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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
COMARCA DE SÃO PAULO
FORO CENTRAL CRIMINAL BARRA FUNDA
VARA DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL
AV. DR. ABRAHÃO RIBEIRO, 313, 1º ANDAR RUA 7 - SALAS 518/586 -
BARRA FUNDA
CEP: 01133-020 - São Paulo - SP
Telefone: 2127 - 9529 - E-mail: spjecrim@tjsp.jus.br

DECISÃO

Processo nº: 1000822-60.2016.8.26.0050
Classe - Assunto Representação Criminal/notícia de Crime - Injúria
Querelante e Promotor DANILO GENTILI JUNIOR e outro
(Ativo):
Querelado: JOSÉ TRAJANO REIS QUINHÕES

Este documento foi liberado nos autos em 29/06/2017 às 15:34, é cópia do original assinado digitalmente por JOSE ZOEGA COELHO.
Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/esaj, informe o processo 1000822-60.2016.8.26.0050 e código 545E3E.
Juiz(a) de Direito: Dr(a). José Zoéga Coelho

Vistos.

Trata-se de queixa crime por crime contra a honra.

O Querelante sentiu-se atingido em sua honra por comentários
feitos pelo Querelado em programa de televisão. Nessa sua manifestação, o
Querelado teria manifestado seu repúdio ("irritado, enojado com a presença
dele") à presença do Querelante em outros programas da grade da mesma
emissora, isto porque, segundo o Querelado, o Querelante seria um
"personagem engraçadinho que se posta comos e fosse um sujeito que faz
apologia do estupro em nome do humor".

Em defesa preliminar, o Querelado destacou (folhas 93 e
seguintes) publicações do Querelante em redes sociais, destacando
manifestações do Querelado, a título de humor, que justificariam sua crítica.

Dada a palavra ao Querelante, este não negou a autoria

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daquelas postagens.

Assim, é incontroverso que o Querelante, embora não faça
expressa apologia do estupro, efetivamente faz troça de fatos que, em tese,
poderiam caracterizar o também grave crime de posse sexual mediante fraude
(vide fatos relacionados com o programa Big Brother Brasil – folhas 92/93)

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ou, mesmo assim não se entendendo, reduz e vitupera valores prevalentes na
sociedade, como a liberdade sexual da mulher. E da mesma forma age com
relação a outros valores não menos relevantes, como o respeito à diversidade
de orientação sexual, o respeito à diferença de raças, dentre outros – vide
folhas 93/95.

Pouco importa que o Querelante tenha sido condenado ou
absolvido relativamente a estas postagens em redes sociais. Ainda que
pudessem não configurar ilícito civil ou penal, o que está em questão, nos
estritos limites da presente lide penal, é o direito que o Querelado possa ter de
desgostar do humor feito pelo Querelante (lícito ou ilícito que seja) e de
externar aberta crítica a ele.

Entendo que o Querelado tinha e tem o direito de critica
quanto à atuação artística (humorística) do Querlante, ainda que dura seja a
crítica feita.

Com efeito, dispõe o artigo 142, II, do Código Penal, não
constituir crime (injúria ou difamação) a opinião desfavorável da crítica

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artística.

Esta é a hipótese dos autos. Embora as palavras do Querelado
fossem dirigidas à pessoa do Querelante (repúdio à sua presença em
programação de determinada emissora), fato é que dito repúdio
manifestamente se relaciona com a atividade artística do Querelante e, então,

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firmemente criticada pelo Querelado. A menção feita pelo Querelado a pessoa
que "se posta como se fosse um sujeito que faz apologia de estupro em nome
do humor" deixa claro que o repúdio decorre do tipo de humor que o
Querelante faz (que tem por mote valores socialmente relevantes, acima já
destacados). E pouco importa que não seja tecnicamente exata a menção a
estupro (o Qurelado não é jurista), já que é fato que o Querelante efetivamente
menoscaba da liberdade sexual da mulher, em suas postagens.

Vale ademais destacar que o artigo 142, II, do Código Penal, é
corolário da garantia constitucional da liberdade de manifestação do
pensamento. Tal garantia visa assegurar o aprimoramento do conhecimento,
latu sensu, e seguramente envolve aspectos políticos, sociais e éticos da vida
em sociedade. Assim sendo, quando o Querelante delibera tomar valores
sensíveis da sociedade contemporânea como tema de suas manifestações, põe-
se voluntariamente em terreno aberto para críticas – que então não pode
estranhar.

Mas ainda que assim não fosse.

Mesmo não se aplicasse às inteiras o disposto no artigo 142, II,

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do Código Penal, forçoso reconhecer que a conduta do Querelado, primando
pela crítica, não estaria de toda sorte revestida do dolo específico sempre
exigido para a tipificação dos crimes contra a honra.

Nestes crimes, o elemento subjetivo do tipo envolve não só a
vontade de praticar determinada conduta, mas também a de, por meio dela,

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atingir determinado resultado. Nos crimes contra a honra, não basta, portanto,

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prolação de palavras ofensivas. Mister que a vontade do agente esteja focada
no ataque à esfera moral da vítima, como fim precípuo da ação. Como
observa Alberto Silva Franco, em suas anotações ao elemento subjetivo do
crime de calúnia: “Não nos parece que se possa prescindir do animus
diffamandi, da vontade de ofender, da intenção de denegrir etc. Dolo é
consciência da antijuridicidade do fato e não tem quem, embora proferindo
palavras que possuam idoneidade ofensiva, age com fim que não é anti-
social”...”Não basta, pois, que as palavras sejam aptas a ofender; é mister que
sejam proferidas com esse fim” (Código Penal e Sua Interpretação
Jurisprudencial, vol 1, tomo II, 6ª ed., pág 2245).

E, como já destacado, o animus criticandi
ressurge evidente do próprio teor da manifestação do Querelado e assim
descrita na queixa.

Cabe, a propósito, destacar entendimento já
externado pelo Col. Superior Tribunal de Justiça, no tocante a imputação a
terceiros de fato delitivo, porém com animus defendendi: “Não há crime de

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calúnia quando o sujeito pratica o fato com ânimo diverso, como ocorre nas
hipóteses de animus narrandi, criticandi, defendendi, retorquendi, corrigendi
e jocandi” (RTSTJ 34/237). Desde entendimento não discrepa a doutrina de
Mirabete: “Em resumo, se o ânimo, desígnio ou móvel que impele à
manifestação do pensamento representa, de algum modo, o exercício regular
de direito ou o cumprimento de dever jurídico (animus defendendi, no debate

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judiciário; animus corrigendi vel disciplinandi no exercício do pátrio poder,
tutela, instrução ou educação; animus consulendi na liberdade de crítica, ou
no dever de informar ou dar parecer etc.), não haverá crime contra a honra a
punir” (Manual de Dirreito Penal, vol 2, 3ª ed, pág. 136).

Aliás, quiçá por ter agido com animus jocandi,
não tenha sido o próprio Querelante punido pela suas postagens nas redes
sociais. Então, por fundamento análogo (animus criticandi), deve ser o
Querelado agora também absolvido sumariamente.

Por reputar que os fatos descritos na queixa não configuram
ilícito penal, por expressa exclusão legal, absolvo sumariamente o Qurelado,
JOSÉ TRAJANO REIS QUINHÕES, do delito do artigo 140, combinado com
o artigo 141, III, ambos do Código Penal, o que faço com fundamento no
artigo 397, I, do Código de Processo Penal.

P.R.Intime-se.

São Paulo, 29 de junho de 2017.

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