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Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 12, n. 2, p.

285-302, junho 2009

De H. Cleckley ao DSM-IV-TR:
a evolução do conceito de psicopatia
rumo à medicalização da delinquência*

Rogério Paes Henriques

A psicopatia é descrita como personalidade antissocial pelos 285
manuais nosográficos contemporâneos: CID-10 e DSM-IV-TR.
Contrastando tais nosografias entre si quanto aos critérios diagnósticos
propostos para a psicopatia, assinalam-se as consequências de sua
operacionalização, promovida, sobretudo, pelo DSM. Dentre elas,
destacam-se: (1) a degradação do diagnóstico ao mero levantamento
protocolar; (2) a acentuação da correlação histórica entre psicopatia
e delinquência.
Palavras-chave: Psicopatia, personalidade antissocial, CID-10, DSM-IV-TR.

* Artigo inspirado em minha dissertação de mestrado: A remedicalização da psiquia-
tria: uma reflexão crítica sobre a revolução nosológica do DSM-III (Rio de Janeiro,
IMS/UERJ, 2003). Trabalho subvencionado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado do Rio de Janeiro – Faperj.

) e exercerei esse direito. que apresentavam. 36). 1989. destacam-se a manie sans delire (“loucura sem delírio” ou “loucu- ra racional”) de Pinel e a moral insanity (“loucura moral”) de Prichard. v. em 1860. 12. na qual “(. os sinais da depravação das tendências morais: Suas tendências inatas para o mal fizeram-me designá-los do pon- to de vista médico legal. Todavia.) Da psiqui a tria germânica do século XIX à psiquiatria anglo- -saxônica do século XX: o estreitamento do conceito de psicopatia rumo à personalidade antissocial 286 Dentre os conceitos tidos como precursores da psicopatia moder- na. Fund. 1989.. a vagabundagem e as propensões precoces para toda sorte de desregramentos formam o triste balanço de sua existência mo- ral. p. A filosofia na alcova. desde a mais tenra idade. e esses infelizes (.. percebe-se que essa categoria pouco tem em comum com a atual personalidade antissocial. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L Tenho o direito de gozar de teu corpo (.) as funções do entendimento permaneciam intactas e só subsis- tiam à alteração da afetividade e à excitação.. São Paulo. junho 2009 . Latinoam.) povoam em grandes proporções as instituições penitenciárias para a primeira infância e os presídios (apud Bercherie. n. o roubo.. 2.. dos “maníacos instintivos”. 285-302.. (Marquês de Sade. O incên- dio. tratando-se da descrição pineliana da manie sans delire.. Identifica-se em Morel e Lombroso descrições clínicas muito se- melhantes à psicopatia moderna. pelo nome de maníacos instintivos. Rev. sem que nenhum limite me detenha no capricho das extorsões que me dê gosto de nele saciar. Vejamos a descrição fornecida por Morel. p. Psicopat. p. amiúde furiosa” (apud Ber- cherie. 116).

. Esta tradição. ARTIGOS Por sua vez. até hoje dificulta a pesquisa da psicopatia. que confunde equivocadamente psicopatia e conduta criminosa. p. deve-se à escola de psiquiatria alemã. de 1905 ou 1906. 285-302. inaugurada por Lombroso. a psicopatia seria sempre devida a uma disposição constitucional. no século XIX. sofrimento) era utilizada pela literatura médica em seu sentido amplo. como o atesta seu artigo Personagens psico- páticos no palco. contudo. Latinoam. 2. esse termo. a introdução do termo “psicopatia” na sua acepção mo- derna. que poderia se manifestar ou não no decorrer da vida do indivíduo. n. O surgimento e a evolução do conceito de psicopatia Na literatura psiquiátrica. pathos = paixão. sobretudo na literatura não especializada. por meio de Koch. Freud usou essa expressão em sua acepção ampla. de 1891. Portanto. antes do tra- balho de Koch. São Paulo. 22).1 Esse uso do termo “psicopatia” como sinô- nimo de doença mental ainda não desapareceu por completo. 1979. 2. junho 2009 . especula-se que ele tenha sido redigido por Freud no final de 1905 ou início de 1906. uma rígida fronteira entre psicopatia e psicose foi estabelecida. 1979. p. 12. p. não havendo ain- da uma ligação entre a psicopatia e a personalidade antissocial. dependendo in- 1. Pelo fato de o mesmo só ter sido publicado pos-mortem. pos- suía uma extensão que tornava seu emprego singularmente afastado do uso corrente que dele se faz na atualidade. Contudo. essa expressão foi paulatinamente adquirindo um sentido mais restrito. Birnbaum e Gruhle. Segundo tais autores (apud Caldeira. Rev. sugerindo uma correlação entre personalidade e tendência inata ao crime. atribui-se frequentemente a Koch o emprego do termo “psicopático” pela primeira vez em sua obra As inferioridades psicopáticas. Psicopat. na medida em que ela foi sendo acoplada pela psiquiatria germânica aos conceitos de “personalidade” e “constituição”. Segundo Werlinder (apud Caldeira.2 Na Alemanha oitocentista. O criminoso nato seria alguém marcado por certos estigmas na estru- tura facial e na simetria corporal. A data deste artigo é incerta. Griesinger (1868) e Krafft-Ebing (1886). Com os trabalhos de Kraepelin. a expressão “psicopata” (do grego: psyché 287 = alma. no final dos anos 1880. tal como empregado por tais autores. tratar-se-ia de um ana- cronismo. Lombroso. Vale ressaltar que esse sentido do termo é conservado pelos dicionários da língua portuguesa. v. Fund. Vale ressaltar que. 24-27). uma vez que o termo psicopático já havia sido empregado por von Feuchetersleben (1845). em 1942. para designar os doentes mentais de modo geral. propôs sua teoria do “de- linquente nato”.

Fund. muito mais popular tanto nos círculos psiquiátricos quanto junto aos leigos. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L clusive de influências ambientais. Kurt Schneider (1968) adotaria a nosografia kraepeliniana relativa às perso- nalidades psicopáticas. 285-302. o conceito de psicopatia foi se restringindo e se associando ao antissocial. que data de 1904) contribui- riam para o direcionamento do conceito de psicopatia rumo ao antissocial. embora nenhuma ligação etiológica pudesse haver entre elas. as personalidades psicopáticas seriam subtipos de personalidades anormais (variações estatísticas da média normal). Poderia haver comorbidade numa mesma pessoa das duas condições. a qual seria sempre um fenômeno de outra ordem na vida da pessoa. v. No entanto. 38). 2. os conceitos germânicos sobre psicopatia tiveram um declínio de importância. transtorno esqui- zoide e paranoide da personalidade) não seria plenamente aceita. 12. Psicopat. que passou a predominar a partir de então. instituindo um continuum de manifestações que iam da nor- malidade à doença. consequentemente. Numa direção totalmente oposta a de seus contemporâneos. de 1922. durante o pós-guerra. n. Schneider con- cebia a psicopatia como uma variação a partir da média. São Paulo. “O conceito de ‘neurose’. com uma maior esperança na ação das psicoterapias. contudo. junho 2009 . engoliu a psicopatia germânica” (Caldeira. renegando. por ser identificado com a psicogênese. As tipologias nega- tivas de Kraepelin acerca das “personalidades psicopáticas” (termo cunhado por ele na sétima edição de seu Tratado de Psiquiatria. as denominações de tipos com base em características socialmente negativas. O estreitamento do conceito de psicopatia em torno da personalidade antissocial Com a crescente influência da psicanálise e da fenomenologia no campo psi- quiátrico ocidental a partir da segunda metade do século XX. a psicopatia nunca progrediria per se para uma psicose. derrubaria as fronteiras entre psicopatia. Apesar de também en- fatizar o valor da disposição constitucional em detrimento das experiências e vi- 288 vências pessoais na patogenia da psicopatia. Para Schneider.. p. que tanto poderia ter um caráter negativo (antissocial) quanto um positivo (gênio). ele a concebia como sendo o fruto de desvios quantitativos. Kretschmer. À semelhança de Gruhle. com a peculiaridade de sofre- rem ou fazerem sofrer a sociedade com sua anormalidade. e. p. A delimitação clínica da psicopatia enquanto personalidade antissocial seria efetivamente estabelecida pelos teóricos da Rev. Sua controversa ideia de que a personalidade psicopática era uma forma atenuada de transtorno mental (como. Latinoam. 1979. em sua obra Biótipo e caráter. em vista da maior ênfase concedida aos fatores externos na formação da subjetivi- dade. e não como uma manifestação mórbida em si mesma. psi- cose e normalidade. Paralelamente. por exemplo.

Conduta antissocial não motivada pelas contingências 8. Arnold. 12. isto é. primeira edição de 1941. ARTIGOS psiquiatria anglo-saxônica moderna. sem os típicos sintomas das psicoses. George. Pierre. Frank. p. Tom. 29-187) fornece-nos farto ma- terial clínico com base nos casos de Max. Ausência de delírios e de outras alterações patológicas do pensamento 3. Fund. Latinoam. (6) Lack of remorse or shame. Walter. Suicídio raramente praticado 15. 285-302. sobretudo pelo norte-americano Hervey Milton Cleckley (1903-1984). o que conferiria ao psico- pata uma aparência de normalidade. outras não 14. Joe. Gregory e Stanley. (3) Absence of “nervousness” or psychoneurotic manifestations. Egocentrismo patológico e incapacidade para amar 10. Ausência de “nervosidade” ou manifestações psiconeuróticas 4. com frequên- cia. Cleckley baseou-se nas his- tórias de 15 pacientes. 2. Comportamento extravagante e inconveniente. (4) Unreliability.3 sem se debruçar sobre teorias psicopatológicas. Para Cleckley.4 3. n. Aparência sedutora e boa inteligência 2. o autor enfatiza. Na primeira parte da seção 2 de seu livro. Em sua obra. Perda específica de insight (compreensão interna) 12. Falha em seguir qualquer plano de vida (Cleckley. 1988. Não reatividade afetiva nas relações interpessoais em geral 13. Roberta. p. Pobreza geral na maioria das reações afetivas 11. v. é o livro de Cleckley (1988) sobre a psicopatia. Julgamento pobre e falha em aprender através da experiência 9. The Mask of Sanity (A máscara da sanidade). (1) Superficial charm and good “intelligence”. percebe-se uma alu- são à ideia central do autor. o transtorno fundamental da psicopatia seria a “demência semântica”. Falta de remorso ou culpa 289 7. qual seja: que a psicopatia é uma forma de doença mental.. Cleckley (1988. Jack. Psicopat. São Paulo. algumas vezes sob a ação de bebidas. 4. p. Chester. porém. Vida sexual impessoal. trivial e mal integrada 16. Logo no título. Anna. Não confiabilidade 5. junho 2009 . o papel da constituição na etiologia da psicopatia. (2) Absence of delusions and other signs of irrational thinking. 337-338). Desprezo para com a verdade e insinceridade 6. (5) Untruthfulness and insincerity. um déficit na compreensão dos sentimentos humanos em profundidade. Milt. Esse autor agrupa as principais características do psicopata em dezesseis itens: 1. Tendo desenvolvido predominantemente um trabalho clínico-descritivo. (7) Inadequately Rev. embora no nível comportamental o in- divíduo aparentasse compreendê-los.

O psicopata mostra total desconsideração pela verdade e não compreende a atitude das pessoas que a valorizam e a cultivam. Tipicamente. as manifestações neuróticas clássicas praticamente lhes são au- sentes. assim como parece ser imune à angústia ou preocupação diante de si- tuações perturbadoras. Apesar da boa impressão inicial causada pelo psicopata. logo se descobri- rá. (16) Failure to follow any life plan. Rev. Com frequência. Psicopat. (11) Specific loss of insight. ele não sente qualquer re- morso e só se defende para se desvencilhar de um problema real ou para atingir algum objetivo. trivial. pagar suas contas em dia ou ignorar oportunidades para cometer atos ilícitos. Não se pode prever quanto tempo vai durar sua boa conduta. (8) Poor judgment and failure to learn by experience. nunca para reparar sua reputação. 2. n. motivated antisocial behavior. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L A tipologia de Cleckley (1988) do psicopata encontra-se descrita na tercei- ra parte da seção 3 de seu livro (p. São Paulo. p. ele não se sente constrangido ao mentir.. (9) Pathologic egocentricity and incapacity for love. normalmente. Quando desmascarado. por um determinado período. Seus argumentos são firmes e bem- -estruturados. De fato. 285-302. junho 2009 . (10) General poverty in major affective reactions. Latinoam. elaborar projetos de vida admiráveis e criticar-se quanto aos seus erros do passado. Contudo. (13) Fantastic and uninviting behavior with drink and sometimes without. de modo mais convincente que uma pessoa que diz a verdade. no sentido de ser livre de em- pecilhos sociais ou emocionais. (15) Sex life impersonal. rara- mente sendo visto como um indivíduo dissimulado. frequentar o trabalho regularmente. imprimindo um dinamismo ao texto. o psicopata não age de modo antissocial todo o tempo. ele age com bom senso e demonstra um raciocínio lógico eficiente. fazendo-o. que ele não possui senso de responsabilida- de. O psicopata causaria uma boa impressão às pessoas à primeira vista. dado que uma recidiva é quase certa. Fund. 12. a partir de situações cotidianas. sendo comum a alternância com condutas socialmente aceitas e valorizadas – ele pode. 337-364) e será resumida a seguir. seja ele trivial ou sério. v. and poorly integrated. Parece responder com sentimentos adequados às situações sociais nas quais lhe são exigidas respostas afetivas. independentemente do tipo de compromisso assumido. também não há sintomas sugestivos de uma neurose. Ele parece ser uma pessoa descolada. (14) Suicide rarely carried out. muitas vezes. Não apresenta sin- tomas de psicoses e. (12) Unresponsiveness in general interpersonal relations. sendo capaz de prever as consequências de seus atos antissociais. Interes- sante que Cleckley intercala suas descrições tipológicas com fragmentos ilustrativos de casos clínicos. 290 A confrontação com suas falhas ou com sua deslealdade parece não influenciar nas suas atitudes.

v. os roubos praticados pelos psicopatas cuja motivação não se atrela às contingências sociais. numa espécie de encenação. sendo que as suas ameaças e tentativas nesse senti- do possuem. Apesar da inteligência acima da média. ele se exime de qualquer responsabilidade por tais importunos e acusa diretamente outras pessoas. um caráter histriônico. porém. colocando-se constantemente em situações de alto risco. em função de suas ações irresponsáveis. 12. as relações sexuais. Nenhuma punição é passível de fazer com que o psicopata mude suas maneiras. O abuso de álcool é muito comum entre os psicopatas. suas reações afetivas ocorrem sempre em intensidade limitada. A vida sexual dos psicopatas é caracterizada por práticas sexuais desviantes (inclusive incestuosas). 285-302. sejam as que mais recaiam sobre ele. Raramente o psicopata comete suicídio. O psicopata não responde de forma convencional às mani- festações de afeto e carinho. De modo geral. o psicopata não consegue aprender com seus erros. n. embora as práticas punitivas. dada a aparente falta de lógica dos mesmos – o psicopata comete toda espécie de atos desonestos. Latinoam. às quais ele diz amar. São Paulo. que lhe acarreta um comprometimento grave em seu senso de avaliação da realidade. como se as compreendesse. Esta deficiência é de difícil compreensão. embora se encon- trem casos que fujam a essa regra. junho 2009 . quando questionado sobre quais problemas e quais erros estariam em questão. chocantes e incompreensíveis é um ponto característico do abuso de álcool por psicopatas. ao mesmo tempo. ao menos enquanto a única forma de orientação sexual. a incoerência de suas respostas demonstra que sua noção de culpa é apenas aparente. O homossexualismo raramente é encontrado. mas.. ele diz que seus problemas são devidos aos seus erros. p. Embora sua incapacidade para o amor objetal não seja absoluta. é alheio aos seus significa- dos mais profundos. já que ele utiliza todas as palavras. 2. Ele é incapaz de estabelecer uma relação de empatia com outra pes- soa. Geralmente. Isto pode ser confirmado pela sua indiferença ao sofrimento que ele mesmo provoca nas pessoas. sendo também um bom critério para se distinguir a psico- patia das outras condições clínicas que também abusam da bebida. Rev. O surgimento de comportamentos extrava- gantes. 291 O psicopata possui uma profunda deficiência de insight (compreensão in- terna). Cleckley cita como exemplo. que podem ser de vários tipos. sem que isso forme um padrão de comportamento. Fund. com base em seus relatos de casos. são impessoais e não implicam relacionamentos afetivos duradouros. de ordem médica e jurídica. Outra marca característica do psicopata é seu egocentrismo. É difícil compreender a natureza subjacente aos atos antissociais. ARTIGOS O psicopata não se sente culpado pelos vários importunos causados a si mesmo e a outrem. Psicopat. muitas vezes. Outras vezes.

Cleckley considera-se original em sua abordagem da psicopatia. que denota uma disposição permanente do caráter no sentido da agressividade. da crueldade e da malignidade. p. parafilia significa “gosto pelo acessório”. junho 2009 . Latinoam. Já as perversões sexuais são chamadas de “parafilias”. n. Psicopat. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L A inabilidade em seguir qualquer plano de vida de modo consistente é outra característica do psicopata. p. ele tem razão.5 designando um padrão de comportamentos sexuais desviantes para com a moral 5. a partir de sua 3ª edição de 1980. o DSM passou a denominar os antigos desvios ou perversões sexuais de “parafilias”. São Paulo. 12. 285-302. não há no meio analítico nenhuma pecu- liaridade semântica referente ao uso dessa categoria psiquiátrica. gosto pelo que não é o princi- pal no ato sexual. da Classificação Internacional de Doenças – CID-10 (OMS. 1993) e 4. determinando inexoravelmente o mal de outrem – trata-se do que outrora se designava por “perversidade”. 57). como o atestam as nosografias psiquiátricas contemporâneas: 10. Atualmente. o que vem a ser. o fato é que sua des- crição da psicopatia como personalidade antissocial vigora até nossos dias. já que. Portanto. De acordo com seu ideal de neutralidade e a consequente adoção de um linguajar supostamente descritivo. reprodu- zindo. a nova expressão adotada pelo DSM-III apre- senta a mesma acepção moralista que ele pretendeu eliminar. isto é. 2002). 2. v. Rev. “psicopatia” (ou “sociopatia”) é sinônimo de “personalidade antissocial”.. a mesma difusão de sentidos quanto ao que se queria dizer com tal termo” (p. Todavia. ressaltan- do o ineditismo de seus relatos de casos clínicos. ed. edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – DSM-IV-TR (APA. Shine (2000) assinala que “o termo psicopatia – e suas variantes – foi to- mado de empréstimo do campo da psiquiatria por vários psicanalistas. um dos problemas a serem abordados diz res- peito às correlações entre psicopatia (síndrome clínica) e perversão (estrutura psí- quica) e as diferenças entre o diagnóstico psiquiátrico (sindrômico) e psicanalítico 292 (estrutural). na prática. quando comparados aos de seus predecessores e contemporâneos. como assinala Ferraz (2000. no meio psicanalítico. que seria confirmada pela quantidade de atividades banais que ele desenvolve ao longo de sua existência. Psicopatia e perversão Antes de demonstrar como esta descrição de Cleckley constitui a base das nosografias psiquiátricas atuais. caracteri- zando a perversão social. 20). Fund. gosto por práticas sexuais não genitais ou des- viantes/perversas. Em parte.

) podem-se detectar evidências da perversida- de tanto na transferência como nas demais relações objetais” (Ferraz. enquanto estrutura psíquica particular. ou “desmentido” (Verleugnung) estaria para a perversão. 2000. A recusa não é um mecanismo exclusivo da perversão e possui um efeito estrutural no desen- volvimento psíquico “normal”. não necessariamente associa-se à perversidade manifesta (psicopatia). Tratando-se da classificação multiaxial proposta pelo DSM. A nosografia psicanalítica.. junho 2009 . as parafilias agrupam-se entre os transtornos da esfera sexual. Psicopat. 285-302. 2. Todavia. mantendo-a neste estatuto. baseada no modelo do fetichismo: “o problema resume-se sempre em renegar a ausência de pênis na mãe.. São Paulo. relativo aos quadros crônicos decorrentes de um desenvolvimento anô- malo da personalidade ou da inteligência. dilui as fronteiras entre psicopatia e parafilias. v.9 293 “renegação”. a perversão. Ele poupa. 21).7 Em seu clássico texto sobre o assunto. de natureza. 8. dentre os quais se destacam. aos quadros agudos com prognóstico de bom a moderado. p. Esse prognóstico é formulado tão somente em função da resposta positiva ou negativa desses transtornos fren- te os neuro e psicofármacos. “o fetiche é o substituto do falo imaginário. Fund. Freud propôs para as perversões uma psicopatologia quase unificadora. e II. geralmente com mau prognóstico. e o feti- che substitui o pênis do qual é preciso que a mãe não tenha sido privada” (apud Lanteri-Laura. por sua vez. muito embora. frotteurismo. que a psicopatia e as parafilias sejam entidades nosológicas autônomas e qualitativamente distintas entre si.. uma tomada de posição frente à ameaça de castração. pois é essencial à fun- ção simbólica da mãe fálica na medida em que. concebendo a “perversão” como uma estruturação subjetiva. p. 1990. Todavia. a psicopatia (eixo II) e as parafilias (eixo I) aparecem em lócus diferentes. 7. sua persistência para além da infância implica sua cristalização patológica como mecanismo de defesa predominan- Rev. Enquanto isso. o que sugere uma diferença qualitativa. assim como 6. isto é. a angústia de sua própria castração” (Valas. 1994. nesse caso. subverter a lei que significa que ela está castrada simbolicamente. referente às síndromes clínicas. para poder manter recalcada a angústia de castração. indispensável à simbolização. como uma das saídas possíveis do complexo de Édipo. assim. Baseado no método clínico-descritivo/evolutivo de Kraepelin. sendo denominada “transtorno da per- sonalidade antissocial”. p. 98). ARTIGOS de uma dada cultura. grifo meu). a psicopatia agru- pa-se entre os transtornos da personalidade. 9. “(. CID-10 e DSM-IV-TR. isto é. nas sociedades industriais mo- dernas: voyeurismo.. n. pedofilia. sadismo sexual. 127. ele pode desmen- tir.) perversidade não é o mesmo que perversão. p.. Latinoam. Ou. masoquismo se- xual.6 Supõe-se. fetichismo. zoofilia etc. nos casos mais graves de perversão (. exibicionismo. o DSM-IV-TR divide os trans- tornos mentais entre os eixos I (no qual se agrupa a ampla maioria dos transtornos descritos nesse manual). 12. entre elas.8 o mecanismo psicológico da “recusa”. Nas nosografias psiquiátricas atuais. em termos lacanianos. de 1927.

importa menos as diferentes manifestações fenomenológicas dos vários tipos de “perversões” (incluindo aqui a psicopatia e as parafilias) que o mecanismo psicológico subjacente que as unifica: a Verleugnung. ado- tado pelo DSM-IV-TR e pela CID -10. por analogia. p. as síndromes) são separáveis em classes distintas e bem defi- nidas. sendo tais classes manifestações de essências (categorias chamadas doen- te e é nesse sentido. 2. Segundo essa autora. 12. O modelo nosológico categorial em psiquiatria. estrutural. Queiroz (2004) sustenta haver um efeito da Verleugnung no “discurso perverso”. a palavra se apresenta li- mitada na sua função de representar. Procura-se por desvios qualitativos que justifi- quem a existência de tais entidades mórbidas ou categorias. que a abordamos aqui. frases interrompidas etc. Remeto o leitor ao elucidativo trabalho de Ferraz (2000). o câncer distingue-se qualitativamente da tuberculo- se. Pressupõe-se que os fenômenos observáveis (os sinais e sintomas. de fato. As bases conceituais do modelo categorial se encontram na filosofia aristotélica. Para a psicanálise. sendo a hipérbole a principal figura de lingua- gem em seu esforço de colocar o gozo em palavras. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L a “rejeição” ou “foraclusão” (Verwerfung) estaria para a psicose e o “recalque” ou “recalcamento” (Verdrängung) para a neurose. São Paulo. é categorial: sabe-se que a malária é qualitativamente distinta da febre tifóide. a partir dos seus efeitos discursivos na fala do analisando. isto é. 31). p. a qual.. no chamado “discurso perverso”. Latinoam. 2004. n. Psicopat. dois modelos antagônicos de classifica- ção dos transtornos mentais. junho 2009 . v. concebe os transtornos mentais como entidades mórbidas específicas. Rev. 285-302. Nesse sentido. assim como. distingue-se da es- carlatina. de perversão implica a escuta clíni- ca da Verleugnung. Já o diagnóstico 294 psiquiátrico. a nosografia psicanalítica pressupõe uma unidade psicopatológica fundamental entre a psicopatia e as parafilias em torno da “estrutura perversa”. e assim por diante. por sua vez. calcado na idealizada objetividade científica. supomos um efeito da Verwerfung no “discurso psi- cótico”. sendo a diferença entre ambas quantitativa. Essa querela entre uma nosografia psiquiátrica de inspiração positivista e a nosografia psicanalítica reflete. imagético e denotativo. O modelo médico tra- dicional. O diagnóstico psicanalítico. vazios de significação. baseado nas doenças infecciosas. volta-se mais para o olhar perscrutador na busca por traços categoriais distintivos que sirvam de evidência para a identificação das síndromes (psicopatia e parafilias). levando o analisando a produzir um discurso descritivo. da mesma forma. Fund. cujo exemplo emblemático seriam os escritos do Marquês de Sade (Queiroz. cuja manifestação clínica evidenciar-se-ia nas alterações de linguagem tí- picas da psicose: neologismos. de uma patologia da recusa.

sugerindo um quadro clínico sui generis ao presidente Schreber que pouco se assemelha à nosografia psiquiátrica científica de inspiração kraepeliniana vigente na época. ARTIGOS ças). 84) faz alusão à pos- sibilidade de um deslizamento recíproco entre a paranoia e a esquizofrenia. esse saber é tão indigno de figurar numa nosografia científica quanto a me- tafísica clássica o é para a filosofia kantiana. implicou sua banalização. v. ao medicalizá-la.. como bactérias. 285-302. No que tange aos transtornos mentais.10 Leite (2001). implicou seu afastamento radical da psicanálise. por exemplo. houve uma série de consultorias entre a Associação Psiquiátrica Americana (APA) e a Organização Mundial de Saúde (OMS).) (p. mecanismos anátomo ou fi- siopatológicos. 12. Na ocasião da elaboração desses manuais. que resultaria numa formulação de códigos e termos em comum acordo (Roudinesco. Para a psiquiatria (re)medicalizada contemporânea (dita “biológi- ca”). junho 2009 . que se supõe serem “descritivos e ateóricos”. Este procedimento denominado critério 295 operacional pretendia preencher a ausência de signos patognomônicos e de exa- mes de laboratório em psiquiatria. no sentido de sua expansão rumo ao normal.. No caso Schreber.. empreendido pelos idealizadores do DSM-III e reforçado nas edições seguintes do DSM e na CID-10. as alterações entre as patologias seriam quantitativas e a distribui- ção delas dar-se-ia ao longo de um continuum que variaria do patológico ao normal... o DSM-III teria por modelo a resposta padrão à administração de uma substância química específica. dentre outros fatores. criticando a metodologia de seus antecessores. Supomos que a operacionalização dos critérios diagnósticos da psicopatia. Latinoam. n. conhecida como es- cola de St. 2000). 2. e. e promovendo a patologização/medicalização dessas prá- ticas desviantes. a retiraria de uma influên- cia filosófica a que estaria submetida (. 137) Por conseguinte. 10.) Nascido da psiquiatria universitária norte-americana. Já no modelo dimensional. O que distingue uma categoria da outra são as alterações qualitativas subja- centes. Freud (1911.. p. Louis. Psicopat. a “pasteurização” dos manuais nosográficos em psiquiatria. p. e (. São Paulo. assinala que o DSM-III adota novos critérios estatísticos para a diagnose. a CID-10 adota uma perspectiva metodológica seme- lhante ao DSMIV. a posteriori. Rev. acentuando uma correlação histórica desta categoria nosológica com a margina- lidade e a delinquência. Adotou-se o modelo categorial em psiquiatria a partir do seu alinhamento com o paradigma da Medicina Baseada em Evidências.) desconsidera a existência de um Sujeito na causação dos transtornos men- tais (. identificadas. Fund. adotado pela psiquiatria dinâmica de orientação psicanalítica. em sua nova orientação criminal-comportamental (sobretudo como proposta pelo DSM)..

e ca- racterizado por: (a) indiferença insensível pelos sentimentos alheios. 1993. p. no mínimo.7 Transtorno da Personalidade Antisso- cial A. a comparação entre ambos evidencia diferenças significativas quanto à forma como cada manual descreve essa categoria. embora não haja dificuldade em estabelecê-los. 2. ainda que não invaria- velmente presente. Fund. (f) propensão marcante para culpar os outros ou para oferecer racio n a liza- ções plausíveis para o comportamento que levou o paciente a conflito com a sociedade. Na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Já os critérios diagnósticos da psicopatia no DSM-IV-TR são: Critérios Diagnósticos para 301. Um padrão global de desrespeito e violação dos direitos alheios.2 Transtorno de personalidade antissocial Transtorno de personalidade. Psicopat. regras e obrigações sociais. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L A psicopatia nas nosografias psiquiátricas contemporâneas Embora a descrição da psicopatia na CID-10 e no DSM-IV-TR baseie-se em Cleckley. (c) incapacidade de manter relacionamentos. 285-302. (b) atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normas. 12. indicada pela execução repetida de atos que consti- tuem motivo de detenção Rev. 199- 200). (d) muito baixa tolerância à frustração e um baixo limiar para descarga de 296 agressão. três dos seguintes cri- térios: (1) incapacidade de adequar-se às normas sociais com relação a compor- tamentos lícitos. Transtorno de conduta durante a infância e a adolescência. particularmente punição. (e) incapacidade de experimentar culpa ou de aprender com a experiência. v. n. Latinoam. incluindo violência. p. indicado por. os critérios diagnósticos para psicopatia são: F60.. pode dar maior suporte ao diagnóstico (OMS. São Paulo. que ocorre desde os 15 anos. junho 2009 . Pode também haver irritabilidade persistente como um aspecto associado. usualmente vindo de atenção por uma dispa- ridade flagrante entre o comportamento e as normas sociais predominantes.

até chegar a uma vida adulta irresponsável. penitenciária e asilar. mau aluno e mau colega. “defraudação ou furto” e “sérias violações de regras”] com início antes dos 15 anos de idade. então. C.. junho 2009 . indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas (5) desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia (6) irresponsabilidade consistente. alter- nando as fugas e a delinquência. 12. cruel para com os animais indefesos. 297 Ambos os manuais apresentam tipologias negativas para a psicopatia. maltratado ou roubado alguém B. “destruição de patrimônio”. enquanto o DSM procedeu à radical operacionalização dos critérios diagnós- ticos propostos para a psicopatia. v. indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou de honrar obriga- ções financeiras (7) ausência de remorso. ARTIGOS (2) propensão para enganar. 2. 2002. reduzidas às condutas antissociais. São Paulo. Con- tudo. p. Latinoam. com os critérios com- portamentais do DSM-IV-TR propostos para a psicopatia. baseando-se tão somente em características comportamentais. e cuja única constância seria judiciária. características afetivo-emocionais: “baixa tolerância à frustração”. aspectos relacionais do indivíduo: “propen- são marcante para culpar os outros”. 660). o diagnóstico degrada- -se ao nível do levantamento protocolar e convém cercar-se do testemunho de terceiros para esclarecer que o provável psicopata foi uma criança mentirosa e turbulenta. indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido. objetiváveis e evidenciáveis. Psicopat. “baixo limiar para descarga de agressão”) como crité- rios válidos para a diagnose. Existem evidências de Transtorno da Conduta [caracterizado por “agres- são a pessoas e animais”. a CID-10 incluiu características psicológicas (traços de personalidade: “indiferença insensível aos sentimentos alheios”. percebe-se que. p. a escuta clínica do sujeito pela pesquisa de anomalias comportamentais que a referência ao conformismo social transforma em sinais da patologia. cujos aspectos subjetivos não podem prescindir da escuta clínica do sujeito. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade. Fund. indicada por mentir repetidamente. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia o u E p i s ódio Maníaco (APA. n. Comparando-se as duas nosografias. se- guida de instabilidade profissional. Rev. D. Tende-se a substituir. usar no- mes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer (3) impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro (4) irritabilidade e agressividade. 285-302.

) reforçam a cor- relação desta categoria nosológica com a delinquência infanto-juvenil. representou um avanço já que permi- tiu conceber a psicopatia de uma perspectiva longitudinal. os crité- rios diagnósticos propostos para essa categoria tenham se tornado mais rigoro- sos. 19). Hare sugere que a psicopatia seria a forma mais grave de manifestação do trans- torno da personalidade antissocial. desconsideradas pelo DSM. sendo reproduzida também pela CID -10).12 Ao longo do desenvolvimento do conceito de psicopatia. isso se explica na medida em que o rigor desses critérios acompanhou em proporção sua banalização na direção dos comportamentos normais (não patoló- gicos. O psicólogo norte-americano Robert Hare (1996). Criador de uma escala de avaliação da psicopatia chamada Hare psychopathy checklist-revised (Hare PCL-R) muito di- fundida em vários países. agressão física etc. São Paulo. Hare não concorda com a identificação entre psicopatia e transtor- no da personalidade antissocial promovida por esse manual. Rev. cujo emblema máximo é o primeiro critério do item A que exige a “execução repetida de atos [ilícitos] que constituem moti- vo de detenção”. tornaram-se mais fluidas. contudo. ao listar com- portamentos delituosos típicos como sendo as principais características arque- típicas da personalidade antissocial. que impõe uma lista de critérios sintomáticos rigoro- sos de inclusão ou exclusão ao tipo antissocial. 2. por outro lado. e psicopatologia da personalidade. baseados tão somente no comportamento ob- servável do indivíduo. Fund. haveria. paradoxalmente. acentua a correlação desta categoria nosológica com a delinquência. por um lado. o que desloca o problema da ca- racterização de patologia. as fronteiras entre o normal e o patológico. obscurecendo a distinção en- tre determinantes socioculturais e econômicos da delinquência. 2000. para o de anomalia ou diferença en- 298 11.. de outro” (apud Shine. v. e não em aspectos de sua personalidade. 285-302. Kernberg assinala que o verbete psicopatia desse manual “inclui de- linquentes com maquiagens de personalidades muito diferentes. em- bora não seja o responsável pela tipologia negativa da psicopatia (que. embora. Latinoam.11 Com isso. apesar de desviantes para com a norma moral). 12. p. no sentido médico. Psicopat. vandalismo. de um lado. assinala que o DSM per- mite um diagnóstico com elevada confiabilidade e duvidosa validade. predominou entre os autores a ideia de um desvio de caráter. Em sua crítica ao DSM. p. como vi- mos. n. importante pesquisador da personalidade antissocial com longa experiência clínica com populações carcerárias. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L Chamamos a atenção aqui para o relevante fato de que o DSM-IV-TR. avaliado segundo os moldes morais e os parâmetros éticos do relacionamento humano. A inclusão no DSM do diagnóstico de “transtorno de conduta” na infância ou adolescência como pré-requisito necessário para o diagnóstico de psicopatia na vida adulta. Com base no modelo nosológico dimensional. consolidou-se com Cleckley. diversas nuanças de manifestações da síndrome. no que tange à psicopatia. junho 2009 . portanto. os crité- rios diagnósticos adotados para “transtorno de conduta” com base em comportamentos criminosos e delituosos (defraudação/furto. 12.

Rev.14 À guisa de conclusão.. Mendes Filho. Esse é o argumento central de Lanteri-Laura (1994). O manual que serve de referência aos psiquiatras da nova geração: Kaplan e cols. 2000. para quem a burguesia. São Paulo. p. p. p. O direito positivo. laicizou a repressão sexual. dadas as condutas antissociais dos psicopa- tas. a não ser o controle dessas pessoas pelo viés da medicina. tende a confirmar nossa suspeita ao enfatizar que “Nas popula- ções carcerárias. por sua característica de infligir frontal- mente o Código Penal em seus valores canônicos (a propriedade e a vida). 15. A CID-10 confirma esse aspecto ao caracterizar os transtornos da personalidade como “a expressão característica da maneira de viver do indivíduo e de seu modo de estabelecer relações consigo próprio e com os outros” (OMS. 2. Psicopat. antes. Latinoam. para além do aparato médico que sobre eles recai. De certo modo. condena com veemência os ataques à pessoa e à propriedade. 285-302. 13. chamando a ciência médica à res- ponsabilidade no trato com as perversões para fins de controle. por meio de uma gestão dos fatores de risco populacionais? Em nossa época atual. pode-se questionar se a me- dicalização desta condição não refletiria um esforço do Estado republicano de reforçar o seu controle por outros meios. enquanto cate- goria psiquiátrica do DSM. a prevalência da personalidade antissocial pode chegar a 75%” (p. o que justificaria esta expansão da psiquia- tria norte-americana rumo ao normal. 351). essa concepção reflete as ideias de Schneider (1968) apresentadas no subitem “O surgimento e a evolução do conceito de psicopatia”. Nesse sentido. trata-se de uma questão intrigante. resta-nos questionar se a psicopatia. daí os psicopatas. A psicopatia certamente é uma das anomalias da personalidade que apresenta consequências sociais mais graves. 2001. embora seja liberal em matéria de sexualidade (exce- to com relação às práticas sexuais não consentidas ou abusivas). tratamento e punição. ARTIGOS tre estilos de existência que podem ser indesejáveis13 (Morana. ao ascender ao po- der após a Revolução Francesa. associadas ao delito e ao crime. Fund. 692). não acabaria por se aplicar sobretudo aos delinquentes e criminosos?15 Em caso afirmativo. 106). n. 14. (1997) – uma espécie de DSM ilustrado. na qual se discute com tanta paixão a pertinência da aplica- ção das chamadas penas alternativas aos casos de delitos e crimes menos graves 299 e o respaldo das práticas psi na ressocialização dos apenados contemplados com essa medida. serem presas de toda uma rede de significações jurídicas. certamente mostrar-se-ia mais eficaz em sua função de controle social desses desviantes. para além daquele já exercido pelo di- reito positivo? Um misto de psiquiatria e Poder Judiciário. 12. v. exercido de forma despótica pela Igreja. junho 2009 .

1979. 12. V. 2000. Psychopathy and Antisocial Personality Disorder: a case of diagnostic confusion. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 485 p. p. Georgia: Emily S. ed. 1993. Psicopat. 300 KAPLAN. A clínica da perversão. [1992] 2000. H. P. M. SCHNEIDER. 103-133. QUEIROZ. 1989. ed. 13. n. D. LEITE. 285-302. B. CLECKLEY. MORANA.). Rev. 2.. V. Tese (doutorado em Psiquiatria). Cleckley. F. 39-40. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relaciona- dos à Saúde. 2000. C. Psicopatia: teoria e clínica. 7. In: MAGALHÃES. Fund. v. Psicofarmacologia e psicanálise. In: Psicopatologia clínica. 1968. Porto Alegre: Artmed. Augusta. P. I. In: ORGANIZAÇÃO Mundial da Saúde (OMS). [2000] 2002. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L Referências ASSOCIAÇÃO Psiquiátrica Americana (APA). F. M. Porto Alegre: Artmed. MORAES. [Scanned facsimile] FERRAZ. São Paulo: Mestre Jou. junho 2009 . G. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. São Paulo: Escuta. LANTERI-LAURA. p. E. (Org. 10. Ética e psiquiatria forense. Rio de Janeiro: Edições IPUB/Cuca. R. Leitura das perversões: história de sua apropriação médica. 2001. 337 p. R.). Personalidades psicopáticas. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquia- tria clínica. 1988. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia (dementia paranoides). CALDEIRA. p. – Revista (DSM-IV-TR).. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 – Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. M. p. Psychiatric Times. S. 15-89. MENDES FILHO. Revisão (CID-10). T. XII. C. 2004. ____ . Universidade Federal do Rio de Janeiro. v. K. n. (1911). São Paulo. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar. H. The Mask of Sanity: An Attempt to Clarify Some Issues About the So-Called Psychopathic Personality. p. 1997. S. 137-153. 1996. 4. 41-74. 2001. São Paulo: Edusp. v. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1996. Os fundamentos da clínica: história e estrutura do saber psiquiátrico. E. São Paulo: Casa do Psicólogo. Perversão. FREUD. Porto Alegre: Artes Médicas. Fifth Edition. 2. de (Org. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicoló- gicas Completas de Sigmund Freud. Psicanálise e neurociências. 1994. M. Rio de Janeiro: Imago. H. São Paulo: Escuta. R. ROUDINESCO. HARE. Latinoam. p. BERCHERIE. Revisão sobre os transtornos de personalidade. et al.

K. Rev. n. 2. con relación a los criterios de diagnósticos propuestos para la psicopatía. Resumos (De H. 12. Fund. junho 2009 . p. São Paulo. Palabras claves: Psicopatía. (2) l´accentuation du rapport historique entre la psychopathie et la délinquance. La comparaison de ces nosographies entre elles par rapport à leurs critères de diagnostique de la psychopathie permet d’obtenir les conséquences opérationnelles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. especially that presented by the DSM. are discussed. São Paulo: Casa do Psicólogo. Cleckley al DSM-IV-TR: la evolución del concepto de psicopatía rumbo a la medicalización de la delincuencia) La psicopatía es descrita como la personalidad antisocial por los manuales nosográficos contemporáneos: CIE-10 y DSM-IV-TR. DSM-IV-TR (From H. 1990. se observan las consecuencias de su operacionalización. (2) la acentuación de la relación histórica entre la psicopatía y la delincuencia. Patrick. se destaca: (1) la degradación del diagnóstico a una mera lista protocolar. comme le CIM-10 et le DSM-IV-TR. surtout en ce qui concerne le DSM. v. Cleckley to DSM-IV-TR: the evolution of the concept of psychopathy toward the medicalization of delinquency) Psychopathy is described in two contemporary nosographic handbooks (ICD-10 and DSM-IV-TR0) as the condition of having an anti-social personality. 2000. Key words: Psychopathy. The consequences of this use. 285-302. Cleckley au DSM-IV-TR: l’évolution du concept de la psychopathie vers la 301 medicinalisation de la délinquance) La psychopathie est décrite comme personnalité antisociale par les manuels nosographiques contemporains. CIM-10.. personnalité antisociale. anti-social personality. VALAS. Psicopatia. ICD-10. ARTIGOS SHINE. Entre ellas. personalidad antisocial. This article contrasts these nosographies in terms of the diagnostic criteria used for psychopathy. S. (2) emphasis on the historical correlation between psychopathy and delinquency. Mots clés: Psychopathie. particularmente las derivadas del DSM. DSM-IV-TR. such as (1) the degradation of diagnoses to the mere filling out of forms. CIE-10. Contrastando tales nosografías entre sí. Psicopat. parmi lesquelles on retiendra spécialement: (1) la dégradation du diagnostique au simple classement protocolaire. Latinoam. Freud e a perversão. DSM-IV-TR (De H.

2. p. 302 ROGÉRIO PAES HENRIQUES Psicólogo.2008 / 4. psicanalista. Editor do artigo/Editor: Prof.5. Av. Acrísio Cruz. 285-302. 30/503– Salgado Filho 49020-210 Aracaju. que permite uso irrestrito.4. R. Este é um artigo de livre acesso. Prof. mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina So- cial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – IMS/UERJ (Rio de Janeiro.2008 / 5. Dr.2008 Aceito/Accepted: 22. Brasil). and by the Fondation for Research Support of the State of Rio de Janeiro – Faperj. Manoel Tosta Berlinck.22. Latinoam. R E V I S T A L AT I N OA M E R I C A N A DE PSICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L Citação/Citation: HENRIQUES. Psicopat. 12. n. v. desde que o autor e a fonte sejam citados/This is an open-access article. 12. jun. De H. professor da Universidade Federal de Sergipe (Aracaju. Revista Latinoamericana de Psico- patologia Fundamental. SE e-mail: rsphenriques@hotmail.2008 Copyright: © 2009 Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental/ University Association for Research in Fundamental Psychopathology. Brasil). Recebido/Received: 17. Conflito de interesses: O autor declara que não há conflito de interesses/The author de- clares that has no conflict of interest.com Rev. São Paulo. p.P. distribution. 2009. which permits unrestricted use. Brazil. and reproduction in any medium. provided the original author and source are credited. São Paulo. 2. n. v. Fund.17. RJ.. SE. junho 2009 . Financiamento/Funding: Esta pesquisa foi financiada pela Fundação de Apoio à Pesqui- sa do Estado do Rio de Janeiro – Faperj /This research has been funded by the Ministry of Health. distribuição e reprodução em qualquer meio. Cleckley ao DSM-IV-TR: a evolução do concei- to de psicopatia rumo à medicalização da delinquência. 275-302.