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Pierre Bourdieu: pensador da periferia?

JESSÉ SOUZA

Pierre Bourdieu é certamente um dos maiores sociólogos contempo­
râneos e o prestígio de sua obra cresce exponencialmente em todo o mundo.
O objetivo deste artigo é discutir as razões que explicam a força e o impacto
do seu pensamento inovador e explicitar de que modo suas idéias também
podem contribuir para uma nova compreensão da realidade da modernidade
periférica que caracteriza sociedades como a brasileira. No Brasil, onde
Bourdieu possui grande penetração, sua obra tem servido para insights,
muitos deles interessantes, para sociologias particulares, muito especialmente
na sociologia da cultura e na sociologia da educação. Isso não é nenhum
problema. É bom que isso tenha acontecido e Bourdieu efetivamente abriu
novas perspectivas para o estudo de sociologias particulares de campos
específicos.
Mas o potencial crítico de sua obra é muito maior do que o seu
aproveitamento até hoje entre nós tem demonstrado. A sofisticação teórica
de Bourdieu, sem que isso implique esperar dele todas as respostas,1 permite
que repensemos o Brasil contemporâneo sob bases inteiramente novas. O

1. Existe um certo tipo de crítica, que se passa por cientifica, que imagina poder
legitimamente desvalorizar o trabalho de autor a partir do fato de que existem
questões não respondidas adequadamente na sua obra. Assim, Bourdieu é
sistematicamente criticado por ter apenas visto a “reprodução e não a mudança” na
sociedade. O problema com este tipo de crítica não é simplesmente não perceber que
a “reprodução” perfaz 99% da vida social cotidiana e permite desvelar precisamente
o que a mantém enquanto realidade que se reproduz cotidianamente de modo opaco
para seus membros. O problema é o desejo “infantil” (afinal, é da relação paterna
arcaica que se constroem essas fantasias) de imaginar obter todas as respostas que a
realidade nos apresenta a partir de um único autor.

de conceber as grandes produções da sociologia contemporânea como inspiração para que repensemos e ressignifiquemos a compreensão.acerca da sociedade contemporânea partem do pressuposto da superação tendencial da luta de classes clássica do capitalismo. Bourdieu caminha praticamente sozinho . ao desmascaramento sistemático da “ideologia da igualdade de oportunidades” enquanto pedra angular do processo de dominação simbólica típico das sociedades avançadas do capitalismo tardio. 2) discutir de que modo essa nova visão da modernidade tardia pode também nos possibilitar reconstruir uma interpretação do Brasil contemporâneo livre dos anacronismos que colonizam e amesquinham nossa reflexão e imaginação sociológicas. . a singularidade e a novidade da teoria social bourdiesiana.já que a imensa maioria das perspectivas . pressupõe e aponta para uma esquizofrenia coletiva. entre nós. não são pensadas enquanto totalidades em um feixe de relações globais. dada a força do Estado de bem-estar alemão e do consenso moral (seja refletido.e eu me refiro aqui especialmente às perspectivas críticas e radicais . no sentido de recusa patológica da realidade externa imediata. Faz muito tempo que o Brasil. sem descuidar de apontar as falhas inerentes e inevitáveis a toda construção teórica. O presente texto pretende discutir essas questões a partir de dois passos interrelacionados: 1) localizar onde reside. É precisamente nesse ponto que a força absolutamente singular da obra bourdiesiana se mostra em todo seu vigor. que temos de nossa própria sociedade como um todo. A colonização da reflexão totalizadora.2 O melhor do talento investigativo de Bourdieu é dedicado precisamente a desvelar e revelar as formas opacas e distorcidas nas quais a luta de classes e entre frações de classes assumem na modernidade tardia. Que um pensador alemão como Habenmas parta da "laténcia” do conflito de classes na modernidade tardia é algo até compreensível (apesar de discordar dele nesse particular). pela ênfase nas sociologias particulares e nos estudos de caso contribui para secundarizar o ponto principal de qualquer sociologia crítica. aos meus olhos. necessariamente abstrata e generalizante. Que um intelectual brasileiro sustente a mesma coisa e que passe a achar o “tema das classes” (e não são poucos os intelectuais que defendem essa visão) como algo que se deve relegar ao mofo da história. assim como outras sociedades periféricas. toda análise parcial e localizada da vida social. O impacto mais marcante da singular e brilhante sociologia de Pierre Bourdieu sobre o leitor contemporâneo se deve. seja pré-reflexivo) que o sustenta. que merece um estudo detido. Nesse desiderato. Essa estratégia de desilusionismo tem como fio condutor desconstruir as máscaras que 2. que é a percepção dos pressupostos que comandam. de há muito anacrônica. de modo naturalizado e silencioso.56 Teoria crítica no século XXI que é problemático é a manutenção da interdição. nem a partir de conceitos gerais e abrangentes.

Afinal. . numa bela citação amada e repetida várias vezes por Bourdieu: “Como as sociedades continuamente se pa£am com a moeda falsa dos seus sonhos”.organizaoores *7 constituem a base da dominação e da opressão social no sentido mais amplo e que garantem sua legitimidade e aceitação. Ao 3. Em relação à primeira. da etnometodologia e das teorias da escolha racional. na qual os agentes históricos são reduzidos a suportes da estrutura e percebidos como “autômatos” com vida própria. é pelo controle do tempo que se pode retardar ou apressar uma resposta ou reação. essas posições foram ocupadas paradigmaticamente por Lévi-Strauss e Jean-Paul Sartre. - Essa estratégia desilusionista tem sua contrapartida numa reconstrução epistemológica que Bourdieu leva a cabo contra duas das mais importantes opções teóricas nas ciências sociais contemporâneas que ele denomina de “objetivismo” e “subjetivismo”. na prática. Na França. Estas não podem ser pressupostas por uma lógica sistêmica considerada independente.Jessé Souza | Patrícia Mattos . por um lado. respectivamente. nesse caso é decisivo perceber as estratégias dos atores em relação a essas determinações. . Para Bourdieu. a crítica dirige-se a uma concepção de relações de parentesco percebidas como se fossem quase que completamente autônomas de determinantes econômicas. BOURDIEU. o uso oficial e inofícial do código está condicionado ao aferimento de vantagens materiais e simbólicas. The Logic of Práxis. e as diversas versões da fenomenologia. em grande medida. existe efetivamente um sistema de sanções e prêmios inscritos objetivamente na realidade que permite à estrutura estruturar. como diz Mauss. mas seu alcance é muito maior e envolve o extraordinário impacto do estruturalismo nas ciências sociais. o que se esquece na perspectiva objetivante do estruturalismo é a dialética entre estruturas objetivas e estruturas incorporadas no sujeito. a experiência prática. Em relação ao segundo. O desafio seria demonstrar. retirando-se deste modo vantagens (ou prejuízos) não prescritos na concepção abstrata e “legalista” da visão objetivante. pp. por outro.3 É precisamente esta última relação que para Bourdieu não deve ser compreendida sob um modelo que ignora a ação prática ao apelar para um modelo de determinação mecânica. 30-41. A crítica principal ao estruturalismo refere-se ao engano de partir da ilusão da autonomia de dado código simbólico às expensas das condições sociais que definem seu uso oportuno. Não obstante. Bourdieu aplica essa critica tanto à antropologia quanto à sociologia (marxista) estruturalista. esquecendo que. que parte de uma “sociologia sem sujeito”. O terreno por excelência da “estratégia” para ele é o da dimensão temporal.

um sistema de disposições duráveis inculcadas desde a mais tenra infância que pré-molda possibilidades 4.58 Teoria crítica 10 século XXI mesmo tempo. e. que se constitui tanto consciente quanto inconscientemente através das condições de existência. por outro lado. a assunção diametralmente oposta de um “determinismo intelectual” do cálculo racional. na medida em que se apresenta como a forma pela qual a “necessidade” exterior pode ser introjetada. mais que isso.4 O fundamental. o que é criticado é a sua imersão (ingênua) na realidade cotidiana. a pressuposição de uma consciência “sem inércia” que cria o mundo “et-nihilo"' a cada instante. 109. assim como pelos encorajamentos e censuras explícitas. como esta é vivida imediatamente pelos agentes. que advém dos mesmos motivos estratégicos aventados acima. condenada a apenas “descrever” a realidade cotidiana como vivida e percebida pelos agentes. O conceito de habitus permite sair da prisão do realismo da estrutura. Na versão da etnometodologia. que permite o “esquecimento da aquisição” (a gênese implica a amnésia da gênese como freudismo) e a ilusão de que se trata de qualidades inatas. Destes. p. portanto. ou melhor. dar a “impressão” de se estar seguindo a regra equivale a maximizar vantagens na medida em que 0 grupo recompensa melhor as ações aparentemente motivadas pelo respeito às regras. Seria esse condicionamento. é dada a partir da sugestão de uma relação articulada entre estrutura. especialmente no que se refere à formação de suas “preferências”. A crítica em relação ao subjetivismo assume formas variadas dependendo da versão teórica em jogo. com suas unilateralidades complementares. A resposta de Bourdieu ao dilema do objetivismo/subjetivismo. é manter 0 foco dirigido para a prática. Este tipo de abordagem estaria. Sua crítica à versão da teoria da escolha racional é ainda mais interessante c contundente. sobre as condições dc possibilidade deste conhecimento. É que seguir a regra. “encarnada” e “incorporada” pelos agentes. que se separaria apenas no fraseado do determinismo objetivista da reação mecânica. ou seja. habitus e práticas. visto que só ela permite perceber a estratégia concreta dos atores em relação à regra. não refletindo. portanto. O que é excluído do argumento do ator racional é 0 condiciona­ mento social e econômico do próprio sujeito econômico. portanto. O ator racional alternaria duas características contraditórias: por um lado. . o ternio mais importante e que marca boa parte da originalidade do pensamento bourdiesiano é a noção de habitus. O habitus seria um sistema de estruturas cognitivas e motivadoras. e por outro lado. e. Ibidem. existe na verdade uma grande influência da “regra” sobre a prática.

56. seria. Por ser espontaneidade sem consciência ou vontade. que passam a ser tradu2idas no sujeito como um conjunto de estruturas perceptivas e avaliativas que servirão como uma espécie de filtro para todas as outras experiências ulteriores. p. o que parece para a perspectiva do realismo das estruturas ser a ação independente destas. A própria reprodução institucional só é possível dada a existência dessas disposições ajustadas a uma finalidade. ou o homem por oposição à mulher nas sociedades ditas tradicionais. É este princípio de continuidade e reprodução que o objetivismo percebe sem poder dar conta de sua gênese. o habitus tende a gerar toda uma série de comportamentos “razoáveis” e de “senso comum” que são possíveis dentro dos limites dessas regularidades. E por conta dessas características apontadas acima'que Bourdieu chama o habitus de uma '‘virtude feita necessidade”.Jessé Souza | Patrícia Mattos . 54. nem com a 1 iberdade reflexiva dos suj eitos das teorias racionalistas. assegurada pela presença ativa desse depositário de experiências anteriores.organizadores 5<K e impossibilidades. Nesse sentido. as disposições do habitus são em certa medida “pré-adaptadas” às suas demandas. É o habitus que produz a “mágica social” que explica a reprodução social cotidiana e faz com que as pessoas se tornem instituições feitas de came. desse modo. p. portanto. o habitus não se confunde nem com a necessidade mecânica. pensamento e ação. precisam estar objetifícadas não 5. Nesse sentido. a história tornada corpo e. O habitus é o passado tornado presente. As instituições. oportunidades eproibições. Ibidem. . o habitus é o elemento que confere às práticas sua relativa autonomia em relação às determinações externas do presente imediato. liberdades e limites de acordo com as condições objetivas. O habitus seria. o habitus implica a inscrição dessas pré-condições. Ibidem.5 Fruto de dada condição econômica e social. que inscreve em cada organismo sob a forma de esquemas de percepção. 6. “naturalizada” e “esquecida” de sua própria gênese.6 Precisamente por ser uma espécie de história naturalizada numa espontaneidade sem consciência. Sendo o produto de um conjunto de regularidades objetivas. o filho mais velho e herdeiro. na realidade. um esquema de conduta e comportamento que passa a gerar práticas individuais e coletivas. especialmente às relativas às experiências infantis. a garantia da “correção” de práticas no decorrer do tempo. revivendo e revigorando a letra morta depositada nessas instituições. são diferenças instituídas que tendem a se transformar e a serem “vividas” pelos agentes como distinções naturais para além de qualquer reflexão e percepção. Nesse sentido. portanto.

dimensão. O habitus se protege criando uma barreira de preconceitos que favorecem sua continuação inalterada no decorrer do tempo. forma de andar e falar. 61. É com base nesses 7. constantemente reforçado por práticas individuais e coletivas. uma espécie de “esquema de autoproteção”. na sua forma. ao contrário. . toma a questão da “intenção” supérflua. “teatralização”. para Bourdieu a ênfase seria. transformando o conjunto de nossas expressões visíveis em sinais sociais compreensíveis por todos. A partir daí temos a possibilidade de um todo mutuamente inteligível. além da sua dimensão córporea. emotivo. Nossos hábitos alimentares moldam nossa figura. ou seja. O habitus. automático. esse “princípio não escolhido de todas as escolhas”. já que as práticas cotidianas são automáticas e impessoais. desse modo. nesse sentido. Existe uma unidade de sentido compartilhada. a mais tangível manifestação social de nós mesmos. A meu ver. mas o funcionamento semi-automático e irrefletido da vida cotidiana. corte de cabelo. p. o grande aporte crítico da teoria do habitus é precisamente a ênfase no aspecto “corporal” e automático do comportamento social. O que para grande parte da tradição sociológica é “intemalização de valores”. nesse sentido. o que evoca tendencialmente uma leitura mais racionalista que enfatiza o aspecto mais consciente e refletido da reprodução valorativa e normativa da sociedade. A comunidade consciente pressupõe uma comunidade inconsciente. disposições e escolhas. É nesse contexto que Bourdieu se refere às inúmeras estratégias que servem para evitar contato com qualquer conteúdo que possa implicar risco a esse princípio. em uma palavra. Ibidem. etc. O habitus. escolha de vestuário. que é precisamente onde Bourdieu vê a possibilidade da constituição de um senso comum como o efeito da harmonização entre o sentido objetivo e o sentido prático levada a cabo pelo habitus. sua própria constância. um conjunto não tematizado de competências lingüísticas e culturais que permite não só a comunicação consciente. que transcende indivíduos e grupos específicos. livros não recomendáveis. “inscrito no corpo” de nossas ações. no condicionamento pré-reflexivo. nossa cultura e socialização pré-forma todas as nossas manifestações expressivas em gestos.60 Teoria crítica no século XXI apenas em coisas e lógicas de funcionamento que transcendam os agentes. etc. apresentação. espontâneo. mas têm que estar também representadas nos “corpos” e em disposições de comportamento durável.. naturalizada e inconsciente (embora não no sentido psicanalítico) tem uma característica inercial conservadora. Os nossos corpos são. estimulando. O habitus. como as chamadas “más companhias”.7 tende a conferir um peso maior às experiências mais antigas.

71. . o corpo funciona como uma espécie de “operador analógico”9 das hierarquias prevalecentes no mundo social. Assim. Esses detalhes aparentemente insignificantes.organizadores 61 sinais visíveis que classificamos. formas de sentar. por exemplo.entre sexos. enfim. Essa corporação ou incorporação de sentidos. enquanto na mulher a contenção indica reserva ou dissimulação. frutos da persuasão também invisível de uma pedagogia implícita que pode inscrever e naturalizar toda uma cosmologia . de garfo cheio. no entanto. na forma de ver direta do homem que se contrapõe à reserva feminina. p. Ibidem. ibidem. O corpo é. que tem no conceito de habitus sua categoria central e mais 8. para características essenciais do comportamento social: são eles que permitem transformar uma cultura contingente em “natureza”. já que. classes ou grupos de idade . A sociedade transformada em natureza é a sociedade cuja legitimação está garantida do modo mais perfeito precisamente porque ela perdeu sua falibilidade humana. gestos. p.contribuindo decisivamente para a naturalização da desigualdade em todas as suas dimensões. andar. uma evidência pré- verbal e imediata que é o pressuposto do senso prático na vida cotidiana. Assim. sua contingência. Desse modo. como a forma de comer. tomada came e osso. como o modo como olhamos. as pessoas e os grupos sociais e lhe atribuímos prestígio ou desprezo. como observa Bourdieu. “crença” para ele não é um estado de espírito ou um conteúdo intrapsíquico. uma crença “prática”. mas sim uma crença “corporificada”. sem que tenhamos consciência do que estamos fazendo. falamos e rimos. É precisamente a partir da sua crítica às tradições intelectualistas das ciências sociais que Bourdieu é induzido a criar um aparato conceituai alternativo. a oposição homem/mulher é manifestada em posturas. 68. significados e esquemas avaliativos dá-se desde a mais tenra infância. mas a sociedade é construída. onde se aprende a treinar o corpo como “reservatório de valores”. as virtudes dos dominados são sempre ambíguas. portanto. que no homem se dá com toda a boca. o campo de forças de uma hierarquia não expressa . Bourdieu consegue com isso. uma vantdgem inestimável em relação aos paradigmas (dominantes nas ciências sociais) intelectualistas e racionalistas de todos os matizes. apontam. A natureza é dada (embora não seja dada a forma que nos relacionemos com ela).Jessé Souza | Patrícia Mattos .precisamente por estarem além da percepção consciente e se mostrarem apenas em detalhes tidos como insignificantes . Naturalizar a sociedade é retirar a possibilidade de sua crítica. Essa manifestação se dá em hábitos aparentemente inexpressivos.8 Bourdieu localiza primariamente nesses valores invisíveis “tomados corpos”. 9. a meu ver.a base de sua sociologia.

assume a máscara de uma “ética da honra”. Toda sociedade. Para Bourdieu. como veremos logo a seguir. Sozialstruktur und Lebensstille: der neuere theoretische Diskurs über soziale Ungleichheit.62 Teoria crítica no século XXI inovadora. tende a naturalizar relações sociais que são contingentes e constituídas socialmente. É esse aparato também. que permite “ressignificar” o esquecido e o naturalizado. que não são passíveis de serem apreendidos pela sociologia de tradição intelectualista. Bourdieu tende a chamar esse efeito encobridor e mascarador de “capital simbólico”. Seja entre as classes. como a dos kabyla. como diz Bourdieu citando Sartre. seja pré-modema ou moderna. É isso que o faz fundamental para qualquer análise. produzem mecanismos específicos de “des-conhecimento” que permitem. Mas será apenas na aplicação dessas categorias para a análise de sociedades concretas que poderemos tanto comprovar sua força quanto perceber suas deficiências. esse encobrimento é necessário sob a forma de relações pessoais em sociedades onde a economia ainda não logrou se diferenciar das outras esferas sociais.11 Uma consequência extremamente interessante da quebra da ilusão criada pelo capital simbólico é o aparecimento da noção de “trabalho” como separada da noção de mera “atividade”. como veremos em breve. 11. todas as sociedades. que permite a Bourdieu perceber dominação e desigualdade onde outros percebem harmonia e pacificação social. interessada em desvelar e reconstruir realidades petrificadas e naturalizadas. o capital simbólico equivale a uma espécie de auto-ilusão compartilhada por toda a sociedade. The Theory of Praxis. que também são graves. Dominação pessoal e impessoal Bourdieu parte do pressuposto que toda sociedade constrói mecanismos mascaradores das relações de dominação que são operantes em todas as dimensões sociais. modernas ou pré-modemas. ou entre grupos de idade. que ele estudou na Argélia. ao refratar a percepção da realidade imediata. portanto. p. onde essa distinção inexiste. PETER MÜLLER. p. que as relações sociais de dominação ganhem autonomia própria ao “aparecerem” como naturais e indiscutíveis. . Historicamente. 268. 114.10 Capital simbólico seria a forma específica assumida em cada sociedade pelo mascaramento do efeito econômico. Entre os kabyla. foram os gregos e romanos os primeiros a fazer essa distinção entre direitos pessoais e reais e entre obrigações morais e contrato. entre os sexos. no entanto. No contexto operacional da lógica 10. o qual. A forma que essa “illusio” assume. em sociedades pré-modemas. uma espécie de má-fé coletiva. no entanto. é histórica e mutável. seja das sociedades centrais ou periféricas. BOURDIEU.

Ibidem. na qual o Brasil moderno (apesar de desigual e injusto) é percebido.12 no sentido em que relações aparentemente simétricas permitem a reprodução de trocas assimétricas legitimando. Nas sociedades pré-modemas. Esse tipo de obtenção de ganho assimétrico é típico de uma sociedade pré-capitalista. O “descobrimento” do trabalho pressupõe o desencantanVento da natureza e sua redução à dimensão econômica. que não permite a reprodução de uma dominação impessoal e quase automática através da lógica do mercado de trabalho. 123. UFMG. são esses mecanismos impessoais que classificam e desclassificam indivíduos e grupos sociais em luta. capital simbólico presupõe mascaramento e opacidade com relação às suas origens e funcionamento prático. Desse modo. mesma funcione. Capital simbólico parece significar o capital. Nas sociedades modernas. Capital simbólico é.Jessé Souza I Patrícia Mattos . dessa forma. para ser percebido como um objetivo demarcadamente econômico. como os kabyla. Toda a minha reconstrução crítica de uma teoria social periférica fimdamenta-se na crença de que. É precisamente esse véu mascarador que permite aquilo que Bourdieu chama de “mais-valia simbólica”. Essa linha de continuidade é dada pela relação econômica mascarada sob o véu encobridor de relações morais.organizadores da honra não há como separar trabalho produtivo de trabalho improdutivo.). ou melhor. esse mascaramento se dá pela negação do seu conteúdo (também) econômico. Jessé (org. Para Bourdieu. também entre nós. Perceber uma sociedade moderna comandada pela relação de favor/proteção e pelo acesso diferencial a certo “capital social de relações pessoais” equivale a deixar de perceber precisamente os mecanismos impessoais que comandam “toda” sociedade moderna. parece ser a única forma possível de acumulação quando o capital econômico é negado nas suas virtualidades. o capital simbólico. de mecanismos 12. . A invisibilidade da desigualdade brasileira. que logra transmutar- se e não revelar suas origens arbitrárias. Ver SOUZA. existe uma linha de continuidade entre as relações de troca mais ou menos simétricas da troca ritual de presentes até à assimetria das relações mais claras de dependência. Ele só é percebido como legítimo quando desconhecido enquanto capital. A “atividade” cessa de ser vista como um “tributo” pago à sociedade. É o mesmo argumento que permite desvelar o patente anacronismo da forma ainda dominante. p. é precisamente a raiz econômica da distinção social que se toma invisível. Belo Horizonte: Ed. ainda que mascarada. uma espécie de crédito social no sentido mais amplo. juntamente com o capital religioso. seja ela periférica ou central. uma relação arbitrária. A consciência desta separação iria atingir o âmago mesmo do mecanismo de repressão e encobrimento que permite que a. Nas sociedades pré-modemas. 13. nesse sentido. ao contrário. capital negado e travestido.13 E é precisamente porque a sociedade pré-capitalista não pode contar com a violência implacável. 2006.

O que caracteriza o exercício do capital simbólico nos dois contextos (pessoal e impessoal) é o mascaramento das pré-condições econômicas para o exercício de qualquer forma de dominação. a interessante tese segundo a qual as formas de dominação são proporcionais e variam de acordo com o grau de objetificação do capital. Na presença dela. esforço e obrigações. a obediência dos próprios “superiores’7 às normas do grupo tem que ser exemplar de modo a garantir.64 Teoria critica no século XXI objetivos (o que permite dispensar os dominantes das custosas estratégias de reprodução das condições de possibilidade da dominação). . O custo é pessoal em tempo. o abandono da dicotomia econômico/não- econômico é a porta de entrada principal nos segredos da dominação social. a dominação tende a assumir a forma impessoal. BOURDIEU. inclusive. Bourdieu avança. a reprodução das relações de dominação pessoais. Bourdieu acompanha a tese marxiana da “ideologia espontânea”. sistema educacional autônomo. a dominação tende a assumir a forma pessoal. ao mesmo tempo. Bourdieu alerta para o perigo de se considerar o aspecto material da ambigüidade como único decisivo. nesse sentido. p. que ela se vê obrigada a um tipo de relação social em que a violência física mais brutal e a relação pessoal mais “gentil”. o exercício dessa forma de dominação é extremamente custosa.. The Theory of Práxis. Um belo exempio são as relações que unem o dependente e o seu protetor na sociedade (ainda) personalista do Brasil do século XIX. humana e carregada de sentimentalidade e emoções (em resposta. mas que também. p. Ibidem. 15. etc. 130.15 Na falta desta objetificação. na ausência de um imaginário social que se autoperpetua.14 Quanto mais difícil for o exercício da dominação direta. Em um sentido importante. 16. o que implica a opacidade e o automatismo típicos dos mecanismos que estão além da compreensão e do poder dos indivíduos. por exemplo sob a forma de mercado auto-regulado. Desse modo. Do ponto de vista dos dominantes. aparato legal diferenciado. a “presentes” generosos que obviamente criam obrigações do mesmo tamanho) podem conviver ambiguamente. A conversão do capital jamais é automática e implica sempre doação constante e pessoal também do dominador. mais e mais precisar- se-ia de formas mascaradas de dominação. sendo o elemento não- material considerado um epífenômeno. No que toca à especificidade da dominação no capitalismo avançado. O capitalismo logra desenvolver e de certa maneira “secretar” uma forma de dominação que não apenas não se mostra enquanto tal. 122.16 Esse passo é necessário para que se perceba como práticas aparentemente desinteressadas podem ser vistas como práticas econômicas de maximização de ganhos materiais e simbólicos. exime os dominadores do custoso trabalho de reprodução 14. por exemplo.

o conjunto de relações de conhecimento e reconhecimento que se constituem a partir do pertencimento a um grupo específico. análise da sociedade contemporânea é levada a cabo por Bourdieu no seu talvez mais conhecido e importante trabalho. . 63. sob a máscara da igualdade formal e da ideologia do talento meritocrátic®. em parte como conseqüência do primeiro aspecto. para além da já discutida centralidade da categoria do habitus no seu ponto de partida epistemológico. a “sociodicéia dos próprios privilégios” das classes dominantes. A ideologia mais bem-sucedida é precisamente aquela que não precisa de palavras. Quanto ao primeiro aspecto temos em Bourdieu uma reversão radical da interpretação dominante acerca das pré-condições e efeitos de uma transformação estrutural intrínseca ao capitalismo como um todo. e sob vários aspectos brilhante e original. Esses dois aspectos são. ou seja. Dois aspectos parecem-me fundamentais para a compreensão da originalidade da reflexão de Bourdieu nesse ponto. BOURDIEU. 17. muito especialmente. Ver: SOUZA. ainda hoje. Jessé. especificamente moderna. 18. a nova relação entre os diversos “capitais” no contexto do capitalismo maduro. ou seja. de produzir distinções entre indivíduos e classes.’8 A especificidade da dominação social no capitalismo Uma exemplar. do padrão de dominação simbólica que a possibilita. em segundo. 2000. Embora o livro seja um estudo teórico-empírico sobre a estrutura de classes da sociedade contemporânea francesa. A modernização seletiva. A impessoalidade da dominação capitalista também pode ser percebida através da teoria dos capitais em Bourdieu.17 Embora o capital social seja também aqui decisivo para a sorte de carreiras individuais. e. Die verborgenen Mechanismen der Macht.organizadores 65^ das relações de dominação. Esse é o engano básico da sociologia personalista e patrimonialista dominantes. a sociedade moderna não fundamenta mais seu funcionamento prioritariamentre a partir dele. entre nós. mas apenas visível em todas as suas virtualidades no capitalismo maduro ou tardio: a crescente importância socioeconômica do “conhecimento”. da UnB. o mesmo também pode ser compreendido como uma teoria geral do mecanismo peculiar assumido pela dominação de classes no capitalismo maduro ou avançado. em primeiro lugar. para uma reinterpretação do dilema brasileiro. o Distinction. Brasília: Ed. p. e que se mantém a partir do silêncio cúmplice de sistemas auto-regulados que produzem. o lugar central da categoria do “gosto”.Jessé Souza | Patrícia Mattos . do julgamento estético como principal forma. e. Nas sociedades modernas são os capitais econômico e cultural que assumem o papel estruturante em lugar do capital social.

mais opacas e invisíveis do que as pré- condições que se aplicam ao capital econômico. boa parte da ideologia meritocrática do individualismo como visão de mundo retira sua plausibilidade precisamente dessa possibilidade do indivíduo se classificar socialmente através do seu próprio esforço pela incorporação do saber e do conhecimento. p. Die verborgenen Mechanismen der Macht. e isso já bastaria para pô-lo entre os grandes pensadores da teoria social crítica. 356.. o conhecimento útil e especializado necessário à reprodução de mercado e Estado foi um dos principais condicionantes estruturais da superação dos critérios adscritivos de sangue e família em favor do “talento” individual de quem possuia a efetiva competência de exercer funções fundamentais da sociedade moderna através da incorporação de saber e conhecimento útil. no seu The Corning of the Post-lndustrial Society. neste contexto. BELL. Em vários sentidos. são.. 21.66 Teoria crítica no século XXI Já Marx percebia a enorme importância do saber aplicado à produção. . ou melhor. os “white collar” e os gerentes como uma nova classe entre proprietários e trabalhadores manuais. Saber e conhecimento passam a ser percebidos como o fundamento mesmo de uma “ideologia espontânea” do capitalismo de novo tipo. Daniel Bell declara. Também Habermas aponta a superação do paradigma marxista do valor-trabalho dada a nova relação entre conhecimento e produtividade capitalista. 57. É a partir dessa época que temos uma onda de análises acerca dos trabalhadores qualificados. 20. seria apenas depois da Segunda Guerra mundial que a importância do saber e do conhecimento passa a ser percebida em todas as suas virtualidades. 22. No entanto. BOURDIEU. 43. O capital cultural. Technik und Wissenschaft als Ideologie. como veremos em detalhe mais tarde. p. foi que o novo lugar estrutural de conhecimento e saber inaugura também uma nova forma.. De resto.22 19.20 O que apenas Pierre Bourdieu percebeu. p. Ao contrário de um Talcott Parsons. para quem o desempenho individual baseado na incorporação de conhecimento passa a ser compreendido como a base de uma sociedade democrática e meritocrática. ainda mais opaca e intransparente. de dominação ideológica no contexto do capitalismo avançado. Sozialstruktur und Lebensstille. as pré-condições sociais para a constituição e transferência de capital cultural. no entanto. criando e legitimando desigualdades iníquas e permanenentes ao esconder sistematicamente as pré-condições sociais e econômicas de seu funcionamento.21 temos em Bourdieu a hipótese inversa.19 que propriedade e conhecimento haviam se tomado os fundamentos da estratificação social das sociedades avançadas ocidentais. HABERMAS. MÜLLER. por exemplo.

ou melhor. Para esse desiderato faz-se necessário primeiramente deslocar a ênfase da cultura do seu conteúdo normativo. Para Kant. como prática da vida cotidiana. MÜLLER. e demonstrar a íntima relação entre gosto e classe social. O “gosto”. . ou seja. em favor de sua utilização pragmática. A competência estética como percebida por Bourdieu é uma contraposição à definição “idealista” de estética como propugnada por Kant. como os gostos elementares e os sabores de comida. ao naturalizar relações sociais contingentes.organizadores Saber e conhecimento em suas múltiplas variações fenomênicas assumem em Bourdieu a forma de um “capital cultural” relativamente independente do capital econômico e dividindo com este o potencial de estruturar a sociedade como um todo e determinar o pefeo relativo das classes sociais e suas frações em luta por acesso legítimo. entre o belo e o agradável. 310. longe de ser uma qualidade 23. como a que o próprio Bourdieu usa abundam ente em seu trabalho. cuja lógica específica ele almeja descobrir. A competência estética para Bourdieu é uma função da combinação entre tempo escolar e origem familiar. envolvendo também nossas escolhas práticas mais banais e cotidianas. na leitura de Bourdieu. entre “Wohlgefallen” e “Genuss”. A observação científica. a temática do “gosto”. É aqui que entra em cena o segundo aspecto central da sua argumentação que mencionamos anteriormente.Jessé Souza I Patrícia Mattos . de dominação simbólica mascaradora de relações de desigualdade. demonstra que os gostos e necessidades culturais estão em relação direta com a socialização familiar e o grau de escolaridade. Bourdieu procura constituir o que ele chama de “economia dos bens culturais”. a forma mais acabada e sofisticada de justificar a desigualdade e a injustiça social como “fracasso pessoal”. O que Kant chamava de faculdade do gosto é o que Bourdieu chamará de competência estética. Ao invés de “chances iguais para todos” e “latência da luta de classes” temos. da competência estética. Nesse caminho. aos recursos escassos. Foi Kant que tomou famosa as distinções entre um gosto refletido versus gosto sensível. apresenta a contra face nada inocente de. precisamente o elemento percebido por todos como o aspecto mais visível e relevante do processo de democratização das sociedades avançadas depois da Segunda Guerra mundial. estabelecer um novo padrão. que impregna o sentido cotidiano do termo. essa faculdade é uma “dádiva” que alguns possuem e outros não. através de seu modo de operação específico. ainda mais sutil e sofisticado que os anteriores. Sozialstruktur und Lebensstillep. como elemento generativo das distinções sociais no capitalismo avançado.23 O ataque de Bourdieu a este ponto de vista se concentra em denunciar o quanto esse “gosto” é socialmente construído. na realidade. ou seja. Assim.

portanto. mas antes de tudo a partir das 24. seja aquele que se refere às escolhas cotidianas. seja entre dois amantes. o princípio da distinção.a marca de toda aristocracia para Bourdieu. BOURDIEU. não só em relação ao que se ensina explicitamente. Suhrkamp. 25. mas como efeito da decodificação de um processo de socialização específico.68 Teoria crítica no século XXI inata. se constitui positivamente contra sua mistura com as funções práticas da reprodução material. BOURDIEU. Para Bourdieu. Esse tema já havia sido abordado na sua singularidade histórica por Norbert Elias no seu Über den Prozess der Zivilization.24 Bourdieu percebe. . Distinction. o que implicaria a subordinação da forma em relação à função em todas as dimensões do gosto. e o corpo. é caracterizada por uma relação de continuidade entre arte e vida. e. sublimação essa percebida como a fonte de todo refinamento social e de toda estilização da vida. A classe trabalhadora. definido como a soma do capital educacional e a origem familiar. por um lado. portanto. 1989. como o apanágio da personalidade completa. O critériohierarquizador básico aqui é o capital cultural. portanto. corresponde à uma hierarquia social dos consumidores. assim como por oposição à mistura ou confusão dos juízos estético e moral típico da classe trabalhadora. Distinction. o “encontro”. da profundidade e do sagrado. nesse sentido. 26.25 Boudieu percebe seu itinerário como uma espécie de “psicoanálise social” ou “socioanálise” na medida em que o “gosto” é a área por excelência onde se manifesta a “negação do social”. o pano de fundo a partir do qual todas as outras classes se difereciam. 11. p. o que o predispõe admiravelmente a servir como “marca de classe”. p. ele serve magistralmente ao desiderato de “aparecer” como uma qualidade inata . Desse modo. sua origem social (educação e família). e mais abstratamente. inclusive dessa moderna aristocracia da cultura26 . define-se a partir de uma relação de sublimação das necessidades humanas primárias. O princípio da distinção. sendo a “alma” o lócus do burguês em oposição ao corpo como o lócus do trabalhador e do homem vulgar. como reino da interioridade. ou seja. o efeito de opacidade desse princípio legitimador da hierarquia entre as classes a partir do gosto fundamenta-se na oposição entre a alma. O processo primário de introjeção “naturalizada” desse critério legitimador de desigualdades se dá a partir da escola e da família. seja de uma obra de arte com seu consumidor. como pressupunha Kant. cada classe social ou fração de classe teria uma “estética”.negando. não como a descoberta do gosto profundo ou do mistério do amor à primeira vista. o elemento classificador por excelência para Bourdieu. seja aquele que se refere às escolhas “artísticas”. 26. Em outras palavras. por exemplo. Como o gosto se mostra como uma conjunção entre razão e sensibilidade.

o privilégio econômico pode se travestir de estético. o que permite precisamente a facilidade. A disposição fundamental da cultura legítima para Bourdieu é a disposição estética. Esse ponto explica também por que a ideologia do gosto natural é tão eficaz. como um aprendizado nâo-intencional de disposições. está ligada à situação econômica de liberdade em relação à necessidade. O que Bourdieu tem em mente aqui é a formação do habitus percebido.assim como da “arte da vida” que se forma a partir do mesmo princípio -21 enquanto pura forma. A estética da classe trabalhadora. ao contrário. separando o gosto premido pela necessidade e defmido como vulgar. sem mediação consciente e reflexiva. Na competição entre os grupos privilegiados. possuindo um fundo socioeconômico nunca tematizado. inclusive. seria o exemplo típico dessa noção de barbárie. as quais. e aqui reside a base do argumento de Bourdieu acerca da desconstrução do julgamento estético. rejeita a subordinação da arte às funções da vida. pp. da abordagem da arte . Assim sendo. a naturalidade e a suspensão existencial em relação às demandas do mundo material. inclinações e esquemas avaliativos que são “in-corporados” e naturalizados. portanto. Como Bourdieu ironiza com muita perspicácia: a cultura transforma-se em natureza mais uma vez. “naturalizando” diferenças reais. e. a arte que precisa de charme e emoção para produzir prazer é bárbara. como vimos acima. O que transforma essa atitude estética numa visão de mundo e num “estilo de vida” é que ela é caracterizada pela suspensão ou remoção da necessidade econômica. Desse modo.. Assim. implicando implicitamente uma reinvindicação de superioridade legítima em relação àqueles que se encontram sob o aguilhão dessas necessidades e urgências. Ibidem. permitindo ao seu possuidor perceber e classificar. os signos opacos da cultura legítima. do gosto da liberdade definido como “puro” e “desinteressado”. Segundo Kant. pela distinção e pelo desprezo objetivo e subjetivo em relação aos grupos sociais sujeitos a esses determinismos. e. portanto. o princípio “mais classificador” pode aparecer como o “mais natural”. aparecem como diferenças de natureza. ou seja.organizadores práticas implícitas que essas instituições demandam. Essa “estética”. A atitude estetizante.. . a disposição estética se revela como apenas compreensível a partir de uma situação econômica de afirmação de poder sobre a necessidade. ao subordinar a forma à função. É que na medida em que ela se impõe quase que casualmente na dimensão da vida cotidiana. 54-8. a vantagem é daqueles que possuem o modo mais 27.Jessé Souza j Patrícia Mattos . O ponto principal aqui é a criação de uma primazia da forma sobre o conteúdo. conseqüentemente.

permitindo determinar a hierarquia dos agentes nesse campo a partir do tipo específico de capital que ele pode mobilizar. desde a arte e a cultura legítima até o gosto por móveis. temos que o conjunto de fatores envolvidos em todas as áreas da prática deve ser referido à lógica específica de cada campo. a partir da inclusão do conceito de campo social com lógicas homólogas específicas. quais são as disposições operantes e importantes nesse mercado. O pertencimento à classe explica por que os indivíduos não se movem de modo arbitrário no espaço social.70 Teoria crítica no século XXI insensível e invisível de aquisição. É a lógica específica de cada campo que define. SO. classe deixa de ser percebida a partir de propriedades ou de coleções de propriedades para ser definida como fundamento de “práticas sociais” similares. o habitus compartilhado confere sentido à noção de “habitus de classe” por associar objetivamente. o preconceito social. Retomada e reinterpetada profundamente por Bourdieu. de modo a determinar a relação entre classe e prática. irrefletida e “sem esforço”. transposto de forma tanto mais perfeita quanto mais inconsciente. Essa unidade e solidariedade profunda se dá “corpo a corpo”. conta como decisivo. fantasias e fobias. forjando simpatias e aversões. o habitus vai permitir redefinir de modo inovador a idéia de classe social e do tipo de solidariedade que a reproduz positiva (pela solidariedade interna) ou negativamente (pelo preconceito).29 Isso significa. como o ritmo de uma música. Assim. dispensando palavras e pensamento conceituai.28 Isso se explica pelo fato de que o efeito do “modo de aquisição” do gosto marca todas as escolhas cotidianas. A noção fundamental que permite ligar esse conjunto disperso de disposições com estruturas que definem e pré-julgam situações concretas é a noção de habitus. . roupas e comidas. Concretamente. Desse modo. que tanto a solidariedade social. harmonia e beleza. são forjados e implementados pré-reflexivamente. sejam elas centrais ou periféricas. é o que confere solidariedade imediata e intuitiva. para qualquer teoria que queira compreender a dinâmica das sociedades modernas. para além de qualquer acordo consciente. quanto o seu duplo. pp. que permitem estratégias comuns e conseqüências compartilhadas mesmo na ausência de acordos conscientes e refletidos. O habitus se define como uma forma pré-reflexiva de introjeção e inscrição corporal de disposições que condicionam um estilo de vida e uma visão de mundo específica. Ibidem. 68-73. Por conta disso. pessoas numa mesma situação de classe. 28 Ibidem. como vimos acima. apoios e reprovações. O senso de pertencimento a um mundo de perfeição. senioridade. 29. provocada pelas camadas mais profundas do habitus. no acesso à classe dominante. para Bourdieu. p.

concepção que imperou até a década de trinta do século XX. Beio Horizonte: Ed.). Elisabeth et alii (orgs.e de que modo os novos conceitos elaborados a partir deste novo olhar .30 Chamo de “teoria emocional da ação” a teoria social que logrou tomar- se o paradigma dominante para a auto-interpretação do brasileiro no decorrer do século XX. 32. É a partir dessa idéia central que se constitue a Meologia espontânea da burguesia na alta modernidade.organizadores O gosto para Bourdieu funciona como senso de distinção por excelência. O fator genético que melhor explica a produção dessa teoria emocional da ação como hoje a conhecemos deve-se à necessidade inexorável da constituição de uma “identidade nacional” para qualquer nação moderna. de qualquer aristocracia pré-moderna . solidariedades e preconceitos de forma universal — tudo é gosto! — a partir de fios invisíveis e opacos. Ver SOUZA. in BRONFEN. “Kulturelle Wurzeln”. portanto.ao modo.J1 No caso brasileiro. em símbolo visível de nossa abertura e criatividade cultural. in SOUZA.tornada efetiva e possível por meios especificamente modernos e de singular opacidade. ANDERSON. Hibride Kulturen.32 Ela apenas se consolida (e a partir daí com enorme sucesso) com a inversão freyriana do povo mulato como mal absoluto. e por que ele deve ser superado em favor de um paradigma mais adequado. que permite assumir uma aparência de universalismo e de competição em igualdade de condições. Jessé. “O casamento secreto entre identidade nacional e ‘teoria emocional da ação’. . É necessário se constituir um reconhecimento coletivo de valores e imagens comuns que sejam abstratas o bastante para substituir com vantagens as formas de pertencimento social por laços tradicionais de sangue ou de localidade. 2006. A invisibilidade da desigualdade brasileira. UFMG. de onde a burguesia sempre retirou sua legitimidade explícita. ou por que é tão difícil o debate aberto e crítico entre nós”. a constituição de uma identidade nacional foi extremamente difícil.). Benedict. Quando falo de velho registro quero me referir ao paradigma do que venfio chamando de “teoria emocional da ação”. Jessé (org. 1997. 30. constituindo. portanto. Ver textos sobre o tema no livro recém-lançado: SOUZA. precisamente por separar e unir. precisamente sob a assunção implícita de uma distinção natural .pode nos ajudar a perceber a realidade social brasileira segundo um novo registro? Para que possamos compreender a necessidade de um novo registro toma-se indispensável que seja bem-entendido o que seria o velho registro.Jessé Souza | Patrícia Mattos . 31. Stauffenburg. Tubingen. A invisibilidade da desigualdade brasileira. Bourdieu: pensador da periferia? Na segunda parte deste texto nossa pergunta é: De que modo o novo olhar sociológico que caracteriza a obra bourdiesiana .

Esse tipo de reconhecimento positivo que era impossível no contexto do “racismo científico”. grande potência continental cujo enorme dinamismo econômico lançava uma sombra de fracasso às outras duas grandes nações do continente: Brasil e México. sua “plasticidade”. mais “humanos”. A superação do racismo científico também permitiu uma fonte de orgulho nacional positivo em relação aos Estados Unidos. pela racionalidade e pelo cálculo. o imaginário do elogio das virtudes ambíguas . movido por estímulos emocionais e sentimentais. e até mais “sensuais” do que os indivíduos das frias e insensíveis sociedades avançadas. como nas “nações adiantadas”. 2000. pela comparação e emulação com outras nações. que nos interpretava como raça inferior. ainda assim. Essa nova identidade luta contra “inimigos” internos. antes de tudo. mais “hospitaleiros”. aqui. A necessidade do regime getulista por uma ideologia que eliminasse conflitos e contribuísse para a idéia de unidade substancial dos brasileiros casou.se tomarmos a Independência de 1822 como ano zero da busca por uma identidade nacional convincente - mais de cem anos para se encontrar. Ver SOUZA. por conta do racismo assumido e codificado. afinidades eletivas que demoraram .72 Teoria crítica no século XXi Esse ponto é fundamental porque a produção de uma identidade nacional bem-sucedida exige a construção de todo um imaginário social a partir do qual os indivíduos possam se reconhecer de algum modo positivo.ambíguas como são todas as virtudes dos dominados como diz Bourdieu. alguma identificação “positiva” dos membros desse tipo de sociedade. desde então. A partir deste novo imaginário social. em oposição ao cálculo racional. e externos.33 funcionava como uma das únicas críticas.. produzindo um tipo humano que se move por preferências afetivas e não.. O imaginário social dominante entre nós. percebidas como pré-modemas precisamente pela ênfase na emoção e no sentimento. os vínculos tradicionais de pertencimento de sangue e localidade. e. A modernização seletiva. . e que dominava nossa vida intelectual até Gilberto Freyre. abertura ao outro. Foi por conta dessa “satisfação substitutiva” que essa “fantasia compensatória” passou a ser a base da solidariedade interna de sociedades como a brasileira.. A visão íreyriana de uma cultura cujo grande capital era sua flexibilidade. 33. podem se perceber como mais “calorosos”. Ainda que racionalidade e cálculo sejam as virtudes capitalistas por excelência. possíveis aos campeões do capitalismo competitivo e da democracia que estavam no norte.da pré-modemidade permite. os indivíduos dessas sociedades. tende a interpretar o “brasileiro” enquanto um tipo social homogêneo.

seja não apenas reverenciado como um grande mestre do passado. Sua fragilidade teórica é compensada e tomada invisível pelo fato de todo brásileiro.organizadores A reflexão metódica. apenas repete essa “fantasia compensatória” numa dimensão um pouco mais elaborada e sofisticada. o homem cordial de Sérgio Buarque. 34. à noção de “indivíduo”. e em relação a qualquer critério objetivo (não existe nada subjetivo nesse tipo de medida da influência de idéias científicas). pela mídia e pelo senso comum. ainda dominante entre nós da “teoria emocional da ação”. de longe. seja no exterior (ainda que sua influência se concentre no debate latino-americano). criando um mundo dividido entre amigos e inimigos. definida como o agente com acesso a um certo “capital social de relações pessoais”. malandros e heróis. pelo simples fato de ter nascido no Brasi 1 e ter se socializado nele. essa é a minha tese. realizada por Roberto DaMatta. Hoje em dia temos a dominância praticamente absoluta da versão “modernizada” dessa teoria emocional da ação. Roberto.34 DaMatta logra operar uma “modernização” aparentemente fundamental no paradigma do personalismo. ao associar a noção de “pessoa” (basicamente o mesmo “homem cordial” de Buarque). seja aqui no Brasil. Como compreender que Sérgio Buarque. se 'perceber exatamente do mesmo modo que a “teoria emocional da ação” o definirá mais tarde com conceitos aparentemente complexos. Rio de Janeiro: Zahar. e a nossa “segunda pele” consubstanciada pela forma como nos vemos e nos percebemos constituída de modo afetivo e resistente à crítica através de nosso “mito nacional”. ainda que mais crítico que este último. o criador das categorias de personalismo e patrimonialismo que iriam dominar a imaginação sociológica brasileira no século XX. Afinal. sendo as suas idéias repetidas por epígonos. 1978. j á. possui as mesmas características da “teoria emocional da ação” que existia uin nuce” no nosso m ito nacional: predomínio da emoção e do sentimento sobre o cálculo racional. DAMATTA. mas ainda hoje compreendido como alguém que tem algo a dizer sobre o Brasil complexo e moderno? Minha tese é a de que isso só pode ser explicado pela associação entre a leitura de Sérgio Buarque. que no essencial repete Freyre. o criador da modema sociologia brasileira e da “teoria emocional da ação” como seu núcleo principal. DaMatta “faz a cabeça” do Brasil modemo. o pensador mais importante e mais influente do Brasil contemporâneo. adaptando o paradigma do personalismo a uma sociedade que vivia inegável processo de modernização. algo extremamente justo.Jessé Souza I Patrícia Mattos . definido como o agente sem acesso ao referido capital social de relações pessoais. Carnavais. Essa inovação permitiu que DaMatta se tomasse. .

esses sim. Primeiro. muitíssimo diferente. tomando completamente invisíveis os “capitais econômico e cultural” (para usar o jargão de Bourdieu). na confusão entre a inegável influência do “capital social de relações pessoais” para as chances de sucesso pessoal de qualquer indivíduo em qualquer sociedade moderna. como se esses fossem realidades “externas” aos agentes. que realizei alhures. com o fato. Confundir o caráter secundário do “capital social de relações pessoais” (que pode ser “percebido” como fundamental na ótica individual da dimensão do senso comum. dentre outras coisas tem a sua “hierarquia social” definida a partir do acesso diferencial dos agentes a certo “capital social de relações pessoais”. Essa segunda hipótese é de uma fragilidade teórica evidente. os quais. SOUZA. É a leitura do capital social de relações pessoais como “estruturante”. aliás. capítulos 7 e 8. a eficácia de suas idéias se explica por duas razões aos meus olhos. são os “elementos estruturais” e são as chaves para a compreensão da “hierarquia social” de toda sociedade moderna. no sentido mais forte desse termo. comparativamente a sociedades do tipo europeu e norte-americano.74 Teoria crítica no século XXI Não posso repetir aqui minha critica detalhada à tese de DaMatta. um outro tipo de personalidade e de motivações de conduta. as quais são percebidas como se pautando por valores personalistas e emocionais de antanho. A modernização seletiva. que pressupõe uma relação com complexos institucionais. e é compreensível que assim seja) nas sociedades modernas. que não possuem nada a ver com “personalismo atávico”. de que uma dinâmica e complexa (ainda que injusta e desigual) sociedade como a brasileira é “estruturada”.. . Tudo acontece como se o Brasil se industrializasse. mas é “comprada” como verdadeira devido à “visibilidade” da eficácia do capital social de relações pessoais na vida cotidiana. A questão (a ser comprovada empiricamente) é da (muito provável. essa tradição continuada por DaMatta imagina a sociedade funcionando sem determinações estruturais a partir de um conceito de “cultura”. como um tipo completamente novo de estrutura social criando. como Estado e mercado.. Enquanto literalmente todos os clássicos da sociologia interpretam a sociedade moderna fundamentada pela constituição de Estado e mercado. do peso relativo do “capital social de relações pessoais” nas chances de sucesso individual dos indivíduos por razões.. sejam centrais. sejam periféricas. e não como fator secundário fainda que fundamental na perspectiva individual).35 Em resumo. construísse um Estado centralizado e se urbanizasse sem que disso resultasse qualquer efeito sobre a esfera das personalidades individuais e suas relações sociais. cujas origens são misteriosas na reprodução de seu atavismo. aliás) maior influência na sociedade brasileira. é tomar “invisível” as 35. ou seja.

Aqui já percebemos de que modo Bourdieu e suas bategorias gerais e abstratas. ou ainda que seria o capital de relações pessoais que determinaria privilégio ou marginalidade. ou o caro leitor conhece por acaso alguém com acesso a pessoas e relações sociais importantes sem capital econômico ou cultural? A aparência do capital de relações pessoais como fator último ou estruturante dahierarquia social de uma sociedade modema só é possível ao preço do encobrimento conceituai e teórico dos mecanismos impessoais típicos da sociedade modema. seja ela central ou periférica. o econômico e o cultural . marginalidade. A explicação dominante entre nós ainda é marcada por enfoques que partem de pontos de partida subjetivistas e intencionalistas.Jessé Souza | Patrícia Mattos . sem qualquer vinculação com a dinâmica institucional de uma sociedade complexa. pela negação dos capitais transmitidos por herança familiar. A dependência do capital social de relações pessoais. Nesse caso. a teoria apenas corrobora a ideologia dominante da prática social a qual sobrevive.permanecem invisíveis teoricamente.organcmiorss 75 causas efetivas e reais da desigualdade. como se a lógica de sociedades complexas e dinâmicas como a nossa pudesse ser captada a partir do somatório das intencionalidades individuais ou de conceitos de uma “cultura”. o paradigma é a nossa imersão ingênua na vida cotidiana que faz com que pensemos que . fica explícita no fato de que . como se o mesmo fosse uma “conquista individual” e não uma construção social por meio da classe social transmitida afetivamente pelo convívio familiar. Em uma palavra: o capital social (3e relações pessoais só pode “aparecer” como determinante na prática social de qualquer sociedade modema. que se referem ao capitalismo tardio comoum todo. É por isso que se pensa que o que está dentro da cabeça de uma suposta elite determina a lógica e dinâmica social objetiva. tão caro à sociologia do personalismo brasileiro. ou que são relações intersubjetivas de favor e proteção que constituiriam o pano de fundo da dependência e subcidadania. É o acesso às formas de capital econômico e ao “conhecimento” (capital cultural incorporado) que estruturam as classes sociais e sua posição relativa no mundo social. Em todas essas versões de sociologia subjetívista ou culturalista. precisamente. subcidadania e naturalização da diferença que nos caracteriza primordialmente como sociedade. apenas e quando os capitais “invisíveis” fundamentais. podem ser usadas produtivamente para a construção de um esforço teórico alternativo á ainda dominante “teoria emocional da ação” para a explicação da modernidade periférica.só tem acesso a este tipo de capital quem já tem acesso a capital econômico ou cultural. São esses capitais passados de pai para filho que são tomados invisíveis na ideologia do “mérito individual”. Os “capitais” que servem para operar as formas objetivas e impessoais de classificação e desclassificação social são iguais aqui e na França ou Alemanha.

consciente ou inconscientemente . UFMG: Belo Horizonte. Mas esse caminho de reconstruir uma consciência crítica sociológica acerca de nossa especificidade. A invisibilidade dos capitais impessoais. Nesse caminho. é um exemplo de um tipo de teoria que se refere a fenômenos singulares a partir de conceitos que são gerais e abstratos. como fiz e venho fazendo alhures.que faz com que os grandes autores clássicos e contemporâneos. Paralelamente ao conceito de “capitais” como elementos estruturantes da hierarquia social concreta e visível. para fins de adorno e erudição. usando Bourdieu e outros teóricos críticos.36 que venho desenvolvendo em minhas pesquisas teóricas e empíricas. o que importa é evitar um tipo de absorção meramente erudita do pensamente cosmopolita de vanguarda . que somos nós que produzimos valores e que a dinâmica social pode ser adequadamente eompreeendida pela interdependência das vontades e sentidos individuais ou por atavismos culturais enigmáticos na sua gênese e reprodução. e este livro do qual este texto é uma das contribuições pretende ser um exemplo disso. é o conceito que permite se pensar em uma coordenação das ações sociais concretas que opera de modo pré-reflexivo e sem controle consciente do agente. A construção social da subcidadania. ainda dominante entre nós. é o que permite tanto a falsa evidência da “teoria emocional da ação”. perdida na miopia de uma teoria que não se distingue do senso comum que nosso mito nacional tão engenhosamente construiu. E precisamente porque a dinâmica social complexa escapa à compreensão cotidiana dos indivíduos-atores que os desclassificados sociais culpam . Ver SOUZA. ele tem que operar com categorias gerais e abstratas que se materializam de modo sempre específico. 2003. e que uso para especificar a singularidade de nossa desigualdade. e o que explica a extraordinária falta de vigor crítico da nossa sociologia contemporânea. vem sendo perseguido por mim nos ültimos dez anos de pesquisa ininterrupta. . sem folclorizá-lacomo singularidade absoluta.a si mesmos pelo “fracasso” de terem nascidos nas “famílias erradas”. opacos na prática cotidiana. O pensamento crítico é uma virtualidade humana geral e. Jessé. modernamente produzida e reproduzida. A reconstrução de toda uma “teoria da ação social” alternativa. como vimos.76 Teoria crítica no século XXI nós. somos o centro do mundo. desde que o racionalismo ocidental se expandiu para todo o globo. não pode ser aprofundada aqui. no ensino acadêmico entre nós. como no modelo de nosso mito nacional. o conceito de “habitus” em Bourdieu. Apenas assim podemos possibilitar e estimular a aplicação desta 36. ainda sejam percebidos como um “fim em si”. O conceito de “ralé estrutural”. por óbvias limitações de espaço. sujeitos.

estimula a mera “reprodução descritiva” e ingênua dessa mesma realidade . A impotência dessas teorias para dar conta de uma realidade complexa como a nossa é também uma das causas profundas de certo'consenso difuso que imagina “a teoria” como conceitos abstratos sem qualquer relação direta com a realidade imediata. com o intuito secreto de naturalizar e eternizar o acesso seletivo e arbitrário de classes inteiras de indivíduos. que Bourdieu e todos os pensadores verdadeiramente críticos nos ensinam.não explicada nem compreendida teoricamente - pelos atores. amplamente disseminada no seu antiteoricismo e seu antiintelectualismo tanto nacional quanto internacionalmente. que imagina poder compreender uma realidade social concreta como se a mesma fosse transparente aos seus membros. A sua “ingenuidade” reside na percepção da realidade social como se ela não fosse perpassada de fio a pavio por relações de dominação e poder. . é o corolário de uma visão. que é crescente entre nós precisamente pela incapacidade das teorias nativas dominantes em dar conta da realidade que nos cerca. E isso.organizadores fonte insubstituível de conhecimento para iluminar aspectos relegados às sombras de nossa realidade social por teorias acríticas e anacrônicas. no entanto. Esse consenso. A ingenuidade da “sociologia (e da antropologia) espontânea”. no fundo conservadora. aos bens e recursos escassos em disputa na sociedade. grupos. humilhados e não- reconhecidos. em detrimento de outras. gêneros e “raças” oprimidos.Jessé Souza J Patrícia Mattos . afinal. classes. Apenas uma Teoria Crítica e empiricamente orientada. pode reconstruir o vínculo entre construção teórica crítica da realidade e a percepção empírica dos seus efeitos invisíveis em indivíduos.

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mas a anulação da degradação e do desrespeito. Fraser (1995). a princípio. Bem no final da década de 1980. quando se referiu a essa transição como uma passagem da “redistribuição” para o “reconhecimento”. o predomínio do marxismo na Europa e a influência de Rawls difundida nos EUA asseguraram que não havia nenhuma dúvida quanto ao princípio condutor da teoria normativa de ordem política. No lugar dessa idéia influente de justiça. Reconhecimento ou redistribuição? A mudança de perspectivas na ordem moral da sociedade AXEL HONNETH Qualquer indivíduo que esteja acompanhando os desenvolvimentos da filosofia política nos últimos anos não poderia ter deixado de perceber o aparecimento de um daqueles processos ocorridos na teorização em que as mudanças conceituais caminham lado a lado com as mudanças na orientação normativa. no segundo conceito.’ 1. elas estavam de acordo quanto ao imperativo de remover qualquer forma de desigualdade social ou econômica que não pudesse ser justificada com base nos fundamentos racionais. Nancy Fraser forneceu uma fórmula sucinta. Seu objetivo normativo não mais parece ser a eliminação da desigualdade. Independente das diferenças circunstanciais. que pode ser vista em termos políticos como manifestação da era da democracia social. Enquanto o primeiro conceito está ligado a uma visão de justiça. as condições para uma sociedade justa passam a ser definidas como o reconhecimento da dignidade pessoal de todos os indivíduos. parece ter surgido uma idéia nova que. que visa alcançar a igualdade social através de uma redistribuição das necessidades materiais para a existência dos seres humanos enquanto sujeitos livres. . parece politicamente um tanto ou quanto menos inequívoca. suas categorias centrais não são mais a “distribuição igual” ou a “igualdade econômica”. mas “dignidade” e “respeito”.