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PRIMEIRA PARTE

SINGULARIDADE, SELETIVIDADE E REFLEXIVIDADE DO
DESENVOLVIMENTO OCIDENTAL.

CAPÍTULO I

MAX WEBER E A SINGULARIDADE DA CULTURA OCIDENTAL

É certamente incorreto imaginar a importância da esfera religiosa para Weber
enquanto uma inversão da causalidade econômica marxista. Tal saliência para
Weber não é causal, mas sim heurística. Sendo o fundador da sociologia
compreensiva, que procura a interpretação das ações individuais a partir do sentido
dado pelo agente, nada mais natural que o interesse pela esfera social - onde ele
identificou a gênese da produção do sentido social por excelência durante milênios -
tenha tido a primazia do seu interesse genético e compreensivo.

Procurarei fazer uma leitura neo-evolucionista da sociologia religiosa
weberiana de modo a perceber onde Weber localiza a superioridade evolutiva
ocidental nos campos moral e cognitivo. Este ponto vai ser fundamental para que
possamos compreender o que constitui a modernidade e onde reside sua validade
universal. O neo-evolucionismo weberiano, como veremos, é formal e não material,
ou seja, pretende-se universalidade apenas para as estruturas de desenvolvimento.

Os conteúdos destas podem ser, ao contrário, particulares. As estruturas de
desenvolvimento que nos interessam se referem tanto às formas de consciência
(moral e cognitiva) individuais, quanto às concepções de mundo societárias.

Temos aqui, portanto, a junção das perspectivas ontogenética
(desenvolvimento individual) e filogenética (desenvolvimento societário ou da
espécie). Esse tipo de leitura pode ficar mais compreensível ao leitor
contemporâneo se nos lembrar-mos das suas afinidades com a psicologia do
desenvolvimento cognitivo de Piaget ou Kohlberg. Assim, a racionalização interna à
esfera religiosa pode ser percebida como uma forma de resolver o dilema da
interação do homem com os meios social e natural. Esse processo de aprendizado
pressupõe um aumento do grau de consciência e reflexividade acerca da realidade
que nos cerca, assim como do grau de autonomia da consciência moral que nela Commented [1]: Podemos ver aqui uma suposta associação com
aquilo que Marx e Engels haviam estudado sobre o aparecimento do
atua. discernimento na consciência do homem que o levaria a desligar-se
de sua espécie na passagem do neolítico para o paleolítico, assim
como, do da linguagem articulada como produto desta divisão. Cf.:
KONDER, L. Marxismo e Alienação, 1968, p. ?
Nesse contexto, não pretendo examinar todo o conjunto de fatores materiais e
ideais que tenham desempenhado de alguma forma um papel relevante nessa
transição, concentrando-me na discussão da especificidade do desenvolvimento
religioso ocidental, visto que, segundo penso, a racionalizaçåo religiosa já propicia
elementos suficientes para a demonstração da especificidade do diagnóstico
weberiano do desenvolvimento ocidental. O pêso particular da variável religiosa
nesse processo - sem que com isso esteja-se pleiteando uma dominância dessa
esfera em relação a outras nesse processo de transição - deve-se ao fato de que, nas
condições da concepção de mundo tradicional onde a "doação de sentido ao
mundo" tem fundamentos fortemente religiosos, uma mudança de consciência seria
impensável sem uma contribuição especificamente religiosa para a mesma.11

O significado da especificidade do desenvolvimento ocidental como fio
condutor de suas análises é enfatizado por Max Weber já na primeira frase do
prefácio ao conjunto de estudos de sociologia religiosa.

No estudo de qualquer problema de história universal, um filho da
moderna civilização européia sempre estará sujeito à indagaçåo de
qual a combinação de fatores a que se pode atribuir o fato de na
civilização ocidental, e somente na civilização ocidental, haverem
aparecido fenômenos culturais dotados (como pelo menos

1

Esses estudos. estado e. definitivamente para os problemas que parecem importantes para a compreensão da cultura ocidental. Mas. para evitar mal-entendidos. não parecia possível qualquer outro procedimento. portanto. são objeto da atenção de Weber e limitam. Pelo contrário. Os estudos sobre as religiões orientais devem servir apenas como "contrapartida comparativa" de modo que apenas os aspectos que estão em contradição com o desenvolvimento ocidental e. deve-se dar uma ênfase especial à limitação do citado objetivo. imprensa. A atenção de Weber dirigi-se à genealogia desse processo: porque apenas no ocidente. no conjunto de textos que tratam da ética econômica das grandes religiões mundiais.44 Weber preocupou-se. não pretendem ser análises completas de culturas. a forma econômica do capitalismo. mesmo que breves. Weber não pretendeu com esses estudos. o campo de estudo. com certeza. temos também a consideração da relação causal 2 3 4 . inicialmente. deste ponto de vista. passíveis de enfatizar sua especificidade. pois. antes de tudo. Tendo em vista esse objetivo. Orientam-se. porque apenas no ocidente moderno temos a vitória daquilo que Weber chama "racionalismo da dominação do mundo"?33. desenvolver uma "teoria geral" sobre todas as grandes civilizações. desde o início. queremos crer) de um desenvolvimento universal em seu valor e significado. com a influência diferencial das doutrinas religiosas sobre a conduta prática. portanto. Essa questão confere o impulso para as suas abrangentes investigações comparativas em sociologia da religião. Mais tarde. melhor. Essa direção da relação causal foi perseguida no seu texto seminal sobre "a ética protestante e o espírito do capitalismo".22 Apenas no ocidente temos ciência empírica. música racional. eles procuram destacar propositadamente em cada cultura aqueles aspectos nos quais diferia e difere da civilização ocidental.

Ao invés de necessidades ou funções refere-se Weber sempre a "chances" ou "probabilidades". a meu ver. assim como evitar premissas teleológicas e de filosofia da história típicas do evolucionismo do século XIX.contrária. tratar das relações de Commented [2]: O homem. e reciprocidade entre as diversas esferas da sociedade sem reduzir uma enquanto não pelo meio ou pela educação. A minha recepção da sociologia das religiões weberiana vai privilegiar. os principais elementos da conduta prática não religiosamente motivada dos estratos sociais que. temos. e. numa relação complementar àquele trabalho pioneiro. neste campo. precisamente. em distinção por exemplo em relação a Marx. por um lado. econômicos ou economicamente determinados que influenciam a ética religiosa decide Weber tomar a estratificação social 6 ou. Esse conceito permite a Weber. sua antecipação. Tendo em vista a dificuldade de determinação de todos os fatores políticos. ou seja. Decisivo. na realidade. o estudo sobre o judaísmo antigo. os trabalhos sobre as religiões mundiais orientais. entre idéias e interesses. religiosamente determinados da conduta de vida prática. Pode-se imaginar as duas direções da relação causal que estamos tratando. por sua vez. melhor dizendo. da seguinte forma: por um lado temos os impulsos psicológicos. simples funções de outras. Também em contraposição ao marxismo ortodoxo não existe nenhum vínculo a priori entre o mundo material e simbólico. Este último é pré- formado por dados econômico-históricos e econômico-geograficos que são independentes de qualquer determinação "interna" da ação econômica e influênciam. encontramos a relativa autonomia e a positividade específica do nível econômico. por outro lado. influenciaram e portaram as éticas religiosas. seria uma espécie de faculdade que se faz totalmente pela criação. e. 5 5 Nesses textos. 5 6 . A noção central para a interpretação dessa complexa multicausalidade é o conceito de "afinidade eletiva" (Wahlverwandschaft). no entanto. para os nossos interesses aqui é a sua recusa do evolucionismo sociológico clássico ao criticar o normativismo das etapas sucessivas e evitar qualquer noção de necessidade histórica. especialmente da conduta econômica. como uma espécie de "representantes" de todas as determinações socio-econômicas da ação religiosa. Também aqui fala Weber apenas de "chances". o "ethos" econômico prático. para a perspectiva de Max Weber. em contraste com a "ética protestante".

o "sentido" dado à ação pelos sujeitos Esse "sentido". ou seja. O elemento religioso ainda se encontra entranhado em outros aspectos Commented [3]: (KONDER. Weber esclarece que não pretende tratar da "essência" da religião. pelo menos nas primeiras manifestações da religião e da magia. p. Ao falar da gênese das religiões. contribuindo decisivamente para a reposição de Max Weber no centro do debate sociológico atual. As interpretações evolucionista e neo-evolucionista da teoria weberiana foi levada a cabo nas últimas três décadas por Friedrich Tenbruck. o ponto de partida são sempre as vivências e representações subjetivas dos indivíduos- atores. Esse processo reproduz a progressão da civilização ocidental como um movimento que parte do mito passando pela teodicéia até a antropodicéia.das teorias assim chamadas "neo-evolucionistas" do século XX. especialmente naqueles de natureza econômica. até a moderna concepção do imanente dualismo9. da vida quotidiana. L. estimulando a releitura e reinterpretação desse clássico a partir de uma visão de conjunto das suas teses principais. ?). De acordo com o seu enfoque abrangente. Apenas a maior ou 7 8 9 10 .enquanto um movimento que parte da concepção de mundo mágico-monista.e das estruturas de consciência correspondentes . 1968. senão indagar sobre as condições e efeitos desse tipo de ação comunitária. onde coisas e significados ainda não se separaram e o "sentido do mundo" enquanto problema ainda não aparece. passando pela teocêntrica-dualista. Marxismo e Alienação. Esse é o reino do naturalismo pré-animista. Wolfgang Schluchter e Jürgen Habermas. é dirigido a "este mundo" criado com a expectativa de que as coisas possam "ir bem e que se viva longos anos"10.7 Segundo a reconstrução da sociologia religiosa weberiana a partir dos pressupostos neo-evolucionistas de uma lógica do desenvolvimento 8 pode-se perceber a progressão das concepções do mundo . Irei tentar percorrer esse caminho por meio da racionalização religiosa de modo a explicitar os pressupostos da especificidade do desenvolvimento ocidental.

uma forma de controle sobre o objeto da experiência através de um ato de conhecimento. conforme Marx e Engels. mas também coisas e fenômenos que significam algo e porque precisamente significam algo"12. meio pelo qual a ação humana implica a passagem do naturalismo ao simbolismo. O naturalismo pré-animista baseia-se na crença de que as criaturas determinam e influenciam o "comportamento" das coisas ou pessoas habitadas pelo carisma. desse modo. A etapa seguinte. Como enfatiza Godfrey Lienhardt. pode. levando a que se supere a relação naturalista do homem em relação ao seu meio por força da autonomização do conceito em relação à coisa. Este é o núcleo da crença nos espíritos. A qual. é a crescente abstração dos poderes sobrenaturais. através de sua capacidade de simbolização. onde o espírito representa sempre algo indeterminado e material. de certa forma "transcender e dominar" conseguindo. o aparecimento da linguagem articulada. O desenvolvimento cognitivo seguinte representa um salto qualitativo e Commented [4]: Talvez conjugadamente ao desenvolvimento do dedo polegar (para a prática de coleta. com essa ideia de simbolismo. pela primeira vez. ”Um animal ou o homem pré-religioso podem apenas resistir passivamente à experiência do sofrimento e de outras limitações impostas pelas suas condições de existência.menor quotidianidade dos entes é objeto da cognição mágica. os quais. O homem religioso. o trabalho) e naturalmente aqui. homem e natureza. Na crença nas almas.. O elemento apartado da familiaridade imediata do cotidiano é o que Weber chamará de "carisma"11. passam a ser apenas habitados ou possuídos. isto é. agora. ao contrário. é a imaginação de uma alma que propicia a transição do pré-animismo ao animismo em sentido estrito.. O simbolismo pressupõe uma mediou sujeito e objeto. que pressupõe a prática dos magos. assim. uma liberdade em relação ao seu próprio meio impossível no passado”13 11 12 13 . dispensando. Decisivo para esse movimento em direção à impessoalidade da representação das forças sobrenaturais é a circunstância de que. qualquer característica humana por excelência relação com objetos concretos. o simbolismo propicia ao sujeito. do ponto de vista lógico. "agora não apenas as coisas e fenômenos que estão aí e acontecem representam um papel na vida. ocorre uma separação entre a idéia de entidade sobrenatural e os objetos concretos.

na sua relação com os homens possibilita a constituição da esfera ou do campo de ação religioso. na medida em que. temos aqui uma efetiva dualidade. e ainda não abranger a distinção entre ser e dever ser. como passageira - 14 15 16 . no momento do ritual. especificamente religiosa. precisamente. O aparecimento dos poderes sobrenaturais . nessa fase de desenvolvimento. A ausência de distância indica a existência de uma mera "duplicação" entre o mundo das coisas e fenômenos e o mundo dos poderes sobrenaturais. à distinção entre coisa e conceito. Mais ainda. deuses e demônios . A "verdadeira" realidade passa a ser a do "além" em oposição à empírica. Ainda assim. a esfera transcendental. Esse estado de coisas é decorrente do fato de o "desempenho" do simbolismo limitar-se ao mundo do ser. a qual irá ser produto das religiões de salvação. pode-se falar de uma "ética mágica" no sentido amplo do termo. desaparece completamente quando "o qualquer hora" transforma-se no "agora"14. reivindicando para si uma positividade e eficácia próprias. cuja importância já foi enfatizada. Em lugar de uma simples duplicação.almas. como Weber o faz16. no sentido de que serve. denotando a existência de uma concepção de mundo monista15 Essa circunstância leva a que a esfera religiosa não possua ainda nenhuma força propulsora capaz de canalizar a conduta prática para uma determinada direção. por força da proibição dos tabus. e representa. A relação das divindades com os homens é. antes de tudo. à proteção de interesses extra-religiosos. desde então. se produz alguma forma de regulação das condutas. Essa primeira forma de positividade religiosa possui uma eficácia apenas estereotipada. implicando na desvalorização da esfera empírica enquanto reino passageiro das criaturas. uma concepção de mundo dualista. em termos de lógica de desenvolvimento. faltando ainda a referência a um "mundo" especificamente religioso. contrapõe-se à empírica. a esfera transcendental passa a ser vista como a "mais importante". a qual vale. ao contrário do mundo mágico. um passo evolutivo decisivo em relação a uma concepção de mundo mágica. Esse passo pressupõe. na medida em que. Distância esta que. marcada pela ausência de distância.

objetos do ódio e desprezo geral. A partir dessa especialização podem agora os especialistas vincular seus próprios interesses materiais e ideais aos motivos e necessidades da plebe. 17 . em evidente oposição às teodicéias da felicidade anteriores. relativamente tardia. foram formados a partir das esperanças de redenção. o qual passa a ser o sofrimento. eram tidos como legitimamente punidos pelos deuses. A cura de almas preocupa-se com a questão da imputação causal da culpa do sofrimento individual. sendo. que se baseavam. uma interpretação racional do sofrimento. pelo menos tendencialmente. No início do desenvolvimento do campo religioso o sofrimento era valorizado negativamente. abrem-se as portas para a conquista do imenso público de sofredores e oprimidos em geral. O caminho para a mudança radical dessa concepção começa com a distinção. que cuida apenas dos interesses mais gerais da comunidade. entre a cura de almas. os quais permitem. não sendo aceitos como participantes nessas ocasiões. De uma maneira geral. em fundamentos rituais e não éticos. em geral. A religião servia então aos desejos dos poderosos e saudáveis de ver legitimada a própria felicidade17.nas religiões de salvação ocidentais. A matéria-prima original dessas construções são os mitos primitivos da natureza que. são interpretados como cultos de salvação. agora enquanto sintoma de felicidade futura.ou como o reino do pecado . entendida enquanto culto individual. a qual foi assumida por dinastias de mistagogos ou profetas de uma divindade.nas religiões de salvação orientais . ainda. portanto. e o culto coletivo. ocasiões em que os doentes e sofredores. Na introdução à ética econômica das religiões mundiais Weber vincula esse processo de ”autonomização” da esfera social religiosa à transformação peculiar do sentimento impulsionador fundamental da ação religiosa. como pode-se observar pelo comportamento das comunidades arcaicas em festividades. Com o novo sentido do sofrimento. Um passo seguinte consuma-se com a construção de mitos de salvação do sofrimento continuado. uma "teodicéia do sofrimento". a partir de sagas de heróis ou espíritos intimamente relacionados com fenômenos naturais.

18 19 . como uma metafísica tendencialmente racional. agora. com as conseqüências as mais distintas 19 . Todas as religiões de salvação. inclinam-se os ricos e poderosos a abraçar outras fontes de legitimação da sua condição como. assim como explica o peso heurístico da esfera religiosa para a explicação da especificidade cultural do ocidente. A diversidade dessas conseqüências e influências sobre a conduta prática proporciona. com os outros e com seu ambiente. o fio condutor de toda a sociologia da religião weberiana. inclusive. enquanto esfera autônoma com uma positividade própria. na medida em que suas finalidades se separam de todas as outras finalidades mundanas. mais ainda. têm como base concepções de mundo dualistas. ao contrário. na medida em que o elemento empírico da realidade profana passa a ser desvalorizado pelo dever ser sagrado. substitui. embora. temos o aparecimento da moral enquanto tal. as concepções de mundo míticas. abrindo espaço para uma "rejeição religiosa do mundo". abrindo espaço dessa forma. sejam elas ocidentais ou orientais. para o desenvolvimento de uma ética em sentido estrito. Desse momento em diante. certamente. constitui-se um nova esfera moral.como na transição do naturalismo ao simbolismo . Com a precedência da compreensão da religião enquanto "teodicéia do sofrimento". Como conseqüência temos uma mudança radical na relação dos homens consigo mesmos. enquanto resultado da crescente racionalização das concepções de mundo religiosas. Uma primorosa análise das conseqüências e direções das rejeições religiosas do mundo é levada a cabo por Weber nas "Considerações Intermediárias à Ética Econômica das Religiões Mundiais". constituem-se duas esferas concorrentes e paralelas.que permite. saem em busca da idéia religiosamente motivada de uma "missão" confiada especialmente a eles18 A teodicéia do sofrimento. o carisma do sangue. O pressuposto dessa passagem é um outro desenvolvimento cognitivo fundamental . Os sofredores. a distinção entre as esferas do ser e do dever ser. por força da distinção entre o sagrado dever ser e o profano mundo do ser. Com a concepção de mundo dualista. por exemplo.

para Weber. impedindo. A especificidade do racionalismo ocidental para Weber resulta da forma Commented [6]: Pois. positividade ético-religiosa e as demais esferas mundanas. muito mais uma ideia inconsciente de incompreensão da própria natureza. na determinação das relações entre ética e mundo. a conformação ética da ação mundana. A resolução desse dilema é o núcleo do problema a ser enfrentado por toda teodicéia. católicos da idade média. Já a ascese extra-mundana. o que implica ausência de estímulos ético-religiosos para modificá-lo. weber identifica no judaísmo antigo suas raízes o que explica de resto o interesse especial de Weber no estudo do Judaísmo. Nesse sentido. Ambos os caminhos extra-mundanos. portanto. Duas soluções extremas para essa questão se contrapõem aqui: uma solução mundana imanente e uma solução mundana transcendente. ou seja. o segundo é ascético. A mística extra-mundana implica “fuga do mundo” como Commented [5]: Mística extra-mundana como que uma fuga do mundo? Talvez a noção de compreensão como uma espécie de no caso dos monges budistas. ou seja. como no caso dos monges mística seria mais digno de respeito ao budismo por parte da interpretação de Max Weber do que este sentido doado por sua consciência. como veremos. A solução transcendente mais consequente é a calvinista. o aspecto fundamental é a noção de “estado”. a especificidade do racionalismo peculiar segundo a qual a religiosidade ocidental soluciona o seu dualismo teria em seu núcleo. enquanto o primeiro é místico. seria a solução mais consequente do ponto de vista imanente. Como pode um dado irracional já construído pela imaginação sem razão ao contrário do dualismo oriental a ênfase é potencialmente mais ética do que tornar-se um dado racional. Apesar do calvinismo ter sido o desenvolvimento mais consequente dessa característica cultural. de fato. uma suposta resolução entre opostos de uma dualidade mítica. O mundo profano é uma mera parte do mundo sagrado. Mas. acarretam uma diferenciação extrema entre os virtuosos religiosos e os leigos. O dualismo na sua versão ocidental é potencialmente tensional. Uma outra distinção fundamental para Weber. um dado de consciência que respeita a riqueza infinita do movimento da realidade. abre-se a possibilidade de um conflito aberto entre a como sendo racional. Os dois caminhos mencionados acima são intra-mundanos. leva a uma radical diferenciação entre comportamento cotidiano e extra-cotidiano. No primeiro. é a oposição entre misticismo e ascetismo. Tanto o caminho místico como o ascético admitem também variantes extra-mundanas. Isto sim seria o real ritualística. e a consequência é a interpenetração ética do mundo em todas as esferas da vida. neste momento alienada e afastada da própria natureza (da própria espécie) do que específico. a visão do fiel como “vaso” da divindade. Weber 20 . Para este último é importante a noção de ação. O hinduísmo. como dito na nota anterior a respeito do ato de compreensão. sendo percebido como em alguma forma de “união mística” com este. uma concepção do fiel como “instrumento” divino. ou seja. em seu cerne. Nele. É este o tema de ”Considerações Intermediárias ao Conjunto de Estudos sobre Sociologia das Religiões”20. no entanto.

Apenas o componente ético da obediência irrestrita aos mandamentos interessava a este. as lógicas mundanas deviam se conformar e subordinar à mensagem religiosa. o que favoreceu enormemente a pressão coletiva para sua obediência. É que a constituição de um estamento sacerdotal. não se dirigia ao “conteúdo” da mensagem religiosa. A salvação só era possível coletivamente e através do cumprimento estrito dos mandamentos divinos e não através de técnicas de salvação e contemplação. 21 . por exemplo. Fundamental no caso do judaísmo antigo é a própria concepção de divindade. tendiam a propiciar uma ênfase na atividade de culto. Essas duas condições combinadas foram decisivas para a vitória sobre os cultos concorrentes e outras divindades21. A desobediência a Jeová significava consequências políticas e militares imediatas. Fundamental para a vitalidade do componente ético implícito no judaísmo antigo foi. Havia a tentativa de conformar as esferas mundanas segundo os mandamentos da ética religiosa. Dois elementos ajudam a explicar sua força enquanto divindade: a) o caráter ético de sua mensagem através dos mandamentos que visavam a constituição de uma conduta ética cotidiana. boa parte da extraordinária sobrevivência dos judeus como povo-pária deveu-se à eficácia do seu elemento ético. a atuação da profecia judaica. que exerciam sua atividade religiosa em templos. mas o Deus da guerra de uma pequena nação cercada de inimigos poderosos. e não enquanto indivíduos isolados. O trabalho dos profetas era dirigido à radicalização do componente ético e seu efeito no comportamento cotidiano. Ao profeta Jeremias. Weber refere-se aos profetas éticos do judaísmo antigo como os primeiros homens que haviam logrado se libertar do ”jardim mágico” onde toda a religiosidade primitiva se inseria. o que era contrário ao ensinamento de Jeová. Jeová não é um Deus funcional qualquer. não interessava compromissos. E era precisamente esse fato que era lembrado com toda a insistência pelos profetas. e b) o contrato (berith) sagrado e coletivo firmado entre Jeová e seu povo enquanto coletividade. portanto. Para Weber. A novidade profética.encontrou o primeiro passo na direção de uma tensão entre ética religiosa e mundo que abriu caminho para a conformação ética deste último. para weber. a qual já havia sido sistematizada pelos sacerdotes levitas no “Tora”.

em benefício de uma noção intra- mundana da mesma. No entanto. O fator inibidor da herança ética no catolicismo medieval foi responsável pela secundarização da tensão entre ética e mundo. É que o princípio da igualdade dos irmãos de fé foi interpretada como uma igualdade pré-social. O elemento tradicionalista do compromisso com os poderes e a lógica das esferas mundanas. Desde então temos. já com Lutero e o luteranismo temos avanços importantes em relação ao catolicismo. ao mesmo tempo. Apesar do caráter tradicionalista da pregação luterana. É que Lutero. herdeiros da tradição judaica. duas características marcantes do “caráter alemão” desde então: o sentimento de . Esse compromisso. impediu uma conformação ética consequente da vida cotidiana. no entanto. a noção tradicionalista de vocação significava a aceitação das relações de trabalho já existentes e o compromisso com as estruturas patrimoniais de poder então vigentes. a partir dessa constelação de fatores. a noção de “trabalho” (Tätigkeit) e de “chamado divino” (Berufung zu Gott). as quais foram incorporadas pela Igreja. a interpretação luterana do trabalho intramundano era tradicionalista. ao mesmo tempo tempo em que se abria a possibilidade . algumas características que iriam ser constitutivas da cultura ocidental moderna. por um lado. O cristianismo primitivo contribuiu decisivamente para o universalismo da mensagem ético-religiosa. a qual não estava prejudicada por nenhuma forma de desigualdade concreta. aprofundaram. produziu a junção de duas noções bíblicas. para a “idéia” de igualdade concreta. Esse passo foi decisivo para a transformação de uma noção de ascese extra-mundana. foi o pressuposto mesmo da força integradora do cristianismo. Se o trabalho era sagrado. temos apenas com a revolução protestante um ponto de inflexão fundamental em direção a uma consequente interpenetração entre ética e mundo. O cristianismo primitivo e medieval. Nesse sentido. Nesse sentido. Este componente já era elemento central da noção de amor universal da pregação de Jesus e foi reforçado pela missão paulínea ao propiciar a constituição de comunidades universais e abertas evitando o sectarismo judaico. na noção de “vocação” (Beruf). Já o catolicismo medieval contribuiu com o racionalismo intelectual e jurídico das tradições grega e romana. como a católica medieval. por outro. e inibiram. então o fiel pode agradar a Deus desempenhando sua atividade cotidiana no mundo. O fiel deveria cumprir suas obrigações cotidianas e aceitar em todos os sentidos a ordem mundana criada por Deus. ao traduzir a bíblia para o alemão. pelo menos como idéia regulativa.

A coerência e a disciplina da influência do comportamento prático pela mensagem religiosa pode. sem que se possa ter acesso aos motivos que levaram Deus a fazer tal escolha. e na Europa do norte. como “instrumento” divino e não mais como “vaso” da divindade. A reinterpretação calvinista da reforma protestante adapta a noção luterana de vocação no sentido de uma concepção ascética de ativismo intra- mundano. para Weber. Este diz que apenas alguns homens são eleitos para a vida eterna. O que está em jogo em termos de desempenho cultural é uma primeira experiência histórica de moldar eticamente o mundo e. onde desenvolveram ao máximo todas as suas potencialidades. ainda hoje. teve sua origem especialmente na Inglaterra e nos países baixos. então. Aqui o fiel é visto. Ao mesmo tempo. também essa concepção propiciou uma interpretação peculiar do “indivíduo” ocidental. O dogma mais característico do calvinismo é a doutrina da predestinação 23. ao enfatizar a “dimensão interna” da personalidade. especialmente os países escandinavos. Como Weber enfatiza. como no judaísmo antigo. de forma conseqüente. O desafio aqui é o de a ética querer deixar de ser um ideal eventual e ocasional (que exige dos virtuosos religiosos quase sempre uma ”fuga do mundo” como na prática monástica cristã medieval) para tornar-se efetivamente uma lei prática e cotidiana ”dentro do mundo”. como iremos ver com mais vagar adiante. transcender o dualismo religioso através da sua realização prática na sociedade. mas também a mitigação dos efeitos da dupla moral judaica (uma moral interna para os irmãos de crença e outra externa para os infiéis). como no luteranismo. A vertente ascética e individualista do protestantismo. inclusive Alemanha. sendo depois transportado para os Estados Unidos. No protestantismo ascético temos não apenas a clara noção da primazia da ética sobre o mundo. dominante na Europa central. ser muito maior. Mas não é esse protestantismo tradicionalista que Weber tem em mente quando ele fala da “revolução protestante”.dever e a subserviência em relação à autoridade22. A versão luterana do protestantismo é. essa doutrina implica uma distinção radical tanto em relação ao catolicismo quanto 22 23 .

O crente é deixado a si mesmo e apenas humildade e obediência em relação aos mandamentos da divindade podem decidir da sua salvação. esta última circunstância foi absolutamente decisiva para a superação do ethos católico e. na medida em que ambos defendem não só uma outra concepção de divindade. possibilitando a fruição do bem maior dessa forma de religiosidade. implica um abismo intransponível entre Deus e os homens. a certeza da salvação25. um conceito essencialmente distinto da piedade divina. Um outro efeito. Para um virtuoso como Calvino não existia esse problema. na medida em que passa a contar como "sinal da salvação".ao luteranismo. no entanto. qual seja. de modo a dar ao crente a segurança de que seu comportamento é não apenas ”agradável a Deus” (gottgewollt). O patético isolamento individual cria. talvez o mais importante. propiciando a elaboração da doutrina da ”certeza da salvação” (Bewärungsgedanke). mas. uma extrema intensificação da experiência humana da solidão. uma sensação de insegurança insuportável para as necessidades emocionais do homem comum. posto que ele estava seguro da própria salvação. assim. A noção de vocação ganha. é a eliminação de toda mediação mágica ou sacramental na relação Deus/homens. A doutrina calvinista da predestinação pressupõe uma compreensão tal da divindade que. mas. em certa medida. também. trazendo. bem no sentido que esta possui no Velho Testamento. um novo entendimento. acima de tudo. como conseqüência. A totalidade da condução da vida enquanto unidade é o que conta para que se alcance a salvação e não a soma de ações isoladas. também do luterano24 no sentido de que a ausência de mediação determina o fechamento dos espaços de "compromisso". O objetivo da salvação e o caminho da salvação passam a exercer uma influência recíproca de tal modo que uma condução de vida metódica religiosamente determinada pode aparecer. no entanto. Para Weber. como sinal da salvação a partir do desempenho diferencial.Esta confere um sentido sagrado ao trabalho intramundano ao interpretá-lo como meio para o aumento da glória de Deus na terra. a questão da dúvida da própria eleição ganha um significado central. mais ainda. "fruto direto da ação divina” (gottgewirkt). Para os seus seguidores. 24 25 .

defende a tese da ”reificação” da vida em geral como consequência consciência e na razão do homem para tal transformação. passa a permear todas as esferas de atividade humana.. tentava a habilitar o homem a afirmar e a fazer valer os seus "motivos constantes" especialmente aqueles que foram adquiridos em contraposição aos sentimentos. o ascetismo puritano. sendo o desempenho diferencial compreendido como atributo da graça divina e um fim em si.. no entanto. no sentido forte do termo. enquanto a tarefa imediata de anulação do gôzo espontâneo e impulsivo da vida era o meio mais importante da ascese na ordenação da conduta dos seus adeptos. trata-se aqui. é um ponto central e controvertido do diagnóstico weberiano da modernidade. Todos os sentimentos e inclinações naturais devem subordinar-se a esse princípio. E. o segundo nos atenta para a suposta ideia (teoria) que se “congela” na esferas da vida. que significa uma fuga do mundo. mas. como todos os tipos de ascetismo "racional". ao perceber a influência do capitalismo não apenas Commented [7]: O que Marx e Weber fazem em suas interpretações é: o primeiro nos ensina e atenta que a ação no mundo do trabalho ou na economia em sentido estrito. 26 . desse modo. representando o protestantismo ascético. era habilitar a vida alerta e inteligente. Sua finalidade. também. segundo critérios de maior desempenho e eficiência possíveis. A passagem do mundo religiosamente motivado para o mundo secularizado. O elemento ascético age como inibidor do gozo dos frutos do trabalho. Afinal. do próprio ethos tradicionalista enquanto tal. ao contrário de algumas crenças populares. Nesse sentido. mas também em todas as transforma a natureza transformando ao homem também. temos agora a perspectiva de que a vida tem que ser guiada a partir de um princípio único e superior a todos os outros: que a vida terrena deve valer apenas como um meio (e o homem um mero instrumento de Deus) para o aumento da glória divina na terra. uma gigantesca tentativa de racionalizar toda a condução da vida sob um único valor. Com isso temos não só a superação da concepção tradicionalista de vocação em Lutero. temos aqui uma ascese intramundana que direciona toda a força psicológica dos prêmios religiosos para o estímulo do trabalho. especificamente ocidental.26. Ao contrário da ascese monástica medieval. do processo de secularização. de uma "recriação" do mundo na medida em que uma nova "racionalidade". CULTURA NORMATIVA OU REIFICAÇÃO DO MUNDO? A interpretação dominante. Em lugar de uma percepção da salvação segundo a acumulação de boas ações isoladas.

28 A reificação e a conseqüente atitude instrumental em relação a sí e aos outros e à natureza seriam. As conduções da vida que privilegiam apenas a atitude orientada ao sucesso seriam precisamente os "últimos homens". a própria peculiaridade das relações entre homens. mostrado bastante claramente no caso da amizade pela seguinte advertência "It is an irrational act and not fit for a rational creature to love any one further than reason will allow us. não motivada racionalmente . o que expressa o caráter auto-destrutivo da ética protestante. Uma atitude consciente de dominação do mundo exigiria a 27 28 29 30 31 . O mesmo mundo que foi "encantado" através do simbolismo viria a ser. promovem uma dominação inconsciente do mundo31. seriam possíveis duas atitudes fundamentais de conformidade com as novas condições da época29: os homens exclusivamente interessados no sucesso seja sob a forma de poder ou dinheiro. na suspeita de idolatria da carne.It very often taketh up men's minds so as hinder their love to God" (Baxter: Christian Directory. a sua característica emocional e. A concepção de mundo teocêntrica e dualista seria desvalorizada pela absolutização do ponto de partida do racionalismo da dominação do mundo motivado religiosamente.27 Causas da reificação veria Weber. portanto. desencantado. isto é. Encontramos repetidas vezes tais argumentos. resultados do específico caminho de salvação da ética protestante. facilmente cai. que renunciam a qualquer fundamentação ética para suas ações 30 . assim como em qualquer outra ética ascética.isto é. As relações intersubjetivas entre os sujeitos perdem. crescentemente.. na essencial não-fraternidade do caminho da salvação do protestantismo ascético e na suspeita de divinização das criaturas contida em toda doação de valor para relações humanas levando ao que se poderia chamar de "dominação da impessoalidade". e aqueles que procuram encontrar um equilíbrio entre sucesso e convicção ética. no sentido nietzscheano do têrmo apropriado por Weber.defende Schluchter de que o significado cultural da ética protestante para a modernidade ocidental deve ser considerada antes no favorecimento por parte desta de um "espírito da reificação" do que de um "espírito do capitalismo". por força da necessidade do reconhecimento das leis específicas que o regem. na ética puritana. Em adição ao que foi dito. antes de tudo. os quais.. Nesse contexto.235). qualquer relação puramente emocional . Essa última atitude só é possível para as existências que buscam definir-se na tensão entre o ser e o dever ser e entre a rejeição do mundo e o reconhecimento da legalidade própria do mundo desencantado. com isto.baseada em uma relação pessoal de um homem com outro. nas palavras de Schluchter. IV. pag.

ou seja. Racionalidade significa aqui o imperativo de qualquer existência humana de tornar-se uma personalidade na medida em que a corrente de decisões últimas que conferem. religiosamente motivado. renuncia à noção de um além o que justificaria sua designação de imanente. a condução consciente da vida enquanto personalidade a qual pressupõe a necessidade de escolhas morais e ações meditadas que levam em conta as suas conseqüências na realidade 32 . A partir da destruição da concepção de mundo dualista-teocêntrica teríamos. ao contrário do dualismo anterior. ao contrário. de reconhecer o conteúdo ético da problemática do auto-controle e da dominação do mundo e de pautar seu comportamento de acordo com essa dualidade necessariamente instável.A concepção de mundo moderna continua dualista. como única possibilidade de atitude ética. abdicando em suma à autodeterminação. aqui. a antropodicéia no sentido weberiano pressuporia uma antropologia. ou seja. da necessidade típica de um antropocêntrismo dualista. passa a ser conscientemente executada e mantida. uma responsabilidade bastante peculiar com respeito à esfera ética. como conseqüência do processo de desencantamento ou "desmagificação" (Entzauberung). conseqüentemente. Para Henrich. aqueles que renunciam a escolha dos valores que regem a própria vida.33 Os "últimos homens". praticando uma crua acomodação aos estímulos pragmáticos exteriores.elaboração reflexiva da tensão. teriamos a perda da capacidade de convencimento das éticas materiais de fundo religioso e o 32 33 34 35 36 . o homem que perde sua ligação orgânica com motivos religiosos só pode encontrar os seus ideais dentro do "próprio peito"35. a qual. espelha uma doutrina do homem como ser racional. Trata-se. No entanto. temos agora um dualismo imanente. seriam. Desse modo. típica da modernidade desencantada. uma mistura bem temperada entre sucesso e moralidade. Com a reificação do mundo. no sentido da "ética protestante".34A nova concepção dualista do mundo. na visão de Weber. precisamente pela permanência do confronto entre um mundo da causalidade natural e um mundo "postulado" de uma causalidade compensatória de fundo ético. segundo Dieter Henrich. que se mantenha a tensão entre ser e dever ser. 36 já que o mundo da realidade ética postulada é pelo próprio homem desenvolvida acarretando. o sentido da individualidade de uma vida. em última instância. típica para as formas de consciência peculiares da concepção de mundo moderna nos termos de um imanente dualismo entre orientação para o sucesso e atitude ética.

Ao se interpenetrar com as esferas práticas. uma ruptura de princípio na forma da consciência. Esta passagem é ”espontânea” apenas no ocidente. com isso. por seu turno. No lugar dos deuses pessoais temos agora os poderes impessoais. O seu produto mais acabado é o indivíduo capaz de criticar a si mesmo e à sociedade onde vive. É precisamente essa relevância prática que possibilita e 37 . para Weber. como a sociedade pré-moderna ocidental. que pressupõe contexto secularizado e subjetivação da problemática moral. Em sociedades que apresentavam já graus significativos de diferenciação social. como mercado capitalista. ”relevância prática”. encontrava-se formulado no contexto da concepção de mundo helênica e que acompanhou o homem de forma latente desde que ele começou a simbolizar. ao poder reificador da mensagem protestante. na medida em que as esferas mundanas tornam-se éticas e a ética religiosa adquire. Contra essa posição dominante defende Richard Münch uma interpretação alternativa. foi. Münch percebe a relação entre ética e mundo não como desintegração daquela neste. o significado específico do seu desenvolvimento cultural. Esse indivíduo liberto das amarras da tradição é o alfa e o ômega de tudo que associamos com modernidade ocidental. Isso implica que ética e mundo se interpenetram reciprocamente.37 Apenas o Ocidente consegue superar os limites de uma concepção de mundo tradicional e da forma de consciência que lhe corresponde. Esse ponto implica na atualização mais conseqüente. o aparecimento e desenvolvimento do racionalismo ocidental moderno parece representar. só podemos falar de uma interpenetração recíproca entre ética e mundo. correspondendo por sua vez. ou seja. ao nível das concepções do mundo. No entanto. a forma peculiar da auto- consciência ocidental e. um desenvolvimento das formas de consciência. do conflito valorativo. a um desenvolvimento também dessas últimas. A transição para o individualismo ético fundamenta.Com isso. A aquisição de uma consciência moral pós-tradicional é o que está em jogo na passagem da ética da convicção. também o inverso seria verdadeiro. ciência experimental. democracia. arte moderna etc. É que a interpenetração entre ética e mundo não poderia ser vista como uma subordinação unilateral do mundo à esfera ética. cujo aparecimento deve-se decisivamente. na constelação do racionalismo ocidental moderno. os imperativos éticos tendem a se influenciar pelos imperativos dessas mesmas esferas.aparecimento das pré-condições indispensáveis para o individualismo ético. até aqui na História. definitivamente descoberto e radicalizado. já nos inícios do racionalismo ocidental. mas sob a forma de uma ”interpenetração” ética do mundo. inclusive.. filosofia. Uma forma de consciência que. entre outros fatores. típica de sociedades tradicionais legitimadas religiosamente segundo uma moral substantiva. O desempenho civilizatório específico do racionalismo ocidental moderno foi o desencantamento do mundo.. para a ética da responsabilidade. A interpenetração significa certamente a limitação da positividade própria à cada esfera social a partir da influência ética modificadora.

uma interpretação do processo de secularização como a que Schluchter. A norma da eqüidade. Para Münch. a herança transmitida a (s) classe (s) média mundial (ais) de levar uma vida em normas jurídicas. Esta última. não significa subordinar a mensagem religiosa às suas necessidades. mas direcionar a doutrina religiosa a esse tipo de vida econômica. sim. Nesse sentido. equivale a secundarizar os elementos éticos do racionalismo da ”dominação do mundo”. o centro da dominação patrimonial e apenas secundariamente um centro comercial e artesanal. Nesse sentido. transfromando-a em estímulo fundamental para a renascença italiana e o humanismo. política e cultural a partir desse fundamento. É que na cidade medieval já existiam pressupostos importantes da cultura ocidental antes mesmo do protestantismo ascético. a doutrina religiosa protestante ascética. com sua ênfase na continuidade. propõe. Isso não implica que a religião teria sido usada para conferir substância moral à vida econômica. Esse fato significa apenas que a mensagem religiosa ascética dirige-se àqueles segmentos citadinos e burgueses cuja condução de vida estava em conflito secular e constante com a ética tradicionalista da doutrina católica. universalismo. ao contrário da cidade oriental. nos seus domínios. e sobretudo. a possibilidade do desenvolvimento de um universalismo consequente nas esferas econômica. ou passa. finalmente. É que a cidade medieval ocidental era. vida econômica. uma primeira forma de autonomia política. por exemplo. Também na cidade surgiu pela primeira vez o ”Homo Oeconomicus”. Münch demonstra como a cidade medieval já havia criado as pré-condições para um processo de interpenetração recíproca entre ética e mundo. a revitalização da vida cultural. O carpem diem nada mais é. não seria decisivo apenas a existência de uma ou outra característica. era. uma refração importante. levar em conta as necessidades desse estrato. por exemplo. racionalismo e individualismo38. partiria do dado da existência de uma civilização comercial burguesa direcionando sua doutrina a esse tipo de vida econômica. do que uma ideologia dos calculabilidade e segurança nos negócios. o futuro. portanto.radicaliza seu efeito intra-mundano. A ênfase de Münch na importância da cidade medieval serve para demonstrar sua tese da interpenetração recíproca entre ética e mundo. antes de tudo. Assim. a cidade medieval vinculava todos os cidadãos às mesmas Commented [8]: Aqui. o direito racional como forma de ordenar a hedonistas e que são e estão reduzidos ao estatuto de mero corpo. Essa referência da doutrina em relação às necessidades cotidianas desse estrato explica. mas. sofria. mas a interpenetração entre várias. como no ocidente a partir da cidade e do universalismo cristão. que seria responsável pela posterior construção de uma cultura normativa com as características de ativismo. e. De acordo com essa linha de raciocínio. conquistada contra a dominação patrimonial. ao contrário. 38 . uma comunidade de cidadãos. que implicava universalização e igualdade na esfera econômica é um pressuposto da própria possibilidade de tornar o tráfico econômico normatizável segundo regras universalizáveis. na ideia de calculabilidade. o que implicava que a ordem senhorial e patrimonial medieval que o aqui e o agora ão são importantes. Münch releva. na medida em que se retoma a herança da antiguidade clássica.

Essas gerações seguintes seriam também influenciadas pela ética subjacente e já incorporada e materializada por essas instituições fundamentais. a entronização do princípio da responsabilidade individual e da conduta racional e metódica. É que. Acredito ser possível demonstrar que o caso brasileiro é uma variante peculiar 39 . Assim. podemos examinar casos concretos alternativos de desenvolvimento ocidental. como base do Estado democrático moderno. na opinião de Münch. ancorado no mercado. Esse ponto de partida nos permite. o mundo secularizado das gerações seguintes não seriam apenas regulados pelos estímulos empíricos de mercado capitalista e Estado racional- burocrático. nesse particular seguindo os passos de Talcott Parsons. nesse novo quadro. todo o potencial normatizador da vida contratual moderna. moderando os estímulos à atividade econômica descontrolada e propiciando. Apesar de Münch conscientemente ir mais adiante. do que uma interpretação estrita da sociologia weberiana permitiria. a modernidade secularizada implicaria a superação do particularismo ético e não da ética enquanto tal. por exemplo. Com relação a esse último ponto. é precisamente a constituição desse sistema profissional baseado na escola e na universidade que. como efetivamente faremos na segunda parte desse livro. comparar experiências históricas concretas segundo a forma mais ou menos consequente na qual a cultura normativa da modernidade logrou se institucionalizar e permear o pano de fundo valorativo e normativo de cada sociedade singular. por outro lado ela é enormemente facilitada por ela. Depois ela permite um ponto de partida interessante para a análise dos diversos casos empíricos de modernização que efetivamente ocorreram no ocidente. uma cultura normativa substantiva. se por um lado não pressupõe.precisamente. na sua argumentação em favor da permanência de uma cultura normativa como pressuposto do mundo moderno secularizado. e o respeito a direitos humanos generalizáveis. remetem a esse contexto moral que é o pressuposto mesmo da existência dessas esferas. em consonância com as necessidades do mercado e do Estado. permitem a manutenção em escala ampliada da cultura normativa e do valor da auto-responsabilidade39. Inicialmente. Ao moderno sistema escolar e universitário caberiam o ancoramento institucional possibilitador do princípio da generalização normativa e da autonomia da personalidade. Segundo essa tese. Para Münch. em que medida se pode lograr uma ”moralização da economia”. descura. necessariamente. o fenômeno da ”generalização valorativa” típica da modernidade. Uma visão da modernidade secularizada como incapaz de qualquer consenso ético. essa discussão é interessante para nossos propósitos de várias maneiras. nos perguntando acerca da articulação específica entre cultura normativa e padrões de institucionalização. como na tese da coisificação do mundo secular. ela nos lembra que o arcabouço institucional do mundo individualista e burguês moderno. Esse aspecto é fundamental para a tese da interpenetração recíproca. através do controle dos desejos e paixões.

dessa lógica de desenvolvimento. . e não o ”outro” dela como defende nossa sociologia da inautenticidade. apesar de apresentar um alto grau de seletividade comparativa.