O MUNDO DOS FILÓSOFOS

CONTEXTO I – Pensamento Clássico Os pré-socráticos Heráclito de Éfeso Pitágoras de Samos Zenão de Eléia Demócrito de Abdera Os sofistas Sócrates Platão Aristóteles Epicurismo, Ceticismo e Ecletismo O Estoicismo II – Pensamento Cristão Neoplatonismo – Plutarco de Queronéia O pensamento cristão O cristianismo A praxe ascética do cristianismo Santo Agostinho e a patrística pré-agostiniana Santo Agostinho A escolástica pré-tomista Santo Tomás de Aquino III – Pensamento Latino As ciências naturais na idade helenista e o pensamento latino O direito romano e a educação romana IV – Pensamento Moderno O pensamento moderno Os pensadores renascentistas – Giordano Bruno, Nicolau de Cusa O cartesianismo – Baruch Spinoza De Aristóteles à renascença René Descartes O empirismo – Francis Bacon, John Locke, George Berkeley O iluminismo francês – Jean-Jacques Rosseau Leibniz A renascença – o renovamento das antigas escolas filosóficas Nicolau Machiavelli, Galileu Galilei O cartesianismo – Malebranche, Leibniz, Wolff René Descartes O empirismo – David Hume, Thomás Hobbes O iluminismo francês – Condillac, Montesquieu, Voltaire Blaise Pascal

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V – Pensamento Contemporâneo Emmanuel Kant Hegel – o idealismo lógico Nietzsche Kierkegaard Kant – moral, metafísica e crítica do juízo O idealismo pós-kantiano – Fichte, Schelling e Schleiermacher Hegel – a idéia, a natureza, o espírito O positivismo – Auguste Comte VI - Bibliografia

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I - CLÁSSICOS Os Pré-socráticos Dualismo Grego A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísicoteológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta. O Gênio Grego A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Os Períodos Principais do Pensamento Grego
Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: pré-socrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Divisão da História da Filosofia Grega

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Primeiro Período O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística. Escola Jônica A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas. Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água" Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro.

que constituem o mundo. As diversas coisas que existem.C.) "Ápeiron" Anaximandro de Mileto. através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida. o ápeiron está em constante movimento.a flutuação sobre a água. ele diz que) é sem idade e sem velhice. havia um espírito divino que formava todas as coisas da água.) "Ar" Segundo Anaxímenes. matemático. reduzem-se a variações quantitativas (mais raro. porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. o fogo é o ar rarefeito. que é ar. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron). o ápeiron (ilimitado). Tales acreditava em uma "alma do mundo". Anaxímenes de Mileto (588-524 A. Fragmentos "Imortal. (Plutarco). Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo. Refutação. um elemento não tão abstrato como o ápeiron. e disto resulta uma série de pares opostos . e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente. que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Anaximandro prossegue na mesma via de Tales. o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado).e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) . etc. Esta (a natureza do ilimitado. a terra. " Com nossa alma. põe como princípio universal uma substância indefinida.5 Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. a água. . nem palpável demais como a água.. os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. astrônomo e político.água e fogo.. geógrafo. Eterno. Elemento Dinâmico . dotado de vida e imortalidade. Diz-se também. (Aécio). Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas. infinito e em movimento perpétuo. Para ele. Hipólito. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens.Aristóteles. soberanamente nos mantém unidos. Elemento Estático . Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Ampliando a visão de Tales. frio e calor.a geração e nutrição de todas as coisas pela água. isto é. discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza.C. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Tudo provém do ar. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres. . O ápeiron é assim algo abstrato. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. mesmo apresentando qualidades diferentes entre si. a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. Anaximandro de Mileto (611-547 A. por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. mais denso) desse único elemento. assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém. Com essa concepção. a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar. Física".

isto é. o que é. pela primeira vez. o segundo é o devir até esta determinação avançou ele. aquilo que é. apenas o ser é. porém. ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. mas também o desaparecer. Ele é a plenitude da consciência até ele . e é aquele que Heráclito fez. Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza. à primeira vista. modificado. Isto é o primeiro concreto. na contemplação do sujeito. "como a do arco e da lira". nem permanece o mesmo". Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar. em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato. pois que imediatamente se transforma.C.que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente". ou ser e nada são o mesmo. compreender a própria dialética como princípio. que todo o resto fora deste um flui. Dialética imanente do objeto. a essência é mudança. nem é menos. é o verdadeiro. portanto. O ser é o um. mas são idênticos.a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos). Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser. isto é. Filosofia de Heráclito Heráclito concebe o próprio absoluto como processo. ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade. Os eleatas dizem: só o ser é. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece. o verdadeiro é o devir. regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal. o Obscuro. mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir. B. no dialeto jônico. ambos não são para si. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei). disto todo o resto é formado. a verdade do ser é o devir. porém. Dela faz parte não apenas o surgir. cidade da Jônia. por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos. Seu caráter altivo. a idéia filosófica em sua forma especulativa. ausência de pensamento. em prosa. apenas destruição universal. Temos. contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. não parece. como a própria dialética. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser". A dialética é: A. que nada é firme. C. este devir é o princípio. O Princípio Lógico O princípio universal. um homem de profundos pensamentos. não o ser . Dizemos. Floresceu em 504-500 a. Recusou-se sempre a intervir na política. Nele encontra-se. isto é.uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia. então. Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece. harmonia feita de tensões. Sem ter sido mestre. que nada se demora. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser". o rio corre e toca-se outra água. E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele disso. É isto compara as coisas com a corrente de um rio . um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma. Desprezava a plebe. muito contraditório. nada persiste. transformado. . o devir é e também não é". produzir muito sentido.6 Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito Heráclito nasceu em Éfeso. misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. nos eleatas. É o progresso necessário. Objetividade de Heráclito. o primeiro. Manifestou desprezo pelos antigos poetas. de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. Além . o infinito. temos apenas o entendimento abstrato. situando-se. desta maneira. nela temos o ser e também o não-ser. Heráclito diz: Tudo é devir.Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático. o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós. em Heráclito. ao mesmo tempo já novamente não é. Dialética exterior.

Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe . Esta harmonia é precisamente o absoluto devir. A subjetividade é o outro da objetividade.o absurdo disto logo se mostra ..ser e não-ser ligam-se ao mesmo. critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos. este movimento é aqui. da pura oposição.se fosse apenas doce. e o não-ser é. ao mesmo tempo. não de um pedaço de papel . O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor. Tomamos nós o ente em si e para si.a falta de movimento.. e de que de tudo (que se opõe) resulta um. isto é a verdade da identidade de ambos.e isto os sons são em si. É esta unidade de real e ideal. que num está contido seu outro e assim o todo. o "que se une e se opõe". o absolutamente negativo . agora mesmo. quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade. por exemplo. etc.todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. a primeira unidade de determinações opostas. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo. Este um não é o abstrato. Mas isto não contradiz Heráclito. vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito. como. o absoluto deve ser determinado como o devir. Este verdadeiro é o processo do devir. O essencial é que cada diferente. das representações correntes dos homens. seu oposto. diferenciado de si mesmo. um ser. também é o primeiro concreto. porém. como nas harmonia das cores. Assim também no caso dos sons. mais exatamente. relação de ambos a um. ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce. por isso é o não-ser. pelo contrário. apenas este igual a si mesmo . Da harmonia faz parte determinada oposição. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. transformar-se . por causa de sua contradição. Aristóteles diz. a repetição de um único som não é harmonia.7 que Heráclito expressou com suas sentenças. em que todo o determinado é negado. Deixa então que Erixímaco. que fala no Banquete. O simples. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo.nada é o mesmo. É um grande pensamento passar do ser para o devir. como o não verdadeiro.mas não de um abstrato qualquer outro. Da harmonia faz parte a diferença. Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo . mas da unidade pela arte da música.não devir outro. mas de tal maneira que também possam ser unidos .. a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Mudança é unidade. sobre o princípio de Heráclito: "O um. une-se consigo mesmo" . em seu conceito. é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. Este é o grande princípio de Heráclito. Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças.um por limites e um sobressumir os limites. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo. o objetivo somente é o devir subjetivo. reconhece um no outro. devem ser diferentes. cada um apenas é. de objetivo e subjetivo. e de um tudo." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente. ao qual Zenão não chegou! "Do nada. mas.o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo . nela está o princípio da vida. mas é especulativo. mas de seu outro. É uma grande convicção que se adquiriu. "como a harmonia do arco e da lira". nada vem. Platão diz. mas é também o mesmo que o todo é. a unidade essencial. deve ser seu outro. assim o puro ser é o pensamento simples. que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. . por isso é o ser. que é em si e para si. é a unidade dos opostos e. depois aquele. e . que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) . disto trata o conceito de toda a Filosofia. dos universalmente opostos. não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. não a representação do ente. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim. cada particular seja diferente de um outro . em seu Banquete. é ainda abstrato.este é o processo da vida. numa forma bem imediata e universal. passagem absoluta para o oposto.. também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. pensamos a mudança. gerado seu Filho. agora este. Estas estão inquietas nesta relação. do mesmo modo. como os céticos. pois que a harmonia se formaria de altos e baixos. a atividade de dirimirse. este e o outro. do pleno. Em Heráclito. princípio. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias . a substância é o todo e a parte. a razão. vemos. na medida em que seu outro em si esteja consigo. "o mel é doce e amargo" . e os que sofrem de icterícia que é amargo . O não ser é. por exemplo. que justamente quer isto. na verdade. e nisto reside sua identidade. Sexto observa: Heráclito parte. pode parecer obscuro. "o que concorda e o dissonante". Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser. ser e não-ser. assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro.

que é harmônico a partir de absolutamente opostos. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir. Mas. por exemplo.Processo abstrato. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito. No tempo não é o passado e o futuro. para o entendimento que segura para si o ser. é. de modo real. Os Modos da Realidade Heráclito não ficou parado. mas de modo bem determinado. É a abstrata contemplação desta mudança. chamar a atenção para estas diferenças e contradições. no puro lógico. este conceito abstrato. mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser . outros dizem que antes o vapor que o ar. contudo. sem outra determinação . somente o agora. para não ser. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência. considerando mais detidamente. portanto. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. O tempo. é a primeira forma do devir. no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. a água. A.e este não-ser passa. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito.A forma real como processo. na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. O tempo é intuição. deu à sua idéia também uma expressão real. a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores. O fogo. é. dotado de tais momentos. esta mostra-se mais para uma análise superficial. tempo. como Aristóteles e Sexto Empírico. portanto. por isso. mas a água enquanto se transforma. que não falam destas formas de passagem. expressar ambos os momentos como uma totalidade para si. disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata. diz que ele é o primeiro ser sensível. sem. fogo. o real e o ideal. pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. esta dificuldade desaparece. na confusão de seu modo de expressão. mesmo o tempo é citado. o tempo é o primeiro que se oferece como o devir. o tempo é a intuição abstrata do processo. O tempo é puro transformar-se. no que se pode ver. o não-ser. o simples. B. é a essência verdadeira. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. o subjetivo e objetivo. No tempo estão os momentos. e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. enquanto é para nós. assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito. outros dizem que como ar. poderia dar motivos para mal-entendidos. que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta. Sua essência é ser e não-ser. como Tales. está logo destruído. para o ser. é o processo. postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Enquanto intuído. Assim. . em sua exposição. isto é. logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes. não haveria outra que nomear a não ser o tempo. como o primeiro ser do ente. mas além desta forma universal. pois as testemunhas são as melhores. no sensível. visto de maneira objetiva. ou sua forma é mais a forma natural. sempre obscuro. no entanto. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores.8 isto é. não estão de acordo entre si. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. nesta pura forma em que ele o reconheceu. ou apenas o processo. Não como se o tempo fosse e não fosse. . e este é. . postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. pois ele é. pois precisamente. por isso. Heráclito. o qual. porém. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo. compreender a natureza significa apresentá-la como processo. ser e não-ser. é incluído ainda na Escola Jônica. deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo. na qual expôs seu princípio. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica. mas deu a seu princípio a forma de um ente. absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo. nesta expressão em conceitos. De maneira alguma podia Heráclito afirmar. em Sexto. então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo.ser puro e abstrato nãoser. portanto. passado . Além disso. do mesmo modo. como exprime Sexto. mas inteiramente abstrata.esta mudança de ser para não-ser. Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro. por conseguinte. o tempo é o puro devir. é o puro conceito. como subsistente. Se quisermos representar-nos o que ele é.

Justamente no processo distinguem-se os momentos. colônia grega. e 3. somos e não somos". mas.o fogo em sua eclosão. por ser a evaporação. Da . que a alma mais seca é a melhor. o puro momento negativo. o emergir de tudo. a mais viva. é o número. o momento abstrato do mesmo. Sob este ponto de vista. Pitágoras de Samos Pitágoras. a metade disto. ele é a idéia permanente.o desaparecer de outros. transformação do determinado. o raio" . É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia. que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje. Sob este ponto de vista. levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona. ou seja. vapores do sol). que o princípio é a alma. a alma e a substância do processo da natureza.e a unidade negativa. porém. isto é. encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra. isto. mas a própria vida. o retorno para a unidade. e a outra metade. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça. assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. Pitágoras aspirava . nasceu em Samos pelos anos 571-70 a. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo. na Magna Grécia. mas também de si mesmo.". 2. mudando-se para Metaponto.a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política. não tanto o ar como antes a evaporação.e este é o modo real do processo heracliteano. isto é. A natureza é assim esse círculo. então. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. o fogo é a alma. no processo. e fundou em Crotona. homens imortais.é mais: passagem. por ser ela a evaporação. como no movimento: 1. e este não é a negação do vivo. é mudança. e este evaporar-se. destes momentos . ele é para si o processo real. primeiro. evaporação. devir. segundo sua exposição. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante. é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência . seria o incorpóreo e sempre fluído. em parte.e também conseguiu . viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". pois ele é. o queimar da oposição subsistente. Aristóteles diz de Heráclito que. o princípio era a alma. consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. mais explicitado como processo real. sua essência como processo. a essência. As determinações mais próximas deste processo real são. aí morrendo provavelmente em 497-96 a. que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga. o fundador da escola pitagórica. a terra. ele não é permanente. .C. que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são. o pôr desta oposição. Segundo o pitagorismo. evaporação é aqui apenas a significação superficial . seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita. absoluta dissolução do que persiste . A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição. a alma. "Os homens são deuses mortais e os deuses.C. lei e matéria. transformação em fumaça. terra. C. as relações matemáticas. Os pitagóricos. o princípio essencial de que são compostas todas as coisas. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor. não distinguindo ainda bem forma. a totalidade em repouso. pelo contrário. ele é esta absoluta inquietude. enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas. este processo do mundo que a si mesmo se move. sua realidade é o processo todo no qual. então. uma associação científico-éticopolítica. água e ar.9 porém. os momentos da oposição subsistente. Compreendemos o que Aristóteles cita. Este é universal e muito obscuro. o mar e. substância das coisas. afirma-se.O fogo está agora mais precisamente determinado. "Nos mesmos rios entramos e não entramos. falhas e contraditórias. em algumas notícias. os momentos são determinados mais exata e concretamente. O fogo é o tempo físico. O fogo. que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Em 532-31 foi para a Itália.

portanto. Desde que se têm o ponto. mas delimitações do ilimitado. De outro lado. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. tudo é uma unidade". ímpar. por outro lado. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. o ilimitado e o limitado. par. não há nada além de quantidades. têm-se também os objetos materiais. Os elementos constitutivos de cada coisa . determinado. segundo a concepção grega. e o número. e as partes múltiplas. contra o eleatismo. é preciso partir do eleatismo. [Teoria das cordas sonoras. masculino. esquerda. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. que põe limites à divisão por dois e. por conseguinte. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos.] . perfeito. feminino. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. bem como a rotação da Terra. também uma pluralidade". denso. delimitado e ilimitado. agitado. portanto. 5): delimitado. bom. o par e o ímpar. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. achada a substância una e imutável das coisas. De fato. o Péras. àquilo que não tem nenhuma qualidade. masculino. relação de intervalos. que governa e deve governar o mundo material e moral. I. não quantidades de elementos (água. impossível. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. Pelo que diz respeito à moral. frio. etc. há também uma pluralidade. etc. que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. ou seja. inqualificado e qualificado. que não se deve confundir com o Sol. bom.o ilimitado e o limitado. as superfícies e os corpos. feminino. imóvel. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. enfim. astronômico e sonoro. À primeira vista. De novo. o imperfeito e o perfeito. Portanto. sutil. se o Uno existe. e a pluralidade do ser. que são . mau. ablongo. passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. e a delimitação. a Unidade veio a ser. uno. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. Portanto. mau. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro. par. etc.10 racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas. portanto a diversidade. e as práticas ascéticas e abstinenciais. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. do qual se pode dizer que é impar. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. ilimitado. o número é a essência própria das coisas. não há qualidades. que não põe limites à divisão por dois. ímpar. Mas. reto. portanto.segundo os pitagóricos . explicando assim o dia e a noite. O número divide-se em par. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). é uma especulação totalmente insólita. do Ápeiron. Nela. curvo. e. quente. Como a filosofia da natureza.). esquerda. Mas ambos compõem o Uno. a linha. pois. direita. aqui. modo dórico. imóvel. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. foi em todo caso formado por dois princípios. reto. que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática). o pior e o melhor. quadrado. que. Radical oposição esta. ao absolutamente Indeterminado. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). 3) portanto. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. logo. pois. não-ser e. há também uma pluralidade. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. ilimitado. nesse caso. é ilimitado (quer dizer.sendo cada coisa número são o par e o ímpar. em todo caso. a qual via a perfeição na determinação). portanto. é limitado. Dizem. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. curvo. passivo. Mas. quadrado. portanto há. 2) que tampouco tem limites. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. um conceito contraditório. imperfeito. agitado. e ímpar. portanto. ablongo. e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. fogo. toda coisa nasce de dois fatores opostos. trevas. múltiplo. uno. precisamente mediante o uno e o imutável. Assim. Para compreendermos seus princípios fundamentais. ativo. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. que não está em parte nenhuma. os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser. portanto: delimitado. direita. dualismo. trevas. portanto. os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes. múltiplo. O ser é luz e. o não-ser é noite e. Portanto. luz. De um lado têm-se. luz.

cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. No mesmo sentido. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. quatro o volume. agora. encontra-se. Remetem-se. Na química. O vir-a-ser é um cálculo. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. estritamente. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. A harmonia das esferas. isso porque os ímpares. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. o Ápeiron de Anaximandro.. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. desde os tempos da antiguidade. peremptoriamente. jaz envolta num véu de mistério. depois. cinco o casamento. Contentou-se. pitagórica. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. evidentemente. agora. pelo menos em certo sentido. a Anaximandro. um é o ponto. assim. nesse sentido. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). de caráter iniciático. A música. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. O Universo e os planetas esféricos. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. Nossa ciência é. dois a opinião. influindo no pensamento Ocidentel. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. e quanto à tonalidade. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). que é representada inteiramente destituída de qualidade. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. poderosamente. que reaparece aqui pela última vez. Isso lembra a palavra de Leibniz. con efeito. tiveram de erigir a noção de número. davam nascimento a uma série limitada de números. é essencialmente uma força calculadora. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. Dentre as religiões de mistérios.11 A música. o primeiro sistema de Parmênides. como tal. por não se ter às mãos documentação bastante. Cosmogonia. a imagem. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. a possibilidade de uma investigação exata em física. os números quadrados. E tal é. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. O fato de negar-se. ponto de vista inteiramente novo. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. enfim. há 2. Nos outros sistemas de física. se se trata de sua quantidade. três a superfície. se se trata de sua qualidade. Parmênides chamava Aphrodite. nessas descrições. ao dizer que a música é exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi (¹). sem dúvida. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. A contribuição original dos pitagóricos é. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. e da Harmonia que une as qualidades opostas. cuja tarefa é.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. . pois. dez a perfeição. portanto. porque há. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. provisoriamente. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. inicialmente. dois é a linha. pai de todas as coisas. problemas secundários. quatro a justiça. o domínio da química e das ciências naturais. Mas estes são apenas. exclusivamente com o auxílio de números. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. etc. a essa força. com analogias fantasiosas. poder-se-ia exprimir o ser do universo.600 anos vem. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as proporções. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. como o Péras fixa o limite). Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. os gnómones. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. do qual a música é.

que antes. afirma-se. também. levado o filho à Pítia de Delfos. ainda. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. cuja existência foi tantas vezes negada. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. onde. junto com os seus mais amados discípulos. mebora esteja. e que nada mais era do que um templo. então tirano de Samos. conhecido Zaratos. Em 1917. em Mileto. segundo uns. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. proliferavam os templos pitagóricos. fundou o seu famoso Instituto. e se essa seita foi tão combatida. inúmeras viagens e peregrinações. síria ou. também. em Crotona. como já esteve no passado. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). depois Ferécides de Siros. Numa obra. afinal. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. um sacerdote egípcio. ademais. foi iniciado nos mistérios egípcios. Consta que Pitágoras. em seu incêndio. foi descoberta uma cripta. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. Conta-nos. que ainda existe e tem seus seguidores. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. já em decadência. em torno dessa lenda. que este realizou. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. por volta de 41 a 54 d. ou seja. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. contando-nos a lenda que. tendo sido. Mas. tendo. recomendado ao faraó Amom. que desde criança se revelava prodigioso. relata-se que esteve em contato com os órficos. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. que preferem declará-lo como não existente. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. onde. Zoroastro (Zaratustra). Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. Afirma-se. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. o qual. sob os trilhos da estrada de ferro. por casualidade.. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. e que. com base histórica. e ouvinte das conferências de Anaximandro. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel.12 Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. Antes de sua localização na Magna Grécia. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. essa ordem. Observa-se. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. mas provocaram. que. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. ainda. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. era filho de Menesarco e de Partêmis. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. outros. ou Pythaia. Relata a lenda que Pitágoras. combatido pelos democratas de então. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. que Pitágoras nasceu em Samos. averigou-se ser pitagórica. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. perto de Porta Maggiori. entre 592 a 570 antes da nossa era. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. já em tempos de César. em sua juventude. . Tendo esta. a inimizade de Policrates. em nossos dias. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. natural de Tiro. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio.C. certa vez. Foi depois discípulo de Sonchi. que liga Roma a Nápoles. em Babilônia. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). como foi Gautama Buda. porém. Se não existiu Pitágoras de Samos. nos santuários de Mênfis. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. ao nosso ver. aluno de Tales. vamos a seguir relatar algo. Sabe-se hoje. hoje cara aos pitagóricos. foi finalmente destruído. durante vinte e cinco séculos. Confúcio e Lao Tsé. pereceu Pitágoras. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. chamava-se Pitágoras. no Peloponeso. Dióspolis e Heliópolis. tomando um rumo que permaneceu ignorado. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. sinteticamente. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. posteriormente.

uma teve enorme difusão: o culto de Dionisio. O orfismo . na transmigração da alma através de vários corpos. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. entre todos os seres. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. ou seja.o que escuta. originário da Trácia. de caráter iniciático. Parece certo. contudo. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". uma revivescência da vida religiosa. recolhe". transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a. garantida pela presença do divino em tudo. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . depois da derrota da liga crotoniata. pelos tiranos. transformando o sentido da "via de salvação". os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. em algumas regiões do mundo grego. semeia . Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. que. "O que fala. sobretudo. na segunda metade do século VI a. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano. sustentada pela ordem e pela proporção. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia .que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. Natural que dentro de tal concepção vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" . a retornar à sua pátria celeste.o mal seja entendido sempre como desarmonia. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. porque basicamente intelectual. A alma aspiraria. "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. e que se manifesta como beleza. . que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. verificou-se. de onde caíra. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. porém. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. mas não a carregues". por sua própria natureza. do ciclo das reincarnações.não só de natureza como também de valor . depois do pitagórico Filolau. portanto. de acordo com ela. que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica.C. as regras da vida individual e do governo das cidades. de natureza divina. a fim de efetivar sua purificação.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação.era uma religião essencialmente esotérica. (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. Para libertar-se. assim.13 Segundo as melhores fontes. às estrelas. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". Partindo de idéias órficas. entendido como unidade harmônica. será qualificada como uma "harmonia". em geral. (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. fugindo à tirania de Polícrates.de Orfeu. A religião órfica pressupunha. que ele teria deixado Samos (na Jônia). das divindades "oficiais" -. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. teria sido antes de mais nada um reformador religioso. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). a alma semelhante ao cosmo. já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. uma distinção .C. A purificação resultaria do trabalho intelectual.

Essa geometrização do cosmo estava aliada. enquanto o quatro produz o volume. O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. Assim. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. como V¯². no pitagorismo. são a própria "alma das coisas". Com efeito. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente).esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. o três gera a superfície. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. "Todas as coisas são números". da música. Estes não seriam. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos . em substituição às representações literais mais arcaicas. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. presos a esferas homocêntricas.que descreve o cenário cósmico. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. Segundo a cosmologia pitagórica . as unidades comporiam os números. (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. vivo. a quantidade e sua expressão espacial. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. Ou então. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. os números são reais. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. usadas pelos gregos e depois pelos romanos. De acordo com essa concepção. Assim.como virão a ser mais tarde -. O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. portanto . Ou seja. Sua astronomia. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". faze aquilo que te parece justo". aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. unidade de extensão. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. a hipotenusa seria igual a V¯². (Pitágoras) Em Todas as Coisas. onde se processa a purificação da alma . são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior).o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito.14 Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. Os primeiros números. representados figurativamente. Apesar desses impasses . quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente.e em grande parte por causa deles . o Número A partir do próprio Pitágoras. quanto na base mesma da matemática. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. "Pensem o que quiserem de ti. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. mínimo de corpo. o dois determina a linha.

A característica de Zenão é a dialética. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. dando leis à sua pátria. sons de acorde perfeito. . naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. perdeu a vida. aquelas esferas produziram. Segundo muitas lendas. Parmênides. Outros ainda dizem que. contra as críticas dos adversários. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. pleno para aquela mudança. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". Quando o tirano. principalmente os pitagóricos. começar com esta afirmação. Ele é o mestre da Escola Eleática.é o iniciador da dialética. segurando-o assim. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. para arrancarlhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. Defendeu o ser uno. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. (Pitágoras) Zenão de Eléia Vida. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". o fez torturar de todos os modos. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. descontínuo e divisível dos pitagóricos. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. Parmênides afirmou: "O universo é imutável. . De modo violento e furioso de sua reação. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. não é. Também Zenão era um eleata. Contra os Físicos. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. permanentemente soante. esta sido traída. depois disso teria sido triturado num pilão. Nasceu em Eléia (Itália). Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. é o nada para ela. Este o amava muito e o adotou como filho. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. tranqüila em si mesma. a orelha e cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. mordendo-lhe. para caírem sobre o tirano. Nisto consistia o movimento determinado. Já em seu elemento tético vemos progresso. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo.ela aponta. pelo contrário.Escreveu várias obras em prosa: Discussões. diante de seu povo. Ao contrário de Heráclito. acabou preso. em seu conteúdo. Em Zenão. é a razão que realiza o começo . por não revelar o nome dos comparsas. . interveio na política. Sobre a Natureza. pelo contrário. 1) Segundo seu elemento tético. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. Zenão.Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). para lá colher fama. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. Essa "harmonia das esferas". a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. torturado e. liquidá-lo e assim libertar-se. em seu movimento. Explicação Crítica de Empédocles. apenas com esta diferença fundamental.15 intervalos musicais. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras.C. Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. pois na mudança seria posto o nãoser daquilo que é. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. Dessa maneira. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. no entanto. e ao perguntar pelos inimigos do Estado. porém. mas não o vemos. mas somente é ser. ao mesmo tempo. a alma pura da ciência . diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. a filosofia de Zenão é. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. ou ela não é nada". tendo.

Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. então Ihe é próprio que seja um. b) Movido. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. diz ele. nem começo. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. o pior viesse do melhor. ele não é limitado. não seriam. quando algo é. Este modo. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. o que é impossível. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. então só há um Deus. somente é o múltiplo. as coisas finitas . não seria capaz de tudo o que quisesse. de um lado temos. se houvesse mais deuses". Ser e não-ser situam-se assim. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. originar-se-ia o não-ser do ente. 0 ilimitado é o indeterminado." Com a aceitação da igualdade. Vemos. uma parte teria determinações que faltariam às outras). Ambas as coisas são. impossíveis. possui ele a forma esférica. Se. nem fim. o poder de Deus. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. b) Dar-se-ia delimitação mútua. estes diferentes não são expressos como diferentes. houvesse mais deuses. Como Deus é em toda parte igual. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. por conseguinte. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. vê e possui também. negando-se predicados. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. válido. nem em repouso nem em movimento. "que. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. deuses. assim. ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. nada pode provir". mas. Em tudo isto. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo." Movido só é o que é diferente de outro. reprimi-la-ia. nem é imóvel. é o não-ente. "O um. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real.16 "É impossível". ao igual. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. e é assim. pelo contrário. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. Deus é e se ele é de tal natureza. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. este afundar-se no abismo da identidade do entendimento.tal coisa é o ilimitado. por exemplo. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. que dele se produza mais do que deve ser produzido. porém. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. determinado como algo unilateral." Diz ainda: "Já que é eterno. Ser é a igualdade expressa como imediata. "o que é impossível. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). O ser. portanto. Se. Como. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. lado a lado. pois um dever-se-ia mover para o outro. Em seguida. pois este não possui nem meio. não está nem em repouso nem se movimenta. Aristóteles conclui que. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). enquanto algo negativo. o imóvel é negativo. como é apenas um. em outra parte de outro modo. nem uma parte . pois não se pode atribuir. ele mesmo. raciocinando-se. "Sendo um. do ser. de argumentar é ainda. a supressão do ser. a reflexão em si. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. nem vice-versa. quer do igual quer do desigual. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. por exemplo. ele não teria poder sobre eles. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. o negativo. Nós dizemos que Deus é imutável. os outros sentimentos. portanto. seria o não-ente. ouve. portanto. ou nada existe fora de Deus. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. Pois. mas em toda parte igual. ou tudo é eterno. Do nada é imediatamente nada. até o dia de hoje. pois. nem vai para coisa alguma. portanto. Deus é eterno. ser. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. pois não é aqui assim. a partir daí. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. não fosse assim. surja" (ele relaciona isto com a divindade). mas assim já é. inversamente. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. do igual. em toda parte." Do fato de nada poder provir. pois. a) ilimitado é o não-ente. espaço. se houvesse diversos. Deus se comporta assim. porém. porém. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. não passa para o ser. o mais antigo. em tal tipo de raciocínio. nosso caminho é trivial e mais óbvio. assim não é o ente.ou não se distingue dele. pois ele é eterno e um. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. é em toda parte igual. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. um e esférico. portanto. ou se.

também ela finita. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. o descobridor da dialética em sua plenitude. em seu Parmênides. no que vimos. tanto no um mesmo. isto é. no movimento. está afastada a determinação do negativo. é apenas afirmativamente. que deixa o finito de lado. ela é posta através da negação. de outro lado. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. suprimem com isto essa determinação. e deixamos. a realidade do mundo finito. dizendo que o finito. devendo então. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. Xenófanes. nos sofistas. porque não concorda com o meu". Isto. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. mas sem qualquer determinação. então. contudo. Eles põem-no fixamente. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é .conseqüência que. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. eles afirmam um dos predicados que se opõem. a mudança é em si contradição. mas ambas as negações que se opõem. mas apenas o ser para o outro é. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. da multiplicidade. numa determinação. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. assim. é. é determinada como o negativo e. ainda que deva ser por nós admirada. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . a multiplicidade está sobressumida. segundo o pressuposto. isto é. assim como se pressupõe o ser. Mas. Eu não . e. terem mostrado que. o negativo de lado. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. assim. demonstrei isto. desta maneira. gêneros. passo a passo. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. ou é negada enquanto finita. esta somente se suprime através de um outro. não ser negada apenas uma determinação. Isto pressentiu Zenão. por exemplo. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. conclui-se. que. também é determinação. na negação absoluta. Parmênides. os eleatas foram mais conseqüentes. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. enquanto o ser supremo. de nosso modo de refletir comum. o nada não é. em seu pensamento. em nossa representação. e o gênero mais alto é então Deus.e pelo fato de. Enquanto nós deixamos valer. não menos. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. Ou passamos do finito para o infinito. só que nós deixamos valer como ser também o finito. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. isto se dá. algo incompreensível: pois do um. sua nulidade não aparece nela mesma. em Zenão. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. enquanto limitado. deve ter seu fundamento no infinito. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). É a mesma separação. através de minha afirmação. o movimento. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. que ele é o nulo. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. como a essência. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. não de maneira que se suprima a si mesma. o oposto. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. com isto não permanece verdade alguma. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . Mas o mesmo deveria acontecer com o resto.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é .o lado negativo da dialética. onde encontram. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. Do mesmo modo. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. ao menos é quem está em seu começo. parte em Heráclito e. o vazio. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. pois ele nega predicados que se opõem.17 e a mudança. ou seja. Portanto. como o nada. que contenha em si uma contradição. como deve ela ser concebida. portanto. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. e então é puramente infinita. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. do ser. é o nada do movimento. serem-si. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. porém. porque previu que o ser é o oposto do nada. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. o que os eleatas desprezaram.

A coisa tem. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. isto é. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. A outra dialética. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. é a demonstração o movimento da convicção. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. A dialética subjetiva. também não é. pois. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. assim o múltiplo é infinito. e o movimento é: tornar-se outro. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. o não-ente. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece.devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição 18 . a essência do com-preender. ele o dá a si. algo exterior. mas a partir da coisa mesma. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. ele se demonstra a si mesmo. o outro não seria por isso diminuído. Conforme a representação corrente da ciência. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. de maneira objetiva e dialética. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações. "Ele demonstra que. deve-se ultrapassar a multiplicidade. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. levar a guerra para território inimigo. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. mas. o que é infinito não é mais grande. A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. o negativo. o sistema que se opõe está errado. Zenão responde que escreveu isto. dever-ser. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. enquanto se move. nada". que raciocina. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. nem massa (ónkos). Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. Nesta consideração. se não tem tamanho e grandeza. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. de maneira que não tem mais grandeza". Podem ser então razões bem exteriores. "pequeno. isto é. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. fortalecido. sua dialética mesma em si. não segundo circunstâncias exteriores. pelo contrário. sobressumir-se. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. porém. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. esta dialética é muito bem descrita. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. portanto. 0 resultado desta dialética é zero. mas em si mesmo. O mesmo aconteceria ao ser retirado. de neles apontar razões e aspectos. assim o que foi acrescentado não é nada. sem pressuposições. mas em si mesmo. baseando-se em razões exteriores. leis. não é. nem mais múltiplo. mostra que possui determinações opostas. infinito é o negativo do múltiplo. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. para passar para o infinito. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. idéia. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. então é grande e pequeno: grande. No Parmênides de Platão (127-128). razões. átomos. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. nem espessura. ligação através de mediação. na medida em que combate o movimento sensível. em que proposições são resultado da demonstração. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. quando é o múltiplo. enquanto limite indiferente. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. segundo a grandeza" (tò mégethos). que o múltiplo não é. A dialética como tal é a) dialética exterior. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. este movimento distinto do compreender deste movimento.

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interna. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse - como nós dizemos, não há elefantes, não há rinocerontes. Que o movimento existe, que ele é fenômeno, isto nem está em questão; o movimento possui certeza sensível, como existem elefantes. Neste sentido, Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. Pelo contrário, seu questionar vai em busca de sua verdade; mas o movimento é não verdadeiro, pois ele é contradição. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma, porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal; é pressuposta a continuidade do espaço. O que se move deve atingir uma determinada meta; este caminho é um todo. Para percorrer o todo, o que é movido deve antes ter percorrido a metade. Agora a meta é o fim desta metade. Mas esta metade é novamente um todo, este espaço possui assim uma metade; deve, portanto, ter atingido antes a metade desta metade, e assim até o infinito. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos, nunca se pode parar com a divisão. Cada grandeza - e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza - é novamente divisível em duas metades; estas devem ser percorridas e, mesmo onde colocamos um espaço o menor possível, sempre surge este mesmo estado de coisas. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina; portanto, o que é movido nunca atinge sua meta. É conhecido como Diógenes de Sínope, o Cínico, refutou tais provas da contradição do movimento, de maneira muito simples; levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá - ele as refutou pela ação. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação, Diógenes o castigou pela simples razão de que, se o professor havia discutido com argumentos, ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível; mas é preciso compreender. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. primeiro em sua contradição - uma consciência dele. O movimento, o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado, um posto segundo sua essência, a saber, (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade - do ponto contra a continuidade. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou, do mesmo modo, o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade, uma duração (dia, ano); mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. A igualdade consigo mesmo, a continuidade é absoluta homogeneidade, é eliminação de toda diferença, de todo negativo, de todo ser para si; o ponto é, pelo contrário, o puro ser para si, o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. Mas estes dois estão postos numa unidade, no espaço e no tempo, espaço e tempo, portanto, a contradição. O mais fácil é mostrá-la no movimento; pois, no movimento, o oposto é também posto para a representação. Pois o movimento e a essência, a realidade do tempo e do espaço; e, enquanto esta aparece, é posta, também é posto já o fenômeno da contradição. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. É a continuidade de um espaço, é o positivo que é posto; e nele o limite que o divide ao meio. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si, mas é algo limitado, é novamente continuidade. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto, mas põe o oposto nela limite que divide ao meio; mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade, a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. Até o infinito - com isto nos representamos um além, que não pode ser atingido, fora da representação que não pode atingi-lo. É um inacabado ultrapassar, mas presente no conceito - um passar além de uma determinação oposta para outra, de continuidade para negatividade, de negatividade para continuidade; elas estão diante de nós. Destes dois momentos pode, no processo, ser afirmado um deles como o essencial. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si, um determinado - nenhum espaço limitado, portanto, continuidade; ou Zenão afirma o avanço neste limitar.

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A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente, mas apenas divisíveis. Parece, entretanto, que, enquanto são divisíveis (potentia, dynámei, não actu, energeía), também devem estar efetivamente divididos infinitamente; pois, de outro modo, não poderiam ser divididos ao infinito - uma resposta geral para a representação. 2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles", o homem dos pés velozes. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. De dois corpos que se movem numa direção, dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância, movendo-se, porém, mais rapidamente que aquele, sabemos que o segundo alcançará o primeiro. Zenão, porém, diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido"; e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga", no começo desta determinada parte do tempo. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava, este já avançou para mais longe, deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo; e assim se vai até o infinito. B percorre numa hora duas milhas, A, no mesmo tempo, uma milha. Se estão separados entre si por duas milhas, então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. Mas o espaço (uma milha), vencido por A, será percorrido por B na metade de uma hora, e assim ao infinito. Desta maneira, o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro; o tempo de que necessita, também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição, e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". Aristóteles, que trata disto, diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. "É algo não verdadeiro; pois o rápido, contudo, alcançará o vagaroso, se Ihe for permitido ultrapassar o limite, o limitado." A resposta é correta e contém tudo. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si - isto é, são limitados, são limites um para o outro. Se, ao contrário, se admite que tempo e espaço são contínuos, de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua, então eles são, igualmente, na medida em que são dois também não dois - são idênticos. Zenão apenas faz valer o limite, a divisão, o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação; por isto surge a contradição. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento, porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto, na realidade unidos. 0 pensamento produziu a queda original, quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal; mas também ressarce este prejuízo. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa", e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo, no "não-distinguível" (en tõ nyn, katà tò íson); ele está aqui, e aqui e aqui. Assim que dizemos que sempre é o mesmo; a isto, porém, não chamamos movimento, mas repouso: o que sempre está no aqui e agora, repousa. Ou devese dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo; não consegue ultrapassar seu espaço, não conquista um outro espaço, isto é, um espaço maior ou menor. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido; o ser limitado é posto como tal, mas o limitar é, contudo, um momento. No aqui agora como tais, não há diferença. No espaço, um ponto é tão bem um aqui como o outro, isto aqui e isto aqui e mais um outro, etc.; e, contudo, o aqui é sempre o mesmo aqui; não são distintos entre si. A continuidade, a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. Cada lugar é lugar diferente - portanto, o mesmo; a diferença é apenas aparente. Não é neste estado de coisas. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares, ao menos três. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo; se, no espaço absoluto, por exemplo, o olho repousa ou se move, é inteiramente o mesmo. Ou, conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram, em círculo, um em torno do outro, surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior, os fios estendidos (tensio filorum). Se num navio caminho na direção oposta da

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direção em que se move o navio, o mover-me é movimento com relação ao navio, mas repouso com relação a outra coisa. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto, nem espaço limitado, mas apenas continuidade absoluta, transgredir todos os limites. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso, a saber, o absoluto ser-limitado, a interrupção da continuidade, nenhuma passagem para outro. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras"; pois, se não se concede isto, não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual, com velocidade igual, um a partir do fim do estádio, o outro a partir do meio, um em direção do outro; disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que, no que se move e no que está em repouso, a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual, com velocidade igual; isto, porém, é falso. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo, o comum, que deve ser atribuído inteiramente a cada parte, enquanto realiza para si apenas uma parte; b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos; é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro, partindo do mesmo ponto, caminha dois pés para o oeste; assim estamos distantes um do outro quatro pés - aqui ambos devem ser somados; na distância de ambos, ambos são positivos. Ou avancei e retrocedi dois pés - no mesmo ponto; ainda que tenha andado quatro pés, não saí do ponto em que estava. 0 movimento é, portanto, nulo; pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. Isto é então a dialética de Zenão. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo; ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. O elemento universal da dialética, a proposição universal da escola eleática foi, portanto: "0 verdadeiro é apenas o um, todo o resto é não-verdadeiro"; como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno, nada verdadeiro"; mas nisto também reside uma diferença. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal, com suas formas infinitamente diversas - este lado não possui verdade em si mesmo". Nào é, porém, isto que pensa Kant. Ele afirma: Voltando-se para o mundo, quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior), voltando-se para ele, fazemos dele um fenômeno; é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível, determinações da reflexão, etc. Só nosso conhecimento é fenômeno, o mundo é em si absolutamente verdadeiro; só nossa aplicação, nosso acréscimo o arruína para nós; o que acrescentamos, nada vale. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. Isto é então a grande diferença. Este conteúdo também é nulo em Zenão; mas, em Kant, porque é obra nossa. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo; segundo Zenão, é o mundo, o que aparece em si que é não-verdadeiro. Segundo Kant, é nosso pensar, a atividade de nosso espírito o elemento mau - é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos - enquanto seres sensíveis, tão bons ou tão maus como os pardais. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde, com os sofistas, tornou se universal. 1.5 - Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. mas muitas lendas. Viagens extraordinárias, a ruína material, as honras que recebeu de seus concidadãos, sua solidão, seu grande poder de trabalho. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. . .

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Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio, o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. Se o espaço é absolutamente pleno, não pode haver movimento. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio, pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo; se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço, poderia haver uma infinidade deles, pois o menor poderia acolher em si o maior; 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio; 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo; 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio, a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. O não ser é, portanto, também o pleno, nastón (de nasso, ou aperto), o stereón. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito, não haveria mais nenhuma grandeza, não haveria mais ser. Se deve subsistir um pleno, isto é, um ser, é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. Mas o movimento demonstra o ser, tanto quanto o não-ser. Se somente o não ser existisse, não haveria movimento. O que resta são os átomos. O ser é a unidade indivisível. Mas, se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque, é preciso que sejam de natureza idêntica. Demócrito afirma, portanto, como Pitágoras, que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. Se um átomo fosse o que o outro não é, haveria um não-ser, o que é uma contradição. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. São chamadas também idéai ou skhémata. Todas as qualidades são nómo, os seres só diferem pela quantidade. É preciso, pois, remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós, skhéma), pela ordem (diathigé, táxis), peia posição (tropé, thésis). A difere de N pela forma, AN de NA pela ordem, Z de N pela posição. A principal diferença está na forma, que indica diferença de grandeza e de peso. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). Como todos os seres são da mesma natureza, o peso deve pertencer igualmente a todos, isto é, à mesma massa, o mesmo peso. O ser, portanto, é definido como pleno, dotado de uma forma, pesado; os corpos são idênticos a esses predicados. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas, fora de nossa representação; não se pode fazer abstração delas; são: a extensão, a impermeabilidade, a forma, o número. Todas as outras qualidades são secundárias, produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos, dos quais são apenas as impressões: cor, som, gosto, odor, dureza, moleza, polido, rugoso, etc. Pode-se, portanto, fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos; desaparece quando esse grupo se desfaz, muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos; se há separação no espaço, recorre-se à teoria das aporrhoaí. Percebese, pois, que Empédocles foi utilizado a fundo, pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. Demócrito adota uma posição adversa. Anaxágoras reconhecia quatro elementos; Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos; nos outros elementos estão misturados átomos diversos; os elementos distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. É por isso que a água, a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. Demócrito pensa, com Empédocles, que somente o semelhante age sobre o semelhante. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. O ponto de partida de Demócrito, a realidade do movimento, Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles, provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. Com Anaxágoras, tem em comum os ápeira ou matérias originais. Naturalmente, é antes de tudo de Parmênides que ele procede, é este que domina todas as suas concepções fundamentais. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides, segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento, a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas.

lisos e arredondados (de fogo). Os átomos centrais formam a terra. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. mas um conjunto de leis rigorosas. anánke sem intenções. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. Epicuro. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). Alguns formam massas espessas. isso seria equivalente ao repouso absoluto.. p. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. a velocidade sendo desigual. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. o que é de mesma natureza.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. Cada vez que nasce um mundo.. não se pode indicar sua velocidade. embora não racionais. parte das qualidades reais da matéria. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. no começo. seu movimento. O movimento original é. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. Assim a terra se solidifica. não procura logo de início. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. produz-se um movimento giratório. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. tem-se. uma hipótese cientificamente utilizável. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. o fogo. movia-se de um lado para outro. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. ser feita da matéria mais móvel. há infinitos mundos. como se fossem expulsos. da espécie mais comum. de átomos sutis. O pensamento é um movimento. eles se encontram. Leia-se Kant. Parece-me que se poderia dizer aqui. aqueles que se elevam formam o céu. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. perpetuamente agitados. esta hipótese. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. em um estágio antigo de sua formação. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. com o auxílio de um mecanismo cego. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. Demócrito. sob o efeito combinado de forças opostas. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar . concursu quodam fortuito. Estes nasceram e perecerão. ultrapassar as forças mais simples. bem entendido. no espaço infinito.23 De todos os sistemas antigos. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. Não há acaso. pois. A alma deve.. primeiramente. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. É a concepção mais terra-a-terra. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. o materialismo. quando ela era ainda pequena e leve. tem muita analogia com a minha. Do mesmo modo. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. Esse turbilhão aproxima. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. 48. Leucipo. as partes mais leves são empurradas para o alto. Nascimento dos seres animados. alguns são repelidos. pelo choque. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. os outros permanecem juntos. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. pois. é esta que move os seres animados. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. vertical. o ar. os mais leves são repelidos para o vazio exterior. e eu vos farei um mundo' ". O sol e a lua. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. enfim. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. A essência da alma reside em sua força animadora. a massa entra em rotação. Estes se movem perpetuamente. sempre foi da maior utilidade. em certo sentido. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. Rosenkr. História Natural do Céu.. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade.

aqui e ali. lembram Aristóteles e sua metropathía. agente. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. Isso não acontece em um instante. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma. O sono . extenso. por um lado. Enfim. É uma prodigiosa petição de princípios. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. disso nasce a representação das coisas. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. Mais tarde. se não no absoluto. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido.. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. de repente. Tudo o que é objetivo. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). o fogo interior escapa. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. É disso que nos preserva a respiração. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. para cuja produção cooperamos sempre. um concreto extremamente relativo. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós. Teoria das percepções dos sentidos. . Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. quando atravessava o rio a cavalo. Somente o semelhante sente o semelhante. . A tradição não prova nada. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. Junta-se a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. O contato não é imediato. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. que puxava para cima. Trata-se do mundo que é o nosso.morte aparente. opera-se por meio das aporrhoaí. Por outro lado. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. deduzir o único dado imediato. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. Se a respiração cessa. . que. . os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo.24 circundante. sob sua marca. percebe exatamente os objetos. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o rmaterialismo. Com efeito. na verdade. É de um tal dado que o materialismo quer. Se este é o inventor da idéia principal. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. as representações são falsas e o pensamento é malsão. não passa de um dado extremamente mediato. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. é uma representação cômoda nas ciências naturais. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. o pensamento é sadio. Assim. potanto material. . assim como os de Epicuro. Disso resulta a morte. do espaço e da causalidade. que o veneno já estava por demais alastrado. A percepção é idêntica ao pensamento. introduzindo. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. a representação. enfim. mas. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. O cristianismo nascente. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. Não são indignos de Demócrito. como a encarnação do paganismo. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. Duas condições são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe.. agora. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. enquanto.

a queda e o choque. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. seu juízo sobre os poetas. – É a meta de sua filosofia. pai do racionalismo. ao passar em revista os sistemas anteriores. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. É o que prova sua própria descrição. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. Ainda não havia notado. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. . sem dúvida. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. Inquietações conjugais: adoção de filhos. Aversão ao bizarro. de uma completa clareza. Sobre o problema da origem do mundo. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. O Mal excluído de seu sistema. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural).. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. Entretanto. É na moral que está a chave da física de Demócrito. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. Ele se atrela a este. Sobre a questão da criação do mundo. o espetáculo dos sacrifícios. Sentimento de um progresso poderoso. ele não perde o senso da poesia. "Contenta-te com o mundo tal como é". Recusam-lhe uma sepultura honrada. resultado do estudo cientifico.. Viagens. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". etc. É. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. Pitágoras. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. mas sentimos sua força poética. esse Humboldt do mundo antigo. A ética de Demócrito é conservadora. Paz de espírito. Não acreditamos nos contos. é por não conhecer a natureza. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. Inquietações morais: ascetismo. pois deixavam subsistir um elemento irracional. igualmente. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. de seus raros predecessores. Uma seqüência infinita de anos. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si.25 Todos os materialistas pensam que. ele foi. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. Demócrito é perfeitamente claro. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. Fé absoluta em seu sistema.aquilo que Ihe era homogêneo. Clareza. Inquietações míticas: racionalismo.. e a terra acaba por ser o que é. a viver das esmolas de seu irmão. reduzido. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. quase morrera de fome. Aitíai. É que sua vontade é a mola de sua investigação. se o homem é infeliz. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. desprezado em vida. Sua cidade natal o toma por um pródigo. um racionalista confiante. é o cânon moral que o materialismo produziu. como um mendigo. acomodava à sua maneira os deuses. Retorna pobre e sem recursos. Simplicidade do método. Inquietações políticas: quietismo. conservou. Demócrito. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. Sente-se impelido a correr o mundo. Arrojo poético (poesia do atomismo). Racionalista encarnado. pois.

detestavam qualquer tipo de estudo. fazer uma edição das obras de Demócrito. Por isso. porém. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. como aquelas de Anaxágoras e outrem. Demócrito foi discípulo de Leucipo. Parece. Disse também algures que. e temos uma prova contemporânea. Para nos. bem como.C. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. Quanto à data do seu nascimento. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. Como Sócrates. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. como se diz. da mesma forma que ele. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. a Anaxágoras. por outro lado. Um membro posterior da escola. deu grande atenção ao problema do comportamento. o que parece muito provável. pois era também jônio do Norte. quando.26 Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. sob o reinado de Tibério. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. porém. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. que também os pitagóricos foram seus mestres. Apolodoro de Quizico. Se Demócrito morreu. quando Anaxágoras era velho. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. Em uma das principais obras. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. conhece bem Demócrito. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. Aristóteles. não obstante. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. Ao contrário de Sócrates. segundo a suposição dele. seu contemporâneo. na biblioteca da Academia. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. entretanto. era natural de Abdera na Trácia. isto ocorrera. Se disse isto. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. mas sim o cabeça de uma escola regular. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". outrossim. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. e sem dúvida alguma na Jonia. Diz-se ter visitado o Egito. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. . sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. com a idade de noventa ou cem anos. a de Glauco de Régio. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. no qual parece que o reproduz. e obscurece o fato de que. Demais. Como Protágoras. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. Sabemos. através dos scus fragmentos. Por outro lado. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. temos apenas conjeturas para nos orientar. Fez menção a Anaxágoras. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. não sabemos. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. de fato. outros aspectos do seu sistema. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. ele era jovem. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. cedo demais. e. ele era um autor volumoso. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. que geralmente fora atribuída em Atenas. Os epicuristas. como Sócrates. é como se não tivesse escrito quase nada. e nós ainda podemos constatar. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. É certo. organizada em tetralogias. foi possível para Trasilo. contudo. ao qual também os sofistas deram impulsos. ensinando e escrevendo em Abdera. Seja como for.

tais como forma. A originalidade de Demócrito. portanto. pois "a verdade jaz num abismo" . Menos ainda está no seu sistema cosmológico. tamanho e peso. pelo contrário. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. Se não houvesse ar. afirmou Demócrito (fragmento 9). Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. isto não seria assim. embora não com os mesmos detalhes. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. o problema do comportamento tornara-se premente. se a distância for grande. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. Não é. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. apesar de serem causadas por algo fora de nós. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. Deveras. o molhado e o seco e outros que tais. uma semelhança exata do corpo do qual provém. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. mas somente o vazio. Nisto. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. A possibilidade de ciência havia sido negada. De modo idêntico. por convenção há o amargo. não podemos vê-las de modo algum. as nossas que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. há os átomos e o vazio. e era isto que exigia uma solução. e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. Sua doutrina. "Pelos sentidos". e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. mas as "imagens" (deíkela. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. que acima foi descrito. entre nós e os objetos da visão. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. A audição explica-se de uma maneira similar. por convenção há o quente e por convenção há o frio. todavia. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. que deriva mormente de Anaxágoras. Parmênides afirmara claramente que o paladar. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). sensações não representam nada de externo. felizmente. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. portanto." Não podemos conhecer a realidade deste modo. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. Seguindo o exemplo de Protágoras. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. as cores. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. e o olfato explica-se semelhantemente. Demócrito. Chegou. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. naturalmente." Porém. o tato. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. Este. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento".27 A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. Ademais. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". e por que. foinos preservada através de suas próprias palavras. porém. mas somente alguma coisa "há o doce. por convenção há a cor. Para compreender esta questão. na realidade (etee). Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele.

O legítimo. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. mas nele penetram em qualquer direção. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. que é composto de círculos iguais e não desiguais. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. contudo. "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). ressalva a possibilidade de ciência. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). devemos lembrar que a palavra daímon. De um lado. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. o que é o maior absurdo". a alma é a moradia do daímon " (fragmento 171). e o fato. está fora da discussão. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. Na realidade. Ele diz que o mel. a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. pois. embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. . se pudéssemos restabelecê-las integralmente. Defendeu. Ao mesmo tempo. "Há". a audição. nem em ouro. Demócrito." O conhecimento "legítimo" não é. porém.28 (fragmento 117). Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. porém. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. mas uma espécie de sentido interno. o olfato. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). diz ele (fragmento 11). o aspecto individual de týkhe. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. afinal de contas. que significava propriamente um espírito protetor do homem. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. É evidente. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. É. O "conhecimento legítimo" é. por exemplo. Para compreender isto. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. como foi dito. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. chegando assim a conhecê-los como realmente são. está separado daquele. Segundo um comentário de Arquimedes. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. farão irregular o cone. doce para mim e amargo para você. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. como eles. ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. apesar de tudo. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. é tanto amargo quanto doce. com efeito. e o cone terá a aparência de um cilindro. pois. e Demócrito recusou-se. por conseguinte. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. então as partes cortadas serão iguais. Se forem iguais. da mesma natureza do "ilegítimo". Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual." Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. pois. tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". como o fizera do ilegítimo. o paladar e o tato. como Sócrates. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. Teu tiro é uma capitulação. "Pobre Mente". "A felicidade não reside em rebanhos. pensamento. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. É muito difícil.

A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável das muitas perdas desse tipo. quanto ao resto. Por outro lado. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. até então limitado à natureza exterior. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. precursoras. através de Sócrates e Platão. pitagórico. escolhe os humanos" . mas em torno do homem e do espírito. Para Demócrito. o século IV a. Para o nosso presente objetivo. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. o corpo). Abraça. que foi um verdadeiro gênio neste campo. como Sócrates.29 Isto não é. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). Este é. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. porém. como Leucipo houvera feito. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. do estoicismo e do escolhe os mais divinos. que foram dignas de constar nas antologias. Infelizmente. sem dúvida. o sossego do corpo. de preferência. sendo principais a cínica e a cirenaica. Este. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida.teve duração bastante curta. O interesse dos filósofos gira. respectivamente. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico.. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. e facilmente se transformam ao contrário. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. substancialmente. e o sossego da alma.depois do qual começa a decadência . (fragmento 37). cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. e é a esta que devemos agora retornar. Para atingi-lo. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). e. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). e através também da precedente crise cética da sofística. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. porém. que o seu real interesse está em outro sentido. culminando em Aristóteles. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". e este é um estado da alma.C. se fosse preciso uma demonstração. e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. que é a saúde. Se aplicarmos este critério aos prazeres. poderemos alcançar o sossego. a Terra era ainda um disco. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. Com efeito. Ao mesmo tempo. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. Do nosso ponto de vista. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. Esse período esplêndido do pensamento grego . Os homens puseram a culpa na sorte. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. "Quem escolhe os bens da alma. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. hedonismo vulgar. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. que é a alegria. não em torno da natureza. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). devemos ser capazes de ponderar. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. Além disso. Demócrito afirmou. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização.

mas sobejamente retribuído. uma pura convenção. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos.como norma universal de conduta . muitas vezes arbitrário. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. a única regra de conduta é o interesse particular. de retórica. não lhe interessa. destruidor da ciência. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. na justiça para com os outros. mas prudência e habilidade. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade .é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. por conseguinte. Platão e Aristóteles. desinteressado. quer política. não está na ação ética e ascética. considerando a lei como fruto arbitrário. não a natureza humana racional. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. ao impulso. A época de ouro da sofística foi . E tentam criticar a vaidade desta lei. instintiva. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. destruidor da moral. Os sofistas. A moral. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. Os menores foram uma plêiade. A sofística move uma justa crítica. tirânico. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. no prazer e no domínio violento dos homens. em tal regime. materiais. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. embora sem importância filosófica. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . superficial.dizem . em situação semelhante. mediante graves crimes. pois grandes malvados. atenienses. não é mister justiça e retidão. mas como meio para fins práticos e empíricos e.pode-se dizer . . contingente. É esta. em nome do direito natural. portanto.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. isto é. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. o ensinamento dos sofistas não era ideal. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. a experiência ensina que para triunfar no mundo. aliás. E visto que o domínio pessoal. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. continuando até depois de Sócrates. O centro foi Atenas. a Atenas de Péricles. portanto. naturalmente. e entendendo por natureza. animal. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. devia ter a oratória e. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. interessado. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. contra o império persa. Protágoras foi o maior de todos. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. à paixão de cada um em cada momento.bem como a moral .C. Moral. Ao sensualismo. portanto. compreende-se a importância que. chefe de escola e teórico da sofística. Os sofistas maiores foram quatro. tornaram-se mestres de eloqüência. como na gnosiologia e na moral. mas a natureza humana sensível.que a submissão à lei torne os homens felizes. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. como acontece todas as vezes que o povo sente. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. mas como um empecilho que incomoda o homem. houve um triunfo político da democracia. a cultura. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. que a causa seja justa ou não. segundo o ideal dos sofistas. a sua força. não para si mesma.30 epicurismo do período seguinte. Então a realização da humanidade perfeita. Quanto ao direito e à religião. a posição da sofística é extremista também. os mestres de eloqüência. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda.a segunda metade do século V a. mortificador. quer moral. no domínio de si mesmo. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. de repente. exige que o forte. Desta maneira. aliás. Diversamente dos filósofos gregos em geral. oprima o fraco em seu proveito. deles procedendo a Academia e o Liceu . uma enciclopédia. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. Mas este direito natural . a sofística sustenta o relativismo prático. contra o direito positivo. Seria. o poderoso.

o direito natural é o direito do mais poderoso. ensinando na sua cidade natal. Menos profundo. exagerador dos artifícios da dialética eleática. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. foi Sócrates. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. pelo menos praticamente. em Atenas. em outras cidades da Grécia. mediante o ensinamento da retórica. outros pueris. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. em 480-375 a. Acusado de ateísmo. passional.C. teve de fugir de Atenas. porém. sobretudo entre os jovens. Em suma. Para remediar este extremo individualismo. pois. social. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas.representa a maior expressão prática da sofística. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. Então. mas .de harmonia com o ceticismo deles . Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. quarenta dedicados à sua profissão. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. .C . mais eloqüente que Protágoras.pelo ano 480.segundo os sofistas. o homem é a medida de todas as coisas. e de Fenáreta. cuja escola conheceu . Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. Aprendeu a arte paterna. para pedir auxílio contra os siracusanos. Refugiou-se então na Sicília. Os sofistas. instintiva. parteira.pátria de Demócrito . A respeito da religião e da divindade. conforme as disposições subjetivas dos órgãos. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. No Górgias de Platão.). A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. até o ateísmo. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. não obstante sua pobreza. e sim sobre a sua natureza animal. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. onde teve grande êxito. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. não na sua realidade física. sutis uns. dos quais. Subjetivismo. Combateu a Potidéia. filho de Sofrônico. o único sistema jurídico admissível. Ensinou na Sicília. porém. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera .31 natural . servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. foi um filósofo ocasional. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber.C. na Sicília. mas na sua forma conhecida. na Magna Grécia.chegam até o extremo. teoricamente. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. Protágoras recorre à convenção estatal. onde morreu com setenta anos (410 a. sem recompensa alguma. orientando-a para os valores universais. negador dos valores teoréticos e morais. Viajou por toda a Grécia. onde carregou aos ombros a Xenofonte. onde foi processado e condenado por impiedade. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Sócrates A Vida Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública.correlacionado com Empédocles . até estabelecer-se em Larissa na Tessália.. e especialmente em Atenas. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. É autor duma obra intitulada "Do não ser". segundo a via real do pensamento grego. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. escultor. em Atenas. e a um outro o de Górgias. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. onde teria morrido com 109 anos de idade.

que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. criaram descontentamento geral. honestos. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. na exposição polêmica e didática destas idéias. foram: "Devemos um galo a Esculápio". conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. eliminar-lhes as diferenças individuais. Morreu Sócrates em 399 a. é o inteligível.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. Sócrates adotava sempre o diálogo. multiplicava ainda as perguntas. Quanto à política. tomou forma jurídica. podemos dizer que Sócrates não teve. mas é um meio de generalização. permanente. em geral. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). com 71 anos de idade. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. na acusação movida contra ele por Mileto. porém. a sua atitude crítica. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. E preferiu a morte. a essência da coisa. No segundo caso. Praticamente. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. o conceito que se exprime pela definição.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. dirigindo-as agora ao fim de .que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. o particular. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. a feição austera de seu caráter.32 gravemente ferido. Mas. Quanto à família. Declarado culpado por uma pequena minoria. bem como de certos elementos racionários. uma mulher ideal na quérula Xantipa. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. Sócrates. vivendo justamente e formando cidadãos sábios.C. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. que vai do fenômeno à lei. apesar de sua probidade. para a imortalidade.diversamente dos sofistas. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. hostilidade popular. Inteiramente absorvido pela sua vocação. É a ironia socrática. O objeto da ciência não é o sensível. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. No primeiro caso. determinando o verdadeiro objeto da ciência. temperados . que remonta do indivíduo à noção universal. e sim o juízo eterno da razão. Diante da tirania popular. na moldura da alta cultura ateniense da época. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. que revestia uma dúplice forma. a natureza. recusou. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. Entretanto. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. a liberdade de seus discursos. por certo. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. estável. inimizades pessoais. Método de Sócrates É a parte polêmica. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. o indivíduo que passa.

em geral. Com efeito. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. Como os sofistas. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. que se concretizava. uma definição geral do objeto em questão. em memória da profissão materna. acima das leis mutáveis e escritas. uma das mais características da moral socrática. em seus Ditos Memoráveis. ele é cético a respeito da cosmologia e. Em teodicéia. Platão. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . de estilo simples e harmonioso. da causa eficiente: se o homem é inteligente. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. Sócrates não deixou nada escrito. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. Xenofonte. ignorância e vício são sinônimos. com finalidades práticas. com ela se identifica. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. a existência de uma lei natural independente do arbítrio humano. virtude e ciência. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. autor de Anábase. fim supremo do homem.como sendo o ápice da sabedoria. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. "Se músico é o que sabe música. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. mas não define o livre arbítrio. de feição intelectual muito diferente. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. bem como o seu biógrafo genial. Sócrates. que é o desejo da ciência mediante a virtude. pedreiro o que sabe edificar. mas é também Providência. Seja como for. também inteligente deve ser a causa que o produziu. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. b) com o argumento. Em psicologia. Apesar destas doutrinas elevadas. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. um conceito. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. fonte primordial de todo direito positivo. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. justo será o que sabe a justiça".33 obter. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. por indução dos casos particulares e concretos. identificando a vontade com a inteligência. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. antes. que facilitava a parturição das idéias. um legislador. morais. torna-te consciente de tua ignorância .isto é. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. Deus não só existe. Como é sabido. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. É a parte culminante da sua filosofia. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. . "Conhece-te a ti mesmo" . A este processo pedagógico.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. sendo mais um homem de ação do que um pensador. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. Esta doutrina. pelo contrário. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. em prática. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. Moral. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. espiritual. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. que a promulgou e sancionou. mas sem profundidade. Xenofonte. a respeito da metafísica. sensitivo e intelectual. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. apenas esboçado. universal. Sócrates reconhece também. distingue as duas ordens de conhecimento. é a prática da virtude.

Entretanto. totalmente. para organizar racionalmente a própria vida. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. introspecção. Entretanto. e a virtude mediante o conhecimento . não particulares. A gnosiologia de Sócrates. e nos dá a essência da realidade.tornava impossível o livre arbítrio. não sentimento. esta felicidade. sem metafísica. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. Vale dizer que o agir humano . um poderoso impulso para o saber. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. uma grande metafísica e.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. assim é o fundador. não o seu conteúdo.realizando-se o bem mediante a virtude.que não é absolutamente subjetivista. Virtude é inteligência. pragmatismo. em particular da ciência moral. precisa . Esta interioridade do saber. antes de tudo. portanto. ação racional. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. opiniões.Sócrates não sabe. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. dada a sua revalidação da ciência. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. superado. de um ceticismo de fato. Sócrates. Mas. partindo dos pressupostos socráticos. este é o momento da ironia. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. ativismo. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. a indução: isto é. ceticismo sistemático. definição. da experiência ao conceito. todavia.bem como o conhecer humano . opinião comum. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. tradição. Antes de tudo. desenvolverão uma gnosiologia acabada. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. no pensamento de Sócrates. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. que está contra todo voluntarismo. mas apenas metódico. que será percorrido por Platão e acabado. do teorético. A filosofia socrática. O fim da filosofia é a moral. embora o pensamento socrático fique. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. conceptual é. Esta ignorância não é. isto é. subindo até à razão. . mas é a certeza objetiva da própria razão . esta intimidade da ciência .afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . donde é preciso extraí-la. ciência. mediante a doutrina do conceito.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. reivindica a independência da autoridade e da tradição.bem como ignorância e vício . logo. porém. que declara auxiliar os partos do espírito. a favor da reflexão livre e da convicção racional. não de direito. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. depois. para realizar o próprio fim. rotina. dos preconceitos. de par com os sofistas. o itinerário. enfim. consciência de si mesmo quer dizer. remontar do particular ao universal. ainda que com finalidade diversa. identificando conhecimento e virtude .se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. para construir uma ética é necessário uma teoria. razão. costume. antes de tudo. portanto. Tudo isto tem que ser criticado. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. indução. o ignorante. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. limita-se à gnosiologia e à ética. se o fim da filosofia é prático. Traçou. É a famosa maiêutica de Sócrates. é mister conhecê-lo. da crítica.como ensinavam os sofistas. por sua vez. no entanto. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. da opinião à ciência. a ciência. não descendo até à animalidade . no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. Este conceito é. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. determinado precisamente mediante a definição. pela ausência de uma metafísica. maiêutica. por Aristóteles. o prático depende. lei positiva. de fato. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. mas dirigida para os valores universais. ignorância. no dizer de Sócrates. sentimentalismo. Estes dois filósofos. uma moral. por conseguinte. malvado. significa precisamente consciência racional de si mesmo.34 trata-se. precisamente porque lhe falta uma metafísica. pois. científico. nem pode precisar este bem. racionalismo. consciência da própria ignorância inicial e. Se o fim do homem for o bem . a qual é um valor universal. mediante a razão.

Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. o herdeiro genuíno de suas idéias. respondeu: . exercido sobre os contemporâneos tamanha influência.35 Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. mas não só ele. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. ao se aproximar do Pórtico do Rei. fundada por Antístenes (n. c. fundada por Euclides (449-369). que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. porém. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. de admirar que um homem. Não é. contra Sócrates. 2. Estas . O acusador era Meleto. porém. neste caso. que. (n. 3. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. vemos que Sócrates. também Ânito e Lícon. mediante o pensamento socrático. Dentre os herdeiros de Sócrates. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. durante o segundo período. Meleto era o acusador oficial. e culmina em Aristóteles. Dentre estes. filho de Meleto. no entanto. tenha. A escola socrática maior é a platônica. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. de introduzir novos cultos.C. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. é culpado de corromper a juventude. Entre os seus numerosos discípulos. São fundadores das escolas socráticas menores. nem deixou algo de escrito. por último. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. degenerou.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. em janeiro de 399 a. alguns. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão.o conceito .. 445). A escola cirenaica ou hedonista. direta ou indiretamente. assumindo. total responsabilidade. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. verdadeiros continuadores da tradição socrática. pela novidade de suas idéias. vegetaram na penumbra. do povoado de Piteo. c. Fora desta escola começa a decadência e desenvolverse-ão as escolas socráticas menores. dele depende. a qual. mas um cidadão podia. descobriu o método e fundou uma grande escola. a acusação apresentada contra Sócrates. A escola de Megara. E. Estas escolas. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). das quais as mais conhecidas são: 1. filho de Sofronisco.mesmo diferenciando-se bastante entre si . No Eutífron. mas somente aquele que assinava a acusação. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. como Alcibíades e Eurípedes. como Xenofonte. pois. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . do povoado de Alópece. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. A escola cínica. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. onde fora afixada a acusação por Meleto. Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. sustentando-o com a autoridade de seu nome. hábil ou temível. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. Por isso. além de simples amadores. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. e. fundada por Aristipo. que. toda a especulação grega que se seguiu. também. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri.

A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. isto é. não resta dúvida. pois um jovem poeta de 399 a. que com muita facilidade te dedicas à maledicência.C. comerciante de couro. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. por sua vez. À parte o problema da mudança de lado . de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. afirmara-se o culto patriarcal. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. como o próprio Sócrates repete. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. que se vale do nome de Meleto. existem muitas dúvidas. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. se prestaram a deter Leon de Salamina. . regressou de File com estes e tomou parte da expedição armada contra o governo dos tiranos. nessa época de instalação do regime democrático. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a.C. por ordem dos Trinta Tiranos. fora discípulo de Anaxágoras. A bem da verdade. que tenhas cuidado". Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. segundo comprova sua atuação no Mênon.C. em 399 a. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. em que Zeus era o deus-pai. condenado. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. do povoado de Piteo. já então tido como um fanático religioso. Ânito. e sim afastá-lo de Atenas. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. Ânito era filho de Antemione. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates.C.C. um movimento reacionário em termos de culto. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. juntamente com Trasíbulo e outros. não disse que Meleto era um desses homens. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. por conseguinte. o qual.36 "Sei bem pouco a respeito dele. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. o mais importante dos acusadores. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". embora. sendo estratego em 410 a. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. ó Sócrates. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. o líder máximo. em 404 a. mediante palavras e atos. Sócrates dera. mas sim por questões evidentemente políticas. em sua defesa. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. nascera por volta de – 150 a. se quiseres me ouvir. Tanto isso é verdade que. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço. Julgar tratar-se do Meleto que. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. Mas é preciso frisar que o propósito. e eu te aconselho. fique apenas no campo da suposição. e sim escrita por Platão. logicamente. Mas não há elementos em que basear essa suposição. Portanto.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. Acredito chamar-se Meleto. Contudo. Desde a época de Sócrates. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. vindo a ser. não era matá-lo. já que nada corrobora realmente esta pretensão. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. de cabelos lisos. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. No que concerne à condenação por motivos religiosos. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. dava a impressão de conhecer Sócrates.. Ânito manteve relação com Sócrates. Desse modo. seria muito conveniente.C.. é aquele que. existe outro obstáculo. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina.. Depois da restauração do regime democrático.

Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. assim. não disseram nenhuma. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. isso presumindo que existisse alguma. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. e os jovens. desprezando a economia doméstica e a riqueza. Ártemis é filha de Zeus. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. lua cheia a lua minguante. sobretudo. e seus aspectos: marinho. enquanto Sócrates pôde permanecer. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. Preâmbulo Desconheço atenienses. Réia vem a ser adorada como Hera. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. e não se pode afirmar. quanto a Cérbero. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. a mim próprio. não corarem . em seus três aspectos: lua crescente. e não os novos fatos. porém. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor.37 Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. seus instrumentos de fertilização e prazer. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. Zagreus torna-se Zeus. bem pouco confiável. revela-se. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. esposa de Cronos. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. o mais feroz dos Tiranos. portanto. havia sido seu discípulo. em seu comentário à Apologia. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. de fato. Com efeito. A Tripla Deusa. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocálos de novo à luz do dia". pelos testemunhos que possuímos. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. outro aspecto de Zeus. insiste no fato de que. pois com freqüência era visto discutindo em público. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. durante o mandato dos Trinta. o Deus-Agnes. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. O que significava aquela sabedoria. venerada como Réia. Querofonte foi obrigado a se exilar. ou o Agnos-Deus. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. seu filho. Portanto. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. e a argumentação de Burnet. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. lunar e noturno. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. que era sempre devorado pelo tempo. Ademais. Uma. um dos aspectos de Zeus. e também Alcebíades. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. Anfitrite é esposa de Posêidon. isto é. porém. representa Hécate. Crísias. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. como Anfitrite. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. quase me fizeram esquecer quem sou. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. minianos e jônios. Dessa maneira. De verdades. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. Ártemis e Cérbero. e permanece virgem.

procuraram colocar-vos contra mim. e assim. não a estranheis nem vos revolteis por isso. serão expressões espontâneas. . na minha defesa. sempre faltando com a verdade. de verdades eles não disseram alguma. que martiriza meu coração há tanto tempo. em dizer a verdade. Faço-vos. nem acusar ninguém por difamação. e de outro. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. que poderia ser talvez pior. Defender-me-ei. possa ser extirpada. ó cidadãos. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. nos termos que me ocorrerem. aprimorados em substantivos e verbos. de mim. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. sou um orador. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. Seja como for. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. o que é mais grave. pois à lei é necessário obedecer e defender-se. e em outros lugares. os que me acusam há pouco tempo. atenienses. A Defesa de Sócrates Enunciado Diversidade Entre Duas Categorias de Acusadores: os Antigos e os Recentes Em princípio. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. ó atenienses. e. em estilo florido. para a minha linguagem. se ouvirdes. nem espere outra coisa qualquer um de vós. acusaram-me obstinadamente. em contraste com eles. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado.38 de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. Mas os primeiros são muito mais perigosos. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. contudo. repito-o. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. se é o que entendem. talvez melhor. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. assim. sinto-me. porém. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. E se eu for bem-sucedido. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. e. porém os outros – os que. uma súplica premente. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. senhores. que propalaram essas coisas acerca de mim. onde tantos dentre vós me haveis escutado. que é de justiça a meu ver. ó atenienses. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. Estes. e assim descobrirei se aquela calúnia. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. que especula a respeito das coisas do céu. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. em resumo. em verdade. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. como crianças que deviam ser educadas. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. junto das bancas. Nisso reside o mérito de um juiz. e acusar de mentiroso a quem não responde. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. são os acusadores que mais receio. porque. Portanto. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. o de um orador. porque deposito confiança na justiça do que digo. um pedido. portanto. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. não ouvireis discursos como os deles. Se eu fosse de fato um estrangeiro. Verdadeiramente. que esquadrinha todos os segredos obscuros. será excelente para vós e para mim. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. Mas não por Zeus. sem que eu contasse com alguém para me defender. homem de muita sabedoria. ao mostrar-me um orador nada formidável. ó atenienses. vós ouvireis a verdade inteira. embora estes sejam acusadores perigosos. ao ouvi-los. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. eu admitiria que. esses todos não podem ser encontrados. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. atenienses. completamente estrangeiro à linguagem do local. exceto o de um comediógrafo.

ó atenienses. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. aos quais seria mais fácil. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. mas teus filhos são homens. E a respeito de ser sábio. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. que não me ocupo desses assuntos. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. filho de Hipônico. parabenizei esse tal de Eveno. Ouvi também referências a outro homem. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. – E quem é ele? – indaguei-lhe. A acusação possui mais ou menos este teor. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. não. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. e. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". Escutai-me. isto também não passa de mentira. estou falando sério. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. portanto. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. e sem ter de gastar dinheiro. mais ainda. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. No íntimo. Não faltaria quem. Ao . homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. e outro amontoado de tolices. uma sabedoria estritamente humana. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. que não consigo compreender nem um pouco. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. receio possuir esta única sabedoria. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. contudo eu não sei. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. afirmando que caminha em cima das nuvens. que educação. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. Ó atenienses. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. Perguntei a ele: – Cálias. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. se muitos te acusaram. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza.39 Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. ó atenienses. Mesmo que. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. acompanhando Meleto. ou seja. e o soube por intermédio de Cálias. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. e recorro à maioria de vós para que sirvam de testemunhas. de Paros. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus.

fosse mais sábio que ele. Resumindo. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. Após ter ouvido a resposta do oráculo. se me afiguraram melhores e mais sábios. porque não sei. Peguei suas melhores poesias. com desagrado e assombro. Estou com vergonha. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. juntamente com muitos outros. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. devo dizervos de novo a verdade. também não julgava saber. mas afirmo que não a conheço. mas talvez não o fosse de verdade. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobrehumana. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. que todos passaram a me odiar e que. eu e ele. Por fim. ao contrário.40 passo que esses. pareceram-me quase todos em maior erro. E longamente me mantive nesta dúvida. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". a partir daquele momento. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. que não é meu depoimento. não só ele passou a me odiar. neste sentido. Pesquisa Junto aos Poetas Não obstante isso. não o era. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. enquanto eu. ó cidadãos. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. De minha sabedoria. Todos vós conheceis Querefonte. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. de quem vos falava há pouco. E outros. conforme minha pesquisa. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. enfim. apenas com o intuito de caluniar-me. ao arrepio de minha vontade. embora notando." Por isso. sem fama alguma. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. ao menos numa pequena coisa. continuei diligentemente com minha pesquisa. e quem diz o contrário mente. ó atenienses. . contudo. e de sua natureza. basta dizer que era um de nossos políticos –. Peço-vos para não fazer algazarra. diante de vós. este com que. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. analisando e raciocinando em conjunto. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. e também este me dedicou ódio. que nós. nem acredito sabê-lo. dizia a mim mesmo. se de fato se trata de sabedoria. ó atenienses. como também muitos dos que se encontravam presentes. ó atenienses. pois ele não pode mentir". as que considerava mais bem construídas. fui procurar os poetas. em virtude de este haver falecido. nem de belo. e tive a impressão de que. fiz a experiência que irei descrever-vos. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. comecei a investigar acerca disso. Aí procurei um outro. mas aquele acreditava saber e não sabia. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. conforme a palavra do deus. invocarei como testemunha. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. e este homem aparentava ser sábio. Em vista disso. ou seja. como não sabia. o próprio deus de Delfos. podíamos não saber nada de bom. Em seguida aos políticos.

ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". como se tivesse dito: "Ó homens. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. em nome do oráculo. a fama de sábio. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". os filhos das famílias mais ricas. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. e. e ele quer dizer. A verdade. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. e aproximadamente o mesmo. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. toda vez que participava de uma discussão. nada respondem. porém. só para não evidenciar que estão confusos. é o que ocorre entre os poetas. e. que dizem de fato muitas coisas belas. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. e então. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. e isto eu percebi com clareza. Então afastei-me deles. seguem-me de livre e espontânea vontade. por sua própria conta. mas só usa meu nome como exemplo. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. ó atenienses. dominados pela paixão e numerosos como são. é muito sábio entre vós aquele que. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. como os adivinhos e vaticinadores. pelo fato de fazerem poesias. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. porém. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. Porém. naturalmente. De forma que eu. inúmeras vezes procuram imitar-me e tentam. E se alguém indaga: "Afinal. ambiciosos. mas não conhecem nada do que dizem. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada.41 diante disto. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. por intermédio de seu oráculo. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. Sócrates. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. é outra. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. dirigi-me aos artesãos. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. igualmente a Sócrates. como acho que ninguém o seja. náo se refere propriamente a mim. não querem dizer a verdade. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. e nisso eram mais sábios do que eu. cada um deles julgava-se extremamente sábio. com a certeza de ser mais sábio que eles. e entre as calúnias. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. E não me equivoquei. sem escrúpulo . E compreendi também que os poetas. porque o desconhecem. de acordo com a palavra do deus. A verdade. como eles. porque. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. Desta maneira. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. analisar alguma pessoa. ao afirmar que Sócrates é sábio. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. ambas as coisas. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. porém. eles conheciam coisas que eu não conhecia. Logicamente.

como ficas calado. Meleto. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. procurarei em seguida defender-me de Meleto. SÓCRATES: — Dize. analisemos também o ato de acusação deste. Esta é. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. Por sinal. é outra prova de que digo a verdade. que o réu é o próprio Meleto. deve ter conhecimento. SÓCRATES: — Não se trata disto. sem ocultar-vos nada. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. ó excelente homem. Vamos. e eu digo. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. também estes. ó atenienses. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. SÓCRATES: — Afirmas. Portanto. aos juizes o que os torna melhores. Meleto. mostra-te e responde. SÓCRATES: — Crês que todos. agora ou depois. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. então. ó cidadãos. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. como vos disse desde o início. todos. Meleto afirma que corrompo a juventude. . Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. Vês. e recebereis sempre a mesma resposta. finalmente. em primeiro lugar. homem digno e patriota. dize aos juizes o que os faz melhores.42 algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. meu amigo. conforme dizes. Indagai quanto quiserdes. sou eu quem os corrompe. Com certeza o sabes. os juizes. a verdade. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. Contudo. conforme afirmas. MELETO: — Estes. então. nem mesmo esquivando-me dela. SÓCRATES: — Quer dizer. SÓCRATES: — Dizes bem. ó Sócrates. Indago-te qual é o homem que. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. e eu a revelo por completo. Este é o motivo pelo qual. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. e dos acusadores que virão depois. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. Lícon por causa dos oradores. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. das leis. lançaramse contra mim Meleto. exceto eu. então. nunca se preocupou. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. Meleto. na verdade. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. de não crer nos deuses nos quais a cidade Analisemos esta acusação minuciosamente. como ele mesmo se define. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. É isto que queres dizer? crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe.

de que maneira. principalmente àqueles mais próximos deles. por conseguinte. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. que somente um os torne melhores. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. de maneira que em ambos os casos mentes. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? 43 . e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. da mesma maneira que os outros homens. pois se naqueles que acredito são deuses. MELETO: — Exatamente isto. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. é por causa disso que me trazes a este tribunal. e que os bons façam o bem. mas sim que faça com que seja afastado. aqueles que são peritos em cavalos. Mas. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. explica-te com maior clareza. SÓCRATES: — Quer dizer. a fim de advertir-me ou censurar-me. ó juizes. Se eu os corrompo sem querer. Meleto. ou poucos. ó Meleto. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. prossegue. Mais ainda. ou. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. Ou seja. se os corrompo. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. ó Meleto. SÓCRATES: — Então. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. ó Meleto. cidadãos de Atenas. ao contrário. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. eu corrompo a juventude? Não o faço. ó Meleto. Meleto. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. não corrompo os jovens. e é claro que. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. Também a lei deseja que respondas. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. dize-nos. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. no caso de saber disso.Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. não é difícil o que te pergunto. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. Apesar disso. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. mas em outras divindades novas? Não é. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. faço-o sem querer. tanto para mim como para estes juizes. de acordo com tua opinião. e sim outros. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. mesmo que não sejam os da cidade. então. tua sabedoria sendo maior que a minha. excelente homem. não mais farei o que fazia sem querer. responde. na tua idade. por faltas involuntárias. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. tendo eu os anos que tenho. conforme dizes. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. o que mais convém. eu digo exatamente isto. Agora dize-me. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. não posso ser culpado disso. e não censurados. realmente. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. uma vez advertido. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. não sou ateu e. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim.

ó Meleto. Mas se acredito em coisas demoníacas. ó atenienses. SÓCRATES: — Pensas. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. Parece-me que aceitas. se não queres responder. devo obrigatoriamente crer em demônios. nem em deuses. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. De outra forma. é verdade. Existe alguém. se afirmas que existem demônios. afirmo a sua existência. meu bom Meleto. a ti e aos outros que aqui se encontram. Responde. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. uma vez que digo existirem demônios. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. então. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. ó atenienses. Na verdade. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. e vindo de muitas pessoas. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. Por isso. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. e se algo me causará . Há quem não acredite respondo. embora não acreditando na existência dos deuses. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. quando declaras que eu. Meleto. já que não contestas. como já vos exortei no começo. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. Permanecer no Lugar Adequado. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca 44 na existência de cavalos. é impossível. e naquilo que afirmas. SÓCRATES: — Ora. eu mesmo Ó atenienses. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. Obedecer ao Deus Chega. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. mesmo se fraco de intelecto. ó atenienses. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. com certeza. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. E isto significa desejo de se divertir. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. mas também de acreditar nos deuses". se estes demônios são deuses. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. O que eu vos disse. se estes demônios são filhos dos deuses. se este as apresentasse como suas. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. de outra forma. exceto que haja sido para pôr-me à prova. ó Meleto. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. nem em heróis. ó Meleto. estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. Portanto.aquele grande sábio. desde o início. isto é impossível. vós sabeis. E vós. não é assim? Com certeza é assim. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las.

nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. que. e enquanto tiver ânimo. se consigo safar-me da condenação. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. Declaro-vos. ó atenienses. contra a vontade de Ânito que. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. ninguém sabe se. aqui. Por outro lado. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. E. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. mesmo que me concedesses a liberdade. Ao ouvir tais palavras. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. contudo. tamanho desdém mostrou pelo perigo. dizia. já que desobedece ao oráculo. o analisaria. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. como dizia. também morrerás'. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. e enquanto for capaz. em qualquer ocasião. se. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. à exceção de na desonra e na vergonha. atenienses. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. desde o começo. eu vos responderia: "Ó atenienses. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. somente por isto o diria. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. daquele momento em diante. e declarou: 'Rapidamente eu morra. em verdade. acredito. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. conversando da minha maneira habitual. uma deusa. e se me afigurasse que não possui . estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. esta calúnia e esta raiva das pessoas. mas sim este ódio. não pretendemos dar. outros ainda irão perder. aí. que és o melhor dos homens. digo. ó cidadãos. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. seja deus. atenienses. Anfípolis e Délio. sem te preocupar em cuidar da inteligência. Com efeito. logo após ter castigado a quem matou. mas o interrogaria. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. ou. agora. me dissésseis: "Ó Sócrates. Portanto. morrerás". não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. lá fiquei. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. e. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. fama e honras. Por isso. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. Seria algo. se. ao receber ordens do deus. estando ele ávido do sangue de Heitor. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. eu vos amo. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. quando sua mãe. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. ao passo que em Potidéia. repito. nem em outra desgraça qualquer. não havendo perigo que causem somente a minha perda. mesmo sendo pequeno. se bem me lembro: 'Ó filho. nem te ocupes mais de filosofia. ao contrário. acreditar saber o que não se sabe? Ora. ateniense. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. disse-lhe. ao ouvir este raciocínio de Ânito. sem se envergonhar. E não é ignorância. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. assim diria: "E tu. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. seja homem. não o deixaria afastar-se nem iria embora. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. por acaso. também nada penso saber a esse respeito. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. como qualquer outro. de fato. não será nem Meleto nem Ânito. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. creio. e a quem quer que eu encontrasse de vós. acompanhando este teu raciocínio. a mais vergonhosa das ignorâncias. uma vez aqui trazido. não pararei de filosofar. que onde alguém se haja instalado. arriscando minha vida. atenção a Ânito e deixamos-te livre. o impugnaria. tu. anormal e. da verdade e da tua alma. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. tendo a capacidade de fazer algum bem. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas.45 dano. com esta condição me deixásseis em liberdade. que era impossível não condenar-me à morte. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. porque.

mas. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. a respeito do qual. se. contra o dom do deus. para convencer-vos a buscar a virtude. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. e depois. de maneira alguma estou falando em minha defesa. condenar-me à morte. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. E nem o poderiam. com jeito de estar se divertindo. pondo-me frente a frente com uma testemunha. estando a vosso lado. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. vós não desconheceis. atenienses ou estrangeiros. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. condenar-me-eis à morte. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. um ferrão. às quais. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. também Meleto. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. permiti que vos diga. Pois se me matardes. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. somente uma. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. que. Ânito. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. espoliar-me dos direitos civis. não o creio eu. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. Convencei-vos: se me condenardes à morte. desta não tiveram o despudor de me acusar. em todo lugar. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. por obediência a Ânito. um por um. cuidando das vossas. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. ao contrário. nunca paro de exortar-vos. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. Logo. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. que não necessitais pecar. Não. e de que das riquezas não se origina a virtude. como alguém poderia achar. Por tudo isso. eu dou: a minha pobreza. creio que vos será útil escutar. que me sois mais estritamente próximos. condenando-me à morte. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. que outro como eu não nascerá facilmente. não fazei assim. mas que vos limitásseis a ouvir. aí sim haveria uma razão. então me falte coragem. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. aponta no ato da acusação. isto significará que minhas palavras são nocivas. nem com as riquezas. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. Isto. É como uma voz que possuo dentro de mim . que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. está certo. Poderá sim. mas muito mais vezes devesse morrer. ó atenienses. a fim de que ela se torne excelente e muito virtuosa. mas falo por vós. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. ou ao desterro. Ademais. Não promoveis algazarra. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. mas vistes que meus detratores. mesmo que não só uma. Em verdade. absolver-me-eis ou não. jovens e velhos. a mim que sou como vos disse. talvez. então diz coisas insensatas. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. não riam da comparação. dormireis tranqüilamente. de qualquer forma. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. pois. me poreis a salvo. de convencer-vos. de falar-vos. Afirmo. e se desejais me ouvir. erguereis a voz. ou não dareis.46 virtude mas apenas afirma possuí-la. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. e sempre. as infames. e também com vós. ó atenienses. no decorrer de todo o resto de vossa existência. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. mas pelo seu próprio tamanho. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. ó cidadãos.

e votei contra. levaramnos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. não me atemorizou. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. por algum tempo. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. O Testemunho dos Discípulos. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam . quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. para que este viesse a morrer. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. nem nunca ensinei coisa alguma. não digo a vós. mas de não cometer injustiças ou crueldades. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. Mais tarde. em toda minha existência. seja jovem. se recebo dinheiro. sempre fui o mesmo. os Trinta mandaram-me chamar.47 desde criança. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. Falarei um pouco grosseiramente. se a palavra não soar por demais vulgar. e vós a intigá-los e a gritar. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. mas a qualquer outra multidão. mas com sinceridade. quer que seja. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. um se torne de boa formação moral ou não. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. Por conseguinte. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. ó cidadãos. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. se entre os homens que me freqüentam. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. e que. ao arrepio da lei. e não palavras. principalmente se é uma pessoa que . depois que surgiu a oligarquia. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. ó cidadãos. a ninguém. nunca me refutaram. como é necessário. atenienses. meu dever mais alto? Com certeza. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. e que.Então eu me opus. isto sim me importa acima de qualquer coisa. eu já teria morrido. E naquela ocasião.E aquele governo. não possui importância alguma para mim. Sabeis perfeitamente. e não é verdade que. deixei-os ir e voltei para casa. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. estou pronto a morrer. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. Diante disso. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. deseja escutar-me. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. não com palavras. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. toda vez que eu a ouço. fico calado. e sim com fatos. Acredito que só por causa disso. eu falo e se não recebo. não me obrigou a cometer um ato injusto. E não me desprezei se falo assim. lutando para que nada fosse feito contra a lei. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. que se eu tivesse. tanto em público. como privadamente. em particular. me ocupado dos negócios de Estado. seja velho. e a mais outros quatros. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. pois é a verdade. fazendo-o como homem de bem. Nunca fui mestre de quem. mas do que mais necessitais: fatos. nem por vós nem por mim. e. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. Tendes conhecimento. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. mesmo que por breve tempo. se de fato pretende escapar da morte. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. além de não ceder. pobres e ricos. demonstrei que a morte. ó cidadãos. apesar de prepotente. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. E disto que relatei possuo muitas testemunhas.

enraivecido com minha atitude. são bem poucos diferentes destas. e ali Adimanto. são estas. A uma pessoa assim. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. irmãos. pela vossa e de toda a cidade. de quem ali se encontra o irmão Platão.de quem era irmão Teages. eu os vejo. e aí está Parálio. suplicou clemência aos juizes. seria vergonhoso. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. possa irritar-se comigo se. se ele se esqueceu disso. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. eu também trouxe alguém da minha família. como afirmam Meleto e Ânito. além disso. É possível que alguém entre vós. ao pensar em si mesmo. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. pais. que talvez esteja entre vós. se já corrompi algum. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. embora. Estes. com seu filho Ésquino. não poderá falar com o irmão a meu favor. filho de Demódoco. emita seu voto com raiva. sim. algum dia. se procedessem dessa maneira. pai de Epígeno. não me pareceu honroso agir dessa maneira. e pessoas desse tipo. são verdadeiras e demonstráveis. que os apresente agora. que. tenham alguma razão para me defender.48 serem sábios e não o são. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. ao fazer intimamente esta comparação. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. atenienses. que se manifeste. e Aantodoro. mas pela minha reputação. e ali estão outros. ao passo que eu não me porto desta maneira. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. repito-vos. E não é por orgulho que me comporto assim. se existe alguma testemunha deste tipo. nem por desprezo. não afirmo categoricamente que há. e como Teódoto faleceu. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal.e ainda Antífon de Cefísia. e outros. vereis que todos farão o contrário. Nicóstrato. se não quisessem fazê-lo diretamente. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. em quaisquer aspectos. Se de fato eu corrompo os jovens. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. os corrompidos. embora possuíssem alguma boa reputação. mas de criaturas humanas'. ao envelhecerem. Muitos destes estão presentes. cedo-lhe o lugar. ao que parece. mas sim mostrar a todos que julgais com . tenho três filhos. e algumas mais. envergonham a toda a cidade. Ao fazer isso. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. e. verdadeiro ou falso que seja. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. ó atenienses. Porém. filho de Teozótides. Ali está Críton. eu mesmo presenciei muitas vezes. ou por outra virtude qualquer. E estas coisas. ainda mais na minha idade e com o meu nome. ó atenienses. enfim. E poderia nomear muitos outros. nem para provar que sou corajoso diante da mote. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. deixar-nos fazê-lo. todos falarão a favor do corruptor. Com efeito. desta forma. esteja arriscando a vida . Talvez esses. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres.É possível que alguém. e que me fizessem pagar por isso. não é desagradável. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". porém. nem de pedra nasci. as razões que posso apresentar em minha defesa. e também Lisânias de Esfeto. e. mas aqueles que não foram corrompidos. porque corre pela cidade que. filho de Aríston. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. irmão de Teódoto. Eu também possuo família. Por isso. um já crescido e dois ainda crianças. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. . se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. quando eram réus em um processo. que são agora anciãos. cumpro as ordens do deus. Ora. têm atitudes excepcionais. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. se nos comportássemos assim. seria ainda necessário que estes. Nem vos conviria. Sócrates se distingue da maioria dos homens.

e. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . seria culpado de não crer nos deuses. Contudo. não é isso. peço se alimentado no Pritaneu. mesmo assim. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. eu que sou acusado por Meleto. o que aprendi. mas que farão justiça de acordo com as leis. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. devo pedir. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular.49 maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. aquilo a que faço jus. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. por não haver usufruído em paz. que pena apresentarei em oposição à vossa. Ao que me parece. tentar influir nos juízes e. ó cidadãos. no entanto. A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. se é que devo ser recompensado como mereço. Não considero justo. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. eu vos ensinaria que. interesses particulares. desta acusação. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. mas para julgar o justo. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. Porque estes vos proporcionam felicidade. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. e não só haver escapado delas. então. Portanto. e deixo a vosso critério. ó atenienses. tentando convencer-vos de que. não faremos coisas boas e piedosas. não é necessário que vos habitueis a isso. então. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. Se. penso haver escapado das mãos de Meleto. o que é bastante evidente. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. pensa que mereço a pena capital. ao longo da minha existência. nem vos nem eu. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. entre outras razões. riquezas. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. mediante súplicas. de acordo com o direito. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. injustos e vis. mas. e não por tão poucos. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. e não precisam ser sustentados como eu precioso. Porque é evidente que se eu. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. e eu menos ainda. E acredito que se houvesse leis entre nós. Este homem. estaríeis convencidos. Não iríeis querer então. e também a mim. com cavalo. ó atenienses. de impiedade. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. Não. O que. com o que acaba de ocorrer. E eu. julgar o que será para vós e para mim o melhor. mas algo bastante diferente. aqui presente. mesmo nestas minhas palavras de agora. isso deve-se. ó cidadãos. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. e sim em mais. e ao do deus. livrar-me da condenação. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo . Portanto. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. mas sim infomá-los e convencê-los. ó atenienses. como as que há entre outros povos. E é justamente o contrário que sucede. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. biga ou quadriga. o de terem votado pela minha condenação. e mesmo assim não logrei convencer-vos.

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escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso, a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior, porque não possuo dinheiro para pagá-la. Pedirei o exílio? Sim, talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. Porém, em verdade, ó atenienses, eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio, que enquanto vós, embora sendo meus concidadãos, não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos, e mais, que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela, que outros a agüentariam de bom grado? E ainda, atenienses, que excelente vida seria a minha, nesta idade, exilado, mudando sempre de país para país, perseguido em todos os lugares. Porque sei muito bem que aonde quer que eu vá, os jovens acorrerão a fim de me ouvir, como aqui, e, se eu os repelir, serão estes mesmos que me farão perseguir, convencendo os mais velhos; e se não os repelir, serei perseguido por seus pais e demais parentes. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto, ó Sócrates, não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. Porque, se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que, por conseguinte, não seria possível que eu vivesse em silêncio, não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem, meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais, e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida, se vos dissesse isto, acreditar-me-iam menos ainda. Contudo, é isto que vos digo, ó atenienses, porém é difícil convencer-vos. Por outro lado, não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. Se eu possuísse dinheiro, poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar, porque, assim, não teria me infligido mal algum. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso, exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. Portanto, multo-me em uma mina de prata. Mas vedes, ó atenienses, que Platão, Críton, Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas, que eles mesmos garantirão. Multo-me então em trinta minas. E esses homens, dignos de crédito e confiança, serão garantes dessa quantia.

Após a Condenação
Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco, atenienses, aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates, um sábio. Sim, chamar-me-ão de sábio, apesar de que eu não o seja, os que vos quiserem censurar. Se esperásseis mais algum tempo, a própria natureza satisfaria o vosso desejo. Bem sabeis a minha idade, já distante da vida e próxima da morte. Não dirijo essas palavras a todos vós, mas aos que votaram pela minha morte. Para esses mesmos, adito o seguinte: talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir, se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaramento, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm, tais como costumais ouvir dos outros. Ora, se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma, tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi; ao contrário, muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz, do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Quer no tribunal, quer na guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. Com efeito, é evidente que, nas batalhas, muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores; em cada perigo, tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. Não se tenha por difícil escapar à morte, porque muito mais difícil é escapar à maldade; ela corre mais ligeira que a morte. Neste momento, fomos apanhados, eu, que sou um velho vagaroso, pela mais lenta das duas, eu e os meus acusadores, ágeis e velozes, pela mais ligeira, a malvadez. Agora, vamos partir; eu, condenado por vós à morte; eles,

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condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Eu aceito a pena imposta; eles igualmente. Por certo, tinha de ser assim e penso que não houve excessos. Acerca do futuro, no entanto, quero fazer-vos um vaticínio, meus condenadores; de fato, eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor, quando estão para morrer. Eu vos afianço, homens que me mandais matar, que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será, por Zeus, muito mais duro que a pena capital que me impusestes. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida; mas o resultado será inteiramente oposto, eu vo-lo asseguro. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas; até agora eu os continha e vós não os percebíeis; eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens, e vossa irritação será maior. Se imaginais que, matando homens, evitareis que alguém vos repreenda a má vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, enm é inteiramente eficaz nem honrosa; esta outra, sim, é a mais honrosa e mais fácil; em vez de tapar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor possível. Com este vaticínio, despeço-me de vós que me condenastes.

Aos que o Absolveram
Com os que votaram pela absolvição, gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder, enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. Por conseguinte, senhores, ficai comigo mais um pouco; nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. Quero explicar-vos, como a amigos, o sentido exato de que me aconteceu agora. O que me ocorreu senhores juízes, a vós é que chamo com tino de juízes, foi algo prodigioso. A usual inspiração, a da divindade, sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas, quando eu ia cometer um erro; agora, porém, acaba de me ocorrer o que vós estais vendo, o que se poderia considerar, e há quem o faça, como o maior dos males; mas a advertência divina não se me opôs de manhã, ao sair de casa, nem enquanto subia aqui para o tribunal, nem quando ia dizer alguma coisa; no entanto, quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento, em nenhuma ação ou palavra. A que devo atribuir isso? Vou dizervos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. Disso tenho agora uma boa prova, porque a usual advertência não poderia deixar de oporse, se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada, e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que, se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e, contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida, pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite, bem posso imaginar que, já não digo um homem comum, mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. Logo, se a morte é isso, digo que é uma vantagem, porque, assim sendo, toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Se, do outro lado, a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos, que maior bem haveria que esse, senhores juízes? Se, ao chegar ao Hades, livre dessas pessoas que se intitulam juízes, a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que, segundo consta, lá distribuem a justiça, Minos,¹ Radamanto, Éaco, Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida, não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu,² Museu, Hesíodo e Homero? Por mm, estou pronto a morrer muitas vezes, se isso é verdade; eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso, quando encontrasse Palamedes, Ajax de Telamon e outros dos antigos, que tenham morrido por um sentença iníqua; não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e, o que é mais, passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá, a ver quem deles é sábio e quem, não o sendo, cuida que é. Quanto não se daria, senhores juízes, para sujeitar a exame aquele que

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comandou a imensa expedição contra Tróia, ou Ulisses, ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear, homens e mulheres, com quem seria uma felicidade indizível estar junto, conversando com eles, sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá, entre outros motivos, por serem imortais pelo resto do tempo, se a tradição está certa. Vós também, senhores juízes, deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há, para o homem bom, mal algum, quer na vida, quer na morte, e os deuses não descuidam de seu destino. O meu não é conseqüência do acaso; vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. Por isso é que a advertência nada me impediu. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar, mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. No entanto, só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem, castigai-os, atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um valor que não tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós assim agirdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e meus filhos também. Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue melhor destino, se eu, se vós, é segredo para todos, exceto para a divindade. ¹ Rei lendário de Creta, filho de Europa e de Zeus, marido de Pasífae, sábio legislador, juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. ² Célebre aedo da era pré-homérica, cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios, origem de seitas místicas, a que se deu o nome de orfismo. Platão A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates , que era filho do povo, Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia. Temperamento artístico e dialético - manifestação característica e suma do gênio grego - deu, na mocidade, livre curso ao seu talento poético, que o acompanhou durante a vida toda, manifestando-se na expressão estética de seus escritos; entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento, tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates - mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides, em Mégara. Daí deu início a suas viagens, e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Visitou o Egito, de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política; a Itália meridional, onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento); a Sicília, onde conheceu Dionísio o Antigo, tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion, cunhado daquele. Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, foi vendido como escravo. Libertado graças a um amigo, voltou a Atenas. Em Atenas, pelo ano de 387, Platão fundava a sua célebre escola, que, dos jardins de Academo, onde surgiu, tomou o nome famoso de Academia. Adquiriu, perto de Colona, povoado da Ática, uma herdade, onde levantou um templo às Musas, que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio, até o tempo do imperador Justiniano (529 d.C.). Platão, ao contrário de Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo, após a morte de Dionísio o Antigo, voltou duas vezes - em 366 e em 361 - à Dion, esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Estas duas viagens políticas a Siracusa, porém, não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou

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com desterro de Dion; na segunda, Platão foi preso por Dionísio, e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos, estando, então, Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Voltando para Atenas, Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras, atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a.C., com oitenta anos de idade. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome, muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa. A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. No fundador da Academia, o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. Faltamlhe ainda o rigor, a precisão, o método, a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates , até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal, que representa a evolução do pensamento platônico, do socratismo ao aristotelismo. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates, assim em Platão a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente, através da especulação, do conhecimento da ciência. Mas - diversamente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual, ao campo antropológico e moral - Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda a realidade. Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, em Platão é tornado especialmente vivo, angustioso, pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas; em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim, considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico. Platão como Sócrates, parte do conhecimento empírico, sensível, da opinião do vulgo e dos sofistas, para chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável. A gnosiologia platônica, porém, tem o caráter científico, filosófico, que falta a gnosiologia socrática, ainda que as conclusões sejam, mais ou menos, idênticas. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto no conhecimento humano, como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade, o absoluto (do conceito); e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser, os valores de beleza, verdade e bondade, que estão efetivamente presentes no espírito humano, e se distinguem diametralmente de seus opostos, fealdade, erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. Segundo Platão, o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, e o conhecimento intelectual, universal, imutável, absoluto, que ilumina o primeiro conhecimento, mas que dele não se pode derivar. A diferença essencial entre o conhecimento sensível, a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual, racional em geral, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso, cair no erro sem o saber; ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso, errôneo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim,

inatos no espírito humano. relembrar conforme a lei da associação. no seu valor. da opinião. Ora. Aqui devemos lembrar que Platão. todavia. o saber sensível. conhecimento das coisas pelas causas. negar a existência do fieri. em que vivemos. além do fenomenal.54 sem saber porque o estão. dá ao conhecimento empírico. Do mesmo modo. do outro. exagerando. no sentido platônico. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. necessários. devido à sua natureza inferior. mas apenas é possível. absoluto. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. de que o saber intelectual transcende. Estas realidades chamam-se Idéias. ao contrário. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. que está no vértice. dá ao conhecimento racional. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam.transcende inteiramente o mundo empírico. existir. aliás. conceptual. diversamente de Sócrates. Deve. Este mundo ideal. à opinião verdadeira. logo. como também Platão. e sim a ocasião para fazê-los reviver. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. como as concebiam Heráclito e os sotistas . sensível. ou alguns conceitos da mente. As idéias não são. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem.se possa de algum modo tirar o conceito universal. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. que são os conceitos.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. mutável. o mundo dos inteligíveis. Platão. representações intelectuais. uma base real. um outro mundo de realidades. Todas as idéias existem num mundo separado. Tal a célebre teoria das idéias.opinião verdadeira . uma base e um fundamento reais. poder construir indutivamente o conceito da sensação. isto é. imutáveis e eternos (Sócrates). situado na esfera celeste. contigente e transitório (Heráclito). diz que os conceitos são a priori. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. desenvolvendo. um conhecimento sensível verdadeiro . personalizados. Deste mundo material e contigente. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. donde têm de ser oportunamente tirados. relativa . para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na . alma de toda filosofia platônica. A Metafísica As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. material. racional . os nossos conceitos são universais. no máximo. sem. Sócrates estava convencido. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. Esse conhecimento. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . centro em torno do qual gravita todo o seu sistema.particular. portanto. E. científico. pois. não há ciência. imutável. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. são realidades objetivas. precisamente porque é ciência. tudo no mundo é individual. A ciência é objetiva. de um lado. um objeto adequado ao conhecimento conceptual.no dizer de Platão . não admite que da sensação . A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. com ele. formas abstratas do pensamento. mas julgava.

e é a opinião verdadeira. deve existir um princípio de uma e outra. para ser verdadeiramente tal. Mas a alma está no corpo como num cárcere. que devem ser trabalhosamente relembradas. imutáveis. Além disso. que residiria no peito. em geral. segundo Platão. é a realidade suprema. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. No entanto. à qual comunica o movimento e a vida. que é separação espiritual da alma do corpo. esta libertação. e a concupiscível (apetite). dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. de um mal radical. resulta da síntese de dois princípios opostos. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. religiosos e místicos. unida a um corpo. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. assim como o Demiurgo. Desta personalidade e atividade criadora .ou partes da alma: a irascível (ímpeto). Entretanto. que se obtém mediante a divisão e a classificação. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. e se realiza com a morte. Deve portanto. embora superior à matéria. donde dependem todas as demais idéias. libertar-se do corpo. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. todavia. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. dotado o Demiurgo o qual. haveria. sendo que a alma racional é. estando no vértice a idéia do Bem. O Mundo O mundo material. serão universais. antes de tudo. Ele. O mundo. ordenadora .55 sua efetiva realidade. E. o dever ser. Segundo Platão. de natureza espiritual. pois. isto é. durante a vida terrena. ontológica) esclarecer. e mediante a morte libertadora. no sistema platônico. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. tanto no homem como nos outros seres. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. separando-se. melhor. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. deveria ser. Assim. na realidade. princípio de movimento e de ordem. de fato. começa e progride mediante a filosofia. quer dizer. a ordem e a harmonia. o cosmos platônico. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. Portanto.é. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. de superioridade. são ordenadas em sistema hierárquico. anima toda a realidade. Logo. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. transferidos da ordem lógica à ontológica. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. pelo contrário. Visto serem as idéias conceitos personalizados. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. dotado de atividade sensitiva e vegetativa. a alma humana.assim como a alma racional residiria na cabeça. a idéia do Bem. que residiria no abdome . a alma do corpo. e é o devir ordenado. A alma não encontra no corpo o seu complemento. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). ao Demiurgo e à matéria). a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. Logo. e todos os valores (éticos. as idéias e a matéria. E. que desvencilha para sempre a alma do corpo. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. é inferior às idéias. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. e da qual depende totalmente a ação moral. uma alma do . terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. que é papel da dialética (lógica real. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . então.ou. como de um cárcere. inteligível. introduzindo no caos a alma. As Almas A alma. A faculdade principal. que o mortifica inteiramente. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. o seu instrumento adequado. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. porquanto Platão é um pampsiquista. até violenta.

que é. mas no da decadência. dos filósofos. 3. da razão. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. dependentes e inferiores. 2. Consoante a astronomia platônica. terminados os quais. mas um obstáculo . a virtude suma. fortaleza. libertados da vida temporal para sempre. de racional no vir-a-ser da experiência. chegado o grande ano do mundo. que domina também a grande concepção platônica. As que cometeram pecados inexpiáveis. não no sentido do progresso. as dos filósofos. beleza depende tudo quanto há de positivo. o Político e as Leis. ao redor. temperança. o universo sensível. mas na sua final supressão. é necessário que a alma racional domine. e filosofar é suprimir o sensível. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. As que viveram conforme à justiça. e domine também a alma irascível.56 mundo e. na separação da alma do corpo. dos homens. irracional. um ciclo de dez mil anos. para receber a pena ou o prêmio merecidos. Moral Segundo a psicologia platônica. felicidade e virtude. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. ao corpo. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. que aparecem no mundo. Agir moralmente é agir racionalmente. Quanto ao destino das almas depois da morte. unida ao corpo e aos sentidos.indeterminada. espacial . a alma concupiscível. Na República. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. embora a esta naturalmente inferior. para que se realize a sabedoria. condenadas eternamente. traça o seu estado ideal. conexa ao clássico dualismo grego. a contemplação. No seu conjunto. ao mesmo tempo. a vontade no impulso. a natureza do homem é racional. cravados em esferas ou anéis rodantes. videntes de idéias. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. em especial. Da idéia . a obra fundamental de Platão sobre o assunto. derivando daí a virtude da temperança. a saber. o reino do espírito. transparentes.depende. Temos. para o espírito. As que cometeram pecados expiáveis. É a clássica concepção grega do eterno retorno. o inteligível. ao mundo. justiça . explicando-se deste modo o movimento circular deles. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. Em geral. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. bondade. . tudo que há de negativo na experiência. a justiça. uma classificação. do bem e do mal. na morte. tudo recomeça de novo. o mundo. em forma de esfera e. as almas dos astros. as estrelas e os planetas. segundo Platão. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. chamadas depois cardeais . juntamente com a sapiência.sobre a base da metafísica platônica da alma. passiva. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. mutável. morrer aos sentidos. a idéia. por conseqüência. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. distingue ele três categorias de alma: 1. Da matéria . Em todo caso. etc. e agir racionalmente é filosofar. A terra está no centro. verdade.prudência. virtude fundamental. e. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria.ser. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. e assim por diante. são esféricos. antes de tudo. Entretanto. donde a virtude da fortaleza. neste mundo. pois. dos mistérios órfico-dionisíacos. o destino da alma depende da sua filosofia. eis o pensamento de Platão: em geral. informe. Noutras palavras. os astros. são a República. da ordem e da desordem. depois. depende da religião. de fato. a única virtude verdadeiramente humana e racional. ao contrário. visto que a alma humana racional se acha. o mundo físico percorre uma grande evolução. da razão. partes da alma. encarnam-se de novo. a filosofia.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. destarte.

fundamentalmente. a distinção em classes. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. .um altíssimo valor moral terreno. da ginástica. econômicos e. ascética do estado platônico. à primeira vista.submetida às duas precedentes. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. O grande. em castas. Entretanto. o pensador. a dos guerreiros. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores especialmente aos filósofos. todavia. a de organismo ético-transcendente. não. respectivamente. o verdadeiro político não é . ética. mas o sábio.e pelos gregos em geral . promover. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. sociais. pois. mas. e. e.ao menos positivamente . no organismo do estado. por conseguinte. A música abrangendo também a poesia. mas dessemelhantes e desiguais.o trabalho material.57 Qual é. pelo vulgo. se preocupa com espiritualizar os homens. Se a natureza do estado é. materialismo. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. dos quais e juntamente com os quais. consequentemente. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. portanto. o estado em nada se interessa . pelo desprezo com que era considerado por Platão . ateísmo . a educação deve. político-religioso. idolatrando a grandeza moral. privados. os guerreiros receberam a educação. o bem espiritual dos cidadãos. sobretudo. fortificadora. pois.. a dos produtores. não realiza tanto as obras exteriores. servis. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. a sua finalidade primordial é pedagógico-espiritual. corresponderiam respectivamente às almas racional. então. conhecem a realidade das coisas. especialmente. Na hierarquia das classes. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. estas classes: a dos filósofos. que Platão propugna para as classes superiores. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. domésticos. a ordem da sociedade humana. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. porquanto representa precisamente . à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. por conseqüência. pela plebe. em geral. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. Ao contrário. o indivíduo ao estado. essencialmente. e. a dominação e a riqueza. sendo estes naturalmente superiores àqueles . pode causar impressão. também das outras duas classes. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. as quais. a ordem ideal do mundo e. cuja formação é inteiramente material e subordinada. Na concepção ideal. À classe dos produtores. Platão foi levado a esta concepção política . estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. o comunismo dos bens. irascível e concupiscível no organismo humano. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. o fim supremo.diz Platão . Três são. música e ginástica. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão. Segundo Platão. estar substancialmente nas mãos do estado. antes de tudo. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. tal instituição. consistindo sua virtude apenas na obediência. Platão reconhece a importância da ginástica.tornada depois sinônimo de imanentismo.consoante seu pensamento . são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. das mulheres e dos filhos. A educação das classes superiores importa. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. Deveria ela equilibrar.não certamente por estes motivos. Com efeito.eticamente considerados. cultivada apenas para fins práticos e morais. é necessária porquanto os trabalhos materiais. a quem cabem as virtudes mais elevadas. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. com a sua natureza gentil e civilizadora. espiritual. representado pelos filósofos. etc. segundo as virtudes que se referem a cada classe. a riqueza. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos.o homem prático e empírico. por isso. a direção da república. cabe a conservação econômica do estado.pelo povo. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. como única e total expressão da eticidade transcendente. a família. consoante Platão. mas . estatais.agricultores e artesãos . mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. contemplam eles o mundo das idéias. e estão. porém. todas as atividades presididas pelas Musas é. O estado deve. portanto. a história. A essência do estado seria então. enfim. a ação oposta. educá-los para a virtude.

A arte. sobreviveu-lhe por quase um milênio. nem sequer da religião assim chamada natural. quase um século. inferior à ciência. que é já uma cópia do mundo ideal. O motivo prático é que a arte .embora transcendente. Seu culto essencial é representado pela ciência e.58 não passa de uma importância instrumental e parcial. Platão pode. reitores.o Bem e as idéias . Ao lado. deuses eternos. A antiga academia dura até o ano de 260 a.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. os assim chamados deuses visíveis. segundo os interesses do último Platão.). provavelmente também pela influência de Aristóteles . Por conseqüência. denominadas por Platão. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. É governada por discípulos. cujas divindades são os astros e o cosmo. mas de fenômenos. No entanto. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. encarnada em formas sensíveis. média e nova. orienta-se para o ecletismo. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico.C. portanto. Costuma-se dividi-la . e valorizando o elemento religioso positivo. para o bem como para o mal. depois. pois.em antiga. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. aceita francamente o politeísmo. na sua pureza lógica. estão as demais idéias. porquanto deveria atingir intuitivamente. bem como à idéia do Bem e às outras idéias.a religião helênica. .C. de mania. Segue-se na média academia. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. pois . até o VI século d. Vai-se acentuando a importância da experiência. semelhante à religião e ao amor.cronologicamente e logicamente . dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. teorético um. espiritual e ético. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. a Academia. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. Quanto à avaliação da religião positiva. Seja como for. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. subordinados ao Demiurgo. Atuando cegamente sobre o sentimento. este absoluto . narrados em torno dos deuses e dos heróis. que toma uma orientação cética. gnosiologicamente. Finalmente. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. não pode tornar-se objeto de religião. sucessores de Platão.. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. como para o falso. conceptual. a arte deveria ser.reformada e purificada . pelos mitos fantásticos e imorais. Em todo caso. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. isto é. mais ou menos. que foi um dos indícios da decadência grega.dada esta sua inferior natureza teorética. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si.torna-se outro tanto danosa no campo moral. Entretanto. no conjunto do seu pensamento. que Platão já tinha valorizado no mito. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. como religião do seu estado ideal. impura fonte gnosiológica . a arte nos atrai para o verdadeiro. inclusive Homero. Platão hostiliza o antromorfismo. ou seja. prevalece a desvalorização por dois motivos. como a ciência.como o amor.C. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. cópia não de essências. É um politeísmo estranho. conservar . prático outro. animados e racionais. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. uma espécie de revelação superior. algo como que uma filosofia. prevalecendo simpatias pitagóricas.

Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos.C. nascido em 428 a. Em outras palavras: não existe verdade absoluta. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. aristocrata jovem e belo. Os pitagóricos acreditam na metempsicose. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. Estava destinado. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. seus ancestrais paternos. as aparências coloridas do universo. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. Platão.59 Para Entender Platão Platão. Um dos mais célebres. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. ar e fogo). Todavia. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. Sócrates tem sessenta e três anos quando. assinalam a importância da catástrofe. tudo muda infinitivamente. A destruição da frota. amor à sabedoria). em 407. imóvel. a vigília ao sono. tudo flui: a morte sucede à vida. inicialmente. Tratemos. Para Heráclito de Éfeso. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. com a capitulação de Atenas. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . do último rei de Atenas. como punição de faltas passadas. segundo o testemunho de Platão. precisamente denominados pré-socráticos. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. mas que está na origem da ciência moderna. o não-ser não é". portanto. a peste. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. de um modo geral. água. o Nous. sua matemática desemboca numa metafísica.. Protágoras de Abdera. o pensamento de seu mestre Sócrates. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. a uma brilhante carreira política. a noite ao dia. como também o pensamento dos filósofos anteriores.com inigualável poder marítimo . cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. é amargo para o enfermo). anteriores e contemporâneos . Para compreender isto. A alma.de saída. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. Platão a ele se une. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. o real é o Ser único. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. Anaxágoras. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. "Planta rei". mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. infinitamente diversas. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. eterno. que "o homem é a medida de todas as coisas". corpo = túmulo). também é um místico. dizia. que não só reencontramos em Platão. seu encontro com Sócrates. elementos eternos. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). "O Ser é. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. .. Mas Atenas. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. cujas combinações mutáveis são infinitas. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. no entanto. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. Diremos uma palavra sobre os sofistas. que foi professor de Péricles. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. delicioso para o amador. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. Na realidade. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. segundo um ritmo regular. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. de evocar Pitágoras de Samos.

na verdade. na ilha de Egina. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. Tal é a ironia. ignora o que acreditava saber. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. o Fedro. secreto. porém. de novo no poder. de fato. 3. Platão morre em 348 a. Tal é a maiêutica socrática. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. Acontecimento político: é o partido popular. É então que ele funda. Dionísio I. devese deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo.. Segundo sua perspectiva racionalista. Sócrates. Sócrates não pretende. a República. Sócrates fá-lo compreender que. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. são meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. Devemos agora. Na realidade. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. Muitas vezes. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. elaborar uma cosmologia. 4. dos problemas que eles colocam. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na . por aquilo que nos concerne diretamente. eles a praticariam. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. Platão retornou a Atenas. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. ele se comparava à sua mãe. segundo ele.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual". ao pé da letra. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. Na Atenas vencida. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. sem exceção. um esforço de definição. pertencem a um mundo que não o das aparências. ele se retrai.. Seu método é. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. cunhado do novo tirano. de preferência. o Sofista. aos quarenta anos. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). O ensino esotérico (isto é. que.C. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. portanto. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). o Fédon. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. o Político.C. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. "Conhece-te a ti mesmo". ele procura depreender o conceito de justiça. é a palavra-chave do humanismo socrático. todavia. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. diz Platão. perto de Colona. porém. isto é. mal governados. só há salvação pelo saber. seus diálogos célebres tais como o Gógias. pois ninguém é "maus voluntariamente". não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). como Empédocles ou Heráclito. "Reconheço que todos os Estados atuais.60 E isto é significativo e simbólico. uma escola de filosofia à portas da cidade. o Banquete. nos jardins de Academos. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. restam-nos. antes de tudo. Sócrates. o Parmênides. Este último. Dionísio I prendeu Platão e. o Teeteto. significa a arte de interrogar. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. Ajuda-nos tão somente a refletir. a obra escrita de Platão. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. o Timeu. 2. devemos nos interessar. as Leis. que era parteira. que. todavia. Se conhecessem verdadeiramente a justiça.

perpetuamente mutáveis. por exemplo. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. objeta Platão a Protágoras . as Idéias. Desse modo. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . finalmente. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). Platão. à imagem de todas as sociedades indoeuropéias primitivas. pela tranqüilidade quase contente de sua morte.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. no fundo. a emoção que rebata a alma diante da Beleza de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. antes de tudo. atesta a existência desse mundo invisível. eternas. a Justiça em si. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. nele. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. "esse belo risco a ser corrido". o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. uma vez que guardaram uma lembrança obscura . Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo.a sensibilidade. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição.de seu antigo contato com as Idéias. em seguida. uma essência universal do homem. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. Assim.não o homem. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. por exemplo. elas continuam capazes de reminiscência. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. a iluminação direta pela Idéia (noesis).61 Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. mostra que. Depois. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. por punição de alguma falta.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. para ele. a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito.que. Entre todas as formas de governo.. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. os chefes cuja Justiça é. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. para que haja. isto é. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. no mais alto grau. Todavia. segundo a doutrina órfico-pitagórica. os militares nos quais a Justiça será coragem. A política de Platão distingue. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas.. uma sombra. sobre o conceito. o único mundo verdadeiro. elas foram aprisionadas no corpo. de certo modo. Finalmente. mais exatamente. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. Um belo efebo. as opiniões estabelecidas (pistis). uma definição do homem em geral. por exemplo. E Sócrates. e. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". Em suma. as simples impressões sensíveis (eikasia). Uma vez que a alma é feita para as Idéias . a cidade que condena Sócrates à morte. pode ser redespertada . as Idéias contam mais que a vida. a vontade e o espírito. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. e o mundo das aparências sensíveis. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. Como diz muito bem André Bonnard. A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. no entanto. em seguida pelos belos corpos. como fazem os geômetras. como Sócrates o estabeleceu. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). A ascensão dialética. um outro mundo onde exista o Homem em si. um mundo de pernas para o ar". Platão prefere a aristocracia e. Platão dá realidade ao conceito socrático. só é belo porque participa da Beleza em si. um pouco mais acima. o pensamento intuitivo. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça.

C. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos.C. perto do templo de Apolo Lício. estéticos e místicos tiveram grande influência. social e política. poder admirável de síntese. de pensamento. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. por certo. como preceptor do Príncipe Alexandre. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. foi acusado de ateísmo. médico de Amintas. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. nasceu em Estagira. agudeza de penetração. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. retirando-se voluntariamente para Eubéia. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. substancialmente autêntica. rei da Macedônia. em 335. em 367. treze anos depois da morte de Platão. até à morte do Mestre. em 384 a. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. isto é. colônia grega da Trácia. a sua escola. mais uniforme e linear a de Aristóteles. vigor de raciocínio. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. De volta a Atenas. chefiada por Demóstenes. no litoral setentrional do mar Egeu. Aí ficou três anos. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. Preveniu ele a condenação. que Platão não conseguiu. traduz uma espécie de narração poética legendária. éticos. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. Escreveu sobre todas as ciências. Aristóteles faleceu. como a sua cultura e seu gênio universal. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. os motivos políticos. Aos dezoito anos. para se dedicar à investigação científica. . passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. variada e romanesca a de Platão. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. então jovem de treze anos. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. em amena palestra. procedimento pedagógico paradoxal. segundo Platão. ao contrário. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. malvisto pelos atenienses. de pesquisas.62 a) O mito. em que. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. fruto de muita observação e de profundas meditações. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. o mito ressalta as relações que. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. no ano seguinte. após enfermidade. em Siracusa. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). Aristóteles fundava. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. d) Finalmente. estourando uma reação nacional. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. existem entre a poesia e a verdade. de estudo. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. no verão de 322. Do diferente caráter dos dois filósofos. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. Morto Alexandre em 323. onde ficou por vinte anos. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. até à famosa expedição asiática. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. A respeito do caráter de Aristóteles. filho de Nicômaco. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. salvo uns apócrifos e umas interpolações. Aristóteles. que se foi isolando da vida prática. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária".

as formas são imanentes na experiência. destarte. é essencialmente dedutiva. cuja verdade imediata ele defende. A teorética. é dedutiva. porque aí está a sua gnosiologia. a Ética a Eudemo. No sentido estrito. a filosofia .conforme Aristóteles. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. prática e poética. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. apodíctica. o 63 . V. o objeto da ciência aristotélica é a forma. II. O seu problema fundamental é o problema do ser. inacabada. Entretanto. pois. o necessário. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. tirados da experiência. de que foi ele o criador. que considerava a lógica instrumento da ciência. ambas objetivas. em especial da segunda. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. em três livros. os princípios supremos. racional. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. como ciência especial. as verdades evidentes. não por Aristóteles. a poética em estética e técnica. portanto. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. sem enfeites míticos ou poéticos. Foi dito que. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. conhecidos sensivelmente.reminiscência. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. entretanto. III. que corresponde a uma derivação real. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. segundo Aristóteles. seu filho. mas o ponto de partida da dedução é tirado . A filosofia aristotélica é. é sempre verdadeira. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. portanto. referentes à metafísica geral e à teologia. nos indivíduos. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. O objeto próprio da filosofia. A lógica aristotélica. corresponde muito bem à intenção do autor. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. divide-se em física. compêndio das duas precedentes. o universal e o necessário. exposição e expressão breve e aguda. Aristóteles é o criador da lógica. juntamente com a metafísica. as formas e suas relações. sobre a base socrático-platônica. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. intuição intelectual. abrangendo. a ciência. a Grande Ética. o universal. devido a Eudemo. em dois livros. em que está a solução do seu problema. A ciência platônica e aristotélica são. em dez livros. metafisicamente. que a colocou depois da física. por sua vez. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. a Poética.devem ser. clara e ordenada. Sob o ponto de vista metafísico. Por certo. incompleta. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. no seu estado atual. não o problema da vida. consoante Platão. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. é o silogismo. de que constituem a essência. clássico. todo o saber humano. O seu processo característico. ao qual é dedicada. explicação do condicionado mediante a condição. como o conceito. provavelmente publicada por Nicômaco. demonstrativa. também os elementos primeiros do conhecimento . em geral. a filosofia prática divide-se em ética e política. dividir-se-ia em teorética. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . O nome.tem como objeto o universal e o necessário. portanto. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. da representação sensível. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. bem como a platônica.mediante o intelecto da experiência. Segundo Aristóteles.manifestam um grande rigor científico. refazimento da ética de Aristóteles. Os elementos primeiros. entretanto. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. em oito livros. A filosofia. como idéia era o objeto da ciência platônica. e pertencentes à filosofia teorética. a Política. IV. são fruto de uma visão imediata. de um modo e de outro. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. bem como segundo Platão . Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde.conceito e juízos . isto é. em catorze livros. Também aqui se segue a ordem da realidade. que.I. Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). ontologicamente.

Quanto ao juízo. Como é que se formam os princípios da demonstração. compreende-se que Aristóteles. é aquilo que move sem ser movido. Este vir-a-ser. Deus é . isto é. que é o nosso primeiro conhecimento. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. Unidade do conjunto  Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema.64 inteligível. necessidade objetiva. idealista. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. o processo dedutivo e indutivo aplicaos. se confirmam. e que é o elemento constitutivo da ciência. gnosiologicamente. 3. por último. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. em que o universal é imanente. Geralmente. da representação sensível. Então só resta possível uma indução incompleta. a matéria. os juízos imediatamente evidentes. conquistado através do precedente raciocínio. do inteligível. uma doutrina da indução. indiscutível. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. Assim sendo. Aristóteles. realidade do vir-a-ser. isto é. do mundo. em que unicamente temos ou não temos a verdade. a posteriori. o contigente. requer finalmente um não-vir-a-ser. Deus. passagem da potência ao ato. que não tem princípio e fim no tempo. ao sensível: mas. contraditório. as sentenças contrárias. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. os conceitos. como ato puro. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. a saber. Aristóteles. a coisa parece mais complicada. como pensamento de si mesmo. na lógica. passagem da potência ao ato. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. a "desindividualização" do universal do particular. ela não está efetivamente acabada. tirada da experiência. enquanto é vir-a-ser. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. pois. analítico. sem um primeiro motor imóvel. um motor já em ato. Por certo. causa absoluta. o pensamento do pensamento. se correspondem. d) indica. da passagem da potência ao ato. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. entretanto. Rigor no método  Depois de estudas as leis do pensamento. concebido como primeiro motor imóvel. antes de tudo. e. Todas as partes se compõem. o possível puro. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. do movimento. em seguida. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. Deus. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. um ato puro enfim. Da análise do conceito de Deus. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. mais positivo. fica eternamente inexplicável. é a priori. seja constrangido a elaborar. no estudo de uma questão. mas certíssima. origem extra-temporal. consequentemente. concebido. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. é anterior ao particular. sem se mover a si mesmo. isto é. o real puro. seu nexo. ato puro. a própria solução. A formação do conceito é. razão metafísica de todo devir. em todas as suas obras. motor imóvel. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. e) refuta. o sensível. isto é. a posteriori. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. ao contigente. Os caracteres desta grande síntese são: 1. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. porém. mas abandonando a solução do mestre. baseada sobre a imediata experiência. c) propõe depois as dúvidas. Com efeito. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. 2. é aquilo que é movido. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. uma verdadeira síntese. com rara habilidade. Observação fiel da natureza  Platão. de outra forma teria que ser movido por sua vez. psicologicamente existe primeiro o particular.

Noutras palavras. que é pensamento puro. Como já foi mencionado. torna-se de fácil execução . e menos ainda opera sobre ele. portanto.como o vício. De Deus depende a ordem. a racionalidade do mundo. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. este justo meio. não as aniquila e destrói. mas uma ação com ciência. domina as paixões. Se o agir. um costume moral. não conhece o mundo imperfeito. torna-se quase uma segunda natureza e. não é criador. mas implicam. isto é.65 unicamente pensamento. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. isto é. incompatível com o ser perfeito. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. Deus não atua sobre o mundo. porém. teoréticas. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. que deve ser governado pela razão. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. como causa final. um elemento sentimental. e só assim. As virtudes éticas. uma disposição constante. a política. pois. nem providência do mundo. e. todavia. A virtude ética não é. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. e as dianoéticas. ao contrário. no dizer de Aristóteles. auto-suficiente. popular. mas uma aplicação da razão. isto é. A característica fundamental da moral aristotélica é. atividade teorética. relativo a cada qual. afetivo. isto é. como as virtudes intelectuais. Deus é. o fim do homem é a felicidade. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. uma vez adquirida. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. Naturalmente. não é unicamente ciência. por natureza. tem. e não pode. na ação de um homem. portanto. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. são superiores às virtudes éticas. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. contemplativas. a vida. Se a virtude é. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. estabiliza-se. morais. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. passional. a que é necessária à virtude. que é precisamente uma atividade conforme à razão. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. está a beatitude divina. não são mera atividade racional. ele. mas unicamente conhecer e pensar. práticas. consegue a felicidade mediante a virtude. que constituem propriamente o objeto da moral. a sua lei. como causa eficiente e formal (exemplar). certamente. o seu bem. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. a prática. ativas. pensamento de si. no mesmo tempo. razão pura. mas unicamente como o fim último. da natureza e do universo. sobre a ação. do intelecto. permanece o dualismo. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. da vontade. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. isto é. o racionalismo. É uma distinção e uma hierarquia. A razão aristotélica governa. que exige o conhecimento absoluto. com o pensamento e a vontade. fundamentalmente. mas adquiri-se mediante a ação. igual para todos e sempre. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. Deus não pode agir e querer. Pelo que diz respeito à virtude. Visto ser a razão a essência característica do homem. a vontade. pensamento de pensamento. mas concreto. não é abstrato. por conseqüência. voltando-se para ele. metafísico. mas. ser completamente resolvido na razão. logo. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. uma atividade segundo a razão. por conseqüência. que a transcendem. mecaniza-se. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". e a esta é necessária a razão. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. As virtudes intelectuais. de que se falou quando das obras dele. e variável conforme as circunstâncias. o exercício e. a virtude não é inata. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. Se Deus é mera atividade teorética. E nesta autocontemplação imutável e ativa. teoréticas. atraente. reta. como não é inata a ciência. como queria o ascetismo platônico. e. Logo. a sua felicidade. . da filosofia.

que é o governo de poucos. condena o estado que. tempo e liberdade. a felicidade dos súditos mediante a ciência. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. diversamente de Platão. a educação militar de Esparta. como as partes precedem o todo. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democrático-intelectual. visa a conquista e a guerra. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. as materiais. a mulher. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. como Platão. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. No entanto. isto é. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. e põe a conquista acima da virtude. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. importantíssimas a poesia e a música. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. deve promover a virtude e. sem direitos políticos. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. agora. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. cujo caráter e valor estão na unidade. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. como o trabalho. O estado não é uma unidade substancial. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. Vejamos. cujo caráter e valor estão na qualidade. consequentemente. subordinadamente. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. em razão da imperfeição destes. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. intelectuais e. além de um fim educativo. a satisfação daquelas necessidades materiais. Deve fazer frutificar seus bens. defesa e segurança. e cuja degeneração é a demagogia. dessa forma. político. possuidores. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. Compreende-se. é distinta da moral. a propriedade particular e a família. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. além. de outro modo irrealizáveis. é superior ao indivíduo. Aristóteles. a aristocracia. os escravos. para tanto. isto é. conservação e engrandecimento. então. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. O estado surge. de que acima se falou. contudo. E. os bens. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. a democracia. Não obstante a sua concepção ética do estado. para que a propriedade seja produtora. visto ser necessário. pois os homens têm necessidades materiais. precisamente. que precede cronologicamente o estado. Segundo Aristóteles. o bem comum superior ao bem particular. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. que é o governo de muitos. político. aquela a coletividade.66 A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. enquanto a guerra. duas classes reconhece: a dos homens livres. sendo naturalmente animal social. isto é. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. e. como seja tarefa essencial do estado a educação. dos trabalhadores. Quanto à forma exterior do estado. cujo caráter e valor estão na liberdade. é-lhe essencial a propriedade. condição e complemento da atividade moral individual. Eis porque Aristóteles. O estado. como ao estado. tem também um fim econômico. porquanto a família. Daí a escravidão. e não máquinas. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. Mas o seu fim essencial é espiritual. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. e cuja degeneração é a oligarquia. negativas e positivas. O estado provê. são necessários instrumentos inanimados e animados. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. O estado é um organismo moral. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. que é o governo de um só. A política. bem como aptas qualidades espirituais. que exigem indivíduos particulares. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. E critica. a dos cidadãos e a dos escravos. pois o homem. e cuja degeneração é a tirania. a . o estado em particular. então. naturalmente. A ética é a doutrina moral individual. porque o fim último do estado é a virtude. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. Se se quiser a unidade absoluta. do chefe a que pertence a direção da família. a política é a doutrina moral social. estes últimos seriam os escravos. mediante um treinamento profissional. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. físicas. salva o direito privado. inicialmente. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma.

a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. seja embora real. Todo ser. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. Exporemos portanto. o sensível. mas em seus aspectos universais e necessários. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. não governa. mais do que as transcendentes idéias platônicas. concretizado num sensível. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . Também Aristóteles. isto é. No entanto. como Platão. particularmente de Atenas. pelo seu efetivo isolamento do mundo. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. produção mediante a imitação. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. até sem correção alguma. imitação de uma imitação. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. ser efetivo. ainda que encarnado fantasticamente num particular. As leis da obra de arte serão. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. graças ao artista. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular.67 forma de governo clássica da Grécia. para depois chegarmos àquela que foi chamada. princípio dos movimentos e das formas do mundo. E não fica nenhum outro objeto religioso. antes de tudo. Na arte. necessária e universalmente. capacidade de ser. I. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. e admite. platônicos. e sim concreta: deve ser relativa. não cria. evidência e vivacidade de expressão. em diversas . que ele não conhece. as questões gerais da metafísica. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". Não obstante esta concepção filosófica da divindade. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. A arte é. num particular. e sim imitação direta da própria idéia. com o seu profundo realismo. num particular e. Deste seu conteúdo inteligível. acomodada às situações históricas. não está em condições de se tornar objeto de religião. purificadora da arte. depende a eficácia espiritual pedagógica. este Deus. movido e motor. destarte. Entretanto. o inteligível. o imutável. porém. imitação da forma imanente na matéria. deve ser encarnado. do inteligível imanente no sensível. matéria e forma. não exclui uma espécie de politeísmo. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser  natureza e homem  e culmina no que não pode vir-a-ser. como obra política para moralizar o povo. particular e universal. Não. isto precisamente porque o inteligível. o mutável. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. esse inteligível. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. mas o que por natureza deve. e ato significa realidade. Explica e justifica a religião positiva. portanto. o universal. Deus. concretizado pelo artista num sensível. mítica. isto é. Por isso. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. mais tarde. os deuses astrais. íntimo sentimento do conteúdo. metafísica especial. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. No entanto. não-ser atual. universal é encarnado. tradicional. às circunstâncias de um determinado povo. universal. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. acontecer. a forma. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. é portanto uma síntese  um sínolo  de potência e de ato. Aristóteles admite a religião positiva do povo. pois. tornando intuitivo. como é o fenômeno. que não seja o Ser perfeitíssimo. bem como o mundo mutável e material. de conformidade com o fundamental realismo grego. A primeira e a última abraçam todo o ser. perfeição.

O motor pode ser unicamente ato. surge o movimento. A causa eficiente. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. é um mero possível. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Herácllito. portanto. Um ser desenvolve-se. a forma aristotélica não é separada da matéria. ingrediente necessário para a existência da realidade material. A realidade. aperfeiçoa-se. nem o ser de Parmênides. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. Desta doutrina da matéria e da forma. a causa eficiente. A matéria sem forma. causa concomitante de todos os seres reais. e sim imanente e operante nela. propriamente. passando da potência ao ato. portanto.realizadora. Aristóteles faz o primeiro  a idéia  imanente no segundo  a matéria. o segundo é atualidade . IV. não é o puro não-ser de Platão. potência. é um absolutamente interminado. a forma e a matéria. A essência  igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie  deriva da forma. elemento imutável da mudança. Mediante a doutrina da matéria e da forma. Diversamente da idéia platônica. imperfeição. entre a matéria e a forma. por sua vez. por uma substância em ato. III. Com respeito à matéria. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. portanto. a essência. a natureza que ele assume. vamos logo falar. mas vice-versa. não existe por si. que constitui precisamente a substância. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. especificadora da matéria  . para poder explicar a realidade efetiva das coisas. por sua vez. Os elementos constitutivos da realidade são. porém. inteligível. o segundo forma (substancial). Segundo Aristóteles. Daí a necessidade de um terceiro princípio. conforme o grau de perfeição. de realidade dos vários seres. depende da matéria. substâncias. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados  bem como a matéria não pode ser atuada  a não ser por um outro indivíduo. Aristóteles explica o indivíduo. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada  e desenvolvida . consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. perfeição. a alma é que move o corpo. de uma potencialidade anterior. potência realizada. imutáveis. a pura matéria. e esta. II. a substância física. a coisa movida  enquanto tal  pode ser unicamente potência. já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. Eis a grande doutrina aristotélica do motor . aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. em que se sucedem os acidentes. em que a forma introduz as determinações. O indivíduo é. a única realidade efetiva no mundo. chamada matéria-prima. pressupõe uma realidade imutável. a causa final. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). que é intuitiva. é composta de indivíduos. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. as qualidades acidentais. que representam a potência e o ato no mundo. A mudança é. na natureza em que vivemos. porém. que são uma síntese  um sínolo  de matéria e forma. mas une-os em uma síntese conclusiva. é o substrato imutável. o imperfeito o perfeito.68 proporções. como as idéias platônicas. mero princípio de decadência. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. Daí uma quarta causa.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. portanto. a forma é. a que é submetido tudo que tem matéria. eternas. forma. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. porém. isto é. Por exemplo. deve operar para um fim. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. em que a mudança se realiza. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. forma concretizada da matéria. que é precisamente síntese  sínolo  de matéria e de forma. as formas aristotélicas são universais. produzindo esta síntese o indivíduo. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. que tanto atormenta Platão. princípio de ordem e finalidade. universal particularizado. Esta realização do possível. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. a realização do possível. a individualidade. racional. Por conseqüência. a forma sem a matéria. Um substrato comum. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. a mudança. A mudança. matéria enformada. a potência o ato. possibilidade de assumir várias formas. portanto. Ao contrário. visto ser impossível que o menos produza o mais. e as determinações que se realizam neste substrato. Então não existe. A matéria aristotélica. A síntese  o sinolo  da matéria e da forma constitui a substância. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. que é de duas espécies. o vir-a-ser. O primeiro é potência. a mudança. matéria. Da relação entre a potência e o ato.

O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. pelo que ela é espírito. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. Como se vê. deve ser espiritual e. o mutável. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. quanto a tal. Analogamente às atividades teoréticas. mas instrumento da alma racional. conforme Aristóteles. Enfim. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. a atividade fundamental da alma é teorética. absolutamente imóvel. é a nutrição e a reprodução. Deus. não é um espírito puro. tendo a função de coordenar. o pensamento. pois. A vontade é o impulso. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. é o pensamento. no grau sensível bem como no grau inteligível. se desdobra em dois graus. vivente. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. sendo embora uma e única. A sensação embora limitada é objetiva. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. A característica da vida animal. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. sem idéias inatas. o ser absoluto. o necessário. através do movimento de um meio. se se tiver presente que o homem é um animal racional. em geral. ato puro. o corpo humano não é obstáculo. unificar as várias sensações isoladas. que é constituída pelo segundo. cognoscitiva e operativa. ativa. o imutável. o sensível comum. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. que é a forma do corpo. movimento. Por conseqüência. o material. que tem por objeto específico o homem. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. diversamente de Platão. E assim. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. e é própria da alma racional. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. funções. repouso. que a ele confluem. a alma humana. conhecendo o imaterial. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas porquanto se dão atos diversos. a característica da vida do homem. que. deve ser imperecível. Cada uma destas. tem várias faculdades. com o juízo. o imaterial. começa com a síntese. O conhecimento sensível. as qualidades gerais das coisas tamanho. ou a possibilidade da falsidade. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. forma do corpo. De sorte que. quer dizer. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. as essências. e é próprio da alma animal. e se tornam. dependente do sentimento. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. por sua vez depende do conhecimento sensível. pois. a alma humana. sensitivo e intelectivo. ainda que rejeite o inatismo platônico. pelos vários sentidos. isto é. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. a saber. por isso. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. especificamente diverso do primeiro. segundo Aristóteles. o contingente. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. doutrina que culmina no motor primeiro. Objeto do sentido é o particular. Aqui nos limitamos à psicologia racional.e da coisa movida. o apetite guiado pela razão. O sensível próprio é percebido por um só sentido. . percepções. a sensação. e. a inteligência. O senso comum é uma faculdade interna. que tem por princípio a alma sensitiva. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. e dessa depende a prática. que tem por princípio a alma vegetativa. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. representações. isto é. contemplativa e ativa. na sensação propriamente dita. Objeto do intelecto é o universal. etc. a falsidade. cognoscitiva. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. imediata ou à distância. que é precisamente a alma. sendo superior a estas. isto é. que tem por princípio a alma racional. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. mas um espírito que anima um corpo animal. figura. A Psicologia 69 Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. Assim. respectivamente. as sensações específicas são percebidas. são percebidas por mais sentidos. isto é. pressupões um fato físico. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico.

as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. 3. de fenômenos  é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. o aspecto. Movimento substancial . A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dános. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. que tem um valor teorético. realização de uma possibilidade. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. é. enquanto possível. do "antes" e do "depois". uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. a realização da forma na matéria. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. ato puro. dum lado. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo  como sendo relações de substâncias. porém. primeiro escritor da história da filosofia. e a matéria. nascimento e morte. físicas e especialmente astronômicas. Aristóteles. mas encalha. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. é a análise dos vários tipos de movimento. como enigma insolúvel e inexplicável. nas extravagâncias dum idealismo extremo. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. 2. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. sempre o que é mais belo". O espaço é definido como sendo o limite do corpo. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. nas suas linhas gerais. autor do primeiro tratado de psicologia científica. sem obrigação nem sanção. político. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo  finalismo  por ele propugnado com base na finalidade.mudança de forma. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". Sua moral. Movimento qualitativo  mudança de propriedade. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. Vista Retrospectiva Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. "A natureza faz. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. Em torno desta questão fundamental. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. Movimento quantitativo  acrescimento e diminuição. Movimento espacial  mudança de lugar. uma verdadeira contradição e deixa subsistir.70 A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. 4. condicionando todas as demais espécies de mudança. que entende com a metafísica. Criador da lógica. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. isto é. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. patriarca das ciências naturais. moralista. a existência dos seres fora de Deus. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. Platão dá um passo além. com o seu espírito positivo e observador. pela doutrina do conceito. . e são logicamente separáveis da sua filosofia. na própria teoria aristotélica. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. que ele descortina em a natureza. metafísico. a medida  do movimento segundo a razão. princípio potencial. O tempo é definido como sendo o número  isto é. Quanto às ciências químicas. como filosofia da natureza. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. a psicologia e a lógica. mudança. em torno dos quais fez ele investigações profundas. de outro.

habitadores felizes de intermundos . resolve-se numa física. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . a paz. mas conservou-se fortemente organizada. autor de De rerum natura. conforme o desejo do mestre.C.diz Epicuro . Em seus jardins. arrancar-se-iam destas e chegariam até à alma imediatamente.como o estoicismo . rápida e vasta difusão no mundo romano. Epicuro. é uma complicação de sensações. . discípulos e amigos. pertencentes a classes sociais elevadas. deu vida a uma sociedade genial. . gravada nas jóias. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. nasceu em Atenas. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. física e ética. Epicuro. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. Faleceu em 270 a. A originalidade deveria manifestar-se na vida.perece com o corpo. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. gosto para a formosura. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. em 341 a. pela maior parte perdidos. nenhuma preocupação com a morte. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. A filosofia é a arte da vida. Aliás. com setenta anos de idade. Como a sensação.I século a. resumida em catecismos. missões. mas sempre materiais . Tito Lucrécio Caro . Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. Estas nos dão o ser. evidente. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. ajudas materiais. canônica) epicurista é rigorosamente sensista. a alma formada de átomos sutis. desde logo.desinteressam-se por completo dos homens. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. a sua imagem. a ciência à moral.C. mensais e anuais. feita de nobreza de sentimentos. a sua filosofia foi considerada como uma religião. senso refinado. intuitiva. fundador da escola que tomou o seu nome. eternos. houve todavia. Cedo dedicou-se à filosofia. em que dominava o vínculo da amizade. nos jardins da sua vila. e . que é imediata. da morte. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. do alémtúmulo. da física . ou mediatamente através dos sentidos. seguindo as pegadas de Demócrito. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. daí. A mãe praticava a magia. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. a percepção sensível.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. invisíveis.C. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. sobretudo. Precisamente. A escola epicurista durou até o IV século d. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação.71 O Epicurismo do ateniense Néocles. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. indivíduo material. A associação espalhou-se depois. O epicurismo teve.divide a filosofia em lógica. cartas. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético.o poeta entusiasta.. e foi criado em Samos. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. provavelmente. democritiana. mecanicista. a sua doutrina. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. a serenidade. imutáveis. que constitui a realidade originária. semelhante ao dos deuses. também subordina a teoria à pratica. homens famosos. num sereno lazer. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. recorre Epicuro à física atomista. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. A gnosiologia (lógica.. mediante uma estável constituição. Igualmente. a apatia. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada.C. Portanto. onde encontramos. que seriam imagens em miniatura das coisas. em todos os tempos e lugares. para a cultura superior. como com aquilo que precede o nascimento. é tarefa do conhecimento do mundo. mas teve escasso desenvolvimento. para garantir ao homem o bem supremo. que venerava Epicuro como uma divindade.

não ser perturbado no espírito. Epicuro. da emoção. a maneira grega. do filósofo. A filosofia toda está nesta função prática. O universo não é concebido como finito e uno. Nesse mundo o homem. infinito. daí derivam encontros e choques de átomos e. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. no peso. a origem e a variedade das coisas. sabiamente. . E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. não naturais e não necessários . mas ainda renuncia os terceiros. Em que consiste. sem causa. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. O prazer espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível. a ambição. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos.por exemplo. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. O único bem é o prazer. para estar tranqüilo. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. aos prazeres positivos. a não ser em vista de um prazer. na apatia. critério único de moralidade é o sentimento. O fim supremo da vida é o prazer sensível. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. a virtude ética de Aristóteles). Aqui. sem providência divina. em vigiar-se. e nenhum sofrimento deve ser aceito. Em realidade. Não sofrer no corpo. na insensibilidade. Mas precisamente ainda. da paixão. na quietude. no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. renuncia os segundos.por exemplo. e. esteticamente. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. espalhado pelo espaço infindo. satisfazendo suas necessidades essenciais. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. sujeitos ao nascimento e à morte. que é unicamente presente. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. refletido. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. que é uma simples combinação da contingência. racionado? Na satisfação de uma necessidade. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. Nisto estão toda a sabedoria. indivisíveis (átomos). quando for preciso. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . na remoção do sofrimento. nenhum prazer deve ser recusado. portanto. físicos e espirituais. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. a amizade genial. como o único mal é a dor. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. a virtude. Estes. melhor é conhecer do que agir. afinal. trata-se do prazer imediato. sem alma imortal. a vida ideal do sábio. a virtude dianoética de Aristóteles). não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. e precisamente em uma vida curta e refinada. que nasce de exigências não satisfeitas. estéticos e intelectuais. para os quais não há lugar no seu sistema. deve adaptar-se para viver como melhor puder. a moral epicuristas.72 homogêneos. consistindo na ausência do sofrimento. do indeterminismo universal. mas negativo. como os mais altos prazeres. por conseqüência. perturbam a serenidade e a paz. filosoficamente. no sono. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. pelos mesmos motivos.no tamanho. os átomos estão no espaço vazio. ou de nenhum sofrimento menor. como é desejado pelo homem vulgar. se ensina a renúncia. Entretanto. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. indispensável para que seja possível o movimento e. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo como pensava Demócrito. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . de fato. É mister dominar os prazeres. espontâneos (clinamen). se ele faz uma afirmação profunda. O verdadeiro prazer não é positivo. mas também na ação (cfr. do prazer imediato. o instinto da reprodução. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. Também segundo Epicuro. e não se deixar por eles dominar. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. refletido. escolhido prudentemente. os vórtices e os mundos. e na morte. porém. Assim. avaliado pela razão. No epicurismo não se trata. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. consequentemente. na figura. por conseguinte. esse prazer imediato. no isolamento do mundo. renunciando a todos os desejos possíveis. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. O sábio satisfaz os primeiros. No entanto. que é precisamente liberdade e paz.

porém. portanto. e a morte é a ausência de sensibilidade. quando ela é nós não somos mais. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. Através da mais absoluta indiferença. tendo forma humana belíssima. O epicurismo. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. Epicuro. ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. Chega-se. de sofrimento. diversamente do imanentismo estóico. mesmo negativa. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. Deste modo. imortais diversamente dos deuses estóicos . do sossego. fora do mundo e dos mundos. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. destarte. embora imperfeita. conversando em grego! Mas . É de fato.não atuam sobre o mundo e a humanidade. Epicuro venera os deuses. da indiferença. Nunca nos encontraremos com a morte. para não serem contaminados. inversamente. no entanto. não para receber auxílio. negando todo absoluto e transcendente. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. dar uma unidade estética e racional à vida. portanto. A felicidade não é mais uma coisa positiva. paz e contemplação. à destruição de todos os valores. sorvendo ambrósia. teria praticado . mais do que ao mundo.o mal da religião. existem. dotados de corpos luminosos. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . especialmente durante o sono. Epicuro é também hostil à atividade pública. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. que é inacessível ao homem". que importa na contemplação do ideal. Substancialmente. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. uma norma de vida ordinária e espiritual. incoerente. Almejava. mas não é atacada pelo ceticismo. Vivem. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. ela não é. praticamente ateu. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida.como na Academia e no Liceu.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . nos espaços entre mundo e mundo. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. prática e teorética. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. preenchida com as mais nobres ocupações . Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. portanto. representa. . Os deuses de Epicuro são muitos. uma religião desinteressada. sem qualquer metafísica. mas não se podem conhecer por falta de meios. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. o objeto. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. que não pode ser senão cópia de realidade. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. perturbados.como os fantasmas de todas as outras coisas . sutis e luzentes. nos jardins de Epicuro. vivendo ocultamente. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. escapando destarte a fatal destruição dos mundos.73 do vulgo. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. porque quando nós somos. considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. Epicuro. na beata solidão dos intermundos.sempre acordados e sentados em jovial convívio. contemplados . nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação.segundo ideal grego da vida . procura-se realizar finalmente tão almejada paz. Então. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. constituídos de átomos etéreos. especialmente do que o estoicismo.desceriam até nós dos intermundos. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . Epicuro admite a divindade transcendente. proclamado ateu.beatos. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. na unidade da amizade. que vive no mundo de estátuas divinas. na conversa arguta e delicada: numa palavra. É preciso venerá-los para imitá-los.

que concebem a filosofia popularmente. matemática. Do contingente e do temporal. como na idade moderna. toda moral. faz uso da dialética eleática. na história da filosofia denomina-se período ético. embora imensamente inferior ao ceticismo. como opina Aristóteles. dada a natureza crítica do ceticismo. sistema. Temos precisamente. Em conclusão. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônico-aristotélico. ou não têm a força da crítica. geografia. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticosascéticos dos céticos. em princípios da era vulgar. O ceticismo critica o conhecimento sensível. ciências naturais. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon.C.) Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. inteiramente voltada para a prática e para a ação. e sim o jus. moralisticamente. depois (ceticismo e ecletismo). que surgiram em tempos diferentes. enfim. consequentemente. este período toma o nome de helenismo. com relação às ciências especiais. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo. que implica sempre numa crítica. enfim. Também o ecletismo. e por demais despersonalizadas. literatura. história. portanto será não a filosofia. A primeira escola cética serve-se. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. depois acadêmico e. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). E. Na história da civilização e da cultura. física. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. bem como à moral das escolas socráticas menores. Não filosofia teorética. anula-se toda metafísica e. não filosóficos. acadêmicos e também peripatéticos. a filosofia torna-se uma preparação para a morte. significando a expansão da cultura grega.529 D. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. cuja grande obra. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou. no mundo civilizado. O pragmatismo eclético foi. mas filologia. característico . O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. O interesse teorético. esvaziadas do seu conteúdo original. desenvolve-se naturalmente a técnica. de várias escolas filosóficas. medicina. restringem-se ao particular. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes. geralmente.. se nada é verdadeiro. que procura na filosofia um conforto. e a coerência materialista do epicurismo. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. organismo especulativo. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. no período helenista e depois ainda. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. um ecletismo estóico. . a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades. bem como o intelectual. como julga Platão. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. construção. e a sabedoria é desapego da ação. do relativismo sofista. voltando-se para a sofística. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim.C.C. peripatético. a terceira. mais ou menos). como o ceticismo. cínica e cirenaica. da tese e da antítese. o vigor especulativo. e não justaposição mecânica de peças sem vida. de tendência pirroniana. helênica. E. ao passo que a metafísica esmorece.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. melhor ainda. astronomia. tudo vale igualmente. nem a da afirmação. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. enfim. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. em ordem cronológica. pois a filosofia é escolha. embora acriticamente. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. uma orientação moral.O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. O Período Ético (300 a. ciência 74 . e também a opinião. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno.como acontece nos períodos de decadência especulativa . como uma suma de elementos estóicos.

leva para ele. que se chamou estóica. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. bastante divergentes do estoicismo clássico. Os dois últimos. mais ou menos). Como em Aristóteles. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. uma ética. em outras palavras. de Atenas. mas afirmações dogmáticas. um período médio ou eclético. também da moral. física e ética. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. Entende-se. pois. em contradição consigo mesma e com a moral. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. e. para assegurar ao homem a felicidade. a saber. da escola cética. pelo ano 300. enfim exporemos o pensamento latino.. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. a de escritor. como na escola eclética. Seu pai. por conseqüência. O Estoicismo Em seu conjunto. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. filosofia moral e moral prática. da metafísica e. A escola estóica média ou eclética. Na lógica trata-se da gnosiologia. em que ainda há uma metafísica. sacerdotal. para firmar a virtude e. porém. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. O primeiro valor dá o conteúdo. portanto. do temor de além-túmulo. em segundo lugar. elementar. não sistemas críticos. o helenismo. mas. moralizadoras. em que a metafísica e moral são sincretistas. o qual. e precisamente desse terceiro período ecletismo e estoicismo. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. o segundo a forma . No dizer dos estóicos. diversamente de Aristóteles.perdidos seus bens . Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. como no precedente. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. uns tratados socráticos. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. em correspondência com o discurso interior e exterior. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. Não obstante esse absorvente moralismo. Finalmente. nem moral. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. libertar o homem das preocupações transcendentais. em que não há mais metafísica alguma. . Iniciou. o jus e a política dos romanos. pois. entre os quais o cínico Crates. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. aí . mas vastas orientações e escolas. logo. o direito romano. o estoicismo.75 e técnica. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. Trataremos. não como ciência. mas como uma missão e uma prática religiosa. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. mercador. é destruído. metafísica. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. acaba não sendo mais filosofia. por conseguinte. isto é. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. no fundo. da escola epicuréia. pelo que diz respeito à filosofia. seguindo-se o aniquilamento da ciência. e. e anacrônica. O conceito. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. stoá. funda a sua escola. inclusive da política e da religião.C. a física iguala a metafísica. antes de tudo.dedica-se à filosofia. logo. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. anuladas. uma física. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. pois. um período recente ou religioso. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. valor universal como a filosofia grega. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. juntamente com a atividade didática. em terceiro lugar. rigoristas. depende de cultura grega.Graecia capta ferum victorem cepit. Podem-se. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. da escola estóica.

a paixão. a autarquia. a paz. da indiferença universal. uma tendência irracional. mas a virtude. que nasce da virtude negativa da apatia. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. como geralmente acontece. a alma. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. e a lei desse princípio material só pode ser. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. que anda como um deus entre os homens. todavia. como precisamente afirmam os estóicos. porque. A serenidade. imaginam-no como espírito ordenador. uma emoção. decadente. à riqueza e à pobreza. salvo e pensamento. O sábio é beato. providência. como o Sol faz brotar da semente a planta. naturalmente. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. toda atividade é movimento. necessidade. pois no sistema estóico. nada lhe acontece que não seja por ele querido. e se conforma com o demais. destinada a . e os estóicos não são filósofos. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. ao prazer e ao sofrimento . a tranqüilidade da alma. segundo uma ordem teológica. se a ordem do universo é racional. em definitivo. esta mesma renúncia -. sem dúvida. isto é. todavia.76 A metafísica estóica reduz-se à física. Como o bem absoluto e único é a virtude. de tal maneira. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. ao repouso e à fadiga. uma necessidade mecânica. mas a sua destruição total. conforme a concepção de Heráclito. indiferença e renúncia a tudo. mas pragmatistas. de uma dura virtude. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. a virtude. Com o desenvolvimento do estoicismo. que são o verdadeiro. Por conseguinte. Como se vê. e para não perder. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. Com efeito. e dar uma explicação à razão. quando o homem se torna indiferente a tudo. que devem ser aniquilados. isto não se concilia. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. as propriedades das coisas. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. não é nem bem nem mal. a serenidade. é uma pura palavra. à saúde e à doença. metafísicos. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. incoerentemente declaram racional o fogo substância metafísica da realidade -. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. De tal forma. a apatia dos estóicos seria. e a tudo renuncia. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. na ética. destino. moralistas. mecanicismo. razão da vida. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. mal se for ligado ao vício. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. o fim supremo. espírito. numa palavra. único bem da alma.cujo conteúdo é. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. que se manifesta no mundo. da serenidade. não lhe resta efetivamente mais nada. o sossego. é sempre e substancialmente má. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. até a apatia. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. fornecer alguma base à sua ética do dever. inteiramente fechado na sua torre de marfim. porém. A paixão. da autarquia do sábio. fruto de uma fatigosa conquista. no fundo. à maneira de Demócrito. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. o único bem do homem. Mas é uma virtude absolutamente negativa. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. sem saudades e sem esperanças. e cujo curso é fatalmente determinado. não a alma. salvo o seu pensamento . a sabedoria. e sim como sendo ela própria um bem imediato. da serenidade. Esta matéria está em perpétuo vir-a-ser. A virtude estóica é. na filosofia estóica. o vício. Não Deus. a felicidade. a emoção. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. a dor.quer se trate de ódio. às honras e à obscuridade. Deus.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. donde derivam o desejo. contraditória. em especial no homem. a independência interior. devem-se conceber materialisticamente também Deus. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. supremo. inteiramente absorvidos na prática. Devendo os estóicos. quer se trate de piedade. não é o prazer. assim o mal único e absoluto é o vício. pois é movimento irracional. mas apenas indiferença. morbo e vício da alma .

cidade grega por excelência. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. Apesar das denegações dos céticos e da propaganda materialista dos epicuristas. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. promove todavia os conceitos de sociedade universal. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". o vértice da realidade inteligível ao suprainteligível e. elaborando uma moral ascética e mística. por outro lado. II . de perdão. Os homens piedosos querem fundamentar suas crenças filosoficamente. Tal é a atmosfera que vamos encontrar envolvendo tanto Filon de Alexandria. o racionalismo grego mediante o misticismo oriental. fazendo com que da substância do Absoluto seja gerado todo o universo até a matéria obscura. ou sintético. livres e íntegros. em segundo lugar. em relação com tal metafísica. entre o mundo e Deus: primeiro. O cristianismo tomará impulso. se esforçará por unificar os pólos opostos da realidade. apenas para os concidadãos. e o misticismo oriental o conteúdo. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. até para os infelizes e os escravos. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. em civilização humana e moral. onde campeia solitária uma justiça. então se desenvolvem. e elevando.aos fervores do misticismo oriental. Os filósofos. É o local privilegiado de todos os intercâmbios. todavia. os estrangeiros e os inimigos. Pelo que diz respeito à política. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. político por natureza. de lei racional. Será acentuado o dualismo platônico entre sensível e inteligível. que existe. não tem mais sua capital tradicional em Atenas. o culto de Mitra. quanto Plutarco ou Plotino. em Alexandria). A cidade é povoada de pensadores que dispõem de uma admirável biblioteca. Filon de Alexandria Filon de Alexandria (nascido por volta de 25 a. clássico. completar. cidade cosmopolita na qual vivem egípcios. porém. em seu último período. torna-se cosmopolita por natureza. A filosofia antiga. As religiões de salvação. entre matéria e espírito. a matéria com o mal.dualismo e racionalismo que nem sequer o gênio sintético e profundo de Aristóteles conseguiu superar. judeus.C. integrar a filosofia mediante a religião. O centro do pensamento então se estabelece em Alexandria. na qual o aristotelismo fornece sobretudo os quadros lógicos. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. e julga poder superar. entre finito e infinito. buscam a salvação. esse cosmopolitismo. Preocupações filosóficas e religiosas se unem estreitamente. por um lado. Seus correligionários .) é bem representativo dos meios judeus helenizados que só sabiam ler a Bíblia na versão grega denominada dos Setenta (segundo a tradição. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. da filosofia neoplatônica. gregos e romanos. identificando. de Ísis. Destarte. além da verdade suprema. O neoplatonismo julga poder superar o dualismo. proporcionando o racionalismo grego especialmente a forma. O racionalismo lúcido dos gregos se une . manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem.numa síntese muito original . nunca os homens foram tão famintos de Deus quanto nessa época. que tinha encontrado um obstáculo intransponível no dualismo e racionalismo gregos . a Bíblia hebraica teria sido traduzida para o grego por setenta sábios. Isto nos ajuda a compreender o caráter sincrético.Cristão O Neoplatonismo Características Gerais do Neoplatonismo O neoplatonismo pode ser considerado como o último e supremo esforço do pensamento clássico para resolver o problema filosófico. mediante o monismo estóico. morte moral. a qual. de direito natural.77 resolver-se na matéria. particularmente os intelectuais. virtude corrosiva.

uniu às práticas ascéticas ("Tinha vergonha de estar num corpo". é uma herança legada por Filon (é nesse sentido que Wolfson dirá que a filosofia medieval é inteiramente filoniana). O conjunto compreende cinqüenta e quatro tratados agrupados em seis Enéadas (isto é. . a filosofia não era simples disciplina teórica. mas escola de vida espiritual. Verbo eterno de Deus. Aí. e. que o "converteu" à filosofia (pois. isto é. cuja exegese ele propõe: á Apolo que. a fim de conhecer a filosofia dos persas. o próprio Deus é inefável. grupos de nove). das causas que fizeram triunfar o princípio do mal. do conhecimento dos dois princípios rivais. A idéia essencial (já presente em Platão e Plutarco) é a de que somos formados de uma alma. a Bíblia diz a verdade. o da concordância entre razão e fé. à maneira dos estóicos. a Bíblia e Platão. mas sob forma alegórica. psyche organon theou!" Plotino Plotino nasceu em Licópolis. Isto porque. inacessível às nossas abordagens. podemos nos aproximar d'Ele por intermédio da renúncia ao mundo e do recolhimento da alma. Plutarco aceita tornar-se sacerdote de Apolo Pítico em Delfos. a fim de nascer para o inteligível? Se Deus é inacessível. temos um primeiro esboço da teoria dos gêneros literários e das mentalidades! É com relação à inspiração sagrada da Pítia que Plutarco formulará sua célebre expressão: "O corpo é o instrumento da alma e a alma o instrumento de Deus. estaria fadada a uma grande existência. o princípio do mal. Já Platão não houvera dito que é preciso morrer para o sensível. dirigiu-se para Alexandria onde seguiu as lições do platônico Amônio Sacas. Filon pretende fazer uma síntese entre os ensinamentos de Moisés. que levou Joseph de Maistre. Para Plutarco. Todavia. Para Filon. A união dos dois explica a criação no que ela tem de bom. "Platão é um Moisés que fala grego". Platão traz a mesma mensagem sob forma filosófica. a voltá-la para as realidades sublimes). de Platão e de Zenão de Citium. Leva a sério as profecias de Pítia. ilumina o espírito de Pítia. Lagrange. Num sentido. identificar Deus com o universo. incompatível com o monoteísmo judaico). sobrevivendo aos seus desastres. e purificá-la. o espírito humano. Porfírio anotou e publicou seus cursos. que é a lei do nosso mundo. no Alto Egito. que o admirou. na escola neoplatônica. assim como entre os estóicos. Colocou em particular o problema do mal e da Providência em seu ensaio sobre as Dilações da Justiça Divina. dos meios que permitiriam a vitória do princípio do bem. Mas Tifon.ao qual Filon denomina Logos.78 tinham-no encarregado de uma missão junto ao imperador Calígula (para serem dispensados do culto ao imperador. Dezoito séculos antes do Pe. trabalha da melhor maneira possível para o renascimento do culto délfico. Para ele. não podemos. o grande problema da escolástica medieval. divina por essência. envolvida por uma potência malfazeja num corpo radicalmente vicioso (a encarnação é uma encarceração) e de que a salvação provém do verdadeiro conhecimento (gnosis em grego). diretamente. dirá seu discípulo Porfírio a seu respeito) um ensino muito brilhante. Plutarco encontra simbolização de sua doutrina nos mitos da salvação comuns em sua época.. estabeleceu-se definitivamente em Roma. introduz a desordem e a perturbação: dispersa os membros divinos de Osíris que Ísis tenta reunir. Plutarco de Queronéia O autor da Vida dos Homens Ilustres também é um pensador religioso. ao menos. mas esta exprime a Revelação segundo sua mentalidade e sua cultura. Plotino engajou-se no exército do imperador Giordano. Essa filosofia dualista provém de Platão e a encontraremos em todos os sistemas denominados "gnósticos". Como dirá mais tarde um discípulo de Filon. A idéia de Filon de harmonizar a revelação e a razão. a traduzi-lo. ao princípio transcendente do Bem se opõe um princípio do mal. aos 28 anos. Ísis simboliza a matéria e Osíris o Logos.. pode participar do Inteligível . com os seus hábitos de linguagem. destinada a transformar inteiramente a alma. A concepção que São João faz do Verbo divino muito deve às fórmulas e às idéias de Filon de Alexandria. Em 243. onde abriu uma escola. seu filho primogênito (protógonos).

O mal. Mas o Uno é riqueza infinita. obscurecida no mal. A Gnosiologia A gnosiologia de Plotino é semelhante à de Platão. Nesse sentido. Todavia. para Plotino. obscureceu-se. nada tem de uma substância positiva: "O mal não é senão o apequenamento da sabedoria e uma diminuição progressiva e contínua do bem". as trevas do mal. toda vida e todo valor. como diz Plotino. e o mundo sensível. assim ocorre com os seres emanados do Uno. Em ambos os métodos de purificação. discursivo. para Plotino. desejar é sentir falta de algo. rival do mundo do bem. o qual não é o conhecimento (uma vez que este supõe a dualidade do sujeito cognoscente e do objeto cognoscível . A. arrancará o jovem Agostinho de suas crenças dualistas abeberadas no maniqueísmo. é superior a tudo e fonte absoluta de tudo. manifestando-se nela obscuros vestígios da verdade.Da Inteligência procede a Alma. como para os gnósticos. As almas individuais emanam dessa alma universal. B. a conversão plotiniana lembra a dialética ascendente de Platão. o mundo material representa o último estágio dessa "difusão" divina. mas ele próprio é de tal ordem que nada podemos afirmar a seu respeito. de toda virtude e. nem a vida. das três realidades eternas . mas antes encontrar a si mesmo em sua verdade. C. A Alma é a mediação entre a Inteligência. isto é. e ele é plenitude. Reservemo-nos. pela desvalorização da sensibilidade como aparência. Já no Timeu de Platão está colocada a questão de uma gênese do mundo. dialético. Todavia. um dia. em termos plotinianos. superior à sensibilidade. é. ainda que menores. por que o Uno não é único. enquanto o Uno dispersou-se. não pode desejar coisa alguma . da qual ela procede. o desejo e o esforço de uma alma que quer se encontrar e ao mesmo tempo se perder no Uno universal e inefável.A doutrina fundamental de Plotino é a das três hipóstases. é só o procurado pelo reflexo do bem que fracamente ainda brilha nele. a Inteligência.nem o Ser. 79 . por que se degrada na multiplicidade? É certo que não está submetido a qualquer necessidade. se assume e tenta se elevar até o Princípio original. não é. Essa filosofia. uma luz mergulhada na bruma. na medida em que ela é Beleza (nesta segunda hipóstase encontramos algo das Idéias de Platão e do pensamento que se pensa de Aristóteles). O próprio Plotino escreveu uma tratado contra as seitas gnósticas. a idéia do Belo desempenha importante papel. de toda beleza. como até então não se sentira ainda. opinião. Ao movimento de procedência corresponde o impulso de conversão pelo qual a alma.Por que existem outras hipóstases? Por que esse Deus plotiniano. o peso da matéria. A Inteligência é que faz a realidade ter uma forma. Esse arrebatamento da alma. A perfeição suprema se difunde em si mesma.embora elas derivem. abismou-se no múltiplo.A realidade suprema. com respeito ao pensamento. Para ele. terceira hipóstase (que evoca o tema platônico da alma do mundo. não existe um mundo do mal.pois. no entanto. Assim como de um fogo ardente as chamas se irradiam. este último aspira à reconquista da unidade. . nem a essência. A alam humana também é uma parcela do próprio Deus presente em nós. na medida em que ela é coerente e harmoniosa. o que é capital para Plotino. Abaixo das três hipóstases. as essências das coisas. é aqui que encontramos a opacidade da carne. é o Uno. a obra de Plotino possui uma tônica de misticismo que é nova. o que explica o fato de o autor das Duas Fontes Ter colocado Plotino acima de todos os filósofos. O mal não é uma substância original. por outro lado. Não esqueçamos que é a leitura de Plotino que. assim como o deus cósmico dos estóicos). caída no corpo. à luz e ao repouso na fonte sublime. das três substâncias. mas antes a fonte inefável de todo ser e de todo pensamento. todavia. que atinge as idéias. a razão: conhecimento mediato. embora elas procedam uma das outras. cuja ordem é constituída por ela. não é absolutamente nova. o Deus de Plotino. livrar-se do mal. A sensação representa o primeiro grau de conhecimento humano. . o ponto extremo onde morre a luz. destruir um universo para dar nascimento a outro. Ele é todas as coisas e nenhuma delas. . esse êxtase foi que impressionou Bergson ao ler as Enéadas. É aquilo de que promana toda existência. tende a engendrar outros seres que se lhe assemelham. Segue-se. demonstrativo. sente-se aí. A alma que dizem prisioneira do mal é apenas uma alma que se ignora. de ver no plotinismo um dualismo gnóstico. Essa Inteligência é o princípio de toda justiça. generosidade sublime. O primogênito de Deus é o Logos.

Deus . O pensamento absoluto. que é uma fulguração divina. parece abrir-se o caminho para uma nova filosofia religiosa. do sentido. e começa o mundo sensível. intelecto. êxtase .que estão no noûs .80 A razão é a atividade do espírito. para a valorização da religião positiva. pois.sensibilidade. como este procede do Uno. Os graus dessa libertação são representados. que estão em escala decrescente do céu até os homens. A matéria plotiniana. ela procede do pensamento. no espírito humano. A segunda emanação do Uno é a alma. e nunca erra. O Cristianismo . é inefável e pode ser atingido na sua plenitude unicamente mediante o êxtase. É conhecimento intuitivo. O Uno.noûs. que estão entre Deus e o homem. mas. Deus certamente transcende o mundo. inteligência subsistente. que conhece enquanto vem iluminado pelo pensamento propriamente dito. Nisto consiste a moral plotiniana. A alma universal. A Moral Depois da descida . em que o espírito humano se torna passivo. Uno. mas o mundo é da sua mesma natureza. A Metafísica Como os graus de conhecimento são quatro . o qual é superior ao espírito. isto é. O universo deriva de Deus. do corpo. mas também mal. que é autocontemplação do espírito pensante. que procede de Deus degradando-se até à matéria. o Uno. em que é afirmada uma relação específica com a Divindade.e enforma a matéria. Com esta doutrina do êxtase.é a raiz de todo ser e de todo conhecer. A Religião O neoplatonismo afirma certa transcendência de Deus. indeterminação. em que este é imaginado como o suprainteligível. e em torno dele pode-se dizer apenas o que não é . o conhecimento participado. imediato.há a subida. não é apenas potencialidade. não por criação consciente e livre. segundo o modelo delas. o noûs. material. A primeira emanação é representada pelo noûs. por sua vez se multiplica e especifica nas várias almas individuais.arte e filosofia . o pensamento vem a ser intermitente e sujeito ao erro. divino. noûs.assim quatro são os graus do ser: matéria. a que são assimiladas as divindades das religiões tradicionais. a alma do mundo. em si mesmo. que se conhece a si mesma e em si as coisas. de sorte que é inteiramente indeterminado e inefável. compêndio do universo.representa uma atividade do espírito humano participada do pensamento absoluto. culminando no êxtase. Com a alma termina o mundo inteligível. da Inteligência . A alma contempla as idéias . irracionalidade. dianoéticas .segundo Plotino . O conhecimento humano. radicalmente ascética: libertação. Também o pensamento .o intelecto . transcende toda essência e todo o conhecimento. purificação da matéria. tudo depende dele. inconsciente. intuitiva e imutável.teologia negativa. e por Plotino distintos em deuses invisíveis e visíveis. Por isso. está sempre em ato de conhecer. No entanto. superior à filosofia. À razão segue-se o pensamento imediato. em linha ascendente. a inteligência. alma. Também Plotino sustenta que as almas humanas caíram de uma vida pré-mundana para o cárcere corpóreo. precisamente pelo fato de ser. que é identificação do espírito humano com o espírito absoluto. razão. pelas virtudes éticas. não discursivo e sucessivo. Efetua-se ela através do homem. também ensina a metempsicose e a conversão. microcosmo. a conversão do mundo para Deus. Deus.a emanação das coisas do Uno . ao mesmo tempo. a si e as coisas. se completa e atinge a sua perfeição no êxtase. Nesse grau de conhecimento o espírito compreende. mas por emanação inconsciente e necessária.. E outro caminho parece abrir-se na doutrina dos intermediários. nele. finalmente.

e sim a religião. Depois vieram as guerras. se o cristianismo não se apresenta. em Aristóteles. Era a invasão de Roma pelos germanos e a queda do Império Romano.81 As Características Filosóficas do Cristianismo Não há propriamente uma história da filosofia cristã. especialmente. e a determinação. que será a teologia dogmática. Pelo que diz respeito ao teísmo. como. É o teísmo e o cristianismo. filosófica e moral. o cristianismo implica uma determinação. Esta parte. E. será. a "Idade das Trevas". a que é devida particularmente a construção da teologia. O cristianismo propaga-se por diversos povos. fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política. dilucidação. a Israel. Finalmente. no tocante à solução do problema do mal. dedicada à história do pensamento cristão. mas como uma religião. ocorre a fusão de elementos culturais greco-romanos. agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo  que sentiu profundamente. No Ocidente. do cristianismo. e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim. enfim. Entretanto. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino. pois no pensamento cristão. uma sabedoria. sistematização racional do conteúdo da mesma. tentando conciliar a fé e a razão. Sob a influência da Igreja. A filosofia clássica sobrevive. não é a filosofia. sobretudo. a saber. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz. em definitivo. como se acreditava. criadora da filosofia cristã verdadeira e própria. dividida do seguinte modo: o Cristianismo. sobretudo. a saber. A avalancha dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo. . O período medieval não foi. confinada nos mosteiros religiosos. dramaticamente. econômica e social do Ocidente. mediante uma disciplina específica. de fato. este problema sem o poder solucionar  frisamos que essa representa a grande originalidade teórica e prática. Isto se realizará graças especialmente à Escolástica e. elucidação. as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas. o interesse central. a obra da Patrística e. têm uma importância indireta com respeito à filosofia. a Patrística. de sorte que. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições. uma doutrina. portanto. pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral. o pensamento cristão desde o II ao VIII século. a Escolástica. enquanto soluciona o problema filosófico do mal. assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna. historicamente. como uma filosofia. pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida. Mas entre os hebreus o teísmo não tem uma justificação. cristãos e germânicos. o pensamento do Novo Testamento. o pensamento cristão tomará na grande tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. o pensamento cristão desde o século IX até o século XV. Características Gerais do Pensamento Cristão Foi conquistada a cidade que conquistou o universo. a justificação da Revelação em geral. fundam-se as primeiras universidades. Foi esta. Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. uma demonstração racional. da dogmática católica. porém. isto é. a fome e as grandes epidemias. de Agostinho. salientamos que o cristianismo o deve. sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação. O cristianismo fornece ainda uma  imprescindível  integração à filosofia. E é nesse esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. por exemplo. o máximo valor. a Tomás de Aquino. mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz.

tento quanto possível. Restava-lhes. o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade. sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado. Desempenhou. porém. a dúvida. pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões européias. conciliador das elites dominantes. que corresponde ao período medieval. aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé. a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas  especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. Conciliado com a fé cristã. Conquistou. Neste sentido. contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. Assim. trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana. toda investigação filosófica ou científica não poderia. Não foram poucos. Por outro lado. de modo algum. o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja.C. para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos. dita por quem quer que seja. demonstrar racionalmente as verdades da fé. política e econômica. também. Do confronto desses povos invasores com a civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação européia de vida social. contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega. em termos de fé). respectivamente. preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana. Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o cristianismo entre os povos bárbaros. Assim. a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber No plano cultural. na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. somente acessíveis à fé. e não segundo Cristo. afirmava Santo Ambrósio (340-397.. é do Espírito Santo. segundo a tradição dos homens. Segundo essa orientação. Em que consistia essa fé? Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. em grande parte. O objetivo era convencer os descrentes.82 A Filosofia Medieval e o Cristianismo Ao longo do século V d. segundo os elementos do mundo. De acordo com a doutrina católica. por exemplo. numa época em que a terra era a principal base de riqueza. pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. Patrística "A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica" . apenas. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações"." (São Paulo). a Igreja exerceu amplo domínio. Eles foram os responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles. "Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações da "filosofia". a função de órgão supranacional. a Igreja católica conseguiu manter-se como instituição social mais organizada. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega. vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental. das invasões germânicas. pela razão. o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros. Apoiada em sua crescente influência religiosa. Entre os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho e Tomás de Aquino. aproximadamente): Toda verdade. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. decorrente. Em meio ao esfacelamento do Império Romano.

como problema básico de especulação filosófica. inspirada na filosofia greco-romana. Segunda fase  (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos. por exemplo. A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas O método escolástico de investigação. o período escolástico pode ser dividido em três fases: Primeira fase  (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã. a palavra rosa continua existindo. e à tradução para o latim de algumas delas. Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi o inspirador neoplatônico Porfírio. se são corpóreos ou incorpóreos. segundo o historiador francês Jacques Le Goff. enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência. formando parte dos mesmos". Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente. passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. tentou munir a fé de argumentos racionais. de uma idéia geral. marcando-o definitivamente. submetidas à teologia. "Compreender para crer. Todas elas estavam. caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão. Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles. diretamente do grego. Quando a flor morre. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos. começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática. no caso de subsistirem. Nesse sentido. guardada nos mosteiros até então. Era a grande discussão sobre a existência ou não das . Terceira fase  (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja. mediante um trabalho de conquista espiritual. nem. tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. isto é. descobertas até então. Tendo a educação romana como modelo. aritmética. no entanto. Nesse caso. Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico. considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida. A cultura greco-romana. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino. crer para compreender". Uma das principais correntes da filosofia patrística. privilegiava o estudo da linguagem (o trivium) para depois passar para o exame das coisas (o quadrivium). a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Nesta fase. a palavra fala de uma coisa inexistente. é o nome de uma flor. os chamados universais de Aristóteles.83 Desde que surgiu o cristianismo. Era a renascença carolíngia. astronomia e música (o quadrivium). em sua obra Isagoge: "Não tentarei "Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus". Esse problema filosófico gerou muitas disputas. retórica e dialética (o trivium) e geometria. voltou a ser divulgada. idéias gerais. Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas? Rosa. no entanto. A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosóficoteológica denominada escolástica (de escola). A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o Padre Agostinho. A partir do século XIII. (Santo Agostinho) Escolástica No século VIII.

as satisfações conjugais e domésticas. porquanto este é hebraico e cristão. E como Jesus Cristo se torna garantia de toda uma tradição que o precedeu . idéia peculiar ao cristianismo e desconhecida pelo mundo antigo.até esquecer-se de Deus. o estado autônomo e privilegiado. a solução . também a parte que diz respeito à queda original e à relativa reparação. o conceito de uma revelação e assistência especial de Deus. ou.Novo Testamento. leva uma vida santa. E. e também o conceito de um Messias. tendo adquirido. caberá interpretar infalivelmente a revelação judaico-cristã e. o Verbo de Deus encarnado e redentor pela cruz. que ficaria. Basta lembrar que. para tanto não precisando. Devem ser examinados à luz da crítica histórica. A esta. as riquezas da natureza e a prosperidade dos negócios. ainda que contra a sua vontade.cristã do problema do mal seria vã. até que Israel. históricos. através de dolorosas experiências.os milagres e as profecias . relativos à revelação cristã . também se responsabiliza por uma instituição que a ele se segue . Conceitos indispensáveis para explicar o problema do mal. em segundo lugar. que ensina uma grande doutrina. dependem de uma filosofia racionalista e atéia em geral. De Israel toma o cristianismo. como elemento constitutivo. o poder e a glória . De Israel o cristianismo toma o teísmo. filosóficos. humanista e imanentista em especial. um reparador. sem solução alguma. não. ainda que poderosos e ilustres.a Igreja católica. em sua novidade e originalidade. No entanto.unicamente se é Homem-Deus. E achamo-nos diante de uma personalidade extraordinária . Quanto ao pensamento grego. Daí a idéia de uma história. Eis o esquema lógico da demonstração da divindade de Jesus Cristo. os documentos fundamentais. foi submetido à sujeição e à renúncia. por certo. a religião israelita. senão de provas históricas. A solução integral do problema do mal viria unicamente do mistério da redenção pela cruz . no máximo dualistas ou panteístas. à idéia de uma moral ascética. Diferentemente. uma vez admitido e firmado o teísmo.84 Os Precedentes do Cristianismo Os fatores históricos do cristianismo são: em primeiro lugar. se ele não fosse Homem-Deus. afirma-se a si mesma como divina e comprova explicitamente com prodígios e sinais . É o teísmo um privilégio único deste povo pequeno. o pensamento grego e. Pode ele dar plena solução ao problema do mal . religiosamente. o triste sentido da vaidade do mundo. portanto. pode dar origem.necessário complemento do mistério do pecado original. portanto. .Jesus Cristo . que são próprios e originais do cristianismo. filosófico e histórico. a Igreja. humanamente. logo se segue a possibilidade de uma revelação divina e da divindade de Cristo. obscuro e desprezado. e como justificador dos pressupostos metafísicos do cristianismo. Jesus Cristo Entretanto. essencial e característico.esta sua divindade.o Velho Testamento . para determinar a personalidade de Cristo. também. Na revelação cristã é filosoficamente fundamental. a várias interpretações. o conceito de uma queda original do homem no começo da sua história. o direito romano. quer dizer. por conseqüência. mas apriorísticos. básico. Os argumentos em contrário não são positivos. um redentor. em geral. racionalmente premente e racionalmente insolúvel. e recalcitrou contra os flagelos com que Jeová o castigava. é Jesus Cristo.. politeístas. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador das verdades reveladas. a pessoa de Cristo tornar-se-ia inteiramente ininteligível.ascética . o verdadeiro criador do cristianismo. que o chamavam ao temor de Deus e à penitência. evidentemente. que é desenvolvimento providencial da humanidade.. e não como constitutivo de seus elementos essenciais e característicos. Perseguiu os Profetas. como a estóica e todas as demais soluções filosóficas de tal problema. propriamente. Não é este o momento de fazer um exame crítico. e. os outros povos e civilizações. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador do novo organismo social. porém. antes de tudo. Idolatrou a vida longa e próspera.solução que representa o maior valor filosófico no cristianismo . o mundano e carnal Israel resistiu tenaz e longamente a esta idéia de uma radical miséria humana -. E quanto ao direito romano. enfim. especialmente pelo mundo grego. a qual. são.

Cristo é o Verbo de Deus encarnado para a redenção do gênero humano. até o agradava.podem se considerar compostos na Segunda metade do primeiro século. Escrito. do pecado. de sorte que é ele. revelando-lhes em Cristo crucificado o Deus padecente. foi em seguida traduzido para o grego e. devido à miséria do homem decaído. o de Lucas.como o primeiro . e. tocando os centros mais importantes do mundo antigo: Jerusalém. Cronologicamente. pois. O quarto evangelho. que eles procuravam em suas religiões misteriosóficas . o publicano. enfim. Estas últimas. Deus. tornando em seguida um dos doze apóstolos. No Velho Testamento Deus tinha dado aos homens a lei que. que Paulo sentia tão profundamente. originariamente. Cristo não deixou nada escrito. de caráter mais especulativo e teológico. Os Evangelhos de Mateus. embora fosse uma lei moral. Paulo de Tarso.85 O Novo Testamento Como é notório. relacionados com ele. de forma incisiva e eficaz. precisamente este mal. o teólogo da Redenção. Nesta cidade encerra a sua vida mortal com o martírio. mas nos transmitiu o ensinamento de Pedro. tem um especial valor especulativo.escritas em grego devemos dizer que não são cartas logicamente orgânicas e ordenadas. O quarto Evangelho. os quais . Quanto às Epístolas . que o chamava o caro médico. por excelência. o de João. que tem o poder de tornar teoricamente inexplicável a realidade. os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. por certa característica histórica e didática. tanto assim que podiam desagradar a um helenista refinado como Porfírio. tira o pecado do mundo. Atenas e Roma. preocupa Paulo é o do mal. porém. Também ele não foi discípulo imediato de Cristo. como qualquer outra filosofia. e o seu evangelho foi também escrito em grego. O primeiro em ordem de tempo é o Evangelho de Mateus. O segundo é o Evangelho de Marcos. inversamente . que não foi discípulo direto de Cristo. O problema que. fôra um inteligente e zeloso israelita.chamados evangelhos sinópticos . convertido ao cristianismo e mudado o nome de Saulo para o de Paulo. mas. transmitido. realizadas para finalidades apostólicas. o predileto do Mestre. é o último dos Evangelhos e dos escritos do Novo Testamento. a saber. No Novo Testamento. vítima e Salvador. Foi escrito em grego e destinado a um público não palestino. um dos doze apóstolos: João. mediante a graça de Cristo. Marcos e Lucas . O terceiro dos Evangelhos sinópticos é. na Cilícia. em aramaico e destinado ao ambiente palestino. pelo contrário. estas são extracanônicas e canônicas. por certo. Destarte ele se pôs em contato com todas as formas de civilização do Oriente helenista e do mundo greco-romano. a necessária limitação de todo ser criado: porquanto esta limitação nada tira à perfeição dos vários seres a eles devida . são porém. Para o mesmo fim escreveu Paulo as famosas cartas às comunidades cristãs dos vários centros da Antigüidade. É o mais amplos dos Evangelhos e relata amplamente os ensinamentos de Cristo. de que acha a solução em Cristo redentor.formam um grupo à parte. sobretudo. além das testemunhas cristãs. densas de conteúdo. companheiro de Paulo. crucificado e ressuscitado. Temos de Cristo testemunhas também pagãs. As grandes viagens apostólicas de Paulo são três e têm como ponto de irradiação Antioquia.e não acharam. e praticamente dolorosa a vida? Não é. tomada com certa amplidão. nesta língua.no seu conjunto . embora nos deixando na luta e no sofrimento. tornando o homem consciente de sua falta. não tirava o pecado. cronologicamente. o mal assim chamado metafísico. são fundamentais e mais do que suficientes para o nosso fim. Como Paulo pode ser considerado o teólogo da Redenção. A Solução do Problema do Mal Não há dúvida de que o problema do mal foi o escolho contra o qual debalde se bateu a grande filosofia grega. É este o aspecto do cristianismo que mais o impressionou. do sofrimento. testemunha da sua vida e da sua morte. tornou-se o maior apóstolo do cristianismo entre os gentios ou pagãos. teológico. de sorte que o nosso conhecimento mais imediato em torno da sua personalidade se realiza através dos escritos dos seus discípulos. Que coisa é. Não conheceu Jesus Cristo durante sua vida terrena. nem literariamente aprimoradas.foi escrito por um discípulo direto de Cristo. juntamente com este valor histórico. que os torna comuns e os distingue do quarto evangelho. João pode ser considerado o teólogo da Encarnação. são elas as seguintes: Paulo de Tarso. Também o Evangelho de João foi escrito em grego. A vida de Paulo é caracterizada por muitas e longas viagens. visto ser o mal um problema racionalmente insolúvel.

chegam ao conhecimento daquelas verdades racionais . então. rigorosamente. Ora. há. naturalmente. da racionalidade. Quanto à possibilidade de uma queda do espírito. que pertence unicamente a Deus.em sua atual intensidade. à ordem sobrenatural. A filosofia conhece a essência metafísica dessa natureza humana. . precisamente pelo fato de ser ele um ser criado. mas apenas aquela plenitude do ser. que nos parece desordenada. comprometeria também a sua maior conquista: Deus. exige que o corpo humano e a natureza em geral sejam submetidos às imposições do espírito.devido a uma culpa . E evidencia-se também que . precisamente se se considerar a natureza específica do homem. a qual nos fala de uma queda do homem no começo de sua história. a natureza humana. a alma. se se considerar. e especialmente uma religião entre as religiões. naturalmente. como o homem primigênio não só teria possuído aquela harmonia natural. deve reconhecer os próprios limites. chegada ao seu vértice. físico e moral. e a maioria dos homens viveu e vive cegamente. E bem poucos homens e só com muitas dificuldades e não sem graves erros. metafísica. entretanto.da vida de Deus. O mal. O Pecado Original Se a filosofia é impotente para resolver plenamente o seu próprio problema. isto é. etc. é plenamente explicável. de que agora é privado. fundamentalmente. o homem teria participado . e este propriamente em relação ao homem. quanto à possibilidade do mal moral. devida ao puro espírito. precisamente por causa do mal. renunciar absolutamente à solução deste problema. contra as exigências da própria natureza racional. é um problema. Este é o mal moral.bem como a ignorância e a concupiscência . evidencia-se. todavia. a qual é a natureza do animal racional.bem como todo o sistema dos seus dogmas como divinamente revelada.sobrepuja o intelecto. remetemos ao fato da Revelação em que é contida. a psicologia e a história. enveredando pelo não-ser. Não pode. não por direito. mas certamente exige a subordinação do sensível ao inteligível. teria gozado de uma espécie de deificação. como tal. como deveria ser em uma hierarquia racional dos valores. É antiga e famosa a objeção: de que modo concordar a absoluta sabedoria e poder de Deus com todo o mal que há no mundo. basta lembrar que o ser criado pode. mas unicamente se quer frisar que a dor e a morte .que são. e afirma esta verdade . em geral. do pecado. verdadeira imperfeição de um determinado ser. uma natureza. o chamado físico e moral. as coisas serão bem diferentes. senão o mal.86 por natureza. o instinto assenhoreia-se da vontade. Com isto. mas teria sido outrossim elevado.com uma natureza extraordinariamente dotada . o que não significa certamente lhe pertença a racionalidade pura. deve reconhecer-lhe também a desordem. a coisa é ainda mais patente: basta lembrar o sofrimento e a morte. por ele criado? Deve-se entender. do material ao espiritual. porventura. pela irracionalidade. naquele característico processo que é o conhecimento e a operação humana. sem preconceitos. se evidenciam como um estado inatural com respeito ao nosso ser espiritual e racional. demais vezes o sentido . mas por graça. pois esse gênero de mal. que domina o mundo humano. espiritual. mais freqüentemente ainda. no teísmo. Com efeito. não se quer dizer que a impassibilidade e a imortalidade sejam uma exigência da natureza humana. Noutras palavras. a saber. por sua natureza. já que. Da Escritura e da Tradição. porquanto não consegue resolver plenamente o seu problema. com um conveniente conjunto de dons preternaturais. desviar-se da ordem: porquanto há nele algo de não-ser. deve tornar-se crítica. Quanto à realidade de uma queda original do homem. mas ignora-lhe a causa. teisticamente concebido como transcendente e criador. Isto significa exigir que os sentidos sejam instrumentos do intelecto e o instinto seja instrumento da vontade. pois. outro meio a que pode o espírito humano razoavelmente recorrer para a solução de um problema tão premente? Apresenta-se a religião. garantidas pela interpretação da Igreja e sistematizadas pela teologia. E. como que por nova criação. o indivíduo e a humanidade. isto é. mas.do qual o conhecimento deve no entanto partir . proporciona-lhe o modo de desviar-se efetivamente do ser. E o livre arbítrio proporciona-lhe o modo de realizar essa possibilidade. Temos. o mal físico e moral. isto é. mesmo quando a verdade é conhecida pelo intelecto. de potência. desta maneira. indispensáveis para uma solução humana do problema da vida. Pelo que diz respeito ao mal físico. o problema da vida. porquanto é limitação da natureza. A filosofia é certamente construtiva.Deus. Não resta.

o bem e até um bem maior? É o que explica um segundo dogma da revelação cristã. nem a perda dos dons praternaturais. a glória de Deus o fim último de toda atividade divina. por conseqüência. enquanto não quiserem servir-se das misérias provindas do pecado original como estímulo para a Redenção. mediante o pecado. teria sido suficiente o mínimo ato expiatório de Cristo.Conseqüente Praxe Ascética Ascetismo e Teísmo Das precedentes considerações segue-se que o cristianismo importa sempre e essencialmente numa praxe ascética com respeito ao mundo. e não pelo fato de o sobrenatural oprimir a natureza. Ao contrário. frustar o plano divino da criação? Ou o próprio mal soube Deus tirar. quer dizer. logo. Deus. Em verdade. isto é. provinda do pecado. não podia causar vulneração em a natureza humana. o que eqüivale dizer. pois. também morais: deficiências que não dependem dos indivíduos. Fez isto para dar toda a glória possível à infinita majestade de Deus no reino do mal e da dor proveniente do pecado. é. a elevação à ordem sobrenatural sendo. Visto a ofensa feita a Deus pelo pecado ser infinita com respeito ao Infinito ofendido. que unicamente Deus podia dar.87 de orgulho contra Deus. para que o problema do mundo tenha verdadeiramente solução. para que seja verdadeiramente a explicação do mundo. pela lei da hereditariedade. não devida à natureza humana. a raiz metafísica desta praxe ascética acha-se no próprio teísmo. do qual. isto é. o Verbo de Deus. aqui não interessa. essencial desde o nosso nascimento. suas conseqüências naturais também. e que deve. devido à dignidade do operante. Deus precisava de uma reparação infinita. retamente definido como uma produção das coisas do nada por parte de Deus. uma enfermidade. Para a Redenção. não pode certamente ser imanente. portanto. que temos considerado insolúvel pela filosofia.que importa na privação da ordem sobrenatural. entende-se como o verbo de Deus assuma em Cristo a natureza humana. logo. e. até ao sofrimento e à concupiscência. o dogma da redenção operada por Cristo. O Cristianismo . A razão humana constata.teria o homem perdido aquela harmonia e a dignidade sobrenatural. A Redenção pela Cruz Mas. se podem transmitir deficiências materiais e. que sentido tem o mal no mundo? Conseguiu o homem. não podia suscitar o problema do mal. na privação do único fim humano efetivo. E. concernente à elevação sobrenatural. por conseguinte. é preciso chegar até Deus. a relação entre Deus e o mundo deve ser concebida segundo o conceito de criação. que o mundo. visto que eles a sofrem. O aspecto da condição primitiva do homem. o homem que devia pagar. Há. assume natureza humana. ser herdada. O pecado original. precisamente. devia descender toda a humanidade . pela natureza humana. nem pode deixar de constatar. tendo todo ato seu um valor infinito.voluntário e culpado em Adão. Sendo. uma debilitação espiritual e física na natureza humana. precisamente para reparar o pecado original e. a Segunda pessoa da Trindade divina. Basta. a privação da mesma. ele se sacrifica até à morte de cruz. . juntamente com os dons conexos. seria culpado em seus descendentes. mas por causa da desordem introduzida na ordem da natureza pelo pecado original. e. por mais supereminente e central que seja no cristianismo. isto é. lembrar como. Segundo este dogma. pois . gratuita. no conceito de criação. mas deve ser transcendente e criador. até à vulneração da própria natureza . sendo criatura e portanto dependendo totalmente de Deus. mediante uma divina dialética. por conseguinte. deve reconhecer praticamente esta sua dependência absoluta. Entretanto. de que temos imediatamente experiência. praticando o Cristianismo. porém. tomando-se esta palavra "ascética" não no sentido rigoroso de renúncia aos bens criados. exige absolutamente uma explicação. por definição. este seu nada ser por si. bem como a nenhuma natureza criada. ingressando na Igreja. mas no sentido de que o homem. E Deus. não se pode explicar por si mesmo. Com efeito. por exemplo. cometida pelo primeiro homem.

Unicamente deste modo o homem era redimido. foi abandonado pelos próprios e mais chegados discípulos. redentor pela cruz. que não tem em si a sua explicação e. bem como por parte do homem. em conseqüência do conceito de criação. com todas as conseqüências acima mencionadas. mas também apontou aos homens este caminho como sendo o caminho único para a salvação e a perfeição. fundamental. exigir de participar da natureza divina e enaltecer como tal a sua natureza. mas o cria livremente e para a sua glória. propondo-se como modelo de todos os cristãos: Eu sou o caminho. seria também preciso admitir em Deus uma indigência. a verdade e a vida. formado pela mesma natureza de Deus. e um outro o traiu de morte. E morreu abandonado sobre a cruz. e não de humildade e sofrimento. proveniente do pecado. A este segundo princípio é conexa a absoluta liberdade da criação. extrínseca. esta praxe ascética será loucura e escândalo. E o homem faz parte dessa criação. mas já é a única via de salvação e de santificação. é excluído que o mundo seja. a perfeição plena. então. que repugna à natureza. mas o homem é o autor do mal. pode ou não pode criar. Esta expiação divina. Se se admitisse para a obra de Deus uma finalidade diversa. foi condenado pelo povo que ele viera remir. isto é. nas relações práticas com Deus  que constituem o objeto da religião em geral  e também nas relações com a remanente realidade. portanto. a procura em Deus. com respeito à qual Deus seria passivo e. para o mundo. portanto. tal definição exclui que Deus organize uma pressuposta matéria qualquer. Os próprios israelitas sonhavam o Redentor cercado de grandeza e poder. de modo que nenhum ser criado pode. não mais Deus. porém. entre infinitos mundos possíveis. Não Deus. Deus cria toda a realidade. a humildade será a virtude essencial do sábio. não mais ato-puro. Então. sendo Deus a atualidade. do bem. Com efeito. como a atitude prática. mas enquanto querida por Deus. porque nada de quanto é real pode escapar à absoluta causalidade de Deus. Compreende-se. dispõe uma realidade essencialmente distinta de si. precisamente através dos sofrimentos provenientes da desordem decorrida do pecado. A vida . Humanamente e também racionalmente falando. Contrariamente a quanto pensava o dualismo grego.88 Ora. porquanto o mal. Além disso. Antes. do operar positivo. envereda pelo caminho da cruz. Aqui falamos. pois. mas não lhe foi feita justiça pela majestade do direito. assistido por algumas pobres mulheres. de modo nenhum. pode única e absolutamente criá-lo para a sua glória  embora esta já seja interiormente infinita. pode criar este ou um outro mundo. querendo criar o mundo. mas também na ordem de operar. não mais explicação do mundo. mas deficiente. o modelo e o ideal da vida cristã. Esta  tão significativa  praxe ascética tem a sua primeira e perfeita realização em Cristo. por isso. e não o tira de sua substância. Deus. Cristo  realizando a sua obra  foi julgado justo. Deus. de modo que Deus. ao contrário. sendo negação. E. exigindo ao mesmo tempo que a sua justiça fosse dignamente satisfeita mediante uma expiação infinita por parte do Verbo humanado. Cristo não apenas realizou na sua pessoa o sacrifício redentor. e confirmou a doutrina com o exemplo. não só na ordem do ser. não tem causa eficiente. uma atitude de reconhecimento do próprio nada. haveria a contradição de que Deus seria da mesma natureza do mundo. Daí nada se poder levantar contra ele e proclamar a sua autonomia. de qualquer modo. a saber: Deus teria necessidade do mundo que ele deve explicar. unicamente desta maneira se realizava a glória de Deus e a redenção do homem em toda a sua plenitude. neste caso. Deus. como o orgulho será o pecado essencial do estulto. privação. da criatura racional deva ser. Mas. logo. Contrariamente ao que pensa o panteísmo. Tornando-se ele. unicamente através da justiça se manifestava a misericórdia de Deus. não dispensava. quis Deus que fosse juntamente realizada a sua maior glória e o maior bem do homem. Os Gentios julgavam naturalmente loucura a renúncia cristã. mas apenas tornava possível a expiação por parte do homem. ter-se-ia uma contradição semelhante à precedente. por conseqüência. não em si. deste modo. evidentemente. dada sempre a desordem das coisas. um dos quais  o que devia ser seu vigário  até o renegou. assim. criando. cria o mundo do nada. menosprezando a prudência e a fortaleza humanas. Ascetismo e Cristianismo Deus quis remir o homem. como diz Agostinho. se ela fosse necessária. Cristo. através do sacrifício mais completo por parte de Cristo.

ou não parece. O fato de a autoridade ser necessária à existência da sociedade. e nem sequer quem entende de gozar livremente dos bens da terra. Resolve isto verdadeiramente só a ascética cristã. em especial. para gozarmos a vida em sua companhia. Este ensinamento. a sua imitação  não no homem feliz. é uma pena. que preocupam tão profundamente a sociedade humana. freqüentemente mais fortes em quem domina. à perfeita imitação dele. E também não se pode resolver naturalmente o problema árduo da sujeição à autoridade. não fica senão a obediência no sentido cristão. 89 Ascetismo e Caridade Esta moral ascética cristã é racionalmente fundada sobre o teísmo e a Revelação. a humildade. ao homem. A caridade cristã purificou a civilização antiga da barbárie da exposição das crianças. quando a perfeição se eleva dos preceitos aos conselhos? Poderia assim parecer. o que à orgulhosa razão humana parece estultícia. Considere-se. à família. Garante. já que não se apresenta mais como inesperado e trágico. E realiza-se na clássica praxe cristã dos votos religiosos. Aí são invertidos os valores terrenos. Tal renúncia não é imoral. em concreto. e isto é evidente se se examinam as paixões humanas. mais ou menos intensamente. para abraçar a pobreza. bem como em toda civilização mundana em geral. mais ou menos desprezados e negligenciados na civilização antiga. em seus termos atuais. a violência. em contraposição com a vida comum dos preceitos. à liberdade. os pobres. mas também na religiosa. . mas no homem sofredor. os sofredores. pois não fica certamente dispensado da dor quem neste mundo entende de viver apenas moralmente e não heroicamente. a castidade. mas nem sequer a caridade. os doentes. aos que aspiram à santidade. Menos ainda conseguem isto a filantropia e os demais equivalentes humanistas. valorizando a dor. por exemplo. porquanto torna conformada e voluntária a aceitação do sofrimento. sempre idêntica e imutável na substância. A questão econômica não se pode resolver naturalmente. e exaltados não os ricos. Antes de tudo. E esta a chamada via dos conselhos evangélicos. ao contrário. embora variável nas aplicações concretas. E. a caridade. como claramente o prova a dura experiência. os velhos. em lugar do clássico conceito de justiça. Deste modo Cristo dirá que o busquemos  isto é. à plenitude da vida cristã. que se pode considerar o compêndio do espírito do Cristianismo. consegue tirar a humilhação do receber. conforme a sabedoria cristã. e a Revelação disto dá explicação e justificação  não somente a justiça não consegue abolir a pobreza. a questão econômica e o problema da autoridade. segundo os graus de perfeição cristã e as concretas diferenças individuais. impõe Cristo a renúncia total aos grandes bens do mundo: renúncia à riqueza. o sermão das bem-aventuranças. a fraude. Em segundo lugar. a convivência social. então. barbárie que se repete. porquanto formada de homens. que procuremos a sua imagem. renuncia-se a si mesmo. se acha em toda a sua vida e. os poderosos. racional. apesar das aparências contrárias. exaltando o sofrimento: bem-aventurados os pobres. Com efeito  prescindindo do fato de que o trabalho. das lutas dos gladiadores. mas especialmente no sermão da montanha. os gozadores. não é argumento suficiente para que todos obedeçam à autoridade. os mesquinhos. acharemos alimento ascético. ascético. como condição necessária para a salvação  se alguém quer vir após mim. a obediência. a própria caridade cristã. no entanto necessária para que a sociedade possa sustentar-se. mas os pobres. na sua morte  em abstrato se acha em toda a sua doutrina. Cristo dirige a todos os seus seguidores. moral. no egoísmo de toda civilização puramente humana. a imitação de Cristo crucificado  diversamente embora. mas faz-se mister a ascética cristã para vencer este egoísmo mediante a paciência. Tal ensinamento ascético de Cristo  que. pois. não é possível nas atuais condições de egoísmo e malvadez humana. portanto.cristã será. E isto acontece não apenas na sociedade civil.  por causa da renúncia ao mundo devastado pelo mal  isolar fatalmente os homens dos seus semelhantes? E este isolamento não é ainda mais acentuado. como renúncia à própria vontade. com o qual e para o qual sofremos e. tome a sua cruz e siga-me. a consecução da felicidade na vida eterna. dominante na moral cristã. que o mundo inveja. da escravidão. mas assim não é. tal egoísmo está em franco contraste com o conceito de caridade. e de uma felicidade que transcende toda aspiração e capacidade humana. A caridade cristã favoreceu ainda obras numerosas e fecundas para os infelizes. Entretanto. Na vida temporal esta moral ascética apresenta-se também como a mais sábia. especialmente o orgulho. Provê igualmente esta moral ascética o bem dos outros. destarte.

Seus autores. mas uma oportunidade de engrandecimento mediante o sacrifício. e provar do outro lado o valor da religião cristã para lhe granjear discípulos. e que terminará por se cristianizar depois de Constantino. que é o caminho mais perfeito do que o dos preceitos. cheio de boa vontade para sacrificar-se inteiramente para com todos. Agostinho. ou foram discípulos imediatos deles. Finalmente. interessam especialmente os chamados apologistas e os padres alexandrinos. depois de Agostinho vem o período que. que procuram de um lado demonstrar a inocência dos cristãos para obter em favor deles a tolerância das autoridades públicas. motivos de altruísmo. mas conforme à transcendente vontade de Deus. Precisamente pelo fato de que o homem. Seus . os apologistas e os controversistas. ao passo que os primeiros e os últimos têm uma importância religiosa. filosoficamente. e o remiu com a Paixão do seu Verbo encarnado. que nos legaram as duas primeiras gerações cristãs. os lugares. guias. porquanto floresceram no templo dos Apóstolos. recebem o apelido de padres apostólicos. e chega até ao começo da Escolástica: isto é. os temperamentos pessoais e as necessidades sociais. de modo nenhum. mesmo razoáveis. conforme os tempos. que merece um desenvolvimento à parte. E os santos mais facilmente florescem nas Ordens Religiosas. o período religioso. período em que. o hebraísmo e as heresias. até desejoso. mas o contrário. mas o ofício. de modos muito diferentes. pela defesa racional do cristianismo contra o paganismo. Interessam-nos particularmente os segundos. cada qual realizando este ascetismo cristão com diversa intensidade. Dada a culminante grandeza de Agostinho. com o qual também polemiza. a renúncia ascética não é estéril egoísmo. a prescindir dos demais. porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja. E é mediante e através desta renúncia ascética. nacional. De fato. até solícito dos mais miseráveis. precisamente porque é característica das Ordens Religiosas a via dos conselhos. Não considera. se a Patrística interessa sumamente à história do dogma. nem pode objetivamente.90 porque tem como objeto não a pessoa. universal. da renúncia ao mundo. a humanidade como fim último. todavia. os super-homens do cristianismo: o caminho dos conselhos evangélicos. sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. Chamam-se apostólicos os escritos não canônicos. os séculos II-VIII da era vulgar. renunciando a si mesmo e dando-se em holocausto a Deus. visto ser o maior dos Padres. Costuma-se designar como o nome de apologistas os escritores cristãos dos fins do segundo século. no heroísmo. mestres da doutrina cristã. E é também contemporâneo do império romano. A ética cristã da renúncia perfeita ao mundo é a mais proveitosa para a sociedade  familiar. é disposto. desde o fim do primeiro século até a metade do segundo. a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho. transpor os confins da ética. Portanto. Os padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados padres apostólicos. no âmbito do próprio cristianismo. imensamente capaz. dogmática. representa a decadência da Patrística. que criou o homem à sua imagem. A Patrística Pré-agostiniana Características Gerais Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária. com o qual tem fecundo contato. quando conhecidos. que os santos se tornam os grandes benfeitores da humanidade. entretanto dele diferenciado-se profundamente. logo após a sistematização. interessa assaz menos à história. como divina. não encontra limites no altruísmo. A Patrística é contemporânea do último período do pensamento grego. que são os construtores da teologia católica. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística. O II Século: Os Apologistas e os Controvertistas A Patrística do II século é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo contra o paganismo. unicamente quem é indiferente às qualidades alheias. ou os conheceram diretamente. Este será o caminho percorrido  embora de modos diferentes  pelos santos. em que terá importância fundamental a Escolástica.

entrou no cristianismo. Imitando os filósofos. pelo ano 180. encarnado pessoalmente em Cristo. desejoso de um conhecimento mais profundo do cristianismo. foram luminares Clemente e Orígenes. o grande centro cultural da época. que já ia afirmando mesmo culturalmente. espécie de faculdade teológica.ainda que não apresentem uma unidade sistemática. abriu em Roma uma escola para o ensino da doutrina cristã. Este gnosticismo cristão se afirmou especialmente em Alexandria do Egito. Converteu-se ao cristianismo talvez levado por exigências filosóficas. Tentouse um renovamento do paganismo com bases no panteísmo neoplatônico e nos cultos orientais.por exemplo. Para bem compreendê-lo. último estádio da sua peregrinação filosófica. . pitagórica . sem mudar a sua fisionomia original. foi. abandonando o platonismo. teses. empreendeu uma série de viagens em busca de mestres cristãos. Se bem que entres os padres africano-latinos apareçam vulto notáveis. Daí a distinção que então se afirmou entre os simples fiéis e os gnósticos . O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos O terceiro século apresenta um interesse particular pelo que diz respeito ao pensamento cristão. é mister lembrar que o escopo por eles visado era. cabendo-lhe a glória de ter o grande Orígines entre seus discípulos. naquela celebrizada escola catequética. leigo embora. Depois de Ter peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas – peripatética. entre o cristianismo e a filosofia. Clemente teve de suspender o seu ensino alguns anos depois. Devido às perseguições anticristãs do imperador Setímio Severo.sábios . como por exemplo Tertuliano. onde o seu espírito achou finalmente paz junto do eminente mestre Panteno. Justino dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. pragmatista. que se ressentem. uma filosofia. hostilizado pelos padres chamados africanos. Falecido este no ano 200. dos quais teremos. pertencentes não à África oriental.e um Diálogo com o judeu Trifão . levados a estimarem seus adversários. latina.especialmente Platão . São Justino Mártir . mais cultos do que os padres apostólicos. a conciliação entre paganismo e cristianismo. outras vezes contra os hebreus. Naquele famoso didascaléion. Escreveu suas obras nos meados do segundo século. estóica. Os apologistas.Tito Flávio Clemente . sobretudo. Depois de ter visitado a Magna Grécia. jurídico. o primeiro sistema orgânico de teologia cristã. moralista latino . E apresentavam o cristianismo como uma sabedoria. como a sabedoria mais perfeita. Retirou-se . são.nasceu no ano 150. E são dirigidas às vezes contra os pagãos.em busca da verdade para a solução do problema da vida. O cristianismo filosófico é próprio e característico dos padres alexandrinos. em tempo oportuno. por conseguinte. por vezes. onde encontrou a paz.não apresentam interesse particular para a história da filosofia. entre filosofia e revelação.dependem de Moisés e dos profetas. do espírito prático.que produziu os estóicos e os cínicos romanos . primeiro. até à conversão os pagãos. portanto.cristãos. por em focos os pontos de contato existentes entre o cristianismo e a razão. É. Suas obras são duas Apologias . Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém na Palestina em princípios do segundo século. que representarão a sua essência doutrinal. continuam filósofos também depois da conversão. metafísicos. enaltecedora e potenciadora dos valores intelectuais. uma teologia. mesmo do ponto de vista católico. obras de controvérsia.contra os pagãos . E julga achá-la. graças a Orígenes. Ufana-se ele de ser filósofo e cristão. Clemente Alexandrino .91 escritos. mas África ocidental. ao Egito. a Síria e a Palestina. freqüentemente são filósofos . depois da doutrina famosa dos germes do Verbo. O maior dos apologistas é certamente São Justino. os padres africanos . na crença de que os filósofos clássicos . e morreu mártir no ano 170. Justino procura a unidade.contra os hebreus. que mandou fechar a escola. entretanto. de família pagã. às vezes. O cristianismo. gradualmente. para Alexandria do Egito. mas difundidos mais ou menos em todos os filósofos antigos. especulativos. Clemente foi chamado para dirigir a famosa escola catequética. Os Padres deste período polemizam filosoficamente com os pensadores pagãos. fundidos numa característica síntese filosófico-religiosa em oposição ao cristianismo. e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia.em oposição ao gênio grego. aliás. está em condições de desenvolver do seu seio um pensamento.bem como os padres latinos em geral . apologias propriamente ditas. para levarem. que vivem na tradição cultural helenista. teoréticos. por vezes. provavelmente em Atenas.

foi encarregado pelo bispo de Alexandria. o bispo Alexandre de Capadócia. que o seu mestre Clemente teve que abandonar. foi proibido por este de ensinar e foi condenado. que depois suscitou a grande polêmica origenista. Aos vinte e cinco. Basta lembrar. os luminares de Capadócia . dos milagres e das afirmações solenes de Cristo. e para atender aos desejos de grandes personagens que queriam consultá-lo. declara Orígenes que a melhor apologia do cristianismo é constituída pela vitalidade divina da Igreja. A obra Sobre os Princípios nos proporciona a ciência baseada na Revelação. diversamente do simples fiel ou crente. abrindo em Cesaréia uma escola teológica ( chamada depois neo-alexandrina . satisfatoriamente. a primeira formação literária e. isto é. A obra Contra Celso é a mais célebre de Orígenes sob o aspecto apologético.pequena apologia em doze capítulos. e as verdades primordiais deduzidas mediante a razão teológica das premissas reveladas. mencionamos a obra Sobre os Princípios e os oito livros Contra Celso. Tinha então Orígenes dezoito anos. especialmente a Segunda metade. que superou a de Alexandria pelo seu caráter científico.as lições de Amônio Saca. e também por ciúme. o Pedagogo. é o maior expoente filosófico da escola alexandrina. Discípulo de Clemente. religiosa.que é uma coleção de pensamentos. sendo ademais dotado de uma erudição prodigiosa e de uma cultura incomparável. de volta à pátria. e os meios empregados. isto é. representa a idade de ouro da Patrística. A maior parte do escrito é. o malho do arianismo. de interesse especialmente ético. por falta de revelação formal. Empreendeu então longas viagens para se instruir. segundo a tendência metafísica dos doutores orientais. Aí lecionou ainda durante vinte anos. no dizer de São Jerônimo. pelo ano 185. bem como uma fé inabalável. e indicando nos demais dois livros os vícios mais graves. perfeitamente acabada na forma e no conteúdo. é consciente de sua fé.. O IV Século: Os Luminares de Capadócia O século quarto. dedicada ao exame atento e pormenorizado das profecias. chamado adamantino por sua energia incomparável. sábios. sobretudo. visto que Celso. que não nos interessam. da direção da famosa escola didascaléion. que tinha estudado as fontes do cristianismo. falecendo em Tiro pelo ano 254. Orígenes. As obras principais de Clemente são: o Protréptico . . Leônidas. atribuindo-se-lhe milhares de obras. morais e religiosas. junto de um seu antigo discípulo. Granjeou ao autor grande nomeada e contém o origenismo. o ataca em todos os pontos. e morreu nessa cidade entre 211 e 216. Ordenado sacerdote no ano 230 pelos bispos de Cesaréia e de Jerusalém. Por princípios Orígenes entende os artigos principais do ensino da Igreja. filosoficamente. justificando-a e organizando-a racionalmente. bem como o primeiro sistematizador do pensamento cristão em uma vasta síntese filosófica. O gnóstico cristão. religiosamente. Embora as preocupações de Clemente sejam sobretudo morais e pedagógicas.isto é. O precoce menino recebeu do pai.tapetes . pela sua força e virtude para a reforma moral dos homens e pela sua difusão universal. Demétrio. a filosofia. desprezando os mais graves perigos. em três livros.92 para a Ásia Menor. uma serenidade nobre e inigualável. Orígenes pode ser considerado o verdadeiro fundador da teologia científica. Nesta obra. perfeitos. Orígenes ostenta uma erudição extraordinária. os Strômata . "Querendo harmonizar a doutrina cristã com a filosofia pagã. o Verbo promotor da vida cristã . religiosos e cristãos sobretudo. talvez. É uma resposta à obra Sermão Verdadeiro de Celso. filósofo pagão. Orígenes.como Plotino . Prescindindo dos escritos exegéticos e as céticos. valoriza ele também. acentuava demasiadamente a última. contra a vontade de seu bispo. talvez. para a igreja oriental. Durante a perseguição de Septímio Severo. que os cristãos devem evitar. sobretudo. e grandemente. sentindo a necessidade de conhecer profundamente as doutrinas que desejava combater e querendo completar a sua formação. Filosoficamente importante e característica é a distinção que faz Clemente dos cristãos em simples fiéis e gnósticos. devido também a algumas opiniões heterodoxas contidas na sua grande obra Sobre os Princípios. considerações. de família cristã. A atividade literária de Orígenes não conhece igual. negligenciando um tanto a Sagrada Escritura e a Tradição". à maneira de Justino. a primeira grande síntese doutrinal da Igreja. apresentado no primeiro o Verbo como educador das almas. apesar dos ataques dos adversários. Nasceu em Alexandria do Egito. escutou . todavia. Retirou-se então Orígenes para a Palestina. dissertações filosóficas. Antes de tudo. Atanásio. e representa uma suma teológica verdadeira e própria. Representa.Basílio.

Estas condições de paz e de privilégio. no quarto século. filosoficamente. pelo ano 344. Também ele admirou e praticou a vida ascética com o amigo Basílio. em conformidade com o seu ideal ascético e contemplativo. Aristocrático e delicado. São João Crisóstomo. foi professor de retórica e casou-se. torna-se uma construção intelectual sistemática. os luminares de Capadócia. cidadezinha da Capadócia. São Gregório de Nissa foi o maior dos luminares de Capadócia e. Trata-se. abandona o mundo e se retira para a vida ascética. atacada especialmente por Ário (256-336). torna-se religião do estado com Teodósio. sobretudo graças aos luminares de Capadócia. Os maiores dentre eles são solidamente formados na solidão monástica e ascética e pertencem. abandonando a cátedra de retórica. em que a atividade dos monges é distribuída entre o trabalho. A heresia ariana . valorizou cristãmente na solidão e no ascetismo. As exortações do irmão e de Gregório Nazianzeno persuadiram-no da vaidade do mundo. Faleceu. imponente. talvez. Irmão de Basílio. que aperfeiçoou em Atenas. destinadas a um monaquismo culto. eram certamente favoráveis à cultura cristã. pelo que será considerado o legislador do monaquismo oriental. à lógica aristotélica.. declarada livre pelo Edito de Milão. nasceu pelo ano 355 em Cesaréia e recebida uma informação cultural aprimorada. e a grande estima do cristianismo. aperfeiçoando-se em Atenas. Como em teologia é origenista. Entretanto. Também os grandes representantes da escola neo-alexandrina. de Antioquia. para a precisão e a organização do dogma. mas se harmonizam reciprocamente. faleceu em 379. até que afinal. o gosto das definições claras e das classificações metódicas. porém. a oração. fez estudos aprofundados. Os padres dessa época se exprimem em aprimorada forma clássica e possuem uma profunda cultura filosófica. São Basílio. a doutrina católica. retirou-se depois para a solidão. É significativo neste grande prelado o senso profundo da vaidade do mundo. insigne promotor da beneficência cristã quando bispo de Cesaréia. para a vida monástica. Gregório de Nissa é o maior filósofo dos padres gregos. e não jurídicas. e organizador da vida monástica na Capadócia. Padre em Antioquia. pouco afeito à vida prática. nascido em Cesaréia de Capadócia pelo ano de 330 de família rica e cristã. faleceu. nasceu pelo ano 330 em Capadócia. em seguida. Grande admirador de Orígenes. quanto dogmática. Em seguida. falecendo pelo ano 390. em 407. Esforça-se para mostrar que os dados da razão e os ensinamentos da fé não se hostilizam. devido naturalmente à filosofia. A igreja católica. para a igreja ocidental. direito. organizando a vida solitária dos que o seguiram. filosofia. geralmente.93 Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa . As grandes heresias da época obrigaram os padres a defender racionalmente. a grandeza da Patrística. chamado Nizianzeno. depois de batizado. provavelmente. em 395. Também São Gregório. Ambrósio de Milão e Jerônimo. foram grandes testemunhas do caráter fundamentalmente ascético do Cristianismo. primando pela sua cultura teológica e filosófica. teológica. e João Crisóstomo. de Constantinopla. em filosofia é neoplatônico. degredado pela fé. estudando retórica. o mais celebrado representante da escola de Antioquia. de família cristã. Bispo de Sásima antes e. inflamou os fiéis com a sua pregação brilhante e comovedora.foi condenada pelo concílio de Nicéia (325). entretanto. o estudo. que. Recebido o batismo. Possui. fez longos e aprofundados estudos. padre alexandrino oriundo da Líbia. de regras morais. foi feito bispo de Nissa. negador da divindade do Verbo. Recebeu uma educação clássica aprimorada. compartilhando com ele a admiração para com Orígenes.arianismo . e escrevendo uma Grande Regra e uma Pequena Regra. que proporcionam o instrumento. concebido como ascética. não é tanto científica. de todos os padres gregos sob o aspecto especulativo e filosófico. e depois bispo de Constantinopla. deixou-se desviar da sua vocação. sendo Atanásio o mais destacado e forte opositor. às altas classes sociais. protegida por Constantino. nasceu de família ilustre. foi destinado ao estado eclesiástico. aristocrático. retirou-se para a vida ascética contemplativa. o método. A teologia. como verdadeiro filósofo. Santo Agostinho .

abandonara o maniqueísmo. Todo o seu interesse central está portanto. Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta. Tendo terminado os estudos. a graça. aos trinta e dois anos. Da natureza do bem. retira-se. Os solilóquios. superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. ao matrimônio. Da vida beata. que o resolve. ou melhor. a 13 de novembro do ano 354. e. mais ainda. Sobre as duas almas. sobreveio a conversão moral e absoluta. Finalmente. distribuído o dinheiro entre os pobres. para a solidão e o recolhimento. Patrício. por razões de luxúria. é uma das maiores conseqüências do pecado original. Mônica. Sobre a quantidade da alma. durante alguns meses. era pagão. Agostinho abandona Milão. O Pensamento: A Gnosiologia Agostinho considera a filosofia praticamente. Tinha setenta e cinco anos de idade. desviou-se moralmente. cidade da Numídia. ele conquista uma certeza: a certeza da . Aí escreveu seus diálogos filosóficos. fazendo com que aderisse ao maniqueísmo. em que a filosofia e a teologia andam juntas.94 A Vida e as Obras Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos. O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho. em seguida. e. como por uma fulguração do céu. dominou-o longamente. Agostinho inspira-se em Platão. A Cidade de Deus. que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal. Aí vendeu todos os haveres e. por conseqüência. sua mãe. visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida. Sobre a imortalidade da alma. Indo para Cartago. Caiu em uma profunda sensualidade. Afastou-se definitivamente do ensino em 386. de uma família burguesa. Ordenado padre em 391. Inicialmente. ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. em companhia da mãe. Da Trindade. Da Mentira. à carreira. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são. uma justificação da sua vida. da teologia revelada. funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. e à redação de suas obras. As Confissões. circunscrito aos problemas de Deus e da alma. platonicamente. pelo contrário. para Milão. e consagrado bispo em 395. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida . a predestinação. os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos. na Páscoa do ano 387. E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles. ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal. que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos. por razões de saúde e. Dada. donde partiu para Roma e. cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e. entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. por razões de ordem espiritual. Entretanto a conversão moral demorou ainda. no neoplatonismo. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo. era uma cristã fervorosa. como solucionadora do problema da vida.depois de maduro exame crítico . volta para Tagasta. perto de Milão. Entrementes . moral e intelectualmente. do filho e dalguns discípulos. que. a 28 de agosto do ano 430. falecida a mãe em Óstia. Do livre arbítrio. recebido o batismo pouco antes de morrer. juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio. Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura. a fim de aperfeiçoar seus estudos.no começo do ano 386. especialmente: Da Verdadeira Religião. a mentalidade agostiniana. e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. no mês de setembro do ano 386. abriu uma escola em Cartago. governou a igreja de Hipona até à morte. Após a sua conversão. a liberdade. Tinha trinta e três anos de idade. compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas. Sobre o mestre. e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes. Seu pai. sobretudo. abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. Sobre a música. recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio. segundo ele. fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. porém. começados na pátria. pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo. Agostinho. Depois da conversão.

criou alguns seres já completamente realizados. a alma em vegetativa. para o conhecimento intelectual. isto é. Embora desvalorizando. são fontes de conhecimento. pela sua simplicidade. segundo a gnosiologia platônicaagostiniana. o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. e dependente dela. ou provém da alma dos pais. No cristianismo. Quanto à natureza de Deus. em virtude da doutrina da forma e da matéria. tem uma realidade na vontade má. pois. religiosos. amor. tínhamos um dualismo metafísico. simples. como alguns erroneamente pensaram. Permanece. sendo criada por Deus. a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho. Quanto à cosmologia. que fez boas todas as coisas. distingue. Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo. de certo modo. a existência de Deus é provada. daí tira uma verdade superior. espírito. preferindo o mundo a Deus. Deus e a alma. se a alma é criada diretamente por Deus. seria necessária uma luz espiritual. . é a Verdade de Deus. Ao lado desta prova a priori. desenvolvendo-se. o que era excluído pelo platonismo. Deus é concebido exatamente como livre criador. absolutamente. negação. Agostinho possui uma noção exata. da reminiscência platônica. criadas. Esta vem de Deus. portanto. o mal é. admite Agostinho que os sentidos. o corpo não é mau por natureza. metafisicamente. pelo pecado dos espíritos livres. é a transformação do inatismo. e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. porém moral. Como já mais acima se salientou. ortodoxa. para que se realize o conhecimento intelectual humano. porém. No pensamento clássico grego. em especial. aberrante de Deus. em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. No homem a vontade é amor. porquanto a matéria não pode ser essencialmente má. extrínseca. que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista. como todas as demais. consciência. enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. pouco temos a dizer. para o qual são transferidas as idéias platônicas. saber. nos seres inferiores cego apetite. privação.rationes seminales. porém. imutável. fundamentalmente. mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus. dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são. a princípio. Entretanto. Deus não é no tempo. Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. A alma nasce com o indivíduo humano e.agostiniano temos ainda um dualismo. moralmente. Deus. é o das relações entre Deus e o tempo. substancial. no animal é instinto. e é atribuída a primazia à vontade. a priori. às relações com o mundo.95 própria existência espiritual. condição e origem de toda verdade particular. Mas a união do corpo com a alma é. Como se vê. insurgidos orgulhosamente contra Deus e. Quanto. A Metafísica Em relação com esta gnosiologia. as forças naturais do espírito. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres . deram origem às existências dos seres específicos. as espécies. os princípios formais das coisas. não nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus. em sentido teísta e cristão. não bastam. mais tarde. negada pelo moderno evolucionismo. E como para a visão sensível além do olho e da coisa. no pensamento cristão . enfim. mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. é uma específica criatura divina. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e razão discursiva. pessoa. Antes da criação não há tempo. eterno. cristã: Deus é poder racional infinito. como o intelecto. sensitiva e intelectiva. Deus é ainda ser. O problema que Agostinho tratou. preso pelos problemas éticos. No Verbo de Deus existem as verdades eternas. de outros criou as causas que. imutável. pois. e são os modelos dos seres criados. Por certo. acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica. as idéias. do mesmo modo. o Verbo de Deus. platonicamente. Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo. Agostinho. o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual. platonicamente. como na concepção aristotélico-tomista. Certo é que a alma é imortal. portanto. é necessária a luz física. a característica fundamental. porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies.

enquanto criado.. além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. Agostinho tem também atitudes teoréticas como. como Paulo apóstolo.estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal. a moral agostiniana é teísta e cristã e. E a explicação última de tudo isso . considera o celibato superior ao matrimônio. por exemplo. como dizia Aristóteles. pois. Quanto à família.96 A Moral Evidentemente. Antes de tudo. portanto. ele tem uma concepção negativa da função estatal. ela. O pecado. da ação . nega a realidade metafísica do mal. Como se vê. Homem-Deus.tem. digamos assim. O Mal Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal . além de um interesse teológico. tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem. Quanto à política. imoralmente. quando afirma que Deus. a propriedade seria de direito positivo. físico e moral. determinando a dilaceração da sua natureza.antes do pecado original . e pode querer o mal. Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal. Nota característica da sua moral é o voluntarismo. contra a vontade de Deus. Consoante Agostinho. do que não permitir o mal. do conhecimento . que atinge também a perfeição natural dos seres. E deve-se considerar não causa eficiente. que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. mas uma ordem do amor. já é impotente sem a graça. como a obscuridade é ausência de luz. Agostinho. Este não-ser pode unicamente provir do homem. e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão.próprio do pensamento grego. finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal. porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico. racionalmente. hábito conforme à razão. que é puro ser e produz unicamente o ser. A vontade humana. pois é um ser limitado. depois do pecado original é: não poder não pecar. mas privação de ser. que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral. porém. Agostinho. livre e limitado. asceticamente. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus. Quanto ao mal moral. mas deficiente da sua ação viciosa. como da passagem do tempo para a eternidade. contrariamente ao primado do teorético. se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos. fim último das criaturas. o Estado seria inútil. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus. a saber. Ela não pode ser superada naturalmente. Quanto ao mal físico. A virtude não é uma ordem de razão. O mal não é ser. porquanto a criatura. que não é verdadeiro mal. limitado. A vontade não é determinada pelo intelecto. logo. Entretanto a vontade é livre.de que dá uma vasta e viva fenomenologia. estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. O problema da graça .do mal moral e de suas conseqüências . conseqüência do pecado. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão . mas deixou permanecer o sofrimento. Como é sabido. podendo agir desordenadamente. e não de Deus.é: poder não pecar. tende a descurar o segundo. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual. mas deficiente. ele alegrar-se-ia. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica. também um interesse filosófico. nos bem-aventurados será: não poder pecar.própria do pensamento latino . por isso. mas precede-o. se o mundo terminasse por causa do celibato. Remediou este mal moral a redenção de Cristo. Resumindo a doutrina agostiniana a . a primazia do prático. deste modo. a humanidade foi punida com o sofrimento. mas conseqüência do pecado original. porquanto o mal não tem realidade metafísica. porquanto a natureza humana já é corrompida. uma outra explicação mais profunda. como meio de purificação e expiação. sendo o mal não-ser. não é causa eficiente. transcendente e ascética. é possuído por um ato de inteligência.que tanto preocupa Agostinho . mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo. que perturbou a natureza humana. pode ser superada sobrenaturalmente. Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento. Não obstante. prejudica a si mesma. para salvar o primeiro elemento. o mal físico tem. porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. e não natural. individual e social. não podendo lesar a Deus. Nem a escravidão é de direito natural.

porém. da constituição do sacro romano império bárbaro. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino. privação de bem (de ser). talvez. mundana. mas configurada na unidade da Igreja. chamados. que é o governo divino do mundo. Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. É uma grande visão unitária da história. a solução deste problema é estética para o mal físico. moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico). fundamentalmente.ainda que só na unidade dialética das duas cidades. até que ficaram confundidas em um único caos humano. e chega até a Abraão. no paraíso e no inferno. ao fim da Idade Média. no fundo. conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel. se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal. a obra prima de Agostinho. de Abraão até Cristo. época em que começou a separação. se encontram empiricamente confundidos na Igreja . A primeira concerne à história das duas cidades. que se assinala geralmente com a descoberta da América (1492). com a diferença. pois. que vai do começo do século IX até o fim do século XVI. para entender realmente. A Cidade de Deus representa. de pecado original e de Redenção. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus. As matérias ensinadas nas escolas medievais eram representadas pelas chamadas artes liberais. invisivelmente. para o triunfo da Cidade de Deus . após o pecado original. que. Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus. dialética . que é uma visão orgânica e inteligível da história humana.a divisão definitiva. A Igreja transcende. é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra. não uma filosofia da história. por isso. Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo. e profetizado também. pelos povos pagãos. os confins do mundo terreno. Entretanto. ainda.e . pelos mestres. justíssima. este conceito de providência é. e pela Igreja depois de seu advento. mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. retórica. exteriormente. lhe preparavam diretamente o caminho. representa. a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada. além do qual está a pátria verdadeira. escolásticos. dela não podem participar. Esta história. realizar-se-á nos fins dos tempos. diremos: o mal é.97 respeito do mal. A Escolástica Características Gerais A Escolástica representa o último período do pensamento cristão. onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico. certamente. absoluta. divididas em trívio . de que já não é mais união caótica. é mister a Redenção. o maior monumento da antigüidade cristã e. A História Como é notório. Este período do pensamento cristão se designa com o nome de escolástica. que culmina no império romano. A terceira retoma. o plano da história. pois. mas teológica: é uma teologia. a cidade de Deus. Contra este cidade se ergue a cidade terrena. eterna. necessário. este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza. elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade. visto que todos. fragmentária e dividida. A Igreja. É o progresso para Cristo.gramática. plenamente. satânica. a fim de que a história seja suscetível de racionalidade. consciente ou inconscientemente. isto é. por causa do basilar dualismo metafísico. graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. sempre mais claramente. por sua vez. em separado. depois da morte. depois do juízo universal. e resolve-o ainda com os conceitos de criação. a seu modo. desde Abraão. não é uma visão filosófica. isto é. recolhida e configurada em Israel. que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos. é acessível. uma unidade e um progresso. Entretanto. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades. Esta não é limitada por nenhuma divisão política. para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo. porquanto era a filosofia ensinada nas escolas da época. predestinados e ímpios. também às almas de boa vontade que.

proporcionando. inicialmente. Duns Scoto. pelo contrário. Carlos Magno dará muito incremento a ambas as escolas e. Paulatinamente espalharam-se também as escolas episcopais. Depois de Tomás de Aquino. Teremos. ao mesmo tempo. geometria. o meio natural eram as escolas. e pode ser assim dividido: séculos IX e X (Scoto Erígena e a questão dos universais). educar intelectual. à filosofia ensinadas. quer pela cultura de que era dotado. antes de tudo. mestres adequados para as escolas. bastante elementar: leitura. Afirmam-se. As escolas episcopais . Havia nos mosteiros beneditinos escolas monásticas. a cultura clássica e o catolicismo e lhes daria incremento. fundará junto da corte imperial a assim chamada escola palatina. se diferenciam profundamente entre si. culminando na união mística. tendências novas para a experiência e a concretidade. aprender a escrever.que surgem nas cidades. podemos dividir a escolástica em três períodos. ademais. imitações atualizadas das escolas catequéticas do cristianismo primitivo. O programa de ensino era. colocando o período central da escolástica a figura soberana de Tomás de Aquino.aritmética. ao passo que as escolas monásticas surgem nos mosteiros afastados das cidades . música. Os docentes eram também eclesiásticos e denominados também scholastici. a massa popular.quadrívio . É. do especial desenvolvimento da dialética. que pode ser considerada como a 98 . O segundo período da escolástica é dominado pela figura soberana de Tomás de Aquino. o amor. entretanto. preparar uma classe dirigente em geral e. de experiência do Divino: o sentimento. e. quer pelo seu imanente caráter de mestre do povo. a vontade. historicamente. em seguida. E. um clero culto. o ensino religioso e os rudimentos das ciências profanas. educar. em especial. A falta dessa distinção . Educação e Cultura na Idade Média Carlos Magno pretendia dar uma unidade interior. com efeito. os funcionários do império. mas levantar esta à compreensão do supra-inteligível. A tendência mística. representando como que o prelúdio do pensamento moderno. Depois destas premissas. canto orfeônico e um tanto de aritmética. A escolástica surge. porém. mesmo que os resultados lógicos pudessem ser os mesmos do racionalismo verdadeiro e próprio. (São Pedro Damião e São Bernardo de Claraval) põe. século XIII (o triunfo do aristotelismo). é devido em especial aos franciscanos ingleses de Osford . astronomia. um período pré-tomista em que persiste a tendência teológica-agostiniana.visavam. em especial. a uma espécie de intuição mística. toma-os como dados e pretende penetrá-los mediante a filosofia. antes de tudo. surgidas da própria exigência de uma observância adequada da Regra de São Bento. moral e religiosamente os povos bárbaros que o constituíam. dependente diretamente do bispo. Deste modo restauraria a civilização e a religião. embora parta da revelação e do sobrenatural. a escolástica declina como metafísica (séculos XIV e XV). por conseguinte.Rogério Bacon. ao mesmo tempo. portanto. um racionalismo inconsciente. devido a um anacrônico e ilógico retorno ao agostinianismo. depois.manifesta-se não apenas na corrente chamada mística. a formação do clero secular e também de leigos instruídos. todavia. em conformidade com as tendências positivas e práticas do espírito anglo-saxônio. até procurar as razões necessárias dos mistérios. Presidia a estas escolas um eclesiástico chamado scholasticus. que ele ia fundando e desenvolvendo: formar. seu escopo final. assim. isto é. Para tanto. mas também na orientação denominada dialética do pensamento medieval pré-tomista. no êxtase. e o clero se apresentava como o mais apto e preparado docente. este período coincide com a Segunda metade do século XIII. uma outra forma de conhecimento. Misticismo e dialeticismo. As escolas monásticas dos mosteiros visavam.específica do pensamento agostiniano . finalizando uma espécie de racionalismo (Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo). o Aristóteles do pensamento filosófico cristão. para a vida civil. Guilherme de Occam -. complexo devia ser o papel das escolas. a fé. séculos XI e XII (místicos e dialéticos). proveniente da ignorância da verdadeira natureza e dos verdadeiros limites da razão. o escopo não era reduzir a religião aos limites da razão humana. O segundo. Este primeiro período da escolástica vai do começo do século IX (Carlos Magno) até à metade do século XIII (Tomás de Aquino). a formação dos monges futuros (escolas internas). espiritual. donde o nome de escolástica à doutrina e. Tal desenvolvimento da escolástica no sentido da experiência e da concretidade. ao seu vasto e vário império e. a formação dos leigos cultos (escolas externas). Na intenção de Carlos Magno. acima e contra a razão e o intelecto.

Eriu em língua céltica. Mencionamos também como. . geometria. como ômega. e pode-se dizer que representa a falência definitiva das tentativas de síntese entre neoplatonismo emanatista e criacionismo cristão. destinadas a ensinar ao povo os primeiros elementos do saber. princípio). . e. realizadas mediante o Espírito de Deus). que se espalhou pelo vasto império e perdurou invariado. . 2°. Tal pretensão de penetrar racionalmente os mistérios revelados devia acabar logicamente no racionalismo e. Freqüentavam esta escolas o próprio imperador. Foi condenada pela Igreja (1225). Carlos Magno chamou à corte Alcuíno (735-804. Erígena parte da revelação divina para. Para elaborar o seu vasto plano de política escolar. a eclesiásticos. temos na Idade Média uma educação militar. fica assim configurada: 1°. mais tarde. O trívio abraçava as disciplinas formais: gramática. o teólogo Paulino de Aquiléia. por conseqüência. A Escolástica Pré-Tomista Os Séculos IX e X: Scoto Erígena e o Problema dos Universais A história da filosofia escolástica começa propriamente com o nome de Scoto Erígena. em seguida. 3°. por exemplo. é um diálogo entre mestre e discípulo e se inspira no neoplatonismo do pseudo Dionísio Areopagita. foram emanados os decretos capitulares para a organização das escolas. especialmente na França. Eminentemente neoplatônico é o esquema especulativo de Da Divisão da Natureza: a descida da Unidade à multiplicidade. as fases primeira e Quarta coincidem (Deus = não criado). ministrada por militares e a militares. aos gêneros. Nela ensinaram os homens mais famosos da época. religiosa. aos indivíduos. a divisão da natureza.A natureza que não é criada e não cria (isto é. exemplares e causas das coisas). termo. sobretudo.A natureza que é criada e cria (o Verbo de Deus. a medicina. João Scoto Erígena nasceu na Irlanda. penetrar os mistérios mediante a razão iluminada por Deus. e não como alfa. repartidas no trívio e no quadrívio. a partir do ano 787. econômica. modeladas na escola palatina. porém. concebido.99 primeira universidade medieval. e retorno da multiplicidade à Unidade. durante toda a Idade Média. De Deus desce-se às idéias supremas. donde o nome de Scoto Erígena. a Igreja. Outras escolas surgiram. fim da realidade. podemos dizer. em que são contidas as idéias eternas. o viveiro da cultura naquela época. bem cedo. e vice-versa. política. dita Scotia maior. bem como coincidem as fases Segunda e terceira (mundo = criado). às espécies. astronomia. Pelo ano de 874 é chamado à corte culta e brilhante de Carlos o Calvo. o quadrívio abraçava as disciplinas reais: aritmética. que Erígena traduziu do grego para o latim. imprimiu também a esta educação uma orientação ética. Sob a direção de Alcuíno. de que acima falamos. mais ou menos). dialética. da realidade. o feudalismo é uma organização social. ministradas por eclesiásticos e. católica. 4°. E sob a sua inspiração. como. depois. segundo o espírito dos bárbaros dominadores. A sua obra principal é Da Divisão da Natureza (847). militar. música. foi constituída junto da corte de Carlos Magno a famosa escola palatina. Ao lado desta instrução e educação eclesiásticas. Como é sabido. no âmbito das paróquias. Deus. enquanto o douto inglês ditava-lhes o programa relativo. na supressão do sobrenatural. Como se vê. inicialmente baseada na força. esta última desenvolvendo-se. na filosofia.A natureza que não é criada e cria (Deus Padre). Deste modo. O programa de Alcuíno abraçava as sete artes liberais. Parece Ter falecido em França pelo ano 877. os príncipes e os jovens da nobreza. o historiador Paulo Diácono. . mais tarde. as escolas paroquiais. que veio da Inglaterra. em cinco livros.A natureza que é criada e não cria (as coisas. . por mais ortodoxa que fosse a intenção do autor. retórica. o gramático Pedro de Pisa. com o correr do tempo. para presidir e lecionar na escola palatina.

imanente (aristotélica). . contra os filósofos. depois. Deus deve também existir realmente. Pretende ele demonstrar a existência de Deus. de Cristo crucificado. pelas gnosiologias empirista e sensitista. A verdadeira sabedoria consiste no conhecimento da própria miséria. o saber profano como um perigo e um luxo. onde se propõe demonstrar a existência de Deus com um argumento simples e evidente. mais tarde Papa Gregório VII. estóicos. dos místicos. Anselmo de Aosta é o primeiro grande filósofo medieval. mas também gnosiológica e metafísica. 100 Os Séculos XI e XII: Místicos e Dialéticos Depois da decadência cultural que se seguiu à renascença carolíngia. O conceito que temos de Deus é o de um ser perfeitíssimo e. mais tarde. mas é preciso penetrar depois a fé mediante a razão. da ordem real à ordem ideal. professor famoso em Paris. da filosofia para entender Deus e as suas obras. que são. As soluções desse problema oferecidas pela escolástica são substancialmente. Em realidade. O nome de Anselmo de Aosta é ligado ao famoso argumento ontológico. a solução do realismo moderado. a idéia de uma realidade em si. não existe apenas fora da mente. da fé e não da razão. princípio ativo (universal in re): . mas é imanente nos objetos singulares de que é essência. tornou-se religioso e foi peregrinando por muitos mosteiros e cátedras. particulares? O problema tem uma importância fundamental filosófica. O seu lema é: creio para compreender. em relação e enquanto representativos das coisas. na contemplação de Deus. não apenas lógica e dialética. geralmente adotada pela escolástica incipiente. e. Também ele é um platônico-agostiniano. das idéias. passar da ordem lógica para a ordem ontológica. partindo do mero conceito de Deus. Segundo a solução do realismo moderado. escreveu Da Divina Onipotência. inclusive o princípio de contradição. até colocá-la acima de toda lei racional. a solução nominalista. e os dialéticos que a cultivavam. na compaixão para com a miséria do próximo. arcebispo de Canterbury na Inglaterra. centro cultural do mundo católico. fora da mente. natural de Bretanha. capaz de convencer imediatamente o ateu. As suas obras principais são: O Monologium. da corrente dialética os maiores expoentes são: Santo Anselmo de Aosta no século XI e Pedro Abelardo no século XII. foi monge prior e abade do mosteiro beneditino de Bec na Normandia e.corresponde à posição aristotélica. conselheiro do monge Hildebrando. ou até puramente nominal (nominalismo) . mas apenas mental (universal post rem). faltando-lhe a existência. do valor dos conceitos. Que valor têm os conceitos. três: a solução chamada do realismo transcendente (platônica). ao contrário. vaidade e orgulho. mas deve-se passar das coisas às idéias. para demonstrar a existência de Deus. estudante e. São Bernardo de Claraval no século XII. cardeal e arcebispo ostiense. o argumento ontológico não vale: porquanto não podemos. com a doutrina da forma que determina a matéria. contra a ciência (a filosofia) por eles considerada um resíduo pagão. mas também fora do objeto (universal ante rem): . imanente. após Scoto Erígena. São Pedro Damião. Santo Anselmo (1033-1109) nasceu em Aosta. do contrário não mais seria perfeitíssimo. Segundo a solução do realismo transcendente. Os maiores representantes da corrente mística são: São Pedro Damião no século XI. epicuristas.no mundo clássico esta posição é defendida pelos sofistas. Nesta obra enaltece a onipotência de Deus. asceticamente. céticos. dos divinos mistérios. e culmina no êxtase. Pedro Abelardo (1097-1142). portanto.é a solução platônica. este argumento é contido no Proslogium. logo. uma distração mundana. E isto não obstante a luta dos teólogos. das idéias aos fatos. que são universais. o universal tem em si uma realidade objetiva. problema que tão cedo e tão longamente interessou a escolástica. o que significa partir da revelação divina. forma. daí a vaidade da ciência. A solução conceptualista-nominalista sustenta que o universal não tem nenhuma existência objetiva. teve uma solução radical no pensamento escotista. isto é. o universal. O caminho da sabedoria é a humildade. isto é. a priori. começa e se manifesta nos séculos XI e XII um renascimento especulativo. São Bernardo de Claraval rejeita. no nosso conhecimento.O problema dos universais.

redenção. Em conclusão. mas crítica e racional. que salvaram das invasões bárbaras durante as trevas medievais do Ocidente latino. Os árabes. foram Avicena e Averroés. grego e cristão. criação. que lhe acarretou trágicas conseqüências. Escreveu as obras seguintes: História das Calamidades. apaixonou-se pela filosofia aristotélica. filósofo e teólogo. racional. Acusado de heresia. Os árabes foram admiradores de Aristóteles e da sua filosofia. ordenadas segundo o esquema: Deus. intencional. que representa o ápice do pensamento helênico.das doutrinas das Padres. aristotélico. e considerava a religião como uma filosofia simbólica para o vulgo. após terem conquistado o oriente helenista. Era preciso traduzir do árabe para o latim as obras de Aristóteles e os comentários árabes. um culto idolátrico para com o Estagirita. ao mesmo tempo.mais ou menos críticas . graças aos pensadores pertencentes às ordens religiosas. Preparam as grandes sumas medievais. . na vida moral. foram os árabes . foram civilizados pelo pensamento grego. Abelardo sustenta ser mais moral um ato executado com reta intenção. os árabes. no fundo.o famoso comentador de Aristóteles . o elemento subjetivo. Esta atividade formal. com um grande pendor para a crítica e a dialética. legal. Na obra Sic et non . Também interessante é a sua posição crítica na pesquisa filosófica: a dúvida nos leva para a investigação. Mais tarde . do que um ato executado conforme a lei. Conhece-te a ti mesmo. chamado precisamente magister sententiarum.e secundariamente os hebreus .que levaram ao conhecimento do mundo latino-cristão a filosofia de Aristóteles. cético e sistemático. salvo à ciência e à caridade. Averroés. O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles A atividade filosófica da escolástica pré-tomista foi essencialmente lógico-dialética e. escolástico. que estudou intensamente. meios de salvação. originariamente bárbaros eles mesmos. queda. uma sociedade de homens cultos surgida em Toledo. intensa e penetrante. E tal conteúdo lhe foi proporcionado pela descoberta do sistema aristotélico integral. a investigação nos leva à ciência. pelo qual se chegou à construção de uma filosofia distinta e autônoma. foi condenado por dois concílios. estendendo suas conquistas até o ocidente europeu. uma aceitação e valorização do sistema aristotélico. (século XII). formal. No ensaio ético Conhece-te a ti mesmo valoriza. mas em harmonia hierárquica com a fé (Tomás de Aquino). quando não concordava com a razão (averroísmo latino). entraram em contato com a cultura grega. então surgidas e organizadas eficientemente. especialmente na Síria. Este movimento cultural e filosófico se desenvolveu especialmente no âmbito das universidades. Em seguida.elemento descurado na Idade Média . O mundo latino-cristão. Encerra-se assim o século XII e está nos albores o século XIII. o século de ouro da escolástica e do pensamento filosófico cristão. trouxeram-lhe a própria cultura impregnada de aristotelismo. Os maiores filósofos árabes conhecedores de Aristóteles e que influíram profundamente sobre o Ocidente latino-cristão.em confronto com o elemento objetivo. que são construções sistemáticas elaboradas criticamente. e um retorno ao agostianismo (São Boaventura). ainda que objetivamente mau. a fim de que haja ação plenamente moral. Abelardo é uma das mais originais figuras do mundo medieval. Abelardo é.Abelardo se integra nas fileiras dos sentenciários. A atitude do mundo latino-cristão perante Aristóteles foi tríplice: uma decidida aversão à filosofia que queria constituir-se unicamente com meios racionais. Avicena tentou harmonizar a filosofia aristotélica com a religião islâmica. especialmente as tomistas. por sua vez. Reconhecendo embora que são necessários os dois elementos. os quais a tudo renunciaram. E assim.coleção de sentenças contrastantes dos padres sobre assuntos da Escritura e da teologia . que foi identificado com a própria razão humana e preferido. Como dissemos.afirmava ao invés a subordinação da religião a filosofia quando as argumentações delas fossem contrastantes. conto biográfico da sua aventura com Heloísa. nos meados do século XII. depois de conhecido Aristóteles através da cultura árabe. isto é. logo. Dialética. Os livros das sentenças eram coleções sistemáticas . dos autores dos libri sententiarum entre os quais o mais famoso é Pedro Lombardo. mas com intenção má. Foi o que fez. Sic et non. . mesmo faltando-lhe a profundidade e a capacidade sistemática de Santo Anselmo. esperava um conteúdo adequado. na Espanha. à revelação cristã. filosófico.101 após uma aventura amorosa com Heloísa.

tantas quantas são as suas propriedades essenciais. sobre a Redução das Artes à Teologia. fundados por São Francisco de Assis. o seminário dos filósofos e dos teólogos de todo mundo. italiano. A universidade de Paris. ao contrário. Guilherme de Maerbeke (falecido em 1286) fez essa tradução. que aceita o sistema aristotélico sem crítica nenhuma. E julgaram os filósofos franciscanos que. Os dominicanos dedicaram-se mais ao estudo. que lhe sugeriu a prova intuitiva da existência de Deus. uma universitas única. é o aristotelismo exagerado averroísta. destarte. com o seu misticismo e voluntarismo . e os Franciscanos. bem cedo. estudou em Paris e. sua maior influência entre as classes sociais elevadas. o Itinerário da Mente para Deus. famosas mais que todas as outras. porquanto admite . e obteve das autoridades civis e religiosas reconhecimento jurídico e grandes privilégios. por conselho de Tomás de Aquino. desenvolveu especialmente a filosofia e a teologia. a tarefa da filosofia não é teórica e racional. para melhor facultar o cultivo do estudo e a pregação apostólica entre o povo. inspirando-se no pensamento aristotélico. auto-suficiente. A psicologia de Boaventura. e não chegar até subordinar a religião à filosofia. porque todos os seres são compostos de matéria e de forma. constituiu um corpo único. O conjunto dos professores e dos alunos da universidade de Paris. nasceu na Itália. mas prática e religiosa. O maior representante do agostinianismo antiaristotélico foi São Boaventura (1221-1274). composta de forma e matéria. e. Esta orientação filosófica é chamada averroísta. para tanto. como ele descreve no Itinerário. O maior . A gnosiologia de Boaventura inspira-se no iluminismo agostiniano. fundados por São Domingos de Gusmão. afetiva. a universalidade da matéria fora de Deus. devido à importância que tinha naquele estabelecimento do ensino superior universitário a teologia. que se atinge imediatamente em todas as coisas e se possui pela união mística. sustenta que a alma humana é uma substância completa independentemente do corpo. a pluralidade das formas em um mesmo ser. se prestasse o agostinianismo. Os Filósofos Franciscanos Os filósofos franciscanos julgaram fosse mister dar uma forma teórica à atitude prática. pois. enquanto ele é imediatamente presente ao espírito humano. a filosofia deve levar a Deus. Ao mesmo tempo se desenvolveram as universidades. Segundo São Boaventura. exercendo. inspirando-se na mentalidade agostiniana. afirma três princípios diretamente opostos ao aristotelismo tomista: a existência de uma matéria geral sem as formas específicas. ao passo que a universidade de Oxford dedicou-se especialmente às ciências naturais. donde o nome de mendicantes a elas atribuído. e também certa liberdade a respeito das obrigações conventuais.como admitia Averroés . à ciência. Diametralmente oposto a este aristotelismo agostiniano. propuseram-se como finalidade principal a caridade ativa e tiveram uma enorme influência sobre o povo.102 sentiu-se a necessidade de traduzir diretamente do grego as obras de Aristóteles. o empirismo e o intelectualismo aristotélicos. Suas obras principais são: os Comentários a Pedro Lombardo. a mais ilustre universidade da Idade Média. e. que proporcionou aos latinos o conhecimento do genuíno pensamento do Estagirita. inclusive as essências angélicas e as almas humanas. tal universidade se tornou como que a cidadela cultural da ortodoxia católica. A característica nova e comum destas duas ordens religiosas foi a pobreza individual e coletiva. será inteiramente infecundo. Desta sorte. inspirando-se na mentalidade aristotélica.que haja teses filosóficas em contraste com o teísmo da religião. espanhol. Especialmente os papas protegeram a universidade de Paris. isto é. surgidas geralmente das escolas episcopais. as grandes universidades medievais. em princípios do século XII. sentimental do Pobrezinho de Assis que entrevia Deus e Jesus Cristo em todas as coisas. foi geral da sua ordem e depois cardeal de Albano. A metafísica de Boaventura. mais tarde. ainda que pareça limitar-se a sustentar a existência de duas verdades paralelas e contrastantes. contra a vontade dos leigos e por desejo dos papas. inspirando-se na mentalidade agostiniana. pois. os franciscanos. foram as universidades de Paris e de Oxford.julgando inapto para esse fim o racionalismo. entraram e tiveram preponderância professores pertencentes as duas ordens religiosas surgidas no século XIII: os Dominicanos. por conseqüência. Nessas universidades recém-organizadas.

Crítico agressivo das maiores autoridades da sua época. Rogério Bacon 103 Rogério Bacon (1210-1294). Nestas obras revela-se um crítico e um pensador de muito superior a São Boaventura. João Duns Scoto O maior expoente da escolástica pós-tomista é. inglês e franciscano. deve-se entender por experiência não apenas a que se alcança pelos sentidos externos e nos oferece o mundo corpóreo. no conceito de filosofia. o doutor sutil. medeia Tomás de Aquino. condenado mais tarde pela Igreja. publicou ainda a Obra Menor e a Terceira Obra. a afirmação da eternidade do mundo. acentuadas e tornadas piores após a poderosa construção crítica e racional do Aquinate. sentiu profundamente o problema da concretidade e da experiência. mas também a experiência proporcionada pela iluminação interior de Deus.mas unicamente prática. foi obrigado a deixar a cátedra. isto é. na Inglaterra. Houve. práticas. A razão proporciona essa compreensão. por sua vez. um vestígio do agostinianismo tradicional. da ciência. portanto. a afirmação da unidade do intelecto na espécie humana e a conseqüente negação da imortalidade pessoal do homem. não consegue distinguir o sofisma da demonstração verdadeira. como se vê. Entretanto esse movimento terminará nas posições fideístas do pré-tomismo. Estabeleceu-se então em Paris. foi aluno e professor nas universidades de Oxford e de Paris. logo depois de uma reação violenta contra o tomismo. A Escolástica Pós-Tomista O tomismo era. Entre estas duas posições extremadas . três são as fontes do saber: a autoridade. um retorno especulativo ao agostinianismo. A sua obra principal é Da Alma Intelectiva. Conforme Bacon. em conformidade com o espírito do voluntarismo agostiniano. enciclopédico e místico. as Questões Várias. foi um temperamento genial e original. como julga Tomás de Aquino. a razão. O agostinianismo de Scoto manifesta-se. entrou na ordem franciscana e estudou nas universidades de Oxford e de Paris.que constituem o valor do pensamento moderno. a Obra Parisiense. Bacon aceita também a unidade entre filosofia e teologia. o tradicional comentário das sentenças de Pedro Lombardo. consequentemente. que julgou encobrir o seu anacronismo. são conhecidas. tentando uma superação do racionalismo tomista. entendida como instrumento para entender a fé e não como obra autônoma do espírito. A ciência experimental constitui a fonte mais sólida da certeza. Suas obras principais são: a Obra Oxoniense. a ciência. um movimento excessivamente novo e arrojado.como julga Aquinate . quer dizer. a fé não porém a ciência.com suas técnicas . os Teoremas Sutilíssimos.de idolatria ou de irredutível hostilidade . todavia. professor na universidade parisiense. É. porquanto não nos fornece a compreensão das coisas que formam o objeto da crença. A sua obra mais importante é a chamada Obra Maior. Após Ter lecionado algum tempo em Oxford. nascido na Inglaterra. Segundo Bacon. experimentais. na ruína da metafísica. O centro desta escolástica pós-tomista é a universidade de Oxford.disciplina essencialmente especulativa . para poder súbita e definitivamente impor-se no âmbito do pensamento cristão medieval.segundo Scoto . indubitavelmente negligenciado pela escolástica clássica. cujas características tendências empiristas. talvez. cientista e supersticioso. Do agostinianismo. que Tomás tinha distinguido. positivas. no entanto. . Também ele.a respeito de Aristóteles. E. que realizará a justificação da filosofia e da teologia. sem dúvida.representante do averroísmo latino é Siger de Brabante (falecido pelo ano de 1284). contudo. e terminará. se não achar fundamento e confirmação na experiência. no mesmo século XIII. donde surgirão a história e a ciência modernas . A escolástica pós-tomista. a experiência. A autoridade dá-nos a crença. As teses mais notáveis de Siger em contraste com o cristianismo são: a negação da providência divina. onde levou uma vida agitada e foi condenado à prisão pelos próprios superiores da sua ordem. João Duns Scoto. da filosofia. antes de tudo. Faleceu em 1308. a teologia não é .

o homicídio. e escreveu várias obras para defender o imperador contra a Santa Sé. porém. é um sinal natural. E isso seria devido . na visão beatífica. etc. O conceito.segundo o doutor sutil . um sinal artificial. mas de um elemento formal individual. concreta e individual. mas tem uma realidade sua própria. todos os seres. e. Com efeito. chamado haecceitas (que se sobrepõe à matéria por si subsistente e à hierarquia das formas). fez-se franciscano. na vida eterna. inexistente sem a forma. Guilherme de Occam Guilherme de Occam é. conhecer diretamente as essências. O conhecimento sensível dá-nos as relações reais entre as coisas reais (o nexo causal. que não nos permite distingui-los um do outro. por exemplo. como exige o tomismo. E a própria ordem ética não é intrinsecamente boa por motivo racional. seria a alma. Scoto sustenta a primazia da vontade: a vontade não depende do intelecto. Em conclusão. por conseguinte. Segundo Occam. Scoto concede. mesmos os espirituais. E também inspira-se no agostinianismo a doutrina de certa independência da alma com respeito ao corpo. pela vontade. a priori. está contra o chamado empirismo aristotélico-tomista.. então em luta contra o Papa. A tarefa do homem é conhecer para querer e amar. uma substância completa. Centilóquio Teológico. Contra o intelectualismo tomista. representado pelo nome que é. . variável segundo as diversas línguas. A matéria não é mera potência. a existência de Deus é demonstrável apenas com argumentos a posteriori. pois. conforme o qual o nosso conhecimento começa pela sensibilidade. decorrente do pecado. destarte. mas o intelecto depende da vontade. são compostos de matéria e de forma. o adultério. o conhecimento sensível é superior ao conhecimento intelectual. ao passo que o segundo nos dá apenas as semelhanças entre seres reais (as idéias gerais). em que. o indivíduo se tornaria intelectualmente cognoscível. depois do realismo imanente aristotélico-tomista. Na psicologia escotista aparece ainda uma doutrina inspirada no agostinianismo.à escravidão da alma com respeito ao corpo. não o admite em linha de direito. não só as materiais mas também as espirituais. mas unicamente porquanto é querida por Deus. por sua natureza. a forma não é única. A individuação não depende da matéria (pelo que o indivíduo fica incognoscível intelectualmente). que se conhece só pela experiência). sem nada nos dizer em torno da realidade das coisas. o empirismo do nosso conhecimento. um opositor e um discípulo de Scoto: discípulo. o furto. que ele fez reviver no ambiente experimental da universidade de Oxford. deveria a alma. Desse modo. princípio de todos os demais conhecimentos. segundo Scoto. seriam ações morais. além do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo: Sete Várias Questões. e sim da vontade divina. o primeiro dá-nos a realidade. Deus seria atingido. a mentira. em linha de fato. Pelo contrário. no sentido de que desenvolve o individualismo de haecceitas escotista no nominalismo. ao passo que o segundo é abstrato. Na teodicéia. estudou e lecionou na Universidade de Oxford. mas há multiplicidade de formas em cada indivíduo. ao passo que o conhecimento intelectual nos proporciona conhecer as relações lógicas entre conceitos abstratos. quanto como sendo a espontaneidade e a independência do intelecto com respeito ao sentido. ao mesmo tempo. Scoto (contra a corrente agostiniana e em harmonia com o tomismo) ensina que Deus não é conhecido por intuição. Em todo caso. pelo amor e não pelo intelecto. as coisas criadas por Deus não dependem fundamentalmente da razão divina. Processado por heresia pela Santa Sé. refugiou-se junto do Imperador. a sensação é o sinal de um objeto na alma.104 A gnosiologia iluminista-intuicionista agostiniana firma-se no escotismo não tanto como participação da inteligência humana na luz divina. Suas obras especulativas são. por natureza. É a doutrina do conhecimento intuitivo da essência da alma. Guilherme nasceu em Occam na Inglaterra pouco antes do ano de 1300. Scoto põe também em Deus esse primado de vontade sobre o intelecto. que poderia impor uma ordem moral oposta. porquanto o primeiro é intuitivo. o conceito é sinal de mais objetos percebidos como semelhantes. Suma de Toda a Lógica. um conhecimento vago e confuso deles. Quanto à natureza divina. o atributo essencial de Deus seria a infinidade. Faleceu pelo ano 1350. e imorais as ações opostas. embora procure também combinar esta demonstração com o argumento ontológico.

abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. da ciência.ciências naturais. Estrasburgo. renunciando a tudo. à fé (fideísmo). e também não se pode provar . Destarte. onde lecionou teologia. rico de elementos helenistas e neoplatônicos. da família feudal dos condes de Aquino. Com ele declina e. Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris. bem cedo a razão se porá contra a fé e a substituirá. da moral. Esta absoluta divisão entre a razão e a fé. em 1274. exegese. salvo à ciência.. converge diretamente o pensamento helênico. onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante.105 Estamos na linha do experimentalismo inglês da Universidade de Oxford. mas logo declina. chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados . Deus não se pode provar a posteriori mediante o princípio de causalidade. entretanto. por ordem de Gregório X. aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem. a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. Para Tomás de Aquino. e para estabelecer uma outra ordem sobrenatural (por exemplo. etc. historicamente. tendo como mestre Alberto Magno. quando regressou à Itália. lecionou teologia na universidade de Paris. Ensinou em Colônia. teologia. se Deus quisesse. termina a escolástica medieval. pois. onde ensinou até 1269. faleceu no mosteiro de Fossanova. porém. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França. o Verbo poderia Ter-se encarnado num burro). entre Nápoles e Roma. e dado outrossim o voluntarismo divino escotista. mas também o pensamento patrístico. converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico. que o acompanhou a Colônia. Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris. Assim. a lógica que nos ilustra as relações entre os conceitos. e deste deriva logicamente a ruína do conceito e.pela via de causalidade . e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. da alma. primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia. chamado à corte papal. nenhuma metafísica: o conhecimento de Deus. degenerando num formalismo lógico. indispensáveis à própria ciência natural. conseqüentemente. E deriva também a ruína das próprias noções de substância e causa. é abandonado inteiramente à Revelação. bem mais importante. que culminou com Agostinho. segue-se que não são cognoscíveis. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família. Pelo fato de a alma e Deus não serem sensíveis. a vontade de Deus é absolutamente livre para criar uma moral mesmo oposta à presente. especialmente árabes. Portanto. que nos faz conhecer os seres materiais. na sistematização imponente de Aristóteles. filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280). Depois de ter estudado as artes liberais. no castelo de Roccasecca. Nasceu Tomás em 1225. Sicília e Aragão. Também Alberto. O pensamento de Aristóteles.a alma. porquanto essas noções de substância e causa não são experimentáveis. a ciência humana reduz-se à física. Adquire plena consciência dos poderes da razão. Dois anos depois. sensíveis. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino. voltou a Nápoles. As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos: . válido empiricamente. em 1272. na Campânia. ascética. onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino. Dado que em torno de Deus nada conhecemos filosoficamente. coloca o ocamismo em uma posição afim à do averroísmo da dupla verdade. desse experimentalismo deriva o empirismo. de que é impossível demonstrar cientificamente a imortalidade. Tomás de Aquino A Vida e as Obras Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor. da moral. Com o diminuir da fé medieval e com o firmar-se do humanismo moderno. da filosofia. filosofia. entrou na ordem dominicana. O ocamismo tem um êxito vasto e imediato nos séculos XIV e XV. Friburgo. passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. etc. além do patrimônio de revelação judaico-cristã. viajando para tomar parte no Concílio de Lião.

destarte.visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado. O intelecto vê em a natureza das coisas . à ética de Aristóteles. a imagem. mas os conhecimentos das coisas. à Sagrada Escritura. acontece no conhecimento intelectual. e não noa advém de fora.).é empírica e racional. é absolutamente desprovido de conteúdo ideal. quer dizer. o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera. Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível.intus legit . Compreendendo as coisas. mas transcende-o. sem a materialidade do ouro. mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo. mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens. O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível. ademais. é o intelecto passivo. O intelecto que propriamente entende o inteligível. deste modo. começada em 1265. Sumas: Suma Contra os Gentios. à metafísica. sensível e intelectual. e é justificado experimentalmente e racionalmente. Questões: Questões Disputadas (Da verdade. isto é.1. Na espécie sensível . conheceríamos não as coisas. a essência. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia. possui em si. O conhecimento humano tem dois momentos. logo. id quo intelligitur). elaborar as ciências até à filosofia. Comentários: à lógica. as formas. a idéia. como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta. Questões várias. temporalidade. mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei. Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma. Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas. Suma Teológica. a forma universal das coisas. atual. ficando inacabada devido à morte prematura do autor. a que pertencem as operações racionais humanas: conceber.. é uma faculdade da alma individual. sem a materialidade do sinete. potencialmente. a representação da coisa (id quod intelligitur). tem em si mesmo imanentes todas as coisas. É preciso claramente salientar que. espacialidade. mas sem a matéria . a Dionísio pseudo-areopagita. representando precisamente o elemento essencial. Esta é a impressão. aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo. é preciso extraí-lo. no fenomenismo. a espécie inteligível. E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas. que está fora de nós.que representa o objeto material na sua individualidade. etc. 3. O Pensamento: A Gnosiologia Diversamente do agostinianismo. neste caso. A gnosiologia tomista . à física. a forma do objeto material na alma. E. a essência. Tem-se. desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. que contêm um elemento inteligível. Da Eternidade do Mundo.não oposta . desindividualizá-lo das condições materiais. e o segundo pressupõe o primeiro. isto é. a forma. a essência das coisas é contida apenas implicitamente. 2. 4. Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética. Da alma.o inteligível.diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica . . é a 106 . O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo. etc. e em harmonia com o pensamento aristotélico. entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. feita explícita. sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. raciocinar. Para que tal inteligível se torne explícito. formam uma unidade mediante a espécie sensível. o universal. acabando. desindividualizada pelo intelecto agente. o da filosofia evidente e racional. E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento. mediante a espécie inteligível. compreendendo-lhes as essências. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente. na filosofia de Tomás de Aquino. pois. O conhecimento sensível do objeto. etc. a coisa sentida e o sujeito que sente. realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível. o espírito se torna todas as coisas. Como no conhecimento sensível. baseada substancialmente em demonstrações racionais. que nos garante conhecermos coisas e não idéias. a idéia. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto. desmaterialize. no entanto. para resolver o problema do mundo. a cor do ouro percebido pelo olho. julgar. do mesmo modo e ainda mais perfeitamente. Do mal. sem inatismos e iluminações divinas. e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro. a espécie inteligível não é a coisa entendida. a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é. Mas.mais profundamente do que os sentidos. é mister um intelecto agente que abstraia. abstraí-lo. sobre os quais exerce a sua atividade.

os conceitos.assim chamada. capacidade de concretizar-se.material. essência. A demonstração é um processo dedutivo. que colhe a essência das coisas. imperfeição. devidas ao intelecto. o espírito. São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade. e chama-se matéria. a psicologia racional (racional. é o princípio da matéria e de forma. é. outra ativa e determinante (a forma)". mas se tiram fundamentalmente da experiência. que só realmente existem (esta água. porém. Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração. irrealidade absoluta. intuitivos. as idéias. É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro. formal. A Metafísica A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. que é ciência experimental). contradição. perfeição. a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras. ouro. irreal sem a forma. verdadeiros. que depende do ser que é ato puro. o mundo. é a que realiza o sínolo. Este princípio vale unicamente para a realidade material. poucos são os nossos conhecimentos evidentes. este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final.). por si. No entanto. A matéria não é absoluto. e. é esta causa final que determina a ordem observada no universo. A Natureza Uma determinação. especificação do princípio de potência e ato. que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. destarte. de per si. este vidro).107 evidência. por conseqüência. porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica. a fim de que possa existir um ser completo e real (substância). válida para toda a realidade. como já dissemos. em vários indivíduos. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente. A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus. e levando. Não significa. Daí temos a teologia racional . A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade. como a potência é determinada pelo ato. os universais. no campo intelectual. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser.tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. potência quer dizer não-realidade. O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. porém. Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes. . A metafísica geral . uma passagem necessária do universal para o particular. mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição. consistindo em uma falsa passagem na demonstração. todos os conhecimentos sensíveis são. naturalmente é irreal. a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. é nada. A forma é a essência das coisas (água. A individuação. É necessária para a forma. vidro) e é universal. isto é. e. mas pode tornar-se todas as coisas. Opõe-se ao ato puro a potência pura que. não são inatas na mente humana. a concretização da forma. e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. para o mundo físico. etc. como a potência é determinada.ou ontologia . este ouro. universal e necessária. não-ente. A ciência tem como objeto esta essência das coisas. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro causas . pela qual é determinada. a saber. ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas). Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma). depende da matéria. mediante a indução. Pelo contrário. tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração. uma passiva e em si mesma absolutamente indeterminada (a matéria). Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis. à discrepância entre o intelecto e as coisas. como pretendia o agostinianismo. visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino. para distinguila da teologia revelada. intuitivos. e nem sequer são inatas suas relações lógicas. Ato significa realidade. toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares.

como os conceitos. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas. assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus. Tomás sustenta que a alma. que diz respeito ao homem. por sua vez. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas. uma alma só em cada indivíduo. para proceder à demonstração. Deus Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato. isto é. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição. pois segundo Tomás de Aquino. chama-se alma. espiritual. final. é unida substancialmente ao corpo material. diversamente do dualismo platônico-agostiniano.eficiente.que é fundamental e como que norma para as outras . de que é a forma.da doutrina da potência e do ato. graças precisamente à famosa doutrina da analogia. por conseqüência. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma. "Cada uma delas se firma em dois elementos. porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa. que são materiais. interessa apenas a alma racional. estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico. como a lógica exige. isto é. Segundo o Aquinate.baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato. Entretanto. as causas segundas à causa primeira. existe uma forma só e.unida com o corpo. ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina. Assim. partindo da experiência. e os animais (alma sensitiva: que. por conseguinte. mas transcendendo-o . que pelo fato de ser imaterial. ainda que imortal. Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva. O Espírito 108 Quando a forma é princípio da vida. que é uma atividade cuja origem está dentro do ser. A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais. mediante a doutrina da matéria e da forma. dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina. com relação ao respectivo corpo já formado. Portanto. pelas provas. não é composta de partes e. ou seja. que suspende o movimento ao imóvel. que pode ser a constatação do movimento. Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição. não tem uma vida plena sem o corpo. como a mais contém o menos. a existência de Deus. Mas. porém. e uma aplicação do princípio de causalidade.e mais intimamente ainda . e. é imortal. cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível. a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial. sente e se move). portanto. do contingente. mas é cognoscível unicamente por demonstração. No homem existe uma alma espiritual . que a individualiza. espiritual embora. como sendo a que transcende infinitamente o intelecto humano. o imperfeito ao perfeito. esta atividade tem que depender de um princípio imaterial. entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus. espiritual. espiritual. não recorre a argumentações a priori. entretanto esta demonstração é sólida e racional. e a alma superior cumpre as funções da alma inferior. antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa). o contingente ao necessário. têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta. é imortal. a psicologia racional. As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional). a ordem à inteligência ordenadora". assim a teologia racional tomista depende . por conseguinte. da alma racional.ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias. se manifestam nele também atividades espirituais. Se conhecermos apenas indiretamente. mas unicamente a posteriori. e também a alma. cresce e se reproduz). tirando. as . nem viver. que é o seu instrumento indispensável. E a primeira dessas provas . a vontade humana é livre. indeterminada .porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva. Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste. E. que é precisamente a alma racional. que sem Deus seria contraditória. a mais da alma vegetativa. a alma racional entende e quer. das causas. como o ato do intelecto e o ato da vontade.

a razão não é estranha à fé.109 imperfeições. subordinado. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto. que não é possível demonstração racional em matéria de fé. mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). quer dizer. milagres. mediante argumentos prováveis. com relação à fé. total. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente. onde os princípios são. o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica). isto é. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência. etc. se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado. Analisando a natureza humana. não com argumentos intrínsecos. o que é impossível. Entretanto. toda limitação e toda potencialidade. é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. para nós. que tem como escopo o bem eterno das almas. Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo. não podem determinar a sua infinita capacidade de bem. de que depende o bem comum dos indivíduos. A primeira forma da sociedade humana é a família. essencial. resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. isto é. deve a razão desempenhar os papéis seguintes: 1. são necessários dois elementos: o elemento objetivo. de credibilidade (profecias. para a integridade do ato moral. E compreende-se. portanto. A demonstração da fé. Embora o estado seja completo em seu gênero. conhecido intuitivamente pelo intelecto. não depende da vontade arbitrária de Deus.). e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas. logo. ciência e fé. Desta sorte. é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional. de evidência. que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. livre e do nada. transcendentes à razão. A Moral Também no campo da moral. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade. recorrendo a um argumento metafísico fundamental. no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que. e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé. que consiste numa produção do mundo por parte de Deus. a vontade seria determinada por este bem infinito. que se atinge mediante a razão. de que depende a conservação do gênero humano. Destarte. a lei. segundo o sistema tomista. ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. e não é falso. agostiniana. agir moralmente significa agir racionalmente. mas o estado um meio para o indivíduo. ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. não evidentes. razão e revelação. é eliminada a doutrina da iluminação. porquanto procede da mesma Verdade eterna. se a vontade não determina a ordem moral. mas com argumentos extrínsecos. Em todo caso. a ordem moral é imanente. . que Deus quis realizar no mundo. um conjunto de negações e de analogias. que é uma determinada imagem da essência divina. mas tem como fim o conhecimento. A ordem moral. portanto. E. Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. inseparável da natureza humana. que garantem a autenticidade divina da Revelação. Com base no sólido sistema aristotélico. é livre. em tudo quanto diz respeito à religião e à moral. porém. e sim da necessidade racional da divina essência. 2. e o elemento subjetivo. mas apenas incompleto. Filosofia e Teologia Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia. ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos. pois a moral tomista é essencialmente intelectualista. em harmonia com a natureza racional do homem. de Deus. Ao invés. pois. a vontade não é condição de conhecimento. O que conhecemos a respeito de Deus é. a intenção. mistérios. isto é. à Igreja. portanto. Não é mister acrescentar que. Tomás se distingue do agostinianismo. que depende da vontade. é resolvido com base no conceito de criação. fica. a Segunda forma é o estado. Segundo Tomás de Aquino.

Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica. a Revelação e. idéias inatas. ao contrário. tem o seu ponto de partida nos sentidos. Por conseguinte. sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma. mas na visão beatífica da Essência divina. A determinação. racionalmente. um inteligível. por conseguinte. Tomás. portanto. precisamente. Vice-versa. segundo a famosa expressão  . Essa forma é enucleada. para os agostinianos. Ela pode ser demonstrada? 3. no homem. esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais. não confunde  como faz o agostinianismo . ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional. mas distingue-as e as harmoniza. por conseqüência. efetivas vulnerações da natureza humana. tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana. e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas materiais. por conseguinte. segundo a antropologia aristotélico-tomista. que conhecem mediante as espécies impressas.110 3. um intelecto. inexplicáveis. em virtude da qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo sensível. uma espécie de natureza angélica. abstraída pelo intelecto das coisas materiais sensíveis. este intelecto atinge. ao passo que. Por isso a alma era concebida quase como um ser autônomo. logo. a uma antropologia. ao misticismo agostiniano. os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. O conhecimento. pois. precisamente como as inteligências angélicas. com todas as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. portanto. estas vulnerações são filosoficamente. Deus existe? . mas ao lado e acima dos sentidos. A Existência de Deus é Evidente? Sobre a existência de Deus. o conhecimento humano se realizava não através dos sentidos.nem opõe  como faz o averroísmo  razão e fé. enquanto a filosofia é concebida qual construção autônoma e crítica da razão humana. E demandam. no campo católico. portanto. é essencialmente prática. Ademais. pelo que a sacra teologia é ciência. Terceira característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo. é o intelectualismo. A característica do tomismo. o espírito humano está em relação imediata com o inteligível. Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural. e tem. em especial. O Tomismo O tomismo afirma-se e caracteriza-se como uma crítica que valoriza a orientação do pensamento platônico-agostiniano em nome do racionalismo aristotélico. é mais perfeito do que a ação. ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. sim. de certo modo. unida extrinsecamente a um corpo. A esta gnosiologia inatista. intuição do inteligível. segundo esta doutrina. e a materialidade do corpo era-lhe mais de obstáculo do que instrumento. de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus. incompleta sem o corpo. sem idéias inatas  é uma tabula rasa. segundo a concepção platônico-agostiniana. Acima do sentido há. sim. Sabemos que. A alma é. o conhecimento humano depende de uma particular iluminação divina. com todas as relativas conseqüências. assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma correspondente metafísica e antropologia. porquanto essencialmente especulativa. que pareceu um escândalo. o tomismo se afirma e se caracteriza como o início da filosofia no pensamento cristão e. que. enucleação e sistematização das verdades de fé. três questões se colocam: 1. porquanto o intelecto possui o próprio objeto. a alma é concebida como a forma substancial do corpo. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé. mediante contato direto com o mundo inteligível. e ciência em grau eminente. com a primazia do intelecto sobre a vontade. o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento humano. Essa gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e. A existência de Deus é uma verdade evidente? 2. como o início do pensamento moderno. mas é um intelecto concebido como uma faculdade vazia.

também existe na realidade. o oposto da existência de Deus pode ser pensado. que Deus existe. 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. De fato. I. desde que tenhamos compreendido o sentido da palavra "Deus". Logo. considerada em si mesma. que existe no pensamento. desde que se compreenda a palavra. ela não é evidente para nós. 6: "Eu sou o caminho. Por conseguinte. Mesmo que sustentemos que todos entendem a palavra Deus nesse sentido. Animal. por exemplo: o homem é um animal. é seu ser. em estado vago e confuso. isto é. 4 e Últimos Analíticos. De fato. Deus. o homem deseja naturalmente a felicidade e. pelos princípios das demonstrações. são ditas evidentes as verdades que conhecemos desde que compreendamos os termos que as exprimem. chamamos verdades evidentes aquelas cujo conhecimento está em nós naturalmente. aquele que nega a existência da verdade. mas que a existência da primeira verdade não é evidente em si mesma para nós. a existência de Deus é evidente. De fato. que o todo é maior que a parte. estabelece-se. Daí resulta que o objeto designado pela palavra Deus. isto é. colocam o supremo bem do homem nas riquezas. pertence à noção de homem.111 1. Por conseguinte. de imediato. uma proposição é evidente quanto o atributo está incluído no sujeito. 10). aquilo que ele deseja naturalmente. de imediato. Ora. ela o pode ser em si mesma e por nós. propriamente falando. De fato. ninguém pode pensar o oposto do que é evidente. Com efeito. Por conseguinte. o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento.  Parece que a existência de Deus é evidente. a existência de Deus não é evidente. etc. como é o caso dos primeiros princípios. É por isso que Boécio diz: "Certos juízos só são conhecidos pelos sábios. Mas como não sabemos o que é Deus. é evidente por si mesma. a existência de Deus é evidente. concorda que a verdade não existe. Mas. eu afirmo que a proposição "Deus é". acreditaram que Deus fosse um corpo. Mas isto não é. E não se pode concluir sua existência real salvo se se admite que essa coisa existe realmente. ele conhece naturalmente. isto não significa que todos representam a existência dessa coisa como real e não como representação da inteligência. À primeira objeção devemos responder que. como o ser e o não-ser. sem conhecer Pedro. menos conhecidas na realidade. podemos responder que aquele que ouve pronunciar a palavra Deus pode ignorar que essa palavra designa uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão num mesmo lugar". isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência de Deus. segundo o que diz São João. É o que o Filósofo (Últimos Analíticos. o todo e a parte. pelos efeitos. 2. devemos responder que a existência da verdade indeterminada é evidente por si mesma. por exemplo. Ora. Muitos. Por conseguinte. quando é o próprio Pedro que chega. Pois. em compensação. outros alhures. exatamente como se pudéssemos saber que alguém chega. a verdade e a vida". de acordo com o que diz Damasceno: "O conhecimento da existência de Deus é inato em todos". essa proposição será conhecida de todos. todos sabem o que são o sujeito e o atributo de uma proposição. Ela o pode ser em si mesma e não por nós. é certo que a proposição será evidente em si mesma. Alguns. Mas se a verdade não existe. 14. de fato. I. conforme diz o salmo 52.  Por outro lado. essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber algo que lhe seja maior. a verdade existe. E se alguma coisa há de verdadeira.  Além disso. de fato. com efeito. Se. a existência de Deus é evidente. tem necessidade de ser demonstrada pelas coisas que. uma vez que o atributo é idêntico ao sujeito. É verdadeiro. Ora. Deus é a própria verdade. 1: "O insensato diz em seu coração que não há Deus". a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. outros o colocam nos prazeres. quando sabemos o significado de todo o significado da parte. Resposta  Temos duas maneiras para dizer que uma coisa é evidente. conhecer a existência de Deus. Mas. a existência da verdade é evidente. À terceira. se alguns não sabem o que são o atributo e o sujeito de uma proposição. mas não para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. conforme nos mostra o Filósofo (Metafísica. À segunda. a propósito dos primeiros princípios da demonstração. . o são mais para nós. 3. o conhecimento da existência é naturalmente inato em nós. Ora. portanto. uma vez que Deus é a felicidade do homem. que os termos são coisas gerais que todos conhecem. sabemos. Ora. no sentido de uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. Ora. de fato.

necessária e naturalmente. por sua vez. Concretiza-se nestas ciências o interesse teorético da época. e se despedaça. existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros princípios. os animais são arrastados pelo que vêem. Solução: A vontade não pode tender para nenhum objeto. Mas existem outros bens que implicam nessa relação. porquanto é impossível a consistência teórica dessas ciências sem a filosofia. e daí partiam cientistas de todo o mundo civilizado. ela tende necessariamente para o bem que lhe é proposto. na medida em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. necessariamente. é evidente que a vontade não quer. Hiparco) e no II século d. segundo Santo Agostinho. Assim como o que é conhecido pelos sentidos é objeto da afetividade sensível. necessariamente. na idade helenista declina o vigor especulativo filosófico até ao ceticismo. parece que o objeto conhecido pela inteligência move a vontade necessariamente. visto que se pode ser feliz sem eles. que chega até as Índias. Por . por necessidade. ela é capaz de desejar coisas contrárias. Mas como existe uma infinidade de bens. necessariamente. por necessidade. A inteligência não concede. ela não é necessariamente determinada por um só. necessariamente. vão terminar fatalmente na prática. do mesmo modo como agora nós queremos. tornando-se empírico nas ciências particulares. para a satisfação das necessidades imediatas da vida empírica.112 A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? conseguinte. são aqueles pelos quais o homem adere a Deus. o movimento do móvel. Dificuldades: Isso parece exato.como Atenas foi o grande centro da especulação filosófica. A estas últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente. necessariamente. ela não é. Por conseguinte. Mas a vontade daquele que vê Deus em sua essência adere necessariamente a Ele. a afetividade sensível. ser felizes. não pode estar inteiramente subordinada a qualquer bem particular. Mas a capacidade da vontade. a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. tudo o que deseja. III . incentivado também pela descoberta de países novos.Latino As Ciências Naturais da Idade Helenista Como já salientamos. Faltando isto. a vontade não adere necessariamente. O mesmo acontece com relação à vontade. fenômenos e fatos novos. Ora. de fato Dionísio diz que o mal está fora do objeto da vontade. o objeto da vontade move-a necessariamente. o movimento do móvel segue. no caso em que a força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que este tem de agir fica submetida à causa. se este não se lhe apresenta como um bem. A causa motora produz. acionada por ele. Assim como a inteligência adere. Arquimedes. seu assentimento a tais verdades. na técnica. Desse modo. graças às expedições de Alexandre. Por conseguinte. tudo o que deseja. na medida em que se dirige para o bem universal e perfeito.C. O centro principal dessa cultura científica é Alexandria . Por conseguinte. atingindo esta cidade seu maior esplendor nos séculos III e II a. Conclusão: Eis como podemos prová-lo. assim a vontade adere ao fim último. ela não quer. (Euclides. Mas o objeto dos sentidos move. assim o que é conhecido pela inteligência é objeto do apetite intelectual ou vontade. o assentimento não é necessário. O objeto está para a vontade assim como o motor está para o móvel. Desse modo.C. pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. Ora. aos primeiros princípios. A tais bens. antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da visão divina. Todavia. Entretanto: Santo Agostinho diz que a vontade é a faculdade pela qual pecamos ou vivemos segundo a justiça. Existem bens particulares que não possuem relação necessária com a felicidade. o impulso do motor. Mas existem proposições necessárias que possuem esta relação necessária. Em Alexandria congregavam-se. Por conseguinte. tais são as proposições contingentes cuja negação não implica na negação desses princípios. As ciências particulares. necessariamente. tais são as conclusões demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios.

geometria e mecânica. máquinas de guerra acionadas por ar comprimido. As ciências naturais progrediram entretanto na idade helenista particularmente como ciências auxiliares da medicina . em 113 .C. em defesa de Siracusa cercada pelos romanos durante a II guerra púnica. repreendido pelo grande sábio porque perturbava seus estudos. aí dedicando-se por toda a vida a estudos e pesquisas de matemática. por sua vez.. tal contribuição limita-se essencialmente à matemática. . Apesar de ter o cônsul Marcelo ordenado aos soldados poupar a vida ao grande sábio.C.C. estudou em Alexandria. técnicos. que seria o estudo dos influxos astrais sobre os fenômenos terrestres e. a sistematização das descobertas matemáticas de seus predecessores e as suas pesquisas originais. só com Estrabão afirmou-se o caráter antrópico da geografia. África . o sistema astronômico era composto de cinqüenta e seis esferas concêntricas. por meio das expedições militares de Alexandre. Primeiro.C. as regiões então conhecidas . e por Aristóteles no sistema das esferas homocêntricas. tiveram incremento na idade helenista. De suas descobertas aproveitou-se também para a construção de máquinas de guerra. que ensinou em Alexandria e em Pérgamo e foi um grande geômetra da Antigüidade juntamente com Euclides e Arquimedes. até o IV século d.anatomia e fisiologia . gabinetes. o sistematizador definitivo do geocentrismo é Ptolomeu. durante o saque da cidade foi morto por um soldado ignorante. rico de recursos científicos . etc.). primeiro a geometria . após um interesse teórico para com esta ciência. e a um certo complexo de observações empíricas. já famosa no III século a. onde passou a vida toda entre o ensino. Ao lado da antiga escola de Hipócrates. e também. para poder explicar melhor e mais simplesmente os movimentos celestes. geografia.Europa. aritmética e estereogrande matemático e físico.nascido no Ponto. .C. já cultivadas por Aristóteles (zoologia) e Teofrasto (botânica). É o autor dos afamados Elementos de Geometria. salas anatômicas. Entretanto.III e II séculos a. mediante a teoria dos excêntricos. Em Alexandria havia o famoso Museu. A hipótese heliocêntrica é devida a Aristarco de Samos. Euclides viveu em Alexandria no III século a.C. voltando depois à pátria. etc.) discípulo de Platão. A matemática e a física tiveram grandes cultores em Euclides e Arquimedes. Quanto à astronomia e à geografia. onde descreve sistematicamente. mais ou menos .30 d. Natural de Siracusa. sobre as vicissitudes humanas. pouco posterior a Aristóteles e de pouco anterior a Arquimedes . A seguir foi desenvolvido e corrigido por Apolônio de Perga (260-200 a. física. medicina . No presente parágrafo examinamos brevemente as principais ciências naturais cultivadas nesta época matemática. vivido em Alexandria no II século d.C.C. ao geocentrismo. afirmam-se no século III a. mediante o qual a astronomia antiga foi transmitida e seguida até à Renascença. floresceu antes e mais viçosamente aquela do que esta. prevaleceram interesses práticos.III século a. Ásia. ciência no sentido estrito como a filosofia.(Ptolomeu). como acima já dissemos.. em que foram inventados relógios de água. que serão valorizadas e sistematizadas na ciência moderna. as quais levaram ao conhecimento da flora e da fauna das regiões novas.séculos II e II d.e que teve uma longa e gloriosa vida desde o III século a.C. nesta época fez grandes progressos. no mundo antigo. depois pelas grandes coleções do Museu de Alexandria.pondo especialmente em foco a influência do clima sobre o temperamento e o caráter humanos e sobre a organização social e política. astronomia. estudou em Alexandria e em Roma. por Hiparco de Nicéia do II século a.. a qual explicava o organismo animal mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é chamada escola dos dogmáticos.bibliotecas. A astronomia antiga conheceu a hipótese heliocêntrica. observatórios.C. Dos dois ramos da matemática floresceu.. Escreveu uma grande obra de Geografia. máquinas hidráulicas. O geocentrismo foi elaborado por Eudóxio de Cnido (408-355 a. Estrabão .63 a. Quanto à física. autor do assim chamado Almagesto. Esta teoria desloca a terra do centro das órbitas astrais para a circunferência. A geografia começou a ser cultivada no seu aspecto astronômico-matemático. mas aderiu. em geral. jardins botânicos. teriam sido as suas últimas palavras.C.C. As ciências naturais propriamente ditas..que. ciências naturais. o qual viveu em Alexandria e em Rodes. e depois a aritmética . Lembre-se a escola mecânica de Alexandria.particularmente em relação com o saber enciclopédico. dotada de jardins botânicos e zoológicos. jardins zoológicos. "Noli turbare circulos meos".C. Ptolomeu julgou que devia integrar a astronomia com a astrologia. particularmente. onde se trata com grande clareza e rigor científico de geometria plana.C. A contribuição da filosofia clássica. em dezessete livros.

Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados no mundo biológico aos princípios da física e da metafísica. que dominaram a cultura médica européia até além da Idade Média. justa. favorecidas pelo partido iluminado chefiado por Cipião Emiliano. em oposição à orientação teórica e especulativa das escolas precedentes. Aliás. Roma procede fatalmente para o Império. estóico. que colimava com o temperamento prático dos romanos. rápida e grande influência em Roma. O gênio romano é oposto ao gênio grego. a umidade. A sua filosofia é uma síntese do platonismo. Um senatus-consulto. Tenta ele sintetizar a doutrina hipocrática dos quatro humores com a física aristotélica dos quatro elementos e das quatro qualidades fundamentais da matéria . estoicismo e. mas porque o helenismo é considerado bom gosto. o Antigo . Foi. Características Gerais Julgamos seja preciso tratar do pensamento romano juntamente com a filosofia grega. é. para explicar a formação e o funcionamento dos órgãos. dos dois quesitos fundamentais da filosofia moral grega .C. composta de Carnéades.os quais justamente percebiam o perigo da perversão dos costumes na vida romana.C. representavam a mais alta tarefa da vida . a famosa embaixada dos filósofos gregos ao senado romano em 155 a.os romanos se interessaram propriamente apenas pelo segundo. porém. norma e fundamento de uma vida civilizada ideal. e como se realiza . o direito. em oposição a todos os desvios passados e presentes.114 Alexandria outras escolas. aristotelismo . Começa. e precisamente depende da filosofia grega do terceiro período..da filosofia grega. acadêmico. lazeres. por exemplo. a última vitória dos conservadores. para se aperfeiçoarem nos estudos. a influência grega sobre o mundo romano. razoável. a Grécia tornava-se efetivamente parte do império romano. elegância.o calor. universal. Atenas e Rodes.. inversamente. Paulo Emílio. autor de De rerum natura. peripatético e Diógenes. no foro). nos quartéis.C. que sobrevivem imperecíveis ao empírico fim político do império romano . especulativos. de caráter pregmatista e moral. E como as obras primas do gênio grego foram a filosofia e a arte. juntamente com Critolaus. Após a conquista romana da Macedônia (168 a. da atividade. E fazem isto não por interesses científicos. o epicurista foi o primeiro romano que nos deixou um escrito filosófico: Lucrécio Caro. a secura.como passatempos. Temos. afirma uma fisiologia teleológica. reconhece a vis medicatrix como fator essencial da terapia. humana.do Ocidente e do Oriente -. Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia. o frio. Com meios coativos. acelerada pelo contato com a refinada civilização helenista. metafísicos . portanto. testemunho do entusiasmo vivo e sincero com . O epicurismo teve imediata. afirma o valor da experiência direta.).estando à frente Catão. É esta uma das maiores obras da literatura latina. não podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força medicatrix. em 161 a. segue-se que foi também um filósofo. porquanto também o pensamento romano depende . sobretudo. base e germe de toda sólida construção especulativa e de toda verdadeira obra artística. firmadas em princípios diferentes. de permeio a toda a barbárie antiga e moderna. também a filosofia grega dirige-se para Roma. o maior médico da Antigüidade. Antes de tudo. segundo os gregos.). Os jovens mais conspícuos das famílias aristocráticas romanas vão à Grécia e à Ásia Menor. a especulação. do negotium (nos campos. é impedida pelos conservadores .C. e. apesar de ambos os povos se originarem do mesmo tronco indo-europeu. esta escola fez descobertas importantes sobre a circulação do sangue e sobre o sistema nervoso. a qual segundo Plutarco. começados geralmente na pátria sob direção de educadores gregos. Mais importante é a escola médica chamada empírica que. políticos. despertou grande contrariedade no velho Catão. a idéia imperial. por conseqüência. considerando o estudo. Entre Roma e a Grécia estabelecem-se e desenvolvem-se intensas relações culturais. da observação dos sintomas do mal e do efeito dos remédios. a contemplação . moda. Quíncio Flamínio.que coisa é o sumo bem. elemento indispensável da alta cultura romana.que. assim a obraprima do gênio romano é o jus. a escola que tenta explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças fundamentais. otia. eclético com tendências dogmáticas e hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d.em seus motivos teóricos. Antes. finalista. viveu longamente em Roma na qualidade de médico imperial e deixou numerosos escritos. vedava a morada em Roma aos filósofos. Natural de Pérgamo. que sobrevivem imperecíveis ao acontecimento empírico da queda política da Grécia. O gênio romano cultua a primazia da prática.

realista. Em Atenas e em Rodes. Procurar-se-á um filósofo. quase religiosa. O pensamento grego serviu à codificação do direito romano próprio e verdadeiro. para chegar à construção de um direito universal. portanto.). Não é. que o pensamento grego pode deduzir da sistematização jurídica romana. em Roma foi o direito. Entre os numerosos estóicos da idade imperial. e de Fedro epicurista. jurista e homem político literato e orador famoso. mas uma sistematização jurídica. desenvolve-o. Daí uma superioridade do estoicismo romano sobre o estoicismo grego. que constituem o caráter essencial do estoicismo. Ambos correspondem à índole prática do gênio romano: o primeiro condiz com o pragmatismo positivo. E.deixando na sombra as questões teoréticas . uma confirmação de alto valor. que no estoicismo são resolvidos segundo uma metafísica elementar e contraditória. moralista e escritor epigramático. o direito romano no corpus juris justiniano é o lógico desenvolvimento do original germe jurídico. natural.C. implica numa concepção filosófica. Tal sistematização jurídica. como mais tarde terá o seu capelão. Cícero foi discípulo de Filo. porquanto .ainda que a obra lucreciana seja desprovida de importância especulativa. da idade republicana. mas realiza-o. Não é de admirar. de Possidônio.terem os estóicos romanos exercido uma função prática. Os romanos. porém. o segundo condiz com o pragmatismo negativo. pelo menos os romanos da idade imperial. numa filosofia do direito. valoriza-o. O direito romano não é uma filosofia do direito. o sistema filosófico de Cícero é uma forma de pragmatismo eclético. às vezes a única fonte. aliás. E. entre estes. a profunda praxe ascética do estoicismo recebe.115 que foi aceito em Roma o epicurismo por um determinado grupo cultural . como os cristãos procurarão um padre. expande-se através da cidade e do . têm uma personalidade própria. . caput mundi. de que representa uma fonte essencial. qual era a mentalidade romana.C. Sêneca é o maior como pensador. O seu pensamento é. de crítica e de sistema. que no Oriente foi a religião. acadêmico. mas a codificação de uma longa e vasta prática. Seu mérito principal está no fato de que ele fez ampla e eficazmente conhecer a Roma o pensamento helênico.segundo a índole prática do gênio romano limita-se quase exclusivamente aos problemas morais. otimista. do mesmo modo que Roma sozinha construiu o seu império. prática. toda grande casa terá um filósofo. Direito e Educação O Direito Romano A obra universal e imperecível. O mais destacado expoente da primeira corrente é Marco Túlio Cícero (106-43 a. humano. não é uma construção teórica. na Grécia a filosofia. tendo renunciado a todo o resto. Cícero tem mérito também como historiador da filosofia antiga. Roma não desnatura o seu gênio político original. dada a sua cultura vasta e eclética. pessimista. pela sua aceitação por parte de uma mentalidade positiva. Sêneca e Epicteto pertencem a esta classe de diretores espirituais. todavia. jurídico. assim. podem considerar-se quase naturalmente estóicos. segundo a índole prática do gênio romano. Carece de interesse especulativo. Epicteto e Marco Aurélio pertencentes ao primeiro e segundo século d. Musônio Rufo. Instaurado o Império. que fazem parte da oposição e se apegam à liberdade espiritual do pensamento. racional. criando um verdadeiro dicionário filosófico latino. estóico. político. apenas Sêneca. sendo critério de verdade o útil moral. paralelamente. O estoicismo romano difere do estoicismo grego. traduzindo-o para a língua latina. Certamente. que. Ecletismo e Estoicismo As duas correntes mais importantes do pensamento romano são o ecletismo e o estoicismo. igualmente ilustre no mundo filosófico. num direito natural. surgindo na família. por conseguinte. Roma teve que superar a própria nacionalidade. aonde não pode chegar o poder exterior. pois Roma era naturalmente feita para se tornar a capital do mundo. um ecletismo com tendências acadêmicas e para finalidades morais . da idade imperial. -. se bem que os grandes jurisconsultos romanos teriam chegado sozinhos a esta codificação.conforme a segunda escola estóica grega. moral. descuidando quase que completamente dos problemas teoréticos.

enfim se forma pouco a pouco uma literatura nacional romana sobre o modelo formal da grega. que surgem com uma diferenciação e uma especialização superior da escola de gramática. que se reduzia a uma aprendizagem mnemônica de prescrições jurídicas. vão-se. O orador romano será o tipo do homem de ação. Na história da educação romana podem-se distinguir três fases principais: préhelenista. que se inspirou. entre os romanos. que vai da cidade ao império: os patres governam a coisa pública. em Roma. através das quais se aprendia a cultura helênica em geral. cuja irresistível fascinação também Roma sofreu. Nesta obra educativa colaborava também a mãe. que na sociedade familiar romana desempenha também as funções de senhor e de sacerdote . econômica. a princípio é a literatura grega que se difunde em Roma. Acabam. enfim. Sentiu-se então a exigência de um novo sistema educativo. Evidentemente.de instituição privada sem ingerência alguma do estado.porquanto estava pelo menos nas possibilidades do caráter latino. do direito até à filosofia. médias . helenista-republicana. quando o antigo estado-cidade. constituindo escolas . e a cultura helênica e os mestres gregos afluem a Roma sempre mais numerosos e bem acolhidos. A educação romana sofreu necessariamente uma profunda modificação. deste modo. dadas as suas predominantes qualidades práticas. a família não estava mais à altura de ministrar esta nova e mais elevada instrução. logo.entendida como prática litúrgica. porquanto a carreira política representava. e afinal. por triunfar os inovadores. Um terceiro grau será. mais considerada a mulher do que na Grécia. A Educação Romana O espírito prático romano manifesta-se também na educação. a Odisséia -.negotium e. antes. para o espírito prático romano. depois estudamse os autores gregos no texto original. em relação com a seriedade da ação. A sua finalidade era formar o orador. e culmina no Império. uma espécie de institutos universitários. enquanto a elite dos jovens romanos vai se aperfeiçoar nos centros de cultura helenista. A primeira e fundamental instituição romana de educação é a família de tipo patriarcal.por exemplo. concisas e conceituosas . sendo. Essencialmente práticos e sociais são os meios: o exemplo.salus reipublicae suprema lex esto. o treinamento ministrado pelo pai que faz o filho participar na sua atividade agrícola. a instrução propriamente dita.116 estado. O fim da educação é prático-social: a formação do agricultor. Primeiro são traduzidas para o latim as obras literárias e poéticas gregas . Na reação dos conservadores contra a helenização da vida romana.que regulavam os direitos e os deveres recíprocos naquela elementar mas forte sociedade agrícola-político-militar.entre o terceiro e o segundo século a.ludi . desenvolvendo-se e expandindo-se para a nova forma do estado imperial . aos poucos. tivesse o seu lugar. Do direito civil chega até ao direito das gentes.paterfamilias. helenista-imperial.C. do cidadão. para os romanos. sumamente pobre de arte e de pensamento.).veio em contato com a nova civilização helênica. diversamente do que era na Grécia.otium. constituído mediante as escolas de retórica. nos ideais práticos e sociais. Enfim. e é definida até como ludus impudentiae.onde se ensinava a língua latina e a grega. E. em Roma. do guerreiro .mos maiorum. especialmente em Atenas. . especialmente literária. As famílias das mais altas classes sociais hospedam em casa um mestre. e não simples distração .pedagogus ou litteratus. através do pensamento. até aquele direito natural. Educador é o pai.a escola do litterator onde se aprendia a ler. escrever e calcular. entra e se espalha a concepção grega da vida . a tradição doméstica e política . o ensino da eloqüência abrangia toda a cultura. especialmente nos primeiros anos e no concernente aos primeiros cuidados dos filhos. depois. se estudavam os autores das duas literaturas.as leis das doze tábuas . todavia. é o pensamento grego que penetra e se difunde. do político culto. germe de uma sociedade mais vasta. E tudo isso sob uma disciplina severa. os censores publicavam um decreto que condenava a escola latina de retórica (92 a. Esta instrução literária partiu precisamente da cultura helênica. em que a cultura é instrumento de ação . E. por ser "novidade contrária aos costumes e aos preceitos dos maiores". o ideal supremo. mediante a literatura. geralmente grego . Essas escolas são de dois graus: elementares . militar e civil. E.a escola do grammaticus . prático-social era o próprio conteúdo teorético da educação.C. a que chega a filosofia pelos caminhos da razão. e a religião . sendo a religião. para atender às exigências culturais e pedagógicas das famílias menos abastadas. coisa muito séria.pietas . em que a instrução. portanto. .

do mal. significa uma decadência para o diletantismo. enquanto fornecem o conteúdo essencial à arte oratória. que muitas sobreviveram à queda do império romano ocidental. intuitivo. especialmente propensas a estes problemas e fecundas em soluções do mais vivo interesse. dianoético.C. embora modestamente. do racionalismo aristotélico. do espírito. volta. transformando-se em escolas eclesiásticas graças ao monaquismo cristão. vindo a faltar a liberdade.a que o helenismo não pudera chegar. O teórico da pedagogia romana pode ser considerado Quintiliano.positiva -. transformando-se em meios de ornamento intelectual entre os lazeres de uma aristocracia cultural. humanistas. Já não se trata.Lívio . No período religioso permanecem os problemas do período ético. mas. porém. especialmente de direito. e de uma purificação e libertação ascética e mística. expõe o processo de formação do orador . o pensamento grego. aqueles povos Espanha. do monismo estóico. pelo fato de ser profundamente sentido o problema do mal. foi professor de retórica em Roma. semitas. Por certo. se recorre à concepção de uma queda arcana. devido aos seus limites naturalistas. místico. relativamente ao espírito prático-social romano. e mais precisamente . das religiões orientais. da morte. de resolver os grandes problemas transcendentes . Germânia. o direito e a filosofia. para a revelação. místicas. Faz Quintiliano uma exposição completa. por conseguinte. províncias danubianas. do pecado . da dor.que nem sequer se propõe. nos grandes institutos universitários.cuja figura ideal já delineara Cícero no De Oratore. o êxtase. para o engrandecimento do império. que partiu de uma religião . Grã-Bretanha. ao contrário. grego.e dos oradores . porquanto foi ela levada. quando Vespasiano era imperador. de um conseqüente encarceramento do espírito no corpo. em suma. no seu término. e a demoliu paulatina e criticamente nos grandes sistemas clássicos. homérica. e conservaram acesa na noite barbárica a chama da cultura clássica. Tentar-se-á a síntese filosófica do dualismo platônico.Vergílio e Homero . misteriosóficas. O problema da vida é agudamente sentido. E o resultado foi fecundo também para a cultura como tal. em doze livros. um meio. procura-se-lhes a solução mediante uma metafísica completada pela religião. racionalmente. Um dos principais motivos de interesse imperial pela cultura e a sua difusão foi o fato de se ver nela um eficaz instrumento de romanização dos povos.e as noções necessárias para este fim. um instrumento de penetração e de expansão da língua e dos jus romano. No curso de retórica ensinam-se a interpretação dos historiadores . uma explicação plena. Seja como for. imediato. depois o estado passa a favorecer e promover a instituição de escolas municipais de gramática e de retórica nas províncias. Deste problema não se acha. absolutamente falando. Na Instituição Oratória. preparadora dos esplêndidos renascimentos posteriores. A instituição escolástica compreende os dois graus tradicionais de gramática e retórica. enfim são fundadas cátedras imperiais. o que. original. segundo o espírito prático-político romana. Trata-se. vem a faltar o interesse político da cultura.117 Juntamente com a organização do império organizam-se também as escolas romanas. Um lugar de destaque ocupam as normas e as exercitações de eloqüência. Assim. Período Religioso Características Gerais O quarto e último período do pensamento grego denomina-se religioso.. para a religião. o primeiro docente pago pelo estado. absolutamente incapaz. as escolas de retórica perdem a função prática e social. porque o espírito humano procura a solução integral do problema da vida na religião ou nas religiões. o fim supremo da educação romana. África setentrional . olímpica. da realidade absoluta.Cícero -. mas singularmente acentuados. Gália. políticos. da velha religião grega. propondo programas e métodos que foram em grande parte adotados sucessivamente nas escolas do império. No curso de gramática ensinam-se a língua latina e a língua grega. o estado romano mostra agora apreciar a cultura. A desconfiança do conhecimento racional impede à evasão para um conhecimento supra-racional. Começam os imperadores romanos por conceder imunidade e retribuições aos mestres de retórica ainda docentes em casas particulares. a interpretação dos poetas . representa uma purificação da cultura no sentido especulativo. e. Tais escolas municipais foram tão vitais nas províncias. Nasceu na Espanha no II século d.

Tal dualismo não será negado. O último período do pensamento grego abrange os primeiros cinco séculos da era vulgar: substancialmente. pelo encerramento dessa escola ordenado por Justiniano imperador (529 d. de que a filosofia religiosa neoplatônica forma como que a estruturação ideal. Mas na metafísica neoplatônica . que se manifesta especulativamente no desenvolvimento tomista de Aristóteles. capital comercial. O neoplatonismo.tal transcendência.O Pensamento Moderno Transcendência Cristã e Imanência Moderna Achamos a característica específica do pensamento clássico na solução dualista do problema metafísico. cuja mais notável expressão é Jâmblico. a técnica. em uma forma de triteísmo.). com a sua doutrina de uma queda original. e exerceu também certa influência política com o imperador Juliano Apóstata. Nesta síntese metafísica prevalece o platonismo. todavia. terminará no monismo emanatista. não se pode mais falar em transcendência de valores teoréticos e morais. a idade do império romano. que  após ter-se afirmado como extrema expressão do pensamento clássico  permanece através de todo o pensamento cristão em tentativas mais ou menos ortodoxas de síntese entre cristianismo e neoplatonismo (Pseudo Dionísio.ocidental. É evidente que a passagem da concepção dualista (clássica) à concepção teísta (cristã) é um desenvolvimento lógico. característica do clássico dualismo grego. O pensamento moderno. o pensamento tradicional. Com a escola ateniense acaba. cuja mais notável expressão é Proclo. Pelo contrário. religiosos e políticos. todavia. o pensamento grego . interpretada à luz do pensamento grego. com que o neoplatonismo tem contatos. que sistematizou definitivamente e transmitiu aos pósteros o pensamento neoplatônico. também historicamente. E. que tenta a síntese do pensamento grego com a revelação hebraica. da alma estóica do mundo. sede do famoso Museu. mas são separados entre si: Deus não conhece. pelo menos . . imanentista.o pensamento platônico. 2°. com a sua extrema transcendência da divindade.C. 118 . Entretanto. O pensamento moderno. mas Deus é feito criador e regedor do mundo: o mundo não pode ter explicação a não ser em um Deus que transcende o mundo. cuja vida e pensamento nos foram transmitidos pelo discípulo Porfírio. o "dever ser" coincide com o "ser". . finaliza em uma concepção monistaimanentista do mundo e da vida: não somente Deus e o mundo são a mesma coisa. a história. cujo maior expoente é Plutarco de Queronéia.já tinha sido assimilado pelo pensamento cristão patrístico.). Mestre Eckart. II . Existem o mundo e Deus. teísta. do logos racional aristotélico. representa teoricamente uma ruptura. E também teve o neoplatonismo desenvolvimento nos últimos séculos do império romano: 1°. com a sua radical separação entre o mundo sensível e inteligível.oriental. cujo maior representante é Apolônio de Tiana. por outra parte.do transcendente divino platônico.na assim chamada escola siríaca. O sistema metafísico predominante no período religioso é o neoplatonismo. mas desenvolvido no pensamento cristão mediante o conceito de criação. religiosa do mundo cosmopolita helenista-romano. mas a este supra-ordenada. etc. em virtude da qual é ainda afirmada a realidade e a distinção entre o mundo e Deus. em Filo de Alexandria. com a sua religiosidade e o seu misticismo. especialmente o pensamento da Renascença.). helênico-escolástico. encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente. a política) sua integração lógica. não cria. à concepção moderna. a passagem da concepção tradicional.C.obra-prima deste período religioso . aristotélico-tomista. no novo pitagorismo. tem rumos precursores nos primeiros séculos da era vulgar: I . mas Deus é resolvido num mundo natural e humano. intercâmbio e polêmicas. o pensamento grego. encontrará nos grandes valores da civilização moderna (a ciência natural. ao contrário.na chamada escola ateniense. IV . e no platonismo religioso. cultural. Consequentemente. e também a idade da patrística cristã. Scoto Erígena. e a sua parte vital tinha sido transfundida e valorizada no cristianismo. não governa o mundo. pois "ser" e "dever ser" são a mesma coisa. O centro deste movimento filosófico é Alexandria do Egito. e o seu maior expoente é Plotino (III século d. tem seu precedente lógico no panteísmo neoplatônico. em uma característica espécie de trindade divina.

pois. e até a agricultura. a igreja romana e o clero católico desempenharam funções também leigas e profanas. o seu profundo senso histórico. Galileu Galilei. como tal. mas cristão. como. não teve dificuldade alguma em aceitar toda a ciência natural moderna. espirituais.119 Não se julgue demolir a filosofia medieval. que afirmava ser o objeto da ciência não as essências metafísicas das coisas. a instrução cultural. Deus.. e. a nova escolástica. insuficiente. por exemplo. bem como o laicado distinto do clero e organizado civilmente em graus de corporações. no período bárbaro. experimentalmente provados e matematicamente conexos. compreensiva e ativa com respeito ao Estado. romano. acima de si e de tudo. em adequação à realidade. metafísico. isto não foi senão uma expressão exterior daquela estrutura profunda que se chama a cristandade: equivalente civil da igreja católica. as comunicações. ao passo que admitia a possibilidade de uma ciência natural diversa daquela do seu tempo. Aliás. era escasso na mentalidade medieval o senso da concretidade e da individualidade. e sim os fenômenos naturais. a Igreja católica estava apta e disposta  a prescindir-se das intenções dos homens e de suas fraquezas fatais  a livrar-se desses cuidados estranhos gravosos e perigosos para o seu ministério transcendente e sobrenatural. isto é. naturalmente. Aplicações técnicas que possuem também um valor espiritual. o do domínio natural do homem sobre a natureza: contanto que o homem reconheça. a metafísica tomista. mas não leigo. sem dúvida. o comércio. a atitude da Igreja. A historiografia medieval é. alimentou suspeitas e combateu longamente contra a nascente ciência moderna. especulativo. E a ciência natural da Idade Média não está absolutamente em conexão com o pensamento filosófico medieval. uma utopia universalista. Em seguida virá a . quando os homens e os tempos estivessem maduros. a escolástica pós-tomista. não se podem achar causas racionais dessa mudança. a favor da velha ciência natural aristotélica. Costuma-se inculpar a civilização medieval por ter aniquilado o estado nacional concreto. sem o qual não é possível a história verdadeira e própria. se. pois não é a ciência natural  capaz apenas de resolver os problemas da vida material. o próprio Tomás de Aquino julgava logicamente que a filosofia podia ser uma só. porquanto esta representa uma valor infra-filosófico. é na Idade Média que se formou o Estado distinto da Igreja. Mas a concepção medieval da história. pelo fato de que ninguém estava em condições de fazê-lo. de fato. interiormente organizado e politicamente soberano. descuidada. Além disso. Tal era também o pensamento do grande fundador da ciência moderna. praticamente liberal. que é a cristã e já teve a sua expressão clássica na Cidade de Deus de Agostinho é perfeitamente conciliável com a indagação histórica moderna. ingênua. mas empírico e técnico. e. E é na Idade Média que se formam as grandes nações modernas. como o Sacro Império Romano. E é devido a isso que a civilização não pereceu. o novo tomismo. o seu interesse pela concretidade. orgânico. religiosos  que pode decidir do valor de uma civilização. católico. decadente. a este respeito. O valor da ciência moderna não é teorético. Nem se deve esquecer que precisamente na comuna medieval se encontra a primeira origem do estado moderno. imanentista. Poder-se-ia fazer notar que tal efetiva distinção e relativa autonomia do Estado (e do laicado) com respeito à Igreja (e ao clero) foram alcançadas através de uma longa luta contra o predomínio e a invasão destes últimos. teísta. mas abstrata. O que dissemos da ciência. Noutras palavras. indiferente à filosofia. No entanto. imanentista. nos séculos de ferro. podemos dizê-lo analogamente da história. e foi conservada para a idade moderna. Os Precedentes do Pensamento Moderno Dada a ruptura lógica entre o pensamento tradicional. como tal. capaz de abraçar os mais diversos organismos políticos. mas incapaz de resolver os problemas máximos da vida. opondo à sua elementar e fantástica ciência da natureza a ciência moderna com suas grandes aplicações técnicas. E destes conhecimentos experimentais e matemáticos de fenômenos naturais derivava ele as primeiras grandes aplicações técnicas da ciência moderna. e o pensamento moderno. desde os comunas medievais até às grandes monarquias européias do século XVII e ainda além. a indústria. ateu. Mas cumpre ter presente que. para construir uma unidade política grandiosa. etc. na alta Idade Média. mas apenas práticas e morais. morais. devendo esta última fornecer à primeira a sua rica contribuição de fatos. Basta lembrar. à metafísica. a assistência hospitalar.

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justificação teórica da nova atitude espiritual, que será constituída por todo o pensamento moderno em seu desenvolvimento lógico. O grandioso edifício ideal da Idade Média, em que a religião e civilização, teologia e filosofia, Igreja e Estado, clero e laicado, estavam harmonizados na transcendente unidade cristã, foi, de fato, destruído pelo humanismo imanentista, que constitui o espírito característico do pensamento moderno. Este pensamento começa com a prevalência dada aos interesses e aos ideais materiais e terrenos, com o conseqüente esquecimento dos interesses e ideais espirituais e religiosos; e torna-se completo com a justificação dos primeiros e a exclusão dos segundos. É precisamente o que acontece com os homens inteiramente entregues aos cuidados mundanos: primeiro se esquecem das coisas transcendentes, e, em seguida, querendo ser coerentes, negam-nas. Entretanto, se não há causas lógicas do pensamento moderno, há, porém, precedentes especulativos, que, valorizados pela nova atitude espiritual, se tornarão fontes especulativas do próprio pensamento moderno. Tais precedentes especulativos podem ser resumidos desta forma: o panteísmo neoplatônico, o aristotelismo averroísta e o nominalismo ocamista, os quais foram-se afirmando contemporaneamente a uma gradual decadência do genuíno pensamento escolástico (racional, teísta, cristão), especialmente tomista, com que se acham em oposição. E tal decadência cultural é acompanhada, por sua vez, pela decadência da Igreja e do Papado  o exílio avinhonês e o cisma do ocidente. O panteísmo neoplatônico teve a sua primeira grande manifestação, no âmbito do cristianismo, com Scoto Erígena. Tentará afirmar-se de novo na própria época de Tomás de Aquino com Mestre Eckart, o iniciador da mística alemã. E receberá uma nova original elaboração do Humanismo com Nicolau de Cusa, que não pouco deve aos precedentes; e, sobretudo, com Giordano Bruno, o maior pensador da Renascença, o qual depende, por sua vez, de Nicolau de Cusa. O averroísmo latino afirmara na Idade Média a sua famosa doutrina das duas verdades: o que não é verdadeiro em filosofia pode ser verdadeiro em religião e vice-versa. Em uma idade cristã, como a Idade Média, a afirmação religiosa podia Ter a prevalência sobre a negação filosófica; obscurecendo-se a fé, como na Renascença, devia prevalecer uma concepção anti-cristã, aristotélica ou não. O occamismo marca a conclusão lógica da decadente esolástica pós-tomista, apesar de seus partidários se comprazerem em denominá-la via modernorum. E, ao mesmo tempo, apresenta um elemento fundamental da filosofia moderna com o seu empirismo e nominalismo. Nicolau de Cusa, Telésio, Bruno, Campanella serão também herdeiros do nominalismo empirista de Occam, que se combina, nos sistemas deles, com uma metafísica aventurosa de cunho particularmente neoplatônico. Como é sabido, segundo Occam, o conhecimento humano é reduzido ao conhecimento sensível do singular e, portanto, ao nominalismo. Conseqüência lógica e consciente é a destruição da metafísica, que transcende o mundo empírico, sensível, bem como da ciência, que é entretecida de conceitos, impossíveis de nominalismo, de sorte que se esvai da teodicéia, porquanto não se pode provar racionalmente a existência de Deus, nem conhecer a sua natureza; e a psicologia racional, pelo mesmo motivo. E, consequentemente, torna-se impossível a ética racional, porque  sendo desconhecida a essência de Deus e destruída a do homem  a moral fica reduzida a um conjunto de preceitos arbitrários de Deus, que o homem tem que observar por fé. Occam procurará salvar-se do ceticismo  conclusão do seu sistema, com todas as conseqüências práticas  mediante a fé. Entretanto é uma posição insustentável, porquanto a fé  não podendo mais ser um racional obséquio  torna-se uma adesão cega. Em época de religiosidade ainda viva, esse fideísmo ocamista pôde praticamente ficar de pé. Mas ruirá quando a fé vier a faltar, deixando o terreno livre ao empirismo, ao naturalismo, ao nominalismo, ao ceticismo, imanentes ao ocamismo, e que constituirão tão grande parte do pensamento da Renascença, da Reforma e também do pensamento posterior. Os Períodos do Pensamento Moderno Este grande movimento especulativo, que é o pensamento moderno, naturalmente não se manifesta na sua significação imanentista senão na plenitude do seu desenvolvimento. Portanto, manifesta-se através de uma série de períodos, que se podem historicamente (e dialeticamente) indicar assim:

1.  Antes de tudo a Renascença, em que a concepção imanentista, humanista ou naturalista, é potentemente afirmada e vivida. Trata-se, porém, de uma afirmação ainda não plenamente consciente e sistemática, em que o novo é misturado com o velho. Este, muitas vezes, prevalece, ao menos na exterioridade da forma lógica e literária. A Renascença é preparada pelo Humanismo, e tem como seu equivalente religioso a reforma protestante. 2.  A este primeiro período do pensamento moderno, que, substancialmente, abrange os séculos XV e XVI, se seguem o racionalismo e o empirismo, que abrangem os séculos XVII e XVIII. Após a revolução renascentista e protestante, sente-se a necessidade de uma séria indagação crítica, não para demolir aquelas intuições revolucionárias, mas, ao contrário, para dar-lhes uma sistematização lógica. É o que fará especialmente o racionalismo em relação ao conhecimento racional. 3.  E outro tanto fará e empirismo em relação ao conhecimento sensível. Empirismo e racionalismo são tendências especulativas, gnosiológicas, opostas entre si, como a gnosiologia sensista está certamente em oposição à gnosiologia intelectualista. Entretanto, concordam em um comum fenomenismo, pois, em ambos, o sujeito é isolado do ser e fechado no mundo das suas representações. Não se conhecem as coisas e sim o nosso conhecimento das coisas. 4.  Empirismo e racionalismo, após uma lenta, gradual e silenciosa maturação, encontrarão uma saída prática, social, política, moral, religiosa no iluminismo e, portanto, na revolução francesa (Segunda metade do século XVIII); esta representa a concreta realização do pensamento moderno na civilização moderna. Esse movimento começa na Inglaterra, triunfa na França e se espalha, em seguida, na Alemanha e na Itália. Os Pensadores Renascentistas Os Pensadores Do fundo eclético-neoplatônico do pensamento da Renascença se destacavam algumas figuras de maior vulto, cuja série começa com Nicolau de Cusa e termina com Giordano Bruno. É uma nova concepção filosófica do mundo e da vida, ainda não bem claramente esboçada, de que seus próprios autores, às vezes, não têm clara consciência. É uma época de transição, em que novo e velho se entretecem mutuamente. Os sistemas filosóficos da época conservam a linguagem (latim) e a estrutura (silogística) da idade precedente. As intuições e afirmações naturalistas, humanistas e imanentistas estão ao lado das profissões de fé católica, feitas por motivos práticos, éticos e utilitários. Entretanto, debaixo dessas aparências, germina o pensamento moderno. É o crepúsculo que prenuncia a alvorada de um novo dia. Nicolau de Cusa

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Universidade de Heidelberg, foco de nominalismo, e na de Pádua, onde aprendeu a matemática, o direito, a astronomia. Ordenado padre, teve parte notável no concílio de Basiléia (1432); foi, a seguir, legado pontifício, cardeal, bispo. Viveu seus últimos anos na Itália, onde faleceu em 1464. As obras fundamentais de Nicolau de Cusa são três: De docta ignorantia, De conjecturis, Apologia doctae ignorantiae. As fontes prediletas e principais são o misticismo alemão (Mestre Eckart), o platonismo e o neoplatonismo cristão (Santo Agostinho, Pseudo Dionísio, Scoto Erígena, São Boaventura), e os autores de tendência neoplatônica, em geral. Nicolau de Cusa admite, acima dos sentidos, dois graus do saber humano; a ratio e o intellectus. A ratio  ou intelecto discursivo  é a faculdade que abstrai das noções particulares os conceitos universais, e forma, em seguida, os juízos e os raciocínios. O seu objeto próprio é o conhecimento da multíplice e do finito. No entanto, também a coisas finitas são imperfeitamente representadas pela ratio, cujo conhecimento se realiza mediante conceitos universais, ao passo que a realidade é constituída por seres

Nicolau Krebs nasceu em 1401 em Cusa, de família modesta. Foi educado junto dos Irmãos da vida comum em Deventer, onde sofreu a influência do misticismo alemão; em seguida estudou na

individuais. Deus, uno e infinito, não pode certamente ser conhecido pela ratio, cujo objeto é o multíplice e o finito. Acima da ratio está o intellectus, atividade supra-racional iluminada pela fé ou pela mística, cujo objeto próprio é o Uno e o infinito, Deus. O agnosticismo de Nicolau de Cusa é, portanto, corrigido pelo fideísmo e pelo misticismo. A docta ignorantia consiste precisamente na consciência dos limites e da relatividade da ratio, cujas deficiências são supridas pelo intellectus. Entretanto, esta iluminação é sobrenatural e nada tem que ver com a filosofia, nem é de modo nenhum fundamentada por Cusano. Admitindo, pois, ele, que a razão não nos dá a realidade, segue-se logicamente que a sua filosofia deve finalizar no agnosticismo gnosiológico, e no panteísmo metafísico. Por certo, o piedoso cardeal foi, na intenção, ortodoxo, teísta, católico. Entretanto, o seu sistema encerra fatalmente uma tendência para o panteísmo. De fato, foi ele acusado de panteísmo emanatista, quando ainda vivia. Bernardino Telésio Mais claramente manifesta-se o imanentismo da Renascença  em seu aspecto naturalista  em Bernardino Telésio. Nasceu em 1509 em Cosenza, estudou especialmente em Pádua e faleceu em 1588. A sua obra fundamental é De rerum natura iuxta propria principia. O pensamento de Telésio representa uma sistematização do naturalismo da Renascença: a saber, uma tentativa para explicar a natureza mediante os princípios universais imanentes à mesma natureza. O mundo natural é constituído de matéria e de força. A matéria é homogênea, preenche o espaço (que existe antes da matéria) e é por si mesma inerte. A força anima, penetra, move, transforma continuamente toda a matéria. O intelecto é reduzido aos sentidos, bem como o conceito universal é reduzido à sensação. Como é naturalizado o pensamento, é também naturalizada a vontade, no sentido materialista e hedonista. Entretanto, haveria no homem também uma alma que transcende a natureza e o mundo material, criada e infundida por Deus. Por conseguinte, o homem pode pensar e querer o supra-sensível, o eterno, e dominar com a vontade livre as tendências naturais. Desse modo, acima da ciência é posta e justificada a fé e a revelação. Giordano Bruno na Ordem dos Dominicanos aos 15 anos. Acusado de heresia e afastado de sua ordem, iniciou uma vida giróvaga através da Europa. De volta a Veneza, foi processado pelo tribunal da Inquisição e reconheceu os seus erros. Entregue à Inquisição romana, foi de novo processado; mas, desta vez, recusou qualquer retratação e foi condenado à morte, que lhe foi infligida em 1600. As obras principais de Bruno são: De la causa principio e uno; De l'infinito, universo e mondi; Eroici furori; De immenso et innumerabilibus. As fontes de Bruno são: o monismo eleático e heraclíteo; o atomismo democríteo; o panteísmo estóico; o emanatismo neoplatônico; o naturalismo telesiano. A metafísica de Bruno é decididamente monista, pampsiquista e pan-materialista. A realidade é una e infinita, constituída por dois princípios fundamentais, ativo um  a alma do mundo  , passivo o outro  a matéria. São dois aspectos da mesma substância. A alma do mundo é concebida como sendo inteligente, ordenadora do mundo; mas não é transcendente, como o motor primeiro de Aristóteles e o Deus do cristianismo, e sim imanente ao mundo, de que é precisamente a alma. O Deus de Bruno é, pois, esta alma do mundo, concebida como imutável e infinita, gerando eternamente o mundo finito e que se acha em perpétuo vir-a-ser. As almas particulares não passam de individuações passageiras dessa alma cósmica. Acima desse Deus imanente, também Bruno afirma a existência de um Deus transcendente, apreendido só por fé, trata-se, porém, de uma fé imanente naturalista, bem diversa da fé cristã. Com a metafísica de Bruno estão em conexão a sua gnosiologia e a sua moral. Na sua teoria do conhecimento Bruno distingue  neoplatonicamente  quatro graus, em ordem hierárquica ascendente. São eles:

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Giordano Bruno é a maior expressão do imanentismo renascentista. Nasceu em Nola em 1548, entrou

imanentismo e o humanismo do pensador. Bruno, em oposição à moral ascética e transcendente do cristianismo, sustenta que o homem realiza a sua natureza, atinge a sua perfeição no furor heróico, a saber, na sua imanente e jubilosa participação racional na vida do Todo-um. É, pois, natural, que Bruno considere toda religião histórica, positiva (inclusive o cristianismo), como um saber infra-racional, mítico, simbólico, útil para dirigir moralmente o vulgo ignorante, e não como uma revelação supra-racional de um Deus transcendente. Pois não é isto possível no seu sistema imanentista. Tomás Campanella dos Dominicanos. É o maior continuador de Telésio. Várias vezes processado por heresia, foi, porém, absolvido; entretanto, condenaram-no por motivos políticos e passou no cárcere 27 anos, sendo, enfim, libertado. Suas obras principais são: Civitas solis; Universalis philosophia seu metaphisicarum rerum iuxta propria dogmata partes tres; De sensu rerum et magia libri X. As fontes principais do seu pensamento são: o naturalismo telesiano e o idealismo neoplatônico. Mais do que os pensadores precedentes, Campanella parece oscilar entre imanentismo e catolicismo, devido ao fato de que se acha ele já no clima espiritual da contra reforma católica. E como Giordano Bruno prenuncia a Spinoza, assim Campanella prenuncia a Descartes, Malenbranche e Leibniz, marcando destarte a passagem da Renascença à Idade Moderna. Quanto à gnosiologia, Campanella diz o seguinte: Admite ele um sensus inditus e um sensus additus. O primeiro oferece um conhecimento imediato de si mesmo; é um conhecimento fundamental, certíssimo, visto que o objeto coincide com o sujeito. Entretanto, o conhecimento do eu, a consciência, revela imediatamente as limitações do eu e, logo, a existência as coisas que limitam o eu. Estas coisas são conhecidas pela percepção externa, isto é, pelo sensus additus que nos dá um conhecimento mediato das coisas. Este, porém, não nos revela a natureza das coisas, e sim o sujeito modificado pelas coisas. Ainda inferiores ao sensus additus, pela certeza, são o intelecto e a razão, porque ainda mais se afastam do sensus inditus, da imediata intuição de si mesmo. A razão, a saber, o poder de inferir o semelhante do semelhante, é um sentido imperfeito; o intelecto, a saber, o conhecimento do universal é um sentido elanguescido, pois o universal é uma noção genérica e confusa, cujo valor é unicamente prático, cômodo para resumir vários particulares. Campanella, como Telésio, desvaloriza a razão e o intelecto e admite, ao lado e acima deles, um princípio divino, uma mente, o pensamento, que desempenha a função de garantir o nosso conhecimento e libertar-nos do ceticismo. Quanto à metafísica, salientamos que Campanella afirma de novo e acentua a animação universal, o pampsiquismo telesiano. Propriamente, a metafísica de Campanella é a doutrina dos primeiros princípios do ser; são eles o poder, a sabedoria, o amor. Tais princípios são absolutos e puros em Deus, relativos e imperfeitos nas criaturas. Daí as coisas e o espírito serem uma mistura de ser e de não-ser (ser limitado), ao passo que Deus é puro ser (ser infinito). Sobre essa nossa limitação ontológica, Campanella alicerça a religião, que é aspiração do ser limitado para o ser infinito. Para Campanella, a religião fundamental é a religião natural, racional; as religiões positivas, históricas, seriam expressões empíricas da religião natural. A característica essencial da própria revelação cristã e da igreja católica seria a restauração da religião natural, racional, universal, obscurecida pela ignorância e pela concupiscência. Portanto, o cristianismo seria reduzido à religião natural, a que a Renascença em geral aspira. Tal concepção filosófico-religiosa de Campanella teve uma expressão prática, política e pedagógica, na Cidade do Sol (Civitas solis), em que é exposta a sua utopia teocrático-comunista. Imagina ele uma república ideal, professando uma religião natural, governada por leis universais, em que, à maneira de Platão, o sábio é, ao mesmo tempo, monarca e sacerdote. Mais tarde, essa sua utopia teocrático-

os sentidos, cujo objeto é o sensível, e a verdade que manifesta é mera aparência; a razão, mediante a qual a verdade é atingida por processo dialético, discursivo, sucessivo; o intelecto, que tem a intuição imediata da verdade; a mente, que atinge a verdade na sua unidade e simplicidade absoluta. Quanto à moral deve-se dizer o seguinte: na moral de Bruno aparece de um modo característico o

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Tomás Campanella nasceu em Stilo, na Calábria, em 1568, e também ele entrou ainda moço na ordem

uma animação universal. Entretanto. jansenista). pelo método racionalista. Significativa é a influência que o criticismo e o racionalismo cartesianos exerceram sobre a cultura do século de Luís XIV. Baruch Spinoza O racionalismo cartesiano é levado a uma rápida. do que como chefe de uma religião positiva e sobrenatural. O problema. entre os quais Hobbes. uma forma .que leva até o cristianismo. a divina. por causa do criticismo. Baruch Spinoza Considerações Gerais O pensamento de Descartes exercerá uma influência vasta no mundo cultural francês e europeu. E também propôs os grandes problemas em torno dos quais girou a especulação desses filósofos. sobre a poética de Boileau. Campanella viveu longamente na prisão. quanto especialmente pelo espírito crítico. a harmonia preestabelecida de Leibniz e o panteísmo psicofísico de Spinoza. e entre espírito e matéria do outro. grande físico e matemático. Ladeia estes três pensadores uma turma numerosa de cartesianos mais ou menos ortodoxos.espírito geométrico . no entanto.124 filosófica tomará uma forma teocrático-católica. parece ter tido intuição da falha da filosofia cartesiana. afastado da vida real. com o papa à frente. sobre a arte de Racine e de La Fontaine. implícito nas premissas do sistema e realizado apenas parcialmente pelo filósofo. Cabe-lhe a prioridade de várias teorias. em que falta a experiência de uma vida social-concreta. Descartes teve numerosos adversários e críticos no campo filosófico. a saber. ao contrário. escritas no cárcere. o século de ouro da civilização francesa. o pensamento de Bayle. extrema conclusão por Spinoza. a ética de La Bruyère. contrapõe a razão integral . mecanismo e infinidade do universo. as oposições maiores contra o cartesianismo surgiram evidentemente no ambiente eclesiástico e político. próprios daquela filosofia. pois. a saber: a relação entre substância finita de um lado. utópica. religiosas e políticas. atribuídas depois a Descartes e Bacon". porém (se bem que. em parte. limitações ao desenvolvimento lógico e despreocupado do racionalismo. Malebranche.que vale para o mundo natural mas não chega até Deus. quer católico quer protestante. Une os dois na mesma substância segundo um paralelismo psicofísico. suas obras. de outro lado introduzindo na corrente racionalista-cartesiana uma preformada concepção neoplatônica de Deus. E exerceu tal influência não tanto como sistema metafísico. como o cristianismo.esprit de finesse . Leibniz. O problema das relações entre Deus e o mundo é por ele resolvido em sentido monista: de um lado. desenvolvendo o conceito de substância cartesiana. Descartes teve seguidores também em determinados meios religiosos de orientação platônicoagostiniana. fazendo da matéria e do espírito dois atributos da única substância divina. o cartesianismo forjou a mentalidade (racionalista-matemática) dos maiores filósofos até Kant. o papa é concebido mais como chefe concreto de uma religião natural. Os dois centros principais desse sincretismo são representados pelo Jansenismo e pelo Oratório. pelo que há uma só verdadeira e própria substância. uma concepção panteísta-emanatista. idealista. Nesses ambientes houve a intuição de um perigo revolucionário para a religião e a ordem social. Malebranche e Leibniz encontram. Daí surgiram o ontologismo e o ocasionalismo de Malebranche. À razão matemática. das relações entre o espírito e a matéria é resolvido por Spinoza. mas de um profundo sentimento religioso e cristão. particularmente na França na segunda metade do século XVII. lógica. Spinoza é a mais coerente e extrema expressão do racionalismo moderno depois do fundador e antes de Kant. Brás Pascal. científica . mais ou menos ortodoxos. manifestam uma mentalidade fantástica. E. Entretanto. "Tumultuária e aventurosa em muitos pontos  escreve Leonel Franca  a obra de Campanella encerra não poucas idéias aproveitáveis. diretamente até Kant e indiretamente até Hegel. O desenvolvimento lógico do cartesianismo é representado por alguns grandes pensadores originais: Spinoza. nas suas preocupações práticas.

em parte deriva da tradição neoplatônica. sem família. e também aceitando alguma ajuda do pequeno grupo de amigos e discípulos. médico e livre pensador. de modesta condição social. Por exemplo. naturalmente filtrado através da crítica kantiana. o Tractatus theologivo-politicus (publicado anônimo em Hamburgo em 1670). Spinoza reitrou-se. etc. Um traço característico e fundamental do caráter de Spinoza é a sua concepção prática. em seguida para perto de Leida e enfim refugiou-se em Haia. Mas. Os demais racionalistas de maior envergadura da corrente cartesiana se seguem. se acha também isolado religiosamente. O Pensamento: Deus A teologia de Spinoza é contida. como solucionadora última do problema da vida. e nos meios religiosos holandeses aprendeu um cristianismo sem dogmas. ao mesmo tempo. Goethe. logicamente. Spinoza quereria deduzir de Deus racionalmente. para a construção do seu sistema. E.de chegar até às extremas conseqüências e conclusões racionalista-monista. As obras filosóficas principais de Spinoza são: a Ethica (publicada postumamente em Amsterdam em 1677). Deixou uma notável biblioteca filosófica. geometricamente toda a realidade. em 1677. cujo conteúdo monista. Provia pois às suas limitadas necessidades materiais. pois não têm a ousadia . inteiramente dedicada à meditação filosófica e à redação de suas obras. o pensamento de Spinoza acabou por interessar e influenciar particularmente a cultura moderna depois de Kant (Lessing. intelectualmente. moral. com base especialmente nas Sagradas Escrituras. não se excluem os desenvolvimentos idealistas do fenomenismo racionalista por parte de Leibniz. lógico-geométrico. Uma tuberculose enfraquecera seu corpo. sem pátria. através do conhecimento e da contemplação filosófica da realidade. em parte do próprio Descartes. na cultura da Renascença. Schleiermacher. as relações travadas com alguns meios cristãoprotestantes.). Vida e Obras Baruch Spinoza nasceu em Amsterdam em 1632. sem saúde. no primeiro livro da Ethica (De Deo). preparando lentes ópticas para microscópios e telescópios. a sua firme convicção de que a solução desse problema não é possível senão teoreticamente. Spinoza faleceu aos quarenta e quatro anos de idade. entretanto. sem riqueza. Van den Ende iniciou-o no pensamento cartesiano. exigidas pelas premissas cartesianas. Com isto não se excluem. para os arredores de Amsterdam. recusou uma pensão oferecida pelo "grande Condé" e uma cátedra universitária em Heidelberg. desenvolvimentos em outro sentido. Para não comprometer a sua independência especulativa e a sua paz. que não se encontram em Spinoza. nas línguas clássicas. estão antes dele. que lhe propusera Carlos Ludovico. em Haia. Schelling. Em geral. Além destes fatos exteriores. Também as autoridades protestantes o desterraram como blasfemador contra a Sagrada Escritura. detidos por motivos práticos-religiosos e morais. depois de Spinoza. proporcionando ao idealismo o elemento metafísico monista. Os outros acontecimentos mais notáveis na formação espiritual especulativa de Spinoza são: o contacto com Francisco van den Ende. Demonstrando muita inteligência.em especial Malebranche . foi excomungado pela Sinagoga em 1656. A princípio desconhecido e atacado. primeiro. Aos vinte e cinco anos de idade esse filósofo. Recebeu uma educação hebraica na academia israelita de Amsterdam. como aparece pela . filho de hebreus portugueses. depois de se manifestar o seu racionalismo e tendo ele recusado qualquer retratação. foi iniciado na filosofia hebraica (medieval-neoplatônico-panteísta) e destinado a ser rabino. pode-se dizer que Descartes fornece a Spinoza o elemento arquitetônico. Após alguns meses de cama. emigrados para a Holanda. logicamente. por parte deles. de filosofia. arte que aprendera durante a sua formação rabínica. eleitor palatino. substancialmente. que constitui precisamente o seu sistema filosófico. de conteúdo essencialmente moralista. nada encontramos de notável exteriormente na breve vida de Spinoza. Hegel.125 de pampsiquismo. cronologicamente. mas a sua herança mal chegou para pagar as despesas do funeral e as poucas dívidas contraídas durante a enfermidade. que contém a sua filosofia religiosa e política.

Desses atributos. Deus não somente é racionalmente necessitado na sua vida interior. Como tudo é necessário na natura naturans.cujo objeto é Deus . como já se viu. na sua unidade racional. elementares. mas oferece uma representação em que são fundidas as qualidades do objeto conhecido e do sujeito que conhece e dispõe tais representações numa ordem fragmentária. estamos em cheio no panteísmo. é resolvido num complexo de fenômenos psicofísicos. por sua vez. sustenta Spinoza que é ele inteiramente subjetivo: no sentido de que o conhecimento sensível não representa a natureza da coisa conhecida. místico. a matéria e o espírito. A assim chamada alma nada mais é que um conjunto de modos derivados. o conhecimento racional em dois graus: conhecimento racional universal e conhecimento racional particular. que governam o mundo dos atributos.como dizia também Descartes .Spinoza passa a considerar. Spinoza distingue. E. pois. em que. o homem não é uma substância. Spinoza reconhece várias atividades psíquicas: atividade teorética e atividade prática. mas se manifesta necessariamente no mundo. os atributos infinitos e os infinitos modos que a determinam. do atributo extensão da mesma substância. os modos. cada uma tendo um grau sensível e um grau racional. O homem.e como Spinoza sustenta até o fundo. Pensamento e extensão são expressões diversas e irredutíveis da substância absoluta. está fora do tempo e se desdobra em número infinito de perfeições ou atributos infinitos. Cada corpo tem uma alma. o intelecto humano conhece dois apenas: o espírito e a matéria. corpo e alma. dada a universal correspondência spinoziana entre teorético e prático. Nenhuma ação é possível entre a alma e o corpo . o intellectus infinitus é um modo primitivo do atributo do pensamento. E igualmente necessário é o liame que une entre si natura naturans e natura naturata. quer primitivos quer derivados. este corpo constituiria o conteúdo fundamental do conhecimento da alma. assim tudo também é necessário na natura naturata. .própria estrutura exterior da Ethica ordine geometrico demonstrata. a saber: a cada modo de ser e de operar na extensão corresponde um modo de ser e de operar do pensamento. corresponde um estado ou mudança do corpo. mesmo que a alma e o corpo não possam agir mutuamente uma sobre o outro. tudo é necessitado. a cogitatio e a extensio. abrange ela. A ordem oferecida pelo conhecimento racional particular nada mais é que a substância divina. isto é. e no monismo spinoziano descem à condição de simples atributos da substância única. graças à doutrina spinoziana do paralelismo psicofísico. elementares. o espírito humano. isto é. A respeito do conhecimento sensível (imaginatio). melhor. A lei suprema da realidade única e universal de Spinoza é a necessidade. como cada alma tem um corpo. Eles são modificações dos atributos. entretanto. e o motus infinitus é um modo primitivo do atributo extensão. irracional e incompleta. O Homem Do primeiro livro da Ethica . Das limitações do conhecimento sensível decorrem o sofrimento e a paixão. Os modos distinguem-se em primitivos e derivados. mas nela unificadas e correspondentes. Da natura naturans (Deus) procede o mundo das coisas. A substância divina é eterna e infinita: quer dizer. A cada estado ou mudança da 126 alma. para Spinoza. E desse conhecimento racional intuitivo. o homem integral. alma e corpo. regem naturalmente todo o mundo dos modos. e Spinoza chama-os natura naturata (o mundo). Não nos esqueçamos de que o Deus spinoziano é a substância única e a causa única. A substância e os atributos constituem a natura naturans. do atributo pensamento da substância única. derivam necessariamente a felicidade e virtude supremas. As leis do paralelismo psicofísico. Mesmo negando a alma e as suas faculdades. Descartes diminuiu estas substâncias. no segundo livro (De mente). igualmente o corpo nada mais é que um complexo de modos derivados. ou. Os modos primitivos representam as determinações mais imediatas e universais dos atributos e são eternos e infinitos: por exemplo. o intelecto e a vontade. Não é preciso repetir que.

mas no sentido de que o homem é idêntico panteisticamente a Deus. é destinado o quase total aniquilamento no sistema racional da substância divina.em vista das penas ou dos prêmios temporais e eternos. pelo que o homem considera as coisas finitas como absolutas e.ou não feitas . Chegado ao conhecimento e à vida racionais. non lugere. aí chegado. As ações feitas . segundo Spinoza. o amor de Deus para consigo mesmo (por causa precisamente do panteísmo). em choque entre si e com ele. A Política e a Religião Spinoza tratou particularmente do problema político e religioso no Tractatus theologico-politicus. A respeito da imortalidade da alma. servem para a tranquilidade do sábio e para o treinamento do homem vulgar. no sistema spinoziano. a condição do sábio. é retribuído por Deus ao homem. serão as almas ou os pensamentos dos sábios. que é. O filósofo deve humanas actiones non ridere. em virtude da qual o mecanismo das paixões humanas é necessário como o mecanismo físicomatemático. O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e juntamente com o conhecimento racional. De fato. entretanto. assim se exprime Spinoza energicamente no proêmio ao II livro da Ethica. as superfícies. antes da organização política. pois. auxiliando-se mutuamente. mas pela relação de adequação da mens do sujeito que conhece a mens do objeto conhecido. é favorecida pela concepção universalmente determinista da realidade. dependem do temor e da esperança. Considera ele o estado e a igreja como meios irracionais para o advento da racionalidade. o amor dos homens para com Deus é idêntico ao amor de Deus para com os homens. isto é. ao passo que às almas e aos pensamentos dos homens vulgares. Então a libertação das paixões dependerá do conhecimento racional. não poderá ser entendida senão como a eternidade das idéias verdadeiras. No entanto. Este amor do homem para com Deus. ou pela máxima parte imortais. neque detestari. o conhecimento das coisas em Deus . Depois de nos ter oferecido um sistema do mecanismo das paixões no IV livro da Ethica. no sentido de que tem conhecimento eterno do eterno. IV e V da Ethica. que. pois a personalidade é excluída da metafísica spinoziana. os homens se encontravam em uma guerra perpétua. que pertencem à substância divina. em definitivo. e as paixões podem ser tratadas com a mesma serena indiferença que as linhas. No estado de natureza. os homens não cessam de ser. do conhecimento racional intuitivo . Visto que a felicidade depende da ciência. como que limitados ao conhecimento e à vida sensíveis. do nosso livre-arbítrio. não é constituído pela relação de adequação entre a mente e a coisa. ameaçados ou prometidos pelo estado e pela igreja. causa da sua felicidade e poder. devemos dizer que é excluída naturalmente por Spinoza como sobrevivência pessoal porquanto pessoa e memória pertencem à imaginação. Tal amor intelectual de Deus é precisamente o júbilo unido com a causa racional que o produz. Spinoza dedica ao problema moral e à sua solução os livros III.que é. em uma luta de todos contra todos. ou eternas. pelo qual prometem renunciar a toda violência. A Moral Como é sabido. libertado da escravidão das paixões e da ignorância. mesmo depois do pacto social. Elas. Tal atitude rigidamente científica. não basta o pacto apenas: precisa o homem do arrimo da força para sustentar-se. cientificamente.127 Visto o paralelismo psicofísico de Spinoza. amará necessariamente a Deus. verdadeiro. Deus. em especial. sed intelligere. entretanto. este conhecimento racional não depende. e sim da natureza particular de que somos dotados.o sábio. É o próprio egoísmo que impede os homens a se unirem. em Spinoza. logo. No livro III faz ele uma história natural das paixões. entretanto. E. a se acordarem entre si numa espécie de pacto social. e não moralisticamente. por conseguinte. o sábio vive já na eternidade. De sorte que imortais. então. isto é. No V e último livro da Ethica. as figuras geométricas. não é um amor como o que existe entre duas pessoas. são paixões irracionais. mais ou . A imortalidade. é claro que o conhecimento. considera as paixões teoricamente. Spinoza esclarece precisamente e particularmente a escravidão do homem sujeito às paixões. Essa escravidão depende do erro do conhecimento sensível. Spinoza esclarece.

Spinoza deduz do estado naturalista o estado racional. decairia no mandamento divino heterônomo. quando encarnadas nos dogmas.) acelerou esse processo de decadência. simbolicamente. e por fim assombrou uma Grécia cética ao . O próprio Alexandre. a partir daqueles movimentados postos. na unificação final de tudo e de todos em Deus. de sorte que será a razão a norma suprema da vida humana. não é dominador supremo. estava destruída de maneira irrevogável. Sócrates foi executado. do qual os súditos saíram. a religião positiva. e a massa e a profundidade da cultura oriental. O menino-imperador.C. segundo Spinoza. portanto. introduziu na Europa a idéia oriental do divino direito dos reis. irracionais e. revelada. nem mesmo o fato de a casa de Píndaro ter sido ostensivamente poupada conseguiu encobrir a realidade de que a independência ateniense. sobrevivendo apenas em seu orgulhoso discípulo. e o estado cairá fatalmente.. a supremacia política saiu das mãos da mãe da filosofia e da arte gregas. foi conquistado pela alma do Oriente. supor que uma civilização tão imatura e instável quanto a da Grécia pudesse ser imposta a uma civilização incomensuravelmente mais dufundida e enraizada nas mais veneráveis tradições. violariam. O domínio da filosofia grega pelo macedônio Aristóteles refletia a sujeição política da Grécia pelos povos viris e mais jovens do norte. E de suas ruínas deverá surgir um estado mais conforme à razão. a saber. ainda que continuasse bárbaro depois de toda educação recebida de Aristóteles. a alma de Atenas morreu com ele. mais poderosos do que ele . havia aprendido a reverenciar a rica cultura da Grécia e sonhara em divulgar essa cultura pelo Oriente. adotou o diadema e o manto de gala persas. dando-lhe a incumbência e o modo de proteger os direitos de cada um. porém.128 menos. mas é a forma que seria absolutamente irracional. e o vigor e a independência da inteligência ateniense decaíram. Então os componentes devem confiar a um poder central a força de que dispõem. Faltando-lhe a força. sem mais. A quantidade da Ásia mostrou-se demasiada para a qualidade da Grécia. os súditos . O desenvolvimento do comércio grego e a multiplicação dos postos de comercialização gregos por toda a Ásia Menor haviam proporcionado uma base econômica para a unificação daquela região como parte de um império helênico. Quando. que deveria derivar do conhecimento racional com a mesma necessidade pela qual a luz emana do sol. e sim o conteúdo moral. pois o conhecimento filosófico de Deus decairia em uma revelação mítica. em 399 a. O outro grande instituto irracional a serviço da racionalidade é. tanto o pensamento grego como os produtos gregos fossem irradiar-se e conquistar o mundo. pondo obstáculos ao desenvolvimento racional da sociedade.C. que representaria um sucedâneo da filosofia para o vulgo. nem se deveria procurar neles sentidos metafísicos arcanos. O papel do estado é auxiliar na consecução racional de Deus. tais verdades podem aproveitar ao bem desse último. Nem há quem possa opor-se a eles. e Alexandre tinha a esperança de que. na hora de seu triunfo. na onda de seus exércitos vitoriosos.C. filosóficas acerca de Deus e do homem.C. e Alexandre incendiou a grande cidade de Tebas por completo três anos depois. Só então o estado e verdadeiramente constituído. portanto. o pacto. porquanto não é o fim supremo do homem. Não passava de um sonho juvenil.quando mais racionais e. e se acham eles ainda no estado de pura natureza.. a não ser uma força superior. Seu fim supremo é conhecer a Deus por meio da razão e agir de conformidade. E. porquanto o direito sem a força não tem eficácia. o que vale nos dogmas não seria a sua formulação exterior. é racional. A morte de Alexandre (323 a. a religião. o governo. Entretanto. Mas ele subestimara a inércia e a resistência da mentalidade oriental. Portanto. o direito. o estado. representaria sensivelmente. porque o escopo dos dogmas é essencialmente prático a saber: induzir à submissão a Deus e ao amor ao próximo. E quando Felipe da Macedônia derrotou os atenienses em Queronéia em 388 a. afinal. logo. a ação racional. De Aristóteles à Renascença Quando Esparta bloqueou e derrotou Atenas em fins do século V a. assim. revelada. o soberano podem fazer tudo o que querem: para isso têm o poder e. se o estado se mantivesse na violência e irracionalidade primitivas.rebelarse-ão necessariamente contra ele. faltar-lhe-á também o direito. no que se referia a governo e pensamento. casou-se (dentre várias damas) com a filha de Dario. Por conseguinte. de um modo apto para a mentalidade popular. O estado. Platão. O conteúdo da religião positiva. quando lhes fosse cômodo e tivessem a força. as verdades racionais.

ele. achou difícil distinguir do fatalismo oriental. ele tinha sido destinado.C. o escravo. mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações. e quando a glória havia partido de Atenas. Essa sultil infusão de uma alma asiática no corpo fatigado do senhor dos gregos foi seguida rapidamente da abundante entrada de cultos e fés orientais na Grécia. ao que Zenon replicou. Mas quando a Grécia havia visto Queronéia em sangue e Tebas em cinzas. e perfeitamente legítima. Foi lá que "Se o que você possui lhe parece insuficiente. tendem a estados de espírito estóicos: é difícil ser senhor ou servo se a pessoa for sensível.é a única finalidade concebível. Um princípio desses bradava aos céus pelo seu oposto. mesmo naquela época tratava-se de modos quase exóticos de pensamento: a Atenas imperial não aderiu a eles.embora não necessariamente o prazer sensual .(. que a apatia é impossível. precisamente como o pessimista estoicismo oriental de Schopenhauer e o desalentado epicurismo de Renan foram. sem terem tempo nem sutileza para especulações. diz Fenelon. Os romanos.. de acordo com a mesma filosofia.tranqülidade. os símbolos de uma Revolução despedaçada e uma França quebrada. mais do que os dos sentidos. disse o estóico romano Sêneca (m. não é epicurista. tanto quanto os escravos inevitáveis. equanimidade. Crisipo. embora tão estóico em vida quanto Zenon. As crenças místicas e supersticiosas que haviam adquirido raízes entre os povos mais pobres de Hélade foram reforçadas e divulgadas. aos quais ensinava enquanto andava e trabalhava. e que o prazer .eram teorias sobre como o indivíduo ainda poderia ser feliz. então. "A natureza faz com que cada organismo prefira o seu próprio bem a qualquer outro". pelo mercador fenício Zenon (cerca de 310 a. propõe que se procure não o prazer no seu sentido usual. 65 d. que ele mesmo cultivava. a filosofia que Roma adotava era. que não acreditava na escravidão.) Era delicado e afável para com todos os homens. mas a ataraxia . "comprou um belo jardim. ou em Epíteto. segundo a filosofia de seu senhor.. da escola de Zenon. a felicidade. e Alexandre bebeu até morrer. Não que essas antíteses naturais da teoria ética fossem de todo novas para a Grécia. ela estava no ponto para Zenon e Epicuro. que ele era um deus." Epicuro. no século XIX. e até Lucrécio difundia estoicamente o epicurismo (como instalou sua escola. Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior. previne contra os prazeres que excitem e disturbem a alma. Seu ponto de partida é uma convicção de . então.C.). e a outra.). à qual. mesmo que você possua o mundo. Tanto o estoicismo como o epicurismo . "Não devemos evitar os prazeres. em sua maioria. seja em Marco Aurélio.. Quando Zenon. Afirmava que nada havia de mais nobre do que uma pessoa dedicar-se à filosofia".129 anunciar. deveriam acalmar e tranqülizar. e Epicuro. por toda a aternidade. num magnífico estilo oriental. com a calma de um sábio. estava batendo num escravo seu por causa de algum delito. forneceu-o. todos os quais oscilam à beira da "apatia" de Zenon. encontraram essas escolas rivais dividindo o campo filosófico. A Grécia caiu na gargalhada. No fim. Demócrito.. a cometer aquela falta.C. a apatia. pelas mesmas linhas de comunicação que o jovem conquistador havia aberto.a apática aceitação da derrota e o esforço para esquecer a derrota nos braços do prazer . e vemos os discípulos de Sócrates dividindo-se em cínicos e cirenaicos sob a chefia de Antístenes e Aristipo e exaltando. Assim como Schopenhauer achava inútil a vontade individual lutar contra a vontade universal. os diques rompidos deixaram o oceano do pensamento ocidental inundar as terras baixas da ainda adolescente mente européia. Os grandes organizadores. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos. Nós a encontramos no sombrio Heráclito e no "filósofo que ri". embora subjugado ou escravizado. No entanto. A introdução da filosofia estóica em Atenas. a paz do espírito. ainda irá sentirse infeliz". Zenon. passou a ouvir Diógenes. juntamente com outros produtos do seu saque. Epicuro. levaram de volta para Roma essas filosofias. o escravo alegou como atenuante que. ele exalta os prazeres do intelecto. tinha sido destinado a bater nele por causa dela. quando foram saquear Heléia em 146 a. e. deve ser desdenhada. Por isso.. que. foi apenas uma das inúmeras infiltrações orientais. até mesmo o estóico sente um prazer sutil na renúncia. uma escola. mas selecioná-los. da vida e da atividade. o imperador. e ali vivia uma vida tranqüila e agradável com seus discípulos. os estóicos alegavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com uma vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. ao contrário. e o espírito oriental de apatia e resignação encontrou um solo pronto na Grécia decadente e abatida. Se a vitória for inteiramente impossível.

) e muitas raças de coisas vivas devem ter se extinguido. acompanha Epicuro em condenar o prazer ao elogiá-lo sem entusiasmo. aconteçam segundo a sua preferência.. vejo os sistemas erguerem Suas formas. de todas as galáxias. Nós o imaginamos como uma alma tímida cuja juventude havia sido obscurecida por temores religiosos. Estás indo. como aquelas.. porque ele nunca se cansa de dizer a seus leitores que não existe inferno. Alma e mente desenvolvem-se com o corpo. alguns sem mãos. "Não procure fazer com que as coisas o universo. (. Aqui. E onde estão. a cada hora. e a lei das leis é a da evolução e da dissolução em toda parte Coisa alguma perdura. eles não podiam alcançar a cobiçada flor da idade. a coragem ou a velocidade vêm desde o início protegendo e preservando cada raça. Aos poucos Elas se dissolvem e já não são mais as coisas que conhecemos. divertindo-se melancolicamente). e que não existem deuses. outros sem bocas. outros mares irão. nunca foi tão brincalhona como quando deu a esse abstêmio e épico pessimista o nome de epicurista. (. sua pena nervosa está eternamente compondo orações à tranqülidade e à paz. e até os sistemas e seus sóis Irão voltar lentamente à eterna deriva. outros mais sem olhos. mas em vão. Ao crescente culto do céu e do inferno entre o povo de Roma.) desse tipo a Terra tentou produzir. Englobada da deriva como aquelas. mas todas as coisas fluem. passam adiante a lâmpada da vida". e morrem com a sua morte. ditar o futuro e fingir que dominamos .. crescem lentamente e..teus impérios. Nada existe a não ser átomos. em toda a literatura. (. exceto aqui. evidentemente. a menos que se trate das Meditações do imperador."encarar todas as coisas com serenidade de espírito".. outras decaem. e em pouco tempo as raças das coisas vivas são alteradas e. ficado impossibilitadas de procriar e continuar e continuar a linhagem. toda a velha alegria pagã de viver desapareceu. que o tratava com uma crueldade inalterável. A história. exceto deuses cavalheirescos. é tão deprimente quanto as Dissertações do escravo. e concluiu sua vigorosa pregação do prazer cometendo suicídio. Englobados por átomos. nem ser unidos em casamento. ó Terra .. a astúcia." Não há dúvida de que é possível assim. não há sabedoria a não ser a ataraxia . espaço e lei. (. Diante da guerra e da morte inevitável. com tuas estrelas. como aquelas também tu Irás... com toda certeza. coisas de estranhas caras e membros. À evolução e à dissolução astronômicas. Tu também.130 o inglês de Heine. E se for esse o espírito do adepto de Epicuro. em suave neblina. ele opõe um materialismo implacável. até que a natureza extinguisse a sua espécia. Nada. terras e mares A menor. Também as nações. Sua nobre epopéia. Vejo os sóis. nem procurar comida. caindo devagar ou depressa. Quase contemporâneo de César e Pompéia. como corredores. Teus mares. que vivem em um jardim de Epicuro nas nuvens e nunca se intrometem nos negócios dos homens. sofrem com seus sofrimentos.. Porque no caso de todas as coisas que vós vedes respirando o sopro da vida. e assim viverá com prosperidade. Nada perdura. e um espírito quase exótico toca uma lira quebrada. morrem: "algumas nações prosperam. mas prefira que elas aconteçam como têm de acontecer. imaginem o inebriante otimismo de estóicos declarados como Aurélio ou Epíteto. Até que ficamos conhecendo-as e lhes damos nomes. acrescentem a origem e a eliminação das espécies. Sobre a Natureza das Coisas.) alguns sem pés.. Desaparecem. como os indivíduos. aquelas areias lunares abandonam seu lugar. certo dia Muitos monstros também a Terra de antigamente tentou produzir. cresem com o seu crescimento. Segundo consta o senhor de Epíteto. porque a natureza proibiu o aumento do número deles. por sua vez. as coisas crescem assim. Fragmento se agarra a fragmento.) Mais e mais monstros (. Cortar com suas alvas foices outras baías. ele viveu em meio a torverlinhos e alarmes. que nada é a não ser humorista.) Aqueles aos quais a natureza não concedeu nenhuma dessas qualidades ficavam expostos para servirem de vítima e presa de outros.

num desconcertante circuito de pressupostos não criticados e conclusões pré-ordenadas. O despertar começou com Roger Bacon (m. A Igreja. Perdeste os teus bens? Também não foram restituídos?" Em trechos assim.modo. Durante mil anos. "A inteligência e a mentalidade do homem". o ambiente histórico derretia-se para formar cenas mais novas. que durante muito tempo esperava por um meio barato. fragmentos da doutrina estóica flutuando na corrente do pensamento? Em Epíteto. uma fé comum exaltada por sanções sobrenaturais acima das mudanças e das corrosões do tempo. disse Epíteto com calma. e seus cofres estavam inchados com donativos de ricos e pobres. Seja qual for a causa. aumentou ficarão limitados. mas não a sabedoria. de qualquer sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires. o dogma. graças aos esforços no sentido de transformar metais inferiores em ouro. armados agora de bússolas. o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem. e das fábulas dos animais que falavam veio a ciência da zoologia. as estradas ficaram sem manutenção e já não ecoavam a agitação do comércio. Tua filha morreu? Foi restituída. Bravos navegantes. No século XIII. como disse Bacon. Há um notável trecho em Lucrécio que descreve a decadência da agricultura no Estado romano e a atribui à exaustão do solo. antes ou depois. a transformação de Aristóteles em um teólogo medieval. "se trabalharem com a matéria. Aqui e ali. "Eu não lhe disse". agora. ela uniu. foi colocado como uma concha sobre a mentalidade adolescente da Europa medieval. como pensava a Igreja. e o comércio em suas encruzilhadas voltou a construir grandes cidades nas quais os homens podiam cooperar para estimular a cultura e reconstruir a civilização. Era dentro dessa concha que a filosofia escolástica se deslocava acanhadamente entre fé e razão e vice-versa. "que o senhor iria quebrar minha perna?" No entanto. já possuía um terço do solo da Europa. 1294). e sim. chegava barato do Egito. a cultura pagã cedeu aos cultos orientais. Cidades voltaram a fundir-se com o interior sem distinção. 'perdi isso assim. mas sem substância ou proveito. a maior parte dos povos de um continente. Dessas Dissertações e das Meditações de Aurélio há apenas um passo para A Imitação de Cristo. assim'. mas se trabalharem consigo mesmo. estourou como um explosivo libertado e espalhou sua influência destruidora e esclarecedora por toda parte. No século XIII. em universidades. a riqueza de Roma transformou-se em pobreza. e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro. nunca houve. as pequenas famílias dos romanos de instrução eram ultrapassadas. observou Epíteto mansamente. da astrologia. trabalham segundo a substância desta e por ela 131 mais tarde. armados de telescópios. a alma greco-romana perdeu o seu paganismo e está pronta para uma nova fé. mosteiros e retiros escondidos. observadores pacientes. em número. portanto. criando excedentes que levaram ao comércio. definitivo e definido. substituindo o caro pergaminho que tornara o saber um monopólio dos sacerdotes. mas o poder da Igreja ainda era suficiente para garantir. com a magia de uma crença invariável. o império se transformou em papado. não eram a ética cristã da abnegação. através de Tomás de Aquino e outros. pelos vigorosos alemães sem instrução que cruzavam. "Se continuar". serão intermináveis e produzirão realmente teias de saber. e a perna se quebrou. 'eu restituí tal coisa'. a alquimia foi transformada em química. O papel. há uma certa nobilidade mística nessa filosofia. O resultado foi a sutileza. a organização em desintegração. Tua mulher morreu? Foi restituída. toda a cristandade ficou assustada e estimulada por traduções árabes e judaicas de Aristóteles. a imprensa. uma organização tão difundida e tão pacífica. quase que imperceptivelmente. o intelecto da Europa iria irromper de dentro dessa concha. admiráveis pela delicadeza do fio e do trabalho." O senhor continuou. como na tranqülia coragem de um pacifista dostoievskiano. de fato. decidiu torcer-lhe a perna para passar o tempo. os bens se multiplicaram. As Cruzadas abriram os caminhos para o Oriente e permitiram a entrada de uma torrente de artigos de luxo e heresias que condenaram à morte e ascetismo e o dogma. na riqueza e no raio de influência. aventuraram-se na imensidão dos mares e conquistaram a ignorância do homem a respeito da Terra. o poder e o orgulho em decadência e apatia. Depois de mil anos de cultivo. "Nunca diga. e. a fronteira. os homens foram tateando com tímida ousadia para a astronomia." Mais cedo ou . ano após ano. o solo voltou a florescer. aventuraram-se para além dos confins do dogma e conquistaram a ignorância do homem quanto ao céu. Mas essa unidade exigia. apoiada nos primeiros séculos pelos imperadores cujos poderes ela absorveu aos poucos. "vai quebrar a minha perna. Seu livro teve a distinção de ser adotado como manual religioso pela primitiva Igrja Cristã. homens deixaram de disputar e começaram a investigar. teve um aumento rápido no número de adeptos. por via indireta. Enquanto isso.

esperança e vigor. Não se submeteu a nenhuma verdade prévia. não possui dinamismo próprio. Mas nos Princípios e sobretudo nas cartas ao Pe. navegarem à volta do mundo inteiro.°  Do mesmo modo. "a mais poderosa inteligência dos tempos modernos." Foi uma era de realizações. À medida que aumentava o conhecimento. dispõe. por intermédio de seu livre-arbítrio. recebo. e de Harvey (1578-1657) sobre a circulação do sangue. O homem é livre. a Ciência e o Livre-arbítrio Para Descartes. dessa liberdade que é antes um estado de libertação do que uma decisão pura. Todo dinamismo pertence ao criador. simples criatura ultrapassada por seu criador (concebo Deus porque descubro em mim a marca de sua infinitude. o poder de recusar a Verdade e o Bem até mesmo na presença da evidência que se manifesta. pode dizer sim ou não às ordens de Deus. Em virtude do poder de seu livre-arbítrio. a) A natureza. criou as verdades. para o que o homem poderia fazer. O entendimento concebe a verdade e é a vontade que dá as costas a ou afirma essa verdade. Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos de um triângulo seja igual a dois ângulos retos. que tocou a sineta que reuniu as inteligências" e anunciou que a Europa havia atingido a maioridade. Sou eu que me engano. de novos começos e empreendimentos em todos os campos. Toda finalidade desaparece e a natureza é reduzida a um mecanicismo inteiramente transparente para a linguagem matemática. sou eu que peco. o Deus criador transcende radicalmente a natureza. Acrescentemos que. assim. É certo que. Deus não é o culpado dos meus erros nem dos meus pecados. como os corpos celestes. e mais em dominá-lo.°  O homem não é uma parte de Deus. plus ultra" (mais além) "onde os antigos usavam non plus ultra. O livre-arbítrio humano e a independência da ciência. Na medida em que a natureza é despojada de toda profundidade metafísica. não havia limites. uma alma sintética para resumir o seu espírito e decidir. os homens pensavam menos em adorar o desconhecido. Deus criou o mundo instante por instante (é a "criação contínua"). situado no mesmo plano da inteligência humana. Se sua ótica e suas considerações sobre a expressão algébrica das curvas (ele é. Foi Francis Bacon. na rejeição de todo naturalismo pagão (a natureza não é uma deusa) e na fundamentação metafísica do racionalismo científico. ao mesmo tempo. de Vesálio (1514-1564) em anatomia. na Quarta Meditação. por conseguinte. "O fato de pequenos navios. inteiramente entregue à sua exploração. situada além de todas as razões. e.132 com o ilimitado Leonardo (1452-1519). Descartes fala da liberdade esclarecida. René Descartes Deus. alcançou sua plenitude na astronomia de Copérnico (14731543) e Galileu (1564-1642). alma. de 2 de maio de 1644 e 9 de fevereiro de 1645. era uma era que esperava por uma voz. A natureza nada tem de divino. já o vimos. ato e potência. agora. Descartes pode eliminar as noções aristotélicas e medievais de forma. dessa liberdade que não pode tratar da verdade ou do bem. Esses textos esclarecem a teoria do juízo presente na Quarta meditação. 1. o inventor da geometria analítica) constituem incontestável contribuição científica. sua física (dada. com toda justiça. mas não o compreendo). Deus propõe e o homem. Meu livre-arbítrio me faz merecedor ou culpado. Deus Foi "inteiramente indiferente ao criar as coisas que criou". Todo espírito vital foi estimulado por uma nova confiança. As leis da natureza só são o que são a cada momento. diminuía o medo. Descartes afirma radicalmente o livre-arbítrio. Esta época pode usar. segundo Descartes. Mesland. é a felicidade da nossa era. barreiras foram derrubadas. O tempo é descontínuo e a natureza não tem nenhum poder próprio. para Descartes. É importante compreender que essa transcendência radical de Deus possui duas conseqüências fundamentais. em virtude da vontade do criador. juntamente com Fermat. A transcendência do criador afasta qualquer panteísmo. 2. Desse modo. a transcendência de Deus vai tornar possível uma ciência puramente racional e mecanicista da natureza. uma autonomia que será perdida no sistema panteísta de Spinoza. nas pesquisas de Gilbert (1544-1603) sobre magnetismo e eletricidade. O homem. é um objeto criado. Isto consiste. b) Nem tudo tem o mesmo valor na obra científica de Descartes. aliás. mais como uma possibilidade .

antes de tudo. nessa técnica. Primeiramente. "A verdadeira generosidade que faz com que um homem se estime. Influências estóicas. antes de ser uma filosofia da inteligência.. na consciência de que nada lhe pertence verdadeiramente. exceto essa livre disposição de suas vontades. O Programa Cartesiano "De acordo com o prefácio dos Princípios" Gostaria de explicar aqui a ordem que. devemos seguir para que nos instruamos.°  No Discurso dobre o Método. isto é. na realidade. não a da Escola  pois ela nada mais é do que uma dialética que ensina os meios para fazer . E Ele. E no entanto. a afetividade em sentido amplo. adota uma direção qualquer e nela se mantém! (O cartesianismo. As coisas se determinam reciprocamente (leis do choque). puramente vivido e ininteligível. Mas o espírito dessa física e da fisiologia cartesiana  que não passa de um capítulo da física  nada mais é do que o espírito do mecanicismo. A moral surge. b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do mundo e vencer-se a si próprio do que à fortuna. no ponto máximo em que ele pode legitimamente estimar-se. o mundo físico não possui mistérios. alma e corpo: a essência da alma é pensar. o que é seguir a virtude perfeitamente". Na medida em que Descartes considera o homem no que ele tem de essencial. a epífise. a medicina desempenha importante papel. o ponto de aplicação da alma ao corpo é a glândula pineal. essa complexidade reflete a própria complexidade da condição humana. Isso porque ele se coloca do ponto de vista da felicidade. Na plano das idéias claras e distintas. Descartes adota uma moral provisória  pois a ação não pode esperar que a filosofia cartesiana engendre uma nova moral! Recordemos seus três preceitos: a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país. e em parte no sentimento de uma firme e constante resolução de bem usá-la. ou quando se ocupa do composto humano. de nunca lhe faltar vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar melhores. Para Descartes. por contato direto. A moral surge aqui como uma aplicação direta ao mecanicismo cartesiano. ao invés de ficar fazendo voltas. O Problema do Homem: a Moral 1. ele coloca. A alma age sobre o corpo e este age sobre ela.°  É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade perfeita. Quando Descartes declara que os animais são máquinas. acha que devemos antes dominá-las do que desenvolvê-las. à semelhança do viajante perdido na floresta que. O detalhe das explicações não passa de um sonho. num espaço em que não existe o vazio. isto é.. enquanto espírito. enquanto liberdade: o valor supremo é a generosidade. para Descartes. é uma filosofia da vontade). a do corpo é ser um objeto no espaço. que nada tem de asceta. consiste. tudo o que o corpo determina na alma. (Para Descartes. que é possível explicar as funções fisiológicas por intermédio de mecanismos semelhantes àqueles que fazem mover os autômatos que vemos "nos jardins de nossos reis". porque isso não deve ser adiado e porque devemos sobretudo procurar viver bem.133 racional do que como a verdade certa) não passa de um romance. que é um fato de experiência. O bom funcionamento do corpo. Paixão é. o pensamento está preso a esse fragmento de extensão.) Mas isso não esclarece a união da alma e do corpo. em princípio. isto é. epicuristas e cristãs estão presentes nela. c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações. Descartes separa claramente as duas substâncias. Mas. saber decidir-se mesmo na ausência de toda evidência. as ligações harmoniosas entre os espíritos animais e os pensamentos humanos são altamente desejáveis. 2. somos obrigados a levar em conta as paixões. parece-me. em parte. Após isso. como uma técnica de felicidade e. o homem que ainda só possui conhecimento vulgar e imperfeito. Mas a direção tomada é a ciência moderna. também deve estudar lógica. deve. encarregar-se de formar uma moral que seja suficiente para ordenar as ações da vida. b) Se considerarmos o homem enquanto espírito unido a um corpo. sua moral assume aspectos diferentes: a) Consideremos o homem enquanto espírito. então.

penso ter começado a explicar toda a filosofia ordenadamente. Após o que também é necessário examinar em particular a natureza das plantas. nesse campo. A segunda é a física. quando já tiver adquirido o hábito de encontrar a verdade nessas questões. é o último grau da sabedoria. Finalmente. Ora. assim como não é das raízes nem do tronco que colhemos os frutos. dividi o livro em quatro partes. Pela Dióptrica. o calor. Eis por que. Pelos Meteoros. após ter encontrado os verdadeiros princípios das coisas materiais. enquanto ainda não se estabelece algo de melhor. sobre as que não se sabe. desse modo. o tronco a física e os ramos que daí saem todas as outras ciências.Bacon Francis Bacon . Mas. que se reduzem a três principais. o ímã e outros minerais. das quais a primeira contém os princípios do conhecimento e que podemos denominar filosofia primeira ou metafísica. o peso e semelhantes. mas cujo volume foi aumentado e cuja matéria foi muito clarificada pelas objeções que várias pessoas muito doutas me enviaram sobre o assunto e pelas respostas que lhes dei. As outras três partes contêm tudo o que há de mais geral na física. por muito tempo.134 entender a outrem as coisas que já se sabe ou então de emitir opiniões. Desse modo. por seu intermédio. dessa forma. pretendi mostrar que se pode avançar bastante em filosofia para se chegar. A primeira parte desses ensaios foi um discurso sobre o método de bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. do homem. é preciso ler antes as Meditações que escrevi sobre o mesmo assunto. da imaterialidade de nossas almas e de todas as noções claras e simples que estão em nós. Depois disso. sobretudo. a saber: a medicina. todos os homens a procurarem a verdade. procurei fazer com que se reconhecesse a diferença existente entre a filosofia que eu cultivo e aquela ensinada nas escolas em que se tem o hábito de tratar da mesma matéria. os cometas e o universo em geral são compostos. depois. que pressupõe inteiro conhecimento das outras ciências. eu os publiquei então. Depois. assim a principal utilidade da filosofia depende das utilidades de suas partes. prevendo a dificuldade que muitos teriam para conceber os fundamentos da metafísica. pela Geometria. qual a natureza da terra e de todos os corpos que se encontram mais comumente em torno dela como o ar. ao conhecimento das artes que são úteis à vida e porque a invenção das lunetas de aproximação. Finalmente. alguns ensaios sobre as coisas que me parecera ter aprendido. encontrar as outras ciências que lhe são úteis. sem ter admitido nenhuma das coisas que devem preceder as últimas sobre as quais escrevi. entre as quais está a explicação dos principais atributos de Deus. E porque ela depende muito do uso. descobrir várias outras. fazer acreditar que ainda podemos. do fogo e do ímã  que são os corpos que podemos encontrar mais comumente em torno dela  e de todas as qualidades que observamos nesses corpos como o são a luz. o zelo que sempre tive no sentido de prestar algum serviço ao público levou-me a publicar. os planetas. dos animais e. depois. em particular. na qual. mas da extremidade dos ramos. da água. As outras partes foram três tratados: um da Dióptrica. outro dos Meteoros e o último da Geometria. incitando. O Empirismo . do ar. ele deve começar a aplicar-se à verdadeira filosofia cuja primeira parte é a metafísica. que contém os princípios do conhecimento. as quais só podemos aprender por último. o fogo. desse modo. que eu aí explico. a fim de bem compreendê-la. a fim de que se seja capaz de. por meio disso. em particular. a explicação das primeiras leis ou princípios da natureza e a maneira pela qual os céus. a mecânica e a moral. examinamos em geral como o universo é composto. há uns dez ou doze anos. na qual apresentei sumariamente as principais regras da lógica e de uma moral imperfeita que pode ser seguida provisoriamente. quando me pareceu que esses tratados procedentes haviam preparado bem o espírito dos leitores para receber os Princípios da Filosofia. procurei explicar seus pontos principais num livro de Meditações que não é grande. sem julgamento. depois. a saber. é uma das mais difíceis das que já foram procuradas. a natureza desta terra. eu acho que a mais elevada e mais perfeita moral. é bom que ele se exercite. a água. a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica. pretendi demonstrar que eu descobrira várias coisas ignoradas até então e. embora eu as ignore quase todas. na prática de regras pernitentes a questões fáceis e simples como as da matemática. ela antes corrompe o bom-senso do que o desenvolve  mas aquela que ensina a bem conduzir a razão na descoberta de verdades que se ignora. as estrelas fixas.

sustentáculo e causa dos fenômenos sensíveis. Teve uma inteligência muito esclarecida. Sua esperança era de ser filósofo e estadista. convencido da sua missão de cientista. embora desconfiasse de que essa dupla direção de sua vida fosse encurtar o seu alcance e reduzir suas realizações. Perdoado pelo rei. críticas e metodológicas. e os homens sábios se utilizam deles. que foi tesoureiro-mor de Elizabeth e um dos homens mais poderosos da Inglaterra. Albano.o mundo transcendente e cristão. Era seu lema que se vivia melhor na vida oculta . o . Começou a sua carreira de homem político e jurista. escreve ele. diz Maucaulay. Enalteceu ele a experiência e o método dedutivo de tal modo. da nova filosofia. e viveu também em Paris. dedicando-se inteiramente aos estudos.isto é. depois. antes. e mais ainda pelo conteúdo. II ." Eis uma nova nota que marca o fim da escolástica .De dignitate et argumentis scientiarum. a consciência crítica do empirismo.mais ou menos logicamente . das formas. membro do Conselho particular em 1616. acontece em Bacon o que aconteceu a muitos pensadores da Renascença. Entretanto. Faleceu em 1626. deixando sobre o resto esboços e fragmentos. para lançar as bases lógicas da nova ciência. fazer julgamentos seguindo inteiramente suas regras é o capricho de um scholar. Mas sir Nicholas não era um homem comum. A obra principal de Bacon é a Instauratio magna scientiarum. "A fama do pai". no entanto. sob Jaime I.Novum organum scientiarum. que nos primeiros vinte anos do reinado de Elizabeth tinha sido o Guardião do Sinete. que o transcendente e a razão acabam por desaparecer na sombra. "É difícil dizer". tanto mais quanto esta é menos elaborada. lorde Burghley. continua a considerar a filosofia como esclarecedora da essência da realidade. É quase inacreditável que o imenso saber e as realizações literárias desse homem fossem apenas os incidentes e as digressões de uma turbulenta carreira política. Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de Verulamo e Visconde de S. cunhada de sir William Cecil. obtida graças à observação. Os Ensaios Sua ascensão parecia tornar realidade os sonhos de Platão de um rei-filósofo. subindo até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613. residência de seu pai sir Nicholas Bacon.. acabada e consciente de si mesma." A mãe de Bacon foi lady Anne Cooke. segundo o espírito positivo e prático da mentalidade anglo-saxônia. e que o conhecimento não aplicado em ação era uma pálida vaidade acadêmica. a metafísica tradicional persiste neles todos histórica e praticamente ao lado da nova filosofia. que foram aos poucos conquistando os seus sucessores e discípulos até Hume.. chanceler do reino em 1618. retirouse para as suas terras. Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços para que ele tivesse instrução. usá-los em demasia como ornamento é afetação. e. As duas partes acabadas são precisamente: I . aristotélica e tomista. "foi ofuscada pela do filh". ela mesma era lingüista e teóloga." Achava que os estudos não podiam ser um fim ou a sabedoria por si sós. Entretanto foi acusado de concussão e condenado pelo Parlamento a uma multa avultuada. Falta-lhe. trata-se de pesquisas gnosiológicas. Mas terminou apenas duas. passo a passo com a sua subida para o poder político. (. grega e escolástica. Bacon estivera escalando os píncaros da filosofia. e "se a mistura de contemplações com uma vida ativa ou o retiro inteiramente dedicado a contemplações é o que mais incapacita ou prejudica a ment. e não tinha dificuldade em se corresponder em grego com bispos. também. Londres.135 O iniciador do empirismo é Francis Bacon. É uma posição filosófica que apela para a metafísica tradicional. Como se vê pelos títulos. Vida e Obras Francis Bacon nasceu no dia 22 de janeiro de 1561 na York House. "Dedicar-se em demasia aos estudos é indolência. que deveria dar ao homem o domínio da realidade. os homens simples os admiram. antes sob a rainha Isabel. vasta síntese que deveria ter compreendido seis grandes partes. como Sêneca.) Os homens astutos condenam os estudos. Ademais. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre se gostava mais da vida contemplativa ou da ativa. Porque.bene vixit qui bene latuit. Bacon freqüentou a Universidade de Cambridge. Bacon continua afirmando . O pai dela tinha sido o tutor-chefe do rei Eduardo VI. e o que acontecerá a muitos outros pensadores do empirismo e do racionalismo: isto é.

felicidade igual à possibilidade da mente do homem elevar-se acima da confusão das coisas de onde ele possa ter uma atenção especial para com a ordem da natureza e o erro dos homens? De contentamento e não de benefício? Será que não devemos perceber tanto a riqueza do armazém da natureza quanto a beleza de sua loja? Será estéril a verdade? Não poderemos. demoram-se demais em consultas. que não pode ser digerido em grandes quantidades de uma só vez. contra a inclinação de seu gênio" (isto é caráter). e levado por algum destino. na literatura inglesa... o entusiasmo do trabalho pela filosofia nos obriga a uma citação. então. são o bem soberano das naturezas humanas. porque ali se acha uma linguagem de tão alta qualidade na prosa quanto é a de Shakespeare em verso. como na ação conversamos com tolos". arriscam-se muito pouco. Quase que a sua primeira publicação recebeu o título de O Elogio do Conhecimento (1592). voam para o fim sem consideração para com os meios e os graus. e não são os prazeres do intelecto maiores do que os prazeres das afeições? Não se trata. e a crença na verdade. e o conhecimento é a mente.136 divórcio entre o conhecimento e o uso e a observação . não se importam em "(isto é. Não que Bacon tivesse. abraçam mais do que podem segurar. mostram-no ainda indeciso entre dois amores. No Ensaio sobre a Honra e a Reputação. (. um homem é apenas aquilo que ele sabe. ele escreve: . outros para serem engolidos. ele nos oferece uma infinita riqueza numa pequena frase. cada um desses ensaios fornece. os maltrata. "a vida ativa". não quero viver". Mas a sua riqueza no que se refere a metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a exuberância da Renascença. e culmina no pragmatismo. a política e a filosofia. "Certos livros são para serem provados". e mais aptos para novos projetos do que para atividades já estabelecidas. alegorias e alusões caem como chicotes sobre os nossos nervos e acabam por nos exaurir. sem dúvida. produzir efeitos dignos e dotar a vida do homem com uma infinidade de coisas úteis?" Sua mais bela produção literária. de um verdadeiro e natural prazer do qual não há saciedade? Não é só esse conhecimento que livra a mente de todas as perturbações? Quantas coisas existem que imaginamos não existirem? Quantas coisas estimamos e valorizamos mais do que são? Essas vãs imaginações. envenenado e afogado. e descreve a si mesmo como. que é o elogio a ela. em como)" inovar.e coloca aquela ênfase na experiência e nos resultados que distingue a filosofia inglesa. aptos para inventar do que para julgar. uma porção infinitesimal dos oceanos e cataratas de tinta nos quais o mundo é diariamente banhado. Não há dúvida de que os Ensaios devem ser incluídos entre os poucos livros que merecem ser mastigados e digeridos. A mente é o homem. em um prato tão pequeno. que é namorá-la ou cortejá-la. No ensaio "Da Juventude e da Idade" ele condensa um livro em um parágrafo.) Os jovens.. por um instante. mas em coisas novas. que é gozá-la. É um estilo como o do vigoroso Tácito. o conhecimento da verdade. é tão fértil em comparações significativas e substanciosas. "um homem naturalmente mais propenso à literatura do que a qualquer outra coisa. (. "conversamos com os sábios." Nos livros. agitam mais do que podem acalmar. a destilada sutileza de uma mente de mestre sobre um importante aspecto da vida. "Os jovens são mais "Meu elogio será dedicado à própria mente. A excessiva sucessão dessas comparações constitui o único defeito do estilo de Bacon: as intermináveis metáforas. Raramente se encontrará uma refeição tão substanciosa.) Não são os prazeres das afeições maiores do que os prazeres dos sentidos. Existirá. ele dá todos os graus de honra a realizações políticas e militares. na conduta e na administração dos atos.. É difícil dizer o que é mais excelente. perseguem absurdamente alguns princípios com que toparam por acaso. mas tomados quatro ou cinco de cada vez. e alguns poucos para serem mastigados e digeridos". Mas no ensaio Da Verdade.. se a matéria ou o estilo. constituem o melhor alimento intelectual. ele escreve: "sem filosofia. Bacon abomina os recheios e detesta desperdiçar uma palavra. em palavras que lembram Sócrates. porque a experiência da idade em coisas que estejam ao alcance dessa idade os dirige. através dela. e na verdade uma parte de sua concisão se deve a uma habilidosa adaptação do idioma e do frasear latinos. todos esses grupos formam. (. tão admiravelmente preparada e temperada. afinal de contas. essas avaliações desproporcionadas. Isto é. nenhum homem. Os Ensaios são como um alimento rico e pesado. mais aptos para a execução do que para o assessoramento. os Ensaios (1597-1623). apenas. em uma ou duas páginas.. o que provoca transtornos desconhecidos. se soubermos escolher os nossos livros. arrependem-se cedo demais e raramente "A indagação da verdade. compacto mas refinado.) Os homens maduros fazem objeções demais. são as nuvens do erro que se transformam nas tempestades das perturbações. nenhum a literárias e filosóficas. deixado de amar os livros e a meditação.

só é bom se for espalhado.) contrárias ao Estado.) As causas e motivos das sedições são as inovações na religião. primeiro. se chegar qualquer outro que tenha melhor ferro do que vós. uma aristocracia para a administração. ou pelo menos semear a desconfiança entre elas. porque se o combustível estiver preparado. (. é dividir e enfraquecer todas as facções (.) Tampouco se segue que a supressão dos rumores" (isto é. faz com que ele se una em uma casa comum. democracia. pensando que estes irão dedicar-se melhor àquilo para que estejam mais inclinados. "De modo geral. e colocá-las longe uma das outras. O Pensamento: A "Instauratio Magna" A Instauratio magna scientiarum deveria ter precisamente representado a reforma do saber. ao ofender um povo. o cancelamento de privilégios. (..liberdade demasiada e.. e tudo aquilo que. as modificações de leis e costumes." Ele é um militarista confesso." A sugestão de todos os líderes." Tal como Aristóteles. o hábito irá torná-lo agradável e fácil. que só o do meio fique a cargo de muitos. Antonio Pio e Aurélio. e em geral.." Ele cita Sêneca. crescer desordenadas e relaxadas. uma pequena burguesia de proprietários rurais. as privações. soldados desmobilizados. É verdade que se os pendores ou a aptidão dos filhos forem extraordinários.. por aplacar o guerreiro que existe no homem.. mesmo.. a eficiência de um Estado varia com a concentração do poder. e as providências para reprimi-los só fazem dar vida longa à especulação. baseada no respectivo predomínio das três faculdades que presidem à organização do saber: memória. reconhece a importância das matérias-primas: "Sólon disse a Creso (quando. facções desesperadas. Não há dúvida de que é bom forçar o emprego de ambos (.. Começa-se.escolha o melhor. "O meio mais seguro de evitar sedições (. perguntou o que tinha feito de errado. Porque "o hábito é o principal magistrado da vida do homem. porque muitas vezes o desprezo é a melhor forma de contê-los. estranhas. Essa obra deveria ter abraçado a enciclopédia das ciências e compreendido também as técnicas. e que não se concentrem demais no pensor dos filhos. pois é nessa fase que eles são mais flexíveis. ou exame. é bom não contrariá-los. deplora o crescimento da indústria por considerar que isso deixa os homens despreparados para a guerra. depois." Bacon acha.. Bacon dá alguns conselhos para se evitarem revoluções." Uma receita melhor para evitar as revoluções é uma distribuição eqüitativa da riqueza: "O dinheiro é como o esterco. mas se contentam com uma mediocridade de sucesso. o progresso de pessoas indignas. claro. por ostentação. porque é desesperador o caso em que aqueles que apóiam o governo estão cheios de discórdia e cisões. portanto. que a juventude e a infância podem ter uma 137 .. assim." O que Bacon quer é.. com o primeiro e o último ficando a cargo de uns poucos. da discussão) "com demasiada severidade deva ser o remédio para os problemas. apesar de tudo. não é um dos piores remédios. que na sua época praticamente não tinha acesso à educação. "Que os pais escolhem cedo as vocações e os cursos que pretendem que seus filhos sigam. Apesar disso." A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em que aspira ao governo. e acima de todos. tão audazmente iniciado pela ciência e pela política da Renascença. deveria ter constituído a summa philosophica dos tempos novos. a opressão generalizada.) A substância da sedição é de dois tipos: muita pobreza e muito descontentamento. segundo o novo ideal humano e prático e imanentista. mas em geral." Mas isso não significa socialismo ou. ele será dono de todo esse ouro. levam o empreendimento até o fim. "Quando não há exemplos de que um governo não tenha prosperado com governos cultos. porque as virtudes de qualquer um deles poderão corrigir os defeitos dos dois. suave et facile illud faciet consuetudo" . e os que estão contra ele estão inteiros e unidos. um rei-filósofo. com a classificação geral das disciplinas humanas. "Deve haver três pontos essenciais nas atividades" do governo: "a preparação. os impostos. (. o debate.). e lamenta uma paz prolongada. "a mais baixa das lisonjas é a lisonja do homem do povo". A monarquia é a melhor forma de governo. é dividir seus inimigos e unir os amigos. fantasia.) é afastar a causa. é difícil dizer de onde virá a fagulha que irá atear-lhe fogo. Bacon não confia no povo. e "Fócion compreendeu bem quando. "Se quiserdes presteza. e lançado o fundamento do regnum hominis. Bacon quer um forte poder central.. tinha a esperança de que aos nomes deles a posteridade acrescentasse o seu.. Creso lhe mostrou o seu ouro): "Senhor. é bom o preceito" dos pitagóricos: "Optimum lege. ao ser aplaudido pela multidão. e a conclusão" (ou execução).

muito mais a metafísica do que a ciência.bem conhecida pela filosofia tradicional . 3) Ciência ou filosofia. Enfim registra o aumentar ou o diminuir do fenômeno em questão. aí faltará também a sua causa e lei. Segundo Bacon. espírito e matéria. Essa classificação é baseada não no objeto do conhecimento. A causa (forma) dos fenômenos (naturezas) será procurada. denominando-a philosophia prima. A teologia natural de Bacon não exclui. antes de tudo. As naturezas são precisamente os fenômenos experimentais. ter-se . e. em alertar a mente contra os erros comuns. por um jogo cênico. os erroa da raça humana "fundamentados em a natureza como tal" (não se sabe. depois enumera os casos que mais se assemelham às primeiras. desconhecido dos predecessores. 2) Poesia. fantasmas . mas a ciência dos princípios comuns às várias ciências. e até o reconheceram como único procedimento inicial do conhecimento humano. não sendo fácil. Mas. que deveria conter precisamente as regras para a construção da ciência da natureza. 3) tabelas de gradações. contra Aristóteles e a Escolástica. antes de tudo. A primeira. causa e lei da ação e da ordem das naturezas. Pertencem pois à física operativa as artes mecânicas. em que. isto é. do homem e da natureza. os princípios imanentes. que registra (memória) os dados de fato. Acima das ciências filosóficas particulares. Na sua linguagem imaginosa Bacon chama as causas destes erros comuns. aí aumentará ou diminuirá também a sua causa e lei. quer no mesmo objeto. quando procura a conquista da ciência verdadeira. para tanto. aí se encontrará também a sua causa e lei.Bacon recolhe. em que um determinado fenômeno aparece.138 razão. o verdadeiro porquê). conhecimento racional de Deus. quer em objetos diferentes. 3) Idola fori. 1) Idola tribus. mas prescinde da revelação cristã e da religião positiva. dos fenômenos às essências . provenientes do comércio social ou da linguagem imperfeita. erros da praça. isto é. construtiva. desta maneira. e em metafísica ("que procura a causa final e a forma"). os erros provenientes das escolas filosóficas. entretanto a eles interessavam muito mais as causas do que a experiência. portanto. se divide em física especial ("que procura a causa eficiente e material"). portanto. pêso. Esta não é a ontologia tradicional. porém. que substituem o mundo real por um mundo fantástico.e os divide em quatro grupos fundamentais. O "Novum Organum" Entretanto. Esta pesquisa. a saber. o Novum organum.idola . isto é. elaboração imaginativa desses dados. e uma parte positiva ou construtiva. por sua vez. o mesmo fenômeno não aparece. três espécies de registros ou tabelas: 1) tabelas de presença. Bacon passa a tratar da natureza positiva. A segunda diz respeito à arte de governar e às relações sociais e aos negócios. Têm-se. Aristóteles e Tomás de Aquino afirmaram claramente este método.é determinada por Bacon. é mister conhecer as que Bacon chama de formas.isto é. etc. as essências ou causas formais. o que interessa mais a Bacon não é esta ciência dos princípios comuns. objeto da metafísica de Bacon. esta passagem das naturezas às formas. as formas das naturezas . A ciência do homem divide-se em ciência do homem individual (philosophia humanitatis).). divide-se em especulativa e operativa. o maior número possível de exemplos. pois. 1) História tanto civil quanto natural. a princípio. Como é sabido. segundo um método preciso. É evidente que nos casos onde uma determinada natureza ou fenômeno aparecem. e sim a ciência da natureza. A parte negativa consiste. e sim no sujeito que conhece. com base nos fenômenos presentes na primeira tabela. Bacon reivindica. A filosofia natural ou física. o que transcende a experiência do que a experiência. 2) Idola specus (por alusão à caverna de Platão) determinados pelas disposições subjetivas de cada um. calor. nos casos em que o fenômeno não se manifesta. A primeira diz respeito ao homem todo. Bacon põe uma ciência filosófica comum. a ciência do ser em geral. nas famosas tabulae baconianas. objeto da física especial (luz. o verdadeiro método da indução científica compreende uma parte negativa ou crítica. da genuína interpretação da natureza para dominá-la. o método indutivo. as formas são leis genéticas e organizadoras das naturezas. e em ciência da sociedade humana (philosophia civilis). e nos casos onde o fenômeno aumenta ou diminui. 2) tabelas de ausência. 4) Idola theatri. Desembaraçado o terreno destes erros. Para determinar de um modo certo as causas e as leis dos fenômenos .

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tabelas completas e isolar as naturezas simples, e desta maneira pôr em evidência a causa, é mister estabelecê-la por hipótese, que será, em seguida, averiguada pelas experimentações. Essa gnosiologia, metodologia (empírica) é baseada em uma metafísica, uma física materialista e, mais precisamente, atomista, bastante semelhante à de Demócrito. O mundo material é constituído de corpúsculos, qualitativamente idênticos, diversos apenas por grandeza, forma e posição. Estes corpúsculos são animados por uma força, em virtude da qual se agrupam em determinados complexos, que constituem as formas baconianas. O Empirismo - Locke John Locke Sobre a linha do desenvolvimento do empirismo, Locke representa um progresso em confronto com os precedentes: no sentido de que a sua gnosiologia fenomenista-empirista não é dogmaticamente acompanhada de uma metafísica mais ou menos materialista. Limita-se a nos oferecer, filosoficamente, uma teoria do conhecimento, mesmo aceitando a metafísica tradicional, e do senso comum pelo que concerne a Deus, à alma, à moral e à religião. Com relação à religião natural, não muito diferente do deísmo abstrato da época; o poder político tem o direito de impor essa religião, porquanto é baseada na razão. Locke professa a tolerância e o respeito às religiões particulares, históricas, positivas. Locke viajou fora da Inglaterra, especialmente em França, onde ampliou o seu horizonte cultural, entrou em contato com movimentos filosóficos diversos, em especial com o racionalismo. Tornou-se mais consciente do seu empirismo, que procurou completar com elementos racionalistas (o que, entretanto, representa um desvio na linha do desenvolvimento do empirismo, procedente de Bacon até Hume). Vida e Obras

João Locke nasceu em Wrington, em 1632. Estudou na Universidade de Oxford filosofia, ciências naturais e medicina. Em 1665 foi enviado para Brandenburgo como secretário de legação. Passou, em seguida, ao serviço de Loed Ashley, futuro conde de Shaftesbury, a quem ficou fiel também nas desgraças políticas. Foi, portanto, para a França, onde conheceu as personalidades mais destacadas da cultura francesa do "grand siècle". Em 1683 refugiou-se na Holanda, aí participando no movimento político que levou ao trono da Inglaterra Guilherme de Orange. De volta à pátria, recusou o cargo de embaixador e dedicou-se inteiramente aos estudos filosóficos, morais, políticos. Passou seus últimos anos de vida no castelo de Oates (Essex), junto de Sir Francisco Masham. Faleceu em 1704. As suas obras filosóficas mais notáveis são: o Tratado do Governo Civil (1689); o Ensaio sobre o Intelecto Humano (1690); os Pensamentos sobre a Educação (1693). As dontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo escolástico, cujo centro famoso era Oxford; o empirismo inglês da época; o racionalismo cartesiano e a filosofia de Malebranche.
O Pensamento: A Gnosiologia Locke julga, como Bacon, que o fim da filosofia é prático. Entretanto - diversamente de Bacon, que julgava fim da filosofia o conhecimento da natureza para dominá-la (fim econômico) - Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente moral; quer dizer: a filosofia deve proporcionar uma norma racional para a vida do homem. E, como os seus predecessores empiristas, ele sente, antes de mais nada, a necessidade de instituir uma investigação sobre o conhecimento humano, elaborar uma gnosiologia, para achar um critério de verdade. Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este problema gnosiológico, para logo passar a uma filosofia moral (e política, pedagógica, religiosa), sem uma adequada e intermédia metafísica. Locke não parte, realisticamente, do ser, e sim, fenomenisticamente, do pensamento. No nosso pensamento acham-se apenas idéias (no sentido genérico das representações): qual é a sua origem e o

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seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles se formam, derivam da experiência; antes da experiência o espírito é como uma folha em branco, uma tabula rasa. No entanto, a experiência é dúplice: externa e interna. A primeira realiza-se através da sensação, e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores, sons, odores, sabores, extensão, forma, movimento, etc. A segunda realiza-se através da reflexão, que nos proporciona a representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação, como: conhecer, crer, lembrar, duvidar, querer, etc. Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa, Locke distingue as qualidades primárias, absolutamente objetivas, e as qualidades secundárias, subjetivas (objetivas apenas em sua causa). As idéias ou representações dividem-se em idéias simples e idéias complexas, que são uma combinação das primeiras. Perante as idéias simples - que constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento - o espírito é puramente passivo; pelo contrário, é ele ativo na formação das idéias complexas. Entre estas últimas, a mais importante é a substância: que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples, referida pelo espírito a um misterioso substrato unificador. O espírito é também ativo nas sínteses que são as idéias de relação, e nas análises que são as idéias gerais. Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia assim isolada, obtendo-se, desse modo, a idéia abstrata (por exemplo, a brancura). Locke é, mais ou menos, nominalista: existem, propriamente, só indivíduos com uma essência individual, e as idéias gerais não passam de nomes, que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. Entretanto, os nomes que designam uma idéia abstrata, isto é, uma propriedade semelhante em muitas coisas, têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a se conduzirem na vida. Dado o nominalismo de Locke, compreende-se como, para ele, é impossível a ciência verdadeira da natureza, considerada como conhecimento das leis universais e necessárias. Locke julga também inaplicável à natureza a matemática - reconhecendo-lhe embora o caráter de verdadeira ciência - isto é, não acredita na físico-matemática, à maneira de Galileu. Entretanto, mesmo que a ciência da natureza não nos desse senão a probabilidade, a opinião, seria útil enquanto prática. Até aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. É mister agora propor a questão do seu valor lógico. Costuma-se dizer que as idéias são "verdadeiras ou falsas"; melhor seria chamá-las "justas ou erradas", porque, propriamente, "a verdade e a falsidade pertencem às proposições", em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. E esta relação, afirmada ou negada, pode ser precisamente falsa ou verdadeira. O conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é, segundo Locke, de dois tipos: intuitivo e demonstrativo. No primeiro caso a relação é colhida intuitiva, imediata e evidentemente. Por exemplo: 3 = 2 + 1. No segundo caso a relação é colhida mediatamente, recorrendo às idéias intermediárias, ao raciocínio. Por exemplo: a existência de Deus demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade. Naturalmente, a demonstração é inferior à intuição. Idéias Metafísicas Estamos, porém, ainda fechados no mundo subjetivo, fenomênico; de fato, tratou-se, até agora, de relações positivas ou negativas, concordes ou desacordes com as idéias. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo objetivo, isto é, podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua existência e na sua natureza? Locke afirma-o, sem mostrar, entretanto, como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista) concepção e definição do conhecimento. É a sólita posição de um fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. Corta as relações com o ser e vai para o fenomenismo absoluto, mas tem ainda saudade desse ser do qual se isolou. Em todo caso, Locke acredita poder atingir, antes de tudo, o nosso ser, depois o de Deus, e, finalmente, o das coisas. O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão. A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa, partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A existência das coisas, alfim, seria sentida invencivelmente, porque nos sentimos passivos em nossas sensações, que deveriam ser causadas por seres externos a nós.

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Entretanto, pelo que diz respeito ao nosso ser, é mister ter presente que nós não conhecemos intuitivamente a substância da alma, e sim as suas atividades. Pelo que diz respeito a Deus, a prova da sua existência vale, se vale absolutamente o princípio de causa - o que Locke não demonstrou. Enfim, pelo que diz respeito às coisas externas, mesmo admitida a prova aduzida por Locke - segundo a confissão do próprio filósofo - tal prova vale apenas pelo que concerne à existência das coisas, e não pelo que concerne à natureza delas. De fato, segundo a filosofia de Locke, não sabemos se as idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas. Moral e Política Locke não admite, naturalmente, idéias e princípios inatos nem sequer no campo da moral. A sua moral, todavia, é muito mais intelectualista do que empirista, pois ele lhe reconhece o caráter de verdadeira ciência, universal e necessária. Entretanto, não basta ter construído uma moral em abstrato, embora racional. É preciso torná-la praticamente eficaz, isto é, faz-se mister uma obrigação moral, que se imponha à nossa vontade. Ora, visto que é natural, no homem, a tendência para o próprio bem-estar, é natural que ele seja atingido pelas penas, pelas sanções, que precisamente lhe impedem tal realização. Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega, propriamente, o livre arbítrio, porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem determinado e devemos desejar o bem maior. Quanto à política, Locke deriva a lei civil da lei natural, racional, moral, em virtude da qual todos os homens - como seres racionais - são livre iguais, têm direito à vida e à propriedade; e, entretanto na vida política, não podem renunciar a estes direitos, sem renunciar à própria dignidade, à natureza humana. Locke admite um originário estado de natureza antes do estado civilizado. Não, porém, no sentido brutal e egoísta de inimizade universal, como dizia Hobbes; mas em um sentido moral, em virtude do qual cada um sente o dever racional de respeitar nos outros a mesma personalidade que nele se encontra. Também Locke admite a passagem do estado de natureza ao estado civilizado, porquanto, no primeiro, falta a certeza e a regularidade da defesa e da punição, que existe no segundo, graças à autoridade do superior. Entretanto, estipulando este contrato social, os indivíduos não renunciam a todos os direitos, porquanto os direitos que constituem a natureza humana (vida, liberdade, bens), são inalienáveis; mas renunciam unicamente ao direito de defesa e de fazer justiça, para conseguir que os direitos inalienáveis sejam melhor garantidos. Antes, se o estado violasse esses direitos inalienáveis, os indivíduos teriam o direito e o dever de a ele resistir e de se revoltar contra o poder usurpador. A doutrina política de Locke, contida no seu Tratado sobre o Governo Civil, é a expressão teórica do constitucionalismo liberal inglês, em contraste com a doutrina do absolutismo naturalista de Hobbes. Idéias Pedagógicas Com respeito à religião, Locke toma uma atitude racionalista moderada. Admite uma religião natural, exigível também politicamente, porquanto fundamentada na razão. E professa a tolerância a respeito das religiões particulares, históricas, positivas. Locke interessou-se especialmente pelos problemas pedagógicos, escrevendo os Pensamentos sobre a Educação. Aí afirma a nossa passividade, pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da experiência; mas, ao mesmo tempo, afirma a nossa parte ativa, enquanto o intelecto constrói a experiência, elaborando as idéias simples. Afirma-se que todos nascemos iguais, dotados de razão; mas, ao mesmo tempo, todos temos temperamentos diferentes, que devem ser desenvolvidos de conformidade com o temperamento de cada um. Esta educação individual não exclui, mas implica a educação, a formação social, para ampliar, enriquecer a própria personalidade. Tem muita importância a obra do educador, mas é fundamental a colaboração do discípulo, pois trata-se da formação do intelecto, da razão, que é, necessariamente, autônoma. A formação educacional consiste, portanto, fundamentalmente, no desenvolvimento do intelecto mediante a moral, precisamente pelo fato de que se trata de formar seres conscientes, livres, senhores de si mesmos. Por conseguinte, a educação deve ser formativa, desenvolvendo o intelecto, e

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não informativa, erudita, mnemônica. Igualmente Locke é fautor de educação física, mas como o meio para o domínio de si mesmo. O Empirismo - Berkeley Jorge Berkeley Uma etapa ulterior do fenomenismo empirista é representada por Berkeley. Ele suprime, criticamente, as qualidades primárias, as sensações objetivas de Locke, evidenciando que são semelhantes às secundárias e, logo, também elas subjetivas. E suprime também, definitivamente, o conceito lockiano de substância material, que deveria ter sido a causa misteriosa de nossas sensações, objetivas, visto que, no empirismo, a substância não passa de um nome. Isto não impede que Berkeley - por motivos práticos, morais e religiosos - incoerentemente, conserve ainda no seu empirismo os conceitos de substância, causa e espírito, isto é, os conceitos de substância e causa espiritual. Este resíduo realista e transcendente será definitivamente eliminado pela crítica radical e coerente de Hume, o último e o maior dos empiristas prá-kantianos. Vida e Obras Estudou no Trinity College em Dublin, formando-se mestre em artes em 1707. Ordenado pela Igreja anglicana, a princípio ensina grego (sua obra, um dia, assumirá um tom platônico), em seguida hebreu e teologia no Trinity College. Entre 1702 e 1710, podemos seguir, em seu caderno de anotações (Commonplace book), a formação de seu pensamento. Desde 1709 ele escreve sua Nova teoria da Visão. Seu Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano é publicado em 1710. As intenções apologéticas de sua obra aparecem claramente nos artigos polêmicos, que escreveu em 1713, no jornal The Guardian, contra as idéias de um célebre livre-pensador, Arthur Collins. Em 1713, igualmente, aparece os Diálogos entre Hylas e Philonous. Berkeley então viaja pela França e pela Itália; em seguida se decide a propagar o pensamento cristão nas possessões americanas da Inglaterra, partindo para as Bermudas, onde sonha fundar um colégio, idéia à qual deve renunciar, posto que o governo inglês não lhe envia os fundos prometidos. Nessa época, ele lê Plotino sobretudo. Ao retornar, é nomeado bispo anglicano de Cloyne. Publica uma nova obra contra os livres-pensadores, "Alciphrom ou o filosofúsculo" (Alciphrom or the minute philosopher). Em 1740, sobrevém uma epidemia na Irlanda, que o improvisa como médico; cuida de suas ovelhas com água de alcatrão (receita que conheceu na América), na qual vê um remédio universal, o que o leva a uma cadeia (seiris, em grego) de reflexões muito platônicas sobre a natureza, a Providência e Deus, que ele nos oferece em sua última obra, "Síris ou Reflexões e pelo físico Molyneux): Como podemos ver a distância de um objeto? O raio luminoso, orientado perpendicularmente ao olho, só projeta um ponto que invariavelmente é o mesmo, quer a distância seja longa ou curta. Por conseguinte, falando estritamente, não vemos a distância. Um cego de nascença, afirma Berkeley, ao qual fosse dado ver repentinamente, teria a impressão de que todos os objetos tocavam seus olhos (vinte anos após o obra de Berkeley, o cirurgião Cheselden publicará, nas Philosophical Transactions of the Royal Society, a observação de um menino de quatorze anos, operado de catarata, que parece confirmar o ponto de vista de Berkeley. Voltaire, em sua Filosofia de Newton, 1741, torna conhecida essa experiência que Condillac e Diderot discutirão em sua Carta sobre os cegos para uso dos que vêem). Para Berkeley, a distância, portanto, não é percebida, mas julgada a partir de signos tais como a grandeza aparente ou da luminosidade mais ou menos viva dos objetos. Esse homem pequenino e pouco visível está longe de mim, porque a experiência mostra que quando um homem tem essa grandeza aparente, deve andar por alguns momentos a fim de o tocar. Por conseguinte, a experiência me ensina a interpretar aparências visuais como o sinal da distância maior ou menor dos objetos.

Jorge Berkeley nasceu em 1685 perto de Dysert Castle, na Irlanda, de uma família de origem inglesa.

pesquisas filosóficas concernentes às virtudes da água de alcatrão e diversos outros temas conexos entre si e originados um do outro" (1744). Na Teoria da Visão, Berkeley parte do seguinte problema (colocado

Para ele. posto que ela não passa de um conjunto de idéias. Por exemplo: que é a idéia abstrata de Homem? Um nome. É a experiência. para ele. disforme ou bem proporcionado. ele admite a idéia geral. simultaneamente percebido pela visão e pelo tato. Pensar não é. a palavra idéia significa representação mental) é o símbolo de outras idéias concretas. o contato de minha mão com ela uma sensação tátil e a própria dor que sinto após o choque é um estado de consciência. nem a extensão geométrica. se Berkeley nega a idéia abstrata. Mas essa imagem sonora. e só ela. Não possuo mais o direito de dizer que tenho uma ou várias idéias da porta. etc. Não é verdadeiramente uma coisa material que existe como tal. por abstração. É por preconceito que acredito na existência de "objetos". uma simples palavra (uma imagem concreta. "Não posso representar em meus pensamentos uma coisa sensível ou um objeto isolados da sensação que deles tenho. Sua forma e a extensão que ela ocupa são sensações. para Berkeley. mas passar de uma imagem a outra graças à função simbólica. responde Berkeley. relativo ao sentido da visão. grande ou pequeno. por exemplo. fora de minhas sensações! Absolutamente. por conseguinte. Uma imagem concreta. idéia e imagem são a mesma coisa. Esta porta nada mais é do que uma soma de representações mentais. uma idéia concreta (para Berkeley.a) Não existe espaço objetivo. Compreendemos bem que. e um espaço tátil (a exploração tátil me revela. tão cara aos cartesianos. os "signos" desempenham um grande papel. o cubo que vejo e aquele em que toco não são um só e mesmo objeto!! Não mais existem relações entre um e outro. pois todos os objetos me são dados simultaneamente como extensos e coloridos. o objeto e a sensação são idênticos e não podem ser abstraídos um do outro. Por exemplo. b) Todavia. um conjunto de "idéias". o que me ensina a decifrar as correspondências entre esses dois tipos de sensações (visuais e táteis). essa palavra "homem" que pronuncio não passa. que a extensão existe objetivamente. pois. Berkeley tira conclusões importantes: 143 . O espaço não é o "sensível-comum". e o que possui apenas duas dimensões. na origem. Não tenho a menor razão de abstrair da realidade sensível que é a dos meus estados de Dessa análise psicológica. As correspondências entre o atlas tátil e o atlas visual simplesmente manifestam a Providência de Deus. lida ou ouvida). que me faz conhecer a ligação entre uma mudança de claridade e uma mudança de distância. em substituto de outras imagens concretas. No universo de Berkeley. é preciso que essa imagem seja a de um homem particular. como dizia a filosofia escolástica. Existem dois espaços distintos: um visual. nada me autoriza a imaginar. b) As correspondências existentes entre os dados visuais e a distância dos objetos não podem ser previstas a priori. quando represento mentalmente um homem. sua cor verde uma sensação visual. isto é. a aprendizagem da língua natal me faz conhecer a ligação convencional entre os objetos e as palavras que os designam. toda linguagem é a instituição de um espírito. Os dados visuais são o signo dos dados táteis. A imagem concreta se torna geral quando se transforma em signo. Nominalismo de Berkeley a) Ele declara não compreender o que seja uma idéia abstrata. como Descartes. Por isso ele se aproxima de Locke e do ponto de vista de todos os outros empiristas ingleses. para Berkeley. a existência de pretensos objetos materiais fora de meus estados de consciência." Eis uma porta alta e sólida. Tudo o que a experiência me fornece é uma multidão de sensações diversas entre as quais existem correspondências. Ora. exceto a que existe entre o cubo em que toco e a palavra de quatro letras com que o designo. pintada de verde e contra a qual me choco dolorosamente. não tenho o direito de dizer. em suma. O Imaterialismo É a outra doutrina fundamental de Berkeley que facilmente vemos estar ligada ao seu nominalismo. espaço "em-si". E. as distâncias dos objetos). ao passo que a cor é subjetiva. aprender uma essência abstrata. De um modo mais geral. toda abstração é ilegítima. uma linguagem universal da natureza (como aquela que faz dos dados visuais o signo das experiências táteis) só pode ser obra de um Espírito universal. de uma imagem sonora concreta. eu a faço corresponder a um sem-número de imagens visuais (as de todos os homens que posso ver). exatamente como a experiência.

uma vez divisível ao infinito seria admitir que um fragmento de extensão existe sem ser percebido. nada envolve. que ela nada oculta. A filosofia de Berkeley. Por conseguinte. homogêneo e mensurável dos físicos. É o que. a existência das coisas sob a condição de que se aceite que existir é "ser percebido" e nada mais. é a filosofia do realismo concreto levada às suas últimas conseqüências: o que existe é o que vemos e tocamos. Berkeley . E agora Berkeley nos diz que Deus é quem nos envia. impalpável. demonstra a Hylas (cujo nome. Se não há nenhuma transcendência das coisas. também existo. como é possível que vários espectadores vejam juntos. etc. numa ordem harmoniosa.Dado esse detalhe. A única realidade das coisas é serem percebidas. nos célebres diálogos. As novas matemáticas do infinitesimal. não quero transformar as coisas em idéias. A aparência é que é a verdadeira realidade. que se estende superficialmente e que se coloca inteira a todo instante no que ela dá". é um além material que transcenderia o percebido. segundo a qual a realidade se reduz ao que nos é dado concretamente. significa amigo do espírito). Berkeley rejeita todas as "abstrações" dos matemáticos e dos físicos. Se . . como é que todas as pessoas presentes podem pretender ver a mesma coisa? b) Berkeley responde a isso. Imaterialismo e Teologia a) Tal como expusemos. isto é. Não há no mundo senão idéias e espíritos. se o objeto nada mais é do que a representação que dele tenho. Para Berkeley. nossas percepções. Sua filosofia. as pessoas que neste momento se encontram em meu escritório podem dizer que aí existe uma poltrona de couro. Deus já estava encarregado de explicar as admiráveis correspondências entre dados táteis e visuais. existiriam além de minhas percepções. portanto. porta-voz de Berkeley. o imaterialismo de Berkeley suscita uma dificuldade. serão falsas a seus olhos. são apenas as aparências das coisas. com as percepções dos outros espíritos. chamará de "a ilusão dos além-mundos". portanto. em grego. a mesma coisa? Por exemplo. o imaterialista Philonous (esse nome. Mas. Do mesmo modo. O espaço dado aos sentidos não pode ser divisível ao infinito. O mundo visual tem realmente as cores que aparenta ter. que ativamente percebo. Como Philonous declara a Hylas: "Você se engana. misteriosamente. "mais longo na dor do que no prazer". que ela não tem interior. O que não vemos e não tocamos não existe. Não aceita a "extensão inteligível" de Malebranche e só admite um espaço sensível. "Esse est percipi". isto é . nossas sensações não remetem a um objeto exterior. Realismo ou Idealismo? O que Berkeley rejeita é a realidade de uma substância material que seria o suporte misterioso. O que ele não admite é a coisa que estaria oculta sob nossas representações. portanto. quer nos libertar daquilo que Nietzche. não tem suporte. fazendo com que Deus intervenha. quero antes transformar as idéias em coisas.144 consciência. não há dificuldade. mais tarde. A ordem de minhas "idéias". Berkeley recusa todo ceticismo e aceita o dado tal qual é: "O cavalo está na cocheira e os livros estão na biblioteca como antes". eu os considero coisas reais". Berkeley reclama o bom-senso popular e se ri de Descartes que duvidava de seus sentidos. É certo que o ser não se reduz ao que é passivamente percebido e que eu. Como diz Bergson muito bem: "O que o idealismo de Berkeley significa é que a matéria é coextensiva à nossa representação. se como pensa Philonous-Berkeley. pois os objetos imediatos da percepção que. o mundo da audição é verdadeiramente sonoro. sua admirável concordância com as "idéias".a poltrona de couro existe materialmente e nossas sensações a refletem. estão erigidas como prova do poder e da bondade do Criador.antes de Bergson . era ele o autor dessa linguagem universal e benfazeja da natureza. ser é ser percebido ou perceber: "Esse est percipi vel percipere". O único tempo real é o tempo concretamente percebido. portanto.como pensava Hylas . segundo você. pretensas coisas materiais que. das qualidades sensíveis. no mesmo lugar. significa matéria). nossas "idéias". em grego. invisível.rejeita como ficção o tempo abstrato. o chamado idealismo de Berkeley não passa de um realismo ingênuo. Berkeley não nega.

de extensão abstrata. se a terra de origem do iluminismo é a Inglaterra. de força. Aos materialistas. afastariam nossa atenção do sentido do som e nos impediriam de acompanhar a palavra divina". O Problema da Evolução em Berkeley a) Em Siris. vemos. à maneira dos neoplatônicos. E logo se desperta na França uma verdadeira anglomania: pelo constitucionalismo inglês. são essencialmente passivas. nas primeiras obras. . erigindo-a em entidade independente. se finalmente recai no tema da visão de Deus. recaindo. por tudo isso. no espiritualismo tradicional. A Providência . desde então. Berkeley responde: "É a matéria que não existe. O mundo é uma mensagem de Deus. com uma evolução cada vez mais acentuada em sua velhice para o malebranchismo. b) Por outro lado. Aí assumirá aquele caráter extremado e difusivo pelo qual o iluminismo ficará definitivamente individuado. entre gosto pelo sensível e aversão pela matéria. É Deus quem nos fornece nossas "idéias". Berkeley então nos propõe uma espécie de síntese muito original entre as filosofias de Locke e de Malebranche. a alma não existe. Bergson apreende efetivamente o que há de essencial na doutrina de Berkeley quando a comenta nos seguintes termos: "A matéria seria uma língua em que Deus nos fala. inspirado pelos platônicos que pregam a libertação quanto aos sentidos e insistem no conhecimento das realidades espirituais. As metafísicas da matéria. É um "discurso que Deus faz aos Homens". mas não temos idéia do próprio Deus. "Curiosa síntese. Berkeley aprofunda sua reflexão sobre o conhecimento dessas realidades. criador das idéias em nossas consciências. assim. podemos conhecê-lo? A segunda edição traz uma resposta a esse problema e Siris vem explicitar essa resposta: temos uma noção de Deus. Berkeley enriquece seu imaterialismo com uma dimensão nova. arquétipos em que Deus se fundamenta para produzir nossas representações.-J. é diretamente imprimido pelo Criador na consciência das criaturas. era um Deus cartesiano. então. colocam uma tela de pesadas ficções entre Deus e essa palavra cotidiana de Deus que é o mundo. dando-lhe um destino. tornando espessa cada sílaba. entre empirismo e espiritualismo." Todavia. se chega mesmo a ir mais além de Malebranche ao negar a existência das coisas materiais (que Malebranche aceita de acordo com o testemunho da Bíblia). longe de ressaltar de maneira ininteligível uma matéria opaca. mas morada das Idéias. ele me fala diretamente quando decifro o mundo sensível. Da primeira à segunda edição de seus Princípios do Conhecimento. Assim. Se. as representações mentais. Jean-Jacques Rosseau O Iluminismo Francês Voltaire traz o iluminismo da Inglaterra para a França. Só Deus e os espíritos existem".de quem as virtudes terapêuticas da água de alcatrão lhe recordam a benevolência ativa . escrevendo as famosas Lettres sur les Anglais. Em todo caso. torna-se um Deus malebranchiano. Quando as metafísicas materialistas falam de substância. uma liberdade real. Thonnard. no fundo. como um fluido vital que o penetra inteiramente. como sublinhou Gueroult. com efeito. Berkeley mostra que as idéias. já bem disposta para assimilá-lo e valorizá-lo. aos ateus que proclamam: Deus não existe.surge-lhe. Ele atribui à pessoa humana uma verdadeira "eficácia". que Deus criou a matéria e que o homem a conhece por meio de "idéias"? Não se pode fazer economia dessa entidade misteriosa? Basta pensar que o espetáculo do universo. como um fogo sutil que circula através do Universo. pela ciência nova.145 c) Por que dizer. não apenas causa das idéias. pelo livre pensamento. Berkeley não aceita que a vontade das criaturas seja uma simples causa ocasional. Como. Berkeley nunca seguirá Malebranche até o fim. seguimos facilmente o aprofundamento de seu pensamento. isto é. Entre ele e nossas representações sensíveis surgem (como nas filosofias neoplatônicas) intermediários. aceita a teoria das causas ocasionais na matéria (a idéia visível não é a causa. Este último que. o alcance apologético que Berkeley pretende dar a seu imaterialismo. Na primeira edição. por Locke e Newton. que lera na América. a sua terra clássica é a França. diz muito bem F. mas o signo da idéia tangível que Deus produz em mim). posto que ele é atividade suprema.

perto de Genebra. Foi publicada entre 1751 e 1780. porque a razão é universal. etc. político. Pertence a esta última tendência Pedro Bayle (1647-1706). às divisões nacionais e à guerra. manifesta confiança no povo ou. um alemão que viveu em Paris. Esta corrente. Característica . quando conculca os direitos naturais do indivíduo. atacados por Voltaire. sendo a razão humana impotente para solucioná-los. No campo social. se encontra neste mundo e na vida terrena. o iluminismo francês adere ao empirismo de Locke desenvolvido no sensismo de Condillac. também a religião natural de um Deus transcendente. A razão (humana) deve dominar acima de tudo e acima de todos. É o que fez desabusadamente e desapiedadamente a revolução francesa. segundo o ideal deísta (Voltaire). Entretanto colaboraram na enciclopédia os iluministas mais famosos. Métaphysique de Newton (1740). tudo isto levará à demolição. à paixão. na imortalidade da alma. do absolutismo racional. autor do Dictionnaire Historique et Critique. desejosa e capaz de liberdade. e. voltar. mas não no povo que se quer elevar. Candide ou de L'optimisme (1756). meio eficaz de difusão do iluminismo antes da grande enciclopédia. à fantasia. a atitude iluminista é decididamente hostil à igreja católica e se propõe a si mesma esmagá-la (écraser l'infâme): quer admita uma religião natural. porém. Acerca do problema religioso. ao sentimento. foi acolhido (1750-1753) por Frederico II. na burguesia. as que mais interessam à filosofia. dito Voltaire (1694-1778). Pelo que diz respeito ao problema filosófico em geral. nas sanções ultraterrenas. Se o iluminismo demole toda a história. onde o materialismo se manifesta em cheio. déspota absoluta. trazendo para a França o iluminismo. O movimento dos enciclopedistas foi um poderoso meio para a difusão e vulgarização das idéias iluministas. cujo reino. Entre as suas obras. melhor. e aí escreveu as famosas Lettres sur les Anglais. quer chegue até ao ateísmo e ao hedonismo. para os quais o iluminismo tinha naturalmente um interesse especial. a corrente iluminista chefiada por Cláudio Helvetius (1715-1771). é o autor do não menos famoso Système de la nature. des arts et des métiers. Os Homens e os Problemas A obra fundamental do iluminismo francês e europeu. com a crença em Deus. Caído na desgraça do Rei e da Corte da França. e por Denis Diderot (1713-1784) autor também de alguns escritos filosóficos . em 34 volumes. à história e à tradição em geral. pelo contrário. inclusive o cristianismo. autor do livro De l'Esprit. substitui. às desigualdades sociais. no homem primitivo para o qual se deverá. ou até no ceticismo. em que a razão certamente não domina. em 1755. Daí a necessidade da força a serviço da razão. Entre eles Voltaire e Rosseau. A figura dominante do iluminismo francês é Francisco Maria Arouet. E se ele demole toda religião positiva. daí dominando o mundo da cultura européia. autor do famoso Discours préliminaire. por exemplo. Julião Offrai de La Mettrie (1709-1751) é o autor do famoso livro L'homme machine. Foi dirigida por João D'Alembert (1717-1783). isto é. todavia. Dictionnaire Philosophique (1764). julga. sustentando a irracionalidade da Revelação: mesmo contra a própria intenção do autor. econômico. ou mais ou menos. Assim. realizado o seu ideal racional no começo da humanidade. que pretendia mostrar a necessidade de se apoiar na Fé em face dos máximos problemas. todavia. A outra atitude ou tendência é a que deriva do liberalismo constitucional. em geral. como sendo necessárias para a conservação da ordem moral e política. para o bem dos povos e da humanidade acredita-se na razão. Réponse ou Système de la nature (1777). a deusa razão da revolução francesa. Daí a guerra a qualquer atividade e instituição que não sejam puramente racionais. são: Lettres sur les Anglais (1734). ao estado. o mecanismo (empirista e racionalista) é levado até o materialismo por La Mettrie e D'Holbach. manifestam-se também duas atitudes: a do assim chamado despotismo iluminado. religioso. à destruição da ordem constituída. Bayle propagou a incredulidade pela Europa toda. Viveu em Londres entre 1726 e 1729. na França e no estrangeiro. como. retirou-se para Ferney. enfim. Éléments de la Philosophie de Newton (1741). em definitivo. chamados por isso enciclopedistas. o barão Teodorico D'Holbach (1723-1789). a esta religião a religião humanista e imanentista da razão.Pensées sur l'interprétation de la nature 146 (1754).O traço específico do iluminismo francês é o culto da razão. Pelo que concerne aos problemas sociais e políticos. é a Enciclopédia: Enciclopédie ou dictionaire des sciences.

O problema que ele coloca recai no de Locke ou de d'Holbach: "Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda força comum 147 a pessoa e os bens da cada associado e pela qual cada um. Todavia. e do Esprit des lois. tais como se encontram em seu romance A Nova Heloísa (1761) e na Profissão de fé do Vigário saboiano. Discurso sobre as Ciências e as Artes. executivo e juduciário. porém. a pedagogia da chamada Escola Nova. ter uma vontade particular contrária ou dessemelhante da vontade geral que ele tem como cidadão". Todavia. É o autor das Lettres persanes. É certo que a profissão de fé do Vigário suscitou as iras dos poderes públicos e das igrejas constituídas. . os maus triunfam neste mundo. como homem. na época. peça mestra do Emílio (1762). dessa "lei divina do dever e da virtude" em nome da qual a paixão amorosa se sacrifica heroicamente. nos debates do povo reunido) uma vontade geral. desses filósofos do "conventículo holbáquico" que ele destacava e pelos quais era odiado. corrompendo sua natureza íntima. Rosseau pesquisa as condições de um Estado social que fosse legítimo. o progresso das ciências e das artes tornou o homem vicioso e mau. aliás. Não se fará. em Paris e em Genebra. A obra será solenemente queimada. Barão de Montesquieu (1689-1755). mas antes depreender (o que é possível com a maioria das vozes. Não há dúvida de que ele declara que todas as religiões são boas e que cada crente pode conseguir a salvação na sua (o que é contrário ao que. o pacto social não tem por fim conciliar todos os interesses egoístas. como dizia Montaigne. a justiça divina recompensará os bons ("a vida da alma só começa com a morte do corpo") e punirá os maus que são culpados de serem assim ("dependia deles não se tornarem maus"). cujos atos. Nessa obra. a sociedade o corrompeu. Para Rosseau. é uma exigência inata em nós e não. o campeão de uma pedagogia naturalista que confia nas tendências espontâneas da criança. "Somos tentados pelas paixões e detidos pela consciência". ao invés de submetê-la a constrangimentos difíceis? (Nesse sentido. Entenda-se bem: "cada indivíduo pode. é uma pedagogia rousseauniana: "Toda lição. com quem. são melhores atestados do que os da vida de Sócrates. Para ele. desenvolvido em sentido historicista. deve ser uma resposta"). Rosseau só encontra refúgio na Inglaterra. pelo sentido de variedade das leis em relação às condições dos povos. o reflexo do costume. No entanto. era pensado nas igrejas católicas e protestantes). um mês apenas após sua publicação. O arcebispo de Paris condena-lo-á em célebre ordenação (perseguido por toda parte. a moral e a filosofia de Rosseau. no Emílio. unindo-se a todos. Freqüentemente se resume a tese de Rosseau aos seguintes termos: o homem é bom por natureza. Rosseau adota o dualismo moral popular. das Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence. fundada nas tendências e nos centros de interesse espontâneos da criança. concreto. o problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social". junto a Hume. aproxima-se bastante. Por conseguinte. ao passo que o justo é infeliz. Em seu primeiro livro. Esta última faz abstração dos interesses divergentes e das paixões de cada um para só cuidar do bem comum. não obedeça. ele escreve para responder a uma questão que a Academia de Dijon colocara em concurso: Rosseau declara-se inimigo do progresso. essa consciência moral que. dirá Dewey em nossos dias. prende-se ao ensinamento de Jesus. senão a si próprio e permaneça tão livre quanto antes. recaem nos temas do espiritualismo mais tradicional. Jean-Jacques Rosseau A obra de Rosseau (1712-1778) que foi mal compreendida e que ainda o é nos meios do catolicismo tradicional. aparentemente ao menos. que atende às suas necessidades mais profundas. Também é certo que ele desconfia das interpretações que a Igreja possa dar dos Evangelhos ("quantos homens entre mim e Deus!"). se desentenderá pouco depois).desta concepção política é a divisão absoluta dos poderes supremos: legislativo. ete. exposta no Contrato Social. O maior expoente dessa corrente é Carlos de Secondat. Nestes escritos se manifesta um racionalismo iluminista temperado. A Nova Heloísa apresenta-se como uma apologia da religião e da moral. Na realidade. diz. das idéias dos filósofos racionalistas. Mas seria uma grave erro confundir o "naturalismo" de Rosseau com o dos filósofos das luzes. A teoria política de Rosseau. É censurado por escolher a religião natural (aquela que o homem encontra no próprio coração) e rejeitar a religião revelada. segundo ele. que não mais corrompesse o homem. na realidade representa uma reação espiritualista contra a filosofia das luzes e o otimismo dos enciclopedistas.

ao contrário. a regra da consciência. não deixa de admitir essa obscura faculdade chamada instinto que parece guiar os animais. jogando-as por terra no momento em que saltam. não temos senão o direito de recusá-la. esse juízo inato do bem e do mal que cada um descobre em si mesmo. Encontraremos aí. A consciência é a voz da alma. para onde nossas tendências nos conduzem. escutando o que ela diz dos nossos sentidos. Feito para prejudicar seus semelhantes. é o verdadeiro guia do homem: ela está para a alma assim como o instinto está para o corpo(¹). não mais tem transportes e seu coração congelado não mais palpita de alegria. Penetremos em nós mesmos. mas adquirido por reflexão.148 nessa vontade geral descobriremos outra coisa que não o interesse. ele o deve ser tanto no fundo de nossos corações quanto em nossas obras. não vive mais. dizem eles. acaba por amar apenas a si mesmo. Esse entusiasmo da virtude. Se nada existe de moral no coração do homem. quando dissipa seus desejos egoístas "no silêncio das paixões". provêm esses transportes de admiração pelas ações heróicas. Se a bondade moral concorda com nossa natureza. quem a segue. o infeliz não sente mais. escritas pela natureza em caracteres indeléveis. meu jovem amigo! Examinemos. etc. de onde. nem bem constituído. no fundo do meu coração. e o maior prêmio da justiça é sentir que a praticamos. já está morto. no sentido de algum fim. desprezamos o que diz aos nossos corações. (¹) A filosofia moderna. ao fazer nosso bem a expensas de outrem. se não fosse bom. A moralidade de nossas ações está no juízo que delas fazemos. o dos tormentos ou o da felicidade de outrem? Que é que nos é mais doce fazer e que nos deixa agradável impressão após o ter feito. aquele que. então o homem é naturalmente mau e não o pode deixar de ser sem se corromper. obedece a natureza e não teme se perder. os princípios de uma alta filosofia. estaríamos demaisados sós e seríamos demasiados miseráveis se não tivéssemos com quem os dividir. o desejo de felicidade. Se é verdade que o bem seja bem. e a virtude só nos deixaria remorsos. segundo um de nossos mais sábios filósofos (Condillac). É espantoso que muitas vezes essas duas linguagens se contradigam? A qual delas se deve ouvir? A razão freqüentemente nos engana. não goza mais nada. sem qualquer conhecimento adquirido. Este ponto é importante. mas a consciência nunca engana. o ser ativo obedece e o ser passivo ordena. que tirareis todo o encanto da vida. à força de se concentrar dentro de si. um ato benfazejo ou um ato malfazejo? Por quem vos interessais mais em vossos teatros? É com a maldade que vos divertis? É com seus autores punidos que derramais lágrimas? Tudo nos é indiferente. as paixões são a voz do corpo. exceto nosso interesse. do que César triunfante? Tirai de nossos corações esse amor ao belo. oh. deixando à parte qualquer interesse pessoal. assim como uma doce trnura nunca umedece seus olhos. nada mais é do que um hábito privado de reflexão. assim como o lobo para devorar sua presa. paradoxo muito estranho para valer a pena ser examinado. proseguiu meu benfeitor. e só quando se comercia com ela é que se recorre às sutilezas do raciocínio. esses transportes de amor pelas grandes almas. quando. que só admite o que explica. então. vendo que eu ia interrompê-lo: esperai que eu me detenha um pouco mais a esclarecê-lo. O primeiro de todos os cuidados é o consigo mesmo: todavia. qual a relação que ele tem com nosso interesse privado? Por que eu preferiria ser Catão. A Consciência segundo Rosseau (Profissão de Fé do Vigário Saboiano) Não tiro dessas regras. matando-as em seguida para deixá-las ali. O instinto. fazemos o mal! Acreditamos seguir o impulso da natureza e lhe resistimos. e mesmo em nossos prazeres. à paciência com que as guarda. Qual o espetáculo que mais nos envaidece. pergunto que nome devo dar ao ardor com que meu cão faz guerra às toupeiras que não come. Sem entrar aqui nessa discussão. as doçuras da amizade humana nos consolam em nossas penas. no fundo. o homem humano seria um animal tão depravado quanto um lobo desprezível. tudo o que sinto ser bem é bem e tudo o que sinto ser mal é mal: o melhor de todos os casuístas é a consciência. Aquele cujas paixões vis sufocaram esses sentimentos deliciosos em sua alma estreita. Se não concorda. sem que jamais alguém o . mas as encontro. a maneira pela qual ele explica esse progresso obriga-nos a concluir que as crianças refletem mais do que os adultos. o homem não poderia ser são de espírito. a bondade não seria senão um vício contra a natureza. que rasga as entranhas. Basta-me consultar-me sobre o que quero fazer. quantas vezes a voz interior nos diz que.

passando a dedicar-se às matemáticas. que o expliquem de maneira satisfatória para todo homem sensato. a idéia de velocidade que fundamentava seu cálculo. escreveu. desde 1665. com quem discute problemas metafísicos. como Platão (428-347 a. A partir de então. Aos quinze anos começou a ler Bacon (1561-1626). com o qual tudo poderia ser descoberto. Leibniz foi encarregado de uma missão em Paris. foi nomeado conselheiro da Alta Corte de Justiça de Mogúncia. então não teria mais nada a dizer e não mais falarei de instinto. Pretendia convencer o rei Luís XIV a conquistar o Egito. a 1° de julho de 1646. doutorou-se em direito na Universidade de Altdorf e. pequenino. em 1672. filho de um professor de filosofia moral. a Turquia e protegendo a Europa das invasões "bárbaras". na primeira vez em que ameacei esse mesmo cão. Leibniz encontrou os elementos que o levaram à idéia de uma análise combinatória filosófica. Em Newton. aniquilando. Leibniz. Por outro lado. e com a filosofia e a teologia escolásticas. Nos anos seguintes. Quê?! meu cão. por que. desviar as atenções do rei e evitar que ele utilizasse sua potência militar contra a Alemanha.C. sendo dotado também daquela "ardente ambição que levara Bacon à ruína".). introduzindo a noção de quantidades infinitamente pequenas. Huygens (1629-1695). sendo. Que os filósofos. Esperava. eu lhe batesse. Em 1667. Aristóteles (384-322 a. Galileu (15641642) e Descartes (1596-1650). Fora. (Nota de Rosseau) Leibniz Vida e Obra Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig. Leibniz se preocupou em vincular a filosofia às matemáticas escrevendo uma Dissertação Sobre a Arte Combinatória. Leibniz encontra-se em Amsterdam com Espinosa. precedido por Newton. Entrou em contato com alguns dos mais conhecidos intelectuais da época: Arnauld (1612-1694). apresenta muitas semelhanças com a de Bacon: Leibniz sabia mover-se agilmente em meio às intrigas da corte a fim de realizar seus grandes planos. Desde muito cedo. postura em que não permaneceria se. as variações das funções são comparadas ao movimento dos corpos. o que o leva a empregar o algoritmo. no entanto. O ingresso nessa Sociedade valeu-lhe uma pensão e. no estudo da lógica aristotélica. em Nuremberg. mas os três anos de estada em Paris não lhe foram inúteis. Em 1676. Desde essa época. ao contrário. foi convidado para fazer a revisão do "corpus juris latini".C. já teria adquirido idéias morais? Sabia o que era clemência e generosidade? Em virtude de que luzes adquiridas esperava me acalmar. teve contato.149 tenha dirigido para essa caça ou lhe ensinado que existem toupeiras. Seu projeto foi rejeitado. Ainda aluno da Universidade de Leipzig. situando-se entre os maiores matemáticos da época. já inventara.). queiram explicar esse fato apenas pelo jogo das sensações e dos conhecimentos que elas nos fazem adquirir. permitiu que ele se iniciasse na vida política. mal acabado de nascer. numa atitude suplicante e mais própria para me comover. desse modo. Em 1676. um trabalho sobre o princípio da individuação. Leibniz dedicou ao príncipe-eleitor de Mogúncia um trabalho no qual mostrava a necessidade de uma filosofia e uma aritmética do direito e uma tabela de correspondência jurídica. Pergunto ainda. vislumbrando a possibilidade de cria um alfabeto dos pensamentos humanos. sem me deixar dobrar. segundo o historiador Windelband. que inventaria ao mesmo tempo que Newton.) e Virgílio (c. a vida de Leibniz. assim. um novo método de cálculo. Com esse título. cidade na qual passaria ao restantes quarenta . depois foi para Iena. 70-19 a. e nada falo aqui que não possa ser verificado por todos.C. Leibniz descobriu o cálculo diferencial. em 1663. o método das fluxões. Em 1670. a fim de seguir os cursos do matemático Ehrard Wigel. portanto. No mesmo ano torna-se bibliotecário-chefe em Hanôver. parte de uma colocação metafísica. Por causa desse trabalho. Nesse trabalho procurou encontrar para a filosofia leis tão certas quanto as matemáticas e esboçou as premissas do cálculo diferencial. na biblioteca paterna. com filósofos e escritores antigos. Hobbes (1588-1679). embora sob ponto de vista diferente. que. ao que tudo indica. que tão desdenhosamente rejeitam o instinto. abandonando-se assim à minha discrição? Todos os cães do mundo fazem quase o mesmo no mesmo caso. filiou-se à Sociedade Rosa-Cruz. ele se atirou de costas no chão. as patas dobradas. e isso é mais importante.

científicos e filosóficos de seu tempo. Ensaio de Teodicéia. Leibniz conservou a concepção segundo a qual o universo está organizado de maneira teleológica. considera que Leibniz perseguia um sincero ideal de síntese de todos os conhecimentos e das diferentes confissões religiosas de seu tempo. é a razão suficiente. De Aristóteles e da escolástica. Em 1711. que uma coisa só pode existir necessariamente se. realizando pesquisas em bibliotecas e arquivos destinadas a fundamentar suas missões diplomáticas. Sobre a Origem Radical das Coisas. Nessa época.150 anos de sua vida. ao qual dedicaria a Monadologia. O princípio de razão afirma. Sobre as Noções de Direito e de Justiça. espécie de cálculo filosófico que lhe permitiria encontrar o verdadeiro conhecimento e desvendar a natureza das coisas. a Alemanha e a Itália. Correspondência com Clarke. Leibniz veio a falecer a 14 de novembro de 1716. a coisa em questão também existe realmente. Em seguida. ao contrário. acontece para cumprir determinados fins. realizou seus principais trabalhos filosóficos. é a razão necessária ou princípio de não-contradição. cumprindo objetivos propostos pela mente divina. A Segunda exigência consiste em que. esteve em Viena. durante três anos. pode-se tomar para ponto de partida da compreensão da sua filosofia dois temas provenientes de fontes distintas: um da filosofia de Descartes. Dentre seus escritos destacam-se: Sobre a Arte Combinatória. Outra parte (a volumosíssima correspondência e os trabalhos publicados somente após sua morte) revela – segundo Russel e outros – um pensador bastante diferente do Leibniz público Acrescentando-se a essa dupla face de seus escritos o fato de que muitos deles sequer foram concluídos. Característica Universal. outro de Aristóteles e da escolástica medieval. apesar de ter sido um dos maiores responsáveis para que Hanôver se transformasse em eleitorado e para que fosse criada a Academia de Ciências de Berlim. De qualquer modo – e embora Leibniz tenha criado um amplo sistema de idéias dotado de "múltiplas entradas" –. fazendo todas as conciliações possíveis. um plano de organização civil e moral para o país. O primeiro desses princípios é o de razão. a princesa Sofia. aparecendo unificadas na concepção de Deus. Relativamente esquecido e isolado dos assuntos públicos. possível sua existência). O que é Idéia. o mundo criado por Deus estaria impregnado de racionalidade. Descartes forneceu-lhe o ideal de uma explicação matemática do mundo. além de explicado ou demonstrado não ser contraditório (e sendo. ou seja. A primeira funda-se no caráter não-contraditório daquilo que é explicado ou demonstrado. em que trata de quase todos os assuntos políticos. Sobre a Sabedoria. Leibniz encontrou diminuído seu prestígio. Cálculo Diferencial e Integral. o Grande. com os quais – segundo muitos historiadores – tentava apenas obter favores dos governantes. Conseqüentemente. De volta a Hanôver. Dilthey. Saiu de Hanôver apenas para percorrer. Para Leibniz. torna-se bastante difícil uma interpretação da filosofia leibniziana que não dê margem a dúvida e não suscite polêmica. houver uma causa que a faça existir. a vontade do Criador (na qual se fundamenta o finalismo) submete-se ao Seu entendimento (racionalismo). Correspondência com Arnauld. . com a morte de sua protetora. dos quais se poderiam deduzir uma concepção do mundo e uma ética dotada inclusive de implicações políticas. As duas doutrinas foram sintetizadas pela filosofia de Leibniz. Essa síntese entre o racionalismo cartesiano e o finalismo aristotélico apresenta como núcleo uma série de princípios de conhecimento. Racionalismo e Finalismo Apesar de sua intensa e agitada vida pública. Monadologia. portanto. O princípio de razão consiste em submeter toda e qualquer explicação ou demonstração a duas exigências. Considerações Sobre o Princípio da Vida. Parte considerável da obra de Leibniz e constituída por escritos de circunstância. viajou para a Rússia a fim de propor ao czar Pedro. Sobre a Liberdade e Correspondência com Padre Bosses. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. Leibniz pretendia lançar as bases de uma combinatória universal. onde conheceu o príncipe Eugênio de Savóia. Deus não pode romper Sua própria lógica e agir sem razões. Sobre o Verdadeiro Método em Filosofia e Teologia. portanto. a partir dessa idéia. pois estas constituem Sua natureza imutável. tudo aquilo que acontece. além de não ser contraditória. Discurso de Metafísica. Leibniz deixou uma obra extensa.

O princípio dos indiscerníveis daria conta da multiplicidade e individualidade das coisas existentes. noção fundamental de sua metafísica. isto é. a partir de si mesmas. ao contrário. Leibniz completa a fórmula de Locke – "Nada há no intelecto que não tenha passado primeiro pelos sentidos" – com o adendo "a não ser o próprio intelecto". essas eternas leis da razão. O finalismo sustenta. isto é. Nos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. a mônada é a consciência. Por isso. da razão suficiente. O princípio da continuidade afirma que a natureza não dá saltos. que dão conta da produção das coisas. por sua resistência e impenetrabilidade. as mônadas. As notas que caracterizam as mônadas leibnizianas são a percepção. da continuidade e dos indiscerníveis são considerados. passando de uma percepção para outra. além da causa eficiente que produz as coisas segundo o princípio de razão (nãocontadição e suficiência). cada uma de per si espelha o universo todo. uma vez que as ocasiões são fornecidas pelos sentidos". A primeira é de tipo matemático e mecânico. enquanto toda a . por exemplo. sem mundo sensível. explica os seres não como máquinas que se movem. O fim da produção das coisas é a vontade justa. assim como não há vazios no espaço. a experiência só fornece a ocasião para o conhecimento dos princípios inatos ao intelecto: "Não se deve imaginar que se possa ler na alma. Nesse sentido. o otimismo leibniziano do melhor dos mundos possíveis. Cada representação por parte das mônadas é um reflexo obscuro. por outro lado. uma folha de papel em branco. Leibniz rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704). revelam-se não como extensão mas como forças. constitutivos da própria razão humana e. as mônadas. cada ser é em si diferente de qualquer outro. Leibniz chega à idéia de que o universo é composto por unidades de força. por Leibniz. A diferença é de essência e manifesta-se no plano visível das próprias coisas. A apetição consiste na tendência de cada mônada de fugir da dor e desejar o prazer. portanto. Leibniz afirma. A partir da noção de matéria como essencialmente atividade. mas têm o poder interno de exprimir o resto do universo. que deseja essa produção. Para Leibniz. Enquanto Descartes formula uma concepção geométrica e mecânica dos corpos. Os princípios do melhor. intervém também nessa produção a causa final. jamais havendo consciência clara de todas as impressões. segundo a qual a origem das idéias encontra-se na experiência. embora apenas virtualmente. mas errariam ao esquecer o papel do espírito. que as plantas não passam de animais imperfeitos. a Segunda é dinâmica e moral. a experiência indica que o que se conserva num ciclo de movimento não é – como pensava Descartes – a quantidade do movimento. da não-contradição. Leibniz chega também à noção de mônada mediante a experiência interior que cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma substância ao mesmo tempo una e indivisível. Leibniz faz com que intervenham também os princípios da continuidade e dos indiscerníveis. apenas uma "tabula rasa". Além dos princípios de razão (não-contadição e suficiência) e do princípio do melhor. com ele Leibniz pretende demonstrar que o mal é a simples sombra necessária do bem. mas como forças vivas: "Os corpos materiais. assim também não existem descontinuidades na hierarquia dos seres. mas intrínseca. Pela percepção as mônadas representam as coisas do universo. A apercepção é a capacidade que a mônada espiritual tem de auto-representar-se. a apetição e a expressão. a apercepção. Os Fundamentos da Monadologia esforços e sem pesquisa. Os empiristas teriam razão ao afirmar que as idéias surgem do contato com o Os princípios do conhecimento formulados por Leibniz levaram-no a uma concepção do mundo oposta à cartesiana. Essa noção. Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos e que sua diferença não é numérica nem espacial ou temporal. Isto se deve ao fato de que o universo é múltiplo e infinito. não recebem seus conhecimentos de fora. Finalmente. desse modo. Leibniz constrói uma concepção dinâmica. contudo. O critério do melhor é sobretudo moral. como o édito do pretor é lido em seu caderno. O finalismo é que sustenta o princípio do melhor: Deus calcula vários mundos possíveis. mas é bastante que as descubramos em nós por um esforço de atenção. a mônada é um ponto de vista. inatos. mas a quantidade de força viva".151 Para Leibniz. mas faz existir o melhor desses mundos. de refletir. não se esgota na adição do atributo força ao conceito da matéria. formulado por Descartes. boa e perfeita de Deus. não tendo "portas sem janelas".

de alguma forma. em Leibniz. por conseguinte. cada ponto de uma das séries é definido. A percepção consciente (apercepção) resulta do conjunto das "pequenas percepções". encontra-se no fato de que as mônadas não possuem o mesmo grau de perfeição: acima das "mônadas nuas" (corpos brutos que só têm percepções inconscientes e apetições cegas) existem "mônadas sensitivas" (animais dotados de apercepções e desejos) e as "mônadas racionais". deixando em seguida que seus mecanismos operem sozinhos. A noção de ordem. Assim. isso constituiria a harmonia preestabelecida. Deus escolhe o melhor dos mundos dentre todos aqueles que se apresentam como possíveis. físico e moral.152 substância. criando-as de tal modo que cada uma se desenvolve como se estivesse só. o sistema de Leibniz estrutura-se como um conjunto de múltiplas séries que convergem e se entrecruzam. que se deve ouvir mesmo sem ter consciência. assume feição diferente da que possuía em Descartes: desliga-se da de nexo linear e passa a se vincular à noção de "situação" (as situações resultantes das diversas séries que se entrecruzam). O mal metafísico seria a fonte do mal moral. de uma mathesis universalis. Ao mesmo tempo. "que não nos apercebemos distintamente de todos os movimentos de nosso corpo. O pluralismo das séries convergentes que constituem o universo pode assim apresentar-se como pluralismo conciliado e harmônico.. a fim de poder me aperceber daquilo que resulta de seu conjunto. mesmo quando esquecidos no estado de vigília.). organiza-os com perfeição de maneira a marcarem sempre a mesma hora e dá-lhes corda a partir do mesmo instante. dentro da complexa teia. O inconsciente seria inerente a todas as substâncias criadas e seus diferentes graus seriam paralelos aos graus de perfeição dessas substâncias. conduz à possibilidade de tradução de uma ordem em outra. Portanto. isto é. todos os seus movimentos correspondem certas "percepções" ou pensamentos mais ou menos confusos da alma. sua posição. Deus teria colocado em cada mônada. seria o próprio Deus. O corpo humano. todavia. Leibniz afirma ainda que existem dois tipos de inconscientes: o inconsciente de percepção. mas é preciso que eu tenha alguma percepção do movimento de cada vaga de um rio. próprio das simples mônadas enquanto são apenas "espelhos do universo". os estados sucessivos da alma estariam ligados uns aos outros e a todo universo. a alma também tem algum pensamento de todos os movimentos do universo. pertencente apenas aos espíritos enquanto não são apenas espelhos. e deste decorreria o mal físico. Para Leibniz. todas as suas percepções. por seu lugar. O Melhor dos Mundos Possíveis O racionalismo leibniziano tende à constituição de um saber globalizador. é afetado. A razão dessa diferença. no instante da criação. como o ruído do choque de duas gotas de água. os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras. assim estruturado. os pontos de vista de cada mônada sobre o universo concordariam entre si. esse grande ruído que se escuta perto do mar". como por exemplo o da linfa (. o conjunto todo organiza-se numa topologia. seu desenvolvimento. revive o modelo estóico: o universo é concebido à semelhança de um organismo pleno. O sistema todo. A imperfeição metafísica original de definiria. pela mudança de todos os outros. Isso explicaria a conservação das lembranças. Do ponto de vista lógico. "É verdade". Dessa forma. Em Leibniz. o trabalho da imaginação nos "bastidores da consciência". assim como a realidade dos sonhos. diz Leibniz.. com consciência e vontade. afirmando inicialmente que o mal se manifesta de três modos: metafísico. apenas como uma não- explicar a presença do mal no mundo? . exatamente ao de todas as outras. Coloca-se então a questão: como Leibniz tentou responder a esse problema. com exceção de Deus. isto é. Assim. assim. é necessariamente finita. e o inconsciente da imitação. Graças a essa harmonia preestabelecida. mas espelhos dotados de reflexão. para Leibniz. pois se ela não fosse imperfeita. a cada instante. a continuidade existente entre os seres não anula a diferença de natureza entre as simples mônadas e os espíritos. cujas partes convivem numa harmonia natural e onde tudo é análogo a tudo. corresponde. toda mônada. A doutrina leibniziana da harmonia preestabelecida sustenta que Deus cria as mônadas como se fossem relógios. O mal metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura. não é possível "que nossa alma (mônada superior) possa atingir tudo em particular".

de fato. e. isto é. apenas como uma não-perfeição. pois trata-se de um período inicial.) Pode-se pois questionar se todas as criaturas avançam sempre.153 perfeição. tem percepções inadequadas e se deixa envolver pelo confuso. ao menos no final de seus períodos.. mas procurará alimento no ativismo agitado e sem meta. tão característica dos homens da época. entretanto. Ao produzir o mundo tal como ele é. o velho persiste ao lado do novo. Algumas passagens das obras do próprio Leibniz. celebrado. exerce-se uma certa matemática divina. sem possibilidade de erro. dominador da natureza. para o qual o Humanismo. um paganismo ainda mais radical que o antigo. Maior?" A teoria do Mal. imanentista. que recuam depois de terem avançado. ou avançam depois de terem recuado. porque Deus proporciona a todos as mesmas graças. como a circular. (. sobretudo. metafísica original se definiria. tal espírito era corrigido. ao mesmo tempo. outras que voltam e avançam ao mesmo tempo. como as ovais". isto é. O mal metafísico é a raiz do mal moral. e de que parece um retorno. que a alma experimenta por causa de sua imperfeição. contudo. É uma multiplicidade de motivos indiscutivelmente dominada pelo espírito panteísta do neoplatonismo. assim como a correnteza é a causa do movimento do barco. mas não de seu atraso. retomando Leibniz a concepção neoplatônica e agostiniana. diz Leibniz. apela. gozar com meios humanos. da mesma forma que existem linhas que avançam sempre. dominar. formulada por Leibniz. na Idade Média. Mas o início do Humanismo e da Renascença é rico de todos os germes que se desenvolverão no sucessivo período moderno. . mas cada um pode se beneficiar delas de acordo com sua limitação original. um não-ser. exaltado até à divindade. de humanismo e de imanentismo. imanentista. mas uma substância imperfeita não é capaz de aprender o todo. pelo seu naturalismo que diviniza o homem material . o que é manifestado pelo seu individualismo.como já aconteceu no paganismo antigo. senhor do mundo. outras que voltam sem avançar ou recuar. ou se existem também aquelas que perdem e recuam sempre. Leibniz afirma que. Segundo Leibniz. que atravessou toda a Idade Média. enfim. do Humanismo e da Renascença não é coisa fácil. se existem aquelas que realizam períodos no final dos quais percebem não ter ganho nem perdido. O mal físico é entendido por Leibniz como conseqüência do mal moral. outras. pelo seu ardente interesse pelo mundo a conquistar. Na própria origem das coisas. uma conseqüência física da limitação original e uma conseqüência ética. religiosamente. ou. ou mecânica metafísica. O Humanismo pode. sem nunca se ter estado doente? Não é preciso que um pouco de Mal torne o Bem sensível. Dar uma documentação formal desse caráter pagão. como a espiral. a dor física seria expressão da dor metafísica. pois aquilo que é perfeito pode contemplar o Bem. punição do pecado.. mas não de seus defeitos. responsável pela determinação do máximo de existência. falta ao Humanismo moderno a espontaneidade e a serenidade do paganismo antigo: o Humanismo moderno não descansará em um tranqüilo gozo da vida. Não se deveria. concluiria assim sua tentativa de síntese sistemática de uma filosofia que concebe o mundo como rigorosamente racional e como o melhor dos mundos possíveis. contudo. pelo seu estetismo. livre de si mesmo. porquanto espiritual e interior. Deus autoriza o sofrimento porque este é necessário para a produção de um Bem Superior: "Experimenta-se suficientemente a saúde. finalmente. deixam uma réstia de dúvida sobre seu otimismo: "Pode-se duvidar se o mundo avança sempre em perfeição ou se avança e recua por períodos. em que se poderá claramente conhecer a árvore pelos frutos. assim também Deus é a causa da perfeição da Natureza. como a reta. logo. definir-se pela palavra: o homem potenciado. característico da idade moderna. particularmente no campo da prática. em que se entretecem motivos multíplices. dando origem àquela duplicidade especulativa e prática. É. responsabilizar o criador pela existência do mal. podendo ser considerado. Em decorrência da harmonia preestabelecida. de tal forma que o mundo comporta o máximo de bem e o mínimo de mal. Entretanto. assim. tão rigorosa quanto as dos máximos e mínimos matemáticos ou as leis do equilíbrio. Deus escolheu o menor dos males. com razão. A Renascença Características Gerais A Renascença é uma poderosa afirmação.

não é obra dos séculos XV e XVI. O renascimento cristão. Mestre Eckart). a técnica. naturalmente. É uma dualidade composta de velho e de novo. e prefere o paganismo ao cristianismo. o ideal da vida daquela época. racionalmente. o maior filósofo da época. em que não será difícil separar o elemento interior do elemento exterior: se se considerar. clássicas. ou a panteísta de Averroés. em geral.a ciência. tal conhecimento e valorização diziam respeito aos maiores filósofos gregos. não obstante a variedade de suas orientações. o epicurismo. Na Renascença são representadas. já não é mais possível o retorno à serenidade clássica de Aristóteles ou ao ascetismo imanentista dos estóicos. conhecedores profundos de Platão. Na Renascença. já porque a sua fundamental concepção panteísta e o seu potenciamento do espírito humano podiam melhor corresponder ao imanentismo e humanismo da Renascença. Entretanto foi o Concílio de Florença (1439) que deu um impulso decisivo aos estudos platônicos na Itália ¾ bem como aos estudos aristotélicos e dos filósofos clássicos.não se podem dizer imanentistas antes que cristãos. iniciando. em si mesmos. são infrafilosóficos. medeiam quinze séculos. e enaltecia não o Pobrezinho de Assis e sim o Príncipe Valentino. a história. Essa é a alma. Em 1429 o camaldulense frei Ambrósio Traversari. e viu Francisco de Assis e Antonio de Lisboa. neoplatonismo: já porque assim se tinha fixado na antigüidade e neste sentido influenciara toda a Idade Média (pseudo Dionísio Areopagita. O aristotelismo da Renascença exclui. precipuamente a primeira. todas as escolas filosóficas antigas: o platonismo. mais propriamente. E. que chamava virtude a força. indiferentes a qualquer concepção da realidade. que . Esses elementos são essencialmente formais e estéticos porque a grande valorização cristã da civilização clássica .sem possuir uma metafísica consciente . não o valor. que seria uma contradição em termos. No entanto. mas do século que se abre com Inocêncio III e se encerra com Dante. presente em todas elas. Na Idade Média o pensamento clássico foi bem conhecido e valorizado. portanto. a unidade real e potencial dos grandes valores da civilização no valor sumo da religião. mera obra do homem. nem podiam ser.era já um fato consumado. mas tem consciência de que a sua doutrina . E valorizam-se as antigas escolas filosóficas. monista e humanista . em oposição ao espírito cristão. do Humanismo e da Renascença: uma alma pagã. Naturalmente não são. Esse Concílio foi convocado para a união da igreja grega com a igreja latina. pois. o significado. ao lado do humanismo pagão. a renascença platônica. e sustenta ou a interpretação naturalista de Alexandre de Afrodísia. Especialmente as duas primeiras e.é um crepúsculo preludiando o dia e não a noite. Outros vieram pouco depois. entre estas. mais ou menos. após o aparecimento da Cruz. realçando-lhes o conteúdo de humanidade. se se pensar em Giordano Bruno. as escolas filosóficas clássicas em sua espontaneidade original. destarte. estando acima da religião e da moral transcendente. ao contrário. e chamou para a Itália vários doutores orientais.racionalista. pela escolástica tomista. um humanismo cristão. e. O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas Uma das manifestações características da Renascença é o renovamento das antigas escolas filosóficas. teórico do amor e da beleza. entre a classicidade e a Renascença. O platonismo é. iniciador da ciência matemática da natureza. O Platonismo O ídolo da Renascença é Platão: artista e dialético. se se tiver presente Nicolau Machiavelli. profundamente influenciados pela mensagem cristã. o estoicismo. é o vértice da humanidade. o ceticismo e o ecletismo.do pensamento grego e do jus romano . gregas. pois. a interpretação de Aristóteles dada por Tomás de Aquino. Em 1404 Leonardo Bruni aretino (1369-1440) publicava a primeira tradução parcial de Platão. levava para a Itália o conjunto completo dos escritos platônicos. E os elementos novos do humanismo . volta-se à sancta antiquitas. Scoto Erígena. a política . o aristotelismo. Domingos de Gusmão e Tomás de Aquino. de volta de Constantinopla. em especial a Aristóteles. em geral. Não há.154 pela teologia católica e. devido à queda de Constantinopla . o qual parece reconhecer a obscuridade e a incoerência do seu pensamento.está persuadido de que o Estado.

Seu principal representante foi Marsílio Ficino. considerando o intelecto humano como sendo a atividade de uma essência transcendente e divina. que vai desde os antigos sábios e filósofos . Pulci. que o presenteou com uma Quinta. porquanto. ambas contrárias à interpretação tomista-cristã. pela sua doutrina em torno de Deus e da alma.até o cristianismo: expressão do universalismo religioso da Renascença. Esse escrito provocou uma resposta violenta ao aristotélico Jorge de Trebizonda (Comparatio Platonis et Aristotelis). que professa verdadeiramente um ecletismo baseado no platonismo e no cabalismo. para tratar da unificação da igreja grega com a igreja latina. entretanto. onde foi celebrado o famoso Concílio. é uma polêmica antiaristotélica. e a panteísta-neoplatônica. Traduziu elegantemente. Como já foi dito. eminente prelado da igreja oriental. o mais famoso platônico pode ser considerado João Pico della Mirandolla (1463-1494). veio para a Itália com o séqüito do imperador João VII Paleólogo. Também o aristotelismo. que influiu no seu temperamento exuberante e passional. além de outros neoplatônicos. inspirando-se em Averroés. após várias peregrinações.1491). Esta academia nasceu graças a um cenáculo de literatos. com o cristianismo. Expôs o seu pensamento em uma grande obra (Theologia platonica de immortalitate animorum . Orfeu. aparecem confusos no sincretismo neoplatônico. Em 1473 foi ordenado padre e a sua vida foi muito austera no meio de Florença do século XV. replicou contra Jorge de Trebizonda o seu concidadão Basílio Bessarione (1403-1472) com o escrito In calumniatorem Platonis. Platão . Fizeram parte deste cenáculo Poliziano. Famoso é Jorge Gemistos Pleton (1355-1450). Faleceu em 1499. cujo imanentismo naturalista é mais conforme ao espírito do Renascimento. mas que teve no humanismo do Renascimento um valor e um significado particulares. amigos da casa De Médicis. Sua idéia animadora é a exaltação do homem como microcosmo. autor de De dignitate hominis. Depois desse platonismo de importação oriental. artistas e pensadores.sustenta a superioridade de Aristóteles sobre Platão pelo seu espírito científico. em que procura concordar o platonismo. o Magnífico. entre os quais lembramos. graças aos sábios gregos vindos para a Itália. como o platonismo. o Magnífico. síntese do universo: conceito antigo. Dotado da mais vasta e heterogênea cultura. estabeleceu-se em Florença junto de Lourenço. Teodoro de Gaza e o já mencionado Jorge de Trebizonda. pode consagrar toda a sua vida aos prediletos estudos filosóficos. Marcílio Ficino nasceu em 1433 em Figline Valdarno. João Pico della Mirandola e o próprio Lourenço. contrasta o humanismo imanentista da mesma Renascença. para o latim. Depois de Marsílio Ficino. Este filósofo . mas um eclético e suas finalidades eram morais. Sua atividade principal foi traduzir. em que acreditava seriamente. autor da obra Sobre a Diferença da Filosofia Platônica e Aristotélica.apelando também para Tomás de Aquino . que. Aí entrou em contato com Marsílio Ficino.(1453) em mãos dos turcos. animador da célebre academia platônica florentina. Bessarione. na Segunda metade do século XV surge e firma-se um platonismo italiano. o aristotelismo da Renascença se distingue em duas correntes principais: a naturalista inspirando-se em Alexandre Afrodísio. teve impulso. Da parte platônica. onde teve sua sede a academia platônica. cooperando eficazmente para o incremento do ressuscitado helenismo. Outra idéia sua inspiradora é o conceito de uma continuidade do desenvolvimento religioso. 155 . e pela conseqüente possibilidade de concordar a sua filosofia com o cristianismo. que é a tendência especulativa dominante na época. equilibrando-o filosófica e religiosamente.Zoroastro. no século XV. neoplatônico. Entretanto não foi um metafísico. Prevalece a escola alexandrina. Protegido por Cosme De Médices. freqüentemente. A escola averroísta. O centro foi precisamente Florença.e foi tido por seus contemporâneos como um prodígio de memória. de que era entusiasta. Foi feito cardeal pelo Papa Eugênio IV e permaneceu na Itália.escreve Franca . realmente. "Blasonava de poder disputar de omni rescibili . Pitágoras. tradutores de Aristóteles e dos seus comentadores. Aos 18 anos sabia 22 línguas"! O Aristotelismo Não é sempre fácil distinguir o aristotelismo do platonismo da Renascença. Platão (1477) e Plotino (1485).

E também este novo ceticismo renascentista surgiu mais por fins práticos do que por motivos teoréticos. publicado em Bolonha em 1516. O estoicismo da Renascença. em especial na vida gozadora e requintada. a moral estóica. ao passo que a história tem como objeto o particular. Valla oscila entre a sua negação e uma representação no sentido hedonista. contra a concepção transcendente e ascética cristã. Entretanto. onde faleceu em 1525. voltados para o universo e o abstrato. esse seu racionalismo com a religião cristã. são duas expressões práticas desse espírito epicurista. e Pomponazzi replica como uma Apologia (contra Contarini) e com um Defensorium (contra Nifo). freqüente e violentamente. autor de De Constantia. uma certa conciliação entre epicurismo e cristianismo. O aristotelismo teve. Nem a morte pôs termo àquela polêmica. e incapaz de levantar grandes construções sistemáticas. alexandrista. O estoicismo não foi apenas objeto de admiração cultural. voluptuosa e artística da cortes esplêndidas da época. impassível. recorre a certas distinções que relembram a velha teoria averroísta das duas verdades: a religião é.uma imitação da realidade. o acidental. é preso pela ação. melhor do que o estoicismo. e também na literatura e no pensamento. O expoente mais notável dessa tendência epicurista é Lourenço Valla (1407-1459). mas tornou-se ideal de vida moral em lugar do cristianismo. pois. naturalmente. tendo esta atacado. o contingente. onde o autor compara a moral estóica e a epicurista. com esta última. Respondiam a Pomponazzi. Quanto à vida futura. simpatizando. da poética. Parte-se da Poética de Aristóteles. Neste opúsculo conclui em favor da mortalidade da alma. É célebre o seu opúsculo Sobre a Imortalidade da Alma. a mentalidade literária da época. porém. em o século XIV. apaixonada pela estética. o mundo. o Magnífico. Nifo (averroísta) e Contarini (tomista) com dois ensaios tendo o mesmo título (Sobre a Imortalidade da Alma). escola de energia e de conforto. negador da ação. mas fica decididamente hostil ao ascetismo. a arte é superior à história. em oposição ao pensamento antigo e medieval. Dominador das coisas e dos eventos. justificada como sendo a filosofia do vulgo. que julgava salvar a fé deprimindo a razão. imanentista e mundano da Renascença. sustentando que esta realiza o seu fim último na vida terrena. Em torno deste tema se travam as disputas mais variadas. em especial por parte dos literatos. considerada causa de perturbação. da concretidade. o necessário. Seja como for. mais ou menos ajustada ao cristianismo. em torno de que se disputou longa e fervidamente. professor em Lovaina. o contraste entre a 156 . condizia com o espírito humanista. e Lourenço. a essência das coisas. quer estóico. Aristóteles sustentara ser a arte . autor do Decamerone. a religião. na Renascença. porquanto tem como objeto o universal. uma fortuna especial no campo da estética. autor do famoso livro De voluptate ac de vero bono. Os motivos mais específicos que deram origem ao ceticismo da Renascença foram: a sede do individual. literária. desfrutou de grande favor junto dos filósofos das mais diferentes tendências nos séculos XVI e XVII. e tente. O Epicurismo O epicurismo. a religiosidade persistente. por obra de Jorge Valla. a vida. diversamente do estoicismo clássico. João Boccaccio. no fundo. nascido em Mântua em 1462. Para conciliar.O mais famoso entre esses novos aristotélicos é Pedro Pomponazzi. no século XV. professor de filosofia nas universidades de Pádua. O Ceticismo Também o ceticismo da Renascença foi inspirado pelo ceticismo clássico. a paixão pela observação detalhada própria do pensamento moderno em geral. para finalidade prática e pedagógica.bem como a história . cuja primeira tradução remonta ao ano de 1498. quer cristão. O estóico mais notável da Renascença foi o belga Justo Lípsio (1547-1606). e de Manuductio ad stoicam philosophiam. a variedade e o contraste das diversas escolas e tradições (filosóficas e religiosas). O estoicismo renascentista enaltece o homem. Ferrara e Bolonha. O Estoicismo O espírito autônomo da Renascença devia provar viva simpatia para o sábio estóico.

A experiência histórica lhe diz que a natureza do homem é profundamente egoísta e malvada. é o autor dos famosos Essais: "Que sais-je"? O seu interesse é voltado para o estudo do eu. Este . Machiavelli propõe-se o problema: como constituir um estado. voltou ainda à pátria. mas teórico e técnico da renovada ciência da natureza. que o cristianismo oferece. É preciso constituir uma ciência política sobre a base de um utilitarismo rigoroso. A expressão clássica da nova ciência política é Nicolau Machiavelli. mundanas. e sim como caráter. centro unitário das mais variadas experiências humanas. Tudo o mais lhe parece incerto: os sentidos enganamnos. mas sem a explicação (o pecado original) e sem o remédio (a redenção pela cruz). necessariamente. não resolvem. não como substância espiritual. cuja solução. Entre seus escritos têm particular interesse filosófico Il Principe e os Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio.atinge a paz abandonando-se à diretriz da natureza. É o fruto do vivo interesse e da penetrante observação da experiência e da concretidade. Ele tem do homem uma concepção pessimista. O ceticismo da Renascença tem seus maiores expoentes fora da Itália. na Renascença. e não reconhece poder algum humano superior a ele. A este propósito é característica e intuitiva a comparação que Machiavelli faz entre o cristianismo católico e o paganismo antigo. Então é preciso organizar naturalisticamente e subordinar mecanicamente um complexo de paixões e de egoísmos a um egoísmo maior. tanto os indivíduos como todos os valores. humanista. Faleceu em 1527. francês. e sim teórico da técnica política. Nicolau Machiavelli Nicolau Machiavelli nasceu em Florença em 1469. concluindo em favor da superioridade (política) do segundo. Foi secretário e historiador da república florentina. Estas duas grandes conquistas  história e ciência  embora se apresentem em conexão com a filosofia imanentista. ficando no âmbito da experiência. a maior conquista do pensamento da Renascença. a ciência política e a técnica científica (ciência aplicada) que tiveram. ao passo que o cristianismo é uma concepção e uma praxe transcendentes e ascéticas. a que tudo deve ser subordinado. A Renascença A Política Nova e a Ciência Nova A prescindir da arte e da literatura. tem que transcender o próprio campo da experiência. a moral varia conforme os tempos e os lugares. Daí derivam. ético e religioso. e podem ser aniquilados pelo estado. O fim último é o estado. nem podem resolver o problema filosófico. e na ciência natural. O que especialmente emerge em Montaigne é o individualismo da Renascença. de direito são dela independentes. Miguel de Montaigne (1533-1592). não filósofo. semelhante à cristã. o do príncipe e do estado. história e ciência. como. quase que desconhecidos do pensamento clássico e do pensamento medieval. Destituído e exilado. chamado pelos amigos. está na história humana.157 exigência religiosa e o paganismo da vida que surgia de novo. aliás. Indivíduos e valores devem servir unicamente como instrumentos de governo. obscuro e abandonado. em que tudo é subordinado ao estado. naturalista da época.como já pensavam os céticos antigos . partindo do terreno realista da experiência e prescindindo de qualquer valor espiritual e transcendente. e o maior é Montaigne. Ele também não foi filósofo. Daí a necessidade da fé. a razão perde-se num labirinto infindo. Daí a máxima famosa: o fim justifica os meios. mas de uma fé em que Deus serve ao homem. Precisamente pelo fato de que o paganismo representa uma concepção e uma praxe humanistas. . o grande valor. até os morais e religiosos. inteiramente absorvidos pelo universal e pela transcendência. são independentes de qualquer filosofia: porquanto. o seu grande início. em seguida. mesmo que tenha veleidades e faça afirmações de alcance metafísico. ainda que o seu pensamento seja alicerçado na metafísica do humanismo e do imanentismo renascentista. E a maior expressão da ciência nova é Galileu Galilei.

pisar na realidade concreta. histórica. como matemático e filósofo. será preciso subordinar um princípio moral a outro princípio superior da moral (como. conserva um grande valor também para a concepção transcendente do mundo e da vida. Neste sentido conceberá a política o piemontês João Botero (1540-1617) na sua obra Della ragione di stato. fisiologia. para conservar a reputação real. aliás. têm na Renascença a sua maior expressão em Leonardo da Vinci e. mas. que condenou aquele sistema (1616). sobretudo em Galileu Galilei. e os meios para atingir o fim último não são substancialmente variáveis conforme as circunstâncias dos tempos e dos lugares. as seguir. em Roma e na França onde faleceu em 1519. em Florença. Ensinou nas universidades de Pisa e de Pádua. mas como cientista. ao domínio da natureza. Por isso. em que se revela um gênio soberano e um teórico genial. E. embora receba de Deus a sua eticidade transcendente. se se confrontar com uma concepção transcendente e ascética do mundo e da vida. mas fisicamente. para colher as essências imutáveis das coisas. perto de Florença. Entretanto. deriva da natureza racional do homem. isto é. Galileu estuda o mundo não para conhecê-lo metafisicamente. em harmonia com os ideais e as conquistas da idade nova. valorizar os homens efetivamente egoístas e inclinados ao mal. Pela sua defesa do sistema astronômico de Copérnico (heliocêntrico) foi para Roma onde foi processado pelo Santo Ofício. por vezes. em Florença. não é o estado e sim Deus. aconselha-o a respeitar plenamente a religião (católica). diversamente daqueles dois filósofos que partem da experiência para transcendê-la e construir uma metafísica geral e especial. como de Deus. e sim transcendentes (como todos os valores absolutos). Aplicou a matemática à física. a instintiva ferocidade humana. terá de agir com força decidida e com refinada prudência. com base na profunda experiência humana. à matemática. Leonardo fez uma notável quantidade de pesquisas e de invenções preciosas no campo das ciências: em matemática. ainda que deva mirar a um ideal superior e imutável. seus princípios teóricos. Galileu fica no âmbito da própria experiência. livro polêmico contra os aristotélicos. Leonardo da Vinci. astronomia. e o Diálogo delle scienze nuove (1638). instrumento precioso. nascido em Tosacana (Pisa) em 1564. Nesta obra. o grande metodólogo da ciência natural é Galileu Galilei. mecânica. muitas vezes. bem como o aconselha a encaminhar para a milícia e para a guerra. tendo defendido com persistência o supradito sistema. para chegar à razão. geologia. Como Aristóteles e Tomás de Aquino. como é a teísta e a cristã. dependem todos os valores e todo o ser. Entretanto. o estado. Não nos interessa como artista. de conformidade com o espírito católico e concreto da Contra-Reforma. círculos. Galileu Galilei As ciências físicas e naturais. é indispensável a fim de que o homem realize a sua natureza racional: é ético o estado. isto é. foi processado e condenado novamente em 1633. que foi causa do segundo processo. em Copérnico e Kepler. indispensável para tornar politicamente dóceis os homens. Aplicou ele imediatamente à técnica. nascido perto de Florença em 1452. pois o estado. publicados mais tarde. quadrados.158 A política de Machiavelli foi acusada. a política de Machiavelli não está em contraste com uma ética humanista e imanentista. anatomia. . que não tem fins transcendentes e leis morais estáveis. o que é verdade. que seria a razão que governa o mundo natural. convencido de que era mister partir da experiência. disciplinar. Leonardo não deixou obras sistemáticas e editadas. Entre suas obras são famosas: O Saggiatore (1623). botânica. etc. o livro da natureza é escrito com caracteres que são "triângulos. para a concretização dessa concepção transcendente da vida. porquanto a moralidade. na sua essência. isto é. Tais leis julga Galileu sejam as matemáticas. inclinados profundamente para o mal. por exemplo aconselha ele ao Príncipe ocultar prudentemente suas fraquezas eventuais. essencialmente imutável. tem que ter os pés sobre a terra. para colher os fenômenos e suas leis. pois. aliás. A doutrina política de Machiavelli todavia. pelo que diz respeito em especial à astronomia. Entretanto. exercitou a sua profissão de artista e técnico em Milão. Passou seus últimos anos de vida na vila de Arcetri. variável. em geral. Galileu está convencido de que o conhecimento humano deve firmar-se na experiência. técnico e teórico da ciência. o Diálogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632). deverá ser leão ou raposa  no dizer de Machiavelli. Galileu. Deve organizar. física. de imoralidade. acontece também na moral individual no caso do assim chamado conflito dos deveres). onde faleceu em 1642. e sim uma grande quantidade de apontamentos e bosquejos preciosos.

universal e necessário da ciência moderna. os sistemas. sobremaneira prejudicou à metafísica tradicional na idade moderna. o Sol está imóvel no centro do sistema e giram-lhe em volta os planetas e também a Terra que tem duplo movimento: diurno em volta do próprio eixo. quando confirmada experimentalmente. conexa necessariamente com a ciência da época. a posição. o movimento. contrariamente ao afirmado agnosticismo galileiano sob este aspecto cientificamente fecundo. que Galileu pressupôs para a sua gnosiologia empirista-matemática. Como é sabido. historicamente. uma sólida filosofia. que é a verificação da hipótese. liame este que. Caberá mais tarde a Newton completar o sistema com a grande lei da gravitação universal. finito. De volta à pátria. sendo seu verdadeiro fundador Copérnico. pirâmides e outras figuras matemáticas muito aptas para tal leitura". Spinoza. nem da dos seus juizes. retirou-se para Frauenburg. Ele também segue o princípio de que a natureza é governada por leis matemáticas: ubi materia. portanto. a alma nem sequer o elemento qualitativo da realidade empírica. Para constituir a ciência. Galileu considera objetivas as propriedades geométrico-mecânicas: a figura. ao passo que considera subjetivas (transformação das objetivas por obra dos nossos órgãos sensoriais) as propriedades qualitativas: a cor. ligada. na Polônia. Esta. poderá logicamente separar-se da física aristotélica e da astronomia ptolemaica. como diz Galileu. o sabor. e será tão fecundo em resultados práticos. católico convicto.que serão mais tarde chamadas qualidades secundárias. por conseguinte. metafísica. Quanto ao procedimento metódico e particular para construir a ciência. cones. sentido e discurso. com que estava de fato. por sua parte. b) a hipótese. Com Galileu começa a tendência da filosofia moderna . é mister a experiência e a razão.159 esferas. E temos. pela pretensão de explicar tudo matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da realidade. porquanto constitui sempre uma filosofia da natureza. o calor . Daí a explicação da matemática à física. E tal atomismo mecânico está logicamente em contraste com a convicção religiosa de Galileu. mesmo no seu aspecto racional-matemático. acarretaria consigo a ruína da filosofia. pois o atomismo mecânico implica evidentemente uma concepção materialista da realidade. o número . O que é irredutível à quantidade é considerado como subjetivo. o som. julgava-se erroneamente. e dedicou-se às meditações astronômicas. E destarte será ela inteiramente valorizável e conciliável com a metafísica tradicional aristotélico-tomista. e não pretenda tornar-se metafísica. Deste modo. publicada em 1543 e dedicada ao papa. Estudou em vários lugares. . a doutrina astronômica heliocêntrica chama-se copernicana. e não os homens e suas intenções. que se julgava.de reduzir a metafísica à física. Neste processo não há duvidar da boa fé de Galileu. c) a experimentação. A ciência galileiana é. que constituía a base racional da religião. O seu sistema astronômico pode ser assim resumido: o mundo é esférico. que não concernem à história da filosofia. técnicos. adquira consciência da sua limitação. uma ciência . onde era cônego. terá de se libertar de igualmente infundada pretensão de que também a ciência natural seja filosofia. portanto. Deus. em 1473. mecânica. a saber. o tamanho. ibi geometria. do outro lado. cujo objeto próprio são as idéias. o movimento dos corpos celestes é circular e uniforme. Nicolau Copérnico nasceu em Thorn. Leibniz. Pretensão evidentemente infundada.que serão mais tarde chamadas qualidades primárias. Será mister. porquanto não se podem reduzir à quantidade o espirito. transforma-se em lei.que se manifestará claramente no racionalismo de Descartes. quantitativa. resultando assim a físico-matemática: o que constituirá o elemento verdadeiramente racional. de um lado. o seu princípio racional é matemático: é físico-matemática. Galileu distingue três momentos principais: a) a observação. Esta. como ficou evidente também pelo famoso processo de Galileu. escapando ao alcance da físico-matemática. Em todo caso devemos prescindir de tais questões práticas. especialmente na Itália. que explica o equilíbrio dos corpos celestes. anual em volta do Sol. Temos. entre os quais se destaca São Roberto Belarmino. pessoais. permanecendo entre os limites da experiência. está evidentemente em contraste com o seu fenomenismo. sem razão. o frio. A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional O atomismo mecânico. que a ciência moderna. cujo resultado publicou na famosa obra De obrium coelestium revolutionibus. etc. e se julgava de direito. cuja ruína. todos os corpos celestes são esféricos.

conseqüentemente pode-se e deve-se compor a filosofia tradicional com a ciência nova. o segundo. não só não podem derivar da sensação. com suas inevitáveis conseqüências materialistas. entre a filosofia tradicional e a ciência nova.temor confirmado pela veleidade de interpretação da Sagrada Escritura. entre espírito e matéria). e também ele recorre a Deus para explicar as relações entre o espírito e a matéria.como Descartes e Spinoza . foi ordenado padre em 1664. Estudou filosofia no colégio "De la Marche" e teologia na Sorbona. pelo que diz respeito ao segundo. como a sensação. portanto. o temor da crítica demolidora. portanto. e pelo cartesianismo. nada mais são que o próprio objeto inteligível presente ao nosso pensamento: são idéias ontológicas. erradamente. indiferente. Acrescenta-se a tudo isso. Vida e Obras Nicolau Malebranche nasceu em Paris em 1638. se permanecer nos limites da experiência . nega também ele . especialmente os sentidos externos e atribui às idéias todo o valor do conhecimento. da ciência. o racionalismo cartesiano entra em síntese com o panteísmo neoplatônico. O Cartesianismo Nicolau Malebranche Com Spinoza. A ciência. erradamente. ao mesmo tempo. que. para ajustá-la à nova astronomia. pois. em 1660. acima de tudo. heliocêntrico. procurando conciliá-las no seu sistema filosófico. que. sofre um regresso sobre a linha do seu lógico desenvolvimento panteísta e racionalista. Traité de morale (1684). cujo objeto é metafísico. chega a conceber Deus como causa única. a saber.e se tivesse consciência da sua relatividade. entretanto não ousa afirmá-lo como substância única. Dos dois problemas fundamentais deixados em herança por Descartes (relações entre Deus e mundo. Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688). por parte da igreja católica. As obras de Malebranche tiveram grande êxito e levaram-no a várias polêmicas. Mas. o cartesianismo entra em síntese com o agostinianismo. Faleceu em 1715. que teve tão grave manifestação no livre exame protestante . são os arquétipos . Com Malebranche. e a outra tese da infinidade dos mundos. pelo que diz respeito ao primeiro problema. Foi profundamente influenciado pelo agostinianismo dominante no Oratório. E se compreenderá então historicamente o processo e a condenação de Galileu.como deve ser . se julgava derivar do sistema copernicano.toda interação entre espírito e matéria. se punha em contradição com a filosofia tradicional e em conexão com a nova filosofia humanista e imanentista. Entrando jovem na Congregação do Oratório. afilosófica. por parte de Galileu. declara as idéias eternas e imutáveis. devido ao teísmo e ao cristianismo que Malebranche se esforça por conciliar com o cartesianismo. Pisando as pegadas de Agostinho e de Descartes. a gnosiologia de Malebranche desvaloriza o conhecimento sensível. Malebranche. não pode vir a estar em contraste com a filosofia e a teologia. mas nem sequer ser produzidas pelo espírito humano. Visto essas idéias serem necessárias e universais. As principais obras são: Recherche de la vérité (1674-1675). mediante o famoso paralelismo dos atributos extensão e pensamento na substância. é particular e contingente. Tenha-se. As idéias. presente a tese geral do matematismo universal. verdadeiras objetivamente. sobre a base de um inicial platonismo comum. Spinoza resolvera o primeiro mediante o seu rígido monismo da substância. A oposição entre sistema ptoleimaco e sistema copernicano. exteriores ao sujeito que conhece. claras e distintas e. O Pensamento: A Gnosiologia Como Descartes e o conseqüente racionalismo.160 prodigiosa. Estas são as duas fontes principais do seu pensamento. Méditations chrétiennes et métaphysiques (1683). cessaria no dia em que se adquirisse consciência da natureza infrafilosófica.

pois nós não temos uma idéia clara e distinta do infinito. nem do corpo sobre a alma. isto é. encontram só no pecado original a causa única que os explica. . Dessa maneira. Malebranche baseia esta doutrina em duas teses de origem cartesiana: em física. Temos uma intuição da sua existência. A Moral Malebranche procura conciliar essa atividade universal divina com o live arbítrio humano.161 eternos e imutáveis. Deus opera diretamente em todas as criaturas. para o pecado original. pois só ela pode tirá-los do embaraço em que se encontram". que nos diz ter Deus criado o mundo. A Metafísica Se bem que malebranche afirme que Deus está intimamente presente ao nosso espírito como revelador das idéias. entre alma e corpo . a fim de explicar plena e verdadeiramente o homem na sua realidade atual. e as assim chamadas causas segundas não passam de ocasiões para o operar da causa única divina (ocasionalismo). Toda energia produtora de ser e de atividade pertence propriamente a Deus. um sentimento confuso da existência atual do mundo material. causalidade ativa nem dos corpos entre si. A única idéia clara e distinta que temos é a de extensão inteligível (e de seus modos). Aspecto característico da moral de Malebranche é o apelo para o cristianismo e. Acontece o contrário a respeito do mundo físico. bem como o erro no conhecimento. ele só atinge a existência contingente. Temos dele uma idéia clara. trata-se de uma percepção sensível inferior à da existência do espírito. isto é. um sentimento. a vontade. das coisas. Para demonstrar a existência de Deus. sensibilidade e pensamento. os filósofos "são obrigados à religião (revelada). As relações . livre embora. O homem é livre não no sentido de que seja capaz de fazer. o que as idéias não podem fazer. inércia natural da extensão. A respeito da natureza de Deus. a impossibilidade de uma interação entre corpo e alma. Diversamente afirma a unidade da causa. sente ele a necessidade de provar a existência de Deus na sua realidade subsistente e de determinar-lhe a natureza. ele só é causa e atividade. admite uma pluralidade de substância. Temos. assim não temos uma idéia clara da nossa alma. necessários e universais. porém. Malebranche teística e cristãmente afirma Deus criador dos espíritos e da matéria: quer dizer. e tal idéia se torna representativa de Deus pelo seu caráter de infinidade. impulso e vontade. em todo caso. Esta visão é possível porque Deus está intimamente presente ao nosso espírito e lhe pode revelar a sua essência porquanto é comunicável.dependem de Deus e são produzidas diretamente por ele segundo a doutrina do ocasionalismo. vemos a extensão inteligível em Deus. em psicologia. que . A respeito das relações entre Deus e o mundo. Não há. espírito e matéria. tanto assim que é mister a revelação cristã.é racionalmente confuso. mas. da sua natureza. nem da alma sobre o corpo. tais idéias estão na mente de Deus e nele nós temos a intuição delas (ontologismo). precisamente. produzir alguma coisa. quer dizer. porque temos a idéia clara de extensão inteligível. para que estejamos propriamente certos da sua existência. único elemento constitutivo das coisas materiais. caro aos platônicos e aos agostinianos. logo. Noutras palavras: nós vemos. mas no sentido de que é capaz de suspender a ação divina em si: suspensão (antes de que produção) de efeitos. Malebranche recorre substancialmente ao sólito argumento ontológico. Assim. material. mas apenas o que há nele de imitável. julga ele que seja essencialmente incognoscível. não é causa produtora.a interação entre as coisas materiais de um lado e os espíritos humanos do outro. Sem o pecado haveria perfeita harmonia entre corpo e espírito. porquanto não há causas segundas. Como não temos uma idéia clara de Deus. A desordem das paixões. não propriamente a Deus.ao contrário das idéias .

como conselheiro áulico e bibliotecário. Indo de Paris para a sua nova sede. que constituía um perigo contínuo contra a Alemanha. visitando Veneza. Mais profundamente ainda. como ele. Estudou também o empirismo. Diversamente de Spinoza e de acordo com Malebranche. Teodicéia. Entre os filósofos antigos preferiu Platão e Plotino. para induzir o Rei Sol a dirigir contra os turcos a sua atividade de expansão. que pode ser considerado spinoziano de fato se não de intenção. E chegará também à negação da realidade material. conheceu também Newton.162 Guilherme Leibniz Spinoza tentara a síntese do racionalismo cartesiano com o panteísmo neoplatônico. Guilherme Leibniz nasceu em Leipzig. escrevendo contra o Ensaio sobre o Intelecto Humano de Locke os seus Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano. criticando entretanto a forma deles. Conheceu certamente o pensamento da Renascença. O barão de Boinebourg convertido ao catolicismo . devido sobretudo ao racionalismo matemático. que ele procurou conciliar com uma concepção dinâmica da realidade. São ensaios ocasionais e esporádicos. Vida e Obras universidade. em seguida. composta em 1701. escrita para resolver o problema do mal e publicada em 1710. em especial o neoplatonismo renascentista. do cálculo infinitesimal. Roma e Nápoles. Durante uma viagem a Londres. Seu pai era um jurista. tanto assim que do ocasionalismo de Malebranche surgirá a harmonia preestabelecida de Leibniz. Foi um autodidata desejoso de tudo conhecer. resolvendo a realidade material em uma aparência fenomênica do espírito. inventor. logo. Florença. Monadologia. A missão fracassou. Entre outros. que ele fundiu em um ecletismo superior. ainda que sobre um plano mais rico e superior. Leibniz tentará uma síntese mais vasta. As fontes culturais e filosóficas de Leibniz são muitas e várias. Estudou Suarez e Tomás de Aquino. correspondendo-se com Bossuet para este fim. para os quais teve estima no que concerne ao pensamento. em 1646. mas publicada postumamente em 1765). não constituem uma elaboração sistemática e completa do seu pensamento. Faleceu em Hannover em 1716. onde fundou a Sociedade das Ciências. Eis as principais: Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano (crítica ao Ensaio de Locke.iniciou-o no conhecimento da igreja católica e introduziu-o na Corte eleitoral de Mogúncia. escritas pela maior parte em francês e em latim. também antigas e medievais. também o panteísmo. Deve-se ainda acrescentar uma copiosa correspondência filosófica. Em 1676 foi convidado por João Frederico de Brunschwig para a corte ducal de Hannover. Spinoza influiu sobre Leibniz. Academia Prussiana. e que. com a supressão do mundo físico. Malebranche tentara a síntese do racionalismo com o platonismo agostiniano. As obras de Leibniz. Pádua. professor de moral na . tomou contacto com Malebranche. Entretanto foi o cartesianismo o sistema filosófico que influiu mais profundamente sobre Leibniz. da res extensa. parou na Holanda e visitou Spinoza. a do pensamento aristotélico-tomista com o empirismo moderno. Aristóteles influiu nele sobretudo pelo que diz respeito à lógica. Seu sistema é uma afirmação do monismo spinoziano. estudou filosofia e história da filosofia. formando-se em direito em Altorf em 1666-1667. mas de grande penetração e agudeza crítica. ocupando-se com escrever a história da casa Brunschwig foi à Itália. procurará compor a necessidade racionalista-matemática com a contingência e a liberdade. Ficou até à morte naquele emprego. o racionalismo abre as portas ao idealismo. Fez tentativas para a união das igrejas protestante e católica e para a federalização política das nações cristãs. e. Entretanto. Leibniz travou relações com os maiores filósofos e cientistas da época. chamada. chefiou uma missão diplomática junto de Luís XIV. Entre 1672 e 1676. O resultado é que a necessidade universal permanece. Realizou outras viagens a Viena e Berlim. matemática e jurisprudência. escrita em francês para o príncipe Eugênio de Sabóia em 1714 e publicada postumamente. Também Malebranche influenciou profundamente Leibniz.

causa eficiente de todas as outras". regularizou todas as ações das mônadas de tal forma que . a matéria. e são concebidos como átomos espirituais dotados de atividade. a corporeidade. constituem as almas dos brutos. Os elementos primeiros. e as verdades de fato (juízos da existência contingente). Negada às mônadas a faculdade de agirem transitivamente. representativa: cada uma representa. que constituem o reino mineral e as plantas. estes juízos escapam às pretensões da necessidade racionalista. da ínfima mônada até à suprema. uma sobre as outras. A Metafísica A Metafísica de Leibniz é a doutrina das mônadas (monadologia). ativa. A realidade apresenta-se indiscutivelmente sob dois aspectos: um idêntico. universal. Conforme o seu conteúdo representativo. o conceito tradicional de Deus. "A substância é um ser capaz de ação". isto é. A definição do sujeito.diz Leibniz. Mas. a sua imensa série se dispõe em escala hierárquica ascendente. mais ou menos. mas também finalisticamente. seria verdadeiramente o antecendente lógico infalível de cada um dos predicados. Então Leibniz procura conciliar a necessidade do racionalismo com as exigências da contingência: as verdades de fato seriam contingentes quoad nos. A natureza das mônadas é espiritual. enriquecidas de conhecimento científico e consciência reflexa. Afirma Leibniz. reflete todo o universo de um determinado ponto de vista. que colheriam o segundo aspecto. particular. dotadas de representação insconsciente (pampsiquismo). o princípio de razão suficiente na realidade criada. as verdades de razão (juízos necessários de essência). Entretanto. nem todas percebem conscientemente. dotada de percepção. quoad se. porque o predicado é contido na noção adequada do sujeito. Leibniz distingue. substâncias-forças. para quem a penetrasse até o fundo. que constituem o corpo. A uma mônada central. que Deus introduziu na criação. esta deve proporcionar o método para inventar e demonstrar todas as ciências. 3. Leibniz distingue quatro grandes ordens: 1. seriam necessárias como as outras. Para Leibniz. feita por Leibniz dinâmica. O homem. As mônadas são eternas. Este Absoluto .realidade única informada por uma alma côsmica recorda a tão combatida Substância spinoziana. "Nesta escala. A ordem entre elas é explicada pela harmonia preestabelecida. porém. imediatamente evidente. As verdades de fato seriam representadas por juízos de experiência. as mônadas são dotadas de propriedade de perceber (pampsiquismo). em virtude da qual a uma modificação física corresponde uma modificação psíquica e vice-versa. mas cada ser é um microcosmo. inúmeras. também as proposições contingentes verdadeiras seriam racionais e demonstráveis. seria um conjunto de mônadas de grau diverso.ª) mônadas racionais. nem esta sobre o corpo. não há duas mônadas perfeitamente iguais. Não apenas o homem é um microcosmo. se pode ser tirado analiticamente dele. Elas não têm relações recíproca: "as mônadas são sem janelas" . unem-se mônadas subconscientes e mônadas inconscientes. que colheriam o primeiro aspecto da realidade. 4. teria. A matéria. Deus seria a mônada suprema.163 O Pensamento: A Gnosiologia A gnosiologia de Leibniz é fundamentalmente representada pela ciência geral ou lógica universal. ou Deus. Este todo é regulado pela harmonia preestabelecida. capazes de representação consciente ou apercepção. Isto quer dizer. um fundamento. é um fenômeno. o mundo físico. ab aeterno. absolutamente perfeita. com respeito a nós. necessário. As verdades de razão fundamentam-se sobre o princípio de indentidade.ª) mônada suprema. de um ponto de vista absoluto. constituindo a alma. tais verdades reduzíveis a juízos. ou almas humanas. como explicar a ordem do universo? Leibniz responde com a célebre teoria da harmonia preestabelecida.ª) mônadas nuas. contínua. consciente. o indivíduo humano. uma aparência da psiquicidade. Deus. não tem existência real. desenvolvendo-se não apenas matematicamente. 2. da realidade. em que o predicado tem identidade com o sujeito. Deus. entretanto.ª) mônadas sensitivas. em que o predicado não se pode extrair analiticamente do sujeito. devido à nossa ignorância. contingente. Leibniz chama-os mônadas. mais ou menos elevado. fundamentais. portanto. pois o corpo não atua diretamente sobre a alma. criadora e ordenadora de todas as outras. e o outro diverso.

do pensamento de Wolff. no seu sistema subsiste a liberdade metafísica. em seguida. racionalista-matemático. porquanto constitui a limitação necessária dos seres criados. a livre escolha. "Assim. moral e físico. que. O mal dos vários seres se torna um bem para o conjunto. Também o mal moral é uma privação de ser. da idéia inata de ser. graças ao qual teve em 1707 uma cátedra de matemática e filosofia na Universidade de Halle. a qual concebe. que. do modo melhor. a ciência como uma dedução necessária de elementos e princípios primeiros. sim. racionalista. sem uma relação real entre as duas ordens. Wolff retirou-se então para a Universidade de Marburgo. pois a natureza destes seres é necessariamente limitada. humanos. O mal moral. portanto. enquanto são criados. desde logo. Em Wolff. Dado esse caráter apriorístico. O seu ensino claro e metódico. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. esta explicação não serve no caso do homem. se se considerar que os manuais de Wolff invadiram a cultura alemã da época. vulgarizador do pensamento de Leibniz. estudando também matemática. a reação kantiana e a acusação de dogmatismo movida contra essa orientação filosófica. a metafísica deveria ser construída a priori. é devido à resistência voluntária dos entes criados. compreende-se como ele se diferencia profundamente da escolástica clássica. no homem. como o mal metafísico: tem uma causa deficiente e não eficiente. em que a liberdade de Deus e do homem vêm fornecer. devido à sua tese da ação necessariamente dirigida para o melhor. A primeira acusação tem um fundamento na afirmação de Wolff de que a moral estaria de pé igualmente. Mas vem fenecer o livre arbítrio. Leibniz interessou-se especialmente pelo problema do mal e da liberdade. para a Universidade de Halle.164 se correspondessem como se realmente houvesse entre elas um influxo mútuo de causalidade recíproca. é consciente e racional. à ação de Deus. mas estes se baseiam no terreno sólido da experiência. Se é que Wolff teve algum conhecimento particular da escolástica aristotélico-tomista. que tinha condensado e ordenado em mil parágrafos o prolixo sistema de Wolff.como é sabido . as desarmonias particulares realçam a harmonia do todo. Compreende-se. em 1723. aristotélico-tomista. sendo um ser racional. o racionalismo moderno manifesta explicitamente o seu caráter fenomenista abstrato. pois cada homem não é um meio e sim um fim. Sem esta limitação não haveria sequer o mundo. formal. Formou-se em filosofia em Leipzig em 1703. e. porquanto ambos atuam necessariamente. No entanto. analiticamente. ao contrário. certamente não compreendeu o espírito íntimo desse sistema. A segunda explica-se pela sua adesão ao determinismo racionalista de Leibniz. No campo da moral. Leibniz explica o mal físico mediante a estética. O primeiro não é verdadeiro mal. sistemático teve um êxito imenso. partindo dedutivamente. marcam ao mesmo tempo as mesmas horas". que pretendia ser válido para a realidade concreta um sistema construído a priori: um mundo de idéias para um mundo de coisas. A reação é facilmente compreensível. por certo. mesmo prescindindo da existência de Deus. um hábil relojoeiro constrói dois relógios. Dedicou-se aos problemas morais e religiosos. voltando. e Kant lecionava na universidade servindo-se da Metaphysica de Baumgarten. Vida e Obras Cristiano Wolff nasceu em Breslau em 1679. A filosofia. a espontaneidade racional. na resistência humana à ação de Deus. com Cristiano Wolff. Entretanto. foi demitido sob acusação de ateísmo em religião e determinismo em moral. aí ensinando até à morte (1754). Cristiano Wolff O racionalismo moderno toma uma sistematização rígida. em relações com Leibniz. Leibniz . A Moral A moralidade é reconduzida à atividade.distingue o mal em metafísico. sem se influenciarem mutuamente. Afirma ele a liberdade. quer no homem quer em Deus. . Entrou.

mesmo no caso do ateísmo (como se a negação de Deus não implicasse necessariamente na negação de todos os valores). onde se ocupa com equitação e esgrima (chega mesmo a redigir um tratado de esgrima. a experiência da vida e a reflexão pessoal: "Assim que a idade me permitiu 165 sair da sujeição a meus preceptores. Psychologia empirica. É dessa época (tem cerca de 23 anos) que data . Wolff não nega Deus. pelo qual a verdade é. mas um povoado da Touraine. A Filosofia de Descartes Sua Vida René Descartes. Apesar de apreciado por seus professores. É notável o critério de verdade segundo Wolff: a verdade consiste exclusivamente na coerência entre as idéias. Oeconomia. A filosofia prática abrange. abrangendo a ontologia. porém. nascido em 1596 em La Haye  não a cidade dos Países-Baixos. a filosofia que conhece a religião natural. ele se declara. Psychologia practica universalis. A série dos manuais em latim. empreguei o resto de minha juventude em viajar. daí o aposto "fidalgo poitevino". no "Discurso sobre o Método". Mas as matemáticas são uma exceção. do iluminismo racionalista alemão. a metafísica. uma vez que ainda não se tentou aplicar seu rigoroso método a outros domínios. É a revelação completa so fenomenismo racionalista. a adequação especulativa da mente com a coisa. Separa. É bem diverso o critério de verdade do sistema aristotélico-tomista. compreende precisamente: Philosophia rationalis sive logica. que mantém seus equipamentos e suas despesas e que se declara menos um "ator" do que um "espectador": antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. ao contrário. diríamos. da religião positiva. De 1604 a 1614. e a outra em alemão. nem a religião natural. e finaliza na negação desta última. decepcionado com o ensino que lhe foi ministrado: a filosofia escolástica não conduz a nenhuma verdade indiscutível. Quanto à idéia de ética. vamos encontrá-lo na Holanda engajado no exército do príncipe Maurício de Nassau. a teologia natural. ocupa-se sobretudo com matemática. a saber. decepcionado com a escola. e resolvendo não procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo. antes de tudo. Mas é um estranho oficial que recusa qualquer soldo. longe dos livros e dos regentes de colégio. Eis por que o jovem Descartes. Na Holanda. a política. Só as matemáticas demonstram o que afirmam: "As matemáticas agradavam-me sobretudo por causa da certeza e da evidência de seus raciocínios". derivante da própria natureza de Deus e das coisas por ele criadas). a cosmologia geral. a economia. pois levanta-se quando quer. abandonei inteiramente o estudo das letras. Em todo caso. ao lado de Isaac Beeckman. tomisticamente. o que o leva a adquirir um hábito que o acompanhará por toda sua vida: meditar no próprio leito. em ver cortes e exércitos. necessária. Tais manuais tiveram um grande êxito. Philosophia moralis seu ethica. Jus gentium. estuda no colégio jesuíta de La Flèche. mas é absoluta. primitiva (isto é. Aí gozará de um regime de privilégio. Cosmologia generalis. Wolff diz justamente que a lei moral não pode depender ao arbítrio divino. Diversamente. hoje perdido). admite a obrigação absoluta da lei moral. a filosofia prática geral e o direito natural e. Wolff é o pai do Aufklärung. parte à procura de novas fontes de conhecimento. pequeno domínio do Poitou. conviver com pessoas de diversos temperamentos e condições". pelo qual não há relação entre pensamento e ser.As obras filosóficas de Wolff são constituídas por duas séries de manuais. Após alguns meses de elegante lazer com sua família em Rennes. uma em latim. A filosofia especulativa é. Desta o filósofo prescinde. Psychologia rationalis. O Pensamento Wolff divide a filosofia em lógica. Philosophia prima seu ontologia. fundamentalmente. "Não encontramos aí nenhuma coisa sobre a qual não se dispute". a ética. numa família nobre  terá o título de senhor de Perron. a psicologia. Jus naturae. ou revelada. logo. especulativa e prática. que sustenta o divórcio entre a religião natural e a religião positiva.

o que "eu não tenho a menor oportunidade de duvidar". a evidência é o que salta aos olhos. para Descartes. não antes de encarregar seu editor de imprimir. Em 1644. Descartes quer apenas significar que é um jovem sábio disfarçado de soldado. É certo que ele nada tem a temer da Inquisição. alguns anos mais tarde. Ele faz ver que o seu método. ele quer preparar os espíritos para. Em 1644. apesar de todos os resíduos. é capaz de provar rigorosamente a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. servido por um criado e inteiramente entregue à meditação. as "Regras para a direção do espírito" (Regulae ad directionem ingenii). a cuja publicação ele renuncia visto que em 1633 toma conhecimento da condenação de Galileu. é a regra da análise: "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis". ele antes de tudo quer fugir às querelas e preservar a própria paz. ele que "nasceu nos jardins da Touraine". que o põe em contato com a rainha Cristina. Em 1619. A idéia fundamental que aí se encontra é a de que a unidade do espírito humano (qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa) deve permitir a invenção de um método universal. sua obra-prima. Esses resumos. de outro.  A segunda. isto é. ele vive na Holanda. o diretor de consciência e com quem troca importante correspondência. Luís XIV proibirá os funerais solenes e o elogio público do defunto: desde 1662 a Igreja Católica Romana. que sofre atrozmente com o frio. inspirado nas matemáticas. Após muitas tergiversações. Descartes encontra o embaixador da frança junto à corte sueca. apesar de todos os meus esforços. Em outras palavras.  A primeira regra é a evidência: não admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". Os Meteoros e A Geometria. Esta última chama Descartes para junto de si. acompanhadas de respostas às objeções. Podemos facilmente imaginá-lo alojado "numa estufa". 166 . A 10 de novembro de 1619. em 1637. Contrai uma pneumonia e se recusa a ingerir as drogas dos charlatões e a sofrer sangrias sistemáticas ("Poupai o sangue francês. Em seguida.sua misteriosa divisa "Larvatus prodeo". de quem ele é. "uma evidência juvenil. logo se arrepende. o produto do espírito crítico. como diz bem Jankélévitch. aquartela-se às margens do Danúbio. será transportado para a França. o Tratado do Mundo. Não. É ao surgir da aurora (5 da manhã!) que ele dá lições de filosofia cartesiana à sua real discípula. senhores"). Mas Descartes. 2. Descartes. entre rochedos e geleiras". isto é. em certo sentido. um simples acessório. aparecem as Meditações Metafísicas. de um lado é católico sincero (embora pouco devoto). colocará todas as suas obras no Index. são acompanhados por um prefácio e esse prefácio foi que se tornou famoso: é o Discurso sobre o Método. morrendo a 9 de fevereiro de 1650. sonhos maravilhosos advertem que está destinado a unificar todos os conhecimentos humanos por meio de uma "ciência admirável" da qual será o inventor. Mas ele aguardará até 1628 para escrever um pequeno livro em latim. Segundo Pierre Frederix. Seu ataúde. aceitarem todas as conseqüências do método  inclusive o movimento da Terra em torno do Sol! Isto não quer dizer que a metafísica seja. Em virtude do inverno. Finalmente. o filósofo. dedicado à princesa palatina Elisabeth. Descartes prepara uma obra de física. 1. seu Tratado das Paixões  embarca para Amsterdã e chega a Estocolmo em outubro de 1649. ei-lo a serviço do Duque de Baviera. de ter vindo "viver no país dos ursos. Entre 1629 e 1649. Muito pelo contrário! Em 1641. evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto. um dia. inspirado no rigor matemático e em suas "longas cadeias de razão". que quase não são lidos atualmente. mas quadragenária". Por conseguinte. ele se decide a publicar três pequenos resumos de sua obra científica: A Dióptrica. Os Princípios de Filosofia. é aquilo de que não posso duvidar. para antes do outono. por ocasião da rápida viagem a Paris. Eu caminho mascarado. é o que resiste a todos os assaltos da dúvida. Desse modo. Mas é demasiado tarde. Chanut. ele publica uma espécie de manual cartesiano. O Método Descartes quer estabelecer um método universal. num quarto bem aquecido por um desses fogareiros de porcelana cujo uso começa a se difundir. país protestante. à qual ele parece Ter-se submetido sempre e com humildade.

entretanto. os instrumentos da dúvida nada mais são do que os auxiliares psicológicos. o excluiu expressamente: o político e o religioso (Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo de seu método). cogito. Ele só tem certeza de seu ser. uma coisa de que não posso duvidar. a alma. sempre duvido desse objeto que é meu corpo. Duvidemos também das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade  quer eu sonhe ou esteja desperto  que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse. só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. por mais frágil que seja. Ferdinand Alquié). a) Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. 3. "é mais fácil de ser conhecida que o corpo"). mas de um ser. se Deus fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas? Tanto quanto duvido do Ser. a evidência sensível e empírica. sempre posso duvidar do objeto (permitam-me retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes. de uma ascese. tão imperfeito. Descartes é solipsista. de modo algum. Se esse método tornou-se muito célebre. °  Existe. Por conseguinte.  A última á a dos "desmembramentos tão complexos. foi porque os séculos posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo. 4. é muito mais que um simples acidente gramatical do verbo cogitare). diz Descartes nesse sentido. só as idéias da razão são claras e distintas. é a regra da síntese: "concluir por ordem meus pensamentos. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para.. diz Descartes. ergo sum". Descartes pensa sobretudo na ciência. resta a certeza de que eu penso. desde que possa encontrar um argumento. isto é. portanto. 1. mas uma intuição. eis demonstrada a existência de Deus. E nota-se que se trata de um Deus perfeito.3. Ela trata não de um objeto.  A terceira. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. °  Nesse nível. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes. não é. É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. Descartes duvida voluntária e sistematicamente de tudo. de infinito. 167 . Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida. "estava despido em meu leito"). aos mais complexos". ascender. Por conseguinte. aos poucos. a evidência intuitiva das "naturezas simples". metamatemática. Ego cogito (e o ego. ocupado em escrever algo junto à lareira. Duvidemos dos sentidos. nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido com o "robe de chambre". ao longo das belas cadeias da razão. O cogito de Descartes. Os sentidos nos enganam. e mais sólida que a do matemático. 2. como que por meio de degraus. em filosofia. pois é uma intuição metafísica. é importante ressaltar. é necessário ler as Meditações. b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é. suas indicações são confusas e obscuras. mas o próprio ato de duvidar é indubitável. por conseguinte. a ponto de estar certo de nada ter omitido". mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento). nesse momento de seu itinerário espiritual. sem aborrecer Brunschvicg. "Penso. pois. uma vez que eles freqüentemente nos enganam. Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro alcance que a dúvida metódica do cientista. Eu. A dedução nada mais é do que uma intuição continuada. chamamos de idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo conhecimento). como já se disse. logo existo. na verdade. Para bem compreender sua metafísica. que. Eu penso. do ergo). mesmo que o demônio queira sempre me enganar. visto que sou finito e imperfeito. Não é um raciocínio (apesar do logo. É a idéia de perfeição. A Metafísica No Discurso sobre o Método. porém. Não posso tê-la tirado de mim mesmo. Mesmo que tudo o que penso seja falso.°  Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com a dúvida. A dedução limita-se a veicular. de seu ser pensante (pois.. que tenho a idéia de Perfeição. o ato de nascimento do que. os instrumentos de um verdadeiro "exército espiritual".

o ar. Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria. de certo modo duvidosas. Se Deus é perfeito. ainda aqui. René Descartes A Dúvida. Pois uma perfeição nãoexistente não seria uma perfeição. empregar todos os esforços no sentido de enganar-me a mim mesmo. 4. a metafísica tem. muito prováveis. não menos ardiloso e enganador do que poderoso. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. por mais poderoso e astucioso que seja. nem olhos. nem sangue. Pois estou certo de que. de uma experiência espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio. Exercício Espiritual 1. teme ser . tomando um partido contrário. A evidência ontológica que. não um verdadeiro Deus. não pode ser geômetra!). que há. de nenhuma verdade. pois essas antigas e comuns opiniões freqüentemente revivem em meu pensamento. como acabei de provar. me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. exatamente como o escravo que se comprazia no sonho de uma liberdade imaginaria e que. é preciso ainda que eu cuide de não me esquecer delas. O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. Suporei. pelo cogito. no momento. °  A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a existência de Deus. para Descartes. isto é. E. no entanto. mas certo gênio maligno.168 é todo bondade. mas antes da idéia de Deus que há em mim. É o argumento ontológico. e. e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida comum. nunca poderá impor-me coisa alguma. daqui por diante. mais de uma intuição. o que lhes dá o direito de ocupar o meu espírito sem que eu o queira e de quase se tornarem senhoras de minha crença. a terra. mas somente de meditar e de conhecer. não pode haver perigo nem erro nesse caminho e de que eu hoje não poderia conceder muito à minha desconfiança. Considerar-me-ei a mim mesmo como não tendo mãos. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade. Apreender a idéia de perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. e meu julgamento não mais seja. quando começa a suspeitar que essa liberdade é apenas um sonho. que é a soberana fonte da verdade. eu então posso crer na existência do mundo. dominado por maus usos e afastado do caminho reto que o pode conduzir ao conhecimento da verdade. se por esse medo. e. isto é. que empregou toda sua indústria em enganar-me. a extensão e o movimento). e prepararei tão bem meu espírito em face de todos os ardis desse grande enganador que. eles não possam fazer com que minha opinião tenda mais para um lado do que para outro. fingindo que todos esses pensamentos são falsos e imaginários. enquanto eu as considerar tais como efetivamente são. tendo de tal modo avaliado meus preconceitos. mas acreditando falsamente possuir todas essas coisas. as cores. de maneira que se tenha mais razão em acreditar nelas do que em negá-las. o argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo) reencontra: trata-se. Por conseguinte. no entanto. até que. ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso. Pensarei que o céu. Eis por que penso que as utilizarei mais prudentemente se. uma evidência mais profunda que a ciência. como não tendo nenhum dos sentidos. a longa e familiar convivência que tiveram comigo. então. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento. não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). Não mais se trata de partir de mim. e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. dirá Descartes. pelo menos estará em meu poder fazer a suspensão de meu juízo. o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável. uma vez que. não se trata d agir. Compreenda-se que. E nunca me desacostumarei a essa aquiescência e a confiar nelas. que tenho a idéia de Deus. É ela que fundamenta a ciência (um ateu. Uma vez que Deus existe. as figuras. para tanto.ª Meditação Descartes resolve duvidar de todas as suas opiniões: Mas não basta ter feito essas observações. nem carne. Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência. os sons. não estiver em meu poder atingir o conhecimento.

é preciso que eu atente cuidadosamente. Mas ainda não conheço bastante o que sou. de maneira que. ou pela audição. se ele me engana. de uma só questão. Mas há um não sei quem.169 despertado e conspira com essas agradáveis ilusões para ser mais longamente enganado. deter-me-ei em considerar aqui os pensamentos que anteriormente nasciam por si mesmos em meu espírito e que eram inspirados apenas por minha natureza quando eu me empenhava na consideração de meu ser. "Eu sou. Não é necessário que me demore a enumerá-las. corpos alguns. e eu não gostaria de abusar do pouco tempo e do lazer que me resta. espantava-me antes ao ver que semelhantes faculdades se encontravam em certos corpos. Por conseguinte. De maneira que. Mas que é um homem? Direi que é um animal racional? Não. Considerava-me. e. retorno invisivelmente às minhas antigas opiniões e receio despertar dessa sonolência. e de minhas antigas opiniões abolirei tudo o que pode ser combatido pelas razões que há pouco aleguei. não por si mesmo. para não tomar imprudentemente alguma outra coisa por mim e assim não me equivocar nesse conhecimento que sustento ser mais certo e mais evidente do que todos os que tive até o momento. uma chama ou um ar muito tênue. de agora em diante. mãos. nunca poderá fazer com que eu nada seja. se ouso dizelo. Por conseguinte. mas por algo alheio pelo qual seja tocado e do qual se pudesse atribuir à natureza corpórea vantagens como a de ter o poder de mover-se a si própria.ª Meditação Eu me persuadi de que nada existia no mundo. de maneira a só permanecer precisamente o que é inteiramente indubitável. primeiramente. após ter pensado bastante nisto e ter cuidadosamente examinado todas as coisas. eu existia sem dúvida. Eis por que considerarei de novo o que acreditava ser. eu pensei que era um homem. ou pelo olfato. é necessariamente verdadeira. há que concluir finalmente e ter por constante que esta proposição. que não havia nenhum céu. que estou certo de que sou. como um vento. pois seria necessário que em seguida pesquisasse o que é animal e o que é racional e assim. por mais que ele queira enganar-me. que pode ser sentido pelo tato. e não encontro nenhuma que possa dizer que existe em mim. que é que eu acreditava ser até aqui? Sem dificuldade. passemos aos atributos da alma . cairíamos insensivelmente numa infinidade de outras mais difíceis e embaraçosas. mas não me detinha em pensar o que era essa alma ou. não há a menor dúvida de que sou. assim eu. pois eu pensava conhecê-la mui distintamente e. empregando-o em desvendar semelhantes sutilezas. que sou eu. braços e toda essa máquina composta de osso e carne. se aí me demorava. se quisesse explicá-la segundo as noções que tinha dela. ou pela visão. agora que suponho que há alguém que é extremamente poderoso e. relacionando todas essas ações à alma. Eu Sou Uma Coisa Que Pensa 2. tal como ela aparece num cadáver e a qual eu designava pelo nome de corpo. todas as vezes em que a enuncio ou em que a concebo em meu espírito. enganador muito poderoso e astucioso. temendo que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso. ao invés de propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade. por mim mesmo. que pode ser compreendido em qualquer lugar e preencher um espaço de tal maneira que todo outro corpo seja dela excluído. ao contrário. espíritos alguns. que pode ser movido por diversas maneiras. que andava. Mas eu. considerava que eu me alimentava. que estava insinuado e disseminado nas minhas partes mais grosseiras. Mas. certamente. entendo tudo o que pode ser limitado por alguma figura. enquanto eu pensar ser alguma coisa. tê-laia descrito da seguinte maneira: por corpo. Por outro lado. eu existo". No que se referia ao corpo. antes de penetrar nesses últimos pensamentos. malicioso e astucioso. então. que emprega todas as suas forças e toda a sua indústria em enganar-me? Poderei ter a certeza de possuir a menor de todas as coisas que acima atribuí à natureza corpórea? Detenho-me a pensar nisso em meu espírito. eu não duvidava de modo algum de sua natureza. como tendo um rosto. não fossem suficientes para aclarar as trevas das dificuldades que acabam de ser tratadas. se é que me persuadi ou somente pensei alguma coisa. que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. também não me persuadi de que eu não existia? É certo que não. antes. ou pelo paladar. imaginava que ela era algo de extremamente raro e sutil. nenhuma terra. que sentia e que pensava. Por conseguinte. eu.

nem esse som. que é essa extensão? Não será também desconhecida. ele se torna líquido. vejamos o que resta. e que só meu entendimento é quem o concebe. eu não sou. Mas eis que. mal podemos tocá-lo. ou ao olfato. é capaz de se tornar quadrada e de passar do quadrado para uma figura triangular? É certo que não. ainda retém algo do odor das flores de que foi recolhido. que eu imagino quando a concebo dessa maneira? Consideremo-la atentamente e. precisamente falando. Talvez fosse o que penso a atualmente. isto é. no entanto. consequentemente. de flexível e mutável. visto que na cera que se funde ela aumenta e fica ainda maior quando aquela está inteiramente fundida e muito mais ainda quando o calor aumenta mais? E eu não conceberia claramente. além disso. Eu não sou essa reunião de membros que se chama corpo humano. mas não se pode sentir também sem o corpo. e. Um outro é pensar. Enfim. ou ao tato. e constato aqui que o pensamento é um atributo que me pertence. um vapor nem nada que possa fingir e imaginar. uma vez que a concebo capaz de receber uma infinidade de transformações semelhantes e. É certo que não permanece senão algo de extenso. Ora. também é verdade que não posso andar nem me alimentar. que conhecíamos nesse pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada do que observei nela por intermédio dos sentidos. . e saber.ª Meditação Comecemos pelas considerações das coisas mais comuns e que julgamos compreender mais distintamente. não sou um vento. E que mais? Excitarei ainda minha imaginação. ao despertar. Um outro é sentir. eu sou uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente. Não pretendo falar dos corpos em geral. sua grandeza aumenta. eu não poderia percorrer essa infinidade com minha imaginação e. O Pedaço De Cera 3. não produzirá som algum. sua figura e sua grandeza são evidentes: ele é duro e frio quando o tocamos e. enquanto falo. ou à audição se encontram modificadas e. um espírito. E. encontram-se neste. é preciso que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera. o odor se desvanece. essa concepção que tenho da cera não se realiza pela faculdade de imaginar. precisamente falando.170 e vejamos se há alguns que existam em mim. sem modificar tal suposição. sendo redonda. mas que coisa? Já o disse: uma coisa que pensa. por todo o tempo em que eu penso. eu deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. disseminado por todos esses membros. mas se é verdade que não tenho corpo algum. constato que não deixo de estar certo de que sou alguma coisa. Agora eu nada admito que não seja necessariamente verdadeiro: portanto. para verificar ainda se não sou algo mais. pois poderia ocorrer que. os corpos que tocamos e que vemos. Por conseguinte. sua cor se modifica. agora. que a cera não era essa doçura do mel. Os primeiros são alimentar-me e andar. exala-se. afastando todas as coisas que não pertencem à cera. Eu sou. Ora. produzirá algum som. pouco antes. um entendimento ou uma razão. que não as sentira efetivamente. a saber. somente ele não pode ser separado de mim. se não pensasse que é capaz de receber mais variedades segundo a extensão do que nunca imaginei. então. uma vez que todas as coisas que se apresentavam ao paladar. se apresentava sob essas formas e que agora se faz notar sob outras. Que é. que são termos cuja significação me era desconhecida anteriormente. e segundo a verdade. uma vez que supus que tudo isso não era nada e que. alguém o aproxima do fogo: o que nele restava de sabor. sua figura se perde. eu existo. se eu deixasse de pensar. outrora eu pensei sentir várias coisas durante o sono e verifiquei. mas por quanto tempo? A saber. não sou um ar tênue e penetrante. mas apenas um corpo que. este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele ainda não perdeu a doçura do mel que continha. Mas o que será. a mesma cera permanece. mas de qualquer corpo em particular. que é isso: flexível e mutável? Não estarei imaginando que esta cera. uma vez que essas noções gerais comumente são mais confusas. isso é certo. um sopro. nem essa figura. ainda que batamos nele. e ninguém o pode negar. sua cor. esquenta-se. Tomemos. por exemplo. nem esse agradável perfume das flores. todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo. o que é a cera. nem essa brancura. no entanto. não é isso. se nele batermos. senão uma coisa que pensa. A mesma cera permanece após essa transformação? Cumpre confessar que sim. ou à visão.

Todavia. parece que isso não implica em que haja algum Deus existente. perseguir ou fugir). É certo que a graça divina e o conhecimento natural. eu seria inteiramente livre. é o mais baixo grau de liberdade. ou. e faz antes parecer uma carência de conhecimento do que uma perfeição na vontade.ª Meditação Ora. nunca teria dificuldade em deliberar qual juízo e qual escolha deveria fazer. não pareça inteiramente manifesto. a tornam mais firme e mais eficaz . que se afigure com alguma aparência de sofisma. que não concebo de modo algum a idéia de nenhuma outra mais ampla e mais extensa: de maneira que é ela. a idéia de um vale. e. se do simples fato de que posso tirar de meu pensamento a idéia de alguma coisa. assim. E. afirmar ou negar. assim eu talvez pudesse atribuir existência a Deus. na medida em que ela se dirige e se estende infinitamente a mais coisas. para que eu seja livre. E não conheço menos clara e distintamente que uma atual e eterna existência pertence à sua natureza do que conheço que tudo o que posso demonstrar de qualquer figura ou de qualquer número pertence verdadeiramente à natureza dessa figura ou desse número. antes a aumentam e a fortalecem.ª Meditação O que existe unicamente é a vontade que sinto ser tão grande em mim. Pois. da idéia de uma montanha. embora não exista nenhum dotado de asas. todavia. como do simples fato de eu conceber uma montanha com um vale não se segue que haja qualquer montanha no mundo. a existência de Deus deve apresentar-se em meu espírito pelo menos como tão certa quanto considerei até aqui todas as verdades da matemática. segue-se que tudo o que eu reconheço pertencer clara e distintamente a essa coisa. seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram. sem nunca ser indiferente. O Argumento Ontológico 5. para afirmar ou negar. do mesmo modo. Pois. perseguir ou fugir as coisas que o entendimento nos propõe.que. portanto. não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários.seja em virtude do objeto. mas. isto é. seja em virtude do conhecimento e do poder . estando habituado em todas as outras coisas a fazer distinção entre existência e essência. tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei. Pois. encontrando-se juntos aí. principalmente que me faz conhecer que trago a imagem e a semelhança de Deus. e como só depende de mim imaginar um cavalo alado. verifico claramente que a existência não pode ser separada da essência de um triângulo retilíneo não pode ser separada a grandeza de seus três ângulos iguais a dois retos ou. meu pensamento não impõe necessidade alguma às coisas. embora eu conceba Deus com existência. ainda o que tudo que concluí nas Meditações precedentes não fosse absolutamente verdadeiro. se possa conceber Deus como não existindo atualmente. De modo que essa indiferença que sinto. somente em que. antes. não posso tirar daí um argumento e uma prova demonstrativa da existência de Deus? É certo que não encontro menos em mim sua. do que a idéia de qualquer figura ou de qualquer número que seja. na verdade. persuado-me facilmente de que a existência pode ser separada da essência de Deus e que. pertence-lhe efetivamente. bem longe de diminuírem minha vontade. quando não sou de maneira alguma impelido mais para um lado do que para outro pelo peso de alguma razão. ao qual falta alguma perfeição) do que em conceber uma montanha que não tenha um vale. de início. se eu sempre conhecesse claramente o que é verdadeiro e o que é bom. um ser soberanamente perfeito) ao qual falta a existência (isto é. quanto mais eu tender para um. ainda que efetivamente eu não possa conceber um Deus sem existência. pois. assim como uma montanha sem vale. que só dizem respeito aos números e às figuras: se bem que. antes. agimos de tal modo que não sentimos de maneira alguma força exterior que nos obrigue a isso. quando penso nisso com mais atenção. Pois ela consiste somente em que podemos fazer uma coisa ou deixar de fazê-la (isto é. pois. ela não me parece todavia maior se eu a considero formal e precisamente em si mesma. agora. Mas. isso. a idéia de um ser soberanamente perfeito. ainda que Deus .171 A Liberdade 4. seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento. assim. ainda que ela seja incomparavelmente maior em Deus do que em mim. de maneira que não há menos repugnância em conceber um Deus (isto é.

impressões de reflexão (emoções e paixões). dos dados empíricos: impressões de sensação. muito próxima da de Locke. De 1763 a 1765 ele é secretário da Embaixada em Paris e festejado no mundo dos filósofos. ao contrário. um ser soberanamente perfeito sem uma soberana perfeição). à intuição direta e concreta da idéia. onde compõe. publicou uma Investigação sobre os Princípios Morais (1751). à primeira vista. mas. O Método de Hume Hume quis ser o Newton da psicologia. "já nasceu morta para a imprensa". não que meu pensamento possa fazer com que isso seja assim e que ele imponha alguma necessidade às coisas. O jovem Hume. nesse sentido. pois aqui há um sofisma escondido sob a aparência dessa objeção. Somente após sua morte (1776) é que foram publicados. Seus Ensaios Morais e Políticos (1742) conhecem vivo sucesso. exatamente como Hume nos ensina a retornar das idéias para as impressões". quer existam. de maneira alguma. bastante esclarecedor: "Uma tentativa de introdução do método de raciocínio experimental nas ciências morais. indispondo-se com ele em seguida. não podem. Hume pertencia a uma família abastada. mas. notadamente em La Flèche. mas apenas que a montanha e o vale. estar separados um do outro. e Hume vê lhe recusarem uma cadeira de filosofia na Universidade de Glasgow. Esse fracasso deu a Hume a idéia de escrever livros curtos. cujo professor de "filosofia". brilhantes. Ao falar de fenomenologia contemporânea. de princípios. sob o nome de "impressões". isto é. ele é Secretário de Estado em Londres. quer não existam. Ele parte do princípio de que todas as nossas "idéias" são ópias das nossas "impressões". em 1739. diz-nos o autor. pois. Em 1766 ele hospeda Rosseau na Inglaterra.172 nenhum existisse. O subtítulo de seu Tratado da Natureza Humana é. A obra obtém sucesso. mas não deixa de inquietar os cristãos. em seguida transformado em universidade -. acessíveis ao público mundano. Nesse meio tempo.um dos melhores da Escócia. Hume se esforça por simplificar e vulgarizar a filosofia de seu tratado e publica então os Ensaios Filosóficos sobre o Entendimento Humano (1748). Não é este o ponto de vista tradicional do empirismo que vê na experiência a fonte de todo saber? Na realidade. a saber. que sonha tornar-se homem de letras e filósofo célebre. porque a própria coisa. editado em Londres. A obra. aquilo que Bergson mais tarde denominará os dados imediatos da consciência e que os fenomenologistas denominarão a intuição originária ou o vivido. era um cientista discípulo de Newton. Stewart. seus Diálogos sobre a Religião Natural. portanto. nem vale algum. aos vinte e três anos. rapidamente renuncia aos estudos jurídicos e comerciais. passa alguns anos na França. em 1779. e que. A análise psicológica do entendimento operada por Hume parece. não está em minha liberdade conceber um Deus sem existência (isto é. Sua filosofia coloca. também. a existência de Deus. em Edimburgo em 1711. Fez bons estudos no colégio de Edimburgo . de física e ciências naturais. Gaton Berger escrevia: "É preciso ir dos conceitos vazios. Fala-se de substância. pelos quais uma idéia é apenas visada. Que existe verdadeiramente no pensamento quando se discorre sobre isso? As quais impressões vividas correspondem todas essas palavras? Aquilo que Hume chama de .Hume David Hume David Hume nasceu na Escócia. do fato de eu não poder conceber uma montanha sem vale. Pois. ao passo que. determina meu pensamento a concebê-lo dessa maneira. seu Tratado da Natureza Humana. Ele acabará por fazer uma bela carreira na diplomacia. uma volumosa História da Inglaterra (1754-1759) e uma História Natural da Religião (1757). de causas e efeitos etc. como me é dada a liberdade de imaginar um cavalo com ou sem asas. segue-se que a existência lhe é inseparável. isto é. do simples fato de eu não poder conceber Deus sem existência. O Empirismo . ele existe verdadeiramente. cujo título definitivo surgirá em edição seguinte (1758): Investigação (Inquiry) sobre o Entendimento Humano. Para Hume. Em 1768. não se segue que haja no mundo montanha alguma. Mas não é assim. ir da idéia à impressão consiste em apenas perguntar qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras. o método de Hume pode ser apresentado de maneira mais moderna.

essa experiência não é menos clara do que a precedente. em nome do princípio de causalidade (as mesmas causas produzem os mesmos efeitos ou o aquecimento da água é causa da ebulição). em nenhum setor da experiência. Vejo bem que. que ele se levanta. ao procurarem um objeto que lhes está oculto e quando não o encontram no lugar que esperavam. então. depois. É certo que posso repetir a experiência e que. que faço a todo momento em que sinto o poder da minha consciência sobre meu corpo. Não terei aqui a chave do princípio de causalidade. elas ocorrem melhor do que à tarde (em alguns) e melhor antes da refeição do que após. Ainda aqui. portanto. quer levantar o braço e. Se quero levantar o braço. prevejo a ebulição dessa água. Vejamos para onde nos conduzirá essa busca filosófica. repousa nesse princípio de causalidade. pelo qual do presente se conclui o futuro (a água vai ferver. mas não vejo conexão necessária entre os dois fatos. constato com surpresa que quero efetuar certos movimentos e depois que esses movimentos se realizam. de saída. A experiência externa apenas me fornece o e depois. vivo. em nome desse princípio de causalidade. amanhã fará dia etc. há que ver "antes o ódio ao verbalismo do que o preconceito do sensualismo"). Constato que A se mostra e que. se refletirmos bem. c) Quer dizer enfim da esperiência puramente interior da sucessão de minhas próprias idéias? Deve admitir que minha reflexão atenta é causa das idéias que me ocorrem? Mas. constata que nenhum movimento se segue ao seu desejo. o fenômeno B se segue ao fenômeno A. Ainda aqui constato a existência de uma sucessão entre meu esforço de atenção e minhas idéias. não cessamos de ultrapassar a experiência imediata. Pela manhã. simultaneamente interna e externa. mas ele retém a análise psicológica do grande filósofo francês. b) Examinemos agora essa experiência. cuja língua ou cujos dedos se movem segundo minha vontade. E eu. uma impressão concreta de causalidade que torne legítima essa idéia de causa que pretendemos ter: a) Consideremos. A Análise da Idéia de Causa Aos olhos de Hume. tiro "de um objeto uma conclusão que o ultrapassa". que o fenômeno A é seguido do fenômeno B. Não é evidente que minha vontade é a causa do movimento de meu corpo? Mas. Mas isto não esclarece nada. a noção de causalidade é muito enigmática porque. A repetição constante de um enigma não é o mesmo que sua solução. essa hipótese é extravagante. segundo os casos ou os momentos. Aos olhos de Hume. esse poder não seria mais extraordinário". Permanece enigmática a ação da alma sobre o corpo: "Se tivéssemos o poder de afastar as montanhas ou controlar os planetas. afirmo que a água que acabo de pôr no fogo vai ferver. não me dá a origem do porquê. diz Laporte. Mas não constato que B aparece porque A se mostra. de início. mas não vejo conexão necessária. para surpresa sua. Constato duas coisas: inicialmente.). Mas não constato o porquê. não tenho o menor poder sobre meu coração ou sobre meu fígado. "liveliness" é o pensamento atual. vasculham todos os lugares vizinhos sem visão nem propósitos determinados. há uma conjunção constante. que quero levantar o braço. na esperança de que sua boa sorte irá orientá-las no sentido do objeto de suas buscas". entre os fenômenos A e B. B aparece. De onde me vem esse princípio? A qual impressão corresponde essa idéia? A "investigação" filosófica vai se apresentar aqui como uma pesquisa em todas as direções: "Nós devemos proceder como essas pessoas que. a experiência externa: vejo que o movimento de uma bola de bilhar é seguido do movimento de outra bola com que a primeira se chocou. levanto-o. em seguida. a todo momento afirmamos mais do que vemos. não tenho experiência de uma conexão necessária. Mas o que não vejo é o porquê dessa sucessão. Lembramo-nos como a sucessão de meu querer e de meus movimentos espantava Malebranche a tal ponto que ele via em minha vontade apenas uma ocasião a partir da qual Deus produzia o movimento de meu corpo.impressão e que ele caracteriza pelos termos "vividness". cada vez em que a repito. Não sei absolutamente por meio de que engrenagem neuromuscular complexa se opera o movimento de meu braço. 173 . Hume não encontrará. a barra de metal vai se dilatar. as idéias ocorrem ou não. assim como vejo que o aquecimento é seguido da ebulição: vejo. filósofo do século XVIII. Por exemplo. como eu. que se precisa redescobrir sob as palavras (no empirismo de Hume. Todo raciocínio experimental. Um paralítico.

de certo modo. Mas nas "matters of fact"." O Ceticismo de Hume O empirismo de Hume surge então como um ceticismo. Ele filosofa ceticamente segundo uma reflexão rigorosa e dissolvente. portanto. A crença no princípio de causalidade. que condenara à morte o embaixador norueguês em sua corte (porque este último zombara dele ao afirmar que em seu país. inteiramente explicado por uma ilusão psicológica.que se nos apresenta ingenuamente como uma evidência . De fato. anula-o". Quando mergulha na vida corrente. quando coloca a água no fogo. instintiva. como dizemos. O princípio de causalidade. irresistivelmente arrastada pelo peso do costume. estas me pareceriam tão frias. Quando reflete como filósofo. eu quisesse retornar às minhas especulações. Por conseguinte. pode produzir qualquer coisa. explicar psicologicamente a crença no princípio de causalidade é recusar todo valor a esse princípio. Ceticismo e dogmatismo não se apresentam nele segundo os domínios do saber. "após três ou quatro horas de diversão. como todo mundo. .sem contradição que essa água aquecida se transformasse em gelo! "Qualquer coisa. Pois. Mas essa expectativa não tem fundamento racional. ou então sou eu mesmo e nada mais. o ceticismo de Hume. tão forçadas e ridículas que não poderia encontrar coragem e retomá-las por pouco que fosse". Em última instância.. Se. é porque a imaginação. Se estabeleço "uma conclusão que projeta no futuro os casos passados de que tive experiência". Podemos então qualificar. e votar como os tories. Não existe nenhuma impressão autêntica da causalidade. as verdades da ciência experimental. ao ceticismo antigo. é simultaneamente um dogmatismo instintivo e um ceticismo reflexivo. Aparento antecipar a experiência quando. errara muito ao negar um fato contrário à sua experiência. hábil em mascarar a descontinuidade de todas as coisas. diz ele curiosamente. surge-nos. Aquele rei de Sião. suas "conclusões filosóficas parecem desvanecer-se como os fantasmas da noite ao nascer do dia". o ser e o ter. mas segundo os níveis do pensamento. É simplesmente a imaginação. Para Hegel. Hume. Só que Hume é o primeiro a reconhecer que seu ceticismo. a necessidade causal não existe realmente nas coisas. solidamente.que nega apenas as afirmações da metafísica e fundamenta. em seu gabinete. que já esboçara essa análise psicológica da indução. Por que será que espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque. aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha experiência e essa associação determinou um hábito em mim. A teoria de Hume. dirá Hegel mais tarde. poderia ocorrer . lança a suspeita em toda ciência experimental. é também a imaginação que identifica o eu com o que ele possui ou. é natural. idéias e sonhos do mesmo modo que tenho esta roupa ou esta casa. não tem o menor valor de verdade. na verdade. no inverno. por mais absoluto que seja." No domínio das proposições lógicas. Pascal. tudo pode acontecer. Espero invencivelmente a ebulição da água que coloquei no fogo. por conseguinte. opõe-se um ceticismo moderno . senão o peso do meu hábito e da minha expectativa. dizia em fórmula surpreendente: "Quem reduz o costume a seu princípio. Na realidade.174 Por conseguinte. "A necessidade é algo que existe no espírito.. não existe. não nos objetos. a conclusão se impõe. O que acontece é que eu acredito na causalidade e Hume explica essa crença.é ilusória para ele. Ninguém mais do que ele separou filosofia e vida. partindo do hábito e da associação das idéias. eu tenho reputação e mesmo lembranças.de que Hume seria o corifeu . em virtude de poderoso hábito: vai ferver. diz Hume. é artificial. por outro lado. ousou dizer que convinha a um cavalheiro pensar como os whigs. A não pode ser não-A. Até a unidade do eu . absurda no plano da reflexão. como um ceticismo absoluto. ou eu sou meus "estados" e minhas "qualidades" e não sou eu mesmo. Coloco a água no fogo e afirmo. Em todos os princípios do conhecimento ele descobre as ilusões da imaginação e do hábito. que duvida sobretudo dos sentidos para preparar a conversão do espírito ao mundo das verdades eternas. cedo a uma tendência criada pelo hábito. Em suma. os rios se tornavam tão duros que se podia fazer deslizar trenós sobre os mesmos!!). O ceticismo de Hume. na idéia de causalidade. como "humorístico" o ceticismo desse filósofo inglês que. está persuadido de que ela vai ferver. responde Hume. que facilmente desliza de um estado psíquico a outro e constrói o mito da personalidade. coleção de haveres heteróclitos que é dado como um ser. ele é cético. ao abolir o princípio de causalidade. resvala de um evento dado àquele que comumente o acompanha. Segundo Hume.

Consideremos.perfeitamente explicável pelas leis que governam a imaginação crédula dos homens . Os Diálogos sobre a Religião Natural são difíceis de interpretar porque se trata de verdadeiros diálogos. A natureza sempre manterá seus direitos e. como a forca essencial da crença! Finalmente. ele substitui a pesquisa de um fundamento lógico que se apresenta impossível . argumentos para a religião natural. Hume afirma que está mais próximo de Cleanto. não há nenhum perigo que esses raciocínios.175 Hume e o Problema da Religião Essa complexidade da filosofia de Hume torna mais difícil a elucidação de sua filosofia religiosa. a crença popular nos milagres . em que cada personagem sustenta seu ponto de vista com argumentos sérios. se a verdade do sofrimento humano é. por exemplo. para o filósofo. o próprio Hume afirma ter "querido evitar esse erro vulgar que consiste em só colocar absurdos na boca dos adversários".é muito natural! "A velhacaria e a idiotice humanas são fenômenos tão correntes. portanto. que demonstra a existência de Deus partindo das maravilhas do universo. A noção de um Deus-Providência parece-lhe pouco compatível com os sofrimentos e os males de que os homens são vítimas neste mundo. fundamentava-se precisamente numa crítica análoga à de Hume para afirmar a mesmo fato. Em suma. "O costume torna um fácil. prevalecerá sobre os raciocínios abstratos. Mesmo que concluamos. dos quais depende quase todo conhecimento. por exemplo. possibilidade do milagre. Ele parece ter sido escrito sob a ótica da filosofia das luzes: o milagre é impossível porque contraria a experiência. o mesmo sentido que a crítica da razão experimental. surge. que para o filósofo é uma objeção maior à religião. o papel de Filon e Demea estão sempre de acordo quando se trata de demolir o racionalismo. não estará pensando ao nível da imaginação e do costume. Em compensação. Ressuscitar. o antropomorfismo e o otimismo de Cleanto. que eu antes acreditaria que os acontecimentos mais extraordinários nascem do seu concurso. que em todos os raciocínios tirados da experiência o espírito dá um passo que não é sustentado por nenhum progresso do entendimento. Os três personagens são: um deísta racionalista. um argumento decisivo contra a Providência. Se o espírito não está obrigado a dar esse passo por meio de um argumento. dizia. em Hume. Hume se apóia no determinismo físico para rejeitar a realidade do milagre e no determinismo psicológico para explicar sua ilusão tenaz. tal . o célebre Ensaio Sobre os Milagres. é precisamente esse sofrimento que conduz o povo a buscar as consolações da religião. sua falta torna o outro impossível: popular maneira de julgar" Quando Hume rejeita o milagre. não é mais misterioso do que nascer. Mas.pela pesquisa de origem psicológica da crença. a crítica da razão teológica tem. e o cético Filon. O Textos de Hume O Problema da Causalidade (Segundo a Investigação sobre o Entendimento) Não temos necessidade de temer que esta filosofia. não estará julgando "popularmente"? Seu combate pelas luzes situar-se-ia então no plano da reflexão filosófica que justamente anula o prestígio do costume e do bom-senso indutivo. numa carta de 1751 a Gilbert Elliot of Minto. no povo. ele deve ser conduzido por outro princípio igual em peso e em autoridade. O ceticismo de Hume é um psicologismo. nunca destrua os raciocínios de vida corrente e leve suas dúvidas tão longe a ponto de destruir toda ação como toda especulação. ao invés de admitir uma inverossímil violação das leis da natureza". Por outro lado. Demea. Ao fim da obra. observa Hume sutilmente. sejam afetados por tal descoberta. no momento da redação de seus Diálogos. na finalidade. Cleanto. as leis da natureza. tem-se a impressão de que Hume multiplica suas críticas "céticas" à religião natural. uma vez que sua crítica da causalidade fez desse próprio determinismo uma ilusão psicológica? Pascal. Em ambos os casos. Enquanto muitos filósofos do século das luzes reservam sua ironia crítica para a religião revelada e encontram na ordem do mundo. na medida em que tenta limitar nossas pesquisas à vida corrente. ele declara que. místico anti-racionalista. no fim. Mas como Hume pode apoiar-se no determinismo.

Mas examinem um pouco mais de perto essas existências vivas. e que teria sido tão fácil remediar isto para tanto que o entendimento humano possa ser admitido a julgar em tal assunto. Que imensa profusão de seres animados e organizados. Sejamos mais modestos em nossas conclusões. mas deve ser inferida segundo os fenômenos. necessariamente teria havido muito pouco mal em comparação ao de que nos ressentimos efetivamente. Como são hostis e destruidoras umas para as outras! Como são insuficientes. pois os poderes particulares que concretizam todas as operações naturais nunca se apresentam aos sentidos.176 princípio conservará sua influência por tanto tempo que a natureza humana permanecerá a mesma. mas seria incapaz de descobrir outra coisa. como essa bondade não é previamente estabelecida. com toda sua experiência. Esse princípio é o costume. unicamente porque um acontecimento precede outro em um único caso. Tal conclusão não poderia resultar do ceticismo: é preciso que ela provenha dos fenômenos e de nossa confiança nos raciocínios que deles deduzimos. universalmente reconhecido e bem conhecido por seus efeitos. Ao empregar esta palavra não pretendemos ter dado a razão última de tal tendência. nenhuma idéia. por meio de algum raciocínio. sem mais experiência. afirmamos que. Vejam este universo em torno de vocês. sensíveis e agentes! Vocês admiram esta variedade e esta fecundidade prodigiosa. Pois. o hábito.entendo uma bondade tal qual a do homem . para sua própria felicidade! . de algum modo desconhecido. Sou suficientemente cético para convir que as más aparências. nenhum conhecimento do poder oculto pelo qual um dos objetos produz o outro. ele continuaria a ter o mesmo pensamento. nunca faria conjecturas ou raciocínios sobre qualquer questão de fato. dotado das mais poderosas faculdades de razão e de reflexão. aquele homem.pudesse ser estabelecida por razões a priori admissíveis. se as diversas forças e princípios do universo fossem exatamente construídos para sempre conservar o temperamento justo e o justo meio. Que diremos então nesta ocasião? Diremos que tais circunstâncias não são necessárias e que facilmente poderiam ter sido mudadas no arranjo do universo? Tal decisão parece demasiado presunçosa para criaturas tão cegas e ignorantes como nós. de atingir a idéia de causa e efeito. De saída. Suponha-se que um homem. tanto quanto são. por mais deploráveis que fossem. o mal nunca teria acesso ao universo. Suponha-se ainda que este homem tenha adquirido mais experiência e que tenha vivido por muito tempo no mundo para que tenha observado a conjugação constante de objetos e de acontecimentos familiares. capítulo XI) Se todas as criaturas vivas fossem incapazes de sofrer ou se o mundo fosse administrado por volições particulares. esses fenômenos. um acontecimento seguir-se a outro. não obstante todos os meus raciocínios. quando existem tantos males no universo. dizemos sempre que essa tendência é o efeito do costume. e não é razoável concluir. Todavia. ele seria incapaz. Não existe razão para se inferir a existência de um pela aparição do outro. as únicas que vale a pena considerar. não pode haver nenhum motivo em favor de tal inferência. Mas ele sempre se acha determinado a tirá-la. todas a vezes que a repetição de uma operação ou de um ato particular produz uma tendência no sentido de renovar o mesmo ato ou a mesma operação sem o impulso de qualquer raciocínio ou progresso do entendimento. e. se conciliar com ele. Apenas designamos um princípio de natureza humana. podem ser compatíveis com tais atributos. seja subitamente transportado por este mundo. se a bondade divina . mesmo que o convencêssemos que seu entendimento de modo algum participa na operação. Numa palavra. e não é por nenhum progresso de raciocínio que ele é obrigado a chegar a esta conclusão. não bastariam para perturbar o dito princípio. O Problema do Mal (Discurso de Filon nos Diálogos sobre a Religião Natural. que um seja a causa e o outro o efeito. que resulta dessa experiência? Ele imediatamente infere a existência de um dos objetos pela aparição do outro. ele não adquiriu. Existe um outro princípio que o determina a estabelecer tal conclusão. e se os animais fossem dotados de uma ampla provisão de forças e de faculdades. Sua formação pode ser arbitrária e acidental. A natureza desse princípio bem merece que nos entrguemos ao esforço de investigar sobre ela. só estaria certo do que está imediatamente presente em sua memória e em seus sentidos. certamente ele observaria de imediato uma contínua sucessão de objetos. mas poderiam facilmente. Todavia. Convenhamos que.

Em 1642. que são isentos de mistura. . Retornará à Inglaterra por ocasião da restauração de Carlos II em 1660. leve e pesado! A verdadeira conclusão é que a fonte original de todas as coisas é inteiramente indiferente a todos esses princípios e prefere tanto o bem ao mal quanto o quente ao frio. Hobbes. A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. Todavia. úmido e seco. Antes mesmo da revolução de 1648. sem prova decisiva. por outro lado. o seco ao úmido ou o leve ao pesado. o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias. Na fonte de todos os nossos valores. há o que Hobbes denomina endeavour. Por conseguinte. em inglês. em 1651. idênticas aos princípios de que partimos. mas nunca foi integralmente traduzido para o francês. que são opostas e ao mesmo tempo possuem bondade e maldade e que não possuem bondade nem maldade. na medida em que dá uma explicação plausível da estranha mistura de bem e de mal que surge na vida. que possuem perfeita maldade. ele será o amigo devotado dos Stuarts. em latim. em 1608. Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras do emprego dos signos. Fenômenos mistos nunca poderiam provar os dois primeiros princípios. ao justificar o poder absoluto do soberano. princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações. podemos chegar a conclusões rigorosas. O absolutismo da época de Hobbes geralmente se apóia na teologia (Deus teria investido os reis de seu poder absoluto). impregnada por um princípio vivificante e que deixa cair de seu regaço. É partindo de tais fundamentos psicológicos que Hobbes elabora sua justificação do despotismo. Durante toda sua vida. de afirmação e de crescimento de si próprio. Ao lado de uma indução empírica aproximativa. se considerarmos a uniformidade e a concordância perfeitas das partes do universo. ele foge da Inglaterra. sem discernimento nem cuidados maternos. perfeitamente racional. sem dúvida. Hobbes crê na possibilidade de uma lógica pura. descobre-lhe uma origem natural. num certo sentido. isto é. Mas. em 1588. esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada (esse tema do conatus será reencontrado no spinozismo). Assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro. Mas a essa lógica só concernem símbolos. não descobriremos aí qualquer marca do combate de um ser malfazejo contra um ser benfazejo. A uniformidade e a firmeza das leis gerais parecem se opor ao terceiro. Hobbes é um empirista inglês e nele encontramos os temas fundamentais que serão sempre os da escola. o quarto parece muito mais provável. palavras (Hobbes é nominalista). O Leviatã será traduzido para o latim em 1688. sai da Universidade de Oxford e se torna preceptor do filho de Lord Cavendish. e. o instinto de conservação ou. seus filhos estropiados e abortados! Aqui o sistema maniqueu se apresenta como uma hipótese adequada para resolver a dificuldade. e conatus. Hobbes admite a existência de uma lógica pura. faz publicar em Londres o Leviatã ou matéria. onde se sente ameaçado por causa de suas convicções monarquistas. Existem quatro hipóteses possíveis no que se refere às primeiras causas do universo: que são dotadas de perfeita bondade. ele é mais especioso e apresenta mais probabilidades do que a hipótese comum.177 Quão desprezíveis ou odiosas para o espectador! O todo só suscita a idéia de uma natureza cega. Filho de clérigo. assim a moral se reduz ao interesse e à paixão. Viajará por diversos países da Europa. Hobbes. A origem de todo conhecimento é a sensação. de um raciocínio demonstrativo muito rigoroso.Hobbes Tomás Hobbes Tomás Hobbes nasceu em Westport. isto é. que vai suprimir o poder real. mais exatamente. É certo que existe uma oposição entre dores e prazeres nas afecções das criaturas sensíveis. ele publica em Paris o De Cive e. O Empirismo . que da experiência passada conclui. mas todas as operações da natureza não se realizam por uma oposição de princípios como quente e frio. Mas trata-se de um jogo do pensamento. notadamente pela Itália (encontrará Galileu em Florença) e sobretudo pela França (encontrará o padre Mersenne em Paris). forma e autoridade de uma comunidade eclesiástica e civil. the trayan of imagination). estranho às realidades concretas. em Amsterdam.

ao menos a sujeição do outro. No estado social. o reconhecimento de sua própria superioridade. o homem é o lobo do homem.comumente não deseja a morte de seu adversário e deseja seu cativeiro a fim de poder ler. que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política. No estado de sociedade. o poder de cada um é medido por seu poder real.sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte. (Essa psicologia da vaidade e do medo é. Este último . é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. notemo-lo bem. procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais. em definitivo. Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco.o poder religioso ao poder político. como no de natureza. No estado natural. Ele não é sociável por natureza e só o será por acidente. um estado de insegurança e de angústia. é a guerra de todos contra todos. mas distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político.) É o medo.178 Para ele. Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. mas sobretudo as alegrias da vaidade (pride). é a paixão que vai dar a palavra à razão. o homem se distingue dos insetos sociais.apesar de prudentes reservas . ele é o senhor absoluto desde então. reduz-se à força. Pois. cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos. para todos. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança. Quanto a este último.por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças . o homem não possui instinto social. em todos os casos. Isto só será possível se cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um soberano que. ninguém está protegido. terá um poder absoluto. uma vez que o soberano terá. o que houve. portanto. por isso. em última instância mais poderoso do que o orgulho. foi "uma alienação e não uma delegação de poderes". esta á a origem psicológica que Hobbes atribui ao poder despótico. cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses pessoais. o maior interesse em fazer reinar a ordem se quiser permanecer no poder. querem usurpar". Os homens. o totalitarismo de Hobbes submete . na segurança. em que cada um procura senão a morte. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano. Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade. Houve. esse poder absoluto permanece um poder de fato que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer do que obedecer. Assim sendo. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura. por natureza. para todos. em Hobbes.observa Hobbes. ao invés de uma desigualdade. Para compreender como o homem se resolve a criar a instituição artificial do governo. como as abelhas e as formigas. uma espécie de laicização da oposição teológica entre o orgulho espiritual e o temor a Deus ou humildade. ao herdar os direitos de todos. em suas dioceses. "Bellum omnium contra omnes". o direito. Em todo caso. O maior sofrimento é ser desprezado. É claro que esse estado. basta descrever o que se passa no estado natural. Assim sendo. Mas não houve pacto nem contrato. o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor. Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário em lembrança de uma passagem da Bíblia (Jó XLI) em que tal palavra designa um animal monstruoso. mas não possui o menor compromisso em relação a seus súditos. Finalmente. antecipando aqui os temas hegelianos . Assim é que ele exclui o "papismo" e o "presbiterianismo" por causa "dessa autoridade que alguns concedem ao papa em reinos que não lhe pertencem ou que alguns bispos. em seu olhar atemorizado e submisso. portanto. O efeito comum do poder consistirá. mas . é um estado extremamente infeliz. uma atemorizada renúncia do seu próprio poder. Para Hobbes. a força é a única medida do direito. Apesar de tudo. da parte de cada indivíduo. o estado natural é. o monopólio da força pertence ao soberano. de fato. o homem. Por conseguinte. o ofendido procura vingar-se. como diz Halbwachs. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: "Homo homini lupus". .

. como os de Spinoza. A mesma situação de guerra não implica na existência da propriedade. cada um tem direito sobre todas as coisas. O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade. em outras palavras. Eis então. as grandes "visões do mundo". As paixões que inclinam o homem para a paz são o temor à morte violenta e o desejo de tudo o que é necessário a uma vida confortável. daí resulta que. quando não há propriedade.. e os do século XIX . Malebranche.. e onde não há Poder Constrangedor estabelecido. a triste condição em que o homem é colocado pela natureza com a possibilidade. a saber. e marca o triunfo da inteligência crítica. Cap. não há Propriedade e cada homem tem direito a todas as coisas. para forçar os homens a executar seus pactos pelo temor de uma punição maior do que o benefício que poderiam esperar se os violassem. enquanto não há Estado. elas poderiam ser encontradas num homem que estivesse sozinho no mundo (como acontece com seus sentidos ou suas paixões). possantes e originais. em seguida. A substância doutrinal de quase todos os filósofos desse século provém de sistemas anteriores. nessa situação. não ao homem solitário. onde não há lei.. Cap.. 1. Justiça e injustiça não pertencem à lista das faculdades naturais do Espírito ou do Corpo. O Iluminismo Francês O Iluminismo Francês Entre os grandes sistemas do século XVII.doutrinas de Hegel ou de Augusto Comte . nem na distinção entre o Meu e o Teu. não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança. justiça e injustiça são qualidades relativas aos homens em sociedade. por um lado. XV . sua própria vida. As noções de certo e errado. de sair dela. de justiça e de injustiça não têm lugar nessa situação. para salvaguardar sua própria natureza. ou seja. mesmo até o corpo dos outros.. essa guerra de todos contra todos tem por conseqüência o fato de nada ser injusto.... inicialmente. por outro. É o que também resulta da definição que as Escolas dão geralmente da justiça. segundo d'Alembert. possibilidade que. para garantir-lhes a propriedade do que adquirem por Contrato mútuo em substituição e no lugar do Direito universal que perdem. não há injustiça. Leibnitz. Onde não há Poder comum. nesse caso. e por muito tempo.a filosofia do século XVIII ocupa um lugar original. pois.ª parte: Do Homem Cap. é preciso que haja um Poder constrangedor. por exemplo... "Newton criou a física e Locke a metafísica".... E não existe tal poder constrangedor antes da instituição de um Estado. E a Razão sugere artigos de paz convenientes sobre os quais os homens podem ser levados a concordar. ela ignora as grandes sínteses. Antes que se possa utilizar das palavras justo e injusto. XIV . isto é. E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um. é bem verdade. XIII . não há injustiça: força e astúcia são virtudes cardeais na guerra. quando nada é próprio. se apóia na Paixões e. nada há que seja Injusto. pois..179 O Estado Natural e o Pacto Social Leviatã. não há lei. que a justiça é a vontade de atribuir a cada um o que lhe cabe pertencer.. Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos. mas apenas no fato de que a cada um pertence aquilo que for capaz de o guardar. Na realidade.. onde não há Estado. O Estado de natureza. Por conseguinte. em sua Razão.

do próprio corpo e dos demais corpos. Aufklärung. na trapaça de uns e na credulidade de outros. Paralelamente ao desenvolvimento teórico do espírito procede o desenvolvimento prático. estamos perante um ceticismo metafísico. o desejo estável torna-se vontade. isto é. A lembrança de sensações agradáveis e a comparação com as presentes. que é comparação entre sensações presentes e passadas. O espírito adquire. O espírito. dir-se-ia hoje. profecias. Newton não faz o romance da matéria. nasce a distinção entre presente e passado. deste modo. de Spinoza. milagres. em dado momento. do racionalismo. e também de Descartes (cuja "visão"metafísica é rejeitada. começa a ter uma sensação de olfato. Tem-se. mas que é regido pelas leis de todo o universo. durante um decênio (1758-1767). mas cujo método racionalista é bem acolhido). Deus é identificado com a natureza . a capacidade de noções gerais. uma série de três graus de atenção. a física de Newton destrona a de Descartes. orientando-a paa o sensismo. renunciando a imaginar o longínquo "por que" metafísico. o desejo preponderante torna-se paixão. e que querem criar movimentos de opinião: a ironia e a clareza do estilo adquirem eficácia particular para tais empreendimentos. do mundo externo. os pensadores do século XVIII farão suas armas: eles são. a consciência. a primeira permanece com uma intensidade atenuada. "Hypotheses non fingo". o olfato. a distinção entre atividade (na memória) e passividade (na sensação). herdeiro daquele trono. em que desenvolve a sua concepção sensista. a memória o segundo. que é uma coleção de sensações atuais e lembradas. as marés. assim. (É o século das luzes. o mundo externo é afirmado dogmaticamente. a direção voluntária de atenção sobre uma determinada sensação . há que acrescentar a influência capital de Spinoza. isto é. O século XVIII caracteriza-se por uma tendência empírica e analítica: procura-se explicar as idéias complexas a partir das simples e as idéias a partir dos fatos. Condillac imagina o homem como uma estátua. que é o mais pobre dos sentidos. tornam-se desejo. de sorte que.idéia ou relação. afastada a primeira sensação e sobrevindo outra. da ciência do espírito humano. derivando da mera sensação sem reflexão . na corte de Parma. mediante um só sentido. explicação suficiente e perfeitamente natural. simultaneamente racionalista e experimental. contudo. o eu. encontram. Da sensação (agradável ou dolorosa) nasce o sentimento (de prazer ou de dor). filósofos engajados. de atividade do espírito. ao descrever o "como" dos fenômenos. preceptor. Uma lembrança vivaz torna-se imaginação. c) Sem dúvida. a realidade. ele explica o movimento dos planetas. a abstração. isto é. quando. privada de toda sensação (tabula rasa) e que. a separação de uma idéia de outra. entretanto. Consideramse os artífices da felicidade humana e se empenham na destruição dos preconceitos e na difusão das "luzes". mediante o tato. a idéia de que o homem não é "um império num império". e a generalização. isto é.180 a) Já na metade do século. De sua doutrina evidenciar-se-á sobretudo o naturalismo. a existência. Comparando a sensação atual com a sensação lembrada. adquire consciência do mundo físico. A obra filosófica mais importante de Condillac é o Traité des sensations. devido ao fato de ter ele sido. b) Locke passa por ser o criador da "metafísica". de Fernando de Bourbon. juízo . "o esforço de perseverar em seu ser". Ele desenvolveu o empirismo de Locke num sentido francamente sensista. filosoficamente. porquanto se trata sempre de sensações. mas exprime os fatos realmente dados na linguagem rigorosa da matemática. o juízo. . pela resistência que o nosso esforço encontra no mundo externo. Com as idéias de Newton. o exercício de todas as suas faculdades. a reflexão.toda a experiência.em uma série de idéias e juízos. prodígios.) Daí o tom particular desses filósofos que fazem panfletos contra o poder. constituindo a sensação o primeiro grau. de Locke. Condillac (1715-1780) O filósofo mais notável do iluminismo francês é Estevão Bannot de Condillac (1715-1780). contra a Igreja. Condillac exerceu uma influência particular sobre a cultura italiana. isto é. a gravidade. dizia Newton. ao relatar os fatos reais em linguagem matemática. a imaginação o terceiro. A sensação odorosa (de uma rosa) torna-se memória.e as leis ditas eventos sobrenaturais. a idéia de que o motor de todos os sêres é o desejo. Podemos dizer que a física de Newton contribuiu largamente para a formação do espírito moderno.Deus sive natura . Isto não prova. não forjo imagens metafísicas. A matemática do infinitesimal descreve adequadamente as variações contínuas dos fenômenos.

É preciso encontrar em cada clima. ele acha que o homem. opor os sistemas metafísicos entre si. A monarquia tradicional repousa num sistema hierárquico de suseranos e vassalos que só funciona a partir de uma moral da honra. só se explicam pela existência de um Criador inteligente ("Este mundo me espanta e não posso imaginar / Que este relógio exista e não tenha relojoeiro"). sua finalidade interna. Daí a separação entre poder legislativo. Fontenelle (1657-1757) mostrou. antes de Voltaire. as "relações necessárias". harmônica. Montesquieu. antes de Voltaire. Pierre Bayle (1647-1707). É certo que esse Deus policial é sobretudo requisitado para manter a ordem social e as vantagens econômicas aproveitadas por Voltaire e os outros grandes burgueses. inimigo encarniçado do cristianismo. O próprio espírito voltairiano teve seus precursores. mais harmonioso. exposta no Espírito das Leis (1748). é uma prodigiosa colocação de teses que testemunha sua incomparável erudição e que será possuído por todos os intelectuais do século XVIII). Montesquieu.181 Montesquieu (1689-1755) A política de Montesquieu. a justiça ideal preexistem às leis escritas. Todavia. são muito menos a expressão de um determinismo sociológico de tipo materialista do que a afirmação de uma ligação ideal. nunca afirmou que o clima determina. realizarão o conjunto mais justo. estas ou aquelas instituições. O célebre verso de Voltaire "Se Deus não existisse precisaria ser inventado" deve. ser citado com seu comentário: "e teu novo arrendatário / Por não crer em Deus. em sua crítica aos prodígios e superstições populares. civil e outras são as funções". Não vemos como na Inglaterra a liberdade política conduz à existência de leis particulares que não encontramos em outros regimes? As leis obedecem a um determinismo racional. entre certos tipos de governo e certas leis possíveis. "A verdadeira lei da humanidade é a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. Voltaire (1694-1778) Voltaire. 1697. em cada circunstância em que se está colocado. Voltaire. significa dizer que. esta ou aquela psicologia para com os cidadãos: a democracia da cidade antiga só é viável em função da "virtude". surge como essencialmente racionalista. mantém o princípio de um Deus justiceiro. é um deísta convicto: a organização do mundo. a fé nos milagres do cristianismo. E Fontenelle já colocara (Conversações sobre a pluralidade dos mundos) a nova astronomia ao alcance dos marqueses. Criticou Leibnitz e seu "melhor dos mundos possíveis" que. necessariamente. . a fim de ressaltar de suas contradições a necessidade da tolerância (o Dicionário histórico e crítico de Bayle. reduzido apenas aos seus recursos. de certo modo. possuía a arte de. mas são "relações necessárias que derivam da natureza das coisas". protestante francês exilado em Roterdam. da força do medo. sendo que as melhores pertencem a este ou aquele governo. este ou aquele tipo de lei. "misantropo sublime". quais aquelas que. Só os maus legisladores favorecem os vícios do clima. pode estabelecer uma certa justiça sobre a terra e alcançar uma certa felicidade. quais as leis melhor adaptadas. Apesar de negar o pecado original. após o terremoto de Lisboa. em cada forma de governo. que a história se explica mais pelo jogo das paixões humanas do que pelo decreto da Providência. Assim é que cada forma de governo determina. por exemplo. o poder detenha o poder". isto é. "é preciso que. para ser bem compreendido. pelo espírito cívico da população. uma vez que lhes servem de guia. permanece otimista. ao passo que o despotismo só subsiste com a manutenção. necessariamente. no entanto. Para que ninguém possa abusar da autoridade. Bayle já apresenta ardis tipicamente voltairianos para comprometer. Voltaire. poder executivo e poder judiciário. pela disposição das coisas. em toda parte. todos os raios eram desiguais". Em seus Pensamentos sobre o cometa. dizer que só o que as leis positivas ordenam ou proíbem é que constitui o que há de justo e injusto. possui sobretudo concepção racionalista das leis que não resultam dos caprichos arbitrários do soberano. antes que se tivesse traçado os círculos. é o tipo acabado do "filósofo" do século XVIII. Ela se caracteriza pela busca de um justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão. As idéias filosóficas de Voltaire. não são originais. de que fala Montesquieu. porém. Como diz muito bem Brehier. na situação considerada. tirada de Locke e de Newton. "a variável aqui é a forma de governo de que as legislações políticas. contra Pascal. cabendo ao legislador descobri-las e aplicá-las. O "direito natural".

pois o ocupava com todas as coisas de que o julgava capaz. (Ele também teme que esses fósseis marinhos nas montanhas só sirvam para os cristãos provarem a história do dilúvio!). não só pelas respostas que dava a certas questões. Aos onze anos. Além das línguas. sabendo como a matemática é apaixonante e absorvente. as espécies vivas são fixas. não o largava até resolvê-lo plenamente. Tudo isso aguçava ainda mais a curiosidade do menino. Mesmo quando. de sorte que quando veio a aprendê-las sabia o que fazia e dedicava-se aos aspectos que lhe exigiam maior dedicação". Essa precaução serviu apenas para aumentar a curiosidade de Blaise. quando se defrontava com um problema. depois de propor axiomas relativos às figuras. Segundo sua irmã e biógrafa. pagar-te-á melhor?" É certo. em nome desse finalismo estático. Étienne Pascal ensinava outras coisas ao filho: dava-lhe rudimentos sobre as leis da natureza e sobre as técnicas humanas. a estrutura geográfica da terra. que permitia que se fizesse nenenhuma operação sem lápis nem papel. evitou por muito tempo que o filho a conhecesse. era o único filho do sexo masculino. Mostrava-lhe de um modo geral o que eram as línguas. Diante de uma explicação insuficiente. Essa idéia geral esclarecia-lhe o espírito e fazia-o compreender o motivo das regras da gramática. Como queria que Blaise estudasse línguas e. Gilberte Périer. Admitir que as montanhas outrora estiveram submersas. prometendo-lhe que a ensinaria quando ele já soubesse grego e latim. a 19 de junho de 1623. ele rejeita as idéias evolucionistas que começam a se difundir. considerado muito bom para sua idade. depois passou a buscar as proporções entre elas e. Blaise recebeu os livros dos Elementos de Euclides e pôde dedicar-se à vontade ao estudo da geometria. para que aprendesse com maior facilidade. o pai apegou-se muito a ele e encarregou-se de sua instrução. dedicou-se a fazer demonstrações exatas. e de Antoinette Bégon. passava a pesquisar por conta própria até encontrar uma resposta satisfatória e. suas experiências sobre os sons levaram-no a escrever um pequeno tratado. por esse motivo só deixou que aprendesse latim aos doze anos. que tais regras tinham exceções assinaladas com cuidade. que. Estarrecido. a família Pascal mudou-se para Paris. ensinou-lhe como haviam sido reduzidas as gramáticas sob certas regras. não foi impresso na época. seria negar a estabilidade e a finalidade da ordem atual do mundo. mas sobretudo pelas questões que ele próprio levantava a respeito da natureza das coisas. Para ele. e que por esses meios todas as línguas haviam podido ser comunicadas de um país para outro. numa finalidade 182 . sem que se soubesse qualquer regra de aritmética. Entre a Ciência e a Religião Não apenas na matemática revelou-se o gênio precoce de Pascal. o pai verificou que o filho descobrira sozinho a matemática. Recusa-se a crer nos fósseis de animais marinhos descobertos nas montanhas por aquela época. Durante esse intervalo não o deixou ocioso. afinal. no entanto. Procurava tracá-las corretamente. Pascal revelou desde cedo um espírito extraordinário. presidente da Corte de Apelação. nunca o enviando a colégios. A irmã Gilberte escreverá mais tarde: "A máxima dessa educação consistia em manter a criança acima das tarefas que lhe eram impostas. A partir de então. em 1631. Blaise Pascal era filho de Étienne Pascal. Étienne Pascal era matemático e sua casa era muito freqüentada por geômetras. a educação de Blaise permaneceu ao encargo do pai. que Voltaire crê na ordem do mundo. Perdeu a mãe aos três anos de idade. que queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais.providencial. Assim. Nas demais ciências realizou surpreendentes progressos e aos dezenove anos inventou a máquina aritmética. que passou a se divertir com as figuras geométricas que o pai lhe havia mostrado. Os avanços foram rápidos: aos dezesseis anos escreveu Tratado Sobre as Cônicas. Com isso chegou até a 32ª proposição do livro I de Euclides. Blaise Pascal Vida e Obras Nascido em Clermont-Ferrand. no entanto. por sua própria vontade.

Gilberte Périer: "Foi por esse tempo que aprouve a Deus curar minha filha de uma fístula lacrimal que a afligia havia três anos e meio. A alegria que experimentou foi tão grande que se sentiu completamente penetrado por ela. O invento de Pascal foi considerado uma verdadeira revolução. provando que os efeitos comumente atribuídos ao vácuo eram. acalentando o projeto de reunir a sociedade laica e a cristã e de combater a corrupção que teria sido causada pela evolução dos últimos séculos. e enfim Deus permitiu que ela se curasse tocando o Santo Espinho que existe em Port-Royal. Assim. senhor de SaintAnge-Montcard. A idéia central de Pascal . perante a qual todos os homens seriam culpados pela transmissão do pecado original. para melhor romper com seus hábitos. realizada por Leibniz (1646-1716) e Newton (16421727). Mais tarde . que havia entrado para o convento. passou a sse interessaar pelos problemas matemáticos relacionados aos jogos de dados. foi morar no campo. ciência que reside inteiramente no espírito. que ele denominou Aleae Geometria (Geometria do Acaso). Na verdade. foi. que se tornou muito frágil daí por diante. O método aplicado por Pascal para estabelecer essa área abriu caminho à descoberta. o Novo revelaria a misericórdia de Deus.. Essa fadiga comprometeu definitivamente sua saúde. Pascal dirigiu seu interesse para as questões da Igreja e da Revelação. Blaise conheceu Jacques Forton. e os trabalhos de cunho apologético Colóquios com o Senhor de Saci Sobre Epicteto e Montaigne e as Províncias. Em função de Cristo. Nesse período escreve o Memorial. Jacqueline conseguiu persuaadir o irmão de que "a salvação devia ser preferível a todas as coisas e que era um erro atentar para um bem passageiro do corpo quando se tratava do bem eterno da alma". Jacqueline Pascal. que determinou a mudança de sua trajetória espiritual: o "milagre do Santo Espinho". As análises sobre o milagre são fundamentais no pensamento de Pascal. As pesquisas que fez a esse respeito conduziram-no à formulação do cálculo das probabilidades. depois do período em que procurou a verdade científica e a glória humana no domínio da natureza e da razão. e esse milagre foi atestado por vários cirurgiões e médicos. onde tanto fez para abandonar o mundo que o mundo afinal o abandonou". Blaise e outros jovens. na verdade. pois transformava uma máquina em ciência. Pascal estabelece a verdadeira relação entre os dois Testamentos: o Antigo revelaria a justiça de Deus. curva descrita por um ponto da circunferência que rola sem deslizar sobre uma reta. O fato é narrado pela irmã de Pascal. Pascal tinha então trinta anos. tomou conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) referente à pressão atmostérica e realizou uma outra. Pascal foi decisivamente marcado por um acontecimento. num derradeiro estudo científico sobre a área de ciclóide. Em Ruão. mediador entre o finito (as criaturas) e o infinito (Deus criador). Segundo o relato de Gilberte. para onde se havia mudado a família Pascal. resultantes do peso do ar. e. do cálculo integral. em que aborda a questão dos "infinitamente pequenos". obra mística. seus amigos.a partir de 1652 -. permite calcular as combinações possíveis de m objetos agrupados n a n. Essa fístula era maligna e os maiores cirurgiões de Paris consideravam incurável. todavia. quando ele se une aos jansenistas do Port-Royal. ele ficou emocionado com o milagre porque nele Deus era gloorificado e porque ocorria num tempo em que a fé da maioria era medíocre.183 mas com segurança infalível. esse milagre foi a ocasião para que nele se produzissem muitos pensamentos importantes sobre milagres em geral". Aos 23 anos. muito complicada e Pascal levou dois anos trabalhando com os artesãos. O chamado Triângulo de Pascal foi um dos resultados dessas pesquisas sobre jogos de azar: trata-se de uma tabela numérica que. A essa questão voltará mais uma vez em 1658. entre outras propriedades. e reconhecido pelo juízo solene da Igreja". Um dos últimos trabalhos científicos de Pascal nesse período é o Tratado Sobre as Potências Numéricas. com quem teve as primeiras discussões a respeito da Bíblia. cujo sacrifício infunde a graça santificante no coração dos homens e os redime. quando "resolveu desistir dos compromissos sociais. sob a influência de sua irmã. denominada "a experiência do vácuo". como seu espírito ocupava-se de tudo com muita reflexão. A construção da máquina. A cura de sua sobrinha e afilhada repercuriu profundamente em Pascal: ". que o leva a descer entre os homens por intermédio de seu Filho. logo consideraram Saint-AngeMontcard um herético pernicioso. Começou mudando de bairro e. Começa então a fase apologética da obra de Pascal.. dos dogmas e da Igreja católica e da teologia em geral. pois determinam o centro de todas as suas reflexões religiosas e filosóficas: a figura de Cristo.

Antes do início dpo movimento. que. já os cristãos seriam os que crêem num Deus de amor e de consolação. pois só o mediador poderia reparar a miséria do homem. está na felicidade. Os jansenistas dedicaram-se particularmente à discussão do problema da graça. que também pretendia o retorno so catolicismo à disciplina e à moral religiosa dos primórdios do cristianismo. apresentando-se como um verdadeiro cisma. era livre. o homem não pode deixar de pecar. no sentido corrente do termo. Descontente com o exagerado raacionalismo dos teólogos escolásticos. Em conseqüência disso. passava de monarquia temperada do Antigo Regime (caracterizada pela primazia da realeza sobre os senhores. mas a abandonar toda e qualquer função social. a não ser que intervenha a caridade (amor celeste). que o orienta infalivelmente para o bem. E a ideologia que vai diversificar o interior desse grupo apresenta como núcleo a afirmação da impossibilidade radical de se realizar uma vida válida neste mundo. que logo foi atingido pelos anátemas do papa. independentemente das ações que comete. com Cristo. mas sim qual era a política cristã. a oposição entre o grupo e Richilieu não consistia em indagar se a vida cristã era ou não compatível com a política. Ali o jansenismo assumiu forma ascética e polêmica. na obra Augustinus. Antoine Le Maître . Jansênio . em sua evolução. os judeus e os cristãos: os pagãos (isto é. A partir de então é que nasce o jansenismo propriamente dito: afirmação de que é impossível para o verdadeiro cristão e para o verdadeiro eclesiástico participar da vida . graças à atuação do abade de Saint-Cyran e de Antoine Arnauld (1612-1694). Submetidos à lei férrea desse dúplice amor. Jansenismo e Monarquia Absoluta Com o intuito de reformular globalmente a vida cristã. isso leva homens e mulheres não apenas a abandonar a vida mundana. embora dele discordassem quanto a alguns pontos importantes: preconizavam uma aliança com a Espanha católica e luta mortal contra os huguenotes. declarava que a razão filosófica era "a mãe de todas as heresias". Era uma época de profundas transformações políticas na França. na qual as atribuições dos oficiais e das cortes são transferidas para o corpo de comissários do rei. que o arrastou para o mal. chegando por intermédio dele a conhecer o verdadeiro Deus. na prisão do castelo de Vincennes.pertenciam à nobreza togada e em especial a um grupo desses nobres que esperavam passar à condição de comissários do rei. de adminstradores e de oficiais) à monarquia absoluta. graças ao apoio do Terceiro Estado. os filósofos) seriam aqueles que acreditam num Deus que é si mplesmente o autor das verdade geométricas e da ordem dos elementos. os seres humanos tornaram-se escravos da Terra ou do Céu. Até 1637. A monarquia. o holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) deu início a um movimento que abalou a Igreja caatólica durante os séculos XVII e XVIII. a de que sem Cristo o homem está no vício e na miséria. Os indicadores do movimento jansenista na França . Baseando em Santo Agostinho sua doutrina do dúplice amor. portanto. na virtude e na luz. que estivessem dentro ou fora do país. instalaram-se em Port-Royal. buscando nas obras de Santo Agostinho (354-430) elementos que permitissem conciliar as teses dos partidários da Reforma com a doutrina católica. durante dez anos. A vitória de Richilieu desencadeou a ruptura com o grupo e um de seus membros (Saint-Cyran) permaneceu.sobre o problema religioso é. 184 A figura de Cristo permite ainda a Pascal distinguir os pagãos. antes de pecar. juntamente com outros intelectuais. Jansênio. o homem estaria predestinado para o céu ou para o inferno.uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne. Desse modo. arrastados para a condenação ou para a salvação.Saint-Cyran. que faz com que eles sintam interiormente a miséria em que vivem e a infinita misericórdia de quem os criou. futuro abade de Saint-Cyran. pelo pecado perdeu a liberdade e tornou-se escravo da concupiscência.doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres . os mais destacados integrantes do grupo de Port-Royal eram amigos e companheiros do cardeal Richelieu. O jansenismo expandiu-se principalmente na França. do corpo de legistas. Somente aquele que chega ao fundo da miséria e da indignidade e que sabe do mediador (Cristo). Arnauld d'Andilly. sustentava que Adão. os judeus seriam os que acreditam num Deus que exerce sua providência sobre a vida e os bens dos homens a fim de dar-lhes um seqüência de anos felizes.

Esse encontro permite a Pascal estabelecer o acordo entre a consciência e a vida. presente e ausente. à religião. Pascal transita. O centro da trajetória espiritual de Pascal reside no seu encontro com o jansenismo. Da Militância ao Recolhimento O jansenismo podia propor uma atitude abstencionista em relação à política porque estava constituído por pessoas que pertenciam a um grupo social cuja base econômica dependia diretamente do Estado. paradoxal: exprime o descontentamento em face da monarquia absoluta. será ainda entre os jansenistas que Pascal chegará à conclusão de que é importante retirar-se definitivamente do mundo e até mesmo da militância religiosa. A oposição dos jansenistas constituía apenas uma das modalidades de oposição que se fazia. na época. a recusa intramundana do mundo e o apelo de Deus. assim. Mas jansenismo aapresentou duas vertentes: uma preconizava o retiro completo. Os jansenistas são trágicos porque vivem uma situação trágica . que passaram a exercer as antigas funções dos oficiais e das cortes. à monarquia e que contará com maior número de adeptos depois da Fronda (sublevação contra o primeiroministro Mazarin. Tinha 39 anos de idade. dependiam economicamente do Estado.e isso significa que a militância religiosa não mais pode ser efetuada. A situação dos jansenistas é. em momentos diversos de sua vida. no século XVIII. Essa mudança é determinada pela condenação do jansenismo pelo papa Alexandre VI. Nessa terceira fase de sua vida. O "milagre do Santo Espinho" reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza" . através da militância religiosa que procura o triunfo da verdade (ciência) na Igreja e o triunfo da fé (religião na sociedade laica. Os Pensamentos revelam ser os escritos de um homem a quem "o silêncio eterno dos espaços infinitos apavora". e a realidade prática de uma vida consagrada ao mundo. Pascal volta a dedicar-se à ciência (estudos sobre a ciclóide e sobre a roleta. Deve-se notar que o pai de Pascal era membro da Corte Suprema de Clermont-Ferrand. poder desejar sua destruição ou sua transformação radical. a luta contra a monarquia absoluta. mas seus escritos religiosos perdem o tom apologético para se tornar trágicos. Pascal exprime uma só certeza: a de que a única verdadeira grandeza do homem reside na consciência de seus limites e de suas fraquezas. contudo. "a incerteza radical e certa. Na fase final de sua vida e de sua obra. em princípio. escreve Lucien Goldmann. porém. . Jacqueline Pascal). ideologicamente. Enquanto nobreza togada. Pascal acaba submetendo-se ao poder papal .que Pascal pôde escrever os Pensamentos e abrir um capítulo novo na história do pensamento filosófico". Nicole) passa ao retiro (Barcos. que lhe permitiu exprimir melhor sua sede de absoluto e de transcendência.como escreve sua irmã Gilberte. que se 185 Pascal morreu em 29 de agosto de 1662. os membros das Cortes. o paradoxo. advogados e membros das cortes supremas. seguidos de discussões com vários sábios da época). E é estendendo o paradoxo até o próprio Deus . Pascal participa de ambas as correntes. esperança e risco . A vocação religiosa de Pascal encontra no jansenismo o solo favorável para sua expansão. à uma hora da madrugada. os oficiais. Esse acordo. Até o encontro com o jansenismo havia na vida de Pascal uma contradição entre a primazia atribuída.que para o homem é certo e incerto.incompatibilizaram com a política de Richilieu.e por isso afirmam tragicamente a vaidade essencial do mundo e a salvação pelo retiro e pela solidão. em geral. os simpatizantes do movimento eram. A vanguarda jansenista era constituída por advogados e suas famílias. sem. assim. À fase apologética daas Proncinciais segue-se então a fase dos Pensamentos. não se manterá. desgostosos com o poder dos comissários do rei. embora. descobre a tragédia". de 1648 a 1652). entre as duas atitudes que já existiam entre os próprios jansenistas da militância (Arnauld. oficiais. que se estendeu de Paris às províncias. Esta última é que terá maior sucesso depois da Fronda e é ela que prossegue. a segunda optava pela militância religiosa. Todavia. dele se afastassem e a ele se opusessem. " Pascal política e social.

protestantismo luterano de tendência mística e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneração). A primeira obra importante de Kant . estudou. A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795). ingleses. Kant sofreu duas influências contraditórias: a influência do pietismo. após o advento de Frederico-Guilherme III. A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). submetido à necessidade. Kant distingue o conhecimento sensível (que abrange as instituições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas). no Conflito das Faculdades (1798). ao mundo moral onde reina a liberdade.Contemporâneo Emmanuel Kant Vida e Obras Kant nasceu. a Crítica do Juízo (1790) trata das noções de beleza (e da arte) e de finalidade. holandeses. temos a Crítica da Razão Pura. em 1762. Frederico-Guilherme II. assim como do da Aufklärung. que o sensibilizou em relação do poder interior da consciência moral. apesar do título. Nela. Em 1781. Kant foi "a razão pura encarnada". A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafísica dos Costumes (1785) e a Crítica da Razão Prática (1788). em 1787. tomada pelas novas idéias). Os prolegômenos a toda metafísica futura (1783) estão para a Crítica da Razão Pura assim como a Investigação sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificação brilhante para o uso de um público mais amplo. fosse inverno ou verão. Kant encontrara proteção e admiração em Frederico II. achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse príncipe! E. e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relações com a Academia Real de Berlim. Acrescentemos a literatura de Hume que "despertou Kant de seu sono dogmático" e a literatura de Russeau. e a notícia da vitória francesa em Valmy. do problema das relações entre a religião natural e a religião revelada! Dentre suas últimas obras citamos A doutrina do direito. e a influência do racionalismo: o de Leibnitz. em 1792. Kant. surgem as grandes obras da maturidade.186 V . não hesitou em tratar. deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade. Finalmente. lecionou e morreu em Koenigsberg. por mais inimigo que fosse da restrição mental. buscando. desse modo. Segundo Fichte. explicará suas intenções "críticas" (um estudo sobre os limites do conhecimento). menos independente dos meios devotos. que foi a religião da mãe de Kant e de vários de seus mestres. "como súdito fiel de Sua Majestade". era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religião nos limites da simples razão. Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religião. Em seguida. que Wolf ensinara brilhantemente. o Ensaio sobre o mal radical consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a noção de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz. Seu sucessor. mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. cidade universitária e também centro comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses. cuja segunda edição. Jamais deixou essa grande cidade da Prússia Oriental. como se diz nas universidades alemãs). A Crítica da Razão Pura explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas.assim como uma das últimas. Levantava-se às 5 horas da manhã. segue-se a Dissertação de 1770. Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a publicação do Contrato Social de Rosseau. que vale a seu autor a nomeação para o cargo de professor titular (professor "ordinário". . Após uma obra em que Kant critica as ilusões de "visionário" de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além). uma passagem que una o mundo da natureza. herdeiro do otimismo dos escoláticos. inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que. onde o criticismo kantiano é exposto. O mal não é a simples "privatio bone".

Não estão. como acreditou Hume. são a priori. necessários e universais. De fato eu não tenho necessidade de uma constatação experimental para conhecer essa propriedade. ao mesmo tempo. pelas quais unificamos os fenômenos esparsos na experiência. isto é independentes dos azares da experiência. Essas categorias são necessárias e universais. a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento. Para dizer que o calor faz ferver a água. as categorias. enquanto verdade necessária e universal. São quadros a priori de meu espírito. Em nenhum momento Kant duvida da verdade da física de Newton. que a coragem vale mais do que do que a covardia.. Eis um juízo sintético (o valor dessa soma de ângulos acrescenta algo à idéia de triângulo) que. também existem (este enigma é o ponto de partida de Kant) juízos que são.. Eis por que as construções espaciais do geômetra. que não se deve mentir. mas o espírito possui. ao pretender que o hábito é a causa de nossa crença na causalidade. é um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espírito. simultaneamente anterior à experiência e condição da experiência). O espaço e o tempo não são. isto é. as regras. necessárias e universais. não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crítica que nos oferece? "Todas as intuições sensíveis estão submetidas às categorias como às únicas condições sob as quais a diversidade da intuição pode unificar-se em uma consciência". Juízo analítico é aquele cujo predicado está contido no sujeito. Como se explica que tais juízos sintéticos e a priori sejam possíveis? Eu demonstro o valor da soma dos ângulos do triângulo fazendo uma construção no espaço. assim como o tempo. mas é nosso espírito que. Os maiores pensadores estão em desacordo quanto às proposições da metafísica. Assim sendo. Também em física. Mas por que a demonstração se opera tão bem em minha folha de papel quanto no quadro negro. uma exigência de unificação dos fenômenos entre si. aquisições da experiência. sobre que se fundam tais verdades? Em que condições são elas racionalmente justificadas? Em compensação. é a priori. Mas o caso da física é mais complexo. parece evidente que esses juízos a priori são juízos analíticos. etc. sempre particular e contigente. necessários e universais? É porque. ou quanto no solo em que Sócrates traçava figuras geométricas para um escravo? É porque o espaço. O espaço e o tempo são quadros a priori. uma exigência de explicação por meio de causas e efeitos. são naturalmente a posteriori. os juízos do físico podem ser a priori. Entretanto. a análise reflexiva. são dados a posteriori. por outro. dos próprios fenômenos que nela ocorrem. necessários e universais de minha percepção (o que Kant mostra na primeira parte da Crítica da Razão Pura. eles próprios. é preciso que eu constate. toda ciência. Tomo conhecimento dela sem ter necessidade de medir os ângulos com um transferidor. Aqui. assim como do valor das regras morais que sua mãe e seus mestres lhe haviam ensinado. À primeira vista. são exigências a priori do nosso espírito. sintéticos e a priori! Por exemplo:a soma dos ângulos de um triângulo equivale a dois retos. As verdades da ciência newtoniana. ainda. as verdades da metafísica são objeto de incessantes discussões. por mais sintéticas que sejam. Faço-o por intermédio de uma demonstração rigorosa. Como. Estética significa teoria da percepção. Mas. antes de toda experiência concreta.187 A Ciência e a Metafísica O método de Kant é a "crítica". Os fenômenos. Consiste em remontar do conhecimento às condições que o tornam eventualmente legítimo. só sei que a régua é verde porque a vi. nos quais a experiência vem se depositar. imprime-lhe . por um lado. então.. estaria anulada).. Um triângulo é uma figura de três ângulos: basta-me analisar a própria definição desse termo para dizê-lo. eu falo não só do quadro a priori da experiência. responde Kant. eu digo que o aquecimento da água é a causa necessária de sua ebulição (se não houvesse aí senão uma constatação empírica. O próprio Hume. de acordo quanto à verdade das leis de Newton? Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser justo. denominada Estética transcendental. mas. dispõe a experiência em seu quadro espacio-temporal (o que Kant mostrará na Estética transcendental) e. no entanto. todos os bons espíritos. enquanto transcendental significa a priori. Eis um conhecimento sintético a posteirori que nada tem de necessário (pois sei que a régua poderia não ser verde) nem de universal (pois todas as réguas não são verdes). isto é. Por que esse fracasso? Os juízos rigorosamente verdadeiros. aqueles cujo atributo enriquece o sujeito (por exemplo: esta régua é verde). assim como as verdades morais. para mim. isto é. são necessárias (não podem não ser) e universais (valem para todos os homens e em todos os tempos). os juízos sintéticos. são a priori. Em compensação.

Só conhecemos os fenômenos e não as coisas em si ou noumenos. O conhecimento. As únicas intuições de que dispomos são as intuições sensíveis. daí a necessidade de um ponto de partida. a restrição do uso de nossa razão. foi relacionado pelo espírito humano. uma crítica que limita a razão em seu uso especulativo é. de fato. não deve servir de permissão para inventar. mas sem as intuições sensíveis concretas as categorias seriam "vazias". pois eu sempre posso me perguntar: que havia antes do começo do universo?). diz Kant. convite à descoberta. que em seu vôo livre fende os ares de cuja resistência se ressente. mas é esta que gira em torno daquele. É a isto que Kant chama de sua revolução copernicana. e assim reduzir a nada o uso puro (prático) da razão. É o próprio espírito que. que ele emprega para unificar fenômenos dados na experiência (aquecimento e ebulição). ao fundamentar solidamente o conhecimento. afasto-me da experiência. No entanto. esses princípios ameaçam de tudo enfeixar nos limites da sensibilidade. tal como cera mole. para se aventurar fora de seus limites.. e é isso que lhe dá sua primeira utilidade. essa crítica. Emmanuel Kant O Alcance da Crítica Kantiana (Prefácio da 2. não abria nenhum caminho. a razão. demonstrando. que se limita a por em ordem. Não é o Sol. isto é. É o que se reconhecerá logo 188 . as intuições sensíveis seriam "cegas".. ao suprimir com um mesmo golpe o obstáculo que restringe seu uso prático ou que até ameaça anulá-la. de início. Ora. Descartes ou Spinoza que a razão humana tem intuições fora e acima do mundo sensível. nos espaços vazios da razão pura. O princípio da causalidade. receberia passivamente. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza. a razão não deixa de construir sistemas metafísicos porque sua vocação própria é buscar unificar incessantemente. graças às suas estruturas a priori. Aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espírito. Não. O que é fundamentado é o conhecimento científico. diz Kant. Não se apercebia que. mas. É o próprio espírito humano que constrói . não teriam nada para unificar. Ela inventa o mito de uma "almasubstância" porque supõe realizada a unificação completa dos meus estados d'alma no tempo e o mito de um Deus criador porque busca um fundamento do mundo que seja a unificação total do que se passa neste mundo. Pretender como Platão. olhando mais de perto. isto é. na dialética transcendental. bem negativa. que gira em torno da Terra. é por isso que não conhecemos o fundo das coisas.o objeto do seu saber. com efeito. mesmo além de toda experiência possível. pois so o mundo é objeto de minha experiência). limitam o seu alcance. uma vez que não tinha ponto de apoio em que pudesse aplicar suas forças". poderia imaginar que voaria ainda melhor no vácuo. Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafísico. contrária e favoravelmente. Entretanto.com os dados do conhecimento sensível . As análises precedentes.ª edição da Crítica da Razão Pura) Um rápido olhar lançado nesta obra levará a pensar. Foi assim que Platão se aventurou nas asas das idéias. dissera Copérnico. o metafísico abusa da causalidade na medida em que se afasta deliberadamente da experiência concreta (quando imagino um Deus como causa do mundo. que sua utilidade é inteiramente negativa ou que ela só serve para nos impedir de conduzir a razão especulativa além dos limites da experiência. por esse lado. graças às categorias. Enquanto o cientista faz um uso legítimo da causalidade.ordem e coerência por intermédio de suas categorias (o que Kant mostra na Analítica transcendental). É que. os materiais que lhe são fornecidos pela intuição sensível. tanto a tese quanto a antítese (por exemplo: o universo tem um começo? Sim pois o infinito para trás é impossível. desordenadas e confusas. Só conhecemos o mundo refratado através dos quadros subjetivos do espaço e do tempo. perde-se nas antinomias. não é o reflexo do objeto exterior. constrói a ordem do universo. Sem as categorias. é passar por "visionário" e se iludir com quimeras: "A pomba ligeira. Mas privada de qualquer ponto de apoio na experiência. da qual propriamente dependem. pelo fato mesmo de os princípios sobre os quais se apóia a razão especulativa. Na terceira parte de sua Crítica da Razão Pura. apesar de todos os seus esforços. na realidade terem por conseqüência inevitável não a extensão. como louca. Mas logo se perceberá também que sua utilidade é positiva. mas. tem uma utilidade positiva da mais alta importância.

como estando necessariamente submetida. que. pensar a liberdade. de um lado. chegaríamos à absurda proposição de que existem fenômenos ou aparências sem que haja nada que apareça. será preciso então que necessariamente a suposição moral dê lugar àquela cujo contrário implica em evidente contradição. o princípio da causalidade só se aplica às coisas no primeiro sentido. não tenhamos conceitos do entendimento e. no qual ela se estende inevitavelmente além dos limites da sensibilidade e no qual. a mesma vontade pode ser concebida. porém. conseqüentemente. isto é. sem que uma intuição correspondente nos seja dada. isto é. Mas. da alma humana. podemos ao menos pensá-los como tais. assim como a restrição que daí deriva relativamente aos conceitos puros do entendimento e. Ora. Mas se a crítica não se enganou ao ensinar-nos a considerar o objeto em dois sentidos diferentes. consideradas como causas eficientes. Quando se supõe que nossa crítica não tenha feito a distinção que ela estabelece necessariamente entre as coisas como objetos de experiência e essas coisas como objetos em si. desde que admita nossa distinção crítica dos dois modos de representação (o modo sensível e o intelectual). isto é. seriam absolutamente impossíveis. Admitamos agora que a moral supõe necessariamente a liberdade (no sentido mais estrito) como uma propriedade de nossa vontade. como livre. a fim de não cair em contradição consigo mesma. de outro. no entanto. a razão prática. a moral pode manter sua posição enquanto a física conserva a sua. não há necessidade de se lhe ter um conhecimento mais amplo. Ora. Negar que a crítica. como é suficiente que. a liberdade não seja contraditória e que. não possamos conhecer nenhum objeto como coisa em si. Que o espaço e o tempo só sejam formas da intuição sensível e.eu posso. nas duas proposições. ao prestar-nos esse serviço. Todavia. Por conseguinte. como fenômeno e como coisa em si. que a liberdade.posto que seria necessário que eu a conhecesse de uma maneira determinada em sua existência. como escapando a essa lei. desde que não se coloque como obstáculo ao mecanismo natural da própria ação (tomados num outro sentido). conseqüentemente. desaparecem no mecanismo da natureza. sem cair em evidente contradição.189 que se esteja convencido de que a razão pura tem um uso prático absolutamente necessário (quero significar o uso moral). isto é. é o que não teríamos descoberto se a crítica não nos houvesse previamente instruído sobre nossa inevitável ignorância relativamente às coisas em si e se ela não houvesse limitado . porque sua função consiste unicamente em fechar as portas à violência que os cidadãos poderiam temer uns aos outros. quando não se supõe a liberdade previamente). sem as advertências da crítica. como fenômeno. o que é preciso marcar bem. eu não poderia dizer do próprio ser. tomei a alma no mesmo sentido. se não podemos conhecer esses objetos como coisas em si. ao passo que no segundo sentido essas mesmas coisas não mais lhe estejam submetidas. além disso. não poderia encará-la de outro modo. entretanto. embora sob esse último ponto de vista eu não possa conhecer minha alma por intermédio da razão especulativa (e ainda menos pela observação empírica) e. sem para isso ter necessidade do auxílio da razão especulativa. tenha uma utilidade positiva. como uma coisa em geral (como objeto em si) e. portanto. por conseguinte. como não sendo livre e. aos princípios decorrentes desses conceitos. mas admitamos também que a razão especulativa tenha provado que a liberdade não fosse de modo algum concebida. Se assim não fora. conseqüentemente. do ponto de vista fenomenal (em seus atos visíveis). quer estar assegurada contra toda oposição de sua parte. por conseguinte. será preciso então que se estenda a todas as coisas em geral. é o que será provado na parte analítica e daí resultará que todo conhecimento especulativo possível da razão se reduz unicamente aos objetos da experiência. à lei física. está submetida à necessidade física. o princípio da causalidade e. das condições da existência das coisas como fenômenos. e como. sem essa suposição. se a dedução dos conceitos do entendimento é exata e se. por exemplo. conseqüentemente. a fim de que cada um possa realizar seus negócios tranqüilamente e em segurança. enquanto faz parte das coisas em si. conseqüentemente. surge aí uma reserva: é que. quaisquer elementos para o conhecimento das coisas. É que. que sua vontade é livre e que. e com ela a moralidade (cujo contrário não implica em contradição. conseqüentemente. eu também possa conhecer a liberdade como a propriedade de um ser ao qual atribuo efeitos no mundo sensível . sem contradição. do ponto de vista da moral. que não é livre. ela possa ser concebida. e que. colocando a priori como dados da razão princípios práticos que dela se originam e que. mas não no tempo (o que é impossível. por conseguinte. pois aqui nenhuma intuição pode ser submetida ao meu conceito) . mas apenas como objeto da intuição sensível. o mecanismo natural que ele determina. isto é. que sua idéia não contém a menor contradição.

quisermos pensar a existência unicamente por intermédio da pura categoria. a passagem se faz por meio do encadeamento que liga o conceito a alguma de minhas percepções. que o conhecimento de um objeto seja possível a posteriori. Tive então que suprimir o saber para substituí-lo pela crença. somos obrigados a sair desse conceito para lhe atribuir a existência. e. então. Se assim fora. sem que os cem táleres concebidos sejam aumentados por este ser que está situado fora do meu conceito. mesmo que esse algo não possa ser um objeto de experiência. e eu não mais poderia dizer que é exatamente o objeto do meu conceito que existe. para os objetos do pensamento puro. mas algo além do que pensei no conceito. segundo as leis empíricas. embora em meu conceito não falte nada do conteúdo real possível de uma coisa em geral. E aqui se mostra a causa da dificuldade que reina nesse ponto. porém. É certo que . mas. nosso pensamento dele recebe em acréscimo mais percepção possível. eu não estarei acrescentando absolutamente nada à coisa. eu concebo uma coisa. ele é inteiramente incapaz de estender a si só nosso conhecimento com relação ao que existe. sempre resta saber se esse ser existe ou não. não existiria mais a mesma coisa. e pelo fato de dizer que essa coisa defeituosa existe. para chegar aí. e se uma existência fora desse campo não deve ser tida por absolutamente impossível. sem rechaçar ao mesmo tempo as pretensões da razão especulativa em suas visões transcendentes. e desse modo declaram impossível toda extensão prática da razão pura. mas. a saber. caso o objeto contivesse mais do que o conceito. exceto uma. O conceito de um ser supremo é uma idéia muito útil com relação a muitas coisas. pode-se mostrar essa mesma utilidade dos princípios críticos da razão pura relativamente à idéia de Deus. Pois. Qualquer que seja a natureza e a extensão do conteúdo de nosso conceito de um objeto. pois. Se. não existe nenhum meio de reconhecer sua existência. o objeto na realidade não está simplesmente contido de uma maneira analítica em meu conceito. existiria outra coisa diferente do que concebi. eu não poderia confundir a existência da coisa com seu simples conceito. Desse modo. Se numa coisa eu concebo toda realidade. Se. ainda falta. nossa consciência de toda existência (quer ela resulte imediatamente da percepção. Nem pode mesmo nos instruir o suficiente com relação à possibilidade. já que seria preciso reconhecê-la inteiramente a priori. o conceito só me faz conceber o objeto como concordante com as condições universais de um conhecimento empírico possível em geral. mas ele enriqueceu sinteticamente meu conceito (que é uma determinação do meu estado).190 aos simples fenômenos todo nosso conhecimento teórico. ao contrário. enquanto a existência me faz concebê-lo como compreendido no contexto de toda experiência. lhe é necessário empregar princípios que na realidade só se aplicam a objetos da experiência sensível e que sempre transformam em fenômenos aquilo a que se aplicam. Mas sou mais rico com cem táleres reais do que com sua idéia (isto é. eu concebo um ser como a suprema realidade (sem falhas). meu conceito não exprimiria o objeto inteiramente e conseqüentemente não estaria de acordo com ele. por conseguinte. quer resulte de raciocínios que unem alguma coisa à percepção) pertence inteiramente à unidade da experiência. Quando. ela também não deixa de ser uma suposição que nada pode justificar. de outro modo. Se se tratasse de um objeto dos sentidos. alguma coisa com relação a todo meu estado intelectual. se o conceito do objeto não é de modo algum aumentado para sua ligação com o conteúdo de toda experiência. Dialética Transcendental) Cem táleres reais não contêm mais do que cem táleres possíveis. se eles são simplesmente possíveis). Crítica ao Argumento Ontológico (Crítica da Razão Pura. e só por isso eu acrescente que essa coisa existe. não será de espantar que não possamos indicar nenhum critério que sirva para distingui-la da simples possibilidade. precisamente porque é apenas uma idéia. pois. quaisquer que sejam e por mais numerosos que sejam os predicados por meio dos quais eu a concebo (mesmo que a determine completamente). De fato. a liberdade e a imoratalidade segundo a necessidade que minha razão tem em seu uso prático necessário. Com relação a objetos sensíveis. a realidade que lhe falta não lhe será acrescentada por isto. mas ela existe precisamente tão defeituosa quanto a concebo. De fato. como os táleres possíveis exprimem o conceito e os reais o objeto e sua posição em si mesma. De fato.

por eles próprios. Em compensação. ou deles exija as mesmas qualidades. posto que as realidades não nos são dadas especificamente. então. com o que. com que a maior parte dos homens se dedica a isso.não lhe pode ser contestado. tendo para com seus próprios sofrimentos um dom especial de resistência e de paciente energia. por conseguinte. mas por dever. ele suponha que também nos outros. chegar a conhecer a priori a possibilidade de um ser ideal tão elevado. isto é. no entanto. que não resultaria daí nenhum juízo. ademais. livre da influência de qualquer inclinação. e que nessas condições em que nenhuma inclinação não mais o leve a isso. Essa prova ontológica (cartesiana) tão glorificada. a ambição. mas por dever. é uma coisa para a qual todos possuem uma inclinação imediata. é um dever e. então sua máxima possui um valor moral. merece louvor e encorajamento. perde. unicamente por dever. sem pensar no dever. o caráter da possibilidade dos conhecimentos sintéticos que deve ser sempre buscado na experiência. valor moral e incomparavelmente o mais elevado. que pretende demonstrar por meio de conceitos a existência de um ser supremo. é por isso que a solicitude. não possui porém verdadeiro valor moral. Suponha-se então que a alma daquele filantropo esteja ensombrada por um desses desgostos pessoais que sufocam toda simpatia pela sorte de outrem e que ele sempre ainda tenha o poder de fazer bem a outros infelizes. só então sua ação terá verdadeiro valor moral. Ser bom. na medida em que ele é obra sua. todos os homens já têm. mas que não seja tocado pelo infortúnio dos outros. não encontraria ele. O Rigorismo de Kant (Fundamento da Metafísica dos Costumes) Conservar a própria vida é um dever e. mas não respeito. poderia facilmente tornar-se uma grande tentação de violar seus deveres. Mas eu acho que no caso de uma ação desse tipo. precisamente nessa idéia de felicidade. as inclinações se unificam numa . mesmo que isso acontecesse. mas. faz-se muito necessário que o ilustre Leibnitz tenha feito aquilo de que se orgulhava. quando contrariedades ou uma aflição sem esperança tenha roubado de um homem todo gosto de viver e se o infeliz. Assegurar a própria felicidade é um dever (indireto. ao menos). ele acrescentasse alguns zeros em seu livro de caixa. por mais de acordo com o dever e mais amável que seja. além disso. com ânimo forte. que provém daquele que faz o bem não por inclinação. existem certas almas tão capacitadas para a simpatia que. quando se pode. como a ligação de todas as propriedades reais numa coisa é uma síntese cuja possibilidade não podemos julgar a priori. se deseja a morte e. é honorável. não por inclinação ou temor. não é menos desprovida de todo valor intrínseco e é por isso que sua máxima não possui nenhum valor moral. todo seu valor e não nos tornaremos mais ricos em conhecimentos com simples idéias quanto um comerciante não se tornaria em dinheiro se. pois falta a essa máxima o valor moral. E digo mais: se a natureza tivesse colocado no coração deste ou daquele um pouco de simpatia. à qual o objeto de uma idéia não pode pertencer. conserva a vida sem amá-la. Mas.191 o caráter analítico da possibilidade . elas experimentam uma satisfação íntima em irradiar alegria em torno de si e vivem o contentamento de outrem. então. talvez porque. então. É certo que eles conservam sua vida de acordo com o dever. fica muito mais indignado com sua sorte do que desencorajado ou abatido. em si próprio o meio de se dar um valor muito superior ao que possa ter um temperamento naturalmente bonsoso? Certamente! E á aqui precisamente que surge o valor do caráter. por estar demasiado absorvido pelo seu próprio. pois.que consiste no fato de que simples posições (realidades) não engendram contradição . se aquele homem (honesto de resto) fosse frio por temperamento e indiferente aos sofrimentos de outrem. quando coincide com o que realmente está de acordo com o interesse público e o dever. aqui ainda. mas não por dever. e. com o viver pressionado por inúmeros cuidados em meio de necessidades não satisfeitas. o fato de não estar contente com a própria situação. Ora. mesmo sem qualquer motivo de vaidade ou de interesse. já que ela se coloca no mesmo plano de outras inclinações. isto é. a inclinação para a felicidade mais duradoura e mais íntima. por exemplo. ele porém se arranque dessa insensibilidade mortal e aja. que. pois. o fato de que essas ações sejam feitas não por inclinação. freqüentemente inquieta. com o pensamento de aumentar sua fortuna. se a natureza não tivesse formado esse homem particularmente o que na verdade não seria sua obra pior) para fazer dele um filantropo. mas por dever.

Faleceu em 1831 vítima de cólera. Ela é não só um modo de pensar as coisas. emanentista. Jorge Guilherme Frederico Hegel nasceu em Stutgart. ao menos nessa circunstância ela não se privou. Espírito. seria uma lei. corre o boato de que ele duvida da imortalidade da alma. afastando-se deles em seguida até combatê-los quando professor nas universidades de Jena. para ela ao menos. não há por que se surpreender que uma inclinação única. para favorecer as tendências absolutistas e intransigentes do estado prussiano. o que restaria ainda aqui. Na realidade. desse modo. devem ser certa e igualmente compreendidas as passagens da Escritura em que é ordenado amar ao próximo. Hegel fica fiel ao historicismo romântico. que ele. no entanto. o homem não pode fazer um conceito definido e certo dessa soma de satisfações a ser dada a todas a que chama de felicidade. e este processo dialético não é um movimento a quo adi quod. que traz grande prejuízo a algumas inclinações. contudo. conta. Em seus últimos anos. portanto. em princípios da ação e não numa compaixão debilitante. Este vir-a-ser. um dia. o conjunto dos princípios e das regras segundo as quais pensamos o mundo. determinada quanto ao que promete e quanto à época em que pode ser satisfeita. considerar Hegel como o filósofo idealista por excelência. da imanência absoluta. pois.192 totalidade. Idéia. Estudou teologia e filosofia. desenvolvimento. o idealismo fenomênico kantiano alcança logicamente o seu vértice metafísico. entrementes. é racionalizado por Hegel. em 1770. uma pessoa que sofre de gota possa gostar mais de saborear o que é de seu gosto e sofra em seguida. com relação à crítica kantiana do conhecimento. o futuro mostraria amplamente que a filosofia do pensador oficial da monarquia escondia um grande poder explosivo! Como a filosofia de Spinoza. o fundo do Ser (longe de ser uma coisa em si inacessível) é. Hegel O Idealismo Lógico: Hegel Com o idealismo absoluto de Hegel. Assim. e. um retorno à ontologia. uma lei que ordena trabalhar para a própria felicidade não por inclinação. Interessou-se pelos problemas religiosos e políticos. . o entendimento humano. em seguida se dedicou ao historicismo romântico. por causa da talvez enganosa esperança de uma felicidade a ser encontrada na saúde. Pois. se atendência universal não determinasse sua vontade. mas por dever. e mesmo que uma aversão natural e invencível a isto se oponha. concebendo a realidade como vir-a-ser. É o ser em sua totalidade que é significativo e cada acontecimento particular no mundo só tem sentido finalmente em função do Absoluto do qual não é mais do que um aspecto ou um momento. a essência do próprio Ser. como em todos os outros casos. alguns o ridicularizaram (apelidando-o de Absolutus von Hegelingen). A razão aqui não é apenas. porém. Sua filosofia representa. aos ideais revolucionários e críticos. adquirindo grande renome e exercendo vasta influência. do gozo do momento presente. simpatizando-se pelo criticismo e pelo iluminismo. Heidelberg e Berlim. para ele. Ocorre apenas que o preceito que ordena o tornar-se feliz muitas vezes assume tal caráter. Nessa última universidade lecionou até há morte. mas o próprio modo de ser das coisas: "O racional é real e o real é racional". uma vez que. se a saúde. ora. em definitivo. a de Hegel é uma filosofia da inteligibilidade total. esse amor é o único que pode ser ordenado. Podemos. e sim um processo circular. como em Kant. ao mesmo tempo. respondeu bruscamente a um estudante que lhe falava do Paraíso: "O senhor então precisa de uma gorjeta porque cuidou de sua mãe enferma e porque não envenenou ninguém!" Em todo caso. ainda que inimigo. que seguiu seus cursos de 1821 a 1823. nesse caso igualmente. que reside na vontade e não na tendência da sensibilidade. Aproximou-se dos sistemas de Fichte e de Schelling. torna-se suspeito de panteísmo. não fosse coisa tão importante de fazer entrar em seus cálculos. elevado a processo dialético. possa levar vantagem sobre uma idéia flutuante. Mas. Renunciara. por exemplo. que. na medida em que não há inclinação que nos conduza a isso. Ela é igualmente a realidade profunda das coisas. mas fazer o bem precisamente por dever. Hegel era ao mesmo tempo suficientemente prudente e sufucientemente hermético para que se tornasse muito difícil fazer-lhe acusações precisas dessa ordem! O poeta Heinrich Heine. eis aí um amor prático e não patológico. o amor como inclinação não pode ser ordenado. e é por isto somente que sua conduta possui um verdadeiro valor moral. segundo seu cálculo.

a lógica clássica considera que uma proposição fica demonstrada quando é reduzida. para Hegel. Por conseguinte. ao contrário. Após ter saudado em Napoleão "o espírito universal a cavalo". Segundo as normas da lógica clássica. bem como altera este por interesses práticos e políticos. De início só existem minerais. tanto assim que se pode considerar o Aristóteles e o Tomás de Aquino do pensamento contemporâneo. ao mesmo tempo em que é o motor da história. que dizia que a leitura dos jornais era "sua prece matinal cotidiana". "alienado" no universo. que no fundo tudo permanece idêntico. de início adormecido. As principais obras de Hegel são: A Fenomenologia do Espírito. Tal é o espírito objetivo que se realiza naquilo que Hegel chama de "o mundo da cultura".o processo dialético . em primeiro plano. só no final será o que ele é na realidade". cada vez mais autônomos surgem no Universo? O Espírito. Desse modo. no final. Aplicar a razão à história. Como isso é possível? É possível porque Hegel concebe um processo racional original . Cada povo cada civilização. pois. Aplicar a razão à história seria negar a história. No entanto. O Espírito humano é de início uma consciência confusa.193 Hegel porém se distingue de Spinoza e surge para nós como um filósofo essencialmente moderno. diz Hegel. de certo modo. é o domínio do mutável. diz Hegel. que o pássaro de Minerva levanta vôo). naquele momento. subvertidas no decurso da história. A Enciclopédia das Ciências Filosóficas. é a sensação imediata. Compreendemos bem. surge cada vez mais manifestamente como ordem. Ora. é uma odisséia do Espírito Universal". como liberdade. abusivamente atribuída a Bismarck. que aquele que é vitorioso na História é. o mais dotado de valor e que a virtude. o Espírito se descobre mais claramente na consciência artística e na consciência religiosa para finalmente apreender-se na Filosofia (notadamente na filosofia de Hegel. nada significa). É preciso compreender também que a história é um progresso. a forma de civilização que triunfa a cada etapa da história é aquela que. a plena consciência de si mesmo. ele consegue encarnar-se. melhor exprime o Espírito. de instituições organizadas. Consideremos a história da terra. sua cultura foi vastíssima. por conseguinte. Deus só se realiza na história. A lógica vai do idêntico ao idêntico. Em outras palavras. A Lógica. O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. De fato. em suma. cada vez mais organizados. simultaneamente. se transforma no próprio motor do pensamento. Hegel verá no estado prussiano de seu tempo a expressão mais perfeita do Espírito Absoluto. seria mostrar que a mudança é aparente. (Neste sentido. podem ser modificadas. Esse progresso do Espírito continua e se concluirá através da história dos homens. em seguida. que pretende totalizar sob sua alçada todas as outras filosofias) como Saber Absoluto. Depois. e esta lhe mostra que as estruturas sociais. em todo caso. totaliza todas as obras da cultura (é só no crepúsculo. já que esta última não é . A história. ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin). O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir. O acontecimento de hoje é diferente do de ontem. para Hegel. essa identificação da Razão com o Devir histórico é absolutamente paradoxal. Não temos a impressão de que seres cada vez mais complexos. contrariando tudo isso. Ele o contradiz. O que há de original em seu idealismo é que. nessa filosofia puramente imanentista. depois. a história. que. muito meditou sobre a Revolução Francesa. a filosofia é o saber de todos os saberes: a sabedoria suprema que. A Filosofia do Direito. Deus não é o que é . uma "teodisséia". o mundo que manifesta a Idéia não é uma natureza semelhante a si mesma em todos os tempos. logo como consciência. Por conseguinte. ao contrário. Foi um gênio poderoso. "exprime o curso do mundo". assim como os pensamentos dos homens. objetivar-se sob a forma de civilizações. a plena posse. bem como a sua capacidade sistemática. como ele diz. Hegel é daqueles que acham que a força não "oprime" o direito (essa fórmula. para ele. freqüentemente deforma os fatos para enquadrá-los no esquema lógico do seu sistema racionalista-dialético. se nos permitem o jogo de palavras. Enfim. como todos os seus contemporâneos. recusar o tempo. mas que o exprime.ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é . um espírito puramente subjetivo. dissimulado e como que estranho a si mesmo. vegetais e. identificada a uma proposição já admitida.Deus é o que se realizará na História. no final. "O absoluto. tem por missão realizar uma etapa desse progresso do Espírito. a história. a idéia se manifesta como processo histórico: "A história universal nada mais é do que a manifestação da razão".no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço. mas. animais. o racionalismo de Hegel coloca o devir.

É fácil ver que essa contradição se resolve no vir-a-ser (posto que vir-a-ser é não mais ser o que se era). em virtude do qual uma coisa não pode ser e. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material. puro e simples. uma ligação. sem qualquer qualidade ou determinação . destruído por Kant. porquanto é da íntima natureza da síntese a priori não poder. o do senhor e o escravo. transformado pelas provações e pelo próprio trabalho. à sintese. b) Entretanto. ao contrário. mas também o mais pobre. em última análise. daí. desenvolvendo uma consciência pessoal. Hegel põe a contradição no próprio núcleo do pensamento e das coisas simultaneamente. de modo nenhum. que condiciona a sua. como num diálogo em que a verdade surge a partir da discussão e das contradições. Por uma conversão dialética exemplar. o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. O senhor não cultiva seu jardim. entre as duas precedentes. não ser absolutamente nada. sobretudo. aprende a se afastar de todos os eventos exteriores. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito. o "servus". a libertar-se de tudo o que o oprime. da síntese a priori de Kant. O outro. transforma-se em outra coisa? É em virtude da contradição que esse conceito envolve. em que o espírito é constituído substancialmente como sendo o construtor da realidade e toda a sua atividade é reduzida ao âmbito da experiência. é livre. Mas. não ser. de sorte que Hegel se achava fatalmente impelido a um monismo imanentista. como o conceito fundamental de ser se enriquece dialeticamente. que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu). Um deles é pleno de coragem. Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana que será um dos pontos de partida da reflexão de Karl Marx. a mais vazia e a mais compreensiva (essa noção em que o velho Parmênides se fechava: o ser é. uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. Os dois contrários que engendram o devir (síntese). é não ser! O ser. equivale ao não-ser (eis a antítese).é. Como é que o ser. uma "mediação" (síntese). Desse modo. Repudiando o princípio da contradição de Aristóteles e de Leibnitz. nada mais podemos dizer). é vencido. foi conservado. o escravo incessantemente ocupado com o trabalho. que não ousa arriscar a vida. deviam se achar na realidade única da experiência as características divinas do antigo Deus transcendente. conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. o escravo. . Hegel parte. porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo. ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. Hegel devia. repetimo-la. ao mesmo tempo. a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão. aí se reencontram fundidos. Nesse sentido. A Dialética A dialética para Hegel é o procedimento superior do pensamento é. "a marcha e o ritmo das próprias coisas". reconciliados. numa situação de submissão absoluta. ele procede por meio de contradições superadas. O pensamento não é mais estático. Aceita arriscar sua vida no combate. ao pé da letra. ao mesmo tempo. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Dois homens lutam entre si. Assim. ele é uma espécie de escravo de seu escravo. Ser. O vencedor não mata o prisioneiro. c) De fato. ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. O conceito de ser é o mais geral. o escravo. A primeira proposição encontrar-se-á finalmente transformada e enriquecida numa nova fórmula que era. aquele que. mostrando assim que é um homem livre.194 senão o Pensamento que se realiza. fundamentalmente. que devia necessariamente tornar-se panlogista. da tese à antítese e. por exemplo. ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho. dialético. Assim. transcender a experiência. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações. a) O senhor obriga o escravo. transformada em outra que não ela mesma ("alienada"). essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo. Vejamos. essa noção simultaneamente a mais abstrata e a mais real. Uma proposição (tese) não pode se pôr sem se opor a outra (antítese) em que a primeira é negada. aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. não faz cozer seus alimentos. O senhor. Tal é o escravo. vai encontrar uma nova forma de liberdade. superior à sua vida. não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso.

E. segundo a conhecida tríade de tese. para poder elevar a realidade da experiência à ordem da realidade absoluta. portanto. enquanto o nosso pensamento. a história em geral se valoriza na filosofia. enquanto apreende o ser imutável. da história. cujo objeto é o universal e o imutável.o monismo. e sendo também vir-a-ser. realmente. 2. ao passo que a lógica hegeliana assimila a filosofia com a história. devir. e sim dinâmico. em que o próprio objeto já não é mais o ser. idêntico a si mesmo e excluindo o seu oposto. Hegel se achava obrigado a mostrar a racionalidade absoluta da realidade da experiência. chegar ao panteísmo imanentista.A lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si mesmo e exclui o seu oposto (princípio de identidade e de contradição). demanda o seu oposto (antítese).mas também porquanto a nova lógica é considerada como sendo a própria lei do ser. Dispensa-se acrescentar como. por certo. a realidade deveria transformar-se rigorosamente na racionalidade em um sistema coerente de pensamento idealista e imanentista. arbitrariamente potenciada segundo a não menos arbitrária lógica hegeliana. a negação. o particular conexo historicamente com o todo. passagem de um elemento ao seu oposto. o grande crítico do idealismo racionalista e otimista. que representa o elemento universal e comum dos particulares. Essa dialética dos opostos resolve e compõe em si mesma o elemento positivo da tese e da antítese. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que a realidade é essencialmente mudança. não podem.através do idealismo absoluto .A lógica tradicional distingue substancialmente a filosofia. antítese e síntese. perante um panlogismo.195 portanto.° . onde um elemento gera o seu oposto. E por isso Hegel inventou a dialética dos opostos. 3. como o de Spinoza. No entanto. gerar naturalmente valores positivos de bem verdadeiro. Isto é. Mas essa racionalidade absoluta da realidade da experiência devia ser concebida mediante o vir-a-ser absoluto (de Heráclito). é levado às suas extremas conseqüências metafísicas imanentistas. onde tudo é essencialmente conexo com tudo. tudo que há no mundo de arracional e de irracional. não estático.° . 4. Podemos resumir assim: 1. em que a positividade se realiza através da negatividade. cujo objeto é o particular e o mutável. a qual. igualmente não é preciso salientar como o conceito concreto. em que . porquanto a realidade é o desenvolvimento dialético do próprio "logos" divino. não só nos aspectos gerais. não o esgota totalmente . logo. para poder racionalizar o elemento potencial e negativo da experiência. ser concebida mediante o ser (da filosofia aristotélica). isto é. terminar com o advento da filosofia hegeliana. em uma realidade mais rica (síntese).como eram concebidos na lógica antiga . dinamicamente. físico e moral. que nega e o qual integra. Tal história dialética deveria. ainda que não totalmente. isto é. coincide com a ontologia.° . isto é. sendo o mundo da experiência limitado e deficiente. e a negação e o mal são condições de positividade e de bem. o mal. mas em toda particularidade da história. e demonstrar a necessidade racional da história natural e humana. que no espírito humano adquire plena consciência de si mesmo. declarará nada mais ser que ateísmo imanentista. de modo nenhum. com efeito. não somente pela negação do princípio de identidade e de contradição . Apresentava-se. Visto que a realidade é o vir-a-ser dialético da Idéia.° . Estamos.ainda que entendido dialeticamente. a necessidade da invenção de uma nova lógica. A nova lógica hegeliana difere da antiga. nos momentos essenciais. do ritmo famoso de tese. toma o lugar do conceito abstrato. enquanto o ser é vir-a-ser. estabelecendo-se a si mesmo absolutamente (tese) e não esgotando o Absoluto de que é um momento. Hegel julgou dever deduzir a priori o desenvolvimento lógico da idéia. se apreende o ser. ao passo que a lógica hegeliana coincide com a ontologia. em uma possível assimilação do devir empírico do desenvolvimento lógico . não podia.A lógica tradicional distingue-se da ontologia. conexão histórica do particular com a totalidade do real. e onde a limitação. Quer dizer. a experiência sendo a realidade absoluta. mas o devir absoluto. antítese e síntese. enfim. a autoconsciência racional de Deus. em que a Idéia teria acabado a .A lógica tradicional afirma que o conceito é universal abstrato.como faz o pensamento de Deus. Não é mister dizer que essa história dialética nada mais é que a história empírica. que Hegel considerava panteísmo. por causa do assim chamado mal metafísico. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que o conceito é universal concreto. para daqui começar de novo o processo dialético. divina. cuja característica fundamental é a negação. todo elemento da realidade. que Schopenhauer.

mas se suplantam como incompatíveis. diversidade significa unicamente contradição. Essa vida. nem com a superação dessa alienação. Não podem evitar essa luta. é a serena igualdade e a unidade consigo que nada têm a fazer com o ser-outro e a alienação. a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. ser definidos como um jogo de amor para consigo mesmo. do mesmo modo. nada mais é que o infinito vir-a-ser dialético. Mas. por isso. para a qual o ser. e. Só então é que ela é concebida e exprimida como atual. o pensamento. mas essa consciência.196 sua odisséia. ao declarar a forma como igual à essência. e. Há que dizer do absoluto que ele é essencialmente resultado. o fruto declara que a flor é uma falsa existência da planta e a substitui enquanto verdade da planta. desse modo. momentos mutuamente necessários. ademais. e reconhecer na forma. viria a ser negada a própria essência da filosofia hegeliana. sua natureza cambiante faz delas momentos da unidade orgânica em que não só não estão em conflito mas onde tanto um quanto outro é necessário. isto é. isto é. O Senhor e o Escravo Buscar a morte do outro implica em arriscar a própria vida. a dor. que o conhecimento possa se satisfazer com o em-si ou a intuição absoluta da primeira dispensam o acabamento da primeira e o desenvolvimento da segunda. isto é. e é nisto precisamente que consiste sua natureza de ser sujeito atual ou Devir de si. adquirindo consciência de si mesma. Por conseguinte. No entanto. a oposição entre verdadeiro e falso é algo de fixo. portanto. e essa igual necessidade faz a vida do conjunto. se se quiser. cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. então. sua certeza de existir para si. Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela. Mas esse em-si é universalidade abstrata caso negligenciemos sua natureza de ser para-si e. mas também como forma e em toda riqueza da forma desenvolvida. prova que ela. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. Mas comumente não é assim que se compreende a contradição entre sistemas filosóficos. aqui. da sua divindade. que ele não é senão por fim o que ele é em verdade. mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente. em-si. não se deve apreendê-la ou exprimi-la apenas como essência. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro. do que parece se combater e se contradizer. essa idéia cai no nível da edificação e mesmo da insipidez. Precisamente porque a forma é tão essencial à essência quanto a essência a si própria. no espírito humano. O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade A vida e o reconhecimento divinos podem. se lhe retirarmos a seriedade. como substância imediata ou pura intuição de si do divino. Mas o todo não é senão a essência que se conclui por seu desenvolvimento. o espírito que apreende a contradição habitualmente não sabe liberá-la ou conservá-la livre de sua unilateralidade. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certametne ser reconhecido como pessoa. É inexato crer. não é senão puro ser para-si. . numa explicação sobre tal sistema. A verdade é o todo. ele só admite uma ou outra dessas atitudes. O broto desaparece na eclosão da flor e poder-se-ia dizer que aquele é refutado por esta. habitualmente ele espera que se aprove ou se rejeite em bloco um sistema filosófico existente. Textos de Hegel Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento Para o senso comum. pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si. Não concebe a diferença entre os sistemas filosóficos como o desenvolvimento progressivo da verdade. não é a forma imediata de sua manifestação. para ele. não é sua imersão no oceano da vida. a paciência e o trabalho do negativo.(¹) O senhor é a consciência que é por si mesma. como absoluto. o movimento espontâneo da forma. está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência(²). Essas formas não só se distinguem.

o senhor domina os objetos por mediação do escravo que trabalha. Cada filosofia é "o espírito da época existente como espírito que se pensa". O senhor se define por sua relação com o escravo (e por sua relação com os objetos que depende. por meio de sua negação. uma relação mediata em virtude da existência independente. que transforma os objetos materiais em objetos de consumo e de fruição para o senhor. ele só faz trabalhar. relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa. aquilo que o apetite não conseguiu. Ele inspirou amplamente as análises de nossos contemporâneos sobre as relações do eu com o outro. por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica. escravo da vida e de seus objetos empíricos. Hegel assinalava que a noção de História da Filosofia "envolve uma contradição interna". só entra em contato com o aspecto dependente da coisa. ele o consegue. Hegel examina simultaneamente a relação de dois "eu" e a relação de cada eu com sua própria vida. ao colocar o escravo contra ela e si próprio. Por conseguinte. uma relação. enquanto conceito da consciência de si. Com efeito. posto que possuía sua independência numa coisa externa. No ponto de partida. Quanto ao senhor. O vencido. o eterno. "a filosofia quer conhecer o imperecível. aos objetos das necessidades. A idéia geral de filosofia permanece abstrata se não se confunde com os diversos sistemas dos filósofos no decurso da história. em outras palavras. a fim de se fazer reconhecer como consciência. aquele que se rendeu. mas o senhor. tem medo de perder a vida. substituído por outra coisa". Torna-se tembém escravo do senhor que o conserva (servus = conservado) a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória. para o senhor. Mas a história conta o que foi numa época e que desapareceu em outra. . ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta. "ela não penetra na esfera do que passa e não tem história". Entretanto. seu fim é a verdade. cada filosofia corresponde a um momento da história. graças a essa mediação. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa. Concepção Dialética da História da Filosofia Em suas lições sobre a história da filosofia. Secundariamente. objeto do apetite. o senhor domina os objetos da necessidade. fruindo-a puramente. Na luta de duas consciências. Em compensação. Ela surge "no devido momento. chegar a suprimi-la. superior à sua vida. ameixas ou uvas". e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa. domina a coisa e se satisfaz na fruição. (³) Graças ao trabalho do escravo. portanto. O "senhor". da relação com o escravo). ele é mais do que ela. de início. pois é precisamente a ela que o escravo está preso.(³) (¹) Este difícil texto de é característico do método hegeliano. Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo. ele é a potência que domina esse ser externo. este último. enquanto consciência de si. ele se relaciona (a) imediatamente com os dois e (b) imediatamente com cada um por intermédio do outro. ele é. isto é. uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo. a uma etapa na conquista do espírito absoluto. O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal. a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo. o que o levou a mostrar-se dependente. ela própria. deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha. é relação imediata do ser para-si. (²) Hegel quer dizer que o senhor não é senhor "em-si". Se a verdade é eterna. posto que no campo de batalha ele se mostrou corajoso. O senhor tem. Por conseguinte. Pensamos nos versos de Valéry: Como o fruto se funde em fruição Como em delícias ele muda sua ausência Numa boca em que sua forma se extingue. isto é. assim como a noção geral de fruto só se explicita quando efetivamente se trata de "cerejas. Na realidade. Uma vez que o senhor (a). mas (b) é simultaneamente mediação.197 notadamente por uma consciência cuja natureza implica no fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. o senhor também o domina. um ser para-si que só o é por meio do outro. aquele que é vitorioso no combate. com o escravo. a filosofia encontra-se toda nos sistemas dos filósofos. a relação do senhor com a coisa é uma relação de simples gozo que equivale à negação da coisa. pois provou na luta que o considera como puramente negativo. mas por meio de uma mediação. mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode. aceitou arriscar a vida.

seu pai. Assim. e seus dois avós eram pastores protestantes. mas o epicurismo proclama vedadeiro o princípio diretamente oposto: o sentimento. mais profundo. A posição dos precedentes é determinada pelo que se segue. é assim que o primeiro elemento é colocado numa categoria inferior pelo seguinte.198 nenhuma ultrapassou seu tempo" (¹).. conhecer os princípios dos sistemas filosóficos e em seguida reconhecer cada um deles como necessário. é afirmativo.. o que dá no mesmo. de maneira que o seguinte é uma nova determinação do precedente. uma união em uma viva unidade do pensamento. apenas sua posição é que é refutada. em seguida. o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira. Somente sua reunião constitui a totalidade da noção e o homem. É importante. . O ceticismo é o princípio negativo que se eleva contra os dois precedentes. supera-se-o sem que se encontre no interior. por exemplo. cujas forças mais sutis e mais ocultas se traduzem em idéias filosóficas. na seguinte. O princípio de uma filosofia passa. mas as novas filosofias mostram as anteriores como verdades parciais passíveis de serem integradas numa síntese mais ampla que se elabora com o tempo. As filosofias sucessivas não se refutam. Um estudo mais avançado mostrar-nos-á como progridem seus princípios. de seu povo. "nós" em que vêm se reconciliar dialeticamente os contraditórios. Desse modo. Nesse sentido. por assim dizer. todos os princípios são conservados. são o modo de existência mais elevado da planta. aliás. em elementos concretos e se conservam. como diz Hegel. se transformam em envoltório a serviço do fruto. As filosofias são as formas do Uno. Limitar-se a refutar uma filosofia é não compreendê-la.. Nietzsche Vida e Obra Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken. Desse modo.. é o homem pensante. mas engana-se quando acredita os ter eliminado. (¹) Encontramos essa idéia em Marx.. portanto. Mas ambas se manifestam. do que ver em alguma parte o caráter negativo. a determinação precedente torna-se apenas um ingrediente da nova.. pois ambos são necessários. compõe-se dos dois elementos. um sistema e. é o geral e para outro o particular. Se se for mais adiante. pessoa culta e delicada. o prazer para um. O mesmo espírito fabrica as teorias filosóficas na mente dos filósofos e constrói as estradas de ferro com as mãos dos operários. Nada mais fácil do que criticar. uma após outra. num contexto materialista: "Os filósofos não brotam da terra como cogumelos. ele se apresenta em sua época como superior. Conhecer verdadeiramente um sistema é tê-lo justificado em-si. é a síntese do imóvel ser parmenídico com a mobilidade heracliteana. a unidade. isto é sobretudo gosto característico dos jovens.. Não se refuta uma filosofia. A história da filosofia oferece momentos privilegiados ou. A filosofia não é exterior ao mundo". A dificuldade consiste em ver o que os sistemas filosóficos contêm de verdadeiro. A filosofia de Platão. citaremos um excerto das lições sobre a História da Filosofia: A razão é una e essa racionalidade una. aquilo que se desenvolve na razão progride na unidade dessa razão. sendo necessário. ela é assumida sem ser rejeitada. localidade próxima a Leipzig. do geral e do particular. o Uno. só quando são justificados em si próprios é que se pode falar de seu limites. mas uma reunião das filosofias precedentes que então formam um todo vivo. do pensamento e da sensibilidade. Sua união é a verdade. de suas deficiências. para o segundo. O estoicismo faz do pensamento um princípio. é preciso ver a verdade que ela contém. a essência da história da filosofia consiste em que princípios exclusivos transformam-se em momentos. num nó. a evolução das determinações do pensamento é igualmente racional. ignora-se o conteúdo que. o homem sensível. mas se só se vê a negação. o individual: para o primeiro. Karl Ludwig. A história de Platão não é um ecletismo. de início. ele afasta o caráter exclusivo de um e outro. eles são os frutos de seu tempo. antes de tudo. ele sim. o princípio das concepções subseqüentes é superior ou. por isso.. para a categoria de um momento. opondo-se. é o fundamento de tudo. depois é o botão e o cálice que. As folhas. Os princípios gerais surgem segundo a necessidade da noção fundamental.

pois logo adoeceu. considera Sócrates (470 ou 469 a. III). em 1869. A tragédia grega. sob essa influência e a de alguns professores. sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música. assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força criadora. onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia. esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Nietzsche serviu o exército como enfermeiro. principalmente com Tristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. entre o poeta e o filósofo. Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. entre os clássicos. professor de filologia em Basiléia. mas estudos das instituições e do pensamento. em obra posterior. Segundo Nietzsche. Durante o último ano em Pforta. assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia. desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig. seus autores favoritos. seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor".) e Ésquilo (525-456 a. influenciado por seu professor predileto. Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar. Em 1867. Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer. foi invadida pelo racionalismo. aos poucos. publicou O Nascimento da Tragédia. onde Wagner morava. a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner. VIII a. Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta. o deus da exuberância. Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical. Sócrates pôde atrair os jovens com a dialética. Para ele a Grécia socrática.). seu pai e seu irmão faleceram. duas tias e da avó. onde Nietzsche cresceu. contraindo difteria e disenteria. Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza. Criança feliz. Em cartas ao amigo Erwin Rohde. entre Eros e Logos. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida. O Filósofo e o Músico Em 1870. Dioniso. complementares entre si.-399 a. Nietzsche pergunta como. em companhia da mãe.). que viria a ser. foram separados pela civilização. mas por pouco tempo. com eles criou uma pequena sociedade artística e literária. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos.) um "sedutor". num povo amante da beleza. mas. Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824). diz Nietzsche. por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". a do Logos e da lógica. Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. Em 1858. Hesíodo (séc. Assim. começou a declinar quando. apaixonou-se por Cosima. filha de Liszt (1811-1886). o apolíneo e o dionisíaco. tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação".C. Partiu em seguida para Bonn. Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos. de Schopenhauer (1788-1860). Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805). A partir desses trabalhos foi nomeado. VI a. sob a influência "decadente" de Sócrates. Na universidade. depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma". a "sonhada Ariane". mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação.C. alemão e latim. a da cidade-Estado. Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883). foram Platão (428-348 a. passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega. escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. entre o cidadão e o político. Em 1871. da desordem e da música.C.C. nessa ocasião. dedicando-se à filologia. da harmonia e da ordem. Nessa obra. uma nova forma de disputa (ágon). Na mesma época.) e Homero. pequena cidade às margens do Saale. coisa tão querida pelos gregos.C. que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima. e . às margens do lago de Lucerna. por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg. isto é. onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). Ritschl. de Dioniso e Apolo.C. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias. A casa de campo de Tribschen.199 Em 1849. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação. onde permaneceu por dez anos. Nietzsche restabeleceu-se lentamente e voltou a Basiléia a fim de prosseguir seus cursos. aluno modelo. Nietzsche responde que isso aconteceu porque a existência grega já tinha perdido sua "bela imediatez". Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual e o intelectual. a Alemanha entrou em guerra com a França. dócil e leal.

Ecce Homo. onde permaneceu por insistência de Fräulein von Meysenburg. não conseguindo influenciar a irmã. Encontraram-se mais tarde na Alemanha. depois Assim falou Zaratustra (1884). veio à luz A Gaia Ciência. em companhia da mãe e da irmã. Ao mesmo tempo. isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. Seu livro foi mal acolhido pela crítica. que pretendia fundar uma empresa colonial no Paraguai. isto é. nada que calunie o mundo no reino do espírito. mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua amiga e discípula.200 tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução lançasse mão de uma "razão tirânica". Nietzsche. Nietzsche propôs-lhe casamento e foi recusado. Em 1882. porém. Nietzsche escreveu: "Não há nada de exausto. Demasiado Humano. ao mesmo tempo. de Wagner. Interrompeu assim sua carreira universitária por um ano. achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. no outono de 1881. Apesar da companhia dos familiares. Nietzsche transferiu-se para Gênova. é o criador dos valores. que não tenha encontrado secretamente abrigo em sua arte. Em 1879. Em 1882. Além disso. Terminada a licença da universidade para que tratasse da saúde. pediu demissão do cargo. Mais uma vez. Lou Andreas Salomé. perturbações oculares. Nessa ocasião. escrevendo Humano. recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre". assim. O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte. ambos são parentes porque são a manifestação da decadência. mostrava-se muito contrariado. retornou à Itália. Durante o verão de 1881. nem respondeu à carta que Nietzsche lhe enviara. Mas sua voz agora era tão imperceptível que os ouvintes deixaram de freqüentar seus cursos. da alegria e do sofrimento. O homem. e depois para Roma. iniciou sua grande crítica dos valores. agitador anti-semita. Nietzsche publicou O Andarilho e sua Sombra: um ano depois apareceu Aurora. quando os valores não são mais do que algo "humano. nada de perigoso para a vida. da fraqueza e da negação. Mas o "entusiasmo grosseiro" da multidão e a atitude de Wagner embriagado pelo sucesso o irritaram. para Nietzsche. Nietzsche voltou à cátedra. Ele acaricia todo o instinto niilista (budista) e embeleza-o com a música. No outono de 1883 voltou para a Alemanha e passou a residir em Naumburg. Nietzsche desprezava o anti-semitismo. que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia". dizia Nietzsche. o que o impeliu a refletir sobre a incompatibilidade entre o "pensador privado" e o "professor público". abandonou Naumburg. porém. na pequena aldeia de Silvaplana. acabaram por se afastar definitivamente. O Caso Wagner. durante um passeio. sentia-se cada vez mais só. Crepúsculo dos Ídolos. mudou de opinião. Em seguida. Erwin Rohde nem chegou a agradecer-lhe o recebimento da obra. pois sua irmã tencionava casar-se com Herr Foster. seu trabalho não foi bem acolhido por seus amigos. Solidão. Agonia e Morte Em 1880. ele dissimula o mais negro obscurantismo nos orbes luminosos do ideal. não houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e. Irritado com o antigo amigo. Para Além de Bem e Mal (1886). seus amigos não o compreenderam. que pretendia casá-lo com uma jovem finlandesa. "foi durante o inverno e no meio desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra". Ditirambos Dionisíacos. a recusa do cristianismo e de Schopenhauer. Mesmo doente foi até Bayreuth. ao mesmo tempo. esperava-se com seu estado de saúde: dores de cabeça. e. e. dificuldades na fala. Nietzsche contra Wagner (1888). de "eterno" e "verdadeiro". demasiado humano". como reduto da cristandade teutônica. mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente". passando o inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. Nietzsche residiu em Haute-Engandine. para assistir à apresentação de O Anel dos Nibelungos. redigido logo depois. De Silvaplana. acaricia toda a forma de cristianismo e toda expressão religiosa de decadência" . teve a intuição de O Eterno Retorno. Nessa época Wagner voltara-se. nada de caduco. . a fim de dominar os instintos contraditórios. Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e. do bem e do mal. Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela alternância da criação e da destruição. com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia". Em Rapallo. outrora tão brilhantes. afastou-se da filosofia de Schopenhauer. Nietzsche não se encontrava bem instalado.

aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos. fazendo da vida aquilo que deve ser julgado. pela oposição entre essencial e aparente. no entanto. constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. segundo Nietzsche. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional. o Belo. opondo a ela valores pretensamente superiores. Em 1885. o filósofo do futuro deveria ser artista e médico-legislador. Segundo Sócrates. talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu ataque contra Wagner. Depois de 1888. surgiu o filósofo metafísico. Nietzsche viu no rapaz um discípulo capaz de compreender o seu Zaratustra. o avaliador seria o artista que considera e cria perspectivas. O intérprete seria uma espécie de fisiologista e de médico. a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia. Para Nietzsche. criou-se. Esse bem ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo supra-sensível. condenando-a. Assim. o que o amargurou profundamente. isto é. Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos". Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro. o aforismo nietzschiano é. Sócrates "inventou" a metafísica. ao mesmo tempo. apareceu claramente com Sócrates. O Dionisíaco e o Socrático Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com meios de expressão: o aforismo e o poema. veio a falecer muito cedo. inteligível e sensível. em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo. Reunindo as duas capacidades. Essa degeneração. cada vez mais isolado. Para Nietzsche. Nietzsche faleceu em Weimar. Um ano mais tarde. quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos. afirma Nietzsche. a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada. sucedendo-se alternâncias entre euforia e depressão. teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente "submisso". Por seu lado. em Turim. Em lugar do filósofo-legislador. no "verdadeiro mundo". e. A interpretação procuraria fixar o sentido de um fenômeno. Com Sócrates. veio a público a Quarta parte de Assim falou Zaratustra. limitado. sempre parcial e fragmentário. Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. onde foi diagnosticada uma "paralisia progressiva". onde recebeu a visita do barão Heinrich von Stein. falando pelo poema. verdadeiro e falso. Com tal concepção. e o pensamento "afirmando" a vida. formula que. os quais só revelariam o aparente e irreal. algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos. enfrentou o auge da crise. Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de "mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que me trata dessa maneira". impondo-lhes limites. que lera Assim falou Zaratustra e escrevera um artigo. . e o poema constitui a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. ora "o Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia. diz Nietzsche. escrevia cartas ora assinando "Dioniso". a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e. simultaneamente. Certa vez. crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos. medido. Depois disso. publicado em um jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florença. mediando-a por eles. a arte da tragédia desvia o homem do caminho da verdade: "uma obra só é bela se obedecer à razão". nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida. inaugurando a época da razão e do homem teórico. atenuar ou suprimir a pluralidade. onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky. a 25 de agosto de 1900. viajou para Nice. no entanto. Von Stein. totalizando os fragmentos. corresponde ao aforismo "só o homem que concebe o bem é virtuoso". o autor só encontrou sete pessoas a quem enviála. Von Stein esperava que o filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal. Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica. o Bem. tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. nesse sentido. mas sim de interpretar e avaliar. que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia. a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida". em nome de valores "superiores" como o Divino. esta "estimulando" o pensamento. o Verdadeiro. inacessível ao conhecimento dos sentidos.201 Em princípio de abril de 1884 chegou a Veneza. um tipo de filósofo encontra-se entre os pré-socráticos. a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos. Provavelmente de origem sifilítica. partindo depois para a Suíça. sem. jovem discípulo de Wagner.

. e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). A imagem da tocha simboliza. vontade de aniquilamento. por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia. o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas. diz Nietzsche. verdadeira natureza da realidade. entende o terrestre. o sensível. o aspecto lógico-racional. esforço. Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: "munido de uma tocha cuja luz não treme. continua Nietzsche. A partir daqui. autêntico e verdadeiro. inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes. por exemplo. "Este ódio de tudo que é humano". Em latim. Por essa razão. morte. distinguindo o verdadeiro do aparente e do erro era. retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente. o corpo. em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato. na fórmula "tu és mau. a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam. a vontade de potência deixa de querer significar "criar" para querer dizer "dominar". o homem se afastou cada vez mais desse conhecimento. forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo. bonus significa também o "guerreiro". segundo Nietzsche. hostilidade à vida. ao mesmo tempo. para Sócrates. este horror da felicidade e da beleza. este desejo de fugir de tudo que é aparência. logo eu sou bom". o "homem teórico". de "um platonismo para o povo". dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas). triunfando o negativo e a reação contra a ação. uma luta acirrada contra o cristianismo. Nietzsche traz à tona. faltou-lhe a visão mística. este temor dos sentidos. e a única coisa permitida é sua interpretação.. tudo isso significa. Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos . e a consciência uma força crítica e negativa. a Ascensão da Montanha A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é. Penetrar a própria razão das coisas. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica. é a aparência e seu reverso não é mais o Ser. o inautêntico e o aparente. um significado esquecido da palavra "bom". no pensamento de Nietzsche. e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. Para Nietzsche. esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em arte".. lógico. essa é a maneira como o escravo a concebe. de uma vulgarização da metafísica. A única existência. o método filológico. à luz das idéias do outro mundo. na medida em que abandonou o fenômeno do trágico. mas como "sinais". dever.202 segundo Nietzsche. Assim. mudança. Assim. com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de "bem" e de "mal". Segundo Nietzsche. desejo mesmo. racional. a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação. Sócrates. em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora". O Vôo da Águia. significado este que foi sepultado pelo cristianismo. O cristianismo. Com ele. levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal". repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à vida. à dor e à luta. uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora. e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades". Trata-se. Essa concepção constitui uma metafísica que. o homem está destinado à multiplicidade. Quando esse niilismo triunfa. recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". restou a Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito.. criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. para Nietzsche. portanto. é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo. Nietzsche combateu a metafísica. diz Nietzsche. outros significados precisariam ser recuperados. Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento ("é tua culpa se sou fraco e infeliz"). Assim como esse. pois procura "fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo". que é preciso desmistificar. porém. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria. foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria'. como o provisório. diz Nietzsche. a única atividade digna do homem.

portanto. de um lado. da alegria e do sofrimento. não indicam um significado. e o "eterno retorno". Vontade de potência. A "profundidade da consciência" que busca o Bem e a Verdade. Os Limites do Humano: O Além-do-Homem Em Ecce Homo. uma "saída fora da mentira de dois mil anos". O eterno retorno. a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície. dançar. Zaratustra. o Bem é a vontade do mais forte. Em outros termos. a verdadeira oposição é a que contrapõe. do "guerreiro". aí está a causa de meu cansaço e de toda a existência. diz Nietzsche. portanto. o eterno retorno nietzschiano é essencialmente seletivo. mesmo do mais pequeno. não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo. hipocrisia e máscara. e apenas ele. significa "criar". se Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o desigual e a seleção. o vôo da águia. o eterno retorno causa ao personagem-título. criar". diz Nietzsche. do bem e do mal. A etimologia nietzschiana mostra que não existe um "sentido original". o verdadeiro oposto a Dioniso não é mais Sócrates. uma repulsa e um medo intoleráveis que desaparecem por ocasião de sua cura. a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência. pois o que o tornava doente era a idéia de que o eterno retorno estava ligado. avaliação. e se elas só significam porque são "interpretações essenciais". desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força criadora de novos valores. Com essa concepção. dirão à vida: uma vez mais". entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano. diz Zaratustra. e a transmutação dos valores traz consigo o novo homem que se situa além do próprio homem. faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. o "homem pequeno". apesar de tudo. a um ciclo. ao percorrer os signos para denunciá-las. o intérprete por excelência. o sofrimento. Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso. Com isso. na medida em que tudo é máscara. antes mesmo de serem signos. aí está o que me sufocou e que me tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o adivinho: tudo é igual. amoral e superior ao lógico. Para Nietzsche. a baixeza transforma-se em nobreza. diz Nietzsche. é como Dioniso. E o eterno retorno. O grande desgosto do homem. deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado. As palavras. de outro. segundo Nietzsche. Esse super-homem nietzschiano não é um ser. Fazer isso é "aliviar o que vive. o homem descobre no eterno retorno a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e da destruição. Dessa forma. a morte e o declínio são apenas a outra face da alegria. Por outro lado. no entanto. como um deus artista. cuja vontade "deseje dominar". que faz do futuro numa repetição. diz Nietzsche. O trabalho do etimologista. aberta para o futuro. e que ele faria tudo voltar. . como desejo de dominar. eu negam a "afirmação". "dar" e "avaliar". o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida. diz Nietzsche. como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias. primeiramente. Para Dioniso. Nietzsche responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma vida para a qual tudo se tornou vão. Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência. totalmente irresponsável. assim. a afirmação do devir e do múltiplo. e o intérprete-filólogo.203 que negam a vida. da ressurreição e da volta. mas impõem uma interpretação. Em dois momentos de Assim falou Zaratustra (Zaratustra doente e Zaratustra convalescente). do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos. Se se interpreta vontade de potência. é o além-do-homem. "os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas". oferece. esta. neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes. mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso. mesmo o homem. Por isso. mas o Crucificado. do super-homem. deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a "profundidade da interioridade" é coisa diferente do que ela mesma pretende ser. interpretação. Assim. "mas. sempre foram inventadas pelas classes superiores e. implica resignação. pois as próprias palavras não passam de interpretações. concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade.

que lhe parecem "imorais". para ele. até o anti-semitismo". Nietzsche revela o desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. escrita em 1888. desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista. Esta obra constitui uma interpretação. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência. Nietzsche caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de "obediência e longas pernas". Compreende-se. . uma instância a serviço daquele que cria. é necessário.204 Nesse sentido. Nietzsche recusa o socialismo. feita por Nietzsche. que fracassara em um projeto colonial no Paraguai. homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e nacional. Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães. Por ocasião desse conflito. em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio do super-homem. pelo risco. reuniu arbitrariamente notas e rascunhos do irmão. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: "estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados. segundo as quais o estado é o mais alto fim do homem. da doçura feminina e cristã. Oposta. tentou colocá-lo a serviço do nacional-socialismo. piedade. Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. não há mais elevado fim do que servilo. aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia. por causa do nacionalismo e anti-semitismo do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que desprezo. que leva a negação a seu último grau. organizando o Nietzsche-Archiv. o Estado tem uma origem "terrível". que insistia junto a seus alunos para que não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício de verdadeira grandeza. portanto. Nietzsche alistou-se no exército alemão. pela personalidade criadora. de sua própria filosofia. ao contrário. pelo amor ao distante. Assim. depois do suicídio do marido. Ambos foram combatidos pelo filósofo. ao assegurar a difusão de seu pensamento. como a crítica total que acompanha a criação. amor ao próximo. Elisabeth. para ele. à moral da compaixão. desde sua participação na guerra francoprussiana (1870-1871). assim.. que. fazendo publicar Vontade de Potência como a última e a mais representativa das obras de Nietzsche. E acabou rompendo definitivamente com Wagner. fazendo dela uma ação. Uma Filosofia Confiscada Apoiado na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã. é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. que afirma. purificá-lo de todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome. A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth. humildade.. pois impossibilitam que se pense a diferença entre os valores dos "senhores e dos escravos". portanto. afirmou Nietzsche. que só sabem obedecer pesadamente. Para compreender corretamente as idéias políticas de Nietzsche. Jacob Burckhardt (1818-1897). retendo até 1908 Ecce Homo. assim. Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção. é a pura afirmação. essas teorias seriam apenas "fantásticas". sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. para Nietzsche. assim. Por outro lado. que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta. constituem valores inferiores. Zaratustra. Nessa época. No mesmo sentido. entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento. porque Nietzsche desacredita das doutrinas igualitárias. mas em Vontade de Potência exorta os operários a reagirem "como soldados". bondade. Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez". A moral do além-do-homem. impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos. a vitória da Alemanha sobre a França teria como conseqüência "um poder altamente perigoso para a cultura". e. de tal forma que se passou a ver no autor de Assim Falou Zaratustra um percursor do nazismo. que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. "A democracia é a forma histórica de decadência do Estado". Em Para Além de Bem e Mal. em Weimar. pois. O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação. disciplinados como uma cifre oculta em um número". objetividade. a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. da piedade. mas seu ardor patriótico logo se dissolveu. pelo orgulho. o profeta do além-do-homem. quando confiou ao "louro" a tarefa de "virilizar a Europa". Por outro lado.

Ao contrário disso. ainda que para outros signifique doença. esconde um saber fatal e "demasiado certo".. Para Nietzsche. rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria. está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem. nem a saúde. tornando-a estática e estereotipada. As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas em seus textos.. não há fato patológico. Assim Falou Zaratustra Em Ecce Homo. a arte de deslocar as perspectivas. tinha 56 e a mãe 44 –. aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso. aos "filósofos além de bem e mal". Para ele. a vontade de potência. entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau. Mas. . A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa. como tal. Nietzsche intitulou seus capítulos: "Por que sou tão finalista?". as oposições entre bem e mal. sendo a doença um desvio interior à própria vida. O Estado. nem a doença são entidades. Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade". aniquilar as paixões é uma "triste loucura". A filosofia foi. tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre. Para entendê-lo corretamente. Essa opinião. diz Nietzsche. assim. incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo – herança de um pai extremamente religioso. revela um superficial entendimento de seu pensamento. Há uma continuidade. As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e. rico comerciante de Copenhague. verdadeiro e falso. "Por que sou tão inteligente?". a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa. chamava a si mesmo de "filho da velhice" e teria seguido a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um estudante indisciplinado e boêmio. Sua crise final apenas marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. seus alicerces encontram-se na máxima que diz: "o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância. "Por que sou tão sábio?". doença e saúde são apenas jogos de superfície. Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e desqualificada pela loucura. a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados "manifestações diabólicas". Em suma. a fisiologia e a patologia são uma única coisa. É dentro dessa perspectiva. pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas.205 sendo criação da violência e da conquista e. Kierkegaard Kierkegaard é um dos raros autores cuja vida exerceu profunda influência no desenvolvimento da obra. cuja decifração cabe à filosofia. A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a "meditação ascética". a vida social. Trocou a Universidade de Copenhague. e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: "Na verdade. diz Nietzsche. que cultuava a maneira exacerbada os rígidos princípios do protestantismo dinamarquês. no entanto. pelos cafés da cidade. religião de Estado. o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-dohomem. para Nietzsche. fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença "um ponto de vista" sobre a saúde e vice-versa. a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade. com isso. como conseqüência. Sétimo filho de um casamento que já durava muitos anos – nasceu em 1813. da saúde à doença. que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. "Por que escrevo livros tão bons?". pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. portanto. os teatros. diz Nietzsche. alguma coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados foram espalhados pela Grécia". portanto. que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões. usurpação e violência". quando o pai. onde entrara em 1830 para estudar filosofia e teologia. é necessário colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção da filosofia: Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia. para ele. sob o travestimento da loucura.

em particular. está em Diários. A maior parte desses textos constitui uma tentativa de explicar a Regina. a divindade. nenhuma dessas motivações tradicionais. então. na raiz das tentativas filosóficas que se deram ao longo da história. Isso fica bem evidenciado quando ele reage às filosofias de sua época – em especial à de Hegel. A individualidade define a existência. O noivado. De onde provém.206 Foi só em 1837. exerceria uma influência decisiva em sua obra. é editado As Etapas no Caminho da Vida e. Pode-se perguntar. os paradoxos da existência religiosa. mas. Polemista por excelência. sim. de sua especificidade e do caráter insuperável de sua realidade. no entanto. Esse é o momento da segunda grande mudança em sua vida. Em 1849. porque a vê como uma etapa de algo maior. o indivíduo é um momento de uma totalidade sistemática que o ultrapassa e na qual. O individual se explica pelo sistema. Para Kierkegaard. Para além das minúcias que essa distinção envolveria. Não se trata de questionar as incorreções ou as inconsistências do sistema hegeliano. Volta a Copenhague em 1842. Estamos habituados a ver. que sua vida mudou. Temor e Tremor e A Repetição. Kierkegaard elabora seu pensamento a partir do exame concreto do homem religioso historicamente situado. Kierkegaard criticou a Igreja oficial da Dinamarca. Na Alemanha. mas de uma concepção muito profunda da situação do homem. o Post-scriptum a Migalhas Filosóficas. essa era a única maneira de vivenciar sua fé. Assim. Rompido o noivado. em 1850. ou. A crise vivida por um homem que. mas como a solidão característica do homem que se coloca como finito perante o infinito. Em vez de pastor e pai de família. Morreu em 1855. A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como um conceito lógico. com a morte do pai e o relacionamento com Regina Oslen (de quem se tornaria noivo em 1840). Em Kierkegaard há um forte sentimento de irredutibilidade do indivíduo. . e um ano depois apresentava "Sobre o Conceito de Ironia". por exemplo. ainda em 1841. razões da ordem da reforma do conhecimento. foi aluno de Schelling e esboça alguns de seus textos mais importantes. tratar-se-ia muito mais de um pensador religioso do que de um filósofo. comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossa condição. Pra elas. Não devemos buscar o sentido do indivíduo numa harmonia racional que anula as singularidades. da política. viajou. da moral. e em 1843 publica A Alternativa. cujo sentido é infinito. a partir de uma dimensão sobre-humana. cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard. o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização de uma totalidade infinita se compraz na finitude. quais as questões fundamentais que lhe motivam a reflexão. enquanto ser individual. é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por uma finalidade que. Um ano depois. Em Kierkegaard não encontramos. ao mesmo tempo. dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do tempo. qual a finalidade que ele intencionalmente deu à sua obra. Kierkegaard escolheu a solidão. A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e seu pensamento. descobre a necessidade da solidão e do distanciamento mundano. Trata-se muito mais de rebelar-se contra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa. de Copenhague. sua tese de doutorado. Para ele. e a ele mesmo. em 1846. a um só tempo. Em 1844 saem Migalhas Filosóficas e O Conceito de Angústia. mais religioso. ao optar pelo compromisso radical com a transcendência. na afirmação radical da própria individualidade. Ora. o particular pelo geral. Para Hegel. essa defesa arraigada daquilo que é único? Não de uma contraposição teórico-filosófica a Hegel. ele encontra sua realização. Escola do Cristianismo. Filósofo ou Religioso? A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a levantar dúvidas a respeito do caráter filosófico de seu pensamento. Também em 1840 ele conclui o curso de teologia. para a Alemanha. o caráter socrático do autoconhecimento e o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduo diante da verdade cristã. a filosofia assume. no mundo e perante aquilo que o ultrapassa. em que analisa a deterioração do sentimento religioso. com a qual travou um debate acirrado. e foi execrado pelo semanário satírico O Corsário. o infinito. estritamente. publicou Doença Mortal e.

principalmente o protestantismo dinamarquês. outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade. O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso. ou entre dois sistemas de valores. O cristão é aquele que se sente continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo. Se permanecesse a distância infinita que separa Deus e o homem. somente aprofundando a subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos aproximaremos da compreensão original de nossa natureza: o pecado original. dotado. Essa angústia. Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. o aprofundamento da subjetividade. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua época. O acesso à Verdade suprema depende pois da crença no absurdo. jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção e. embora histórico. é o mediador entre o homem e Deus. exceto a relação com Deus. A mediação é o Cristo vivo. Tudo está suspenso. Foi a mediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso. minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé. Não há. Cristo. portanto. um modo de existir. algum tipo de prova racional que me transporte para a compreensão da divindade. insuperável modo de existir. segundo ele. E esse modo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo. Não se trata. histórico. Não há portanto uma mediação conceitual. definitivamente. mais do que com essa característica do Romantismo. Cristo é portanto o fato primordial para a compreensão que o homem tem de si. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz. E a compreensão irradia luz sobre a redenção e a graça. Seu profundo significado a-histórico tem a ver. Aqui se situam as circunstâncias que fazem do advento da Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada com as pompas do conceito e do sistema. naquilo que São Paulo já havia chamado de "loucura". No entanto. e o fato igualmente incompreensível do sacrifício na cruz. no entender de Kierkegaard. conseqüentemente. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. O Sofrimento Necessário A subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário. se realiza na vivência da religiosidade cristã. ou seja. tampouco é um estágio provisório que dure apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão. é o absurdo que possibilita a Verdade. possui uma dimensão que o torna referência intemporal para se vivenciar a fé. Mas o próprio Cristo é incompreensível. Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse sentimento. Somente dessa maneira nos colocamos no caminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto. O fato da redenção. penetrado.207 Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não se vê diante de um sistema de idéias mas diante de fatos. de posse da verdade humana do cristianismo. mais precisamente de um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar: a fé. O paradoxo de Deus feito homem e o absurdo das circunstâncias do advento da Verdade. A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolvia sua época. com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo. nesse caso. enquanto Deus tornado homem. É por meio de Cristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. este jamais teria acesso à Verdade. igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos. . Por isso devemos dizer: creio porque é absurdo. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito. estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. A autêntica subjetividade. da mediação do Cristo. É. de optar entre dois códigos de ética.

a procura infindável e a visão instantânea da Verdade. ou então. Emmanuel Kant A Moral de Kant É só no domínio da moral que a razão poderá. Nesse ponto. mas o imperativo categórico: Cumpre teu dever incondicionalmente. âmbito em que o entendimento é cego. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso. Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta. minha conduta não é moral. receber um conteúdo da experiência e que devem exprimir a autonomia da razão pura prática. o temor de Deus é inseparável do tremor. tudo que seja sensível ou empírico. a comunidade). Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humana. Existir é existir diante de Deus. isto é. para ser ela própria. da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon. "Age sempre de tal maneira que a máxima de tua ação possa ser erigida em regra universal" (primeira regra). as regras morais só podem consistir na própria forma da lei. A filosofia deve ser imanente à vida. ela não pode ser elucidada pelo conceito. A fé representa um salto. como no caso da tragédia grega. Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões. A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação. Por exemplo: se me empenho por alguém por cálculo interessado ou mesmo por afeição. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto. Mas. caso o sacrifício se tivesse consumado. que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em presença um do outro. dos desejos empíricos. mas. Toda ação que toma seus móveis da sensibilidade. meus cálculos e meus sentimentos espontâneos poderiam levar-me a atos contrários. mas por alternativas e saltos. Kant se opõe não só ao naturalismo dos filósofos iluministas. também. se teus sentimentos espontâneos a ele te conduzem). O imperativo moral não é um imperativo hipotético que submeteria o bem ao desejo (cumpre teu dever se nele satisfazes teu interesse. Em Kant. mesmo que essa ação seja materialmente boa. há o que Hegel mais tarde denominará uma visão oral do mundo que afasta a ética dos equívocos da natureza. a dúvida permaneceria para sempre. a ausência de mediação humana. que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual. para quem a felicidade é o fim legítimo de todas as nossas ações. o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação. A razão teórica tinha necessidade da experiência para não se perder no vácuo da metafísica. ética. legitimamente. Em que consiste esse dever? Uma vez que as leis que a Razão se impõe não podem. é estranha à moral. Com efeito. A crença é inseparável da angústia. Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé. a não ser ele mesmo e a sua fé. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito. ultrapassar. deve ao contrário. Deus não está testando a sabedoria de Abraão. A razão prática. muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos. a felicidade. Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade do Cristo. à ontologia otimista de São Tomás. O respeito pela razão estende-se ao sujeito racional: "Age sempre de maneira a tratares a humanidade em ti e nos outros sempre ao mesmo tempo . A fé reúne a reflexão e o êxtase. Continuaria sendo o assassino de seu filho.208 O Salto da Fé Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade. Nada está em jogo. e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. amanhã. precisamente porque não pode haver transição racional entre o finito e o infinito. fica submetida às flutuações de minha natureza. já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo. não constituirá fundamento adequado da vida e da ação. A vontade que tem por fim o prazer. Do ponto de vista humano. em nenhum caso. manifestar-se em toda sua pujança.

patológico.. porque é preciso. Por exemplo. de um modo geral. diz Kant. O único sentimento que tem por si mesmo um valor moral nessa ética racionalista é o sentimento do respeito. eu vejo que meus atos. sentiria uma atração instintiva e irresistível pelos valores morais). Aquele crime pode ser explicado pelas paixões de seu autor. esconde-se a realidade numenal de minha liberdade. às tendências de tudo o que é empírico. a obrigação moral exclui a necessidade dos atos humanos. que o mau escolheu livremente o seu caráter de mau. Por outro lado. o homem se sente responsável. Desse modo. ao privilegiar a razão humana. etc. é fora do tempo. em nenhuma "heteronomia". Vimos que. efetivamente. essa consciência que é essencialmente razão. A moral de Kant. ele me engrandece. No plano dos fenômenos. Ele então postula que um Deus justiceiro. "Tu deves. pois não é anterior à lei. como diz Kant. submeter a humana vontade à lei do dever. não implica em nenhuma "alienação". neste mundo em que.essa metafísica cuja demonstração era impossível. partindo da consciência da obrigação moral. portanto. mesmo que me diga: e se todos fizessem o mesmo? A mentira de todos para com todos é contraditória. Kant então postula a imortalidade da alma. Por trás desse determinismo aparente." Esta liberdade não poderia ser demonstrada. os homens só têm que obedecer às exigências de sua própria razão: "Age como se fosses ao mesmo tempo legislador e súdito na república das vontades" (terceira regra). pelo fato de ser puramente formal. Tal é o rigoríssimo kantiano. é um mundo de aparências. a título de "postulados da razão prática". o imperativo categórico é um "proibitivo categórico". um ato concreto a realizar. A originalidade de Kant está no fato de que.. Moral e Metafísica A moral de Kant é o que chamamos de uma moral independente. Por conseguinte. ao preço de grande esforço. ou. passional. Mesmo que o universo não tenha o menor sentido. da experiência. Ela simplesmente autoriza ou proíbe este ou aquele ato que tenho vontade de praticar. o princípio do dever. então podes. O mérito moral é medido precisamente pelo esforço que fazemos para submeter nossa natureza às exigências do dever. Ser moralmente obrigado é ter o poder de responder sim ou não à regra moral. isto é. Não esqueçamos que o mundo dos fenômenos. ao contrário. é nas profundezas do ser inacessível ao saber científico. Todavia. vejo de imediato que não tenho o direito de mentir. pela deplorável educação que recebeu. como diríamos hoje. exprime sua desconfiança com relação à natureza humana. segunda a crítica da razão pura. A obrigação não teria o menor sentido se minha conduta fosse automaticamente determinada por minhas tendências ou pelas influências que sofri. é ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal. isto é. são determinados uns pelos outros no tempo. por conseguinte. Por exemplo: o dever me prescreve a realização de certa perfeição moral que não consigo atingir na vida presente (posto que não chego a purificar totalmente a determinação de querer dos móveis sensíveis). Kant constata que a virtude e a felicidade quase não estão juntas. Com efeito. ele me realiza como ser racional que obedece à lei moral. restabelecerá no além a harmonia entre virtude e felicidade. ele vai estabelecer os fundamentos de uma metafísica na moral. apresenta-se como essencialmente negativa. Finalmente. como diz Kant. Por conseguinte. do que hoje denominamos ciência psicológica. 209 . pelo qual o mundo se me apresenta no conhecimento. mesmo que a alma seja mortal. do determinismo. Kant vai reerguer a metafísica . A razão fala sobre a forma severa do dever porque é preciso impor silêncio à natureza carnal. por conseguinte. livre. o domínio da moral não é o da natureza (submissão animal aos instintos) nem o da santidade (em que a natureza. Kant vai postular a liberdade humana. os maus são muito prósperos. aos instintos. Em tal sistema. E. Ela não possui outro fundamento além da consciência humana. como um fim e jamais como um simples meio" (segunda regra). no entanto. por intermédio de um sistema de recompensa e punições. Como diz Jan Kélévitch. Para se unirem numa justa reciprocidade de direitos e obrigações. proibída. essa moral não me propõe. transfigurada pela graça. passivo. o discípulo de Kant se sabe obrigado a respeitas as máximas da razão. mas é a própria lei moral que o produz em mim.para ser absolutamente rigoroso. ao invés de buscar os fundamentos de sua moral na metafísica. A moral formal.

a empresa kantiana só pode deixar os filósofos insatisfeitos: para Kant. o entendimento não pode conhecer o fundo das coisas e se limita a "soletrar os fenômenos". a outra fonte essencial do idealismo alemão é Spinoza. Totalmente determinados nas aparências fenomenais. por conseguinte. o princípio de finalidade permanece facultativo. Com efeito. na contemplação estética. idealismo objetivo e idealismo absoluto. me "arrebata". segundo afirma. se o princípio de causalidade (determinismo) é constitutivo da experiência (não posso dispensá-lo para explicar a natureza). Schleiermacher. dele me liberta e. Hegel. se ordenado pelas categorias do espírito? E por que Kant mantém essa coisa em si que. Todavia. Dele depende todo pensamento posterior. fora de todo móvel exterior à obra de arte). a bela aparência que admiramos parece inteiramente penetrada dos valores do espírito. longe de manifestar meu egoísmo dominador. fenômeno artístico e literário. a irredutível oposição entre a coisa e o espírito será eliminada. ao definir em uma palavra os sistemas de Fichte. para o qual já fora orientado por Kant. Schopenhauer) dependem. Para ele convergem e nele se compõem em um fenomenismo absoluto o fenomenismo racionalista e o fenomenismo empírico. não existe liberdade parcial nem meia-responsabilidade. de autonomia do espírito. bem como dele dependem artistas. A Crítica do Juízo. em que toda realidade se resolve nos limites da experiência. vão propor sistemas em que. caracteriza-os sucessivamente como idealismo subjetivo. Em sua terceira grande obra. já que. a filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica. Kant se esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo natural e o da liberdade. de modo diferente. e o seu pensamento encaminha decisivamente o idealismo para a trilha do monismo imanentista. como se diz muito bem. o exemplo único de uma satisfação ao mesmo tempo sensível e pura de todo egoísmo. ao mesmo tempo que o seu próprio. e esta é totalmente produzida pelo espírito. Os valores de beleza. de Spinoza. no mundo kantiano. mas também o da finalidade que aparece notadamente na organização harmoniosa dos seres vivos. Este filósofo é arrancado do desprezo e do esquecimento em que jazia. Nessas condições. já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da Razão Prática). seríamos totalmente livres em nossa realidade numenal: daí se segue que nenhum pecado poderia ser escusável. para uma forma de monismo imanentista. A Crítica do Juízo Desse modo. Além de Kant. de Schelling.210 portanto. que desenvolve o conceito de criatividade do sujeito. mas uma coisa apenas é certa: o pássaro voa porque é constituído de tal maneira. especialmente alemão. Schelling. O Idealismo Pós-Kantiano Considerações Gerais A maior parte dos filósofos (é sua vocação mais preciosa. puramente regulador (posso interpretar o agrupamento de certas condições como a manifestação de um fim). presentes na obra de arte. literatos. não podemos conhecer nem designar? Os sucessores de Kant. o momento privilegiado em que uma emoção. Paralelo e correspondente ao movimento filosófico do idealismo pode ser considerado o romantismo. a menos que não seja seu pecado original) visa à inteligibilidade perfeita e à unidade total. Como é então que o mundo sensível se deixa organizar. Finalidade sem fim (isto é. também o romantismo é denominado . Todos os filósofos idealistas (Fichte. igualmente nos oferecem uma espécie de reconciliação entre a razão e a imaginação. a beleza oferece à nossa imaginação a oportunidade de uma satisfação inteiramente desinteressada. A natureza não seja talvez não seja apenas o domínio do determinismo. particularmente o idealismo clássico alemão. harmonia pura. Kant representa o centro do pensamento moderno. mais ou menos. poetas. com Goethe à frente. de síntese a priori. Tudo se passa como se o pássaro fosse feito para voar. Hegel. Ela é.

e portanto nega o transcendente mundo kantiano dos noumenons. E. isto é. como o idealismo. propriamente. que . para incitar os seus patrícios contra Napoleão que humilhara e vencera a Alemanha. estabeleceu-se definitivamente. Depois de ter peregrinado por várias universidades. ao passo que idealismo. posse de si mesmo. desenvolve-se. como uma produção do eu. é representado especialmente de um lado por aquela misteriosa matéria. do realismo. absoluto. enfim teve Fichte que deixar o ensino universitário. e unicamente neles. das sensações. em Rommenau. onde pronunciou os famosos Discursos à Nação Alemã. Entre as suas obras. procurou a sua justificação teorética em uma metafísica monista-imanentista. entretanto. é Fichte. Eu puro. isto é. e com o idealismo tem em comum o historicismo. Em 1794 foi convidado a lecionar na universidade de Jena. criado pelo espírito para se realizar a si mesmo como eticidade e liberdade. transcendental. Aí teve que enfrentar a oposição das autoridades religiosas e políticas. este motivo prático. Nesses eus empíricos. liberdade. tanto espiritual quanto material. naturalmente. e não em uma metafísica transcendente e teísta. em 1810.e não transcendente . acomodação. de um eu universal. pelo qual se decide em favor do idealismo e não em favor do dogmatismo. perante o qual o espírito é passivo. precisamente no conceito do espírito como eticidade. e. ético. ou coisa em si. Sustenta Fichte que o motivo fundamental. O Idealismo Ético: Fichte O primeiro e maior discípulo de Kant. a valorização da nacionalidade e da religião. o idealismo clássico nega todo dado. em um processo infinito. este é transcendental . de que o eu empírico. e de outro lado por aquele mundo inteligível. no dizer de Kant. Este. no mundo empírico. pois. depois dedicou-se entusiasticamente à filosofia kantiana. o Eu puro vive. Dogmatismo significa passividade. em suma. o espírito se realiza. da natureza. seria prático.protestantes embora . uma questão de caráter. que o espírito não consegue conhecer. que. Kant deixara ainda uns dados. perante o qual. o conceito de desenvolvimento. portanto. Fichte concebe idealisticamente toda a realidade. Primeiro estudou teologia na universidade de Jena. ficou sendo a base do idealismo posterior. propende. a principal é Fundamentos da doutrina da ciência. que são produtos históricos. Ora. são eles. significaria atividade. se concretiza a si mesmo indefinita e livremente. Resolve ele o mundo kantiano da sensibilidade. esse mundo de dados. que encaminhou decididamente o criticismo pela senda do idealismo imanentista. O Desenvolvimento do Idealismo Apesar do seu conceito de criatividade do espírito. Apesar das suas desculpas. por conseguinte. pela íntima unidade espiritual do romantismo e do idealismo. e reduz tudo à mais absoluta imanência do espírito. e é plenamente cognoscível a si mesmo. do que para as ciências e a matemática.tiveram intuição do seu anticristianismo e ateísmo. O mundo da matéria.com respeito à multiplicidade e ao vir-a-ser do mundo empírico. Trata-se. Esse mundo de coisa em si. moral. João Amadeu Fichte nasceu em 1762. Faleceu em Berlim.211 pelo conceito de criatividade e liberdade do espírito. mais para a arte e a poesia. donde derivaria toda a atividade organizadora e criadora do espírito. ao passo que se deu o contrário com o racionalismo precedente. Os maiores românticos alemães são Schlegel e Novalis. independência. moral. de fato. e conheceu pessoalmente Kant. no tempo e no espaço. filósofos idealistas. isto é. vive. em face dos quais o espírito é passivo: o mundo dos noumenons. em geral. em 1814. e ter travado relações com um círculo romântico. fraqueza. . A estes podem-se acrescentar Schelling e Schleiermacher. Assentado isto. o espírito seria passivo. no mundo da natureza. debilidade. pois Fichte mantém o conceito kantiano do primado da razão prática. no qual unicamente. os diversos "eus empíricos" seriam concretizações particulares. na universidade de Berlim. é uma criação inconsciente do espírito. opera. imanentismo. onde expõe sistematicamente o seu pensamento. mas pertencem também ao movimento romântico. de síntese a priori. em que está a sua divindade infinita.

isto é. Nesta obra Gioberti não somente quer dar à Itália unidade e independência nacional e política. Para realizá-la. vegetais. oporia a si mesmo o não-eu. em uma sociedade de seres livres. racionalmente indeduzível o conteúdo desse mundo da natureza. profunda. mas é imanente. quando. a consciência da sua natureza absoluta e divina. pessoa. para que seja superado e vencido esse mundo natural. Naturalmente. isto é. Entretanto. por Gioberti que escreveu o famoso livro Primato morale e civile degli Italiani. no estado. a dominação de Napoleão. que era. o espírito. das nações. o eu prático quando prevalece o primeiro elemento. Fica. deveria ser a ordem moral do mundo. essa demolição de Deus. tal produção do não-eu por parte do eu. causa de humilhação para o povo germânico . volta ele para uma concepção de Deus absoluto e imutável. animais. primado moral e civil. porque. para que o espírito possa aplicar a ele a sua atividade. Tal processo ascendente. o eu criaria o mundo da natureza. impessoal e gerador do mundo. não tem fim. Mas. Compreendem-se. uma nação. do eu. deduzido do eu o mundo da matéria. denominada filosofia da identidade. da natureza. e a realidade cairia do nada.acaba por coincidir com a ordem real. as acusações de ateísmo levantadas contra Fichte.como mais tarde. teorética e prática. o obstáculo a superar para realizar a sua eticidade. É um mito romântico da Alemanha. procurará fazer Hegel. superestado em face de outros estados. Fichte pensa que a natureza íntima. do não-eu (imaginação produtora). eticidade. em um sistema imanentista . ao invés. pois. prevalece o segundo elemento. Temos o eu teorético. ideal para o qual tende o afanoso evolucionar humano. em que o "deve ser" é reduzido ao "ser". como herdeira da cultura clássica e sede do cristianismo católico romano. . de sorte que o verdadeiro conceito de Deus é logicamente anulado. Este seria precisamente como que o campo da sua atividade. julga Fichte ter justificado. Essa atividade utópica-política de Fichte tem certa semelhança com a atividade desenvolvida alguns anos depois na Itália. em Berlim . moralidade. do eu cognoscitivo e do eu ativo. a qual é atividade. mas também procura evidenciar o seu primado no mundo. natural. O Deus de Fichte é apenas ordo ordinans. criador.212 Desenvolvendo a doutrina kantiana do primado da razão prática. Tal série ideal da atividade do espírito. Consciência e liberdade que encontram um progresso na sociedade humana. Nestes discursos esforça-se Fichte para despertar no povo alemão. isto é. tem por fim a sempre mais perfeita realização do próprio espírito. uma consciência de unidade e autonomia nacionais. não é Deus no sentido verdadeiro e próprio. O próprio Fichte notou essa grave deficiência. do eu (reflexão). como justamente observa Schopenhauer. um estado ideal. esse estado seria a Alemanha. dos povos. e cada indivíduo e cada ação sua. que deveriam ter culminado em um estado alemão. E. isto é. despedaçado e dominado.durante a ocupação. pelo menos na primeira grande fase da sua especulação filosófica. Daí uma terceira duplicação do eu. bem como na multiplicação do "eu puro" nos "eus empíricos".como é o de Fichte . tal produção da natureza por parte do espírito é inconsciente. originária do eu seja atividade. todavia. minerais. assim. em que o povo alemão é considerado como o povo puro e originário. Fichte tem uma concepção ética do estado. religioso e cultural. porquanto em um sistema de idealismo absoluto deveria ser tudo racionalmente justificado . isto é. em uma segunda fase do seu pensamento. que é precisamente eticidade. a antítese que ele põe como tese. O Idealismo Estético: Schelling Embora colega de Fichte e mais velho que Hegel. encarnando a idéia da humanidade. era um dado e inexplicável. que indiscutivelmente ela possui. na antítese eu não-eu. Schelling está logicamente entre Fichte e Hegel. Mas. apagar-se-ia a vida do espírito. como o Deus do teísmo e do cristianismo. a sua liberdade. que aspira aos valores espirituais e morais. temos. do mundo. pelo contrário. a fim de que seja possível a síntese ética. deva ser guiada e ensinada por um povo. Segundo ele. para Kant.com os Discursos à Nação Alemã. destarte. inconsciente no momento da produção da natureza. a dualidade do eu teorético e do eu prático. consciente e inconsciente. é necessário que a natureza seja conhecida pelo espírito. No conhecimento começa a manifestar-se aquela atividade consciente do espírito. mundo que. Daqui se pode compreender a ação política exercida por Fichte na Prússia. se terminasse. Não é preciso lembrar que o Deus de Fichte não é transcendente.

anterior ao eu e ao não-eu: será precisamente a identidade absoluta do eu e do não-eu. filosofia da identidade). Mas então surge o problema que assoma em toda concepção monista da realidade: ou a realidade verdadeira cabe ao idêntico. em seguida. Schelling foi um autor variado e fecundo. enquanto Schelling assume no seu sistema a concepção romântica. nasce no universo a consciência espiritual. que é um progresso. propende para a primeira solução: o idêntico não é a causa do universo. são meras aparências subjetivas. Em Tubinga teve Hegel como condiscípulo. e precisamente mediante a sua finalidade. Würzburg. quando o idealismo já estava esfacelado. o conceito de Fichte de que a natureza tenha uma existência puramente relativa ao espírito. Schelling concebe as idéias eternas ao mesmo tempo como verbo de Deus. admite que a natureza é uma produção necessária do espírito. Mas então como se explica a visão. E o gênio se encontra só no campo estético. Ao surgir a sensibilidade. o sujeito puro). idealista: o espírito. Passou da teologia à filosofia e dedicou-se ao estudo de Spinoza. recusa. e depois o espírito com toda a sua história. representa ele a filosofia do romantismo. No primeiro caso. As faces do seu pensamento são fundamentalmente duas: o período da filosofia da identidade. Tal passagem é representada pela segunda fase do seu pensamento. possibilidade do irracional e do racional. cujo racionalismo ele demole. Como Fichte. o sujeito. ou o multíplice. mas como seu desenvolvimento e consciência. e como exemplares universais e imutáveis das existências particulares e in fieri. a multiplicidade e o devir do mundo. Munique e Berlim. não como sendo oposição e negação da natureza. Pesquisas Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana e os Objetos Conexos com Esta (segunda fase. do qual deriva a sua concepção idealista. Nessa segunda fase. do universo que aparece múltiplo e in fieri? Se a realidade absoluta é una e imutável. o eu. ao uno imutável. mas é o próprio universo. essa revelação de Deus a si mesmo se realizam na determinação das idéias eternas em Deus. fundamentalmente. a natureza embora concebida idealisticamente . à consciência. a um sistema irracional. segundo Schelling. de um sistema racional. passando da filosofia da identidade à filosofia da liberdade. como indiferença de irracional e racional. não no científico. Que a natureza seja espiritualidade latente e progressiva. Faleceu em Berlim. Dessa identidade. e o espírito humano atinge a essência metafísica da realidade através de uma intuição estética.213 Ademais. objeto e sujeito: unidade de uma multiplicidade. Então o princípio da realidade não é mais o eu de Fichte (o eu absoluto. ser aprendida pela intuição estética expressa na obra de arte. vontade inconsciente que aspira à racionalidade. Para ele. afastando-se entretanto dele em seguida. uma continuação com respeito ao desenvolvimento da natureza. que é a obra do gênio. como o espírito é a natureza na fase de consciência clara. Logo. começa o desenvolvimento do espírito humano. o devir do mundo tem uma realidade verdadeira. A unidade. Frederico Guilherme Schelling nasceu em 1775. sujeito e objeto. Erlangen. a realidade absoluta é identidade entre natureza e espírito. porém. espírito e natureza. Nele influíram também as turvas fantasias da mística alemã. no segundo. primeiro. de Fichte. em Leonberg. mesmo ilusória. Schelling imagina o ser absoluto. Filosofia e Religião. a natureza e o espírito. que constitui o pressuposto imediato do seu pensamento. em virtude da qual toda a natureza é espiritualizada. Essa realização de racionalidade. e nada existe fora dela. princípio absoluto da realidade. As suas obras principais são: o Sistema do idealismo Transcendental. é princípio de tudo. e o da filosofia da liberdade. ao indistinto. Em Leipzig integrou a sua cultura humanista e literária com estudos científicos. filosofia da liberdade). A filosofia de Schelling é. revelação de Deus a si mesmo. em 1854. A natureza é o espírito na fase de consciência obscura.tem uma realidade autônoma com respeito ao sujeito. Foi sucessivamente professor nas universidades de Jena. a identidade profunda entre natureza e espírito deveria. decorrerá. onde dominara o seu adversário Hegel. Representação do meu Sistema (primeira fase. sustentou pesada polêmica. com o qual. mas deverá ser um princípio mais profundo. a natureza e o seu desenvolvimento. Deus. Schelling julga demonstrá-lo mediante a racionalidade imanente na própria natureza. à própria autorevelação. . como e donde pode surgir essa visão destruidora do Absoluto? Schelling procura resolver esse problema. Unicamente o gênio artístico atinge e revela o artista misterioso que atua no universo.

Com relação ao primeiro é possível conhecimento racional. da realidade. O Idealismo Religioso: Schleiermacher A Schelling pode-se ligar Schleiermacher. O pensamento de Schelling é. E. Crítica das Doutrinas. daí ser a religião reduzida aos limites da razão prática. embora muito inferior a Schelling como metafísico. superaria o seu fundo originário arracional e irracional. em 1768. Frederico Scheleiermacher nasceu em Breslau. daí ser a metafísica substituída pela moral. Compreende-se. como. e a religião aniquilada na filosofia. Para Kant. filósofo do Romantismo. portanto. do finito ao Infinito. Tal passagem se explica então mediante um ato arracional. racional. do Uno. de liberdade. Daí o primado da razão prática. Foi professor em Halle e Berlim. do mundo ideal. teoreticamente. Embora Scheleiermacher pense que não podemos conhecer nada a respeito de Deus. pelo que se vê. deveria realizar-se progressivamente a redenção dessa queda original. mas o próprio Deus: porquanto. . a atividade que atinge o Absoluto é a vontade moral. ao passo que o segundo pode ser unicamente descrito com base na experiência. Segundo Scheleiermacher. o retorno das coisas a Deus. que é uma atividade coordenada ao conhecimento e à vontade. com todo o mal que nele existe. e a raiz comum das outras atividades psíquicas. natural e humano. ele. decair no mundo empírico da multiplicidade. a do idealismo romântico. dependente e limitado. secundário. Scheleiermacher quer libertar a religião não só da ciência. ao mundo empírico e contingente. o universal e o imperfeito. e é. sentimento este que seria precisamente a faculdade do Absoluto. irracional da vontade. mas pelo sentimento potenciado romanticamente em sentido metafísico. Juntamente com o Romantismo. Scheleiermacher procura valorizar. a razão prática. porque as idéias eternas participam da natureza divina. elas se podem destacar do Absoluto.é atingido pelo sentimento: não pelo simples sentimento entendido em sentido psicológico. elemento germinal da Reforma luterana. da individualidade. Estes críticos têm um interesse religioso. porquanto ele também é ligado estritamente ao movimento romântico. da história da natureza e da humanidade. Mas o Absoluto não é atingível sequer por via teorética. O Absoluto . revelando-se plenamente a si mesmo. das idéias. moral. repete de muitos modos que a realidade é una. é racional o mundo das ciências. a ética ser resolvida na dialética. como julgava Kant. uma valorização no sentido imanentista. A concepção filosófica de Scheleiermacher é.como Schelling que o Absoluto é atingido mediante a intuição estética. desprezada e expulsa da vida do espírito pelo racionalismo iluminista. mas irracional o mundo da existência. a que Schleiermacher julga poder dar um específico valor religioso. o temporal. com efeito. como o conhecimento e a vontade. fundamentalmente. porém. assim. e é.segundo Scheleiermacher . resolvida na moral. dada a sua concepção panlogista-imanentista da realidade (toda a realidade é racional e toda a racionalidade é real): daí a lógica coincidir com a ontologia. Monólogos. porquanto há essencial heterogeneidade entre o perfeito. para Schelling. para celebrar uma religiosidade estética. justificar a religião. elucidando o princípio da experiência interior. isto é. Por conseguinte. em ordem cronológica. do monismo imanentista. filosofia. conquistando a sua racionalidade. são: Discursos sobre a Religião. Essa redenção redimiria não só e não tanto o mundo e o homem. e que o espírito humano na sua plena atualidade é a consciência de Deus imanente. de sorte que a religião se torna necessariamente e ainda mais radicalmente demolida. idealista. pois. portanto. o Absoluto não é atingível por via prática. tal separação aconteceu e constitui o mundo material e espiritual. Pensa ele . onde faleceu em 1831. difícil e proteiforme. isto é. mas também da moral. mas implicam também numa concepção metafísica do mundo e da vida. da multiplicidade à Unidade. mediante a qual o autor procura justificar a religião em geral e o cristianismo em especial. Scheleiermacher teve uma influência vasta e duradoura sobre o protestantismo liberal alemão. As suas obras principais. tal queda. o particular. do devir.214 A passagem de Deus. que é liberdade e vontade. Através. A Fé Cristã. como julgava Hegel. do contingente. não se pode realizar mediante uma dedução lógica. ciência. É. E isto é possível. o imutável.

por sua vez. Chegada ao fim de seu desenvolvimento abstrato. Segundo a experiência religiosa. Que relação existe entre sentimento e religião. Parece. A idéia. a doutrina e a moral. estético-romântica.não podem atingir o Absoluto. que. assim na atividade religiosa a teoria e a prática. E como na vida espiritual o conhecimento e a vontade seriam secundários e derivados com respeito ao sentimento. para Scheleiermacher. e nem sequer pela vontade. o espírito. de fato. seria explicada a relação religiosa. a idéia é o sistema dos conceitos puros. o espírito é o retorno da idéia para si mesma. a relação do finito com o infinito não pode ser senão dependência absoluta. poder-se distinguir em Scheleiermacher uma religiosidade em sentido amplo. esta fase representa a grande antítese à grande tese. que seria a referência das várias e mutáveis determinações da autoconsciência ao Absoluto. portanto. e sim pelo sentimento. mas apenas logicamente. e no sentimento. (sujeito e objeto).215 Scheleiermacher sustenta que o conhecimento e a vontade . ao Uno. passa da fase em si à fase fora de si. a natureza é a exteriorização da idéia no espaço e no tempo. pela consciência imediata do eu . contra o qual Scheleiermacher em vão se bateu. segundo o sólito esquema triádico (tese. que é a consciência do Absoluto. portanto. ao Eu. Nisto consistiria a religiosidade verdadeira e própria. como sentimento indeterminado da Unidade indeterminada. que é uno. Em a natureza a idéia perde como que a sua pureza lógica. valorizado metafisicamente. se determine essa dualidade. Essa relação não é. (empírico e metafísico). que deveria ser a plena consciência do Absoluto? Propriamente pela referência do sujeito empírico . evidentemente. que representam os esquemas do mundo natural e do espiritual. pela ciência. porquanto. que constitui a nossa essência. do sentimento. isto é. que é abstrata unidade. estética? Scheleiermacher parece proceder deste modo.apreendido imediatamente pelo sentimento psicológico. uma multiplicidade. a idéia torna-se natureza. se desenvolve interiormente em um processo dialético. pela ética. mas em compensação adquire uma concretidade que antes não tinha. entre os quais Scheleiermacher institui uma equação? O Absoluto não é atingido pelo conhecimento.ao Absoluto. Ao sentimento ele reconhece o valor particular de imediata autoconsciência e transforma-o metafisicamente. não arbitrariamente. por exemplo. no sentimento. cujo complexo é obejto da Lógica. E julga que o privilégio de apreender a unidade metafísica do ser é devido ao sentimento. a religião como sendo a relação do finito com o infinito. A filosofia religiosa de Scheleiermacher teve uma grande influência sobre o protestantismo liberal alemão do século XIX. E como se realiza uma relação. anterior a estes.a ciência e a moral . A idéia constitui o princípio inteligível da realidade. a natureza. E por que esta atividade deve ser considerada religiosa e não. mas como dualidade na unidade. segundo Scheleiermacher. ele define. portanto. todavia. A Natureza. e. seriam expressões inadequadas e simbólicas da religiosidade. é certo que. antítese. porquanto o conhecimento e a vontade implicam a multiplicidade decorrente da relativa mudança dos estados de consciência e a dualidade de duas atividades. A primeira grande fase no absoluto devir do espírito é representada pela idéia. como de criatura a Criador. indiferença absoluta. assim como o sentimento ocupa o vértice da vida espiritual. A prescindir das críticas externas e internas que se podem fazer a essa construção metafísicoimanentista. Hegel A Idéia. que é precisamente a idéia. que é uno. Mediante a doutrina desses dois sentimentos. deveria desenvolver-se mais ou . segundo Scheleiermacher. O Espírito Os três grandes momentos hegelianos no devir dialético da realidade são a idéia. É. o qual deveria ser apreendido pelo sentimento em sentido metafísico. uma excluindo a outra. mas não se compreende como no Absoluto. É o escolho fatal do monismo. uma expressão da distinção geral idealista entre eu empírico e eu transcendental. também na ordem da natureza. acaba admitindo o primado da religião. a religião ocupa o mais alto grau da atividade humana. síntese). a saber. e uma religiosidade em sentido específico. ao mais alto e mais puro Eu. E conclui finalizando na equação sentimento-religião.

este último se desenvolve. filosofia). imanente no primeiro. a sociedade. porquanto igualmente necessários para a realização da idéia). com esta última é atingida a consciência da unidade do eu e do não-eu. O estado transcende estas sociedades. nasce a consciência do mundo. Finalmente. Na arte o espírito tem intuição. psicologia propriamente dita. não porque seja um instrumento mais perfeito para a realização dos fins materiais e espirituais da pessoa humana (a qual unicamente tem realidade metafísica). no momento estético. A sociedade do estado transcende a sociedade familiar bem como a sociedade civil. Na religião. quer dizer. fenomenologia do espírito. segundo a metafísica monista-imanentista de Hegel. . no seu isolamento. A história do mundo . Não estando. a um povo eleito sucede um outro. na sociedade civil. Segundo a dialética hegeliana. a moralidade (que subordina interiormente o espírito humano à lei do dever). no fundo. se efetua a unidade do finito e do infinito. pelo contrário. enquanto no ministério da encarnação do Verbo. racional e progressiva é a luta. lógica. filosofia (expressão conceptual. a guerra. volta para si.são nivelados. em sentido vasto. da sua essência absoluta. que é um conjunto de interesses econômicos e se diferencia em classes e corporações. ao predomínio de um estado se segue o predomínio de um outro. surge e se afirma a fase do espírito objetivo. das formas ínfimas do mundo físico até às formas mais perfeitas da vida orgânica. um valor ético superior ao valor particular e privado das sociedades precedentes. em que. e necessária. as injustiças. toma consciência se si no espírito.verdadeiro-falso. daí derivando uma concepção ético-humanista do estado. plena do absoluto). em arte (expressão do absoluto na intuição estética). a individualidade empírica.com todo o mal. denominada por Hegel espírito vivente. (O que se compreende. isto é. graças à dialética dos opostos. pois. pela psicologia.seria destarte o tribunal do mundo. os crimes de que está cheia . assim concretizada. ele vê. segundo Hegel. põe dialeticamente acima do espírito objetivo o espírito absoluto. Hegel distingue ainda três graus dialéticos: o direito (que reconhece a personalidade em cada homem. O espírito subjetivo é estudado. Esta hierarquia dinâmica é estudada. o belo é a idéia concretizada sensivelmente. grças à qual. isto é. etc. segundo o processo dialético. de realizar a plena consciência e liberdade do espírito. imaginativa. mas pode regular apenas a conduta externa dos homens). a eticidade ou moralidade social (que atribui uma finalidade concreta à ação moral. a qual é estudada em seus desenvolvimentos pela Filosofia do Espírito. objetivo (sociedade). a idéia. que se divide em antropologia. Hegel traça uma classificação das religiões. autoconsciência e razão. como acontece de fato no sistema hegeliano. através de uma última hierarquia ternária de graus (arte.216 menos. da sua natureza divina. ao contrário. quando se faz coincidir o "ser" com o "deve ser". Nessa classificação das religiões o cristianismo é colocado no vértice como religião absoluta. O espírito desenvolve-se através dos momentos dialéticos de subjetivo (indivíduo). segundo o seu sólito método dialético. bem-mal. em que os valores . Portanto. nas concretizações da sociedade. religião (expressão do absoluto na representação mítica). por sua vez. naturalmente a sucessão e o predomínio dos vários estados na história da humanidade são necessários. o espírito realizaria finalmente a consciência plena da sua infinidade. Se bem que no sistema hegeliano a vida do espírito culmine efetivamente no estado. mas em forma sentimental. Com o espírito subjetivo. Este. da humanação de Deus. que não passa de uma história das mesmas. é uma superior objetivação do espírito. razão encarnada. os fins do espírito. tendo a natureza esgotado a sua fecundidade. pela Filosofia da natureza. tem razão sobre o vencido unicamente porque é vencedor. em um objeto sensível. mítica. religião. e se determina hierarquicamente na família. a consciência que o espírito (humano) adquire da sua natureza divina. devido precisamente à sua maior universalidade e amplitude. mas porque. racionais e progressivos. no seu complexo. tem ele mesmo uma realidade metafísica. O espírito subjetivo compreende três graus dialéticos: consciência. o infinito é visto como finito. deus terreno. e aquele tem culpa unicamente porque é vencido. . o espírito individual em condição de alcançar. No espírito objetivo. absoluto (Deus). que é precisamente a idéia por si: a grande síntese dos opostos (idéia e natureza). no estado). em uma plena adequação consigo mesmo.

infinidade. A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. econômicos (materialismo histórico). conceptual. A diferença fundamental entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação. Sendo grandemente valorizada a atividade econômica. os diversos sistemas filosóficos. Gnosiologicamente.Acima da religião e do cristianismo está a filosofia. os fatos positivos. que seria o idealismo absoluto de Hegel. é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista. graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais. desses sistemas por um elemento característico: o conceito de vir-a-ser. mas em forma racional. a segunda metade do mesmo século. como interpretação.a vontade popular se manifesta através do número. produtora de bens materiais. a metafísica à ciência. compreende-se porque elas são fecundas no campo prático. lógica. ao sensismo (e ao naturalismo) dos séculos XVII e XVIII. isto é. materialista. também os sistemas políticoeconômico-sociais. mas também o seu maior valor como descrição e análise objetiva da experiência . o conhecimento humano ao conhecimento sensível. da enumeração material dos votos (sufrágio universal). Na democracia moderna que é a concepção política. pura. sensível. o absoluto do fenômeno. naturalista. Dessas premissas teoréticas decorrem necessariamente as concepções morais hedonistas e utilitárias. A lei única e suprema. espalhado em todo o mundo civilizado.através da história e da ciência . em que a soberania é atribuída ao povo. morais e religiosos. como resolvedora do problema do mundo e da vida. Para o socialismo. o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais. defendendo. os dados sensíveis. mais ou menos. que sustenta a liberdade completa do indivíduo . como fonte única de conhecimento e critério de verdade. particularmente das biológicas e fisiológicas. o centro da vida humana está na atividade econômica. o espírito à natureza. autoconsciente. substancialmente. e a história da humanidade é acionada por interesses materiais. dizia Ardigò. assim. que ocupa. enfim. Nenhuma metafísica. 217 . de evolução. produtora de bens materiais. mais ou menos. com as relativas conseqüências práticas. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia. técnico. de todos os fatos humanos e naturais. da experiência. utilitários. com esta diferença. Diferencia-se. à massa . Tal conceito representa um equivalente naturalista do historicismo romântico da primeira metade do século XIX. o positivismo admite. justificação transcendente ou imanente. do século XIX. aplicado. que se encontram na história da filosofia. para as ideologias econômico-sociais. Entretanto. conquista a sua absoluta liberdade. O positivismo representa uma reação contra o apriorismo. com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. que domina o mundo concebido positivisticamente. que dominaram o mesmo século XIX. exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. o segundo. que florescem no seio do positivismo. "O fato é divino". o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do idealismo e do pensamento moderno em geral. considerada como lei fundamental dos fenômenos empíricos. ao contrário. O positivismo do século XIX pode semelhar ao empirismo. o idealismo. e não por interesses espirituais. E delas dependem. como já fizera o empirismo. Dada essa objetividade da ciência e da história do pensamento positivista. do conflito material das forças econômicas. porém. mais ou menos. que alterava a experiência.Comte Características Gerais do Positivismo Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo. como resulta das ciências naturais. o positivismo teve impulso. quer limitar-se à experiência imediata. é natural se procure uma base filosófica positiva. o formalismo. Como as várias religiões representam um processo dialético para a religião absoluta. O Positivismo . uma unificação da experiência mediante a razão. Além de ser uma reação contra o idealismo. a experiência. O liberalismo. representariam os momentos necessários para o advento da filosofia absoluta. que tem o mesmo conteúdo da religião. da quantidade. portanto. Na filosofia o espírito se torna inteiramente autotransparente. Daí a sua pobreza filosófica. Enfim.com respeito ao idealismo. a ciência e a história. também pelo país clássico de sua floração (a Inglaterra) e porquanto reduz.enquanto não lesar a liberdade alheia sustenta também a livre concorrência econômica através da lida mecânica. florescidos igualmente no âmbito natural do positivismo.

É o "ano sem par" que termina com a morte de Clotilde a 6 de abril de 1846. examinador de vestibular. Augusto Comte . o progresso por fim". É em outubro de 1844 que se situa o segundo encontro capital que vai marcar uma reviravolta na filosofia de Augusto Comte. Desde 1847 Comte proclamou-se grande sacerdote da Religião da Humanidade. que será uma revisão e uma crítica do positivismo. Através de um conflito mecânico de seres e de forças. um curso público e gratuito de astronomia elementar destinado aos "operários de Paris". Daí uma revisão e uma crítica da ciência por parte dos mesmos cientistas. de um progresso concebido naturalisticamente. mas atual e eterna". porém. outra positiva. No entanto. Retoma o ensino em 1829. esposa abandonada de um cobrador de impostos (que fugira para a Bélgica após algumas irregularidades financeiras). não obterá o desejado cargo de professor da Politécnica. a criação de uma ciência social e de uma política científica. uma eliminação do organismo mais imperfeito. Em 1844 publica o prefácio do curso sob o título: Discurso dobre o espírito positivo. teológico. e concebe. ideal e ídolo do positivismo. forja divisas "Ordem e Progresso". Entre 1851 e 1854 aparecem os enormes volumes do Sistema de política positiva ou Tratado de sociologia que intitui a religião da humanidade. nada de metafísica e filosofia. Mas. de reconstrução filosófica. curso este que ele levaria avante por sete anos consecutivos. Daí acreditar o positismo firmemente no progresso . por causas. como no âmbito do idealismo se determinou uma crítica ao idealismo. de Saint-Simon: O Organizador. determina-se uma seleção natural. ele conhece H. sobrevivendo o mais perfeito. discutível pelo menos tanto quanto a metafísica espiritualista? Nos fins do século passado e nos princípios deste século se determina uma crise interior da ciência mecaniscista.Vida e Obras Estudante da Politécnica aos 16 anos. Clotilde oferece-lhe sua amizade. Dois encontros capitais presidem as duas grandes etapas desta obra.° distrito. em relação com exigências mais ou menos metafísicas ou espiritualistas. o cognoscível. "Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura. para dar lugar a outras interpretações do mundo natural no âmbito das próprias ciências positivas. Já de posse. Trata-se. igualmente. rua do Faubourg Montmartre. Ver-se-á retirado desta última função em 1844 e de seu posto de explicador em 1851.como nele já acreditava o idealismo. Portanto. no âmbito do positivismo. em 1837. Apesar de seus reiterados pedidos. Comte sente então sua razão vacilar. mediante a luta pela existência. Na primavera de 1845. a única realidade existente. atinge a ciência fielmente a sua realidade.(que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol). numa sala da prefeitura do 3. ou não implica uma metafísica naturalista inconsciente e. Institui o "Calendário positivista" (cujos santos são os grandes pensadores da história). Comte é nomeado em 1832 explicador de análise e de mecânica nessa mesma escola e. nada de espírito e valores espirituais.218 entretanto. funda numerosas igrejas positivistas (ainda existem algumas como exemplo no . nosso filósofo de 47 anos declara a esta mulher de 30 seu amor fervoroso. nem mesmo a cátedra de história geral das ciências positivas no Collège de France. Clotilde de Vaux. mas entrega-se corajosamente ao trabalho. o Sistema Industrial. involuntariamente. de crítica à ciência e ao positivismo. depois. um Curso de filosofia positiva . quer nos meios quer no fim. A publicação do Curso inicia-se em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. das grandes linhas de seu sistema. "Viver para o próximo". que quisera criar em benefício próprio. que é a experiência? E a ciência positivista é pura ciência. Desde 1831 Comte abrirá. que o idealismo concebia o vir-a-ser como desenvolvimento racional. para o bem-estar material. Nessa crítica e vitória sobre o positivsmo. ao passo que o positivismo o concebe como evolução. é a realidade física. pode-se distinguir duas fases principais: uma negativa.rapidamente interrompido por uma depressão nervosa . A obra de Comte guarda estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. a ordem por base. o que se pode atingir cientificamente. desde 1826. Trata-se da irmã de um de seus alunos. O último volume sobre o Futuro humano prevê uma reformulação total da obra sob o título de Síntese Subjetiva. a partir daí. Em 1817. Comte abre em sua casa. "O amor por princípio.

aceita o que ele chama a primeira filosofia de Augusto Comte e vê na segunda uma espécie de delírio político-religioso. quando um fenômeno é dado. que em 1851 abandona a sociedade positivista. inspirado pelo amor platônico do filósofo por Clotilde. Comte pensa que nós não podemos conhecer o espírito humano senão através de obras sucessivas .reivindicação crítica contra os deveres teológicos anteriores. Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e ao monoteísmo. Contentar-nos-emos em descrever como os fatos se passam. Como Hegel ainda. notadamente seu discípulo Littré. Desse modo. c) O estado positivo é aquele em que o espírito renuncia a procurar os fins últimos e a responder aos últimos "por quês". previsão donde ação").autor do célebre Dicionário. Eolo). b) O estado metafísico substitui os deuses por princípios abstratos como "o horror ao vazio". Todavia. diz ele sem falsa modéstia. O homem projeta espontaneamente sua própria psicologia sobre a natureza. A noção de causa (transposição abusiva de nossa expeirência interior do querer para a natureza) é por ele substituída pela noção de lei. Na primeira. sempre pensou que a filosofia positivista deveria terminar finalmente em aplicações políticas e nas fundação de uma nova religião. por longo tempo atribuído à natureza. por exemplo.219 Brasil). afirmando vigorosamente a unidade de seu sistema. Comte partiu de uma crítica científica da teologia para terminar como profeta. Compreende-se que alguns tenham contestado a unidade de sua doutrina. por exemplo. em nome de suas próprias concepções. "separar Comte dele mesmo". ("Ciência donde previsão. O espírito humano. pode considerar-se autorizado a afirmar a unidade essencial e profunda da doutrina de Comte. tal como a concebe Comte.que a inteligência alternadamente produziu no curso da história. A tempestade. em seu esforço para explicar o universo. já antes do Curso de filosofia positiva (e principalmente em seu "opúsculo fundamental" de 1822). Acrescentemos que para Augusto Comte a lei dos três estados não é somente verdadeira para a história da nossa espécie. Para Comte "as idéias conduzem e transformam o mundo" e é a evolução da inteligência humana que comanda o desenrolar da história. divulgador do positivismo nos artigos do Nacional . é de certa forma tão idealista quanto a de Hegel. será explicada por um capricho do deus dos ventos. mesmo se o encontro com Clotilde deu à obra do filósofo um novo tom. Littré . ele foi Aristóteles e na segunda será São Paulo. transformar o segundo. eventualmente agindo sobre o primeiro.obras de civilização e história dos conhecimentos e das ciências . reconhece que houve duas carreiras em sua vida.(¹) (¹) Comte. ela o é também para o desenvolvimento de cada indivíduo. A explicação dita teológica ou metafísica é uma explicação ingenuamente psicológica. A Lei dos Três Estados A filosofia da história. prever o fenômeno que se seguirá e. em descobrir as leis (exprimíveis em linguagem matemática) segundo as quais os fenômenos se encadeiam uns nos outros. é certo que Comte. que não deve considerar a obra com um julgamento pessoal. é a atividade científica que se desenvolve através do tempo. Mas o historiador. A explicação metafísica tem para Comte uma importância sobretudo histórica como crítica e negação da explicação teológica precedente. porque o sujeito do conhecimento confunde-se com o objeto estudado e porque pode descobrir-se apenas através das obras da cultura e particularmente através da história das ciências. Assim como diz muito bem Gouhier. O espírito não poderia conhecer-se interiormente (Comte rejeita a introspecção. a filosofia comtista da história é "uma filosofia da história do espírito através das ciências". Tal concepção do saber desemboca diretamente na técnica: o conhecimento das leis positivas da natureza nos permite. Este estado é no fundo tão antropomórfico quanto o primeiro ( a natureza tem "horror" do vazio exatamente como a senhora Baronesa tem horror de chá). passa sucessivamente por três estados: a) O estado teológico ou "fictício" explica os fatos por meio de vontades análogas à nossa (a tempestade. os revolucionários de 1789 são "metafísicos" quando evocam os "direitos" do homem . A vida espiritual autêntica não é uma vida interior. mas sem conteúdo real. com efeito. A criança dá explicações . Littré podia sem dúvida. Ele morre em 1857 após ter anunciado que "antes do ano de 1860" pregaria "o positivismo em Notre-Dame como a única religião real e completas". será explicada pela "virtude dinâmica"do ar (²).

cujo objeto é a "humanidade". Além disso. Um ser vivo está submetido. físicas e químicas de todos os corpos (vivos ou inertes). antes um instrumento de todas as ciências do que uma ciência particular). mas numa certa ordem de sucessão que corresponde à célebre classificação: matemáticas. em parte. entretanto. A biologia se torna uma disciplina positiva no século XIX. mas a biologia não é uma química orgânica.com a totalidade do saber. constituem-se. Os seres vivos estão submetidos não só às leis particulares da vida. Entretanto. que a psicologia não figura nesta classificação. uma metafísica e uma mística do número). a física espera o século XVII para. enfim. O nascimento da sociologia tem uma importância que não podia ter o da biologia ou o da física: ele representa o fato de que não mais existe no universo qualquer refúgio para os deuses e suas imagens metafísicas. Como cada ciência depende da precedente sem a ela se reduzir. encerra as conquistas do espírito positivo: como diz excelentemente Gouhier . Um dos melhores comentadores de Comte. Um biólogo deve conhecer matemática. LevyBruhl. com Galileu e Newton. a sexta ciência fundamental. nem reduzi-las a estas últimas. como também às leis mais gerais. A Humanidade A última das ciências que Comte chamara primeiramente física social. desde a antiguidade. ao criar a sociologia. astronomia. como a matéria inerte. no decurso da história. nos faz compreender o que é. os objetos das ciências dependem uns dos outros. pois . física. não poderíamos deduzi-las de. Nela irão se reunir o positivismo religioso. Ele se opõe ao materialismo que é "a explicação do superior pelo inferior". Para Comte o objeto da psicologia pode ser repartido sem prejuízo entre a biologia e a sociologia. física e química. É refletindo sobre a sociologia positiva que compreenderemos que as duas doutrinas de Comte são apenas uma. fundamentalmente. do mais abstrato ao mais concreto e de uma proximidade crescente em relação ao homem. publicados por Aubier . O próprio Comte acredita coroar o edifício científico criando a sociologia. sociologia. Dela tudo parte. A Classificação das Ciências As ciências."Quando a última ciência chega ao último estado. é a criação da sociologia que. química. Os fenômenos psicoquímicos condicionam os fenômenos biológicos. aliás. a ela tudo se reduz". É preciso ser matemático para saber física. Comte. Significa dizer que o sociólogo é idêntico ao . biologia. se as ciências mais complexas dependem das mais simples. De saída. não se tornaram "positivas" na mesma data. para Comte. para Comte. irredutível aos precedentes. a história do conhecimento e a política positiva. ao passo que o adulto chega a uma concepção "positivista" das coisas. As ciências mais complexas e mais concretas dependem das mais abstratas.diferentemente do que se passa para os outros sábios . isso não significa apenas o aparecimento de uma nova ciência. o adolescente é metafísico. Das matemáticas à sociologia a ordem é a do mais simples ao mais complexo. às leis da gravidade. (²) São igualmente metafísicas as tentativas de explicação dos fatos biológicos que partem do "princípio vital". Sua especialização própria se confunde. Enfim. a própria filosofia. assim como as explicações das condutas humanas que partem da noção de "alma". Comte afirma energicamente que cada etapa da classificação introduz um campo novo. o sociólogo deve conhecer o essencial de todas as disciplinas que precedem a sua. tornar-se positiva. A astronomia descobre bem cedo suas primeiras leis positivas. Nota-se. Esta ordem corresponde à ordem histórica da aparição das ciências positivas. permitindo aquilo que Kant denominava uma "totalização da experiência". e sobretudo. os métodos de uma ciência supõem que já sejam conhecidos os das ciências que a precederam na classificação.em sua admirável introdução ao Textos Escolhidos de Comte. e para a qual depois inventou o nome de sociologia reveste-se de importância capital. As matemáticas (que com os pitagóricos eram ainda. tem razão de sublinhar: "A criação da ciência social é o momento decisivo na filosofia de Comte. A oportunidade da química vem no século XVIII (Lavoisier). numa disciplina positiva (elas são.220 teológicas. a mais concreta e complexa.

diz-nos Comte. A sociologia dinâmica estuda as condições da evolução da sociedade: do estado teológico ao estado positivo na ordem intelectual. Ele cria línguas. Vê-se que é sobre a sociologia que vem articular a mudança de perspectiva.do estado de egoísmo ao de altruísmo na ordem afetiva. (Para Comte. A espécie das abelhas é apenas a sucessão de gerações que repetem suas condutas instintivas: não há. "especialista em generalidades". As abelhas não têm história. o papa positivista. seu poder temporal (os industriais e os banqueiros) e seu pdoer espiritual (³) (os sábios. sociedades animais. tenha desencorajado os racionalistas que de saída viram no positivismo uma apologia do espírito científico! A religião positiva substitui o Deus das religiões reveladas pela própria humanidade. a ciência. sob a forma de escrita. as pesquisas inúteis. longe de se excluírem. exatametne como a sociedade cristã da Idade Média. a sociologia regerá todas as ciências. o astrônomo deve estudar somente o Sol e a Lua. Comte repudia a metafísica. transpõe . do "universal concreto". o próprio Augusto Comte). se completam. a constituição de um capital intelectual. e. por sua vez. Como diz Comte. a família (educadora insubstituível para o sentimento de solidariedade e respeito às tradições). em todas as disciplinas do conhecimento.meio onde vive a humanidade podem. isto é. O objeto próprio da sociologia é a humanidade e é necessário compreender que a humanidade não se reduz a uma espécie biológica: há na humanidade uma dimensão suplementar . considerada como Grande-Ser.o que faz a originalidade da civilização (da "cultura" diriam os sociólogos do século XIX). A religião da humanidade. nos últimos milênios. Três instituições sempre são necessárias para fazer com que o altruísmo predomine sobre o egoísmo (condição de vida social). o Grão-Sacerdote da Humanidade. O homem. Aquelas de que fala Virgílio nas Geórgicas comportavam-se exatamente como as de hoje em dia. principalemtne os sociólogos. mas não rejeita a filosofia concebida como interpretação totalizante da história e. Gutemberg ainda imprime todos os livros do mundo. pois. A terra e o ar . "planetário".a história . As duas idéias de tradição e de progresso. que estão muito próximos de n'so. à sua testa. que envolve com um olhar enciclopédico toda a evolução da inteligência. Comte distingue a sociologia estática da sociologia dinâmica. transforma-se-á na política que guiará as outras ciências. cuja aparição dependeu de todas as outras ciências tornadas positivas. Este Ser do qual fazemos parte nos ultrapassa entretanto . por sua vez. instrumentos que transmitem este patrimônio pela palavra. acumular um capital que será útil a todos). todos os elementos que concorreram para sua própria formação". poder-se-ia dizer em termos hegelianos. e o inventor do arado trabalha.221 próprio filósofo. pois. por exemplo. A propriedade (que permite ao homem produzir mais do que para as suas necessidades egoístas imediatas. A sociedade positiva terá. A herança do passado só torna possíveis os progressos do futuro e "a humanidade compõe-se mais de mortos que de vivos". a mutação que faz do filósofo um profeta. proibindo. Assim é que. Somente o homem tem uma história porque é ao mesmo tempo um inventor e um herdeiro. a ciência da humanidade. que terão. pela escrita às gerações seguintes que.as idéias e até a linguagem da crenças . integrando-se inteiramente no sistema de Comte. de seus sábios aos quais devemos prestar culto após a morte (esta sobrevivência na veneração de nossa memória chama-se "imortalidade subjetiva"). assim. A sociologia. desde o estado teológico ao estado positivo. ao lado do lavrador. identificação com a sociologia. exercem suas faculdades de invenção apenas dentro do quadro do que elas receberam. isto é. A primeira estuda as condições gerais de toda a vida social.pelo gênio de seus grandes homens. a ciência última que supõe todas as outras. por isso mesmo. para ter uma influência sobre a terra e sobre a humanidade e interditar-se aos estudos politicamente estéreis dos corpos celestes mais afastados!!) Compreende-se que esta "síntese subjetiva". A ciência que prepara a união de todos os espíritos concluirá a obra de unidade (que a Igreja católica havia parcialmente realizado na Idade Média) e tornará o altruísmo universal. a linguagem (que permite a comunicação entre os indivíduos e. considerada em si mesma. fazer provisões. A terra chamar-se-á o "Grande-Fetiche". exatamente como a propriedade cria um capital material). invisível. em nome da "humanidade". "é um animal que tem uma história". do estado militar ao industrial na ordem prática . "regenerando. por isto. ser objeto de culto. em qualquer tempo e lugar. num sentido estrito.ainda mais que não as repudia . ou ao menos a essência social dos animais reduz-se à natureza biológica.

Apologia de Sócrates / Platão. Defesa de Sócrates / Platão. DURANT. março 1999. Edições Melhoramentos. Noções de História da Filosofia.ª edição. FRANCA S. Assim como "não há liberdade de consciência em astronomia". Umberto e CASTAGNOLA. André e HUISMAN.Referências Bibliográficas __ Coleção Os Pensadores. vol.ª edição. São Paulo. PADOVANI. Aqueles que não compreenderem terão que se submeter cegamente (esta submissão será o equivalente da fé na religião positivista). 1991.ª edição. 1. São Paulo. assim uma política verdadeiramente científica pode impor suas conclusões. 1926. Luís. História da Filosofia Ilustrada pelos Textos. Filósofo do progresso. São Paulo. Os Pré-socráticos. Abril Cultural.. Will. Rio de Janeiro. ele é. São Paulo. 1974. . __ Coleção Os Pensadores. vol. Nova Cultural.I. agosto 1973. VI . (³) Comte rejeita como metafísica a doutrina dos direitos do homem e da liberdade. História da Filosofia . São Paulo. Editora Nacional.ª edição. 4.ª edição. Editora Freitas Bastos. VERGEZ. Padre Leonel. Compreende-se que ele tenha encontrado discípulos tanto nos pensadores "de direita" como nos "de esquerda". Diálogos / Platão. Denis. 5. São Paulo. J.A Vida e as Idéias dos Grandes Filósofos. Abril Cultural. Nova Cultural. __ Coleção Os Pensadores. 1980. Herdeiro da Revolução. __ Coleção Os Pensadores. 1. Comte é também o filósofo da ordem.222 anteriores.II.ª edição. ao mesmo tempo. História da Filosofia. agosto 1972. conservador e admirador da bela unidade dos espíritos da Idade Média. 1. 10.