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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE BACHARELADO EM HOTELARIA

MONICA COSTA MARTINS

RESENHA CRÍTICA

MATRIZES ÉTNICAS

São Luís

2017

MONICA COSTA MARTINS

RESENHA CRÍTICA

MATRIZES ÉTNICAS

Trabalho apresentado à Disciplina de Cultura Popular Maranhese para avaliação e composição de nota.

Prof. Dr. István Van Deursen Varga

São Luís

2017

3 O Povo
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O Povo
  • 1 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

RIBEIRO, Darcy. 

O NOVO MUNDO: MATRIZES ÉTNICAS. In:

______. Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2. ed. São Paulo: Companhia das letras, 1995. Cap. 1. p. 29-41. Disponível em: <http://bit.ly/D4rCr1B3>. Acesso em: 24 jun. 2017.

  • 2 SOBRE O AUTOR

Darcy Ribeiro nasceu em Minas (1922), falecendo em Brasília aos 74 anos (1997). Formou-se em Antropologia em São Paulo e dedicou seus primeiros anos de vida profissional ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia. Fundou o Museu do Índio e criou o Parque Indígena do Xingu. Escreveu uma vasta obra etnográfica e de defesa da causa indígena. Dedicou-se, então, à educação primária e superior. Criou a Universidade de Brasília e foi Ministro da Educação. Mais tarde foi Ministro-Chefe da Casa Civil e coordenava a implantação das reformas estruturais, quando sucedeu o golpe militar de 64, que o lançou no exílio. Viveu em vários países da América Latina onde, conduzindo programas de reforma universitária, com base nas idéias que defende em "A universidade necessária". Retornando ao Brasil em 1976, voltou a dedicar-se à educação e à política. Elegeu-se vice-governador do estado do Rio de Janeiro, foi Secretário da Cultura e Coordenador do Programa de Educação, com o encargo de implantar 500 CIEPs (grandes escolas de turno completo para 1000 crianças e adolescentes). Criou, então, a Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil, a Casa Laura Alvin, o Centro Infantil de Cultura de Ipanema. E o Sambódromo, onde colocou 200 salas de aula para fazê-lo funcionar também como uma enorme escola primária

  • 3 SOBRE A OBRA

O Povo Brasileiro é uma obra constituída de cinco partes, que aborda a história da formação do povo brasileiro. O livro trata das matrizes culturais e dos mecanismos de formação étnica e cultural do povo brasileiro. Trata-se da obra final do autor publicada antes de sua morte. É revestida de opiniões e impressões formadas pela experiência da vida do autor. O livro apresenta as formas através das quais a empresa

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"Brasil" moldou as zonas de habitação humana no território nacional e sua influência na miscigenação das 3 matrizes básicas formadoras do brasileiro; quais sejam a Matriz Tupi [indígena], a Matriz Lusitana [europeia] e a Matriz Africana [negros]. As duas primeiras (Matrizes Tupi e Lusitana) são analisadas no Primeiro Capítulo da obra [O NOVO MUNDO], que é o objeto desta resenha. Ribeiro analisa inclusive o nome Brasilque é - segundo o próprio:

[

...

]

geralmente identificado com o pau-de-tinta é

na verdade muito mais antigo. Velhas cartas e lendas do mar oceano traziam registros de uma "ilha Brasil" 1 referida provavelmente por pescadores ibéricos que andavam à cata de bacalhau. Mas ele foi quase imediatamente referido à nova terra, ainda que o governo português quisesse lhe dar nomes pios, que não pegaram. (p.

126).

Reconstituir esse processo, entendê-lo em toda a sua complexidade, foi o claro objetivo de Ribeiro. E tendo consciência que o único testemunho disponível nos registros é de apenas um dos protagonistas: o invasor (que nos fala de suas façanhas. O que sucedeu aos índios e aos negros, raramente lhes dando direito de registrar suas próprias falas); lançou-se mão da análise do discurso engendrado, efetuando-se uma leitura crítica da documentação copiosa buscando alcançar a necessária compreensão dessa página da história da formação do Brasil.

4 BREVE SÍNTESE

O autor preocupa-se em estudar o processo civilizatório, tendo em vista situar as nações germinais dos povos latino-americanos; tratando das características iniciais do território brasileiro, das terras encontradas pelos portugueses que desembarcaram pela primeira vez no ano 1500 D.C. Estas terras que se encontravam povoadas por um grande número de povos indígenas que viviam por toda superfície do Brasil. Eram, tão-só, uma

miríade de povos tribais, falando línguas do mesmo tronco, dialetos de uma mesma língua, cada um dos quais, ao crescer, se bipartia, fazendo dois povos que começavam a se diferenciar e logo se desconheciam

e se hostilizavam(p. 29).

1 como a 'Hy-Brasil' da mitologia gaélica irlandesa [nota da autora]

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Estas tribos referidas eram na sua maioria do tronco tupi, cerca de um milhão de índios. Elas se encontravam nos primeiros passos da revolução agrícola na escala da evolução cultural. Já conseguiam domesticar diversas plantas. Com o cultivo da terra garantiam a subsistência do ano inteiro. É importante lembrar que as aldeias possuíam uma estrutura igualitária de convivência. Mas, por colonização de suas terras, as tribos se chocavam em guerra umas com as outras.

Ao contrário do modelo constituído pelas tribos indígenas na ilha Brasil, os portugueses invasores possuíam relações sociais baseadas na estratificação das classes, tinham uma velha experiência como civilização urbana. Com eles veio a Igreja católica que exerceu uma grande influência no processo de formação sócio-cultural do povo brasileiro. Na visão de Ribeiro, a Igreja exerceu um forte poder de mando, influenciando na vida dos indígenas e negros. No contexto mundial Portugal entrava na disputa pelos novos mundos, animada pelas forças transformadoras da revolução mercantil. Esse complexo do poderio português vinha sendo ativado, nas últimas décadas, pelas energias transformadoras da revolução mercantil, fundada especialmente na nova tecnologia, concentrada na nau oceânica, com suas novas velas de mar alto, seu leme fixo, sua bússola, seu astrolábio e, sobretudo, seu conjunto de canhões de guerra.

Para o índio que passava a conviver com aquela situação nova não foi nada simples compreender o que representava aqueles acontecimentos novos. O fato é que deste choque de culturas, como quisemos tornar mais claro no primeiro capítulo, surgiram concepções que os índios estupefatos por certo tempo sustentaram, como a de que os recém-chegados eram deuses. Como sabemos, a grande decepção não demorou para acontecer. Os indígenas perceberam que os recém-chegados do mar não passavam de enganadores, mentirosos, lhes traziam pequenos utensílios e em troca lhes tiravam a alegria de viver, lhes enchiam de doenças que os dizimava aos milhares.

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5 PRINCIPAIS TESES DESENVOLVIDAS NA OBRA

Ribeiro defende que o que define um povo não é a demarcação territorial, mas sim um conjunto de características que faz dele um grupo identitário, diferenciando-o de outros grupos. As três matrizes étnicas que seriam as formadoras da identidade do povo brasileiro são o colonizador branco, (os portugueses), os índios e os negros africanos, que desde o início miscigenavam-se. Para o autor, a mestiçagem no Brasil teria ocorrido de diferentes formas. Uma delas seria o cunhadismo(prática indígena, para incorporar estranhos à sua comunidade, dando-lhes uma moça índia como mulher). Assim, estabeleciam-se laços que o aparentavam a todos os membros do grupo. Isso se alcançava graças ao sistema de parentesco classificatório dos índios, que relaciona, uns com os outros, todos os membros de um povo. E do qual o europeu lançou mão diversas vezes; embora rejeitasse a prole oriunda deste intercurso étnico; isso atirou o afro-brasileiro, o mameluco e o ‘brasilíndio’ em uma terra de niguém, uma “ninguendade, que os forçou a construírem uma nova identidade étnica para si e outros como eles.

6 REFLEXÃO CRÍTICA

Em uma primeira leitura, pode-se ter a impressão que a obra nada ou pouco diz que não tivesse sido dito antes. Mas após uma leitura mais atenta, é possível notar que o que Darcy Ribeiro busca é construir uma teoria geral, fundamentada tanto em sua própria vivência quanto em sua experiência histórica. As teorizações existentes são, em sua maioria, eurocêntricas demais e, por isso mesmo, impotentes para servir-nos de espelho. O passado (brasileiro e/ou latino americano), não se reflete no passado dos europeus, nosso presente não é, necessariamente, o passado deles, nem nosso futuro um futuro comum. Tendo como questão-guia “por que o Brasil ainda não deu certo?”. Então ele segue desconstruindo o ‘Mito das Três Raças’; demonstrando que por trás da história narrada pelos “colonizadores” há um lastro de sangue de índios e

africanos que cimentou o surgimento da população mestiça que se tornaria o povo brasileiro. Buscando nas entrelinhas dos discursos oficiais os fatos ocultados, implícitos.

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Ribeiro valoriza a cultura indígena e o papel do mameluco (mestiço de índio) na nossa formação étnica. A miscigenação faz surgir os brasilíndiosou mamelucos, um povo que não era índio e nem português, mas falava tupi e nheengatu e foram fundamentais, segundo o autor, na formação étnica do brasileiro e na ocupação e expansão territorial do país. Não obstante esta resenha detenha-se apenas nas matrizes étnicas formadoras da população brasileira, pode-se vislumbrar nas entrelinhas de algumas colocações do autor tanto certo ressentimento pela mácula existente no passado autóctone do Brasil, assim como um veio de esperança que percorre os trechos finais da primeira parte do livro e mantem-se no plano de fundo do restante da obra; forte o bastante para ser percebido em uma rápida leitura (da qual não podíamos furtar-nos se objetivávamos uma compreensão mais aclarada do objeto alvo desta resenha). Pela perspectiva cultural e antropológica, pode-se eduzir que o povo brasileiro está - ainda - em uma contenda para definir sua identidade como povo e como nação. O que, no atual estado de globalização, também pode ser observado em outras partes do mundo, fenômeno que de certo modo serve-se à guisa de explicação para alguns aspectos dos conflitos na Europa com os migrantes. E embora muitos preconceitos e ranços ainda existam e precisem ser desconstruídos, o que Darcy Ribeiro nos convida, no cerne de sua obra, é para pensarmos sobre as vantagens da mestiçagem e sua força motriz na geração da Etnia Brasil.

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