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O materialismo espiritual.

As pessoas costumam começar um trabalho espiritual com idéias pré-


concebidas sobre o que irão aprender. Embora as aspirações de cada um, ao
chegar à Nova Acrópole, sejam sinceras, trazem consigo uma boa dose de
confusão, incompreensão e de esperanças.
A evolução correta, no caminho espiritual, é penosa e sutil. Podemos nos
iludir acreditando que estamos evoluindo espiritualmente, quando, na
realidade, estamos apenas utilizando técnicas espirituais para reforçar o
ego. Chamamos a isso: “materialismo espiritual”, que só faz reforçar a
nossa materialidade.
O materialismo não é somente crer na matéria. Se fosse apenas isso, não
seria difícil desfazer o problema, porém, o materialismo esconde-se sob as
mais diversas formas, prejudicando o desenvolvimento do Ser interior,
impedindo-o de transcender. Produzimos auto-ilusões que ocultam o que
somos, mas agradam ao ego, do tipo: “Eu sou bom” ou “- Oh! como eu
sofro! e que são exemplos de máscaras que usamos em sociedade para
sermos aceitos.
A alma, desconhecendo-se, tem medo. Quer as garantias do já conhecido.
Não quer surpresas, com as quais talvez não saiba lidar, preferindo o que
lhe é familiar. É o engano no qual todos nós caímos: queremos nos
assegurar, de antemão, do êxito, qualquer que seja o ensinamento que
estamos buscando, e ao fazermos isso, caímos no reducionismo ideológico
e transformamos a doutrina em utopia, mesmo a mais espiritual.
Quando se quer criar uma fraternidade, para trabalhar com uma
determinada quantidade de pessoas, este é o trabalho essencial: somos
obrigados a ir além desses disfarces, além dessas auto-ilusões, porque, se
não for assim, as relações estabelecidas com os demais nunca serão
verdadeiras. Se forem baseadas nas aparências, estarão distantes de tudo o
que é verdadeiro e o Eu necessita de coisas similares para consolidar-se,
para tornar-se forte.
As ideologias burguesas, que surgiram quando o sistema tradicional da
sociedade foi destruído, são materialistas, em qualquer parte do mundo
onde estejam sendo seguidas e são ideologias reducionistas, que necessitam
de formas muito restritas: “Faça isto ou aquilo”, “não saia às tantas horas”,
etc.
O ego, necessitando sentir-se seguro, lança mão de qualquer ferramenta ao
seu alcance, seja religiosa, espiritual ou científica, contanto que lhe
preencha a carência. Essa mentalidade, que procura fazer apenas o que é
socialmente correto, não ama o risco nem o sacrifício.
A evolução desse tipo de cultura nos últimos séculos - a do pequeno eu
auto-ilusório - engendrou a civilização na qual vivemos e provocou as
dificuldades que todos temos para sair da auto-ilusão e ir mais longe, na
busca espiritual verdadeira.
Na literatura, encontramos pouquíssimos textos que falem em desapego e
combate interior. O que oferecem são receitas supostamente mágicas, para
o caminho da felicidade, caminho esse que o homem vem procurando
desde tempos imemoriais, navegando sempre na superficialidade, pois é
muito árdua a viagem ao seu Ser interior.
O ego é vencedor no século XXI, pois está possuído pela filosofia burguesa
que neutraliza o enfrentamento com a realidade.
Será possível, para o homem moderno, levar a cabo uma transformação
consciente, apesar da humanidade nunca ter estado tão desequilibrada
como hoje?
O dever do filósofo é desembaraçar o caminho do que se interpõe entre a
luz e nós.
Resumo de artigo de Fernando Schwartz, publicado na Revista nº 9 em
1988.

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Quantos minutos tem suas horas?

Pensar em nossas experiências, leva-nos a perguntar onde e quando


ocorreram. Assim, nada do que acontece pode ser avaliado fora do tempo,
pois o tempo é o veículo pelo qual experimentamos o mundo. Como
estamos condicionados a ele, muitas vezes o tempo assume para nós o
papel de um tirano que nos aprisiona. Como podemos modificar essa
sensação?
Algo importante a entender é que vivemos não somente numa dimensão
física, mas também psicológica e espiritual. O tempo, que comumente
falamos, é físico, mensurável em horas e minutos, mas assim como nossos
aspectos psicológicos e espirituais diferem do físico, também o tempo age
de forma distinta nessas dimensões, basta fazer algo que nos agrada, para
que várias horas passem como um único instante e, quando em situações
desagradáveis, o ‘tempo’, não passa. Medimos dessa forma o tempo numa
dimensão psicológica, que transcende o material e suas limitações.
Um outro aspecto ocorre quando adquirimos algum conhecimento: muitas
vezes precisamos de pouco tempo para atesourá-lo, mas por sua vez, a
humanidade precisou de incontáveis experiências ao longo de sua história
para alcançá-lo e colocá-lo à disposição, para ser adquirido num mínimo
tempo mental. As próprias experiências físicas, que levaram ao
aprendizado, se resumem na percepção mental, que temporalmente é
mínima.
Os sábios do antigo Egito já conheciam esses valores e o aplicavam, o que
talvez possa explicar em parte a colossal longevidade dessa civilização.
Dessa forma, o homem pode ser um transformador e acelerador de
processos. Podemos ter um certo domínio sobre o tempo, desde que
consigamos modificar nossas concepções sobre o mundo e sobre nós
mesmos, entender que as dimensões mais apropriadas do ente humano
estão além do que vemos e tocamos. Quanto maior atenção e cuidado
tivermos com nossas dimensões mais sutis, mais velozes seremos. Assim, o
tempo físico mudará, pois 60 minutos físicos podem estar repletos de
experiências que enriquecem e fortalecem nosso ser interno. O oposto, nos
leva a perder as oportunidades de vivência pelas quais passamos num
determinado tempo, por isso precisaremos de mais tempo para viver as
mesmas coisas e percebê-las.
Nossas horas não dependeriam de cronômetros, pois nossa vida não estaria
focada nem limitada no tempo.
Baseado no artigo de Lidia Peres Lopes publicado na revista Nova
Acrópole número 19. Resumido e adaptado por Rogério José Gonçalves
(diretor da escola Nova Acrópole filial Andrômeda – São José dos
Campos).

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A filosofia de Carlos Castañeda

“Por mais aterrador que seja o conhecimento, é mais terrível ainda pensar
no homem sem conhecimento”.

Carlos Castañeda, escreveu sete livros até o ano de 1987, já lançados em


vários países e lidos por milhares de pessoas. No Brasil estes livros foram
lançados pela Editora Record, conforme esta ordem : A Erva do Diabo
(1968), Uma Estranha Realidade (1971), Viagem a Ixtlan (1972), Porta
para o Infinito (1974), O Segundo Círculo do Poder (1977), O Presente da
Águia (1981) e O Fogo Interior (1984).
Para maior compreensão é interessante lê-los na ordem acima, pois as
experiências transmitidas evoluem de livro para livro. Segundo Castañeda,
suas experiências foram adquiridas quando ele entrou em contato com Don
Juan Matus, feiticeiro da tribo dos Yaquis, em Sonora, norte do México.
Seu aprendizado iniciou-se em 1960 quando, na condição de antropólogo,
foi estudar ervas medicinais entre os índios. Castañeda, abalado pelas
experiências que Don Juan lhe propunha, abandona o aprendizado no ano
de 1965, mas retorna em 1968 e o conclui em 1971.
Pouco se sabe de sua vida pessoal e, segundo Don Juan, seu Mestre, a
história pessoal de um homem que trilha o caminho do conhecimento deve
ser apagada, porque através dela as pessoas o controlam, tornando rígido o
seu comportamento.
Quanto à sua obra, tem-se questionado se realmente baseia-se em fatos
verídicos ou se é fruto de sua imaginação, mas, de qualquer maneira,
apresenta muitos aspectos positivos, despertando em muitas pessoas o
interesse pela investigação.
LIBERDADE TOTAL SIGNIFICA CONSCIÊNCIA TOTAL

Castañeda aprende com seu Mestre que a busca da liberdade é o verdadeiro


sentido da vida de um homem e que somente é livre aquele que busca o
conhecimento.
Somente o homem consciente é capaz de discernir entre o que é certo e o
que é errado, libertando-se do engano. “Liberdade total significa
consciência total”. A sua evolução, sentido da sua vida, significa a
evolução da sua consciência. O conhecimento resulta em poder. “Saber é
poder”, mas todo poder implica em compromisso. A ligação entre esses
elementos - liberdade, conhecimento, poder e compromisso é um dos
pontos fundamentais da obra de Castañeda.

QUANDO O DISCÍPULO ESTÁ PREPARADO, O MESTRE APARECE

Para Don Juan, o conhecimento não é uma dádiva do céu, nem é algo que
se adquire sem nenhum esforço. Pelo contrário, requer muito esforço por
parte do aprendiz e a presença de um Mestre, uma fonte viva que o
transmita.
O aprendiz não é selecionado ao acaso, a condição para o homem se tornar
um aprendiz é que já tenha desenvolvido um certo “poder pessoal” ou seja,
que tenha um interesse pelo conhecimento e o esforço desenvolvido em
função desse interesse, são os elementos que o conduzirão ao seu Mestre. O
conhecimento ainda é a melhor coisa que o homem pode almejar.

Síntese do artigo homônimo, autor Luís Carlos Marques Fonseca, revista


N.A. nº. 1 - 1987

EXISTEM VÁRIAS POSSIBILIDADES DE VER O MUNDO

Segundo Don Juan, a maneira como o homem comum vê o mundo resulta


de um aprendizado que se inicia na infância, quando a consciência começa
a se desenvolver. A princípio, a criança vê o mundo de maneira caótica.
Seus pais e familiares, o ajudam a organizar seu mundo, mas, sem
perceber, ela fica prisioneira desse mundo esquecendo-se de que foi ela
mesma que o criou e que existem outras possibilidades.
O primeiro passo a ser dado pelo homem que busca o conhecimento é
compreender que a visão que ele tem do mundo não é definitiva. Existem
outras possibilidades e outros mundos possíveis de serem utilizados pelos
homens, desde que respeitadas as leis que os constituem.
Sendo Don Juan um índio, conhece e sabe utilizar o mundo dos feiticeiros e
ensina a Castañeda essa forma diferente de ver e utilizar o mundo e o
adverte para não ficar preso nele, pois seria pior ainda do que ficar preso ao
mundo dos homens comuns.
Don Juan acredita que quando o homem conhece uma outra visão do
mundo, diferente da comum, fica mais acessível a outras possibilidades,
pois o desenvolvimento da consciência consiste em conhecer e saber
utilizar através das leis específicas (ação e reação), a maior quantidade de
mundos possíveis...
Para Don Juan, o homem livre é aquele que, conhecendo vários mundos,
não limita seu Ser a nenhum deles, embora utilize todos.

SÓ COMO GUERREIRO É QUE O HOMEM PODE SOBREVIVER NO


CAMINHO DO CONHECIMENTO

Para o homem suportar as etapas do aprendizado é necessário adquirir,


através de muita disciplina de vida, total controle de si mesmo (físico,
emocional e mental). Quando adquire o conhecimento e o autocontrole,
torna-se impecável, o que significa a máxima eficiência em qualquer ação
que desempenhe. O homem impecável é considerado um guerreiro.
As qualidades básicas do guerreiro são: o autocontrole, a disciplina, a
paciência, a vontade, a humildade, a impecabilidade, o desprendimento, o
esforço contínuo (ação) e a intenção inflexível.
Os principais inimigos do guerreiro são a indolência, a preguiça e a
vaidade.
Os guerreiros preparam-se para ser conscientes e a consciência plena só
chega quando não há mais vaidade. “Quando são nada, tornam-se tudo”.
Uma sociedade constituída por indivíduos cujo principal objetivo da vida é
a busca do conhecimento, tem muito mais condição de oferecer justiça
social do que uma sociedade formada por pessoas em disputa constante
pela posse de bens materiais.
A busca do conhecimento gera sabedoria, a busca de bens materiais gera
disputa, conflitos, guerras, corrupção, injustiça social.
Cremos que na obra de Carlos Castañeda existem elementos essenciais para
despertar o interesse do homem pelo conhecimento, e assim, quem sabe um
dia, a humanidade possa vir a ser dirigida por sábios.

Síntese do artigo homônimo, autor Luís Carlos Marques Fonseca, revista


N.A. nº. 1 - 1987

http://www.nova-acropole.org.br/filosofia/filosofos.html