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CAPÍTULO III

A SINGULARIDADE OCIDENTAL COMO APRENDIZADO
REFLEXIVO: JÜRGEN HABERMAS E O CONCEITO DE ESFERA
PÚBLICA.

A) GÊNESE DA ESFERA PÚBLICA

Apesar da enorme divergência com relação ao quadro de referência
teórico, existe um ponto em comum na visão dos clássicos das ciências
sociais acerca da peculiaridade da moderna sociedade capitalista: Estado
racional burocratizado e mercado competitivo capitalista são percebidos
como as instituições estruturantes do novo sistema social nascente. Apenas
mais tarde, já adentrado o século XX, é que temos a teorização sistemática
e consequente de uma “outra” instituição fundamental da sociedade
moderna tematizada sob o nome de sociedade civil ou esfera pública.
Talvez a maior contribuição de Jürgen Habermas ao pensamento
sociológico tenha sido a análise, que perpassou toda a sua carreira
acadêmica, das estruturas específicas de funcionamento da esfera pública.
Para ele esfera pública não se confunde com a interpretação clássica da
sociedade civil como “reino de necessidades” oposto ao Estado. Esfera
pública passa a designar a partir da sua obra, seminal para o pensamento
sociológico desse século, um “terceiro momento” das sociedades
modernas, o qual não se confunde nem com o mercado nem com o Estado.
O tema da esfera pública já é o tema central da tese de livre docência
de Habermas, a “Mudança Estrutural da Esfera Pública1, datada de 1962. O
interesse primário de Habermas nesse livro, onde já encontramos em germe
todos os temas que iriam concentrar os seus esforços nas décadas seguintes,
ainda é marcadamente genealógico e histórico. Ele se interessa em perceber
a gênese histórica da categoria de “público”. Na idade média, a categoria
de “público” assume a forma de mera representatividade pública.

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Habermas, Jürgen. Strukturwandel der Öffentlichkeit, Suhrkamp, Frankfurt, 1975.

2

Representatividade aqui possui um sentido literal, de teatralização, visto
que não se trata duma representação de autoridade derivada da soberania
popular, mas sim de uma representação do poder de fato “perante” o povo.
A importância das insígnias, do gestuário, das regras de etiqueta, apontam
precisamente para esse estado de coisas.

O sentido moderno de público começa a desenvolver-se em
combinação com fatores materiais e simbólicos novos, que se constituem
no alvorecer da modernidade. Desde o início, a categoria de “público” se
mostra intimamente ligada a categoria de “privado”. É apenas a partir da
delimitação de uma esfera privada inviolável do indivíduo que temos a
possibilidade de perceber a novidade do sentido moderno de público. Uma
primeira forma de privacidade com implicações públicas óbvias dá-se a
partir da privatização da fé. A liberdade de confissão, duramente
conquistada em guerras sangrentas, aponta para uma primeira forma de
liberdade privada. Esse é o primeiro passo para a constituição daquilo que
Habermas irá chamar de esfera pública, ou seja, de uma esfera composta de Commented [1]: Para Jurgëm Habermas o que seria essa
visão própria? Em que ela está embasada? A realidade do
sujeitos privados com opinião própria, o que assegura a possibilidade da trabalho para o trabalhador e do não trabalho para o não
trabalhador não poderia ser essa a causa de perspectiva (s)
contraposição coletiva à decisões discricionárias do poder público. limita (s) e condicionada (s) pela (s) sua (s) filosofia (s) e
prática (s)
Desse modo, liberdade pública é indissociável da liberdade privada.
O que Habermas chama de esfera pública nasce da redefinição dos lugares
do público e do privado, formando o Estado e a pequena família burguesa
as duas instituições fundamentais de cada um desses espaços respectivos.
Além da liberdade de confissão como antecedente principal da liberdade de
consciência tipicamente burguesa, temos fatores materiais importantes em
jogo. Acima de tudo, a passagem do capitalismo comercial para o industrial
engendra toda uma infra-estrutura de novas formas de transporte e de troca
de informações. Na esteira da troca de mercadorias, desenvolve-se,
concomitantemente, um aumento correspondente de troca de informações,
de início dirigidas a um público restrito de comerciantes com notícias de
interesse profissional.

Paralelamente, desenvolve-se, também como consequência da
passagem de um capitalismo comercial limitado localmente em favor de
grandes empreendimentos nacionais e internacionais, o Estado permanente,
baseado em instituições burocráticas e militares, assim como a partir de um
eficiente sistema de impostos. Todo esse conjunto de novas instituições era

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indispensável ao estímulo e proteção das atividades econômicas nas esferas
interna e externa.

Uma esfera pública de conteúdo não estatal nasce, no entanto, apenas
a partir da mudança da função da imprensa desde uma atividade meramente
informativa e manipulativa do que interessava ao Estado tornar público, em
favor da concepção de um veículo, de um “fórum” apartado do Estado. É
esse “fórum” de pessoas com capacidade de julgar que permite a formação
de uma opinião pública crítica que introduz, pela primeira vez, a questão da
legitimidade discursiva do Estado. O que é público, de interesse geral e
para o bem de todos, precisa a partir de agora provar-se
argumentativamente enquanto tal. De início, os burocratas do aparelho
estatal, profissionais liberais, pastores, professores, etc, formam a base
social dessa nova esfera. A esfera pública burguesa que se constitui deve
ser entendida, antes de tudo, como a reunião de pessoas privadas num
público.

Essa esfera é regulamentada pela autoridade, mas é dirigida
diretamente contra a autoridade política, na medida em que o princípio de
controle que o público burgues contrapõe à dominação, pretende modificá-
la enquanto tal. Em termos históricos, a entrada em cena de uma esfera
pública política coincide com a passagem do Estado absoluto em direção ao
despotismo esclarecido. Já a evidente contradição dos termos que
compõem essa forma de exercício do poder político evidencia o encontro
de uma forma de dominação tradicional monárquica, a qual, no entanto, já
tem que prestar contas de seu governo, tem que se esclarecer perante um
público.

Para Habermas, a demanda política por uma maior reflexividade na
formação da opinião coletiva, tem como pressuposto experiências privadas
que se originam na esfera íntima da pequena família. Este é o lugar onde
origina-se historicamente a privacidade no sentido moderno do espaço de
exercício de uma interioridade livre e satisfeita. O status do homem
privado, enquanto dono de mercadorias e pai de família, completa-se com a
compreensão política que a esfera pública burguesa faz de sí mesma. Antes
de assumir funções políticas, no entanto, o processo de auto-compreensão
das pessoas privadas adquire a forma literária de trocas de experiências
sobre o exercício da nova forma de privacidade. Essa esfera pública
literária não é originariamente burguesa, mas sim uma herança da

assim como a formas de convívio que se destinam a exercitar o novo tipo de individualidade que se constitui. A esta sociabilidade original corresponde uma nova forma de arquitetura das casas. já aponta para o maior grau de abstração e de elaboração da reflexividade que se institucionaliza. e até de forma ainda mais fundamental. à comunicação. 4 aristocracia cortesã transmitida à vanguarda da burguesia que mantinha contato com o “mundo elegante”. igualdade esta indispensável para a legitimação do processo básico da esfera pública: a discussão baseada em argumentos que subordina a questão do status social relativo dos participantes. A partir de 1750. capaz de criar obrigações recíprocas entre os homens. A passagem da carta ao romance psicológico. O crescimento das cidades vai possibilitar. também as novas formas literárias dominantes assumem formas especificamente burguesas como o drama burgues e o romance psicológico. a institucionalização da esfera pública. Desde essa época podemos perceber como a atenção do jovem Habermas já se dirige ao estudo daquela inovação social que será para ele a característica essencial do mundo moderno e a cuja análise de pressupostos dedicará toda sua vida de pesquisador: a descoberta de uma força interna. o público literário implica uma igualdade das pessoas cultas com opinião. etc. logo passam a conferir caráter crítico às suas conversações sociais quebrando a ponte entre as duas formas de esfera pública e engendrando um elemento historicamente novo: a esfera pública burguesa. ou seja. A pequena família burguesa representa uma forma de comunidade distinta tanto da família aristocrática quanto da família camponesa. adquirem formas que propiciam tematizar a forma especificamente burguesa da nova subjetividade que se constitui nessa época. no entanto. dos salões. A subjetividade literariamente trabalhada do burgues já é desde sempre pública (a passagem da carta ao romance já o demonstra). garantindo um espaço de privacidade para cada um dos integrantes da família. que . Por outro lado. Os herdeiros burgueses do humanismo aristocrático. como a forma paradigmática de problematização das questões existenciais e subjetivas. a partir da proliferação da cultura dos cafés. funcionando como uma espécie de auto-falante das necessidades e experiências mais íntimas. A esfera pública literária dos indivíduos privados mantêm já uma conexão profunda com a esfera pública política.

Com a resignação perante a impossibilidade de resolução racional dos conflitos que agora dilaceram a esfera pública. Essa força interna é o caráter vinculante que nasce do melhor argumento. a resposta liberal é reacionária no sentido de reagir à tomada do espaço público pelas massas iletradas e despossuídas. A outra reação clássica ao desafio da ascensão do proletariado industrial opera-se no contexto do liberalismo clássico. Ainda para Habermas. todas as instituições burguesas inclusive a esfera pública fundamentam-se no encobrimento manipulativo da dissidência básica da sociedade de classes em explorados e exploradores. riqueza e prestígio. Com isso a esfera pública deixa de ser um espaço de convencimento para ser um espaço de pressão. As massas menos letradas do proletariado emergente que passam a pressionar pela efetivação de seus interesses de classe quebra por dentro a unidade da esfera pública burguesa. Para Marx. Aos primeiros cabe a tarefa de transformar radicalmente a infra-estrutura social que perpetua desigualdades. no entanto. testemunha uma modificação estrutural da esfera pública com efeitos permanentes e múltiplas consequências: a ampliação do público que exige a consideração de seus interesses. defendem os liberais uma defesa contra uma eventual maioria na opinião pública suspeita de possuir um núcleo não racional. a força interna daquela racionalidade moralmente pretensiosa que busca vincular a verdade e a justiça. nem a reação liberal nem a socialista permitem apreender em todas as suas consequências a mudança estrutural da esfera pública. Para Habermas. Com a despedida do conceito de crítica. Na passagem do capitalismo concorrencial . A socialização dos meios de produção encontra nessa formulação sua razão de ser. temos a posição socialista onde a teoria de Karl Marx logrou formular a visão mais coerente e consequente. O século XIX. a palavra de ordem passa a ser a da tolerância contra um poder de núcleo tendencialmente irracional que ameaça tornar-se absoluto. Duas respostas clássicas foram formuladas para reagir a esse desafio. por oposição ao século XVIII. Por um lado. ou como prefere Habermas já nesse escrito da juventude antecipando a problemática moral do Habermas maduro. 5 exige a desconsideração de fatores sociais externos como poder.

Com a superação da distinção entre Estado e sociedade. o capitalismo organizado expande-se da esfera de produção de bens materiais para a . a esfera onde as pessoas privadas discutiam assuntos públicos. Sem a proteção do ambiente familiar. a esfera burguesa desenvolve-se historicamente como um campo tensional entre Estado e sociedade. teríamos. Seria precisamente a expansão da esfera pública sob o custo da esfera privada. Paralelamente a essa destruição da esfera íntima. como efeito específico dessa transformação na esfera pública. Com a destruição das bases sociais da autoridade patriarcal. o qual se reflete na indistinção entre direito público e privado a partir da privatização do Estado (acelerado pela concentração de capitais) e pela estatização da sociedade pela crescente rede assistencial e de serviços estatais que se constituem nessa época. onde esta seria por assim dizer colonizada por aquela. advêm. A intervenção estatal avança crescentemente de tal modo que não se pode mais distinguir uma esfera social apartada da estatal. a família passa a depender crescentemente de instâncias extra-familiares de socialização. a causa da neutralização do princípio fundamental da esfera pública. 6 para o capitalismo organizado. As esferas estatais. a destruição da fronteira entre a esfera pública e esfera privada. e. desse processo de mudança estrutural nas relações entre as esferas privada e pública. públicas e privadas passam a formar um único contexto funcional. mas de tal modo que se mantém enquanto parte da esfera privada. como consequência. destroem-se as bases de uma esfera privada autônoma. a partir do crescente intervencionismo estatal que marca o século XIX. qual seja a possibilidade de uma publicidade crítica. Paralelamente a perda de suas funções públicas e econômicas perde a família também sua capacidade de fornecer um lugar para a interioridade pessoal. Desse modo a família retira-se do processo de reprodução social. A decadência das funções políticas da esfera pública. Sua função torna-se primariamente consumptiva e passiva e não mais ativa e criadora. portanto. A família reduz-se na realidade a mera instância receptiva dos serviços estatais e de salário do sistema econômico. tornando-se crescentemente privada nas suas funções enquanto o mundo do trabalho e do Estado torna-se cada vez mais social. o indivíduo vê-se jogado no contexto social sem a possibilidade da distância reflexiva que permitia a constituição de uma individualidade autônoma. Como vimos.

2 Nos seus estudos posteriores. Na “Mudança Estrutural da Esfera Pública”. aplicada à produção de bens simbólicos desvirtua o próprio valor de uso do bem cultural que é possibilitar o desenvolvimento da capacidade reflexiva. leva a destruição da base mesma do processo crítico-reflexivo como um todo. Para o leitor familiarizado com os textos do Habermas maduro. apolítico. posto que embutido dentro da lógica do círculo fechado da lógica da produção e do consumo. Habermas ainda assimila o conceito adorniano de indústria cultural em toda sua extensão 2 . não permitindo a constituição de uma esfera de interesses não diretamente determinada pela lógica da reprodução econômica. já nesse escrito da juventude. A lógica da maximização do lucro. que envolve a preponderância do valor de troca de uma mercadoria em relação ao seu valor de uso. de modo a poder garantir a maior vendagem possível ao maior número. 7 produção industrial de bens simbólicos. na medida em que a patologia social específica tratada aqui remete a uma forma de invasão dos imperativos da esfera econômica sobre a esfera pública transformando sua racionalidade específica em mero bem de consumo econômico. especialmente com seu livro mais ambicioso sobre a teoria da ação comunicativa. dessa forma. é fácil perceber. Assim. com a substituição de uma esfera pública literária por uma esfera pseudo-privada de consumo cultural. Para Adorno a indústria cultural é a aplicação consequente da lógica capitalista da maximização do lucro á esfera dos bens simbólicos. O lazer torna-se. seja em relação à vida privada seja em relação à vida pública. . constituindo àquilo que T. Desse modo. o mesmo não se dá na esfera dos bens simbólicos. uma primeira formulação da tese da colonização do mundo da vida. Habermas vai sempre cuidadosamente separar “o conteúdo verdadeiro” do conceito de indústria cultural de seu uso absolutizante como na crítica cultural adorniana da sociedade capitalista moderna. Adorno havia chamado de “indústria cultural”. se na esfera dos bens materiais uma salsicha mantem seu valor de uso enquanto alimento produzido sob condições capitalistas de produção. W. A combinação das perdas das funções familiares no cultivo de uma individualidade diferenciada. a mercadoria cultural da indústria cultural precisa abrir mão da complexidade inerente aos objetos culturais e produzir uma homogeneização psíquica por baixo.

Ao invés de ser mera instância de mediação da esfera pública. a imprensa transforma-se em arregimentadora e instrumento de interesses privados que são expostos como se fossem públicos. como possível através de uma democratização institucional. A reforma desse quadro desolador é percebida por Habermas nessa época. A consequente necessidade de assegurar a rentabilidade do novo capital empregado acarreta a subordinação da política empresarial às necessidades da reprodução ampliada do capital empregado na emprêsa. a imprensa foi a parteira da esfera pública ao mediar e fazer o papel de “auto-falante” de um público pensante que discutia suas experiências privadas e públicas num “fórum” compartilhado coletivamente. 8 A mudança estrutural da esfera pública está intimamente relacionada com a mudança estrutural da sua instituição mais importante: a imprensa. antes portanto da construção de um conceito dual de sociedade que irá procurar separar analiticamente complexidade funcional sistêmica e espontaneidade social na produçao de sentido. não significa mais uma produção pública de opinião por pessoas privadas. agora. morais e políticas. mas a produção para um público de opiniões como se fossem públicas. A passagem da imprensa de opinião para a imprensa como negócio se dá a partir da necessidade de garantir o aumento e aperfeiçoamento da técnica produtiva e organizacional. A nova publicidade passa a viver precisamente da indistinção entre os papéis de cidadão e consumidor. Instituições políticas como os partidos e associações de classe devem propiciar um espaço comunicativo para uma . gerando aquilo que habermas chama de refeudalização da esfera pública no capitalismo tardio. Essa nova publicidade. Os jornais e semanários agiam ainda em primeiro plano de acordo com o interesse do debate público de questões existenciais. A esfera pública tem que ser produzida precisamente porque ela não mais existe. Originariamente. O imperativo de assegurar o acesso a cada vez mais leitores. como na representação do poder da idade média. como vimos. o círculo discursivo se quebra no seu primeiro e principal elo da transmissão pública dos argumentos. O público de pessoas de pessoas privadas perde a possibilidade da manutenção do estímulo recíproco e a antiga esfera pública passa a ser formada. de cima para baixo pelos meios de massa. Desse modo. transformam o interesse comercial em fator principal da mudança de uma imprensa pedagógica em manipulativa.

o “tom” geral do livro se adequa perfeitamente ao pessimismo cultural adorniano. ainda são perseguidos nesse livro segundo um quadro de referência teórico desenvolvido por outros pensadores. é precisamente o fato de que os temas expostos. 9 crítica pública raciocinante. no entanto. Para Habermas. Também a concepção de política democrática é tributária da tradição republicana. são apropriados por Habermas ainda de forma um tanto acrítica. O processo de democratização ainda é visto como englobando a sociedade como um todo incluindo as esferas diferenciadas funcionalmente como a economia e a política. Na verdade. em meio aos interesses privatistas organizados. A critica racional e pública da dominação política não pode ser restabelecida. permanece indeterminado analiticamente. os quais configurarão o leitmotiv que acompanhará toda a produção teórica habermasiana nas décadas seguintes. talvez sua influência mais forte nessa época. essa idéia permanece como uma mera intuição não desenvolvida em todas as suas consequências. ou ainda a idéia adorniana da indústria cultural como uma influência absoluta na formação da opinião pública. não tão diferente nesse aspecto particular de concepções (ainda que tão distintas entre si em outros aspectos) como as de Karl Marx ou Hannah Arendt. apesar da exposição brilhante e da intuição inovadora. O que permite perceber o “Mudança Estrutural da Esfera Pública” como uma obra de juventude. Deste modo. Assim. o qual. A estratégia defensiva deve dirigir-se a uma espécie de controle recíproco de instituições rivais que lutam por espaço em meio a luta pelo poder social e político. seria impossível pretender-se voltar a uma esfera pública do tipo que vigorava na segunda metade do século XVIII. No entanto. Apesar do livro contar a história de uma decadência. não se percebe com exatidão o . já existe no livro em germe a intuição que guiará a produção intelectual habermasiana como um fio condutor: a idéia que a sociedade moderna engendra formas de sociabilidade radicalmente novas segundo um padrão de racionalidade inédito. segundo o modelo das pessoas privadas reunidas num público. os temas clássicos dos “velhos” frankfurtianos como a idéia da família tornada impotente pelo enfraquecimento do poder e do exemplo paterno como uma porta aberta ao autoritarismo político. no entanto. Habermas descreve a relevância histórica de um fato novo.

10 que foi destruído na agonia da esfera pública. ou. temos uma primeira tentativa de captar o que a história dos movimentos sociais do ocidente implicaram em aprendizado. Jürgen. referindo-se o primeiro tanto à ação instrumental quanto à escolha racional. Suhrkamp. como uma lógica de desenvolvimento com aspectos positivos e dignos de serem preservados. dando sentido ao conceito de "consciência tecnocrática". a tentativa de nomear o destruído 3 Habermas. Nesse texto. enquanto o segundo diz respeito a normas aceitas intersubjetivamente mediadas simbolicamente. B) O CONCEITO DUAL DE SOCIEDADE Esse projeto teórico ambicioso. se desenvolvido com sucesso. além da mera crítica da razão instrumental entronizada. a consciência que não percebe a diferença entre normas internalizadas e apelos externos empíricos. como algo que deve ser identificado e preservado como guia da ação política. em outras palavras. como novidade marcante em relação ao "Mudança Estrutural" de 1962. não registra a distinção entre questões prático-morais e técnicas. . Frankfurt. no entanto. Esse projeto. ou seja. Essa dualidade é percebida por Habermas através dos conceitos de trabalho e interação. simultaneamente. no contexto do capitalismo tardio. permitiria a teoria crítica ir além da mera crítica resignada do dado. Habermas propõe um conceito dual de sociedade de modo a explicitar o conceito de técnica e ciência. ou seja. Uma determinação precisa desse aspecto equivale a tornar possível perceber o desenvolvimento ocidental na sua ambiguidade constitutiva. Em 1968. Technik und Wissenschaft als Ideologie. Temos aqui neste texto de 1968. 1969. começa a desenhar-se com contornos claros ainda na década de 60. com a publicação de “Técnica e ciência como ideologia”3. enquanto força produtiva e como legitimação ideológica.

pela análise (quase) transcendental das condições de possibilidade do entendimento por meio de uma teoria dos significados peculiar que Habermas irá chamar de "pragmática universal". 5 Habermas. O primeiro passo é a substituição da explicação hermenêutica da experiência comunicativa. Nesse contexto. Honneth. 1985. A pragmática universal é o estudo dos pressupostos implícitos em qualquer situação de fala ou diálogo. temos uma teoria da evolução social a qual confere o caráter "diacrônico" à teoria da ação comunicativa. Jürgen. . em contraposição ao caráter "sincrônico" da pragmática universal. Suhrkamp. Frankfurt.Suhrkamp. Esse sucesso é ainda parcial e poderíamos alinhar pelo menos duas boas razões para críticas: o conceito de interação é meramente descritivo e. portanto. A reconstrução racional das condições universais da comunicação humana. 1986. resultado conseguido. Frankfurt. Complementar ao papel fundamental da pragmática universal. Habermas parte de uma distinção ao nível da teoria da ação diretamente para o nível societário. por outro lado. é a pedra fundamental da teoria da ação comunicativa como um todo em todas as suas derivações. ganha relevo a apropriação 4 Esse aspecto foi criticado por comentadores sob o nome de uma “falácia do concretismo mal colocado” (Falschplazierten Konkretismus). e do mundo racionalizado segundo padrões formais para usar a terminologia weberiana. contrariamente à lingüística que estuda a língua enquanto estrutura. Um estudo da língua enquanto processo. Para uma melhor fundamentação da tese formulada no "Técnica e ciência" empreende Habermas no decorrer da década de 70 três passos fundamentais para a constituição da sua teoria da sociedade como apresentada na sua obra máxima "A Teoria da Ação Comunicativa" de 1981. possuidor de uma racionalidade própria irredutível à lógica instrumental. Ver. Kritik der Macht. criando a ilusão de setores estanques onde apenas um tipo de ação social seria possível nos respectivos sub- sistemas4. foi reunido depois no livro "Vorstudien und Engänzungen zur Theorie des kommunikativen Handelns"5. O resultado das investigações de Habermas sobre esse tema. Axel. Vorstudien und Engänzungen zur Theorie des kommunikativen Handelns . 11 na unilateral modernização ocidental. precisamente. pela separação entre duas dinâmicas: a do mundo normativo.

ainda que parcialmente. a saber: verdade (mundo objetivo). destinada a resgatar. 12 piagetiana para a sociologia e a distinção entre "Entwicklugslogik" (lógica de desenvolvimento) e "Entwiklungsdinamik" (dinâmica de desenvolvimento). Habermas fundamenta a razão comunicativa como específica ao mundo moderno e desencantado. O aspecto diacrônico da ação comunicativa tem a ver com a progressiva racionalização dos três aspectos (ou reivindicações valorativas) implícitas na ação comunicativa. portanto. A tese que se mantém é a crítica ao crescimento unilateral da razão instrumental (razão funcionalista para o Habermas da "teoria da ação comunicativa") às custas do momento prático-normativo. é o responsável pela mudança de atitude quanto a estratégia adequada nas sociedades do capitalismo tardio. como apenas possível num contexto pós-tradicional. 1982. ou seja. o aspecto da eficiência institucional capitalista. e sinceridade (mundo subjetivo). O conjunto de artigos editado sob o nome de “Reconstrução do Materialismo Histórico”6 é uma primeira aproximação do autor nessas questões. Esse ponto. trata-se de uma mudança de estratégias teóricas e não de teses. Ao contrário dos frankfurtianos que não conseguiram reconstruir um conceito enfático de razão no mundo desencantado. O grau em que essa racionalidade pode tornar-se real é uma questão empírica e reflete o jogo das forças políticas em ação. sendo meramente procedural. A racionalidade comunicativa é vista. . um jogo em aberto. sendo. A tese da existência de uma racionalidade comunicativa é a base do projeto habermasiano e aponta para uma competência potencial passível de tornar-se efetiva nas sociedades modernas. nesse sentido. Esses três passos devem fundamentar melhor a mesma tese já defendida em "Técnica e Ciência Enquanto Ideologia". Frankfurt. Zur Rekonstruktion des historischen Materialismus. especialmente o mecanismo de mercado e do aparelho estatal. extremamente discutido inclusive pelos seguidores de Habermas. Jürgen. refletindo uma 6 Habermas. O terceiro e último passo é a apropriação da teoria sistêmica. Suhrkamp. os quais devem ser preservados para o Habermas maduro. relativamente a ação política reformadora. A atitude agressiva do início da obra é substituída por uma postura defensiva em relação ao Estado e mercado. justiça (mundo social).

Essa ênfase no proceduralismo desloca o Habermas maduro do campo do republicanismo radical em favor de um liberalismo social-democrático O que fica como ganho em relação à teoria crítica anterior é precisamente a possibilidade de apreender o mundo moderno para além da razão instrumental percebida como totalitária. Jürgen. Suhrkamp. Fundamental para essa empresa passa a ser a distinção entre “mundo da vida” (Lebenswelt) e “sistema” (System). tanto em Weber quanto nos frankfurtianos. Frankfurt. fundamental para que compreendamos a especificidade da teoria crítica habermasiana e. que impede de pensar-se em formas pós-tradicionais de solidariedade social. É exatamente esse pressuposto da teoria crítica anterior. nesse sentido. especialmente. O tema principal do livro é o resgate analítico e histórico do conceito de sociedade dual construido e revisado inúmeras vezes nas décadas anteriores. A obra que condensa e consolida os estudos realizados nas décadas de 60 e 70 é a “Teoria da Ação Comunicativa”7 de 1981. assim como dar conta da possibilidade mesma da sua crítica. O que está em jogo aqui é a recusa da visão de que a sociedade como um todo deva ser democratizada. enquanto esferas sociais regidas por principios reguladores mutuamente excludentes. Uma exposição dos conceitos de mundo da vida e sistema torna-se. E apenas a partir da possibilidade de pensar-se a solidariedade social a partir de um interesse comum racionalmente obtido. para que possamos compreender por que o direito irá assumir um papel tão proeminente nos 7 Habermas. . é que permite nomear as perdas e o que é destruído na nova modernidade. o que exige uma espécie de “compromisso” entre as necessidades funcionais da complexidade social e formas pós-tradicionais de integração social. 1987. é a solidariedade específica à modernidade tardia que passa a ser impossível de fundamentação racional. Theorie des Kommunikativen Handelns (volumes Ie II). 13 forma de lidar com reivindicações valorativas. sendo antes uma atitude do que um conteúdo. Dentro do ponto de partida da teoria social anterior como um todo. a presença do interesse geral no particular como diria Horkheimer. O conceito dual de sociedade é a pedra de toque da originalidade da teoria crítica de Jürgen Habermas.

388 . consuma a transformação operada na obra parsoniana da integração social em favor da integração sistêmica. tanto o dispêndio que o processo de 8 38 Habermas. A crítica habermasiana à teoria sistêmica parsoniana concentra-se. a generalização dessa idéia levaria ao êrro e a omissão de desigualdades importantes entre as diversas esferas sociais. mas sim como uma rêde de mecanismos funcionais que regulam as conseqüências inintencionais desses atores.. no âmbito do sistema político.353.39 A vantagem do meio regulador consiste na sua capacidade de. 14 últimos desenvolvimentos de sua teoria deliberativa da democracia contemporânea. A teoria dos meios foi uma idéia que Parsons "importou" da economia para a sociologia.pag. não mais como uma relação intencional dos atores. 1987 II. substituir com vantagens a comunicação linguística. a interação entre os atores sociais passa a ser vista. na censura do exagero na generalização da noção de meio regulativo. Para Habermas. Essas vantagens apontam principalmente para os ganhos de eficiência dos meios reguladores que diminuem. preferencialmente. 9 39 Op. a teoria dos meios regulativos que irá desenvolver-se a partir dessa idéia. do poder como regulador do sub-sistema político. pag. no entanto.38 Para Parsons. A economia neo-clássica havia criado a idéia da economia como um sub-sistema relativamente independente que regula suas trocas e relações com outros sub-sistemas através do meio dinheiro. e finalmente. Para Habermas. o dinheiro é apenas o exemplo mais claro de uma forma de regulação que ele irá estender a todos os campos da vida social. às obrigações valorativas relativamente ao sistema da preservaçåo de modêlos estruturais. precisamente. para a influência. assim como. Jürgen.cit. sob certas circunstâncias. no sistema da integração social. se bem com limitações importantes. Essa teoria tem como noção fundamental o conceito de meio regulativo. Em outras palavras. se é razoável pensar-se no dinheiro como regulador das relações e trocas econômicas. o papel do dinheiro na economia foi analogamente expandido para o poder. O conceito de sistema na teoria habermasiana é conseguido a partir da recepção da teoria sistêmica parsoniana. Assim sendo.

do qual o meio regulativo é uma espécie de "representante". A Alter (o receptor da proposta na linguagem parsoniana) restam duas alternativas. exige um "ancoramento" em relação ao mundo da vida bem mais profunda e cheia de conseqüências. certas limitações. a utilidade é o valor genérico e a rentabilidade é o critério no qual o sucesso é medido. a situação básica é a troca de mercadorias.cit.41 A tentativa de expandir o conceito de meio regulador do dinheiro para o poder implica. 11 41 Op. apenas graduais. está em condições de dirigir e manipular a escolha de Alter a partir de novas ofertas.positiva ou negativa.cit.à oferta de Ego (o emissor da proposta) o qual. 15 entendimento sempre acarreta.pag.. A situação que condiciona a escolha dos atores baseia-se numa clara relação de interesses que permite que os atores fundamentem suas decisões exclusivamente a partir do cálculo do sucesso e da maior vantagem possível. com vantagens.cit. A diferença aqui não se refere apenas ao fato do 10 40 Op. todavia. messibilidade.pag.398. propicia uma rejunção desse meio ao mundo da vida. A separação do meio dinheiro do contexto do mundo da vida não é no entanto total. Essas distinções são. como no caso do processo que visa o entendimento temos uma força motivada empiricamente. A regulação formal das relações de troca pelo direito privado. armazenamento e calculabilidade que o poder apresenta em relação ao dinheiro. é eliminada pelos meios reguladores na medida em que um valor genérico embutido no sub-sistema.. predetermina a orientação dos atores envolvidos.393. por sua vez.42Decisivo entretanto é que o poder. . a partir da satisfação de necessidades por meio de bens materiais e palpáveis. Ao invés de apelar a uma força motivada racionalmente. Os parceiros da troca seguem interesses econômicos. para Habermas.402/403.. Inicialmente existem uma série de diferenças quantitativas na possibilidade de circulação. A sempre presente possibilidade do dissenso na interação comunicativa.40 No caso paradigmático do dinheiro. 12 42 Op. a interação linguística enquanto regulador da coordenação entre os atores nas relações específicas do sub-sistema econômico. Sob essas condições pode o dinheiro substituir. assim como diminue o risco do fracasso na busca desse entendimento. ao contrário do dinheiro. ou seja.pag.

a que impediria que as questões relativas à consecusão dos objetivos comuns de uma comunidade (valor genérico do meio poder) pudessem ser resolvidos sem o recurso a um consenso linguístico.. enquanto na relação de poder a heteronomia seria constitutiva.43 A causa da necessidade estrutural do meio poder por legitimação. ganha sentido a crítica habermasiana da "razão funcionalista". Vimos como na passagem do dinheiro para o poder. Habermas parte do princípio que na relação de troca.pag. o fato de que a normalização das relações de trabalho nos países industriais na Europa e América.44 A concepção habermasiana da troca de mercadorias como uma relação entre iguais. a comparação com o dinheiro não apresenta nenhuma analogia. Enquanto na relação de troca nenhum dos envolvidos seria prejudicado no seu cálculo da utilidade (valor genérico do meio regulador dinheiro). com certeza.pag. 16 poder reassociar-se ao mundo da vida por intermédio das normas de direito público. a relação entre o detentor da mercadoria força de trabalho e o detentor de meios de produção no mercado capitalista. teríamos uma relação entre iguais. regulada pelo dinheiro. . Nesse contexto. 13 43 Op.cit.cit. Essa necessidade faz com que possamos. deve-se à relação desigual que marca toda relação de poder.404. A legitimidade da expansão desse conceito para a análise da integração social. que eles efetivamente perseguem fins comuns. com base em razões criticáveis e racionais. O ponto decisivo é que o poder necessita de legitimação. em oposição às de direito privado como no caso do dinheiro. Os dominadores precisam demonstrar. pressupõe. tenha transformado. assim como para o sistema de preservação de modelos estruturais (os dois outros sub-sistemas sociais da teoria parsoniana além da economia e da política) é negada completamente por Habermas. Os teóricos sistêmico-funcionalistas não teriam captado a especificidade desses sub-sistemas. e para esse fim. a noção de meio regulador passa a ser aceita apenas com restrições importantes. teríamos na relação entre dominantes e dominados uma desigualdade estrutural. de forma fundamental. referirmo-nos ao poder como um meio regulativo.406. os quais equivalem ao mundo da vida habermasiano. apenas com reservas.. 14 44 Op.

o que. ainda que esquematicamente. temos a admissão do conceito de meio regulativo apenas para a economia e. Ego é obrigado a conversar com Alter para convencê-lo a mudar de opinião.1985. . O objetivo da pragmática universal é explicitar e reconstruir as condições universais do sistema de regras que geram a possibilidade de um diálogo15. Para Habermas. a tentativa de mudar as "intenções" de Alter. Os primeiros devem modificar a "situação" onde Ego e Alter se encontram para conseguir sucesso. da reconstrução do sistema de regras as quais um emissor competente faz uso para a construção de frases. no entanto. omití-las novamente.415. e pelos meios influência e obrigações valorativas.. Para modificar a "intenção” de Alter. à política. Nesse sentido. Do contrário. O próprio Parsons reconhece a distinção entre o tipo de influência que Ego exerce sobre Alter.102. de resto. como veremos. restaria a Ego a possibilidade de atuar sobre a “situação”. Essa singularidade do sub-sistema político irá mais tarde. e o segundo o reconhecimento de reivindicações cognitivas. pag. A força ilocutiva própria às interações linguísticas é uma condição universal e necessária nesse caso. op.cit.cit. assumir a forma de uma dualidade específica do sub-sistema político dividido em poder administrativo e poder comunicativo.46 Para Habermas.pag. no caso da interação pelos meios dinheiro e poder. Habermas parte da distinção entre língua e fala (ou diálogo) para diferenciar os níveis de análise da linguistica que se ocupa. o que Habermas entende por “pragmática universal”. Parsons aponta a distinção entre ação estratégica e comunicativa para depois. Jürgen. confere o sentido da ação estratégica. esses dois sub-sistemas representam antes duas formas de entendimento: O primeiro baseado no reconhecimento de reivindicações valorativas normativas. 16 Habermas. as frases são 15 46 Op. Antes de analisarmos o conceito de mundo da vida torna-se necessário compreender-se. enquanto teoria da capacidade linguística nos termos de Chomsky. Como resultado da recepção parcial da teoria sistêmica parsoniana. ao contrário. os últimos exigem. 17 que não podem prescindir do recurso da formação consensual da vontade racionalmente motivada. de forma condicionada.

enquanto ciência formal. ao contrário de Austin. ou seja.cit. ocupa-se da língua enquanto estrutura e não enquanto processo. ou seja. chamado de "força ilocutiva" por Austin. 18 Op. As expressões são frases "em situação". constitui uma relação entre emissor e receptor.pag. Esse aspecto pragmático das expressões. portanto. e isso é fundamental para o conceito de pragmática universal. Para Habermas. unidades pragmáticas da fala ou do diálogo. ou seja. posto que determina a forma em que a proposição é utilizada. Um entendimento entre emissor e receptor só se efetiva quando os dois níveis são consumados.359. procura Habermas uma análise formal também das “expressões”17. O primeiro elemento. Para Habermas. A linguística ocupa-se. que é o elemento dominante. ou seja. pag.. passível de exame discursivo e racional 17 1 7 Op. no caso "que voltarei amanhã".. Um ponto decisivo nessa apropriação crítica das investigações de Austin por Habermas é a reformulação do sentido do componente performativo. Austin a denominar essas unidades elementares do diálogo de "atos linguísticos". motivou J. efetuo uma ação. O segundo componente é o dependente e indica "sobre o que" emissor e receptor se comunicam. De modo análogo à linguística chomskyana. da língua em oposição à fala. a força ilocutiva do componente performativo possui uma base racional. é passível de uma análise formal e não apenas empírica. L.. Essa base racional do componente ilocutivo reside no caráter "cognitivo".cit. Como no exemplo acima eles são formados: A) por um elemento performativo. no caso "eu prometo a você". No exemplo: eu prometo a você que voltarei amanhã. também a fala ou o diálogo. e B) por um elemento proposicional.102. 18 os elementos fundamentais do objeto de estudo da linguística. Os atos linguísticos enquanto unidades elementares do diálogo possuem uma estrutura dupla. . eu não apenas "comunico" uma promessa mas "prometo" de fato algo18. Com um ato liguístico eu não apenas digo ou comunico alguma coisa mas também "atuo". O segundo é o nível do objeto sobre o qual os atores se entendem. O primeiro nível é o da intersubjetividade no qual os atores se entendem entre sí. o elemento processual portanto.

A reivindicação pretendida é a de justiça baseada na legitimidade de relações intersubjetivas reconhecidas comumente. Apesar desses três aspectos existirem sempre de forma universal e necessária em todo ato linguístico. que confere sentido à reivindicação à sinceridade. Cabe ao conceito de mundo da vida 19 Op. à justiça. op. pode-se inferir do componente ilocutivo qual dos três aspectos foi privilegiado pelo emissor . A reivindicação pretendida nesse caso é a da verdade. pag. 1987 I.cit. o terceiro tipo de ação é a expressiva.cit. o segundo tipo de ato ou ação linguística é a regulativa. pela tentativa de interpretação de um estado de coisas. a distinção da antinomia entre realidade e ilusão (Wesen und Erscheinung).433. constituem-se pela referência do emissor a algo no mundo objetivo. os constativos. Nesse caso o emissor faz referência a algo no "mundo social" compartilhado tanto pelo emissor quanto pelo receptor. a distinção entre ser e dever ser (Sein und Sollen) que inspira a reivindicação à justiça. essas reivindicações valorativas são exatamente três: a reivindicação valorativa à verdade. ao qual apenas ele tem acesso privilegiado. a reivindicação pretendida nesse caso é a da sinceridade. que criam “obrigações” para os participantes da comunicação. sendo objeto da linguística. e à sinceridade. pags. na qual o emissor faz referência ao próprio mundo subjetivo. Um quarto tipo de ato linguístico seria o comunicativo (Kommunikative) o qual foge ao âmbito da pragmática universal.19 Para Habermas. . vai ser a base do conceito de “ação comunicativa” em Habermas. Jürgen. Se a validade dos atos linguísticos pode ser afirmada ou negada sob esses exatos três aspectos. 19 baseado em argumentos das “reivindicações valorativas” contidas no elemento ilocutivo.21 O poder vinculante dos atos de fala. Cada um deles irá constituir-se segundo o aspecto privilegiado pelo emissor: a) a primeira classe de atos linguísticos. 21 Habermas. Jürgen.1985.20 Os atos linguísticos pressupõem três distinções fundamentais para o estabelecimento de uma comunicação: a distinção entre ser e aparência (Sein und Schein) que confere sentido a reivindicação da verdade. ou seja. pag.435 até 439.. e. A reivindicação pretendida no caso é a da compreensibilidade. pode então Habermas basear a partir daí sua divisão dos atos linguísticos. finalmente.103. 20 Habermas.

delimita a esfera do mundo da vida que será objeto da discussão dos atores.198. em relação a três mundos formais: o objetivo (da natureza exterior). por sua vez. para Habermas. Enquanto que o mundo da vida é para o entendimento constitutivo. assim como pelas tradições e valores transmitidos pela língua. por sua vez. temos na proposição a incorporação do conhecimento tematizado. e o subjetivo (da natureza interna) . Num ato linguístico qualquer. como vimos. do sentido que esse mesmo nome assume na fenomenologia social de um A.187 até 192.pag. . o social (da sociedade). tanto do conhecimento “com- tematizado” quanto do conhecimento tematizado. O mundo da vida é precisamente o pano de fundo que permite o entendimento dos atores nesses três níveis.Schutz ou um T. apresenta um caráter meramente com-temático. no qual ele está desde sempre inserido. um tema representa o domínio de relevância que constitui uma situação a partir dos planos de pelo menos um dos atores envolvidos. Para esses autores.47 Aqui cabe distinguir essa noção de tema. O entendimento dá-se sempre. que é retirada do todo uniforme e indiviso pela proposição de um tema. A concretização do horizonte do mundo da vida consuma-se com a situação. O conceito de mundo da vida significa para Habermas o "lugar transcendental" do indivíduo.. O tema. Habermas parte da análise do conhecimento implícito como a base da práxis diária do mundo da vida.cit. posto que se consuma numa ação e não na 22 47 Op. temos que analisar o mundo da vida de uma perspectiva formal- pragmática. e em relação ao qual é impossível uma atitude de distância.48 Para entender-se como a concepção habermasiana foge à referência ao papel da consciência individual. 23 48 Op. Uma situação é uma parte do mundo da vida..cit. Ele é também o lugar que permite as condições de possibilidade do entendimento e da crítica. Esse conhecimento implícito ou pré-reflexivo é distinto. os três mundos formam o sistêma de referência sobre o que se produz o entendimento.pag. no sentido de lograr a realização de seus fins. Esse "pano de fundo" é formado pela cultura e pela língua. 20 esclarecer de que modo cada uma dessas relações na dimensão da ação social contribue para a reprodução da integração social como um todo. O componente performativo. Luckmann. A referência à consciência individual é clara e imediata.

Esse último nível apresenta três características principais: a) a sua "imediaticidade" que se deve ao caráter não temático de certezas. mas que.50 O primeiro desses níveis refere-se ao horizonte não imediatamente relacionado com a situação dialógica em termos espaço-temporais.89. b) um conhecimento contextual dependente do tema proposto. Não temáticas são precisamente aquelas pressuposições através das quais uma ação linguística pode realizar-se e ser tida como legítima ou não. O segundo nível diz respeito. por outro lado. . Jürgen. O terceiro nível. Suhrkamp. ou seja. Apenas através do esforço metódico pode-se chegar a esse nível e torná-lo explícito.pag. exíge-se uma descrição do mesmo. Ele forma a fonte obscura e inconsciente dos dois outros níveis. Habermas distingue três níveis do conhecimento não temático: a) um horizonte de conhecimento relativo à situação..cit. 26 51 Op. exatamente pela impossibilidade do seu acesso pela simples mudança de perspectiva. a passagem da perspectiva do ator para a do observador.93. Esse é o terreno no qual todo conhecimento tematizado ou com-tematizado apoia-se e que. c) o "holismo" que confere o caráter de entrelaçamento e mistura das certezas que compõem esse nível. oferece as condições para a aceitabilidade das expressões. Os dois primeiros são conhecimentos de primeiro plano em comparação ao último. em última instância. 21 apresentação explícita de um conhecimento.pag. 1988.24 O conhecimento pré-reflexivo não-temático distingui-se do acima analisado conhecimento com-tematizado. Nachmetaphysiches Denken. Para a apropriação do significado do ato ilocutivo assim consumado. Essas três características do conhecimento de fundo confere a particularidade de "função fundamental" do mundo da vida. O conhecimento pré- reflexivo exige uma análise de pressuposições.51 Sob o ponto 24 Habermas. por sua vez.cit. ao contexto mais amplo que o compartilhamento de uma língua ou cultura oferece. Frankfurt. difere dos dois anteriores pela dificuldade de tornar-se problematizável.. e c) um conhecimento de fundo. ainda assim. b) a "força totalitária" que implica no dado da intersubjetividade como primário (e não o "corpo" como na fenomenologia). propicia a plausibilidade das reivindicações valorativas propostas. 25 50 Op.

são indiretos e expelham-se nas experiências com o mundo exterior. e têm a ver portanto.pag. inauguram-se novas formas de ver. reprodução essa possibilitada e mediada pela interação comunicativa entre os atores.pag. Essa perspectiva objetivante permite captar o mundo da vida enquanto "reprodução simbólica". o ator não é o iniciador dos processos.. Cultura é a reserva de conhecimentos alimentada pelas interpretações dos participantes nos 27 52 Op. Talvez esteja aqui o elemento de "surpresa".. As experiências estéticas. e sob o aspecto da socialização temos a produção de identidades individuais.cit. o mundo da vida deixa-se ver e analisar apenas a partir de uma mudança de perspectiva objetivante. 28 53 Op. Como um todo. 22 de vista ontogenético. A tradição cultural é possibilitada pelo processo de entendimento. a produção de ordens legítimas pela coordenação de ações (as quais baseiam-se no potencial integrativo do componente ilocutivo das ações linguísticas). consuma-se na perspectiva participativa de atores empenhados no processo de entendimento.52 A interação social baseada na ação comunicativa contribue para a reprodução do mundo da vida em cada um dos três aspectos nos quais um emissor entende-se com um receptor.53 Assim sendo. .96/97.96. dessa forma. de criação do novo. consuma-se de forma gradual e lenta. A terminologia de conhecimento de fundo. pelo menos potencialmente já que Habermas une as experiências do mundo interior com a arte e a experiência estética em geral. de primeiro plano e situacional. mas sim produto de tradições. Aqui. não fazem parte das formas práticas do mundo cognitivo e moral. percebe-se como a ação comunicativa permite a reprodução do mundo da vida. Com a coordenação de ações comunicativas temos a possibilidade de integração social de uma sociedade. e a produção de estruturas de personalidade pelo processo de socialização. As experiências que têm a ver com a natureza interna. sentir e se comportar. a distinção entre a relação com o mundo exterior e com o mundo social. com a função constitutiva e descobridora da língua. Com a autonomização estética dessas experiências subjetivas.cit. com o mundo dos sentimentos e com o próprio corpo portanto. Já sob o ponto de vista do entendimento sobre o dito ou afirmado temos a produção e manutenção das tradições culturais.

. a palavra sociedade tanto para designar a formaçåo social como um todo. Ele procura. entrelaçados entre si. dessa forma. como atesta o exemplo das religiões mundiais. nas quais os participantes dos processos comunicativos regulam seu pertencimento a grupos sociais e asseguram solidariedade. Todos os aspectos são. H. Com esse conceito de mundo da vida. 30 55 Habermas. Personalidade é o conjunto de motivações que inspiram o sujeito à ação e produz identidade. superar as concepções unilaterais dominantes que enfatizavam apenas um desses aspectos. quanto para referir-se a uma parcialidade desta que se ocupa da produção de solidariedade. cada uma delas preservando sua legitimidade regional. As sociedades são mais amplas que personalidades no aspecto espaço-temporal. Sociedade54 compõe-se de ordens legítimas. como em Durkheim e Parsons. 29 54 Aqui Habermas usa.55 O conceito de sociedade como um todo enquanto uma combinação de reprodução material (sistema) e reprodução simbólica (mundo da vida). da solidariedade social e da socialização. como na obra de G. a exemplo de Parsons. mas. também é interpretado por Habermas como uma conquista em relação a outros reducionismos que tomam a parte pelo todo.reducionismo sistêmico . mais limitadas que as tradições culturais. Essa concepção dual implica também na adoção das perspectivas interna do sujeito-ator (mundo da vida) e externa não- participante e observacional (sistema).pag. Os três aspectos valorativos implícitos em qualquer ação linguística. como no caso da fenomenologia social. e finalmente a redução social-psicologista. são vistos aqui sob a perspectiva da sua contribuição para uma teoria social. incorrendo assim em reducionismos distintos: um de caráter culturalista. Jürgen. 23 processos comunicativos. Mead. outro pela ênfase exclusiva no aspecto da solidariedade social. como no exemplo de Parsons . por sua vez. logra Habermas descrever a forma como consuma-se a reprodução simbólica de uma sociedade nos três níveis da cultura.ou Mead .reducionismo pelo aspecto do mundo da vida. Os três componentes do mundo da vida possuem dimensões distintas.180. no entanto. As tradições culturais são as mais amplas em seus efeitos espaço- temporais.1987 II..

só as sociedades modernas resultantes do processo de racionalização que marcou a passagem. Jürgen. Essas duas patologias são a colonização do mundo da vida e a fragmentação do mundo da vida. Entre Facticidade e Validade. C) O DIREITO COMO MEDIADOR ENTRE SISTEMA E MUNDO DA VIDA 31 Habermas. . de modo nenhum. não permite perceber-se como na dimensão concreta da vida prática de todos nós. de modo a possibilitar. O conceito dual de sociedade habermasiano permite perceber a seletividade do desenvolvimento ocidental. Tempo Brasileiro. em número de duas. Ao contrário. Rio de Janeiro. A concepção dual de sociedade em Habermas permite um diagnóstico original das patologias do mundo moderno. a tese da fragmentação do mundo da vida aponta para o abismo entre a cultura dos especialistas e a massa. visa precisamente preencher essa lacuna. Direito e Democracia. na articulação entre democracia e complexidade social. separáveis analiticamente. 24 A sociedade como junção de sistema e mundo da vida não foi. apresentam essa dualidade. assim como a consideração das conquistas positivas e as potencialidades da modernidade ocidental. das sociedades tradicionais às modernas. ao mesmo tempo. exatamente trinta anos após a publicação do “Mudança Estrututral”. Podemos perceber nessa distância de trinta anos como as mesmas questões que preocupavam o jovem Habermas puderam ser reapreciadas agora dentro de um quadro referencial teórico original e pessoal. acarretando a desintegração do elo orgânico entre a apropriação e a crítica da tradição herdada no contexto da prática cotidiana. As referências seguem a edição brasileira traduzida por Flávio Beno Siebeneichler.. No entanto. pode-se pensar na articulação entre comunicação e funcionalidade ou. A publicação de “Direito e Democracia”31 em 1992. o nível de abstração conceitual do “Teoria da Ação Comunicativa”. Elas são. uma consciência crítica acerca de suas consequências indesejáveis por um lado. Enquanto a tese da colonização do mundo da vida refere-se a instrumentalização dos recursos comunicativos pelos imperativos sistemicos do dinheiro e do poder administrativo. 1997. em outros termos. apesar de intimamente relacionadas. no mundo ocidental. nos países avançados do ocidente. um dado sempre existente. levando-se em conta as instituições efetivamente existentes.

como o “paradoxo hobbesiano” bem mostra) baseadas. em última instância. O aspecto motivacional. o qual se alimenta e se encontra ligado à força do elemento sagrado religiosamente sublimado. Ao contrário. antes de tudo. com a realidade institucional e a complexidade funcional característica das sociedades modernas. portanto. em certo sentido. apenas ele permite a expressão simultânea de um acordo racionalmente motivado com a ameaça de sanções externas. no contexto do desenvolvimento da teoria da ação comunicativa. Da resolução desse desafio depende tanto a vida prática quanto a compreensão teórica da democracia moderna. reduz-se a “fraca” e despretensiosa força da motivação racional. . O direito torna-se fundamental para o projeto habermasiano na medida em que. explica-se pela necessidade. compreendida essa última como a possibilidade de uma condução de vida (individual ou coletiva) consciente. o desafio de uma sociedade profanizada é estabilizar formas de integração social (as quais por definição não podem ser conseguidas apenas com o recurso à ação estratégica. não se pode falar de “avaliações fortes”. perceber a relação interna entre constrangimentos sociais inexoráveis e racionalidade. em favor de uma visão intersubjetiva baseada no uso comum do meio linguistico prenhe de consequências. A razão comunicativa distingui-se de outras visões da razão prática. no agir comunicativo. de um conjunto de valores que guiam consciente ou inconscientemente a ação humana. ou seja. Ele permite. 25 O interesse que levou Habermas ao estudo da moderna teoria jurídica num esforço que durou toda a década de 80. nas condições das sociedades pós-tradicionais. aqui importa apenas os pressupostos e consequências inevitáveis da comunicação linguística. Ao contrário do direito tradicional. Nesse contexto. A dificuldade e a importância da emprêsa habermasiana fica estabelecida já a partir deste dado fundamental: o desafio de articular complexidade funcional e espontaneidade social. por tentar evitar a referência da racionalidade à sujeitos individuais ou coletivos. de precisar a relação entre a razão comunicativa produzida espontaneamente nos contextos do mundo da vida racionalizada.

o duplo aspecto do direito estatal. em princípios impessoais vinculantes. Primeiro torna-se possível transformar-se influência (uma categoria empírica) em poder autorizado (uma categoria moral) normativamente pelo reconhecimento intersubjetivo de normas. No nível da moralidade pré-convencional. Quando chegamos a esse ponto de desenvolvimento. o fato de concentrar em sí simultaneamente um momento de imparcialidade (moral) e instrumentalidade (eficácia funcional) está criado. 26 Nas condições das sociedades modernas cabe ao direito. esse vínculo entre facticidade e validade não é externo. Nesse contexto é possível a um chefe político ou um juiz apelar para uma moral que coage a todos enquanto moral. . na medida em que lhe resta apelar para sua influência. a imbricação entre moralidade e instrumentalidade como momentos inseparáveis do sistema jurídico 32 . agora. Este nível de desenvolvimento só é alcançado com o advento da consciência moral convencional. o direito coercitivo só consegue garantir sua força integradora apenas na medida em que os destinatários da norma se vejam. uma nova transformação da consciência moral passa a ser decisiva para o desenvolvimento do direito 32 Op. permitindo a organização burocrática da dominação. Essa exoneração se dá na medida em que a validade social do direito depende da facticidade artificial da ameaça de sanções através do Estado. O argumento habermasiano contra o positivismo jurídico (Max Weber. vol. 193/249. Duas consequências importantes advém desse fato. precisamente. como na suposição positivista de um direito que se legitima a sí mesmo através do procedimento. No contexto de uma sociedade pós-tradicional. na evolução social. No entanto. como os autores das mesmas. exonerar os atores da sobrecarga da integração social. ao mesmo tempo. um árbitro pode apenas fechar “compromissos”..II pags. Na passagem para a modernidade. visto que a autoridade legítima baseia-se.cit. e não apenas através de seu prestígio pessoal ou influência. A uma autoridade impessoal e á consciência moral dos participantes ele não pode ainda apelar. A partir dessa transformação abre-se também a possibilidade de delegação de autoridade. Niklas Luhmann) pode ser melhor compreendido se percebermos como se dá historicamente.

No contexto de uma moralidade pós-convencional não existe mais espaço para a integração normativa da sociedade a partir de princípios superiores percebidos como imutáveis. enquanto no segundo uma compensação de interesses. temos sempre processos sem sujeito sob a forma de foros. na medida em que se abre para caminhos de argumentação moral. arenas e associações onde a forma anônima é constitutiva. em linguagem compreensível aos subsistemas altamente diferenciados da economia e da política e vice versa. e a extensão dessa idéia no contrato social. o motivo que permite que ele se transforme. A ambiguidade constitutiva do direito é. o direito moderno provê sua legitimação dessa base de uma moral procedural e autônoma que não se restringe ao aspecto instrumental. A outra metade do poder político é o poder administrativo. a soberania do povo não se encarna mais na idéia de sujeito. é a racionalidade procedural a única forma que pode. No Estado de direito delineado a partir da teoria do discurso. A coordenação de ações individuais se dá de modo distinto em cada caso. em condições pós- tradicionais. ao mesmo tempo. no meio por excelência que permite a tradução da linguagem cotidiana. agora. É esse raciocínio que está na base da afirmação de Habermas de que não existe direito autônomo sem democracia real. É esse poder comunicativo anônimo. que impera no mundo da vida. o qual funciona segundo preferências funcionalmente embutidas no sistema burocrático estatal. A figura do contrato. ao mesmo tempo. ou de que o direito coercitivo só consegue garantir sua força integradora apenas na medida em que os destinatários da norma se vejam. constituir-se como a instância de imparcialidade do direito. 27 moderno. central no direito civil moderno. é o fundamento mesmo do direito constitucional moderno sob a forma de uma aceitação sem pressões por parte de todos dos fundamentos da organização política. Nesse sentido. temos um consenso acerca de valores. nas modernas sociedades complexas. No primeiro caso temos entendimento e . A autonomia do direito moderno (seja na legislação seja na jurisdição) só pode ser conseguida. seja este coletivo ou individual. estruturado na circulação de consultas e de decisões racionais que constituem a parte comunicativa do poder político do Estado democrático de direito. Na visão habermasiana. No primeiro caso. como os autores das mesmas. Ao contrário.

Nesse sentido. Assim sendo. No entanto. o direito serve também para espelhar a vontade política de uma forma de vida compartilhada intersubjetivamente e de acordo com uma situação de interesses dados e de fins pragmaticamente escolhidos. O poder administrativo não deve auto-reproduzir-se. No primeiro caso. 28 no segundo negociação. a “igualdade” típica do sistema jurídico não se transforma diretamente em justiça. Mas apenas àqueles generalizáveis. Ao direito. o qual se refere apenas a normas passíveis de universalização. O Estado de direito deve precisamente regular essa procuração do poder comunicativo que se transforma em poder administrativo. ou seja. Isso significa que o meio do direito se abre também. mas sim regenerar-se a partir do poder comunicativo. A noção de Estado de direito ilumina a forma de produção pós-tradicional de um recurso escasso no mundo contemporâneo: a solidariedade. impedindo este último de tornar-se uma implantação nua e crua de interesses privilegiados. só é possível porque. os argumentos também se constituem em motivos para a acão. A extraordinária dificuldade nesse tema não é a distinção analítica entre as duas formas de coordenação de ações. para questões pragmáticas e éticas. ao contrário da moral. Também as normas morais incorporam interesses e valores. mas a sua interpenetração. em medida considerável. no agir comunicativo. no segundo a um pacto. O imbricamento entre normatização discursiva do direito e formação comunicativa do poder. poder administrativo e solidariedade. e este aspecto inaugura um amplo campo de questões fundamentais. a união ou o acordo dá ensejo a um consenso. ou seja. interesses práticos concorrentes e normas comunitárias ou valores culturais não universalizáveis. Em uma proporção importante. nas comunidades concretas. Os temas . cabe organizar comunidades jurídicas que se afirmam num ambiente social dado e sob especialíssimas condições históricas. o Estado de direito deve produzir um equilíbrio entre todos os poderes de integração global da sociedade: dinheiro. dado que o grau de abstração do ordenamento não atinge o grau de abstração típico de questões de justiça. A enorme importância do direito para Habermas advém dessa circunstância: para ele o direito é o meio através do qual o poder comunicativo pode transformar-se em poder administrativo. não são apenas os argumentos morais universalizáveis que contam. passíveis de universalização.

Nesse sentido. . mas deve apenas influencia-lo e direcioná-lo. I pag. que prefigura a formação política da vontade influindo nela. pode ser respondida racionalmente de várias formas. de uma instrumentalização do direito para fins estratégicos do poder administrativo a partir do nexo de de constituição recíproca existente entre direito e poder político. sob a forma de discursos morais universalizáveis. 29 relevantes jurídicamente necessariamente também abrangem questões de vida concreta. O princípio da soberania popular reinterpretada pela teoria do discurso implica uma constante vigilância em relação à possibilidade. Essa formação informal da opinião.cit. aberta a todos os cidadãos. sempre latente. o poder comunicativo não pode dominar o Estado (o poder administrativo). 209. Além disso. Negociações pragmáticas eqüitativas pressupõem e não destroem o princípio do discurso33. bens coletivos particulares e questões de identidade grupal em sentido estrito. Afinal. No entanto. Isso significa que o ordenamento jurídico tem que abrir- se para questões éticas e não apenas morais. A generalidade e igualdade jurídica só é alcançada quando se expressa um consenso racional com relação a todos esses tipos de problema. tem que levar em conta problemas de compensação de interesses não generalizáveis forçando compromissos e acordos pragmáticos. Vol. o fundamento mesmo do processo democrático é percebido como o mecanismo de formação discursivamente estruturada da opinião e da vontade (no caso do legislador político) com relação à questão: o que devemos fazer? Esta questão.. A soberania popular na teoria do discurso. Independentemente dessa influência apenas o Estado pode agir 33 Op. resulta na necessidade do pluralismo político assegurada pela formação informal de opinião na esfera pública política. até os compromissos pragmáticos precisam ser justificados. como vimos. na medida em que esses acordos precisam da suposição da eqüidade para serem aceitos como válidos. num contexto de racionalização do mundo da vida. requer fluxo livre e espontâneo de opiniões não podendo ser organizadas em ou por corporações. O mesmo princípio é válido para as questões éticas. os discursos pragmáticos e éticos não desvirtuam o fundamento discursivo (e moral) da democracia moderna. Ao mesmo tempo.

Assim. esta circunstância me parece de longe a mais importante: A esfera pública precisa contar com uma base social na qual os direitos iguais dos cidadãos conseguiram eficácia social. desse modo. lançando fora os grilhões milenares da estratificação social e da exploração. 27 35 Op.35 O direito é o transformador da linguagem coloquial do mundo da vida racionalizado na linguagem mediática dos sistemas auto-regulados da economia e da política administrativa. por sua vez. que brotou por entre barreiras de classe.. por sua vez. Contra o republicanismo não se pensa. Para desenvolver-se plenamente. 30 legitimamente.cit. apesar de seus inúmeros conflitos. ancorados no mundo da vida. um mundo da vida racionalizado. exige uma base social de igualdade material e simbólica através da superação das barreiras criadas pela estratificação social e pela exploração sistemática. permanecendo esses sistemas. II pag. numa democracia sem sujeito que implica uma concepção descentrada de sociedade. produz formas de vida capazes de gerar novos significados. e se configurou como um potencial que. A simples regra da maioria não é em sí garantia de racionalidade. nesse contexto. em “sujeitos coletivos” de qualquer espécie. O importante é saber-se de que forma se logra uma maioria e nesse desiderato o debate público e a discussão institucionalizada de questões práticas passa a ser constitutiva do conceito de racionalidade na política34. Para uma reflexão acerca do caso brasileiro. o potencial de um pluralismo cultural sem fronteiras necessita desta base. é o fato de que uma esfera pública.. o meio jurídico reveste e transforma as comunicações do mundo da vida de tal modo que estas possam ser “compreendidas” e assimiliadas pelos códigos 34 Op. No modelo da teoria do discurso. Vol.II pag. ao qual cabe repolitizar a esfera pública e Estado. a soberania popular é procedimentalizada. Contra o liberalismo. não se defende uma idéia de sociedade compreendida economicamente. ou de modo mais abrangente. Um pressuposto dessa idéia. é o conceito de uma esfera pública racionalizada que deve garantir racionalidade e eqüidade aos procedimentos democráticos. De certo modo. vol. 33 . a qual deve garantir um bem comum apolítico.cit.

com simultaneamente alta capacidade de ação e baixa sensibilidade para a tematização de problemas sociais. possuindo. da política e do direito como dois sistemas fechados. depende da medida em que os processos de formação da opinião pública possibilitam uma formação mais ou menos espontânea da opinião . A idéia da influência da periferia sobre o centro. a qual abrangeria inúmeras instituições com funções estatais delegadas com variados graus de autonomia e uma extensa rede de compradores e fornecedores dos serviços estatais. por sua vez. O legislativo. Nas margens do centro político. por sua vez. desse modo. o complexo parlamentar e os tribunais. Essas “comportas” são. que na realidade é mais uma extensão do Estado que seu contrapolo. baixa capacidade de elaborar e reagir a essas demandas. temos uma verdadeira periferia que congrega toda uma infra-estrutura civil da esfera pública dominada pelos meios de comunicação. Com essa idéia Habermas pretende combater a visão. 31 especializados dos sistemas auto-regulados. é mais sensível a tematização de questões controversas advindas da periferia. O centro do sistema político é formado pelos complexos institucionalizados dos poderes do Estado. tem a ver com a possibilidade se quebrar o momento inercial consubstancial ao poder administrativo. A sensibilidade da periferia para tematizar questões e problemas. sem abrir mão da necessidade de legitimação desses sistemas a partir do mundo da vida. da moderna teoria dos sistemas especialmente na versão de Niklas Luhmann. no entanto. Sem esse “transformador” não seria possível à linguagem comum circular por toda a sociedade. o executivo constituiria o núcleo. Além dessa periferia. A relação entre o elemento de poder administrativo (auto-regulado) do sistema político e o mundo da vida é percebido por Habermas como uma articulação entre um centro e uma periferia. fazendo com que a rotina burocrática seja questionada de modo a sensibilizá-la para problemas latentes de integração social. central para o projeto habermasiano de aceitar o ganho em complexidade que os sistemas auto-diferenciados representam. comparativamente ao executivo. A manutenção dos fluxos comunicativos através de um “sistema de comportas” entre a periferia e o centro é fundamental para a legitimidade das decisões impositivas. basicamente. teriamos uma periferia interna. Dentre os poderes do Estado. A íntima interpenetração dessas esferas sociais é.

mas não necesariamente sua desvirtuação como acontecia no jovem Habermas do “Mudança Estrutural da Esfera Pública”. temos uma abstração do princípio da esfera pública. na medida em que o público de leigos tem que ser conquistado argumentativamente. Essa “espontaneidade” depende da maior ou menor eficácia da racionalização do mundo da vida. Do mesmo modo que o mundo da vida como um todo. a esfera pública se reproduz a partir do agir comunicativo. Cabe a essa “espontaneidade social” a produção do recurso social mais escasso nas sociedades pós- tradicionais: sentido compartilhado e. também. ou seja. solidariedade. Ela pode ser descrita como uma rede de comunicação de conteúdos e tomadas de posição e opiniões as quais são filtradas e sintetizadas ao ponto de formarem “opiniões públicas”. A esfera pública transforma-se. A forma mais ou menos democrática das associações e movimentos sociais. A partir do instante em que o espaço público se estende além das interações simples. A relação de ambas as esferas com a esfera privada.36 A esfera pública é percebida por Habermas. e isso é válido muito especialmente para a esfera 36 Solidariedeade é pensada nesse contexto não como um conceito normativo mas como uma categoria empírica. ser capaz de tematizar as questões problemáticas de modo eficiente. tem que conseguir dramatizar os problemas de modo a sensibilizar e convencer a opinião pública e contribuir para a modificação da vontade política. a partir disso. Cabe a esfera pública. a luta por influência na esfera pública pressupõe convencimento dos participantes. como uma caixa de ressonância onde os problemas politicamente relevantes problematizados no mundo da vida encontram eco. portanto. em uma instituição constitutiva do mundo moderno para Habermas. no contexto de uma esfera pública minimamente pluralista. e não apenas o seu número. Assim. 32 pública. A esfera pública é o “espaço social” da prática comunicativa que confere vitalidade ao mundo da vida. nesse sentido. é um elemento fundamental desse raciocínio. a desigualdade estrutural do acesso aos meios de comunicação e a fontes de prestígio pessoal. não retira a autoridade do público que assente. o qual enfeixa todas as relações intersubjetivas na sua definição conceitual. . Afinal. A esfera pública política compartilha com a esfera pública literária o objetivo de articular experiências e sofrimentos vividos na dimensão das vidas privadas individuais.

pluralismo de formas de vida. Ela permite a ampliação da problemática relativa ao processo de modernização brasileiro de modo a superar o aspecto meramente técnico. organizações e associações que captam os ecos dos problemas sociais que refluem das esferas privadas e se condensam na esfera pública política. envolvido no tema da modernização de Estado e mercado capitalistas. Vol. ou seja. proteção da privacidade. o conjunto de movimentos. opinião. Esse tema é de imensa atualidade para o desafio do aprofundamento democrático no caso brasileiro como veremos. O tema da esfera pública possibilita a discussão da questão do aprendizado coletivo no sentido também prático-moral como elemento principal do processo pedagógico pressuposto na democracia. II pag.cit. 98. precisa operar uma “comunicação modificada” das experiências privadas de modo a liga-las à aspectos politicamente relevantes37. 37 Op.cit. Vol. 38 Op.II pag. A importância da inserção do conceito de esfera pública na nossa discussão permite um ganho singular em relação à abordagem do que vemos nos referindo como nossa sociologia da inautenticidade. a tradução sociológica do conceito de política deliberativa. Uma esfera pública organizada na sociedade civil e baseada na formação da opinião livremente formada capaz de influênciar a formação da opinião e da vontade política do complexo parlamentar. temos a renúncia explícita do ideal de auto- regulação política da sociedade como um todo. reunião. 104. para Habermas.38 Nos trinta anos que separam o “Mudança Estrutural da Esfera Pública” do “Direito e Democracia”. . instrumental. O núcleo organizado institucionalmente da esfera pública é o que Habermas chama de sociedade civil. simultaneamente. no sentido republicano ou revolucionário marxista.. A concepção deliberativa e discursiva da democracia pode ser concebida. O objetivo de refoma social e de aprofundamento democrático deve manter-se dentro dos limites da influência do complexo parlamentar.. forma. cidadania autônoma e esfera privada intacta. sem o que os movimentos sociais da sociedade civil perdem sua forma “autorizada”. 33 pública política. O bom funcionamento de uma sociedade civil pressupõe liberdade de imprensa. como um meio termo e uma alternativa aos modelos republicanos e liberais concorrentes.

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