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O Teatro de Antonio Rocco
A Estranha
A Loucadora de Vídeo
Textículos
Olho por Olho
Te Conheço
Na Faixa
Mera Coincidência
Radicais Livres
Desejo
A Escalada

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O Teatro de Antonio Rocco
A Estranha
A Loucadora de Vídeo
Textículos
Olho por Olho
Te Conheço
Na Faixa
Mera Coincidência
Radicais Livres
Desejo
A Escalada

Antonio Rocco

São Paulo, 2009

12083260 miolo A Rocco.indd 3 28/10/2009 11:51:14

Governador José Serra

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
Diretor-presidente Hubert Alquéres

Coleção Aplauso
Coordenador Geral Rubens Ewald Filho

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Não se deve erguer monumentos aos artistas porque eles já o fize- ram com suas obras. tanto dentro quanto fora de cena. que para exercer seu ofício muniram-se simplesmente de suas próprias emo- ções. de seu próprio corpo? Como manter vivo o nome daqueles que se dedicaram à mais volátil das artes. muitos artistas são imortalizados e reverenciados diariamente por meio de suas obras eternas. Ao contar suas histórias pessoais. TV e Cinema que tiveram participação na história recente do País. De fato. que têm a efêmera duração de um ato? Mesmo artistas da TV pós-videoteipe seguem esquecidos. A Coleção Aplauso. esses artistas dão-nos a conhecer o meio em que vivia toda 12083260 miolo A Rocco. pretende resgatar um pouco da memória de figuras do Teatro. dirigindo e interpretan- do obras-primas. Mas como reconhecer o trabalho de artistas ge­niais de outrora. Apresentação Segundo o catalão Gaudí. de iniciativa da Imprensa Oficial.indd 5 28/10/2009 11:51:14 . quando os registros de seu trabalho ou se perderam ou são muitas vezes inacessíveis ao grande público. escrevendo.

também cumpre função social. Publicar suas histórias e personagens. Paralelamente. e constitui mais que justa homenagem àqueles que merecem ser aplaudidos de pé. José Serra Governador do Estado de São Paulo 12083260 miolo A Rocco. uma classe que representa a consciência crítica da sociedade. as histórias de seus familiares se en­tre­la­çam. trazendo-os de volta à cena. Ao perpetuar a voz daqueles que já foram a pró- pria voz da sociedade.indd 6 28/10/2009 11:51:14 . pois garante a preservação de parte de uma memória artística genuinamente brasileira. Suas histórias tratam do contexto social no qual estavam inseridos e seu inevitá- vel reflexo na arte. vindos das mais va- riadas origens. bem como o processo político e cultural pelo qual passou o país nas últimas décadas. a Coleção Aplauso cumpre um dever de gratidão a esses grandes símbo- los da cultura nacional. En­fim. à saga dos milhares de imigrantes do começo do século pas­sado no Brasil. quase que invariavelmente. o mosaico formado pelos depoimentos com­põe um quadro que reflete a identidade e a imagem nacional. Falam do seu engajamento político em épocas adversas à livre expressão e as consequências disso em suas próprias vidas e no destino da nação.

como se o biografado falasse diretamente ao leitor­. 12083260 miolo A Rocco. e o universo­ que se recons­ titui a partir do cotidiano e do fazer dessas personalidades permite reconstruir sua trajetória. tornando o texto coloquial.indd 7 28/10/2009 11:51:14 . Coleção Aplauso O que lembro. Um aspecto importante da Coleção é que os resul­­ ta­dos obtidos ultrapassam simples registros­bio­ grá­ficos. biografando atores. teatro e televisão. Bió­grafo e bio­ gra­fado se colocaram em reflexões que se esten­ de­ram sobre a formação intelectual e ideo­ló­gica do artista. visa resgatar a memória da cultura nacio­nal. concebida pela Imprensa Ofi­c ial. revelando ao leitor facetas que também caracterizam o artista e seu ofício. contex­tua­li­zada na história brasileira. tenho. Arquivos de documentos e imagens são pesquisados. A decisão sobre o depoimento de cada um na pri- meira pessoa mantém o aspecto de tradição­oral dos relatos. Em entrevistas­e encontros sucessivos estreita-se o contato en­tre biógrafos e bio­gra­fados. Foram selecionados escritores com largo currículo em jornalismo cultural para esse trabalho em que a história cênica e audiovisual brasileiras vem sendo reconstituída de ma­nei­ra singular. atrizes e diretores que compõem a cena brasileira nas áreas de cine­ma. Guimarães Rosa A Coleção Aplauso.

revelando as circunstâncias que o conduziram à arte. como se abrigasse em si mesmo. ao cinema e à televisão. os processos e as possibilidades de correção de erros no exercício do teatro e do cinema. Foram abordadas a construção dos personagens. desde sempre. deixando transparecer a firmeza do pen- samento crítico ou denunciando preconceitos seculares que atrasaram e continuam atrasando nosso país. pois na Coleção Aplauso foi discutido o processo de criação que concerne ao teatro. a análise. Muitos títulos exploram o universo íntimo e psicológico do artista.indd 8 28/10/2009 11:51:14 . a história. São livros que. adquirindo linguagens diferenciadas – analisando-as com suas particularidades. a importância e a atua­lidade de alguns deles. a complexidade dos personagens. Se algum fator específico conduziu ao sucesso da Coleção Aplauso – e merece ser destacado 12083260 miolo A Rocco. Muitos mostraram a importância para a sua formação terem atua­do tanto no teatro quanto no cinema e na televisão. além de atrair o grande público. Também foram exami­nados o relacionamento dos artistas com seus pares e diretores. inte­ressarão igualmente aos estudiosos das artes cênicas. a diferença entre esses veículos e a expressão de suas linguagens. São inúmeros os artistas a apontar o importante papel que tiveram os livros e a leitura em sua vida.

configurada e com identida- de consolidada. –. Hubert Alquéres Diretor-presidente Imprensa Oficial do Estado de São Paulo 12083260 miolo A Rocco. sets de filma­ gem. À Imprensa Oficial e sua equipe coube reunir um bom time de jornalistas. dramaturgos e roteiristas. imagens e palavras conjugados. diretores. transmutam e vivem – também nos tomaram e sensibilizaram. organizar com eficácia a pesquisa documental e iconográfica e contar com a disposição e o empenho dos artistas. é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o percurso cultural de seu país. coxias. e todos esses seres especiais – que neste universo transi­tam. cenas. constatamos que os sorti­légios que envolvem palco.indd 9 28/10/2009 11:51:14 . É esse material cultural e de reflexão que pode ser agora compartilhado com os leitores de to­do o Brasil. Com a Coleção em curso. textos.

indd 10 28/10/2009 11:51:14 .12083260 miolo A Rocco.

Guilherme. Helena e André Também para Adriana Pepe. Lulu Pavarini. Nino Dastre. Melissa Vaz. André Garolli. Alexandra. Nilton Bicudo. Javert Monteiro. Ivan Capúa. Antonio Destro. Para João e Alfredo nas alturas e Norma. Tereza Monteiro e demais artistas e técnicos que participaram das montagens já realizadas.indd 11 28/10/2009 11:51:14 . Ivan Fagundes. Pepe Ramirez. Fernanda Chiminazo. Sérgio Corcette. Antonio Rocco 12083260 miolo A Rocco. Gabriela Scarcelli. Arlete Montenegro. Elam Lima. Helena Ciampolini. Daniela Casteline. Reinaldo Taunay. Bete Dorgam. que muito colaboraram para a versão final dos textos aqui apresentados.

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É alguém que se coloca na esteira de Alcântara Machado e Abílio Pereira de Almeida. É um dos autores jovens mais importantes do nosso 12083260 miolo A Rocco. Estas miniaturas são uma constante em sua obra. Rocco é um autor popular. 13 Para os interessados em sua dramaturgia é bom que atentem para a simplicidade das estruturas dramáticas. em meio a atribulações. o que o coloca no rol dos autores que escrevem peças para o grande público. mas anda longe do que seria um autor popularesco. Rocco faz uma comédia baseada nas atribula- ções de seres humanos da nossa cidade.indd 13 28/10/2009 11:51:14 . Na sua temática a busca do ser humano. Introdução Comédias Paulistanas Rocco é um autor paulistano e reflete isso com constância em suas peças. Seu fundo temático preferido é a sua cidade. Suas peças têm sempre uma busca de beleza. tem a marca da comédia. Rocco tem peças de duração normal e outras que são rápidas. apenas cenas animadas com o esforço de mostrar em pouco tempo alguma verdade essencial.

indd 14 28/10/2009 11:51:14 . No mais a edição deste livro será um caminho para novas montagens do autor. Principalmente pelos grupos novos que precisam experimentar autores brasileiros. Precisaria ser mais montado pelos grupos. Chico de Assis 14 12083260 miolo A Rocco. teatro.

A Estranha 12083260 miolo A Rocco.indd 15 28/10/2009 11:51:14 .

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indd 17 28/10/2009 11:51:14 . Fernando Oliveira. Fauzi Arap. Operação de som: Djalma de Oliveira e Maurício Inafre. Pepe Ramirez e Sérgio Corcette. Nenê e Rafael Aidar. Voz em off: Fernanda Viacava. A peça A Estranha foi apresentada na Mostra de Dramaturgia: Ágora Metrópolis XXI.T de 9 de julho a 5 de setembro de 2004. Apresentações no Teatro do Sesc Belenzinho de 8 de maio a 13 de junho de 2004 e no teatro do N. com lotação esgotada. Caracterização: Beto França. em São Paulo. 12083260 miolo A Rocco. Fotos de cena: Rafael Aidar. Cenografia: Jally Ferrari e José Adduci. 25 e 26 de abril de 2003. Ficha Técnica Texto: Antonio Rocco. nos dias 21. Nilton Bicudo. Produção: Melissa Vaz. Elenco Bete Dorgam. Direção: André Garolli. Agradecimentos: Adonay Donley. Figurinos: Wagner Menegare.Ex. Melissa Vaz. 17 Iluminação e operação: Fernanda Lachat. Trilha sonora: Aline Meyer e Maurício Inafre.

A peça A Estranha foi encenada no Teatro Folha de setembro a novembro de 2004. Nilton Bicudo. Figurinos: Wagner Menegare. Trilha sonora: Aline Meyer e Maurício Inafre. Operação de som: Marcão (Teatro Folha). Elenco Lulu Pavarin. Melissa Vaz. Ficha Técnica Iluminação: Laura Figueiredo. Cenografia: José Adduci. Direção: André Garolli. Operação de luz: Isa (Teatro Folha). Ficha Técnica Texto: Antonio Rocco. Operação de som: Djalma de Oliveira e Maurício 18 Inafre. 12083260 miolo A Rocco. Melissa Vaz. Nilton Bicudo. Fotos de cena: Rafael Aidar. Elenco Arlete Montenegro. Caracterização: Beto França. Voz em off: Fernanda Viacava.indd 18 28/10/2009 11:51:14 . Iluminação e operação: Fernanda Lachat. Reinaldo Taunay e Sérgio Corcetti. Reinal- do Taunay e Sérgio Corcette. Produção: H2I Produções Ltda.

Dona Veridiana (Arlete Montenegro): “Tranque a porta. com Casimiro (Nilton Bicudo). 12083260 miolo A Rocco. em A Estranha.indd 19 28/10/2009 11:51:15 . feche as janelas!”.

12083260 miolo A Rocco.indd 20 28/10/2009 11:51:15 . nunca vai imaginar que essa menina sobreviveu. com a Estranha (Melissa Vaz)...”. em A Estranha. Casimiro (Nilton Bicudo): “Se alguém quis matá-la.

em A Estranha. me mata.” . com a Estranha (Melissa Vaz) 12083260 miolo A Rocco. Casimiro (Nilton Bicudo) : “Tudo bem.indd 21 28/10/2009 11:51:15 .

12083260 miolo A Rocco.indd 22 28/10/2009 11:51:15 .

Tempestade lá fora. com uma espécie de altar à sua frente. meu filho! (Perde a paciência) Casimiro. Inferno! Será que não tem considera- ção com a mãe inválida? Ingrato! Deve estar me- 12083260 miolo A Rocco. desapareceu outra­vez. D. Casimiro.. uma poltrona e uma cadeira de rodas. um retrato a óleo de D.. D. uma linda mulher Cachorrão – Perigoso traficante Bugio – Mendigo Cenário Sala do casarão de Casimiro Alcântara. A Estranha Comédia em um ato Personagens Finada Dona Veridiana – Fantasma Casimiro Alcântara (50 anos. Veridiana – (Carinhosa) Casimiro..indd 23 28/10/2009 11:51:15 . Na parede. ornado de flores e velas. franzino. Meia-luz na sala. onde foi que você se meteu? Moleque. seu pes- tinha.... (Para ela mesma) Não adianta. Vê-se 23 um sofá. gerente de banco) – filho de Veridiana A Estranha – 23 anos. ladeado de cortinas. Veridiana. Veri- diana está sentada na cadeira de rodas e tem as pernas protegidas por uma manta.

. Mais dia. senão deixo tudo para a Santa Casa. Esse não vai sair por essa porta com a maior cara lavada! Casimiro vai ficar comigo até o último dos meus dias. Casimiro.. toda a mobília e as joias da família Alcântara. (Enfurecida. Isso acon- 24 tece desde que o mundo é mundo... Mas não o meu Casimiro! Esse não sai da barra da minha saia.indd 24 28/10/2009 11:51:15 . enche o copo e toma de um gole só) Ah! Isso para mim é remédio! (Grita) Casimiro! (Para ela mesma) Você cria um filho com tanto sacrifício e depois ele foge com uma dessas sirigaitas. muito pior que o pecado original. faz! Tão certo como a primeira Lei de Newton. venha ajudar sua mãe inválida! Quem é que vai alcançar meu remédio?. (Dá uma sonora risada de bruxa. Foi por isso que fiz questão de ter um filho só. todo filho faz. Esse eu criei do jeitinho que eu quis. tido com uma dessas vagabundas da vizinhança. (Pega a garrafa de uísque. (Como se estivesse ditando um testamento) Para meu filho Casimiro deixo tudo o que me restou neste mundo: este casarão da rua Apa. Não poderá vendê-la nem alugá-la e terá que ficar comigo até o dia de minha mor- te. volta ao tom normal) 12083260 miolo A Rocco. Há. porque nem original é! É batido. levanta da cadeira de rodas e se encaminha para o bar) Não há pecado mais sórdido que abandonar a mãe – um pecado mortal. uma condição: terá que morar nesta casa para sempre. porém. menos dia. é comum.

xô! CASIMIRO – (Em off) Minha Mãe do Céu. está chovendo a cântaros!. Casimiro. feche as janelas.. o maior toró! (Acen­de a luz) Estou pingando. acho que estou vendo uma mosca. VERIDIANA – Ah. como odeio esses insetos. filhinho adorado. E olhe que saí preparado! “O homem de bem sabe a que vem!” (Pendura o chapéu.indd 25 28/10/2009 11:51:15 . VERIDIANA – (Feliz) Meu filho.. mamãe! 12083260 miolo A Rocco. é uma mosca horrorosa! Mate-a! Vamos. Ca- simiro. Sim. de onde fica assombrando a casa) D. está chegando! 25 (D. que vento é esse? D. Eu e você. vai até o quadro e acende as velas do altar de sua mãe) Sua bênção. o guarda-chuva e o sobre- tudo no cabideiro. Esta casa será o seu grilhão. substituindo o próprio retrato. juntos para sempre.. Xô.. Veridiana vai para trás do quadro da sala. No casarão da família Alcântara (Ouve-se um trovão) Casimiro.. onde está você? Inútil! (Ouve-se o barulho do inseto) Ah. como é bom relembrar o tempo em que estava viva! Eu era feliz e sabia! (Casimiro entra da rua com capa e guarda-chuva) CASIMIRO – Que tempestade.. menino.

A senhora não está com pressa.. mas não deixei cair uma gota de chuva nele. vamos comemorar como a gente sempre fez nos últimos 30 anos: só nos dois. não é? Claro que não! Não vai poder comer nada mesmo. graças a Deus... nós somos a festa! Os Alcântara sempre foram autos­suficientes. descobri que ainda tenho paladar.. está morta!. Apesar de não sentir fome. Mirinho! Apetite. não olhe assim com todo esse apetite. depois de um ano de falecida.indd 26 28/10/2009 11:51:15 . Mamãe.. nunca me faltou. ainda tenho prazer em comer e beber. Coloque um disco no gramofone. Eu estou ensopado.. antes de dormir a gente apaga as velinhas. Só hoje. 26 CASIMIRO – Mamãe. (Casimiro sai. VERIDIANA – (No quadro) Deus te abençoe! CASIMIRO – (Tira de um saco plástico um bolo que vinha trazendo com todo o cuidado) Sur- presa! Trouxe um bolo para o meu aniversário. D.. D.. Não é fantástico? A mamãe aqui vai tirar a barriga da 12083260 miolo A Rocco. Ainda não é hora de cantar pa- rabéns. VERIDIANA – Não conte com isso. Não fique triste. VERIDIANA – Não precisamos de mais nin- guém. Vai até a cozinha) D.

. A cidade não é mais feita para gente morar.indd 27 28/10/2009 11:51:15 . e ninguém fala nada. Ninguém perdoa o pedestre por ter a ousadia de sair de casa sem um motor nas costas. não terá sobrado nem farelo.. miséria. A senhora não imagina o trânsito! Mesmo com chuva. uma orquestra de 27 buzinas. mãe? Tempestade de verão em pleno outo- no... As calçadas vão ficando menores. Veridiana vai comer tudo! CASIMIRO – (Trazendo dois pratos. a prioridade são os carros. “Caminhar faz bem e não polui!”. né. São Paulo.. D.. VERIDIANA – Como era gostoso colocar a cadeira na calçada para ver o entardecer. prefiro andar a pé. as ruas mais largas.. Tudo alagado. só pensam nos carros. corre o sé­rio risco de morrer atropelado em pleno pas­seio público! (O carrilhão da sala bate oito horas) 12083260 miolo A Rocco. Mais um congestionamento-monstro. um uisquinho. CASIMIRO – Pobre pedestre: além de ficar pre­to de fuligem e surdo com o barulho. mais uma vez. vai ficar embaixo d’água. Mãe. dois garfos e velinhas que prega no bolo) Tempo maluco. Esse bolo de chocolate caiu como uma luva! Quando você acordar de manhã. E já comecei a descontar. Fazia um ano que tomava um aperitivo..

O que eu xinguei o sujeito. mãe.. Um motorista de ônibus fez questão de passar numa poça só para me jogar água. in- justiça não dura para sempre. D. Para variar. VERIDIANA – Ainda vão te dar valor. CASIMIRO – Tudo nas minhas costas. Só tomando um uisquinho para me esquentar. VERIDIANA – Isso é hora de chegar. D. Estou molhado como um pinto. meu filho. CASIMIRO – Só preciso de um uísque para ficar quentinho. VERIDIANA – É natural. que é bom. mas pro- moção.. meu filho. primeiro vou ter que destrinchar tudo e depois explicar para os colegas. Pelo menos a Prefeitura poderia 12083260 miolo A Rocco. D. CASIMIRO – Um dia ainda vão me dar valor. sem nenhum reconhecimento. CASIMIRO – Nossa. É que tive que fazer um serão. meu filho. VERIDIANA – Vai colocar uma roupa seca. Casimiro? CASIMIRO – Desculpe a hora. já são oito horas! D..indd 28 28/10/2009 11:51:16 ... você é o mais capaz.. Parece que vem aí mais um plano econômico do governo. levo aquela agência nas costas. nada! Trabalho como um 28 camelo.

.. um estadista. mas lhe faltou o dom. Cinco minutos de chuva e está tudo alagado. meu Deus.... (Dobra o cobertor e o coloca em cima da cadeira. CASIMIRO – Como é que a cadeira de mamãe está no meio da sala? O cobertorzinho dela no chão? Essa faxineira mais desarruma que orde- na. Eu deveria ter sido político. D. É o fim do mundo! Tomando o meu uísque. 12083260 miolo A Rocco.... mandar limpar os bueiros.. herdou a leseira da 29 família paterna. aposto que deixou as janelas abertas. VERIDIANA – (No quadro) Eu te disse. Põe a cadeira em seu lugar. Nem o copo lavou.. um simples gerente de banco.. E o meu menino se tornou o quê? O quê? Virou gerente de ban- co.. a desgraçada deu para beber! Vou descontar do salário. a vontade férrea do visionário. Onde está a sua ambição? Infelizmente. Eu te preparei para ser um líder. Só um prefeito de pulso pode resolver os problemas desta cidade. Vê o copo deixado pela mãe. o destemor dos primeiros desbravadores bandeirantes. sem-vergonha! (Som de trovão) Ih. Casimiro.. Deveria ter seguido a carreira política. Os quartos devem estar inundados. O dom da oratória. Cabeça--de-vento. Cheira- o) Não acredito. não foi por falta de falar.indd 29 28/10/2009 11:51:16 . deveria ter ouvido a senhora. como sempre.. Casi- miro.

Grita para fora) Ninguém vai me forçar a abandonar minha casa. barulhenta. dividiram a cidade ao meio. VERIDIANA – (No quadro) Eu disse a Ramos de Azevedo: “Nem todos têm a sua visão. inabitável. rouba um pedaço do bolo e volta para o quadro resmungando. dos usurpadores do solo urbano. Que Deus me perdoe. Precisamos de um zoneamento rígido”...indd 30 28/10/2009 11:51:16 .. eles ven- ceram! Tornaram esta cidade suja. em plena avenida 30 São João! Malditos sejam para todo o sempre esses canalhas! Fizeram uma cicatriz na cara da urbe. Ninguém! (D. esse viaduto terrí- vel. inchar. Veridiana tampa os ouvidos com as mãos e depois fecha a janela) Biltres! Ainda quero ver esse maldito viaduto no chão.. querido Azevedo. nem que para isso tenha que haver um terremoto! (Som de trovão). (Quando abre a janela da sala. Veridiana toma o uísque numa talagada.. Vamos engessar as mãos dos especuladores. Precisamos de leis duras. Use sua influência. Uma pocilga! E ainda por cima foram passar esse minhocão. (D. mas há males que vêm para o bem. ouve-se um barulho ensurdecedor de buzinas e moto- res. no meio do meu jardim. (Casimiro sai para fechar as janelas) D.. dos grileiros.. Não podemos deixar a cidade crescer sem estrutura. Entra Casimiro) 12083260 miolo A Rocco.. (Sai do quadro) É. destruíram o Centro.

. não dá mais! Essa mulher está despedida. VERIDIANA – A Creusa bebendo? Impossível! Se for verdade. Mais uma que ela apronte. comeu um pedaço de bolo e saiu correndo? Mamãe. Você está aí. Amanhã vai para o olho da rua! Eu sei que ela tem cinquenta anos 31 de casa. E não adianta querer botar panos quentes. mas eu não sou obrigado a aguentar empregada alcoólatra. Creusa.. eu mesma a mando embora. Creusa. A senhora dava muita liberdade para essa empregada. Ainda bem que o vento está na outra direção. precisamos conversar sobre a Creusa. tomou a última talagada.. diminuiu o uísque na garrafa! Sumiu um pedaço do bolo? (Sai procurando a empregada) Creusa. vai para o olho da rua. que­ri­ da. D. 12083260 miolo A Rocco.. CASIMIRO – Batata! Estava tudo escancarado. Eu não acredito que depois de cinquenta anos dedi- cados a esta família ela. aparece... Creusa? Será que estava escondida. meu filho. CASIMIRO – (Enche o copo) Nem o gelo na cum­ buca essa inútil coloca! Não trabalha nem em causa própria! Oh. (No bar) Não é possível.indd 31 28/10/2009 11:51:16 .. Casimiro: é muito feio acusar sem provas... senão estávamos fritos! Felizmente cheguei a tempo! Mamãe. A propósito.. cadê você? Está brin- cando de esconde-esconde? (Para ele mesmo) Será que está na lavanderia? (Cínico) Oh.

(Casimiro sai para pegar gelo)

D. VERIDIANA – (No quadro) Eu disse a Mário
de Andrade: “Suas crônicas no Diário Nacional
têm de levar o leitor à análise da realidade, ao
conhecimento profundo de suas necessidades.
Precisamos formar o leitor cidadão!” (Sai do
quadro) E que belas crônicas escreveu, muitas
delas com os temas que lhe assoprei... (Pega um
pedaço de bolo) Mas não foi suficiente: a cidade
cresceu tão rápido e sem qualquer planejamen-
to, que qualquer tentativa civilizatória caiu por
terra. Hordas de famintos e miseráveis chegando
cada vez em maior número... (Toma o uísque que
32
Casimiro servira) Bárbaros! É o caos... Pudera!
Nossos governantes não estavam preparados
para esse desafio e sequer queriam resolvê-lo!
Cambada de incompetentes!

(D. Veridiana entra no quadro e Casimiro volta
com uma cumbuca de gelo)

CASIMIRO – Incompetente! Mamãe, algumas
coisas vão ter que mudar nesta casa. Não é
possível! A Creusa tomou meu uísque outra
vez! Creusa... Creusa, apareça! Eu sei que você
está aí. Não acredito... Meu bolo!... Não precisa
roubar um pedaço do bolo; é só pedir, que eu
te dou. Que desaforo, antes de eu assoprar as
velinhas! Creusa... (Na procura, descobre que a

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luz da secretária eletrônica está piscando). Tem
recado na secretária eletrônica. Alguém ligou?
Quem será? Aposto que foi alguém do banco...
Não conseguem resolver um problema sem me
consultar. Hoje eu não volto mais para lá, nem a
pau! (Ouve-se o recado da secretária eletrônica)

Gravação na secretária – Alô? Alô? Doutor Casi-
mirim, aqui quem fala é a Creusa. Olha, doutor
Casimirim, estou pedindo as contas. Aguentei
até hoje, porque tinha prometido para sua mãe,
no seu leito de morte, que cuidava do senhor.
Já faz um ano que ela se foi, e para mim chega!
O senhor não me paga... Só relógio trabalha de
graça! Não indo trabalhar, pelo menos econo- 33

mizo o dinheiro da condução. Tchau, fica com
Deus... O senhor precisa casar... Daí vai ver que
melhora dessas manias... Homem doido... Tchau!

CASIMIRO – Velha rabugenta! Ingrata... É isso
o que você ganha por ser generoso. Tratava
como se fosse da família. Tomou o último gole,
gravou o recado e saiu correndo. Nem coragem
para dizer isso na minha cara teve, nem para
me dizer parabéns! (Abre a janela e grita) Já vai
tarde, inútil, incompetente, alcoólatra!

(Ouve-se brecada de carro e ao longe um bate-
boca em off entre voz masculina e feminina)

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HOMEM – Vai, sai andando...

MULHER – No Minhocão... Você tá louco!

HOMEM – Tô mandando, vadia!

MULHER – Vadia é sua mãe!

HOMEM – Tu vai ver...

MULHER – Não, não... Socorro!!!

(Ouve-se grito de mulher em queda e barulho
surdo de um corpo que bate no chão. A Estranha
foi jogada do Minhocão, mas por sorte a queda
34 foi amortecida pelo toldo da sala da casa de
Casimiro. Já não chove)

CASIMIRO – Minha Nossa! Alguém caiu do Mi-
nhocão!

(Casimiro sai pela porta da rua)

D. VERIDIANA – Caiu no meu jardim? Se dani-
ficou meu canteiro de petúnias, vai ter que me
indenizar! E dinheiro grosso; não aquela porca-
ria que me deram na desapropriação. Cortaram
a jabuticabeira que minha avó plantou... É um
inferno morar embaixo dessa via expressa, jogam
tudo o que é porcaria aqui para baixo, mas...
Gente é a primeira vez!

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(Casimiro volta carregando nos braços uma linda
mulher)

CASIMIRO – Minha Nossa Senhora, minha mãe,
a que ponto chega a violência desta cidade!
Jogaram a menina de cima do Minhocão.

D. VERIDIANA – Alguma ela aprontou... Tenho
certeza!

CASIMIRO – Ainda bem que o toldo do jardim
amorteceu a queda...

D. VERIDIANA – Estragou o meu toldo? Eu sabia
que hoje iria ser um daqueles dias; meu calo
amanheceu doendo. Prejuízo na certa! 35

CASIMIRO – Mesmo assim, foi um tombo e tanto.
(Acomoda a moça no sofá. Casimiro encosta o
ouvido no peito dela) O coração ainda bate...
Será que quebrou alguma coisa? Vou chamar
uma ambulância.

D. VERIDIANA – Não toque nesse telefone. Como
é que você vai explicar isso para a polícia?

CASIMIRO – Como é que vou explicar isso para
a polícia?

D. VERIDIANA – Não se meta em encrenca... Olha
o escândalo... Pense na sua carreira, meu filho!

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CASIMIRO – Não, não vou avisar ninguém. Eu
mesmo cuido dela... (Examina pernas e braços)
Parece que não foi grave. Cair do Minhocão?
Qual situação levaria uma mulher jovem, bonita
e bem vestidinha a se atirar para a morte? Quem
a vê assim, tranquila, não pode avaliar seu de-
sespero minutos atrás. Será que foi jogada pelo
marido? Será que ele ainda está atrás dela?

D. VERIDIANA – Tranque a porta, feche as jane-
las!

CASIMIRO – (Vai até a janela e espia por uma
fresta) O movimento está normal. Se alguém quis
matá-la, nunca vai imaginar que essa menina
36
sobreviveu... Mãe, o mundo está de cabeça para
baixo. Não existem mais casamentos como o da
senhora e de papai. Antigamente se jurava “Até
que a morte nos separe”... Hoje em dia é “Até
que um mate o outro”!

D. VERIDIANA – Seu pai era um pé de valsa. A
gente ia ver os filmes do Fred Astaire e já saía do
cinema dançando. Aquele fanfarrão não tinha o
menor tino para os negócios, mas inegavelmente
era encantador...

(Casimiro, sob o olhar desaprovador da mãe,
pega o cobertor da cadeira de rodas para cobrir
a Estranha)

12083260 miolo A Rocco.indd 36 28/10/2009 11:51:16

dorme. VERIDIANA – Não seja idiota! Vá lá fora... Veja se descobre quem é. Vou cuidar dela. Será que é um número de telefone? Vou tentar ligar. Nossa!. Em todo caso.. Dorme. Jogue-a na calçada. Então é verdade que depois da tempestade vem a bonança... Dorme. Aposto que amanhã poderá sair andando por essa porta. Que pele macia! Cheiro de jasmim. Uma noite de sono vai-lhe fazer bem. (Revista-a)­ Nada. Pode ser perigosa.indd 37 28/10/2009 11:51:16 .. CASIMIRO – Vou olhar! (Pega) Um número.. você deve estar encrencada... (Surpreso) Tem um pedaço de papel preso no sutiã! Será que devo pegar? D.. besta quadrada.... tenho que prestar socorro. Moça.... nenhum documento. livre-se dela. então que a cidade fique cinco metros sob águas da mais ter- rível tormenta. bem no dia do meu 37 aniversário!. Que alegria é esta que sinto? Por que minha alma está leve e meu coração palpita como se tivesse recebido uma boa nova? Quem é esse mensageiro sem nome nem rosto que veio 12083260 miolo A Rocco. Como é linda! Parece de porcelana.. CASIMIRO – Preciso descobrir quem é essa mu- lher... VERIDIANA – Pega logo. Se ninguém estiver olhando. D.. minha flor noturna. E se essa é a bonança. Isso é confusão na certa! CASIMIRO – Que problema.

foi perseguida.. 38 D. me entregar a mais linda prenda? Essa visão. 12083260 miolo A Rocco.. Um anjo. pulou como a única maneira de se ver livre dos marginais. é claro! CASIMIRO – Dorme. D. Não se pre- ocupe.indd 38 28/10/2009 11:51:16 .. essa mulher maravilhosa com quem jamais sonhei! Não sei quem você é nem de onde veio. a gente às vezes até se confunde. Casimiro. (Como se estivesse vendo a cena) Desesperada. Responda-me: de quem é a culpa da situação degradante a que o Centro chegou? Eu mesma respondo: a culpa é desse maldito Minhocão! Quem é que pode viver à sombra dessa excrescência de concreto? Só a escória. uma qualquer. Conseguiu escapar do cativeiro. Eu cuido de você. essa senhora é mais uma das prostitutas que infestam a vi- zinhança... uma vulgívaga! Ninguém é arremessada do Minhocão à toa! CASIMIRO – Talvez tenha sido sequestrada.Como Lúcifer! Boa bisca não é! Está na cara que é uma sirigai- ta.... linda mulher. Só sei que não parece humana. VERIDIANA – É mais fácil acreditar na virgin- dade de Hilda Furacão. o pesadelo acabou..... um anjo.. VERIDIANA – Um anjo caído. Isso se não for um travesti. Nossa região agora só abriga a escória.

Nesta noite ficarei vigiando seus sonhos. o pessoal do banco que se vire.. Ama- nhã não vou trabalhar... Imaginem só: os moradores de rua são meus vizinhos e fazem suas necessi. uma linda mulher? D.. É intolerável! E ninguém fala nada. VERIDIANA – Ligar para quê? O que você vai dizer? Vai se complicar ainda mais! CASIMIRO – O que vou falar? Alô.indd 39 28/10/2009 11:51:16 .... todos con- vivem com a iniquidade e ninguém fala nada! CASIMIRO – Quais segredos você guarda? Que curiosidade! D. O lugar dela é junto aos mendigos que moram embaixo do viaduto.. Será que ligo para esse telefone? D. VERIDIANA – Jogue essa piranha na sarjeta. que lábios. bem na minha calçada! Não é à toa toda essa fedentina! É uma vergonha para qualquer país que se diz civilizado! Essa é a moradia popular que nossos governantes pro- videnciaram para o povo: embaixo do viaduto. Por acaso al- guém aí perdeu uma mulher. Vou descobrir quem você é ou não me chamo Casimiro Alcântara. VERIDIANA – A curiosidade matou o gato! CASIMIRO – Que boca. 39 dades a céu aberto. Nem meu devaneio mais delirante poderia prever uma 12083260 miolo A Rocco.

Queria só ver a cara do Guimarães e de todos os gerentes daquele banquinho ao saber que em minha sala brilha uma beleza tão intensa que hoje nem mesmo a lua apareceu com medo da concorrên- cia! Não vou ligar para nenhum número! Ainda não.. que de tão tímido mal consigo olhar nos olhos das meninas do banco.. não vai nem querer olhar para minha cara. Eu. que sou motivo de chacota entre as estagiárias. tomado por ermi- tão. Certa- mente. VERIDIANA – Por fora bela viola.indd 40 28/10/2009 11:51:16 . (Quando Casimiro está prestes a beijá-la. vou apro- veitar teu sono para roubar-lhe um beijo. que nunca fui convidado para tomar um chope com os colegas. Parece tão indefesa.. D. eu. chamado pelas costas de “mala sem alça”. agora tenho em meu sofá a mulher mais linda de todo o universo. é in- terrompido pelo grito da mãe) 12083260 miolo A Rocco. bonita como é. situação como essa. depois de acordada. Ficarei esperando você acordar. A natureza não seria tão dissimulada. quero 40 ver o que tem a me dizer. eu. por dentro pão bolorento! CASIMIRO – Querida desconhecida. Você não há de ser perigosa. por solteirão maluco. uma forma tão bela não há de esconder um nefasto conteúdo..

VERIDIANA – Filhinho. um mos- quito. é in- terrompido pelo grito da mãe) D. VERIDIANA – Casimiro. É isso que eu vou fazer.. Sobe nos móveis. Uma mosca.... derruba coisas. Roubar beijo é coisa de garoto.. Ou será que sou eu quem está ficando velho? Não. velho não! Velho não rouba beijo. por que você não vai fazer um chá para nossa convidada? Imagine 12083260 miolo A Rocco. até que finalmente con- segue matá-lo) Peguei! D. VERIDIANA – Bravo. D. um inseto. de moleque! (Quando Casimiro está prestes a beijá-la. Minha Nossa! As moscas estão cada vez mais espertas. VERIDIANA – Que tal um chá? CASIMIRO – Um chá! D. Mata! Mata! Aniquila! Trucida! (Ouve-se o barulho do inseto) CASIMIRO – Uma mosca! Uma mosca! (Casimiro alcança um mata-moscas – uma haste de madeira acoplada a uma treliça de plástico – e sai como louco atrás do inseto por toda a sala. Casimiro! Bravo! Meu pequeno herói! CASIMIRO – Odeio insetos! Mamãe também 41 odiava! Ufa.indd 41 28/10/2009 11:51:16 ..

VERIDIANA – (Com seus botões) Puxa. Veridiana sai de trás do quadro e vai até o sofá) D. e com você não vai ser diferente. é bonita mesmo! (Para a Estranha) Levanta! Levanta e vai embora. só se a moça acorda e você não tem nada para oferecer a ela? Nada como um bom chá de ca- momila para revigorar a alma. já estará te esperando um tonificante chá de camomila.. Vocês são todas iguais: fingidas e aproveitadoras.. VERIDIANA – Querida? CASIMIRO – Quando você despertar. Suma! Estou 12083260 miolo A Rocco. desgraçada! Deixa meu filho em paz! Você não sabe a dor de uma mãe vendo o filho ser enganado. Minha querida. Minha mãe sempre dizia. Volto já! 42 (Casimiro sai para preparar o chá. antes que Casimiro volte. Pois eu já vou lhe avi- sando: não é qualquer vagabunda que vai roubar meu filho de mim.. Levante e vá embora.. CASIMIRO – (Olhando outra vez a bela ador- mecida) Nada como um bom chá de camomila para revigorar a alma. Não demoro mais de dois minutos para preparar.indd 42 28/10/2009 11:51:16 . que tal um chá? D. Já desmascarei outras safadas. Só estão de olho no nome e na herança de nossa família.

Não pense que vai se ver livre de mim. 43 D. Não adianta. O destino mandou você para mim. você morreu e eu estou livre! Livre para me apaixonar. mamãe. ninguém mais vai atrapalhar meus namoros.. menina! Não se faça de morta. meu amor. lhe avisando para o seu bem e para o bem de nossa família. alguém que me ame como homem.. dá para ver que você é muito “viva”. Veridiana volta para o quadro e Casimiro entra na sala trazendo uma bandeja com xícaras de chá e uma garrafa térmica) CASIMIRO – Pronto. não como filho! Ainda não esqueci 12083260 miolo A Rocco. livre para conhecer alguém que me complete. muito esperta! As bonitas são as mais perversas! (D.indd 43 28/10/2009 11:51:16 . Como posso já ter me afeiçoado tanto? Será o destino? Nada neste mundo acontece por acaso. a mosca – Deus me perdoe! (Faz o sinal da cruz) – na sua sopa! (Ouve-se Casimiro chegando em off) Vamos. meu presente de aniver- sário! (Para o quadro da mãe) E agora. Serei a pedra no seu sapato. agora você já pode acordar: tem um chazinho te esperando. você está ficando louco? Nem conhece essa mulher! Ela é uma estranha! CASIMIRO – Nem sei o seu nome. VERIDIANA – Meu amor? Casimiro.

VERIDIANA – Nem ligo. a senhora está morta! Morta! Esticou as canelas. como é delicado o sentimento! O amor: fogo morro acima. Extingue-se num momento. Quando nele a água se inclina. A natureza nos mostra o caminho No mundo tudo é belo e se completa É impossível ser feliz sozinho. A paixão juvenil é a grande exceção. irrompe cedo ou tarde. Marilu! Mariana nunca mais falou comigo.. Armou aquele escândalo só porque estávamos de mãos dadas. 44 CASIMIRO – Mariana. Indomável.indd 44 28/10/2009 11:51:16 . Casimiro. e eu estou livre. Sei que você está nervoso... onde estiver aceite este poema: Entre paus. aquela desfeita que a senhora me fez com a Mariana na formatura do ginásio. As juras de amor não se concretizaram nem em um simples beijo. Porém. Ninguém mais vai me atrapalhar! Ouviu bem? D. Fala isso só da boca para fora. mamãe está aqui. Além de xingá-la. 12083260 miolo A Rocco. Tudo por sua causa!. meu único amor.. A senhora acabou com tudo. ainda nos levou à presença da diretora. Cal- ma. a D. bateu as botas. pererecas e perus. querido. Porém.

(Por um instante vasculha seus sentimentos) Nesse instante percebo Estar curado daquela paixão. Animem-se. Agora. Nada mais me acontece. já maduro. VERIDIANA – Querido. D. sem fumaça Nem vestígio. e minh’alma não adoece. Meu coração não galopa. eternamente arde. que nosso amor.. Amar é como andar de bicicleta. Ao falar o nome “Mariana”. Para mim. corações enferrujados. como poeta você é um excelente gerente de banco! Essa foi boa! (Ri da própria piada) CASIMIRO – É isso! Amar é como andar de bici- cleta. (Sem mamãe por perto) Floresça no respeito e na decência.. Mariana.indd 45 28/10/2009 11:51:16 . Será esse o tão falado amor à primeira vista? (A Estranha geme) Está acordando! Ela está acordando! 12083260 miolo A Rocco. finda a adolescência. a única meta. Só um novo amor seria capaz de me livrar dos fantasmas do passado. 45 O amor é raro e precioso. Pois o peito.

. VERIDIANA – Ah. D. Não se mexa. não se mexa. pode ser perigosa! ESTRANHA – Que lugar é este? CASIMIRO – Calma. não se atreva a fazer isso! Olha que te mando para o colégio interno! Vai comer todo o bife de fígado 12083260 miolo A Rocco. (Muda de humor) Vamos... Casimiro.. D... que está com cara de reprovação e fala para a Estra- nha) Só um minutinho. meus joanetes estão me matando. Você sofreu uma queda e tanto. traga-me os chinelos.. VERIDIANA – (No quadro) Casimiro.. não se levante. Volto em um segundo. ESTRANHA – Como é que eu vim parar aqui? CASIMIRO – Não se lembra?. VERIDIANA – Cuidado! Fique longe dela. (Casimiro pega o cobertor para cobrir o retrato da mãe) D. Descanse um pouco mais. CASIMIRO – (Olha para o retrato da mãe. Calma. (Cha- mando-o carinhosamente) Miro! Mirinho! Casi- 46 miro! Casimiro..indd 46 28/10/2009 11:51:16 ..... meu filho.. Casimiro! Nem para isso você ser- ve? Imprestável! Casimiro! Uma mosca! Mata. Casimiro.

Eu moro sozinho. Você caiu do Mi- nhocão bem no meu jardim.. CASIMIRO – O importante é ficar calma.. você pode ficar aqui o tempo que quiser... tenho espaço de sobra.indd 47 28/10/2009 11:51:16 . Quer dizer que não se lembra? Está com amnésia! É muito natural.. quando Casimiro acaba de cobri-la) CASIMIRO – Prontinho!... parece que levei uma surra! 12083260 miolo A Rocco.. Ainda bem que o nosso toldo amorteceu a sua queda! Você teve muita sorte! ESTRANHA – Caí do Minhocão? O senhor não está entendendo.. ESTRANHA – (Sobressaltada) Chá? O senhor só pode estar brincando.. Calma... Menino. tudo volta ao normal. no jantar. nem do meu nome. ESTRANHA – (Tenta levantar-se) Ai. ninguém vai te encontrar aqui.. Aqui você está a salvo! Seja lá o que tenha acontecido.. Em 47 alguns minutos. Eu não sei nem o meu nome.. (Segue gritando até que se cala... depois de um trauma desses. CASIMIRO – Não adianta ficar nervosa. Quer um chá de camomila? Acabei de fazer. Eu não lembro de nada..

. Sua família deve estar à sua procura. obrigada! CASIMIRO – Por nada. do viaduto. Perseguida...indd 48 28/10/2009 11:51:16 . Não se preocupe. ESTRANHA – E se eu não lembrar?.. Felizmen- te o nosso toldo amorteceu sua queda. ESTRANHA – Acho que agora vou aceitar aque­ le chá. Você vai ver que aos pou- cos tudo volta ao normal.. CASIMIRO – Eu tenho a impressão de que você deve ter sido sequestrada. (Enquanto serve o chá) Como dizia minha fa- lecida mãe “Chá de camomila: isso para mim é 48 remédio!” Açúcar? ESTRANHA – Só um pouco.. deve ter conseguido escapar e aí. CASIMIRO – É para já! Eu também vou tomar. 12083260 miolo A Rocco.. amanhã de ma­nhã vamos à polícia.. CASIMIRO – Só o tombo que levou já justifica uma semana de dor no corpo! ESTRANHA – O senhor está me dizendo que caí do Minhocão? CASIMIRO – Exatamente. perseguida pu­lou do Minhocão como único modo de se ver li­ vre dos bandidos.

.indd 49 28/10/2009 11:51:16 . ESTRANHA – (Sobressaltada) Polícia? Será que é necessário? CASIMIRO – Amanhã resolvemos tudo.. Pelo menos eu não vi. ESTRANHA – Tive sorte mesmo! Você é um cara muito legal. Ah. Quem sabe no jardim? O senhor procuraria para mim? CASIMIRO – Claro que sim! Como não pensei nisso antes? Talvez uma bolsa. Não tinha nada com você. Casimiro Alcântara.. 49 ESTRANHA – (Vendo que não tem nada nos bolsos. como eu sou distra- ído... nem o papel preso no sutiã) Tinha algum documento comigo? CASIMIRO – Olha. nem me apresentei: meu nome é Casimiro. CASIMIRO – Obrigado. agora.. O importante.. ESTRANHA – No jardim. é você descansar. Você pode estar certa de que tudo o que eu puder fazer para te ajudar eu farei. não se preocupe.. (Casimiro sai) 12083260 miolo A Rocco.

. Com licença. CASIMIRO – Claro.... vou abrir o bico.... (Enquanto espera.. vai xingando) Cachorrão. Ao telefone:) Alô. Estou com um pouco de frio... você não mandou?.. cara? Como é que você manda aquele macaco me lançar do Minhocão. Não inte- ressa onde estou. vasculhei o jar­dim 50 todo. depressa!. (Casimiro sai e a Estranha vasculha a casa em busca do papel) ESTRANHA – Onde foi parar aquele papelzinho? 12083260 miolo A Rocco. Procurei feito um tarado. disca apressadamente um número.. ESTRANHA – Você é muito gentil. que merda é essa. ESTRANHA – Que pena! Ainda tinha essa espe- rança. Vou arrumar alguma coisa para você vestir. Amorzinho é a puta que te pariu!.. me passa o Cachorrão. É.. quem fala? Sheila... ESTRANHA – (Vasculha a própria roupa) Cacete! Onde foi parar aquele papel? (A Estranha vai até o telefone. Você tá fodido! Mané! (Desliga o telefone e volta para o sofá) CASIMIRO – (Entrando) Olha. Quero que você saiba que eu estou viva e que vou te ferrar. você está toda molhadinha.indd 50 28/10/2009 11:51:16 . Não en­con­ trei nada... Ah.

. Fiquei bem? CASIMIRO – Está linda. ESTRANHA – Você acha?.. ESTRANHA – Não faz mal. Não sei onde estou.. (Dá uma voltinha) Está mentindo. Não posso! (A Estranha percebe que ele está voltando e disfarça) CASIMIRO – (Com uma camisa social na mão) Você me desculpe. (Troca-se) Pronto.. CASIMIRO – Por Deus.... As roupas de mamãe doei para um asilo assim que ela morreu e. Isso foi o melhor que arranjei. uma camisa seca está ótimo. Eu não posso ter perdido. ESTRANHA – Não é estranho?...... claro! (Vira-se)... como não durmo de pijama.. juro que não. Acho que foi você que me deixou assim.. Vou me trocar. Posso ir? ESTRANHA – Ainda não... mas só tenho para te empres- tar uma de minhas camisas.indd 51 28/10/2009 11:51:16 .. pode olhar.. 51 CASIMIRO – Ah.. Sabe como é. 12083260 miolo A Rocco.. (Pega a camisa) Olhe para lá.. não sei nem quem eu sou e estou tão feliz..

Sei que não poderia estar em melhores mãos.. ESTRANHA – Não estou dizendo? Dedicou a vida 52 à mãe.. Você é solteiro? CASIMIRO – Sou. Por causa de mamãe. dá para perceber. Sua mãe? 12083260 miolo A Rocco.. CASIMIRO – Eu? ESTRANHA – É.. Vão achar ruim de me ver aqui. CASIMIRO – Que bobagem! Há anos que nin- guém me visita.. até pouco tempo atrás. Até a faxineira pediu as contas hoje! ESTRANHA – Quer dizer que estamos sozinhos? CASIMIRO – Estamos.. Isso dificultou um pouco... (Descobre o quadro) Não precisa nem me dizer quem é. Deixe-me adivinhar.. mas não precisa ficar pre- ocupada.. Isso é raro! E as namoradas? Aposto que tem uma romaria de mulheres que vem te visitar. ESTRANHA – Que nada! Você é um cavalheiro.... eu sou muito respeitador! ESTRANHA – Disso eu tenho certeza.. CASIMIRO – Você está me superestimando.. cui- dei de minha mãe doente.... Você transmite tanta segurança.indd 52 28/10/2009 11:51:16 . sabe como é.

. não ouse fazer isso! Você não me provoque. vou deixar o quadro coberto. 53 D... VERIDIANA – Vai ter que comer todo o jiló e o quiabo! ESTRANHA – Sabe que você é bem parecido com ela? CASIMIRO – É. todo mundo dizia. ESTRANHA – Espera. VERIDIANA – Casimiro.. o que significa isso? Esta vagabunda está nua na minha sala! CASIMIRO – Se não se importa.indd 53 28/10/2009 11:51:16 ... ESTRANHA – Que lindo nome. Deixe-me cobrir o quadro.. VERIDIANA – (No quadro) O que é isso. D. Quero olhar um pouco mais para ela. 12083260 miolo A Rocco. CASIMIRO – Acertou! D. VERIDIANA – Casimiro. vestida só com uma camisa? ESTRANHA – Qual era o nome dela? CASIMIRO – Veridiana. D..

eu o cobri. Nada como um uisquinho para esquentar! Quantas pedras de gelo? 12083260 miolo A Rocco.. Sua mãe tinha razão: este chá faz milagre. VERIDIANA – Casimiro.. não se atreva. Digo. por exemplo... você precisa descansar.. Esse uísque. 54 ESTRANHA – (Pegando na mão dele) Meus sen- timentos.. eu te acompanho.. ESTRANHA – Entendo. mas no mesmo dia em que mamãe faleceu.. (Hipnotizado por sua beleza) Vamos deitar?...indd 54 28/10/2009 11:51:16 ... venha se sentar. Acho que também me faria bem algo mais forte.. A lembrança que tenho dela é mais bela que qualquer retrato. Faz muito tempo que ela te deixou? CASIMIRO – Quase um ano. (Cala-se quando Casimiro cobre o quadro) ESTRANHA – Mas por quê? É um quadro tão bonito! CASIMIRO – É.. ESTRANHA – Estou ótima. D... CASIMIRO – Claro. CASIMIRO – Obrigado.. Barulho de corrente. Eu faço voar os objetos..

ESTRANHA – Eu gosto puro... mas é como se estivessem tirando uma cortina dos meus olhos. ESTRANHA – Nossa... (Serve) Bebe.. Lem­brei! CASIMIRO – Muito bem! Calma. Acho que me cha­ mo Cláudia. Vá aos poucos... o Totó. porque você teve mui­ta sorte.. CASIMIRO – Que maravilha! Está vendo? Sua 55 memória já está voltando! ESTRANHA – Cláudia Alencar de Menezes. CASIMIRO – (Fica surpreso e excitado) O quê? Puro? Eu também vou tomar puro. Minha casa.. Me veio um flash.. Toma mais uma dose..... Estou lem- brando de tudo. Cláudia.. Muito bem. CASIMIRO – Ótimo! Bebe.. minha família.. não force.. Até do meu cachorro. 12083260 miolo A Rocco..indd 55 28/10/2009 11:51:16 . bebe mais um pou- quinho. bebe. aqui está! ESTRANHA – Saúde! CASIMIRO – Saúde e sorte. Vai te fazer bem. ESTRANHA – (Ela toma de uma só vez) Cláudia..

. tecla e simu- la uma conversa) Alô.. eu estava saindo da faculdade. Ela deve estar preocupada! ESTRANHA – Claro! Ótima ideia. quando dois homens armados entra- ram no meu carro e. Cláu- 12083260 miolo A Rocco. Exatamente como imaginei! ESTRANHA – Você é muito esperto! CASIMIRO – Então. Sou eu. Vou fazer isso imediatamente! (Vai até o telefone. 56 CASIMIRO – Daí você... perseguida. CASIMIRO – Santo Deus! ESTRANHA – Então. Hoje. perseguida. mãe.indd 56 28/10/2009 11:51:16 . mãe. telefone para sua mãe e avise que está tudo bem.. CASIMIRO – E. eles começaram a correr atrás de mim.... ESTRANHA – E hoje.... pulou como a única maneira de se ver livre dos bandidos. Até que no congestiona­ mento em cima do Minhocão consegui destravar a porta e sair correndo.? ESTRANHA – Usaram meu carro para fazer uma porção de assaltos. ESTRANHA – Mãe? CASIMIRO – É.

Casi- miro!.. Coisas de mãe. Se você permitir. Amanhã de manhã estou aí. Vou dormir na casa de uma amiga.. CASIMIRO – Vai dormir na casa de uma amiga? ESTRANHA – Não... CASIMIRO – Se você quiser passar a noite aqui. querida. lembrei que tinha um papel- 12083260 miolo A Rocco. Um beijo. não é? CASIMIRO – Sim. Agora nós também sabemos o seu. Mãe... famí­ lia tradicional..indd 57 28/10/2009 11:51:16 . eu sei que não avisei.. Desculpe.. Cláudia..... Sabe o que é? Minha 57 mãe é meio careta.. CASIMIRO – Entendo. Só estou ligando para avisar que está tudo bem. ESTRANHA – É verdade! É ótimo saber o próprio nome!.. dia. ESTRANHA – Obrigada. mamãe. amanhã eu te conto tudo. não tem problema nenhum.. É esse o seu nome.. entendo perfeitamente! Você é minha convidada! ESTRANHA – Você é realmente um amor. bobo! Vou ficar por aqui... até amanhã. Tchau. Amanhã pela ma- nhã faço questão de te levar em casa.. claro. fica mais tranquila se digo que estou com uma amiga. Casimiro.

aposto que vem me pegar. A vizinhança vai estranhar.. Uma tirinha de papel com um número escrito. você precisa descansar... É o número do telefone de um amigo de faculdade. sem dúvida este é seu dia de sorte! ESTRANHA – Deixa para lá! Não queria bancar o vaga-lume a uma hora destas.. Se con- 58 seguir ligar para ele. CASIMIRO – Incômodo nenhum! Além do mais..indd 58 28/10/2009 11:51:16 ... Eu pego a lanterna.. Pre- cisamos entregar um trabalho de fim de ano e. É minha última chance de não repetir.. Por acaso você não deu com ele caído por aí. vai pensar que somos vaga-lumes. mas quem sabe? Pode- mos dar sorte. paro de te incomodar tanto.. podemos procu- rar lá fora.. Assim... É muito importante. É melhor mesmo eu passar a noite aqui. Chega de te chatear com essas histórias de escola. não encontrei nada.. 12083260 miolo A Rocco. se você fizer questão. CASIMIRO – Trabalho de fim de ano em maio? ESTRANHA – Recuperação do ano passado.. Amanhã a gente procura com a luz do dia. Acho difícil. zinho preso no meu sutiã. deu? CASIMIRO – Papelzinho? ESTRANHA – É.. mas. você me ajuda.. Deixe para falar com seu amigo pela manhã.. Infelizmente.

Roubaram muito? CASIMIRO – Felizmente. Os colegas já me fizeram a maior festa.. assim me ajuda a comer o bolo. ESTRANHA – Bolo? CASIMIRO – É! Hoje é meu aniversário.... Eu sou gerente de banco. lá no banco. Parabéns. não! Em um deles me fizeram de refém. ESTRANHA – Nossa! Onde fica sua agência? CASIMIRO – Aqui pertinho. Já fomos assaltados duas vezes. ESTRANHA – Que violência! Você se machucou? 12083260 miolo A Rocco. Deve ser emocionante. 59 CASIMIRO – Nem me fale! Nós somos a segun- da agência em movimento de dinheiro em São Paulo.. CASIMIRO – Ótimo. É um cargo de responsabilidade. ESTRANHA – Sei. Da porta do banco dá para ver a estátua.indd 59 28/10/2009 11:51:16 . ESTRANHA – Jura? Que legal! Parabéns! Você não convidou ninguém? CASIMIRO – Não. na Avenida Duque de Caxias.. ESTRANHA – Sei. preferi passar a noite tranqui- lo. Todo aquele movimento de dinheiro.

. tem sim. eles tinham um infor- mante dentro do banco: entraram dois minutos antes de o cofre destravar eletronicamente.. E você não morreu de medo? 12083260 miolo A Rocco.indd 60 28/10/2009 11:51:16 . Eu até que es­ ta­va calmo.. assaltos.. ESTRANHA – Esse pessoal é bem organizado... CASIMIRO – Com certeza. Como eu ia dizendo: os assaltan- tes entraram gritando: (Imita o bandido) Todo mundo no chão! 60 ESTRANHA – E o cofre? Tem horário certo para abrir. CASIMIRO – Eram mais de dez homens forte­ men­te armados. ESTRANHA – Quantas saídas tem o banco? CASIMIRO – Tem duas. sequestros. Só abre duas vezes por dia: às onze e quarenta e sete e às quin- ze e trinta e cinco.. Uma das me­ni­nas desmaiou. mas uma fica trancada por segurança. Leio tudo sobre roubos. CASIMIRO – Nem um arranhão. adoro essas histórias. Você já trabalhou em banco? ESTRANHA – Não! Mas adoro romance policial.. ESTRANHA – Conta mais. não tem? CASIMIRO – Isso mesmo. mas o resto do pessoal.

.indd 61 28/10/2009 11:51:16 . claro. sabe? Fiz curso de so- brevivência na selva. feroz e impiedoso. 61 ESTRANHA – Quem olha para você não diz que já pegou em uma arma. Combatemos os guerrilheiros de esquerda em pleno rio Araguaia. ESTRANHA – Você parece muito corajoso! CASIMIRO – Acho que não é coragem. mas em situações de pe- rigo eu fico calmo. Cláudia. é instinto! Eu fiz Exército. que dureza! Não deve ter si­do fácil! CASIMIRO – Fácil? Estava sob as ordens do sargen- to Madruga.. o assalto. CASIMIRO – Arma? Fui campeão de tiro com grau máximo! ESTRANHA – Estou impressionada! CASIMIRO – É. CASIMIRO – Ah. me pus à frente de todos os reféns 12083260 miolo A Rocco. O Exército transforma meninos em homens! ESTRANHA – Acredito! Conta mais do assalto. ESTRANHA – Puxa. Para começo de conversa. não. CASIMIRO – É incrível.....

e disse para os bandidos: Calma aí, pessoal;
temos mulheres e crianças aqui. Sem violência,
por favor!

ESTRANHA – Que presença de espírito!

CASIMIRO – Com o rabo do olho, percebi que,
enquanto uns comparsas limpavam os caixas e
outros se preparavam para entrar no cofre, só
um bandido tomava conta da gente. Daí, tal
qual um lagarto, fui me arrastando entre as
mesas como se estivesse numa savana e... Pimba!
Acionei o alarme! Quando ouviram o barulho da
sirene, deram no pé. Covardes!
62
ESTRANHA – Não sei por que esses caras conti-
nuam assaltando banco! O tráfico dá muito mais
grana com menos risco.

CASIMIRO – O quê?

ESTRANHA – (Mudando de assunto) Acenda a
vela; vamos cantar “Parabéns”.

CASIMIRO – Imagina...

ESTRANHA – Faço questão! Aniversário sem
parabéns não é aniversário!

CASIMIRO – Não...

12083260 miolo A Rocco.indd 62 28/10/2009 11:51:16

ESTRANHA – (Autoritária como D. Veridiana)
Vamos, Casimiro; deixa de ser molenga! Põe
fogo nessa vela de uma vez!

CASIMIRO – Está bem, mamãe... (Embaraçado
com o engano) Digo: está bem, Cláudia, se você
insiste! Não repare, o bolo não está inteiro por-
que dei um pedacinho para a faxineira.

(Ele acende a vela. Ela canta o Parabéns super-
sexy, como Marilyn cantou para Kennedy, com
direito a É pique. Ele está pasmo... Assopra a vela)

ESTRANHA – (Sobressaltada) Dois pratos? Você
está esperando alguém?
63
CASIMIRO – Não, não! É só a força do hábito. Às
vezes, quando me sinto só, faço de conta que
mamãe ainda vive. Agora, tenho companhia de
verdade. O prato é seu. Adivinhe para quem é
o primeiro pedaço...

ESTRANHA – Obrigada. Fez um pedido?

CASIMIRO – Deveria ter feito?

ESTRANHA – Claro que sim! Faça agora; ainda
dá tempo...

(Casimiro corta o bolo e faz um pedido sem som.
Só mexendo a boca, para a plateia: Quero comer
essa mulher)

12083260 miolo A Rocco.indd 63 28/10/2009 11:51:16

ESTRANHA – Por falar em presente, você foi tão
legal comigo! Nem sei como posso agradecer.

CASIMIRO – Que é isso? Não fiz nada.

ESTRANHA – Como não? Você salvou minha vida.

CASIMIRO – Qualquer um faria o mesmo.

ESTRANHA – Não faria, não. (Vai até o retrato
e descobre D. Veridiana) Dona Veridiana, para-
béns! Seu filho é um herói!

D. VERIDIANA – E você é uma piranha!

64 CASIMIRO – Assim você me deixa sem jeito...
Que bobagem...

ESTRANHA – E todo herói tem de receber uma
recompensa! Ainda por cima, hoje é o seu ani-
versário; quero te dar um presente.

(Ela vai até ele – que está paralisado – e lhe dá
um beijo na face, depois outro e mais outro. Já
o abraça pela cintura, lhe dá vários beijinhos na
boca e depois um longo beijo de língua. D. Ve-
ridiana, com comentários e xingamentos, tenta,
inutilmente, atrapalhar a conquista. A Estranha
começa a tirar a roupa de Casimiro e o arrasta
para o sofá.)

12083260 miolo A Rocco.indd 64 28/10/2009 11:51:16

CASIMIRO – Espera, espera... (Apaga a luz e volta
para os braços dela, mas percebe que as velas do
altar da mãe ainda estão acesas) Espera, espera...
(Apaga as velas. Transam com todos os sons e
movimentos... Os dois dormem no sofá, saciados.
Luz de sonho. Cachorrão entra pela janela; está
furioso. Apenas a Estranha acorda.)

ESTRANHA – (Aterrorizada) Cachorrão?!

CACHORRÃO – Pensou que podia se esconder
de mim?

ESTRANHA – Cachorrão, eu posso explicar...
65
CACHORRÃO – Cala a boca, vadia! (Apontando
para Casimiro, que continua dormindo) Quem
é esse sujeito?

ESTRANHA – Não sei, acabei de conhecer.

CACHORRÃO – Acabou de conhecer e já estava
trepando com o cara? Então ou você é uma men-
tirosa ou é uma puta.... Ou os dois! Qual o nome
do teu amante? Não gosto de matar ninguém
sem saber o nome.

ESTRANHA – Não é meu amante coisa nenhuma.
É um gerente de banco, não mate o infeliz. Ele
pode ser útil.

12083260 miolo A Rocco.indd 65 28/10/2009 11:51:16

CACHORRÃO – É, pode mesmo. Esse sujeito vai
dar um excelente tapete pra minha sala!... Cadê
a grana que você me roubou?

ESTRANHA – Não fui eu, juro!

CACHORRÃO – Você não quer me falar, então
vou ter que perguntar pro teu amigo. (Cutuca
Casimiro com o cano do revólver) Acorda, ne-
ném!

CASIMIRO – (Sem abrir os olhos) Meu amor, hoje
é o dia mais feliz da minha vida.

CACHORRÃO – Que bom que você gostou, queri-
66 do, porque é o seu último dia na Terra! Levanta
para morrer, safado!

CASIMIRO – O que é isso? Cláudia, quem é esse
sujeito?

CACHORRÃO – (Para a Estranha) Cláudia? Esse
é teu nome de guerra, Lequinha? (Ri. Para
Casimiro) Chega de papo-furado. Onde está
minha grana?

CASIMIRO – Grana? Que grana?

CACHORRÃO – Deixa ver se refresco a tua me-
mória: os duzentos mil dólares que essa piranha
roubou de mim com a tua ajuda.

12083260 miolo A Rocco.indd 66 28/10/2009 11:51:16

CACHORRÃO – Se não sabe de nada.. que cai mortalmente ferido no sofá) ESTRANHA – Não! CASIMIRO – Cláudia.. Além disso.indd 67 28/10/2009 11:51:16 . não serve para nada! 67 (Cachorrão dispara a arma em Casimiro. ESTRANHA – Por que eu falaria? Você vai me matar de qualquer jeito! 12083260 miolo A Rocco. CASIMIRO – Deve haver algum engano. Meu dedo já está coçando. ESTRANHA – Calma. telefone para sua mãe. CACHORRÃO – Vou te perguntar pela última vez: onde foi que você enfiou meus duzentos mil? Desembucha. o cara não sabe de nada. Cachorrão.. esta é uma residência de família. e estou pedindo educadamente para que o senhor se retire. temos mulheres e crianças no recinto.. CACHORRÃO – Leca. não sei do que o senhor está falando. de onde você tirou esse cara? Parece de história em quadrinho. ela deve estar preocupada (Morre). Vamos com calma.

A Estra- nha desperta sobressaltada – a cena passada foi apenas um pesadelo) ESTRANHA – Nossa. CACHORRÃO – Te dou dois segundos.. doçura? Ainda gosto de você. 68 ESTRANHA – Não está aqui comigo. Cachorrão sai. Me dá dois dias e te devolvo tudo. CACHORRÃO – (Aponta o revólver) Hasta la vis­ ta.. eu juro. (Tateia na escuridão) Achei! (Acende a luz) Onde foi parar aquele maldito papelzinho? 12083260 miolo A Rocco.. que cai morta no sofá....indd 68 28/10/2009 11:51:16 . baby! ESTRANHA – Não. cruz-credo! Que pesadelo horroroso! Deus me livre!. ESTRANHA – Eu até gostaria de te dizer.. ESTRANHA – Jura? CACHORRÃO – Claro! Diz pro teu Cachorrão onde você escondeu o tutu. Eu recupero a grana e a gente põe uma pedra em cima disso. mas perdi o telefone de contato. CACHORRÃO – O que é isso. pelo amor de Deus! (Cachorrão dispara contra a Estranha. Preciso encontrar a luz. Blackout.. Tenho planos para nós dois. Cachorrão.

.. Ih. me solucione uma dúvida: como chama aquela posição em que você ficou de lado.. Frango assado. VERIDIANA – Não esperava elogios de uma rameira! Aliás.. Olha pela fresta da janela para se certificar de que nin- guém está à espreita e sai para o jardim) D. que decoração horrorosa! Quanta velharia. D. VERIDIANA – (No quadro. ESTRANHA – (Entra do jardim) Nada! Nunca vou achar esse número. (Avalia a casa) Nossa. canguru-perneta e B-52 eu conhecia. (Casimiro está dormindo no sofá... Como você teve coragem? No meu sofá de veludo??!! Essa mulher é uma profissional. E olhe que tenho mais 69 de cem anos de janela!... Que repertório! (Sai do quadro. vai até o bar e toma mais uma dose) Nem Luz Del Fuego teria tal arsenal de variedades! (Pega a garrafa de uísque). acorda! Sua vagabunda já se foi.. está voltando! (Entra no quadro com a garrafa). demora um pouco para conseguir falar) Casimiro.. com uma das pernas encolhidas e ainda conseguiu chupar o dedão de Casimiro? ESTRANHA – Esse cheiro de mofo. estupefata. A Estranha se veste e vasculha mais uma vez a sala. 12083260 miolo A Rocco... cata-cavaco. Casimiro...indd 69 28/10/2009 11:51:16 ... mas as outras posições foram no- vidade até para mim.

Aiiiiiiiiii! (Com eco) Casimiro! (A Estranha. pelo amor de Deus! Acorda. Está se preparando para abandonar a casa) Até que deu um lucrinho. (Vai para a ala interna da casa) D. Casimiro.. Acorda. não bate uma réstia de sol nesta sala! Antigamente tínhamos sol o dia todo. (Toma uma dose) ESTRANHA – Mas não vou sair de mãos vazias. D.... ela está vasculhando tudo. Alguma coisa de valor eu devo encontrar neste museu. mocinha! Não ouviu o que eu disse? (Para Casimiro) Acorda. entra no quadro). como se tivesse ouvido algo. se dis- trai e derruba um vaso... me acuda! Estou passando mal! Ai.indd 70 28/10/2009 11:51:16 . priápico! A meretriz está lá no meu quarto. VERIDIANA – Você queria o quê? Depois da cons- trução desse viaduto. libertina! Casimiro. Bela Adormecida. VERIDIANA – (Grita) Ladra! Ai. 70 Tire a mão daí. saco de batatas! (Antes de a Estranha chegar. mexendo nas minhas coisas. encontrou o esconderijo das minhas joias! As minhas joias! Casimiro. devasso! Acorda. Casimiro acorda. ESTRANHA – (Vem carregando uma sacola. D. Ah. só de 12083260 miolo A Rocco. inútil. Acorda. VERIDIANA – Volte aqui. estúpido. (Grita) Ladra!.

. Casimiro. D... VERIDIANA – Maravilhoso afanar as minhas joias! CASIMIRO – Foi mais que isso! ESTRANHA – Claro que foi! D. anta! 12083260 miolo A Rocco... adorei te conhecer.indd 71 28/10/2009 11:51:16 . Eu estava indo. D. tenta se cobrir. Foi maravilhoso.. A Estranha esconde a sacola) CASIMIRO – Cláudia. VERIDIANA – Desde quando ladra dá adeus? 71 Às vezes eu penso que você não é meu filho! ESTRANHA – Estava deixando meu telefone para você.. já vestida? (Vai colocando a roupa que está ao pé do sofá) ESTRANHA – É. Foi uma noite especial. palerma! CASIMIRO – Ia embora sem dizer adeus? D.. VERIDIANA – Olhe a sacola atrás da ca­dei­ ra. cueca. não queria te acordar. VERIDIANA – Mas eu queria! Até que enfim. Envergonhado.

. dois milagres aconteceram: você recuperou a memória. não sabia que você era 72 poeta. onde foi que eu er- rei? Pari um asno! (Toma uma dose) ESTRANHA – Casimiro. Se poesia é coisa para loucos e apaixonados.. como um anjo. D. eu te amo! ESTRANHA – Eu também te amo! E. Casimiro! 12083260 miolo A Rocco. CASIMIRO – Sou! A partir de hoje. Quanto tempo fui um morto- vivo! Ontem à noite.. Chega! ESTRANHA – Calma. sou. Renego completamente meu passado. CASIMIRO – Eu sei. apa- go neste momento a montanha de lembranças tristes que venho colecionando por todos esses anos. E meus versos serão todos para louvar sua beleza. Você. Eu te amo porque res- piro.indd 72 28/10/2009 11:51:16 . eu sei. CASIMIRO – Cláudia.. e eu. Tenho a sensação de ter nascido de novo. te amo porque só agora vejo sentido para tudo. Por minha vida toda eu pro- curei alguém como você. veio do Céu para me mostrar o caminho da iluminação. VERIDIANA – Meu Deus. então sou o mais feliz e o mais louco dos poetas. a vida.. O que aconteceu nessa noite prova..

VERIDIANA – Energúmeno. você está doido? CASIMIRO – Doido de amor.. Melhor assim. É quanto àquela promoção que o senhor iria me dar na semana que vem. diria até sério e grave. ladrão dos sonhos alheios! Passar bem! Ah. liga para o diretor do banco a quem é subordinado) Alô. VERIDIANA – Vender a casa? Nunca. e desejo sinceramente que o senhor introjete em seu 73 orifício anal esse meu emprego junto com toda a sua fortuna espúria.. porque eu teria de recusar. ainda por cima perdeu o emprego! ESTRANHA – Casimiro. agiota. antes que me esqueça: vá se foder! (Desliga o telefone) D. o testa- mento não deixa! Traidor! (Toma mais uma dose) 12083260 miolo A Rocco. não foi um novo plano econômico nem medida provisória. Sim. não?. eu não iria ser promovido?. e a paciência foi meu pior defeito! (Vai até o telefone.indd 73 28/10/2009 11:51:16 . sim.. Ah... D. Que promoção? Como assim.. (Vai até ela e lhe dá um beijo) Vamos vender esta casa. Usurário.. doutor Diógenes?. banco de merda!. Não..... aliás. Fiquei louco... Aliás. cair no mundo... estou me demitindo desse Banco de Boston. o assunto é muito importante. CASIMIRO – Tive calma por toda a minha vida.. Desculpe- me incomodá-lo em sua casa a esta hora da ma- nhã..

... Eu entendo. Podemos namorar. Você é incrí­ vel... falta de tempo! Adeus. mas. VERIDIANA – Casar? (Toma mais uma dose) Que vergonha! Nunca tivemos uma meretriz na família.. solidão assistida! Adeus. CASIMIRO – Claro. Me desculpe. Começou aqui. nesta usina de dementes. bancários! Adeus. sindicato! Adeus.indd 74 28/10/2009 11:51:16 .. ca- tacumba da família Alcântara! ESTRANHA – Puxa! Que mudança! CASIMIRO – Fica comigo. hoje. claro.... viver à beira-mar... (Trovão) Está bem... CASIMIRO – Vamos viajar! Conhecer novos lu- gares. o que você acha? 12083260 miolo A Rocco. (Abre a janela da sala – barulho da cidade entra com violência. correria! Adeus. mas acho que te amo tanto e minha certeza é tão grande que. Alguma coisa muito especial começou. mau humor! Adeus.. Casa comigo. Chega de morar neste inferno... Mas foi a única! ESTRANHA – Casar?!. Seria ótimo. cidade maldita! Adeus. ESTRANHA – Fique tranquilo. Grita para fora) Adeus. Você precisa pensar.... nesta cidade. entre nós. 74 D. Tia Nicota era dada. é verdade..

CASIMIRO – Claro. VERIDIANA – (Grita) Casimiro! (Com eco) Volta aqui já! 12083260 miolo A Rocco. VERIDIANA – A cerimônia vai ser no bordel! ESTRANHA – Agora estou querendo ir para casa. Não se pode jogar fora a tradição! D.. D. vamos devagar. que tal? ESTRANHA – Ótimo! (Casimiro sai para pegar a barra.. Tenho uma barra de chocolate. como tem que ser. costumo tomar café na padaria. D.. será que você teria algo para comer? CASIMIRO – Minha despensa está vazia... Eu te levo. faço questão. VERIDIANA – Essa vagabunda não vai sair daqui com que é meu! 75 ESTRANHA – Obrigada. A Estranha passa a mão na sacola e vai saindo para a rua) D.. Estou morrendo de fome.indd 75 28/10/2009 11:51:16 . VERIDIANA – Não estou falando? Vai ver a mãe na zona! CASIMIRO – É evidente. você é demais.. Ver minha mãe..

. Já ouviu falar do Cachorrão? CASIMIRO – Cachorrão?. foi até bom você apa- recer. só tenho ape- lido. (Casimiro aparece) CASIMIRO – Lembrei que tenho uvas-passas. CASIMIRO – Que mal-entendido? 76 ESTRANHA – Casimiro. VERIDIANA – (Já bêbada) É uma ladra. você gosta?. CASIMIRO – Qual o seu nome? Por que você mentiu? ESTRANHA – Eu não tenho nome. Casi- miro! Jogue-a na sarjeta! ESTRANHA – Olha. Casimiro.. pelo menos a gente acaba com esse mal-entendido. ESTRANHA – Caí em desgraça porque sumi com duzentos mil dólares do malandro. Que sacola é essa? Essa é a sacola de mamãe! Aonde você ia?. Era amante do maior traficante de São Paulo. D.indd 76 28/10/2009 11:51:16 . Assim.. Me chamam de Leca Risca-Faca... Essa sacola aqui está com tudo o 12083260 miolo A Rocco. Por isso ten- tou me matar.. eu não me chamo Cláu- dia.

deu pra sacar? D. VERIDIANA – Cadela! CASIMIRO – Está me roubando? Então foi tudo mentira. 12083260 miolo A Rocco. chama! Para mim você é a Cláudia e esse sempre será o seu nome.. Tudo isso eu devo a você. Fui dispensado porque era muito pequeno.indd 77 28/10/2009 11:51:16 . Cláudia. Se me pedir. você.. Estou te dizendo que te amo! Você não precisa roubar nada de mim.. ESTRANHA – (Grita) Eu não me chamo Cláudia! 77 CASIMIRO – Agora.. Casimiro! Enche essa putana de porrada! (Toma mais uma talagada) CASIMIRO – Mulher do Cachorrão? D. porque eu te dou. Na verdade eu também menti para você: eu nunca fiz Exército... (Tira uma faca da sacola e ameaça Casimiro) Estou te roubando.. te dou muito mais. mas não sou mais! Hoje virei uma página de minha vida e esse caminho não tem volta.. No assalto ao banco eu me escondi embaixo da mesa e só saí três horas depois! Sempre fui um covarde. que eu encontrei de valor neste mausoléu.. VERIDIANA – Dá nela. Vê se me entende: não me importa o que você tenha feito. Vamos enterrar o seu e o meu passado juntos..

VERIDIANA – Um punheteiro de mão cheia. VERIDIANA – Vai me cobrar quanto. putana? CASIMIRO – Se você acha graça. ESTRANHA – O quê? CASIMIRO – A noite passada foi a primeira vez que fiz amor. 12083260 miolo A Rocco.. pode acreditar! D. O mundo para mim. O bem que você me fez não tem preço. CASIMIRO – Nunca. ESTRANHA – Velhinho. eu também acho.. É pinel! Até que por ter sido a sua pri- meira vez. (Ri) Dona Veridiana.indd 78 28/10/2009 11:51:16 . você é mais louco do que eu pensava. Esta noite foi minha primeira vez. Você foi a primeira mulher da minha vida! ESTRANHA – Quer dizer que com cinquenta anos 78 no lombo você nunca... isso sim! Se trancava no banheiro por horas a fio. ESTRANHA – Cara.. mas não faz ideia de com quem está se metendo. você até que é um cara legal. você se saiu bem. CASIMIRO – Quero você do meu lado.. desvirginei o Casimiro. agora. (Gargalha) D. está cheio de graça.

. querendo me esfolar. (Toma um gole) 12083260 miolo A Rocco. 79 D. ESTRANHA – Oh. Se eu ficar aqui. CASIMIRO – A minha também não. não deixe a mamãe esperando. te- nho umas economias. vamos embora. meia cidade de São Paulo está à minha procura. Venha logo. estão batendo nessa porta. vem coçar as costas da mamãe. VERIDIANA – Casimiro. ESTRANHA – Para o seu governo. ESTRANHA – Os caras estão na minha cola... VERIDIANA – Miro.. imagina levando você. estou perdida. Podemos sumir no mapa.. Daqui a pouco. se você for embora. Não sou navio para sair com âncora por aí. Vou com você! Nada mais me prende aqui! O Brasil é enorme. e você vai rodar comigo. ninguém vai nos achar.. Eles tentaram me matar e vão tentar novamente. CASIMIRO – Por que âncora? Eu tenho carro. D. traga meus chinelos. estou começando a ter aquela velha crise de urticária. vamos fugir.indd 79 28/10/2009 11:51:16 . meu amigo da terceira idade: se já vai ser difícil escapar sozinha. CASIMIRO – Então. Minha vida não vale nada.

tudo dominado. estou mandando. Está querendo me encarar? Não teve coragem nem de sair da casa da mãe. CASIMIRO – (Grita) Cala a boca já morreu. VERIDIANA – Casimiro. quem manda na minha vida sou eu! Vem me pegar. es­tou mandando! D. o papel é todo seu! ESTRANHA – Te enxerga cara. eu não estou pedindo. É incapaz de matar uma mosca! CASIMIRO – Mosca? 12083260 miolo A Rocco. Está tudo combinado. Se conseguir. você é um bosta. Você acha que eu iria dar um golpe na máfia sem estar preparada? Só preciso dar um telefonema. passagens compradas. CASIMIRO – (Tira o papel do bolso) Por acaso o telefone dele está aqui? ESTRANHA – Me devolve isso! CASIMIRO – De jeito nenhum! (Circundam o sofá na perseguição) 80 ESTRANHA – Casimiro. traga meus chinelos! Eu não estou pedindo.indd 80 28/10/2009 11:51:17 . ESTRANHA – Já tem um cara me esperando.

ESTRANHA – Ficou maluco. eu odeio insetos! O que você dizia. não vai se machucar! Me dá esse papel. D. Casimiro! Impecável! Exatamente como te ensinei! CASIMIRO – Desculpe-me.. VERIDIANA – Casimiro. A Estranha fica olhan­ do abismada) D. ESTRANHA – Casimiro. VERIDIANA – Mosca?!! (Ouve-se o barulho do inseto. mas não é homem para me enfrentar! Chega de brincadeira! (Mostra a faca) Se você ficar na sua. Casimiro sai em seu encalço até matá-la.indd 81 28/10/2009 11:51:17 . Cláudia? ESTRANHA – Que você é ótimo matador de mos- cas. perdeu a noção do perigo? CASIMIRO – A única coisa que eu quero é correr perigo! Vem me pegar. eu não estou brincando! 12083260 miolo A Rocco. não estou brincando! Venha já aqui! Olha que te mando para o colégio interno. 81 CASIMIRO – Nunca! Nem se você me pedir de joelhos. minha bandida! D.. VERIDIANA – Brilhante.

VERIDIANA – Coroa?! CASIMIRO – Só leva se me levar junto! ESTRANHA – Casimiro. D. Vamos. ESTRANHA – O cara enlouqueceu de vez! Bom. ESTRANHA – Não vou te torturar. Não quero te machucar. dar a cara pra bater. não. vou levar as joias da coroa. vai ser foda.. já perdi muito tempo com você. vai me dar um puta trabalho. mas eu me viro. ve- lhinho filho da puta. mas eu descolo esse telefone.indd 82 28/10/2009 11:51:17 . prefiro morrer. Me mata! Sem você. mas mastiga e engole o papel) ESTRANHA – Não acredito! Engoliu?! Ah. Agora você vai me pagar. (Pega a sacola) OK. vou te matar! CASIMIRO – (Colocando-se em frente à porta da rua) Não tenho medo de mais nada. sai da minha frente. CASIMIRO – Não dou. Vou ter que me expor. velhinho! Isso é um assalto. 82 enfia. não dou e não dou! Jamais te entregarei esse número! Esqueça esse sujei- to! (Casimiro se deixa alcançar. CASIMIRO – Não adianta me torturar.. Agora vou me arrancar. eu não decorei o número. 12083260 miolo A Rocco.

É a última chance. VERIDIANA – Bela estratégia. me mata. Peça perdão dos seus pecados. ESTRANHA – É seu último desejo? 83 CASIMIRO – É! ESTRANHA – Então.. vamos logo com isso. VERIDIANA – Casimiro... mas faço questão que seja a última a zombar de mim. Me mate. D.. D. eu não me engano.. ESTRANHA – . velhinho! 12083260 miolo A Rocco.indd 83 28/10/2009 11:51:17 . Me mate. Seu coração é corintiano? CASIMIRO – Zombe. Vem. não me importo.. mas antes me dê um beijo.. nada mais importa! Vem.. perfura este corpo que já não quer viver. meu garoto! Apro­vei­te agora! Dê um murro na cara dessa vaca! ESTRANHA – Se prepare para o beijo da mor­te. impeça! CASIMIRO – Tudo bem.. Zombe de mim. Não. Tenha a certeza de que você não foi a primeira.. Você não vai ser o primeiro nem será o último em quem enterro meu punhal.. rasga este cora- ção cansado de sofrer.. CASIMIRO – Eu me perdoo e eu te perdoo.

o que não tem remédio re- mediado está! (Casal continua se beijando) D. de braços abertos – e lhe dá um beijo e outro e mais outro. Casimiro. VERIDIANA – O que é isso? Nossa. mata! Besouro! Barata! Pernilongo!.. Adeus. inútil...... Indo embora...... Mas tem que ser agora. (Ela vai até ele – que está indefeso. São Paulo. (Olha o casal se amassando) Outra vez? Mas não é possível! Que pouca-vergonha! Casimiro. Mostre a virilidade dos Al- cântara. Não adianta.. Ela larga a faca... Mal posso esperar. estou subindo. Será que misturei? Estou vendo coisas.. Começam a tirar um a roupa do outro) D. VERIDIANA – (Passa a ser uma entusiasta) Dá-lhe. Casimiro.. (Som de trombetas e fumaça dentro do quadro) Que arrepio é esse?. Adeus... Bem.... casa.. Casimiro.. (Som de trovão) Não! Tudo bem. acho que exagerei no Diempax. Mosca.. pare com isso! Estou avisando. o 12083260 miolo A Rocco..... Casimiro. Terremoto. rapaz! Pelo menos vê se me arruma um neto. Adeus. Bela chave de pernas! Vamos.. São Pedro? Queria dar só mais uma olhadinha. CASIMIRO – Vem.. O Minhocão vai nos esmagar!..indd 84 28/10/2009 11:51:17 .. Parece que 84 fui vencida. Ui! Minha Nossa. terremoto.

e você? ESTRANHA – Claro que não! Voz de fora – Abram essa porta! ESTRANHA – (Desesperada) São eles.. enquanto Casimiro e a Estranha ainda se beijam apaixonadamente) ESTRANHA – (Se desvencilhando de Casimiro) OK.. velhinho! Te cuida! (A Estranha se prepara para sair quando batem 85 à porta. Adeus.... Pelé disse: “Love... chega.. Me en- contraram. Não tenho mais tempo a perder. 12083260 miolo A Rocco. love. Casimiro! Aproveite o que é bom. Eles se olham assustados) ESTRANHA – (Assustada) Você está esperando alguém? CASIMIRO – Não.. CASIMIRO – Calma. (Veridiana sobe aos Céus – some na fumaça – cantarolando o hino da Internacional Socialista. já sumindo) Adeus. love. Adoro homens decididos! (Grita.. senhor é que manda.”. mundinho! Prega fumo.indd 85 28/10/2009 11:51:17 .

... Maomé e Buda. em... mendigo maltrapilho. Alô. Vão me matar! CASIMIRO – (Levanta a voz) Calma.. Entra Bugio........ Casimiro lhe dá um tapa. em triplo. (Vai passando pela sala e desarrumando tudo). vamos sair pelos fundos. E agora?. Tem alguém aí?. (Como a Es- tranha está em pânico. com brasileiro não há quem possa!”. Quem aju- da o Bugio empresta a Deus. Alô? (Delira. e ela imediatamente se cala. Jesus Cristo. de- mente. Alô?. como se fosse o capitão Kirk do seriado televisivo Jornada nas Estrelas e estivesse com um intercomunicador 12083260 miolo A Rocco. Vamos em frente que atrás vem gente! (Saem) 86 BUGIO – (Off) Abram em nome da lei! (Força o trinco. Ele pega a sacola de joias e o dinheiro vivo escondido na estante) BUGIO – (Off) Abram em nome da lei! CASIMIRO – Calma.. (Canta) “A taça do mundo é nossa. Tem alguém aí? (Vasculha a casa) Eu só peço um prato de comida.. ESTRANHA – (Descontrolada) Ai.. Tem alguém aí?.... Pentacampeão. Todas as religiões são boas e todas são uma só.. visionário e profeta) Abram em nome da lei de Deus.. Quieta! Vem comigo. mãe!. meu Deus.. tetra.. ao Batman e vai receber em dobro. “A fruta proibida é a mais apetecida!” (Para o retrato) Sua bênção.. a Jeová.indd 86 28/10/2009 11:51:17 ...

.indd 87 28/10/2009 11:51:17 .. o local é seguro! Desligo. (Pega um pedaço de bolo) Magno. Spok... meus sensores não detectaram nenhuma forma de vida inteligente. vamos invadir! Cai o pano 87 12083260 miolo A Rocco. Dr. na mão) Kirk.. Sr. pessoal! Barra limpa. vai até a porta. Sr.. Scotty. (Cai na real. Sulo. dobra quatro.. mande uma expedição. a Enterprise . todas as máquinas à frente. Sim.. assobia) Ei. suporta a vida humana. o planeta é classe M. levar para análise. descobri fragmen- tos de vida alienígena. Tenente Uhura.

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A Loucadora de Vídeo

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Magdalena (Lulu Pavarin) e Laura (Luciana Caruso), em
A Loucadora de Vídeo

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A peça A Loucadora de Vídeo estreou em
5 de junho de 2009 no teatro do N.Ex.T.

Texto, direção e cenografia
Antonio Rocco

Elenco
Lulu Pavarin – Magdalena
Luciana Caruso – Laura
Ivan Cápua. – Estúpido

Assistência de direção: Jussara Felix
Iluminação: Marcos LoureiroFigurinos: Tereza
Monteiro
Arte gráfica: Nino Dastre 91
Trilha original: Ricardo Severo
Preparação corporal: Helena Ciampolini
Projeções: Ludo Filmes
Cenotécnica e operação: Ivan Fagundes
Assessoria de imprensa: Arte Plural
Fotos: Antonio Rocco

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A Loucadora de Vídeo

Peça em um ato DE LOUCURA

Antonio Rocco/2003

Personagens
Magdalena – proprietária da locadora, manca
e caolha.
Laura – cliente.
Estúpido – assistente de Magdalena.

Cenário

Sala de atendimento da videolocadora. Todas as
92 paredes são lisas e brancas. O balcão de atendi-
mento também é branco. Sobre o balcão está um
enorme catálogo em que, supostamente, está a
relação dos títulos da locadora. À direita, vê-se
a porta de entrada da rua; à esquerda estão a
porta que dá para o depósito de fitas (prisão de
Estúpido) e a porta que dá para o almoxarifado,
onde são guardados material de escritório, figu-
rinos e objetos usados na encenação dos filmes.
Na parede à esquerda há um relógio de ponto;
na parede do lado direito vê-se um calendário.

Estamos em 2015. O videocassete ficou obsoleto;
os cartuchos cassete são quase peça de museu. O
DVD e o Blue Rae tomaram conta do mercado.

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usa um sobretudo). 12083260 miolo A Rocco. carimbo e bloco de papel. Magdalena entra pela porta do depósito de fitas e tranca a porta atrás de si.. MAGDALENA – Acreditamos na propaganda boca a boca. MAGDALENA – Boa noite... LAURA – Com licença. arranca a folha antiga do calendário.indd 93 28/10/2009 11:51:18 . Estou procurando uma videolocadora. É aqui mesmo... Ela está abrindo a loja: acende a luz. (Olha em volta desconfiada) MAGDALENA – Posso lhe ser útil? LAURA (Leva um grande susto. abre a porta da rua. Vai para trás do balcão. LAURA – Foi difícil encontrar.. Entra Laura pela porta da rua.. Se recompondo) 93 – Boa noite. faz uma bolinha de papel e tenta acertar a distancia a bolinha no lixo. abaixa-se para pegar caneta. Laura (fechando o guarda-chuva) – Essa garoa! chega a molhar o osso da gente!. não tem nenhuma placa. MAGDALENA (Dando corda no relógio de ponto) – Já encontrou..

.. Quer dizer: quem me dera! 12083260 miolo A Rocco. Magdalena – Certamente que não!. Garanto que você está em uma videolocadora. mas não é... Parece mais um ambulatório.. Laura – Não?.. Parece um am- bulatório. a culpa não é sua. A culpa é daquele cafajeste e da maldita sirigaita. senhora. A culpa é de todos os cafajestes e de todas as sirigaitas! A culpa pode ser sua. é claro. Laura – Estranho. senhorita. aposto que você já destruiu vários casamentos.... sim! Com esse rosto bonitinho. quem sabe? (Gar- galha) Estou brincando. Magdalena – Um hospício. não. Laura – Não. eu acredito.indd 94 28/10/2009 11:51:18 . Magdalena – Não se desculpe. 94 Magdalena – Senhorita! Laura – Senhorita!. Magdalena – O que é estranho? Laura – É meio esquisito. Quer que eu jure? Laura – Não. Nunca vi uma videolo- cadora assim... Desculpe. Imagine. digo: não... Se a senhora diz..

. Daquele jeito que acontece nos filmes: todos param de comer..... de jeito nenhum. Laura – Ah. 95 Laura – Acidente? Magdalena – Não quero falar sobre isso... é claro. de trás do balcão.. Magdalena – Não posso acreditar no que ouvi. Quem me dera entrar em um restaurante e virar a cabeça dos homens. (tentando ser gentil) Em que posso servi-la? Laura – Afinal. lhe garanto! Antes do aci- dente.. uma picareta e vai guardá-la no almoxarifado.. instaura-se um silêncio absoluto.. Magdalena tira. Sabe?... Magdalena (impaciente) – Não precisa se descul- par. isto aqui é uma videolocadora? (Laura está entretida examinando o ambiente. Magdalena – Minha filha.. Laura não vê Magdalena passar com a picareta às suas costas) 12083260 miolo A Rocco. Só para ver a linda mulher entrar.. Quer dizer que você gostaria de ser uma destruidora de lares? Laura – Não.. comigo acontecia exatamente assim.. Gostaria apenas de ser bonita para tanto.indd 95 28/10/2009 11:51:18 . Desculpe. Eu nem me acho boni- ta..

(Retoma a pá de Laura e se encaminha para trás do balcão) Compramos tudo o que eles 12083260 miolo A Rocco.. (Faz sinal para Laura vir pegar o lixo com a pá) Nós só trabalhamos com cassete. Magdalena – Veio ao lugar certo! Esta é a mais completa videolocadora em que você já pisou. Magdalena – Foi mesmo?.. Eu sei que é uma velharia. Somos a única da cidade. mas eles agora só tra- balham com DVD. e tive que desenterrar meu videocassete. talvez a única do mundo.. atrás do balcão.. Blu-Ray. O sujeito de lá me indicou aqui. Não me diga! (Magdalena pega pá e vassoura. Magdalena – Pode apostar que é! Laura – Eu fui à Vídeo Wall... guardando-o no porta guarda-chu- va. Ela entrega a pá para Laura e arranca de sua mão o guarda-chuva... Meu aparelho de DVD está com defeito. Temos toda a história da sétima arte até o ano de 2005.indd 96 28/10/2009 11:51:18 . Não têm mais os cartuchos de videocassete... mas na emergência vale tudo! Eu não consigo passar um fim de se- mana sem alugar filmes. aquela locadora enorme lá na esquina. quando infelizmente deixaram de usar este maravilhoso suporte que é o vide- ocassete.. Magdalena começa a varrer o estabelecimento) 96 Laura – É..

no andar de cima.. (tranca a porta da rua). Não é permitida a entrada de estranhos.. (Ri de maneira desmedida). as prateleiras. mas Magdalena se coloca em seu caminho) Laura – Isto aqui não é uma videolocadora. 12083260 miolo A Rocco. Laura (assustada) – A senhorita trancou a porta? Magdalena – Tranquei! Nosso atendimento é individual. Um de cada vez. por todo o prédio! Laura – Podemos ir até lá? Magdalena – De maneira nenhuma. Começo a duvidar de que a mocinha esteja realmente querendo alugar um filme.. os cartazes? 97 Magdalena – Tudo está perfeitamente no lugar: tudo dentro da loja. Compramos os cartuchos a preço de banana e alugamos pelo preço de meia banana. vai em direção à porta de sa- ída. na sala ao lado...indd 97 28/10/2009 11:51:18 . Mas onde estão os cartuchos. não querem mais. Laura – Claro que estou.. (Laura. A senhorita está brincando comigo? Magdalena – Brincando? Olhe bem para mi- nha cara. assustada.

Está aqui! Escolha... não deixamos o público consultar diretamente. Mas fica difícil escolher sem ver as fotos. as resenhas. Magdalena – Talvez eu possa ajudar.indd 98 28/10/2009 11:51:18 .... 98 Laura – Impressionante! Magdalena – Por isso. Mais de 2 milhões de títulos. Lixo tecnológico! Elas man- dam tudo para cá. Tem alguma preferência de gênero? Laura – Eu gosto de tudo. Laura – Entendo.. Adoro cinema! Magdalena – Musical americano? Laura – Claro! 12083260 miolo A Rocco.. Temos mais de 15 andares de fitas. Como vou poder escolher os filmes para alugar sem ver o que a senhorita tem? Magdalena (passando para Laura o enorme catálogo) – Temos todos os filmes que o cinema já fez até 2005.. Laura (examinando o calhamaço) – Tudo isso? Magdalena – Ninguém quer mais a porcaria desses cartuchos... Laura – Entendo...

Já vi dúzias de vezes. Pelo menos na minha opi- nião. o filme não ganhou nenhum Oscar? Magdalena – A Academia de Hollywood só pensa em dinheiro! Aquilo nunca teve nada a ver com arte.. Cantando na Chuva! (desliga) Laura – Cantando na Chuva é o maior musical de todos os tempos. mas nunca me canso. Se encaminha até a porta que dá para o interior do prédio. Não acha? Magdalena – Concordo! Laura – Produção de 1952. Tira o molho de chaves do bolso e abre a porta do 12083260 miolo A Rocco. Magdalena – Ok! (pega o interfone no balcão) Alô.indd 99 28/10/2009 11:51:18 . o rapaz traz a fita... Magdalena – Anos 50? Laura – Amo todos. Sabia 99 que mesmo com o enorme sucesso. Estúpido.. atrás do balcão. Donald O’Connor e Debbie Reynolds. Magdalena – Mais do que isso! (Magdalena coloca quepe de guarda e pega um cassetete.. Estúpido? Já não era sem tempo! Laura – Entendi! Agora.. com Gene Kelly. (fala no interfone) Está pronto.

senhora. Laura (Deslumbrada) – Ele é um artista! É fan- tástico! Como pode trabalhar como ajudante em uma videolocadora de segunda? Magdalena (irritadíssima) – Olha aqui. Ao final. Laura aplaude freneticamente. sim. vamos! Passa! Estúpido. fantasiado de Gene Kelly em Cantando na Chuva. O lema neste estabelecimento é: “Respeite para ser respeitado”. Nosso material é de segunda mão. senhora. vamos! (Estúpido volta para o interior do prédio a con- tragosto. porém a videolocadora é de primeira! Estamos entendidas? Laura – Claro. 12083260 miolo A Rocco.indd 100 28/10/2009 11:51:18 . moci- nha: eu não vou aguentar ofensa. Jamais quis ofender. Entra Estúpido.. não.. Apenas estranhei que um artista estivesse tra- balhando aqui. Magdalena o tranca) Magdalena – Esses funcionários. que está trancada) Magdalena (trata Estúpido como cão) – Para dentro. claro. Sempre que- 100 rendo sair antes de acabar o expediente. Ele entrega o cartucho à Magdalena e depois dança e canta o celebre número Singin’ in the Rain. Estúpido bate o relógio de ponto e tenta escapar pela porta da rua. depósito de fitas.

minha flor. (eleva a voz) Claro que tem essa opção! Não estou lhe falando? 12083260 miolo A Rocco. é uma profis- são ingrata! Uma carinha bonita muitas vezes rouba o trabalho de um verdadeiro artista. Magdalena – Se eu lhe contar a crise que está aí. nesse mercado. Ele trabalha por um prato de feijão. Volta a ser prática.) Muito bem! Vai levar esse? Laura – O filme?. Só fazem cena sem camisa ou de lingerie.. Uma pouca- vergonha!.indd 101 28/10/2009 11:51:18 . Laura – Deus do Céu! Que desperdício! Magdalena – Pois é. Não há mais lugar para o talento. A televisão me dá nojo! Fábrica de moer carne! 101 (Escarra no chão. acho que você não acreditaria.. malhados...... Talvez de lá venha uma resposta mais delicada do que aquela que está na ponta de minha língua. Corpos vendidos como carne no açougue... É só ver os atores da televisão: bonitos. claro! Quanto é? Magdalena – Você quer comprar ou alugar? Laura – Tenho essa opção? Magdalena – Vou mandar essa sua pergunta para o ministério das perguntas cretinas. Sim..

sempre quis ter esse filme em casa. só estra- nhei.. 102 Magdalena – Que é que tem? Laura – Nada. Tenho mais de 500 Cantando na Chuva. 12083260 miolo A Rocco. Laura – Desculpe. Ótimo.. eu agra- deço.... Quais são os preços? Magdalena – Pela diária do aluguel. cobro mais caro. Se quiser comprar... A senhorita se enganou... Só que é absurdo! Magdalena – Não tem nada de absurdo. Não sabia que vocês vendiam. eu compro. Claro! Então. não quis irritá-la. cobro 2 reais.. Entendeu agora? Laura – Entendi. ainda. Um clássico! Puxa. Magdalena – Se preferir. (ri) O preço de compra está mais baixo do que o aluguel diário. Eu não lhe falei que temos 15 andares de fitas? Não tenho mais lugar para guardar toda essa porcaria. o preço é de 1 real. Se levar embora uma delas. Laura – Alguma coisa está errada.indd 102 28/10/2009 11:51:18 . muito barato.. Magdalena – Pois agora já sabe.. Quer comprar ou alugar? Laura – Não sei.

(uma não presta atenção no que a outra fala) Laura – No começo. Laura – .. adora cinema como eu! Como é culto. Laura – Não. que cara interessante! Nossa.... Magdalena – Muito bem! Só isso? Quer uma sacola? Laura – Na verdade.. Laura – ... ele chora nas cenas de amor! Como é sensível! 12083260 miolo A Rocco.... não dá vontade de sair de casa. era uma maravilha...... Vou levar mais um filme. Terminei com o Victor. Abrir um bom vinho.. talvez dois... Com esse friozinho. Um atrás do outro. Sabe como é. Até três de uma só vez. Magdalena – Nem o meu.Abraçar o namorado. acho que vou aproveitar a promoção... 103 Magdalena – . Nada como ficar embaixo do cobertor vendo um clássico..indd 103 28/10/2009 11:51:18 . atencioso! Nossa..Acender a lareira.. Magdalena – Nem me diga... Nos- sa. não é o meu caso..Bem agarradinho. O cafajeste fugiu com a sirigaita. (acordando do sonho) Infelizmente. não! Está bem assim.

. Depois de um ano de sucesso retumbante. em São Paulo. até achei bom. Ah. saímos em excursão. uma muda de roupa. Laura – Da minha televisão. já estávamos dividin- do o armário: meio a meio. os aplausos em cena aberta. abafada. Laura – Aos poucos. Noite quente.indd 104 28/10/2009 11:51:18 . Magdalena – O sucesso foi tamanho que co- meçamos a excursionar. Pri- meiro. Laura – Era viciado em pipoca de micro-ondas.. Vinte e um de março de 2010. apresentando Um Bonde Chamado Desejo. Trazia uma pilha de filmes para casa e não saía da frente da televisão. Magdalena – A crítica foi unânime: Esta é a me- 104 lhor Blanche que já pisou nos palcos brasileiros. Magdalena – Todas as noites a plateia vinha abaixo. depois.. o barbeador.. No começo.. Magdalena – Estávamos no meio de uma tur- nê.. Laura – Quando percebi. Laura – Victor se transferiu para minha casa. 12083260 miolo A Rocco.. veio trazendo as coisas.. Magdalena – Terça-feira à noite.

Me tratava como escrava. Magdalena – Estávamos no auge. largava as roupas no meio da casa e não era capaz de trocar uma lâmpada!. 12083260 miolo A Rocco. me dá ânsia de vômito. 105 (Laura e Magdalena falam ao mesmo tempo suas próximas falas) Laura – Apertava a pasta de dente no meio do tubo. nos disputava a tapa. Laura – O fim de semana inteirinho se empan- turrando daquela maldita pipoca de micro-ondas amanteigada. Laura – Só de lembrar o cheiro. Os teatros cheios até a boca. Magdalena – O Brasil inteiro nos queria.... (voltam a falar intercaladamente) Laura– Não me dava valor. Magdalena – As filas de espera dobravam quarteirões.. Tínhamos nossa própria companhia! O desgraçado fugiu com a Stella. Nem carinho eu merecia. parecia que eu tinha obrigação de gos- tar dele. Magdalena – Logo com quem: a coadjuvante! Abandonou a temporada no meio e sumiu.indd 105 28/10/2009 11:51:18 .

junto com todas as roupas dele.” Magdalena – Cancelamos tudo. Olha que plano-sequência.. Magdalena (em um devaneio: como Blanche) – Mitch.. Magdalena (como Blanche) – Esse sinos da catedral são a única coisa pura neste bairro. Laura – Me mandava ficar quieta para não atrapa- lhar: “Psiu!. que maravilha. Victor era dublador. Laura – Eu aguentava porque ele dizia que era o trabalho dele. Até perder o emprego! Foi 106 a gota d’água. vendo os filmes e (com ódio) lendo em voz alta as legendas!.. 12083260 miolo A Rocco. Dá pra calar a boca? Já perdi um diá- logo.. Laura – Não tive dúvida.. é ator que dublava filmes. digo... Fogo! Fogo! Fogo! Laura – O dia inteirinho de pijama deitado no sofá.... que vexame! Interrompemos a turnê no meio.indd 106 28/10/2009 11:51:18 .. vá embora daqui antes que eu comece a gritar fogo!. As multas! Que prejuízo! A falência...... peguei o aparelho de DVD e joguei do décimo segundo andar.. Magdalena – Que vergonha.. Mais de 50 pessoas desempregadas.....

.. com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.. Magdalena – Aceita sugestão? 107 Laura – Claro! Magdalena – Pode ser triste? Os amores eter- nos são sempre impossíveis. Magdalena (como Blanche) – Eu sempre de- pendi da bondade de estranhos..indd 107 28/10/2009 11:51:18 . gentil como um trator) – Pois bem.. Vai querer mais alguma coisa? Laura – Quero sim! Quero um filme que tenha um amor de verdade. Laura – Eu adoro esse filme.. tem razão.. Que traveling! Magdalena (acordando do transe. do Zeffirelli? Magdalena – Não! Estava pensando em Casablanca.. Sei os diálogos de cor! Direção do Michael Curtiz. Laura – É. Laura – Ah! E o barbeador que ele tanto amava foi se espatifar do outro lado da rua! Que lindo plano-sequência. Romeu e Julieta.. que não conheça limites... Que seja eterno.... Foi filmado e exibido 12083260 miolo A Rocco.

direta- mente do planeta dos baixinhos. O cinema retratando a vida real. durante a Segunda Guerra Mundial. se você começa a tratar bem.) Mão de obra barata é uma merda! Laura – É assim que a você trata os empregados? Magdalena – Minha filha. sim! Quero Casablanca para mim! Magdalena – Para já! (Pega o interfone) Alô? Como “quem está falando”? É a Xuxa. comentando os aconte- cimentos de sua época e influenciando corações e mentes. Fala para Laura. Claro que sou 108 eu. eles montam em cima.indd 108 28/10/2009 11:51:18 . Disci- plina! O trabalho de ator requer. Rápido! (Desliga. Você já foi dona de uma companhia de teatro? Laura – Não... da pró- xima. Sabia que originalmente era um texto teatral e só depois foi adaptado para cinema? Magdalena – Estou impressionada com sua cultura cinematográfica. Cretino!. Por esta vez.. energúmeno!. acima de tudo... Magdalena – Então. vou me irritar de verdade. traga o Casablanca. passa. Não te pago para fazer gracinha! Estúpido.. 12083260 miolo A Rocco.. não sabe de nada. Laura – E que linda história de amor! Quero..

disciplina... É uma cátedra... Um voto sagrado...
Uma missão! Não se chega a lugar nenhum sem
ordem, sem método, sem disciplina!

Laura – Entendo...

Magdalena (toca o interfone; ela atende)
– Alô... Tudo pronto? Muito bem, Estúpido!...
Desculpe se fui ríspida com você... Precisava dar
o exemplo... Teve o que mereceu... Tudo bem, já
te perdoei. Agora, vamos lá. (Desliga o telefone
e vai em direção à porta. Falando para Laura)
Não disse? “Educar é pôr limites”. Se existe uma
coisa com que eles não sabem lidar é a liberda-
de... Ficam completamente perdidos. (Põe em si
o chapéu de policial francês e em Laura o chapéu 109

de Ilse. Abre a porta.)

(entra Estúpido como Rick em Casablanca)

Laura – Rick?!

(Laura como Ilse e Estúpido como Rick, inter-
pretam a cena da despedida no aeroporto.
Magdalena atua na cena fazendo o papel do
policial francês.)

Estúpido – (interpretando Rick fala para Mag-
dalena de policial) Se não se importa, preencha
os nomes. Vai parecer oficial.(Entrega-lhe o
cartucho de videocassete)

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Laura (Luciana Caruso) e Estúpido (Ivan Capúa) fazendo
cena de Casablanca, em A Loucadora de Vídeo.

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Laura (Luciana Caruso) e Estúpido (Ivan Capúa) fazendo
cena de Casablanca, em A Loucadora de Vídeo.

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Cena do filme

(Os olhos de Laura se enchem de lágrimas, Es-
túpido levanta seu queixo com um dedo e fala
carinhosamente)

Estúpido (como Rick) – Estou de olho em você,
garota!

(Laura se afasta inconsolável)

Estúpido (como Rick) – Louis...

Magdalena (como policial) – O que é Rick.

112 Estúpido (abraçando o ombro de Magdalena)
– Acho que esse é o começo de uma grande
amizade.

(Subitamente acaba a cena de Casablanca. Estú-
pido tenta escapar pela porta da rua, mas está
trancada. Magdalena, com um chicote e uma
cadeira, faz Estúpido voltar para a sala interna
e o tranca novamente.)

Laura (ainda tonta) – Meu Deus, como ele é
envolvente! Me senti dentro do filme!

Magdalena (Guardando os chapéus no almo-
xarifado) – Você foi muito bem no papel! Estou
impressionada! Por acaso você é atriz?

12083260 miolo A Rocco.indd 112 28/10/2009 11:51:21

(enquanto Laura fala e sem que ela perceba,
Magdalena tira uma fita métrica do bolso e co-
meça, como uma costureira, a tirar suas medidas)

Laura – Atriz? Quem me dera... Sou economista.
Bem, na escola cheguei a participar do grupo de
teatro... Uma bobagem de criança.

Magdalena (guarda a fita) – Não é bobagem,
não! Você tem isso no sangue. Eu nunca me
engano. Dá para sentir o cheiro do talento ema-
nando por seus poros.

Laura – Agradecida. Sou apenas uma cinéfila,
uma apaixonada por cinema. Fico muito feliz
com o elogio, especialmente vindo de você, 113
uma atriz, dona de companhia. Qual é mesmo
o seu nome?

Magdalena – Magdalena Vilaverde.

Laura – Não acredito! A senhora, quero dizer,
você... Magdalena Vilaverde? É uma honra con-
versar com você... Me dá um autógrafo? Assine
aqui no meu sobretudo... Vi todos os seus filmes:
A Lucidez do Teu Perfume, Uma Janela e um
Destino e...

Magdalena – A Vida é Dura para Quem é Mole.

Laura – Exatamente! Que grande atriz!

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.... É preciso pelo menos conservar o bom humor. Há tanto tempo não ouço falar de você.. de jeito nenhum! Está igualzinha! Eu é que sou avoada.. Magdalena – Talvez tenha ficado grande de- mais para caber nos filmes.. Não a culpo. Quando contar para o pes- soal do trabalho.. O cinema inteiro suspirava. da Dior. Laura – Eu me lembro dos outdoors! Você esta- 114 va em todo lugar. ninguém vai acreditar. Magdalena – Eu gostava de fazer cinema..indd 114 28/10/2009 11:51:21 . Magdalena – Linda!. O show business é assim: do estrelato à lama sem escalas.. em cada esquina. Ainda atua? Magdalena – Na verdade. Quando você aparecia em close na telona. da Avon. estou um caco. Agora só me convidam para os filmes de pirata. Laura – Uma mulher maravilhosa!. mas o teatro sempre foi minha paixão. Laura – Não.. Sabe como é: 12083260 miolo A Rocco.. Tenho que confessar: engordei um bocado! (ri desproporcionalmente). Eu sei. Você não me reconheceu por causa do acidente.. da Lui Vuitton. Estrelava pelo menos um grande filme por ano. Durante anos fui o rosto da Lancôme. não..

Antes do acidente.indd 115 28/10/2009 11:51:21 .. tenho o physique du rôle. Sabe. me desculpe. minha menina. Magdalena – Laura Najarian. acredite em mim! Tenho um olho clínico! Talvez você seja tão boa quanto eu fui..... às gargalhadas. Qual é mesmo o seu nome? Laura – Ah. Um belo nome 115 para uma prima-dona.. O maldito disse que ia comprar cigarro e nunca 12083260 miolo A Rocco.. Tinha fugido naquela noite com a atriz coadjuvante. Isso irrita as pessoas! Laura – Meu nome é Laura Najarian.. Talvez fiquem menores. não me apresentei? Não estou di- zendo que sou avoada? Perdão.... é claro. (lembrando) Antenor tinha acabado de me deixar. Já vejo você estrelando as principais peças de nosso repertório. Magdalena – Menina.. um dia você precisa parar de se desculpar. a toda a velocidade no meu Studbaker conversível. (ri desproporcional- mente) Ria. Ria. Ria de seus infortúnios! Eles não ficarão maiores por causa disso. Ainda os vi saindo. Seu nome na marquise piscando em néon: “Hoje: Laura Najarian como Lady Macbeth!” Laura – Que sonho! Magdalena – Menina.

um tranquilizante e um bocado de gim. Levei teu sorriso”.. Despenquei num abismo de sete andares e.. no espelho do camarim: “Cansei de chorar. mais voltou. com roteiro de segunda! Laura – Que barra! Magdalena – Você ainda não viu nada! O canalha ainda teve coragem de deixar um reca- do.. Laura – Sinto muito... desesperada. me pintei. Foi então que abri a porta do elevador e entrei. (volta a contar a his- tória) Assim.. gritava o nome dele: 12083260 miolo A Rocco. tomei um ácido e ingeri meu último Lexotan... Imagine só: em um minuto. E fui com a cara e a coragem rumo ao elevador. (como Cauby Peixoto) me pintei. humilhada e arruinada. transtornada de ciúmes. lhe garanto!. cheirei três carreiras. Magdalena (cheia de mágoa) – Não tanto 116 quanto eu. fumei uma tronca. me pintei. Depois disso.. minha vida se transformou num filme B. Também. voltei ao quarto de hotel e tomei um excitante. Ingrato! Eu lhe dei tudo. Estava disposta a esquecer aquele amor bandido nos braços de outro homem... já recuperada do choque e disposta a sair para a noite.. enquanto caía..indd 116 28/10/2009 11:51:21 . escrito com batom.... Só que o mesmo não estava lá. (chora).

Melhor ficar quieta do que falar bobagem.Vou comprar. sabe o que uma traça falou para outra na saída do cinema? Laura – Não. Você teria mais alguma..... Coxa.. 12083260 miolo A Rocco.... Magdalena – Por falar nisso. vai comprar ou alugar? Laura – Casablanca? . (voltando a ser prática e enérgica.. Então. claro. As palavras são mantras. caolha.. É certo que quero! Estou adorando as suas sugestões.. AAAAANNTENORRRR FILHO DA PUUUUTTAA- AA! POFFFF! Não morri por sorte ou teimosia.. Magdalena? Magdalena – Você gosta de adaptações? Digo: quando a literatura serve de base para um filme memorável? Laura – Evidente que sim! Tantos romances deram filmes maravilhosos.indd 117 28/10/2009 11:51:21 . não diga nada..) Bem... Magdalena (amarga) – Então... E estou aqui.. Magdalena – Muito bem! Bela escolha! Mais alguma coisa? 117 Laura – Quero. mas cheia de vida! Laura – Não sei o que dizer.

Magdalena – Preferi o livro! (gargalha) Enten- deu? A traça preferiu o livro. Laura fica sem graça) Magdalena – Muito espirituosa! Além de ciné- fila.. Magdalena – Dona Flor e seus Dois Maridos? Laura – Produção de 1977. (séria e paquidérmica) Quer ou não quer uma sugestão? Laura – Quero... (abrindo a esmo o enorme catálogo e apontando... sim!. Desculpe a brincadeira. direção de Bruno Barreto.. José Wilker... Alface Oculta! (ri) (Madalena não ri... Mauro 12083260 miolo A Rocco.. ao acaso.... não percamos mais tempo... Muito boa!. com Sônia Braga. Qual o nome do filme?. 118 Magdalena – Muito bem.indd 118 28/10/2009 11:51:21 ... Que tal uma comédia um pouquinho picante? Laura – Ótima ideia! Madalena – Nacional? Laura – Pode ser. tem senso de humor. Uma mulher entra no cinema com um maço de alface em- baixo do braço. um título) Aqui está uma bela adaptação para o cinema. Laura – Entendi.

(ri e agarra Flor) Você se lembra da primeira vez que te senti? Você se encostou em mim. Laura – Você me abraçou e me passou a mão. Fala com Laura enquanto se encaminha para soltar Estúpido. Entra Vadinho pelado com uma bola preta tampando o sexo. Dona Flor e seus Dois Maridos.. A companhia virou pó. como se fosse cópia de filme censurado nos tempos da 119 ditadura.. Estúpido como Vadinho. 12083260 miolo A Rocco. fazem a cena de Dona Flor e seus dois Maridos.. (Desliga. mas ele fez questão de me acompanhar. Estou aqui.. acho. Só ele não me abandonou. Por devoção. Eu lhe ensinei tudo o que sabe. em que Flor cede à cantada do marido morto.) Estúpido é o único ator que ainda me resta. Laura como Dona Flor.indd 119 28/10/2009 11:51:21 . Muito bem! Vamos lá! (Magdalena abre a porta... Nossa! Vi tantas vezes que perdi a conta! É maravilhoso! Magdalena (pega o interfone) – Estúpido.) Laura (como Flor) – Vadinho!? Não te falei para ir embora! Estúpido (como Vadinho) – Você me chamou e eu vim. Mendonça e grande elenco.

. estão me levando embora. Laura (como Flor) – Meu Deus. mas nada que se compare a isso! É uma loucura! (Envergonhada. Magdalena (Pega um pote de manteiga no almoxarifado) – Você ainda não o viu em Último Tango em Paris. Som de trovão. Mag- dalena tranca a porta por onde saiu Estúpido 120 (Vadinho) e guarda o Filá no almoxarifado. grita) – Vadinho!!!! (Fim dos atabaques.) Laura (praticamente nua. (Indo embora) O que foi que você fez Flor. Magdalena (Mãe de Santo) tira o Filá. pega as roupas e vai para trás do balcão se recompor) Magdalena – Gostou? Vai levar? Laura – O filme? Vou.. depois da cena “ca- liente”) – Puxa!!!! Já ouvi dizer em vivenciar um filme. com certeza!. Fim da cena.... foi feitiço. quer tentar? 12083260 miolo A Rocco.indd 120 28/10/2009 11:51:21 .. (entra Magdalena de Mãe de Santo e dança ao som dos atabaques) Laura (como Flor. (Sai). Esse rapaz é ótimo. Cena do filme Estúpido (como Vadinho) – Pimenta e mel...

não teria ido à fa- lência. Laura – Dona Magdalena. hoje não. isso não tem nada a ver com bondade.. Laura – E pensar que estou aqui só por que joguei meu aparelho de DVD pela janela! Senão. vou virar freguesa. meu velho videocassete.indd 121 28/10/2009 11:51:21 . nunca teria pegado.. você é surpreendente! Encara todos os gêneros. Acho que finalmente encontrei uma sucessora! Laura – Bondade sua! Magdalena – Minha filha. não. não teria sofrido o acidente. até me deu um arrepio! 12083260 miolo A Rocco. Quem sabe ou- tro dia? Magdalena – Menina. não montaria este negócio e nunca teria te conhecido. no maleiro empoeirado. esquecido por dez anos. Magdalena – Se não tivessem me abandonado. mas nosso serviço é de primeira. Laura – Não. Depois de hoje. Estava lá. verei os filmes com outros olhos! Magdalena – Eu lhe falei que os vídeos são de 121 segunda. Nada na vida é por acaso! Coin- cidências não existem! Maktub: estava escrito! Laura – Será? Nossa. chama-se feeling.

Avise sua família que vai mudar de profissão. se eu pudesse. Laura – Bondade sua! Magdalena – Não tem nada a ver com bonda- de e.. logo embaixo da ficha de Estúpi- do. minha pequena órfã... Magdalena – Se você não viesse aqui.. Deseja mais alguma coisa? Laura – Vocês abrem amanhã? Magdalena (colocando uma nova ficha de funcionário. Prepare-se para o estrelato. O céu é o limite. com necessidade.. não teria sido descoberta por mim. no escaninho ao lado do relógio de ponto) 12083260 miolo A Rocco. Preciso de você para 122 remontar minha companhia. Sou superenvergonhada.. fique tranquila. Magdalena – Desde quando vergonha foi empecilho para os grandes artistas? (voltando a ser prática e brutal) Bem. Magdalena – Ah. sim. Não está mais sozinha. Resolvi te adotar. está ficando tarde. Quem pagaria as minhas contas? Família não tenho. Sou filha única e meus pais já faleceram. Já vou fechar a casa. Laura – Fico lisonjeada.indd 122 28/10/2009 11:51:21 . Laura (ri) – Ah. mas realmente não está nos meus planos.

Inesquecível! É um dos meus filmes preferidos! Magdalena – Ótimo! Folgo em saber! (pega o interfone) Estúpido. não! Só abrimos às sex- tas.... porém sem nunca perder o humor... No resto da semana.indd 123 28/10/2009 11:51:21 . que dupla! A trilha sonora é do En- nio Morricone. Que indecisão.. Magdalena – Ata-me. do Almodóvar! Laura – Genial! Com Victoria Abril e Antonio Banderas. Boa ideia! 123 Magdalena – Espanhol. sim! Laura – Ah. será que daria tempo para es- colher mais um filme? Magdalena – Sendo você uma cliente prefe- rencial e se decidir rápido. 12083260 miolo A Rocco.. Logo após o trailer. Laura – Então. Magdalena – Que tal década de 90? Laura – Mais recente. Ata-me! (desliga) Quer fazer o favor de pagar agora? Assim. meu Deus. vamos embora.... – Sábado? Infelizmente... Suspense. poupa-nos tempo.... Laura – Sim! Estou curiosa.. Sugira um. ensaiamos.

Laura não entende a piada). Magdalena – Ossos do ofício! Não se faz Ha- mlet sem quebrar os ovos.) Sim? Até que enfim! Antes tarde do que nunca. Quero dizer sem suor não se chega a lugar nenhum. (Toca o in- terfone.. Estúpido as encurrala. idiota?. Ele sabe que é para o seu próprio bem.indd 124 28/10/2009 11:51:21 . Laura – Claro. Ela atende.. Quatro reais. Não temos a noite inteira! Vamos com isso! Lerdo. mas a porta da rua está trancada. aqui está. tentam sair. Laura se esconde atrás de Magdalena) 12083260 miolo A Rocco. Sabe que tem muito que aprender. (pega o interfone) Pronto. Estúpido entra fan- tasiado de gorila como King-Kong. Muito obrigada! Magdalena – Não tem de quê! Laura – Deve ser um exercício e tanto ensaiar e representar todos esses filmes. (Magdalena abre a porta.. (ri desproporcional- mente. estúpido! (desliga o telefone) O mais difícil para mim é 124 aceitar as limitações dos outros.. Laura – O rapaz não se incomoda de ser tra- tado assim? Magdalena – Claro que não! Nós somos uma família. inútil. Elas fogem em desespero.

. Diversão?.. Calma! Ana está aqui. leve-a. (Estúpido se acalma. Estou envergonhada.. Magdalena – Ele adora filmes de macacos. Às vezes perde o controle... Laura – Não tem de quê... Adorei! Quantas emoções! Magdalena – Vou providenciar imediatamente o filme que você pediu.indd 125 28/10/2009 11:51:21 . Aqui você está entre amigos. Quando ele sai.... Magda- lena tranca a porta rapidamente. Magdalena – (para Estúpido) Calma.. Já estou recuperada... é toda sua. Quem mandou vir de King-Kong? Quadrúpede!. Você 12083260 miolo A Rocco. Cheirando a boneca sai pela porta por onde entrou. Peço desculpas por nossa falha. (pega o interfone enér- gica) Estúpido. obrigada.. posso saber o que foi essa cena que acabamos de ver?. Kong. (Magdalena lhe dá uma boneca Barbie) Toda sua..) Magdalena – Desgraçado! Laura – Muito realista! Magdalena – Quer um copo de água com açúcar? 125 Laura – Não..

(Laura se senta. (desliga) Não repare. funcio- nário antigo toma certas liberdades (pegando uma cadeira e colocando no procênio). é moderno.. Estúpido entrega o cartucho para Magdalena e 12083260 miolo A Rocco. Sente-se. Isso. Ao trabalho. Não levante a voz para mim.... Não me venha com mais nenhuma gracinha. Magdalena – É arte minha cara. Você deve estar cansada..indd 126 28/10/2009 11:51:21 . Pare com essa conversa mole! Ande logo!. Só a arte jus- tifica a vida! Só no palco se pode representar a vida que realmente merece ser vivida! Só sobre coturnos conseguimos nos isolar da mediocri- dade das ruas.. me dê aqui seu sobretudo. Laura – Tudo isso parece um sonho. Estúpido segue suas or- dens... Você se esqueceu da última vez em que ousou fazer isso?. Sindicato? Você falou em sindica- to? Mais uma que você apronte.. está trabalhando!. Não discuta! Ata-me. Porém.. Eu 126 te pago para isso. Sinta-se em casa. Magdalena abre a porta com medo. (Toca o interfone) Está pronto. Muito bem. dessa vez. É mara- vilhoso ver os filmes ao vivo... Com licença. Não reclame da maquiagem. Magda- lena! Isso é novo.. é genial... vai para o olho da rua por justa causa..... fique à vontade. Que ideia. Se acomode. entra como Antonio Banderas em Ata-me. do Almodóvar..

12083260 miolo A Rocco.indd 127 28/10/2009 11:51:22 . em A Loucadora de Vídeo. com Magdalena (Lulu Pavarin) e Laura (Luciana Caruso) . Estúpido (Ivan Capúa): “ A vida aqui é boa!”.

me desamarre... fazem a cena de Ata-me) Estúpido – (Como Ricky... rasgando a folha) – Escute aqui. 12083260 miolo A Rocco.. Nunca me chamaram de miserável! Nunca! (imita Marina) “Nunca me apaixonarei por você....indd 128 28/10/2009 11:51:23 . Cena do filme 128 Estúpido (como Ricky) – Se conseguir parar de pensar só em você. (Estúpido sai. fim da cena de Ata-me) Laura (ainda amarrada. Nunca me apaixonarei por você. Laura (como Marina... Pense um pouco nos ou- tros. se dirige até Laura. nunca!” Veremos.traz um desenho numa folha de papel e mostra a Laura) Olha o que fiz para você. Por favor. gosta?. consegue tirar o espa- radrapo da boca) – Bravo! Bravo! (Estúpido volta fantasiado de corcunda de Notre- Dame) Laura – Estúpido. enten- deu? Nunca! Estúpido (como Ricky) – Não diga isso. Estúpido como Ricky e Laura como Marina. você é demais!.

indd 129 28/10/2009 11:51:23 . Laura (Luciana Caruso) e Estúpido (Ivan Capúa) fazendo cena de Ata-me. 12083260 miolo A Rocco. em A Loucadora de Vídeo.

tem a postura e a voz do corcunda de Notre-Dame) – Gosto.. Não me ouviu.. Não dou uma semana e estará implorando para ficar. Magdalena – Nada disso.. você só pode estar brin- cando. Daqui a uns dois anos vai começar a gostar disso. Estúpido? Estou falando com você! Responda! Você gosta daqui? Estúpido (amedrontado. muito! Magdalena – Está vendo querida?. A Companhia Teatral de Repertório Magdalena Vilaverde finalmente conta com uma atriz de primeira! (Estúpido tira uma banana de sua sacola... Então poderei até te 130 desamarrar. Não é. Estúpido? 12083260 miolo A Rocco.. Gosto! Magdalena – Não ouvi direito.. para de comer a banana. Magdalena – Calma.indd 130 28/10/2009 11:51:23 . Estúpido! Deixe-a assim. des- casca-a e começa a comê-la... Ela agora é uma das nossas. Estúpido – Gosto! Gosto muito. (para Estúpido) Vai gostar ou não?. minha filha. Terá até um DRT. sem prestar atenção na cena) Laura – Magdalena.. Daqui a pouco você se acostuma. Não pode me prender assim.

. meu querido... você é a única que pen- sa assim.. Você é um escravo. Laura – Você é demente! Magdalena – Por aqui. pode levá-la. Essa mulher está louca. Não é louca... 131 Laura – Isso não é vida! Seu mundo é uma ilusão. Estupidinho. Magdalena (bem tranquila) – Não adianta gri- tar. Me liberte..... sim! (ri como Quasímodo).. dona Magdalena.. Você é um grande ator.. Estou falando de arte.. Estúpido – É. Laura – Estúpido. e eu te ajudo a fugir. ARTE! Estúpido. não! Laura – Socorro.. Estúpido. Laura – E meu trabalho?..indd 131 28/10/2009 11:51:23 .. Magdalena – Não me venha com essas preo- cupações pequeno-burguesas... socorro. Estúpido (vendo o chicote na mão de Magdale- na) – Estúpido não quer fugir...... Não pode ficar aqui preso.. Temos um excelente isolamento acústico. Vida aqui é boa.. sim. cherry.. Vamos embora! Estúpido – Dona Magdalena boazinha.. É. Minha vida?. sou louca ou sou boazinha? 12083260 miolo A Rocco..

. é um grande ator! 12083260 miolo A Rocco. Estú- pido. reverencia Laura como se ela fosse uma deusa) – Nossa estrela.. Estúpido (como Quasímodo) – Estúpido tam- bém quer ser protagonista! Magdalena (para Estúpido) – Feche sua mal- dita matraca. Madalena – Viu? Você é minoria. Ótima! Magdalena – Será nossa protagonista. Você é ótima! Estúpido (lambendo o dedo depois de passá-lo na coxa de Laura) – Ótima. Magdalena – Você tem talento e é o que 132 basta! Não deixarei que atrapalhe a carreira brilhante que tem pela frente... sim... seu anormal! Laura – Pare de falar assim com o Estúpido! Ele. tem que se conformar. Não seja estraga-prazeres!. cumprimente nossa estrela? Estúpido (como Quasímodo. Nossa estrela! Laura – Isso é ridículo! Nunca pisei em um palco.indd 132 28/10/2009 11:51:23 ... Estúpido (como na torcida organizada) – Boa- zinha! Boazinha! Boazinha!.

indd 133 28/10/2009 11:51:23 . você está livre. Magdalena – Viu? É uma criança... Não quer. Magdalena – Mal entrou na companhia e já está me desafiando? Laura – Não faço parte da sua companhia! Parece que estou num hospício! Magdalena – Pois é no hospício que se en- contram as cabeças mais lúcidas. A única coisa que faço é cuidar dele. passeando com ele pelo chão) Laura – Então. Pode ir. não! Quer ficar com a madrinha! 12083260 miolo A Rocco. Estúpido (como Quasímodo) – Estúpido não quer ir embora. Estúpido.. me responda: você é feliz aqui? Estúpido (como Quasímodo) – Muito feliz.. Estúpido. es- pecialmente quando a gente come pizza. 133 (Estúpido tira um carrinho de brinquedo da sa- cola e começa a se divertir. por que as portas estão sempre trancadas? Por que ele fica preso? Magdalena – Que bobagem! (abre a porta da rua) Muito bem.

admira- dores. Laura – Famosa.. traga os apetrechos! 134 (Estúpido vai pegar um caldeirão de bruxa no almoxarifado) Magdalena – Depois dos primeiros aplausos.. você será a pri- meira atriz da melhor companhia do Brasil. (Estúpido vai abraçar Magdalena) Magdalena – Estátua! (Estúpido congela na posição que está) Magdalena (fecha a porta) – Acho que não restam dúvidas. querida. Estúpido! Leve-a! (Estúpido descongela) Laura (grita) – Não. dinheiro. eu? Magdalena – Fama. não! Tirem-me daqui! Magdalena – Ah.. joias. poder. 12083260 miolo A Rocco. presentes. querida. Está resistindo? Estúpido. você vai ser famosa. vai mudar de ideia. Laura – Joias? Magdalena – Claro.indd 134 28/10/2009 11:51:23 .. não é? Vamos.

Quero ir para minha casa! Magdalena (como a bruxa de Branca de Neve em frente ao caldeirão) Olho do acalanto. Da rainha à mundana. Depois desse encanto. um portento O humor ao sabor do vento O ego. seu único refúgio 135 Como o navio para o marujo Como a garrafa para o breaco Evoé.indd 135 28/10/2009 11:51:23 . Estúpido – Estúpido e Cretina. um gigante Entre todas as criaturas Será a mais falante. Viverás todas as vidas. Para ser atriz Não há lógica nem explicação! Praga de parteira Ou maldição dessa feiticeira! 12083260 miolo A Rocco. O palco... Rabo de taturana. Baco A eloquência. Que dupla! Laura – Você é maluca.

mandando você calar a boca. ajudada por Estúpido. Depois. Laura. obriga Lau- ra a beber a poção.. Faço questão de formalizar nossa relação. ou vai estragar sua voz.... Chega de amadorismo! Laura (ainda amarrada. nos fotógrafos. lendo) – O salário é decente! Magdalena – Não só o salário.. nas festas. É só uma questão de tempo. Magdalena gargalha como uma bruxa) Laura – Estou me sentindo estranha. Laura – Socorro! Magdalena – Calma.. (como comandante na- zista) Schnell! Schnell! 136 Estúpido (com sotaque alemão) – Para já. não vou aceitar reclamação. especialmente a cláusula da multa rescisória.. Laura. nos autó- grafos. (Magdalena.indd 136 28/10/2009 11:51:23 . dê o contrato a Laura.. Pensa que estou brincando? Estúpido. não grite.. 12083260 miolo A Rocco. Lembre-se do chato em frente à televisão. Pense no glamour. Magdalena – Esse feitiço te pega.. Herr coronel! Magdalena – Leia com calma.

Sempre. em minha casa. Estúpido (como Quasímodo) – Sempre me emociono em despedidas. antes que eu mude de ideia. Laura (Ainda amarrada. virando a pagina com dificuldade..indd 137 28/10/2009 11:51:23 . querida! As datas já estão reservadas.. Assine.. chega! Quero ir embora. Estúpido (pondo contrato e caneta ao alcance das mãos de Laura) – Assine. Sempre. Estúpido – Dilapidada! Magdalena (para Estúpido) – Hoje você está especialmente inconveniente! 137 Estúpido – A senhora sabe elogiar.... Serão muitos meses de dedicação total... Magdalena (para Laura) – Vamos menina... Há anos procuro por você. 12083260 miolo A Rocco.... Assine. assine logo.. minha jovem.. Uma pedra preciosa bruta a ser lapidada.. Isso é só o começo.. A partir de hoje. Lendo o contrato) – Aqui diz que estrearemos no Teatro Municipal em seis meses! Magdalena – Isso mesmo.. você mora aqui. Magdalena – Assine. Laura – Não vou assinar nada! Para mim.

Estúpido – Perfeitamente. seu ... Seu lugar é aqui! Estúpido – Sempre me emociono com reencon- tros.. Vamos conversar. Estúpido. Magdalena – Laura. Rainha Má! Magdalena (para Estúpido) – Me lembre de lhe dar 20 chibatadas por essa brincadeira insolente! Laura – Espere.. Como sempre! Magdalena – Estúpido.. É para já! Queira me acompanhar estrela. Estúpido – Sim. Magdalena (para Estúpido) – Quarenta! Estúpido (para Magdalena) – Ah.. leve-a. bom... Laura – O que vai fazer comigo? 12083260 miolo A Rocco. você fica. Quase sempre! Magdalena – Estrupício. Sempre. leve-a a seus aposentos..indd 138 28/10/2009 11:51:23 . Estúpido (para Magdalena) – Só 20. patroazinha.. Capitão 138 Gancho? Laura – Me larga...

. Magdalena – O ensaio começa às 6 da manhã... Esteja pronta! Não existe êxito sem esforço. Épica... Boa noite a todos. Aliás.) Hei de remontar minha companhia. filme de Fritz Lang. Releve. releve. assobiando tema de O Vampiro de Düsseldorf. (Abre o jornal para escolher a peça.. Não como essas porcarias que há por aí. Paciência. não é fácil montar uma companhia de teatro. Que dia cansa- tivo. (Estúpido leva Laura para dentro..) Magdalena (tranca-os) – Não. Laura protesta... Fala o nome de uma peça que esteja em cartaz) Essa me parece a melhorzinha.. Podem se recolher. sem repetição. (Olha o relógio 12083260 miolo A Rocco. custe o que custar! (como Scarlet em E o Vento Levou) Jamais passa- rei fome novamente! Eu juro!. sem ensaio. Eu sei que é inútil: minha sina é rir nas tragédias e chorar nas comédias. como 139 é difícil montar uma companhia boa. bem que eles tentam.. Coitados. Magdalena. Vamos lá. (em francês) Vive la répétition! Estúpido – Vive la répétition! Magdalena – Estúpido tocará a alvorada às 6 em ponto. meu Deus! Acho que vou ao teatro tentar me divertir. paciência! Poucos no mundo têm o seu talento.indd 139 28/10/2009 11:51:23 ... Magdalena! (Põe o cachecol..

... Venha de Antenor. (Encenando uma tragédia) Ah.. Que nunca descubras quem és! (Gargalha. Ah... nem que fugiu com a sirigaita. digo. Vou te levar para jan- tar fora. Eu sei que o seu contrato não permite...... as ilusões humanas. Claro que isso não é truque.. (pega o interfone) Alô.indd 140 28/10/2009 11:51:23 . Venha despreocupado... razão de todo o meu infortúnio! Para o teu delito não há perdão! (Como Jocas- ta) Pobre de ti!. (Aliviada) Ainda bem. seu idiota. Antenor! Antenor.. amor: apenas uma rima!. Apenas quero relembrar quão sem graça e pueril era nosso amor.... Não. Estúpido. Eu sei que é a primeira vez. mil vezes nefasto! Como pudeste me apunhalar pelas costas? Oh. Não tenha medo.. é uma ordem! (desliga) Antenor.. Amanhã tudo volta 140 ao normal. nem que voltou rastejan- do pedindo para ficar. sem personagem... mas tudo tem sua primeira. Perca as esperanças!!!... Como pode um amor real sobreviver quando 12083260 miolo A Rocco. Não esqueci que você me abandonou.. não estou te perdoando.. mas hoje estou lhe dando um salvo- conduto por algumas horas. nosso relacionamento. Hoje é dia de festa. não é nenhum tipo de recaída. de ponto) Ah. Melhor assim..... O que você fez não tem perdão!.. Que pena! Tarde demais.... Não chore... Será a primeira e única.. volta a ser Magdalena) Por falar nisso. Não dá mais tempo. pode aparecer como você mesmo. detesto ir ao teatro sozinha..

começa a tomar corpo a Grande Companhia de Repertório Magdalena Vilaverde.... eu garanto. 141 (correm um de encontro ao outro e num rodopio se beijam) Magdalena – Que saudades.) Magdalena (virando-se e percebendo a pre- sença dele) – Antenor. fiquei um trapo. 12083260 miolo A Rocco. (Magdalena tira o sobretudo e deixa o público ver o lindo vestido de noite que está usando) Antenor – Está cada vez mais linda! Magdalena – São seus olhos. (destranca a porta por onde Estúpido costuma entrar) Pre- ciso comemorar! Enfim.. Antenor – Nem me diga. De- pois do acidente.. Atmosfera de cumpli- cidade e amor imediatamente se instaura.indd 141 28/10/2009 11:51:23 . parece um sonho. comparado às paixões dos clássicos?..... Ele tranca a porta atrás de si. A arte no lugar onde deve estar: no topo.. Antenor – Magdalena. sem concessões!!! (Estúpido entra como Antenor de black-tie.

indd 142 28/10/2009 11:51:23 .. O meu restaurante prefe- rido. meu amor.. Reservei dois lugares no Spartacus. Por que não veio antes? Antenor – Compromissos de trabalho. Ninguém tem o seu charme. Antenor – Vamos. não podemos perder tempo. (olhando o traje de gala de Magdalena) Não vai sentir frio? Magdalena – Você acha? 12083260 miolo A Rocco.. Magdalena – Querido.... Magdalena – Oh.. Quem sabe quando teremos uma oportunidade como esta? 142 Magdalena – Você tem razão.. Entendo. Aproveitar cada momento como se fosse o último – Isso aprendi com você. Não faço outra coisa senão trabalhar. O show tem de continuar. Há quanto tempo. Magdalena – Claro.. Antenor – Não fale assim. a limusine nos espera... Antenor – A noite é nossa.... Você lembrou? Antenor – Como poderia esquecer? Vamos.

143 Conte-me: como vai aquele seu projeto? Antenor – Dá trabalho.. Magdalena – Não diga! Antenor – E você.. Magdalena? Quero saber de você..... meu amor. Magdalena – Que bobagem... Magdalena – É maravilhoso quando você diz. Antenor – Isso é ótimo! No jantar você vai me contar tudo.. Magdalena – Você é um amor. Antenor – É pouco para a primeira-dama do nosso teatro.. Finalmente estou conseguindo remontar minha companhia. mas estou muito animado. Antenor – É a pura verdade.. (Antenor tira o paletó do smoking e o coloca sobre o ombro de Magdalena) Antenor – Assim está melhor.. E tem que ser dita...... Já tinha me desacostumado. Quais são as novas? Magdalena – Ah. querido.indd 143 28/10/2009 11:51:23 . quem dera.. Me paparica muito. 12083260 miolo A Rocco.

.. Precisamos agora arrumar um jovem galã.. Os filmes podem ser substituídos. assim.. (Antenor pega o guarda-chuva que pertencia a Laura.. 12083260 miolo A Rocco. Todos os recursos técnicos para que o público se sinta no cinema são desejados: um fotograma da cena de cada filme deve ser projetado no telão que faz o fun- do do cenário... mas a menina promete. Laura e Estúpido. desde que se mantenha o espírito das cenas: musical. super-herói e rapto..) Cai o pano 144 *As cenas dos filmes encenados duram no máxi- mo três minutos cada uma. Faz-se.. (vão saindo de braços dados) Magdalena – Estamos muito no começo. amor con- sumado.. o contraponto com as cenas teatrais “brancas” entre Magdalena. Antenor – Não será difícil. Magdalena – É certo que não. Melhor levar um guarda-chuva. amor platônico. Eles saem.indd 144 28/10/2009 11:51:23 .

indd 145 28/10/2009 11:51:24 .12083260 miolo A Rocco.

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Textículos 12083260 miolo A Rocco.indd 147 28/10/2009 11:51:24 .

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Ivan Capúa. Cenografia: Antonio Rocco.T – Núcleo Experimental de Teatro Ficha técnica Texto: Antonio Rocco. Textículos Textos minúsculos para teatro Os textos a seguir foram reunidos no espetácu- lo Textículos – Textos Minúsculos para Teatro encenado em 2006 e 2007 no N. Trilha: Tonica.Ex. Daniela Casteline/ Lulu Pavarin. Figurinos: Tereza Monteiro.indd 149 28/10/2009 11:51:24 . Direção: Antonio Rocco e Fábio Saltini. Fotos: Antonio Rocco. Elenco: Antonio Destro/ Javert Monteiro.T. Textos Olho por Olho – Peça em cena desolada 12083260 miolo A Rocco. Luz e cenotécnica: Ivan Fagundes. Fernanda 149 Chiminazo. Elam Lima. Preparação corporal: Helena Ciampolini Produção: N.Ex. Gabriela Scarcelli.

Te Conheço – Peça em um reconhecimento e meio Na Faixa – Peça em um ciclo Mera Coincidência – Peça em um átimo Radicais Livres – Cena em uma peça Desejo – Peça em 14 andares e 1 mezanino A Escalada – Peça nas alturas 150 12083260 miolo A Rocco.indd 150 28/10/2009 11:51:24 .

indd 151 28/10/2009 11:51:24 . Olho por Olho 12083260 miolo A Rocco.

” . em Olho por Olho.indd 152 28/10/2009 11:51:24 . com Wilma (Lulu Pavarin) 12083260 miolo A Rocco. Caetano ( Ivan Capúa): “Estamos no olho do furacão.

.” . em Olho por Olho. Wilma (Lulu Pavarin): “Olho do furacão porra nenhuma!. com Caetano (Ivan Capúa) 12083260 miolo A Rocco..indd 153 28/10/2009 11:51:24 .

indd 154 28/10/2009 11:51:24 .12083260 miolo A Rocco.

Conseguimos! CAETANO – Não. Noite de terrível tempestade. em lados opostos do palco. Caetano e Wil- ma.. meu amor! (Caetano.. O teto e a parede já foram sugados. Cenário Casa destruída por um furacão. vem a calmaria. Wilma. Não conseguimos. Olho por Olho Peça em cena desolada Personagens Caetano Wilma – Esposa de Caetano. Sopram ventos de duzentos quilômetros por hora.indd 155 28/10/2009 11:51:24 . estamos salvos! (Wilma corre em direção a Caetano e o abraça) WILMA – Graças a Deus... tentam se segurar 155 no que é possível.. apenas retribui o abraço) WILMA – Pensei que era nosso fim. WILMA – Caetano.. Consegui- mos. De repente. sem entusiasmo. 12083260 miolo A Rocco.

ele volta. sem parede. ele se foi e nós ficamos! 156 CAETANO – O olho. O importante é que estamos vivos e juntos! CAETANO – Ele vai voltar. (Wilma se separa de Caetano) WILMA – O quê? Como não conseguimos? A casa que se dane! Ficamos sem teto. Em menos de cinco minutos.. WILMA – O olho? CAETANO – É só o olho. WILMA – Não. Essa calmaria é só o olho do furacão. Amor. WILMA – Quem vai voltar? CAETANO – O furacão...... 12083260 miolo A Rocco. WILMA – O que tem o seu olho? Machucou? CAETANO – Estamos no olho do furacão. WILMA – Não! Não volta! CAETANO – Não adianta fugir.indd 156 28/10/2009 11:51:24 . Não temos para onde ir nem onde nos esconder. O furacão vai voltar. sem nada. E daí? Construímos outra. não vai voltar.

(Wilma vai até ele. Vamos. levanta. pelo amor de Deus. 12083260 miolo A Rocco. não adianta! Olhe em volta: não sobrou nada. Tenta puxá-lo para que fique em pé) 157 WILMA – Você não pode se entregar. WILMA – (Do Céu ao inferno) Não é possível.. Isso não pode estar acontecendo! CAETANO – Só nos resta esperar e morrer com dignidade.. vamos! Levanta! Rápido! Aqui não temos nenhuma chance. CAETANO – Wilma. Vamos procurar um abrigo. CAETANO – Espera! WILMA – (Ajoelha-se à frente de Caetano) Meu amor. WILMA – Morrer com dignidade? Você enlou- queceu.. Nada mais indigno que a morte! (Caetano se ajoelha e começa a rezar) WILMA – Caetano. esperando o furacão voltar. WILMA – Eu não vou ficar aqui.indd 157 28/10/2009 11:51:24 .. Não pode morrer sem lutar.

. CAETANO – E com tua prima..... bebendo champanhe. Tuas estrias. Wilma. WILMA – Com a minha irmã.. a Tânia.. Como te ridicularizei.... Casei 158 com você por interesse. Deus sabe o esforço que eu fiz para conseguir transar com você. CAETANO – Escuta! Preciso te confessar uma coisa. Sandra. Rindo de você às suas custas. com minhas amantes.. Perdi a conta de quantas vezes te traí!... Tua celulite!. Cristina.. CAETANO – Eu preciso. Isabela. 12083260 miolo A Rocco. só pelo seu dinheiro. com a Carmem. a Lúcia. WILMA – Para! Nós não vamos morrer! CAETANO – Casei com você por causa do seu dinheiro! WILMA – O quê? CAETANO – Isso mesmo que você ouviu.... Renata..indd 158 28/10/2009 11:51:25 . Sempre achei você horrível! Era um sofrimento para mim. não quero levar isso para o túmulo. Pensava na sua irmã..... cada vez que você tirava a roupa. Você sempre me deu nojo! Tua cara de lontra!. WILMA – Não quero ouvir sua confissão. Fecha- va os olhos e me concentrava na sua prima. na sua amiga Carmem.

Me perdoa.. Eu te amo.. dormem abraçados. Sei que fui um verme!.. 159 Morrer com você. eu fui.... vai respondendo às carícias e aos beijos do marido. Wilma xinga o marido dos nomes mais tenebrosos. Wilma. Wilma. dentro de você. ele gosta e responde na mesma moeda! Logo após o sexo selvagem. que a morte é inevitável. Você é uma mulher maravilhosa. eu te imploro! WILMA – De que te adianta meu perdão? CAETANO – Tudo! Adianta mais do que tudo!.. que fica imóvel..... Logo estão tirando as roupas e transam desesperadamente. dá um rodopio e cai morto! Wilma acorda. se levanta. Amanheceu! Um galo entra em cena.. canta um pouco grogue. (Caetano começa a beijar Wilma. Durante a transa. WILMA – Canalha! CAETANO – Sim. compreendi a tua beleza. Como fui imbecil por todos esses anos. como desperdicei o carinho da única pessoa que me amou de ver- dade nesta minha maldita vida!. Quero ser seu para sempre. olha em volta) 12083260 miolo A Rocco. Quero fazer amor com você de verdade. Aos poucos.....indd 159 28/10/2009 11:51:25 . como se fosse a última vez. Só agora. Mas agora. Vou te fazer um último pedido. com você.

.indd 160 28/10/2009 11:51:25 . WILMA – Olho do furacão porra nenhuma!.. Estou viva! Viva! (Wilma sai de cena andando como se o marido não existisse. Caetano continua dormindo) Cai o pano 160 12083260 miolo A Rocco.

indd 161 28/10/2009 11:51:25 . Te Conheço 12083260 miolo A Rocco.

Borges (Elam Lima):” Você sempre foi a mais gostosa de toda a putaria.indd 162 28/10/2009 11:51:25 . com Carla (Fernanda Chiminazo) 12083260 miolo A Rocco.”. em Te Conheço.

Borges chega e puxa assunto. marido de Carla. tenho certeza! CARLA – Duvido. BORGES – Não? Te conheço. Cenário Salão onde acontece uma festa de casamento.indd 163 28/10/2009 11:51:25 ... Juro que te conheço! CARLA – Acho que não. sim. Demétrio – 40 anos. BORGES – Te conheço! 163 CARLA – Perdão? BORGES – Te conheço. 12083260 miolo A Rocco. Te Conheço Peça em um reconhecimento e meio Personagens Carla – 25 anos. CARLA – Acho que o senhor está enganado. Carla está sozinha. Borges – Convidado bêbado. convidada. BORGES – Só não estou ligando a fisionomia ao nome.

CARLA – Guerra? BORGES – Espera aí. que show! Aquele striptease com o guarda-chuva era maravilhoso.. Que show que você fazia.. claro. 12083260 miolo A Rocco. que sau- dades! Quanto tempo. BORGES – Sheila! Isso! Sheila. (Abraça Carla) Sheila. Vai me dizer que não está me reconhecendo? 164 CARLA – (Envergonhada) O senhor quer parar de gritar? BORGES – Quem tá gritando? Sheilinha. Insuperável! CARLA – O senhor está me confundindo com outra pessoa. Borges a segura) CARLA – Larga o meu braço. (Quando Carla vai saindo. BORGES – Claro que não. está me machucando.indd 164 28/10/2009 11:51:25 .. Com licença. Com licença.. meu nome não é Sheila. querida! Desde os tempos da boate Kilt. Sheila era teu nome de guerra.. minha querida! CARLA – (Se desvencilhando de Borges) Meu senhor. Sheilinha..

12083260 miolo A Rocco. BORGES – Largou a lida? Parabéns! Não são todas que conseguem. nunca vou esquecer! Você sempre foi a mais gostosa de toda a putaria. BORGES – Sheila. ficamos.indd 165 28/10/2009 11:51:25 . Meu marido está para chegar e. CARLA – Sua mãe conseguiu! BORGES – Nossa. pelo que vejo. E. sim. mesmo. CARLA – Ficamos... BORGES – Você casou? 165 CARLA – Casei. Então ficamos íntimos.. BORGES – Pensei que só tinha te comido umas duas vezes. continua em forma. te contei da minha mãe? Não lembrava. Muito íntimos.. (Ele dá um tapa na bunda de Carla) CARLA – Qual o seu nome?! BORGES – Borges! Nelson Borges! Lembrou? CARLA – Seu Borges. o senhor está enganado.

lá da boate Kilt. CARLA – Então. Eu ia enfiando e você pedia mais. Che­gou até o talo do tarugão.indd 166 28/10/2009 11:51:25 . lembra? Daí.. mesmo.. Não era eu.. Borges? Não é esse o seu nome? BORGES – É. lembrou? BORGES – Puxa. A última vez você me pediu para enfiar aquele consolo no seu cu. Vem cá. Eu nunca disse isso. você está se con- fundindo. agrade­ci­do. sim. disso eu não me lembro. CARLA – Foram só duas vezes. que eu quero te apresentar para alguns amigos. BORGES – Deve ser outro Borges. O famoso Borges engole- mastro. Me contou outras coisas também. 12083260 miolo A Rocco. CARLA – Disse! Disse.. era você mesmo.. Quer que eu te refresque a memória? 166 BORGES – Não!.. CARLA – Não. CARLA – Como não. você me contou que sua mãe tinha sido pu­ta e que você gostava mesmo era de “fio-ter­ra”.

.indd 167 28/10/2009 11:51:25 . chega Demétrio com dois copos de champanhe) DEMÉTRIO – Está aqui. outra hora.. Dá licença. Carla! CARLA – Nunca está perto quando eu preciso! DEMÉTRIO – Ei. Carla? Fui pegar champanhe pra você. Deixa pra lá. CARLA – Toda. (Borges sai. BORGES – Não.. 12083260 miolo A Rocco. Acho que você não é a Sheila.. meu amor. BORGES – Me enganei. Deixa pra lá. 167 CARLA – Demétrio. Dá licença. CARLA – Demorou horas! DEMÉTRIO – Dois minutos.... onde é que você se meteu? DEMÉTRIO – Onde você acha. calma! Tá maluca? O que foi que aconteceu? CARLA – Nada.. vou tomar um ar. CARLA – Espera aí! O Paulão ia adorar te conhe- cer! Vem comigo.

indd 168 28/10/2009 11:51:25 . meu amor? CARLA – Vai passear por aí. vai! Sonso! (Carla sai) DEMÉTRIO – Que puta! Cai o pano 168 12083260 miolo A Rocco. DEMÉTRIO – Que é isso.

Na Faixa 12083260 miolo A Rocco.indd 169 28/10/2009 11:51:25 .

Carlos (Ivam Capúa) e Luísa (Gabriela Scarcelli): “AAAAAAh!” em Na Faixa 12083260 miolo A Rocco.indd 170 28/10/2009 11:51:25 .

Eles se cruzam no meio da 171 via pública. Tudo bem? CARLOS – Tudo. CARLOS – Saudades. sobre a faixa. CARLOS – Luísa. Luísa? 12083260 miolo A Rocco. Malabarista de farol Cenário Faixa de pedestres de uma avenida movimentada.indd 171 28/10/2009 11:51:25 . mas ele volta e a cerca. Luísa finge que não vê Carlos. Na Faixa Peça em um ciclo Personagens Luísa Carlos – Ex-namorado de Luísa. LUÍSA – Carlos?! CARLOS – Não conhece mais os amigos? LUÍSA – Não tinha te visto. O sinal está vermelho para os carros. obrigada. Luísa e Carlos caminham em direções opostas. Um mala- barista faz evoluções. e com você? LUÍSA – Bem.

Vamos até a calçada. CARLOS – Já vai começar? 12083260 miolo A Rocco. pra lá! LUÍSA – Pois é. vem. não posso voltar. Vem comigo.. LUÍSA – Claro. claro. LUÍSA – Legal te ver. Carlos? CARLOS – Morrendo. CARLOS – Então. A gente se fala. CARLOS – E eu. CARLOS – Sim. (Tenta levá-la para a calçada à qual ele se dirigia) 172 LUÍSA – Estou superatrasada. calma. mas estamos no meio da rua... LUÍSA – Vem você. LUÍSA – Estou indo pra lá.. e você. CARLOS – Peraí... CARLOS – Um segundo. LUÍSA – Não sei se você percebeu.indd 172 28/10/2009 11:51:25 .

CARLOS – Um café? LUÍSA – Não posso. CARLOS – Voltar praquele lado? Nunca! 173 LUÍSA – Tá vendo? Já vou indo. O cabeça-dura. CARLOS – Por favor.indd 173 28/10/2009 11:51:25 . Dá licença? (Malabarista recolhe os malabares e sai de cena) 12083260 miolo A Rocco. você tá querendo me provocar. LUÍSA – Eu? CARLOS – É. LUÍSA – Não vem. LUÍSA – Começar o quê? CARLOS – Essa história de nunca ceder em nada. não. Vem comigo. LUÍSA – Tudo bem. CARLOS – Luísa. aqui. LUÍSA – De jeito nenhum. é você! CARLOS – Até parece. LUÍSA – Só se for por ali. no caminho. então vamos. você.

CARLOS – De jeito nenhum. LUÍSA – Carlos. LUÍSA – Abriu o sinal! CARLOS – Dane-se. (Grita) Socorro! CARLOS – Calma. Por aqui você não passa. você tá louco. filha da puta! LUÍSA – Carlos. CARLOS – Completamente! Louco por você! LUÍSA – Pirou! (Carro passa pela esquerda e buzina) 174 CARLOS – (Para o motorista) Vai te catar. Olha pra mim! LUÍSA – O que você quer? CARLOS – Quero você. olha onde você me meteu.indd 174 28/10/2009 11:51:25 . Eu te amo! (Carro passa pela esquerda buzinando) 12083260 miolo A Rocco. não vai acontecer nada. quero você de volta.

não dá mais. presa no meio da rua. apavorado) Acabou mesmo! (Os dois se abraçam e gritam. Carlos..indd 175 28/10/2009 11:51:25 .. Acabou! Vê se entende: acabou! CARLOS – (Olhando para a plateia. Um caminhão passa por cima deles) Cai o pano 175 12083260 miolo A Rocco. LUÍSA – Não acredito! CARLOS – Juro! Te amo! Te amo! LUÍSA – Não acredito que estou aqui.

pelo amor de Deus!”.indd 176 28/10/2009 11:51:26 . Berenice (Daniela Casteline): “Larga isso. em Mera Coincidência. com Roberto (Antonio Destro) 12083260 miolo A Rocco.

indd 177 28/10/2009 11:51:26 . Mera Coincidência 12083260 miolo A Rocco.

em Mera Coincidência. Berenice (Lulu Pavarin): “Você tá pouco ligando! Mas por quê. Roberto?”.indd 178 28/10/2009 11:51:26 . com Roberto (Javert Monteiro) 12083260 miolo A Rocco.

Mera Coincidência Drama em um átimo Personagens Berenice Roberto – Ex-marido de Berenice. É mesmo. Policial Cenário Rua escura de subúrbio.. BERENICE – Roberto?! Nossa! Que coincidência! 179 Você é a última pessoa que eu esperava encon- trar aqui. como quem diz: “Quem é esta louca?”) BERENICE – Ah. Roberto está em cena. Chega Berenice. Onde você está morando? (Roberto continua sem entender nada) BERENICE – Logo aqui na rua de trás. O que você está fazendo neste fim de mundo? (Roberto nada fala.indd 179 28/10/2009 11:51:26 . que óti- mo!.. 12083260 miolo A Rocco. você trabalha aqui perto. é o seu caminho pra casa. apenas olha assustado para o público. Eu continuo morando no mesmo lugar. A cena é iluminada ape- nas pela lâmpada de um poste distante.

Essa rua é meio deserta.. outro ali. mas ainda não apareceu nenhum. então: estava indo pra casa dela e meu carro quebrou aqui perto. lembra? Claro que lembra.. eu estou feliz. lembra? (Pequena pausa) BERENICE – Não!. né? Ouvi dizer que você vai muito bem. ainda não encontrei ninguém que me interessasse de verdade. Depois que nós nos separamos. Pois. Você conhece! Aquela meio surda. Foi bom te ver.. né? 12083260 miolo A Rocco. que todo Natal ela mandava um panetone pra gente.. Sabe como é. é isso o que importa! (Pequena pausa) BERENICE – O que eu estou fazendo aqui? Pois é. a gente morou tanto tempo juntos. Um casinho aqui. Casou de novo. você não vai acreditar: eu estava indo visitar 180 minha tia Alzira. Já faz quase um ano. (Pequena pausa) BERENICE – Tia Alzira. já estava com sau- dades... Que bom pra você.. mas nada de sério. Não faz mal.. Estou esperando um táxi faz meia hora.. Tudo bem..indd 180 28/10/2009 11:51:26 .

Cabeça erguida. Não. Não. mas não pode. Não faz mal.. Roberto! (Pequena pausa) BERENICE – Ainda por cima. Que pena. Parece que quer falar. sua mulher não iria gostar.. que essa fase passa logo.. Sabe como é: você chegar com sua ex-esposa. (Pequena pausa) BERENICE – Você tá pouco ligando! Mas por quê. tenho certeza.. Roberto continua só olhando para Berenice. (Pequena pausa. assim. Fica pra próxima. quer fugir.. mas não consegue) BERENICE – Não! Não. Roberto? (Pequena pausa) 181 BERENICE – Sua vida tá um inferno!? Não diga!.indd 181 28/10/2009 11:51:26 . ela não iria gostar. você foi despedido hoje! Não acredito! Coitadinho do meu Rober- to!. Ela é uma pentelha! Você não aguenta mais sua mulher. de uma hora pra outra. obrigada. que bobagem! Tire isso da cabeça! 12083260 miolo A Rocco. não quero ir pra sua casa. (Pequena pausa) BERENICE – O quê? Você está pensando em se matar! Pelo amor de Deus..

Antes de cair morto. Saem de cena. joga o revólver para Berenice. que vai se afastando rapidamente) Cai o pano 12083260 miolo A Rocco. Ela. como se não comandasse as próprias ações. Entra um policial e a segura pelo braço) BERENICE – (Desesperada. pelo amor de Deus! Roberto. foi isso o que aconteceu! Eu não matei ninguém!! Eu amava esse homem!!! (O policial leva Berenice presa. aonde você vai? Volta aqui! (Ele saca um revólver e o aponta para a pró­pria fronte) BERENICE – Roberto. NÃO! (Roberto dispara a arma. porém.indd 182 28/10/2009 11:51:26 . como um boneco de marionete) BERENICE – Roberto. com Berenice repetindo as suas últimas falas. 182 morto. ago- ra com a arma na mão. Ouve-se o som da sirene de um carro de polícia. observa Roberto caído. Seus movimen- tos são estranhos. (Roberto se afasta um pouco. que revólver é esse?! Larga isso. fala para o público) Eu juro.

Radicais Livres 12083260 miolo A Rocco.indd 183 28/10/2009 11:51:26 .

Lenine (Elam Lima) com Olga (Gabriela Scarcelli) em Radicais Livres 12083260 miolo A Rocco.indd 184 28/10/2009 11:51:27 .

Lenine vem carre- gando um estandarte com o dizer “SIM”. as placas de ambos caem no chão. Radicais Livres Cena em uma peça Personagens Lenine – 20 anos Olga – 18 anos Cenário Rua.indd 185 28/10/2009 11:51:27 . em sentido contrário. Som de passeata estudantil. (Lenine pega as pla- cas e percebe que Olga é uma adversária política). 185 LENINE – Desculpe. não te vi. Depois de um encontrão. LENINE – Você vai votar “não”? OLGA – (Pega a placa da mão dele e lhe mostra o SIM) LENINE – Você tá convencida? OLGA – (Mostra o SIM) LENINE – Tem alguma coisa que eu possa dizer pra você mudar de ideia? 12083260 miolo A Rocco. vem carregando um estandarte com o dizer “NÃO”. Olga.

indd 186 28/10/2009 11:51:27 . Você é muda? OLGA – (Mostra o NÃO) LENINE – Não quer conversar? OLGA – (Mostra o NÃO) LENINE – O que isso. Sacou? OLGA – (Mostra o SIM) 186 LENINE – Eu também não concordo com esse plebiscito. LENINE – Olga. antítese e síntese. Tudo de bom! OLGA – (Mostra o NÃO) 12083260 miolo A Rocco.. Palhaçada! Esquece esse troço. Vamos só conversar. Tese... companheira? Conversando que a gente se entende. A poesia do contradi- tório.... OLGA – (Pega a placa da mão dele e mostra o NÃO) LENINE – Saquei!. OLGA – (Mostra o SIM) LENINE – Legal! Qual o teu nome? OLGA – Olga. Demais! Homenagem a Olga Benário. trocar umas ideias.

levar um lero. 187 OLGA – (Mostra o NÃO) LENINE – Estuda o quê? OLGA – Letras na Federal. Entendeu? OLGA – Sei. LENINE – Como não? OLGA – Minha avó se chamava Olga.. Eu sou o Lenine e meu avô não chamava Lenine. você não é de desperdiçar pa- lavras. jogar conversa fora? OLGA – (Mostra o NÃO) 12083260 miolo A Rocco.indd 187 28/10/2009 11:51:27 . LENINE – Verdade.. O que você faz? OLGA – Estudo. LENINE – Nossa... E você nem aparece por lá pra ver os amigos. LENINE – Sei. LENINE – Olga. LENINE – Legal. eu também! Como não te co- nheço? OLGA – Estamos há seis meses em greve.

.. Vai ver que você até me con- vencia.. então. Gente despreparada.. não me entenda mal. também tava precisando ganhar uns trocos. que você vai votar “não”? OLGA – (Mostra o SIM) LENINE – Quer discutir as implicações. OLGA – Estou aproveitando para trabalhar.. Quer tentar? OLGA – (Mostra o NÃO) LENINE – Você tem razão. Só tem ladrão. Olga.. LENINE – Pena!. Jogar conversa fora. Tá sobrando vaga lá no seu trampo? OLGA – (Mostra o NÃO). Claro que não. Acho que a democracia direta tá com tudo.indd 188 28/10/2009 11:51:27 . Não. você não acha? OLGA – (Mostra o SIM) 12083260 miolo A Rocco.? 188 OLGA – (Mostra o NÃO) LENINE – Pena!. LENINE – Legal.. Quer dizer... LENINE – É... esse plebiscito é uma bosta. São os caras no Congresso que não sabem usar a coisa. Tem mais é que consultar o povo.. mesmo...

te achei uma gatinha. tchau! OLGA – Tchau! (Eles vão se distanciando) LENINE – Ei. O cara é massa! OLGA – (Mostra o NÃO) LENINE – Pô. Quando acabar a greve. (Lenine. Mata minha curio- sidade.indd 189 28/10/2009 11:51:27 .. gostei de você! Fala pouco. Trocam um sorriso) LENINE – Olga. inadvertidamente. LENINE – Você concordou comigo. Sei lá quando vai ser isso. gata: por que você vai votar NÃO? 12083260 miolo A Rocco.. nem acredito. Pena. pega a placa NÃO. nós trocamos de placa... Os únicos que percebem que a universidade tá em greve somos nós mesmos. Vamos tomar uma cerveja num boteco de um amigo meu? É aqui pertinho.. nós tamos muito loucos! Num é que o bagulho era poderoso? (Eles trocam as placas.. mas dá pra ver que é inteligente.. te vejo na faculdade. Olga. Olha. Que doideira.. Ninguém tá nem aí.) 189 LENINE – Então. Mas valeu. Então.

..... (Olga sai de cena) LENINE – Mina radical! 190 Cai o pano 12083260 miolo A Rocco. “jamais”. “nem foden­do”! Sacou?! (Olga vira-se e sai andando) LENINE – (Fica um pouco desconcertado com a veemência de Olga) Saquei. Até mais.. Legal! Valeu. OLGA – Eu vou votar NÃO só porque naquela maldita maquininha de votação não vai ter a alternativa “nunca”.indd 190 28/10/2009 11:51:27 .

indd 191 28/10/2009 11:51:27 . Desejo 12083260 miolo A Rocco.

Márcia (Fernanda Chiminazo): ”Bem nada. Estou com falta de ar. com Carmem (Lulu Pavarin) e Lúcio (Javert Monteiro) 12083260 miolo A Rocco. em Desejo.”. sou claustrofóbica.indd 192 28/10/2009 11:51:27 .

você deveria beijar mais frequentemente.. com Márcia (Fernanda Chiminazo) 12083260 miolo A Rocco.”. Lúcio (Javert Monteiro): ”. em Desejo.indd 193 28/10/2009 11:51:27 ..

indd 194 28/10/2009 11:51:28 . em Desejo 12083260 miolo A Rocco. Porteiro Zé (Ivam Capúa): Aconteceu alguma coisa?.

LÚCIO – Boa-noite. MÁRCIA – (Séria) Boa-noite. MÁRCIA – Sobe?! (Lúcio segura a porta para que ela entre.indd 195 28/10/2009 11:51:28 . Desejo Peça em 14 andares e 1 mezanino Personagens Lúcio Márcia Carmem – Esposa de Lúcio Porteiro Zé Cenário Hall de entrada de um edifício residencial. Du- rante a cena. 195 Lúcio está esperando pelo elevador. Tudo bem? MÁRCIA – Tudo. Márcia chega ao hall pouco depois e grita. O elevador para no hall e Lúcio entra na cabine.) LÚCIO – (Maliciosamente) Claro que sobe. ouvem-se os barulhos característi- cos de um elevador antigo. Tudo ótimo e você? 12083260 miolo A Rocco.

A porta se fecha. LÚCIO – Deve ser duro de preencher formulário.. Márcia Arroios Montalban Pedrosa Deleuze. Qual seu nome... O elevador sobe) MÁRCIA – Você mora aqui faz tempo... e o seu? MÁRCIA – Márcia. LÚCIO – A gente não se vê muito. 12083260 miolo A Rocco. MÁRCIA – Se fosse só isso. Nossos ho- rários não batem. Nunca me serviram para nada.. (Márcia aperta o botão do seu andar.indd 196 28/10/2009 11:51:28 . mesmo? 196 LÚCIO – Lúcio. MÁRCIA – É. quantos nomes! MÁRCIA – Parece até piada. né? LÚCIO – Cinco anos e você? MÁRCIA – Quatro. LÚCIO – Puxa. passei do meu andar.... LÚCIO – Vai se indo... LÚCIO – Que cabeça a minha! Esqueci de apertar o botão..

indd 197 28/10/2009 11:51:28 . tudo bem?”. você disse: “Oi. LÚCIO – De jeito nenhum. vamos passear um pou­ co. sim.. É bom conhecer os vizinhos. MÁRCIA – Não faz mal. MÁRCIA – Você me acha atraente? LÚCIO – O quê? MÁRCIA – Perguntei se você me acha atraente. 12083260 miolo A Rocco. Márcia aperta o botão de emergência e para o elevador entre 197 dois andares) LÚCIO – Por que você apertou o botão de emer- gência? MÁRCIA – Por que isso é uma emergência! Você me perguntou se eu estava bem! LÚCIO – Perguntei? MÁRCIA – Perguntou. sim. Espero que minha companhia não esteja sen­do desagradável. é verdade. não lembra? Quando entrei no elevador.. Não é possível que já tenha esquecido! LÚCIO – Ah. gostosa! (Lúcio fica surpreso e mudo.

. 198 LÚCIO – Sonhar acho que não. resolvi te contar a verdade com calma. MÁRCIA – Será que você não pode ser direto? Responda às minhas perguntas de maneira sim- ples.indd 198 28/10/2009 11:51:28 ... sem rodeios.... LÚCIO – Qual pergunta? MÁRCIA – Você me acha gostosa? LÚCIO – Sim! MÁRCIA – Não venha com esse “sim”.. Você é uma mulher superbonita. MÁRCIA – Você não respondeu à minha pergunta. Agora. me deseja.. 12083260 miolo A Rocco. MÁRCIA – Há quase seis meses! Cinco meses. Eu menti. Lúcio? LÚCIO – Bem. vinte dias e doze horas. Você acha isso normal.. Não que me lem- bre. Se já sonhou comigo.. MÁRCIA – Pois então. Lúcio.... Quero saber se você... LÚCIO – Sei. Márcia.. Não está tu­do bem. MÁRCIA – Sabe há quanto tempo eu não dou um beijo na boca? LÚCIO – Não.

. Lúcio: um desperdício.. assim como você.. Um pouco esquisita.. Me dá um beijo! LÚCIO – Não sei o que minha mulher vai achar disso. MÁRCIA – Está me chamando de esquisita? LÚCIO – Não. Estou certo disso! É um desperdício. (Ouve-se o barulho de gente batendo na porta dos andares. o que é isso?! A pergunta é esqui- sita. Que batam à vontade! LÚCIO – Você não quer conversar na. Uma mulher bonita.... Agora é minha vez. deveria beijar mais frequentemente. LÚCIO – Vou tentar. Eu pago condomínio como todo mundo e uso pouquíssimo esse eleva- dor. MÁRCIA – Não vai achar nunca. estão batendo. nem que fique procurando. 12083260 miolo A Rocco. MÁRCIA – É isso que tem sido a minha vida.. MÁRCIA – Não! Este é o lugar e a hora certa. Acho melhor a 199 gente liberar o elevador. não você. reclamam da demora) LÚCIO – Márcia. MÁRCIA – De jeito nenhum.indd 199 28/10/2009 11:51:28 .

MÁRCIA – Junto com a Márcia do cento e qua- renta e um...... sei.. Tem alguém aí? LÚCIO – Fala.. MÁRCIA – Te deu outras ideias? LÚCIO – Deu muitas ideias..indd 200 28/10/2009 11:51:28 . (Márcia agarra Lúcio e eles se beijam longamente) MÁRCIA – Então. (Ouve-se o barulho de gente batendo na porta dos andares. Gostou? LÚCIO – Gostei. é melhor. 200 MÁRCIA – Você não respondeu. Lúcio atende. Zé! É o Lúcio do setenta e um.. 12083260 miolo A Rocco. Em outro foco de luz.. Aconteceu algu- ma coisa? Estão reclamando porque o elevador tá parado. Boa-noite. Quais ideias vieram na sua cabeça? (Ouve-se o interfone. PORTEIRO – Ah. o porteiro Zé aparece) PORTEIRO – Alô. reclamam da demora) LÚCIO – Estão batendo. alô.

PORTEIRO – Ótimo! Fiquem em paz.. Chama logo os homens! PORTEIRO – É pra já! (Lúcio desliga o interfone) MÁRCIA – Por que você mentiu? LÚCIO – Queria que eu falasse que você parou o elevador de propósito? MÁRCIA – Não sobre isso. Em uns minutinhos eles aparecem. Acalme dona Márcia. PORTEIRO – Não precisa ficar nervoso. Estamos presos. Zé.indd 201 28/10/2009 11:51:28 . Parece algum tipo de pane. se- nhor. perder o juízo? 12083260 miolo A Rocco. LÚCIO – É. que já vou chamar a assistência técnica. MÁRCIA – Tomara que levem uma hora! PORTEIRO – O quê? 201 LÚCIO – Nada. LÚCIO – Obrigado. Está tudo sob controle. Travou. não.. Zé. Por que você disse que estava tudo sob controle? Você não me acha uma mulher capaz de te fazer perder o controle.

você está aí? LÚCIO – Oi.. esposa de Lúcio. 12083260 miolo A Rocco. sou claustrofóbica. CARMEM – Eu sei. pelo amor de Deus. chega esbaforida. grita do hall e interrompe o beijo) CARMEM – Lúcio.indd 202 28/10/2009 11:51:28 . o Zé me avisou.. O elevador encrencou. Você está sozinho? MÁRCIA – Não. Tudo bem aí? MÁRCIA – Bem nada. você ficou louca? MÁRCIA – Louca é a palavra! Aproveita que é só hoje! (Márcia agarra Lúcio e lhe dá um longo beijo. Márcia. querido. eu também dei azar. MÁRCIA – Isso é o que vamos ver. Estou com falta de ar. querida. Carmem. Sou a Már- cia do cento e quarenta e um. LÚCIO – Talvez em outra situação. no elevador do prédio.. Com cer- teza! Mas aqui.. sim. (Márcia tira a roupa e fica só de lingerie) LÚCIO – Márcia. CARMEM – Oi. 202 depois de subir sete lances de escada.

12083260 miolo A Rocco. LÚCIO – Uma hora?! MÁRCIA – Uma hora! LÚCIO – Zé. LÚCIO – E então? 203 PORTEIRO – Olhe. Zé. querida. PORTEIRO – Pois não. Márcia vai abrindo a camisa de Lúcio e lhe dando beijinhos e mor- discadas) LÚCIO – Alô. você não tem aquela chave que abre a porta dos pavimentos? CARMEM – Tá tudo bem aí? LÚCIO – Tá. se esfregando em Lúcio) Ainda bem que ele está aqui! (Lúcio pega o interfone.. doutor Lúcio.. Na medida do possível. MÁRCIA – (Ofegante. O Lúcio cuida de você. já falei com os homens. CARMEM – Não se preocupe... Dis- seram que tem muita chamada.. Vai demorar uma hora. Márcia..indd 203 28/10/2009 11:51:28 .

Não posso deixar a portaria sem ninguém. ok? PORTEIRO – Se o doutor se responsabiliza. eu assumo a responsabilidade.. estou mandando minha mulher aí. Venha tirar a gente daqui. fala alto para a esposa ouvir) Zé. proibiu. (Para o porteiro. LÚCIO – Dane-se o síndico. PORTEIRO – Eu bem que queria. o que foi isso? LÚCIO – Nada. ela fica na portaria e você vem nos soltar.. doutor Lúcio. sim. 12083260 miolo A Rocco. mas estou sozinho.indd 204 28/10/2009 11:51:28 . A Márcia está passando mal. Disse que é muito perigoso. (Márcia está de joelhos desafivelando o cinto de Lúcio) 204 LÚCIO – Para com isso! (Ele dá um empurrão em Márcia) MÁRCIA – Filho da puta! PORTEIRO – Aconteceu alguma coisa? CARMEM – Lúcio. mas o “sínico” não quer que use. PORTEIRO – Tem a chavinha. querida.

(Márcia aperta um botão e põe para funcionar o elevador. Já estou indo. você me empurrou! 205 LÚCIO – Márcia.. querida. Para a esposa) Você ouviu. sempre admirei sua bunda a distância. ela já vai aí! (Desliga o interfone. mané. LÚCIO – Ótimo.. boio- la. é um tesão. que a vizinha não está nada bem.. Você estragou tudo. CARMEM – Já fui! (Carmem sai do hall e simula descer as escadas correndo em círculos) MÁRCIA – Filho da puta. tem que ter uma paisagem. escuta: você é linda..indd 205 28/10/2009 11:51:28 . LÚCIO – Deixa comigo. Ela abre a porta e sai) 12083260 miolo A Rocco.. Rápido. amor? CARMEM – Ouvi. Perdeu sua chance. Se fosse em outras circunstâncias. que sobe mais um andar e para. O desejo não existe sozinho. (Os dois se recompõem) MÁRCIA – Outras circunstâncias? Babaca.. Juro! Mas assim não dá. bunda-mole.

. 206 CARMEM – Que bom! Vou avisar o Zé.indd 206 28/10/2009 11:51:28 . Histérica.. CARMEM – Graças a Deus! E a Márcia? LÚCIO – Já ficou no andar dela. (Lúcio aperta o botão. MÁRCIA – Tchau. o elevador para no meio dos andares. aperta o botão e começam a subir) CARMEM – Lúcio. Lúcio começa a ar- rancar a roupa da esposa) 12083260 miolo A Rocco. A trilha sonora mostra seu estado de espí- rito. indo falar com o porteiro) LÚCIO – Carmem! Funcionou. louca. e o elevador começa a descer. o que é isso? Ficou louco? LÚCIO – Fiquei! Louco é a palavra! (Pressiona o botão de emergência. ofegante.. Chegando ao térreo. broxa! LÚCIO – Tchau. abre a porta e dá com sua mulher.. LÚCIO – Esquece o Zé! CARMEM – O quê? (Lúcio puxa Carmem para dentro do elevador.

.. Subi sete andares e desci 14... Tô cansada.indd 207 28/10/2009 11:51:28 ... Lúcio! Cai o pano 207 12083260 miolo A Rocco. CARMEM – Lúcio! Aqui não.

Tonhão (Javert Monteiro): “Não consigo!”.indd 208 28/10/2009 11:51:28 . Daniela (Lulu Pavarin). Fonseca (Ivam Capúa) e Gabriela (Gabriela Scarcelli) 12083260 miolo A Rocco. com Fernanda (Fernanda Chiminazo). Lima (Elam Lima). em A Escalada.

indd 209 28/10/2009 11:51:28 . A Escalada 12083260 miolo A Rocco.

Lima (Elam Lima). pessoal. Fonseca (Ivam Capúa) 12083260 miolo A Rocco. Gabriela (Gabriela Scarcelli): “Olha lá. com Fernanda (Fernanda Chiminazo). em A Escalada.indd 210 28/10/2009 11:51:29 . que legal: uma águia está nos rodeando!”.

Fonseca (Ivam Capúa): Fala menos e chega mais!. com Tonhão (Antonio Destro) 12083260 miolo A Rocco.indd 211 28/10/2009 11:51:29 . em A Escalada.

indd 212 28/10/2009 11:51:29 .12083260 miolo A Rocco.

Na- morada de Lima. Gabriela – 25 anos. Meio-dia! Não é à toa que eu tô varado de fome. O sol tá com tudo. Amiga de Daniela. Estão a duzentos metros de altura. Terceiro da fila. Cenário 213 Paredão rochoso da Pedra do Baú. A Escalada Peça nas alturas Personagens Tonhão – 40 anos. Segunda da fila. médica. Estão amarrados uns aos outros por uma corda. FONSECA – (Para Gabriela) Gabi.indd 213 28/10/2009 11:51:29 . professor. Que horas são? GABRIELA – Meio-dia. Quarta da fila. Fernanda – 23 anos. dentista. Sobem por grampos cravados na rocha.. Quinta da fila. 12083260 miolo A Rocco. Fonseca – 40 anos.. FONSECA – Calor dos infernos. estudante de Direito. estudante de Direito. Cinco para o meio-dia. Primeiro da fila. Sexto da fila. Lima – 23 anos. advogada. A equipe está escalando a encosta. Corrida de aventura. Daniela – 28 anos. meu relógio já era.

como é que é? É pra hoje? TONHÃO – Tá faltando grampo. Vou perguntar.. Vamos embora! TONHÃO – Não posso. DANIELA – Lima. tá faltando grampo. FERNANDA – Putz. tá faltando grampo. e agora? Lima – Não se preocupa. FERNANDA – (Para Lima) Amor.indd 214 28/10/2009 11:51:29 . Lima – (Para Fernanda) Amor. por que paramos? 214 DANIELA – Ainda não sei. FERNANDA – Ih. tá faltando gram- po.. 12083260 miolo A Rocco. bebezinho. coração. Tonhão. DANIELA – O que houve. por que a gen­ te parou? Lima – Não sei. neneca. A gente dá um jeito. Gabi. Daniela. Tonhão? Empacou? TONHÃO – (Paralisado de medo) Empaquei! DANIELA – Então vamos? Tem outra equipe no nosso calcanhar.

indd 215 28/10/2009 11:51:29 . quantos grampos 215 faltam? FERNANDA – (Para Lima) Amor. denguinho. FONSECA – Gabriela. FONSECA – Pergunta quantos grampos estão faltando. Fernandinha. FONSECA – (Para Gabriela) Como é que é? Vai ou não vai? GABRIELA – Paramos porque está faltando grampo... FERNANDA – Quantos grampos faltam? Lima – Ainda não sei. A equipe rosa passou não faz dez minutos. GABRIELA – OK. Deve dar para passar. Lima – Fala... dá pra passar ou a situação tá feia? 12083260 miolo A Rocco. FONSECA – E daí? GABRIELA – Sei lá! Só me disseram isso. Fezoca. Pergunta! GABRIELA – OK! Fernanda. pergunta se dá pra passar. se a situação tá feia.

. já vou me informar. vou perguntar. FERNANDA – Peraí. LIMA – Medo? Vamos logo. TONHÃO – Não consigo. dá pra passar ou a coisa tá feia? LIMA – Não sei.. (Para Tonhão) Tonhão. Tá mudo.. (Para Daniela) Dâni. DANIELA – Claro que dá! Todo mundo passa por aí. Não vou conseguir. 12083260 miolo A Rocco.. dá pra passar? A situação tá feia? Quantos grampos faltam? DANIELA – Sei lá. LIMA – O que aconteceu? DANIELA – A rampa é invertida e está sem gram- po. 216 DANIELA – Dá um jeito. O Tonhão não fala... Dois ou três.. nunca ninguém voltou. estamos perdendo tempo. neném. (Para Lima) Tchutchuco. cara! Quantos grampos faltam? TONHÃO – Dois. acho que faltam dois. TONHÃO – A rampa é invertida! Não vai dar. Vê se dá pra ir pela pedra. desembucha. Tonhão tá com medo.indd 216 28/10/2009 11:51:29 . cara..

amore? LIMA – Ah. 12083260 miolo A Rocco.. cocadinha. Quer água? FERNANDA – Você é demais..indd 217 28/10/2009 11:51:29 .. meu pudinzinho! LIMA – Você é que é. amor. GABRIELA – Fonseca. a rampa é invertida. FONSECA – Que putaria é essa aí em cima? FERNANDA – Gabi. 217 gente! Estamos ficando pra trás. FERNANDA – Obrigada. FERNANDA – O que foi.. ué. (Grita) Vamos embora. FERNANDA – Vamos. passe por ela sorrindo. chameguinho. Tá faltando grampo e o Tonhão tá com medo. Assim a gente só chega amanhã de manhã. Toma! (Entre- ga o cantil a Fernanda). Te amo! TONHÃO – Acho que não vou conseguir.. pessoal! Tá calor aqui! LIMA – Eu trouxe dois cantis. FONSECA – Como travou? Se a rampa é divertida. avisa o Fonseca que a rampa é invertida e o Tonhão travou.. a rampa é divertida e o Tonhão travou.

. Seu amigo Tonhão amarelou. Se acalma e vai. FERNANDA – Positivo. LIMA – Fazer o quê? Avisa o pessoal aí embaixo para dar meia-volta. Você queria tanto ganhar esse desafio. DANIELA – Vamos. (Para Ga- briela) Gabi. Melhor a gente voltar. LIMA – Puta que o pariu!!! Quem foi que convi- dou esse cara para entrar na nossa equipe? DANIELA – Foi a Gabi. FERNANDA – Que pena. fofucho. Tonhão! É só um grampinho.. Tá apavorado! 12083260 miolo A Rocco. mas agora não é hora de discutir. se segura aí. Melhor voltar! 218 LIMA – Lá se foi nossa prova. (Para Lima) Lima. tchutchuco. vamos voltar. acho melhor a gente voltar. você não entende? Tô fican- do tonto! DANIELA – Pelo amor de Deus. TONHÃO – Não dá. ternura? LIMA – (Para Fernanda) O Tonhão tá apavorado.indd 218 28/10/2009 11:51:29 . O Tonhão tá passando mal. merda! FERNANDA – O que foi.

. senhora. que tá logo embaixo dele. Diz pra esse maricas ir em frente. DANIELA – Calma.. Fonseca? O cara tá mal! FONSECA – Escuta aqui. Tonhão. FONSECA – O que tá acontecendo aí em cima. não aguento mais ficar pendurada. não. porra?!! GABRIELA – O Tonhão está todo cagado. Coitada da Daniela. senão eu vou até lá.. acho que vou vomitar. GABRIELA – Pô. Melhor voltar mesmo. A gente já vai descer.. TONHÃO – Minha perna tá bamba. ouviu? DANIELA – O que está havendo aí embaixo? Por que ninguém se mexe? LIMA – Sei lá! Tá o maior falatório. o Tonhão. 12083260 miolo A Rocco. FONSECA – Xi. é? Não sabia que ele era fraco desse jeito... Alguma coisa sempre pinga. menininha: não vim aqui a passeio..indd 219 28/10/2009 11:51:29 . Quer voltar. Não volto nem a pau! Não arredo pé.. 219 GABRIELA – O que é isso.. Estou aqui para ganhar essa prova..

FERNANDA – Mas o cara tá muito macho aqui embaixo. mas milagre não posso fazer. 12083260 miolo A Rocco.indd 220 28/10/2009 11:51:29 . Quer ganhar a competição. caralho! GABRIELA – Grosso! (Para Fernanda) Fernanda. FERNANDA – Isso vai dar cagada! (Para Lima) Benzuco! LIMA – Fala. Manda o pessoal dar um jeito lá na frente. “patricinha de Beverly Hills”. o Fonseca falou que não vai descer nem a pau. GABRIELA – Você tá maluco? FONSECA – Avisa lá. LIMA – Eu também quero. Ajuda 220 o cara. FERNANDA – Como não? GABRIELA – Falou que quer ganhar a prova. O sujeito empacou lá em cima. disse que não desce. FONSECA – Avisa lá que eu não vou descer! Quem quiser ir lá pra baixo que pule. Benzuca! FERNANDA – O Fonseca disse que não vai descer nem na porrada.

se ele não se mexer. vou lá pessoalmente e empurro esse filho da puta! GABRIELA – Vamos. o fofucho vai meter a mão nele. avisa o Fon- seca que.. Fonseca. DANIELA – Tonhão!.. Tonhão. se ele não descer. Desce logo! Já não estou aguentando mais ficar aqui parada. vamos lá. LIMA – Só me faltava essa! Um louco em cima e outro embaixo! (Para Fernanda) Fê. FONSECA – Puta que o pariu! É isso que dá mon- tar a equipe de última hora! DANIELA – Ah.indd 221 28/10/2009 11:51:29 . você está bem? TONHÃO – Não. tô péssimo! FERNANDA – (Para Gabriela) Avisa o Fonseca que. GABRIELA – Fonseca! FONSECA – Late! 12083260 miolo A Rocco. meu Deus! Vamos “se” mexer aí embaixo! LIMA – (Para Daniela) O Fonseca falou que não vai descer! 221 FONSECA – Nunca deixei de completar uma pro- va e não vai ser hoje que vou desistir.

que legal: uma águia está nos rodeando.. TONHÃO – Você acha que eu não queria? Tô te 222 falando: (Grita) não consigo!!!! Não consigo!! (Começa a chorar) FERNANDA – Gente. vai te encher de porrada. Vê se você consegue. TONHÃO – Como não? DANIELA – O cara é louco! Tá querendo ir de qualquer jeito. FONSECA – (Irônico) Ui.indd 222 28/10/2009 11:51:29 . que medo! Manda ele se catar. GABRIELA – Olha lá. você já viu águia preta? Isso é um urubu! DANIELA – Nossa! Urubu dá um puta azar! TONHÃO – Não fala essa palavra!!! 12083260 miolo A Rocco. Eu não tô mais aguentando... escuta: o Fonseca falou que não vai descer. FERNANDA – Gabi.. GABRIELA – O Lima falou que. é sério.. se você não des- cer.. pessoal. Fala que fedelho rima com pentelho! DANIELA – Tonhão.

DANIELA – Vira essa boca pra lá! (Para Tonhão) Tonhão. Para com isso.. Gabi.... (Fonseca abre caminho e divide o grampo com Gabi) FONSECA – Não o quê. LIMA – Mais azar que ficar aqui parado no meio da pedra com esse puta calor. vou passar. GABRIELA – Falei que não. só se a gente se esborrachar lá embaixo. mas assim não dá! Eu vou até lá!. 12083260 miolo A Rocco. não fala comigo! Eu quero descer daqui! FONSECA – Ah. vamos! Coragem! Ninguém está mais aguentando.. não atrapalha! Desce lá pro meu lugar. menina? Tô tentando resolver a situação.. Dá licença. TONHÃO – Não enche.indd 223 28/10/2009 11:51:29 . GABRIELA – Não. FONSECA – Já tô subindo. GABRIELA – Como assim? 223 FONSECA – Vamos dividir esse seu grampo.

Tô subindo! LIMA – Tá maluco. pra facilitar as coisas. esse grampo não vai aguentar! 224 FONSECA – Que é isso. Fonseca? FONSECA – Maluco nada! Tô indo ajudar o cara. FERNANDA – (Descendo um grampo) Que sujei­ to metido! FONSECA – Alguém tem que tomar uma atitude! (Para Lima) Ô.indd 224 28/10/2009 11:51:29 . dá licença! FERNANDA – Aonde você vai. GABRIELA – (Descendo um grampo) Você pensa que é o líder da equipe. Fonseca? FONSECA – Você vai ver. seja boazinha e desça um gram- po. benzuco. Fernandinha? Nós somos levinhos. dá licença. Sou bom em psicologia infantil. é? O líder é Lima! FONSECA – Líder é quem toma a iniciativa! (Para Fernanda) Fernanda. (Fonseca abre caminho e divide o grampo com Fernanda) FERNANDA – Fonseca... Agora. É só morder a bunda do sujeito que ele sobe! 12083260 miolo A Rocco.

você acha que consegue descer numa boa? TONHÃO – Acho que sim. Agora. lá embaixo a gente briga. você é que vai causar um acidente. vamos para baixo! FERNANDA – Deixa o Fonseca subir. Se você não me deixar. 225 FONSECA – É isso aí. você que estava emperrando as coisas? 12083260 miolo A Rocco. eu vou subir. a gente desce logo de uma vez.. Lima. dá licença... Você vai é causar um acidente! FONSECA – Bom. Lima.indd 225 28/10/2009 11:51:29 . em pânico. mas tô ficando sem força. tô sem tempo!. Assim. DANIELA – Tonhão. (Fonseca abre caminho e divide o grampo com Lima) LIMA – Folgado do caralho! FONSECA – Tá bom. pelo amor de Deus.. amor.. DANIELA – Gente. Fica frio.. Daniela! (Lima desce um grampo) DANIELA – Fonseca. amor. LIMA – O Tonhão tá cristalizado.

. Daniela desce um grampo) DANIELA – Fonseca.. me deixa chegar até o Tonhão.. FONSECA – Dá licença.. FONSECA – Que nada! Vou fazer esse amarelão subir! Vamos terminar a prova! DANIELA – Você bebeu? FONSECA – Nem uma gota. Mãe do Céu. Logo depois. O Fonseca chegou pra te ajudar a descer. fica frio. Assim. ele desce escoltado por você em cima e por mim embaixo. vou até aí. eu quero descer! DANIELA – Tonhão. Tonhão! TONHÃO – Socorro!. DANIELA – Pra quê? FONSECA – Pra ajudar. Sobe aqui! (Fonseca abre caminho e divide o grampo com Daniela. porra! GABRIELA – (Grita) Tonhão. aguenta firme! FERNANDA – (Grita) Força.. 12083260 miolo A Rocco. (Para Fonseca) Vem. Fonseca. Ele é o mais experiente de 226 todos. Ainda! (Para To- nhão) Tonhão. passa pelo Tonhão.indd 226 28/10/2009 11:51:29 .

desgraçado! O Tonhão vai subir. Tonhão! Vai terminar tudo bem! FONSECA – (Para Lima) Vai.. LIMA – Pessoal. Gabi. DANIELA – Isso. pior. FERNANDA – Ele está ficando com o Fonseca e a Dâni. LIMA – Quem é que vai me impedir. vai indo!. nessa situação. quanto mais gente. eu vou descendo com as meninas. FERNANDA – Lima. (Grita) Força. frouxo! Você não pisa mais na minha equipe! 12083260 miolo A Rocco. Vamos descer! GABRIELA – Não queria deixar o Tonhão aí. não tô aguentando mais.indd 227 28/10/2009 11:51:29 . Tá muito quente. babaca! 227 TONHÃO – Socorro! Socorro! FERNANDA – Vamos.. Eu que­ ro descer. Fonseca.. FONSECA – (Para Lima) Não vai desistir agora. Nesses casos. TONHÃO – Não chega perto.. GABRIELA – Acho que você tem razão. Encontro vocês lá embaixo. A gente se vira.

Fernanda? FERNANDA – Para.indd 228 28/10/2009 11:51:29 . LIMA – Essa equipe é minha. FONSECA – Volta aqui. Gabi! (Para Lima) Ela tá brin- cando. Fernanda e Lima descem pelos grampos) FERNANDA – Não liga pra ele. covarde! LIMA – Vai se catar!!! DANIELA – Parecem crianças! (Gabriela. Dumbinho. infeliz. neneco. (Para Gabi) Quieta. amor! GABRIELA – Dumbinho! Essa é ótima! Vou contar pra todo mundo! LIMA – Tá vendo. GABRIELA – Dumbinho? 228 LIMA – Fernanda! Já te falei pra não me chamar de Dumbinho. você é que está fora! Até nunca mais. bundão. GABRIELA – Dumbinho! Essa valeu o dia! (Ri) 12083260 miolo A Rocco. Gabi. FERNANDA – Mas é elogio. vê se não piora as coisas. super-homem do Jardim Míriam! Vai se matar.

vamos dividir o grampo. 12083260 miolo A Rocco. Fernanda e Lima saem de cena) FONSECA – Vamos.. deixa ele passar na sua frente.indd 229 28/10/2009 11:51:29 . tô perdendo a paciência. Não vem!. 229 FONSECA – Nunca! Vamos! Sobe.. Já perdemos a prova.. para com isso. TONHÃO – Daniela. tira esse cara daqui! DANIELA – Fonseca. Confie em mim. TONHÃO – Nunca!. Vou fazer esse sujeito perder o medo. cara. a equipe desistiu. Me deixe passar. FONSECA – Agora é questão de honra.. homem! (Fonseca pega a perna de Tonhão. Eu não quero morrer! FONSECA – Calma! DANIELA – Fonseca. Tonhão. Tonhão!. é melhor a gente descer assim mesmo. DANIELA – Tonhão. (Gabriela... que solta um grito de pavor) TONHÃO – Não encosta em mim. Quero descer! FONSECA – Olha.... não encosta!. Coragem.. Vamos.

Tonhão! Vou chamar ajuda! (Daniela começa a descer) TONHÃO – Daniela. Tá no comando! Mas vou chamar ajuda! O que você está fazendo é crime. DANIELA – Se alguma coisa acontecer com ele. TONHÃO – Daniela. DANIELA – Eu vou. é tortura! FONSECA – Vai. doutora advogada! Te vejo na prisão de segurança máxima. desgraçado. vai chamar a SWAT do Lula e 230 não perturba. Fonseca! Por enquanto. não me deixe aqui! 12083260 miolo A Rocco. eu sou o responsável. não me deixe com esse maluco! FONSECA – Vai.. firme. Você vai em cana. DANIELA – Imbecil! (Para Tonhão) Aguenta. vou responsabilizar você. mas volto com reforço rapi- dinho.. você ganhou. FONSECA – OK. mas por mim ele não passa! Esse trolha vai subir.indd 230 28/10/2009 11:51:29 . TONHÃO – Socorro! DANIELA – Tá certo. nem que seja a última coisa que eu faça. É mais forte que eu.

Toniquinho. A sós.. Tonhão! Já. entende? 12083260 miolo A Rocco. Tenho carinho. Faz tempo que preciso bater um papo com você... já chega ajuda.indd 231 28/10/2009 11:51:29 .. querido. somos só nós dois... TONHÃO – Vai se ferrar. Calma! Sem desespero! TONHÃO – Daniela! Tira esse louco daqui! (Daniela sai de cena) FONSECA – Agora. Há muito tempo eu gosto de você. filho da puta! FONSECA – Isso é jeito de falar com o seu salvador? DANIELA – (Grita) Fica firme.... TONHÃO – Papo? FONSECA – É. Eu tinha que te dizer isso. papai cuida de você. FONSECA – Calma. TONHÃO – Por que você tá fazendo isso comigo? 231 FONSECA – Tô querendo conversar com você. Eu me interesso por você.. TONHÃO – Gosta de mim?!!! FONSECA – É... TONHÃO – Conversar?! FONSECA – É.

.... 232 FONSECA – Isso mesmo. que brincadeira mais es­ túpida.. mas eu sabia que aquela intolerância era coisa de criança. FONSECA – Foi amor à primeira vista. Coisa de moleque. Agora a bichinha virou bichona. lembra? TONHÃO – O Lulu. não tô brincando.. gostava de ser diferente. Na verdade... mas nós fomos colegas de escola. FONSECA – Tonhão.. instrutora de voo livre. Meu apelido era Lulu. ela não é ciumenta.. Desde os tempos do Colégio Mariano que eu gosto de você. Sei que você não lembra.indd 232 28/10/2009 11:51:29 . TONHÃO – Só me faltava essa! Devo ter jogado pedra na cruz em outra encarnação.. TONHÃO – Mas você é casado com a Magdalena. FONSECA – Não liga pra isso.. Vocês me enchiam bastante... TONHÃO – Fonseca. Eu nem ficava bravo... 12083260 miolo A Rocco. A bichinha da. TONHÃO – Eu só estudei a quinta série no Co- légio Mariano. a bichinha da turma.

Vamos. já falei o que eu queria. é ver- dade. Vamos.(Ri) Que é isso. Tonhão? Vamos.. aqui. Vem comigo... Aqui em cima.... TONHÃO – Estou perdido! Você é mais louco que eu pensava. Tonhão. acabou a brincadeira. Eu queria ganhar a prova.. FONSECA – Então. saiba que tem. que nerbios!!!”. resolvi improvisar. 12083260 miolo A Rocco. bichona.... Deve ser culpa do ar rarefeito!. mas não precisa casar comigo por causa disso. mas já que você pôs tudo a perder.. FONSECA – É. que medo de altura. você vai ficar me devendo um puta favor. sei que você é hetero. vou te ajudar a descer. Socorro!!! FONSECA – Bom.. mas se algum dia quiser ter experiências novas. Não vou te fazer mal. Tonhão. a bichona se comporta como ma- cho e o homem parece bichona: “Ui.. TONHÃO – Tira a mão de mim. Como este mundo é esquisito. Vou guiando as suas pernas. um amigo que gosta de você de verdade... Tá certo.indd 233 28/10/2009 11:51:29 . vou te salvar.... TONHÃO – Você aprontou tudo isso só para ficar sozinho comigo? 233 FONSECA – Não.

.. graças a Deus..? TONHÃO – Nada. (Ouve-se barulho de helicóptero) TONHÃO – Eles chegaram... eu já vou indo.indd 234 28/10/2009 11:51:30 . Socorro!. aqui!!! Não preciso mais de você! (Barulho do helicóptero fica alto e depois vai se afastando) TONHÃO – Aqui!!! Aqui!!! Estão indo embora. me ajude. não me deixe aqui. Tonhão. (Para o helicóptero) Aqui. Vamos embora... Quem quiser que me acompanhe.. 234 (Silêncio) FONSECA – Bom. sim! Por favor. juro! Contanto que. FONSECA – Não seja bobo.. Não tenho nada contra viado. Helicóptero não vai poder te resgatar aqui nesse paredão... Nada! 12083260 miolo A Rocco. por favor. FONSECA – Contanto que... FONSECA – Você vai querer ajuda da bichona? TONHÃO – Vou... TONHÃO – Fonseca. Vieram me pegar.

Vai subir? 235 TONHÃO – Não. Parece o final do filme Casa- blanca!!! (Canta um trechinho da música-tema) (Tonhão desce um grampo e. você é meu protegido. Me leve até lá embaixo. Um pé de cada vez... vamos! Coragem! Me dê seu pé. Tonhão! Sem pre- conceito.indd 235 28/10/2009 11:51:30 ... FONSECA – Assim é que se fala. mas depois pode deixar que da minha 12083260 miolo A Rocco. FONSECA – Calma. vou cuidar de você di- reitinho. Isso. pode pegar na minha perna à vontade. você se incomoda? TONHÃO – Não. TONHÃO – Minha perna tá tremendo. TONHÃO – Obrigado.) FONSECA – Ué. desavisado.. Fonseca. numa boa! Já vi que aqui começa uma grande amizade!.. De hoje em diante. Tonhão leva um susto e sobe dois grampos.. FONSECA – Vou ter que guiar os seus pés.. encos­ ta em Fonseca. muito bem!. vai ser moleza. não! Quero descer. vai ser fácil.. FONSECA – Então..

não subo mais nem em banquinho. fecha essa matraca! Fala menos e chega mais! (Em um patamar. Tonhão solta um grito) Cai o pano 236 12083260 miolo A Rocco. de hoje em diante. FONSECA – Fala menos. que a gente vai mais rá- pido. Fonseca puxa Tonhão para si e o encoxa. Valha-me. Ao contato com Fonseca. homem. Se concentra.indd 236 28/10/2009 11:51:30 . vida cuido eu. Nosso Senhor Jesus Cristo! Juro que.

Índice Apresentação – José Serra 5 Coleção Aplauso – Hubert Alquéres 7 Introdução Comédias Paulistanas – Chico de Assis 13 A Estranha 15 A Loucadora de Vídeo 89 Textículos 147 Olho por Olho 151 Te Conheço 161 Na Faixa 169 Mera Coincidência 177 Radicais Livres 183 Desejo 191 A Escalada 209 12083260 miolo A Rocco.indd 237 28/10/2009 11:51:30 .

12083260 miolo A Rocco.indd 238 28/10/2009 11:51:30 .

indd 239 28/10/2009 11:51:30 . Crédito das Fotografias Todas as fotografias pertencem ao acervo pessoal de Antonio Rocco 12083260 miolo A Rocco.

comentado por Toni Venturi e Ricardo Kauffman O Caçador de Diamantes Roteiro de Vittorio Capellaro. comentado por Máximo Barro 12083260 miolo A Rocco. Coleção Aplauso Série Cinema Brasil Alain Fresnot – Um Cineasta sem Alma Alain Fresnot Agostinho Martins Pereira – Um Idealista Máximo Barro O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias Roteiro de Cláudio Galperin.indd 240 28/10/2009 11:51:30 . Anna Muylaert­ e Cao Hamburger Anselmo Duarte – O Homem da Palma de Ouro Luiz Carlos Merten Antonio Carlos da Fontoura – Espelho da Alma Rodrigo Murat Ary Fernandes – Sua Fascinante História Antônio Leão da Silva Neto O Bandido da Luz Vermelha Roteiro de Rogério Sganzerla Batismo de Sangue Roteiro de Dani Patarra e Helvécio Ratton Bens Confiscados Roteiro comentado pelos seus autores Daniel Chaia e Carlos Reichenbach Braz Chediak – Fragmentos de uma vida Sérgio Rodrigo Reis Cabra-Cega Roteiro de Di Moretti. Bráulio Mantovani.

Duarte – Paixão. José Roberto Torero. Felipe Bragança e Maurício Zacharias Chega de Saudade Roteiro de Luiz Bolognesi Cidade dos Homens Roteiro de Elena Soárez Como Fazer um Filme de Amor Roteiro escrito e comentado por Luiz Moura e José Roberto Torero O Contador de Histórias Roteiro de Mauricio Arruda. Carlos Coimbra – Um Homem Raro Luiz Carlos Merten Carlos Reichenbach – O Cinema Como Razão de Viver Marcelo Lyra A Cartomante Roteiro comentado por seu autor Wagner de Assis Casa de Meninas Romance original e roteiro de Inácio Araújo O Caso dos Irmãos Naves Roteiro de Jean-Claude Bernardet e Luis Sérgio Person O Céu de Suely Roteiro de Karim Aïnouz. Luiz Antônio Souza Lima de Macedo Críticas de Edmar Pereira – Razão e Sensibilidade Org. Luiz Carlos Merten Críticas de Jairo Ferreira – Críticas de invenção: Os Anos do São Paulo Shimbun Org. Alessandro Gamo 12083260 miolo A Rocco. Mariana Veríssimo e Luiz Villaça Críticas de B.indd 241 28/10/2009 11:51:30 . Polêmica e Generosidade Org.J.

Marcos Jorge e Cláudia da Natividade Fernando Meirelles – Biografia Prematura Maria do Rosário Caetano Fim da Linha Roteiro de Gustavo Steinberg e Guilherme Werneck.indd 242 28/10/2009 11:51:30 . João Emanuel Carneiro e Daniel Filho Os 12 Trabalhos Roteiro de Cláudio Yosida e Ricardo Elias Estômago Roteiro de Lusa Silvestre. Carlos M. Motta e José Júlio Spiewak De Passagem Roteiro de Cláudio Yosida e Direção de Ricardo Elias Desmundo Roteiro de Alain Fresnot. Críticas de Luiz Geraldo de Miranda Leão – Anali- sando Cinema: Críticas de LG Org. Anna Muylaert e Sabina Anzuategui Djalma Limongi Batista – Livre Pensador Marcel Nadale Dogma Feijoada: O Cinema Negro Brasileiro Jeferson De Dois Córregos Roteiro de Carlos Reichenbach A Dona da História Roteiro de João Falcão. Aurora Miranda Leão Críticas de Rubem Biáfora – A Coragem de Ser Org. Story­ boards de Fábio Moon e Gabriel Bá Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil Luiz Zanin Oricchio Geraldo Moraes – O Cineasta do Interior Klecius Henrique 12083260 miolo A Rocco.

organização de Ariane Abdallah e Newton Cannito Ivan Cardoso – O Mestre do Terrir Remier João Batista de Andrade – Alguma Solidão e Muitas Histórias Maria do Rosário Caetano Jorge Bodanzky – O Homem com a Câmera Carlos Alberto Mattos José Antonio Garcia – Em Busca da Alma Feminina Marcel Nadale José Carlos Burle – Drama na Chanchada Máximo Barro Liberdade de Imprensa – O Cinema de Intervenção Renata Fortes e João Batista de Andrade Luiz Carlos Lacerda – Prazer & Cinema Alfredo Sternheim Maurice Capovilla – A Imagem Crítica Carlos Alberto Mattos Mauro Alice – Um Operário do Filme Sheila Schvarzman Miguel Borges – Um Lobisomem Sai da Sombra Antônio Leão da Silva Neto Não por Acaso Roteiro de Philippe Barcinski. Fabiana Werneck Barcinski e Eugênio Puppo 12083260 miolo A Rocco. Guilherme de Almeida Prado – Um Cineasta Cinéfilo Luiz Zanin Oricchio Helvécio Ratton – O Cinema Além das Montanhas Pablo Villaça O Homem que Virou Suco Roteiro de João Batista de Andrade.indd 243 28/10/2009 11:51:30 .

Narradores de Javé Roteiro de Eliane Caffé e Luís Alberto de Abreu Onde Andará Dulce Veiga Roteiro de Guilherme de Almeida Prado Orlando Senna – O Homem da Montanha Hermes Leal Pedro Jorge de Castro – O Calor da Tela Rogério Menezes Quanto Vale ou É por Quilo Roteiro de Eduardo Benaim.indd 244 28/10/2009 11:51:30 . Newton Cannito e Sergio Bianchi Ricardo Pinto e Silva – Rir ou Chorar Rodrigo Capella Rodolfo Nanni – Um Realizador Persistente Neusa Barbosa Salve Geral Roteiro de Sérgio Rezende e Patrícia Andrade O Signo da Cidade Roteiro de Bruna Lombardi Ugo Giorgetti – O Sonho Intacto Rosane Pavam Vladimir Carvalho – Pedras na Lua e Pelejas no Planalto Carlos Alberto Mattos Viva-Voz Roteiro de Márcio Alemão Zuzu Angel Roteiro de Marcos Bernstein e Sergio Rezende Série Cinema Bastidores – Um Outro Lado do Cinema Elaine Guerini 12083260 miolo A Rocco.

Carmelinda Guimarães Críticas de Maria Lucia Candeias – Duas Tábuas e Uma Paixão Org. José Simões de Almeida Júnior Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito Roteiro de José Mauro Brant e Antonio Gilberto João Bethencourt – O Locatário da Comédia Rodrigo Murat 12083260 miolo A Rocco. Série Ciência & Tecnologia Cinema Digital – Um Novo Começo? Luiz Gonzaga Assis de Luca A Hora do Cinema Digital – Democratização e Globalização do Audiovisual Luiz Gonzaga Assis de Luca Série Crônicas Crônicas de Maria Lúcia Dahl – O Quebra-cabeças Maria Lúcia Dahl Série Dança Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo – Dança Universal Sérgio Rodrigo Reis Série Teatro Brasil Alcides Nogueira – Alma de Cetim Tuna Dwek Antenor Pimenta – Circo e Poesia Danielle Pimenta Cia de Teatro Os Satyros – Um Palco Visceral Alberto Guzik Críticas de Clóvis Garcia – A Crítica Como Oficio Org.indd 245 28/10/2009 11:51:30 .

Cor de Chá.indd 246 28/10/2009 11:51:30 . Leilah Assumpção – A Consciência da Mulher Eliana Pace Luís Alberto de Abreu – Até a Última Sílaba Adélia Nicolete Maurice Vaneau – Artista Múltiplo Leila Corrêa Renata Palottini – Cumprimenta e Pede Passagem Rita Ribeiro Guimarães Teatro Brasileiro de Comédia – Eu Vivi o TBC Nydia Licia O Teatro de Alcides Nogueira – Trilogia: Ópera Joyce – Gertrude Stein. Homeless. Alice Toklas & Pablo Picasso – Pólvora e Poesia Alcides Nogueira O Teatro de Ivam Cabral – Quatro textos para um tea­ tro veloz: Faz de Conta que tem Sol lá Fora – Os Cantos de Maldoror – De Profundis – A Herança do Teatro Ivam Cabral O Teatro de Noemi Marinho: Fulaninha e Dona Coisa. Plantonista Vilma Noemi Marinho Teatro de Revista em São Paulo – De Pernas para o Ar Neyde Veneziano O Teatro de Samir Yazbek: A Entrevista – O Fingidor – A Terra Prometida Samir Yazbek Teresa Aguiar e o Grupo Rotunda – Quatro Décadas em Cena Ariane Porto 12083260 miolo A Rocco.

indd 247 28/10/2009 11:51:30 . Série Perfil Aracy Balabanian – Nunca Fui Anjo Tania Carvalho Arllete Montenegro – Fé. Amor e Emoção Alfredo Sternheim Ary Fontoura – Entre Rios e Janeiros Rogério Menezes Bete Mendes – O Cão e a Rosa Rogério Menezes Betty Faria – Rebelde por Natureza Tania Carvalho Carla Camurati – Luz Natural Carlos Alberto Mattos Cecil Thiré – Mestre do seu Ofício Tania Carvalho Celso Nunes – Sem Amarras Eliana Rocha Cleyde Yaconis – Dama Discreta Vilmar Ledesma David Cardoso – Persistência e Paixão Alfredo Sternheim Denise Del Vecchio – Memórias da Lua Tuna Dwek Elisabeth Hartmann – A Sarah dos Pampas Reinaldo Braga Emiliano Queiroz – Na Sobremesa da Vida Maria Leticia Etty Fraser – Virada Pra Lua Vilmar Ledesma 12083260 miolo A Rocco.

Ewerton de Castro – Minha Vida na Arte: Memória e Poética Reni Cardoso Fernanda Montenegro – A Defesa do Mistério Neusa Barbosa Geórgia Gomide – Uma Atriz Brasileira Eliana Pace Gianfrancesco Guarnieri – Um Grito Solto no Ar Sérgio Roveri Glauco Mirko Laurelli – Um Artesão do Cinema Maria Angela de Jesus Ilka Soares – A Bela da Tela Wagner de Assis Irene Ravache – Caçadora de Emoções Tania Carvalho Irene Stefania – Arte e Psicoterapia Germano Pereira Isabel Ribeiro – Iluminada Luis Sergio Lima e Silva Joana Fomm – Momento de Decisão Vilmar Ledesma John Herbert – Um Gentleman no Palco e na Vida Neusa Barbosa Jonas Bloch – O Ofício de uma Paixão Nilu Lebert José Dumont – Do Cordel às Telas Klecius Henrique Leonardo Villar – Garra e Paixão Nydia Licia Lília Cabral – Descobrindo Lília Cabral Analu Ribeiro 12083260 miolo A Rocco.indd 248 28/10/2009 11:51:30 .

indd 249 28/10/2009 11:51:30 . Lolita Rodrigues – De Carne e Osso Eliana Castro Louise Cardoso – A Mulher do Barbosa Vilmar Ledesma Marcos Caruso – Um Obstinado Eliana Rocha Maria Adelaide Amaral – A Emoção Libertária Tuna Dwek Marisa Prado – A Estrela. O Mistério Luiz Carlos Lisboa Mauro Mendonça – Em Busca da Perfeição Renato Sérgio Miriam Mehler – Sensibilidade e Paixão Vilmar Ledesma Nicette Bruno e Paulo Goulart – Tudo em Família Elaine Guerrini Nívea Maria – Uma Atriz Real Mauro Alencar e Eliana Pace Niza de Castro Tank – Niza. Apesar das Outras Sara Lopes Paulo Betti – Na Carreira de um Sonhador Teté Ribeiro Paulo José – Memórias Substantivas Tania Carvalho Pedro Paulo Rangel – O Samba e o Fado Tania Carvalho Regina Braga – Talento é um Aprendizado Marta Góes Reginaldo Faria – O Solo de Um Inquieto Wagner de Assis 12083260 miolo A Rocco.

. Renata Fronzi – Chorar de Rir Wagner de Assis Renato Borghi – Borghi em Revista Élcio Nogueira Seixas Renato Consorte – Contestador por Índole Eliana Pace Rolando Boldrin – Palco Brasil Ieda de Abreu Rosamaria Murtinho – Simples Magia Tania Carvalho Rubens de Falco – Um Internacional Ator Brasileiro Nydia Licia Ruth de Souza – Estrela Negra Maria Ângela de Jesus Sérgio Hingst – Um Ator de Cinema Máximo Barro Sérgio Viotti – O Cavalheiro das Artes Nilu Lebert Silvio de Abreu – Um Homem de Sorte Vilmar Ledesma Sônia Guedes – Chá das Cinco Adélia Nicolete Sonia Maria Dorce – A Queridinha do meu Bairro Sonia Maria Dorce Armonia Sonia Oiticica – Uma Atriz Rodrigueana? Maria Thereza Vargas Suely Franco – A Alegria de Representar Alfredo Sternheim Tatiana Belinky – .indd 250 28/10/2009 11:51:30 . E Quem Quiser Que Conte Outra Sérgio Roveri 12083260 miolo A Rocco..

indd 251 28/10/2009 11:51:30 . Apogeu e Queda do Maior Sucesso da Televisão Brasileira Álvaro Moya 12083260 miolo A Rocco. Tony Ramos – No Tempo da Delicadeza Tania Carvalho Umberto Magnani – Um Rio de Memórias Adélia Nicolete Vera Holtz – O Gosto da Vera Analu Ribeiro Vera Nunes – Raro Talento Eliana Pace Walderez de Barros – Voz e Silêncios Rogério Menezes Zezé Motta – Muito Prazer Rodrigo Murat Especial Agildo Ribeiro – O Capitão do Riso Wagner de Assis Beatriz Segall – Além das Aparências Nilu Lebert Carlos Zara – Paixão em Quatro Atos Tania Carvalho Cinema da Boca – Dicionário de Diretores Alfredo Sternheim Dina Sfat – Retratos de uma Guerreira Antonio Gilberto Eva Todor – O Teatro de Minha Vida Maria Angela de Jesus Eva Wilma – Arte e Vida Edla van Steen Gloria in Excelsior – Ascensão.

indd 252 28/10/2009 11:51:30 . Sua Vida Warde Marx Ney Latorraca – Uma Celebração Tania Carvalho Raul Cortez – Sem Medo de se Expor Nydia Licia Rede Manchete – Aconteceu. impressão e acabamento: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo 12083260 miolo A Rocco. Virou História Elmo Francfort Sérgio Cardoso – Imagens de Sua Arte Nydia Licia Tônia Carrero – Movida pela Paixão Tania Carvalho TV Tupi – Uma Linda História de Amor Vida Alves Victor Berbara – O Homem das Mil Faces Tania Carvalho Walmor Chagas – Ensaio Aberto para Um Homem Indignado Djalma Limongi Batista Formato: 12 x 18 cm Tipologia: Frutiger Papel miolo: Offset LD 90 g/m2 Papel capa: Triplex 250 g/m2 Número de páginas: 256 Editoração. CTP. Lembranças de Hollywood Dulce Damasceno de Britto. organizado por Alfredo Sternheim Maria Della Costa – Seu Teatro.

indd 253 28/10/2009 11:51:30 . Coleção Aplauso Série Teatro Brasil Coordenador Geral Rubens Ewald Filho Coordenador Operacional e Pesquisa Iconográfica Marcelo Pestana Projeto Gráfico Carlos Cirne Editor Assistente Felipe Goulart Editoração Ana Lúcia Charnyai Aline Navarro dos Santos Tratamento de Imagens José Carlos da Silva Revisão Wilson Ryoji Imoto Heleusa Angelica Teixeira 12083260 miolo A Rocco.

br SAC 0800 01234 01 sac@imprensaoficial.indd 254 28/10/2009 11:51:30 . de 14/12/2004 Impresso no Brasil / 2009 Todos os direitos reservados.com. Série. SP. 2009. 1921 Mooca 03103-902 São Paulo SP www. III.746-1 Conteúdo: A estranha -.com. Antonio O teatro de Antonio Rocco.85.2 Índices para catálogo sistemático: 1. Teatro : Literatura : História e crítica 809. – São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. II. Ewald Filho. – (Coleção aplauso teatro Brasil / coordenador geral Rubens Ewald Filho) ISBN 978. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Rua da Mooca. 09-06697 CDD-809.br/livraria livros@imprensaoficial.br 12083260 miolo A Rocco. Teatro . Rubens.com.A escalada.História e crítica I. © 2009 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro. Título. Peças de teatro 3. Crítica teatral 2.2 Proibida reprodução total ou parcial sem autorização prévia do autor ou dos editores Lei nº 9.610 de 19/02/1998 Foi feito o depósito legal Lei nº 10. Brasil) Rocco.7060.imprensaoficial.Desejo . 1.A loucadora de vídeo – Textículos – Olho por olho – Te conheço – Na faixa – Mera coincidência – Radicais livres .994.

Coleção Aplauso | em todas as livrarias e no site www.com.br/livraria 12083260 miolo A Rocco.imprensaoficial.indd 255 28/10/2009 11:51:30 .

12083260 miolo A Rocco.indd 256 28/10/2009 11:51:30 .

12083260 capa.indd 1 27/10/2009 19:18:56 .

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