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RUY DUARTE DE CARVALHO CORPO

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i t cepsor t eR

1.exibição de produtos (livros, obras de arte, inventos técnicos, filmes, etc.) de um artista, grupo ou por ANA BIGOTTE VIEIRA
movimento de determinada época, sublinhando a sua evolução
Ana Bigotte Vieira.
2. relato de acontecimentos decorridos num certo período Doutoranda em Estudos Artísticos, Visiting
Scholar na NYU-TISCH entre 2009 e 2012.
Estudou História Moderna e Contemporânea no
Para começar bebe-se um café. ISCTE. Pósgraduação em Ciências da
Comunicação: “Cultura Contemporânea e Novas
Melhor, para começar combina-se beber um café e depois, já no local, fala-se Tecnologias” (UNL-FCSH). Dramaturgista e
investigadora, trabalhou com Gonçalo Amorim,
- do café,
Miguel Castro Caldas/Bruno Bravo, Manuel
- do dia, Henriques, Raquel Castro e Mariana Tengner
Barros. Traduziu Mark Ravenhill, Annibale
- do ano, Ruccello, Spiro Scimone, Pirandello e Giorgio
Agamben. Integra o grupo de Teoria e Estética
- do que pode ser, das Artes Performativas do CET (FLUL).

- do que é, Em 2010, recebeu o Dwight Conquergood
registration Award na Performance Studies
- do que podia ser,
international (PSi) #17, Utrecht. É co-curadora
- do que há-de ser, de Baldio, um espaço de investigação em
Estudos de Performance, apoiado pelo programa
- do que foi, de Encontros Regionais da PSi e co-editora da
revista Jogos Sem Fronteiras. Juntamente com
- disso tudo. Sandra Lang (CH) tem organizado uma série de
eventos discursivos e performativos em torno da
Se o café for dos bons, meia dúzia de coisas pode nascer, outra meia dúzia de coisas pode crescer,
relação entre arte e política (16Beaver /NYC,
mas há sempre a questão dos meios de produção. Como fazer? Com quê? O quê? Para quem? Com
Corner College/Zurich, entre outros).
que legitimidade? A partir de que posição?

Parece-me sintomático que a primeira acção de Raquel Castro e Mariana Tengner Barros tenha
tomado lugar na horizontal, com as duas deitadas em plena Rua Augusta, sob o lema de “Stop and
Think” – parar para pensar. Artigos relacionados

Dando corpo a uma proposição que tem tanto de imperativo (stop and think é uma ordem) como de 3º chamada - corpo - VIDA E MORTE
experiencial (elas literalmente pararam), adoptar a posição horizontal no meio da rua é Em pé de guerra: cidade e transumância
necessariamente colocar em causa o movimento geral, um certo ritmo de marcha, uma verticalidade O corpo que não nos pertence: corpo vivo,
dada por adquirida nas transacções do dia a dia, uma certa tirania do plano médio que vemos performance de desterritorialização e arte
diariamente nos debates televisivos e que nos faz crer que o sujeito da democracia é o homem
2ª chamada - corpo - IMAGENS E GEOGRAFIAS
branco, de meia idade, filmado da cintura para cima, peito para a frente e cabeça erguida: falador,
razoável. Um homem com um corpo cortado ao meio (sempre da cintura para cima), com esse meio On Safari
corpo também cortado ao meio (da parte de cima apenas se vê a parte frontal), um homem com
quarto de corpo, em suma – corpo esse a partir do qual realiza a actividade suprema da democracia:
falar. E todos os outros corpos se constituem como irrepresentáveis porque irresponsáveis, ou
Artigos do autor
irresponsáveis porque irrepresentáveis – o modo como a comunicação social inicialmente não soube
o que fazer ou como apresentar os milhares de corpos deitados, sentados, a comer ou a dormir De como se constrói um Europeu
presentes nos acampamentos de Occupy Wall Street, Plaza del Sol ou Rossio é disso revelador, e o
De como se constrói um imigrante
modo como ainda hoje continuam a não ser entendidos como sujeitos políticos, assustador.
Desta nossa-de-todos Lisboa, sobre os
Parar para pensar, portanto – mas faze-lo sem concessões, num espaço público que nos pertence de espectáculos de Outras Lisboas
pleno direito: em plena Rua Augusta, de calções e ténis, com o à vontade e de quem não esconde Estrangeiro é a tua avó! - entrevista sobre teatro
nem mostra a feminilidade dos seus corpos precários colocados numa posição impossível à partida, no Conselho Português de Refugiados a Miguel
a horizontal. Castro Caldas
Fadaiat

justamente. não ter tempo parece ser característica de quem não tem nada. enquanto crítica a uma instituição onde não é fácil ter lugar (e relembremos que em 2012. este sair para a rua e esta opção pela performance-art são disso um exemplo. demasiado codificados para abarcar certas práticas mais experimentais. tendo presente a posição impossível em que estes corpos (os da Raquel Castro e da Mariana Tengner Barros mas também os nossos. em nós – o que. por outro lado pode dar lugar a gestos do-it-yourself potencialmente libertadores. à partida. com o centro destinado a “alugueres de curta duração”. Fadaiat jogos sem fronteiras Onde está Suleiman? Rabih Mroué. ano em que grande parte destas performances foram feitas. 2013) se encontram. I wanna be happy here. a um tempo só. falantes de inglês. elas incorporam. uma cidade de Lisboa feita para inglês ver de que é exemplo a série “Bronzeado” onde Mariana e Raquel. É esta Lisboa wannabe cidade criativa. os milhares de turistas que diariamente estão delighted with Lisbon. Como se torna explícito no vídeo “Elevator Pitch”. Tabuleiro da Ponte. E é disso que se trata I wanna be happy here: assim. onde no lugar de Ministérios há pubs chamados “Ministério” e esplanadas demasiado caras para portugueses se sentarem. os meios de produção estão connosco. Quando menos se espera. I wanna be happy here. I wanna be happy here. No entanto. ou as cantilemas que repetimos para nós próprios ao avançarmos no escuro. Da pobreza não das gentes. Se fazer esperar é apanágio do poder. I wanna be happy here. nunca ninguém se encontra realmente despossuído de tudo. mas em pior. Disto é igualmente testemunho grande parte da série para youtube “casting” rodada em interiores. que Rach e Mama espelham. Centro de Emprego. . traçando-lhes os contornos e as limitações. I wanna be happy here repetem Rach e Mama até à exaustão. mas da posição impossível em que as suas/nossas vidas decorrem. se confundem com um Terreiro do Paço brand new. Looking for a missing employee Passa a bloody bola! “A zona raiana baralha as pessoas e os telemóveis” Mas voltemos à mesa do café e à questão dos meios de produção. Como os seus infindáveis álbuns de fotografias disponíveis no picasa nos dão a entender. os apoios pontuais não abriram). I wanna be happy here. agora. I wanna be happy here. e o trabalho de Mariana Tengner Barros e Raquel Castro provam-no bem. Eles constituem-se. Finanças. I wanna be happy here. I wanna be happy here. devolvendo-nos a nós. se está na bicha. Personagens excêntricas. Se as ideias são a principal matéria prima de um trabalho cada vez mais categorizado como imaterial. devolveu às duas. numa espécie de transe invocativo que faz lembrar o pensamento mágico das crianças. IC19… inumeráveis são os lugares onde se faz fila. in a refashioned way. e onde os lugares que existem parecem estar. agora porto de cruzeiros de 15 andares e objecto de especulação imobiliária. esta Lisboa em processo de gentrificação a todo o gás. O sair para a rua de que a acção “Stop and Think” foi o início. em inglês e tudo. nos fala também a série “Fila/Bicha”. a questão dos meios de produção reaparece em toda a sua força e devolve-nos à mesa do café. em Lisboa. excedendo-os. Supermercado. Loja do Cidadão. Lisbon não é Lisboa e o Mouraria Fusion district parece a secção de comidas da feira de artesanato da FIL nos anos 90. se por um lado acarreta consigo novas e menos transparentes questões em termos de direitos laborais (e pense-se no grau de atomização que a expressão “empresário de si próprio” acarreta). único momento onde a dupla desmonta a sua relação com a instituição arte e o mercado de trabalho.

fascinadas com o que a auto imolação do tunisino Mohamed Boazizi provocara no mundo e sentindo-se absolutamente encravadas num Portugal cada vez mais apertado pela austeridade. que produzem documentação. Raquel Castro e Mariana Tengner Barros. as fotos são pobres e a imagem não se presta a nenhuma leitura particular a não ser a de nos dar a ver um presente algures entre o urbano e o suburbano – sendo aí que reside a sua principal força. sendo que a primeira delas foi parar para pensar (“Stop and Think”) e a terceira. Agora. Mas corre mal. portanto. mas no presente. um encontro num café. o fumo não rebenta a tempo. para começar. imaginam a sua obra e vida a ser pensada a partir do futuro e constroem uma ficção de auto-imolação. Por isso a visitam: não para nela se inserirem. Mariana Silva. o olhar de fora sem a qual a dupla não poderia ser apercebida enquanto tal. uma tentativa de produzir imagens de uma auto-imolação (“Rocket Man”) da qual o fascinante seria justamente a capacidade de gerar mais e mais acções. E é por isso – porque o presente é composto com o passado de que dispomos – que Raquel Castro e Mariana Tengner Barros se interessam pela tão pouco conhecida história da performance art em Portugal. absolutamente falhada. Em “Rocket Man” o que parece estar em causa é um fascínio quase infantil por aquilo a que E.Thompson chamou a “economia moral da multidão”. Nisto constitui-se como a terceira pessoa. . Acções que levam a acções.P. Porque – e esta retrospectiva nisso é claríssima – não é no passado nem no futuro que estas ficções se jogam. dotando-se assim de um qualquer glamour de que este tipo de práticas se revestiria. a que se seguem uma série de acções que levam a mais acções. a fotógrafa. é aqui uma figura essencial. o modo como certas coisas as pessoas não aguentam: há qualquer coisa (uma “economia moral”) que as leva a revoltarem-se. Ela acompanha Raquel Castro e Mariana Tengner Barros nas suas saídas à rua e serve- lhes tanto de testemunha como de protecção. acções de resistência. no presente.Temos. presença fundamental para enfrentarem uma Lisboa de rua de trato nem sempre fácil. É a partir do presente que elas devem ser entendidas. mas para a reivindicarem como nossa e dela extraírem uma potência de agir que nos sirva.

8.14 e 15. minam a cidade.12.fotografias de Mariana Silva Mariana Tengner Barros (9 de Dezembro de 1982) e Raquel Castro (9 de Dezembro de 1981) apresentam no Negócio/ZDB a sua primeira criação colectiva. sempre às 21h30. Uma Retrospectiva é uma exposição-performance que estreia/inaugura no dia 5 de Junho no Negócio/ZDB. lançam os foguetes e apanham as canas. corpo.7. Unidas por uma necessidade de resistência contra o desencantamento fulminante. restrospectiva Facebook sobre nós | ficha técnica | participar | subscrever | publicidade | ligações Publicado sob uma Licença Creative Commons . Mariana e Raquel assumem-se Wannabes™. por Ana Bigotte Vieira Corpo | 5 Junho 2013 | arte performativa.13. e que tem apresentações a 6. dão o corpo ao manifesto.