Você está na página 1de 33
O roteiro de documentário e o projeto fílmico. Por Marcos Santos O que é um roteiro? • “O roteiro é a forma escrita de qualquer projeto áudio visual; cinema, teatro , rádio e TV” (Comparato). • “É primeira forma de um filme” (Carrière) • “A descrição mais ou menos precisa, coerente, sistemática, e se possível atraente e compreensível de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, quaisquer que eles sejam.” (Carrière, 1996). Como surgiu? • Parente próximo do texto teatral, o modelo de escrita do roteiro de cinema foi todo desenvolvido e aperfeiçoado de forma a atender às exigências do bom planejamento da produção próximo visando sempre à redução dos custos e ampliação da margem de lucro na comercialização do produto. O documentário clássico • Imagens rigorosamente compostas • Fusão de música e ruídos, • Montagem rítmica e comentário em voz off despersonalizada. • Sua função era primariamente educativa e social, com objetivo de formar a opinião pública. • Para tudo isso, precisamos de um roteiro tanto para a produção , quanto para a montagem do filme. • As diferenças nas formas de planejamento entre os gêneros ficção e o documentário, não eram tão evidentes, pois ambas eram apoiado em roteiro. Estamos falando mais especificamente de um período em que predominava um estilo que ficou conhecido por documentário clássico, que dominou o gênero nas décadas de 20 à 50. • John Grierson (Night mail – 1936) • Em Filme e realidade, Alberto Cavalcanti, fará uma lista de recomendações para realizadores de documentários no Brasil, “NÃO negligencie o seu argumento, nem conte com a chance durante a filmagem: quando o seu argumento está pronto, seu filme está feito; apenas, ao iniciar a sua filmagem, você o recomeça novamente.” O que ocasionaria uma ruptura com esse modelo? • Final da década de 50 surge o documentário direto americano, Robert Drew, e o documentário verdade que tem na figura do francês Jean Rouch seus representantes. • Adventos técnicos como a câmera 16mm e, principalmente, do magnetofone, gravador que propicia o registro do som em fita magnética feito em sincronia com a imagem. • Tudo isso instaura uma busca pelo registro de um real em estado bruto possível graças a um processo de filmagem espontâneo sem todas as formalidades e parafernálias exigidas por uma produção cinematográfica de grande porte. • A regra é jogar com o imprevisto e o improviso da filmagem, o que valoriza sobremaneira o papel do cinegrafista na construção do documentário Esse estilo de filmagem e produção não tardará a influenciar o cinema de ficção, como atestam os primeiros filmes de John Cassavetes e Jean-Luc Godard. Influencias e Lendas • Neorealismo italiano. • Nouvelle vage francesa. • Cinema novo brasileiro. • Movimento super8 • A morte do roteiro, não é preciso de roteiro para filmar. • “Não existe roteiro para documentário”. • “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” Roteiro e documentário • “É preciso tomar notas para orientar a feitura do filme” (Godard) • A questão do controle e do descontrole, ficção ou documentário? • Pré-roteiro, pós-roteiro? • Em documentário o controle é uma aquisição gradual, parte-se de uma busca e de uma troca que externa ao cineasta. • O registro dessa troca obedecerá sempre o comando do diretor do filme responsável pela maioria das decisões de filmagem. De posse de todo o material captado, será apenas na sala de montagem que o diretor, assessorado por seu montador, terá total controle do universo de representação do filme. Roteirizar significa: • Recortar, selecionar e estruturar eventos dentro de uma ordem que necessariamente encontrará seu começo e seu fim. • A principal dúvida nasce do fato de que nem todos os roteiros de documentário se assemelham a um típico roteiro de filme de ficção, marcado pelo encadeamento de diversas cenas dramáticas, com suas respectivas descrições e diálogos detalhados. Roteiro e montagem • Muitos documentários são “resolvidos” em sua fase de pós-produção. • É o momento em que o documentarista adquire total controle do universo de representação do filme, é o momento em que a articulação das seqüências do filme, entre entrevistas, depoimentos, tomadas em locação, imagens de arquivo, entre outras imagens colocadas à disposição do repertório expressivo do documentarista, em consonância com o som, trará o sentido do filme. “um roteirista deve ter noções de montagem tão precisas quanto for possível. Um roteirista que se recusasse a adquiri-las e se restringisse a uma atividade estritamente literária estaria amputando uma parte de si próprio”. ( CARRIÉRE) Documentários de arquivo, históricos ou biográficos, que tratam de eventos passados, podem muito bem ser “escritos” antes do início das filmagens. O mesmo já não ocorre se a abordagem do assunto exigir o registro de um evento que não esteja necessariamente vinculado à vontade de produção do filme, como documentários que exploram um corpo-a-corpo com o real Roteiro ou proposta? • A proposta é uma peça de venda, é o texto de apresentação do filme, é o cartão de vista do realizador. Dicas • 1. que ele deixe claro sua justificativa para a realização do documentário (quais as boas razões para se fazer o filme), • 2. que ele demonstre saber qual tipo ideal de documentário para a abordagem do assunto em questão, • 3. que ele convença que sua equipe de produção é a única capaz de realizar o filme proposto. modelos • 1. Declaração inicial trazendo o título e assunto do filme, sua duração aproximada (formato do filme), em duas ou três linhas. • 2. Breve apresentação do assunto, para introduzir o leitor da proposta ao tema do projeto, com justificativa, para fazê-lo perceber a importância de se fazer o filme. A extensão dessa apresentação dependerá da quantidade de informações pertinentes sobre o assunto. • 3. Estratégias de abordagem, estrutura e estilo. Qual a maneira, ou quais as maneiras mais adequadas para se abordar o assunto? Qual o ponto de vista, ou quais os pontos de vista contemplados no filme? Haverá conflito entre os depoimentos? Como o filme será estruturado, quais serão principais seqüências e como elas estarão alinhadas? Qual o estilo de tratamento de som e imagem? Rosenthal sugere que as respostas a essas questões sejam apenas esboçadas, prevendo eventuais mudanças no decorrer da produção. • 4.Cronograma de filmagem. Rosenthal coloca o tópico como opcional, somente especificar quando exista um determinado evento com data marcada para ocorrer ou quando determinada época do ano for mais conveniente para as filmagens. • 5. Orçamento. A sugestão é que se inclua um orçamento aproximado. • 6. Público alvo, estratégias de marketing e distribuição. Outro tópico opcional. • 7. Curriculum do diretor e cartas de apoio e recomendação. • 8. Anexos. Fotos, vídeos, desenhos mapas, qualquer coisa que enriqueça a proposta e ajude a vender o projeto5. • No Brasil uma das referências para modelos de proposta de filmagem vem a ser os editais de concursos. Dois desses principais editais são o Doc.Tv, de iniciativa da TV Cultura com o apoio do Governo Federal através de seu Ministério da Cultura, e o Rumos Cultural, edital bancado pelo Instituto Itaú Cultural. O Doc.Tv, possui um modelo próprio para a apresentação dos projetos balizado por sete tópicos, incluindo indicações de número de linhas e páginas para cada tópico, aos quais o proponente deve conformar seu texto, além de uma breve explicação das exigências de cada tópico,. Proposta de Documentário • 01 página (Descreva a idéia cinematográfica/audiovisual do projeto de documentário. Essa idéia deve conter em si uma visão original sobre os fenômenos abordados. Não se trata de descrição do tema ou de sua importância. Ao descrever a proposta, o autor-proponente pode apontar documentários de seu conhecimento e/ou outras referências que tenham proposta semelhante.); Eleição e Descrição do(s) Objeto(s) 2.– 05 linhas para cada Objeto (O documentarista se relacionará com o que/quem para levar a cabo sua Proposta de documentário? Exemplos: personagens reais; produtos materiais e imateriais da ação humana; materiais de arquivo; manifestações da natureza etc.); Eleição e Justificativa para a(s) Estratégia(s) de Abordagem • 3. – 15 linhas para cada Estratégia de Abordagem (Como o documentarista se relacionará com cada Objeto eleito? Exemplos: modalidades de entrevista; modalidades de relação da câmera com os personagens reais; reconstituição ficcional utilizando personagens reais; construção de paisagens sonoras e/ou imagens abstratas; introdução proposital de ruídos sonoros e/ou visuais; modalidades de locução sobre imagem; formas de tratamento dos materiais de arquivo sonoros e/ou visuais; etc. Justificativa de cada Abordagem descrita.); Simulação da(s) Estratégia(s) de Abordagem (OPCIONAL) • – 4. 01 página (Imagens simulando proposta de captação e/ou edição de imagens, sugerindo possibilidades de enquadramento, de movimentação da câmera, e tratamento visual. Texto detalhando proposta de captação e/ou edição de sons, sugerindo propostas de foco sonoro, tratamento sonoro, utilização de ruídos e sons ambientes, e utilização de músicas como ilustração ou escrita. Não serão aceitos materiais audiovisuais de qualquer natureza, como cd, dvd, vhs etc.); Sugestão de Estrutura • 5. (Sugestão de estrutura do documentário a partir da(s) Estratégia(s) de Abordagem. Não se pretende a descrição definitiva do que será o documentário, e sim uma exposição de como o autorproponente pretende organizar as Estratégias de Abordagem no corpo do filme. A apresentação pode ser feita livremente a partir de texto corrido ou blocado); • 6. Plano de Produção e Cronograma Físico- financeiro – Formulário Padrão; 7. Orçamento (com previsão de impostos) – Formulário Padrão;