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O discurso dos direitos humanos e a governança do sofrimento social

Edson Teles 1

O século XX assistiu ao conflito de um movimento contraditório nas várias encenações do discurso dos direitos humanos. A efetivação dos direitos em políticas institucionais e nas normas do direito internacional caminhou conjuntamente ao uso indiscriminado da violência por parte dos estados. Foi o século dos genocídios, da limpeza étnica, do Holocausto e do desaparecimento forçado. Os estados envolvidos se caracterizaram pela sistemática violação aos direitos de seus cidadãos por meio de um repressivo aparato policial-militar 2 .

Diante deste contexto, as democracias nascidas nas últimas décadas surgiram como herdeiras de regimes autoritários ou totalitários. Assim foi no Leste europeu após a queda dos governos pró-soviéticos, e, igualmente, com as poucas democracias substitutas do colonialismo tardio na Ásia e África. Já na América Latina, o fim das ditaduras militares foi o momento originário da política democrática. A marca do novo regime político é a promessa de desfazer as injustiças do passado. Em sociedades carentes de vários direitos (saúde, alimentação digna, educação de qualidade, água, saneamento etc.) e repletas de vítimas das mais variadas violências, especialmente por parte do Estado, a reflexão filosófica coloca em questão a ação política. As sociedades resultantes de passado violento se vêem com o problema de como conciliar o passado doloroso com um presente democrático, administrando os conflitos que não se encerraram com a mera passagem institucional de um governo de exceção para um democrático.

O estado democrático de direito, fundamentado na normatização das relações sociais, tende a tudo incluir nas regras. Contudo, há na ação humana a marca da singularidade do sujeito, a expressão de discursos e de escolhas próprias que impedem a absoluta previsão de seu agir, ou ainda, faz com que não seja possível enquadrá-la por completo em uma regularidade. O aspecto de imprevisibilidade da política é justamente o que não poderá ser incluído no ordenamento. Seria como se houvesse algo do estado de natureza incluído no contrato social que se encontra, ao mesmo tempo, excluído das normas. E a forma como os ordenamentos do estado moderno trataram esse problema lógico-jurídico foi através da autorização ao soberano para que ele decidisse sobre a necessidade de acionar, sempre que algo não previsto nas leis ocorresse, medidas de exceção.

1 Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de Filosofia Política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Organizou, com Vladimir Safatle, o livro “O que resta da ditadura: a exceção brasileira” (São Paulo: Boitempo, 2010) e, com Cecília MacDowell Santos e Janaína de Almeida Teles, o livro “Desarquivando a ditadura: memória e justiça no Brasil” (São Paulo: Hucitec, 2009). Email: edsonteles@gmail.com. 2 Cf. Costas Douzinas. O triunfo dos direitos humanos. In: O fim dos direitos humanos.

O conflito entre o ordenamento jurídico e a imprevisibilidade da ação política nos leva a refletir sobre a legitimação do agir fundamentado no discurso dos direitos humanos. Ao mesmo tempo em que tal discurso nos fornece meios de limitar a violência por parte dos Estados, também funciona como autorização para que o poder soberano governe através de medidas de exceção, legitimando, em última instância, a violação dos mesmos direitos que ordenamento deveria assegurar.

Exceção como paradigma da política

No século XX, vivemos o momento no qual o estado de exceção foi transformado em regra, especialmente pelos regimes totalitários, instaurando a repressão legalizada e possibilitando a eliminação biológica de adversários políticos e grupos identitários. Os anos de Guerra Fria e subsequentes incrementaram a substituição das declarações de estados de exceção por doutrinas de segurança nacional, fazendo da exceção uma técnica de governo. Desde então, a prática de um estado de emergência constante tornou-se paradigma para a governança 3 e para a ação política. A medida de exceção não é apenas um direito especial do Estado, mas um poder do soberano de suspender o próprio ordenamento.

Giorgio Agamben em sua trilogia Homo Sacer (1995, BR 2002 4 ), O que resta de Auschwitz (1998, BR 2008) e Estado de exceção (2003, BR 2004) pesquisa o “oculto ponto de interseção entre o modelo jurídico-institucional e o modelo biopolítico do poder”, tendo em vista que a implicação da “vida nua na esfera política constitui o núcleo originário – ainda que encoberto – do poder soberano” 5 . O autor pesquisou a estrutura da exceção, da exclusão inclusiva da vida na política.

Para os gregos havia duas palavras para exprimir o que dizemos com a palavra vida:

zoé, a condição de vivente de todos os seres vivos, homens, animais ou deuses; e, bíos, o modo de viver de um indivíduo ou de um grupo. De modo distinto à vida qualificada pelo convívio público na pólis, os aspectos de reprodução e subsistência caracterizavam a vida natural e mantinham-se dentro do âmbito privado do oîkos, a casa 6 . No entanto, no contemporâneo, alguns autores indicaram o movimento de inclusão do biológico nos assuntos da esfera pública.

Michel Foucault definiu a política moderna como a expansão da biopolítica, por meio do controle disciplinar levado a efeito pelas tecnologias dos “corpos dóceis”, uma espécie de animalização do homem em sociedade 7 . Antes dele, Hannah Arendt também havia apontado a crescente interferência da vida na política. A implicação da inclusão da vida na ordem é a indeterminação das distinções entre as esferas públicas e privadas ou, como argumentou Hannah Arendt, a confusão entre o político e o biológico 8 .

3 Escolhemos o termo governança porque diz respeito a meios e processos utilizados para produzir resultados eficazes no trato das necessidades básicas da população, o que, nos parece, marca a ação política democrática. Para James Rosenau, “governança é um fenômeno mais amplo que governo; abrange as instituições governamentais, mas implica também mecanismos informais, de caráter não-governamental, que fazem com que as pessoas e as organizações dentro da sua área de atuação tenham uma conduta determinada, satisfaçam suas necessidades e respondam às suas demandas”. Governança, ordem e transformação na política mundial, p.

15-16.

4 A primeira data refere-se ao ano de lançamento da obra e a segunda a sua publicação no Brasil.

5 G. Agamben. Homo Sacer, p. 14.

6 Aristóteles. A política, 1252a.

7 Cf. M. Foucault. Vigiar e Punir.

8 H. Arendt. A condição humana. Capítulo II, As esferas pública e privada, pp. 31-89.

O que melhor caracteriza a política moderna, para Giorgio Agamben, não é o duplo movimento de inclusão/exclusão da vida nos cálculos do Estado, mas o fato de que quanto mais a exceção se torna a regra, mais a vida toma o mesmo lugar da política e “exclusão e inclusão, externo e interno, bíos e zoé, direito e fato entram em uma zona de irredutível indistinção” 9 . O decisivo para a compreensão do moderno não é o fato de a exceção caracterizar-se como regra, mas a vida nua encontrar-se na vida política.

No estado moderno, e de acordo com seus ordenamentos nacionais, o soberano é a figura máxima a regular a vida e a política. Sua legitimação ocorre por meio da consideração da oposição entre natureza e lei. Platão já havia abordado o conflito entre phýsis e nómos, no Livro X das Leis, procurando se contrapor a esta oposição e construindo a ideia da prevalência das coisas que podemos fazer em relação às coisas que nos são dadas a conhecer pela natureza. A oposição entre natureza e lei voltará com força na filosofia política do século XVII, quando Hobbes mostra o conflito entre natureza e commonwealth, apontando na identificação da natureza com a violência a justificação do poder absoluto do soberano 10 .

Na teoria política de Hobbes não ocorre uma sociabilidade natural entre os homens; antes disto, há uma desconfiança que os fazem dedicarem-se mais à dominação do que à

sociedade civil. “O direito de natureza (

próprio poder (

ou autoriza o direito, configura-se pela ausência de obstáculos para a necessária conservação da vida. Nesta situação, o medo da morte violenta relaciona-se com a condição vulnerável do homem natural, pondo em risco qualquer tentativa de sociabilidade igualitária ou justa. É a partir do desejo e da necessidade de conservar a vida que as leis de natureza cedem e obrigam, por um ato da razão, o direito positivo. No gozo da liberdade jurídica, construção artificial do consentimento ao contrato, o medo da morte e da violência leva à transferência do poder natural para o soberano, quem agora poderá fazer o necessário para a proteção da vida.

é a liberdade que cada homem possui de usar seu de sua vida” 11 . A liberdade natural, o que legitima

)

)

)

para a preservação (

A democracia moderna é marcada pela aporia, segundo Agamben, de buscar a emancipação do homem por meio da vida nua – o mesmo elemento que implica sua

submissão. Por um lado, “o poder estatal faz do homem enquanto vivente o próprio objeto” e, por outro, “o homem vivente se apresenta não mais como objeto, mas como sujeito do poder político”. O fundamento oculto da política moderna, a soberania, desloca-se de seu lugar central nas instituições do Estado e libera-se na cidade, tornando-se simultaneamente “o

ponto comum tanto da organização do poder estatal

sujeito e o objeto do ordenamento ( quanto da emancipação dele” 12 .

),

Um problema lógico-jurídico

O direito natural, fonte do ordenamento da sociedade civil, no estado moderno, deixa de se derivar do kósmos, ou do divino, ou da república ideal, como na antiguidade e no medievo, para ter como origem a natureza humana. O sujeito é colocado no centro da nova ordem social. A força do acordo consentido via contrato encontra-se na violência existente até a origem do pacto e na força dispensada na preservação da vida. Ainda que a subjetividade individual do homem em natureza tenha resultado na lei civil, a partir de sua

9 G. Agamben. Estado de exceção, p. 16.

10 Cf. T. Hobbes. Leviatã, cap. XIV.

11 Idem, ibidem. Cap. XIV, p. 78.

12 G. Agamben. Homo Sacer, p. 17.

institucionalização consentida, a decisão sobre a necessidade de agir ou não para a proteção

da vida passa a ser uma potência restrita ao poder soberano 13 . Sendo o soberano o único

dotado de poder sobre a vida e a morte e dispondo do uso legítimo da violência, carrega em si o estado de natureza e a sociedade, em um lugar indefinido entre violência e direito.

O movimento topológico das categorias formadoras da esfera pública coincide com o nascimento da democracia moderna e a transformação da vida de cada um em fator político.

A questão topológica apresentada pela ativação do estado de exceção, na qual há uma

indefinição sobre a localização do soberano, dentro ou fora da lei, remete a um aspecto

lógico-jurídico 14 . O que está fora das normas são os atos não previstos pelo ordenamento, mas nele incluídos via acionamento do estado de exceção. Este Estado tem por origem a decisão

do soberano sobre o caráter emergencial ou de necessidade maior de determinada situação,

uma raison d’État, e, com isto, deve seguir a regra autorizando a suspensão do ordenamento, ou de parte dele, até que as condições causadoras da decisão sejam anuladas. Uma constituição pode, no máximo, indicar quem vai agir ou sob qual procedimento em caso de necessidade, pois somente podem ser incluídas em um ordenamento as repetições, as regularidades 15 . Entretanto, o soberano não age nos casos normais, no homogêneo e universal, incluídos nas regras; mas sim no limite, no que foi excluído do ordenamento e, ao mesmo tempo, permanece sob a forma da decisão sobre um estado de necessidade.

O caso excepcional, o caso não descrito na ordem jurídica vigente pode ser, no máximo, caracterizado como caso de extrema necessidade, como risco para a existência do Estado ou similar, mas não ser descrito como um pressuposto legal 16 .

O aparente caráter objetivo da necessidade logo se transforma em juízo subjetivo e relativo aos interesses pretendidos. O soberano será o autor do juízo que irá definir qual é a situação emergencial oportuna para a decisão sobre o estado de exceção. O sujeito da soberania decide sobre aquilo que pertence ou não ao direito: “não só a necessidade se reduz, em última instância, a uma decisão, como também aquilo sobre o que a lei decide é, na verdade, algo indecidível de fato e de direito” 17 . A necessidade, expressa no adágio da literatura jurídica necessitas legem non habet (“a necessidade não tem lei”), torna lícito o ilícito ao excluir do ordenamento um caso particular e suspender a aplicação da lei 18 . O estado de necessidade, ou de exceção, é um espaço vazio de direitos, mas aparentemente tão essencial à ordem jurídica quanto o direito.

13 T. Hobbes. Leviatã, Cap. XVII, pp. 105-6.

14 C. Schmitt. Teologia política, p. 7. “O fato de o estado de exceção ser adequado, em sentido eminente, para a definição jurídica de soberania, possui um motivo sistemático, lógico-jurídico”.

15 É o caso da Constituição brasileira de 1988, ao indicar em seu artigo 142 que as “Forças Armadas destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”, sem, no entanto, indicar qual é a situação em que a ordem se encontra em risco.

16 C. Schmitt. Op. cit., p. 8.

17 G. Agamben. Homo Sacer, p. 47.

18 É o caso do Homo sacer, figura do direito romano arcaico que primeiro absorveu a vida humana. Sua morte era autorizada ao se descriminalizar quem o matasse. Contudo, este que poderia ser morto por qualquer um, não poderia ser morto pelos procedimentos da lei. A sacralidade da figura sacra está no impedimento de seu sacrifício e na impunidade de sua morte. Tal como a figura do soberano aplica o Estado de exceção por meio do direito, ou de sua retirada do meio, também o Homo Sacer se relacionava com o sagrado através de sua condição insacrificável e com a comunidade na forma de sua matabilidade. O mais marcante da sacralidade do Homo Sacer era a sua exposição à morte, indefeso diante da violência constituinte de sua condição.

Giorgio Agamben, citando Carl Schmitt, lembra que este havia definido o soberano como “aquele que decide de modo definitivo se este estado de normalidade reina de fato” 19 . O ordenamento jurídico é precedido por uma ordem e demanda o seu estabelecimento. Se eventualmente a ordem sofrer alterações ou perturbações caberá ao soberano o julgamento sobre as condições de anormalidade. E, também, a decisão sobre o estado de exceção, sobre o que está excluído do ordenamento; ou incluído por meio da suspensão das leis.

A normalidade é tudo aquilo que foi possível incluir no contrato, nas leis civis. Entretanto, a ação humana comporta, conforme vários filósofos já argumentaram, um caráter contingencial que impede a previsão de seus rumos. Há, para Hannah Arendt, duas características fundamentais da ação. Ela é irremediável, já que uma vez realizada não há mais como desfazê-la e suas consequências podem perdurar por longo tempo. Por outro lado, a ação é também imprevisível, pois resulta da relação social entre sujeitos singulares e discursos dissonantes e, por mais que se criem modos de estabilizar as profundas diferenças – como, por exemplo, as leis –, não podemos predizer o ato 20 . Será justamente o caráter contingencial da ação humana que não poderá ser incluído no ordenamento.

A vigência da lei sem sua aplicação

A situação gerada pela exceção não se classifica nem como de fato, nem como de direito. Está excluída das normas jurídicas, mas não é somente um fato, pois se origina no direito. A figura do soberano não atua para controlar o grau ou as características da exceção, mas para criar e determinar o momento adequado à ação das leis. Portanto, o soberano não se restringe a definir o que está dentro ou fora da normalidade, mas estabelece o limiar entre uma situação e outra, entre o interno e o externo, situando-se “naquelas complexas relações topológicas que tornam possível a validade do ordenamento” 21 . O limite no qual se dá a indiferença entre externo e interno, exclusão e inclusão, nómos e phýsis é sempre renovado nas decisões do soberano, fato que reafirma um indecidível. Poderíamos dizer que seja a política aquilo que não pode ser nomeado, incluído, localizado. Ou seja, o que encontra-se dentro e fora do ordenamento é a ação que demanda a existência de uma ordem, de leis e instituições garantidoras da existência de uma esfera pública, mas que ocorre de modo autônomo a esta na medida em que mobiliza as singularidades e as subjetividades sem localização definível, seja público ou privado, dentro ou fora.

Para Agamben, “o estado de exceção não é nem exterior nem interior ao ordenamento jurídico e o problema de sua definição diz respeito a um patamar, ou a uma zona de indiferença, em que dentro e fora não se excluem, mas se indeterminam” 22 . Um ato jurídico que surge exatamente no momento em que a norma é suspensa, sem, contudo, deixar de estar em vigência. Tal potência, ou seja, a possibilidade de exceder o direito sem dele sair, insere-se na idéia da “força de lei” – a vigência da lei sem sua aplicação. Seguindo a certa tradição do direito romano, a “força de lei” tem o sentido geral de capacidade e eficácia de obrigar:

O estado de exceção é um espaço anômico onde o que está em jogo é uma força da lei sem lei. Tal força de lei, em que potência e ato estão separados

19 Idem, ibidem, p. 24. A frase escrita por Schmitt foi: “soberano é quem decide sobre o estado de exceção” (C. Schmitt. Op. cit., 7).

20 H. Arendt. A condição humana, pp. 248-59.

21 G. Agamben. Homo Sacer, p. 26.

22 Idem, ibidem, p. 39.

de modo radical, é certamente algo como um elemento místico, ou melhor, uma fictio por meio da qual o direito busca se atribuir sua própria anomia 23 .

Na aplicação da exceção não ocorre apenas uma interrupção na administração da justiça, mas desaplica-se o próprio direito – como indica o termo jurídico do direito romano iustitium (interrupção ou suspensão do direito). Em situações nas quais não se pudesse mais garantir o bem comum e o bom ordenamento das coisas, a tradição romana abandonava o direito e a sua aplicação; quando este se tornava um entrave, era suspenso por meio de um iustitium 24 , o que permitia o uso da violência contida em potência na “força de lei”.

O ordenamento ou o direito pode ser pensado como uma força autorizada por meio da aplicação justificada da lei. Kant, em Doutrina do direito, argumentava que a justiça somente se configura como direito quando há a autorização do uso da força, em princípio estranha ao direito. Na aplicação do direito tal força tem a função de um constrangimento ou uma obrigação externa ao sujeito, levando-o a agir dentro das repetições previstas no ordenamento. Pode ser uma força direta ou não, brutal ou sutilmente discursiva, coercitiva ou reguladora 25 . Segundo a análise de Walter Benjamin, sobre as relações entre violência e poder no estado moderno, toda instituição política tem como fonte de sua legitimidade um momento fundante que, de modo geral, encontra-se em algum ato de violência. Após o momento originário, enquanto direito, a violência é mimetizada em uma força conservadora do poder instituído 26 .

O discurso dos direitos humanos, uma questão de método

Vimos anteriormente que a inclusão da vida nua, ou da violência do estado de natureza na ordem do contrato social é o momento fundante do estado moderno. Este, por sua vez, faz da proteção e conservação da vida, ainda que com o uso do direito à morte, o fator legitimador do ato soberano. Podemos dizer que há um determinado discurso dos direitos humanos, ou da condição de ser vivente de cada um de nós, que autoriza o fazer protetivo por parte do Estado.

Há um determinado poder no uso público dos discursos que se relaciona diretamente com a ordem das leis e das instituições, na medida em que os sujeitos que os pronunciam não têm necessariamente domínio sobre suas realidades ou durações, nem mesmo podem dizer que lhes pertencem. Pressupomos que a produção do discurso sofre o controle e a seleção de determinados procedimentos que visam assegurar as implicações de seus usos e prevalecer sobre sua possível ocorrência contingencial. Mais do que denotar uma tradução das relações sociais de dominação e resistência, os discursos são eles mesmos aquilo “pelo que se luta, o poder pelo qual queremos nos apoderar” 27 .

Há uma predisposição, na sociedade moderna, de validar as ações por meio de um discurso considerado verdadeiro. É como se fosse mais importante aquilo que é dito, do que o agir. E, para se encontrar de posse do discurso verdadeiro é preciso se submeter às regras e

23 Idem, ibidem, p. 61.

24 Cf. Idem. Estado de exceção.

25 J. Derrida. Força de lei, p. 9.

26 Cf. W. Benjamin. Zur Kritik der Gewalt. Há que se destacar que a palavra alemã gewalt indica uma pura violência e, ao mesmo tempo, um poder soberano dotado de uma força de lei autorizada; dela deriva o termo waltende, que significa soberania.

27 M. Foucault. A ordem do discurso, p. 10.

controles que o determinam, o que limita ou anula o acesso a sua produção e seu uso. Dessa forma, para se utilizar do discurso é preciso estar preparado, condicionado, qualificar-se para pronunciá-lo de modo que se determina um conjunto reduzido dos especialistas autorizados a esta fala. Se, por um lado, os discursos são construções sujeitas a mecanismos de controle, sua difusão e partilha também condicionam aqueles que o escutam, na medida em que se reconhecer subjetivamente em um destes discursos pode definir sua pertença a determinado coletivo. Mais do que isto, pode ainda legitimar ações que corroborem os valores mobilizados pelo discurso, concedendo certa soberania ao sujeito que dele participa 28 .

Participando do consenso da política, o discurso dos direitos humanos legitima, paradoxalmente, tanto a resistência do indivíduo frente às violências sofridas quanto a política dos estados nacionais, os maiores violadores de direitos. Desta forma, o militante e o ministro, o sem-terra e as forças de segurança, o destituído e a grande mídia são seus usuários. A ideia fundamental deste discurso é a de que há um grande contingente de indivíduos que sofrem alguma injustiça ou se encontram carentes em suas necessidades básicas. A partir desta condição social, o discurso dos direitos humanos autoriza o “império da lei”, através de seus “tribunais” e de “cada órgão da sociedade”, a “decidir sobre os direitos e deveres” das vítimas de violações. Um novo modo de ação é validado para que “o ser humano não seja compelido

à rebelião contra a tirania e a opressão”, ou seja, para que não tenha ele mesmo que agir politicamente em prol da transformação de seu estado de opressão 29 .

(

)

O novo modo de agir na política, corroborado pelo discurso em questão, vem substituindo há algumas décadas o movimento social organizado independente do ordenamento dos estados de direito, substituindo também as formas tradicionais da democracia representativa. Em lugar da ação política, os novos atores sociais são instados a fomentar, no teatro de fabricação dos resultados, a governança do sofrimento através de uma mudança social contabilizada nos índices de desenvolvimento da humanidade. Na nova forma da política, como já teorizou Hannah Arendt, os instrumentos e a racionalidade da atividade terapêutica substituem a possibilidade de ruptura por um fazer planejado enquanto artefato de controle da ação 30 .

A terapia do sofrimento social

A ideia da política como uma terapia social, a fim de evitar ações de ruptura, não é novidade do contemporâneo. No fim do século VII AC, intensificou-se na Grécia uma busca desenfreada para acumular as novas riquezas obtidas no comércio com o Oriente. Tal situação gerou uma forte desigualdade econômica e social e colocou em crise a ordem social da pólis, com a ocorrência de violência e conflitos generalizados. “É a maldade dos homens, seu

28 Interessante notar que, para Foucault, a análise dos discursos demanda três passos metodológicos: “questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu caráter de acontecimento; suspender, enfim, a soberania do significante”. Idem, ibidem, p. 51.

29 Citações extraídas da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU (1948), no Preâmbulo e nos artigos VIII e X. Vale ressaltar que na versão da Declaração publicada no site do Ministério da Justiça do Estado brasileiro o termo “império da lei” foi substituído pelo “Estado de direito”. Tal alteração parece-nos denotar a que o discurso dos direitos humanos sofre o controle das instituições ligadas aos estados nacionais, indicando mais um caminho possível para a presente pesquisa. Neste sentido, sugere-se que a Declaração seja consultada no site da ONU no Brasil (http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php, acessado em outubro de 2010). A Declaração alterada encontra-se em http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib _inter_universal.htm, acessada em outubro de 2010.

30 H. Arendt. A substituição da ação pela fabricação (1997), pp. 232-241.

espírito de hybris, sua sede insaciável de riqueza que produzem naturalmente a desordem” 31 . Segundo Aristóteles, um acordo somente foi possível por uma mudança cultural dos mais ricos, que abriram mão de parte de suas riquezas ou do aumento delas para fornecer o mínimo ao demos e, desse modo, manter a estrutura social sem profundas transformações 32 .

Embora o sofrimento social tenha existido em diversas sociedades e épocas, o seu uso enquanto legitimador de determinada estrutura do Estado se intensificou com a adoção do discurso dos direitos humanos, a partir da segunda metade do século XX. Não se trata, com o uso da ideia de sofrimento social, de psicologizar a realidade social. Porém, é preciso verificar como as democracias contemporâneas identificam sua ação vinculada ao contexto de fatos sociais como as condições de vida em certos segmentos da população, caracterizando o sofrimento do indivíduo integrante destes coletivos como o problema a ser tratado pelas políticas públicas. Pode-se identificar, nesta ação, uma linguagem utilizada nos discursos políticos enquanto argumento de denúncia das injustiças sociais: “o vocabulário do sofrimento permite revelar o aspecto insuportável da experiência da precariedade e da exclusão” 33 . Neste sentido, o sofrimento social torna-se termo mestre das políticas sociais destinadas à governança das populações carentes, visando com este discurso especialmente as condições de vida e de trabalho e indicando uma nova forma de agir com base na diminuição do padecimento aparentemente integrante da condição humana no contemporâneo.

A opção pela terapia social legitimada como política de Estado com a democracia, através do consenso fabricado pelo e em torno do discurso dos direitos humanos, opera a construção de um léxico no qual antigos termos são resignificados diante de novas teorias ou ideias. As novas noções do agir social apresentam-se como valores naturais, sem história própria, validados pela existência de um ser humano universal e deixando no esquecimento os conflitos e singularidades passadas e presentes. Deste modo, torna impossível a criação de um discurso contrário e crítico ao consenso fabricado. Por não ser apresentado como resultado das relações de dominação e resistência, de poder e violência, o fazer terapêutico obtido pelo consentimento da cidadania se estabelece como uma negociação 34 .

No entanto, parece-nos viável adotar a concepção foucaultiana de que o discurso, ao contrário de sua concepção enquanto consenso, é resultante das violentas disputas de poder presentes no estado democrático de direito. Em vista disto, a interrogação sobre os conceitos envolvidos em sua formulação nos permite identificar as metamorfoses sofridas pelas formulações clássicas da filosofia política no contemporâneo. Contrastando tais conceitos com amostras de regularidades enunciativas contidas nos documentos produzidos pelo discurso hegemônico dos direitos humanos, a pesquisa proposta autorizaria a fazer uma análise reflexiva da ação política e da democracia no contexto histórico que se anuncia no início do século XXI.

A democracia dos direitos humanos

31 J-P. Vernant. As origens do pensamento grego, p. 61.

32 Aristóteles. Política, Livro II, 1267b.

33 E. Renault. Souffrances sociales, p. 138.

34 Exemplo da concepção dos direitos humanos como negociação e consenso é a carta do Estado brasileiro ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, datada de 19 de julho de 2010, na qual se propõe a negociação com os regimes autoritários com o intuito de evitar a “politização”. Para o Itamaraty, o problema é que, “hoje, o Conselho de Direitos Humanos da ONU vai diretamente para um contencioso”, o que provocaria a reação contrária dos violadores de direitos. Artigo sobre o tema disponível em www.itamaraty.gov.br, consultado em setembro de 2010.

Juntamente com o colapso do Estado-nação vivido nas guerras do século XX entrou

em crise a ideia de direitos humanos, pois sem a proteção de um Estado, de uma nação, de

uma comunidade política, aos homens era negado o “direito a ter direitos”. Tal é a crítica de Hannah Arendt aos direitos humanos: sua condição de direitos inalienáveis está baseada na concepção de um homem abstrato 35 , que não existe em parte alguma, ao mesmo tempo em

que os homens reais, concretos, encontram-se desprotegidos e entregues às violações de

direitos por parte do mesmo Estado que deveria protegê-los 36 . Sem o pertencimento a um ordenamento nacional, não há quem ou o quê proteja este indivíduo desenraizado e o caráter inalienável dos direitos humanos perde sua validade 37 .

Apesar do paradoxo experimentado nos direitos humanos, as democracias do século

XX surgiram justamente pela proclamação de seu triunfo sobre os regimes totalitários e

autoritários. Tal vitória indicou a concepção da democracia como o regime do “mais eficaz” e “mais justo” na proteção da vida – nasceu para desfazer as injustiças do passado. Os novos regimes, formados por dispositivos de soberania, são identificados com o estado de direito. O jurídico diz ao legislativo o que deve e o que é melhor a ser feito, como se fosse a incorporação da vontade da nação e da sabedoria sobre as regras e as leis. É a marca da submissão do político ao ordenamento, justificada pela ideia de que a regra é preferível ao autoritário, pois garante a liberdade civil. As práticas sociais são tratadas como um caso de justiça, objetivadas em processos judiciais ou alguma política pública.

Na democracia consensual, fundamentada no discurso dos direitos humanos, os danos

sofridos pelo sujeito político são objetivados, por meio do tratamento da falta, com políticas positivas de reconhecimento e diminuição da injustiça. O sujeito ativo da democracia é identificado com a parte da sociedade capaz de se envolver com a solução do problema. É como se a vítima, impedida de ser agente da superação de seu problema por não fazer mais parte de nenhuma parcela dos que têm acesso aos direitos; e, tendo sida apagada da contagem

sem resto do consenso, se tornasse um objeto. A objetivação do dano em ações de governança

provoca a exclusão da vítima da ação política. A maior marca da democracia dos direitos humanos é a liberação da vida, valorizando a liberdade e a felicidade dos homens, no mesmo espaço onde se imagina sua submissão às regras.

Bibliografia

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Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG,

2002.

35 Sobre a critica dos direitos humanos, cf. E. Burke, Reflexões sobre a revolução em França; T. Paine, Os direitos do homem; K. Marx, Sobre a questão judaica; H. Arendt (1989), O declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem (1989); M. Villey, Polémiques sur les “droits de l’Homme”.

36 Para uma genealogia do conceito de Homem inscrito nas declarações de direitos humanos e sobre o paradoxo deste conceito em legitimar, através de um discurso público, ações de proteção e, ao mesmo tempo, de violações dos direitos, cf. Costa Douzinas, O fim dos direitos humanos. 37 Vivemos também a experiência da problemática da efetivação ou aplicação das decisões de cortes internacionais de direitos humanos. Há uma dificuldade em fazer com que os estados, ainda que aderentes aos tratados internacionais que guiam as decisões das cortes, aceitem suas decisões quando elas entram em choque com interesses políticos nacionais ou de grupos que estão no governo local. Para conhecer mais sobre o conflito dos ordenamentos nacionais e a eficácia do direito internacional, cf. Flávia Piovesan, Direito internacional dos direitos humanos e lei de anistia: o caso brasileiro.

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