) que Horácio
mais se evidencia pela veia poética, pela técnica apurada
de versificador e pela linguagem tersa e sempre apro-
priada aos temas de que se ocupa. Estão compostas nos
mais variados metros gregos, desde as antigas estrofes
alcaicas e sáficas, à estrofe asclepiadeia da época hele-
nísüca. Nelas trata Horácio dos temas que mais lhe inte-
ressam, comprazendo-se em cantar os feitos de homens
políticos, em louvar os deuses e os seus amigos, em
Augusto um hino à maneira sáfica dedi- Saeculare
cado a Apoio e Diana. Compõe Horácio
então o chamado Carmen Sczculare, que foi cantado nos
Jogos Seculares de 17 a.C. por um coro de 27 rapazes
e 27 raparigas. Nele se celebram, em hábil combinação
de misticismo e patriotismo, a glória de Roma e os bene-
fícios que a cidade colheu da genial administração de
Augusto.
Finalmente restam os dois livros das
Epístolas. O primeiro, com 19 cartas, foi
Epístolas
( t )
Inst.
Of.,
X ,
i ,
96:
«A
t lyricarum idem Horatius fere
60ÍUS legi diignus: nairt et msurgit aliquando et plenus est
iucunditatis et gratise et uaxius figuris et uerbis felicissime
audax.»
16
1NQ 11 — 2
17
publicado em 20 a.C. Nele se encontra uma verdadeira filosofia da vida, em que o
publicado em 20 a.C. Nele se encontra uma verdadeira
filosofia da vida, em que o poeta, já amadurecido pelos
anos e na posse de larga experiência, só foca o essencial
e despreza o acessório.
Basta lembrar a Epíst. I, 11;
escrita para combater a angústia de um amigo, a quem
Horácio diz que, por mais que procure, só nele próprio
encontrará a paz: «os que correm os mares, mudam de
céu, mas não de espírito» (2).
Vemos que começa agora, no declínio da vida, a acal-
mar-se, tendendo para uma filosofia, em que entram
elementos do epicurismo, de que se considera fiel adepto
(diz pertencer ao rebanho de Epicuro, Epíst., I, 4, 16)
Horácio marca a sua posição literária, colocando-se entre
os modernizantes da escola de Catulo e Calvo e os arcai-
zantes admiradores de Lucílio. Começa já a defender um
princípio que veremos aparecer na Arte Poética: os escri-
tores latinos devem formar o seu gosto na leitura das
letras gregas; II , 1: — Horário defende-se dos seus crí-
ticos, fazendo a sua apologia por meio de um diálogo
seu com O' jurisconsulto Trebácio.
Nas Epístolas, veremos mais patente
a veia crítica de Horácio, A Epíst., I,
Epístolas
Literárias
e do estoicismo. Resta saber se este estoicismo foi apren-
dido nos livros de filosofia ou na sua experiência da vida.
No livro segundo das Epístolas (neste só se contam
duas), entrega-se Horácio inteiramente à crítica literária.
£ neste capítulo que vai integrar-se a Arte
Poética.
A Arte Poética, contudo, não surge
Sátiras
sem uma prévia evolução, que tentare- Literárias
mos esboçar. Já quando das Sátiras,
Horácio procura teorizar os seus conhecimentos de poé-
tica. Em três sátiras compostas por volta de 30 a.C.,
19, dedicada a Mecenas, procura servir
de defesa contra os críticos, que o acusa- Epístola a
vam de imitação. É Horácio, porém, que Mecenas
disso os acusa dizendo: « ó imitadores, ó
gado servi]!», pondo neles os defeitos de que o arguiam.
Defende-se, depois, mostrando em que medida fora ino-
vador e original dentro da poesia de Roma, ao introduzir
novos temas e novos metros, ao tdar a conhecer Arquí-
loco, Safo e Alceu.
Mais importante do que a anterior
Epístola
I, 4; I , 10; II , 1, tenta responder a certas questões teó-
ricas de poesia. I, 4: — O que constitui um bom poema
e como pode averiguar-se a sua qualidade; I , 10: —
é a epístola a Floro (II, 2), na qual o a Floro
poeta explica as razões que o levaram a
não publicar mais no domínio da lírica, É que ele agora
não escrevia, porque tinha o suficiente, porque estava
{2 )
V .
27:
tCaelum,
non
animum
inutant,
qui
trans
maré
currunt».
velho e porque, enfim, Roma estava demasiado baru-
lhenta. Além disso, todos devem, no fim da vida, voltar
à meditação e à filosofia. Entretanto, critica o baixo
18
19
nível da poesia romana, pela falta de cuidado que os poetas denotam na língua •poética
nível da poesia romana, pela falta de cuidado que os
poetas denotam na língua •poética que usam. Horácio
disserta sobre as razões de carácter netórico-poético que
presidem à escolha de palavras e à composição da frase,
tal como fará posteriormente na Arte Poética. Como
nesta, já começa a defender o princípio de que o poeta
| i. • deve
ser um
técnico
da
língua e não simples
amador.
Horácio aparece-nos, neste poema, como teoriza dor da
literatura e como grande estilista, esses mesmos aspectos
com que se revestirá e se afirmará definitivamente ma
Arte Poética.
Só três gêneros poéticos serão apreciados: o 'dramá-
tico (w . 139-213), o épico (w . 214-270) e o lírico
(vv. 132-138), que ocupará um lugar modesto. Trava
discussão, sobretudo, acerca dos tópicos literários que
lhe eram caros: o antigo e o moderno; o 'grego e o ro-
mano; o poeta e a sociedade. Este último tinha muita
importância, visto que muitos poetas (como Virgílio),
abandonando a poesia subjectiva, se tinham dedicado à
causa de Roma a do Estado, cantando a grandeza de
ambos.
Embora numerada, nas edições de
Epístola
Horácio, antes da epístola a Floro, a a Augusto
epístola dedicada a Augusto pertence a
data posterior. Com ela vem o poeta responder ao impe-
rador que demonstrara desejo de possuir uma carta sua,
tanto mais que Horácio já enviara epístolas a outros seus
amigos, menos importantes. Nesta altura, porém, estava
Horácio ocupado com a publicação do quarto livro das
Odes e não podia pretextar, como fizera na carta a
Mas Horácio não toma partido por qualquer posição
extremista: não é arcaizante, mas tão-pouco é moderni-
zante em todo o sentido. Se é helcnizante, é porque julga
que a cultura refinada dos Helenos poderá trazer algum
bem ao talento agreste dos Romanos. Quanto à função
do poeta na sociedade, acha que este lhe pode ser útil,
sem que, contudo, perca todo o seu individualismo.
Tudo o que apregoa, já Horácio pusera em prática na
poesia até então publicada e isto era a garantia de que
os princípios que teorizava levavam, de facto, a urna
poesia cuidada e de excelente nível, qualidades que ele
tanto prezava.
K Floro, o abandono da poesia, além de que, nesse mesmo
'livro das Odes, havia cinco poemas dedicados ao próprio
pljlAugusto. Assim, vai agora escrever, na epístola ao knpe-
f>5:\Tador, sobre um tema que a ambos interessava: a posição
; ; d o poeta e da poesia ma Roma contemporânea. Natural-
píiíinente que a opinião do poeta devia diferir da que o
político perfilhava, mas Horácio sabe defender-se hàbil-
^^^ent e de qualquer compromisso.
Incluída no grupo das epístolas (3)
ART E
encontra-se a anais extensa e importante
POÉTIC A
composição, a Epístola
aã Pisones,
es-
Título
crita em hexâ metros dactílicos, sobre iteo-
{3 )
Alguns autores consideram a A. P.
como a
terceira
epís-
21
ria literária. QuintiiLaiio chamar-lhe-á (4), algumas gera- ções mais tarde, «ars poetioa» ou «de arte
ria literária. QuintiiLaiio chamar-lhe-á (4), algumas gera-
ções mais tarde, «ars poetioa» ou «de arte poética
liber» (5), títulos que se tornaram os mais conhecidos
e que possivelmente já caracterizavam a epístola antes
de aparecerem citados na obra do grande retor, Houve
também quem desejasse combinar os dois títulos possí-
veis e 'assim aparece a carta poética designada como
Epístolas ad Pisones de arte poética. Este título deve ter
sido motivado igualmente pelo facto de não estarmos
diante de um tratado, como daria a entender o Ars poé-
tica ou De arte poética, mas de uma simples carta aos
Pisões, onde se formulavam alguns princípios que, por-
ventura, também poderiam aparecer num compêndio de
retórica.
por si, uma tradição milenária e, afinal, são mais que
suficientes para servirem de epígraíe a um poema,
O poema de Horácio é dedicado aos
Dedicatória
Cremos, no entanto, ser preferível utilizar os títulos
Ars poética (6 ) ou Epístola ad Pisones, os quais, muito
embora não dêem a entender tudo o que se encontra no
poema, e possam mesmo levar a certa ambigüidade, têm,
Pisones, personalidades romanas, cuja
identificação nos interessa sobremaneira para determinar
dois pontos fundamentais; a data aproximada do poema
e o seu escopo. Efectivãmente, contribuiria para o conhe-
cimento da finalidade com que Horácio escreve a A. P.
o simples facto de se determinarem as actividades lite-
rárias dos Pisões, e, bem assim, a data da composição
do poema ressaltaria com mais clareza, desde o momento
em que soubéssemos quando eles viveram.
Mas a tarefa não é fácil. N o entanto, Porfirião, o
comentador de Horácio, e que, segundo toda a verosi-
milhança, devia estar em melhor posição do que nós
para identificar os Pisões, diz-nos que a A. P. «foi dedi-
cada a Lúcio Pisão e a seus filhos, ao Pisão que poste-
riormente foi custos urbis e que era poeta e patrono das
artes liberais» (7).
tola d o lívxo
II .
Outros, porém,
falam da
A.
P.
como
sendo um
poema
independente.
Vid.
Hora ti us.
Opera,
Se
admitirmos
esta
identificação
Data
ed , F . Klingner , Lápsia , 1959 , <p. 294 . Quintiliano ,
Or,,
Vm ,
3,
60, refere-se à A.
P.,
como se
um poema
que é, sem dúvida,
a mais
provável,
à part e constituísse :
<t.
Horatiu
s
i n prim a
part e libr i d e
somos forçados a aceitar concomitantemente uma data
arte poética
»
Cremos ser esta segunda hipótese a que
mais se aproxima da verdade.
(4 )
Inst.
Or.,
Epíst.
dedicatória
a Trífon,
2:
«
usus
deinde
(7 )
Comentário à A.
P.
1: «hunc librum
ad Lucium
Piso-"
Iiorati consilio, qui in arte poética euadet
»
nem, qui postea urbis custos fuit, eiusque liberos misit;
nata et ipse Piso poeta fuit et studiorum liberalitLi
(5)
Vid.
n.
3.
(6)
Será este o titulo escolhido na nossa tradução.
antistes».
22
ffi^^^fyisto que Lúcio Pisão fora cônsul com Augusto (cf. comentário aos w . 55, 387,
ffi^^^fyisto que Lúcio Pisão fora cônsul com Augusto
(cf.
comentário aos w . 55, 387, 438, etc.). O único dado
jBpo^i s a.Ç. N o entanto, esta
identificação não satisfez
que prevalece, apesar de certas reservas que se possam
M^Igjius eruditos (J. H. vau Réenen e A . Michaelis), que,
pela convicção de que o ipoema tratava 'de maté-
||masque tinham de ter forçosamente uma data anterior
jfg^pbr a honaciana, formularam hipóteses em que ten-
í^ta^a m reivindicar para o poema horaciano uma data
(^'anterior , partindo de outr a identificação , a d o Pisã o ida
A^ P . com Gneu CaJpúrnio Pisão que fora cônsul em
V- .28, a.C. juntamente com Augusto. Falta, contudo, apoio
epigráíico para esta identificação, pois não consta que
Í;Gneu Pisão fosse amigo das letras nem tão-pouco que
^tivesse descendência,
fazer, é a personagem a quem o poema está dedicado,
Lúcio Pisão, e com este a data do seu nascimento,
49 a.C., e o facto de os seus filhos já estarem em idade
de compor poemas. Tudo isto leva a admitir, com J.
Ferret, a possível data de i o a.C., ou, mais caute-
losamente com Brink (8) , a possibilidade ide a Â. P.
ter sido composta depois de 14-13 a
C.
A
data
tardia
t f ; . , A verdade é que, de Lúcio Pisão, sabemos que per-
'tenda de facto a uma família com reconhecido interesse
£ pelas artes, muito embora nada saibamos sobre a sua
BjjV-
"
•* ; descendência.
Levanta-se, porém, outro problema quanto à idade
de Lúcio Pisão. Ele, que nascera em 49 a.C., na data
da publicação da A. P., já tinha filhos em idade de
escrever poemas, ou pelo menos, de estarem interessados
em fazê-lo. Isso leva-nos a conferir data bastante tardia
ao poema.
Mas neste domínio da crítica externa, isto é, dos ele-
mentos exteriores ao poema, ainda há outros dados que
foram utilizados para datá-Jo em época não tardia. Estes
: argumentos não são de molde a convencer, visto que as
referências a personalidades da época não se apresentam
parece impor-se, tanto mais que a crítica interna também
a autoriza.
Com efeito, o poeta, vv . 304-306, afirma que «nil
scribens ipse, docebo», i. e. que, naquela altura, não
se dedicava à poesia lírica, pois Horácio só considerava
como escrever o compor poesia lírica (9) . No entanto,
também poderia admitir-se a interpretação de Plessis-
-Lejay (10) que afirmam falar Horácio de não escrever
poesia dramática, mas de, no entanto, a ensinar. Isto
invalidaria a utilização deste passo como achega crono-
lógica. Naturalmente, estas suposições poderão ter a sua
razão de ser, e o facto dc Horácio não compor poesia
lírica no internalhim lyricum de 23-18 a.C. e no de
(8 )
J. Perret, Horace,
Paris,
1959, p.
190. Cf.
F,
Cupaiolo,
Uepistola di Orazio ai Pisoni, Nápoles, 1194H. C.O.'Brink (
Horace on Poetry, Prolegomena to the Literary Epistles,
Omjbridg», 1-963, pp. 239-243
(9 )
Brink, ob. cit,,
p. 242.
(10)
Horace,
CEuvres, comentário ao v . 306.
. ' de tal modo claras, que sejam decisivas para a datação
i
í- ;
t
25 125
14-8 a.C. (8 a.C. é a data da sua morte), mostra que há possibilidades de
14-8 a.C. (8 a.C. é a data da sua morte), mostra que há
possibilidades de colocar a composição de A.P. no úl-
timo intervallum tanto mais que a A. P. é a súmula de
todos os seus conhecimentos de teorizador. Não cremos,
todavia, que se possa considerar como definitiva, qual-
quer das soluções propostas, visto faltarem dados con-
cretos e indiscutíveis.
J. Perret, por sua vez, admite a data tardia, porque
lhe parece mais verosímil que a Arte Poética suceda à
epístola a Augusto, visto não ser provável que Horácio
tivesse dedicado ao imperador uma epístola mais redu-
zida que a dedicada aos Pisões, tanto mais que esta é
superior do ponto de vista da teoria literária. As epís-
tolas a que o imperador se refere na carta que mandou
a Horácio, lamentando-se por não receber nenhuma de-
las, devem ser as anteriores dedicadas a Floro (Epíst. II,
2) e a Mecenas (as do primeiro livro), muito embora
neste caso contemos coim a oposição de E. Fraenkel (11).
Julgamos, pois, ser mais prudente seguir a tradição
e admitir uma data de composição, de qualquer modo,
posterior a 14-13 a.C.
Depois de ler os 476 versos da
Escopo do poe-
ma e suas carac-
terísticas
arte poética que o autor apresenta, ou trata-se apenas do
•uma epístola séria — se .bem que com o tom irônico
próprio a Horácio—, em que este dá, sem procurar siste-
tematizar, o núcleo das suas idéias sobre poesia e criação
literária e sobre a formação do bom poeta? Mas a ver-
dade é que Horácio, cultor da poesia lírica, vai agora
formular regras para a poesia dramática, porquê? De
igual maneira, é estranho que tal intento provenha d£
um poeta que vive exactamente numa cidade onde o
teatro não fazia parte integrante da vida social, corno
na Grécia. Para esta escreve Aristóteles a Poética, em
que pràticamente só fala de: teatro.
Parece-nos plausível como resposta a estas interroga-
ções, o que nos diz J. Perret (12). É que no tempo de
Augusto teria havido um movimento, dirigido pelo pró-
prio imperador, para colocar o teatro no seu devido
lugar, tanto mais que muitos dos espectáculos citadinos
tinham desaparecido, tais como os .grandes actos de ora-
tória forense, o que forçava o povo a ir para o circo
ver os gladiadores ou, mais raramente, ao teatro. Além
disto, também apoia esta tese o facto de Augusto ter na
realidade favorecido autores dramáticos e de ter saibo-
reado com raro prazer — ao contrário de Horácio — os
velhos poetas dramáticos do Lácio, como Planto.
Arte Poética o leitor tem o direito da
se perguntar qual o intento pretendido
por Horácio. Trata-se de facto de uma
Tenta, portanto, Horácio escrever uma epístola aos
Pisões, em que, de certo modo, desfaça a impressão ne-
gativa com que tinha descrito a poesia dramática no
(111) Horace,
Oxford, p. 383. Quanto às palavras de Augusto
(P2)
Ob.
cit.,
p ,
i8ó e segs.
a Horácio,
vid.
p,
20.
t
27 125
Lácio, na epístola a Augusto, e dá regras, sem que pre- tenda escrever um tratado,
Lácio, na epístola a Augusto, e dá regras, sem que pre-
tenda escrever um tratado, regras de experiência e de
leitura para que o poeta tenha resultados esteticamente
mais profícuos na composição da poesia dramática.
No entanto, todos estes motivos são de ordem geral.
Mas, no particular, que pretenderia Horácio? Quereria
levar os Pisões a escrever, e bem, obras dramáticas ou
pensaria dissuadi-los de .tal intento? A esta pergunta não
é possível responder peremptòriamente, mas de tudo o
que lemos parece sem dúvida deduzir-se que Horácio
quereria ievá-los a compor poesia dramática, observando
os princípios da- composição literária que conduzem à
perfeição.
Resta-nos ainda o problema de como havemos de
classificar esta composição. Norden (13) atribui-lhe um
carácter isagógico, isto é, considera-a uma introdução
à -poesia, com a divisão ars+artifex; Rostagni (14) pre-
tende ver nela um tratado de poesia à moda de Aristó-
teles, sem a profundidade da obra deste. Immtsch (15)
diz ,tratar-se de uma selecção de problemas poéticos.
Steidle (16), por sua vez, afirma ser um conjunto de
preceitos, mas não um tratado. Cremos, por nossa parte,
que na A. P. há um pouco de tudo o que se defende
nestas opiniões sem, no entanto, admitirmos que seja w n
tratado. A verdade é que o poeta dá preceitos, mas não
os dá todos, fazendo, pelo contrário, uma selecção
daqueles que melhor conhece e de que mais gosta e, não
se submetendo, deste modo, à ordem dos manuais esco-
lares de retórica, que, porventura, serviriam de introdu-
ção à arte da poesia. No entanto ele introduz os leitores,
sem qualquer intento escolar, na verdadeira essência da
poesia.
Procura sobretudo expor as suas idéias, tiradas ou
não de autores precedentes, e tenta provar que para
fazer poesia não deve pensar o aprendiz de poeta que
a poesia é uma actividade de amador, que o poeta nasce
por geração' espontânea, nem confiar em demasia no
talento, nas aptidões naturais do poeta. Para que a
poesia seja algo de elevado, de útil à cidade, para que
alcance
o seu fi m educativo e estético, tem o poeta de
(13)
E . Norden: «Die Composition und Litteraturgattung der
Horaz.schen Epistula ad Pisones», Hermes, X L {1905},
pp. 481-528. Cit. apud Brink, ob. cit., pp. 20 e segs.
e 280.
possuir talento e arte, e para melhorar o seu critério
literário deve submeter-se a trabalho aturado nunca des-
prezando a opinião dos críticos. Só assim, com uma
vigilância perfeita, poderá o poeta criar poesia verda-
(114)
A .
Rostagni,
IJArte
Poética
di
Orazio,
Turim,
111930
deiramente digna deste nome.
(reed.
1946).
(U6)
W . Steidle, Stuãien
zur
Ars Poética
des Horaz:
Interpre-
í
15 )
O.
Immiseh, Horazens
Epistel
über
die Dichtkunst,
Phi-
tation
des
auf
Dichtkunst
und
Gedichte
bezüglichen
lologus,
Suppl.,
vol.
XXJ V
(193-2),
cit.
apud
Brink,
Hauptteils
(ir-294) , Würzburg , pp . 147 e segs. Cit , apu d
ob. cit.,
pp.
35 e
283.
Brink, ob.
cit.,
pp.
35 e
283.
28
29
cia para o conhecimento das fontes da A. P.: o filólogo Para exprimir as suas
cia para o conhecimento das fontes da A. P.: o filólogo
Para exprimir as suas idéias sobre a
Fontes
e papirologista Christian Jensen publicou um artigo (19)
maneira de escrever poesia, Horácio,
além de relembrar a sua longa experiência de poeta e
crítico, não esqueceu certos princípios de escola e para
tal utilizou, com certeza, fontes da antiga crítica lite-
rária.
O escoliasta de Horácio, Porfirião (17), diz-nos que
Horácio tirara da obra de Neoptólemo de Pário {cidade
da Tróadc ) os
principais elementos cia sua Arte Poética:
«Nesse livro reuniu os preceitos de Neoptólemo de Pário
acerca da arte poética, não todos, mas os mais impor-
sobre um papiro com a obra de Filodemo «Acerca dos
Poemas», no qual apontava que havia encontrado não só
referências mais abundantes ao Neptólemo de quem Por-
firião falava, como até fragmentos do próprio Neoptó-
lemo, que para mais apresentavam nítida conexão com
os princípios defendidos na Arte Poética horaciana.
A posição estética de Neoptólemo, que pode ser descor-
tinada através dos fragmentos apresentados, coloca-se
nitidamente entre a escola modernista de um Cailímaco,
ou seja, entre o neoterismo alexandrino e a escola mais
tantes».
A figura de Neoptólemo de Pário, no
Neoptólemo
entanto, foi pouco conhecida até ao de Pário
séc. xx , pois as referências que a este
poeta e, ao mesmo tempo, teorizador da poética se fa-
ziam, eram pouco abundantes (em Ateneu, Estrabão,
Escoliastas de Homero, etc.), carência que levou os crí-
ticos de Horácio a dividirem-se quanto à importância
a atribuir a Neoptólemo como inspirador das idéias do
poeta romano (18).
tradicionalista e equilibrada de Aristóteles, mas apresen-
tando-se preponderantemente com uma feição peripaté-
tica. Neoptólemo, que, por certo, era um alexandrino
nos versos eruditos que escrevia e na sua erudição, assim
como no requinte do estilo, era, contudo, aristotélico
na defesa do poema longo (Calímaco queria-o breve
[20] , como se vê na sua frase: «um grande livro é igual
a um grande mal») , e da unidade da concepção literária.
Quanto à divisão da abra teórica de Neoptólemo e da
sua possível influência na divisão da A. P. horaciana
falaremos mais adiante.
Na segunda década do século xx , ou seja mais pre-
cisamente em 1918, deu-se um facto da maior importân-
('19)
«Neoptolemos
imd
Horaz» ,
Abhand.
d.
Preuss.
Ak.
d.
Wt5s.
(1918),
XI V
(1919),
p.
48. Cít.
apud Brink, f
(117) «in
quem
librum
congessit
praecepta Neoptolemi jo ã
ob.
cit.,
p .
28, n. 1. Cf. a bibliografia de Jensen, acerca
iraplavou de arte poética, inon quidem omnia, sed eminen-
tíssima».
do mesmo assunto, na p. 127S.
• '
(20 ) Frag . 465 (Pfeiffer) .
(18)
Vid. Brink, ob.
cit.,
p,
43 e sega.
125
t 30
ilado de Neoptólemo, porém, outras possíveis in éfluências se entrevêem, destacando-se, sobremaneira, a j da
ilado de Neoptólemo, porém, outras possíveis in
éfluências se entrevêem, destacando-se, sobremaneira, a
j da escola aristotélica, cuja influência se pode admitir,
pelo menos parcialmente, como .tendo-se infiltrado na
obra, através do próprio Neoptólemo. N o entanto, a exi-
guidade dos fragmentos que deste nos chegaram, não
permitem ser-se demasiado afirmativo, muito embora
saibamos que a teoria da unidade, da propriedade, do
estilo, do 7tçiÍ7tov, são princípios aristotélicos. Se olhar-
mos, contudo, para a teoria dos cinco actos vemos que
esta já não pertence a Aristóteles mas aos filósofos da
sua escola, dos seus continuadones na escola d e Teo-
frasto (21). Este princípio, por exemplo, que vai im-
perar durante todo o hdenismo, foi possivelmente
conhecido também através de Neoptólemo. No comen-
tário ao poema, contudo, poderemos avaliar melhor estes
problemas.
Mas é Horácio que predomina entre todas estas cor-
rentes, é ele que reúne num todo os elementos das diver-
sas escolas, caJdeando-os com idéias e estilo provenientes
da sua experiência e talento criador e formando um
poema que obedece aos princípios que defende.
Apesar do esforço de Horácio para
Plano
fazer do seu poema uma obra una, este e Estrutura
tem sofrido as mais variadas interpreta-
ções quanto ao plano. Já Escalígero em 15ól dizia na
sua Poética que o poema de Horácio era uma «ars sine
arte tradita» (22). A pretensão de Escalígero, contudo,
não tem razão de ser, visto que nunca se poderia ima-
ginar um poema sobre a arte poética obedecendo ao
sistema
rígido a que se sobmete a .estrutura fixa de um
manual de retórica. Outra atitude, contrária à de Esca-
Tudo isto nos mostra que ao lado de uma possível
influência directa de Aristóteles e da escola peripatética,
ternos de admitir o conhecimento destes por meio de
Neoptólemo de Pário e sua conseqüente influência. Além
disso, como Neoptólemo pertence à época helenística não
é de estranhar que pela sua leitura tivesse Horácio tam-
bém sido influenciado, mas levemente, pelo que se de-
fendia na escola alexandrina, a qual Horácio, ao longo
da sua obra, mostra conhecer bem.
lígero, mas que nos parece igualmente errada, é a de
Dacier — e, na sua esteira, a de Cândido Lusitano —
(23), que admirava, na aparente falta de ordem do
poema, «Ia beauté du désordre».
A
crítica ao plano da Ars
Poética
torna-se, no en-
tanto, especialmente válida no decorrer deste século, pois
os filóloigos dispõem doutros meios mais seguros. N o
princípio deste século, em 1905, E . Norden, divide a
A.
P.
em
duas
grandes
partes:
Ars —
1-294/Artifex
(22 ) Vid.
Brink, ob.
cit.,
p.
17; Arte
Poética,
trad. de
Cln -
dido Lusitano, Lisboa,
1758, Discurso
preliminar.
(23) Cândido Lusitano,
pp. 16-17.
ob.
cit.,
ibidem. Cf. Brink,
ob.
cit.,
(21)
Vid, comentário aos w .
1189-190.
INQ 1! — 3
33
32
— 295-476. Este esquema, com mais ou (menos subdivi- sões, será adoptado por Jensen (1918)
— 295-476. Este esquema, com mais ou (menos subdivi-
sões, será adoptado por Jensen (1918) , Rostagni
(1930), Imrnisch (1932), estando todos de acordo
quanto à última parte, ou seja, o artifex, que deve cor-
responder à parte dedicada por Neoptólemo de Pário
ao poeta (jrstviTTjr). N a verdade, com a descoberta do
papiro de Filodemo, vira-se, e Jensen o mostrara, que a
própria poética de Neoptólemo tinha um esquema, de
que nos ocuparemos um pouco mais adiante, e que à
última parte desse esquema tripartido correspondia exac-
tamente um capítulo dedicado ao poeta, ao artífice. Esta
parte, contudo, já fora apontada por Norden, mesmo
antes de se conhecer divisão de Neoptólemo. Temos
assitm o esquema dado gor Norden: A rs —-1-294: Partes
poética — 1-130 (1-41: conteúdo; 42-44: ordem; 45-
-130: estilo); Genera poética — 131-294 (épico e dra-
mático). Artifex (poeta) : 295-476, sendo esta última
parte admitida unânimemente por todos os críticos, o que
nos dispensa de a citar nos planos que a seguir enume-
ramos.
Jensen, depois de dar a conhecer a divisão da obra
de Neoptólemo de Pário: uoína-iç, i:olrijj.a o noimúç,
afirma que a primeira parte da Arte Poética horaciana
se deve dividir da seguinte maneira; Ars: 1-294: itoÍTjàiç,
1-44 (ordem); iwb^a , 45-118 (sobre o estilo), 119-294
(•gêneros poéticos: épico e dramático).
Immisch: Ars 1-294: isoíiiciç, 1-46 (sobre a poesiá,:;.
conteúdo e ordem), 47-118 (estilo); 119-152 (imitação);!
71 oít]/-!a 153-294 (gêneros literários, sendo o drama o gê-
nero escolhido).
O último estudo de análise que conhecemos é o de
Brink que apresenta um esquema tripartido, mas com
uma ordem diversa, visto que defende diferente divisão
da obra ide Neoptólemo (24) , que e m ve z de ser
TtoÍTi/id e 7to[*5tt5:, era sim noíT|/«t, 7toÍ7)eri<;, etc. Deste
modo teremos o seguinte plano, que parece sem dúvida
o mais racional, e que obedece, em todas as suas partes,
à influênci a e estrutura ide certas fonte s possíveis, entr e
as quais se evidenciam a própria obra
de Neoptólemo de Pário, .as obras d e Plano mais ra-
Aristóteles, Poética, Retórica e o tra- cional (Brink) e
tado desaparecido de Aristóteles De respectivas fon-
poetis: Introdução, 1-40 (correspond e tes d a Arte Poé-
a Arist., Poética,
7-8) em que o poeta
tica
insiste sabre a unidade da concepção
poética, pmceptwn, que será válido para todo o poema;
I." parte, sobre a ordem e o estilo, 40-118 (corresponde
ao capítulo •Koí^fia de Neoptólemo e a Arist., Retórica,
III) ; 2 / parte, sobre os grandes igéneros da poesia, 119-
-294 (que corresponde à tíoÍtjcl; de Neoptólemo e a
Arist., Poética e Retórica, II , 12-14); parte, dedicada
ao poeta e à crítica poética, 295-476 (correspondente
Rostagni,
por
sua
vez :
Ars:
1-294: itoÍYitnç,
1-45
(ordem):
itot^/ia, 46-127
(drama).
(estilo),
128-152
(imitação),
153-294
(24)
Vid. p.
33.
t
35 125
aoTtsinTTÍçde Neoptólemo-e à obra desaparecida de Aris- Horácio de que, infelizmente, só encontrámos a citação:
aoTtsinTTÍçde Neoptólemo-e à obra desaparecida de Aris-
Horácio de que, infelizmente, só encontrámos a citação:
tóteles De poetis).
Não há dúvida de que este esquema nos aparece per-
o do
P .
Bento Peneira (Jesuíta), o de D. Firutuoso de
S. João, Cónego Regrante, o de Gaspar Pinto Correia,
feitamente verosímil e deve satisfazer todo aquele que
nã o procura r n a Art e Poétic a •um plan o demasiad o fix o
em que todas as idéias estejam classificadas por rubricas,
plano que afinal iria contra a concepção poética de
Horácio, que vê na poesia não um gênero narrativo como
que, segundo Costa e Sá, escrevera copiosas notas, o do
(em manuscrito) P. Peixoto Correia (Jesuíta). Além
destes, temos as edições de Pedro da Veiga, publicada
em Antuérpia, na Oficina de Cristiano Hauwel, em 1578,
e de Tomé Correia, prof, de humanidades em Pailermo,
a história ou os -poemas cíclicos, mas um gênero que
cultiva os assuntos por temas, limitando-se a tratá-los
nos aspectos que mais interessam ao artista. Seria querer
fazer deste poema de Horácio uma obra científica, de
feição alexandrina, o querer descobrir um sistema rígido
de idéias que procurassem estudar exaustivamente o
assunto que mais preocupa Horácio: como fazer um ibom
poema evitando, na medida do possível, os erros em que
tão fàcilmente cai todo o que não tiver talento e técnica.
Roma e Bolonha, que em Veneza, na Oficina de Fran-
cisco de Franciscis, em 1587, publicou um comentário à
Arte Poética de Horácio (25).
A Arte
Poética
horaciana
encontrou,
A
A.P .
em
D o séc. xv n conhecemos uma edição da A. P. in-
cluída na edição das obras completas de Horácio: Enten-
dimento literal e constraição portuguesa de todas as
obras de Horácio príncipe dos poetas latinos lyricos.
Com Index copioso das Histórias & Fábulas conteúdos
nellas. Emendado nesta segunda impressão por industria
de Matheus Rodriguez mercador ãe Uuros, & impresso à
sua custa, 1657- Lisboa, Officina de Henrique Valente
como em toda a Europa, favor muito Portugal
especial entre os latinistas portugueses,
que dela fizeram várias edições, as quais, muito embora
d e desigual valor, deram a conhecer Horácio e os seus
princípios poéticos ao público português. Loganoséc. xv i
nosso humanista Aquiles Estaço publica em Antuérpia,
n o ano de 1553, um comentário à A. P., em que se
ocupa principalmente de crítica textual. Este é o pri-
meiro trabalho português, de que tivemos notícia. Mas
ainda há outros comentários e edições da A. P. de
de Oliveira. Esta obra fora editada pela primeira vez a
expensas de Francisco da Costa, a quem foi atribuída a
tradução e fora impressa por Manuel da Silva. Esta é
a opinião de Inocêncio (26). N o entanto, Menendez Pe-
(25)
Cf. as edições nomeadas por Costa e Sá (vid. p. 43),
pp.
22-24 e a
e< l*
Cândido Lusitano no Discurso
preliminar.
(26 )
Inocêncio , vol . AT, p . 36S. Cf . Exposição
Horaciana j
Bi-
blioteca
Nacional,
Catálogo
(elaborado por Luisa Maria da
Costa e Azevedo) , Lieboa, 1937, pp. 71^713.
125
t 36
layo (27) afirma ser esta tradução de Jorge Gomes Alamo. A edição referida é feita
layo (27) afirma ser esta tradução de Jorge Gomes
Alamo. A edição referida é feita à curiosa maneira do
séc. xv n com o texto laitino intercalado no texto .portu-
guês, isto é, uma tradução inferiinear. A tradução é
, demasiado servil e o aspecto tipográfico dificulta a lei-
tura. Trata-se, contudo, de tentativa meritória, pois o
autor esforça-se por traduzir correctamente, palavra por
palavra, o texto latino.
Arte Poética. Traduzida e illustrada em portuguez
por Cândido Lusitano, 1758, Lisboa, Officina Patriarca]
dc Francisco Luiz Ameno; 2. a ed. correcta e emendada,
Officina Rollandíana, Lisboa, 1778; Nova edição, Officina
Rollandiana, Lisboa, 1883.
Esta obra deve ter conhecido certo êxito na sua
época, visto que foi reproduzida em mais duas edições,
que apresentam unicamente como variantes um título
com ligeiras modificações e formatos diversos do pri-
meiro:
Obras de Horácio, Príncipe dos Poetas Latinos Ly-
ricos, com o entendimento literal & construição Por tu-
giteza, ornadas de hum Index copioso das historias, &
Fabulas conteitdas nellas. Emendadas nesta ultima Im-
pressão. 1681', Lisboa, Officina de Miguel Manesoal & à
sua custa (esta edição tem dois formatos diferentes).
Com o mesmo título repete-se esta edição em 1718, em
Coinmbra, Officina de Joseph Antunes da Sylva, É por-
tanto esta últimaa 4. a edição, sendo a 1." de 1638, a 2."
de 1657 e a 3. a de 1681' (em dois formatos) (28) .
Sem dúvida alguma é esta a edição, elaborada pelo
P. Francisco José Freire (Cândido Lusitano), que goza,
entre todas as edições portuguesas, de maior fama, de-
vido ao facto de estar trasladada etrn vernáculo sabo-
roso, se ibem que o autor a tivesse (feito em verso le se
tivesse utilizado da (tradução francesa de Dacier (29).
O comentário 1 , já muito antiquado, ainda nos parece ex-
tremamente sugestivo,, sobretudo pelo que revela das
preocupações literárias vigentes na sua época.
As críticas que se fizeram a esta tradução (30), de
que era prosaica, não são justificadas, visto que não se
trata da tradução de um poema lírico, mas sim de um
poema com fins didácficos, cujo estilo não era conside-
rado, pelo próprio Horácio, como sendo, pertencente ao
da poesia pura, na qual o poeta só contava a poesia
lírica.
Ainda do mesmo século nos chegaram outras edições:
1, A
arte
poética,
traduzida
em
rima
por Miguel
do
É, no entanto,
célebre edição da A.
no séc. xvii i
P.:
que se publica a mais
125
(29)
Vid.
ed.
de
Antônio
Luís
de
Seabra,
(víd.
p.
44);:;
(27 )
Horácio
en Espana,
p .
143.
pp
.
.278-279 .
-
(28 )
C£. Exposição
Horaciana,
pp . 72-73.
(30)
Vid.
a .
29.
t t y j
;
t 38
fcoüto Guerreiro, 1772, Lisboa, Regia Officina Typo- Universidade de Coimbra o seu autor. Parece, contudo
fcoüto
Guerreiro,
1772, Lisboa,
Regia Officina
Typo-
Universidade de Coimbra o seu autor. Parece, contudo
graphica.
que a primeira hipótese é a mais provável.
Depois de breve introdução, em que, não sem alguma
candura, o autor afirma que traduzira em verso «porque
Arte poética. Epístola aos Pisões. Traduzida em por-
nenhumas razões podem persuadir os leitores a que gos-
tuguez e iUustrada com escolhidas notas dos antigos e
tem mais do verso solto, que da rima», vem a tradução,
modernos interpretes e com hum commentario critico
sem comentário, escrita com um mau gosto evidente,
sobre os preceitos poéticos, lições varias } e in-telligenda
fugindo, para mais, à intenção lingüística do .texto hora-
dos lugares difficultosos por Pedro José da Fonseca,
ciano e às próprias idéias do poeta, acrescentando muitos
1790. Lisboa, Officina de Simão Thadeo
Ferreira.
pormenores sem valor, para conseguir obter umas rimas
Esta edição bilingüe é uma das mais bem .documenta-
de impressionante pobreza. Tem esta tradução unica-
das: o texto é precedido de um prólogo e acompanhado
mente valor histórico.
por notas a que se segue um «Commentario Critico».
O comentário e as notas são documentos da erudição do
Arte poética. Traduzida em verso rimado e dedicada
autor e testemunhos da ciência Hlológica dos nossos eru-
à memória do grande Augusto, por D. Ritta Clara
ditos do séc, xvii i (32). A tradução em prosa, mantém-
Freyre de Andrade. 1781. Coimbra, Regia Officina da
-se fiel ao texto e, embora não dúctil, parece-nos valiosa
Universidade.
pelo que representa de esforço para verter o 'pensamento
Consiste esta obra numa simples tradução, precedida
horaciano em vernáculo.
de uma introdução sucinta em que se remete para o
comentário de Cândido Lusitano. A tradução é em verso
Poética de Horácio. Traduzida e explicada methodi-
limado e disso muito se ressente, além de que o vocabu-
camente para uso dos que aprendem por Jeronymo Sua-
lário está longe de possuir o sabor .do de Cândido Lusi-
res Barbosa, jubilado na Cadeira de Eloqüência e Poezia
tano. Também à rima se sacrifica a idéia e a forma, que
da Universidade de Coimíbra. 1791. Coimbra, Regis
saem por vezes erradas e frouxas. 0 autor desta tradução
não é D . Rita de Andrade, mas seu marido Bartolomeu
(312) Pedr o Joeó da Fonseca, j á fizera
anteriormente um comen-
tário
à
A.
P.,
que, existe, manuscrito, na B.
N.
d e ÍLis-
Cordovil, conforme diz Inocêncio (31). Outra hipótese
boa
(n. °
10676 )
e
cuj o título é: « Horácio , Notas esco-
é que teria sido Antônio Isidoro dos Santos, bedel da
lhidas
à epístola
aos Pisoens,
de Q. Horácio
Flacco,
feitas
por
Pedro
José
da
Fonseca,
professor
de
Rethorica
e
{31 )
Vol .
VHE,
p .
163.
<
Poética
na
cidade
de Lisboa,
Anno,
ifóç.
t
41 125
Officina Typographica. 2.* edição. 1815. Lisboa, Typo- graphia Rollandiana. Arte Poética ou Epístola de Q.
Officina Typographica. 2.* edição. 1815. Lisboa, Typo-
graphia Rollandiana.
Arte Poética ou Epístola de Q. Horácio Flacco aos
Pisões, vertida e ornada no idioma vulgar com ilustra-
A tradução é em verso rimado mas o estilo não cor-
ções e notas para aso e instrucção da mocidade portu-
responde à língua horaciana,
.pois
é
desinspirado
e
guesa por Joaquim José da Costa e Sá. 1794. Lisboa,
prosaico.
Tem, além disso, o defeito de ser feita na
Officina de Simão Thaddeo Ferreira. ' ''
seqüência do texto horaciano inserido em diversas partes
Esta edição é precedida de uma copiosa introdução,
separadas, que correspondem aos inúmeros assuntos de
e o texto ibrüngue é acompanhado por não menos ajbiin-
que Horácio trata. Assim, a cada passo horaciano, eajbe
dante comentário. A tradução é conecta, ainda que por
um comentário que faz corpo com a tradução e o texto
vezes seja prolixa. Quanto à introdução parece-nos útil
latino. Deste modo, a consulta do livro torna-se difícil
sobretudo um pequeno parágrafo (VI , pp. 22-26) em
não se podendo ler, sem dificuldade, o texto e a tradução
que o autor descreve as edições de Horácio em Portugal.
em perfeito seguimento. O comentário, contudo, é
copioso e bastante completo para a época.
Po r suia vez, do séc. xi x também chegaram até nós
algumas edições da A.
P.:
A Poética
restituida
à sua ordem:
com a
interpretação
parajrastica em português e huma carta do editor a certo
Arte Poética. Epístola aos Pisões. Traduzida em
amigo sobre este mesmo assunto. 1793. Lisboa, Regia
verso portuguez por Antonio José de Lima Leitão. 1827.
Officma Typographica.
Lisboa, Impressão ide Manuel Joseph da Cruz .
O autor desta obra é
o P . Tomaz José de Aquino
Esta edição é constituída unicamente pela traduçãt
que fez
uma introdução assaz vaga,
na qual
semeia
com um òreve comentário destituído de interesse.
rermmscências eruditas sem grande ligação com o poema
A tradução, em verso ibranco, não reproduz o pensa-
horaciano; por isso, lhe chama «carta a certo amigo»
mento horaciano, mas sim o pensamento e o mau-gostí
A tradução, contudo, está escri ta em prosa—o autor cha-
do tradutor, muito embora ele diga no prefácio: «Paire
ma-lhe parafrástica — , num estilo demasiado prolixo e
ce-me qu e nesta minha tradução m e aproximei ida con-
terra-a-terra, sendo apesar de tudo mais fiel que as de
cisão de Horácio m ; ais que todos os outros».
Rita F. de Andrade e de Miguel do Couto Guerreiro
O comentário que o acompanha é magro e mal documen-
Arte
Poética.
Epístola
aos Pisões.
Traduzida
pek
tado, seguindo-se-Ihe a tradução das notas de Metas-
Marquesa de Alorna, in Obras Poéticas,
1844 Lisboa
tásio à A.
P.
Voi.
V ,
p. 3-66 e 325-326.
42
A Marquesa de Alarma fez uma edição bMingue, seguida de breve mas elucidativo comentário. A
A Marquesa de Alarma fez uma edição bMingue,
seguida de breve mas elucidativo comentário. A tradu-
ção, em verso branco, é bastante prosaica, foge, freqüen-
emendar se tivessemos paciência e vagar para nos
ocuparmos com ella por mais tempo» (p. 280).
tes vezes à letra, qiuer acrescentando expressões que não
estavam no texto latino, quer suprimindo outras que são
fundamentais para a sua compreensão. A l 1 .* edição
desta tradução da A. P. saiu a lume em Londres, enii
Paraphrase da Epístola aos Pisões, comummente de-
nominada Arte Poética de Quinto Horácio Flacco, com
annotações
sobre muitos
lugares por D. Gastão Fausto
da Gamara Coutinho, Lisboa, na Typographia de José
1812 (33) .
Baptista Morando, 1853.
A tradução muito livre, como o 'próprio títuío sugere,
Aos Pisões, sobre a arte poética, traduzida por An-,
lê-se com certo agrado e segue-se-lhe um comentário que,
tonio Luiz de Seabra, em Satyras e Epístolas de Quinto
emíbora nada traga de pessoal, satisfaz as exigências do
Horácio Flacco, traduzidas e comentadas por
Porto,
leitor (34).
em casa de Cruz Coutinho, 1846, vol. II , pp. 105-128,
335-280.
Passamos
agora ao séc. xx , do qual só conhecemos,
Esta edição é constituída pelo texto traduzido e por
um comentário mediano. O valor da tradução é infeliz-
mente bastante diminuído pela falta de talento do autor,
que, no entanto, é de extrema severidade para os seus
píedecessores (vid. pp. 277-280). Bfectivaimente, não
aprecia, com razão, nenhuma das traduções em verso,
que se fizeram anteriortmenbe, mas nem por isso 'deixa de
tentar o verso para fazer a sua tradução. Quanto a esta,
julgamos ser suficiente crítica, o que esítá implícito nas
palavras finais escritas pelo próprio autor: «D a nossa
tradução dizemos unicamente, que reconhecemos que
leva desigualdade, e alguns defeitos, que poderíamos
uma tradução, publicada no primeiro decênio do século.
Obras
de
Horácio—Arte
Poética
(versão
portu-
guesa),
sem
nome
de
tradutor,
Cruz
e
C. a
Editor,
Braga,
1905-
Trata-se de um simples folheto com o texto da tra-
dução, Esta apresenta-se geralmente conecta, mas nem
sempre dá o devido lugar a todos os elementos que sur-
gem no^contexto horaciano. Naturalmente que a falta
de comentário desvaloriza (bastante este trabalho.
(3l ) Cf. Eoocêncio, vol. m ,
p. 136.
(33)
Cf- a ed- de A , Luís Seabra, p. 279.
aa
44
Foram estes os elementos bibliográficos que conse- guimos colher sobre a fortuna da A, P.
Foram estes os elementos bibliográficos que conse-
guimos colher sobre a fortuna da A, P. horaciana em
Portugal. É possível que haja lacunas, mas julgamos
suficiente o número de edições consideradas, visto que,
por imeio delas, muito podemos avaliar do conhecimento
de Horácio e sua qualidade no nosso país.
PRINCIPAL
BIBLIOGRAFIA
MODERNA
Edições da Arte Poética (A . P. )
Horace
on
Poetry,
The
'Ars Poética',
by
C.
O.
Brink,
Cambridge, 1971.
Horace,
Épitres,
texte établi
et tradiuit par
F.
Ville-
neuve, Paris,
1961.
Quintus Horatius Flaccus, Briefe,
erklárt von A. Kiess-
ling
&
R .
Heinze,
7, a
ed.,
com apêndice por
E.
Burck, Berlim,
1961: fundamental quanto à crítica
feita por Burck aos mais modernos trabalhos sabre
a
A.
P.
Horatius,
Opera,
ed.
de F . Klingner, Lípsia, 1959.
Orazio,
Arte
Poética,
introduzione e commento
di
A .
Rostagni, Turim, 1930.
Oeuvres
d J Horace,
ed.
F.
Plessis &
P.
Lejay,
Paris,
1904.
Comentadores
Pomponi
Porphyrionis
commentarii
in Horatiwn,
ed,
G.
Meyer, Lípsia, 1874.
Pseudoacronis
scholia
in
Horatmm
to&tustwra, ed.
O.
Keller, 2 voís., Lípsia, 1902-1904.
47
46
Obras diversas Grimal, P., Essaisur l'Art Poétique d'Horace, Paris, s.d. (1968). Bieler, L. , Geschichte
Obras diversas
Grimal, P., Essaisur l'Art
Poétique
d'Horace,
Paris, s.d.
(1968).
Bieler, L. , Geschichte
der rõmischen
Literatur,
Berlim,
1961.
Lausberg, H, , Elemente derItterarischen Khetorik, Muni-
que, 1963; Elementos
de Retórica
Literária,
introd. e
Brink. C. O. , Horace on Poetry, Prolegomena to the lite-
trad. de R. M. Rosado Fernandes, Lisboa.
rary Eptstles, Cambridge, 1963; The 'Ars Poética',
Cambridge, 1971; Epistles Book II, The Letters to Au-
The Oxford
Classical Diciiotiary,
Oxford, 1950 ( O.C.D . )
gustus and
Florus, Cambridge, 1982. E a obra mais
Pelayo, Marcelino Mcnéndez y , Horácio en Espana. Tra-
actualizada e mais bem orientada que
conhecemos.
duetores y conientadores
de
la
Poesia
Horaciana.
Solaces
bibliográficos,
Madrid, s.
d.
Cupaiolo, F. , L'Epistola
di Orazio
ai Pisoni,
Nápoles,
1941. Trabalho claro e extremamente bem informado
Perret, J. , Horace, Paris, 1959. Monografia sem preten-
e
útil.
sões a ser exaustiva, mas que, no entanto, é o resul-
Exposição Horaciana, Catálogo, (Biblioteca Nacional
tado dos conhecimentos de um grande Üatinista.
de Lisboa), Lisboa, 1937- Obra organizada por Luiza
Stégen G., Les épttres littéraires d'Horace, Namur,
Maria de Castro e Azevedo, que, com ela, contribui
1958. Estudo da estrutura das epístolas literárias de
grandemente -para o conhecimento das edições portu-
Horácio, em moldes demasiadamente ambiciosos.
guesas de Horácio.
Nem sempre fundamenta as suas opiniões. Vid. a
Fxânkel, E. , Horace, Oxford, 1959- É este o melhor es-
recensão
de
Maria
Manuela
de
B.
Albuquerque,
tudo sobre as composições de Horácio, mas infeliz-
Euphrosyne,
II I
(1961),
pp.
433-437.
mente não trata 'da A.
P.,
muito embora a ela se
refira quando necessário.
Gonçalves, F . Rebelo: «Horácio e Eurípides», Euph.ro-
syne, II I (1961), pp . 49-64. Faz-se o estudo das
razões por que Horácio não apresenta, nas epístolas
literárias, Eurípides como seu modelo. É que o tra-
gediógrafo grego fugia das regras aristotélicas defen-
didas por Horácio.
48
1NQ 11
-
49
Q. HORATI FLACCJ. QUINTO HORÁCIO FLACO DE ARTE POÉTICA LIBER ARTE POÉTICA Humano capiti ceruicem
Q. HORATI FLACCJ.
QUINTO
HORÁCIO
FLACO
DE
ARTE
POÉTICA
LIBER
ARTE
POÉTICA
Humano capiti ceruicem pictor equinam
iiungere si uelit et uarias inducere plumas
un dique conlatis memíbris, ut turpiter atrum
desinat in piscem mulier formosa superne,
spectatum admissi risum teneatis, amid? 5
Credite, Pisones, isti tabulae fore libram
persimilem, cuius, uelut aegri somnia, uanae
fingentur species, ut nec pes nec caput uni
reddatur formae. «Pictoribus atque poetis
Se um pintor quisesse juntar a uma cabeça hu-
mana. um pescoço de cavalo e_a membros de ani-
mjtis de toda a ordem aplicar plumas variegadas, de f
forma a que temi iriasse em torpe e negro
peixe a.
^
mulher de
bela face, contenteis
a ver tal espectáculo
vós o riso,
ó meus _ O
amigos, se
vos levassem? Poi s
5
crede-me, Pisões, em tudo a este quadro se asseme-'
íharia o livro, cujas idéias vãs se concebessem quais
sonhos de doente;, de tal modo que nem pés nem
^cabeça pudessem constituir^ uma só forma, Direis
vós que «a pintores e a poetas igualmente se con-
1-40 — Introdução; defende-se a unidade da eoncepçSo poética.
I — Com este início, no qual se descreve um ser de hibri-
dismo impressionante, pretende Horácio defender, tal como &
fizera a escola aristotélica, a preferência pelo^verosímil, o que
poderá parecer contraditório visto sabermos que se criaram, na
antiga mitologia, seres fabulosos e híbridos corno os Centauros,
as Sereias, a Quimera, etc. Estes seres podem, no entanto, exis-
ti r 110 mito , ma s a obr a poétic a nã o s e lhe s dev e assemelha r
na sua estrutura. Pelo contrário, a obra de poesia deve ser
simples
e una, formando um
todo,
Cf, Arist,, Poética,
VT-VTI,
1450 b e segs. Este princípio é defendido na A , P ,
até ao v .
37
3 — turpiter refere-se a de sinal e ao mesmo tempo a atrum,
o que torna difícil a sua tradução. Cremos, todavia, que mais
reforce atrum
devido à proximidade.
9
Esta
objecção,
feita
por
um
interlocutor
imaginário,
corresponde a um preceito já conhecido na antigüidade*
cujo
50
51
quMlibet audendi sernper fuit aequa potestas.» 10 cedeu, desde sempre, a faculdade de tudo oUsar».i
quMlibet audendi sernper fuit aequa potestas.»
10
cedeu, desde sempre, a faculdade de tudo oUsar».i 10
. Sciinus, et hanc ueníain petimusque damusque uicissim,
Bem o sabemos e, por isso, tal liberdade procura-1 l-Vfj C
'sed non üt placidis coeant inmitia, non ut
mos e reciprocamente a concedemos, sem permitir^ \
contudo, que à mansidão se junte a ferocidade e- \
^.serpentes auibus geminentur, tigribus agni.
que se associem serpentes a aves e cordeiros a- /
Jnceptis grauibus plerumque et magna professis
tigres.
*
jjpjirpureus, late qui splendeat, unus et alter
15
:adsuitur pannus, cum lueus et ara Dianae
Geralmente a princípios solenes e onde se pro-
et properantis aquae per amoenos ambitus agros
metem grandes coisas, para obter mais efeito,
aut ílumen Rhenrai aut pluuiius describitur arcus:
qualquer remendo purpúreo se lhes cose, ao des- 15
sed nunc non erat his locus. Et fortasse cupressum
crever o bosque e o altar de Diana, as curvas de
rápidos ribeiros por amenos campos, ou o Reno
eco se encontra, p. ex., em Luc., Pro imag., '18: t K um dito
antigo, contudo, que poetas e pintores não têm de dar contas*.
Horácio admite, em princípio, o que esta velha sentença em si
ooafcém, mas sem aceder a exageros, pois a poesia é imitação
(ji£{i7]ffiç) e a realidade não dá azo a fantasias exuberantes e
irracionais.
ou o chuvoso arco-íris; ali, porém, não cabiam tais
descrições. Porventura também sabes figurar um
cipreste: mas que vem este fazer no meio dos des-
- ,. 14 — Censura o poeta, atendo-se, portanto, ao princípio
dajmídade do põemãTíiidõ _ o~que não~ tenha íntima conexão
com o tema .poético,^tajs_çgmo-.as digressões de que nos dá
exemplos nos versos seguintes. Compara essas mesmas digres-
sões a remendos de púrpura que, porventura, se cosam num
vestido de tecido diferente e que, em si, forma um todo. Esta
crítica, como a seguir apontamos, era possivelmente dirigida*
contra certos poetas da antigüidade. N o que respeita às
letras gregas é digno de tal critica, Antímaco de Cólofon
(séc. rv a. C.), como nos diz Rostagni, visto que o poeta
grego, ma Tebaida, fazia digressões similares. Dentro das letras
romanas, contudo, já é mais difícil identificar um poeta que
possa ser objecto desta crítica. Rostagni admite que a imagem
do bosque de Diana (v . ió ) se dirija contra CornéLio Severo,
e que de Fúrio Bíbáculo se trate, quanto à crítica da descri-
ção do Reno (v. r8) feita a despropósito. Lejay, no entanto,
não admite esta última hipótese, -porque Bíbáculo nos seus
Annales belli Gallici teria sido forçado, pela natureza d o tema,
a falar do Reno, não caindo, por conseqüência, no erro apon-
tado por Horácio,
19 — A comparação do mau poeta com o pintor que, em
todos os quadros, só sabia pintar um cipreste é fortemente
irônica pelo duplo facto de ser pintada uma árvore numa cena
marítima e de ser esta um cipreste, árvore bem conhecida como
símbolo funerário. Deste modo, o cipreste, árvore dos mortos,
aparecia junto de alguém que no naufrágio se salvara com
vida. Tudo isto era contrário à verosimilhança que se pretende
na obra de arte.
O exemplo horaciano é tirado de um costume normal entre
os antigos: os náufragos faziam-se pintar na cena do
naufrá-
gio de que se tinham salvo. A
pintura podia depois ser depo-
t
53 125
seis sim ulare; quid hoc si fractis enatat exspes 20 nauibus, aere dato qui pingitur?
seis sim ulare; quid hoc si fractis enatat exspes 20
nauibus,
aere dato qui pingitur?
Ainphora
coepit
institui;
ourrente rota cur
urceus
exit?
troços do navio, do qual, perdida já a esperança, 20
quem te deu dinheiro para assim o pintares, a
custo se salvou? Foi uma ânfora, sim, que começou • 1
Denique sit quod uis,
simplex
dumtaxat et
unum.
a ser modelada: por que razão, da roda circulante^
|
Maxima pars uatum, pater et iuuenes patre digni,
decipimur specie recti. Breuis esse laboro, 25
é um pote que vai sair?
Em
suma: faz tudo o quel
'
absourus
fio; sectantein
leuia
nerui
qulseres, contanto que o faças com simplicidade e (
unidade.
deficiunt animique; professus grandiã turget;
serpit humi tutus nimium timidusque procellae;
qui uariare cupit rem prodigialiter unam,
delphinum siluis adpingit, fluetibus aprum. 30
In uitium ducif culpae fuga, si caret arte.
Com a grande parte dos poetas, ó pai e ó filhos
dignos de tal pai, deixamos enganar-nos por falsas
aparências de verdade: forcejo por ser breve, em 25
obscuro me torno; a quem procura o estilo polido,
faltam a força e o calor, e todo o que se propõe ,
vv-;.
sitada,
num
templo,
como
ex-voto.
Vid,
Hor.,
Odes,
X,
5,
13-16; Sát.,
II ,
1,
33;
Pedro,
XV, -2J1, -24; Pérsio,
1, S9-91
e
6, 32-33; Jiiv „ Sdt.,
14,
301 e segs.
21 — O urceus é um vaso muito diferente da ânfora
(am-
30
phora).
Esta
é esguia
e
alta
ao passo que
aquele
é baixo,
atarracado.
O
urceus
era,
além
disso,
um
vaso
para
uso
doméstico.
atingir o sublime, descamba no empolado. Acaba,
todavia, rastejando pelo chão o demasiado cauto,
o que tem medo da procela; mas quem deseje
variar prodigiosamente um tema uno, pintará golfi-
nhos nas florestas e javalis nas ondas do mar.
Procurando fugir do engano se cai no erro, caso
não se possua a arte, Nas imediações da escola
23 — Neste verso faz-se a conclusão das premissas ex-
postas anteriormente: simplicidade e unidade do poema. Este
modo de generalizar o princípio aristotélico provém, talvez,
da influência de Neoptólemo de Plrio . Vid. Brink, Prole-
gomena, pp. 103, 231, 254.
IIOÔ b 27), eram os pontos óptimos do procedimento humano,
Esta idéia repete-se na obra horaciana:
Odes, II ,
10,
5 (aurea
mediocritas); Sdt., I . r, io ó (est modus in rebua); Ep., I ,
r8, 9 (uirtus est médium uitiorum e t ufcrimque reduetum:
«np meio dos vícios, a virtude se equilibra, igualmente afas-
tada dos extremos») . Cf. Cíc., Bruto, 1149; De officiis, I, 89.
24 — Inicia
agora o
poeta a defesa da justa medida e da
elaboração
cuidada
na
criação
poética.
Este
critério,
saído
da
escola
perLpatética,
aparece-nos
aqui
caldeado
pela con-
cepção
horaciana
da
vida
(vid.
p.
18)
segundo
a
qual
o
comedimento,
o
meio
termo
(jíêctÓtt)!;,
cf.
Arist.,
Et.
Nic.,
25 ~ Horácio refere-se à breuitas como qualidade de estilo,
sem que a admita, contudo, em proporções demasiadas. Nesse
caso, origina-se a falta de clareza obscuritas. Vid. w . 149-
-150; 335-336.
t 54
125
Aemilium circa ludium faiber imus et unguis exiprimet et mollis imitabitur aere capillos, infeJix operis
Aemilium circa ludium faiber imus et unguis
exiprimet et mollis imitabitur aere capillos,
infeJix operis summa, quia ponere totum
nesciet. Hunc ego me, siquid coraponere curem, 35
non magis esse uelim quam naso uiuere prauo
spectandum nigris oculis nigroque capillo.
Bmília, o mais Ínfimo dos escultores molidairA unhas
no ibronze e até neíe imitará cabelos sedosos, mas
será infeliz no acabamento da obra por não saber
criar um todo. Se algo desejasse compor, não que-,
reria assemelhar-me a esse, dq mesmo modo que
não me agradaria possuir horrível nariz, ainda que
o
o
55
Sumite materiam uestrís, qui scribitís, aequam
uiribus et uersate diu quid ferre recusent,
quid ualeant umeri. Cui Iecta potenter erit res,
nec íacundia deseret hunc, nec lucidus ordo.
OTdinis haec uir-tus erit et uenius, aut ego fallor,
meus olhos negros e negros cabelos fossem dignos
4
f
de admiração.
4o
*
Vós que escreveis, escolhei matéria à altura das
vossas forças e pesai no espírito longamente quo '
j
40
5
32 —
O
Aemilius
ludus
era
uma
escola
de
gladiadores
romana, fundada por Emílio Lépido,
em
volta
da
qual
se
coisas vossos ombros bem carregam e as que eles ,
! não podem suportar. A quem escolher assunto de
acordo com as suas possibilidades nunca faltará
eloqüência nemião-pouco ordem luzida.
encontravam lojas de artífices, -escultores d o bronze. Ora estes,
ainda que soubessem esculpir, não possuíam talento artístico
A virtude e 'beleza da ordem consistirão — ou
e eram
não
capazes
de
conceber
uma
obra
de arte,
porque
a de arte tem de formar
obra
um
todo,
não interessando os
40-118 — A segunda parte da A . P., que trata agora da ordem
pormenores senão em relação a esse
todo.
e do estilo, corresponde respectivamente, segundo o esquema que
38-40 —Co m este passo se termina a primeira parte, a
indicámos na Introdução, p. 34, ao capítulo em que Neoptó-
qual, nas opiniões de Norden e d e Rostagni, etc., era dedicada
lemo de Pário se ocupa do tcoEt)/*íx. e ao capítulo III da
à inuentio, Brini , Prolegomenap. i a e tc., discorda desta
Retórica de Aristóteles.
classificação de Norden, visto que a admissão d a inuentio
40-41 — Estes dois vereoe servem de ligação entre 1-40
pressuporia que, no resto d o poema, viessem as outras fases
e 4Í-IÍ18 tornando a transição menos precipitada.
A o mesmo
da composição da obra literária, preconizadas pela retórica
tempo que se refere à escolha da matéria, que deve ser feita
antiga, às quais Horácio se refere, mas sem as querer com-
segundo as possibilidades do autor, diz-nos o poeta que, 110
pendiar. A verdade é que nos primeiros 37 versos não há
caso daquela condição ser preenchida, surgirá então a fa-
I qualquer discussão técnica da escolha da matéria, o que diria
cundia e o ordo ou seja o estilo e a ordem da composição, que
Respeito a inuentio,
mas tão-só a defesa da
unidade da
obra
completam a escolha
da
res
(w .
38-40}.
: poética, qu e abrange a escolha do assunto, a disposição e o '
j^lo («íMeMíio, dispositio e elocutio). Se a o desejo de unidade
42-45 —Refere-s e
Horácio a o ordo
(tájjiç )
OU seja a
uma
jSftf juntar o bom-senso teremos então uma obra de
arte.
das
características
da
dispositio
(Vid ,
Lausberg,
Elemente,
56
57
ut iam nume dicat iam nunc debentia dici, pleraque differat et praesens in tempus omittat,
ut iam nume dicat iam nunc debentia dici,
pleraque differat et praesens in tempus omittat,
hoc amet, hoc spernat promissi carminis auctor.
In uerbis etiam tenuis cautusque serendis
dixeris egregie, notum si caliida uerbum
reddiderit iunctura nouum. Si forte necesse est
indiciis monstrare recentibus abdita rerum, et
45
eu me engano — em que se diga imediatamente o
que tem de ser dito, pondo muitos ponmenores de
lado e omitindo-os de momento: que o autor do
poema prometido, ora escolha este aspecto, ora
despreze aquele.
45
§ 42, que consiste em fixar um plano para a obra e dizer
N o arranjo das palavras deveras também ser
subtil e cauteloso e magnlficamente dirás se, por
engenhosa combinação, transformares em novida-
des as palavras mais correntesS e porventura for
necessário dar a conhecer coisas ignoradas, com
unicamente o que vem a propósito. Esta divisão tem de ser
alterada se admitirmos a disposição apresentada por Klingner
vocábulos recém-criados,
e formar , palavras nunca
na sua edição, que tira o verso 45 da disposição tradicional,
colocando-o a seguir ao v . 46. Temos assim, em ve z do texto
ração proposta, ainda que seja lógica, carece do apoio dos
que apresentamos, o seguinte:
manuscritos, e este facto parece-nos extremamente relevante.
Ordinis haec
uirtus erit et
uenus,
aut ego
fallor
46-7111 — Horácio começa a entrar na teoria da escolha dó
ut iam nunc dicat
iam nunc debentia
dici,
palavras, que pròpriamente é uma das partes da dispositío
pleraque differat e t praesens in' tempus
omittat.
(Vid.
Lausberg.,
Elemente,
§
46,
2) ,
e discute
os
preceitos,
In
uerbis etiam
tenuis cautusque serendis
46
que regulam a escolha das palavras em função do poema
{in
hoc amet,
hoc spernat promissi carminis auctor.
45
uerbis
serendis), ocupando-se logo dos singula uerba como
Dixeris egregie,
notum si caliida
uerbum, etc.
47
veremos , Brink , Prolegomena,
<p. 94 , apont a a possíve l in -
fluência no passo que se segue, de Aristóteles, Retórica, IMl'
Assim a tradução dos w .
42-44 seria: « A
virtude e beleza
2-6,
que
Horácio pode ter conhecido directamente
e por
in-
da ordem consistirão — ou eu me engano — em que> se diga
•^j.in-
termédio de Neoptólemo de
Pário.
imediatamente o que tem de ser dito, pondo muitos ponnenores
de lado e omitindo-os de momento.» A tradução dos vv . 46,
47-48 — Caliida iunctura; trata-se, segundo afirma Ros-t.j'
45, 47 e segs. soaria: «N o arranjo das palavras o autor do
tagni, da metáfora, na qual é possível, por hábil combinaçãcfej
poema prometido, se for cauteloso e discreto, preferirá
transformar o sentido de uma palavra, ao colocá-la num -iftíflp
esta forma, deixará a outra de lado. E magnlficamente
texto desabitual. Vid. F . Cupaiolo, A proposito delia calliãã : >^
dirás, se
» Na versão tradicional, o verso 45 que pertencia
iunctura oraziana, Nápoles, 194a. Horácio dá, juntamente'étfrif*?;
ao orâo, passa, na versão de Klingner (que segue Bentley) ,
o preceito, um exemplo que o corrobora. Efectivaménté,^!^
a pertencer à descrição da elocutio. Preferiremos, por nossa
expressão d o v . 46, in uerbis
serendis, está pela mais habi-*;
parte, mantermo-nos na tradição, reconhecendo, que a alte-
tual, in uerbis inueniendis. A expressão horaciana provém
t
59 125
f^iágere tinctutis non exaudita Cethegis 50 • continget dabiturque licentia sumpta pudenter, ei noua fictaque
f^iágere tinctutis non exaudita Cethegis
50
• continget dabiturque licentia sumpta pudenter,
ei noua fictaque nuper habebunt ueríba fidem, si
JGraeco fonte cadent parce detorta. Quid autem
Çaecilio Plautoque daibit Romanius, ademptum
Vergilio Vanioque? Ego cur, adquirere pauca 55
!'í,
11
ouvidas pelos Cetegos cintados, podes fazê-lo e 50
licença mesmo te é dada, desde que a tomes com
discrição. Assim, palavras, há pouco forjadas, em
breve terão ganho largo crédito, se, com parcimô-
nia, forem tiradas de fonte grega. Por que motivo,
permitem os Romanos a Plauto e a Cecílio o que
recusam a Virgílio e a Vário? Se a língua de Catão
e de Énio, produzindo novas palavras, enriqueceu 55
uma metáfora de origem agrícola e traduz-se literalmente: «no
semear de vocábulos». Quando ao advérbio egregie (v . 47)
tem ele o seu valor etimológico, i. e., de e + grex, ou seja, o
que foge do rebanho, tal como a língua própria à poesia.
Do v .
48
ao
v.
69 falará o poeta
da possibilidade
de
criar
vocábulos novos, desde que estes sejam forjados com mode-
ração.
50 — Os Cetegos pertenciam a uma antiquíssima família
d e Roma . Cinctuti é o epíteto com que oe Cetegos 6ão caracte-
rizados, porque, ainda em tempos não muito afastados de
Horácio, eles se cingiam com o rústico cinctus em volta
do
peito ou da cintura de modo a ficarem os braços livres. Sobre
os ombros deitavam depois uma toga, Cinctutus é, além disso,
um vocábulo forjado por Horácio que, mais uma vez, exem-
plifica o preceito dado (cf. v. 46). Poderíamos, em português,
traduzir este neologismo latino por icintudos>, conservando
assim a intenção horaciana.
53-58 — o poeta, contrapondo os antigos comediógrafos
Cecílio (séc. n a. C. ) e Plauto (sécs. ni- n a. C. ) aos seus
contemporâneos (séc. ia.C ) Virgílio e Vário, alude à dife-
rença de atitudes dos críticos para com os primeiros, aos quais
permitiram inovações vocabulares, ao passo que aos modernos
poetas tal liberdade não era concedida. Com esta comparação
pretende Horácio trazer a discussão as divergências de duas
escolas gramaticais: uma, chefiada por Cícero e César, de-
fendia a analogia na parte morfológica e na parte lexical da
língua, não admitindo, -portanto, neologismos;- a outra, admi-
tia a anomalia, concedendo que na língua se inovasse por
meio da introdução de palavras novas. César, 00 seu trabalho
De analogia, afirma que se deve fugir, como de um rochedo,
da palavr a desusada e nunca ouvida: «Habe semper in memó-
ria atque in pectore ut tanquam scopolum sic fugias inauditum
atqu e insoliens uerbum * (apu d Aul o Gélio , 2V. A., I , I o e
Macrób., Sat., I , 5, 2} . Horácio toma
a posição defendida pela
53 — Graeco
fonte:
para a maioria dos romanos contavam
como neologismos as palavras derivadas do grego, ou seja, os
escola contrária a César, mas, como sempre, admite-a, pres-
supondo, que das liberdades concedidas se faça uso com come-
helenismos. Estes compreendem não só
transi iterações do gê-
dimento e critério. Para continuar com exemplos tradicionais
nero de barbitos (lira), cf. Hor., Odes, I , 4 ou diota {vinho
vethoj j cf , Hor. , Odes, I , 9 , «8, ma s igualment e palavra s decal -
cadas semânticamente sobre modelos helénicos, taiscomo poten-
ter d o v . 40 (SuvstTwç). prodigialiter do v . 29 (teparwSeí) , etc.
e respeitados da literatura arcaica, apresenta Horácio, no
v . 56, oe casos de Énio e Catão que inovaram respectivamente
na poesia e na prosa, introduzindo, na língua, novos modelos
vocabulares,
61
60,
si possum, inuideor, cura lingua Catonis et Enni sermonem patrium ditauerit et noua rerum nomina
si possum, inuideor, cura lingua Catonis et Enni
sermonem patrium ditauerit et noua rerum
nomina protulerit? Licuit semperque Üicebit
signatum praesente nota producere nometn.
Vt siluae foliis pronos mutantur in annos, 60
prima cadunt, ita uerborum uetus interit aetas,
et iuuenum ritu florent modo nata uigentque.
Debemur morti nos nostraque. Siue receptus
terra Neptunus classes Aquilonibus arcet,
regis opus, sterilisue diu palus aptaque remis 65
uicinas urbes alit et graue sentít aratrum,
seu cursum mutauit iniquum frugiibus axnnis,
o idioma pátrio, com que razão hao-de malsinar-me
caso eu puder acrescentar-lhe algumas? Foi lícit(f*| . ,C
1 elícit o sempre será langar-jxm-jvocábulo cunhado^
com o selo da modernidade. Assim como as flores-
tas mudam de folhas no declinar dos anos, e so"ãs^" Í60
folhas velhas caem, assim tamlbém cai em desuso
a velha geração
de palavras e, à maneira dos Jo -
vens, as que há pouco nasceram em breveflores- *
cem e ganham pleno vigor, Nõs e as nossas obras. j
estamos fadados para a morte! Mesmo que o marjj .
de Neptuno, recebido pela terra, proteja as arma-
das dos Aquilões, em obra digna de reis; mesmo
que o pântano, estéril durante (muito tempo e apro-
priado para os remos, alimente as cidades vizinhas 65
56 — inuideor
por
mihi
inuidetur:
trata-se
d e
uma
cons-
e até sinta
o peso do arado;
mesmo
que o
rio,
trução à moda grega (por (fôovou^at), meologismo helénico,
que Horácio apresenta
para
juntar
o
exemplo
à
regra,
tal
levado por caminhos favoráveis, mude o curso fa-
como já
fizera antes
{w .
47,
50).
Horácio, Acrã o e Pseudoacrão. Admitindo essas alusões, muitos
dos comentadores modernos tentaram indevidamente encontrar
60 — As palavras e sua vida são descritas por Horácio com
aqui um ponto de apoio para a'datação do poema, tomando
o mesmo símile que Hom. , Ilíada, V I 146 e segs., e Mimnermo,
como premissa o conhecimento de Horácio de certas obras pú-
frag. 2 (Diehl) , usam para caracterizar a vida dos mortais.
blicas levada s a
cab o e m determinada s datas . "É, porém , ten-
Com ele, o poeta recorda as opiniões dos que pensam ser a
tativa falaciosa, visto que nada nos diz que Horácio pensasse
língua um fenômeno natural, próprio da <púut; (natureza) e
em tal (vid . Brink, Prolegomena, p. 241), ou, pelo menos, que
não imposto por autoridade (vójjuoi Oecst)-
exclusivamente pensasse em obras determinadas. Devia sim,
\
fazer estas referências com o intuito de generalizar o tema da
63 — Debemur
morti
é construção helenizante e lembra
o
debilidade das obras humanos.
verso atribuído a Simónides, Ant. Pai., X , 105: «todos estamos
destinados à morte»,
\ >
65 — Palus,
cuja
prosódia
normal
é
palus,
aparece
aqui
64 —-1£
possível
que,
nestas
referências
que
se
seguem,
V1 • f
escandido como palus, dando-se, por conseqüência, um caso de
Horácio enumere trabalhos públicos mandados efectuar por
correptio iambica, que sobretudo fora normal na métrica ar-
César ou por Augusto, tal como sugerem os comentadores dè
caica plautina.
125
t 62
v a doctus iter rndius, mortalia facta peribunt, tídico para as searas: são obras humanas
v a
doctus iter rndius, mortalia facta peribunt,
tídico para as searas: são obras humanas e de-* ^ ;
nedam sermonum stet honos et gratia uiuax.
vem perecer. Assim também o valor e a graça das V ^
Multa renascentur quae iam cecidere, cadentque 70
palavras nem sempre ^ge^o^ivazes.^Huitos'voe?- ' v^f
quae nunc sunt in honore uocabula, si uolet usus,
bulosTjA"desapjareçjdps, voltarão à L _vida J e muitos . c 3 '
quem penes arbitrium est et ius et norma loquendi.
outros, agora em^moda,. desaparecerão, se o uso 70
Res gestae regumque ducumque et tristia ibella
assim quiser, poissó a ele pertencem a soberania_e
)
quo scribi possent numero, monstrauit Homerus.
o/direito e a Jegislação da língua
•V
Versibus impariter iunctís querimonia primum, 75
Em que metro se podem descrever os feitos dos'
reis, dos chefes, as tristes guerras, já o demons-'
y^/ X
V
71 —
Usus tem, neste contexto,
um sentido bastante rico,
trou Homero. O lamento, em tempo antigo, expri-
pois não
é
aquilo a
que
se chamava
na
retórica
latina
mia-se em versos desiguais que foram unidos: 75
consuetudo
loquentium
(Quiot.,
Inst,
Or.,
I ,
6,
44;
Aul o
Gélio, N.
A.,
XH ,
13, n6) ,
mas inclui em si a utilitas,
ou seja
gundo a
a
necessidade
que leva à inovação formada pelos neologismos
sua teoria literária, eram estes e só estes que os Roma^
e
pelo retorno ao uso de certos arcaísmos. Isto, contudo,
não
nos deviam
imitar,
permite identificar
a expressão horaciana
com
as
teorias
da
73
— Quanto à epopeia e aos assuntos que descreve, assim
escola epicurista
(vid . IBrkik, Prolegomena,
p . a.36. n.
2) .
Com
como ao tom que nela se procura, tudo é descrito dentro da
o
v.
72 faz-se a transição para um outro capítulo.
habitual concepção de que tristeza e solenidade são as duas
características mais flagrantes desse gênero. Nã o fora em vão
73-85 — Entra agora Horácio nas discussões dos metros,
que a tragédia buscara exactamente na epopeia os seus prin-
os quais, como bem mostra .Rostagni, formam, no caso estrito
cipais temas.
d o verso, porte dos coniuncta u-erba (os singula uerba foram
tratados nos w .
416-72), pois estes só podem conceber-se dentro
75
— Fala
agora Horácio dos dísticos elegíacos (impariter,
de determinado ritmo. Ora este ritmo é na poesia, o que se
porque constituídos por um hexâmetro e um pentâraetro dactí-
eaitende por metro, o qual, (para obedecer aos preceitos d o
licos), mas não lhe é possível apresentar um inventor. N o en-
•jrpéjrov. tem de ser apropriado a o tema poético de que se trata,
tanto, caracteriza os gêneros que adoptaram, como metro, o
Brink, Prolegomena, p . gq, aponta, neste caso, a possível in-
dístico elegíaco: — r.° os cantos lamentosos, Esta atribuição é
fliiência directa ou indirecta (por Neoptólemo de Pário) d o
provocada pela discussão da origem da palavra elegia, que, na
• esquema delineado por Aristóteles, Retórica, LM, 8. Por isso,
antigüidade, era interpretada como proveniente de e Aéyetv ou
seguir-se-á uma sinopse dos diversos metros e dos seus inven-
seja, traduzindo literalmente, «dizer ais», i. e., «lamentar-se».
tores (Eoperaí) > tal como era hábito fazer-se nas obras técnicas
Segundo recentes invéstígaçõos, essa palavra, deriva-se de
dos gramáticos antigos. Horácio, muito embora escreva para
um vocábulo armênio elgn — (caniço, flauta) . Quanto a
um público romano, só se referirá a modelos gregos, pois, se-
este aspecto e quanto ao inventor do poema elegíaco, vid. G.
INQ 11 — 3
64
65
post etiam inclusa est uoti sententia compos; quis tamen exiguos elegos emiserit auctor, grammatici certant
post etiam inclusa est uoti sententia compos;
quis tamen exiguos elegos emiserit auctor,
grammatici certant et adhuc sub iudice lis est.
Archílochum proprio rabies armauit iambo;
hunc socci cepere pedem grandesque coturni, 80
alternis aptum sermonibus et popularis
uincentem strepitus et natum rebus agendis.
Musa dedit fidibus diuos puerosque deonum
depois, neles se incluiu; a satisfação de promessas
atendidas. Sobre quem, no entanto, pela primeira
vez criou as singelas elegias, discutem os gramá-
ticos e ainda o litígio está em tribunal. Foi a raiva
quem armou Arquíloco do jambo que a este 6
próprio: depois, a tal pé, adaptaram-no os socos
e
os grandes coturnos por mais apropriado para
80
o
diálogo, capaz de anular o ruído da assistência,
Lucb, Die Rümische Liebeselegie,
Heidelberga, 11961, p. 18 e
visto ser criado para a acção. A Musa concedeu à
lira o cantar deuses e filhos de deuses; o vencedor
eegs.; — 2. 0 os epigramas votivos. N a realidade, porém, o dís-
tico elegíaco servirá para exprimir muitos outros gêneros poé-
80 — Os metros jâmbicos foram adoptados pela comédia e
ticos: o satírico, o convivial, o amoroso, etc.; vid. O.C.D., s. u.
pela tragédia (vid . Arist., Poética, V , 1449 a) ,
que> a princípio
Elegiac Poetry. Horácio só se interessou em-referir os primór-
usavam o tetrâmetro trocaico, próprio da sua origem satírica
dios do dístico elegíaco e não todos os gêneros em que ele
e da sua forma coral. Só quando do coro e da exclusiva forma
aparece.
77 — exiguos elegos em comparação com a igrandeza da
corail se passou ao diálogo entre actores {fi m d o séc. v i a. C,
com Frínico e Téspis, na tragédia) é que os gêneros dramá-
ticos usaram os jambos.
epopeia.
7 8 a discussão dos gramáticos (que ainda durava no
Com socci (pequenos sapatos da comédia) e os grandes
coturni (da tragédia), marca o poeta, por meio d e antítese,
tempo de Horácio) desenvolvia-se sobretudo em torno d o in-
a
diferença de estilos entre o primeiro e o segundo gêneros:
ventor: — Calmo de
Éfeso (séc. VII a. C.: de quem temos a
o
primeiro mais humilde e o segundo mais sublime.
mais antiga elegia),
Arquíloco
(séc.
v n
{séc. VI a. C.)
eram os inventores mais
a. C. ) e Mimnermo
apontados.
81-88 — Aristóteles, Poética,
XXIV ,
1460 a, tem a mesma
79 — Entra-se agora na descrição da poesia jâmbica, que
Horácio considera, seguindo a teoria peripatética, como apro-
priada para as invectivas de carácter pessoal. Afasta-se, porém,
da teoria aristotélica, quando propõe, como inventor do jambo, a
opinião sobre as funções do
jambo.
83—Agora ,
na
descrição
da
poesia
mélica,
i.
e.,
Uricai,
{na antiga acepção da palavra, poesia só acompanhada pela
lira — fidibus) , considera Horácio os seguintes gêneros: i>,° hi-
Arquíloco, pois Aristóteles vira em Homero o seu inventor
(víd . Arist., Poética, IV , 1448 b) . Enfileirava assim na escola
alexandrina, à qual pertencia, p. ex., Neoptólemo de Pário,^e
que recusava a Homero a paternidade do jambo, por não
considerar homérico o poema Margites, no qual, e só neste
nos em honra dos deuses; 2. 0 encómios e epinícios em que se
celebram personagens, pela suas altas qualidades, ou pelas
vitórias desportivas obtidas; 3. 0 poemas eróticos, e m qu e -se
canta o amor dos jovens; 4. 0 escólios em que se celebram 09
prazeres da mesa e do vinho.
(dentro
dos
poemas
homéricos),
apareciam
jambos.
125
t 66
|;^t : f®|ileítn uictorem et equtun certamine primum ÍÍMuuemum curas et libera mina referre. i^gpiscxipta
|;^t : f®|ileítn uictorem et equtun certamine primum
ÍÍMuuemum curas et libera mina referre.
i^gpiscxipta s senuare uices openumque calores
v cur ego, si nequeo ignoroque, poeta salutor?
í.IÊ® nescire piudens prau e qua m discere maio?
fli^epiibus expoui tragicis xes cômica noa uailt;
^.^lídignatur item priuatis ac prope socco
{lignis canminibus narrará cena Thyestae.
Singula quaeque looum teneamt sortíta decentem.
85
1 85
90
r
!
>
190
c r
Intèrdum tamen et uocem comoedia tollit,
katusque Chremes temido delitigat ore;
et tragicus plerumque dolet sermone pedestri
95
no pugilato e o cavalo que, primeiro, cortou a
meta nas corridas; os cuidados dos jovens e o vi-
nho que liberta dos cuidados.
Se não posso nem sei observar as funções pres-1
critas e os tons característicos dos diversos gêneros, ^
por que hei-de ser saudado como poeta? Qual aí \
razão por que prefiro, com falso pudor, desconhe-
cê-los a aprendê-los? Mesmo a comédia não quer
os seus assuntos expostos em versos de tragédia e
igualmente a ceia de Tiestes não se enquadra na
narração em metro vulgar, mais próprio dos socos /
da comédia, Que cada gênero, bem distribuído 1
ocupe o lugar que lhe compete.
86-88 —• Faz-se agora a transição para o capítulo que tra-
tará do estilo e da maneira de o adaptar aos diferentes aspectos
do drama. Além do metro, têm de adaptar-se o estilo (o estilo
tem de ser •npéjrov = decens) aos gêneros literários (vv . Í58-9 2 ),
Às vezes, todavia, levanta a voz a comédia e
Cremete indignado raJlia em tom patético; mais
vezes, no entanto, as personagens trágicas, seja
Telefo ou-Peleu, em língua rasteira se lamentam, 95
às paixões (w . 93-113) e aos próprios caracteres (vv . 114-
-m8) . Corresponde a Arist-, Retórica, HEI, 7.
91 — Cena
Thyestae;
havia
tragédias
em
que
a
narração
87 — poet a salutor:
referência a uma saudação usual entre
desta ceia era o momento fundamental da história de Tiestes.
os Gregos, que os Romanos traduziram por salue, poeta!
Nessa refeição eram servidos a Tiestes, pel o seu irmão Atreu,
Horácio não só se refere a si próprio como a todo e qualquer
os membros dos próprios filhos, Eurípides e Eruio escreveram
poeta.
tragédias com esse nome, e assim também, no tempo de Horá-
88-92 —
O
estilo
tem
de
obedecer
ao
gênero
a
que
se
cio, o poeta Vário a quem já na A. P., v . 55, se fez referência.
adapta,
e,
portanto,
é
forçosamente
diferente
o
estilo
da
, comédia do da tragédia.
93-H3 — O
estilo
tem
de
adaptar-se
às paixões
que,
no
drama, se descrevem.
90 — priuatis: Horácio parece lembrar com este contexto
a teoria peripatética de Teofrasto, segundo a qual a comédia
93 — Chremes é o tipo do pai avaro e irasclvel, freqüente
representava as acções de simples particulares, ao passo que
na comédia nova. Vid. a personagem deste mesmo nome do
a tragédia só se ocupava com as dos heróis (cf. Diomedes
Heautontimoroumenos
de
Tcrêncio.
Ars Gram.,
I ,
p.
488 Keil) .
69
aa
Telephus et Peleus, oum pauper et exuluterque proicit ampuHas et sesquipedalia uerba, si curat cor
Telephus et Peleus, oum pauper et exuluterque
proicit ampuHas et sesquipedalia uerba,
si curat cor spectantis tetigisse querella.
Non satis est pulchra esse poemata; dulcia sunto
et, quocumque nolent, animum and i to ris agunto. 100
V t ridentibus adrident, ita flentibus adsunt
humani uultus; si uis me flere, dolendum est
primum ipsi tibi; tum ,tua me infortunia -laedent,
Telephe uel Peleu; male si mandata loqueris,
aut dormitabo aut ridebo. Tristia rnaestom 105
uultum uerba dècent, iratom plena minaram,
Iiudentem lasciua, seuerum seria dictu.
Format enim natura prius nos intus ad omnem
fortunamm habitum; iuuat aut impelHt ad iram,
aut ad humum maerore graui dediucit et angit; 110
post effert aními motus interprete língua.
pelo lamento o coração de quem os olha
quando, na pobreza e no exílio, lançam frases em--"-
poladas, palavras de pé e -meio, tentad o c _ MS ;
'
„'
Nã o basta que os fpoemas sfrjam. bejos: força; é4í$|ff\
que sejam emocionantes e que transportem, parai ;jfftfT
onde quiserem, o espírito 'do ouvinte. Assim como '>100,'
0 rosto humano so m aqué m vê rir o ads que
ram se lhes une em pranto, também
se queres que
'
96 — Telefo, personagem da tragédia, era. rnn rei da Mis ia.
Ferido por Aquiles nos campos de Tróia, vai, como mendigo,
ao campo dos Gregos em Argos, a fim de sarar a ferida, da
eu chore, hás-de sofrer tu primeiro: só teus infor- "
túnios podem comover-mé, quer sejas Telefo quer ;
Peleu; se, porém, recitares mal o teu papel, dormi-
tarei ou cairei no riso. Tristes palavras só dão bem 105
com rosto pesaroso e com o irado as ameaçadoras;
com rosto jovial palavras folgazãs e com o severo
as que mostrem seriedade. B, pois, a natureza que,
antes de tudo o mais, nos forma inferi ormènfe"pãrã
as contingências^da sorte; eíajnos alegra ou n^im -
pele para à cólera; também ela nos abate por teira *
com_ pesada tristeza, com angustia; e só .depois 110.
descreve tais mudanças' de alma pela sua intérprete,
qual, segundo um oráculo, só assim se curaria. A tragédia
também 'pertence a figura de Peleu, pai de Aquiles, que de-
vido a vários revezes da sorte, acabou por fugir das terras
do ouvinte na acção exposta. Todo este passo está influen-
gregas. Os exemplos dados com Cremete, Telefo e Peleu, mos-
ciado pela teoria per.i patética, tal como indicámos no com.
tram casos em que o estilo se não adapta aos caracteres e ao
aos vv . S6-88.
gênero literário em que estes e as suas paixões estão inte-
1
|
grados.
108
— Horácio refere-se de novo (como nos vv . 6o e segs.)
99 e
segs. — Nã o
basta a beleza formal,
é preciso que
o
poema dramático interesse os espectadores causando-lhes
pra-
zer. Este obtém-se,
fazendo-os sentir tudo o que se passa no
palco,
isto é,
os sentimentos das
personagens
representadas,
dé tal
modo que
haja perfeita comparticipação
(ffu^itaQEiv)
à teoria que apresentava a língua como resultado de uma
origem natural, como fenômeno provocado pelas diversas im-
pressões do espírito. Quanto às interpretações que viam, neste
passo, influências estóicas ou epicuristas, mostra-se Brink,
Prolegomena, p, '136, n, 2, extremamente céptico.
t 70
125
Si dicentis erunt fortunis absona -dieta, a líaffaa.jSe as palavras do actor não corresponde- Roraani
Si dicentis erunt fortunis absona -dieta,
a líaffaa.jSe as palavras do actor não corresponde-
Roraani tollent equites pedibesque cachinnum.
rem à sua sorte, não deixarão todos os Romanos,
Xntererit multuirt, diuusne Ioquatur an heros,
cavaleiros e peões, de soltar grandes risadas.
maturusne senex aq adhuc florente iuuenta 115
Tem igualmente de /tomar-se era conta, se quem
feniidus, et matrona potens an sedula nutrix,
fala é d-aus ou é herói, velho sisudo ou homem :
mercatome uagus cultorue uirentis agelli,
fogoso , n a flo r d a idade ; matron a autorilári a 011
115
Cojchus an Assyrius, Thcbis nutritus an Argis.
carinhosa . ama; mercador errante ou lavrador de vi-
çosa courcla; sc vem da Cólquida ou da Assíria, se
t
.
Aut famam sequere aut sibi conuenientia finge
scriptor. Honoratmn si forte reponis Achillem, 120
nasceu cm Tebas ou em Argos.
irapíger, iracundus , inexorabilis, acer
Segue, ó escritor, a tradição ou imagina carac-
iura neget sibi nata, nihil non arroget armis.
120 fl
teres bem 'apropriados: sc acaso repuseres em cena
Sit Medea ferox inuictaque, flebilis Ino,
o glorioso Aquiles, fá-lo aotivo, colérico, inexorá-
vel e rude, que não admita terem sido criadas as leis
113 — pedites
para manter irônico paralelismo com
equites.
também para ele e nada faça que não confie à força
Una andam a cavalo, são cavaleiros e são nobres,
andam a pé, são de infantaria, e são plebeus.
os
outros
das armas. Que Medeia seja feroz e indomável,
114-118 — O
estilo também deve adaptar-se aos caracteres.
a obra poética (w . 119-152), depois falará dos principais
gêneros poéticos (153-294^.
Afim de exemplificar este princípio, já defendido pela escola
peripatética, vai Horácio dar-nos uma lista, com valor exem-
plar, de caracteres habituais da tragédia, desde Gregos a bár-
baros, desde velhos a jovens, pretendendo, com esta enumera-
ção, afirmar que a cada
um
pertence
um
tom
e
um
estilo
119-127 — Para que o poeta consiga fazer obra coerente,
força é que se cinja, 11a criação de caracteres, aos modelos
tradicionais, como Aquiles e Orestes, ou, caso desejar pôr
em cena caracteres novos, que os descreva com verosimiltiança
e bem adaptados à acção em que aparecem.
.j.ipfÍP 1 "' 0 ®' Quanto à possibilidade de influência, mesmo que in*
^irecta ,
da
Retórica
de
Aristóteles,
sobre
este
passo,
vid,
120 — Aquiles é figura da epopeia
(lllada, etc.)
e
da
tra-
Brink,
Prolegomena,
p.
99.
gédia
(em Lívio Andronico,
Acio,
Énio).
'ir
11 • <í.- •
Ol9 ? 29 4 — Constitui este passo a terceira parte da
A.
P, ,
e
123 — Medeia, filha do rei da Cólquida, fog e da pátria por
amor a Jasão, um dos Argonautas, sendo posteriormente aban-
1;',corresponde ao capítulo de Neoptólemo de Párío dedicado à
donada por ele. Para
se vingar de Jasão, mata
os filhos que
j-
JipÍTjfftC e
possivelmente
a
Aristóteles,
Retórica,
II ,
12-14.
deste tivera, bem como a sua nov a mulher Glau^e. Medeia
h
Çf. , Brink ,
Prolegomena ,
p.
138
aparecerá em muitas tragédins: na Grécia, na Medeia
de Eurí-
© passim. Horácio vai agora
- tratar da maneira mais apropriada de arranjar um tema para
pides, e m Roma, em tragédias, hoje perdidas, de Énio, Acio
125
t 72
|>erfidus Ixion, I o uaga, tristia Orestes. Ino chorosa, Ixfon pérfido, I o errante e
|>erfidus Ixion, I o uaga, tristia Orestes.
Ino chorosa, Ixfon pérfido, I o errante e Orestes
Siquid inexpertum scaenae
committis e t andes
125
personam formare noaiam, seruetur ad ímum
qualis aib incepto processerit et sibi constet.
Difficile est proprie comimimia dicere; tuque
rectius Iliacum carmen deducis in actus
quam si proferres ignota indictaque primus. 130
triste. Mas se algo -de original quiseres introduzir,
ousando conceber em cena nova personagem, então 125
„que ela seja conservada até ao fim como foi descrita
de início e que seja coerente.
Puiblica materies priuati iuris erit, si"
non circa uilem patulumque moraberis orbem,
— "É. difícil dizer com propriedade-Q. q ue .não_per-""
tence à tradição: melhor farás se o carme de ílion,
em ac tos " trasladarei em vez de proferires, pela-
primeira vez,
f actosTnf® os^ e ^desconheçidos. 130
e Oví d'io (esta última a mais célebre). A respeito de possível
Matéria a todos pertencente será tua legítima
pertença, se não ficares a andar àjvolfcano caminho
crítica, horaciana à Medo ia de Eurípides, vid . F . Rebelo Gotir-
çalves,
«Horácio e Eurípides», Euphrosyne,
H I
{'1961}, p. 55
CHtemnestra. Basta lembrar a seu respeito a tragédia do
e segs,
mesmo nome, escrita por Eurípides.
Ino, filhai de Cadmo, provocou involuntàriament e a
128-130 — Horácio passa agora a tratar de outro aspecto:
morte do marido e dos filhos ao suscitar a cólera de Hera.
introduz-nos na melhor maneira de escolher um tema 'para a
A involuntariedade do seu acto,
(contraposto, por Horácio, ao
obra poética, de modo a fazer obra original. A originalidade
acto voluntário de Medeia) aumentou o efeito patético de sua
e
consistência da obra residirão em não imitar servíhnente
figura, posta em cena por Eurípides. Em Roma trataram-na
e
em não pretender demasiado, por isso, interessa seguir um
Lívio Andronico, Enio e Acio e, depois da morte de Horácio,
bom modelo, como a 1liada de
Homero.
Séneca.
131-152— O poeta fundamenta-se, neste passo, na teoria
124 — Ixion, será castigado por Zeus, por ter querido se-
aristotélica — não sabemos se por via directa ou indirecta —
duzir Hera. Zeus faz-lhe- aparecer uma nuvem, com a forma
(cf. Aristóteles, Poética, cap. VITI) , segundo a qual interessa
de Hera, e Ixío-n unindo-se à nuvem, gerará, a figura híbrida
seguir de preferência o exemplo de Homero, que reduz as suas
e monstruosa do centauro. Desta história provém a frase por-
obras a uma acção una sem pretender obter essa unidadé pela. ,
tuguesa «tomar a nuvem por Juno (=Hera)> . Tema de inú-
monótona apresentação
de uma só personagem, ou de mm
meras tragédias, de Ésquilo, Sóíocles, Eurípides e outros.
;
episódio, como faziam os 'poetas cíclicos, .-.> ' 1 'VííSGÍ
Io, amada de Zeus, será perseguida por Hera, que a trans-
forma em vitela e a faz errar pelo mundo, perseguida por um
132 —
O
poeta defende neste verso ponto de vista
idéfejp j
m
enorme moscardo. Sobre este tema, escreveram Ésquilo, entre
tico a o de Calimaco, que, no epigrama 28, também afirmtt-fr
os Grego®, e, entre os Romanos, Acio.
claramente :
«odei o o poem a
cíclic o e detest o o caminhò'"Tp>g_ -
Orestes tristis, -porque perseguido pelas Eximas, deusas vin-
onde segue a multidão.»
Nã o defende,
contudo,
senão-neste ^
gadoras, devido a ter praticado o matricfdio, ao assassinar
ponto,
as teorias da
escola
alexandrina,
pois se
filia,
coinbj
• i-J;.-"-'
74
75
H
fenèc uerbo uerbum curabis reddere fidus IJpnteipres nec desilies imitator in artum, Infund e -pedem
fenèc
uerbo uerbum curabis reddere fidus
IJpnteipres nec desilies imitator in artum,
Infund e -pedem proferr e pudor uetet aut operis lex . 135
ffip j Nec sic incípies, ut scriptor cyclious olim:
trivial, aberto a todos, e tão-pouco procurarâs,
como servil intérprete, traduzir^palavra por pala-
vra, nem entrarâs, como imitador, em quadro
'
«Fortunam Priami cantabo et nobile bellum».
Quid dignum tanto feret hic promissor hiatu?
Parturient montes, nascetur ridiculus mus. 1 ,
Quanto rectius hic, qu i nil molitur inepte: - 140
«Dic mihi, Musa, uirum, captae post têmpora Troiae
qui mores hominum multorum uidit et urbes»,
Non fumum ex fulgore, sed ex fumo dare lucem
cogitat, ut speciosa dehinc miracula promat,
Antiphaten Scyllamque et cum Cyclop e Charybdim . 145
Nec reditum Diomedis ab interitu Meleagri,
muito estreito de onde te impedirão de sair a tirai-
dez e a economia d a obra . E não irás começar 135
comp^ outrora o escritor,xlclico^ cantarei, a
fortuna de Príama.e a guerra famosa». Que obra _
digna de tal exórdio nos dará o autor desta pro-
messa? Os montes parirão c nascerá um pequenino
rato. Quanto mais a preceito não começa este
que nada constrói sem coicsão: «Fada-me, ó Musa, 140
do varão que, após os tempos da conquista da
Tróia, cidades e costumes viu de tantos homens».
Não pretende tirar fumo de um clarão, mas sim
de fumo tirar luz, para daí colher brilhantes pro-
j á dissemos , mas d a escol a aristotélica , Cf . Brink ,
Prolegomena,
dígios: Antífates , Gl a e
Caríbdis com o Ciclope .
145
pp.
109, n.
-2; 182,
•231, n.
4.
Não inicia o retorno de Diomedes pela morte do
139 — Tradução do provérbio grego:
<0
monte deu à luz,
e de u à luz um rato» , cf . Ateneu , XIV , 616 D . O monossílab o
mus no fim do hexâmetro (contra a regra geral da métrica
ab ouo. Deste mod o se tornará o poema sobrecarregado com
romana, que, nesse lugar, exigia um dissílabo ou um trissílabo)
descrições inúteis, que mais pertencem à história do que à
serve para realçar a pequenez do rato.
poesia. Neste ponto, Horácio, toma verdadeiramente o partido
de Aristóteles, Poética, VIII , 1451
a 24, concordando, só em
141-142 — Tradução
vv. 1-2,
não
literal
de
Hom. ,
Odisséia,
I,
parte, com as teorias alexandrinas, que, muito embora, segundo
Calímaco, fossem contra os poemas de grande extensão, eram
145—Autífabes, rei dos antropófagos Testrig5es (OdX ,
pelo menos a favor dos poemas eruditos.
100 e segs.); Cila e Caríbdis, monstros marinhos que vivia m
Reditum Diomedis é a volta de Diomedes da expedição
perto do estreito de Messina,
na Sicília (Od., XII , 85 e segs.);
contra Tebas (os sete contra Tebas), que poderia constituir
Ciclope, gigante monstruoso com um só olho, que vivia na
o tema de um poema cíclico do gênero das Tebaidas que, na
•Sicília
(Od.,
IX ,
187, segs.).
antigüidade, se conhecem. Mas o poeta cíclico, em vez de tratar
146 — Horácio dá aqui exemplos da maneira como se não
deve tratar um tema poético, ou seja, começando por narrá-lo
do assunto pròpriamente dito, começa a fazer a história das
suas origens relacionando-a com a morte de Meleagro, que
t
77 125
nec gemino ibellum Troianum orditur ab ouo; semper ad euentum festinat et in médias res
nec gemino ibellum Troianum orditur ab ouo;
semper ad euentum festinat et in médias res
non secus ac notas auditorem rapit, et quae
desperat tractata nitescere posse relinquit, 150
atque ita mentitur, sic ueris falsa remiscet,
primo ne mediam, médio ne discrepet imum.
Tu quid ego et populus mecum desideret audi,
si plosoris eges aulaea manentis et usque
sessuri donec cantor. «Vo s plaudite» dicat. 155
Actatis cuiusque notandi sunt tibi mores,
mobilibusque decor naturis dandus et annis.
Meleagro, nem a guerra ide Trói a pelos dois ovos ; . •(^4 /
sempre se apressa para o desenlace e arrebata o ctí^J
ouvinte para o meio da acção, como se esta lha
fosse conhecida, e deixa de lado a matéria que ele
sabe nã o pode r (brilhar. D e ta l mod o cria ficções , de * 150'li
tal modo mistura fábulas com a verdade, que nem Mf;,'!
o meio destoa do princípio nem o fim do meio.
Tu atende ao que eu, e o público comigo, dese- ; r
jamos , se quisere s qu e sentado s esperemo s o le -
vantar do pano, até que o actor nos peça os
aplausos.
);•
155
estava muito remotamente
Ligado à história dos antepassados
de
Diomedes.
Deves fazer ressaltar os caracteres de cada)
idade, e não deve faltar propriedade às naturezas,
que com os anos variam. O menino, que já sabe
147 — gemin o
ab ouo, trata-se de um exemplo similar
ao que acima citámos: a guerra de Tróia foi declarada por
causa do roubo de Helena, irmã dos gêmeos Castor e Pólux,
dução sobre a unidade do poema, no tratamento dos diversos
gêneros dramáticos de Grécia e Roma : tragédia, comédia é
ser
cultivado
os Dioscuros, que, tal como Helena, nasceram de um ovo de
Leda. Daí o falar o poeta de um «ovo gêmeo», i.e, duplo:
drama satírico. Cada um destes gêneros dev e
dentro dos princípios qiie lhe são peculiares.
um, o
ov o d e
que saiu Helena, o outro, o ov o de; que nasceram
153-155
—introduçã o
aos
preceitos da arte
dramática.
os Dioscuros.
155 — kVos
plaudite»
ó
a
expressão
co m qu e
terminava m
148 e segs. — Homer o é louvado por Horáci o como exem-
pl o d e brevidade e de coesão na escolha d o tema e na. maneira
de o apresentar, Efectiivamente, não só evita digressões fasti-
diosas, como o seu método poético não coincide com o método
histórico-cronológico, segundo o qual se iniciam as narrações
pelo seu mais remoto principio. Deste modo, o poema de
Homero apresenta-se uno na concepção e na realização, corres-
pondendo ao ideal aristotélico expresso no v , -152.
as comédias, p. ex. de Plauto, quando uma das personagens .
pedia os aplausos do público. Can tor deve referir-se ao
actor acompanhado pela flauta. Quanto a aulaeum deve
esclarecer-se que se trata do pano da cena, que era, no teatro
romano, levantado quando terminava a peça 0 baixado en-
quanto ela durava.
153-294 — Depois de ter feito nos versos 1.-152 uma expo-
sição sobre os princípios a seguir na escolha do estilo e do
conteúdo, entra agora Horácio, depois de uma pequena intro-
156-178 — Descreve Horácio os mores das personagens, ou
seja os caracteres que podem aparecer nos diversos gêneros
dramáticos, Este estudo dos caracteres era habitual na escola
iperipatética, bastando lembrar a obra de Teofrasto com o
mesmo nome.
125
t 78
itHáJí*- •il't : Reddere qui uoces iam scit puer et pede certo articular palavras e
itHáJí*-
•il't :
Reddere qui uoces iam scit puer et pede certo
articular palavras e o chão 'bate com passo certo,
signat humum, gestit paribus conludere et iram
exulta por brincar com seus iguais e as cóleras
colligit ac ponit temere et mutatur in horas. 160
que vai tendo, logo as esquece, mudando de hora)
Lnberbus iunenis (tandem custode remoto
a hora. O jovem, imberbe ainda, já liberto do pe-
gaudet equis canibusque et aprici gramine Campi,
dagogo, gosta 'de cavalos c de cães te dos exercícios
cereus in uitium flecti, monitoribus asper,
soalheiros na relva do campo Márcio. Mas ao vício
utilium tardais prouisor, prodigus aeris,
se molda como a cera e responde asperamente aos
• subJimis cupidusque et amata relinquere pernix.
165
que aconselham, não pensa senão tarde no que á
' Conuersis stndiis aetas animusque uirilis
útil; pródigo no dinheiro, altivo e ambicioso, larga
• quaerit opes et amicitias, insemit honori,
rápido o que ainda há pouco amou. Mudados os
commisisse cauet quod mox mutare laboret.
*
seus hábitos, quando a idade e espírito viris o ca-
11 1
racterizam, "já procura riquezas e amizades, servil,
-Multa senem circumueniunt incommoda, uel quod
à carreira das honras se submete; foge a comprome-
quaerit et inuentis miser abstinet ac .timet uti, 170
ter-se para não ter de sofrer depois ao remediar os
uel quod res omnís timide geiideque ministrat,
erros. Muitas agruras rodeiam o velho, ou porque,;
dilator, spe longus, iners auidusque futuri,
depois de procurar, miseravelmente se abstém e
difficilis, querulus, laudator temporis acti
hesita em fazer uso do que encontrou, ou porque
se puero, castigator censorque minorum.
tudo realiza com temor e frieza, atrasando com sua
Multa ferunt anni uenientes com moda secum, 175
esperança a longo prazo, inerte e ávido do futuro,
multa recedentes adimunt, Ne forte seniles
de carácter descontente, laimuriento, louvador dos
• mandentur iuueni partes pueroque uiriles;
tempos passados, de quando era menino, castiga e
vsempre in adiunctis aeuoque morabitur aptis.
censura os que são mais novos. Muitas .desvanta-
|g|Aut agitur res in scaenis aut acta refertur.
gens traz consigo o mudar dos anos, mas muitas
outras o declinar leva consigo: não deve, pois, o
j||pí'l62
•— Apricus
Campus,
por Campo Márcio, onde em Rom a
Rsffilaziam os exercícios
militares.
papel do velho ser confiado ao jovem, nem o de
*
'
9-188 — Regras
concernentes
à arte dramática:
criação
homem ao rapaz. Que ^sempre os autores se ate-
P^l^aracteres
e partes
representadas eobre
a cena
ou
partes
nha m às qualidades e atributos de cada idade.
simplesmente
narradas
por
certas
personagens
(mensageiros,
Há acções que se representam no palco, outras,
* ; etc(í*
Esta primeira
regra tinha como fim o evitar a apresen-
i o de cenas sangrentas ou demasiado maravilhosas,
como
só se relatam depois de cometidas. O que se trans-
INQ n - 6
Segnius irritant ânimos demissa per aurem 180 quam quae sunt oculis subiecta fidelibus et quae
Segnius irritant ânimos demissa per aurem 180
quam quae sunt oculis subiecta fidelibus et quae
ipse sibi tradit spectator; non tamen intus
digna geri promes in scaenam multaque tolles
ex oculis, quae mox narret facundia praesens.
N e pueros coram populo Medca tmcidet, 185
aut humana palam coquat exta nefarius Atreus,
aut in auem Procne uertatur, Cadmusin anguem.
Quodcumque ostendis mihi sic, incredulus odi.
Neue minor neu sit quinto produetior actu
faibuJa, quae posei uult et gpectanda reponi; 190
nec deus intersit, nisi dignus uindice nodus
inciderit; nec quarta loqui persona laboret.
mitir pelo ouvido, comove mais dèbilmente os espí- 180
ritos do que aquelas coisas que são oferecidas aos : :
já Aristóteles, Poética, XIV , 1453
b i-ir , também tinha acon-
selhado. Naturalmente que muitas destas cenas não eram apre-
sentadas, devido a impossibilidade técnica, ainda que Aristó-
teles e Horácio a esse aspecto se não refiram. Cf. w . 114-127,
onde Horácio também se refere a aspectos da criação dos
caracteres.
olhos, testemunhas fiéis, e as quais o espectador
apreende por si próprio. Não faças, no entanto,
representar na cena o que deva passar-se nos basti-
dores, retira muitas coisas da vista, essas que me-
Jhor descreve a facundia de urna testemunha. Que
Medeia não trucide os filhos diante do público, nem 185
o nefando Atreu cozinhe publicamente entranhas
humanas; tão-pouco em ave Procne se transforme
ou Cadmo em serpente. Detestarei tudo o que assim' V
me mostrares, porque ficarei incrédulo.
Que a peça nunca tenha mais do que cinco actos
nem menos do que esse número, se acaso desejarque
voltem a pedi-la e tornar à oena depois de estreada.
Que na peça não intervenha um deus, a não ser
que o desenlace seja digno de um vingador; nem
tão-pouco se canse u m 'quarto acto r a fala r nai
mesma cena.
185
-— Medeia : vid , com .
a o
v .
123.
186 —
Vid .
com.
ao
v .
91.
(segunda, em ordem, nesta enumeração) que deve ter surgido,
já na época helenfstica, possivelmente na escola de Teofrasto.
187 — Procne,
filha
de
Pándion,
rei
d e
Atenas,, c
irmã
Vid . T , (B. L . Webster, Studies in Menander, Manchester,
de Filomela, foi transformada em rouxinol. Cadmo, rei de
Tebas, aparecia nas Bacantes de Eurípides, onde Dioniso, deus
ex machina, lhe predizia a transformação em serpente, para
o castigar da sua falta de piedade.
1960, pp. fi®i e segs., 2212; 'Brink, Prolegomena, p. 1H4.
191-192 —- Normas
(terceira
regra)
sobre o uso do deus
ex
machina,
que
Aristóteles
tinha condenado,
na
Poética,
XV ,
1
1454 b 2. Horácio admite o seu uso nos casos em que o desen-
188— Horácio
defende
novamente
a
verosimilhança
da
lace exija intervenção divina.
-
acção,
tal
como
os per ipaté ticos.
192 —
A
quarta
regra
restringe o número de actores a trêsj'.?Í ; i
189-190 — O
poeta fala da divisão em cinco actos,
regra
O quarto actor deve ser muta
persona.
82
83
'
§jfl | Ascloris partis chorus officiumque uiríle •• defendat, neu quid médios intercinat actus, '
§jfl | Ascloris partis chorus officiumque uiríle
•• defendat, neu quid médios intercinat actus,
'
quo d non proposito conducat ©t haereat apte ,
• IHe 'bonis faueatque et consilietur amioe
et regat iratos et amet peccare timentis;
ille dapes laudet mensae breuis, ille salubfem
195
iustitiam Iegesque et apertis o tia
portis;
iille tegat com missa deosque precetur et oret,
ut redeat miseris, abeat Fortuna superbis.
Tíbi a non , iut nunc, orichalc o uincta tubaequ e
aemula, sed tenuis simplexque foramine pauco
adspirare et adesse choris erat utitís atque
nondum spissa nimis complere sedilia Eatu,
200
Que o coro 'deáeuda a sua individualidade reci-
tando o seu papei como um actor, e não cante, no
meio dos actos, o que não se relacionar nem se
adaptar intimamente a o argumento. Que el e sej a 195
propício aos bons e, com palavras amigas, os acon-
selhe, aos irados insuflando calma e aos que temem
pecar, concedendo amor. Que louve as iguarias da
mesa frugal e assim também a justiça saneadora e
as leis, tal como a paz que se goza de porta aberta.
Que não revele os segredos confiados e peça aos
deuses e lhes suplique que a Fortuna volte aos des- 200
graçados e abandone os soberbos.
205
quo sane populus numerabilis, utpote paruus,
et frugi castusque uerecundusque coibat.
Postquam coepit agros extendere uictor et urbes
latior amplecti murus uinoque 'diurno
193-201 —E m
quinto
lugar
vem a
regra
que
prescreve
o
papel do coro.
Este
deve ser considerado como
um
actor
e
intervir,
portanto,
na
acção.
Horácio
tem,
neste
particular,
a mesma opinião de Aristóteles, Poética
XVUI ,
T456 a 25-32,
Não era a antiga flauta, como agora, coberta?
de Jatão, como se fosse rival 'da tuba, mas tênue e
simples, de singela embocadura, suficiente para dar
o tom, acompanhar o coro e espalhar-se, com seus
acentos, pelas bancadas ainda não à pinha. Nessa 20í
altura, ainda o povo se contava pelos dedos e,
pouco numeroso, acorria ao teatro, sendo sóbrio,
morigerado e respeitador. Mas depois que, pelas
vitórias, se estenderam os campos e mais largos
imuros abraçaram as cidades e depois que, mesmo
em dias festivos, se aplacava impunemente o Gé-
que já criticava os interlúdios
,
em
que
o
coro
interrompia a acção cantando sem que as suas palavras tives-
sem qualquer ligação com a peça. Estes interlúdios eram nor-
mais na Comédia Nova. Aristótélico também é o juízo moral
sobre o coro.
pectos mais complicados e sugestivos, visto que a poesia dra-
mática passou pouco a pouco a ser presenceada peitas mais
diversas classes sociais.
202-219 — Horácio refere-se à música, e ás normas d o seu -
202 — Orichalcum
espécie de lata o de composição desconhe-
emprego,
como
elemento
fundamental
da
poesia
dramática.
cida.
: Primeiramente austera, foi a música evoluindo e ganhando as-
1 .
.
85
OJ
placari Genius festis impune diebus 210 accessit nume risque modisque licentia maior. Indoctus qui d
placari Genius festis impune diebus 210
accessit nume risque modisque licentia maior.
Indoctus qui d enim saperet liberque laborum
rusticus .urbano confusus, turpis honesto?
Sic priscae motumque et luxuriem addidit arü
tibicen traxitque uagus per palpita uestem; 215
sic etiam fidibus uoces creuere seueris
et tulit eloquium insolitum facundia praeceps,
utiliumque sagax rerum et diurna futuri
sortilegis non discrepuit sententia Delpliis.
nio, durante o dia, em libação de vinho, começou' 210
então maior licença para os versos e para a música. " /1
Na verdade, que gosto podia ter o ignorante, o .
camponês liberto dos trabalhos? Este agora mis-' .
tura-se com o citadino, um, cheio de vulgaridade,
o outro, honrado cidadão. Assim, acrescentou o
*
i
,
"."i
flautista à antiga arte mais movimento e lascívia e, '.'•;/• .:
andando, arrasta pela cena a longa veste. D o
-2'
Carmine qui trágico «uilem certauit ob hircum,
mox etiam agrestis Satyros nudauit et asper
220
mesmo modo, se juntaram à severa lira novas ^V^tij 1
cordas, criando-se um estilo extravagante que
trouxe expressão em moldes nunca ouvidos; e, paras'
210 — Placari Genius, o Gênio, divindade protectora de
cada indivíduo, só era aplacado com libações durante a noite.
Fazer as mesmas libações, durante o dia, era sacrilégio. A in-
doutamente coisas úteis aconselhar e predizer o
futuro como os deuses, se concebeu sentença não
diferente das de Delfos, a dos oráculos.
Aquele que, primeiro, por miserável bode se ba-
220
fluência do desenvolvimento social na decadência dos costumes
teu com o carme trágico, em breve chegou a desnu- 1
e na concepção artística, era já. tema d e discussões na escola
-,í
-
aristotêlica. Vid. Brink, Prolegomena, p. 11-15.
Infelizmente o
único drama
satírico que da antigüidade
até'-'-
216 —
A
lira de Terpandro
a mais antiga)
tinha
sete
nós chegou, é o Ciclope
de Eurípides.
cordas, ao passo que, no séc. iv a.C., este número já fora
220 —Alude-s e
á
origem
dos
concursos
dramáticos
na '
- 5 ,
aumentado para dez.
Atica,
durante
os
quais,
os
concorrentes
disputavam
como •
218-219 — Refere-se Horácio às palavras do coro, que pre-
prêmio um bode ou seja um rpayoç- Vid. A .
Pickard-Cambri-
dizia o futuro das personagens do drama, tal como se oráculo
dge, Dithyramb,
Tragcdy
and Comedy,
ed.
xev. pçr
T .
B .
L , f '
'
fora. O valor destas predicções era, bem entendido, realçado
Webster,
Oxford,
19&2,
passim,
pela música.
221 — Satyro s nudauit: deve tratar-se de uma alusão aos
220-250 — Depois de falar dos princípios que regem a es-
coreutas que representavam solenemente vestidos na tragédia
truturação da tragédia e do drama satírico, entra Horácio na
e que logo a seguir, ao representarem no drama satírico, se
história destes gêneros, sobretudo do drama satírico, que com-
apresentavam com uma pele de cabra sobre os bancos. Ligado
participava, de certo modo, do estilo elevado da tragédia e
à
origem
do drama satírico, encontra-se
Pratinas
de Fliunte.
do estilo humilde da comédia, Era um médium dicendt genus.
Vid . Pickard-Cambridge, ob. cit.,
p.
65
e
segs.
86,
87
incolumi grau itate iocum -temptauit eo quod íllecebris erat et grata nouibate moran-dus spectator functusque
incolumi grau itate iocum -temptauit eo quod
íllecebris erat et grata nouibate moran-dus
spectator functusque sacris et potus et exlex.
Veruim ita risores, ita commeiidare dicacis 225
conueniet Sartyros, ita uertere seria -Ilido,
ne quiciuimquo deus, quicuntque adhibebitur heros,
regali conspectus in auro raiper et ostro,
migret in obscuras humili senmone tabernas, .
dar sátiros selvagens e, rudemente, mas sem atentar
contra a solenidade do assunto, introduziu a sátira,
de modo a que, com atractivos e pela grata novi-
dade, prendesse o espectador, o qual, -depois de ter J
presenciado os sacrifícios, se encontrava bem foe- I
bido e já sem freio. N a verdade, convinha assim, j
fazer valer os chocarreiros, os sátiros faladores, e Í225
transformar coisa séria em folguedo,
Não se -deixou-,
aut, dum uitat humurn, nubes et inania captet.
230
Effutire Jeuis indigna tragoedia uersus,
ut festis matrona moueri iussa -diebus,
intererit Satyris paulum pu-dibunda proteruis.
Non ego dnornata et dominantia nomina solum
uerbaque, Pisones, Satyrorum scriptor amabo, 235
nec sic enitar trágico -differre colori
ut nihil intersit Dauusne loquatur et audax
Pythias, emuncto lucrata Simone talentum,
contudo, caso aparecesse qualquer deus ou qual-
quer herói, há pouco vistos em ouro e púrpura,
dignos de reis, que estes passassem agora para som-
brios tugúrios e se extprimissem em íbaixa lingua-
gem. Não se permitiu também que, ao evitarem o
vulgar terreno, os mesmos entrassem nas nuvens e
na fatuidade. Mesmo sendo satírica, a tragédia não 230
deve tagarelar em versos levianos e só com alguma
vergonha se mistura ela com os lascivos Sátiros, tal
como a matrona que, nos dias festivos, por dever
227 — Refere-se o poeta
à linguagem de deuses e
heróis,
religioso, tem de dançar.
-"**"
a qual deve manter certa dignidade, coerente com a persona-
gem que a fala. Trata, pois, da elocutio referente ao drama
satírico.
233 — Horácio defende, de novo, o meio termo no que
Eu, ó Pisões, se escrevesse dramas satíricos,
não gostaria só de nomes e vocábulos sem figuras
e no sentido próprio, nem me esforçaria por afas-
tar-me de tal sorte do estilo trágico que nenhuma
diferença se notasse entre os falares de Davo e da
atrevida Pitias, que tanto aproveitou -dos talentos
235
respeita ao estilo do drama satírico, que se deve manter entre
a tragédia e a comédia. Assim poder-se-á distinguir qualitati-
vamente a linguagem d o Sileno, o mítico aio de Dioniso
(v. 239) e personagem freqüente do drama satírico, da lingua-
gem dos escravos característicos
da comédia, Da vos e Pftias
(vv . 237-238), a qual é bastante mais popular. Pitias é uma
escrava que em geral aparece na comédia a roubar o seu amo
Símon (v. 239).
238 — Tal como já
fizera nos w ,
46, 50, etc., e .emplifica
Horácio o facto a que se refere: emprega o vulgarismo emun-
gere (assoar) para exprimir a idéia de «roubar».
125
t 88
an custos famulusque dei Silenus ahunni. Ex noto fietum carmen sequar, ut sibi quiuis 240
an custos famulusque dei Silenus ahunni.
Ex noto fietum carmen sequar, ut sibi quiuis 240
s<peret ideni, sudet multum frustraque Iaboret
ausus ideni; tantum series ãuneturaque pollet,
tantum de médio sumptis accedit honoris.
Siluis dedueti caueant me Índice Fauni
que na bolsa de Símon logrou limpar, e o do trá-
gico Siieno, servo e tutor do divino -discípulo. Com
elementos conhecidos criarei o poema satírico de
ne,
uelut innati triuiis ac paene forenses,
245
aut nimium teneris iuuenentur uersibus unquam
aut immunda crepent ignominiosaque dieta;
pffenduntur enim quiibus est equus et pater et res,
nec, si qui d fricti ciceris prabat et nucis emptor,
aequis accipiunt animis donantue corona. 250
Syllaba ionga breui subiecta uocabur iambus,
pes citus; undé etiam trimetris adcrescere iussit
nomen iambeis, cum senos redderet ictus,
primus ad extremum simiiis sibi; non ita pridem,
forma a que todo o que o desejar, se julgue capaz 240
de fazer o mesmo, muito embora muito sue e sofra
em vão: tão grande é o poder da ordem e da con-
textura, tão grande é o respeito que se junta ao que
for tirado do corrente linguajar! Os Faunos, trazi-
dos das florestas, deve m guardar-se, julgo eu, 'do
se exprimir em versos mui polidos, como fazem os 245
que nasceram nos cruzamentos citadinos e passeiam
pelo foro. Mas também não devem só falar com
palavras sujas e obscenas: isso ofende o boin-gosto
do cavaleiro, do nobre, do abastado, que, em geral,
não aceitam com espírito concorde nem por coroas
distinguem tudo o que aprova o comprador de
nozes c de grão frito.
250
240-250 — Depois de se ter falado da linguagem dos deu-
ses
(227)
e
d o
Sileno
(239) ,
continua
Horácio
a
tratar
do
estilo,
afirmando
(v ,
244 e segs.)
que
a
linguagem
do
coro
dos
Faunos
(romparticipantes
no
drama
satírico)
não
deve
assemelhar-se
língua
da
plcbccula,
do
povoléu,
nem
tão-
-pouco
à
da
gente
da
cidade.
A
primeira,
com
efeito,
não
Sílaba longa que se segue a uma fcreve, forma o
que se chama um Jambo, pé veloz; daí, o ter este
mandado acrescentai" a seus metros jâmbicoso nome
de trímetro, embora batesse seis vezes o compasso,e
fosse sempre igual do primeiro ao último, Não ficou
agrada
à
alta
sociedade
romana
(quibus
est
equus,
etc.) ,
a
segunda não ngrada ao pov o
(ciceris
et nucis
emptorJ
que formavam a obra de arte. Começa por tratar do pé jambo,
que devido aos ictos sucessivos — — — ) era conside-
245 — triuiis — significa <nas encruzilhadas, nos cruza-
mentos», i.e. do "entro de Roma, que, por sinédoque, é Roma
pròpriamente dita.
rado um pé rápido. Neste passo o Jambo é personificado (su-
jeito de jmssÍí). Horácio depois dá-nos a entender que, cons-
tituído por seis pés, há um trímetro jâmbico (chamado
senário jâmbico em Roma). Em princípio deveria chamar-se,
251-274 — Fala
o
poeta
do
verso
a
usar nos diversos
segundo Horácio, hexâmetro. Naturalmente que esta afirmação
genera,
pois eia ele a cúpula que unia os elementos de estilo
125
t 90
aut tardio r -ut paul o grauiorqu e uenire t a d auris, 255 spondeos
aut
tardio r -ut paul o grauiorqu e uenire t a d auris, 255
spondeos stabilis in iura paterna recepit
cammodus et patiens, non ut de sede secunda
cederei aut quarta sociaüter, Hic et in Acci
nobilibus trimetris adparet rarus, et Eirni
in scaenam rnissos cum magno pondere uersus 260
'
operae ceie ris nimium
ignoratae premi t artis
,
aut
curaque carentis
crimine turpi.
Noa quiuis uidet imimodulata poemata iudex,
et data Rornanis «enia est indigna poetis,
Idcircone uager scribamque licenter? an ominis 265
uisuros peccata putem mea, tutus et intra
spem ueniae cautus? uitaui denique culpam,
não tem fundamento científico, pois que Horácio identifica um
metro com um só pé quando ele, na terminologia antiga,
representava dois pés. Assim, um trimetro tinha seis pés e um
tetrâmetro, oito.
muito tempo nesse estado, pois querendo apresen-
tar-se mais lento e um pouco- mais solene a quem 255
escutava, foi, paciente e adaptável, perfilhar o
pesado espondeu, sem que, porém, sociável em
demasia, abdicasse do segundo e quarto lugares.
Este Jambo, contudo, raro aparece nos nobres trf-
metros de Acio e acusa os versos de Énio, lançados
com grande peso para cena, de serem obra rápida, 260
à qual falta cuidado, de serem a torpe falta de
quem desconhece a arte. Não é qualquer crítico \
que vê serem os poemas desarmónícos; eis a razão
por -que a estes poetas romanos fo i concedida in ! - j
digna aprovação, Mas só .por isso devo eu andar 1
sem norte e escrever sem regra? Ou, por julgar que 265!
iGík®. em meus erros vão atentar, devo, por cau-
tela, manter-me atrás da esperança de uma segura!
aprovação? Evitei, finalmente, possível erro, mas
255 —Horáci o refere-se à introdução no trimetro
jâmbico
que o poeta não era consciente da evolução que se operara,
puro (usado por Arquíloco) d o espondeu ( —), pé Longo e
e das suas respectivas conseqüências, na passagem do trimetro
de certa solenidade, usado como pé de substituição.
jâmbico grego para senário latino.
Mais uma vez também Horácio junta um exemplo ao facto
257-258 — N o
trimetro jâmbico,
o segundo e quarto pés
relatado (cf. vv . 46, 50, 238, etc.) fazendo o v . 260 tod o em
eram constituídos por jamboe puros.
espondeus, exceptuando-se, naturalmente, o quinto pé.
Horácio, levanta, de novo, com a sua critica, o problema
258-262 — O poeta acusa Acio e Énio de terem substituído
literário dos antigos e modernos e, embora não admita sem
os metros jâmbicos por metros espondaicos, o que fazia versos
reservas todos os princípios apregoados 1 pelas escolas dos
muito pesados e sem beleza. Leja y e Plessis, na
sua
edição,
poetas novos (Lutácio Cátulo, Gatulo, etc.), a verdade é que
ad. loc., afirmam que Horácio faz uma crítica injusta, pois
também não suporta a solenidade grandiloqüente dos poetas
as suas afirmações não correspondem à verdade. A verdade é
arcaicos, a quem imputa, muitas vezes injustamente, falta de
técnica (p. ex. a Plauto, no v. 270).
92
93
non laudem me rui. Vos exemplaria Graeca noeturna uersate manu, uersate diurna. A t uestri
non laudem me rui. Vos
exemplaria Graeca
noeturna uersate manu, uersate diurna.
A t uestri proaui
Piau ti nos et números et
270
kudauere sales, nimium patienter utrumque,
ne dicam stulte, mirati, si modo ego et uos
louvores não mereci. Quanto a vós, compulsai de
dia e compulsai de noite os exemplares gregos. Mas
os vossos avós louvaram os versos de Flauto e o sen 270
espírito, admirando-os com muita indulgência, para
não dizer com muita ignorância, se é que hoje eu e
^
scimus inurbanum lépido seponere dicto
Jegitimumque sonum digitis callemus et aure.
Ignotum tragicae genus inuenisse Camenae
vós sabemos distinguir a (frase bela da grosseira e I 1 \
com dedos e ouvido sabemos conhecer, por expe-
riência, o som
bem afinado.
J
275
Diz-se que Téspis descobriu o gênero desconhe- ,
,.'1'
dicitur et plaustris uexisse poemata
Tbespis
quae caneient agerentque peruneti faecibus ora.
Post hunc personae pallaeque repertor honestae
Aeschylus et modicis instrauit pulpita tignis
et docuit magnumque loqui nitique coturno. 280
268 —• Horácio,
com
nova
insistência,
chama
a
atenção
para os modelos gregos, que ele considera como os únicos
cido da Camena trágica e transportou, em carros, as 275
suas peças que os actores cantavam e representavam"
de caras besuntadas com o mosto da uva. Depois
veio Ésquilo, o inventor da máscara e da solene
veste da tragédia, que instalou o palco sobre postes -
pouco elevados, ensinando a falar com grande elo-
qüência e a sobressair sobre o coturno . A estes su- 28Õ
dignos de serem imitados, por serem provenientes de uma
técnica poética perfeita, que contrasta com a negligência ro-
279 — Ésquilo será o grande inovador, an introduzir a
mana, Cf. Brink, Prolegomena, p. 261.
máscara e a veste séria, que distingue os seus sctoies daqueles
275-294 — Faz
mática.
Horácio
o
esboço
histórico
da
arte
dra-
que primeiramente untavam as faces com mosto. Introduz,
também, o palco. Horácio referira-se igualmente a Téspis e a
Ésquilo na epístola a Augusto, II, 1, iór-T'63, acrescentando ',
275-277 — Seguindo os métodos literários helenístico®, re-
aos seus nomes o de Sófocles. Nã o
fala, porém de Eurípides^
fere-se o poeta ao inventor
( e ijpeT7i'ç) d e cad a
gênero li terá-
o qua l
lhe devi a desagradar ,
pois , na s suas tragédias , claudi - ;'.
.rio, respectivamente Téspis, d o demo ático de Icária, quanto
cava exactamente nos princípios que o próprio Horácio for-.-ji
à tragédia. Isto não exclui, contudo, evolução anterior a
mulava na A. P
Vid .
a este respeito,
F . Rebelo Gonçalves,
i;
Téspis.
Mas
foi este que
lhe deu
forma
literária.
«Horácio e Eurípides», Euphrosyne, II I (19&T), pp. 49-64, em '
que se faz exaustivamente o estudo das discrepâncias entre a
277
— - O
facto
de
untarem
os
actores,
do coro,
as faces
teoria de Horácio e os princípios seguidos p. J lo modernista
com
o mosto da
uva,
faz
pressupor
que estes festivais
esti-
Eurípides, que foi exactamente quem mais influenciou a tra-
vessem
ligados,
na
sua
origem,
com
as
festas
da
vindima.
gédia romana, da qual Horácio não gostava.
Vid. Pickard-Cambridge,
ob.
cit.,
p .
74.
t 94
125
|MSucoessif uetus his comoedia, non sine multa ^BjÉupde; sed in uitium libertas excidit et uim
|MSucoessif uetus his comoedia, non sine multa
^BjÉupde; sed in uitium libertas excidit et uim
llpig-najTi lege regi; lex cst accepta chorusque
ffiíUrpiter obticuit suiblato iure nocendi.
^fe^Ni l intemptatuan nostri liquere poetae, 285
PfHec minimum meruere decus uestigia Graeca
llâus i deserere et cetóbrare domestica facta,
pfuel qui praetextas uel qui docuere togatas.
-'Nec uirtute foret clarisue potentius armis
cedeu a comédia antiga e foi recebida não sem viv o
aplauso; mas a liberdade degenerou em vício e em
abuso que teve de ser reprimido pela lei. Depois-
de aceite a lei, calou-se o coro, para sua vergonha,
porque se lhe tirara o. direito de injuriar.
Os
nossos
poetas
nada
deixaram
que
não
285
quarn lingua Latium, si non offenderet unum
queinque poetaram íimae labor et mora. Vos, o
Pompilius sanguis, carmen reprehendite quod non
290
experimentassem, nem foi pequeno o louvor que
mereceram os que, ousando abandonar o grego tri-
lho, celebraram os pátrios feitos, ora criando as
fábulas pretextas ora as togadas. Nem o Lácio '} ç/
Seria mais ilustre pelasjarmas e valor jdo que pel^ !
sua língua, se não custasse tanto aos seus poetas 290/ V
gastarem tempo no demorado trabalho da lima. J
I*
281-284 — A comédia era mais antiga (vid. Pickard-
v
.
-Cambridge, ob. cit., p .
e segs.)
do que nos diz
Horácio.
Mas vós, ó estirpe de Pompflio, censurai todo o
poema que não for aperfeiçoado com muito tempo
O
Tal feito leva a crer que este considere sòmenbe a comédia
que foi integrada, por volt a de 490 a.C., nas festas promo-
vidas pelo estado ateniense. Fala-nos da Comédia antiga
(uetus), cultivada por Aristófanes, Cratino, Eupolis, etc., e
da Comédia nova, representada por Menandro, Filémon, etc.,
na qual deixara o coro de existir, pois fora suprimido porque
recorrera ao ataque pessoal e defendera idéias que nem sempre
agradavam aos políticos. Nã o se refere à Comédia média de
Aléxis e Antlfanes,
Togata,
comédia de assunto latino, como as de Titínio, Afrâ-
nio,
etc.
e
que estavam
em
grande
moda
nos
princípios
do
séc.
1
a.C.
Vid.
fragms.
das
pp.
254-259,
de
A .
Ernout,
Recueil
de textes
latins
archajques,
Paris,
1947.
290
— Horácio
faz
hábil
alusão ao
lugar comum
(topos)
da
poesia
latina,
no qual
se
fazia o
lamento da
pobreza
da
língua
do Lácio:
ipatrii
sermonis
egestas»,
Lucr,,
De
rerum
285-294 — Traça agora o ipoeta a história do drama latino,
que infelizmente só ficará atrás do drama grego, porque os
poetas do Lácio, que todos os gêneros cultivaram, não per-
diam tanto tempo, como os Gregos, em limar e aperfeiçoar o
estilo. Na estrutura dramática criada pelos Gregos introduzir-
-se-á, no SLácio, assuntos romanos {domestica facta, v . 287).
natura,
I ,
138, 832;
III ,
260; Cíc.,
Tusc.,
II ,
35; Sén,,
Ep.,
58,
1; Quint., Inst.
Or.,
X ,
r,
10;
XII ,
10,
27,
etc.
292 — Pompilius
sanguis:
trata-se
dos
Pisões,
que para
288 —•Praetexta, drama histórico caracterlsticamente ro-
mano, como p. ex. o Romulus de Névi o e as Sabinae de Énio.
encontrarem maneira de se libertar da sua origem plebéia,
inventaram, como era então uso, um antepassado da gens
Calpurnia (à qual pertenciam), filho, diziam eles, de Numa
Pompílio e cujo nome era Calpus.
INQ II
-
7
97
96
«TÉ: multa dies et multa litura coercuit atque praesectum deciens non castígauit ad unguem. Ingenium
«TÉ:
multa dies et multa litura coercuit atque
praesectum deciens non castígauit ad unguem.
Ingenium mísera quia fortunatius arte
credit et excludit sanos Helicone poetas
Democritus, bona pars non unguis ponene ourat,
non barbam, secreta petit loca, balnea íiitat;
nanciscetur enim pretium nomenque poetae,
si tribus Anticyris caput insanabile nunquam
tonsori Licino commiserit. O ego Iaeuus
qui purgar bilem sub uerni temporis horam!
295
300
295-476 — Entra-se agora na última parte do poema, perfei-
tamente distinta das anteriores, e na qual Horácio trata da
formação do poeta, ou seja da ars que deve possuir todo o
que se dedicar à poesia. Ao mesmo tempo enceta, abertamente,
o capítulo da crítica literária. Esta última parte corresponde,
possivelmente, ao capítulo, que Neoptólemo de Pário dedicava
_£_muita emenda e que, depois de, retalhado dea
vezes, não for castigado até_ao caibo.
Demócriito, porque crera ter o gênio mais valor
do que a pobre arte, fechou as portas do Hélicon 293|l
aos poetas de juízo. A maior parte dos que per-
tencem à sua facção não se preocupa com o arran-
jar .das unhas, nem com o frisar da barba; escolhe
para viver os lugares 'desertos, evita os balneários.
Assim obterá a fama e nome de poeta quem nuncai
confiar a Lícino, o barbeiro, essa cabeça que nem 300
as três Antíciras já podem curar, E eu, desastrado,
que me purgo da .bílis quando se aproxima a épocaj
ao TtoiviT^ç (poeta)
e nela se notam certas influências aristo.
neste ponto Horácio leva a ironia às suas últimas conseqüên-
cias, deve ter mesmo um certo grau de loucura, pois esta
aumenta o talento poético. Efectivãmente, a doutrina de
Demócrito via no poeta, em vez dessa loucura, uma espécie
de furor sagrado, mas este é alterado caricaturalmente por
télicas, que, segundo Brink, Prolegomena, p. 138, etc., devem
provir do De poetis de Aristóteles, obra que não chegou até nós.
Horácio que o transforma em verdadeira demência. Vid.
Cícero, De diuinatione, 1, í8o (frag . 17 Diels) : «nega t sine
furore Democritus quemquam poetam magnum esse posse:
295-305 — Teoria
concernente
ao
poeta,
ao
artifex
do
quo d idem dici t Plato » (cf . De oratore,
TH, 11(914).
poema.
Horácio
mostra
aos
Romanos
que
não
basta
o
ingenium
(talento) paira se ser poeta, precisa-se também da
300 — Antycira
era o nome de três cidades da
Grécia (na
ars
(técnica).
297 — Segundo a teoria tradicionalmente atribuída a De-
mócrito, teria este pensado que só poderia ser poeta quem
tivesse ünicamente qualidades naturais para o ser. Essas qua-
lidades não necessitavam de ser desenvolvidas e, por isso, toda
e qualquer formação cultural, em que entrasse algo de técnica,
era considerada como produto de um artifkialismo que só
estragaria a beleza da obra. O poeta, segundo Demócrito, e
Fócida, Tessália e Lócrida) em que se produzia o heléboro,
planta medicinal, que era considerada na antigüidade como
tendo propriedades que curavam a loucura. Horácio dá-nos a
entender que o heléboro se chamava também Anticyra, iden-
tificando o nome da terra com o do seu produto.
301 —Quícino era um barbeiro romano então cm moda.
302 — A bílis era considerada como uma das causas da
loucura e, por isso, era debelada igualmente com o
heléboro-
98
99
Non aJíus faceret meliora poemata; ueruxn nil tanti est. Ergo fungar uice cotis, acutum reddere
Non aJíus faceret meliora poemata; ueruxn
nil tanti est. Ergo fungar uice cotis, acutum
reddere quae ferram ualet exsors ipsa secandi; 305
munus et officium, nil scribens ipse, doeeibo:
unde parentur opes, quid alat formetque poetam,
quid deceat, quid non, quo uirtus, quo ferat error.
Scribendi recte sapere est et principium et fons.
Rem tibi Socraticae poterunt ostendere chartae, 310
uerbaque prouisam rem non inuita sequentur.
Qui didicit, patriae quid debeat et quid amicis,
quo sit amore parens, quo frater amandus et hospes,
quod sit conscrípti, quod iudicis officium, quae
primaverill Se assim não procedera ninguém faria
melhores poemas do que eu! Por tal preço, porém,
não vale a pena. Servirei, 'portanto, como a pedra!
de amolar que muito embora não corte por si só,
serve para tornar o ferro mais agudo; ensinarei, 305
nada escrevendo eu próprio, o valor e a missão do
poeta: de onde vêm os recursos do talento, o que
inspira e forma o poeta, o que convém escrever e o
que não convém e aonde flevam a qualidade e d
erro.
Ser sabe dor
é
o
escreverO s escritos
princípio e a fonte do bem
socrâ ticos já te "deram idéias
310
e agora as palavras seguirão, sem esforço, o assunto
306-308 — Neste passo faz-se a transição para outros te-
mas de que Horácio vai tratar. Esses temas são enunciados
pelo poeta: onde adquirir a substância da poesia; o que forma
um poeta; o que é apropriado ou o que não 6 apropriado para
a poesia; perfeição e imperfeição do poeta. Quanto à frase
imaginado. Quem aprendeu o que se deve à pátria!
e aos amigos, quanto afecto se deve conceder aos
pais, irmãos e hóspedes, quais os deveres do sena-
dor e do juiz, quais as atribuições do general man-
nil scribens ipse (v . 306) foi ela interpretada como dado cro-
nológico, para a datação da A. P. Pod e ser identificada com
três fases em que Horácio abandonara um pouco o seu ofício
de poeta: 1) a fase anterior à elaboração das Odes; 2) o
interuallum liricum entre 23 a,C. e 18 a.C,; c ) o período
nil scribens
ipse um sentido mais lato, com que Horácio pre-
tenderia afirmar que ele não escrevia
poesia
dramática.
entre a publicação d o livro I V
das
Odes e
o
fi m
da sua vida,
iq-8 a.C. A primeira deve ser rejeitada, porque Horácio não
Kl - , podia intitular-se mestre de poesia antes de ser reconhecido
: como
%fases ,
grande poeta latino (Latinus fidicen). As duas outras
têm as mesmas possibilidades de serem admitidas, tal
diz Brink, Prolegomena, p. 242, mas parece-nos, como
309-33? — Entra agora na apresentação das partes enun-
ciadas. O bom 'poeta tem de possuir uma capaz preparação
filosófica, tal como os poetas gregos, que nisso eram bem
diferentes dos romanos. Possível influência de Aristóteles, que
defendia os conhecimentos filosóficos dos poetas, protegendo
os poetas contra os ataques de Platão, de que estes eram
objecto. Cf. Brink, Prolegomena, p. 1-27, e segs.
ifcíj,' j á dissemos na introdução, p. 25, que a última tem mais
310 — Socraticae
chartae,
alguns
identificam-nas
com
os
; verosimilhança
(cf . J. Perret, Horace,
p.
186
e segs.) . També m
escritos de Platão e outros com os dos seus discípulos,
p.
ex.
nos parece viável e bastante lógico que possa atribuir-se ao
Xenofonte, e até mesmo com
os
de
Panécio,
o estóioo,
etc.
t
101 125
partes in bellum imissi ducis, ille profecto 315 reddere personae scit conuenientia cuique. Respicere exemplar
partes in bellum imissi ducis, ille profecto 315
reddere personae scit conuenientia cuique.
Respicere exemplar qitae maruimque iubebo
doctum imitatorem et niiias hinc ducere uoces.
Interdum speciosa locis morataque recte
fabnla nullius nenens, sine pondere et arte, 320
ualdius ohlectat populum meliusque moratur
quam uersus inopes rerum nugaeque eanorae.
Grais ingenium, Grais dedit ore trotando
Musa Ioqui, praeter laudem luuHkis auaris:
dad o à guerra : esse, n a verdade , sabe conferi r a 3X5
cada personagem a descrição que melhor lhe cabe.
A o douto imitador aconselharei que atente no mo-
delo da vida e dos costumes e 'dai retire vívidq
discurso. Comédias há, por vezes, que, embora
parcas de èlagância, medida e arte, por apresenta-
rem temas atraentes e caracteres bem delineados 320
agradam mais ao público e o prendem muito mais
do que versos sem realidade, ou harmoniosas baga-
telas poéticas.
Romani pueri longis rationibus assem 325
discunt in partis centum diducere. «Dicat
filius Albini: si de quincunce remota est
,
Rem poteris seruare tuam, Redit uncia, quid fit?—-
Semis». An, haec ânimos aerugo et cura peculi 330
uncia, quid superat?
Poteras dixisse. — Triens.—Eul
Deve,
porém, tratar-se de uma simples referência k disciplina
da filosofia
moral.
316 — Conuenientia
corresponde
ao
arístotélíco
irpírcov
(aptum) ou seja a teoria de qne as características d a descrição
devem
ser apropriadas ao que se descreve.
Vid .
Aristóteles,
Poética, I X e XV . Novamente se refere Horácio aos sentimen-
A Musa deu aos Gregos o .talento e a possibi-
lidade de falar com jgrande elevação, a eles que
era m ambiciosos, ma s s ó de alt o renome . Osi
jovens romanos, por seu lado, aprendem a re- 325
duzir, .com grandes .contas, um _asse_ em cem
partes. — «Diga o filho de Albino: se de cinco
onças tirares .uma só, quantas ficam? Poderias ter
já dito! » — «Quatro». — «Muito bem! Assim jál
poderás administrar a tua fortuna. E se acrescen-
tares uma às cinco, quantas ficam?» — «Seis on-
ças», Esperaremos nós, porventura, que estes
espíritos, uma vez imbuídos da preocupação cor- 330j:ii
tos das personagens, Cf . A.
P.,
v .
11119 e
v .
156 e segs.
317 — Exemplar uitae — refere-se à teoria helenística ti-
1
,
.
Menandro.
Quanto à
teoria da jUÍtLTjatç, na - Poética
e
n o
Dái ^
rada de Aristóteles, segundo a qual a poesia seria imitação
poetis
de Aristóteles,
vid . (Brink,
Prolegomena,
pp.
da vida, o que se notará na concepção dos gêneros literários
• ^SÍS»'
da época helenística, p. ex. na Comédia Nova . Po r isso, Cícero,
323-332
Horácio volta ao confronto de Romanos e Gtt$|L
De republica, TV, 11, chamará à comédia, speculum consuetu-
goe,
pois tinha
tomado estes como modelo,
visto que sóéíítPp®
dinis. Esta asserção clceroniiana é largamente comprovada pelo
ram
dar
a
devida
importância
a o
ingenium
e
à
ars
(ore
?
que nos resta da Comédia nova, e sobretudo pelo Díscolo de
rotundo
loqui).
N a
educação,
os
Romanos só ss
interessam/t.
102
W3
« p • ffip>um semel imbuerit, speramus carmina fingi rosiva do dinheiro, possam criar versos
« p
ffip>um semel imbuerit, speramus carmina fingi
rosiva do dinheiro, possam criar versos dignos de
gM^osse linenda cedro et leui seruanda cupresso?
serem cobertos com óleo de cedro e conservados
ip||.Au t prodesse uolunt aut delectare poetae
na madeira do cipreste bem polido?
^Sa t simuí et iucunda et idônea dicere uitae.
Os poetas ou querem ser úteis ou dar prazer
^feiíicqui d praecipies, esto breuis, ut cito dieta 335
cm, a o mesmo tempo. Jrata r d e assunto belo e
||§Í£fcípiant animi dociles teneantque fideíes:
adaptado à vida. Se algum preceito deres, sê breve, 335
ppDase superuacmim pleno de pectore manat.
para que rap_Ídam ente^apreen dam e decorem as tuas
pFict a uoluptatis
causa sint próxima ueris,
lições os ânimos dóceis e fiéis de quem te ouve: tudo
p h e quodcumque uolet poscat sibi fabula credi,
o.queíq t supérfluo ficará ausente da memória, car-
regada em demasia. As tuas ficções, se queres cau-
pelos aspectos práticos e materialistas da vida, preferindo a
aritmética à poesia e filosofia.
sar prazer, devem ficar próximas da realidade e
não se pode apresentar tudo aquilo em que a fá-
332 — Em
Koma,
os livreiros,
para
preservarem
da des-
bula deseja que se creia, como quando se tira viva
truição os rolos de papiro, costumavam esfregá-los com óleo
de cedro e depois metê-los em caixas de cipreste: cf. Vitxiivio,
H , p. 13; Porfirião, ad loc.; Teofrasto, Hist. plantarum, V ,
4, 2; Plínio,
N.
H„
XVI ,
76, 39,
Com
esta
imagem pretende
o poeta referir-se à imortalidade de que os bons poemas são
dignos.
este fala do poema didáctico. Também não é fundamental o
objectivo de causar prazer. A escola perlpatética defende, sim,
a combinação das duas tendências, como vemos no passo citado
de Neoptólemo (Brink, Prolegomena, p. i'20, n. 1): «para
cumprir a sua função, o poeta perfeito deve entreter o espírito
do ouvinte e assim também ser útil e ensinara.
333-346 — Horácio apresenta os escopos que o poeta pre-
tende atingir: o utilitário (a que Neoptólemo de Pário dá o
nome de yp7jff[[jt,oXoyeTv) ou seja prodesse (v . 333}, o sim-
plesmente artístico e lúdico, delectare (que corresponde, muta-
tis mutandis, ao que Neoptólemo chama Jíuyaywyta), ou
então procura o poeta obter o duplo efeito que reihia ambos
os fins (iucunda et idônea, v . 334). Cf. Brink, Prolegomena,
pp. 128-129, e cs frags. citados apud Brink. Neoptólemo,
n.° 10 (De poem., V, col. XIII) , Estes aspectos tiveram sobre-
maneira importância na teoria literária da antigüidade, A utili-
dade não é, contudo, característica fundamental da poesia,
como pode ver-se em Aristóteles, Poética, I , T447 b, quando
335 — Tal como já apontara, quando criticava a tendên-
cia dos poetas cíclicos para as grandes digressões e fizera o
elogi o da brevidad e d e Homer o (v . 140 e segs,) , volt a Horáci o
de novo a tocar neste ponto, considerando como essencial a
breuitas in rebus. Deve referir-se, neste verso, ao poema didác-
tico (Quicquid prcscipies), no qual o autor procura instruir.
338 — Depois de falar do poema que procura ser útil e
ensinar, fala q poeta daquele em que ímicamente o poeta pro-
cura deleitar os ouvintes, inventando novos temas. Aqui tam-
bém, não são permitidos exageros, pois sempre a verosimi-
lhança deve ser considerada, tal como diz Aristóteles, Poética,
XV , 1454 a.
104
105
neu pransae Lamiae uiuum puerum extrahat aluo. 34o Id o ventr e d e Lâmi
neu pransae Lamiae uiuum puerum extrahat aluo. 34o
Id o ventr e d e Lâmi a a^ cr i an ç ah á
pouc o po r
est a
• 3?i
Centuriae seniorum agitant expertía fnugis,
{devorada
As
centúrias dos mais velhos repudiam''
cefsi praetereunt austera poemata Ramnes.
/todo o .poema que não fo r proveitoso, mas os qug- %
Omne tiiíit punctum qui miscuit utile duld,
f pertencem à
trib o -de Rarnnes,não gostam, desde^ •
Jectorem detectando pariberque monendo;
nhosos, dos poemas austeros. Jtepebe sempite.jpa;~
hic meret aera liber Sosiis, híc et maré transit 345
votos, o que soube misturar o útil ao agradável/
fet Iongum noto scriptori prorogat aeuum.
pois^deleita e ao mesmo tempo ensina o leitor:
Sunt delicia tamen quibus ignouisse uelimus;
este o livro que dá dinheiro aos Sósios, que passai •
nam neque chorda sonum reddit quem uult manus
os mares e oferece ao célebre escritor imortal.
[et mens,
poscentique granem persaepe remittit aoutum,
nec somper feriei, quodcumque minabitur, arous. 350
Verum ubi plura nitent in carmine, non ego paucis
offendar maculis, quas aiut incúria fudit,
renome.
Há, porém, defeitos para os quais exigimos in-
dulgência: pois nem a corda produz o som que a r
mão e o espírito desejam, saindo, muitas vezes,
som agudo a quem procura o 'grave, nem, tão-
-pouco, o arco encontra sempre, com a flecha, o
340 1 -Lâmia era
uma
figura
da
novelística
grega,
cuja
alvo que se mirou. Na verdade, quando inúmeras 350
crueldade fazia terror às cfianças, pois, segundo se dizia, devo-
qualidades brilham ntrin poemas não vou ofender-
rava os recém-nascidos. Vid . E . Rohde, Der griechische Ro-
-me com alguns defeitos, deixados escapar por •.•,•
man,
Dannstadt,
<1960, p.
o .
e Diodoro Sículo,
Biblio-
2ro ,
teca,
XX, 411:.
347-476 — Entra-se na última parte da teoria oonoernerite
M 2
— O s
Ramnes
(também
Rhamnes)
correspondem
à
ao poeta e à crítica literária: procura-se a maneira de evitar
tnb o dos Ramnenses, uma das tr & mais antigas tribos que
o erro e de assim atingir a perfeição
poética.
Rómulo fundou em Roma e estão aqui, por antonomásia,
em
vez de equites
(cavaleiros).
347-360 — A perfeição absoluta não existe e por isso, sem
que admitamos erros essenciais, temos de admitir que alguns
343 — Horácio segue a solução intermediária
já preconi-
pequenos defeitos
podem existir, N o entanto, o erro que, nos
zada pelos peripa té ticos e por Neoptólemo, pretendendo que a
grandes poetas, é excepção, torna-se hábito e vicio nos maus
boa poesia
deve juntar o úti j ao agradável (dulce ^é o prazer
poetas.
artístico).
347—•Horáci o
emprega,
humorlsticamente,
um
tom
Jurí-
345 — Sosii era o nome de uma família de livreiros célebres
dico neste passo,-em que se trata do perdão ou da condenação
em Rom a
(cf . Epíst.,
I ,
20,
2) .
de certos delitos
poéticos.
106
107,
neu pransae Lamiae uiuum puerum extrahat aluo. 34o \ do ventre de Lânnia a_ criajiça
neu pransae Lamiae uiuum puerum extrahat aluo. 34o
\ do ventre de Lânnia a_ criajiça há pouco por esta
Centuriae seniorum agitant expertia frugis,
[devorada, JíS centúrias dosimais velhos repudiam'^ f:
cefsi praetereunt austera poemata Ramnes.
(ipào o .poema que não for proveitoso, mas os que"^» 1
Omne tolit punctum qui miscuit utile dulci,
pertencem à tribo de Ramnes,não.gostam, desde^ ^
Jectorem delectando pariterque monendo;
nhosos, dos poemas austeros. Jtepebe sempm^oá;^
hic meret aera Iiber Sosiis, hic et maré transit 345
votos, o que soube misturar o útil ao agradável/ '
fet longum noto scriptori prorogat aeuum.
pois^ deleita e ao mesmo tempo ensina
o leitor:
Sunt delicta tamen quibus ignouisse uelimus;
este o livro que dá dinheiro aos Sósios, que passa^ -r'^
nam neque chorda sonum reddit quem uult manus
os mares e oferece ao célebre escritor imortal «45
J
[et mens,
poscentique granem persaepe remittit aoutum,
nec semper feriei, quodcumque minabitur, arous. 350
Verum abi plura nitent in carmine, non ego paneis
offendar maculis, quas aut incúria fudit,
renome.
Há, porém, defeitos para os quais exigimos in-
dulgência; pois nem a corda produz o som que a f
mão e o espírito desejam, saindo, muitas vezes,
som agudo a quem procura o gtrave, nem, tão^
-pouco, o arco encontra sempre, com a flecha, o
340 1 Lâmia
era
uma
figura
da
oovelístíca
grega.
Cuja
alvo que se mirou. Na verdade, quando inúmeras 350
crueldade fazia terror às cHanças, pois, segundo se dizia, devo-
qualidades brilham num poema-, não vou ofender-
rava os recém-nascidos. Vid . E . Rohde, Der griechische Ro-
man.
Darmstadt,
11960, p .
n.
e Diodoro Sfculo,
Biblio-
-me com alguns defeitos, deixados escapar por
ZIO ,
teca,
XX ,
411.
347-476 — Entra-se na última parte da teoria conoernedi»
M 2
— O s
Ramnes
(também
Rhamnes)
correspondem à
ao poeta e à crítica literária: procu«»-se a maneira de evitar
tribo dos Ramnenses, uma das três mais antigas tribos que
o erro e de assim atingir a perfeição
poética.
Rómulo fundou em Roma e estão aqui, por antonomásia,
em
vez de equites
(cavaleiros).
347-3^0 — A perfeição absoluta, não existe e por isso, sem
que admitamos erros essenciais, temos de admitir que alguns
343 — Horácio segue a solução intermediária já preconi-
zada pelos peripa téticos e por Neoptólemo, pretendendo que a
boa poesia deve juntar o útil ao agradável (dulce — é o -prazer
artllstico),
pequenos defeitos
podem existir, N o entanto, o erro que, nos
grandes poetas, é excepção, torna-se hábito e vício nos maus
poetas.
347 — Horácio emprega, humorlsticamente, um tom Jurí-
345 — Sosii era o nome de uma família de livreiros célebres
dico neste passo,-em que se trata do perdão ou da condenação
em Roma
(cf. Epíst.,
I ,
20,
2) .
de certos delitos
poéticos.
106
107,
Íf;au t humana param cajuit natura. Quid ergo est? certa incúria ou porque a natureza
Íf;au t humana param cajuit natura. Quid ergo est?
certa incúria ou porque a natureza humana os não
: Vt scríptor si peccat idem librarius usque,
soube evitar. Que quero eu dizer? Assim como o
quamuis est monitus, uenia caret, et citharoedus
355
copista não merece desculpa, porque, embora avi-
- V
ridetur, chorda qui semper oberrat eadem,
sado, sempre faz o mesmo' erro, e o tocador de
v |
sic mihi, qui multum cessat, fit Choerilus ille,
citara é posto a ridículo se, ao dedilhar as cordas, 355
%
; quem his teme bonum cum risu miror; et idem
cai sempre no mesmo engano, igualmente o poeta
; ; indignor quandoque bônus dormitat Homerus;
que muito falha me lembra o célebre Quérilo, o
uerum operi longo fas est obrepere somnum. - 360
qual escarneço, ainda que duas ou três vezes ele
fe
;
pictura poesis; erit quae, si propius stes/ 1
seja digno da minha admiração. E não posso deixar
K
t e capiat magis, et quaedam, si longius abstes;
de indignar-me todas as vezes que dormita o bom
jjpSfcaec amat obscurum, uolet haec sub luce uideri,
Homero: contudo, é natural que, na descrição de
iuidicis argutum quae non
formidat
aoumen;
tão grande assunto, alguma vez nos domine o sono. 3ó0
Como a pintura é a poesia: coisas há que de
-
.
jj i
357 — Quéril o de laso {Ciaria), poeta épico contemporâ-
perto mais te agradam e outras, se a distância <! -
|
|
ne o e companheiro de Alexandre Magno, foi pago por este para
estiveres. Esta quer ser vista na obscuridade e
'
^
cantar as suas campanhas. Diz a tradição antiga, que Quérilo
aquela à viva luz, por não recear o olhar penetrante
y.
era ura péssimo poeta, pois ainda que conseguisse ser po r
vezes brilhante, a totalidade da sua obra era de m^ualidad e
%
U
literária. Vid . Hor., Epíst., M; r, 232 e segs.
ív: •
24: relata as duas justificações, a de Cícero referente a Demós-
tenes e a de Horácio respeítante a Homero.
M^Í - ^ 358-360 — Mesmo Homero, o mais perfeito dos poetas
361-390 — Mesmo
admitindo
a
natural
imperfeição
do
||||,;(çf. v . 140 e segs.) e que dev e ser q model o d e todos, também
||||Be engaiia por vezes. Horácio faz-se eco das críticas da escola
|alexandrina de Zoilo (a quera chamavam <0 chicote de
llp^erò») , que, na obra do grande épico, descobria um sem
r^ilimero de incoerências e de erros. Estas afirmações provi-
sobretudo do desconhecimento científico da língua homé-
! que parecia, com efeito, fugir às regras da língua jónica.
I^aniage m de que era o sono o causador desses deslizes, já
pp^réc e nalguns autores, que ligavam a mesma imagem a ou-
l^os .escritores : Cícero, apud Plut., Cícero, 24, justificava
l^ir a os erros de Deméetenes, e Quintilíano, Inst. Or., X, T,
engenho humano, há que observar, no entanto, certos prin-
cípios: o poeta tem de possuir elevado domínio d o seu
talento,
pois a mediocridade não pode ser consentida: tem de ter ins-
piração e desenvolrvê-la com a ars.
361 — A imagem da pintura comparada à poesia {devido
à fiEfi.Tjtriç) é muito freqüente na antigüidade. Basta lembrar
um símile congênere em Plutarco, De gloria Athen., 346 F ,
que nos diz «ser a pintura poesia calada e a poesia pintura
que fala».
109
ca- I • MM haec placuít semel, haec deciens repetita placebit. 365 O maior iuueaum,
ca- I
MM
haec placuít semel, haec deciens repetita placebit.
365
O maior iuueaum, quamuis et uoce paterna
fingeris ad rectum et per te sapis, hoc tibi dictum
tolle memor, certis médium et tolerabile rebus
recte concedi; consultus iuris et actor
(' dos seus críticos; esta, só uma vez agradou, aquela,
j dez vezes vista, sémpre agradará.
Tu, que és o mais velho de teus irmãos, embora
a mão paterna te tenha encaminhado para o bom-
-gosto e 'por ti próprio tenhas aprendido, conserva
365
I
N
causaram
mediocris abest uirtute diserti
370
bem na memóri a o que
.te digo ; nas coisas positiva s
Messallae nec scit quantum Cascellius Aulus,
sed tamen in prefcio est; mediocribus esse poetis
non homines, non di, non concessere columnae.
Vt gratas inter imensas symphonia discors
et crassum unguentum et Sardo cum melle papauer 375
offendunt, poterat duci qui a cena sine istis,
sic animis natum inuentumque poema iuuandis,
si paulum summo decessit, uergit ad imum,
Ludere qui nescit, campestriibus obstinei armis,
se concebe tolerável mediania e qualquer juriscon-
sulto ou advogado mediano, se não chegou à habi-
lidade do eloqüente Messala ou à ciência de Aula
Cascélio, nem por isso deixa de ter o seu valor. Mas
os poetas medianos, esses não os_admitem nem os
deuses nem.os homens, nem as colunas dos livreiros.
Tal como em simpático banquete desagradam con-
certos dissonantes, perfumes mal cheirosos e a dor-
mideir a temperada
com o med d a Sardienha, porqu e
375
366 — Com certo pathos dirige-se Horácio ao mais velho
dos dois Pisões, que de faoto se julga, ter querido dedicar-se
à poesia dramática. O poeta afirma que, se noutras artes de
carácter utilitário, não é imprescindível o seu domínio per-
feito, na poesia só o melhor nível é admissível.
o banquete podia passar sem estes, do mesmo modo
o poema nascido e inventado para agradar aos espí-
ritos, assim que se afastou um pouco do termo dese-
jado, logo,tombará no extremo oposto. Quem não as
sabe terçar que se abstenha de jogar armas no cam- 1 r
371 —Messala , Mar eus Valerius Messala Corvinus, é um
advogado célebre, contemporâneo de Horácio, e é citado o seu
exemplo ao lado d o de Aulus Cascellius, jurisconsulto muito
conhecido, que nasceu, julga-se, um pouco antes de 100 a.C.
Estas citações foram consideradas como dado® para a datação
do poema. Messala pouco interessa, visto ser contemporâneo,
mas Cascélio, já devia ter cerca de noventa anos no ano
20 a.C. (se considerarmos provável esta data), Por isso,
Brink, Prolegomena, p, 240, propõe que se considere o nome
do grande jurisconsulto como o símbolo, por excelência, do
homem de leis.
373 — Anáfora, com que procura obter-se a ênfase decla-
matória e irônica, misturando oe nomes dos deuses e .dos
homens (como nas fórmulas de invocação solene), com os
.
escaparates dos livreiros. Estes últimos deviam interessar for-
••íti#r
temente aos interesseiros poetas de Roma.
375 — Mel com sementes de papoila torradas, era conside-
rado uma iguaria nos banquetes romanos (Plfn. , H.
N,,
XI X
ióS) .
O mel
da Sardenha, contudo, era dog menos aconâelhá-'
veis, parque demasiado amargo.
t 110
125
ilft-) ' ;*indoctusque pilae disciue trochiue quiescit, 380 po e, quem não aprendeu a lançar
ilft-)
'
;*indoctusque pilae disciue trochiue quiescit,
380
po e, quem não aprendeu a lançar a bola, o disco, o
troco, .deve ficar quieto, para que os círculos api-
nhados de espeçtadores se não riam impunemente; e
quem nap sabe, ousa, contudo, fazer versos? Por
que não? Se é livre e de pais livres, sobretudo'
quando o censo lhe atribui a soma de moedas que
dele faz õim cavaleiro, além de estar isento de quaJ-
quer vergonha? Apesar disso, tu nada deves dizer
ou empreender sem a iboa vontade de Minerva: este
380
||f| no spissae risum tollant impune coronae;
í||);tqui nescit, uersus tamen audet fingere. Quidni?
|||liber et ingenuus, praesertim census equestrem
^p|summam nummorum uitioque remotus ab omni.
i T u nihil inuita «dices faciesue Minerua;
385
!•$!':• "í d tibi iudieium est, ea meus.
Siquid tamen olim
scripseris, in Maeci descendat iiudicis auris
et patxis et nostras, nonumque prematur in annum
membranis intus positis; delere licebit
quod non edideris; nescit uox missa reuerti. 390
Siluestris homines sacer interpresque deorum
caedibus et uictu foedo detemiit Orpheus,
385
^
tem de ser o teu princípio e a tua opinião. Se acaso, j ~ T I
porém, alguma vez quiseres escrever uma obra, l -
a nós, e que-em- rolos de pergaminho ela
dá-a primeiro a ouvir a Mécio , o crítico, a teu pai, j £
^
repouse
\
380 — trochus:
círculo
de
metal,
que
as crianças
faziam
durante nove anos, pois o que não for a flutue é
ainda susceptível de correcção, mas palavra que for
lançada já não pode voltar.
390
girar, por meio de uma vara de ferro.
Foi
Orfeu,
o
sagrado
intérprete
dos
deuses,
385 — Expressão proverbial.
Vid . Cícero,
D e
I ,
tio :
quem
afastou os homens selvagens do assassínio
«inuita, ut aiunt, Minerua, idest aduersante et repugnante
natura». Os desprotegidos de Minerva, a deusa da sabedoria
e das artes, não podiam ser
artistas.
388 — Já É-lvio Cina,
um dos poetas novos, só publicara
o seu poema
Zmyrna
depois de nove
anos
de
o
ter
escrito.
387 — Spurius
Maecius
Tarpa
devia
ter cerca de
30 anos
Cf. Catulo, Carrn.,
95.
em 55 a.C. data a que Cícero, Ep. Eam., VTI, 1, 1, se refere
quando fala dele como crítico literário e dos maiores. Em
392 — Orfeu, poeta mítico, que, segundo antiga tradição,
14 a.C. (data presumível da A. P.) já ele tinha c. de 70 anos.
Referir-se-ia Horácio a Tarpa, em vida deste, ou pretenderá
contribuiu pela música e ipelo canto para diminuir a selvajaria
e a rudeza dos primitivos homens, tirando-os da barbárie.
o poeta, tão-sòmente, dar-nos o nome de Tarpa, como o do
crítico por excelência, tal como talvez fizera a respeito de
Cascélio (vid. v. 371)? Nada se pode afirmar com segurança,
e por isso mesmo, estas referências não são dados seguros que
permitam uma datação do poema
horaciano.
Esses homens são identificados, por alegoria, com as feras.
Quanto ao homem primitivo, tinha já a antigüidade uma ima-
gem definida, que o fazia antropófago cadibus et uictu foedo,
admitindo também que se alimentasse de glandes como vemos
em Hesíodo, Trab. e Dias, 23I2 e Heródoto, I , 06 e segs.
112
SNQ U
-
8
113
didíüs o b hoc lenife tigris rabldosqífélêbnésí frr^up -.roq e do nefando pasto; por isso
didíüs o b hoc lenife tigris rabldosqífélêbnésí frr^up -.roq
e do nefando pasto; por isso se dizia que ele aman- ' jilf
dictus ét Amphion, Thobanae conditdr uíbiá,
saxa tigres e ferozes leões. De igual modo, se fala 1
v-ií ' Vj
#
saxa motière èono testudinis iest prectílílahdâ % -'»> sof^j í
de Anfíon, fundador da tebana cidade, que, por
-
^
duceréqtio tuellet. Ftiií hüke '^pieritiá^tí^daítíin nrrmp
branda camtilena e pelo som da Jira, dera às pedras
39
publica priuátis secernere, sacra prtffàúiá;
movimento e as levava para onde .bem queria. Fun- : 'í
concubitu prohibere uago, dare iüfâ ínarítíê, 1 -- ^.óc-ví-
dava-se a antiga sabedoria em distinguir o público
oppida molirí, léges incidere lignb, • a o
do privado, o sagrado do profano, em pôr freio a "
Sic honor et nomcn diuinis uatibus atque.
.
'
400
uniões adúlteras, em dar direitos aos maridos, em
càrminibus uenit, Post hos insígnia Homerüs ' i'-
construir cidades e gravar em madeiro as suas leis.
Tyrtaeusque mares ânimos in Martia bella •
Assim adveio honroso nome aos divinos vates e aos 400
uersibus êxacuit, dictae per càrmina sortes; [ :
-;•>".
seus poemas. Depois destes, o ilustre Homero e
et uitae monstrata uia est, et gratiá régum
Tirteu com versos incitaram os espíritos viris para
Pieriis temptata modis ludusque repertus 405
as guerras de Marte; em verso foram proferidos os
et Iongorum operum finis: ne forte pudori
oráculos e mostrado q /bom caminhoda vida; em ,
sit tíbi Musa lyrae sollers et cantor Apollo.
versos, pelas Piérides inspirados, sejcaptou o favor
dos reis e, no fim de longos trabalhos, foram desb. 4t>5
O
ritmo
o as palavras
tinham,
portanto,
valor
mágico
que
çgi!terfeis.^^jrepresentações teatrais: agora, que,
convencia
os ânimos à doçura
e
comedimento.
394 — Com Anfíon dá-nos Horácio mais um exemplo de
portanto, não te causem verçonha _auMusa -háí>il_
poeta mítico da geração anterior a Homero, Este pertencia à
tradição tebana, uma das mais antigas da Grécia, como diz
no dedilhar da lira e Apoio cítaredo.
Varrão, De re rust.,
HI ,
1.
396-399 — O poeta mostra que, nos tempos primitivos,
ticos) e à epopeia, vem Tirteu, poeta elegíaco do séc. V H a.C.
que representa a primeira fase da elegia. Cultivou-a, em Ee-
parta, e deu-lhe carácter exortativo e guerreiro.
poesia e filosofia eram uma e só coisa. Também Cícero,
Tusc., V , 2, 5, nos diz o mesmo, referindo-se, porém, &
filosofia; «Tu urbis peperistl, tu dissipatos hominos in socie-
tatem uitae conuocasti, tu eos inter se primo domiciliia, deinde
conlugils, tu litterarum et uocum communione iunxisti, tu
inuentrix legum, tu magistra morum et disciplinas fuisti
»
402 — A seguir a Homero, séc. IX-VIII ,
a.C.