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T RÓPICOS DO D ISCURSO

ENSAIOS SOBRE A CRÍTICA DA CULTURA

Hayden White

Títuio do originai em inglês:
Tropics o/Discourse: Essays in Cultural Criticism Original
English-language edition published by The Johns
Hopkins University Press
Copyright © 1978 by The Johns Hopkins University
Press

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

White, Hayden, 1928- D ^ O
H
Típicos do Discurso: Ensaios sobre a Critica da Cultura
/ Hayden White; tradução de Alípio Correia de Franca Neto.
- SIo Paulo: Editora da Univeisidade de São Paulo, 1994. -
(Ensaios de Cultura; voL 6)

ISBN: 85-314-0235-2

1. Historiografia 2. História - Filosofia 3. Litératira e
História 1. Título. II. Série.
CDD-907.2 94-1071

Para meus filhos
David, Adam, Juliana

SUMÁRIO

Agradecimentos .......................................................................................... 13
Introdução .................................................................................................... 13

/. O Fardo da História .................................................................................. 39
2. A Interpretação na História ..................................................................... 65
3. O Texto Histórico como Artefato Literário ............................................. 97
4. Historicismo, História e a Imaginação Figurativa ................................... 117
5. As Ficções da Representação Factual ..................................................... 137
6. O Irracional e o Problema do Conhecimento Histórico no
Iluminisino ............................................................................................. 153
7. As Formas do Estado Selvagem: Arqueologia de uma Ideia ...... .......... 169
8. O Tema do Nobre Selvagem como Feíiche ............................................ 203
9. Os Trópicos da História: A Estrutura Profunda de A Ciência Nova. 219
10. O
Que Está Vivo e o Que Está Morto na Critica de Croce a Vico... 241
11. ...................................................................................................... Fouca
ult Decodificado: Notas do Subterrâneo ...................................................... 253
12. ...................................................................................................... O
Momento Absurdista na Teoria Literária Contemporânea ........................... 285

índice Remissivo............................. ............................................................
........................................................ 307

.

“Historicism. Case Wester Reserve University Press. em First Images of America: The Impact of the New World on the Old. The Johns Hopkins University Press. Giorgio Tagliacozzo e Donaid Phillip Verene (Baltimore e London. 3 (1974). Harold E. “The Forms of Wildness: Archaeology of an Idea”. “The Fictions of Factual Representation”. 1972). ed. ed. AGRADECIMENTOS Os ensaios contidos neste volume apareceram originariamente nas seguintes publicações: “The Burden of History”. White (Baltimore. The Johns Hopkins University Press. em The Literature of Fact. n. History. History and Theory. Clio 3. Beiheft 14. 1972). “The Noble Savage Theme as Fetish”. “Interpretation in History”. em Giambattista Vico‘s Science of Humanity. “The Historical Text as Literary Artifact”. 2 (1966). Fredi Chiappelli (Berkeley e Los Angeles. New Literary History. Novak (Pittsburgh. Columbia University Press. “The Irrational and the Problem of Historical Knowledge in the Enlightenment”. ed. 1976). 1976). 1969). University of Califórnia Press. and the Figurative Imagination”. Giorgio Tagliacozzo e Hayden V. “Foucault Decoded: Notes from Underground”. History and Theory . em Giambattista Vico: An International Symposium. n. Edward Dudley e Maximilian E. Essays on Historicism 14. “What Is Living and What Is Dead in Croce’s Criticism of Vico”. 4 (1972-1973). ed. n. Pagliaro (Cleveland. ed. em The Wild Man Within: An Image in Western Thought from the Renaissance to Romanticism. University of Pittsburgh Press. 2. em Studies in Eighteenth-Century Culture.4(1975). vol. ed. 1976). Irratio.nalism in the Eighteenth Century. History and Theory 5. “The Tropics of History: The Deep Structure of the New Science”. Angus Fletcher (New York.

e. perspicácia. conhecimento e argúcia editorial não encontram par. O DISCURSO E OS MODOS DÁ CONSCIÊNCIA HUMANA Quando procuramos explicar tópicos problemáticos como natureza humana. os dados sempre obstam a . que são únicos e originais por si mesmos. Contem. 3 (1976). cujas obras foram constantes desafios para mim e sempre instrutivas. Nosso discurso sempre tende a escapar dos nossos dados e voltar-se para as estruturas de consciência com que estamos tentando apreendê-los. n. tolerante mas energicamente.pelos rumos do meu trabalho na última década: Loren Baritz. Jim Kaufmann.12 TRÓPICOS DO DISCURSO 12. a retórica do agradecimento é insuficiente para expressar a minha gratidão para com a minha mulher e amiga. nunca dizemos com precisão o que queremos dizer. quanto aventurosa fue la mia disianza!” INTRODUÇÃO ATROPOLOGIA. Geoffrey Hartmann. cultura. Brown. Margaret Brose White. Louis Mink e George Nadei. quer não . que me estimularam. Lionel Gossman. Sua engenhosidade. Fred Jameson e Edward Said. na área da publicação de livros acadêmicos. Marvin Becker. Sid Monas. 1 (1973). antigos colegas da University of Rochester. o que dá no mesmo. nem expressamos o sentido exato do que dizemos. Gostaria também de aproveitar a oportunidade para reconhecer nesta edição a minha dívida de gratidão para com os amigos e colegas que foram responsáveis - quer o admitam. Richard Vann. ao que me consta. Angus Fletcher. a dar continuidade ao tipo de trabalho que esses ensaios representam. sociedade e história. ou. editores de History and Theory.porary Literature 7. n. “The Absurdist Moment in Contemporary Literary Theory”. Norman O. Stan Fish. Harry Harootunian. Richard Lewontin e Perez Zagorin. exceto. por fim. Finalmente. Jack Goellner e The Johns Hopkins University Press. Lewis Beck. talvez. Sou grato aos editores por permitirem reproduzir esses ensaios nessa forma. “Dio.

1. Isto ocorre particularmente quando se trata de demarcar para análise preliminar o que parece ser uma nova área da experiência humana. 1977.coerência da imagem que estamos tentando formar deles 1. sempre existem razões legítimas para diferenças de opinião quanto ao que eles são. ela procede da noção de arbitrariedade da união do sígnificante e do significado no signo. em tópicos como esses. 1972). cap. tal como foi postulado por Saussure. é evidentemente um dogma fundamental das modernas teorias estruturalistas e pós-estruturalistas do texto. lexis. mas ver 1'rederic Jameson. de definir os seus contornos. de identificar os elementos contidos em seu campo e discernir os tipos de relação que predomi 1 A disparidade entre discurso. 2. Structuralism and Setnioiics (Berkdcy e Los Angeles). . The Prisnn-House of Lunguaxc: A Criticai Account of Structuratism and Ruxsiein Formalism (Princeton. de outro. ao modo como se deveria falar deles e aos tipos de conhecimento que deles podemos ter. Cap. Jonathan Culler. 1975). Parte 1. e significado. de um lado. Linguistics. ou modo de enuncinção. Todo discurso genuíno leva em conta estas diferenças de opinião na formulação de dúvida quanto à sua própria autoridade que ele sistematicamente exibe em sua própria superfície. Ademais. Structuralist Poetics: Structuralism. e Terence Hawkes. and the Study of Literatura (Ithaca. A bibliografia é imensa.

tropos. mas também um desvio em direção a um outro sentido. segundo as modernas teorias linguísticas. . 1969). The New Rhetoric: A Treati. como aventou Harold Bloom3. “Rhétorique et herméneutique”. Trópico é a sombra da qual todo discurso realista tenta fugir. trad. e na koiné “modo” ou “maneira”. são os de Heinrich Lausberg. Dubois et u!ii. gramáticos e teóricos da linguagem. INTRODUÇÃO 2! nam entre eles. esta fuga é inútil. de um lado. A Map of Misreading (New York. Poétique 23 (1975).se on Argumentation. Os ensaios que compõem esta coletânea se ocupam de um modo ou de outro do elemento trópico contido em todo discurso. do mesmo modo que o recalque. a regressão. a fim de diferenciá-la. 91.pus. mas sem dar até agora qualquer sinal de um consenso gera! quanto à sua classificação. E o discurso efetua esta adequação por meio de um movimento pré-figurativo mais trópico que lógico. “tom” ou “compasso”. próprio. Entretanto. É aqui que o próprio discurso deve estabelecer a adequação da linguagem utilizada na análise do campo. Ingressa nas línguas indo-europeias modernas por meio de tro. encerram a força do conceito expresso no inglês moderno pelo termo style. Rhétorique générale (Paris. “desvio”. Os tropos geram figuras de linguagem ou de pensamento mediante a variação do que “normalmente” se espera deles e por via das associações que estabelecem entre conceitos que habitualmente se supõem estarem ou não relacionados de maneiras diferentes da sugerida no tropo utilizado. e Chaim Perelman e L. 3 Harold Bloom. um conceito particularmente apropriado para o exame daquela forma de composição verbal que. p. a projeção etc. sedimentados na palavra trope. John Wilkinson e Purcell Weaver (Notre Dame e London. 1975). pois trópico é o processo pelo qual todo discurso constitui os objetos que ele apenas pretende descrever realisticamente e analisar objetivamente. 2 A bibliografia sobre os tropos é tão grande quanto a bibliografia sobre a teoria do signo . Acredito que este elemento não possa ser expungido do discurso das ciências humanas. em especial quando aplicada à teoria da música.se igualmente mencionar as obras de Kenneth Burke. “Frontières de la rhétorique”. chamamos pelo nome de discurso. da demonstração lógica e.se não for maior . seja do tipo realista seja do tipo mais imaginativo. Roland Barthes. deriva de tropikos. do inglês antigo. Communications (publicação da Ecole Pratique des Hautes Etudes . A palavra trópico. de tropo. Umberto Eco e Tzvetan Todorov. Elemente der literarischcn Rhetorik (München. 1970). que no grego clássico significa “mudança de direção”. e é por isso que lhes dei o título que dei. Para retóricos. Como os tropos funcionam nos discursos das ciências humanas é o tema destes ensaios. 18 (mai 1975). constituem defesas contra a percepção da morte na psique). J. Deve. de outro. Linérciture. convencional ou “próprio” da linguagem. Para exames gerais do estado da questão.e cresce diariamente num ritmo frenético. Se. Gérard Genette. que em latim clássico significava “metáfora” ou “figura de linguagem”. Estudos sistemáticos dos tropos. guinadas na locução que não são sancionadas pelo costume ou pela lógica2. Todos esses sentidos. Olbrechts-Tyteca. um tropo pode ser o equivalente linguístico de um mecanismo psicológico de defesa (uma defesa contra o sentido literal do discurso. por mais realistas que aspirem a ser. ver “Rechcrclies rhétoriques”. da pura ficção.Centre d’Eiudes des Communicatioas de Masses) 16 (1970). ele é sempre não apenas um desvio de um sentido possível. os tropos são desvios do uso literal. e no latim tardio. 1967). aos objetos que o parecem ocupar.

E o emprego de tropos é. servir de ensejo para uma outra descrição do mesmo fenômeno. sigo G. sem floreios retóricos nem imagens poéticas. E. não obstante. de Homero it Joyce. O discurso é o gênero em que predomina o esforço para adquirir este direito de expressão. mais “fiel aos fatos”5. 181-190. 1957). William Waliace (Oxford. Todo silogismo aplicado contém um certo elemento entimemático. e em particular com a moderna poesia lírica (romântica e pós-romântica). e uma conexão entre coisas de modo tal que possam ser expressas numa linguagem que leve em conta a possibilidade de serem expressas de outra forma. podemos concordar com a asserção de Bloom segundo a qual “toda interpretação depende mais da relação antitética entre significados que da suposta relação entre um texto e o seu significado”4. Numa análise literária. Assim considerado. sempre há uma falha de intenção. . pois. pp. um elemento que consiste apenas na decisão de mover-se do plano das proposições universais (elas próprias sinédoques de longo alcance) para o das afirmações existenciais singulares (que são metonímias de longo alcance). Do mesmo modo. Hegel. o mecanismo sem o qual o discurso não pode fazer o seu trabalho ou alcançar o seu objetivo. de modo que sua assertiva de que a interpretação é a explicação da “relação antitética entre significados” num texto único é menos chocante do que o seria qualquer afirmação similar com relação a textos em prosa discursiva. uma “guinada” do universal para o particular que a lógica não pode reger. F. A Map of Misreading. quando o próprio modelo do silogismo revela clara evidência do emprego de tropos? O movimento que vai da premissa maior (Todos os homens são mortais) para a escolha do dado que servirá de premissa menor (Sócrates é um homem) é. textos que pretendem representar “as coisas como elas são”. se isso é verdadeiro mesmo para o silogismo 4 Harold Bloom. a análise pode mostrar que qualquer descrição em prosa de qualquer fenômeno contém pelo menos um movimento ou transição na sequência de enunciações descritivas que viola um cânone de coerência lógica. INTRODUÇÃO 2! a uma concepção ou ideal do que é correto e próprio e verdadeiro “em realidade”. Willard Trask (New York. é possível mostrar que toda mimese se apresenta deformada e pode. trud. p. 5 Daí a possibilidade de uma obra como Mimesis: The Representation of Reuíity in Western Literature. E. 6 Aqui. É possível mostrar que todo texto mimético deixou alguma coisa fora da descrição do seu objeto ou lhe acrescentou algo que não é essencial àquilo que algum leitor. trad. porquanto é a própria lógica que está sendo servida por este movimento 6. Logic. portanto. estamos diante do fato inelutável de que. a alma do discurso. 76. que mapeia as mudanças na concepção do “real” e nos estilos considerados mais apropriados para a sua representação. Por isso. com maior ou menor autoridade. Certamente. considerará uma descrição adequada. um movimento tropológico. o emprego de tropos é ao mesmo tempo um movimento que vai de uma noção do modo como as coisas estão relacionadas para outra noção. em si. de Erích Auerbach. uma descrição que se pretenda mais realista. W. 244-254. com crença total na probabilidade de que as coisas possam ser expressas de outro modo. Bloom está envolvido com textos poéticos. 1975). Como poderia ser de outra maneira. mesmo na prosa discursiva mais pura.

em seguida. numa palavra. no interesse da formalização. ou o tipo encontrado na história. Porém. o que nossa vontade ou emoções nos dizem que não deve ser o caso num dado setor da vida. Este movimento . Antilógico. .consiste em examiná-los. na crítica literária e nas ciências humanas em geral? A técnica convencional para julgar da validade dos discursos em prosa - como. pp. é quintessencialmente um empreendimento mediador. Seja-me permitido propor mais um termo para mostrar de que modo concebo o movimento dinâmico de um discurso: diatático. 337-355. além de estar carregado de associações ideológicas de um tipo específico. O discurso. em Beyand Formcilism (New York e London. seu objetivo seria desconstruir uma conceituação de uma dada área de experiência que se tenha petrificado numa hipóstase que impede percepção nova ou nega. na filosofia. porque o intuito do discurso é constituir o terreno onde se pode decidir o que contará como um fato na matéria em consideração e determinar qual o modo de compreensão mais adequado ao entendimento dos fatos assim constituídos. por exemplo. 1970). INTRODUÇÃO 2! clássico. seu objetivo é demarcar uma área da experiência para análise subsequente por um pensamento orientado pela lógica. o termo dialético sugere muitas vezes um sujeito transcendental ou ego narrativo que se coloca acima das interpretações conflitantes da realidade e serve de árbitro entre elas. o ensaio sobre a desigualdade de Rousseau.pode ser tão pré-Iógico ou antilógico quanto é dialético. quanto à sua observância dos critérios de coerência lógica que o silogismo clássico representa. os tratados políticos de Maquiavel ou de Locke. primeiro quanto à sua fidelidade aos fatos do tema que está sendo analisado e. derivada do latim discurrere. é ao mesmo tempo interpretativo e pré-interpretativo. o seu suposto tema e as 7 Ver Geoffrey Harlman. quanto mais não o será para aqueles pseudo-silogismos e cadeias de silogismos que compõem o discurso em prosa mimético-analítico. dos quais alguns podem ser fornecidos pelas tradições do discurso que prevalecem num dado âmbito de investigação e outros podem ser idioletos do autor. as histórias de Ranke ou as especulações etnológicas de Freud . Este conceito tem o mérito de sugerir um tipo algo diferente de relação entre o discurso. É dito muitas vezes que esta natureza dúplice do discurso é dialética. ou “possibilidade”. “The Voice of the Shuttle: Language from the Point of View of Literature”. Um discurso move-se “para cã e para lá” entre as codificações recebidas da experiência e a congérie de fenômenos que recusa incorporar-se a noções convencionalizadas de “realidade”. é sempre sobre a natureza da própria interpretação e sobre o tema que constitui a ocasião manifesta de sua própria elaboração. quando não a alguma teoria sobre ele. Também se move “para a frente e para trás” (como uma lançadeira?)7 entre os meios alternativos de codificar essa realidade. “verdade”. Como tal. sugere um movimento “para a frente e para trás” ou um “deslocamento para cá e para lá”.mostra-nos a prática discursiva . Esta técnica de crítica age em visível oposição à prática do discurso. cuja autoridade este está procurando estabelecer. A etimologia da palavra discurso. Pré-Iógico.

é assi- milada por analogia com aquelas áreas da experiência consideradas já com- preendidas quanto às suas naturezas essenciais. o discurso.isto é. INTRODUÇÃO 2! interpretações divergentes deste último. ou nível diatático. em On Creativity and the Uncoitsciaus (New York. o discurso sempre se volta para a reflexividade metadiscursiva. Blindness and Insight: Essays in the Rheioric of Contemporary Criticism (New York. 122-161. de removê-lo do domínio das coisas consideradas “exóticas” e não-classificadas num ou outro domínio da experiência codificado de modo suficientemente adequado para que seja considerado humanamente útil. os modos pelos quais a descrição e o argumento se devem combinar. Ele não afirma que os discursos sobre a realidade podem ser classificados em hipotáticos (conceitualmente sobredeterminados). New Literary History 8. e a modalidade da metalógica utilizada para ligar o fecho do discurso com os seus gestos de inauguração. Por estar sempre fugindo ao domínio da lógica. “The Uncanny”. A compreensão é um processo de tornar familiar o não-familiar. Ver também Paul Dc M. É por isso que todo discurso sempre é sobre o próprio discurso e é sobre os objetos que compõem o seu tema. 1976). determinam os possíveis objetos do discurso. Justamente por ser aporético. a princípio apreendida como apenas um campo de fenômenos que exigem compreensão. pois o que está envolvido na conversão do não-familiar em familiar é uma criação de tropos que em geral é figurativa. ou apenas conhecido por associação. se for um discurso genuíno . deve o discurso ser analisado em três níveis: no da descrição (mimese) dos “dados” encontrados no campo da investigação que está sendo demarcado ou designado para a análise. Este processo de compreensão só pode ser tropológico na essência. Ao contrário. o discurso não pode ser regido unicamente pela lógica 8. no sentido freudiano desse termo 10. pp. de um lado. as fases pelas quais o discurso tem de passar no processo de aquisição do seu direito de conclusão. ou irônico. que a teoria retórica pós-renascentista diz ser os “tropos principais” 8 Umberto Eco.desafiará de modo radical a própria noção de plano médio sintático. Considerado um gênero. tão crítico de si mesmo quanto é dos outros . de outro. então. ou “estranho”. Ele põe em dúvida todas as normas “táticas”. pp. que esse processo de compreensão se desenvolve mediante a exploração das principais modalidades da figuração. 102-141. e naquele em que se realiza a combinação desses dois níveis anteriores (diataxe). 1971). 9 Gcrard Genette. Encarado dessa maneira. . e paratáticos (conceitualmente subdeterminados). um discurso é em si mesmo um tipo de modelo dos processos da consciência pelos quais uma dada área da experiência. A Theory of Semioticx (Bloomington e London. no do argumento ou narrativa (diegese). a meu ver. com respeito à sua própria adequação. não-ameaçador. 10 Sigmund Freud. Segue-se. As regras que se cristalizam neste último nível do discurso. e o próprio discurso ocupa o plano médio (do pensamento propriamente sintático) que todos estão buscando. “Boundaries of Narrative". inclusive as que originariamente regem a sua própria formação. que corre paralelamente à matéria narrativa ou se entremeia com ela9. indagando constantemente se a lógica é adequada para captar a essência do seu tema. 276-286. 1:1-13 (Autumn 1976). pp. ! 958).in.

como a denominei em Metahistory. em processos cognitivos pré- racionais12. INTRODUÇÃO 2! (expressão de Kenneth Burke) da metáfora. fundamentava e permeava todos os esforços dos seres humanos para dar sentido ao seu mundo. A Grammar of Motives (Berkeley e Los Angeles. Hegel sustentou o mesmo ponto de vista. passando por desconstruções metonímicas de seus elementos. 127 e ss. New Literary History 6. sendo um produto dos esforços da consciência para estabelecer um acordo com domínios problemáticos da experiência. The New Science. Além disso.. 1969). Não existe uma regra que nos diga quando está completa a nossa constituição original. Thomax Goddard Bergin e Max Harold Fisch (Ithíicu. Metahistory. pp. na modalidade de pré-figuração. como sugeri acima. social ou natural. efetua tais acordos com o seu meio. da metonímia. apêndice D. 503-517. pp. a lógica em si seja apenas uma formalização de estratégias trópicas)14. da sinédoque e da ironia11. posso ficar satisfeito com o que parece ser um 11 Ver Kennelh Burke. Vico sugeriu um padrão de movimentos semelhante que subtende os esforços da consciência para “criar” um mundo adequado à satisfação das necessidades experimentadas pelos seres humanos. . Em sua análise da “lógica poética”. O enredo arquetípico de formações discursivas parece exigir que o “eu” narrativo do discurso se mova de uma caracterização metafórica original de um domínio da experiência. Depois que disseminei os elementos de um dado domínio através de uma série temporal ou campo espacial. metafórica. 13 White. ocupam o domínio em questão. na práxis cultural em geral. ou. se o li corretamente. de fato. construídos em sua particularidade apenas como partes de um todo até agora não-identificado. até as representações sinedóquicas das relações entre seus atributos superficiais e sua suposta essência. parece que nesse processo atua um padrão arquetípico para construir tropologicamente campos da experiência que requerem a compreensão que acompanha a sequência de modos indicados como dados pela relação de tropos principais. trad. 1968). pp. finalmente. conforme o caso. Esta mudança na modalidade do construtivo. 1:111-134 (Autumn 1974). de um domínio da experiência como possível objeto de investigação e quando deveríamos proceder a uma consideração dos elementos que. uma representação de quaisquer contrastes ou oposições que possam ser legitimamente discernidos nas totalidades identificadas na terceira fase da representação discursiva. §§ 400 e ss. O movimento de uma apreensão metafórica de uma realidade “estranha” e “ameaçadora” para uma dispersão metonímica dos seus elementos nas contiguidades das séries não é lógico. e Marx decerto o fez. serve de modelo para as operações metalógicas pelas quais a consciência. até. é essencialmente metafórica13. 14 Tzvctan Todorov. “On Linguisdc Symbolism”. Segundo parece. 12 Giambattixtn Vico. Tampouco as outras mudanças nos modos descritivos são logicamente determinadas (a não ser que. 30 e ss. E afirmava além disso que essa diataxe do discurso não só refletia os processos da consciência. mas também. como o demonstra minha análise do seu discurso sobre “As Formas de Valor” no livro de abertura de O Capital0. Considerações como estas sugerem que o próprio discurso.

The Citild and Reality: Praklems ofGeneiic Psychology. Com efeito. trad. ou posso “voltar” mais uma vez a considerar até que ponto esta operação taxonômica deixa de considerar certos traços dos elementos assim classificados e . “Essay on the Origin of Languagcx”. pp. do modo como ficarão o idealista na filosofia e o organicista nas ciências naturais. Rousseau. de um lado. Este quarto movimento .cas) não é a lógica. p. trad. ou àquela auto reflexividade acerca da natureza construtivista do próprio princípio ordenador . J. até alcançar o entendimento “racional” da natureza da classificação em geral.tampouco é determinado pela lógica. ordená- los hipotaticamente de tal modo que se possa estabelecer o seu status ou de essências ou de simples atributos dessas essências. porém uma combinação entre as capacidades ontogené. o tipo de controle cognitivo que cada modo torna possível. atribuindo-os a diferentes ordens. 11-13. ou posso continuar a “integrar” estes elementos. de outro15. a exemplo de Rousseau.tentar determinar até que ponto o meu próprio sistema taxonômico é um produto tanto da minha própria necessidade de organizar a realidade desse modo e não de algum outro modo. John H.íerior e a acomodação a esse mundo. The New Science.vale dizer. via na “lógica poética” modos de cognição não apenas dos poetas mas igualmente das crianças e dos povos primitivos16. 1973). a base ontogenética da consciência figurativa se vê então consideravelmente aclarada. J. classes. os estudos de Piaget sobre o desenvolvimento cognitivo da criança nos fornecem uma visão perspicaz da relação entre.que vai de uma caracterização sinedóquica do campo investigado até uma reflexão irônica sobre a impropriedade da ca- racterização com respeito aos elementos que se opõem à inclusão na totalidade hipotaticamente ordenada.. o que efetua tais reestruturações (tropológi. Genealogy of Morais. espécies e assim por diante . INTRODUÇÃO 2! ato analítico final. nem Vico nem os outros pensadores 15 Jean Piaget. Hegel e Nietzsche. Francis . 127 e ss. tanto na espontaneidade dos seus inícios sucessivos quanto nas modalidades de relacionamento entre a criança e a sua “realidade”. de um lado. e as operações que permitem a assimilação do mundo ex. de outro. Doravante citado no texto pelo número dn página. em On The Origin of Lunguage: Two Essays by Jean Jacques Rousseau and Johann Gottfried Ilerder. Na formulação de Piaget. através da fase “representacional” e “operacional”. posso então ficar satisfeito com o discernimento desses padrões de integração. Arnold Rosin (New York. Tais desvios parecem corresponder àquelas “mudanças gestálticas” ou “reestruturações” do campo perceptual que Piaget identificou no desenvolvimento dos poderes cognitivos da criança quando passa de sua fase “sensório-motora”. 16. que os modos de cognição identificados pressupõem mesmo na sua caracterização por Piaget. Vico. Moran e Alexander Godc (New York. um modo trópico de prefigurar a experiência e. trad. quanto da realidade objetiva dos elementos previamente identificados. gêneros. Contudo. A serem válidos os seus conceitos. Pois essas reestruturações são certamente tropológicas. 1966). Feito isso. pp. 16 Vico.movimento ainda mais complexo .ticas. e Fricdrich Nietzsche. derivados experimentalmente das fases por que passa a criança em seu desenvolvimento cognitivo.

estavam interessados em forçar uma escolha entre os modos poéticos de cognição e os modos racionais ou científicos. além disso. naturalmente “metafórica”. sendo o próprio corpo um objeto entre os outros. à coerência e assim por diante. a partir de uma condição na qual ela GolíTing (New York. falar do pensamento da criança metaforicamente. e o tipo de manipulação “irônica” dos modos alternativos de classificar e manipular os fenômenos próprios do adulto “racional”. uma experiência em que está inteiramente ausente a distinção entre o eu e o outro. por sua ocorrência e pelo modo de cognição que ela possibilita. Mas. inclusive todos os objetos que se tornaram sólidos e permanentes. pp. que tem a duração de um ano e meio na vida de uma criança normal. diz ele. Assim. poderíamos dizer não- coordenados. na qual se cristaliza “a noção de um espaço geral que engloba todas essas variedades particulares de espaços [egocêntricos]. 177-184. a ruptura ou transição para o segundo estágio. se não quisermos invocar essa “existência no modo da metáfora”. diz Piaget a respeito desse estágio sensório-motor. para ser significativo. um sentido que não fracionasse indevidamente os poderes da poiesis ou da noesis. nos permite comparar a transição efetuada à de um “emprego de tropos” que vai da consciência metafórica à consciência metonímica. sensório-motora. é claro. mas sem qualquer “coordenação entre eles” (p. Jean Piaget demonstra o mesmo tipo de continuidade entre uma fase inicial. principalmente para Vico e Hegel. tanto assim que. Em outras palavras. Ao contrário. a criança sofreu um “desvio” no seu desenvolvimento. no modo de a criança relacionar-se com o mundo. 15). no modo da similitude. estamos mais que autorizados a falar que a criança vive a experiência da similitude. 15-16).que opuseram por meio de antíteses os sentidos e a vontade res- pectivamente à razão . entre continente e conteúdo. no entanto. Porém. a criança vive numa preensão de um mundo de objetos “todos centrados no corpo propriamente dito”. Nem mesmo Rousseau e Nietzsche . 1956). “há espaços egocêntricos. . Conquanto não gostasse de ser incluído nessa linha de pensamento. Na fase mais antiga. eles são existencialmente coordenados na consciência infantil como extensões homogêneas do próprio corpo da criança. ou mesmo da similitude (uma vez que este último termo. todos eles consideram os tropos e figuras como o alicerce sobre o qual se erigiu o conhecimento racional do mundo. teria de pressupor a apreensão da diferença). eles estavam interessados na sua integração dentro de um conceito da plena capacidade humana de dar um sentido ao mundo e. Não podemos. INTRODUÇÃO 2! mencionados confrontaram esses modos prefigurativos de cognição por oposição com os modos racionais. se lhes falta esta coordenação mútua. e que não incluem o corpo próprio como um conteúdo num continente” (ibidem). o conhecimento racional ou científico era pouco mais que a verdade proporcionada pela reflexão nos modos prefigurativos alçados ao nível de conceitos abstratos e submetidos à crítica quanto à consistência lógica. [e] os deslocamentos sendo coordenados e passíveis de serem deduzidos e previstos em relação aos próprios deslocamentos” (pp. Piaget chama esta mudança de autêntica “revolução copernicana”. pelo contrário.

do Mesmo. devemos supor) não faz qualquer distinção entre ela própria e outros objetos ou entre objetos. Aos dezoito meses. a fortiori. E o estágio que Piaget chama lógica pré-adolescente. ocorre uma transformação radical sem a qual seria impossível o “grupo de deslocamentos” necessários para a simbolização. cujo aspecto mais importante é a fala. a qual “não se baseia em enunciações verbais. não há apreensão de relações contíguas. . Somente graças à possibilidade de apreender relações de contiguidade é que se torna possível esse processo de simbolização e. a linguagem e o pensamento (p. há apenas a experiência intemporal.que chamaríamos capacidade metonímica -. do próprio pensamento. outro “momento decisivo e fundamental é percebido no desenvolvimento da criança. portanto. diz ele. INTRODUÇÃO 2! (de modo totalmente inconsciente. porém apenas nos próprios objetos” (p. salvo na medida em que estes se relacionam com ela mesma. Antes da “revolução copernicana”. Então. 21). 16). ilimitada. Será. Essa descentralização (ou deslocamento) é uma condição necessária para o que Piaget chama “a função simbólica”. afirma Piaget. uma lógica das classificações. no sentido do sistema de conjunto”. Ela se torna capaz de uma certa lógica. Com o despontar de uma consciência de contiguidade . mais uma vez. em torno dos 7 anos. ou pouco mais ou menos. torna-se capaz de coordenar operações no sentido da reversibilidade. vemos uma “descentralização total com respeito ao espaço egocêntrico primitivo”.

. ela produz um sistema mental que se pode contrapor à ordem casual ou à desordem apreendida da experiência e servir como um controle tanto da percepção quanto das operações mentais dos tipos anteriores.. que repousa sobre uma espécie de classificação de todas as classificações ou de seriação de todas as seriações" (p. uma capacidade de refletir sobre a própria reflexão. por sua natureza. 24- 25). 24). outrossim. Existe. 1956). não apenas crítico das operações dos estágios anteriores da consciência (metafórico. relações c números. Collingwood. inúmeros objetos para reunir etc. 24).. Collingwood (Bloomíngton e London. que. pp. mediante a sua manipulação. G. R. não se trata de uma operação que normalmente possa ser levada a cabo somente pelo pensamento. esta operação ainda é pré-Iógica em sentido estrito. A cristalização dessas capacidades no adulto jovem lhe confere o poder de um pensamento que é nao apenas consciente mas também ««inconsciente. que têm as suas leis como tolalidad. Na criança com idade entre 7 e 12 anos. Todavia. Piaget dá ao produto dessa dissociação 0 nome de “combinatória” (“combinatoire”): “Até então. com o início da adolescência esta última operação se torna possível: A criança não apenas se torna capaz de raciocinar e de deduzir sobre objetos manipuláveis. ao passo que a combinató.es. History. essa figura de retórica ou de poética que constitui os objetos como partes de totalidades ou congrega entidades como elementos de um todo que comparte as mesmas naturezas essenciais. pois. o que Collingwood chamou de “consciência de segunda ordem” ou “pensamento sobre o pensamento”17*. uma característica nova. Ademais. como varetas para arrumar. The Ide a of History (New York.22 TRÓPICOS DO DISCURSO porque os objetos podem ser reunidos conjuntamente ou em classificações. pois que depende da manípulabi 1 idade física dos objetos que estão sendo classificados. 82-92. G.nos insistir veementemente na necessidade dessas estruturas de conjunto para a elaboração do pensamento (pp. Mink. Observemos.ria liga qualquer elemento a outro qualquer. tudo era feito gra- dualmente por uma série de encaixes sucessivos. mas também se torna capaz de lógica e de raciocínio dedutivo sobre teorias e proposições. and Dialcct: The Philoxophy ofR. todo um conjunto de operações específicas se sobrepõem às operações anteriores. Mas. se é uma lógica das classificações. a combinação num sistema único dos diferentes agrupamentos que até agora se baseavam ou na reciprocidade ou na inversão. contudo. Primeiro que tudo. nas diferentes formas de reversibilidade” (pp.. ainda não é uma lógica das proposições. será uma lógica das relações porque os objetos podem ser materialmente contados. o que é pressuposto serem as bases para a ratificação dessas novas operações. 1-3.. se ele estiver certo. agrupadas em sistemas de conjunto. ver também Louis O. Trata-se de uma lógica no sentido em que as operações estão coordenadas. metonímico e sinedóquico) mas também crítico das estruturas dessas mesmas 17 S. é a base genética do tropo da si- nédoque. E cumpre. pp. então. 20-21). 1969). e que se pode chamar de lógica das proposições (p. continuam inadequados à prãxis do mundo social e do material: “A lógica das proposições irá supor. há a dissociação do pensamento dos seus possíveis objetos. Mind. ou. O que Piaget descobriu..

ela é um modo de situar a linguagem . combina as duas) de dizer uma coisa e significar uma outra. de redefinir a distinção entre o eu e o ambiente ou de reconceituar a relação entre o eu e o outro segundo modos especificamente não- lógicos. seria o uso consciente da metáfora para nos libertar da tirania das sobredeterminações conceituais e que. que nas situações em que poderíamos desejar romper com o controle de uma dada cadeia de raciocínio lógico. A lógica não pode presidir a essa ruptura consigo própria. para Nietzsche. Porém esses desvios. poderíamos considerar que a reversão (ou regressão?) para um modo mais “primitivo” de conhecimento é representada pelos estágios anteriores. constituiriam formas de pensamento inferiores. que. transcendido e assimilado ao modo que lhe sucede no processo ontogenético. INTRODUÇÃO 23 operações. seguir-se-ia que os modos de cognição anteriores. que representam os estágios anteriores. ou de reconsiderar a adequação da premissa maior ou da menor de um dado exercício hipotético- dedutivo. configurariam a poesia. Esse movimento representaria uma “virada” metalógica em relação à própria lógica no interesse de re-situar a consciência com relação ao seu ambiente. Podemos então dizer que. como ressalta Piaget. personificava a ruptura dionisíaca das formas de individuação que uma consciência apolínea sem oposição teria petrificado numa “rigidez egípcia”19. Mas Piaget não propõe esta linha de argumentação. mais intimamente imaginativos. das operações dislógicas ou analógicas. vendo nele o estágio final para o qual tende todo o desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Se para Piaget o pensamento lógico é a forma mais elevada de pensamento. muito menos entre os tipos de co- nhecimento que derivamos. então. ou significar uma coisa e dizê-la num grande número de formas alternativas ou até mutuamente exclusivas ou ilógicas. melhor. Seria possível imaginar. de outro.e de refletir sobre essa capacidade do pensamento (ou linguagem. mas também de ironia . de um lado. a fim de impedir que as implicações se derivem dela por dedução. estrutura ou adequação a uma relação existencialmente satisfatória com a realidade. um resvalamento inconsciente ou involuntário para um modo pré-Iógico de compreender a realidade seria apenas um erro ou. Na verdade. pois lhe falta uma base que lhe faculte servir de árbitro entre as exigências dos sistemas lógicos conflitantes. nesse estágio. Ao contrário. uma regressão. no processo de desenvolvimento. não importa. quando empreendidos com o fito de submeter à crítica o próprio pensamento lógico e de questionar-lhe as pressuposições. das operações lógicas e. na medida em que constitui o modo fundamental da apreensão poética em geral.a capacidade não só de dizer coisas sobre o mundo de uma maneira particular mas também de dizer coisas sobre ele de maneiras alternativas . no processo de evolução. A consciência metafórica seria uma forma primitiva de conhecimento na ontogênese da consciência humana em sua passagem da infância para a maturidade. um dado modo de cognição não é tão obliterado quanto é preservado. na definição de Hegel. semelhante aos desvios que os filósofos condenam quando se deparam com uma metáfora tomada literalmente. com o despontar da consciência adulta. mas. a criança se torna capaz não apenas de lógica. pré- lógicos. ele salienta que. porquanto Piaget.

e a segunda. Antes de mais nada. pergunta ele. F.24 TRÓPICOS DO DISCURSO com respeito ao mundo exatamente tão autoritário quanto a própria lógica. o tipo de “lógica” que desponta na quarta fase é tão primitivo. F. ou egocêntrica. de modo que aquilo que a criança adquire na fase simbolizante subsequente já está presente na práxis do estágio inicial. mas essa aquisição é possibilitada pelas operações da fase sensório-motora. teoria elaborada por Piaget. em vez de elas aparecerem no momento em que há uma função simbólica. ou seja. Piaget fica intrigado com o fato de as operações lógicas não surgirem simultaneamente ao aparecimento da fala e da função simbólica. Há aqui uma reviravolta completa. esta fase não é mais “humana” nem mais “natural” do que a outra. durante a fase anterior a criança adquire a linguagem. na consciência plenamente amadurecida. a possibilidade de pensar e não apenas de agir materialmente? ” E sua resposta é: “Pela razão fundamental de que as ações que permitiram alguns resultados no terreno da efetividade material não podem ser interiorizadas sem mais e de maneira imediata. Piaget distingue urna sequência de estágios. Ao mesmo tempo. mas uma reestruturação. permanecem implícitas como diferentes formas de conhecimento. uma descentralização total com relação ao espaço egocêntrico primitivo” (p. Todavia. Evidentemente. pode ser definido como um movimento através de todas as estruturas de relacionar o eu com as outras estruturas que. se lhe superpõe e lhe sucede. 1920). não é apenas uma tradução. e mais tempo ainda para chegar às outras noções. 1956). descentrada. 22. trad. B. The Binh ofTragcdy. “Por que”. 16). . Sua refle- 39. com uma decaiagem que toma um tempo considerável” (pp. E conclui: “Essa in. No que diz respeito às quatro fases do desenvolvimento da criança. 65. o que poderíamos entender por discurso é esclarecido pela oposição da consciência metafórica à consciência irônica sugerida pela teoria do padrão ontogenético do desenvolvimento cognitivo na criança. onde cada estágio cristaliza o anterior. são as relações de afinidade e oposição que existem entre os quatro modos de cognição identificados como estágios sucessivos nesta teoria do desenvolvimento da criança. 17-18). Hegel. “Em outras palavras. P. aos 18 meses não é exagero falar de uma revolução copernicana (no sentido kantiano do termo). G. quanto parece ser a consciência “metafórica” da criança quando comparada à complexa manipulação de metáforas características do poeta maduro. The Philosophy of Fine An.teriorização é na realidade uma nova estruturação. W. Francis Golffing (New York. O que Piaget não percebe. e de que se trata de reaprender no plano do pensamento o que jãfoi aprendido no plano da ação”. insiste na ruptura radical entre a primeira fase. pp. quando se julga a partir dos modelos dos lógicos formais. trad. Osmaston (London. a capacidade de simbolizar. xão sobre esta confusão se baseia no conceito de “interiorização”. a operação verbal por meio da qual a consciência indagadora situa seus próprios esforços para submeter ao controle cognitivo um domínio problemático da experiência. Friedrich Nietzsche. 4:243-4. E o discurso em si. mas que a teoria linguístico-retórica e poética dos tropos mostra. “temos de esperar oito anos para adquirir a invariante da substância. 51.

por assim dizer. metonímia. porém as impôs aos seus dados derivados experimentalmente (ou dispôs as experiências de molde a permitir a sua caracterização exatamente dessa forma) mediante algum tipo de projeção de sua própria concepção da natureza dos tropos de figuração. então pouco importa se Piaget impôs ou não essas formas aos dados.tenham sua origem na fala. Certamente. Piaget está preocupado com as fases de um processo evolutivo que se estende ao longo de um espectro sincrônico (e é elaborado ao longo de uma série diacrônica) que vai de um estado que dificilmente se poderia chamar consciência até um estado de elevada autoconsciência. se baseiam de alguma forma na dotação psicogenética da criança. 8. operacional e lógico. a meu ver. o que as teorias de Piaget sugerem é que os tropos de figuração.5. e Hegel e Marx como sendo a lógica da noesis. nem em alguma lógica natural própria da criança. não supomos que esses es- quemas . no melhor dos casos. ele o explica em função das operações pré- cognitivas pelas quais o organismo efetua a assimilação dos objetos exteriores ou a acomodação a eles quando deixa de acontecer a assimilação. São essas. por assim dizer. levamos em conta o nosso empenho em conferir tal sentido . porquanto a primeira modalidade precede o despontar da linguagem na criança. Se a evolução da capacidade cognitiva do homem prefigura de fato a forma arquetípica do próprio discurso. INTRODUÇÃO 25 Eu diria que o que temos aqui é a redescoberta. operações eminentemente práticas que. mas também da relação entre a realidade e a sua consciência. de um princípio de criatividade cognitiva análogo à tradicional teoria pós. Vico e Nietzsche analisam como sendo a “lógica” da poiesis. ou os criam por meio de uma adequação do organismo às condições de existência no mundo. Seu gênio se teria revelado nos modos como aplicou um arquétipo do discurso — o processo pelo qual todos conferimos sentido à realidade e. Se Piaget forneceu uma 18 Caps. representacional. . II e 12. cujas bases aparecem seqüencialmente no quádruplo desenvolvimento fásico que Piaget denomina sensório-motor. quando não uma teoria inspirada nesta. 1. pelo menos nas fases originárias. sinédoque e ironia.modelos. semelhante ao modo como a criança chega a uma compreensão não só da sua “realidade”. Em todo caso.ao processo evolutivo do crescimento cognitivo na criança.renascentista dos tropos. por Piaget. ou ativam os esquemas conceituais implicitamente presentes na consciência da criança no nascimento. Obviamente. Em Metahistory5 e em vários ensaios contidos neste livro18.9. mostrei de que modo determinados analistas dos processos da consciência parecem projetar neles o padrão quádruplo dos tropos. ocorre-nos a ideia de que Piaget não descobriu essas fases. metáfora. que são utilizados nos processos conscientes da poiesis e na formação do discurso. dos modos de construir relações . Esse processo. a fim de representá-los e mapear o crescimento desde o que se poderia chamar de apreensões ingênuas (ou metafóricas) da realidade até as compreensões auto-reflexivas (e irônicas) dela. Todavia. Este padrão de representação. já que o pensamento lógico não surge juntamente com a fala. ou se o discurso é uma recapitulação do processo do desenvolvimento cognitivo.

os outros mecanismos identificados por Freud. Se ela apareceu universalmente como um modelo analítico ou representacional para o discurso. James Stracliey (New York. na moderna tradição cultural do Ocidente. além disso. não se ocupa disso como o faz Harold Bloom na sua análise do desenvolvimento fásico de composições conscientes como os poemas líricos. ou “vígil”. ele acrescenta uma outra confirmação. sem dúvida. seja ela uma estrutura. . ou um processo. como demonstra amplamente o famoso Capítulo VI. mais positivista. para que ela venha a ser ativada. nem mesmo do discurso sobre a consciência (já que há um grande número de discursos em que o modelo não aparece plenamente na forma sugerida). Na análise da atividade onírica. suscita inevitavelmente a questão do seu status de fenômeno psicológico. evidentemente. Freud fornece a base para a crença na operação dos esquemas tropológicos de figuração no nível do inconsciente. porquanto a revisão secundária parece requerer alguma ação anterior de condensação. e na verdade não se ocupa muito das fases pelas quais passamos na composição de um sonho. a revisão secundária necessita de 19 Freud. que redescobriram ou reinventaram o esquema quádruplo dos tropos. Freud também pode ser incluído na lista desses reinventores ou redescobridores da estrutura tropológica da consciência. empíricos e idealistas. a força de uma convenção que em sua maior parte não foi reconhecida como tal pelos seus vários reinventores dentro da tradição do discurso sobre a consciência desde o começo do século XIX. especialmente na forma como é utilizada como chave para um entendimento do discurso ocidental sobre a consciência. pp.26 TRÓPICOS DO DISCURSO base ontogenética para esse padrão. Freud percebia sem dúvida que o discurso consciente. deslocamento ou representação. Pelo menos. na medida em que todo discurso deve ser algo que evolui sob a égide da defesa psicológica chamada racionalização 19. Freud dá pouca atenção ao desenvolvimento diacrônico dessa forma de poiesis denominada sonho. 526-544. de modo secundário. Mas. pois esse tropo irônico que ele chamou revisão secundária costuma atuar na poiesis consciente como tropo preponderante. Nessa obra. “A Atividade do Sonho”. e sua obra pode ser considerada complementar à de Piaget. cuja preocupação fundamental era analisar o processo pelo qual se efetiva o emprego consciente e autoconsciente de tropos. mas apenas o status de um modelo que reaparece constantemente nos discursos modernos sobre a consciência humana. Há. da sua natureza arque. indícios de uma certa dimensão diacrônica na atividade onírica. E. Piaget é apenas o último de uma longa linhagem de pesquisadores. se desenvolve por fases. não reivindico para ela o status de lei do discurso. poderíamos tentar dar-lhe o crédito de “lei” genuína do discurso. Reivindico para ela apenas a força de uma convenção no discurso sobre a consciência e. de A Interpretação dos Sonhos. A ubiquidade desse padrão de prefiguração tropológica. no discurso sobre o próprio discurso.típica. 1965). T/ie Interpreiution of Dreams. transformando-o no modelo dos modos de associação mental característicos da consciência humana. trad.

pp. Pode parecer que sua “descoberta” dos processos de “condensação”. que se encontra entre as faculdades ima- ginativas e as faculdades racionais e busca conscientemente servir de mediador entre estas faculdades. mais imaginativos do que racionais. 21 Ver Freud. obviamente. na medida em que classifica as figuras nos quatro tropos da metáfora. “Remarks on the Function of Language in Freudian Theory”. para quem quer que se interesse pela teoria do discurso em geral e do discurso sobre a consciência em particular. Estes parecem corresponder. pp. da meto. a natureza quádrupla dos processos que atuam na atividade onírica.nímia. as operações do próprio discurso. Mas não queremos subestimar a originalidade da iniciativa de Freud apenas por termos descoberto que os seus mecanismos da atividade onírica correspondem quase ponto por ponto às estruturas dos tropos. INTRODUÇÃO 27 alguma “matéria” com que possa trabalhar. 95. Se tiver identificado corretamente. e ma is ou menos nos mesmos termos utilizados por Freud. em oposição aos seus conteúdos manifestos. sem de modo algum subestimar a envergadura da sua realização total. em Roman Jakobson e Morris Halle. em primeiro lugar porque o próprio Freud compara explicitamente os mecanismos da atividade onírica com os da poiesis e até se vale da terminologia da figuração para descrever estes processos21. “representação” e “revisão secundária” esteja sendo minada pelos indícios de que ele apenas redescobrira na psícodinâmica do ato de sonhar. Mary Elizabeth Meek (Coral Gablex. são os mecanismos que Freud considera responsáveis pelas mediações entre os conteúdos manifestos do sonho e os pensamentos latentes do sonho. como sugeriu Jakobson20. Freud terá dado uma importante contribuição para a compreensão dos mesmos processos conforme operam no 20 Roman Jackobson. Fundamentais of Language (The Hague e Paris. porém. O que me interessa aqui.priar-se de um domínio da análise cultural a fim de aplicar os seus princípios a um aspecto limitado desse empreendimento. 65-75. Cf. da sinédoque e da ironia. Mas isso é relativamente pouco importante para o seu propósito. com os seus próprios termos. e esta é fornecida pelos outros mecanis- mos da atividade onírica. porque foi uma proeza genial identificar os processos da atividade do sonho com os processos da consciência vígil. em terceiro lugar. “deslocamento”. em Prahlems in General Linguística. 1971). porque o propósito do empreendimento de Freud é suficientemente amplo para lhe permitir apro. modelos transformativos que já haviam sido plenamente explicados. Interpretatitm of Dreams. ou inconscientemente lhe impusera. incidentalmente. vale dizer. aos tropos sistematizados como as classes da figuração na moderna teoria da retórica (teoria com a qual. em segundo lugar. . e. por ser um componente do currículo educacional dos colégios e faculdades de sua época). a paciente análise de Freud dos mecanismos da atividade onírica propicia um conhecimento das operações do pensamento vígil. Emile Benveniste. p. que é fornecer um método analítico para desconstruir os sonhos completados e revelar os “pensamentos oníricos” latentes que se emboscam no interior deles na qualidade de seus verdadeiros “conteúdos”. “Two Types of Language and Two Types of Aphasic Disturbancc”. Freud estaria familiarizado. 1971). 374-384. Mais importante. trad. como os tropos da retórica.

de um grupo). . A obra de Thompson versa tanto sobre o desenvolvimento da consciência da classe trabalhadora durante um breve lapso de tempo quanto sobre os acontecimentos. a mimese e a diegese . “La Rhétorique de Freud”. um livro elogiado por estudiosos de orientações ideológicas diversas graças à mestria do detalhe factual. pp. à abertura geral do plano e à rejeição explícita da metodologia e da teoria abstrata.28 TRÓPICOS DO DISCURSO discurso. a descrição e o argumento. para falar em termos da teoria do discurso. sua função de sinais de estágios na evolução da consciência . se for aplicado à obra de um historiador cujo método é um pouco mais “empírico” do que se supõe tenha sido o de Marx. Não vou explicar a correspondência entre os quatro mecanismos da atividade do sonho. torna-se possível relacionar os elementos miméticos e diegéticos em toda representação da realidade. cm Thêorks du xymhole (Paris.isto é. quando reconhecemos a noção freudiana de que os mecanismos da atividade onírica são equivalentes psicológicos daquilo que os tropos são na linguagem e os padrões transformacionais no pensamento conceituai. seja da ubiqüidade do modelo tropológico para a representação de estágios do desenvolvimento da consciência (no caso. Mas este último aspecto da teoria dos tropos . ela fornece mais uma prova. talvez. personalidades e instituições que manifestam esse desenvolvimento em formas concretas. na forma como os descreveu Freud. Essa correspondência está longe de ser perfeita. das figurações poéticas da realidade para as suas compre. entre os quais o próprio discurso procura servir de mediador a bem do “entendimento”. na consciência vígil. como Todorov demonstrou muito claramente22. pp. e. ou pelo menos de um historiador que afirme estar quintessencialmente envolvido mais com a “realidade histórica concreta” do que com a “metodologia”. 315-316. 303.ensões noéticas. mas é suficientemente justa para nos permitir ver que a análise de Freud das mediações entre os pensamentos oníricos e os conteúdos oníricos é uma chave para o entendimento dos mecanismos que. quer na consciência vígil. 23 White. e os quatro tropos principais da figuração. Ou. isto é. Mela history. quer na consciência durante o sono. 22 Ver Tz vetan Todorov. tais como os acontecimentos na França entre 1848 e 1851 em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte23. servindo de mediadores entre a percepção e a conceituação. nos permitem mover-nos na direção oposta.pode ser explicado de modo mais concreto. Mostrei de que forma Marx antecipou a descoberta desses padrões transformacionais na sua análise das Formas de Valor em O Capital e de que forma usou essas estruturas metafóricas para assinalar os estágios de um processo diacrônico. 320-327. 1977). Refiro-me à obra de E. R Thompson. como tal.ou quaisquer outros termos dicotômicos que se queiram utilizar para indicar a mistura do nível poético e do noético da consciência. seja (admitindo-se que Thompson tenha descoberto por assim dizer as suas categorias em vez de tentar impô-Ias) uma prova de que essas categorias são realmente os tipos dos modos da consciência pelos quais passam os grupos cuja evolução se dá num movimento finito que vai de uma condição ingênua a uma condição irônica. The Making of the English Working Class.

de um lado. quando Thompson prossegue para oferecer uma esboço da sua história. sentem e dizem que seus interesses se identificam entre eles mesmos. tanto o livro quanto a teoria tropológica da consciência ganham maior envergadura a partir do fato de que ele aparentemente descobriu as fases em questão. as fases em que Thompson divide a evolução da consciência da classe trabalhadora no seu livro são bastante previsíveis. porém não podemos predizer nenhuma lei”. tratadas como realidades “concretas”. Eis o famoso aceno à concretude e aos “contextos históricos reais” que costumamos achar em oponentes da metodologia e da teorização abstrata. Porém. 11). e em contraste com outros homens cujos interesses diferem dos deles (e não raro se lhes opõem)” 20. E observa: “Podemos distinguir uma lógica nas reações de grupos ocupacionais semelhantes que passam por experiências semelhantes. devido às tendências abstracionistas destes. dos marxistas vulgares e. como se a biografia não fosse um gênero problemático e as categorias adolescência e início da maturidade não constituíssem metáforas culturalmente determinadas. Thompson define explicitamente o que entende pelo termo classe\ para ele. E. de índole prática. esta determinação das fases e das suas estruturas se adequa ao que Marx explicitou tanto em seu estudo dos modos pelos quais a consciência constrói as relações entre as comunidades. E então. igualmente dos sociólogos positivistas comuns. pois é impossível imaginar que ele tenha feito alguma coisa mais. Ele nos diz que “a classe ocorre quando alguns homens. principalmente do tipo inglês. Thompson discorda. e por curioso que isso possa parecer. mas tanto no conteúdo das diversas fases (consideradas como estruturas da consciência) quanto na sequência específica da sua elaboração.. INTRODUÇÃO 29 No começo do seu discurso. análise que figura no apêndice ao Manifesto Comunista21. Aliás. não no que tange às vezes em que as fases específicas tomaram forma. O movimento quádruplo é explicitamente englobado. De modo não surpreendente.. Ele se declara uma espécie de realista: “Estou convencido de que não podemos compreender a classe a menos que a consideremos uma formação social e cultural. Isso não implica que Thompson deva ser considerado menos seriamente por ter imposto um padrão à sua matéria. A autoridade histórica do seu livro é reforçada pelo cuidado e atenção dados aos detalhes com que determinou a cronologia específica das fases na sequência . Thompson escreve logo na fase seguinte: “Este livro [o dele próprio] pode ser lido como se fosse uma biografia da classe trabalhadora inglesa. ainda assim. no mesmo instante em que expunha Smelser e Dahrendorf ao ridículo. se não predizem nenhuma lei da história. ele conceitua as suas fases segundo modos que. que se origina de processos que só podem ser estudados na medida em que atuam durante um período histórico considerável” (p. quanto na sua análise das fases por que passou supostamente a consciência socialista. mas antes de uma “relação”. não se trata de uma coisa ou entidade. de outro. como um padrão muito mais construído que simplesmente descoberto: . satisfazem perfeitamente os requisitos de previsibilidade da composição de discursos como o seu. desde a sua adolescência até o início da sua maturidade” (ibidem).

como diriam os hegelianos. 12). analiso alguns aspectos da teoria política e da consciência de classe nos anos de 1820 e 1830 (p. Na Parte I. no qual as diferentes formas de existência da classe trabalhadora. o povo era submetido simultaneamente a uma intensificação de duas formas intoleráveis de relacionamento: a da exploração econômica e a da opressão política” (pp. sugere a natureza ativista e construtivista tanto do tema tratado quanto do discurso sobre esse tema. Por que essas divisões no discurso? Thompson insiste em dizer que não está fornecendo uma “narrativa consecutiva”. Na Parte 11]. “. construíram para si próprios” (p. Lawrence. retomo a história do Radicalismo plebeu e conduzo-a através do Luddismo até a idade heróica no final das Guerras Napoleônicas. é um longo discurso. Todo o período que está sendo estudado é um período em que “sentimos a pressão geral de longas horas de trabalho insatisfatório. na qual os trabalhadores apreendem as suas diferenças dos ricos e percebem a sua semelhança mútua. o tipo de consciência que chamaríamos metafórica. “Os trabalhadores eram obrigados a um apartheid social e político durante as [Guerras Napoleônicas]”. AParte 11. A Parte III. 447). salvo aquela que os trabalhadores. Na Parte II. correspondendo ao modelo da Forma Prolongada do Valor que Marx explica no discurso sobre as Formas de Valor em O Capital2*. Dissipadas todas as outras impressões. Além disso. obviamente está ligada apenas à existência de uma classe vagamente apreendida. determinadas pela variedade de tipos de trabalho no panorama industrial. ao passo que as partes do discurso delineadas no prefácio sugerem a “lógica” da organização tropológica. Mas o título. concentrando-se nas “tradições populares”. que influenciaram a decisiva agitação jacobina de 1790. a verdadeira cristalização de um nítido espírito de “classe trabalhadora” entre os trabalhadores.. assinala um novo estágio no crescimento da consciência de classe. oeupo-me das tradições populares vigentes 110 século XVIII. H. salvo em função do desejo geral de uma “liberdade” indefinida. passo tias influências subjetivas às objetivas . mas são incapazes de organizar-se. principalmente em Peterloo no ano de . mas tão-somente um “grupo de estudos sobre temas correi atos” (ibid. diz-nos Thompson. com a sua proeminente caracterização do gerúndio “making”. ‘traía o espírito do homem do século XIX’. intitulada “A Maldição de Adão”. diz Thompson no término da seção. sob rígida disciplina e para propósitos alheios” (pp. como escreveu D. Em face da opressão e da força usadas para destruí-los. permanece esta: juntamente com a da perda de qualquer coesão sentida na comunidade. trata-se da consciência da classe trabalhadora que desperta para si mesma. intitulada “A Árvore da Liberdade”. O modo da consciência de classe descrito nessa seção é metonímico. 445- 446).). em oposição ao seu trabalho e aos seus patrões. “estava na origem daquela ‘fealdade’ que.30 TRÓPICOS DO DISCURSO O livro é escrito como segue.. Este. onde o conjunto nada mais tem que os elementos de uma série. se cristalizam em espécies distintivas. mas que capta a sua particularidade apenas em termos gerais.as experiências de grupos de trabalhadores durante a Revolução Industrial que me parecem especialmente significativas. A Parte I. intitulada “A Presença da Classe Trabalhadora”. 198-199). procuro fazer um balanço do caráter da nova disciplina de trabalho industrial e do modo como a Igreja Metodista se apoiou nela. Por fim.

The Eiiglixh Working Class. Quanto não podemos saber ao certo. além do mais. que não é uma parte separada. também. os trabalhadores adquiriram um novo senso de unidade ou identidade das partes com o todo .). 712). encerrando a sua obra com uma nota de melancolia: “Esta visão se perdeu. pois o que está envolvido aqui é o surgimento e o enfraquecimento simultâneos de dois ideais que poderiam ter dado ao movimento da classe trabalhadora um futuro radical: o internacionalismo. de um íado. O ganho específico foi uma espécie de resíliência de classe e o orgulho de pertencer à classe trabalhadora. segundo Blake. visto que ele assinala não apenas a ascensão da consciência de classe à autoconsciência. o perdoável senti mental is. mas apenas um capítulo que trata da teoria política e dos aspectos da consciência de classe manifestados na cultura literária e intelectual dos anos de 1820 e 1830. a Arvore da Liberdade. Talvez lhes devamos ser gratos por esses anos de cultura heróica” (iibid. de outro.inada. cisão que persistiu até os dias de hoje. Isso conduz ao último capítuio do livro. Na superfície da sociedade. mas estes tendiam tanto a isolar os trabalhadores dos seus patrões quanto a contribuir para a sua organização pela conquista de modestas reformas sindicais. “mente alguma poderia sentir-se em casa” (p. e com incomparável firmeza.adverte-nos Thompson . 711.falar da “consciência dos trabalhadores em relação a seus interesses e à sua situação enquanto classe”. quase tão depressa quanto fora encontrada. Somente neste estágio é-nos permitido . 830). Demorei-me nesse desempacotamento tropológico da estrutura do discurso de Thompson porque. INTRODUÇÃO 31 1819. de um lado. nas terríveis derrotas de 1834 e 1835” (p. de outro. 832). O relato da quarta fase está impregnado de melancolia.o que chamaríamos de consciência sinedóquica e o que Marx. Os trabalhadores aprenderam a considerar suas próprias vidas parte de uma história geral de conflitos entre as “classes industriosas” frouxamente definidas. artesãos românticos e radicais continuaram a debater os seus pontos de vista sobre a natureza do trabalho. p. criando duas culturas nas quais. A esse podemos chamar o estágio da ironia. na qual os trabalhadores estavam cientes de continuar por conta própria tanto as velhas quanto as novas lutas (p. algo se perdeu. produto da percepção de uma situação irônica. classificava como “Forma Generalizada”24. Daí a ironia com que o próprio Thompson conclui o seu grande livro: “Na impossibilidade de duas tradições chegarem a um ponto de junção. 1:37-42. mas também e ao mesmo tempo a cisão fatal do próprio movimento da classe trabalhadora. no sentido marxista corriqueiro. diferentemente de Piaget e de Freud em suas análises da 24 Thompson. Eles também cultivaram durante cinqüenta anos. e o sindicalismo industrial. porém ambos fracassaram e. o lucro e a produção. De 1830 em diante [portanto] estava em maturação uma consciência dc classe mais claramente definida. Marx. Mas. pois estamos entre os perdedores”. contribuíram para uma cisão entre os intelectuais com relação à natureza da obra. observa Thompson. Daí. no seu estudo das Formas de Valor. .mo com que acrescenta: “Entretanto. os trabalhadores não deveriam ser vistos apenas como as miríades perdidas da eternidade. Capital. cf. e a Câmara dos Comuns não-refor.

32 TRÓPICOS DO DISCURSO consciência. Thompson afirma estar atentando em primeiro lugar para a “realidade histórica concreta”. então foi alcançado algum tipo de confirmação empírica da atuação de modos tropológicos na consciência de grupo. mas o cuidado demonstrado na escolha do modelo utilizado para ordenar o processo que está sendo representado. e não algum outro. ele adivinhou ou reinventou esta teoria na composição do seu próprio discurso. Se considerarmos que ele impôs esses modos à esfera geral de fenômenos por ele estudados. concordamos em que a estrutura de qualquer discurso complexo. teremos então de perguntar por que um intérprete de “dados” tão sutil encontrou esse padrão tropológico para organizar o seu discurso. Se. conquanto estivesse preocupado com a consciência humana. mas o problema aqui. Este cuidado se revela na sua escolha. então deixa de existir a necessidade de uma escolha entre os juízos alternativos acima arrolados. isto é. como já mostramos. Se louvamos (como muitos o fizeram) a sua afirmação de que derivou de uma consideração empírica da evidência as suas categorias a fim de discernir entre fases diversas no desenvolvimento dessa consciência de grupo. e não para a aplicação de um “método”. de um modelo que por muito tempo esteve associado à análise dos processos de consciência na retórica e na poética. espelha ou reproduz as fases por que a própria consciência deve passar na sua progressão de uma compreensão ingênua (metafórica) para uma compreensão autocrítica (irônica) de si mesma. que atuava no próprio “ma/cmg” do seu discurso. em vez de réplicas de um modelo teórico comum implicitamente conservado por três analistas de três diferentes tipos de matéria. com o único fito de delinear as estruturas mais amplas de sua representação no seu discurso sobre ela. Esses níveis parecem ser estruturas análogas. seguramente. Mas o fato de essas três estruturas análogas figurarem na obra de . na psicologia experimental e também na psicanálise. de processos conscientes e inconscientes de (auto)criação? Se Thompson não aplicou conscientemente a teoria dos tropos à repre- sentação que fez da história do seu tema. ou por Freud nas mediações efetuadas entre o nível manifesto e o latente do sonho na análise que fez da atividade onírica. planejada ou intuitiva. autoconsciente e autocrítico. na dialética e. O modelo que Thompson distinguiu na história da consciência de classe do trabalhador inglês talvez tenha sido tanto imposto aos seus dados quanto descoberto neles. principalmente um modelo cujas fases e modalidades de estruturação dessas fases tivessem de ser construídas como produtos de alguma combinação de teoria e prática. Ademais. não é se algum modelo foi imposto. e não como fenômeno individual. Não gostaríamos de dizer que as suas fases devem ser equiparadas àquelas discernidas por Piaget no desenvolvimento das faculdades cognitivas da criança. É uma característica do próprio grau elevado de autoconsciência discursiva de Thompson ter ele encontrado o padrão de desenvolvimento no “making” da consciência da classe trabalhadora inglesa. Para onde mais deveria Thompson ter-se voltado a fim de obter o modelo de um processo de consciência. entretanto. como um meio de caracterizã-la segundo um modo puramente hipotético. preocupava-se com ela como fenômeno de grupo social.

Pouco importa. pp. reivindicar a prioridade para nossos propósitos nessa ocasião. Essa compreensão não é. trad. supomos. 1971). no discurso orientado por intenções suscetíveis de formulação. como o fez Freud. e Nietzsche. “representação” e “revisão secundária”. como o fez Marx. ou. 1962). Maxímílían A. ed. 55 451-468. “operacional” e “lógico”. Freud. na esteira de Hegel. Philoxophy of Mind. pp. os objetivos que eles impõem aos seus discursos. INTRODUÇÃO 33 pensadores tão distintos no modo de interpretar os problemas da representação e da análise. é mais diretamente passível de apreensão no discurso e. no caso em apreço. irad. “sensório-motor”. na medida em que estamos lidando com estruturas da consciência. Ora. que a compreensão seja um processo por meio do qual as imagens da memória são atribuídas a nomes ou ligadas a palavras. Mas a segunda resposta é que. nesse nfvel de 25 Hegel. Presumo. “representacional”. . estamos familiarizados com essas estruturas apenas no modo como se manifestam no discurso. por exemplo). a partir de reações a desejos contraditórios ou investimentos emocionais. estamos lidando com o que são. além disso. “On Truth and Falsity in Their Ultramoral Sense”. ou ordenam sons. como o fez Piaget. 179 c ss. “generalizada” e “absurda”. talvez. metas ou objetivos de compreensão. 2 de The Complete Works of Friedrich Nietzsche. se não da consciência em geral. de modo a serem combinados com outras imagens da memória similarmente ligadas a palavras na forma de proposições - provavelmente do tipo “Isso é aquilo”25. Joan Riviere (New York. “prolongada”. 10-15. e suas concepções conscientemente mantidas acerca da estrutura da própria consciência . um estado afetivo que se cristaliza espontaneamente no limiar da consciência sem um mínimo de esforço consciente da vontade de conhecer. 1924). uma terminologia derivada do estudo de artefatos verbais poderia. trad. em contraste com os seus aspectos passivos. “deslocamento”. até chegar às estruturas complexas. The Ego and the ld. por sua vez. nos seus aspectos ativos e criativos. Deve tomar forma a partir de uma percepção da diferença entre as figurações alternativas da realidade em imagens retidas na memória e formadas. afinal.esse fato parece constituir razão suficiente para que se trate a teoria da tropologia como um valioso modelo de discurso. pp. Nietzsche e Freud. por que não utilizar a terminologia quádrupla que Hegel usou na sua análise dos modos da consciência? 3” A primeira resposta a essas perguntas deve ser que. em vez de tratar os tropos como expressões linguísticas dos próprios modos de consciência? Por que não dizer “condensação”. não toma forma a partir de uma comparação entre uma consciência inteiramente desprovida de intenção e o ambiente que ela ocupa. portanto. Mügge. William Wallace (Oxford. “elementar”. às vagas apreensões das formas que a realidade deveria tomar mesmo quando deixa de assumi-las {principalmente se não as assumir) em situações existencialmente vitais. e que. Essa vontade de conhecer. artefatos verbais. em Early Greek Philosophy and Other Essays. A consciência. diante das circunstâncias. reflexivos (tal como se manifestam nas operações da criança de Piaget no estágio sensório-motor. vol. a pergunta que deve vir à baila a essa altura do nosso próprio discurso é esta: por que privilegiar a teoria linguística dos tropos como sendo o termo comum destas várias teorias de diferentes tipos de consciência. 201-228. na medida em que lidamos com o discurso. Oscar Levy (New York.

se não a realidade. uma hiposta. porém. Por muito tempo a relação entre esses pares foi concebida como uma oposição. E exatamente porque cada coisa do mundo e cada experiência dele pode ser equiparada a qualquer outra coisa ou experiência por analogia ou similitude (porque. quanto para tentativas semelhantes de classificar tipos de discurso “formal” (como peças de teatro. sexualidade. romances. da mesma forma que o próprio discurso serve de mediador entre a nossa apreensão desses aspectos da experiência que ainda nos são “estranhos” e os aspectos dela que “compreendemos” porque encontramos uma ordem de palavras adequada à sua familiarização. como os discursos acerca dos fenômenos sociais (loucura. mas mesmo a transferência metafórica mais drástica. Isso seria tão verdadeiro para as nossas tentativas de classificar os vários tipos de discurso “prático”. sem as quais seria impensável a nossa transição de um estado de ignorância para um estado de compreensão prática. talvez não seja conhecida e nem sequer concebível para uma dada inteligência. guerra. então. há um sentido no qual nenhuma metáfora é de todo errônea. A teoria tropológica do discurso nos ajuda a entender de que maneira a fala serve de mediadora entre essas supostas oposições. poemas e assim por diante). apenas um equívoco. pela sua produção desses “erros”.lidades (sociais) de que são membros26. George . suicídio. é possível demonstrar que a análise mereci dam ente famosa de Durkheim dos tipos de suicídio é. quando se trata de buscar o conhecimento do mundo. ed. a catacrese mais paradoxal. John A. O resultado talvez seja visto da perspectiva de um sistema de proposições posterior e mais complexo. Suicide: A Study in Sociology. o que é também um aspecto da realidade. economia). Por exemplo. errôneas ou não. A teoria tropológica do discurso nos permite compreender a continuidade existencial entre erro e verdade. ignorância e entendimento. uma práxis na qual pode ser testada a adequação da proposição ao mundo de que ela fala. ou. uma hipótese errônea é melhor do que nenhuma hipótese. elas partilham algum atributo. a teoria tropológica do discurso poderia fornecer-nos um meio de classificar diferentes tipos de discurso mais por referência aos modos linguísticos que predominam neles do que por referência a supostos “conteúdos” que sempre são identificados de modo diferente por intérpretes diferentes. mas. como disse Bacon. trad. ainda que seja apenas o de ser ela própria). o oxímoro mais contraditório ou o trocadilho mais banal produz o efeito de iluminar. ao menos a relação entre as palavras e as coisas. política.tização dos modos de relacionamento pressupostos no modelo tropológico de possíveis conceituações das relações das partes (individuais) com as tota. são também e basicamente metáforas. Finalmente. Do mesmo modo. a tipologia extremamente sugestiva e 26 Emile Durkheim. para dizê-lo de outra maneira. é que essas proposições primitivas. expressa na cópula da identidade. imaginação e pensamento. Spaulding e George Simpson. a maneira como dois termos são colocados nos lados opostos da cópula.34 TRÓPICOS DO DISCURSO compreensão. sendo elementos da realidade única. Mais importante. Pelo menos ela fornece a base para alguma ação consciente. entre outras coisas. A base de sua unidade.

onde cada tipo é identificado pelo modo de relacionamento que predomina entre o protagonista e o seu meio social. trad. E o mesmo se pode dizer do modo sinedóquico da representação. 1966). a sua natureza mais puramente reflexiva que constitutiva. 277-294. que ocupa aquele plano médio entre o despertar de um interesse geral num domínio da experiência e a aquisição de alguma compreensão dela. poderíamos acrescentar que as representações estatísticas são pouco mais que projeções de dados interpretados no modo da metonímia. preconizado por Lukács na sua análise dos principais tipos do romance moderno. se petrificaram em ideologias. Em seguida. outros protocolos de linguagem. também ofuscaram Durkheim na medida em que os seus tipos foram tanto criados pelas suas próprias descrições dos seus dados quanto explicados a partir dos dados por correlações estatísticas e suas análises. talvez fosse possível fornecer protocolos para a tradução entre modos alternativos. Atma Bostock (Cambridge. Em segundo lugar. n. 25. a despeito do seu hegelianismo declarado na época da composição de seu livro e do seu marxismo igualmente declarado na época do seu repúdio a esse livro. cumpre-nos perguntar. pensava que poderia especificar um conteúdo para os romances sem prestar muita atenção ao continente linguístico em que eles se incorporavam.. teria sido aperfeiçoada e melhorada pela atenção dada ao aspecto linguístico dos seus exemplos27. cuja validade como contribuições à nossa compreensão da realidade aumenta somente na medida em que os elementos das estruturas nelas representadas estão relacionados unicamente pela contiguidade. essa tipologia dos modos da compreensão poderia permitir-nos servir de mediador entre ideólogos conflitantes. e não em conteúdos supostos ou em lógicas manifestas (mas inevitavelmente defeituosas). Mass. por serem considerados ou como verdade natural ou como verdade estabelecida. se o discurso é a nossa mais direta manifestação da consciência que busca compreender. cada um dos quais considera científica a sua própria posição e a do seu opositor mera ideologia ou “falsa consciência”. 276. . e pp. Por fim. Feito o quê. porque o princípio de toda compreensão é a classificação. Porém Lukács. E essa crença na transparência da linguagem. e uma classificação dos discursos baseada na tropologia. em vez de negar a adequação de um porque o outro foi realizado inadequadamente. governados por outros tropos. haveria de fornecer um meio de apreender a possível estrutura de relações entre esses dois aspectos de um texto. Quando não estão relacionados. uma tipologia dos modos da compreensão poderia permitir-nos aventar o conceito do que Lukács definiu como a relação entre “a possível consciência de classe” e “a falsa Simpson (New York. The Theory of the Novel: A Historico-Philosaphical Essay on the Forms of Great Epic Literature. são requeridos para uma explicação das suas naturezas adequadas à capacidade humana de compreender alguma coisa. p. 97 e ss. então uma tipologia dos modos do discurso possibilitaria a criação de uma tipologia dos modos de compreensão. pp. 27 Georg Lukács. INTRODUÇÃO 35 proveitosa que Lukács estabeleceu para o romance moderno. Mas por que. que. Quanto a isso. deveríamos desejar semelhante tipologia dos discursos? Primeiramente. 1971).

pelo menos em parte. bem como a Metahistory. examinam o problema das relações entre a descrição. Confio em que a maioria destes ensaios me aliviará desses encargos. acusaram-me de ceticismo radical. Nunca neguei que fosse possível o conhecimento da história. que. da cultura e da sociedade. Meu objetivo foi mostrar que não precisamos optar entre arte e ciência. do tipo alcançado no estudo da natureza física. As distinções estabelecidas por Kant entre as emoções. somos capazes de chegar a um outro tipo: de conhecimento sobre ela. quando se trata de falar da consciência humana. que nasceu do meu empenho de tratar das questões levantadas neste ensaio. “O Fardo da História”. mas não acho que a moderna psicologia. de uma forma ou de outra. Portanto. por parte dos teóricos marxistas. Todos os ensaios deste livro. e deveriam ser feitas com plena compreensão do tipo da natureza humana.36 TRÓPICOS DO DISCURSO consciência de classe”. uma época que perdeu a sua crença na vontade e que reprime o seu senso das implicações morais do modo de racionalidade que ele favorece. o tipo de conhecimento que a literatura e a arte em geral nos fornecem em exemplos facilmente reconhecíveis. Não vou me penitenciar por esse elemento kantiano no meu pensamento. mesmo que não possamos alcançar um conhecimento propriamente científico da natureza humana. a falar sobre ela de maneiras apropriadas a todas as várias dimensões do nosso ser especificamente humano. Tais escolhas deveriam ser mais autoconscientes que inconscientes. neguei apenas que fosse possível um conhecimento científico. a vontade e a razão não são muito populares nos dias de hoje. Tal foi a reação de alguns críticos ao primeiro ensaio reproduzido nesta coletânea. . mas entre diferentes estratégias para constituir a “realidade” no pensamento. No passado. além disso. não dispomos de uma teoria absoluta que nos oriente. Mas tentei mostrar que. na verdade. para cuja constituição elas irão contribuir se forem consideradas válidas. e até de pessimismo. não podemos fazê-lo na prática. Mas as implicações morais das ciências humanas jamais serão percebidas enquanto não se restabelecer na teoria a faculdade da vontade. a antropologia ou a filosofia o tenham aperfeiçoado. tudo é uma questão de escolha quanto ao tipo de modelo que deveríamos utilizar para demarcar o problema da consciência em geral e dar acesso a ela. se esperamos continuar a falar da cultura em contraste com a natureza . Ver-se-ã de imediato que esta divisão das faculdades humanas é kantiana. Ademais. de modo a lidar com ela de maneiras diferentes. Pois reconheceríamos que não se trata de fazer uma escolha entre objetividade e distorção. tudo é controverso. a análise e a ética nas ciências humanas. Isso acarretaria necessariamente a renúncia. quando considerei a possibilidade da consecução do conhecimento real nas ciências humanas.e. Somente uma inteligência voluntariosa e tirânica poderia acreditar que o único tipo de conhecimento a que podemos aspirar é o representado pelas ciências físicas. à sua reivindicação de ver “objetivamente” a “realidade” que os seus opositores sempre apreendem de um modo “distorcido”. cada uma das quais traz em si as suas próprias implicações éticas.

INTRODUÇÃO 37 .

Por mais de um século. Entre os . Porém. mas é exigida pela natureza da própria matéria histórica. a imperfeição do sistema de metáforas ou a ambiguidade das pressuposições sociológicas e psicológicas. os historiadores afirmam às vezes que somente na história é que a arte e a ciência se mantêm numa síntese harmoniosa. muitos historiadores acharam útil empregar uma tática fabiana contra críticos em campos afins do labor intelectual. e permitiu aos historiadores reivindicar a posse de um plano médio epistemologicamente neutro que se supõe existir entre a arte e a ciência. tem igualmente a tarefa especial de reunir dois modos de compreensão do mundo que costumeíramente estariam invariavelmente separados. Essa tática apresenta uma longa série de êxitos na tarefa de desarmar os críticos da história. Segundo essa concepção. o historiador responde que a história jamais reivindicou o status de ciência pura. uma clara evidência de que essa tática fabiana sobreviveu à sua utilidade e de que a posição que ela anteriormente havia assegurado ao historiador entre as várias disciplinas intelectuais foi colocada em grave risco. que ela depende tanto de métodos intuitivos quanto analíticos e que os juízos históricos não deveriam.40 TRÓPICOS DO DISCURSO 0 FARDO DA HISTÓRIA i. ser avaliados a partir de modelos críticos que só podem ser aplicados com propriedade às disciplinas matemáticas e experimentais. de que os dados históricos não se prestam à “livre” manipulação artística e de que a forma das suas narrativas não é uma questão de escolha. Tudo isso sugere que a história é um tipo de arte. A tática funciona mais ou menos desta maneira: quando os cientistas sociais lhe criticam a amenidade do método. quando os literatos lhe criticam a incapacidade de sondar as camadas mais sombrias da consciência humana e a relutância em utilizar modos contemporâneos de representação literária. o historiador não é apenas o mediador entre o passado e o presente. afinal de contas. Assim. uma semicièncm. o historiador volta à concepção de que a história é. contudo. portanto. Há.

tanto o medo que o artista romântico sentia da ciência positivista quanto o desdém que o cientista positivista votava à arte romântica se justificavam na atmosfera in- telectual em que nasceram.chegou a uma compreensão mais ciara das operações pelas quais o artista expressa a sua visão de mundo e o cientista exprime as suas hipóteses sobre ele. em todos os setores dessa área profissional. como a história vem-se tornando cada vez mais profissionalizada e especializada. Uma delas diz respeito à natureza da própria profissão de historiador. empenhado na busca do documento elusivo que o firmará como autoridade num campo estreitamente definido. A história é talvez a disciplina conservadora por excelência. Passemos agora à segunda causa geral da atual hostilidade contra a história. A medida que se tornam mais plenamente reconhecidas as implicações dessa . longe de ser o mediador desejável entre a arte e a ciência que ele reivindica ser. Sem dúvida. Além disso. ao mesmo tempo em que recusa submeter-se aos modelos críticos que atualmente vão sendo estabelecidos na arte ou na ciência. essa ingenuidade servia a um bom propósito. Desde meados do século XIX. E parece estar tomando vulto entre os não-historíadores a opinião de que. a praticamente qualquer tipo de autoanálise crítica. São duas as causas gerais desse ressentimento. na ciência social e na filosofia do século XX. A princípio. Por isso. Porém a crítica moderna . 0 FARDO DA HISTÓRIA 41 historiadores contemporâneos. percebe-se uma suspeita cada vez maior de que essa tática atua essencialmente para impedir considerações mais sérias dos avanços mais significativos operados na literatura. tem tido pouco tempo para se informar acerca dos mais recentes acontecimentos verificados nos campos mais remotos da arte e da ciência. o historiador é o inimigo irre. Hoje em dia. A maioria dos pensadores contemporâneos não concorda com a hipótese do historiador convencional de que arte e ciência são meios essencialmente distintos de compreender o mundo. avulta em toda a parte um ressentimento motivado pelo que parece ser a má fé do historiador em reivindicar os privilégios tanto do artista quanto do cientista. muitos historiadores não têm consciência de que já não se pode justificar a disjunção radical entre arte e ciência que o seu pretenso papel de mediadores entre elas pressupõe. Em resumo. o historiador comum. parece bastante claro que a crença do século XIX na dessemelhança radical entre arte e ciência resultou de um mal-entendido promovido pelo medo que o artista romântico sentia da ciência e pela ignorância que o cientista positivista tinha da arte.missível de ambas. a maioria dos historiadores simulou um tipo de ingenuidade metodológica deliberada. Mas esta suspeição de sistema tornou-se uma espécie de reação condicionada entre historiadores que tem levado a uma oposição.sobretudo em decorrência dos avanços feitos pelos psicólogos na investigação da capacidade de síntese do homem . Esse plano médio supostamente neutro entre arte e ciência que muitos historiadores do século XIX ocuparam com tanta autoconfiança e orgulho de posse desapareceu com a descoberta do caráter construtivista habitual das afirmações artísticas e científicas. resguardava o historiador da tendência a adotar os sistemas explicativos monísticos de um idealismo militante na filosofia e de um positivismo igualmente militante na ciência.

presidir à dissolução da reivindicação de autonomia que a história mantém com respeito às demais disciplinas e promover a assimilação da história a um tipo superior de investigação intelectual que. ainda nas palavras de Cassirer.42 TRÓPICOS DO DISCURSO realização. tal como se costuma concebê- la. e de que. o último capítulo da história da humanidade e o tópico mais importante de uma filosofia do homem. Precisam preparar-se para alimentar a ideia de que a história. do modo como prossegue atualmente. deve ser aceita como simples fato. pelo menos. durante o século XIX a ciência não havia alcançado a posição hegemônica entre as disciplinas eruditas de que hoje desfruta.. mas sua função geral parece inquestionável. como talvez fosse o caso no século XIX. uma afirmação.mináveis. a ciência é reconhecida. já não é evidente que o historiador estã especialmente qualificado para desempenhar a função de mediador. desfeitos os mal-entendidos que deram origem a essa situação. Assim. Os fascinantes triunfos da ciência em nosso tempo não apenas incentivaram . em nossa época. de que “não há um segundo poder no nosso mundo moderno que se possa comparar ao pensamento científico”. Trata-se de uma velha controvérsia que remonta ao começo do século XIX. um produto de uma situação histórica específica. 2. a história talvez perca a sua condição de modo de pensamento autônomo e autolegitimador. Atualmente. Não deveria ser preciso seguir de novo as linhas gerais da querela entre a ciência social e a história que envolveu os profissionais que as exerceram de maneira filosófica e autoconsciente durante este século. E a ciência que nos dá a garantia de um mundo comum”. Em primeiro lugar. como a do falecido Ernst Cassirer. Mas talvez seja útil lembrar que a disputa chegou a um tipo de solução que não foi possível no século XIX. é um tipo de acidente histórico. discordemos no que tange aos resultados da ciência ou aos seus princípios primeiros. como “o ponto culminante e a consumação de todas as nossas atividades humanas.. Os filósofos da ciência contemporâneos são mais claros no tocante à natureza d as-explicações científicas. não pode ser adequadamente assinada nem por uma nem por outra. Talvez. E bem possível que a tarefa mais difícil que a atual geração de historiadores é chamada a realizar seja expor o caráter historicamente condicionado da disciplina histórica. por estar fundada numa percepção mais das semelhanças entre a arte e a ciência que das suas diferenças. Assim. desaparece a necessidade de um agente mediador entre arte e ciência. a querela transcende os limites de uma simples discussão metodológica. e que. não se pode descartá-la por mera retórica na disputa pela primazia entre as disciplinas eruditas. e os próprios cientistas lograram obter aquele domínio sobre o mundo físico com que somente podiam sonhar durante a maior parte do século passado. os historiadores desta geração devem preparar-se para enfrentar a possibilidade de que o prestígio desfrutado por sua profissão entre os intelectuais do século XIX foi uma consequência de forças culturais deter.

quando Carl Hempel publicou seu ensaio “A Função das Leis Gerais na História”. como meio de reconduzir uma sociedade enferma à senda da iluminação e do progresso. é a implicação subjacente de que as concepções de história do historiador convencional são a um só tempo o sintoma e a causa de uma moléstia cultural potencialmente fatal. encontra a sua confirmação diária na ciência. Seria incorreto supor que os participantes desse debate chegaram a algum tipo de consenso acerca da natureza da explicação histórica. Poder-se-ia até afirmar que um dos traços distintivos da literatura contemporânea é a sua convicção . é preciso admitir que o curso do debate até aqui só pode parecer desconcertante para quem compartilha a avaliação de Cassirer acerca do papel hegemônico das ciências físicas entre as disciplinas eruditas e. Ora. a história se situa em algum lugar entre a física aristotélica e a biologia lineana . tem talvez um certo interesse para colecionadores de visões exóticas do mundo e de mitologias degradadas. a destruição da concepção convencional de história é um estágio necessário na elaboração de uma verdadeira ciência da sociedade e um componente essencial da terapia que eles proporão. se existe essa coisa de hierarquia das ciências. mas não muito para a criação daquele “mundo comum” que. quem valoriza o estudo da história. Para muitos deles. Esses filósofos parecem ter concluído que. excluir a história da primeira categoria das ciências não seria decerto tão desalentador se boa parte da literatura do século XX não manifestasse uma hostilidade para com a consciência histórica ainda mais exacerbada do que qualquer coisa encontrada no pensamento científico da nossa época. em última análise. segundo Cassirer. Contribuições significativas para esse debate foram dadas por pensadores da Europa Continental. da parte de muitos profissionais das ciências sociais. ou é uma forma de arte de segunda categoria. O traço mais surpreendente do pensamento atual acerca da história. ligada às ciências sociais do mesmo modo que a história natural era outrora ligada às ciências físicas. também acirraram a sua hostilidade para com a história. de valor epistemológico questionável e valor estético incerto. Na sua depreciação da abordagem que o historiador convencional faz dos problemas históricos. mas ele foi desenvolvido com extraordinária intensidade no mundo de língua inglesa a partir de 1942. Todavia. Pois um número significativo de filósofos parece ter chegado à conclusão de que a história ou é uma forma de ciência de terceira categoria.vale dizer. 3. Daí que a crítica da história feita por cientistas sociais responsáveis se revista de uma dimensão moral. ao mesmo tempo. 0 FARDO DA HISTÓRIA 43 os investigadores dos processos sociais em seu empenho de elaborar uma ciência da sociedade semelhante à ciência da natureza. os cientistas sociais contemporâneos são amparados pelo curso que tomou o debate atual que os filósofos promovem sobre a natureza da investigação histórica e o status epistemológico das explicações históricas.

Kingsley Amis. Mas o escritor não raro demonstra alguma afeição e até uma certa boa vontade para perdoar que não se estende às personagens de historiador. o artista o indicia por uma falta de sensibilidade ou de vontade. segundo a qual a história é o “pesadelo” do quai o homem ocidental precisa despertar se quiser servir e salvar a humanidade. ou uma necessidade de sondar os segredos do mero processo material. Pirandello. Em resumo.todos refletem a voga da convicção expressa pelo Stephen Dedalus de Joyce. como alguém que trai o espírito devido a um comprometimento positivo com outra coisa qualquer. Hermann Broch. A hostilidade do escritor moderno à história se evidencia de modo mais claro na prática de usar o historiador para representar no romance e no teatro o exemplo extremo da sensibilidade reprimida. Gottfried Benn. Os escritores que se utilizaram dos historiadores dessa maneira são. As especificações do indiciamento e as táticas pelas quais é instaurado não mudaram muito desde que Nietzsche estabeleceu o seu padrão. Thomas Mann. sempre que floresciam os “eunucos” no “harém da história”. é comumente retratado como o inimigo dentro das muralhas. enquanto o cientista o acusa apenas de uma falha metodológica ou intelectual. Ele incluía a história entre as muitas perversões possíveis das faculdades apolíneas do homem e em particular a acusava de ter contribuído para a destruição dos fundamentos míticos tanto da personalidade individual quanto da personalidade comunal. Robert Musil. Camus. Angus Wilson. Enquanto o cientista é apresentado. Jean-Paul Sartre. mas. Gide. Aldous Huxley. na maioria das vezes. Wyndham Lewis. A lista poderia ser consideravelmente ampliada se se incluíssem os nomes de autores que condenaram implicitamente a consciência histórica ao afirmar a contemporaneidade essencial de toda experiência humana significativa. tal como o desejo faustiano de controlar o mundo. em muitos romances e peças modernos o cientista figura como o antítipo do artista com uma frequência ainda maior do que o historiador. Proust. Na verdade. Ibsen.44 TRÓPICOS DO DISCURSO subjacente de que a consciência histórica será obliterada se o escritor tiver de examinar com a devida seriedade aquelas camadas da experiência humana cuja descoberta é o propósito peculiar da arte moderna. . quando não meramente ridícula. Kafka e D. Elias Canetti e Edward Albee - para mencionar apenas os principais ou os que estão em moda. o golpe desferido contra o historiador por parte dos escritores modernos é também um golpe moral. Dois anos depois. Nietzsche opôs a arte a todas as formas de inteligência abstrativa assim como opôs a vida à morte pela humanidade. Esta convicção se acha tão difundida que a reivindicação do historiador de ser um artista parece patética. entre outros. Yeats. ítalo Svevo. quase um século atrás. a arte devia necessariamente perecer. Lawrence . Nietzsche aprimorou sua concepção da oposição entre a imaginação artística e a imaginação histórica e afirmou que. Malraux. Em O Nascimento da Tragédia (1872). Valéry. em O Uso e o Abuso da História (1874). em contrapartida. o historiador. “O senso histórico exagerado”. H. Virginia Woolf. como alguém que simula atitudes pias de respeito pelo espírito apenas para minar com mais eficácia as reivindicações do espírito sobre o indivíduo criativo. Ernst Jünger.

também fonte da consciência. Lá. o erudito. A história promoveu nos homens um voyeurismo debilitante. a um mundo absurdo. vinte e cinco anos mais velho que ela. e também sua incapacidade de levar a termo os seus próprios esforços intelectuais. um excesso de . em amargas observações manuscritas sobre as ideias de outros homens acerca das divindades solares. mais ou menos explícitas. Em Middlemarch. O senso da história era o produto de uma faculdade que distinguia o homem do animal. Hedda Gabler carrega o mesmo fardo de Dorthea Brooke: o incubo do passado. o artista. resolve casar-se com ele e dedicar sua vida a serviço do estudo histórico dos sistemas religiosos do mundo que ele propunha. Mas Nietzsche não foi o único responsável pelo declínio da autoridade da história entre os artistas fin de siècle. a memória. por bem ou por mal. 0 FARDO DA HISTÓRIA 45 escreveu ele. “como um luxo caro e supérfluo do entendimento”. ou seja. a visão artística e o estudo histórico são opostos. “ele se esqueceu de que não havia janelas e. está caracteristicamente mais preocupado com as limitações de uma cultura que valoriza mais o passado que o presente e é mais explícito quanto às limitações dessa cultura. erradica o futuro porque destrói as ilusões e priva as coisas existentes da única atmosfera em que podem viver”. baseada na memória. cuja obra reconciliaria o conhecimento total com a devoção extremosa”. para que a própria vida humana não perecesse no culto insensato daqueles vícios que uma falsa moralidade. No final. George Eliot não se preocupa com a questão. tornou-se indiferente ao brilho do sol”. Brooke. Dorthea renega as suas obrigações para com Casaubon. fê-los sentir que eram forasteiros num mundo onde todas as coisas dignas de fazer já haviam sido feitas e desse modo solapou aos poucos aquele impulso ao esforço heróico que poderia conferir um sentido peculiarmente humano. Casaubon revela sua incapacidade de reagir ao passado que vive à sua volta nos monumentos da cidade. E. ela absorveu a sua hostilidade à história na maneira como foi violentamente posta em prática pelos historiadores acadêmicos no final do século XIX. Mas. durante sua lua-de-mel em Roma. A srta. A história devia ser “seriamente ‘odiada”’. “levado ao seu extremo lógico. escrevendo na década seguinte. concluía Nietzsche. donzela vitoriana de rendimentos garantidos. Nietzsche odiava a história ainda mais do que à religião. Ibsen. diz a autora a respeito de Casaubon. dissipam-se~lhes as ilusões. e se casa com o jovem Ladislaw. Acusações semelhantes. malgrado a diferença de idade. Eliot utilizou o encontro entre Dorthea Brooke e o sr. Ibsen e Gide. “Com o círio à sua frente”. consumando assim sua fuga do incubo da história. Não importa o que. vê no sr. induz nos homens. ainda que transitório. mas a essência do seu pensamento é clara. a geração seguinte aprendeu de Nietzsche. e as qualidades das respostas à vida que eles respectivamente evocam são mutuamente exclusivas. Casaubon para formular uma acusação convenientemente inglesa contra os perigos do gosto pelas antigualhas. que só deseja fazer uma coisa transcendente em sua vida. Casaubon. publicado no mesmo ano que O Nascimento da Tragédia. “um Bossuet vivo. podem ser encontradas em escritores tão diferentes em temperamento e propósito quanto George Eliot.

na última cena. o crescente desprezo de Hedda pelo marido se concentra na sua devoção ascética à história. Tesman escreve o próprio epitáfio ao dizer: “Arrumar os documentos de outras pessoas é o trabalho certo para mim”. o domínio dos mortos e moribundos. para mim foi também um tipo de viagem de pesquisa. Tesman. provocando o suicídio de Lõvberg. empenhado em escrever a história definitiva das indústrias domésticas no Brabante durante a Idade Média. Casaubon mais jovem. Tesman e a sra. outro depositário da tradição. Seus árduos esforços consomem o seu estreito suprimento de afeição humana. que sobreviveram à tragédia. só isso”. Tive de pesquisar muito entre velhas inscrições . de um lado. O propósito de Ibsen é fazer-nos ver que isso .desperta em Hedda a esperança de que a visão dele possa proporcionar uma possível liberação do estreito mundo circunscrito pela imaginação fraturada de Tesman. revelando assim que nenhum dos dois aprendeu coisa alguma com os trágicos acontecimentos de que poderiam ter prestado testemunho córico. A destruição do manuscrito é. são devotos desavisados.que se “ocupa da marcha da civilização. um livro que contará uma verdade mais nobre do que a conveniente meia-verdade em que se baseavam o seu primeiro livro e a sua reputação juvenil. tia”. Não obstante. cada qual a seu modo.formado por um medo difuso do futuro. E. por assim dizer” . cujo livro . um ato de vingança pessoal contra Lõvberg pelo seu romance com a rival de Hedda. recebem as boas-vindas da tia de Tesman. em linhas gerais bem definidas. o que a leva finalmente ao suicídio. Hedda é ameaçada com a sujeição ao juiz Brack. em vez de sustentar. quando ele poderia demonstrar mais indústria doméstica no presente. Mas. de manhã. No final. que reflete e aumenta o medo de Hedda ante um futuro desconhecido. à proporção que se desenrola a peça. também historiador. Elvsted. ou refletido nesse medo. George Tesman. Ela é a vítima de toda uma rede de repressões que são endêmicas na sociedade burguesa. à tarde e à noite!” Não que a causa das complexas insatisfações de Hedda possa ser localizada nessa esfera tão limitada quanto a meramente sexual. simbolizado pelo filho que se desenvolve no interior de seu corpo. grita Hedda a certa altura: “Não ouvir falar de outra coisa senão da história da civilização. E um filósofo da história. Ele está elaborando um livro sobre a civilização que solapará. que faz uma insinuação quanto aos prazeres que a sua viagem de núpcias lhes deve ter proporcionado. Elvsted. é um historiador. uma das quais é representada pelo uso que Tesman faz do passado para evitar os problemas do presente. Na volta de sua lua-de-mel. Ibsen tenciona mostrar-nos Lõvberg como um homem de talento e de empenho criativo potencial. é claro. tanto que se pode dizer que grande parte da inquietação de Hedda tem origem na devoção de George às indústrias domésticas do passado. porém no estilo hegeliano. a moralidade convencional. um sr. Hedda passa a odiá-lo. a sra. apo.e também precisei ler inúmeros livros. Mas. Ao que George responde: “Bem.dera-se do seu manuscrito e o destrói. dedicam-se à tarefa vitalícia de editar o Nachlass de Lõvberg. mais grandioso. Hedda e o marido. “Você tinha que tentar. de outro. O rival de Tesman é Eilert Lõvberg.46 TRÓPICOS DO DISCURSO história . é um repúdio simbólico a essa “civilização” da qual tanto Tesman quanto Lõvberg.

Na medida em que era um especialista. é a destruidora da vida. uma vez iniciada a cura da sua doença física. quando volta a Paris para pronunciar conferências sobre cultura latina tardia. que permitia à minha mente trabalhar com precisão. se enrijece. esconde sob a constante aparência de vida uma diminuição da vida. O protagonista da obra. mas que depois se endurece. agradara-me essa fíxidez. se não destruído. como uma secreção. Acabei desprezando a erudição que a princípio fora o meu orgulho. Michel descobre que perdeu todo o interesse pelo passado. impede o pleno contato da mente com a natureza. Em O Imoralistci de Gide (1902).. e essa coisa era o sentimento do presente. 0 FARDO DA HISTÓRIA 47 representava o equivalente erudito do comentário filisteu do juiz Brack sobre o suicídio de Hedda: “Isso não se faz”. Assim.bilitante do passado: Descrevi a cultura artística como algo que se derrama sobre todo um povo.. nascida da vida. deve ser transcendida.. porventura me conhecia? E assim. Porém o seu papel de filósofo só se configura depois de ter ele passado por seus papéis de filisteu e de historiador. como plantas num herbário. de uma superabundância de sadde. à medida que o romance se desenvolve. Logo. e ele renuncia à carreira acadêmica para buscar a comunhão com aquelas forças sombrias que a história obscureceu e a cultura debilitou em sua pessoa. melhor. transforma-se num invólucro exterior no qual a mente confinada enlanguesce e definha.. mostrei que a cultura. ou. pelo menos modificado o que ele me proporcionava. caso se pretenda atender às necessidades da vida.. sofre de uma doença que combina todos os sintomas atribuídos por Ibsen aos vários personagens de Hedda Gabler. Em dias passados. assim como a própria civilização. a fíxidez terrifícante das sombras noturnas do pequeno átrio de Biskra .. A conclusão problemática do livro sugere que Gide nos quer mostrar Michel como alguém permanentemente mutilado por sua precoce . descobri que aíguma coisa havia. . Diz ele: Quando. na qual ela finalmente morre. permanentemente secas. que a princípio é um sinal de pletora. levando o meu pensamento às suas conclusões lógicas. Enfim. Acabei evitando as ruínas. eu quis reiniciar o meu trabalho e absorver-me uma vez mais num estudo rigoroso do passado. Michel. A história do passado assumira para mim a imobilidade. todos os fatos da história apareciam-me como espécimes num museu. Michel é ao mesmo tempo um filisteu. eu me via como um tolo.. mesmo esse uso lõvbergiano do passado para destruir o passado perde a sua atração para Michel.a imobilidade da morte.. Michel opõe a sua percepção do presente a essa consciência de. um filósofo da história. porém. a revolta contra a consciência histórica é ainda mais explícita. na medida em que era um homem. um historiador e. E trata-se de um papel puramente temporário. porque traz consigo a compreensão de que a história.. e a oposição entre a resposta da arte ao presente vivo e o culto da história do passado morto é delineada mais brutalmente. A tuberculose de Michel é apenas uma manifestação de um medo difuso de viver que se manifesta psicologicamente à maneira de uma preocupação obsessiva com as culturas mortas e com as formas mortas de vida. de modo que era fácil esquecer que um dia elas haviam estado cheias de seiva e de sol..

por exemplo. Os sociólogos. afirmando que a história era uma forma de arte mas. Croce foi mais longe. de conformidade com o programa minuciosamente planejado por Wilhelm Dilthey e executado por Max Weber na Alemanha e por Emile Durkheim na França. em seu romance Os Buddenbrooks (1901). Neokantianos como Wilhelm Windelband. procuravam distinguir entre história e ciência. Thomas Mann. embora não pudesse fornecer as leis da mudança social. pouco fizera no sentido de preparar os homens para o advento . porém recusando-se a entrar nas listas públicas em defesa de sua heresia. filósofos como Bergson e Klages asseveravam que a concepção do próprio tempo histórico. havia localizado a causa dessa consciência da degeneração iminente na hiperconsciência de uma cultura avançada de classe média. que se supunha fornecer algum tipo de preparação para a vida.no. esta hostilidade à consciência histórica e ao historiador teve amplo curso entre os intelectuais de cada país da Europa Ocidental. A história. um grande historiador. que limitava os homens a instituições. ao mesmo tempo. uma disciplina superior. uma conformação viva da máxima nietzschiana segundo a qual a história bane o instinto e transforma os homens em “sombras e abstrações”. continuavam a buscar um meio de unir a história e a ciência em novas disciplinas. Na década anterior à Primeira Guerra Mundial. designando a história como um tipo de arte que. Por toda parte havia uma desconfiança crescente de que a busca febril da Europa entre as ruínas do seu passado expressava menos uma consciência do firme controle exercido sobre o presente do que um medo inconsciente de um futuro por demais horrível para contemplar. Entre os cientistas sociais. Jacob Burckhardt. pois a guerra parecia confirmar o que Nietzsche sustentara duas gerações antes. a única base possível para um saber social adequado às necessidades do homem ocidental contemporâneo. Entrementes. ainda oferecia valiosas visões da totalidade das experiências humanas possíveis. a hostilidade à história foi menos acentuada. A Primeira Guerra Mundial muito fez para destruir o que restava do prestígio da história entre os artistas e os cientistas sociais. que se julgava ser “o ensino da filosofia por meio de exemplos”. ideias e valores obsoletos. proclamando abertamente a necessidade de transformá-la em arte. era a causa da doença. 4. Outro grande schopenhaueria. Schopenhauer lhe ensinara não apenas a inutilidade da investigação histórica do tipo convencional mas igualmente a insensatez do exercício público. Antes mesmo que o século XIX terminasse. de um lado. previra a morte da cultura europeia e sua reação foi abandonar a história como era praticada nas academias.48 TRÓPICOS DO DISCURSO devoção a uma cultura historicizada. as chamadas “ciências do espírito”. A sensibilidade estética de Hanno Buddenbrook é ao mesmo tempo o produto mais refinado da história da sua família burguesa e o sinal da sua desintegração.

A história justificará qualquer coisa. quem tem autoridade não pode cometer nenhuma injustiça.haviam constituído o centro dos estudos humanistas e científicos antes da guerra. que o aliviaria do fardo da história. Ela ensina precisamente coisa alguma. Assim é a história! Ecce historiai Eis o presente.. Paul Valéry expressou com mais propriedade a nova atitude anti-historicista quando escreveu: A história é o mais perigoso produto que surgiu da química do intelecto. os historiadores tendiam a recorrer à concepção de que ninguém quisera absolutamente a guerra. quem tem poder firma o direito. e nunca serás diferente. Mas isso não se deveu a qualquer falta de conhecimento da história. come e morre. Essa atitude anti-histórica subjazia tanto ao nazismo quanto ao existencialismo. Quem tem dinheiro vive muito. quanto Malraux. foi e sempre será a tua vida. Se se poderia dizer o mesmo de outras disciplinas não importava. E dessa concepção radicalmente a. “Para mim”. como o . Como disse o poeta alemão Gottfried Benn: “Um sábio ignora a mudança e o desenvolvimento / Os seus filhos e os filhos dos seus filhos / Não fazem parte do seu mundo”. quando esta acabou. O. e. Nada foi mais completamente arruinado pela última guerra do que ã pretensão à antevisão. Ivanov a propósito de sua esperança de que a violência da época introduzisse uma ação recíproca nova e mais criativa entre “o homem nu e a terra nua”. Na Rússia.histórica do mundo ele extraiu as suas consequências éticas inevitáveis: Ocorre-me o pensamento de que poderia ser mais revolucionário e mais digno de um homem vigoroso e ativo ensinar ao seu companheiro esta verdade simples: Es o que és. Obviamente. de que ela “apenas acontecera”. em muitos aspectos o progenitor do nazismo. 0 FARDO DA HISTÓRIA 49 da guerra. toma da sua carne. Quando não se limitavam a papaguear os slogans em voga dos governos com respeito ao propósito criminoso do inimigo.. pois traz em si todas as coisas e fornece exemplos de todas as coisas. esta é.se incluirmos os clássicos sob essa denominação . I. pelo menos em bases históricas. certo? Para as baixas espirituais mais desesperadas da guerra. Tanto Spengler. onde a Revolução de 1917 despertara com especial premência o problema do relacionamento do novo com o velho.. M. os historiadores pareciam incapazes de elevar-se acima das estreitas alianças partidárias e de compreender a guerra de algum modo significativo.. que constituiriam o legado dos anos 30 à nossa época. escreveu ele. portanto. nem o passado nem o futuro poderiam fornecer orientação para ações especificamente humanas no presente. era natural que se tornassem o alvo principal de quantos haviam perdido a fé na capacidade do homem para compreender a sua situação depois que terminara a guerra. porém parecia menos uma explicação do que uma confissão de que nenhuma explicação era possível. Gershenson escreveu ao historiador V. não lhes ensinara o que deles se esperava durante a guerra. Os estudos históricos . “há certa perspectiva de felicidade numa imersão no Letes que apagaria a lembrança de todas as religiões e sistemas filosóficos” - em resumo. é bem possível que tenha sido esse o caso.

permite à sociedade distinguir entre o “crime” de Meursault e a sua “execução” pela sociedade como assassino. Em O Homem Revoltado (1951). repetindo o Nietzsche que havia pouco censurara. amparada pela consciência histórica. segundo Camus. é tecida segundo um padrão de intenção consciente por quantos “sabem” o que devem “significar” a sensibilidade particular e o gesto público. não diferente. é um assassino “inocente”. Camus voltou a esse tema. E o promotor público detentor da “sabedoria histórica” que mostra ao júri como os acontecimentos mesquinhos que constituem a existência de Meursault podem ser entrelaçados de modo a torná- lo “responsável” por um “crime” e justificar a sua condenação como assassino. Mesmo esse humanista transparente que é Ortega y Gasset. numa obra dedicada a uma vítima da opressão nazista. O poeta René Char fornece a Camus um epitáfio por sua posição fundamental sobre o assunto: “A obsessão da colheita e a indiferença . é que permite à sociedade chamar o ato praticado por Meursault de “crime”. confessava que a única lição que a história lhe havia ensinado era que “o homem é uma entidade infinitamente plástica da qual se pode fazer o que se quiser. E então. em essência. nem podemos nos ajustar de algum modo a eles”. exatamente por não ser ela própria outra coisa senão a mera possibilidade de ser ‘como você prefere’”. Camus negava haver qualquer distinção real entre diferentes tipos de crimes. porém se devia de fato ser estudado. assim como os nossos teatros”. escreveu Camus. o problema não era como o passado devia ser estudado. “Ele aceita entusiasticamente o mal da história”.50 TRÓPICOS DO DISCURSO pai reconhecido do existencialismo francês. Só a hipocrisia. dos milhares de outros atos irrefletidos que constituem a sua vida cotidiana. ensinavam que a história só tinha valor na medida em que destruía mais do que estabelecia a responsabilidade para com o passado. Meursault. escreveu ele em O Tema Moderno (1923). O Estrangeiro (1942). e a execução que ela própria faz de Meursault de “justiça”. Não temos a coragem de romper resolutamente com tais acréscimos desvitalizados do passado. O assassinato de um homem que ele não conhece é um gesto totalmente sem sentido. É esta habilidade de lançar uma rede especiosa de “sentido” sobre o passado que por si só. disse Hitler a Rauschning certa ocasião. e confia a terra à força bruta. o herói do primeiro romance de Camus. “são anacronismos. apresentada pelo autor como um conjunto perfeitamente casual de acontecimentos. A “revolução do niilismo” de Hitler estava baseada precisamente nesse senso da irrelevância do passado conhecido para o presente vivido. “O que era verdadeiro no século XIX”. “já não é verdadeiro no século XX”. escrevendo em 1923. como algo que por si só é capaz de reunir o homem com a natureza da qual ele se apartou quase por completo. E em meados dos anos 30. E tanto os intelectuais nazistas (como Heidegger e Jünger) quanto os inimigos existencialistas do nazismo na França (como Camus e Sartre) concordavam com ele nessa questão. Para ambos. partilha a crença de que o passado era apenas um fardo. “O pensamento puramente histórico é niilista”. ele opõe a arte à história. “As nossas instituições. afirmando que tanto o totalitarismo quanto o anarquismo da época atual tiveram suas origens numa atitude niilista que derivava do desejo obsessivo do homem ocidental de dar sentido à história. A vida de Meursault.

existi como uma pedra. uma mentira. o Autodidata. “Apareci por acaso. Sartre tinha apenas que acrescentar o ‘LEcce historiar de Gottfried Benn para sinalizar de modo mais explícito o anti-historicista convicto da sua primeira obra filosófica. continua graças à fraqueza e morre por acaso”. em A Náusea (1938). o passado não tem existência fora da consciência que temos dele. Camus e Sartre. Como fazem isso?” Obviamente. 0 FARDO DA HISTÓRIA 51 pela história são as duas extremidades do meu arco”. a resposta está na própria consciência de Roquentin a respeito da ausência de “firmeza e consistência” em si mesmo. “escreveu uma porção de artigos”. Algumas vezes emitiu vagos sinais. do passado ou do presente. uma racionalização retrospectiva daquilo que de fato nos tornamos mediante as nossas escolhas. um certo marquês de Rollebon. é no melhor dos casos um mito que justifica o nosso jogo num futuro específico. O Otimista acredita. eis tudo. que deposita fé singela no poder do aprendizado para levar à salvação. Roquentin está tentando escrever ura livro sobre um diplomata do século XVIII. estavam de acordo em seu desprezo pela consciência histórica. escreve Roquentin. Para ele. as pessoas vêm e vão. há “documentos demais”. como os nossos diversos passados pessoais. Roquentin. expõe a Roquentin o modelo do Otimista americano. O protagonista do primeiro romance de Sartre. Se o tivessem feito.lhe um”. Quaisquer que tenham sido as suas diferenças em outros assuntos. Roquentin vivência o seu próprio corpo como uma “natureza sem humanidade” e a sua vida mental como uma ilusão: “Nada acontece enquanto você vive.” Seu amigo. uma planta. diz Roquentin. Os dias se acrescentam a outros dias desarrazoadamente. No entanto. ter-se-iam melindra. um micróbio. Sartre rejeita a doutrina psicanalítica do inconsciente e afirma que o passado é o que decidimos lembrar dele. Roquentin anota em seu diário: “Outros historiadores trabalham com base nas mesmas fontes de informação. senti apenas um zumbido inofensivo. “Eu não tinha o direito de existir”. numa edição interminável e monótona”. o passado histórico. outras vezes. no pior. Falta a Roquentin uma consciência central com base na qual possa ser ordenado o mundo. . Mas é assoberbado pelos documentos. e. tal como o antiquado humanista. falta-lhes toda “firmeza e consistência”. os dois líderes do existencialismo francês. O Ser e o Nada (1943). Portanto. Não há começos. Não que se contradigam uns aos outros. é um historiador profissional que. O cenário muda. Mas a doença de Roquentin decorre precisamente da sua incapacidade de acreditar nesses slogans tolos. “tudo nasce sem razão. na qual trabalhava enquanto escrevia A Náusea. mas nada que tenha requerido qualquer ‘‘talento”. que “a vida tem um sentido se decidirmos dar. como ele próprio diz. Os críticos de As Palavras de Sartre (1964) teriam feito boa coisa se tivessem tido em mente A Náusea e O Ser e o Nada. Além disso.do menos com a opacidade das “confissões” de Sartre. A minha vida lançou tentáculos em todas as direções na busca de pequenos prazeres. Escolhemos o nosso passado da mesma forma que escolhemos o nosso futuro. e este só se lembra do que deseja lembrar. mas “eles não parecem tratar das mesmas pessoas”. Teriam sabido que ele acredita que a única história importante é aquilo de que o indivíduo se lembra.

em sua capacidade como artistas e cientistas e não em sua faculdade de membros do Clube do Livro da Guerra Civil . Tal apelo pode ser usado para justificar o jornalismo mais banal. nem buscar refúgio no favor de que gozam junto à laicidade letrada. Com efeito. E. Brown. Os historiadores não podem ignorar as críticas da comunidade intelectual em geral. que considera a história um tipo de “fixação” que “aliena o neurótico do presente e o impele à busca inconsciente do passado no futuro”. seria motivo de genuína preocupação o fato de alguma disciplina erudita perder o seu caráter oculto e começar a incluir verdades que apenas o público em geral considera estimulantes. para um segmento significativo da comunidade artística. Para eles. os historiadores têm para com a primeira obrigações que transcendem as suas obrigações para com o último. longe de constituir uma fonte de consolo. Na medida em que fingiram pertencer a uma comunidade de intelectuais distintos do público letrado em geral. quanto mais banal for o jornalismo. De fato. os historiadores sustentaram convencionalmente que nem uma metodologia . então está na hora de os historiadores se perguntarem com seriedade se essas acusações não têm algum fundamento na realidade. As implicações de tudo isso para qualquer historiador que valoriza a visão artística como algo mais que mero divertimento são óbvias: ele tem de perguntar a si próprio de que modo pode participar dessa atividade libertadora. Pois um apelo à estima de que uma disciplina erudita desfruta junto ao homem mediano poderia ser utilizado para justificar todo tipo de atividade. A atitude de muitos artistas modernos para com a história é muito parecida com a de N. Ela nos diz que somente libertando a inteligência humana do senso histórico é que os homens estarão aptos a enfrentar os problemas do presente. maiores serão as possibilidades de ser apreciado pelo homem comum. nos dias atuais. provavelmente não o conseguirei em absoluto: o artista moderno não pensa muito sobre o que se costumava chamar a imaginação histórica. avançando um pouco mais no caso do jornalismo. Apesar de tudo. portanto. Mas. O. ideias e valores obsoletos. os artistas e os cientistas . para muitos deles a expressão “imaginação histórica” não só contém uma contradição em termos. de solucionar realisticamente seus problemas espirituais mais prementes. Os historiadores tampouco podem tachar de irrelevantes os juízos dos artistas e cientistas sobre a maneira como o passado deve ser estudado. Em suma. assim como para Brown. mas também o modo de ver o mundo que confere a essas formas antiquadas sua autoridade especiosa. se por ora não alcancei o meu propósito.52 TRÓPICOS DO DISCURSO Poderia continuar citando exemplos da revolta contra a história nos textos modernos. a história é não só um fardo real imposto ao presente pelo passado na forma de instituições. seja nociva ou benéfica à civilização. o historiador parece ser o portador de uma doença que foi ao mesmo tempo a força motriz e a nêmese da civilização do século XIX. como constitui a barreira fundamental para qualquer tentativa dos homens. e se a sua participação acarreta forçosamente a destruição da própria história. E por isso que grande parte da ficção moderna gira em torno da tentativa de libertar o homem ocidental da tirania da consciência histórica. Se.consideram triviais e possivelmente nocivas as verdades de que se ocupam os historiadores.

pouca ajuda oferece na busca de soluções adequadas para aqueles problemas. Como o historiador não reivindica um meio de conhecer unicamente a sua própria época. isto implica uma disposição. o estudo do passado “como um fim em si” só pode afigurar. ou seja. O historiador contemporâneo precisa estabelecer o valor do estudo do passado. que o historiador profissional está especificamente qualificado para definir as perguntas acerca do registro histórico e por si só é capaz de determinar quando foram dadas as respostas adequadas às questões assim colocadas? Já não é uma verdade óbvia para a comunidade intelectual como um todo que o estudo desinteressado do passado . Com efeito. O homem ocidental contemporâneo tem bons motivos para estar obcecado pela consciência da singularidade dos seus problemas e está justificadamente convencido de que o registro histórico. O que se costuma denominar a “preparação” do historiador consiste. mas como um meio de fornecer perspectivas sobre o presente que contribuam para a solução dos problemas peculiares ao nosso tempo. uma experiência geral dos negócios humanos. Quanto ao mais. da parte do historiador contemporâneo. Como se pode dizer. então. Para quem quer que seja sensível à diferença radical do nosso presente relativamente a todas as situações passadas. ou uma espécie de necrófilo cultura]. o consenso tanto nas artes quanto nas ciências parece ser exatamente o oposto. na maioria dos casos. quem quer que estude o passado como um fim em si deve parecer ou um antiquário. Como fazê-lo? Antes de mais nada.dignifica ou até ilumina a nossa humanidade. não como um fim em si. isto é. os historiadores precisam admitir a justificativa da revolta atual contra o passado.se uma forma de obstrucionismo insensato. transforme os estudos históricos de modo a permitir que o historiador participe positivamente da tarefa de libertar o presente do fardo da história. 0 FARDO DA HISTÓRIA 53 específica nem uma bagagem intelectual específica são requeridas para o estudo da história. a leitura de áreas periféricas. tal como é feito atualmente. alguém que encontra nos mortos e moribundos um valor que jamais pode encontrar nos vivos. E segue-se que o fardo do historiador em nossa época é restabelecer a dignidade dos estudos históricos numa base que os coloque em harmonia com os objetivos e propósitos da comunidade intelectual como um todo. de chegar a um acordo com as técnicas de análise e representação que a ciência . a autodisciplina e o Sitzfleisch são tudo quanto se requer.“a bem do próprio passado”. Qualquer um é capaz de dominar os requisitos com toda a facilidade. como diz o clichê . em estágio nos arquivos e no cumprimento de alguns exercícios destinados a familiarizá-lo com trabalhos de referência comuns e periódicos ligados ao seu campo. uma oposição intencional à tentativa de entrar em contato com o mundo atual em toda a sua estranheza e mistério. No mundo em que vivemos diariamente. no estudo de algumas línguas. que foge dos problemas do presente para consagrar-se a um passado puramente pessoal. 5.

viam nele uma combinação da arte romântica. de um lado. Em resumo. Homens como Michelet e Tocqueville só são apropriadamente designados como historiadores pelo assunto de que tratam. se tornaram prisioneiros de concepções da arte e da ciência que artistas e cientistas . quaisquer que fossem as suas origens em disciplinas ou visões de mundo específicas. de outro. E certas ciências ~ particularmente a geologia e a biologia - se valeram de ideias e conceitos que comumente haviam sido usados apenas na história até aquela época. seria mais correto reconhecer que o início do século XIX foi uma época em que a arte.não porque os artistas. E. mas também porque houve uma estreita relação de trabalho e intercâmbio entre a história. a ciência e a filosofia.54 TRÓPICOS DO DISCURSO moderna e a arte moderna têm oferecido para a compreensão das operações da consciência e do processo social. artistas ou filósofos. podemos igualmente designá-los cientistas. O que mais impressiona nas realizações dessa época não é “o senso da história” como tal.kantianos e posteriormente serviu de categoria organizadora entre os hegelianos. Em suma. O mesmo se pode dizer de “historiadores” como Ranke e Niebuhr. Entretanto. Na medida em que nos referimos apenas ao seu método. a ciência e a filosofia. Para o historiador moderno que reflete sobre os progressos daquela época em todos os campos do pensamento e da expressão. o que o historiador pode reivindicar é ser uma voz no diálogo cultural contemporâneo na medida em que considera seriamente o tipo de pergunta que a arte e a ciência da sua própria época o obrigam a fazer quanto à matéria que ele decidiu estudar. tanto de esquerda como de direita. e não pelos seus métodos. os cientistas e os filósofos deixaram de se interessar pelas questões históricas. suas tentativas no sentido de tornar o passado uma presença viva para os seus contemporâneos. enquanto os historiadores da segunda metade do século XIX continuaram considerando o seu trabalho uma combinação de arte e ciência. a ciência. de “romancistas” como Stendhal e Balzac. mas porque muitos historiadores se vincularam a certas concepções do começo do século XIX a respeito do que devem ser a arte. não porque então a história surgiu como um modo distinto de ver o mundo. Mas num dado momento do século XIX tudo isso mudou . mas a boa vontade dos intelectuais de todos os campos para ultrapassar os limites que separavam uma disciplina da outra e decidir-se ao uso de metáforas iluminadoras para a organização da realidade. A categoria do histórico dominou a filosofia entre os idealistas pós. por uma razão qualquer. Os artistas românticos se voltaram para a história em busca de seus temas e apelaram para a “consciência histórica” como uma justificativa de suas tentativas de palingenesia cultural. Os historiadores consideram amiúde o começo do século XIX como o período clássico da sua disciplina. de “filósofos” como Hegel e Marx e de “poetas” como Heine e Lamartine. a filosofia e a história se encontravam unidas num esforço comum para compreender as experiências da Revolução Francesa. em meados do século XÍX os historiadores. parece óbvia a importância fundamental do senso da história e afigura- se manifesta a função do historiador de mediador entre as artes e as ciências da época. e da ciência positivista. a arte.

parece ter em mente os métodos oferecidos por Weber e Freud . as raízes primitivas. parecem ter em mente uma concepção da arte que admitiria como paradigma um pouco mais do que o romance do século XIX. parecem querer dizer que são artistas à maneira de Scott ou de Thackeray. Ou seja. na melhor das hipóteses. H. Quando os historiadores falam de si próprios como cientistas. que só têm a antiguidade para recomendá-los. poetas imaginistas ou cineastas de nouvelle vague. então os artistas e também os cientistas encontram uma justificativa para criticar os historiadores. parecem aspirar a pouco mais que uma síntese dos modos de análise e expressão. em geral estão querendo dizer que ela é uma combinação da ciência social do fim do século XIX e da arte de meados do século XI X. Uma das razões. Em suma. parecem estar invocando uma concepção de ciência que era perfeitamente apropriada para o mundo em que viveu e trabalhou Herbert Spencer. da arte é contar uma história. mas que tem muito pouco a ver com as ciências físicas na forma como se desenvolveram a partir de Einstein e com as ciências sociais tal como se desenvolveram a partir de Weber. e mesmo assim trata-se de um modo cada vez menos importante. Assim. E. se recusa a admitir uma causa comum com o historiador moderno é que ele vê corretamente no historiador um depositário de uma concepção antiquada do que é a arte. Crítica semelhante pode ser dirigida à reivindicação. os historiadores continuam a agir como se acreditassem que o propósito principal. Decerto. não querem dizer que se identificam com pintores gestuais. E evidentemente verdade que o propósito do artista pode ser favorecido pelo recurso de contar uma história. como o demonstrou de modo incontestável o nouveau roman francês. quando muitos historiadores contemporâneos falam da “arte” da história. quando se dizem artistas. mas esse é apenas um dos modos possíveis de representação que se lhe oferecem nos dias de hoje. De fato. por parte do historiador. não por terem eles estudado o passado. então. Embora exibam por vezes em suas paredes e em suas estantes as obras dos modernos artistas abstracionistas. Stuart Hughes afirma em recente trabalho sobre a relação da história com a ciência e a arte que “o supremo virtuosismo técnico do historiador repousa na fusão do novo método de análise social e psicológica com a sua tradicional função de contar uma história”. de um lugar entre os cientistas. romancistas existencialistas. por exemplo. para não dizer o único. diferentemente do seu congênere do início do século XIX. quando Hughes fala do “novo método de análise social e psicológica”.métodos que alguns cientistas sociais contemporâneos consideram. 0 FARDO DA HISTÓRIA 55 teriam de abandonar progressivamente se quisessem compreender o mundo de mudanças de percepções interiores e exteriores que lhe era oferecido pelo próprio processo histórico. A “má qualidade” dessas antigas concepções da ciência e da arte está contida . das suas disciplinas. escultores cinéticos. e não o fruto maduro. mas por o estarem estudando como uma ciência e uma arte de má qualidade. por que o artista moderno. Se tal é o caso. Uma vez mais. quando os historiadores asseveram que a história é uma combinação de ciência e arte.

A Civilização da Renascença. toda afirmação humana. constituindo. Para explicar a singularidade da obra de Burckhardt. Sua obra.a saber. diferentemente da maioria dos cientistas. pode ser considerada um exercício da historiografia impressionista. são elaborados pelos tipos de pergunta que o pesquisador faz acerca dos fenômenos que tem diante de si. A generalização seria verdadeira se fosse inserida apenas no contexto de uma percepção da medida com que Burckhardt e Weber partilharam de uma concepção peculiarmente estética da ciência. Não houve nenhum esforço significativo na historiografia surrealista. que toda tentativa de dar forma ao mundo. E a mesma noção de objetividade que vincula os historiadores a um uso não-crítico da estrutura cronológica para as suas narrativas. em que pêse ao tão alardeado “talento artístico” dos historiadores dos tempos modernos. Ele abandonara o sonho de contar a verdade sobre o passado pelo ato de contar uma história. Os estudantes que se iniciam na história . mas que a afirmação individual alcançava o seu valor quando conseguia impor ao caos do mundo uma forma transitória. um afastamento tão radical da historiografia convencional do século XIX quanto o dos pintores impressionistas. E quase como se os historiadores acreditassem que a única forma possível de narração histórica era a utilizada no romance inglês tal como se desenvolveu no final do século XIX. Burckhardt interfere no registro histórico em pontos diferentes e estabelece a respeito dele perspectivas diferentes. Yeats e Ibsen enriqueceram a cultura moderna. portanto. evitam uniformemente as técnicas de representação literária com que Joyce. estava tragicamente fadada ao fracasso. E a consequência disso foi o progressivo envelhecimento da “arte” da própria historiografia. a despeito de todo o seu pessimismo schopenhaueriano (ou talvez por causa dele).e não poucos profissionais . que os fatos. porque havia muito renunciara à crença de que a história apresentava algum sentido ou significação inerente. Burckhardt. . cronologicamente ordenada. quando tentam relatar as suas “descobertas” sobre os “fatos” de uma maneira que chamam “artística”. Não era sua intenção contar toda a verdade sobre o Renascimento italiano. Muitos historiadores continuam a tratar os seus “fatos” como se fossem “dados” e se recusam a reconhecer. mas uma verdade sobre ele.enfrentam problemas com Burckhardt por ele ter rompido com o dogma segundo o qual um relato histórico precisa “contar uma história” pelo menos da maneira usual. ou o de Baudelaire na poesia. mais do que descobertos. à sua própria maneira. A única “verdade” que Burckhardt reconheceu foi a que aprendera de Schopenhauer . omitindo-o. antecipou Weber. expressionista ou existencialista deste século (a não ser da parte dos próprios romancistas e poetas). Tanto quanto os seus contemporâneos na arte. Os historiadores. ignorando-o ou distorcendo-o conforme as exigências dos seus propósitos artísticos. estava inclinado a fazer experiências com as mais avançadas técnicas artísticas do seu tempo. os historiadores modernos da escrita histórica o têm considerado um tipo de cientista social embrionário que tratou de tipos ideais e. exatamente da mesma maneira que Cézanne renunciou a qualquer tentativa de expressar toda a verdade sobre uma paisagem.56 TRÓPICOS DO DISCURSO sobretudo nas ultrapassadas concepções de objetividade que as caracterizam.

Ele começa por nada admitir acerca da validade da história. Brown obtém os mesmos efeitos visados por um artista pop ou por John Cage em um dos seus happenings. como o historiador convencional é sempre impelido a fazer. que ninguém vira com tanta clareza antes dele. ao mesmo nível ontológico. ao elogiar Burckhardt. a análise funcional e tudo o mais. ele o faz exatamente da mesma forma que se poderia usar a experiência contemporânea. Muitos historiadores atualmente demonstram interesse pelos mais recentes avanços técnicos e metodológicos verificados nas ciências sociais. Um dos poucos a arriscar-se nessa empresa foi Norman O. . uma vez liberto das limitações da técnica de “contar uma história”. Heidegger e fenomenologistas contemporâneos de orientação existencialista. reduções e distorções brilhantes e surpreendentes. Mas o verdadeiro significado de Brown repousa na boa vontade em praticar uma linha de pesquisas sugerida por Nietzsche e desenvolvida por Klages. muitas vezes estão condenando o seu próprio comprometimento rígido com concepções da ciência e da arte que o próprio Burckhardt havia transcendido. sempre que percebem que podem servir aos seus objetivos historiográficos convencionais. Pois no livro de Brown vemo. precisamente por divulgar certos tipos de informação e intensificar a percepção de outros tipos. Alguns deles tentam utilizar a econometria. na obra de Burckhardt o conceito de “individualismo” serve primeiramente de metáfora focalizadora que. Mas pouquíssimos historiadores tentaram lançar mão das modernas técnicas artísticas de um modo significativo. ou que ele reprimiu em virtude de imperativos sociais. vilões e coro. por uma série de justaposições. A estrutura cronológica usual teria impedido essa tentativa de estabelecer uma perpectiva especifica acerca de seu problema. a teoria dos jogos. Por ter a coragem de utilizar uma metáfora elaborada a partir da sua própria experiência imediata. e assim Burckhardt a abandonou. Em resumo.nos obrigados a nos confrontar com o problema do estilo que ele escolheu para a sua obra enquanto historiador. não poderemos fazer isso se mantivermos o mito de que os historiadores são tão artistas quanto cientistas. contudo. Burckhardt foi capaz de ver coisas. E. lhe permite ver o que ele quer ver com especial clareza. pois o que ele escreve é anti-história. quer como modo de existência. Brown reduz todos os dados da consciência. Brown oferece o equivalente historiográfico do anti- romance. Brown. 0 FARDO DA HISTÓRIA 57 Desse modo. Haverá algo intrínseco à nossa abordagem do passado que nos permita julgar Brown tão indigno de consideração quanto um historiador sério? Certamente. tanto os do passado quanto os do presente. quer como forma de conhecimento. e então. Mesmo os historiadores convencionais que o julgam equivocado quanto aos fatos conferem à sua obra o estatuto de um clássico. Os historiadores que se deram ao trabalho de compulsar o livro de Brown o classificaram de freudiano e o puseram de parte. obriga o leitor a ver sob nova luz elementos que ele esqueceu mediante uma associação constante. Em Life Against Death. na sua história. é que. na vida do século XV. Embora utilize matéria histórica. a teoria da solução de conflitos. ele se livrou da necessidade de construir um “enredo” com heróis. O que a maioria deles não percebe. involuções.

58 TRÓPICOS DO DISCURSO antes de podermos passar à questão ulterior de saber se a sua história constitui ou não um retrato “adequado” do passado. Se queremos questionar o direito que um historiador tem de usar uma concepção da ciência social vigente no século XIX. os filósofos da ciência e estética vêm trabalhando no sentido de uma compreensão maior das semelhanças entre as afirmações científicas. de outro. a exemplo do artista e do cientista moderno. de outro. 6. Assim encarada. mas se oferece como um meio entre muitos de revelar certos aspectos desse campo. mas pode ser julgada exclusivamente em função da riqueza das metáforas que regem a sua sequência de articulação. chegou-se a uma maior compreensão da natureza das afirmações artísticas .e com ela adveio uma possibilidade maior de resolver o velho problema da relação dos componentes científicos com os componentes artísticos das explicações históricas. Há quase três décadas. busca explorar certa perspectiva sobre o mundo que não pretende exaurir a descrição ou a análise de todos os dados contidos na totalidade do campo dos fenômenos. o “estilo” escolhido pelo historiador é ou não apropriado ao “relato”? Os historiadores que dão crédito à suposição de que a história é uma combinação de arte e ciência devem re. Pesquisas como as de Karl Popper na lógica da explicação científica e o impacto da teoria das probabilidades sobre as considerações da natureza das leis científicas minaram a ingênua concepção positivista acerca do caráter absoluto das proposições científicas. Na atmosfera de troca entre as “duas culturas” assim criadas. Pois já não é evidente que podemos usar os termos artista e contador de histórias como sinônimos. o “relato” é adequado aos “fatos” e se. removendo destas o estigma de “falta de sentido”. o historiador que opera segundo essa concepção poderia ser visto como alguém que. Existe uma concepção segundo a qual a ideia de que a história é uma combinação de ciência e arte é apenas mais uma indicação das visões antiquadas de ambas que predominam entre os historiadores. Assim. Como salienta . o problema da escolha de um estilo artístico entre os muitos oferecidos pelo legado literário com que o historiador trabalha. elaboradas originariamente pelos positivistas. ou do puramente imaginário. de um lado. e as afirmações artísticas. de um lado. entre afirmações científicas e declarações metafísicas. Já se afigura possível admitir que uma explicação não precisa ser atribuída uniíateralmente à categoria do literariamente verídico. de um lado. de outro. ou seja.portar-se ao outro problema “interno” da equação. Filósofos ingleses e americanos contemporâneos abrandaram as rígidas distinções. Mas onde encontrar o critério para determinar quando. a metáfora que rege um relato histórico poderia ser tratada como uma norma heurística que elimina autoconscientemente certos tipos de dados tidos como evidência. devemos também estar preparados para questionar o uso que ele faz de uma concepção da arte vigente no século XIX.

ou naquele monismo fatal que até agora sempre resultou das tentativas de ligar história e ciência. mas com diferentes orientações de ordem afetiva e intelectual. 0 FARDO DA HISTÓRIA 59 Gombrich em Art and Illusion. mais rica e mais abrangente do que aquela com que começou . Isto nos permitiria considerar seriamente as distorções criativas oferecidas pelas mentes capazes de olhar para o passado com a mesma seriedade com que o fazemos. critérios específicos para determinar quando uma dada representação é internamente consistente e. Quando observamos a obra de um artista . não se espera que Constable e Cézanne tenham procurado a mesma coisa numa dada paisagem.da mesma forma que um cientista descarta uma hipótese tão logo se esgota a sua utilização. de um cientista . como expressou um famoso historiador anos atrás. cada uma requerendo o seu próprio estilo de representação. a cibernética.não indagamos se ele vê o que veríamos no mesmo campo de fenômenos gerais. e. Aplicado à escrita histórica. fornece um sistema de tradução que permite ao observador ligar a imagem à coisa representada em níveis específicos de objetivação. e a reconhecer que não há essa coisa de visão única correta de algum objeto em exame. Então. que respeitasse a lógica implícita no modó do discurso pelo qual optou. do ângulo correto e na perspectiva verdadeira”. presente e futuro. Deveríamos exigir apenas que o historiador demonstrasse algum tato no uso das suas metáforas regentes: que não as sobrecarregasse com dados nem deixasse de utilizá-las ao máximo. Essa concepção da pesquisa e da representação históricas abriria a possibilidade de usar na história as luzes científicas e artísticas da nossa época sem desembocar num relativismo radical e na assimilação da história à propaganda. e que. a teoria dos jogos e tudo . Dessa maneira. Pois deveríamos reconhecer que o que constitui os próprios fatos é o problema que o historiador.ou. como o artista. no caso. já não deveríamos esperar ingenuamente que as afirmações sobre uma dada época ou sobre um conjunto de acontecimentos do passado “correspondam” a al- gum corpo preexistente de “fatos em estado natural”. tem tentado solucionar na escolha da metáfora com que possa ordenar o seu mundo passado. quando a sua metáfora começasse a se mostrar incapaz de conciliar certos tipos de dados. de um lado. como um protocolo provisório ou uma etiqueta. mas o reconhecimento de que o estilo escolhido pelo artista para representar uma experiência interior ou uma exterior traz consigo. mas se introduziu ou não em sua representação alguma coisa que poderia ser considerada como informação falsa por alguém que é capaz de entender o sistema de notação utilizado. O resultado dessa atitude não é o relativismo. de outro. não se espera ser necessário fazer uma escolha entre elas e determinar qual é a “mais correta”. o cosmopolitismo metodológico e estilístico promovido por este conceito de representação obrigaria os historiadores a abandonar a tentativa de retratar “uma parcela particular da vida. o estilo funciona como aquilo que Gombrich chama “sistema de notação”. quando se comparam suas respectivas representações de uma paisagem. mas sim muitas visões corretas. Ela permitiria pilhar a psicanálise. ele abandonasse essa metáfora e procurasse outra.

Cabe perguntar. tal como é obrigado a fazer quando trabalha sob a necessidade de buscar uma objetividade impossivelmente abrangente.o período entre 1800 e 1850. não lhes é permitido considerar seriamente como provas. seria bom ter em mente a linha de argumentação que vai de Schopenhauer até Sartre. os expoentes do pensamento histórico entre 1800 e 1850 consideravam . surrealistas e (talvez) até acionistas a fim de dramatizar a significação dos dados que eles descobriram mas que. tanto na opinião de Schopenhauer quanto na de Sartre. segundo a qual o registro histórico é incapaz de constituir-se em ocasião de experiência estética ou experiência científica significativas. Se os historiadores da nossa geração estivessem inclinados a participar ativamente da vida intelectual e artística. com muita frequência. é de bom alvitre para o artista ignorar o registro histórico e limitar-se à consideração do mundo dos fenômenos tal como este lhe é apresentado na sua experiência cotidiana. Ao passo que tanto antes como depois dessa época os estudiosos das coisas humanas tendiam a reduzir os fenômenos humanos a manifestações de processos naturais ou mentais hipostatizados (como no idealismo. Mas com que finalidade básica? Para simplesmente explorar a capacidade humana para o jogo ou a habilidade da mente para a brincadeira com imagens? Existem atividades piores para um homem moralmente responsável. por que o passado deve ser estudado e qual função pode ser favorecida por uma contemplação das coisas à luz da história. é claro. em geral. mas exigir o mero exercício da nossa capacidade de criar imagens não leva necessariamente à conclusão de que deveríamos exercitá-la no passado histórico. no vitalismo e quejandos). primeiro solicita o exercício da imaginação especulativa pela sua incompletude e depois a desestimula ao exigir que o historiador permaneça limitado à consideração daqueles poucos fatos que ela fornece. E permitiria aos historiadores conceber a possibilidade de utilizar modos de representação impressionistas. expressionistas. sustenta esta tradição. Os pensadores dessa época reconheciam que a função da história. Aqui. Se quisessem aproveitar as oportunidades assim oferecidas. os historiadores poderiam em tempo persuadir os seus colegas de outros campos do labor intelectual e expressivo de que é falsa a asseveração de Nietzsche segundo a qual a história é “um luxo caro e supérfluo do entendimento”. a resposta mais sugestiva a essa pergunta foi fornecida pelos pensadores que floresceram durante a época áurea da história . o valor da história não precisaria ser defendido da maneira tímida e ambivalente como o é hoje. da nossa época. sem obrigar o historiador a tratar as metáforas assim confiscadas como inerentes aos dados em consideração. era fornecer uma dimensão temporal inerente à consciência que o homem tem de si mesmo. Portanto. que é a luz sob o qual todas as coisas se oferecem imediatamente à contemplação? No meu entender. e não à luz da sua condição presente.60 TRÓPICOS DO DISCURSO o mais. no naturalismo. tal como ela se distinguiu da arte e também da ciência daquele tempo. Em outras palavras: há alguma razão pela qual devamos estudar as coisas à luz da sua condição passada. O registro documentário. A ambiguidade metodológica da história fornece oportunidades para a observação criativa do passado e do presente dos quais nenhuma outra disciplina desfruta. então.

em consequência de decisões humanas específicas. para citar os representantes da filosofia. Todos os três consideravam a história inspirada por uma trágica consciência do absurdo da aspiração humana individual e. 0 FARDO DA HISTÓRIA 61 a imaginação histórica uma faculdade que.isto é. do romance e da historiografia. ao mesmo tempo. mas como. tendo-se originado do impulso do ho- mem para impor imagens estáveis ao caos do mundo dos fenômenos . respectivamente . Os expoentes do historicismo realista . um impulso estético desembocava numa trágica reafirmação do fato fundamental da mudança e do processo. Assim. . Balzac e Tocqueville. por uma consciência da necessidade dessa aspiração se se quisesse salvar o resíduo humano da consciência potencialmente destrutiva do movimento do tempo. naquele mundo familiar em que o próprio historiador viveu e trabalhou. fornecendo assim uma base para a celebração da responsabilidade do homem por seu próprio destino. esse futuro se transformara num presente.concordavam em que a tarefa do historiador era menos lembrar aos homens suas obrigações para com o passado que impor-lhes uma consciência da maneira como o passado poderia ser utilizado para efetuar uma transição eticamente responsável do presente para o futuro.Hegel. Todos os três viam na história algo que educa os homens para o fato de que o seu próprio mundo presente existira outrora na mente dos homens sob a forma de um futuro desconhecido e ameaçador.

por fim. é conservada ali.o estado anterior. graças ao “sistema” que entrelaça as várias partes do todo numa “história completa da qual cada capítulo é um romance e cada romance o retrato de um período”. porém renascido do ventre do conhecimento . de maneira implícita. uma reencarnação ou um novo modo do Espírito”. pois. Hegel. e essa existência descartada . sensibilizava os homens para os elementos dinâmicos contidos no presente. todos os três interpretavam o fardo do historiador como a responsabilidade moral de libertar o homem do fardo da história. ser mudadas ou alteradas pela ação humana exatamente nesse grau. enfatizei-o. por exemplo.62 TRÓPICOS DO DISCURSO para todos os três. transformei-a em consolo. E ambas descobriram o caráter essencialmente provisório das construções metafóricas de que se valem para compreender um universo dinâmico. que poderiam. contudo. Tanto a ciência como a arte transcenderam as concepções mais antigas e estáveis do mundo que exigiam que elas expressassem uma cópia literal de uma realidade presumivelmente estática. afirmam implicitamente a verdade . fé em si mesmo e numa causa -. unicamente para a justificativa do status quo . Em síntese.um espírito de independência salutar. mas viam nele alguém incumbido da tarefa especial de induzir nos homens a consciência de que a sua condição presente sempre foi em parte um produto de opções especificamente humanas. Só depois que os historiadores perderam de vista esses elementos dinâmicos contidos no seu próprio presente vivido e começaram a relegar toda mudança significativa a um passado mítico - contribuindo assim. A história. Em seguida ele ressalta: “Quando encontrei em nossos antepassados alguma dessas virtudes tão vitais a uma nação. ensinava a inevitabilidade da mudança e desse modo ajudava a libertar esse presente do passado sem revolta nem ressentimento. Por isso. e determinar o que se ganhou com essa revolução”. a história tem uma oportunidade de se valer das novas perspectivas sobre o mundo oferecidas por uma ciência dinâmica e por uma arte igualmente dinâmica. Não viam no historiador alguém que prescreve um sistema ético específico. ambições elevadas. assim. Atualmente. o que quer que ela pudesse ser.é o novo estágio da existência. e o conjunto promove uma percepção mais realista da singularidade da época atual. escreve que na reflexão histórica o Espírito é “tragado na noite da sua própria autoconsciência. pois é à luz dos males que eles anteriormente provocaram que podemos avaliar os danos que ainda podem fazer”. mas hoje quase extintas . sempre que encontrei traços de algum daqueles vícios que depois de destruir a antiga ordem ainda afetam o corpo político. Tocqueville oferece o seu Ancien Régime como uma tentativa de “deixar claro em que aspectos [o sistema social presente] se assemelha ao sistema social que o antecedeu e em que aspectos se distingue dele. Balzac apresenta a sua Comédia Humana como uma “história do coração humano” que faz o romance avançar além do ponto em que Scott o deixara. E. válido para todos os tempos e lugares. a história era menos um fim em si que uma preparação para um entendimento e aceitação mais completos da responsabilidade individual na criação da humanidade comum do futuro.é que críticos como Nietzsche puderam acusá-los com razão de serem servos da trivialidade presente. sua existência desvanecida. De modo semelhante. um novo mundo.

é de certa boa vontade em enfrentar heroicamente as forças dinâmicas e destrutivas da vida contemporânea. pois a descontinuidade. tratava-se de descobrir se a vida devia ou não ter um sentido para ser vivida. Ao contrário. Poderíamos retificar a afirmação para ler: ela será mais bem vivida se não tiver um sentido único. a ruptura e o caos são o nosso destino. exercendo um efeito verdadeiramente humanizador. O historiador não presta nenhum bom serviço quando elabora uma continuidade especiosa entre o mundo atual e o mundo que o antecedeu. Mas a história só pode servir para humanizar a experiência se permanecer sensível ao mundo mais geral do pensamento e da ação do qual procede e ao qual retorna. que ela será mais bem vivida se não tiver nenhum sentido”. Só uma consciência histórica pura pode de fato desafiar o mundo a cada segundo. Agora se torna claro. se a geração atual necessita de alguma coisa. Se. 0 FARDO DA HISTÓRIA 63 proclamada por Camus quando escreveu: “Antes. E. a história tem-se convertido cada vez mais no refúgio de todos os homens “sensatos” que primam por encontrar o simples no complexo e o familiar no estranho. como disse Nietzsche. mas muitos sentidos diferentes. mas. pois somente a história serve de mediadora entre o que é e o que os homens acham que deveria ser. A história é capaz de prover uma base em que possamos buscar aquela “transparência impossível” que Camus exige para a humanidade ensandecida da nossa época. ela haverá de permanecer cega . precisamos de uma história que nos eduque para a descontinuidade de um modo como nunca se fez antes. . “temos a arte para não precisar morrer pela verdade”. enquanto se recusar a usar os olhos que tanto a arte moderna quanto a ciência moderna lhe podem dar. temos também a verdade para escapar à sedução de um mundo que não passa de uma criação dos nossos anseios. A partir da segunda metade do século XIX. pelo contrário. Tudo isso estava muito bem naquela época.cidadã de um mundo em que “as pálidas sombras da memória em vão se debatem com a vida e com a liberdade do tempo presente”.

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nos últimos vinte e cinco anos. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 89 A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA Os teóricos da historiografia geralmente concordam em que todas as narrativas históricas contêm um elemento de interpretação irredutível e inexpungível. o historiador deve inevitavelmente incluir em sua narrativa um relato de algum acontecimento ou conjunto de acontecimentos que carecem dos fatos que poderiam permitir uma explicação plausível de sua ocorrência. preenchendo as lacunas das informações a partir de inferências ou de especulações. E. Uma narrativa histórica é. faz-se necessário determinar até que ponto as explicações que os historiadores fazem dos acontecimentos passados podem ser qualificadas de relatos objetivos. da realidade. e ao mesmo tempo uma representação que é uma interpretação e uma interpretação que é tomada por uma explicação de todo o processo refletido na narrativa. sempre existem mais fatos registrados do que o historiador pode talvez incluir na sua representação narrativa de um dado segmento do processo histórico. De outro lado. E isto porque o registro histórico é ao mesmo tempo compacto demais e difuso demais. Exatamente pelo fato de admitirem geralmente o aspecto inelutavelmente interpretativo da história é que os teóricos apresentaram a tendência a subordinar o estudo do problema da interpretação ao da explicação. forçosamente uma mistura de eventos explicados adequada e inadequadamente. Admitindo-se que todas as histórias são em certo sentido interpretações. O historiador deve interpretar a sua matéria a fim de construir o padrão que irá produzir as imagens em que deve refletir-se a forma do processo histórico. têm tentado esclarecer o status epistemológico das representações históricas e . E isto significa que o historiador precisa “interpretar” o seu material. assim. excluindo de seu relato certos fatos que sejam irrelevantes ao seu propósito narrativo. assim. De um lado. uma congérie de fatos estabelecidos e inferidos. no empenho de reconstruir “o que aconteceu” num dado período da história. em vez de estudar os vários tipos de interpretações que se encontram na historiografia. se não rigorosamente científicos. E os teóricos da história. o historiador deve “interpretar” os seus dados.

dores”. Ele o faz presumivelmente reprimindo até onde for possível seu impulso para interpretar os dados. mas ver também Louis O. H. J. N. Sobre a filosofia especulativa da história. Marx. Mink. Ver Aríhur Child. dou continuidade a uma tradição da teoria histórica estabelecida durante o século XIX. Walsh. Certamente. Além disso. 1964). “Philosophical Analysis and Historical Understanding”. Ao adotar esta linha. feita por Ranke e seus epígonos. 1949). 90 TRÓPICOS DO DISCURSO estabelecer a sua autoridade de explicações28. ou pelo menos indicando. onde está apenas representando os fatos e onde os está interpretando. 1965). na época em que a história se constitui em disciplina acadêmica. o qual persegue objetivos mais modestos. Mas é costume admitir que a obra desses meta-historiadores difere radicalmente da obra do historiador propriamente dito. ver Dray. os aspectos explicativos e interpretativos da narrativa tendem a andar juntos e a se confundir de modo a dissolver a sua autoridade de representação do “que aconteceu” no passado ou de explicação válida da razão por que aconteceu como aconteceu29. ver W. costuma-se afirmar.). 1 (Octobcr 1957). Introáuction to the Phitosophy of History (London. pela qual se possa justificar aquelas estratégias interpretativas necessárias para a representação de um dado segmento do processo histórico. procura explicar o que aconteceu no passado mediante uma reconstrução precisa e minuciosa dos acontecimentos registrados nos documentos. pp. 1961). Esta tradição surgiu em oposição à reivindicação especiosa. do rigor científico da historiografia. Supõe-se geralmente que “os filósofos especulativos da história”. concebe-se que a explicação é posposta em rela- ção à interpretação.. 52-66. . Review of Metaphysics 21. “Five Conceptions of History”. 4 (june 1968): 667.698. Sobre a concepção da “filosofia especulativa da história” como mythopoesis implícita. O interesse da Europa Continental pelo problema da interpretação histórica se desenvolveu no contexto do interesse geral pela hermenêutica. Spengler e Toynbee. O “historiador propriamente dito”. H. Ethics 68. Ora. n. neste ensaio argumentarei que a distinção entre história propriamente dita e meta-história mais obscurece que esclarece a natureza da interpretação na historiografia em geral. em contrapartida. ver Karl Lõwith. e W. 28-38. Philosophical Anulysis and History (New York. Na meta-história. Philoxophy of History (Englewood Cliffs. Desse modo. 1963). 29 O termo meta-histôria é usado como sinônimo de “filosofia especulativa da história” por Northrop Frye em “New Directions from Old”. trabalham mais com “interpretações” mais ou menos interessantes da história do que com as supostas “explicações” que afirmam ter fornecido. como Hegel. 3. Philoxophy of History. Dray resume as principais questões na sua própria obra. no Canadá e na Grã-Bretanha. e idem. Para uma seleção representativa das abordagens do problema da explicação histórica desen- volvidas nos últimos vinte e cinco anos nos Estados Unidos. na teoria da história. pp. cap. o problema da interpretação na história tem sido tratado juntamente com as tentativas de analisar a obra dos grandes “meta-historia. em sua narrativa. 1966). Mcaning in History: The Theological Implica!ions of the Philoxophy of History (Chicago. renunciando ao impulso para decifrar o “enigma da história” e identificar o plano ou meta do processo histórico como um todo. sustentarei que não pode haver história propriamente dita sem o pressuposto de uma meta-história plenamente desenvolvida. 59 e ss. Interpretalion: A General Theory (Berketey e Los Angeles. quatro teóricos importantes da historiografia 28 Essa generalização é mais verdadeira no tocante aos teóricos americanos e ingleses do que aos da Europa Continental. Durante o século XIX. como elementos claramente discerníveis de toda representação histórica “propriamente dita”.. Dray (ed. em Fables of Ídentity (New York. n.

d. realidades com aquela plenitude de condi- ções que devem ter tido para poderem tomar-se realidades”. que constituía a sua própria abordagem32. Hegel. Droysen. . 3. Hegel. condicional. num discurso em prosa. compreender o registro histórico: romântica. Isto em comparação com a historiografia “original” ([ursprüngliche). Nietzsche e Croce viam na interpretação a própria alma da historiografia. Hegel entende a história escrita de um ponto de vista conscientemente crítico e com plena percepção da distância temporal entre o historiador e os acontecimentos sobre os quais ele escreve. History: hs Theory andPractice. “ingenuamente” sobre acontecimentos no seu próprio presente. ed. 1958). ed. G. procura extrair as leis gerais ou princípios que caracterizam o processo histórico como um todo. idealista. Droysen. por exemplo. “por que” aconteceu como aconteceu. pp. em Historik: Vorlesungen der Enzyklopãdie und Methodologie der Geschichte. que vão do historiador universal “ingenuamente” reflexivo (como Ti to Lívio) aos historiadores conceituais “sentimentais” de sua própria época (como Niebuhr). positivista e crítica33. 340-343. 1970). os “fatos”. (München. Droysen. Na categoria de historiografia reflexiva. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 91 rejeitaram o mito da objetividade que predominava entre os adeptos de Ranke. Douglas Ainslee (New York. 17-27. crítica e “super-histórica”. elaborava 30 G. A natureza quádrupla destas classificações dos modos de interpretação historiográfica é em si mesma significativa. por assim dizer. com base no simples registro. todos esses teóricos repudiaram a concepção rankiana do “olho inocente” do historiador e a noção de que os elementos da narrativa histórica. 32 Fricdrich Nietzsche. pp. psicológica e ética31. Em O Uso e o Abuso da História. à maneira de Tucídides. Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben (Basel. E. trad. 33 Benedetto Croce. na opinião de Droysen. e isto significava “ver realidades nos eventos passados. 236 e ss. Para Droysen. Todos eles ressaltaram o aspecto ativo. Por historiografia “reflexiva”. quero deter-me nas diferentes razões que cada um desses teóricos apresentou para insistir no elemento inelutavelmente interpretativo em toda narrativa histórica digna desse nome. na qual o historiador escreve. Nietzsche concebia quatro abordagens da representação histórica: monumental. 31 J. pragmática. e cada um tentou formular uma classificação dos seus tipos. Embora possamos dizer com alguma segurança “o que aconteceu”. Por enquanto. Hegel. W. e com a historiografia “filosófica” (philosophischc). 1960). com graus diferentes de legitimidade. distinguia quatro tipos de interpretação dentro da classe do que ele chamou historiografia reflexiva: universal. Vorlesungen überdie Philosaphíe der Geschichte (Frankfurt am Main. refletindo sobre as obras dos historiadores. Esse “ver” era um ato de cognição e. Croce sustentou ter encontrado quatro posições filosóficas diferentes a partir das quais os historiadores do século XIX afirmaram.). finalmente. 14 e ss. impunha-se a interpretação apenas porque o registro histórico era incompleto. O registro tinha de ser interpretado. mais adiante comentarei a sua significação para um entendimento da interpretação em geral. também discernia quatro possíveis estratégias interpretativas na escrita histórica: causai. crítica e conceituai30. s. nem sempre podemos dizer. eram fornecidos apoditicamente. Rudolf Hubner. pp. Hegel estabelece novas distinções com base na autoconsciência crítica do historiador. Em primeiro lugar. VerJag Birkhauser. da suposta “investigação” do historiador daquilo “que realmente aconteceu” no passado. inventivo. devia ser distinguido da atividade mais obviamente “artística” em que o historiador. “Grundriss der Historik’'. antiquária. F. e não constituídos pela própria ação do historiador. na qual um filósofo. escrevendo na década de 1860. pp.

Outline of the Principies of History (Boston. na medida em que contêm as leis”.” pp. salientava ele. A menor esfera da experiência ensinará isso”.consciência critica de natureza especificamente filosófica. “pensar uma coisa junto com outra e tecer os elementos num todo singular. feita por E. p. “Em outras disciplinas”. Mas. em contrapartida. p. e ambos insistiam em que os esforços deste para compreender os fatos tinham de ser guiados por um tipo de auto. tal como outras formalizações da intuição poética. poder e beleza que existe nela” 36. p. 1893). se as generaliza- ções do historiador devem vigir como leis. negava que o valor da história estivesse na revelação de fatos conhecidos anteriormente ou na generalização que se poderia operar por reflexão sobre os fatos. Esta objetividade não era a do cientista nem a do juiz no tribunal. mesmo na representação a interpretação era necessária. mais especificamente a do dramaturgo. Ambos estavam preocupados em estabelecer a autoridade cognitiva das representações do passado por parte do historiador. em The Use and Abuse of History (Indianapolis e New York. era tanto uma “criação” (uma inventió) quanto uma “descoberta” dos fatos abrangidos pela estrutura de suas percepções1'1. 59 (na trad. 39). As citações dessa obra no texto são feitas a partir da tradução de Adrian Collins. pois o resíduo de verdade contido nelas.92 TRÓPICOS DO DISCURSO uma representação literária adequada das “realidades”. Hegel e Croce. “as generalizações são as coisas mais importantes. religioso e filosófico). em elevar a melodia popular a símbolo universal e em mostrar o mundo de profundidade. Além disso. 1957). ele concluía. de Collins. 344. uma vez removida a parte obscura e insolúvel. e na sua convicção de que a história. Nietzsche. Onde diferiam da maioria dos seus sucessores filosóficos era na sua crença de que a poesia constituía uma forma de conhecimento. nada mais é que o conhecimento mais corriqueiro. mas a do artista. Mas. 57. Andrew. poderia exigir ser chamada de objetiva no mais alto grau” 35. não obstante. na presunção de que a unidade do plano deve ser posta nos objetos se ainda não estiver afNietzsche se confessava capaz de imaginar “um tipo de escrita histórica que não tinha nada do fato comum e que. 37-38. evidentemente. pp. como Droysen e Nietzsche. B. já que os historiadores poderiam escolher com base em dados estéticos estruturas de enredo diferentes através das quais pudessem dar às sequência s de eventos sentidos diferentes enquanto tipos de estória34. S. Hegel e Croce colocavam a historiografia entre as artes literárias e buscavam basear numa intuição poética do particular os discernimentos do historiador acerca da realidade. na verdade a base de todo conhecimento (científico. 361-362. Entretanto. “Grundriss der Historik. 26. relutaram em ir tão longe nas suas conceituações das atividades interpretativas do historiador. o verdadeiro valor da história está “em inventar variações ingênuas sobre um tema provavelmente corriqueiro. Nietzsche. vale dizer. Vom Nutzen und Nachteil der Historie. 339. 34 Droysen. p. Pelo contrário. então “o trabalho do historiador é inútil. insistia em que a interpretação era necessária na historiografia por causa da natureza dessa “objetividade” que o historiador se empenhava em alcançar. ele observava. A tarefa do historiador era pensar dramaturgicamente. A citação é da versão inglesa da obra de Droysen. 36 Nietzsche. . Vom Nutzen und Nachteil der Historie.

sendo impedidos pela natureza dos acontecimentos de que se ocupam. Pkilosopky and lhe Historical Understanding (New York. Um grupo. é analisada de maneira convincente em Arthur C. Philosophical Analysis and History. A estrutura lógica das narrativas históricas. embora “literária” na forma. portanto. sustentou que os historiadores explicam os eventos que compõem as suas narrativas por meios especificamente narrativos de codificação. cujo resultado não é previsível antes da sua conclusão. dispondo- os numa ordem intemporal e fazendo-os desenvolver-se pouco a pouco ante o olhar fixo do leitor.” reproduzido em Dray. 1965). insiste esse grupo. em Dray. Gallie. adotando uma postura um pouco mais literária. devem fazê-lo empregando as mesmas táticas “dedutivas e nomológicíLs” das ciências físicas. c basicamente a mesma em todas as áreas de investigação científica” e que. afirmou que os historiadores explicam os acontecimentos passados somente na medida em que conseguem identificar as leis de causalidade que regem os processos nos quais ocorrem os eventos. parciais ou vagas. tenderam a diminuir a importância do elemento interpretativo nas narrativas históricas. na medídii em que os historiadores “explicam” e desse modo fornecem o “entendimento” dos acontecimentos passados. ‘The Autonomy of Historical Understanding”. Ver a exposição e a crítica desse ponto de vista por Alan Donagan. Danto. ver W. Philosophical Analysis and History. pp. Uma explicação “narrativista” na história qualifica-se de contribuição ao nosso conhecimento objetivo do mundo por ser empírica e estar sujeita a técnicas de verificação e invalidação da mesma forma que estão as teorias da ciência38. “The Popper-Hempel Theory Reconsidered”. 160-192. os teóricos contemporâneos solucionaram de duas maneiras o problema do status epistemológico da história.e. Desembrulhando os elementos do jogo terminado. 1968). Mas tal explicação. têm-se preocupado em recuperar a reivindicação de um status científico por parte da história . . no tocante a uma explicação desses acontecimentos. pp. isto é. A tese de Hempel ê que “a explicação. Além do mais.. um processo histórico se assemelharia mais ao desenrolar de um jogo esportivo. não deve ser considerada não-científica ou anticientífica. Philosophical Analysis and History. Hempel. De modo geral. Inclinaram-se a inquirir até que ponto uma narrativa histórica pode ser considerada algo de diferente de uma simples interpretação. “Explanation in Science and in History. B. Ambos os grupos de teóricos admitem que a 37 A clássica defesa da concepção nomológico-dedutiva da explicação histórica é de Carl G. Para uma defesa desse ponto de vista. Mink. Analiti. o historiador faz com que a articuíação desses elementos* “possa ser seguida apesar de tudo" de uma forma que não fora possível durante o seu desenrolar original. Outro grupo. cap.cal Philosophy of History (Cambridge. Nesta concepção. pp. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 93 Filósofos contemporâneos. mas que é compreensível retrospectivamente. O historiador torna compreensível dado processo histórico mediante o tipo de retrospecto desenvolvido pelos comentaristas esportivos após o término de determinado jogo. na suposição de que o que é interpretação não é conhecimento mas apenas opinião. em Dray. trabalhando com a convicção de que as in- tuições poéticas e científicas são mais diferentes do que semelhantes. mas que. 2. descobrindo a estória que está encerrada nos eventos ou por trás deles e contando-a de uma maneira que um homem medianamente culto possa entender. 127-159. o melhor a que podem aspirar legitimamente. e Louis O. adotando uma visão positivista da explicação. são p seu do-expl a nações perosas. 38 A concepção narrativista da explicação histórica sustenta que os historiadores proporcionam o entendimento dos eventos e processos passados esclarecendo a linha “estórica” dos segmentos finitos do registro histórico. sustentam que a história só pode reivindicar o status de ciência na medida em que os historiadores conseguem realmente identificar as leis que em última análise determinam os processos históricos37. 95- 126. baseadas no modo do que se chamou “sentenças narrativas”.. e na crença de que o que não é objetivo num sentido científico não é digno de ser conhecido.

por sua vez. aconteceu alguma coisa? Qualquer episódio histórico . a “história” nunca é apenas a história. a história escrita no interesse de algum objetivo ou visão 39 Ver Isaiah Berlin. se os fatos históricos são constituídos. em O Pensamento Selvagem. observa ele. Isto quer dizer que. os fatos históricos não são de forma alguma “dados” ao historiador. Além disso. Assim. mas. pp. afirma Lévi-Strauss. Eles diferem. Claude Lévi-Strauss asseverou que a coerência formal de qualquer narrativa histórica consiste exclusivamente num “esquema fraudulento” imposto pelo historiador a um corpo de material que só poderia ser chamado de “dados” no sentido mais amplo do termo. hormonais ou nervosos. segundo ele. em inferir motivos de agentes históricos e em avaliar o impacto. da mesma forma são “escolhidos” e não fornecidos apoditicamente como elementos de uma narrativa. eles estão inclinados a ver nele o empenho do historiador em preencher por especulação as lacunas do registro.pode ser decomposto numa “multidão de momentos psíquicos e individuais”. mas onde. destacá-los e recortá-los” para fins narrativos. e estas se resolvem em fenômenos cerebrais. devem ser constituídos uma segunda vez como elementos de uma estrutura verbal que sempre é escrita com um propósito específico (manifesto ou latente).94 TRÓPICOS DO DISCURSO interpretação pode entrar no relato do passado pelo historiador em algum ponto da construção de sua narrativa e aconselham que os historiadores tentem distinguir aqueles aspectos dos seus relatos que têm fundamentos empíricos daqueles que se baseiam em estratégias interpretativas. são “constituídos” pelo próprio historiador “por abstração e como que sob a ameaça de uma regressão ao infinito”. Os críticos da historiografia como disciplina. contudo. Cada um desses momentos. Philosophical Analysis oncl History. . Defrontado com um caos de “fatos”. Um fato histórico é “o que aconteceu realmente”. basicamente. Em suma. conclui Lévi-Strauss. adotaram opiniões mais radicais sobre a questão da interpretação na história. originariamente constituídos pelo historiador como dados.de uma revolução ou de uma guerra. em Dray. Quanto ao elemento interpretativo que poderia figurar num relato histórico do passado. Os relatos históricos são inevitavelmente interpretativos. afirma Lévi- Strauss. pode ser traduzido numa manifestação de algum processo mais fundamental de “evoluções inconscientes. por exemplo. por causa de “uma dupla antinomia [subjacente] à própria noção de fato histórico”. a influência ou a significação de fatos estabelecidos empiricamente com relação a outros segmentos do registro histórico39. chegando a afirmar que os registros históricos nada mais são que interpretações. Assim. antes. 40- 51. em torno da questão da natureza formal exata do elemento explicativo presente em qualquer narrativa histórica responsável. ele pergunta. por exemplo . o historiador deve “escolhê-los. cujas referências são também de ordem física e química”. os fatos históricos. tanto no estabelecimento dos eventos que constituem a crônica da narrativa quanto nas avaliações do sentido ou significações desses eventos para o entendimento do processo histórico em geral. mas sempre a “história-para”. “The Conccpt of Scientific History”. e não dados.

Como diz Lévi-Strauss: “A despeito dos esforços meritórios e indispensáveis para dar vida a um outro momento da história e para apropriar-se dele. ele observa que nelas os autores nem sempre fazem uso dos mesmos incidentes. Em sua “Introdução a Le Cm et le Cuit”. 1966). em La Pensée Sauvage. 1966). Em suma. 41 Ciaude Lévi-Strauss. todavia. 257.acontecimentos cuja realidade se dispersa por cada nível de uma estrutura multiestratificada. Pois a crônica não é menos constituída em registro do passado pela própria ação do historiador do que o é a narrativa que ele elabora com base nela. “Overture to Le Cru et le cuit". cada elemento mostra que está fora de alcance. de seu suposto conteúdo “factual”. qualquer “pretensa continuidade histórica” que se pudesse estabelecer em tal relato “só pode ser assegurada por meio de esquemas fraudulentos” impostos pelo próprio historiador ao registro. “procurado isoladamente. porém. é a coerência do mito. Ao contrário. Mas alguns deles derivam sua coerência do fato de poderem ser integrados a um sistema cujos termos são mais ou menos críveis quando comparados à coerência global da série”. isto é. com efeito. os incidentes são revelados sob luzes diferentes. Lévi-Strauss admite que a história pode distinguir-se do mito em virtude da sua dependência dos “dados” que constituem a sua especiosa estrutura objetiva. Comentando a pletora de obras que se ocupam da Revolução Francesa. não se encontram aí apenas cronologias “quentes” e “frias” (cronologias em que aparece um número maior ou menor de dados a exigir inclusão em algum relato cabal daquilo “que estava acontecendo”). continua ele. p. 40 Claude Lévi-Strauss. e em virtude da sua responsabilidade para com eles. Pois. quando o fazem. uma história clarividente deveria admitir que ele jamais escapa completamente à natureza do mito”41. o mesmo período e os mesmos acontecimentos . o recurso à sequência cronológica não oferece nenhum indulto da acusação de que a coerência do relato histórico é mitológico em sua essência. no entanto. diz ele. Jaeques Ehrmann (New York. Isto sugere que o critério de validade pelo qual se poderia avaliar os relatos históricos não pode depender de seus “elementos”. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 95 infracientíficos40. As datas. em Structuralism. The Suvage Mind (London. A coerência da série. Mas. . ed. os próprios dados já nos chegam agrupados em “classes de datas” que constituem os supostos “domínios da história” que os historiadores de uma dada época têm de enfrentar na forma de problemas a solucionar. justificam a busca de “relações temporais” por parte do historiador e sancionam a conceituação dos acontecimentos em função “da relação do antes e do depois”. Lévi-Strauss afirma que o aspecto interpretativo da historiografia é especificamente mítico. Decerto. 47-48.. observa ele. estas são variações relacionadas com o mesmo naís. pp. mesmo essa confiança no registro cronológico não isenta o historiador de interpretações míticas do seu material. mais importante ainda. E quando se trata de elaborar um relato abrangente dos vários domínios do registro histórico. E.

Opondo-se à crença humanista de que o homem ou o ser humano em geral é o objeto peculiar da reflexão histórica. de recorrência ou de catástrofe casual”44. Assim sendo. Marx e Spengler. a escolha relativa do historiador é sempre entre uma história que ensine mais e explique menos e uma história que explique mais e ensine menos”42.. quando o projeto de um historiador atinge certo nível de abrangência. Collingwood. se aproxima do poético em sua estrutura”. 44 Frye.. na medida em que o historiador deve necessariamente “interpretar” os “dados” que lhe são oferecidos pelo registro histórico a fim de fornecer algo como uma “explicação” deles. que a experiência prova ser indispensável para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura qualquer. assevera Lévi-Strauss. observa Frye: “Notamos que. representam produtos de decisões de ignorar domínios específicos no intuito de obter uma coerência puramente formal na representação. insiste Frye. ainda que como “método” ela contribua para as ciências graças às suas operações de inventariação. 53-54. G. em última análise. os historiadores devem decidir se querem explicar o passado (caso em que são obrigados a modos míticos de representação) ou apenas acrescentar ao corpo de “fatos” que requerem tal representação. “consiste inteiramente em seu método. . Todavia.mana”. de um lado. são místicos em sua essência43. humana ou não-hu.96 TRÓPICOS DO DISCURSO Estes “esquemas fraudulentos”. [de] mitos históricos cômicos do progresso mediante evolução ou revolução. diz ele. afirma ele. . A história. ele se toma mítico na forma e.tórica” criados por Hegel. pp. mitos trágicos de declínio e queda. “em relação a cada domínio da história ao qual ele renuncia. Esta concepção da historiografia apresenta notáveis semelhanças com as de Northrop Frye e do falecido R. de outro. Então. Ou. a história não é de modo algum uma ciência. constituem a soma total dessas supostas “explicações” que os historiadores oferecem de estruturas e processos do passado. transmitir informação. pp. segundo a análise de Lévi-Strauss. O que o historiador oferece como explicações das estruturas e processos do passado. se reconhecermos que “a história é um método ao qual não corresponde um objeto específico”. p. Estes dois pensadores analisam o elemento do “constructo” na representação histórica.. 258-262. em suas próprias palavras. Scivage Mind. Lévi-Strauss sustenta que a história “não está ligada ao homem nem a nenhum objeto particular”. Estas explicações. na forma de narrativas. é uma disciplina sem um objeto particular que lhe seja atribuído com exclusividade. E este dilema só pode ser evitado. “New Directions from Old”. o historiador não impõe (ou pelo menos não deveria 42 Lévi-Strauss.. por sua vez. são simples formalizações desses “esquemas fraudulentos” que. E isto significa que a interpretação histórica figura naquele espaço criado pela tensão entre o impulso para. 43 Idem. E continua a falar de “mitos históricos românticos baseados numa busca (ou peregrinação) de uma Cidade de Deus ou de uma sociedade sem classes. assim. 262. Num breve ensaio sobre os tipos de especulação “meta-his. [e de . explicar e.

Frye deve estar pronto a admitir que existe um elemento mítico na história tradicional pelo qual as estruturas e processos descritos em suas narrativas são dotados de sentidos de um tipo especificamente fictício. de tal modo que a sua natureza de processo abrangente seja revelada por figurar como uma estória de um tipo particular. na sua própria análise das estruturas da ficção em prosa. E. o historiador trabalha com vistas a unificar a forma da sua narrativa. não é substantiva. que. “New Directions from 0!d”. Este elemento mítico na sua obra é reconhecível naqueles relatos históricos que. trabalha “dedutivamente”. não menos que os poetas. adquirem uma “disposição explicativa” . Vista desse modo. a estória está para o enredo assim como a exposição do “que aconteceu” no passado está para a caracterização sinóptica daquilo que 45 Frye. Mas a diferença entre um relato histórico e um relato ficcional do mundo é formal. . Estendendo as ideias de Frye. em virtude do seu recurso implícito àquelas “estruturas de enredo genéricas” ou formas arquetípicas de estória que definem as modalidades de uma dada dotação literária da cultura30. apela para seus leitores como representação plausível do mundo. coletando os seus fatos e tentando evitar quaisquer padrões de formação. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 97 impor) um padrão aos seus dados. quando constroem em suas narrativas padrões de sentido semelhantes aos fornecidos de maneira mais explícita pela arte literária das culturas a que pertencem. depois de ter terminado a sua “pesquisa”. deve proceder “indutivamente. pode-se afirmar que a interpretação na história consiste em fornecer a uma sequência de acontecimentos uma estrutura de enredo. nos próprios fatos”. é secundário. Na narrativa histórica. O que um historiador pode urdir na forma de uma tragédia. Pode-se dizer que uma interpretação histórica. reside nos pesos relativos atribuídos aos elementos construtivos presentes neles: “O padrão de composição do livro do historiador. a partir de uma apreensão do padrão que tenciona impor ao seu assunto. 54-55. tal como uma ficção poética. Pode-se dizer que.além e acima de quais- quer explicações formais que possam oferecer de eventos históricos específicos. embora queira acreditar que a história tradicional pode ser distinguida da meta- história. a “estória” que o historiador intenta “encontrar” no registro histórico é proléptica ao “enredo” pelo qual os acontecimentos são por fim revelados para representar uma estrutura reconhecível de relações de um tipo especificamente mítico. Desse modo. no entender de Frye. Diferentemente do poeta. exceto aqueles que ele vê. outro pode fazê-lo na forma de comédia ou de romance. pp. ou tem a honesta convicção de ver. que é o seu mythos ou entrecho. Frye é sensível ao grau em que elas se parecem uma com a outra. embora pretenda insistir nas importantes diferenças entre poesia e história. como O Declínio e Queda do Império Romano de Gibbon. da mesma forma que o detalhe é secundário para o poeta”45. continuam a ser reverenciados como clássicos muito tempo depois que os “fatos” neles contidos foram reconhecidamente apurados por pesquisas subsequentes e que seus argumentos explicativos formais foram transcendidos pelo advento de novas teorias sociológicas e psicológicas. os historiadores.

estamos cientes de um padrão estrutural organizador ou de um mito conceptualizado”47. senão “leis”. por seieção-e-arranjo de termos apropriados que constituem a sua forma. 47 Frye. para atribuir aos tipos do fato em questão o elemento ou a qualidade do causativo. Sobre a distinção entre estória e enredo. 1965). Lee T. 115-121. em The . trad. isto é. diz ele. como o poeta. Hisiory. Philosophy af History. “Fiction. a gravidade e o respeito apropriados” que o leitor deve conceder às espécies de fatos descritos na narrativa48. quando terminamos de ler. p. Myth: Notes towards the Discrimination of Narrative Forms”. e Walsh. em suma. “formalmente.e como situar com precisão os constituintes do pensável. não é apenas um historiador “romancista”. portanto. . por assim dizer. “todo evento ocupa. No segundo nível de interpretação é que a consciência mítica atuaria de forma mais clara. O elemento mítico na narração histórica. 352-353. Lemon e Marion J.. segundo Frye.. E. Walsh distingue entre uma “mera” crônica e a “narrativa plana” construída pelo historiador a partir dos eventos contidos na crônica.98 TRÓPICOS DO DISCURSO toda a sequência de eventos contidos na narrativa poderia “querer dizer” ou “significar”46. Aqui. como Lévi-Strauss parece sugerir. Há. e Boris Eichenbaum. ou da causalidade. e definir. indica. pp. na história como na ficção. embora amiúde violadas.. O conflito entre essas duas interpretações da história da França não ocorre no nível dos “fatos” que compõem a crônica do processo em análise. “The Autonomy of Historical Understanding”. Michelet. Na “narrativa piana”. Atua. segundo convenções literárias bem conhecidas. antes. 66-75. Utilizo o termo enredo quase que tio mesmo sentido com que Mink usa a noção de “sintaxe” dos eventos. pp. “Thematics”. “The Theory of the ‘Formal Mcthod’”. convenções que o historiador. o ideal do historiador é em princípio idêntico ao do romancista ou do dramaturgo”. da narração histórica. o seu lugar natural. a origem genérica. 179-186. epopeia ou sátira. segue-se que existem pelo menos dois níveis de interpretação em toda obra histórica: um no qual o historiador constitui uma estória a partir da crônica dos acontecimentos e outro em que. ele identifica progressivamente o tipo de estória que está contando . conforme o caso. “enquanto lemos. que o historiador busca dentro ou por trás da confusão de fatos com que se depara na narrativa. Anutomy. mas antes no nível em que a estória a ser narrada sobre os fatos se constitui na forma de uma estória de um tipo particular. pp. 33. E o suposto realismo de Tocqueville. ele trama de modo consistente a sua história da França até a Revolução de 1789 na forma de um “romance”. tão amiúde comparado ao presumido romantismo de Michelet. romance.comédia. mediante uma técnica narrativa mais fundamental. começa a assimilar desde o primeiro momento em que lhe contam uma estória quando criança. 46 Ver Mink. essa espécie ou classe de importância peculiar à ocasião que abrangem. usando os termos de Frye.. e faz parte de um todo inteligível. ver Boris Tomashevsky. consiste em grande parte na sua decisão de urdir essa mesma história no modo da tragédia. ambos em Russian Formalist Criticism: Four Essuys. ela não atuaria caprichosamente. se isto for verdade. por exemplo. os mitos atuam da maneira sugerida por Warner Berthoff: não para explicar o que se pode pensar acerca dos acontecimentos e objetos no campo da percepção. pp. 48 Warner Berthoff. mas com que grau de força pensar . Ou. Mas. “normas”. tragédia. Reis (Lincoln. estamos cônscios de uma sequência de identificações metafóricas. Neste aspecto.

a imaginação construtiva não se limita. Na análise que faz da extensão com que os historiadores ultrapassam legitimamente o que as suas “autoridades” lhes dizem ter acontecido no passado. o historiador estabelece a “moldura” de sua narrativa. 277-278. G. O problema do historiador. pp. Bloomfield (Cambridge. pp. Collingwood postulava uma estratégia duplamente interpretada: crítica e construtiva. Entretanto. ele insistia em que a imaginação construtiva era simultaneamente apriorística (o que significava que não agia caprichosamente) e estrutural (o que significava que era regida por noções de coerência formal em sua constituição de possíveis objetos de pensamento). 1946). . Desse modo. 50 Collingwood. Mediante a crítica dos documentos. porém. a partir do conhecimento dos fatos que se sabe terem efetivamente ocorrido. o conjunto de fatos a partir do qual uma “estória” deve ser moldada no relato narrativo que faz deles. por exemplo. de fato. segundo Collingwood. cada uma diferente das outras. sustentava Collingwood. à inferência de relações e processos puramente físicos. todas distintas em seus detalhes. O que o historiador deve ter no momento de examinar o registro são noções gerais dos tipos de estórias que lá se poderiam encontrar. da ação daquela “imaginação construtiva” sem a qual nenhuma narrativa histórica poderia ser produzida49. se sabemos que César esteve na Gália numa determinada época e em Roma noutra época. por mais bem atestados que fossem pelo registro documentário . E a formulação de tais inferências era um exemplo. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 99 A distinção invocada até aqui . Certamente. 1970). The Idea of History (Oxford. Pois. Na fase crítica de sua obra. Collingwood tendia a concluir que o possível objeto de pensamento em questão era a estória do que de fato aconteceu numa dada época e lugar no passado. era permitido aos historiadores abeberar-se no conhecimento científico da sua época para justificar a rejeição de certos tipos de fatos. uma vez estabelecida esta moldura. Collingwood. 239-241. Morton W. pp. por exemplo. Ao mesmo tempo. The Idea of History. estão contidas ali um número infinito dessas estórias. ed. Mas certamente o historiador não leva consigo uma noção da “estória” que está incrustada nos “fatos” dados pelo registro. O que era “descoberto” no registro histórico pelo historiador tinha de ser ampliado por projeção sobre o registro histórico daquelas noções de possíveis estruturas de ser e comportamento humanos existentes na consciência do historiador antes mesmo que ele começasse a investigação do registro50. na sua exposição do assunto. Interpretation of Narrative: Theory and Practice. quando rejeitam os relatos amplamente atestados de milagres. 241-245.como. afirmava ele. 49 R. é preencher as lacunas do registro por meio de uma dedução dos fatos que “devem ter ocorrido”. A imaginação construtiva dirige a atenção do historiador para a forma que um dado conjunto de acontecimentos deve ter a fim de servir de possível “objeto de pensamento”. podemos inferir legitimamente que ele deve ter ficado entre esses dois locais no intervalo entre essas duas épocas.entre estória e enredo na narração histórica - é semelhante à promovida por Collingwood em sua análise da interpretação histórica em Idea of History.

A distinção entre “estória” e “enredo” na narrativa histórica nos permite. Se. De fato. Tocqueville descreve a queda do Antigo Regime como um declínio trágico. Ora. Por exemplo. a afirmar que não estou invocando a distinção entre estória e estrutura de enredo para defender a teoria das ficções específica de Frye. todos. Tocqueville interpreta a um só tempo como um fardo e uma oportunidade. uma dada sequência de eventos pode ser urdida de inúmeras formas diferentes. se podem beneficiar os sobreviventes do ágon. na sua historiei d ade26. porém. como Lévi- Strauss observa corretamente. isto não quer dizer que os tipos de estórias que podem ser contadas sobre a Revolução Francesa são infinitos em número. em que Burke viu uma verdadeira calamidade nacional. Em outras palavras. os acontecimentos que ocorreram na França em 1789-1790. pois. da mesma maneira que deve recorrer ao mesmo lastro de mythoi existente na mente de seus leitores para conferir ao seu relato do passado o odor de sentido ou significado. por um arranjo específico dos acontecimentos relatados nos documentos. na Alemanha de sua época. especificar o que está envolvido numa “explicação narrativa”. o que Michelet toma como um legado inconfundível desses eventos para a sua própria época.parando-a com as “cômicas” tentativas. É como se Homero. Sófocles. o historiador deve abeberar-se no lastro de mythoi fornecidos pela cultura a fim de construir os fatos de modo a configurar uma estória de tipo particular.100 TRÓPICOS DO DISCURSO exatamente da mesma forma que deve ter. no momento de examinar o problema da representação narrativa. Aristófanes e Menandro tivessem. levantar o problema da distinção entre estórias e estruturas de enredo é curvar-se sobre uma questão que os críticos literários hostis à teoria das ficções de Northrop provavelmente consideram intragável. Michelet os considera uma epifania daquela união do homem com Deus que inspira o sonho do romance de ser uma forma genérica de estória. e sem prejuízo do valor de verdade dos fatos selecionados. além disso. tomado o mesmo conjunto de acontecimentos e criado a partir deles o tipo de estória que cada um preferia para representar a imagem daquilo que “realmente foi” a vida humana. De modo semelhante. de manter o feudalismo por meios artificiais. caracteriza explicitamente a queda do Antigo Regime como uma “tragédia”. com. Os tipos de estórias que se pode contar sobre a Revolução Francesa se limitam ao número de modos de enredo que os mitos da tradição literária do Ocidente sancionam como modos adequados de dar sentido aos processos humanos. Apresso-me. Marx. Invoco a distinção para sugerir a sua utilidade como um meio de identificar o . cada um dos historiadores mencionados conta uma estória diferente sobre a Revolução Francesa e a “explica” à sua maneira. alguma noção da “estrutura de enredo pré-genérica” que possa dar coerência formal à estória que ele narra. Em suma. do qual. é possível contar um grande número de estórias diferentes sobre o único conjunto de acontecimentos que se convencionou designar pelo nome de “Revolução Francesa”. que interpreta as estruturas de enredo pré- genéricas como sendo as formas “deslocadas” dos mythoi que presumidamente dão a diferentes ficções poéticas um entre os seus vários efeitos emotivos específicos. por outro lado. ao passo que para Burke essa mesma queda foi um processo de degradação do qual pode derivar pouco ou nenhum benefício.

crescendo irresistivelmente. na qual se tornaram finalmente manifestos os verdadeiros princípios da vida nacional. Charles Cocks (Chicago. 1955). O grau de deslocamento da estrutura de enredo informativa (mítica) pode ser maior na história do que na poesia.epopeia . . a “forma” pode ser concebida como um princípio “formador” ou como um princípio “includeme”. Já Michelet fala dos acontecimentos de 1789-1790 como uma época de unidade perfeita do povo. comédia. da natureza e de Deus: “A fraternidade removeu todo obstáculo.. Mas essas representações do mundo em prosa assertiva na forma de história não podem ser assimiladas à categoria do científico de um modo inambíguo. suscitadas pela energia moral. por parte do historiador. considera a sua própria época da Restauração como uma condição perfeitamente “reconciliada”. se Collingwood está correto em sua análise das atividades da “imaginação construtiva” na composição das narrativas históricas. progredindo em meio a todo o tumulto do mundo rumo ao ideal. materiais e espirituais. trad. pp. então é possível concluir que o elemento construtivo que ele discerniu em toda narrativa desse tipo está contido exatamente na escolha. nos seus ciclos. pode-sc pensá-lo como fornecendo “sentido” a distinção de Frye entre mitos (não-deslocados). Mas a pressuposição subjacente à teoria das ficções exposta em Anatomy of Critictim é que as visões míticas do mundo que não foram deslocadas se opõem à visão de mundo que fundamenta estruturas “realistas” de prosa discursiva. na sua gravkação mútua. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 101 elemento especificamente “fictício” nos relatos históricos do mundo 27. apenas uma é necessária agora . quando sugere que “há algo do mesmo tipo de afinidade entre poesia e metafísica que há entre poesia e meta-história” (p. nos seus sistemas!” Theodore von Laue. tragédia ou sátira. 1961). ver o famoso capítulo 3 da Parte I de The Old Regime and the French Revolution.a França. pp.. 180. e por conceituações científicas da realidade. Burke caracteriza a Revolução Francesa como um “estranho caos de frivolidade e ferocidade” em que “todos os tipos de crime” se “misturam a toda sorte de loucura”. pp. estes corpos celestiais. do país. Stuart Gilbert (New York. Para a comparação de Marx entre a história da França e a da Alemanha em função da natureza “trágica” da primeira e da natureza “cômica” da segunda.Chega de federações! Elas são inúteis. com as “ficções” ocupando um plano médio entre elas. ficção e formas de discurso em prosa direta como a historiografia. Leopold von Runke: The Farmative Years (Princeton. 442-444. Pois. 21-22. 1967). descritiva e assertiva. 1950). Ranke. todas as federações estão prestes a se confederar e a união tende à unidade. como . cada uma ao seu próprio modo! Observai- as. p. 27. trad. Constitui uma verdade apenas superficial que a história dirige a sua atenção mais para o conteúdo da narrativa (para os “fatos”) cue para a forma da narrativa em que estão incrustados. 56). conforme o caso. Ver Rejlecíions. Ele a chama de “monstruosa cena tragicômica” e compara-a à Revolução Inglesa de 1688. ver sua Critique ofHegeVs Phtlosophy ofRight. de uma “estrutura de enredo pré-genérica” ou “mito” por meio da qual se possa identificar a estória que ele contou como uma “estória de um tipo particular” . Em suas Reflections on the Revolution in France (New York. 5 da mesma Parte I. Frye aborda este ponto no seu ensaio “New Directions from Old”. Em seu Politische Gesprüche. pp. 10-13. de outro. Esta dicotomização seria bastante legítima se os pólos do espectro fossem representados por visões míticas. “O que realizou a Revolução Francesa?”. e cap. Para a concepção tocquevilliana da Revolução. é possível pensá-lo como uma narrativa. e não de tipo. e ela parece transfigurada na glória de julho. uma história é em certo nível uma alegoria. Tal como o romance realista. de um lado. “listas diversas comunidades separadas. romance. ele caracteriza nos seguintes termos o sistema dos Estados-nação que tomou forma no despertar da época revolucionária. e a afirmar que as semelhanças entre estas três formas são tão importantes para o entendimento da interpretação histórica quanto quaisquer diferenças entre elas que possamos aceitar como especificadas validamente. Dos elementos formais das narrativas históricas podemos dizer o que Frye diz das ficções em geral. Tudo respira o puro amor à unidade”. Jules Michelet. 29-37. Isto me obriga a rejeitar 26. History ofthe French Revolution. com uma confiança tipicamente “cômica” no poder da história para efetuar por meios malévolos uma ordem política geralmente saudável. como “includente”. Ou seja. E sugerirei que um certo elemento na interpretação pelo historiador dos eventos descritos na história que ele conta. mas as diferenças entre uma história e um relato ficcional da realidade é uma questão de grau. Como “formador”. 19-21.

102 TRÓPICOS DO DISCURSO

um modo de explicar o que aconteceu no passado, reside na escolha da “estrutura
de enredo pré-genérica” através da qual uma crônica de eventos se transforma
numa “história” que os seus leitores compreendem como sendo uma “estória” de
tipo particular.
Certamente, mediante essa ampliação dos argumentos de Frye no tocante à
estrutura das ficções poéticas, a distinção entre a história convencional e a meta-
história tende a se dissolver numa questão de ênfase. É concebível que as narrativas
históricas do tipo produzido por Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt têm os
mesmos atributos formais que as “filosofias da história” elaboradas por Hegel,
Marx, Spengler e Toynbee. Isto não quer dizer que não possamos encontrar
diferenças óbvias entre um relato histórico que visa apenas contar uma estória e os
que vêm acompanhados de complexas teorias da causalidade histórica e de
sistemas de implicação ideológica formalmente articulados. Mas quer dizer que a
diferença convencionalmente invocada - entre, de um lado, um relato histórico que
“explica” contando uma estória e, de outro, aquele que conceitualmente
sobredetermina os seus dados no interesse de impor uma forma específica ao
processo histórico - tanto obscurece quanto esclarece no que tange à natureza da
interpretação na escrita histórica.
Com efeito, pode-se afirmar que, assim como não pode haver explicação na
história sem uma estória, também não pode haver estória sem um enredo por meio
do qual ela seja convertida num tipo particular de estória. Isto vale mesmo para o
relato histórico mais conscientemente impressionista, como seria o quadro
frouxamente organizado que Burckhardt traçou da cultura

(p. 83). E assim também podemos distinguir entre dois tipos de sentido proporcionados pela narrativa
histórica; uma história contém ao mesmo tempo elementos “hipotéticos” e “assertivos”, da mesma forma que
os romances “realistas” contêm (p. 80). Uma história pode apresentar-se como uma “práxis de mimese”,
enquanto os mitos podem ser “imitações secundárias’* de ações - isto é, de ações típicas - que na verdade
podem torná-las mais filosóficas que a história (p. 83). Mas os historiadores não poderh.m compor as suas
narrativas sem invocar, pelo menos implicitamente, as estruturas formais do mito para os efeitos
“formadores” e “includentes” das suas representações da realidade.
renascentista italiana. Um dos propósitos explicitamente declarados de Burckhardt
era escrever história de uma maneira que frustrasse as expectativas convencionais
no tocante à coerência formal do campo histórico. Estava buscando, em suma, o
mesmo tipo de efeito que visa o autor de uma sátira. E, na verdade, Burckhardt
urde a sua estória da Renascença no modo da satura, ou miscelânea, que confere
ao retrato que traçou desse período da história o seu caráter notoriamente elusivo
como “interpretação”. Admiradores mais recentes de Burckhardt elogiaram a sua
oposição resoluta a qualquer impulso no sentido de “superconceituar” as suas
descrições do passado ou de super-urdir as estórias que conta sobre esse passado.
Não reconheceram que essa recusa inflexível a impor uma forma de registro
histórico é em si mesma uma decisão poética, o tipo de decisão que alicerça a ficção
satírica, uma decisão que Burckhardt justificou em seu foro íntimo quando recorreu
ao solipsismo histórico de seu mestre filosófico Schopenhauer. Burckhardt não é
menos meta-histórico do que Hegel; apenas sua marca de meta-história não foi

A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 103

reconhecida pela ficção poética que ele representa como foi a de Hegel 51.
O provimento de uma estrutura de enredo, a fim de dar ao relato narrativo
do “que aconteceu no passado” os atributos de um processo de desenvolvimento
abrangente que se assemelhe à articulação de um drama ou de um romance,
constitui um elemento na interpretação do passado pelo historiador. Podemos agora
considerar um outro aspecto das ações interpretativas do historiador, o contido no
argumento formal que ele poderia oferecer (ou que pode ser extrapolado a partir
das suas parábases sobre a sequência dos eventos representados na narrativa) para
“explicar” em termos nomológico- dedutivos por que os eventos se desenvolveram
do modo como parecem tê- lo feito, como dados no relato narrativo. É costume
afirmar que todos esses argumentos nomológico-dedutivos oferecidos pelo
historiador ou são incompletos, defeituosos ou meramente corriqueiros, quando
comparados aos paradigmas daquelas explicações fornecidas por ciências
verdadeiras como a física e a química. E, para o nosso propósito, é conveniente a
concordância geral entre idealistas e positivistas com relação à natureza
comumente insatisfatória de todas as supostas explicações causais oferecidas pelos
historiadores de eventos humanos e sociais, a aceitação comum por eles do seu
caráter semicientífico ou pseudocientífico. Pois isto nos permite proceder de
imediato ao exame do elemento interpretativo em todas essas supostas explicações.
Como os profissionais de todos os campos que ainda não se tornaram
ciências completas, os historiadores, em seus esforços de explicar o passado,
empregam paradigmas diferentes da forma que uma explicação válida pode
assumir. Por paradigma entendo o modelo do que parecerá um conjunto de
acontecimentos históricos depois que foram explicados. Um dos propósitos de uma
explicação é substituir uma percepção vaga ou imprecisa das relações
predominantes entre os fenômenos verificados num dado campo por uma
percepção clara ou precisa. Mas a noção do que possa parecer uma percepção clara
e precisa de um dado domínio do acontecimento histórico difere de historiador para
historiador. Para alguns, um domínio histórico explicado apresenta o aspecto de
um grupo de entidades dispersas, cada uma das quais é claramente discernível
como particularidade única, enquanto o atributo partilhado por todas nada mais é
que a circunstância de habitarem uma comunidade singular de ocorrências. Em

51 Lõwith (Meaning in History, p. 26) considera Burckhardt o primeiro historiador moderno de estatura
inegavelmente clássica a escrever a história sem concessões aos mitos que fascinaram todos os grandes meta-
histori adores antes dei e. Mas teria sido mais exato considerá-lo um cético histórico clássico. O ponto de vista
de Burckhardt é consistentemente irônico, e suas teorias narrativas são as da sátira. Ele denomina a sua
Civilização do Renascimento na Itália de “ensaio” e renuncia explicitamente a qualquer tentativa de
reivindicar para ela o status de relato objetivo ou científico do período tratado. Assim também, Burckhardt
descarta qualquer tentativa de construir uma narrativa diacrônica dos eventos, estruturas e processos que
formam o seu relato da Renascença. Os materiais são agrupados com base em categorias bem gerais ou em
função dos temas, mas não há qualquer empenho em desenvolver um argumento ou uma “história” nos
capítulos individuais do livro; e cada capítulo termina com uma passagem que parece indicar a intenção do
autor de frustrar as tentativas do leitor de constituí-la retrospectivamente em quaisquer termos cogni ti
vãmente significativos. Trata-se literalmente de uma satura, uma miscelânea ou “saíada”, cujo objetivo pode
ser interpretado como semelhante ao do moderno anti-romance - vale dizer, desafiar as expectativas da
“estória” convencional que normalmente trazemos à consideração de uma história.

104 TRÓPICOS DO DISCURSO

outras palavras, uma explicação neste sentido representa o resultado de uma
operação analítica que deixa as várias entidades do campo irreduzidas ao status de
leis causais ou ao de exemplos de categorias classificatórias gerais. Para os
historiadores inspirados por essa concepção do que deveria ser uma explicação, um
campo que à primeira vista parece uma vaga congérie de eventos se revela, no final
da análise, um conjunto de itens essencialmente autônomos, não-passíveis de
subordinação a qualquer regra geral, seja ela de causalidade ou de vínculo
classificatório.
Para outros historiadores, contudo, um domínio histórico totalmente
explicado aparecerá como um campo de entidades integradas, regidas por uma
estrutura de relações, ou sintaxe, claramente especificável. Embora pareçam à
primeira vista não estar relacionadas entre si, as entidades individuais do campo se
revelam, no final da análise, mutuamente relacionadas na modalidade das relações
de causa e efeito (isto é, mecanicistamente) ou na das relações da parte com o todo
(isto é, organicistamente). Para esse gênero de historiadores, a explicação não
busca dispersão, mas integração, não busca análise, mas síntese52.
Em outras palavras, podemos distinguir entre as várias formas de explicação
na historiografia de duas maneiras: com base na direção que a operação analítica
presumidamente toma (com vistas à disposição ou à integração) e com base no
paradigma do aspecto geral que o conjunto de fenômenos explicados assumirá ao
termo desta operação. A diferença é mais ou menos a mesma observada entre os
estudantes de uma língua interessados basicamente em formar um léxico e os que
se empenham em determinar a gramática e a sintaxe de um sistema de uso
específico.
Alguns historiadores se deleitam em tomar um campo do acontecimento
histórico que pareça vago ou obscuro e simplesmente escolher as várias entidades
presentes nele de modo que os seus esquemas pareçam mais exatos. Cumprem a
função de lentes de aumento para os seus leitores; quando terminam o seu trabalho,
os itens no campo parecem mais claros aos olhos (da mente). E esta é a sua
explicação do que estava acontecendo no campo. Este desejo de tornar os objetos
da percepção mais claros aos olhos (da mente) é o que parece fundamentar a
tentativa de palingenesia que inspirou grande parte da historiografia romântica, e
é defendido explicitamente como método “científico” por Niebuhr, Michelet e
Carlyle30. A defesa filosófica desse método foi feita por Wilhelm Windelband, que
a denominou “idiografia”31. Sendo um método científico, a idiografia
evidentemente fornece os tipos de explicações encontradas na biologia antes de
Lineu ou na química antes de Lavoisier. Os produtos deste tipo de historiografia

52 A distinção aqui estabelecida, entre estratégias de explicação dispersivas e integrativas, é extraída de Stephen
C. Pepper, World Hypotheses (Berkeley e Los Angeles, 1966), pp. 142 e ss., uma análise lamentavelmente
negligenciada das modalidades do discurso filosófico. Pepper afirma que, basicamente, há apenas quatro
hipóteses de mundo “cogni ti vãmente responsáveis”, cada uma das quais introduz no debate filosófico a sua
própria teoria de verdade e concepção das táticas pelas quais as afirmações de verdade podem ser verificadas
com propriedade. Essas quatro hipóteses de mundo, ele as denomina formis- mo, organicismo, mecanicismo
e con textual is mo. Substituí o termo idio grafia pelo seu “formismo”, de

A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 105

têm mais ou menos o mesmo aspecto das notas reunidas por um naturalista ou por
um antropólogo no trabalho de campo, mas com esta diferença: enquanto o
naturalista e o antropólogo vêem nas suas observações dados a serem convertidos
subsequentemente em generalizações sobre a estrutura do campo como um todo,
o historiador idiográfico considera acabada a sua obra tão logo os fenômenos que
observou foram adequadamente representados em prosa descritiva exata.
Sem dúvida, alguns historiadores idiográficos insistem em dizer que a
observação dos dados deve acompanhar-se da tentativa de generalizar sobre eles,
de maneira a oferecer ao leitor alguma percepção do “sentido” ou “significado”
possível dos dados observados. Todavia, não se imagina que essas

vez que ele parecia mais auto-explicativo do seu conteúdo para uma discussão dos equivalentes
historiográfícos das hipóteses de mundo de Pepper.
30. B. G. Niebuhr, o grande historiador romântico de Roma, foi um dos primeiros a conceber a história como
palingenesia, especialmente do espírito popular que supostamente estava por trás do relato documentário.
Michelet, numa famosa observação sobre as diferenças entre a sua obra e a de Thierry e Guizot, diz
explicitamente ser a sua tarefa de historiador a “ressurreição” das vozes mortas das gerações perdidas - e
principalmente daquelas que se perderam para a “história” concebida como a estória dos grandes homens e
das aristocracias do passado. A defesa mais eloqüente desse conceito de historiografia, concebida como uma
combinação de poesia c ciência, c o ensaio de Thomas Carlyle, “On History”. Ver A Carlyle Reader, ed. G. B.
Tennyson (New York, 1969), pp. 57-60.
31. Wilhelm Windelband, “Geschichte und Naturwissenschaft”, em Prüludien (Freiburg im Breisgau e
Tübingen, 1884), 2:142-45.
generalizações funcionem como hipóteses basicamente capazes de se transformar
em teorias gerais da causalidade histórica, ou mesmo numa base para um esquema
geral de classificação que se pudesse aplicar aos fenômenos em outros setores do
campo histórico. As generalizações funcionam antes como caracterizações
idiográficas de “contextos” distintos para os acontecimentos individuais
discernidos no campo específico em exame. Este procedimento dá origem àquelas
caracterizações de “períodos”, “tendências”, “eras”, “movimentos” etc. que nos
permitem conceber todo o processo histórico uma sucessão de estruturas e
processos separados, cada um com seus próprios atributos únicos; e o significado
de cada um residiria na “qualidade” ou “atmosfera” de sua textura ricamente
variada53. Quando um acontecimento é posto dentro de seu “contexto” pelo método
que Walsh chamou “coligação”, considera-se completada a tarefa explicatória do
historiador, nessa análise54. O movimento para a integração dos fenômenos cessa
presumivelmente no ponto em que um dado contexto pode ser caracterizado em
termos modestamente gerais. As entidades que habitam o campo em análise ainda
continuam dispersas, porém agora estão provisoriamente integradas umas às
outras na forma de ocupantes de um “contexto” compartilhado ou, como se

53 Pepper, World Hypotheses, cap. 10.
54 Por “coligação” Walsh entende a operação de “ligar junto”, pela qual os historiadores correlacionam os
eventos a fim de propiciar a compreensão da sua ocorrência. Essa operação inclui a determinação dos fins e
propósitos dos agentes históricos, a identificação das “concepções apropriadas” ou “idéias" que os eventos
incorporam e a utilização de generalizações “quase científicas” derivadas da experiência e do senso comum.
Ver Introduction to the Philosophy of History, pp. 60-65. Cf. Mink, “Autonomy of Histórica! Understanding”,
pp. 171-172, para uma crítica desta idéia.

106 TRÓPICOS DO DISCURSO

costuma dizer, são identificadas como objetos imersos numa “atmosfera” comum.
Essa noção de explicação fundamenta as reivindicações feitas à história como tipo
de ciência pelos que propõem o que Auerbach chama de “historicismo
atmosférico”55. A explicação está completa quando a “atmosfera” foi evocada
numa representação em prosa bem-sucedida. Podemos - seguindo Pepper - chamar
essa estratégia explicatória de contextualismo.
Pode-se observar que esses dois tipos de explicação histórica, a idiografia e
o contextualismo, tenderão a conceber que a explicação dada pelo historiador é
virtualmente indistinguível da “estória” contada no decorrer da narração. Posto que
modestamente integrativo em seu objetivo geral, o contextualismo não estimula
uma síntese organicista de todo o campo, ao modo de Hegel, nem uma redução
mecanicista do campo em termos de leis causais universais que poderiam
“explicar” por que o campo tem as características peculiares que o tornam
identificável como “contexto” de um tipo particular, à maneira de Marx. Assim,
por exemplo, Burckhardt irá declarar continuamente, em todo o seu livro sobre a
cultura da Renascença, que as entidades que ele observou são banhadas por uma
luz comum e partilham o mesmo contexto, o que as torna identificáveis como
fenômenos especificamente pós-medievais e pré-modernos. Mas recusa-se a
especular sobre as “causas” de serem elas o que são e condena as tentativas dos
historiadores positivistas e idealistas de continuar a especificar as razões para
serem o que são, para estarem onde estão e quando estão56.
E desnecessário dizer que, para os historiadores de concepção mecanicista
ou organicista da forma que o campo histórico explicado deve assumir, os produtos
das tentativas idiográficas e contextualistas de “explicar” o que aconteceu no
passado são inteiramente insatisfatórios. O organicista insiste na necessidade de
relacionar os vários “contextos” que perceptivel- mente existem como partes no
registro histórico ao todo que é a história em geral. Ele luta por identificar os
“princípios” pelos quais os diferentes períodos da história podem integrar-se num
processo macrocósmico singular de desenvolvimento. E isso significa que para ele
a explicação deve assumir a forma de uma síntese na qual deve ser mostrada cada
uma das partes do todo a fim de refletir a estrutura da totalidade ou prefigurar a
forma do fim do processo inteiro ou pelo menos a última fase do processo. Hegel,
por exemplo, proíbe expressamente o historiador de fazer especulações sobre o
futuro. A sabedoria histórica, diz ele, só pode estender-se à compreensão do próprio
presente do historiador. Mas para ele esse presente especioso constitui o ponto
culminante de uma sequência milenar de fases num processo que deve ser
considerado universalmente humano57.

55 Cf. Erich Auerbach, Mimesis: The Rcpresentaíion of Reaiity in Western Literature, trad. Willard Trask
(Princeton, 1968), pp. 473-477.
56 Ver, por exemplo, o parágrafo “Societies and Festivais” em Civilization ofthe Renaissance in Italy, trad.
S. G. C. Middlemore (London, 1960), e as observações de Burckhardt sobre as causas da “grande inova-
ção” ocorrida durante a Renascença em Judgments on History and Historians, trad. Harry Zohn (Boston, 1958),
pp. 65-66. Aqui, é exposta explicitamente a concepção de Burckhardt de mudança histórica como
“metástase”.
57 Ver a discussão do “organicismo” de Hegel por Pepper em World Hypatkeses, pp. 293 e ss.

Se. Sem dúvida. parece haver de fato uma afinidade eletiva entre os modos de explicação e os modos de urdir o enredo utilizados por cada um deles a fim de obterem um tipo particular de disposição explicatória ou interpretativa do campo histórico em estudo. pode-se encontrar quatro diferentes concepções da explicação . um modo explicatório contextualista figura em conjunção com uma forma narrativa essencialmente satírica. que são universalmente operantes do começo ao fim da história. mas antes em função das relações entre parte e parte e na modalidade da causalidade. em Tocqueville. em Burckhardt. essas designações dos modos de explicação e dos modos de urdidura do enredo não esgotam as táticas específicas utilizadas por esses historiadores para obterem certos tipos de efeitos explicatórios restritos. Assim. 9. Mas pretende justificar essa operação profética graças à redução mecanicista desses dados ao status de funções de leis gerais de causa e efeito. o mecanicista não vê os elementos do campo histórico como se fossem relacionados em termos das relações entre a parte e o todo. como diz Frye. forneceu as condições necessárias e suficientes para as suas configurações específicas em momentos e lugares específicos dentro do processo todo. portanto. o modo de explicação verdadeiramente preferido por um historiador específico deve ser identificável e distinguível do modo narrativo (ou estrutura de enredo) com que justificou o seu contar de uma estória de um tipo particular. que o mecanicista deve distinguir entre as partes de modo a identificar as que são “causas” e as que são “efeitos”. como ficou dito. o modo mecanicista de explicação é utilizado para complementar e iluminar uma concepção essencialmente trágica do processo histórico. podemos tomar como um atributo da tragédia a “epifania da lei” que supostamente deriva dos tipos de 58 Ibid. Para o mecanicista. em Ranke. podemos dizer que.a idiográfica. e. a contextualista. na historiografia. Ademais. afirma ser capaz de predizer a forma específica da fase seguinte de todo o processo graças a uma integração semelhantemente organicista de todos os dados significativos da história social. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 107 Marx. E é a busca dessas leis. Em resumo. que caracteriza a estratégia analítica da teoria mecanicista da explicação histórica em geral58. no curso de suas explicações. cap. não precisamos supor que o modo de urdir o enredo preferido por todo historiador dita o modo de explicação que ele tenderá a preferir. a organicista e a mecanicista . . no entanto. numa dada obra de história. Por exemplo. Isso significa. em contrapartida. Mas. pelas quais os eventos no campo histórico podem ser reduzidos ao estado de manifestações de ações causais impessoais. Mas é possível observar uma certa afinidade eletiva entre o modo de explicação e o modo de urdir o enredo nos historiadores de estatura clássica inconteste.. o campo histórico é considerado “explicado” no momento em que distinguiu de maneira satisfatória entre as ações causais e os efeitos dessas ações e. em Michelet a forma idiográfica de explicação anda junto com a estrutura de enredo do romance.e que. por exemplo. a explicação organicista caminha junto com a estrutura cômica de enredo. depois.

prefere estratégias explicatórias idiográficas. por exemplo. que escreve no modo da sátira. ou escolhendo um paradigma de explicação que dê aos seus argumentos uma forma. Assim. embora devessem ser consideradas como algo mais do que rótulos das complexas caracterizações que ele oferece. . Mas “explicações” como essas estão ligadas à constituição da crônica dos eventos que ainda demandam “interpretação” a fim de que. e pode. mais fundamental: uma opção moral ou ideológica. pp. escrevendo no modo do romance. como Tocqueville. Assim também Michelet. tenderão a empregar uma concepção organicista da verdade nos argumentos formais com que explicam por que as coisas aconteceram no passado como aconteceram. É costume dizer que essas duas escolhas são consequência s de uma terceira opção interpretativa. é óbvio que. relegando-as à condição de meras “interpretações”. Se a comédia é quintessencialmente o “drama da reconciliação”. No entanto. então é óbvio que historiadores. que fazem uma abordagem da história nesses termos.108 TRÓPICOS DO DISCURSO resoluções que ela encerra. se inclinarão a conceber em termos nomológicos (e não raro mecanicistas) as explicações que devem oferecer. é provido de uma “explicação” do motivo por que tem a forma que tem na narrativa. como Ranke. e a ideologia radical que a inspira como a razão da forma satírica assumida pela narrativa e da natureza mecanicistamente redutiva das suas explicações dos eventos nela analisados. e não do nível em que ele investiga as condições necessárias da ocorrência de um dado acontecimento dentro do campo. 59 As caracterizações das estruturas de enredo dadas aqui foram extraídas de Frye. um impulso e um modo de articulação específicos. 158-238. possam se transformar num drama abrangente do desenvolvimento.se dizer que dessa maneira ele explicou por que a guerra irrompeu em determinada época e não em outra. utiliza uma estratégia explicatória contextualista para dar ao campo histórico a sua forma explicada59. Um historiador pode decidir que uma resolução de ir à guerra foi consequência das opções políticas de um dado indivíduo ou grupo. Anatomy. que prefiguram o processo histórico em termos trágicos. enquanto Burckhardt. E tais explicações devem ser diferençadas da teoria geral das relações significativas por meio das quais um campo. os críticos hostis a uma obra como O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte de Marx podem referir-se ao seu tom visivelmente polêmico como prova de um propósito ideológico. então his- toriadores. Ressalte-se mais uma vez que estamos falando aqui do nível em que o historiador procura apreender a natureza de todo o campo dos fenômenos que é apresentado na sua narrativa. urdindo o seu enredo numa forma particular de estória. Com efeito. de uma “abordagem” marxista da história quando se pretende pôr em dúvida as “explicações” de um historiador radical. Afirmei até agora que os historiadores interpretam seu material de duas maneiras: ou escolhendo uma estrutura de enredo que confira às suas narrativas uma forma reconhecível. é convencional usar designações ideológicas de diferentes “escolas” de interpretação histórica ("liberal” e “conservadora” ou “Whig” e “Tory”) e falar. cujo enredo foi assim tramado.

mas antes a matriz social vivida 60 Obviamente. com suas divisões de classe . Paul Kecskemeti (New York. ed. as ideologias poderiam ser classificadas de acordo com o fato de serem ou não “situacionalmente congruentes” (isto é. bem como no seu importante Ideologia e Utopia. o próprio M. é difícil atribuir prioridade a um ou a outro dos três elementos nele contidos: a estrutura de farsa do enredo. elaborou de maneira cabal as teorias explicativas pelas quais pudesse revelar a verdadeira estrutura dos eventos sob consideração. que não era a “história” per se ou “o passado” em geral. no Manifesto Comunista. Segundo Mannheim. 1953). pp. 61 Karl Mannheim. podemos ainda observar que todo relato histórico. 74-164. “O Pensamento Conservador”. sabemos que. Mannheim demonstrava as bases e implicações ideológicas do ideal rankiano de uma historiografia objetiva que se erigiu em ortodoxia acadêmica durante a segunda metade do século XIX61. seguindo a sugestão do próprio Marx. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 109 quando consideramos o grande ensaio de Marx como ele é. E.traziam consigo sua própria forma de consciência temporal e social e uma noção particular da extensão com que os processos históricos eram suscetíveis de análise racional ou se opunham a esta. Ao contrário. pressupõe um conjunto específico de compromissos ideológicos nas próprias noções de “ciência”. àquela altura de sua carreira. Ver também Ideology and Utopia: An Introduclion to the Sociology of Knowledge. em Essays in Sociology and Social Psychology. 206-215. mas o ponto de vista é tudo menos isso. Marx já havia criado a sua marca particular de radicalismo e havia articulado plenamente a teoria do materialismo histórico pela qual planejava justificar. Marx. em bases científicas. Louis Wirth e Edward Shils (New York. os princípios específicos da sua ideologia. assim como não se deve presumir o contrário. O tom é eminentemente irônico. na época em que escreveu esse ensaio. 180-182. Sem dúvida. “objetividade” e “explicação” que o inspiram. uma interpretação magistral de uma situação histórica complexa. qualquer que seja o seu escopo ou profundidade. que. “Conservative Thought”. pp. ele caracteriza com um herói trágico “prometéico” do drama da história.irx se refere aos eventos que conduzem ao coup de Luís Napoleão como uma “farsa” e compara-o à “tragédia” da Revolução de 1789. 1946). ou seja. . Notemos apenas que os relatos históricos podem ou não vir seguidos de interpretações ideológicas dos seus “sentidos” para o esclarecimento das situações históricas em que são compostos. Assim. E num ensaio magistral. radical e anarquista (ou niilista) . Mas não temos necessidade de supor que a sua urdidura dos acontecimentos verificados na França em 1848-51 no modo da sátira foi predeterminada pela ideologia radical que ele abraçara. conservadora. Eles se carregam de sentido quando inseridos numa estrutura mais ampla de toda a história da burguesia.liberal. trad. a saber. que seu radicalismo decorreu da sua percepção da natureza essencialmente “absurda” da sociedade burguesa e suas atividades políticas características. aceitando geralmente o status quo social) ou “situacionalmente transcendentes” (isto é. críticas do status quo e orientadas para a sua transformação ou dissolução). O sociólogo do conhecimento Karl Mannheim asseverava que as diferentes posições no espectro ideológico das sociedades modernas. o ideal da ciência social reverenciado por devotos das várias ideologias tenderia a ser contemplativo ou manipulativo em relação ao seu objeto comum de estudo. a estratégia mecanicista da explicação ou a ideologia radical graças à qual são passadas aos seus leitores as implicações morais e políticas da análise60.

dado o fato de que a história não era em nenhum sentido uma ciência. ou com as estratégias explicativas que escolheram para. que é na verdade mais condizente com a posição ideológica do anarquista. mas nega-se a deduzir as implicações radicais dessas estratégias interpretativas para a compreensão da sociedade da sua própria época. embora seja um liberal declarado em suas concepções políticas. Podemos dizer. A maioria dos historiógrafos clássicos do século XIX formularam essas implicações explicitamente. porém. mas antes um elemento decisivo de toda ideologia que aspira ao título de ciência ou que propõe uma perspectiva “realista” tanto sobre o passado quanto sobre o presente.impelidas inevitavelmente à adoção de posturas ideológicas devido às apostas epistemológicas que os seus profissionais eram forçados a fazer entre teorias conflitantes do que poderia parecer uma ciência humana “objetiva”. Além do mais. é possível discernir pelo menos quatro tipos de interpretação histórica que têm suas origens em tipos diferentes de comprometimento ideológico. as ciências humanas são . em formas particulares. reservam tal queixa para a avaliação da obra dos historiadores que representam posições . quando não é uma projeção dessas posições. então. como afirmava Mannheim. responder por suas representações dos processos.toda representação do passado tem implicações ideológicas especificáveis e que. não era compatível com a convicção liberal da compreensibilidade racional do processo histórico.110 TRÓPICOS DO DISCURSO como uma extensão do passado ao próprio presente do escritor.se dizer que mesmo os historiadores que não professavam nenhum compro- metimento ideológico particular e que reprimiam o impulso para extrair im- plicações ideológicas explícitas de sua análise das sociedades do passado escreviam dentro de uma moldura ideológica especificável. E o que valia para as ideologias em geral valia também para a historiografia específica. tenta resistir à mistura peculiar de ideais liberais e conservadores que o recomendou aos historiadores posteriores dos dois tipos como o detentor de uma “sabedoria” infinita em sua análise política. Por exemplo. que era a da idiografia. que na história .como o falecido Lucien Goldmann gostava de salientar . Michelet urde o enredo da sua história da França até a Revolução no modo do romance. uma historiografia “contemplativa” é pelo menos consoante com as posições ideológicas do liberal e do conservador. graças à adoção de uma postura em face da forma que a representação histórica devia assumir. Diferentemente das ciências naturais. quer não. Em vez disso. E o mesmo se diga de Tocqueville: ele urde o enredo da história no modo da tragédia e explica-a por meio de supostas leis do desenvolvimento histórico de um tipo especificamente mecanicista. pode. E. portanto. Com mais frequência. mas o fizeram segundo caminhos nem sempre compatíveis com os modos de urdidura do enredo que usaram para dar forma às suas narrativas. Desse modo. Historiadores do pensamento histórico costumam lamentar a intrusão de tais elementos visivelmente ideológicos nas tentativas dos primeiros historiadores de retratar o passado “objetivamente”.como nas ciências humanas em geral . a estratégia explicativa de Michelet. quer os seus profissionaisestejam conscientes disso.

na verdade. acredito que os tipos de estratégias interpretativas identificados são estruturalmente homólogos entre si.camente (na escolha de um paradigma explicativo) e eticamente (na escolha de uma estratégia pela qual as implicações ideológicas de uma dada representação possam ser deduzidas para a compreensão de problemas sociais do presente). ou vice-versa. A análise das estruturas de enredo admite quatro tipos: romance. Sua homologia pode ser graficamente representada no seguinte quadro de correlações. Modo de urdir o enredo Modo de explicação Modo de implicação ideológica Romance Idiográfico Anarquista Comédia Organicista Conservador Tragédia Mecanicista Radical Sátira Contextualista Liberal Não afirmo que essas correlações figuram necessariamente na obra de um historiador. o liberalismo confesso de sua Democracia na América conflitava . porém. embora eu tenha negado a possibilidade de atribuir prioridade a um ou a outro dos níveis de interpretação que discriminei. na obra de Tocqueville. E afirmei que é quase impossível. E a teoria da ideologia gerou quatro possibilidades: anarquismo. salvo para as formas mais doutrinárias da escrita histórica. Por exemplo. radicalismo e liberalismo. por sua vez. um interessante padrão quaternário reapareceu em nossas análises dos níveis diferentes em que a interpretação entra na elaboração de uma dada narrativa histórica. é tentador buscar refúgio no relativismo e asseverar que uma dada interpretação histórica tem suas origens em fatores puramente pessoais. Como observou Mannheim. tragédia e sátira. conservadorismo. E. a interpretação entra na historiografia pelo menos de três maneiras: esteticamente (na escolha de uma estratégia narrativa). Assim. epistemologi. comédia. organicista. peculiares a cada historiador. nas ciências sociais a “ciência” de um homem é a “ideologia” de outro. E isso sugeriria. A das estratégias explicativas deu origem a quatro paradigmas: idiográfico. Isso levanta uma outra questão: haveria um outro nível de interpretação mais fundamental do que esse? Neste ponto. E muitas vezes mudanças de tom ou de ponto de vista que ocorrem entre uma obra anterior e uma posterior de determinado historiador podem ser explicadas pela tentativa de alinhar as suas representações históricas com a sua ideologia. atribuir prioridade a um ou a outro dos três momentos assim distinguidos. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 111 ideológicas diferentes das suas próprias. a tensão implícita em toda obra-prima da história é criada em parte por um conflito entre uma dada modalidade de enredo ou de explicação e o comprometimento ideológico específico do seu autor. Na verdade. mecanicista e contextualista. Isso ocorre particularmente na historiografia. que há tantos tipos de interpretação da história quantos são os historiadores de gênio inconteste que exercem a profissão. onde o rótulo de “meta-historiador” não raro é afixado na obra de quem quer que concebe as tarefas de escrever a história diferentemente de si próprio.

1962). Taine e. As “escolas” de historiografia conflitantes podem ser caracterizadas pelas preferências que dão a uma ou a outra combinação de estratégias interpretativas.como Ranke. . que outra coisa não é senão a rede de compromissos que o 62 Ver Thomas S. Kuhn. E. de outro. 13. Cabe notar que a marca de uma verdadeira “cientização” de um dado campo de estudo é o estabelecimento nele de uma terminologia técnica. Engels. de fato. Toda história pressupõe uma meta-história. O que vale para os historiadores individualmente vale também para a historiografia em geral.112 TRÓPICOS DO DISCURSO com o modo mecanicista de explicação e com a estrutura trágica do enredo de que se valeu para comunicar a estrutura específica do tema que o ocupava. Conquanto o estabelecimento de uma terminologia técnica não seja a causa da “cientização” de uma disciplina. 18-20 e cap. pp. Transformações análogas podem ser discernidas na obra de historiadores como Michelet. seu conservado- rismo latente havia aflorado. Burckhardt não ostentam tal sensibilidade a possibilidades alternativas. sua libertação das excentricidades da linguagem culta comum. de um lado. Buckle. Num campo como a história. da linguagem em que as descobertas devem ser comunicadas e das técnicas de generalização e verificação a serem utilizadas para o estabelecimento da verdade das suas descobertas62. então. embora historiadores profissionais se digam aptos a distinguir entre história. Marx e Croce. a distinção não tem. qualquer justificativa teórica adequada. Diferentemente da física depois de Newton ou da química depois de Lavoisier. Um problema metafísico é aquele que não pode ser formulado na linguagem técnica empregada pelos profissionais da disciplina para formular questões ou fornecer respostas a elas. Contudo. a confusão de uma questão metafísica com uma questão científica não só é possível como inevitável em algum estágio de uma dada investigação. E isso sugere que a riqueza das suas diversas obras-primas históricas decorre da sensibilidade com que acolhem as possibilidades de estratégias alternativas de interpretações ao longo de suas reflexões sobre a história. o modo trágico de enredo que preferira anteriormente dera lugar a uma noção especificamente satírica do processo histórico em geral e sua estratégia explicativa mecanicista cedera a uma mais especificamente contextualista. na época em que terminara o primeiro volume de O Antigo Regime. ele denota o acordo entre os investigadores acerca do que deve ser considerado um problema metafísico e do que deve ser visto como um problema científico. Historiadores mais dogmáticos . da mesma forma que as diferentes gerações dentro de uma dada escola podem ser atribuídas a variações nas combinações que são possíveis nos conjuntos descritos acima. The Structure ofScietuific Revolutions (Chicago. Seu “desenvolvimento” como historiadores consiste quase sempre num refinamento de uma complexa rede de compromissos interpretativos feitos no início de suas carreiras. a história continua sendo um campo de estudo sem imagens geralmente reconhecidas da forma que a análise deve assumir. A própria possibilidade dessas combinações engendra aquela “anarquia conceituai” característica dos “campos de estudo” ainda não reduzidos ao status de disciplinas genuinamente científicas. e meta-história. até certo ponto.

com sua dependência da linguagem matemática e de uma lógica de identidade . 503-517. Contudo. mas que. de explicação e de implicação ideológica. existe um grande número de escolas de interpretação divergentes. não importa o que ela faça. constituem relações existentes entre consciência e um mundo de experiência que requer uma estipulação do seu sentido63. A Gmmrnar of Motives (Berkeley e Los Angeles. Isso significa que as contendas historiográficas tenderão a girar. devemos aceitar a possibilidade de que esses modos se baseiam em algum nível de consciência mais fundamental. se constituíram em ortodoxia . Esse terreno é o da própria linguagem. porém.e aquelas áreas de estudo em que o problema ainda é produzir semelhante sistema de sentidos estipulados e regras sintáticas. podemos observar que a história recai por certo no segundo campo. 1969).ficará evidente que na própria linguagem. Ela advém do fato de que na psicologia.mia. pode-se dizer que operam tropolo. Seguindo uma sugestão de Kenneth Burke. e nenhuma delas é capaz de reivindicar em definitivo o título de uma genuína ciência da mente. e especificamente em função das estratégias tropológicas dominantes pelas quais fenômenos desconhecidos ou estranhos são providos de significados por diferentes tipos de apropriações metafóricas. por sua vez. que essa dificuldade pode ser evitada se se concentrar na base linguística de todos os campos de estudo até agora não-reduzidos ao status de ciência. Podemos seguir o problema num terreno anterior àquele em que presumivelmente funcionem as faculdades emotivas. cognitivas e morais. em seu aspecto degenerativo ou pré-poético. Se aceitarmos como quatro o número de tropos predominantes .metáfora. cognitivo e ético distinguidos acima. com sentidos estipulados para elementos léxicos e regras de gramática e sintaxe explícitas.como na física. na realidade. “Four Míister Tropes”. será elaborado em função das possíveis modalidades da própria linguagem natural. Acredito. em áreas de estudo como a história. afirma 63 Ver Kennetb Burke. metoní. como na história. mas também em torno da questão do seu significado. Demais. se forem válidas as correlações que fiz entre os modos de urdir o enredo. ap. pp. poderíamos possivelmente ter a base para a geração daqueles tipos de explicação que surgem inevitavelmente em qualquer campo de estudo ainda não “disciplinizado” no sentido de ser liberado da anarquia conceituai que parece assinalar suas fases distintamente pré-científicas. Seriam esses compromissos totalmente arbitrários? A recorrência do padrão quaternário nos vários níveis em que é possível a interpretação indica que não. A metáfora. A questão da natureza dos tropos é difícil de abordar. que. sinédoque e ironia . Mas o significado. a dificuldade de identificar este nível de consciência é manifesta. podemos dizer que os quatro “tropos principais” trabalham com relações que são experimentadas como inatas dentro dos fenômenos ou entre eles. Se fizermos uma distinção entre aquelas áreas de estudo em que os sistemas terminológicos específicos. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 113 historiador estabelece no curso de sua interpretação nos níveis estético. e devo confessar a minha hesilação cm . não apenas em torno da questão do que são os fatos.gicamente a fim de prefigurar um campo de percepção numa modalidade particular de relações. D.

na metonímia e igualmente na sinédoque. Ver The New Science. em função de sua especificação adicional de diferença ou de similaridade nos fenômenos origin ar iam ente identificados em termos metafóricos. 505-510. em seus Essais de iinguistique générale. Thomas A. 1963). pp. e seu objetivo. metonímia. em contrapartida. a redução do todo à parte pressupõe a possibilidade de distinguir entre o todo e as partes que o compõem. sinto-me impelido a perseverar nessa crença. Na metonímia. pp. pela tradição ou pela ciência. sinédoque e ironia. 1960). Contudo. 127-132 e §§ 443-446. na metáfora. paçafins de crítica literária. da religião e da política etc. 147-150. pp. as formas da ciência. pelo menos implicitamente. nessa ordem. não apenas pela obra de Burke mas também pelo exemplo de Vico. num campo de estudo como a história. Grammur of Motives. Eu diria que essa é a base linguística do modo de explicação historiográfica que denominei idiografia. Sebeok (New York e London. 1970). seria catalogar os atributos específicos de qualquer fenômeno dado mediante a observação de toda e qualquer similaridade que ele apresentava com uma miríade de outros fenômenos manifestamente diferentes dele à primeira vista. com base na comparação entre linguagem “metafórica” e “metonímica”. Podemos. A isso podemos chamar provimento de sentido em termos de equivalência ou identidade. 25-67. distinguir a metonímia e a sinédoque como formas secundárias da metáfora. 64 Burke. a distinção similar entre as partes e o todo é feita apenas com o objetivo de identificar o todo como uma totalidade que é qualitativamente idêntica às partes que parecem constituí-lo. em “Linguistics and Poeücs”. Nicolas Ruwer (Paris. evidentemente.t decadência ou ricorso) correspondem exatamente aos quatro estágios da consciência refletidos na preponderância de um dado tropo: metáfora. Em A Ciência Nova. Na sinédoque. ed. 350- 377. Burke afirma que o uso metonímico é redutivo. poder-se-ia dizer que a “interpretação” é aquilo que Foucault chamou de “formalização” do modo linguístico.114 TRÓPICOS DO DISCURSO explicitamente uma similaridade numa diferença e. principalmente o ensaio “Le Langage commun des linguistes et des anthropologues”. pp. Ver também as interessantes correlações entre os distúrbios mentais e os hábitos linguísticos feitas por Roman Jakobson. §§ 400-410.. seria regida pela busca de similitudes entre dois fenômenos quaisquer no campo. a linguagem nos fornece modelos da direção que o pensamento poderia tomar em sua tentativa de dar sentido a áreas da experiência ainda não consideradas como cognitivamente garantidas pelo senso comum. pp. Desse modo. dos heróis. Vico sugere (conquanto não toque nesse ponto explicitamente) que as formas de consciência de uma dada época na história de uma cultura correspondem às formas de consciência dadas pela própria linguagem ao empenho humano de compreender o mundo. 298- 300. em Style in Language. 65 Ver Michel Foucault. por exemplo. Jakobson se estende sobre estas correlações. E podemos ver que. trad. The Order ofThings: An Archaeology of the Human Sciences (New York. Thomas Goddard Bergin e Max Harold Fisch (Ithaca. por exemplo. dos homens e d. 1968). uma diferença numa similaridade. Uma suposta ciência construída no modo da metáfora. mas de modo a atribuir prioridade a partes para a imputação de sentidos a qualquer totalidade putativa que se apresente à consciência. trad. da arte. enquanto o sinedóquico é representativo64. . na qual o campo fenomênico era originariam ente preparado para a identificação das entidades que o habitam e para a determinação de suas inter-relações65. sugerir que eles são a chave para a compreensão do problema da interpretação em campos protocicntíficos como a história. pp. pois. das quatro idades da evolução de uma cultura (as épocas dos deuses. O ponto importante é que.

cf. 131.mente uma negação da asserção de similitude ou diferença contida no sentido literal da proposição. . 511-516. contém uma ironia à frente de uma sinédoque. estético e moral (ou ideológico). que é exatamente o objetivo de todos os sistemas organicistas de explicação. nos níveis de conceituação cognitivo. dos vários tropos que autorizam prefigurações do campo fenomênico das línguas naturais em geral. Em resumo. E um tipo de metáfora. Em suma. respectivamente. Isso nos conduz ao quarto tropo. se pronunciado no tom de voz correto. no sentido de integrar todos os fenômenos aparentemente específicos num todo. Sem dúvida. redução ou integração metafóricas dos fenômenos. pois esta se caracteriza por apreender o campo histórico como um complexo de relações entre parte e parte e por tentar compreender esse campo em função das leis que ligam um fenômeno a outro como uma causa associada a um efeito. Se essa estratégia interpretativa estivesse correta. e que poderíamos considerá-la a base tropológica de um modo de pensamento es- pecificamente dialético66. cuja qualidade era de molde a justificar a crença na possibilidade de compreender o particular como um microcosmo de uma totalidade macrocósmica. sob muitos aspectos o mais problemático. Tocqueville. A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 115 A metonímia. Se essas correlações forem absolutamente plausíveis. Não estou certo de que seja esse o caso. sendo redutiva nas suas operações. forneceria um modelo da forma de explicação que chamei mecanicista. em The New Science. a ironia sanciona a afirmação ambígua e possivelmente até mesmo a ambivalente. A ser esse o caso. mas um tipo que sinaliza sub-repticia. § 408. Vico. de elaboração do enredo e de implicação ideológica. Burke sugeriu que a ironia é inerentemente dialética. Já a sinédoque sancionaria um movimento na direção oposta. ou pelo menos lhe dá uma qualificação decisiva. a nossa interpretação da sua obra consistiria na explicação do desafio tropológico enterrado no coração das suas estratégias de explicação. “ele é todo bondade”. nesse sentido. “Ele é todo bondade” contém uma metonímia dentro de uma sinédoque. Grammar of Motives. “a interpretação” no pensamento histórico consistiria na formalização do campo fenomênico originariamente constituído pela própria língua com base num desafio tropológico predominante.em termos da coerência com que cada um leva a cabo a explicação. poderíamos explicar a qualidade “clássica” dos quatro “mestres” reconhecidos do pensamento histórico do século XIX . a ironia. a sátira como modo de urdidura do enredo.Michelet. 67 Sobre a ironia. a urdidura do enredo e a redução ideológica do campo histórico em função da estratégia linguística de prefiguração representada pelos vários tropos. urdidura do enredo e implicação 66 Burke. segue-se que a “interpretação” no pensamento histórico pode muito bem consistir na projeção. p. Ranke e Burckhardt . E. pp. poderíamos dizer então que o pensamento deles representa a realização das possibilidades de explicação. a ironia é a estratégia linguística que fundamenta e sancio- na o ceticismo como tática explicatória. e o agnosticismo ou o cinismo como postura moral 67. O que está implícito aqui é um tipo de atitude para com o próprio conhecimento que é implicitamente crítico de todas as formas de identificação.

Observei que Hegel. Croce representa o caso mais evidente de uma análise tropológica da interpretação histórica que se mascara de análise filosófica. Mas sugerir esse método de análise para a compreensão das diferentes estratégias interpretativas encontradas na historiografia é levantar uma outra questão. dos quatro filósofos mencionados. metonímica. respectivamente . De um modo . da qual não nos podemos ocupar neste ensaio. Entretanto. sinedóquica (Ranke) e irônica (Burckhardt). Para concluir este ensaio. similarmente tropoló. redutivos e representativos (na terminologia de Burke) em sua orientação geral como estratégias interpretativas. funcionarão no sentido de fornecer modelos de representação e explicação em alguma área de estudo ainda não elevada ao status de verdadeira ciência? E mais: o que entendemos por “ciência” seria simplesmente uma área de estudo em que um ou outro dos tropos alcançou o status de paradigma para o protocolo linguístico em que o cientista é obrigado a formular as suas perguntas e codificar as suas respostas a elas? Questões desse tipo precisam aguardar pesquisas posteriores de psicólogos e linguistas sobre o aspecto gerativo da linguagem e da fala. metonímica (Tocqueville). respectivamente. não foi por acaso que cada um desses teóricos se mostrou particularmente sensível à necessidade de identificar os elementos poéticos e retóricos na historiografia. Suas quatro “escolas” do pensamento histórico (romântica. Com efeito. crítico e super-histórico).gicas na base. pragmática. Nietzsche e Croce identificavam quatro estratégias possíveis por meio das quais os historiadores poderiam interpretar a sua matéria. Nietzsche e Croce podem ser caracterizados como filósofos da linguagem num sentido específico. Os estágios intermediários podem ser classificados como metonímicos e sinedóquicos. As categorias de Droysen (psicológica. Serão os tropos intrínsecos à linguagem natural? E se o são. de um lado. Provavelmente. Hegel. é óbvio que para cada um a interpretação histórica abarca um espectro de possibilidades cujos pólos são constituídos por um modo de consciência essencialmente metafórico. e por um modo predominantemente irônico. As distinções de Hegel entre historiografia universal. Mas parece-me possível que o que entendemos por “interpretação” pode ser esclarecido de modo significativo pela análise adicional das modalidades da fala em que um dado campo de percepção se torna proviso- riamente compreensível pelo fato de ser “apreendido” na linguagem. E o mesmo se pode dizer do sistema quádruplo de classificação de Nietzsche (antiquário. tal como ele as caracteriza. nas descrições que faz delas. Droysen. mencionados no começo do ensaio. condicional e ética) são. gostaria de retornar a uma breve consideração das teorias da interpretação histórica promovidas pelos quatro filósofos da história do século XIX. sinedóquica e irônica.ou seja.116 TRÓPICOS DO DISCURSO ideológica contidas na dotação linguística de sua época: metafórica (Michelet). idealista e crítica) se decompõem em formas de consciência que são manifestamente metafórica. causai. embora as denominem segundo seus próprios sistemas particulares de terminologia. de outro. E. Esta questão diz respeito à validade da teoria tropológica da própria linguagem poética. positivista. crítica e conceituai são estabelecidas com base nas diferenças entre uma consciência histórica que é “ingênua” num extremo e “sentimental” no outro. monumental.

foi elaborada como uma “ciência da expressão e da linguística geral” (o subtítulo da sua Estética). A INTERPRETAÇÃO NA HISTÓRIA 117 especial. Em sua análise das bases na fala de todos os modos possíveis de compreender a realidade. e paradigmas alternativos de explicação são apresentados como as únicas formas possíveis que uma “ciência da história” pode assumir. Sua teoria da arte. ele esteve na iminência de captar a natureza essencialmente tropológica da interpretação em geral. Se semelhante investigação estaria apta a promover um entendimento adequado das operações desses campos de estudo. por sua vez. não posso dizer. Mas ela pelo menos eliminaria a controvérsia do terreno em que os compromissos ideológicos conflitantes aparecem com roupagens de metodologias. . Não obstante. Croce passou progressivamente do estudo das bases epistemológicas do conhecimento histórico para uma posição em que buscou subordinar a história a um conceito geral da arte. Foi impedido de formular esta percepção direta. tanto a forma quaternária dessas análises das modalidades da interpretação histórica quanto suas caracterizações específicas por parte dos teóricos mencionados fornecem a base para a investigação posterior das origens tropológicas dos tipos de interpretação encontrados em áreas de estudo como a história. mais provavelmente por causa de sua própria suspeição “irônica” de sistema em qualquer ciência humana.

deve-se estar preparado para formular sobre ela um tipo de pergunta que não deve ser formulado no exercício dela. Clio I (1972):5-20. é improvável que tenha a perícia necessária para distinguir entre os acontecimentos significativos e os não-significativos de sua área. 1963). quando comparadas a outros tipos de explicações que poderiam ser oferecidos para esclarecer a matéria de que se ocupam 68 Este ensaio é uma versão revisada de uma conferência dada no Colóquio de Literatura Comparada da Yale University em 24 de janeiro de 1974. Deve-se tentar manter-se atrás dos pressupostos que conferem sustentação a um dado tipo de investigação (ou pelo menos manter-se sob a sua influência) e formular as perguntas que sua prática pode requerer. O ensaio aproveitou-se de conversas com Michael Holquist e Geoffrey Hartman. 1957). The Idea of History (Oxford. . Ne!e. por conseguinte. Além de Anatomy ofCriticism de Northrop Frye (Princeton. Sebeok (New York e London. intitulada “A Poética da História”. e. tentei desenvolver alguns dos temas que originariamente analisei num artigo. 1966). “New Directions from Old”. Jacques Ehrmann (New York. “A Estrutura da Narrativa Histórica”. em Fables ofldentity (New York. and Culture (Ann Arbor. emStructuralism. ver também o seu ensaio sobre a filosofia da história. Também recorri ao material de meu livro Metahistory: The Historical Imagination in Nineteenth-Century Europe (Baltimore. Ela se volta para questões como: Qual é a estrutura de uma consciência peculiarmente historical Qual é o status epistemológico das explicações históricas. As noções de natureza tropológica do estilo desenvolvidas por Jakobson aparecem em “Linguistics and Poetics”. provavelmente será adepto de uma ou outra de suas seitas e. principalmente à introdução. Poder-se-ia pensar que estas dificuldades não surgem no campo da própria história. recorri a Paul Henle. 1956). ed. 1960). obviamente. É isto o que a meta-história tenta fazer. Thought. Thomas A. Entretanto. ou mesmo de uma ciência. Para as observações sobre a natureza icônica da metáfora. é difícil obter uma história objetiva de uma disciplina erudita porque. The Savage Mind (London. mas surgem. tendencioso. 1966). Para escrever a história de uma dada disciplina erudita. ed. 112 TRÓPICOS DO DISCURSO 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO68 Uma das maneiras pelas quais uma área de pesquisa erudita faz uma avaliação de si mesma é examinando a sua história. se não a pratica. se o historiador a pratica ele mesmo. Collingwood. 1966) e de “Overture to Le Cru et le Cuit". 1973). Sobre estória e enredo na narrativa histórica segundo o pensamento de R. no interesse de determinar por que este tipo de investigação foi projetado para dar solução aos problemas que ele caracteristicamente procura resolver. G. e não apenas pelas razões acima mencionadas. ambos da Yale University e especialistas na teoria da narrativa. Language. ver. As citações de Claude Lévi-Strauss foram extraídas da sua obra. em Style and Language.

Ora. Mas de um modo geral houve uma relutância em considerar as narrativas históricas como aquilo que elas mani- festamente são: ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com os seus equivalentes na literatura do que com os seus correspondentes nas ciências. nos próprios fatos”. assim. Mas Frye parece acreditar que estes mitos só são operativos nas vítimas do que se poderia chamar “falácia poética”. como as obras de Gibbon e Spengler”. como Hegel. quer esse modelo se componha das ações dos homens no passado. Marx. “coletando seus fatos e tentando evitar quaisquer padrões de formação. segue-se. Frye se refere inclusive a diferentes tipos de mitos históricos: mitos românticos. Ele não trabalha “a partir” de uma “forma unificadora”. Há. e dizer ao historiador que aquilo que dá forma ao seu livro é um mito lhe pareceria vagamente acintoso”. mas “com vistas” a ela. ele se torna mítico na forma e. quer do próprio pensamento do historiador acerca de tais ações. porém. dos agentes e das atividades encontrados no registro histórico sempre incompleto. E tampouco quer dizer que os teóricos da literatura nunca estudaram a estrutura das narrativas históricas. “em certo sentido. que o historiador. Uma das marcas do bom historiador profissional é a firmeza com que ele lembra a seus leitores a natureza puramente provisória das suas caracterizações dos acontecimentos. mitos cômicos. não-sujeitos a controles experimentais ou observacionais. “baseados numa busca (ou peregrinação) de uma Cidade de Deus ou de uma sociedade sem classes”. diz ele. principalmente as ciências físicas e sociais. “O historiador trabalha indutivamente”. o próprio Frye admite que. No entanto. Como observou Northrop Frye. “mitos do progresso mediante evolução ou revolução”. Isso não quer dizer que historiadores e filósofos da história não observaram a natureza essencialmente provisória e contingente das representações históricas e sua suscetibilidade a uma revisão infinita dos problemas à luz de novos testemunhos ou de uma conceituação mais elaborada. como faz o poeta. mas esse ideal pressupõe uma oposição entre . portanto. Spengler. exceto aqueles que ele vê. ou pela adequação da sua reprodução verbal de seu modelo exterior”. como qualquer um que escreva prosa discursiva. e por historiadores interessados em avaliar o êxito de sua disciplina no levantamento do passado e na determinação da relação desse passado com o presente. historiador alcança certo nível de abrangência. mitos trágicos. de “declínio e queda. “de recorrência ou de catástrofe casual”. se aproxima do poético na estrutura”. ou tem a honesta convicção de ver. Toynbee e Sartre . Nietzsche. O que Frye diz é bastante verdadeiro enquanto afirmação do ideal que inspirou a escrita histórica desde a época dos gregos. Essa questão diz respeito ao status da narrativa histórica. 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 113 comumente os historiadores? Quais são as formas possíveis de representação histórica e quais as suas bases? Que autoridade podem os relatos históricos reivindicar como contribuições a um conhecimento seguro da realidade em geral e às ciências humanas em particular? Ora. portanto. e mitos irônicos. o histórico é o oposto do mítico. um problema que nem os filósofos nem os historiadores encararam com muita seriedade e ao qual os teóricos da literatura só têm concedido uma atenção momentânea. é óbvio que esta fusão da consciência mítica e da histórica ofenderá alguns historiadores e perturbará aqueles teóricos literários cuja concepção de literatura pressupõe uma oposição radical da história à ficção ou do fato à fantasia. considerada exclusivamente como um artefato verbal que pretende ser um modelo de estruturas e processos há muito decorridos e. muitas dessas questões foram tratadas com bastante competência durante o último quarto de século por filósofos empenhados em definir as relações da história com outras disciplinas. “quando o projeto de um.historiadores cujo fascínio pela capacidade “construtiva” do pensamento humano lhes atenuou a responsabilidade pelos dados “descobertos”. deve ser julgado “pela verdade do que diz.

ou escrita discursiva imediata. deixa de ser inteiramente história para tornar-se um gênero bastardo. 114 TRÓPICOS DO DISCURSO mito e história que é tão problemática quanto venerável. precisamente da maneira como Frye sugeriu ser o caso das “ficções” em geral. Entretanto. G. podemos estar certos de que ela tem dois lados. eu diria que as histórias conseguem parte do seu efeito explicativo graças ao êxito em criar estórias de simples crônicas. dados o testemunho disponível e as propriedades formais que ela revelou à consciência capaz de formular a questão certa com relação a ela. produto de uma união profana. De acordo com essa teoria. e deixa de ser literatura”. quando o elemento ficcional . o máximo que pode oferecer ao historiador são os elementos de estória. derivadas dos corpora da literatura religiosa clássica e judaico-cristã. de “urdidura de enredo”. compreendemos por que uma estória particular “se revelou” como fez quando identificamos o mito arquetípico. consistem. Estas estruturas foram deslocadas para o interior de artefatos verbais de modo a servir de sentidos latentes deles. na sua forma não- processada. Collingwood postulava que os historiadores abordavam o seu testemunho dotados de um senso das formas possíveis que os diferentes tipos de situação reconhecidamente humana podem assumir. Collingwood insistia em dizer que o historiador era sobretudo um contador de estórias e afirmava que a sensibilidade histórica se manifestava na capacidade de criar uma estória plausível a partir de uma congérie de “fatos” que. ou mythoi. Esta imaginação construtiva funciona mais ou menos como funcionaria. já que tem um lado.qual “deve ter sido o caso”. A esse sentido ele denominava faro para a “estória” contida no testemunho ou para a “verdadeira” estória que jazia sob a estória “aparente” ou oculta por trás dela. segundo Kant. carecia absolutamente de sentido. do qual a estória é uma exemplificação. E por urdidura de enredo entendo simplesmente a codificação dos fatos contidos na crônica em forma de componentes de tipos específicos de estruturas de enredo. visto que lhe permite localizar o especificamente “fictício” no espaço entre os dois conceitos de “mítico” e “histórico”. que dizia ao historiador . “Toda obra de literatura”. e as estórias. mas quando nos movemos da “projeção ficcional” para a articulação aberta do tema. E vemos o “ponto” de uma estória quando lhe identificamos o tema (a tradução de Frye para dianoia). embora inatural. que a transforma numa “parábola ou fábula ilustrativa”. que é fragmentário e sempre incompleto. E para Frye. a imaginação apriorística quando ela nos diz que. porque o próprio conceito de um lado implica pelo menos um outro. os historiadores precisam fazer uso do que Collingwood chamava “imaginação construtiva”. E concluía que os historiadores fornecem explicações plausíveis para corpos de testemunhos históricos quando conseguem descobrir a estória ou o conjunto de estórias contidas implicitamente dentro delas. a história (ou pelo menos a “história convencional”) pertence à categoria da “escrita discursiva”. a escrita tende a assumir o aspecto de “comunicação direta. embora não possamos perceber simultaneamente ambos os lados do tampo de uma mesa. insiste Frye. como vimos. por sua vez. de modo que.está presente nela de maneira óbvia. o seu conteúdo temático. Como hão de lembrar-se os leitores da Anatomy of Criücism. “tem ao mesmo tempo um aspecto ficcional e um aspecto temático”. O falecido R. em outro lugar. segundo Frye.como o faz ao detetive competente . Os sentidos fundamentais de todas as ficções. Ela serve muito bem aos propósitos de Frye. ou estrutura de enredo pré-genérica. são criadas das crônicas graças a uma operação que chamei. O que Collingwood não logrou perceber é que nenhum conjunto dado de acontecimentos históricos casualmente registrados pode por si só constituir uma estória. Frye concebe que as ficções consistem parcialmente em sublimados de estruturas míticas arquetípicas. No seu empenho em compreender o registro histórico. nas “estruturas de enredo pré-genéricas”. Os acontecimentos são convertidos em estória pela supressão ou subordinação de alguns deles e pelo realce de .ou a estrutura mítica do enredo . entre a história e a poesia.

Considerados como elementos potenciais de uma estória. Se acabam encontrando o seu lugar numa estória que é trágica. nenhum acontecimento histórico é intrinseca. em vez de outra. como ocorre com os textos literários. cômicas ou românticas.para fazer uso das categorias de Frye isso vai depender da decisão do historiador em configurá-los de acordo com os imperativos de uma estrutura de enredo ou mythos. porém não precisam ser . variação do tom e do ponto de vista. da estrutura de enredo que lhe parece mais apropriada para ordenar os eventos desse tipo de modo a transformá-los numa estória inteligível. Isto sugere que aquilo que o historiador traz à sua consideração do registro histórico é uma noção dos tipos de configuração dos eventos que podem ser reconhecidos como estórias pelo público para o qual ele está escrevendo. estratégias descritivas alternativas e assim por diante . seu contemporâneo Tocqueville contou na forma de uma tragédia irônica. os acontecimentos históricos são de valor neutro. romântica ou irônica. repetição do motivo. conforme o caso. saberá o que Collingwood tinha em mente. Mas por que estas representações alternativas. apenas uma farsa do ponto de vista de outra classe. Tampouco se deve imaginar que contaram estórias diferentes da Revolução porque haviam descoberto tipos diferentes de fatos. de um lado. por parte do historiador.mente trágico-. só pode ser concebido como tal de um ponto de vista particular ou de dentro do contexto de um conjunto estruturado de eventos do qual ele é um elemento que goza de um lugar privilegiado. ideológicos. porém se deve ser contada à maneira romântica. Quem quer que tenha ministrado ou frequentado um desses cursos de múltiplo teor. exatamente da mesma forma que na sociedade o que parece ser trágico do ponto de vista de uma classe pode ser. de modo a fornecer interpretações diferentes daqueles eventos e a dotá- los de sentidos diferentes. Não se pode dizer que um tenha tido mais conhecimento que o outro dos “fatos” contidos no registro. 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 115 outros. trágica ou satírica é uma questão em aberto. Collingwood observou certa vez que jamais poderíamos explicar uma tragédia a quem quer que já não estivesse familiarizado com os tipos de situação que são considerados “trágicos” em nossa cultura. dependendo da escolha. ele pode falhar. por caracterização. O importante é que a maioria das sequências históricas pode ser contada de inúmeras maneiras diferentes. Podem ser todas inerentemente irônicas. intitulados comumente Civilização Ocidental ou Introdução aos Clássicos da Literatura Ocidental. As situações históricas não são inerentemente trágicas. para não dizer mutuamente exclusivas. esté- ticos ou míticos. como Marx pretendeu demonstrar com O 18 Bmmário de Luís Bonaparte. políticos. Mas as situações históricas não configuraram nelas sentidos intrínsecos. por exemplo. Pois na história o que é trágico de uma perspectiva é cômico de outra. na sua grande história da Revolução Francesa. Na verdade. de outro. Não creio que alguém aceitasse a urdidura de enredo da vida do presidente Kennedy como comédia. cômica. do que era substancialmente o mesmo conjunto de eventos parecem igualmente plausíveis aos seus respectivos públicos? Apenas porque os historiadores partilhavam com os seus públicos certas preconcepções sobre o modo como a Revolução poderia ser contada. o que Michelet. A menos que tenhamos alguma ideia dos atributos genéricos da situação trágica. construiu no modo de um drama de transcendência romântica. O mesmo conjunto de eventos pode servir como componentes de uma estória que é trágica ou cômica. Por exemplo. romântica ou irônica . sociais. não seremos capazes de reconhecê-las como tais quando deparamos com elas num texto literário. Eles perseguiram tipos diferentes de fatos porque tinham tipos diferentes de estórias para contar. apenas tinham concepções diferentes do tipo de estória que quadrava melhor aos fatos que conheciam. em resposta aos imperativos que eram de um modo geral extra-históricos. Assim.em suma. cômica. por todas as técnicas que normalmente se espera encontrar na urdidura do enredo de um romance ou de uma peça.

116 TRÓPICOS DO DISCURSO urdidas dessa forma. só pensamos nas situações como trágicas ou cômicas porque tais conceitos fazem parte de nossa herança cultural em geral e literária em particular. tornaram-se estranhos. Tornam-se familiares. A estranheza. enigmático ou misterioso em suas manifestações imediatas é codificar o conjunto em função de categorias culturalmente fornecidas. Em seu relato narrativo do modo como este conjunto de eventos assumiu a forma que percebe ser inerente a esse relato. ele urde o seu relato na forma de uma estória de um tipo particular. Uma delas é subordinar os eventos às leis causais que podem ter regido a sua concatenação a fim de produzir a configuração particular que os eventos parecem assumir quando considerados como “efeitos” de forças mecânicas. no processo de acompanhar o relato desses eventos pelo historiador. como Frye e outros críticos arquetípicos sugerem. Tudo o que o historiador necessita fazer para transformar uma situação trágica numa cômica é alterar o seu ponto de vista ou mudar o escopo das suas percepções. O modo como uma determinada situação histórica deve ser configurada depende da sutileza com que o historiador harmoniza a estrutura específica de enredo com o conjunto de acontecimentos históricos aos quais deseja conferir um sentido particular. mistério ou exotismo original dos eventos se dispersa e eles assumem um aspecto familiar. depois de perceber a classe ou tipo a que pertence a estória que está lendo. e em geral esse é o modo da historiografia. Pois não só as estruturas de enredo pré-genéricas. Tornaram-se abrangentes ao serem submetidos às categorias da estrutura de enredo em que são codificados como uma estória de um tipo particular. tais como conceitos metafísicos. tragédia. ele experimenta o efeito de ter os eventos da estória explicados para ele. são limitadas em número. como também a codificação dos eventos em função de tais estruturas de enredo é uma das maneiras de que a cultura dispõe para tornar inteligíveis tanto o passado pessoal quanto o passado público. Isso não difere do que acontece. não em seus detalhes. O leitor. ele captou o seu ponto principal. Outra maneira de conferir sentido a um conjunto de acontecimentos que parece estranho. mas também porque lhe foi mostrado como os dados se harmonizam com um ícone de um processo finito abrangente. manifestados na síndrome neurótica. cujos “dados” sempre são imediatamente estranhos. deixaram de ser familiares. crenças religiosas ou formas de estória. simplesmente em virtude de estarem distantes de nós no tempo e de se originarem num modo de vida diferente do nosso. não só porque o leitor tem agora mais informações sobre os eventos. vale dizer. Trata-se essencialmente de uma operação literária. ele não apenas acompanhou com êxito a estória. epopeia ou o que quer que seja. ele começa por perceber a possível forma de estória que tais eventos podem configurar. ou se supõe acontecer. chega pouco a pouco a compreender que a estória que está lendo é de um tipo. comédia. Podemos conferir sentido a um conjunto de acontecimentos de muitas formas diferentes. Em todo caso. e não de outro: romance. mediante as quais os conjuntos de eventos se podem constituírem estórias de um tipo particular. O efeito dessas codificações é tornar familiar o não-familiar. No processo de estudar um dado complexo de eventos. O historiador partilha com seu público noções gerais das formas que as situações humanas significativas devem assumir em virtude de sua participação nos processos específicos da criação de sentido que o identificam como membro de uma dotação cultural e não de outra. mas em suas funções de elementos de um tipo familiar de configuração. sátira. criadora de ficção. A essa altura. E chamá-la assim não deprecia de forma alguma o status das narrativas históricas como fornecedoras de um tipo de conhecimento. na psicoterapia. entendeu-a. uma estrutura de enredo com a qual ele está familiarizado como parte da sua dotação cultural. para não dizer exóticos. Os conjuntos de acontecimentos do passado do paciente que são a causa presumida do seu sofrimento. E. misteriosos e ameaçadores e assumiram um sentido que ele não pode aceitar nem rejeitar . E o modo da explicação científica.

se não conhecesse de algum modo os fatos. Mas os . dos vestígios de memória traumatizada na forma como os evoca obsessivamente. os historiadores as refamiliarizam. que se alienaram da história de vida do paciente em virtude de sua sobredeterminação como forças causais. 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 117 efetivamente. carregou-os de um sentido tão intenso que. os maiores historiadores sempre se ocuparam daqueles acontecimentos nas histórias de suas culturas que são “traumáticos” por natureza e cujo sentido é problemático ou sobredetermi. seria incapaz de reconhecê-los e recalcá-los sempre que aflorassem à sua consciência. Ademais. o paciente supertramou esses acontecimentos. a “verdade” em oposição à “fantasia” que o obceca. mas também mostrando como o seu desenvolvimento se conformou a um ou outro dos tipos de estória a que convencionalmente recorremos para dar um sentido às nossas próprias histórias de vida. principalmente a outro analista. utilizo o exemplo apenas para ilustrar um aspecto importante do componente fictício das narrativas históricas. Mas é errôneo considerar que uma história é um modelo semelhante a uma maqueta em escala de um avião ou navio. o processo terapêutico é um exercício no processo de refamiliarizar os acontecimentos que deixaram de ser familiares. O problema do terapeuta. Tampouco é ministrar-lhe um curso rápido sobre a teoria psicanalítica para esclarecê-lo quanto à verdadeira natureza do seu sofrimento. que convive com eles constantemente e de tal modo que se lhe torna impossível ver quaisquer outros fatos exceto através da coloração que o conjunto de acontecimentos em questão confere à sua percepção do mundo. não só fornecendo mais informações sobre elas. Ora. Pois podemos verificar a adequação deste último tipo de modelo olhando para o original e aplicando as regras necessárias de tradução. ou instituições que perderam sua função original numa sociedade mas continuam a desempenhar um papel importante no cenário social contemporâneo.co das narrativas históricas. Admite-se em geral . Não é que o paciente não sabe quais eram aqueles acontecimentos. pois. Poderíamos dizer que. não me interessa forçar a analogia entre psicoterapia e historiografia. não é que não conhece os fatos. acontecimentos como revoluções. também nos diz algo importante sobre o aspecto mimêti. ele os conhece muito bem. guerras civis. Os historiadores procuram nos refamiliarizar com os acontecimentos que foram esquecidos por acidente. de acordo com a teoria da psicanálise. desatenção ou recalque. eles continuam a moldar tanto as suas percepções como as suas respostas ao mundo muito tempo depois que deveriam ter-se tornado “história passada”. Mas a teoria psicanalítica reconhece que o paciente resistirá a estas duas táticas da mesma forma que resistirá à intrusão. Ora. Isto é o que o analista poderia fazer ao relatar o caso do paciente a uma terceira pessoa. não é exibir diante do paciente os “fatos reais” da questão.nado na significação que ainda encerram para a vida atual. Encarado dessa forma.que a história é um modelo verbal de um conjunto de acontecimentos exteriores à mente do historiador. catalogando- o como manifestação de algum “complexo”. Ao examinar os modos como essas estruturas tomaram forma ou evoluíram. com efeito. vendo sob que aspecto o modelo logrou reproduzir efetivamente as características do original. a um mapa ou a uma fotografia. então.como disse Frye . E poderíamos dizer que os acontecimentos perdem seu caráter traumático ao serem removidos da estrutura de enredo em que ocupam um lugar predominante e inseridos em outra na qual tenham uma função subordinada ou simplesmente banal como elementos de uma vida partilhada com os demais seres humanos. processos em grande escala como a industrialização e a urbanização. se isso é plausível como caracterização do efeito explicativo da narrativa histórica. sejam reais ou apenas imaginários. Conhece-os tão bem. Ao contrário. O problema é levar o paciente a “retramar” toda a história da sua vida. de maneira a mudar o sentido para ele daqueles acontecimentos e a sua significação para a economia de todo o conjunto de acontecimentos que compõem a sua vida. na consciência.

pode-se comparar a “história” à “literatura” em razão do seu interesse mais no “real” que no “possível”. Desta forma. não podemos olhar para eles a fim de verificar se o historiador os reproduziu com propriedade na sua narrativa. quando se referem ao “contexto” de uma obra literária. estou recorrendo às distinções entre signo. Mas a suposta concretude e acessibilidade dos meios históricos. a responder à pergunta: As representações históricas são representações de quê? Quero crer que devemos dizer das histórias o que Frye parece pensar que vale apenas para a poesia ou para as filosofias da história. de outro.tem uma concretude e uma acessibilidade que a obra em si nunca pode ter. símbolo e ícone que C. Tenho em mente Frye. Nem deveríamos querer tal coisa. a narrativa histórica aponta simultaneamente para duas direções: para os acontecimentos descritos na narrativa e para o tipo de estória ou mythos que o historiador escolheu para servir como ícone da estrutura dos acontecimentos. 118 TRÓPICOS DO DISCURSO processos e estruturas históricos não são como esses originais. Booth. Pierce desenvolveu na sua filosofia da linguagem. os acontecimentos nela relatados e. A evasão das implicações da natureza fictícia da narrativa histórica decorre em parte da utilidade do conceito de “história” para a definição de outros tipos de discurso. o que é supostamente o objeto de representação das obras “literárias”. Kellogg e outros. Vista de um modo puramente formal. a história serviu como um tipo de arquétipo do polo “realista” de representação. Assim. S. Tampouco é incomum para os teóricos da literatura. tal como apareceu nos documentos. Aqui. de um lado. obviamente. que. pois. como se fosse mais fácil perceber a realidade de um mundo passado constituído com base em milhares de documentos históricos do que sondar as profundezas de uma única obra literária que se apresenta aos olhos do crítico que a estuda. que inspirou o empenho do historiador em criar um modelo dele no primeiro lugar.o “meio histórico” . Acho que estas distinções nos ajudarão a compreender o que é fictício em todas as representações supostamente realistas do mundo e o que é realista em todas as representações manifestamente fictícias. mas também um complexo de símbolos que nos fornece direções para encontrar um ícone da estrutura desses acontecimentos em nossa tradição literária. ficaríamos na mesma situação do paciente cujo analista apenas lhe disse. considerada como um sistema de signos. convencionalmente usada em nossa cultura para dotar de sentido os acontecimentos e situações não-familiares. uma narrativa histórica é não só uma reprodução dos acontecimentos nela relatados. em resumo. foi a própria singularidade do original. supor que este contexto . Scholes. quais foram os “verdadeiros fatos” do começo da vida do paciente. com base em entrevistas com os seus pais. Não teríamos qualquer razão para pensar que alguma coisa nos fora de modo algum explicada. são elas . apesar de tudo. A narrativa em si não é o ícone. o que ela faz é descrever os acontecimentos contidos no registro histórico de modo a informar ao leitor o que deve ser tomado como ícone dos acontecimentos a fim de torná-los “familiares” a ele. Elas nos ajudam. parentes e amigos de infância. De modo semelhante. É isso que me leva a pensar que as narrativas históricas são não apenas modelos de acontecimentos e processos passados. mas também afirmações metafóricas que sugerem uma relação de similitude entre esses acontecimentos e processos e os tipos de estória que convencionalmente utilizamos para conferir aos acontecimentos de nossas vidas significados culturalmente sancionados. mesmo que pudéssemos fazê-lo. Auerbach. a saber. estes contextos dos textos examinados por estudiosos da literatura. a estrutura de enredo pré-genérica. a narrativa histórica serve de mediadora entre. Se o historiador o fizesse apenas para nós. Pode-se comparar a “história” à “ciência” pela sua falta de rigor conceituai e por seu malogro em criar os tipos de leis universais que as ciências caracteristicamente procuram criar. numa longa e ilustre tradição crítica que tentou determinar o que é “real” e o que é “imaginado” no romance.

Pois a “crônica” dos eventos com que o historiador forma a sua estória do “que realmente aconteceu” já nos chega pré-codifica. o mesmo período e os mesmos acontecimentos - acontecimentos cuja realidade se dispersa por cada nível de uma estrutura multiestratificada”. Cada nova obra histórica apenas se soma ao número de textos possíveis que têm de ser interpretados se se quiser traçar fielmente um retrato completo e exato de um determinado meio histórico. cronologias em que mais datas ou menos datas parecem demandar inclusão numa crônica total do que aconteceu. Tal como a literatura. Tampouco a compreensão que temos do passado se desenvolve mediante o tipo de brechas revolucionárias que associamos ao desenvolvimento das ciências físicas. se a ampliação do conhecimento que temos do passado torna mais difícil fazer generalizações sobre ele. A relação entre o passado a analisar e as obras históricas produzidas pela análise dos documentos é paradoxal. essa sequência de “fatos” organizados na ordem temporal da sua ocorrência original. mas não a compreensão que temos dele. aumentada pela produção das narrativas históricas. a história se desenvolve por meio da produção de clássicos. quando o fazem. Há cronologias “quentes” e “frias”. Tampouco é mais acessível o mundo figurado por esses documentos. cada elemento mostra estar fora de alcance. Nosso conhecimento do passado pode aumentar de maneira crescente. Mas alguns deles derivam a sua consistência do fato de poderem ser integrados num sistema cujos termos são mais ou menos críveis quando opostos à coerência global da série”. Lévi-Strauss faz observações sobre o espanto que sentiria um visitante de outro planeta se se defrontasse com os milhares de histórias escritas sobre a Revolução Francesa. E esquecido muitas vezes ou. é negado que nenhum conjunto de eventos atestados pelo registro histórico compreende uma estória manifestamente acabada e completa. classes que constituem os supostos domínios do campo histórico. E. os quais aparecem como problemas para o historiador resolver se pretender fornecer um relato completo e culturalmente responsável do passado. estas são variações relacionadas com o mesmo país. Um não é mais “dado” do que o outro. Mas. a exemplo dos principais esquemas conceituais das ciências. 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 119 próprias produtos da capacidade fictícia dos historiadores que estudaram estes contextos. “procurado isoladamente. as próprias datas chegam até nós já agrupadas em classes de datas. quando se trata de elaborar um relato abrangente . E é o seu caráter de não- invalidação que atesta a natureza essencialmente literária dos clássicos históricos. Os documentos históricos não são menos opacos do que os textos estudados pelo crítico literário. Mas a sua “coerência da série” não pode ser a coerência da série cronológica. deveria ser mais fácil generalizar em torno das formas em que esse conhecimento nos é transmitido. Num ensaio sobre a natureza “mítica” da historiografia. a opacidade do mundo figurada nos documentos históricos é.de seu suposto conteúdo factual. quanto mais conhecemos sobre o passado. uma nação ou todo um povo. cuja natureza é tal que não podemos invalidá-los nem negá- los.da. a forma que é a sua ficção. Pois nessas obras os “autores nem sempre fazem uso dos mesmos incidentes. Há algo numa obra-prima da história que não se pode negar. E o mesmo ocorre com nações ou com culturas inteiras. De fato. tanto mais difícil se torna fazer generalizações sobre ele. Além disso. E Lévi-Strauss prossegue para sugerir que o critério de validade pelo qual se poderia avaliar os relatos históricos não pode depender de seus “elementos” - eqüivale a dizer . Isso é tão verdadeiro no caso de acontecimentos que abrangem a vida de um indivíduo quanto no caso de uma instituição. os incidentes são revelados sob luzes diferentes. quando é lembrado. no entanto. Tudo isto sugere a Lévi-Strauss que. mesmo que confiramos sentido à nossa vida moldando-a retrospectivamente na forma de estórias. e esse elemento nao-negável é a sua forma. se é lícito falar de opacidade. Pelo contrário. Não vivemos estórias. observa ele.

Ou seja.ou seja. deveria ser borrifada regularmente com inseticidas e assim por diante. que “comparam” os acontecimentos nelas expostos a alguma forma com que já estamos familiarizados em nossa cultura literária. a metáfora fornece diretrizes que permitem encontrar uma entidade que evocará as imagens associados aos entes queridos e às rosas em nossa cultura. além e acima de qualquer compreensão que forneçam. tal como o faz a metáfora. ela nos diz a direção em que devemos pensar acerca dos acontecimentos e carrega o nosso pensamento sobre os eventos de valências emocionais diferentes. considerada como uma mensagem. que a pessoa amada é vermelha. um produto de “abstração” e um meio de escapar à “ameaça de uma regressão ao infinito” que sempre se oculta no interior de cada conjunto complexo de “fatos” históricos. laranja ou escura. mas antes como estruturas simbólicas. metáforas de longo alcance. Ela pretende indicar que a pessoa querida partilha as qualidades que a rosa veio a simbolizar nos usos linguísticos corriqueiros da cultura ocidental. dar a entender que a pessoa amada é realmente uma rosa. porém nos diz que imagens procurar em nossa experiência culturalmente codificada a fim de determinar de que modo nos devemos sentir em relação à coisa representada. uma história clarividente deveria admitir que ele jamais escapa completamente à natureza do mito”. as “pretensas continuidades históricas” que o historiador parece achar no registro só são “asseguradas por meio de esquemas fraudulentos” impostos ao registro pelo historiador. Pois é nessa brutal capacidade de excluir certos fatos no interesse de constituir outros em componentes de estórias compreensíveis que o historiador exibe seu tato e sua compreensão. A “coerência total” de qualquer “série” determinada de fatos históricos é a coerência da história. Funciona como um símbolo. A frase banal: “Meu amor. Estes “esquemas fraudulentos” são. mas essa coerência só é alcançada mediante uma adaptação dos “fatos” às exigências da forma da estória. mediante a exploração das similaridades metafóricas entre os conjuntos de acontecimentos reais e as estruturas convencionais das nossas ficções. isto significa apenas que o historiador descreveu dessa forma os eventos para nos lembrar aquela forma de ficção que associamos ao conceito de “trágico”. mediante uma decisão de “abandonar” um ou mais dos domínios de fatos que se oferecem para inclusão em nossos relatos. nossas explicações das estruturas e dos processos históricos são determinadas mais pelo que deixamos de fora das nossas representações do que pelo que nela incluímos. Elas conseguem dar sentido a conjuntos de acontecimentos passados. insiste Lévi-Strauss. a narrativa histórica não reproduz os eventos que descreve. Quando um dado concurso de eventos é narrado no modo da “tragédia”. Como estrutura simbólica. Talvez eu devesse indicar rapidamente o que se entende por aspecto simbólico e aspecto icônico de uma metáfora. recorrendo a supostas leis causais. A narrativa histórica não imagina as coisas que indica: ela traz à mente imagens das coisas que indica. amarela. e não como um signo: vale dizer. ela não nos fornece uma descrição ou um ícone da coisa que representa. Assim. uma rosa” não pretende. Tampouco tenciona sugerir que a pessoa amada tem os atributos específicos de uma rosa . segundo ele. A metáfora não imagina a coisa que ela procura caracterizar. ela fornece diretrizes que facultam encontrar o conjunto de imagens que se pretende associar àquela coisa. obviamente. E assim Lévi-Strauss conclui: “A despeito dos esforços meritórios e indispensáveis para dar vida a um momento da história e para apropriar-se dele. Só podemos construir uma estória compreensível do passado. 120 TRÓPICOS DO DISCURSO dos vários domínios do registro histórico na forma de uma estória. É esta função mediadora que nos permite falar de uma narrativa histórica como de uma metáfora de longo alcance. necessita da luz do sol. que é uma planta. . as histórias nunca devem ser lidas como signos inequívocos dos acontecimentos que relatam. Corretamente entendidas. tem espinhos. O mesmo se dá com as narrativas históricas.

No intervalo entre elas teríamos as várias formas de historiografia que recorrem às . Conceber as narrativas históricas dessa maneira pode lançar alguma luz na crise do pensamento histórico que se vem agravando desde o começo do nosso século. Os historiadores talvez não gostem de pensar que suas obras são traduções do fato em ficções. b. desde uma frase até um romance completo. quer as últimas sejam concebidas como as da lógica (o silogismo) quer como as da narrativa (a estrutura de enredo). e. n (4) a. mas este é um dos efeitos das suas obras. e. c. Imaginemos que o problema do historiador seja dar sentido a um hipotético conjunto de eventos e os arranje numa série a um só tempo cronológica e sintaticamente estruturada. D. A escrita da história prospera com a descoberta de todas as possíveis estruturas de enredo que poderiam ser invocadas para conferir sentidos diferentes aos conjuntos de eventos. um conjunto de eventos (1) a. b. como causas que explicam a estrutura da série toda ou como símbolos da estrutura de enredo da série considerada como uma estória de um tipo específico. e. na arte literária. todas as histórias idealistas são desse tipo. os historiadores fornecem aos eventos históricos todos os possíveis significados de que a arte da literatura da sua cultura é capaz de dotá-los. e. b. uma história que confere ao último evento da série (e). A Cidade de Deus de Santo Agostinho e as várias versões da noção Joaquina do advento do milênio. e. seja real. C. a série pode ser estruturada de inúmeros modos diferentes e. d. A verdadeira controvérsia entre o historiador tradicional e o filósofo da história diz respeito à insistência do último em dizer que os eventos podem ser urdidos numa e apenas numa forma de estória. portanto. . d.n (5) a. c. c. o historiador impõe a esses eventos o significado simbólico de uma estrutura de enredo compreensível. d. 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 121 Pela própria constituição de um conjunto de eventos com vistas a criar com eles uma estória compreensível. seja apenas projetado especulativamente. c. a Filosofia da História de Hegel e. Ora. 5. As urdiduras de enredo da história da “sociedade” por Rousseau no seu Segundo Discurso. de modo que seja estruturado todo discurso. mas que requerem descrição e caracterização como elementos do enredo ou argumento pelos quais se pode dar-lhes sentido.n ordenados cronologicamente. em suas formas mais puras. Podemos caracterizar rapidamente algumas dessas elaborações de enredo nos seguintes modos: (2) A. por Marx no seu Manifesto e por Freud em Totem e Tabu se incluiriam nessa categoria. Podemos ver imediatamente que os imperativos do arranjo cronológico dos eventos que constituem o conjunto devem estar em tensão com os imperativos das estratégias sintáticas já aludidas. Poderíamos dizer que qualquer história que dote qualquer evento supostamente original (a) do status de um fator decisivo (A) na estruturação da série toda de eventos que os sucedem é “determinista”. dotada de sentidos diferentes sem violar de modo algum os imperativos do arranjo cronológico. b. As letras maiúsculas indicam o status privilegiado dado a certos eventos ou conjuntos de eventos na série pelo qual são dotados de força explicativa. a força do poder explicativo total (E) é do tipo de todas as histórias escatológicas ou apocalípticas. em geral. d. n (3) a. n e assim por diante. assim. Temos. Ao sugerir enredos alternativos de uma dada sequência de eventos históricos. . Do mesmo modo. E a nossa compreensão do passado aumenta precisamente no grau com que logramos determinar até que ponto esse passado se adapta às estratégias de dotação de sentido que estão contidas.

contudo. no entanto. portanto. é claro. nos ajuda a conceber o modo como os eventos poderiam ser urdidos de maneira difeVente sem violar os imperativos da ordem cronológica dos acontecimentos (por mais construídos que sejam). na fábula e no folclore. porém: parece-me que eles são imanentes à própria linguagem que o historiador deve usar para descrever os eventos anteriores a uma análise científica ou a uma urdidura fictícia desses mesmos eventos. supondo-se que a ordenação dos eventos na sua própria sequência temporal tivesse fornecido um tipo de explicação do motivo pelo qual eles ocorreram e de onde ocorreram. ele deve lançar mão da linguagem figurativa... c. mas também sobre os conjuntos de relações possíveis que esses eventos figuram de maneira passível de demonstração. existem apenas na mente do historiador que reflete sobre eles.. 3. e sugeri que os relatos históricos clássicos sempre representam tentativas de urdir o enredo das séries históricas adequada e implicitamente para se chegar a um acordo com outras urdi- duras plausíveis. tragédia e sátira) por meio das quais se dota a série de uma forma perceptível e de um “sentido” concebível. E essa tensão dialética entre duas ou mais urdiduras de enredo possíveis que assinala o elemento da autoconsciência crítica presente em qualquer historiador de estatura reconhecidamente clássica. eles estão presentes como modos de relações conceitualizados no mito. Poderíamos imaginar que esses relatos da história pretendem servir de antídotos para os seus equivalentes falsos ou excessivamente ela- borados (n. no conhecimento científico. meio e fim discerníveis. nenhum acordo sobre o tipo de eventos que constituem seu tema específico. A história não possui tal terminologia técnica comumente aceita e. Mas. b. Mais importante. na verdade. 4 e 5 acima) e poderíamos representá-los como um irônico retorno a mera crônica que constituiria o único sentido que qualquer história cognitivamente responsável poderia assumir. da própria cultura do historiador. As linguagens técnicas são familiarizadoras apenas para aqueles que foram instruídos em seu uso e apenas quanto àqueles conjuntos de eventos que os profissionais de uma disciplina concordaram em descrever numa terminologia uniforme. . comédia.. Poderíamos caracterizar essas histórias como segue: (6) “a.. Tentei mostrar em Metahistory o modo como essas misturas e variações ocorrem na escrita dos principais historiadores do século XIX. a meu ver. se o objetivo do historiador é familiarizar- nos com o não-familiar.2. O instrumento característico de codificação. a negação irônica de que as séries históricas apresentam algum tipo de significação mais ampla ou descrevem alguma estrutura de enredo imaginável ou mesmo de que são construídas como uma estória com começo. Este esquema. teríamos a forma pura da crônica. d. As histórias. não são imanentes aos próprios eventos.. Entretanto. Em contraste com a forma ingênua da crônica. não são apenas sobre os eventos. Pois. é altamente abstrato e não faz justiça às possíveis misturas dos tipos que se pretende distinguir nem às variações que ocorrem dentro deles. em vez da linguagem técnica. Isso . comunicação e intercâmbio de que o historiador dispõe é a linguagem culta habitual. Aqui. 122 TRÓPICOS DO DISCURSO estruturas de enredo de um tipo distintamente “ficcional” (romance. poderíamos postular corno uma possibilidade lógica o seu equivalente “sentimental”. esta seria uma forma “ingênua” de crônica... Esses conjuntos de relações. e. igualmente plausíveis do conjunto. mutuamente exclusivas e. de modo a permitir interpretações alternativas. na religião e na arte literária. Se a série fosse simplesmente registrada na ordem em que os eventos ocorreram originariamente.ri’ onde as aspas indicam que a interpretação consciente dos eventos não têm outro sentido senão o da seriaçao. porquanto as categorias de tempo e espaço serviram apenas de princípios interpretativos inspiradores.

mediante a metonímia e mediante a sinédoque. porque ela quadrava à noção. metonímia. senti- me muito atraído por essa ideia. Falta-me espaço para tentar demonstrar a plausibilidade dessa hipótese. em vez de tê-la imposto a eles. a saber. defendida por Vico. podem ser caracterizadas pelo modo do discurso figurativo em que são moldadas. E. relacionando-o como uma parte a algum todo concebível. ela reside igualmente no modo tropo- lógico . como a história. isso significa que os diferentes tipos de interpretação histórica que temos do mesmo conjunto de eventos. abordagem que é tão velha quanto o estudo da retórica e tão nova quanto a linguística moderna.e trata-se de um palpite que vejo confirmado nas reflexões de Hegel sobre a natureza do discurso não-científico — é que.de que cada um se serviu na sua apreensão dos fatos à proporção que apareciam nos documentos. então é bem possível que o tipo de urdidura de enredo que o historiador decide usar para dar sentido a um conjunto de eventos históricos é ditado pelo modo figurativo predominante da linguagem que ele usou para descrever os elementos do seu relato antes de compor a sua narrativa. Todas as narrativas históricas pressupõem caracterizações figurativas dos eventos que pretendem representar e explicar. 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 123 quer dizer que os únicos instrumentos que ele tem para dar sentido aos seus dados. de que a “lógica” de toda “sabedoria poética” estava contida nas relações que a própria linguagem fornecia nos quatro modos principais de representação figurativa: metáfora. Mas espero que este ensaio possa servir como sugestão para uma abordagem do estudo das formas de prosa discursiva como a historiografia. seja uma consequência de certa falta de autoconsciência linguística que obscurece a extensão em que as descrições dos eventos já constituem interpretações de sua natureza. sinédoque e ironia. em qualquer arca de estudo que. Semelhante estudo se faria ao longo das linhas expostas por Roman Jakobson num ensaio intitulado “Linguística e Poética”. até onde sabia. que não estava certo de saber o que os historiadores da literatura poderiam querer fazer. que é o princípio inspirador do meu livro Metahistory. Taine e outros. como a Revolução Francesa que foi interpretada por Michelet. são pouco mais que projeções dos protocolos linguísticos utilizados por esses historiadores para prefigurar esse conjunto de eventos antes de escrever as suas narrativas. havia apenas duas maneiras de relacionar as partes ao todo. a ser esse o caso.metafórico e metonímico. em que ele afirmava que a diferença entre a poesia romântica e as várias formas de prosa realista do século XIX residia na . consideradas meros artefatos verbais. mas sabia que escrever uma história significava colocar um evento dentro de um contexto. Isso significa que a forma das relações que parecerão ser inerentes aos objetos que habitam o campo na realidade foi imposta ao campo pelo investigador no próprio ato de identificar e descrever os objetos que aí descobre. Daí que os historiadores constituam os seus temas como possíveis objetos de representação narrativa por meio da própria linguagem que utilizam para descrevê-los. ao contrário do que sucedeu com a física e a química. Se for este o caso. tornar familiar o estranho e tornar compreensível o passado misterioso são as técnicas de linguagem figurativa. E sugeriu que. Tocqueville. são os tipos de discurso figurativo que ditam as formas fundamentais dos dados a serem estudados. Tendo estado ocupado por algum tempo com o estudo do pensamento de Giambattista Vico. Geoffrey Hartman observou-me certa vez. Meu palpite pessoal . ainda não se “disciplinizou” a ponto de construir um sistema terminológico-formal para descrever os seus objetos. E isso significa que as narrativas históricas. a diferença entre os relatos que Michelet e Tocqueville fazem da Revolução não reside apenas no fato de o primeiro ter narrado a sua história na modalidade do romance e o segundo na modalidade da tragédia. Encarada desse modo. mas parece possível que a convicção do historiador de ter “encontrado” a forma da sua narrativa nos próprios eventos. Trata-se apenas de uma hipótese. durante uma conferência que proferi sobre história literária. respectivamente . tal como faz o poeta.

Vista dessa maneira. estamos operando no modo da metonímia. isto é. na história como no romance. Entretanto. Burke decodifica os eventos da Revolução que os seus contemporâneos vivenciam como grotescos e recodifica-os no modo da ironia. Isso quer dizer que todas as caracterizações originais de alguma coisa devem utilizar tanto a metáfora quanto a metonímia a fim de “fixá-la” como uma coisa acerca da qual podemos discorrer significativamente. E a força explicativa da narração dependeria. seria. para dar sentido a qualquer conjunto de experiências. de modo a mostrar sua progressiva elaboração como uma forma compreensível. fonêmico) de todos os atos da fala. e especialmente a poesia romântica. estamos operando no modo da metáfora. de todas as relações significativas que quem quer que deseje representar estas relações na linguagem imagina existirem no mundo. planejada numa linha temporal de maneira a fazer da interpretação dos eventos que constituem a “Revolução” um tipo de drama que podemos reconhecer como satírico. morfêmico) da linguagem. construído como a modalidade do movimento que parte da representação de algum estado de coisas original para chegar a algum estado subsequente. como o romance. Quando ressaltamos as semelhanças entre os elementos. cumpre-nos identificar tanto as partes de uma coisa que parecem constituí-la quanto a natureza dos aspectos comuns a essas partes e que as tornam identificáveis como uma totalidade. portanto. Esse drama pode ser acompanhado pelo leitor da narrativa de modo a ser vivenciado como uma revelação progressiva daquilo que constitui a verdadeira natureza dos eventos. 124 TRÓPICOS DO DISCURSO natureza essencialmente metafórica da primeira e na natureza essencialmente metonímica da segunda. Michelet recodifica esses eventos no modo da sinédoque. ou a dispersão sintagmática dos acontecimentos através de uma série temporal apresentada como urti discurso em prosa. e na reestruturação progressiva do conjunto num outro modo tropológico. não-classificado e inclassificável. o empenho dos comentadores em dar um sentido à Revolução Francesa é instrutivo. podem ser caracterizadas em função do tropo predominante que lhe serve de paradigma. Porém a fecundidade da teoria de Jakobson repousa na sua sugestão de que as várias formas de poesia e prosa. A narrativa. Nosso problema é identificar a modalidade das relações que ligam os elementos discerníveis da totalidade informe de maneira a torná-la um todo de algum tipo. respectivamente. então. A poesia. Esta teoria binária leva o analista a estabelecer uma oposição dualista entre a poesia e a prosa que parece excluir a possibilidade de uma poesia metonímica e de uma prosa metafórica. O estilo narrativo. representaria a “reviravolta interior” que o discurso realiza quando tenta mostrar ao leitor a verdadeira forma das coisas que subjazem a uma informidade meramente aparente. são pouco mais que projeções do eixo “seletivo” (isto é. Todavia. na desestruturação de um conjunto de eventos (reais ou imaginários) originariamente codificados num modo tropológico. Obviamente. isto é. Por exemplo. quando ressaltamos as diferenças entre eles. é então caracterizada por Jakobson como uma projeção do eixo “combinatório” (isto é. porque ela pressupõe que narrativas macroestruturais complexas. O sentido básico de uma narrativa consistiria. suponhamos que um conjunto de experiências chegue até nós na forma de um conjunto grotesco. autoridade ou costume. também na historiografia. em cada caso a passagem de código para recódigo é descrita narrativamente. No caso da historiografia. então. a revelação é vi venci ada não tanto como uma reestruturação da percepção quanto como uma iluminação de um campo de . do contraste entre a codificação original e a posterior. pois. a narrativa seria um processo de decodificação e recodificação em que uma percepção original é esclarecida por achar-se vazada num modo figurativo diverso daquele em que veio a ser codificada por convenção. das quais todas encontram os seus equivalentes na narrativa em geral e. fornecido pela própria linguagem. Considero por demais limitada esta caracterização da diferença entre a poesia e a prosa. Tocqueville os recodifica no modo da metonímia. romântico e trágico.

Se há um elemento do histórico em toda poesia. Isso não significa que não podemos distinguir entre a boa e a má historiografia. as narrativas históricas são estruturas complexas em que se imagina que um mundo da experiência existe pelo menos de dois modos. Ou seja. Os próprios eventos não se alteram substancialmente de um relato para outro. Mas significa que o empenho em distinguir entre as boas e as más interpretações de um evento histórico como a Revolução não é tão fácil quanto poderia parecer à primeira vista. um dos quais é codificado como “real” e o outro se “revela” como ilusório no decorrer da narrativa. Ranke. sempre podemos recorrer a critérios como a responsabilidade perante as regras da evidência. O que tudo isso indica é a necessidade de revisar. Tucídides. Michelet. tanto para a nossa caracterização dos objetos de nossas representações narrativas quanto para as estratégias por meio das quais compomos os relatos narrativos das transformações desses objetos no tempo. a consistência lógica e assim por diante. E por essa razão que. da política e da história. E é precisamente pelo fato de os grandes clássicos da história. Apesar de tudo. os dados a analisar não apresentam diferença significativa nos diferentes relatos. de técnicas de linguagem figurativa. na qual a ficção é concebida como a representação do imaginável e a história como a representação do verdadeiro. a relativa inteireza do pormenor narrativo. como tais. quando se trata de comparar interpretações distintas de um mesmo conjunto de fenômenos históricos numa tentativa de estabelecer qual é o melhor ou mais convincente. de uma ficção do historiador a suposição de que os vários estados de coisas que ele constitui na forma de começo. Mas o que de fato aconteceu é que um conjunto de eventos originariamente codificado está sendo simplesmente decodificado de certo modo para ser recodifícado de outro. O que difere são as modalidades das suas relações. um grande clássico da história não pode ser invalidado ou anulado pela descoberta de algum novo dado que pudesse pôr em dúvida uma explicação específica de algum elemento do conjunto do relato. Mommsen. há um elemento da poesia em cada relato histórico do mundo. muitas vezes somos levados a confusão ou a ambiguidade. e não apenas subsidiários. Assim concebidas. E isto porque a história não apresenta objeto que se possa estipular como sendo unicamente seu. entre história e poesia tanto obscu. e de reconhecer que a distinção. E isso porque. a distinção convencionalmente estabelecida entre o discurso poético e o discurso em prosa. meio e fim de um curso do desenvolvimento sejam todos “verdadeiros” ou “reais” e que ele simplesmente registrou “o que aconteceu” na tran- sição da fase inaugural para a fase final. no relato que fazemos do mundo histórico. ela sempre é escrita como parte de uma disputa entre figurações poéticas conflitantes a respeito daquilo em que o passado poderia consistir. tão antiga quanto Aristóteles. ou pela criação de novos métodos de análise que nos facultassem lidar com questões que os historiadores mais antigos poderiam não ter levado em consideração. quando se trata de lidar com as interpretações alternativas dadas por historiadores de erudição e complexidade conceituai relativamente análogas. para definir essa questão. A distinção mais antiga entre ficção e história. de vez que. dependentes da modalidade da . na discussão de formas narrativas como a historiografia. Porém tanto o estado inicial de coisas quanto o final são inevitavelmente construções poéticas e. obviamente. como as obras de Gibbon. 0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 125 ocorrência. não poderem ser definitivamente invalidados que devemos atentar para os aspectos especificamente literários da sua obra como sendo elementos decisivos. num grau em que talvez não o desejemos nas ciências naturais.rece quanto ilumina as duas áreas. somos dependentes. Essas modalidades. Burckhardt. deve dar lugar ao reconhecimento de que só podemos conhecer o real comparando-o ou equiparando-o ao imaginável. por seu turno. conquanto possam parecer ao leitor baseadas em diferentes teorias da natureza da sociedade. Bancroft e outros. Trata- se. da sua técnica historiográfica. em última análise têm a sua origem nas caracterizações figurativas do conjunto todo de eventos que representariam totalidades de tipos essencialmente diferentes.

é possível observar que. a fim de justificar uma recodificação dele num outro modo no final.adquire sentido da mesma forma que o poeta ou o romancista tentam provê-lo de sentido. lançando- os por escrito de modo a relatar “o que realmente aconteceu”. mas uma redescrição progressiva de conjuntos de eventos de maneira a desmantelar uma estrutura codificada num modo verbal no começo. A meu ver. Só o diminuiria se acreditássemos que a literatura não nos ensinou algo acerca da realidade. Isto implica que toda narrativa não é simplesmente um registro “do que aconteceu” na transição de um estado de coisas para outro. seriamos capazes de conduzir o ensino da historiografia a um nível de autoconsciência mais elevado do que o que ela ocupa nos dias de hoje. se reconhecêssemos o elemento literário ou fictício de todo relato histórico. visto se ocuparem dos acontecimentos “reais”. ela . enquanto o romancista se ocupa dos eventos “imaginados”. Contudo. nem a forma nem o poder de explicação da narrativa derivam dos diferentes con- teúdos que ela presumivelmente é capaz de conciliar. 126 TRÓPICOS DO DISCURSO linguagem figurativa utilizada para lhes dar o aspecto de coerência. A meu ver. a história enquanto disciplina vai mal atualmente porque perdeu de vista as suas origens na imaginação literária. conferindo ao que originariamente se afigura problemático e obscuro o aspecto de uma forma reconhecível. No empenho de parecer científica e objetiva. Em ambas reconhecemos as formas pelas quais a consciência constitui e povoa o mundo que ela procura habitar confortavelmente. se os historiadores quisessem reconhecer o elemento ficcional de suas narrativas. Na realidade. Com efeito. isso não significaria a degradação da historiografia ao status de ideologia ou propaganda. mas cujos princípios continuam inexplorados? Se reconhecêssemos a existência de um elemento fictício em toda narrativa histórica. de um mundo inumano. Tudo isso é altamente esquemático. Nisto consiste o “ponto médio” de todas as narrativas. representação mais sutil do que aquela que simplesmente exorta o estudante a ir adiante e a “descobrir os fatos”. a maneira de dar-lhe um sentido é a mesma. mas de outro.o mundo real ao longo de sua evolução no tempo . e sei que essa insistência sobre o elemento ficcional de todas as narrativas históricas desperta com certeza a ira dos historiadores que acreditam estar fazendo algo fundamentalmente diferente do romancista. porque familiar. tal reconhecimento serviria de antídoto eficaz para a tendência dos historiadores a apegar-se a preconceitos ideológicos que eles não reconhecem como tais mas reverenciam como a forma de percepção “correta” do “modo como as coisas realmente são”. Do mesmo modo. isto é. deveríamos ser capazes de identificar o elemento ideológico. Que professor não lamentou a sua incapacidade de instruir os principiantes sobre a escrita da história? Que bacharelando em história já não desesperou de tentar compreender e imitar o modelo que os seus instrutores parecem louvar. vivenciamos a “ficcionalização” da história como uma “explicação” pelo mesmo motivo que vivenciamos a grande ficção como iluminação de um mundo que habitamos juntamente com o autor. Por fim. Trazendo a historiografia para mais perto das suas origens na sensibilidade literária. Do mesmo modo. Sempre podemos ver o elemento fictício nos historiadores de cujas interpretações de um dado conjunto de eventos discordamos. contido em nosso próprio discurso. raramente percebemos esse elemento em nossa própria prosa. Não importa se o mundo é concebido como real ou apenas imaginado. dizer que conferimos sentido ao mundo impondo-lhe a coerência formal que costumamos associar aos produtos dos escritores de ficção não diminui de maneira nenhuma o status de conhecimento que atribuímos à historiografia. haveríamos de encontrar na própria teoria da linguagem e da narrativa a base para a representação daquilo em que consiste a historiografia. a história . porque fictício. por ter sido o produto de uma imaginação que não era deste mundo.

0 TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO 127 reprimiu e negou a si própria sua maior fonte de vigor e renovação. devemos fazê-lo no intuito de chegar àquela “teoria” da história sem a qual não se pode de maneira alguma considerá-la “disciplina”. Ao fazer a historiografia recuar uma vez mais até à sua íntima conexão com a sua base literária. . não devemos estar apenas nos resguardando contra distorções simplesmente ideológicas.

narrativista. que toda representação “histórica” . ed. predizer o caminho do futuro desen- volvimento da história69. o “organi cismo” etc. tentarei demonstrar que as distinções convencionais entre “história” e “historicismo” virtualmente não têm valor. No que segue. Historismus não era uma distorção do “sentido histórico”. Aqui. 1961). na variedade “individualizadora” em comparação com a “generalizadora”. 1973). forma. E. The Poverty of Historicism (London. Da mesma. pp. Como se pode ver desde logo. Neste ensaio. Philip W. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA Os debates sobre o “historicismo” vez por outra se originam da suposição de que ele representa uma distorção discernível e injustificável de um modo propriamente “histórico” de figurar a realidade. na medida em que Meinecke elevou um “sentido histórico” geral a uma visão de mundo que incluía o “intuicionismo”.traz em si mesma a maioria dos elementos do que a teoria convencional chama “historicismo”. ao contrário. Iggers está interessado no tipo de historicismo que Meinecke analisou na sua famosa obra Die Enistehung des Historismus (München. Entretanto. Wiener (New York. Sustentarei. Estes imperativos são retóricos por natureza. O historiador molda a sua matéria. enquanto o historiador estuda o passado a bem dele próprio. Para Meinecke. isto teria constituído . mas o seu ponto culminante.. Já afirmei em outro local que as distinções convencionais entre historiografia e filosofia da história mais obscurecem do que esclarecem a verdadeira natureza da representação histórica2. está interessado mais em elaborar pontos de vista que em construir teorias. o primeiro está ligado a “uma percepção de que o passado é fundamentalmente diferente do presente”. essas caracterizações das diferenças entre uma abordagem da história propriamente histórica e uma historicista correspondem àquelas que são convencionalmente utilizadas para diferençar a “historiografia” da “filosofia da história”. senão em conformidade com o que Popper chama de (e critica como) “estrutura de ideias preconcebidas”3. “por ele mesmo”. Em seguida. George Iggers faz uma distinção entre o que ele chama de “sentido da história” e “historicismo”. o “holismo”. Ver o seu artigo “Historicism” em Dictionary of the History ofldeas. Assim. este é o ponto de vista de Popper. o que é pior. 1936). 2:457. autoconscien tem ente perpectivista e fixada no seu tema “a bem dele próprio” que seja .por. o historicista quer usar o seu conhecimento do passado para lançar luzes sobre os problemas do seu presente. isto 6. e o historicista um modo de representação analítico. como se diz. 128 TRÓPICOS DO DISCURSO HISTORICISMO.mais particularizadora. portanto em resposta aos imperativos do discurso narrativo em geral. ao contrário do historicista. De novo supõe-se que o historiador. supõe-se que o historiador prefere um modo de representação narrativista. 143-152. Popper. finalmente. é claro. ou. por exemplo. há os que falam do interesse particularizador do historiador em comparação aos interesses generalizadores do historicista. e o segundo à tentativa de compreender “o passado em sua singularidade” e à rejeição do impulso para “avaliar o passado pelas normas do Iluminismo”. ou. procurarei 69 Obviamente. Ver Karl R.

257-262. p. Man. nos ritmos periódicos de ascensão e queda de todas as civilizações. como em qualquer campo de ocorrência submetido a análise. o historicismo é. enquanto o segundo fornece uma perspectiva sobre os fatos. o micronível e o macronível correspondem aos limites de um conjunto de estratégias explicativas que vão da simples criação da crônica de eventos particulares. 70 Claude Lévi-Strauss. segundo Mandelbaum. uma teoria de valor ligada a alguma versão do geneticismo. Por ora. 143-145). E formula a relação entre eles na forma de um paradoxo: quanto mais informação procuramos registrar sobre um dado campo de ocorrência. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA 129 mostrar que. 150. de outro. nem. Maurice Mandelbaum. ainda não alcançaram o status de ciência. contudo. num amálgama de impulsos físico-químicos e.. porém. Embora faça objeções a uma “estrutura de ideias preconcebidas”. 42-43. embora Popper o chame de variedade “antinaturaüsta”. Hayden Whiten. de um lado.). p. ao recurso a cosmologias abrangentes. 261. O critério para avaliar interpretações conflitantes implica considerar as afirmações feitas a respeito delas (se devem ser consideradas como teorias confirmadas) e verificar se são “interessantes” e “férteis” na sua “sugestivida- de” (ibid. deter-me momentaneamente na alegação de Lévi-Strauss segundo a qual na história. A relação entre o micronível e o macronível Lévi-Strauss caracteriza em termos de uma díade: informação-compreensão. Lévi-Strauss afirma que “o campo histórico”. define o historicismo como uma exigência de que “rejeitemos a opinião de que os eventos históricos apresentam um caráter individual passível de ser apreendido independentemente de os vermos incrustados num modelo de desenvolvimento”. suas objeções a ele são substancialmente idênticas às de Popper. um resvalar para aquele “historicismo”. menos a informação é abarcada pelas generalizações que se destinam a explicá-lo71. O primeiro resulta em “teorias” sobre a história. Ver Popper. HISTORICISMO. que o historicismo seja um Weltcinschüuung. 3. o segundo em “interpretações”. pp. anteriormente a qualquer esforço formal que possa fazer para explicá-lo ou interpretá-lo. . ele submete esse objeto de estudo ao tipo de distorção que os historicistas im- põem à sua matéria de um modo mais explícito e formal. O historicismo. em última análise. afirma ele. Os historicistas erram em conceituar a história mais como um “fluxo” de desenvolvimento que como “uma trama extremamente complexa cujos fios individuais apresentam histórias ^separadas. Metahistory: The Historical Imagination in Nineteenth-Cenlury Europe (Baltimore. como a historiografia. The Savage Mind (London. no micronível. conquanto entrelaçadas” (ibid. de um assunto único. No seu esquema.). e muito menos uma posição filosófica. é simplesmente uma fase preliminar de qualquer análise digna da designação “científica”70. 1973). tal como o alcançaram a física. é antes uma “crença metodológica que diz respeito ã explicação e à avaliação” segundo a qual “uma compreensão adequada da natureza de qualquer fenômeno e uma avaliação adequada do seu valor devem ser obtidas pela sua consideração em função do lugar que ele ocupou e do papel que desempenhou num processo de desenvolvimento” (ibid. e de que a sua técnica fundamental. Não obstante. 71 Idem. pp. existe uma relação paradoxal entre a quantidade de informação que pode ser transmitida em algum relato desse campo e o tipo de compreensão que dele podemos ter. e quanto mais compreensão pretendemos oferecer dele. consiste num campo de eventos que se dissolve. que consiste no arranjo dos eventos que ela deve analisar na ordem serial de sua ocorrência original. no que se deve considerar hoje a análise /í/aHÍ/íra mais abrangente do termo. no sentido pejorativo do termo utilizado por Popper. A diferença parece residir no fato de que o primeiro leva a uma distorção dos fatos com o fito de adaptar uma teoria. History. Mandelbaum nega. por parte do historiador. na própria linguagem de que o historiador se serve para descrever o seu objeto de estudo. de um “ponto de vista seletivo preconcebido” como base para a sua narrativa. Introdução. Popper não se opõe à adoção. Trazer à baila a questão da retórica do discurso histórico é levantar o problema da natureza da descrição e análise em áreas de estudo que. ou uma ideologia. 2. a química e a biologia. 1966). 1971). deixo de lado a afirmação de Claude Lévi-Strauss de que a história não dispõe de um método que seja exclusivamente seu. The Paverty of Historicism. no macronível. Desta forma. menos compreensão desse campo podemos propiciar. pp. o objeto geral do interesse do historiador. and Reason: Study in Nineteenth-Century Thought (Baltimore. Quero.

E. no limite inferior (ou micro) do campo histórico. Jacques Ehrmann (New York. segundo ele. ed. por coerência do mito Lévi-Strauss parece entender o resultado da aplicação de estratégias narrativas mediante as quais unidades básicas de estória (ou aglomerados de eventos) são arranjados de molde a conferir a alguma estrutura ou processo puramente humano o aspecto de necessidade. Fundamentais of Language (The Hague. participam do mítico na medida em que “cosmologizam” ou “naturalizam” o que. E é constituído. “Overture to Le Cru et le cuit'\ em Structuralism. na realidade. graças a uma estratégia conceituai que é mítica e que identifica o “histórico” com as experiências. é mitologi- zá-la: seja com o fito de efetuar a sua transformação mostrando quão “inatu. E isto vale tanto para a historiografia narrativa “propriamente dita”. 1956). quanto para seus equivalentes mais altamente esquematizados da filosofia da história73. Desse modo.ral” ela é (como no caso de Marx e do capitalismo tardio). apresentadas quer sob o aspecto de ciência social. As histórias da fundação de cidades ou Estados. E o mesmo ocorre no discurso que construíssemos para representar o que percebemos ter acontecido no “campo histórico”: o discurso histórico procura representar o desdobramento. os pólos de compreensões míticas da totalidade da experiência e. de outro. pp. nada mais é que construções humanas que poderiam muito bem ser diferentes do que por acaso são. escrever a sua história. deve ser constituído. 1966). os pólos metonímico e metafórico. ao longo de uma linha temporal. isto é particularmente verdadeiro para um campo como a historiografia. e assim por diante . a seu ver. Estes dois pólos do uso da linguagem são identificados aos eixos da combinação e da seleção de qualquer ato de fala significativo. a “ruidosa e florescente confusão” de percepções individuais. todas as ciências (inclusive as ciências físicas) são constituídas por delineamentos arbitrários dos domínios que ocuparão entre. quero simplesmente observar que. da relação entre o eixo sintagmático e o paradigmático de todo discurso que pretensamente represente um campo de acontecimentos que tenha simultaneamente os aspectos de processo e estrutura. Não pretendo de ter-me nessa extensão da teoria da linguagem à teoria do conhecimento. 73 Claude Lévi-Strauss. é a coerência do mito. apenas contiguidade. 6. 130 TRÓPICOS DO DISCURSO E óbvio que aqui Lévi-Strauss estendeu à teoria do conhecimento a sua própria versão do conceito estruturalista de bipolaridade da linguagem: sua díade informação-explicação corresponde aos termos utilizados por Roman Jakobson e outros para caracterizar os dois eixos da linguagem. Isto fornece a base para a caracterização.todas estas histórias. Ora. quer de história. não há similaridade. por parte de Lévi-Strauss. ou convencional. respectivamente 72. das reações sociais específicas a catástrofes naturais. que o pensamento histórico ocidental toma como objeto de estudo. Lévi-Strauss afirma que a suposta “coerência” da história. os modos do pensamento e a práxis peculiares à civilização ocidental moderna. Mas este suposto plano médio não emerge apoditicamente da confusão de eventos e informações que temos do passado e do presente humanos. quão adequadamente ela se adapta à “origem das coisas” (como no caso de Ranke e da sociedade da Restauração). para Lévi-Strauss. apenas similaridade. seja com o fito de consolidar a sua autoridade mostrando quão consoante ela é com o seu contexto. Por ora. de um lado. adequação ou inevitabilidade cósmica (ou natural). que procura ocupar um domínio especificamente humano que constitui o pretenso “plano médio” entre os extremos. historicizar qualquer estrutura. das transformações sociais básicas causadas por revolução e reforma. da origem das diferenças e privilégios de classe. no limite superior (ou macro) não há diferença. 72 Roman Jakobson e Morris Halle. como supõe Lévi-Strauss. . cap. A história. 47-48. Encarado desta forma. de diacronicidade e sincronicidade. de uma estrutura cujas partes são sempre um pouco menos que a totalidade que elas constituem e cuja totalidade é sempre um pouco mais que a soma das partes ou fases que a compõem.

em Ideologia e Utopia. Mas a abordagem de Lévi-Strauss da relação entre o pensamento histórico e a imaginação mítica é muito mais radical do que qualquer coisa concebida por Mannheim. 1946). pp. no ponto de vista versus teoria. 104 e ss. ed. Segundo Jakobson. então a escrita histórica deve ser analisada principalmente como um tipo de discurso em prosa antes que possam ser testadas as suas pretensões à objetividade e à veracidade. em virtude do elemento poético não-reconhe. nunca é apenas a história-de sempre é também a história. e especialmente na sua análise das implicações conservadoras do historicismo rankia. A fusão dos conceitos de poesia e prosa numa teoria geral da linguagem como discurso é uma das principais realizações da teoria linguística moderna. definidas pelo seu interesse no particular versus geral. derruir a falsa distinção entre 74 Lévi-Strauss. The Savage Mind. De maneira mais específica. Permitir-nos-ia transcender a classificação desprovida de valor analítico de tratos históricos em duas classes mutuamente exclusivas. pp. . e idem. da mesma forma que deve procurar desvelar o núcleo prosaico de “mensagem” contido em todo enunciado nitidamente poético[{í. não nos interesses reais ou imaginários dos grupos sociais para os quais poderiam ser escritos os diferentes tipos de historiografia. e assim por diante.cido no seu discurso. Pois Lévi- Strauss localiza o impulso para mitologizar. 1953). Sustento que tal análise nos forneceria os meios de classificar os diferentes tipos de discurso histórico em termos das modalidades de uso figurativo da linguagem que são privilegiadas neles.. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA 131 insiste Lévi-Strauss. Isto significa submeter qualquer discurso histórico a uma análise retórica. 74- 164. HISTORICISMO. a estilística deve procurar analisar a dimensão poética de todo discurso supostamente em pura prosa. como a historiografia. mas antes na própria natureza da linguagem.no em seu ensaio “O Pensamento Conservador”. E não é história-para apenas no sentido de ser escrita com algum objetivo ideológico em vista. Mannheim fez das bases ideológicas das formas da consciência histórica 75. Mais: este propósito e sentido da representação histórica são indicados na própria linguagem utilizada pelo historiador para caracterizar os seus dados antes de qualquer técnica formal de análise ou de explicação que ele lhes possa aplicar a fim de descobrir o que eles “realmente são” ou o que “verdadeiramente significam” 74. Já deparamos com versões desse princípio na análise que. procuram ser objetivas e realistas nas suas representações do mundo mas que. trad. pp. ídeology and Utopia. de molde a revelar a subestrutura poética do que pretende passar por uma modesta representação em prosa da realidade. Essa fusão do prosaico e do poético dentro de uma teoria geral do discurso tem consequência s importantes para a nossa compreensão do que está implícito naquelas áreas de estudo que. As implicações dessa fusão foram particularmente fecundas no campo da estilística. em Essays in Sociology and Social Psychology. Poder-se-ia afirmar que tudo isso é muito familiar. Paul Kecskemeti (New York. mas também história-/?ara no sentido de ser escrita para um grupo social ou público específico. ele localiza o impulso para mitologizar numa faculdade poética que se revela tão prontamente em formas supostamente realistas de discurso em prosa como a historiografia quanto na natureza manifestamente figurativa daquela forma de discurso que o homem “civilizado” denomina “poesia”. como faz Mannheim. Se Jakobson estiver certo. no passado versus presente e futuro. “Conservative Thought”. 75 Ver Karl Mannheim. ocultam de si mesmas sua própria subjetividade e seu caráter de serem limitadas pela cultura. Tal como foi elaborado por Jakobson. 257-258. Louis Wirth e Edward Shils (New York. o problema do estilo nos faz recuar ao reconhecimento de que todo discurso é uma mediação entre o polo metafórico e o metonímico do procedimento da linguagem através daquelas “figuras de linguagem” estudadas originariamente pelos retóricos clássicos.

Removam-nas do discurso e destruirão grande parte do seu impacto como “explicação” na forma de uma descrição “idiográfica”. de um lado. As figuras de linguagem são a própria medula do estilo individual do historiador. Se existe alguma diferença. Mas o estudo do elemento figurativo num dado discurso histórico nos permite caracterizar as suas dimensões instrumentais. portanto. Uma análise retórica do discurso histórico reconheceria que toda história digna do nome contém em si não só certa quantidade de informação e uma explicação (ou interpretação) do que “significam” essas informações. os historiadores que se orgulham de evitar o uso de todo jargão e terminologia técnica nas suas descrições e análises dos seus temas não deveriam ser vistos como historiadores que evitaram cair no historicismo em decorrência desse procedimento. quando não é idêntico. A teoria das figuras de linguagem nos permite seguir o historiador na sua codificação de um campo de ocorrência naquilo que pode parecer apenas uma descrição original e isenta de valor. 132 TRÓPICOS DO DISCURSO um relato da história propriamente “histórico” e um relato simplesmente “historicista”. Assim considerados. na realidade. como escapar ao poder determinante do uso da linguagem figurativa. e para se tornar convincente requer a ampliação teórica e a exemplificação. mas antes como historicistas de um tipo particular. mas também uma mensagem mais ou menos patente sobre a atitude que o leitor deveria assumir tanto diante dos dados relatados quanto da sua interpretação formal11. voltarei. esse elemento retórico é ainda mais importante do que o elemento lógico para se compreender o que acontece na composição de um discurso histórico. mas que. é uma prefiguração do campo que nos prepara para a explicação ou interpretação formal que ele oferecerá subsequentemente l2. analisar uma passagem de prosa “propriamente” histórica a fim de explicar a relação predominante entre os seus sentidos manifestos e latentes (figurativos). na medida em que continuam a ignorar até que ponto aquilo que dizem sobre os seus temas se encontra inextricavelmente ligado. Essa mensagem está contida nos elementos figurativos que aparecem no discurso e que servem como pistas subliminarmente projetadas para o leitor acerca da qualidade do assunto estudado. tentarei caracterizar o discurso histórico em termos um pouco mais formais e. E esses elementos figurativos desempenham um papel correspondentemente mais importante como componentes da mensagem do discurso histórico exatamente no grau em que o próprio discurso se acha vazado na linguagem comum. No que segue. depois. evidentemente. Eu os chamaria de historicistas figurativos. a chave para o “sentido” de um dado discurso histórico está contida tanto na retórica da descrição do campo quanto na lógica de todo e qualquer argumento que se possa oferecer como sua explicação. a algumas observações gerais sobre os possíveis tipos ou modos da representação histórica sugeridos pela análise figurativa. ao modo como o dizem. e não na linguagem técnica. Pois é mediante a figuração que o historiador virtualmente constitui o tema do discurso. pragmáticas ou conativas. Tudo isto é altamente abstrato. de outro. Concebida dessa forma. Não há. sem dúvida. e mostrar até que ponto um dado discurso histórico é classificado de maneira mais exata pela linguagem utilizada para descrever o seu objeto de estudo do que o fariam quaisquer técnicas formais analíticas que ela aplicasse àquele objeto a fim de o “explicar”. Em seguida. ao problema da relação entre a historiografia “propriamente dita” e a sua contraparte historicista e. sua explicação é pouco mais do que uma projeção formalizada das qualidades atribuídas ao tema na figuração original que ele elabora a respeito deste. Afirmei em outro local que um discurso histórico não deve ser considerado uma .

cap. “A Atividade do Sonho”. outra. segundo. Na maioria dos debates sobre o discurso histórico. Mas.como qualquer autor de prosa discursiva . pode ser narrado no modo do romance.'de um lado. Ver White. n. já que é um lugar-comum na teoria da história dizer que todos os relatos históricos são de algum modo “artísticos”. Para mostrar o que tenho em mente. a meu ver. pp. eu diria que os tipos principais de discurso histórico podem ser identificados com os tipos do discurso em prosa analisados na teoria retórica. Ver meu artigo “Metahistory: The Historical Tcxt as Literary Artifact”. Ao contrário. meio e fim discerníveis. Assim. O que proponho mostrar é que o efeito explicativo dessa representação de um conjunto de eventos deriva basicamente do emprego de certas convenções de caracterização literária que 76 Ver a Inteqirctação dos Sonhos de Freud. os dois níveis convencionalmente distinguidos são o dos fatos (dados ou informação). pessoa alguma poderia considerar seriamente um historicista. que podemos comparar aos níveis manifestos e latentes de um sonho ou aos níveis literais e figurativos da literatura imaginativa em geral. [Reproduzido nesta obra em seu Capítulo 3. considerada ou como estrutura ou como processo. 6. na sua Interpretação dos Sonhos. O que essa distinção convencional obscurece é a dificuldade de discriminar entre esses dois níveis no discurso. O fato é apresentado no lugar e no modo como se apresenta no discurso a fim de sancionar a interpretação para a qual ele supostamente contribui. 13. dispostos mais ou menos cronologicamente. 3 (June 1974). em função dos modos de uso da linguagem figurativa que eles privilegiam de maneiras diferentes. E a interpretação deriva sua força de plausibilidade da ordem e maneira como os fatos são apresentados no discurso. de outro. seu relato dos fenômenos sob exame se desenvolverá em pelo menos dois níveis de sentido. tragédia. Parece-me. Clio 3. Não que um fato seja uma coisa e a sua interpretação. quer da consciência vígil. Ademais. que o componente artístico no discurso histórico pode ser revelado por uma análise de natureza especificamente retórica. em ambos os casos. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA 133 imagem especular do conjunto de eventos que ele afirma simplesmente descrever13.] Neste trabalho de urdidura do enredo é possível perceber a ação daqueles processos que Freud. O historiador . Pode moldá-los de maneira a adaptá-los a uma “estrutura de ideias preconcebi- das” do tipo que Popper atribui a Hegel e a Marx. para a forma genérica de estória à qual ele tacitamente equipara o conjunto a fim de expor a sua coerência formal. quer da consciência adormecida76. . ou de molde a conformá-los a um “ponto de vista seletivo preconcebido” igual ao do romancista na função de narrador de uma estória77. epopeia ou o que quer que seja. The Poverty of Historicism. dependendo das valências atribuídas a eventos diferentes da série como ele- mentos de formas de estória arquetípicas reconhecíveis. mas codificados de molde a figurar como fases de um processo com começo. Metahistory. para o conjunto de eventos que tenciona descrever e. pp. 31-38. identifica convincentemente como componentes de qualquer atividade poética. 77 Popper. O próprio discurso é a verdadeira combinação dos fatos e do sentido que lhes confere o aspecto de uma estrutura específica de sentido que nos permite identificá-lo como produto de um tipo de consciência histórica e não de outro. 150-151. deve-se ver no discurso histórico um sistema de signos que aponta em duas direções ao mesmo tempo: primeiro. por exemplo. HISTORICISMO. e o da interpretação (explicação ou a história contada acerca dos fatos). um dado conjunto de eventos. Não deveria haver nada de muito surpreendente nesta última asserção.molda os seus materiais. contudo. ] 2. comédia. analisarei um trecho escrito por um historiador moderno que.

de 1919 a 1933. Eis o trecho: A República criada pela Assembléia Constituinte em Weimar durou teoricamente catorze anos. a “verdadeira” Alemanha. Além disso. Como todas as representações históricas. que reduziu a República a um simulacro muito antes que fosse abertamente derrubada. Nos seus últimos três anos. The Course of German History: A Survey of the Development of Germany since 1815 (New York. O historiador que escreveu essa passagem é bastante elogiado como escritor. é também amplamente reconhecido como um escritor que fornece fatos não-absurdos e como um polemista de talentos excepcionais. foi governada por uma ditadura. e. 189-190. de 1919 a 1933. Esse referente latente é constituído pelas técnicas retóricas de iguração que são identificáveis na superfície do discurso. O que poderia parecer ser outras afirmações do fato são. nos seus últimos três anos houve uma ditadura provisória. parcialmente disfarçada de legalidade. juízos ou 78 A. 4. finalmente.ou seja. Ora. com toda certeza veria nisso um insulto à sua competência profissional. Esse uso da linguagem serve como um “código” pelo qual o leitor é convidado a assumir uma determinada atitude para com os fatos e a interpretação que deles se oferece no nível manifesto do discurso. apresenta a vantagem de ser escrito num inglês comum. além de ter um estilo visivelmente “literário”. já que simplesmente abri uma antologia de escritos históricos sobre o Terceiro Reich e examinei algumas caracterizações sinópticas da “era” escritas por historiadores de tendência metodológica e convicções ideológicas diferentes. Apenas por seis anos a Alemanha levou uma vida ostensivamente democrática. 134 TRÓPICOS DO DISCURSO constituem o nível figurativo do discurso.é indistinguível do modo como ele diz. contudo.que é inteiramente distinto do referente manifesto. Uma investigação mais aprofundada poderia ter encontrado para estes seis anos outras causas que não a beleza do caráter alemão 78. na realidade. de eventos que existem no plano da superfície como simples descrição e análise. pp. Seus quatro primeiros anos foram gastos na confusão política e econômica que se seguiu à Guerra dos Quatro Anos. mas igualmente com respeito à “Alemanha” desse período. Consideremos. antes de tudo.o referente real do discurso . essa é também uma codificação progressiva. a sua apresentação dos fatos e os argumentos que oferece para apoiar sua explicação desses fatos . porém. Seus primeiros quatro anos foram marcados pela confusão política e econômica. há mais do que meramente um tom irônico. a saber. grande parte disso se evidencia a partir da enunciação da passagem. Escolhi este trecho “ao acaso”. Para os meus propósitos. se lhe fosse insinuado que o que ele tem a dizer . a informação factual contida no trecho citado. 2. não só no que tange aos “observadores estrangeiros” anônimos dos seis anos que a eles pareciam “normais”. A República foi criada pela Assembléia Constituinte em Weimar. 1946). e não num jargão técnico. Mas o seu relato desse período da história da Alemanha é pouco mais que um discurso no qual ele adquire progressivamente o direito à caracterização retórica dos eventos que pretende apenas descrever e analisar objetivamente. revela a postura irônica do escritor. Aqui. embora de modo algum obstinado. É-nos dito que 1. 3. Ela durou catorze anos. Isso. . Mostrarei também que esse sentido latente do discurso pode ser identificado com a própria linguagem usada para descrever os eventos analisados. estes seis anos pareceram normais. aos olhos de muitos observadores estrangeiros. a própria Alemanha. P. num nível profundo ou figurativo. em relação aos quais os séculos anteriores e a década subsequente da história da Alemanha foram uma aberração. Sua vida real foi mais curta. ostensivamente pacífica. J. por si só. Taylor. O fato e a caracterização figurativa se combinaram para criar uma imagem de um objeto .

em que a duração da República de “teoricamente” quatorze anos é comparada com a sua “vida real” de apenas seis anos. No nível manifesto. R Taylor deve ter escrito de maneira inteiramente espontânea e natural. um meio (1923-1929) e um fim (1929-1932) discerníveis. A “investigação mais aprofundada” que esses “observadores estrangeiros” não conseguiram levar a cabo (e que o autor provavelmente conseguiu) alude por dissimulação irônica (“poderia ter descoberto”) à “fealdade” do caráter alemão assinalada figurativamente (isto é. de “seguir” os eventos relatados na história e de “decodificar” subconscientemente a sua estrutura subliminarmente codificada como um tipo de estória particular (uma pseudotragédia ou uma tragédia satírica). são rotuladas de apenas “ostensivas”. E os “observadores estrangeiros” para quem os “seis anos” intermediários representavam a Alemanha “normal” e “verdadeira” são. Esse contraste entre a “vida” teórica e a real da República logo move o tema do discurso para aquela categoria de grotescos que comumente encontramos na sátira. a saber. Que a curta vida da República foi apenas uma pseudotragédia. um meio de penetrar através da forma “ostensiva” da história alemã desse período até a sua substância obvi- amente corrupta. Ora. porém não invocada formalmente. dos elementos essenciais de qualquer discurso histórico. os eventos da estória são codificados pelo uso da linguagem figurativa em que são caracterizados. Essa ditadura “reduziu” a República a um “simulacro” antes de ser “abertamente” derrubada. HISTORICISMO. O restante do trecho consta de insinuações e censuras vagamente dissimuladas sobre a ingenuidade de certos “observadores estrangeiros”. ironicamente) na referência à sua “beleza” apenas aparente. apresenta uma estrutura de enredo identificável que une essas fases num processo que descreve o desenrolar de uma pseudotragédia. para destacar um ponto muito . J. invectivei esse trecho um tanto inócuo de prosa histórica. “gastos”. Os principais verbos ativos utilizados na exposição. Quando estas tendências são indicadas. Em outras palavras. e.eles próprios servem para caracterizar as fases da ficção literária arquetípica a que a vida da República está sendo implicitamente comparada. 6. a pseudotragédia. desvelando o sentido latente da representação manifesta dos fatos. A ditadura foi “parcialmente disfarçada de legalidade”. por sua vez. a fim de permitir a sua identificação como elementos do tipo específico de estória a que pertence essa estória. mediante uma metonímia convencional de “olhos” por “mente”. A estipulação desse sentido secundário é assinalada nas duas fases iniciais do trecho. Essa história. assim. Apenas por seis anos a Alemanha “levou uma vida ostensivamente democrática. por sua vez. temos a crônica dos eventos que fornecem aos elementos de uma estória um começo (1919-1923). ostensivamente pacífica”. Ora. que A. “reduziu” e “derrubada” . mas “na realidade” muito menos. como sendo tão superficiais em sua percepção quanto o seria qualquer olho comum não-orientado pela inteligência. 8. A República durou “teoricamente” catorze anos. A estrutura de enredo serve como um tipo de elaboração secundária dos eventos que compõem a crônica e o seu arranjo numa estória. caracterizados. supostamente. esse trecho é um bom exemplo. por assim dizer em microcosmo. 7. indica-o o fato de que o relato da destruição progressiva da República não é atenuado por qualquer indício de tendências opostas nela. “criada”. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA 135 interpretações: 5. bem como de uma alusão a uma “investigação mais aprofundada” que “poderia ter encontrado” para os seis anos em questão “outras causas” que não a “beleza do caráter alemão” e. Ela atua sobre a nossa capacidade presumida.

Contudo. Aqui. fazendo-os passar da falta de sentido do seu arranjo serial numa crônica para uma estrutura hipotaticamente arranjada de ocorrências sobre as quais podem ser feitas perguntas significativas (o que. e deve atribuir valores funcionais diferentes aos eventos individuais e às classes de eventos a que parecem pertencer. mais puramente analítico ou interpretativo do texto. como. Essa concepção do discurso histórico nos permite considerar a estória específica como uma imagem dos eventos sobre os quais a estória é contada. estatística ou representativa. ao passo que a linguagem figurativa. A estória transforma os eventos. Esse sentido latente de um discurso histórico consiste no tipo genérico de estória do qual os próprios fatos. são a forma manifesta. e mutuamente adequadas. quando. porém. Entendemos a estória específica que está sendo contada sobre os fatos quando identificamos o tipo genérico de estória do qual a estória particular é uma ilustração. Assim encarado. bem como na estória contada sobre eles. Um modelo conceituai pode ser empregado mais ou menos explicitamente e apresentado mais ou menos formalmente no empenho de explicar ou interpretar os eventos representados na narrativa. Na realidade. Mas tais empregos formais e explícitos de um modelo conceituai. em dimensão. Esse discurso histórico não apresentaria nenhuma problemática se não distinguisse ta- citamente entre a ordem serial dos eventos e algum tipo de transformação dessa ordem numa estrutura acerca da qual se possa formular perguntas significativas. ou está por trás deles. de natureza poética. em escopo ou na ordem serial em que ocorreram os eventos. mas nunca totalmente analisada. enquanto o tipo genérico de estória serve como um modelo conceituai com que devem ser comparados os eventos a fim de permitir sua codificação como elementos de uma estrutura reconhecível. devemos enfrentar a distinção convencional. como e por quê). utilizada para caracterizar os fatos. o uso da própria linguagem projeta um nível de sentido secundário que fundamenta os fenômenos que estão sendo “descritos”. O sentido figurativo está implícito mesmo na simples descrição dos eventos antes da sua análise. Mas esse fato não raro é interpretado mais como uma simples redução por seleção que como a distorção que ele de fato é. onde. entre a “mera” crônica e a história propriamente dita. sincrônica. Todo mundo admite que o historiador deve ir além da organização serial dos eventos até a determinação da sua coerência como uma estrutura. O ponto é este: mesmo no mais simples discurso em prosa. é um lugar-comum dizer que um discurso histórico não representa um equivalente perfeito do campo fenomênico que ele se propõe descrever. naturalmente. que prepara o leitor do texto de maneira mais ou menos subconsciente para receber tanto a descrição dos fatos quanto a sua explicação como sendo plausíveis. geralmente se con- cebe essa tarefa como sendo o empenho de “descobrir” a estória ou estórias que supostamente se acham incrustadas dentro da confusão dos fatos relatados no registro ou da série diacrônica dos eventos tal como são arranjados na crônica. Evidentemente. Esse nível figurativo é produzido por um processo construtivo. de outro. por exemplo. arranjados numa ordem específica e dotados de diferentes graus de importância. indica um sentido estrutural profundo. Esse elemento de estória no discurso histórico existe mesmo nos exemplos mais intransigentes de escrita histórica estruturalista. Os fatos e a sua explicação ou interpretação formal aparecem como a “superfície” manifesta ou literal do discurso. de um lado. 136 TRÓPICOS DO DISCURSO simples. Esse sentido secundário existe inteiramente à parte dos próprios “fatos” e de qualquer argumento explícito que poderia ser oferecido no nível extradescritivo. devem ser diferenciados do sentido figurativo do discurso histórico. nada . num argumento nomológico-dedutivo. e mesmo num discurso em que o objeto da representação não pretende ser mais que um fato. A maneira mais óbvia de distorção é o afastamento da ordem cronológica da ocorrên- cia original dos eventos. o discurso histórico pode ser decomposto em dois níveis de sentido. de molde a expor os seus sentidos “verdadeiros” ou “latentes”.

A. que consiste no arranjo dos eventos numa ordem diferente da ordem cronológica de sua ocorrência original. codifica alguns como causas e outros como efeitos. de magnitude e complexidade diferentes. Para esclarecer o que está implícito aqui. inclui alguns eventos e exclui outros). trad. E aqui o historiador. E em resposta a esse modelo conceituai pressuposto que o historiador “condensa” os seus materiais (isto é. 456-463. em Basic Writings. uma “elaboração secundária” que caminha ao longo do nível mais obviamente representacional do discurso. considerações de representabilidade e elaboração secundária que Freud identifica como sendo as estratégias psicológicas utilizadas na “atividade onírica” para disfarçar o sentido latente (e real) de um sonho por trás do nível manifesto ou literal do relato do sonho17. Freud. Esse processo de formação - cumpre ressaltar . O que está implícito aqui é a formação de uma estrutura dentro da qual se possa colocar os eventos. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA 137 poderia estar mais longe da verdade. de modo a dotá-los de diferentes funções num padrão integrado de sentido.como no caso de toda construção de modelo. Mas essa formação é uma distorção de todo o campo factual de que o discurso pretende ser uma representação . estas técnicas são utilizadas para efetuar um movimento oposto. que em geral se afigura como uma fala direta ao leitor e fornece as bases cognitivas explícitas (a “racionalização”) para a forma manifesta do discurso em geral. distorção negativa. ou na aplicação de técnicas de urdidura de enredo para revelar o “drama” no que parece ser um caos de acontecimentos. A consequência é uma distorção de todo o campo factual considerado como uma totalidade de todos os eventos que. Essa distorção pode parecer mais compreensível do que o campo de eventos no seu estado não- processado ou processado apenas em forma de crônica. dependendo do ponto de vista a partir do qual são apreendidas e da forma genérica da estória escolhida pelo historiador para presidir à articulação da estória. E as sequências de eventos podem assumir os aspectos de um romance. Nenhum conjunto dado de eventos delineia de maneira apodítica o tipo de sentidos que as estórias lhes fornecem. 1938) pp. e distorção positiva. a fim de permitir a sua codificação como elementos de tipos diferentes de estória. que consiste na exclusão de fatos que poderiam ter sido incluídos na representação do campo. Nenhuma pessoa ou coisa vive uma estória. e ed.a fim de “representar” a sua distorção como uma distorção plausível. Brill (New York. une alguns e separa outros .acarreta necessariamente transgressões às chamadas normas de evidência ou aos critérios de “exatidão factual” resultantes de simples ignorância do registro ou da desinformação que ele poderia conter. Isto é tão verdadeiro para os conjuntos de eventos na escala de uma vida individual quanto para aqueles que duram um século na evolução de uma nação. segundo a nossa percepção. por sua vez. The Inteqiretation ofDreams. ou seja. Certamente. Essa distorção. HISTORICISMO. na sua qualidade de artista literário. pode ser de dois tipos. deslocamento. ocorreram dentro dos seus limites. “desloca” alguns fatos para a periferia ou para o plano de fundo e leva outros para mais perto do centro. Mas ela é mais compreensível apenas com relação ao modelo conceituai que sancionou a sua distorção desta maneira e não de outra. voltemos ao trecho extraído do livro de . e cria ! 7. Não importa se as técnicas desse processo de formação consistem na aplicação de funções de qui-quadrado ao que parece ser uma miscelânea de eventos aleatórios. um outro discurso. na “obra de erudição” do historiador. uma tragédia ou uma comédia indistintamente. utiliza as mesmas técnicas de condensação. a partir da confusão dos fatos que têm a estrutura sem sentido da mera serial idade até ao desvelamento do seu significado supostamente verdadeiro ou real enquanto elementos de um processo compreensível.

e não um capítulo ou uma parte maior do texto.. Nessa breve caracterização sinóptica do período entre 1919 e 1933. tal como se revelam na palavra simulacro [sham]. vacuidade e meras aparências. E também esta metáfora que sanciona a atitude irônica de Taylor para com o tema do seu discurso. são óbvias as provas de condensação. É esta metáfora. é uma metáfora para “energias”. considerada como um processo completo. O mesmo se aplica às considerações de representabilidade. O livro inteiro condensa necessariamente o seu material. enquanto a “vida teórica” é progressivamente remetida à periferia por meio da sua revelação como ilusão. mas também no sentido de sobredeterminar certos elementos do objeto. Aprova destas aparece na superfície do texto como uma citação das causas da queda da República: a “confusão” do período do pós-guerra. a República de Weimar. mas na verdade ela diz que “anos” podem ser “gastos” em “confusão”.. sugere o poder e força dos inimigos da República em contraste com a fraqueza dos seus defensores. aquela que serve de mediadora entre a dimensão literal e a figurativa do discurso. esta é igualmente óbvia na justaposição da “vida real” da República à sua vida aparente (“teórica”). a afirmação assevera que a “ditadura provisória. Mas as causas reais do fracasso da República são indicadas apenas figurativamente. 816. não surpreende que os poderes fortes e ativos deveriam conseguir destruir os poderes débeis e confusos. de molde a revelar a natureza pseudotrágica da totalidade dos eventos retratados. As duas afirmações causais feitas no trecho requerem uma análise mais extensa. O aspecto a ser destacado aqui é que o objeto da representação de Taylor. parcialmente disfarçada de legalidade” (ela própria uma caracterização metafórica que sugere a ação de forças sinistras na cena) “reduziu” a República a um “simulacro”. reduziu a República a um simulacro muito antes que ela fosse derrubada abertamente”. 1967). Literalmente. Mas aqui o verbo utilizado (“reduziu”) é mais ativo que passivo e. p. a criação de uma “ditadura provisória” que continuou a minar o espírito (embora não a carta) da Constituição. não apenas no sentido de reduzir a esfera da possível representação. T. A primeira declara que os “primeiros quatro anos [da República] foram gastos na confusão política e econômica que se seguiu à Guerra dos Quatro Anos”. . C. Afinal de contas. ed. É na natureza das coisas que as entidades “reais” sobrepujam as “falsas”. Aqui. “gastos”. e aqueles “observadores estrangeiros” cujos olhos eram tão cegos quanto suas mentes eram desatentas. a palavra “anos” é uma metonímia para “vida”. como se residissem naquela “fealdade” do caráter alemão que a noção de sua “beleza” apenas aparente invoca ironicamente. Este contraste implícito permite aos leitores aceitar a explicação da queda da República que em última análise será fornecida como plausível. parcialmente disfarçada de legalidade. Esta palavra se liga etimologicamente à palavra inglesa shame [vergonha]. e no registro dos seus usos mais antigos conota “truque”. portanto. Um contraste semelhante entre o que é dito literalmente e o que é sugerido pelas inversões figurativas pode ser visto na segunda afirmação causai do trecho: a “ditadura provisória. Porém o uso de um verbo na passiva (“foram gastos”). Onions (Oxford. Não importa que tenhamos tomado para análise apenas um parágrafo. Essa “vida real” é o centro do discurso. “reduziu” e finalmente “derrubada”. as dimensões do objeto abordado. Quanto à prova de deslocamento. isto é. a afirmação sugere que a confusão causa fraqueza política. mais adiante. com a sua insinuação de má fé. Estamos agora em condição de identificar a metáfora dominante de todo o trecho. Literalmente. . e a natureza geral de “simulacro” da estrutura política da República. “fraude” e “contrafação”79. o referente 79 Ver The Oxford Dictinnary ofEnglixh Eiymology. por sua vez. que sanciona o uso dos verbos que demarcam os estágios sucessivos do processo de desintegração da “vida” da República: “criada”. que. sugere que essas “energias” eram débeis desde o começo. 138 TRÓPICOS DO DISCURSO Taylor sobre a Alemanha.

tais como as obras de Michelet. Dificilmente se poderia elogiar o trecho pela vividez da linguagem. Trata-se de uma forma sem substância. Tocqueville. podemos ver agora tanto as similaridades como as diferenças entre a “filosofia da história” e a “historiografia”. Braudel. em que o historiador tradicional continua a não ter consciência do grau em que a sua própria linguagem determina não apenas a maneira. tão manifestadamente “literárias” elas são. E caracterizar esta forina sem substância é o objetivo último do restante do relato que Taylor faz da história da Alemanha desde 1815 até Hitler. A metáfora do “simulacro” é predominante no sentido de fornecer o eixo paradigmático do trecho que sanciona a passagem da percepção da aparência exterior para a decomposição interna no eixo sintagmático. na narrativa histórica o elemento figurativo é deslocado para o interior do discurso onde ele vagamente toma forma na consciência do leitor e serve como a base sobre a qual o “fato” e a “explicação” se podem combinar numa relação de adequação mútua. a maioria das metáforas nele contidas são metáforas mortas. inclusive especialmente aquelas que normalmente consideramos “clássicas”.doras. Mas. Sua diferença principal consiste no fato de que. a linguagem desse trecho funciona exatamente* da mesma forma que a poesia o faz para desviar a atenção do nível manifesto do discurso para um nível latente ou figurativo e vice-versa. podem consolidar visões já aceitas e servir para familiarizar fenômenos que de outra forma continuariam exóticos ou estranhos. da República é a mesma da relação entre os olhos e as mentes vazias dos seus observadores estrangeiros favoráveis. mas também o tema e o sentido do seu discurso. HISTORICISMO. Primeiro. mas explicar o que se poderia entender pelo “ponto de vista” a partir do qual ele escreveu e mostrar que o que ele diz acerca do seu tópico aparente e o modo como o diz eram realmente indistintos. morta ou vivida. mas antes o “simulacro” em que a República se constituiu. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA 139 do discurso. Na verdade. pela linguagem em que as metáforas mortas. O trecho de Taylor foi escolhido pelo que se poderia considerar um tipo de supereapacidade analítica. com efeito. formalizado pela abstração e tratado como a “teoria” que orienta tanto a investigação dos eventos quanto a sua representação. ele deve ser julgado menos autoconsciente criticamente e até . Marc Bloch e Croce. quero sugerir que um tipo semelhante de análise poderia ser feito de todo o livro de Taylor ou. resolver alguns problemas convencionais da teoria histórica. de qualquer obra histórica. suponho. Ranke. Ora. Na medida. uma narrativa histórica logra os seus efeitos como explicação quando revela o sentido mais profundo dos eventos que ela descreve através da sua caracterização na linguagem figurativa. fornecem a substância do discurso. Ora. Elas podem. A estrutura implícita da relação entre exterior e interior. ser encoraja. e não as vivas. Burckhardt. e da razão pela qual o seu direito revela o modo como as coisas realmente eram. mas não devemos subestimar a atração que as metáforas mortas exercem sobre uma classe particular de leitores. aparência e realidade. Meu objetivo não foi lançar dúvidas sobre a interpretação específica que Taylor oferece da sua matéria. Raramente se observa como o efeito da “objetividade” pode ser alcançado pelo uso da linguagem não- poética. enquanto na filosofia da história o elemento figurativo do discurso é trazido à superfície do texto. não é a República de Weimar como tal. é possível. bem como as de autores modernos como Huizinga. se por essa análise estabeleci a plausibilidade da ideia de que todo discurso histórico tem um nível figurativo de sentido. Marx. porque é tão inconscientemente retórico. Isso concede ao autor o direito à explicação formal do motivo pelo qual as coisas são diferentes do que parecem ser. então. Tais obras se prestam ao tipo de análise retórica que tentei fazer neste trecho de Taylor muito mais facilmente do que a dele. porque pretende de modo tão patente descrever os fatos sem ornamentação e apresentar o argumento vivamente e de maneira direta. vale dizer. Como qualquer filosofia da história. na verdade.

mas não estão menos presentes nas representações históricas como sendo a “teoria” que orienta a articulação do discurso. meu argumento é que & forma da narrativa histórica supostamente direta depende tanto do modo de figuração tropológico dominante quanto a. comparados aos gerais. Minha própria intuição é que os vários modos pelos quais a teoria se articula nas diferentes ciências representam as formalizações teóricas dos tropos da linguagem natural. do processo histórico. antes. Há muito se vem reconhecendo que os tropos da metáfora. As generalizações podem ser deslocadas para o interior do discurso. somos levados a utilizar os tropos de linguagem . Na ausência de uma análise genuinamente científica dos modos de relação predominantes entre os elementos do campo histórico. forma de qualquer relato historicista depende da teoria que ela procura justificar. Neste aspecto. Em terceiro lugar. a análise desse nível figurativo do discurso histórico nos permite conceituar os possíveis tipos de representação histórica. Ela ocorre. identificando o modo tropológico que rege a caracterização figurativa tanto da estrutura de um dado domínio histórico quanto das fases da sua articulação como processo. O discurso histórico busca explicar a relação entre as partes e o todo. Tentei mostrar em outro local íy que o estilo de representação de um dado historiador pode ser caracterizado segundo ele privilegie um ou outro desses tropos ou em função do seu empenho em mediar entre eles. 140 TRÓPICOS DO DISCURSO menos “objetivo” do que o filósofo da história. Não importa se a forma do discurso é a da história bem narrada ou a do tratado lógico. É bem provável que o historicista utilize caracteristicamente os particulares para exemplificar ou ilustrar os princípios gerais que ele afirmou ter descoberto em seu estudo da história. e os particulares colocados no primeiro plano. Estes tropos podem aparecer numa forma altamente estilizada e abstrata nas representações historicistas da realidade. Este. pelo menos. que ainda não se decidiram por um modo particular de utilização da linguagem como o protocolo padrão para a descrição dos dados. As várias formas de narrativa histórica são produto do empenho em apreender o mundo figurativamente na mesma medida em que as várias formas de representação historicista são determinadas pelo aparato teórico dos seus diferentes autores. Certamente isso é verdadeiro para aqueles campos. Aqui. mas esse nível secundário de sentido desempenha no discurso do historiador a mesma função que as teorias desempenham no discurso do historicista. Em segundo lugar. as supostas diferenças entre um relato narrativo e um relato sincrônico são mais uma questão de ênfase do que de conteúdo. tenta controlar o seu discurso mediante a utilização de uma terminologia técnica que torna o sentido pretendido claro e aberto à crítica. podemos observar que a distinção básica não se dá entre o interesse nos aspectos particulares. sinédoque e ironia constituem os principais tipos genéricos do uso figurativo da linguagem.metáfora. a tropologia é o único protocolo conceituai que temos. Mas isso não significa que o empenho do historiador em se concentrar nos particulares “por eles mesmos” o isenta de um recurso àquelas generalizações pelas quais se deve consolidar a sua descrição dos particulares numa narrativa abrangente. como a história. Na falta de uma teoria específica dessa relação. Esse recurso está contido na linguagem figurativa utilizada pelo historiador para descrever os elementos desse campo e para caracterizar-lhe as mudanças durante o seu processo de desenvolvimento. ou entre as fases e a estrutura completa de um processo. metonímia. a revelação da presença do elemento figurativo em todo discurso histórico nos permite compreender melhor a relação entre um modo de representação supostamente histórico e o modo historicista que se presume ser o seu antítipo. metonímia e sinédoque . entre os escritores da história que reconhecem não haver escolha entre esses dois aspectos do campo histórico e os que consideram possível tal escolha.a fim de figurá-la. .

porém. Aqui. também os historiadores mais modernos. digamos. pelo uso de uma terminologia técnica e pela descoberta das leis que regiam o processo histórico em todas as épocas e lugares. Weber ou Toynbee. da psicanálise ou da demografia e as técnicas narrativas mais antigas. como esses modos corres- pondem às modalidades de uso da linguagem do leitor (e. Todos eles são igualmente relativistas. à sua maneira de conceituar o mundo). O ramo absolutista mais recente do historicismo . aqueles historicistas “científicos” tão severamente criticados por Popper - afirmava transcender o relativismo mediante a importação de teorias científicas para a análise histórica. portanto. Da mesma forma. de orientação cientificamente social. explicação ou interpretação que possa oferecer dele. Por ser essa uma teoria do determinismo linguístico. conquanto não possa defender aqui o argumento. Por isso eu afirmaria.Em quarto lugar. a ser correta a teoria do determinismo linguístico. Ao contrário. de um lado. a “objetividade” consistia em pôr-se de fora da própria época e cultura do historiador. ela oferece um caminho fora do relativismo absoluto e uma maneira de conceituar a noção de progresso na compreensão histórica. igualmente limitados pela linguagem escolhida na qual possam delimitar o que é possível dizer acerca do assunto estudado. em ver o mundo a partir da sua perspectiva e em reproduzir o modo como o mundo aparecia aos atores no drama que ele estava narrando. O uso de uma linguagem técnica ou de um método de análise específico. no lugar ou no compromisso ideológico. E. dos grandes narradores da história. Não se trata. não pode haver essa coisa de representação não- relativista da realidade histórica. o reconhecimento da dimensão figurativa no discurso histórico nos abre uma nova perspectiva sobre o problema do relativismo histórico. de escolher entre o historicismo relativista de um Ranke e os historicismos mais objetivos de Marx. tal como. metonímico. Marx. O historicismo rankiano. conservam a sua vividez e autoridade muito tempo depois de terem deixado de contar como contribuições para a “ciência”. porque não podemos imaginar qualquer meio de traduzir entre . afirmaram transcender o relativismo pelo uso que fizeram do método rigoroso e da sua abstenção das técnicas “impressionistas” usadas por seus congêneres narrativistas mais convencionais. mais antigo.o de Hegel. quer de historicistas. da mesma forma que traduzimos de uma língua para outra. eles fornecem a base para a comunicação da compreensão e dos sentidos entre. dilatadas. pois. elemento que aparece no discurso em prosa na forma de retórica. podemos imaginar um meio de traduzir de um modo de discurso para outro. Ao mesmo tempo. que podemos falar dos modos metafórico. Não se trata tampouco de escolher entre as novas técnicas “sociais e científicas” da econometria. não liberta o historiador do determinismo linguístico a que continua escravizado o historiador narrativo convencional. os públicos específicos. de outro. era relativista na medida em que acreditava que a compreensão de um fenômeno histórico requeria que o historiador o visse “segundo os seus próprios termos” ou “por ele mesmo”. HISTÓRIA E A IMAGINAÇÃO FIGURATIVA 141 a formulação dos problemas e o registro das suas resoluções. sinedóquico e irônico do discurso histórico. o compromisso com uma metodologia específica e com o sistema terminológico técnico que ele requer fechará tantas perspectivas sobre qualquer campo histórico dado quantas abrirá. -as “escolas” específicas de historiadores e. Em virtude de haver um elemento geralmente poético em toda escrita histórica. Spengler et alia. No entanto. Essa maneira de conceituar o problema do relativismo é superior àquela que fundamenta o ponto de vista na época. a econometria ou a psicanálise. HISTORICISMO. as grandes obras históricas. quer de historiadores. pois que todo relato do passado sofre a mediação por parte do modo de linguagem em que o historiador molda a sua descrição original do campo histórico antes de qualquer análise. em pensar a sua trajetória na consciência da época em exame. se a minha hipótese estiver correta. Spengler.

se os tipos de figuração são finitos. Burckhardt. teria sido mais fácil fazê-lo com escritores clássicos como Michelet. Tocqueville. ao passo que podemos imaginar meios de traduzir entre diferentes códigos de linguagem. pela simples razão de que são “artísticos” ou “literários” de maneira mais óbvia do que os seus congêneres menos autoconscientes artisticamente. 142 TRÓPICOS DO DISCURSO estes. que moldou o seu discurso no modo da metáfora. Huizinga. É à força da imaginação criadora desses escritores clássicos que pagamos tributo quando lhes louvamos as obras como modelos do ofício do historiador muito tempo depois de termos deixado de dar crédito à sua erudição ou às explicações específicas que eles ofereceram para os “fatos” que buscaram elucidar. e como se torna possível progredir na compreensão que temos dele. Longe de fixar limites para o seu status de historiadores. O tipo de análise que empreendi do trecho do livro de Taylor poderia ter sido feito com qualquer texto histórico. o qual diz respeito à revelação entre a história considerada como arte e a história considerada como ciência. as de um homem da Renascença nas de um homem da Idade Média ou as de um radical nas de um liberal. finalmente. Hegel ou Spengler. Cada nova representação do passado significa um teste e um refinamento das nossas capacidades de figurar o mundo na linguagem. Quando retiramos uma grande obra histórica . Como eu disse. estamos rendendo tributo. quando um poeta envelhece. Não tem sentido dizer que podemos traduzir as percepções de um francês nas de um alemão. E se os tropos da linguagem são limitados. la enasce para a arte. então é possível imaginar o modo como as nossas representações do mundo histórico se agregam numa visão total e abrangente desse mundo. Robert Frost disse certa vez que. ou as percepções de alguém que vê o mundo ironicamente nas de alguém que o vê no modo da metonímia. linguístico.da esfera da ciência para venerá- la na esfera da literatura como um clássico. é precisamente esse componente literário ou artístico do seu discurso que os resguarda de um desmentido definitivo e lhes garante um lugar entre os “clássicos” da historiografia. contudo. Marx. Isto me leva ao último aspecto que quero destacar. nas percepções de alguém que moldou o seu no modo da sinédoque. ele morre para a filosofia. AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL No intuito de antecipar algumas das objeções que os historiadores opõem muitas vezes ao argumento que segue. de modo que cada nova geração é herdeira não apenas de mais informações sobre o passado. em última análise. figurativo e. mas também de mais conhecimentos adequados da nossa capacidade de compreendê-lo.como fazemos com Gibbon . quero admitir desde já que os eventos . Mas não tem sentido dizer que podemos traduzir as percepções de um historiador. ao gênio do historiador plástico. Ranke. Quando uma grande obra da historiografia ou da filosofia da história se torna antiquada.

se ocupam tanto desses tipos de eventos quanto dos imaginados. O romancista pode apresentar a sua noção desta realidade de maneira indireta. Os historiadores ocupam-se de eventos que podem ser atribuídos a situações específicas de tempo e espaço. toda ficção deve passar por um teste de correspondência (deve ser “adequada” como imagem de alguma . em vez de fazê-lo diretamente. Não se trata. lógica ou estética. Ambos desejam oferecer uma imagem verbal da “realidade”. Vistos apenas como artefatos verbais. e muitos romances que poderiam passar por histórias. passíveis de confirmação. em seu esquema geral. Mas a imagem da realidade assim construída pelo romancista pretende corresponder. dramaturgos . em bases formais. como preferi chamar. formalistas). Não podemos distinguir com facilidade entre eles. e a verdade de coerência. a algum domínio da experiência humana que não é menos “real” do que o referido pelo historiador. Embora os historiadores e os escritores de ficção possam interessar-se por tipos diferentes de eventos. de um conflito entre dois tipos de verdade (que o preconceito ocidental com relação ao empiris. O que nos deveria interessar na discussão da “literatura do fato” ou. AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL 143 históricos diferem dos eventos ficcionais nos modos pelos quais se convencionou caracterizar as suas diferenças desde Aristóteles. tanto as formas dos seus respectivos discursos como os seus objetivos na escrita são amiúde os mesmos. isto é. O problema não é a natureza dos tipos de eventos com que se ocupam historiadores e escritores imaginativos. pode-se mostrar que as técnicas ou estratégias de que se valem na composição dos seus discursos são substancialmente as mesmas. registrando uma série de proposições que supostamente devem corresponder detalhe por detalhe a algum domínio extratextual de ocorrências ou acontecimentos. Há muitas histórias que poderiam passar por romance. ou diccional. a menos que os abordemos com pré-concepçoes específicas sobre os tipos de verdade de que cada um supostamente se ocupa. Os leitores de histórias e de romances dificilmente deixam de se surpreender com as semelhanças entre eles. se asseme- lham ou se correspondem mutuamente. romancistas. não indica um relato da realidade se não houver alguma coerência. Uma simples lista de afirmações existenciais singulares. a meu ver. diríamos. Toda história precisa submeter-se tanto a padrões de coerência quanto a padrões de correspondência se quiser ser um relato plausível do “modo como as coisas realmente aconteceram”. hipotéticos ou inventados. que as ligue entre si. Da mesma forma. Pois o preconceito empirista é reforçado pela convicção de que a “realidade” é não só perceptível como coerente na sua estrutura. pois. por diferentes que possam parecer num nível puramente superficial. as histórias e os romances são indistinguíveis uns dos outros.mo como única via de acesso à realidade nos impingiu).poetas. é o grau em que o discurso do historiador e o do escritor imaginativo se sobrepõem. Mas o escopo do escritor de um romance deve ser o mesmo que o do escritor de uma história. ou seja. ao passo que os escritores imaginativos . de um lado. Além disso. de um conflito entre a verdade de correspondência. mediante técnicas figurativas. considerados em termos puramente formais (ou. como o historiador afirma fazer. das “ficções da representação factual”. dos seus textos. de outro. eventos que são (ou foram) em princípio observáveis ou perceptíveis.

se pretender apresentar uma visão ou iluminação da experiência humana do mundo. É nesse duplo sentido que todo discurso escrito se mostra cognitivo em seus fins e mimético em seus meios. mas a uma combinação do fato e da matriz conceituai dentro da qual ela era posta adequadamente no discurso. especificamente retórico. e não imaginários. o discurso tomado na sua totalidade como imagem de alguma realidade comporta uma relação de correspondência com aquilo de que ele constitui uma imagem. o estudo da história e. mesmo na história. a escrita da história. Tanto quanto a razão. Aqui. a história não é menos uma forma de ficção do que o romance é uma forma de representação histórica. só poderiam ser apresentados ao leitor por meio de técnicas ficcionais de representação. quer como possíveis ocorrências dentro de uma totalidade perceptível. os teóricos desde Bayle até Voltaire e de Mably reconheciam a inevitabilidade de um recurso a técnicas ficcionais na representação de eventos reais no discurso histórico. para a poesia tanto quanto para a prosa e até para aquelas formas de poesia que parecem querer iluminar apenas a própria “escrita”. Antes da Revolução Francesa.144 TRÓPICOS DO DISCURSO coisa que está além de si mesma). Por esse motivo. Mais especificamente. Essas técnicas consistiam em artifícios retóricos. Essa caracterização da historiografia como forma de criar ficção não será provavelmente recebida com simpatia pelos historiadores ou críticos literários. concordam convencionalmente em que história e ficção se ocupam de ordens distintas de experiência e. era tida como um ramo da retórica. convém dizer algumas palavras sobre o modo como surgiu a noção de oposição entre história e ficção e por que ela permaneceu incontestada por tanto tempo no pensamento ocidental. Neste aspecto. representam formas distintas de discurso. na forma como eram descritos pelos retóricos clássicos e renascentistas. quando não opostas. os quais. de um lado. a imaginação devia estar implícita em qualquer representação adequada da . depreendendo-se daí que muitos tipos de verdade. tropos. eram idênticos às técnicas da poesia em geral. Embora admitissem a necessidade geral de relatos históricos que tratassem de eventos reais. Quer os eventos representados num discurso sejam interpretados como partes diminutas de um todo molar. a historiografia era considerada conven- cionalmente uma arte literária. de outro. e o produto desse exercício devia ser avaliado tanto segundo princípios literários quanto científicos. A escrita era um exercício literário.da por elementos de fantasia. se concordam em alguma coisa. a oposição básica se dava muito mais entre “verdade” e “erro” que entre fato e fantasia. A verdade não era equiparada ao fato. portanto. com sua natureza “fictícia” geralmente reconhecida. E isto vale também para o discurso mais lúdico e aparentemente mais expressivo. em geral não viam na historiografia uma representação dos fatos não-desvirtua. O século XVIII foi fértil em obras que distinguem entre. os quais. figuras e esquemas de palavras e pensamentos. Conquanto os teóricos do século XVIII distinguissem um tanto rigidamente (e nem sempre com uma adequada justificativa filosófica) entre “fato” e “fantasia”.

Interpretações erradas da história. dificilmente era apreendida por muitos dos ideólogos de destaque do começo do século XIX. a desmistificação de qualquer campo de pesquisa tendia a ser igualmente equiparada à desfic. de tomar rumos inesperados e de solapar os projetos mais grandiosos. A história passou a ser contraposta à ficção. Para entender esta evolução do pensamento histórico. quando criticou severamente o romance como mera fantasia. no pensamento da época. o estudo da história tinha. Caracteristicamente. expectativas utópicas ou vinculações sentimentais a instituições tradicionais. Sucedeu então que a história. se viu contraposta à ficção como o estudo do real versus o estudo do meramente imaginável. Tanto a direita quanto a esquerda políticas responsabilizaram o pensamento mítico pelos excessos e fracassos da Revolução. Era imperativo colocar-se acima de todo e qualquer impulso para interpretar o registro histórico à luz de preconceitos partidários. que constitui um lugar-comum no pensamento do nosso século. contra o pano de fundo de uma imensa hostilidade a todas as formas de mito. de ser desmistificado. Se os processos sociais e as estruturas pareciam “demoníacos” em sua capacidade de opor-se à direção. a ciência realista por excelência. ao estranho curso que os acontecimentos revolucionários tomaram e às consequência s das atividades revolucionárias no decurso do tempo. como a representação do “real” em contraste com a representação do “possível” ou apenas do “imaginável”. abster-se das técnicas do poeta e do orador e privar-se do que se consideravam os procedimentos intuitivos do criador de ficções na sua apreensão da realidade. verdadeiramente “realista”. pelo menos entre os historiadores.tudo isso levara primeiramente à eclosão da Revolução. frustrando os desejos mais sinceros. e isto significava que as técnicas de criar ficção eram tão necessárias à composição de um discurso histórico quanto o seria a erudição. A distinção entre mito e ficção. ou simplesmente do imaginável. Mas. portanto um obstáculo ao entendimento da realidade e não um meio de apreendê-la. E assim nasceu o sonho de um discurso histórico que consistisse tão-somente nas afirmações factualmente exatas sobre um domínio de eventos que eram (ou foram) observáveis em princípio. tivesse em mente aquela forma de romance que desde . concepções equivocadas da natureza do processo histórico. o objetivo do historiador do século XIX era expungir do seu discurso todo traço do fictício.cionalizaçao desse campo. identificar a verdade com o fato e considerar a ficção o oposto da verdade. Embora Ranke. no começo do século XIX tornou-se convencional. e sobretudo ao romance. expectativas irrealistas sobre as maneiras pelas quais as sociedades históricas poderiam ser transformadas . cumpre reconhecer que a historiografia tomou forma como disciplina erudita distinta no Ocidente durante o século XIX. Para encontrar o próprio caminho por entre as exigências conflitantes dos partidos que se constituíram durante e após a Revolução. Entretanto. pois. era necessário detectar algum ponto de vista da percepção social que fosse verdadeiramente “objetivo”. cujo arranjo na ordem de sua ocorrência original lhes permitisse determinar com clareza o seu verdadeiro sentido ou significação. AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL 145 verdade.

a historiografia realista encontrou seu paradigma no próprio Ranke. G. A historiografia romântica teve seu gênio em Michelet.na sua representação . mas o processo de fundir os eventos. perceberam ser impossível escrever história sem recorrer às técnicas do orador e do poeta. Em suma. Não compreendiam que os fatos não falam por si mesmos. Os historiadores continuavam a acreditar que interpretações diferentes do mesmo conjunto de eventos eram função de distorções ideológicas ou de dados factuais inadequados. que o poeta ou o romancista utiliza. E são agrupados da mesma forma que os romancistas costumam agrupar as fantasias produzidas pela sua imaginação para revelar um mundo ordenado. fossem imaginários ou reais. ele revelou um preconceito partilhado por muitos dos seus contemporâneos quando definiu a história como o estudo do real e o romance como a representação do imaginário.processado e na crônica dos eventos que o historiador extrai do registro. a história produziria um conhecimento tão certo quanto qualquer coisa oferecida pelas ciências físicas e tão objetivo quanto um problema matemático. os fatos existem apenas como um amálgama de fragmentos contiguamente relacionados. Droysen foi o mais proeminente. fala em nome deles. e não de um tipo geral. houve tantos “estilos” de representação histórica quantos estilos literários identificáveis no século XIX. para cada tipo identificável de romance. A maioria dos historiadores do século XIX não compreendiam que.puramente discursiva. mas que o historiador fala por eles. Estes fragmentos têm de ser agrupados para formar uma totalidade de um tipo particular. se se abstraísse da ideologia e se permanecesse fiel aos fatos. Apenas alguns teóricos. até mesmo enquanto criavam formas de discurso histórico tão diferentes entre si que somente o seu embasamento em preconceitos estéticos da natureza do processo histórico poderia explicar essas diferenças. quando se trata de lidar com fatos passados.146 TRÓPICOS DO DISCURSO então passamos a chamar romântico. Aqui. numa totalidade compreensível capaz de servir de objeto de uma representação é um processo poético. a historiografia simbolista produziu Burckhardt (que tinha mais coisas em comum com Flaubert e Baudelaire do que com Ranke) e a historiografia modernista teve seu protótipo em Spengler. e molda os fragmentos do passado num todo cuja integridade é . dos quais J. os historiadores produziam um tipo equivalente de discurso histórico. a consideração básica para aquele que tenta representá-los fielmente são as noções que ele leva às suas representações das maneiras pelas quais as partes se relacionam com o todo que elas abrangem. Não foi por acaso que o romance realista e o historicismo rankíano entraram em crise mais ou menos na mesma época. Os romancistas podiam lidar apenas com eventos imaginários enquanto os historiadores se ocupavam dos reais. No registro histórico não. Continuaram a acatar a concepção de oposição entre história e ficção durante todo o período. um . Continuavam a acreditar que. Os historiadores do século XIX não o notaram por se acharem presos à ilusão de que seria possível escrever história sem recorrer absolutamente a qualquer técnica ficcional. as mesmas modalidades de representação das relações em palavras. A maioria dos historiadores “científicos” da época não se deram conta de que. os historiadores devem utilizar exatamente as mesmas estratégias tropológicas.

de um modo mais confiante do que nunca.tanto que o chamado “método histórico” consiste em pouco mais que na obrigação de “obter a estória diretamente” (sem qualquer noção do que poderia ser a relação da “estória” . e até mesmo para a ciência. Já não somos obrigados.que a ficção é a antítese do fato (como a superstição ou a magia é a antítese da ciência) ou que podemos relacionar os fatos entre si sem o auxílio de qualquer matriz capacitadora e genericamente ficcional. quanto de Freud e Lévi-Strauss). a acreditar . na expectativa. é constituída por aquilo que ela proíbe os seus praticantes de fazer. graças ao que chamam de “um exame minucioso dos fatos” ou “a manipulação dos dados”. onde só poderia existir a desordem ou o caos. não estivessem eles tão fetichisticamente enamorados da noção de “fatos”. Não conhecemos e jamais conheceremos a origem da linguagem. que “poetizar” não é uma atividade que paira sobre a vida ou a realidade. Hegel e Nietzsche. Toda disciplina é constituída por um conjunto de restrições ao pensamento e à imaginação. Suponho que toda disciplina. porém ainda não chegou aos historiadores mergulhados nos arquivos. pois. AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL 147 cosmo. de outro. mas representa um modo de práxis que serve de base imediata para toda atividade cultural (sendo esta tanto uma ideia de Vico. de algum modo não-especificado. mas antes por ser o instrumento de mediação entre a consciência e o mundo habitado pela consciência. mas nos dias de hoje é certo que a linguagem se caracteriza de modo mais adequado. de encontrar a forma da realidade que servirá como objeto da representação no relato que escreverão quando “todos os fatos forem conhecidos” e eles tiverem finalmente “conseguido a sua estória diretamente”. Isto também seria uma novidade para muitos historiadores. O mesmo se dá com os manifestos. e projetam os estados emocionais interiores. por parte dos modernos críticos estruturalistas e do texto. que as transcende ou permanece alienada delas. por não ser nem uma livre criação da consciência humana nem um mero produto das forças do meio ambiente que atuam sobre a psique. Da mesma forma. e nenhuma é mais cercada de tabus do que a historiografia profissional . e não fossem tão congenitamente hostis à “teoria”. Parece que Stalin estava certo quando afirmou que a linguagem não pertencia à superestrutura nem à base da práxis cultural. de um lado. de forma tal que a presença numa obra his- tórica de uma teoria formal utilizada para explicar a relação entre os fatos e os conceitos é suficiente para atribuir-lhes a responsabilidade de terem traído a sociologia desprezada ou de terem caído na iníqua filosofia da história. Em que bases se pode justificar essa posição reacionária? Em que bases se pode sustentar a afirmativa de que o discurso histórico partilha mais coisas do que divide com o discurso romanesco? A primeira base deve ser encontrada nos desenvolvimentos recentes da teoria literária - principalmente na insistência. a teoria critica contemporânea nos permite acreditar. como Nietzsche claramente observou. em que é preciso suprimir a distinção entre prosa e poesia a fim de identificar- lhes os atributos partilhados como formas de comportamento linguístico que tanto constituem os seus objetos de representação como refletem a realidade exterior. Isto não será novidade para os teóricos literários. mas era.como os historiadores do período pós-romântico . anterior a ambas.

e. pois. Tendem a tratar a linguagem como se fosse um veículo transparente da representação que não traz para o discurso nenhuma bagagem cognitiva exclusivamente sua. quando ousam utilizar algum. No entanto. mas representa apenas outra forma mais extrema daquele “deslocamento” que o prof. não se opõe ao mito como saa antítese cognitiva. Os historiadores que fazem uma demarcação nítida entre a história e a filosofia da história deixam de admitir que todo discurso histórico traz consigo uma filosofia da história desenvolvida. consciência e realidade . de evitar figuras de linguagem rebuscadas. A principal diferença entre a história e a filosofia da história é que a última leva para a superfície do texto o aparato conceituai por meio do qual os fatos são ordenados no discurso.desde Santo Agostinho. Ele resultou na repressão do aparato conceituai (sem o qual os fatos diminutos não podem ser agregados em macroestruturas complexas nem constituídos como objetos de representação discursiva numa narrativa histórica) e na remissão do momento poético da escrita histórica ao interior do discurso (onde ele funciona como um conteúdo não- reconhecido .em matrizes ficcionais diferentes. de verificar se a persona do autor não pode ser identificada em alguma parte do texto. portanto.inclusive a própria linguagem do escritor. o “entusiasmo”). o preço pago é considerável. se não implícita. se existem modos ficcionais diferentes baseados em arquétipos míticos identificáveis diferentes. mas também sobre a própria linguagem e a relação problemática entre linguagem. onde serve como um artifício oculto ou implícito formador. e. há também modos historiográficos diferentes . são capazes de funcionar diferentemente a fim de delinear com clareza sentidos diferentes . portanto. menos poética) do que os autores de ficção. eu diria que estes modos míticos são mais facilmente identificáveis no texto historiográfico do que no texto literário. Grande parte da preocupação dos historiadores com a linguagem se limita ao esforço de falar com simplicidade. E isto é tão verdadeiro para o que se convencionou chamar historiografia narrativa (ou diacrônica) quanto para a representação histórica conceituai (ou sincrônica). Toda história tem o seu mito. Croce e Spengler. exatamente do mesmo modo como o prof. Frye analisou na sua Anatomy. Com efeito.morais. As grandes obras de ficção . Marx. Evidentemente. nao-criticável . cognitivos ou estéticos .se Roman Jakobson estiver certo .148 TRÓPICOS DO DISCURSO com o “fato”) e de evitar a qualquer preço tanto a sobredeterminação conceituai quanto o arroubo imaginativo (isto é. A história. Maquiavel e Vico até Hegel. no mesmo conjunto. O status problemático da linguagem (inclusive os seus próprios protocolos . Pois os historiadores costumam trabalhar com uma autoconsciência muito menos linguística (e. de tal modo que os eventos.em geral não versarão apenas sobre o seu assunto presuntivo. e de deixar claro o que significam os termos técnicos. não é o caso dos grandes filósofos da história .da narrativa histórica). Frye acha que seus arquétipos se comportam na narrativa de ficção. enquanto a história propriamente dita (como ela é chamada) encerra-o no interior da narrativa. Nietzsche.formas diferentes de ordenar hipotaticamente os “fatos” contidos na crônica dos eventos que ocorrem numa situação específica de tempo e espaço.

Ranke. com base na qual se possa subsequentemente fazer uma interpretação dessa coisa. Para aqueles que não vêem semelhança real no mundo. Tocqueville e Burckhardt. implicitamente. e que o modo linguístico em que é vazada a descrição original (ou taxonomia) do campo excluirá implicitamente certos modos de representação e modos de explicação com respeito à estrutura do campo. “explicá-lo” narrativamente e analisá-lo discursivamente . Da mesma forma. uma esfera limitada de modos de urdidura de enredo e de modos de argumento pela qual se possa revelar o sentido do campo numa representação em prosa discursiva. e implicitamente sancionará outros. Por último. construída na forma de um processo diacrônico.como um amálgama de individualidades. que não existe esta coisa de uma única descrição original correta de alguma coisa. uma descrição original irônica do campo criará a tendência a favorecer a urdidura do enredo no modo da sátira e a explicação pragmática ou contextual das estruturas assim esclarecidas. Quero deixar claro que eu próprio estou utilizando estes termos como metáforas para as diferentes formas com que construímos campos ou conjuntos de fenômenos a fim de “desenvolvê-los” em possíveis objetos de representação narrativa e análise discursiva. AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL 149 linguísticos) constitui um elemento decisivo no seu próprio apparatus criticus. o arquétipo do Romance e um modo de explicação que identifica o conhecimento com a apreciação e o delineamento da particularidade e individualidade das coisas. A estrutura de enredo de uma narrativa histórica (como as coisas se revelaram o que são) e o argumento formal ou a explicação do motivo por que as coisas aconteceram ou se revelaram o que são. favorecerá.desde Tucídides e Tácito até Michelet. sinédoque ou ironia. são refigurados pela descrição original (dos “fatos” a serem explicados) numa determinada modalidade predominante do uso da linguagem: metáfora. se a descrição for algo mais que um registro aleatório de impressões. No segundo caso.ou seja. Em resumo. a representação narrativa do campo. o modo privilegiado da descrição original de um campo de fenômenos históricos (e isto inclui o campo dos textos literários) já traz em si. os . como um modo privilegiado de urdidura de enredo. para explicar as mudanças esboçadas topograficamente na urdidura do enredo. Estes historiadores pelo menos tinham uma autoconsciência retórica que lhes permitia reconhecer que qualquer conjunto de fatos era descritível variadamente. Carlyle. metonímia. e também legitimamente. Também não é o caso dos grandes escritores clássicos da historiografia . Em outras palavras. uma descrição original do campo no modo da metonímia favorecerá uma estrutura de enredo trágica como um modo privilegiado de urdidura de enredo e uma conexão causai mecanicista como o modo privilegiado de explicação. Droysen. No primeiro caso. reconheciam que todas as descrições originais de qualquer campo de fenômenos já são interpretações da sua estrutura. Quem quer que originariamente codifique o mundo no modo da metáfora estará inclinado a decodificá-lo . Isto é. para completar a lista. a decodificação deve assumir a forma de um desvelamento ou de uma simples contiguidade das coisas (o modo da metonímia) ou do contraste que jaz oculto em toda semelhança ou unidade aparente (o modo da ironia).

que “torceu os fatos” para adaptá-los a uma teoria preconcebida. Além disso. sinédoque e ironia. E esta sensibilidade a protocolos linguísticos alternativos. ou seja. explicação ou até mesmo descrição de qualquer campo de eventos. Tocqueville escreve sobre a 80 Tentei exemplificar minuciosamente cada uma dessas redes de relação em alguns historiadores no meu livro Metahistory. cada um dos modos linguísticos. É isso que torna Tocqueville tão mais interessante (e uma inspiração para muitos e diferentes pensadores posteriores) que o seu contemporâneo. servir de mediador entre os modos alternativos do uso da linguagem ou estratégias tropológicas para descrever originariamente um dado campo de fenômenos e constituí-lo como um possível objeto de representação. cujo conhecimento é maior que o dele e cuja visão retrospectiva é mais extensa. de outro.e também de outras formas de prosa discursiva. por exemplo. metonímia. . que distingue os grandes historiadores e filósofos da história de seus congêneres menos interessantes. de um lado. liberal e conservadora. em minha concepção. Tocqueville. ao fim. 1973). modos de urdidura de enredo e modos de explicação apresenta afinidades com uma posição ideológica específica: anarquista. Marx. que tanto estes grandes conjuntos narrativos produzidos por historiadores clássicos como Michelet. quer imaginários quer reais. The Historical Imaginai ion in Nineteenth-Century Europe (Baltimore e London. radical. para. extrair dele implicações ideológicas explícitas - como o fazem os marxistas mais vulgares e os deterministas materialistas deveria ser não apenas pouco interessante como também legitimamente rotulado de pensador doutrinário. ideológica. digamos.150 TRÓPICOS DO DISCURSO campos originariamente descritos no modo sinedóquico tenderão a produzir urdiduras cômicas de enredo e explicações organicistas do motivo por que esses campos se alteram do modo como o fazem80. as suas “interpretações” do “sentido” do campo. Observe-se. se tornam mais facilmente relacionáveis entre si se os virmos como vítimas e exploradores do modo linguístico em que originariamente descrevem um campo de eventos históricos antes de aplicar suas modalidades características de representação e explicação narrativa. e sugere que o próprio uso da linguagem implica ou acarreta uma postura específica perante o mundo que é ética. o que significa. Nietzsche e Hegel. em termos metonímicos e em seguida urdiu seus processos no modo da tragédia e continuou explicando esses processos mecanicisticamente. O problema da ideologia ressalta o fato de que não há qualquer modo de valor neutro de urdidura de enredo. o doutrinário Guizot. Burckhardt e Ranke. é contaminada politicamente. A dialética peculiar do discurso histórico . quanto as elegantes sinopses produzidas por filósofos da história como Herder. talvez até mesmo do romance . Ora. ou a maioria dos seus seguidores modernos liberais ou conservadores. mas também toda linguagem. mas cuja capacidade dialética é muito pouco desenvolvida. ou política de um modo mais geral: não apenas toda interpretação. respectivamente. vazados nos modos da metáfora. qualquer historiador que simplesmente descreveu um conjunto de fatos.provém do empenho do autor em servir de mediador entre os modos alternativos de urdidura de enredo e explicação. afinal.

insiste em dizer que há uma ordem real na natureza. da Origin of Species de Darwin se referem à Dolphin Edition (New York. como sustentaram muitos dos seus contemporâneos. em última análise. pondo ambos à prova. a aporia. versa tanto sobre o problema da classificação quanto sobre o seu assunto aparente. uma vez descritos dessa forma? Darwin afirma estar preocupado com uma única questão fundamental: “Por que todas as coisas orgânicas não estão ligadas num caos inextricá. d. Examinemos. 81 As citações. alternativas e mutuamente exclusivas do que é a Revolução.). o sentido destes se revelará à consciência. A contradição. e que tipo de argumento constituem. mas escreve de maneira ainda mais significativa sobre a dificuldade de alcançar uma caracterização objetiva definitiva da complexa. no coração do discurso de Tocqueville originou-se de sua percepção de que são possíveis descrições originais. um traço diferencial de todos os grandes clássicos da “literatura do fato”. Esta obra que. isto é. os dados da história natural. tanto quanto revelar. AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL 151 Revolução Francesa. embora reconheça que cada um possibilita o acesso a um aspecto específico da realidade e representa um meio possível de apreendê-la. 453).vel?” (p. pretende permanecer no âmbito do fato comum. E esta autoconsciência linguística que os distingue de seus congêneres e seguidores mundanos. por seu turno. Esta oscilação entre os modos linguísticos alternativos concebidos como protocolos alternativos descritivos é. se for encontrada a linguagem correta para descrever os eventos. Esta aporia ou senso de contradição que reside no próprio coração da linguagem se acha presente em todos os historiadores clássicos. ela se ocupa de dois problemas: como os eventos devem ser descritos na qualidade de possíveis elementos de um argumento. no texto. n. Ele próprio não está satisfeito com nenhum dos modos. simples produtos da mente dos classificadores. é inventar uma linguagem capaz de mediar entre os dois modos de consciência que esses modos linguísticos representam. Ele se desloca febrilmente entre os dois modos de descrição original. Quer dizer. que pensam que a linguagem pode servir de meio perfeitamente transparente de representação e que imaginam que. The Origin of Species81 de Darwin. para descrever o campo dos fatos que compreendem a “Revolução” e constituí-lo como um possível objeto do discurso histórico. Por outro lado. Mas ele pretende responder a esta pergunta em termos particulares. que todos os sistemas de classificação são arbitrários. Não quer sugerir. o impele a pouco e pouco para o reconhecimento irônico de que qualquer protocolo linguístico dado deverá obscurecer. de modo igualmente legítimo. Ele reconhece que tanto o proto- colo linguístico metonímico quanto o sinedóquico pode ser utilizado. diria eu.rede de fatos que abrange a Revolução como uma totalidade apreensível ou como um todo estruturado. Seu objetivo. por exemplo. por consciência “aristocrática” é uma transcrição sinedóquica). obra que deve ocupar a posição de um clássico em qualquer lista dos grandes monumentos desse tipo de literatura. a realidade que ele procura capturar numa ordem de palavras. . tentando atribuí-los a formações intelectuais ou tipos culturais diferentes (o que ele entende por uma consciência “democrática” é uma transcrição metonímica dos fenômenos. mais do que qualquer outra. Esse objetivo de mediação.

61. os modos da conexão qualitativa. não pode trabalhar com as categorias “superior” e “inferior”. 447). antes. os fatos da história natural existem naquele modo de relação pressuposto na ação do tropo linguístico da metonímia. Entretanto. como eu diria. a ciência. Como os elementos de um problema (ou. 66.152 TRÓPICOS DO DISCURSO não deseja ver nesta ordem um produto de algum poder espiritual ou teleológico.mas o que as coisas parecem ser são dados registrados sob a perspectiva de mera contiguidade no espaço (todos os fatos reunidos pelos naturalistas no mundo todo) e no tempo (os registros dos criadores domésticos e o registro geológico). são exatamente o que parecem ser . Enquanto as criaturas forem classificadas em função da aparência ou da unidade essencial. 473). fatos “notáveis” (p. Há muitos tipos de fatos invocados em The Origin ofSpecies: Darwin fala de fatos “extraordinários” (p. o domínio das coisas orgânicas deve permanecer um caos de ligação arbitrariamente afirmada ou uma hierarquia de formas superiores e inferiores. Darwin insiste em que a fonte de todo erro é a aparência. 105). diz ele repetidas vezes. Todas as coisas. trata-se de uma maneira de lidar com os fatos com vistas a desacreditar todos os sistemas taxonômicos precedentes em que foram codificados. Estas leis e princípios são os elementos formais de sua explicação mecanicista do motivo por que as criaturas são arranjadas em famílias numa série temporal. 384). fatos “desimportantes” (p. mas não de modo a revelar as ações de um poder transcendental. tanto para Darwin como para Nietzsche. criadores domésticos e estudantes do registro geológico . Considerações sobre a . Para estabelecer esta noção de plano da natureza. de um quebra-cabeça. Coisa alguma pode ser considerada “surpreendente” e muito menos “miraculosa”. como não o pode com as categorias “normal” e “monstruoso”. 58). Tudo deve ser tratado como o que manifestamente parece ser. tropo favorito de todo discurso científico moderno (esta é uma dàs distinções fundamentais entre as ciências modernas e as pré-modernas). Como Kant antes dele. pois. Mas esta explicação não poderia ser fornecida enquanto os dados permanecessem codificados nos modos linguísticos da metáfora ou da sinédoque. A ordem que ele procura nos dados deve achar-se. ele pretende primeiramente tratar “objetivamente” todos os “fatos” da história natural fornecidos pelos naturalistas de campo. como Darwin a entendia. porém não há fatos “surpreendentes”. fatos “capitais” (pp. 301).quase da mesma forma com que o historiador trata os dados fornecidos pelos arquivos. Em comparação com a analogia ou. fatos “bem estabelecidos” e até fatos “estranhos” (p. A analogia.mente construídas. da variação e da seleção natural. Mas este tratamento do registro não é mera recepção de fatos. pois Darwin acha que existe uma solução para o seu problema). com as caracterizações meramente metafóricas dos fatos. Darwin deseja provar as suas alegações pela existência de “afinidades” reais genealogica. 444. A substituição do nome da parte de uma coisa pelo nome do todo é pré-linguisticamente sancionada pela importância que a consciência científica concede à mera contiguidade. O estabelecimento destas afinidades lhe permitirá postular a união de todas as coisas vivas com todas as outras mediante as “leis” ou “princípios” da descendência genealógica. é sempre um “guia enganoso” (ver pp. manifesta nos próprios fatos.

ele muda as engrenagens. E. grifos nossos). A diferença se dissolveu no mistério da transição. ele denomina “uma história do mundo conservada de maneira imperfeita. Mas esta não passa de uma operação preliminar. 251). e. quando é passível de definição. de outro. teremos de tratar a espécie da mesma forma que os naturalistas tratam os gêneros.. Mas a distinção entre uma espécie e uma variedade é apenas uma questão de grau. Em vez de ressaltar a simples contiguidade dos fenômenos. 331). de um lado. o que toda ciência moderna busca realizar. é necessária para remover dos fenômenos a metáfora e a teleologia. ou antes os modos tropo. E Darwin passa a maior parte do seu livro a justificar essa codificação. sem rejeitar a consideração da existência presente de gradações intermediárias entre duas formas quaisquer.lógicos. Doravante seremos compelidos a reconhecer que a única distinção entre as espécies e as variedades bem caracterizadas é saber ou acreditar que estas últimas se acham atualmente associadas por gradação intermediária. “[. e os contrastes entre as espécies.) ou “o grande princípio da gradação” (p.. E isso que confere à consciência metonímica o que Kenneth Burke chama seu aspecto “redutivo”. Utilizando este registro. seremos induzidos a ponderar com mais cuidado e a valorizar mais a extensão real das diferenças entre elas.. de tal modo que a continuidade na variação é encarada como a “norma” e a descontinuidade radical ou variação como uma “anomalia” (p.mas apenas ao longo de um eixo da grade de tempo e espaço em que ele originariamente os dispôs. e começa por se concentrar nas diferenças . Darwin então reestru. Existem coisas em relações contíguas que só são definíveis espacial e temporal mente. esta codificação preliminar dos fatos em função de relações meramente contíguas.. Mas este “mistério” da transição (ver a sua análise altamente experimental. e. Por conseguinte. os quais admitem que os gêneros são apenas combinações artificiais criadas por conveniência. confusa e truncada dos possíveis “modos . da mesma forma que considerações de diferença e contraste. na esteira de Lyell. Esta metonimização do mundo. no entanto.mas em dois tipos de diferenças: as variações dentro das espécies. Em suma..475. 180 e ss. a fim de eximir-se dos erros e da confusão que seu perfil meramente metafórico produziu. E fê-lo recorrendo ao registro geológico que. ele postula que todas as espécies e variedades descendem de uns quatro ou cinco protótipos governados pelo que ele chama “norma” da “transição gradual” (pp. se as diferenças são bastante importantes para merecer um nome científico”. 474.] se alguma forma é suficientemente constante e distinta de outras formas para ser passível de definição. “Os sistematas”. neste caso.tura os fatos . Esta pode não ser uma perspectiva animadora. Darwin introduziu clandestinamente o seu próprio conceito de “essência” do termo espécie.] só precisam decidir [. escreve ele. É bem possível que formas hoje reconhecidas como simples variedades sejam doravante julgadas dignas de nomes específicos. mas pelo menos estaremos livres da busca infrutífera da essência não-encontrada e não- encontrável do termo “espécie” (pp. ao passo que as espécies estavam anteriormente associadas dessa maneira. 33). AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL 153 aparência são tacitamente removidas no emprego deste tropo. ou descrição original da realidade. a linguagem científica e a linguagem comum entrarão em acordo.. escrita num dialeto mutável” e da qual “possuímos apenas o último volume” (p.

com base tanto nos fatos quanto nas teorias de que Darwin podia dispor) tratados (metaforicamente no nível literal do texto. A maioria das disputas historio gráficas .. mesmo The Origin of Spe. tal critério é intrínseco a essa operação.versa precisamente sobre a questão de saber qual dentre os muitos protocolos linguísticos deve ser utilizado para descrever os eventos em controvérsia.. mas como fato evidente. e não sobre que sistema explicativo deve ser aplicado . quanto mais não será para qualquer história das sociedades humanas? Na realidade. em última análise. a saber. mas que apela. a nova imagem da natureza orgânica na forma de uma continuidade essencial dos seres gerou a certeza de que nenhum “cataclisma” jamais “devastou o mundo” e permitiu-lhe antecipar um “futuro seguro e o progresso rumo à perfeição” (p.154 TRÓPICOS DO DISCURSO de transição”.entre os estudiosos de eru- dição e inteligência mais ou menos iguais . Darwin distingue entre os códigos tropológi. na cultura). Mas. é que o impede de dar “um passo adiante. Mas o critério de responsabilidade pelos dados não é extrínseco à operação pela qual os “fatos” são ordenados na descrição inicial que faz deles. 310) não é senão os fatos expostos numa linha temporal. em consequência. deve ser lida como um tipo de alegoria . mas sinedoquicamente no nível alegórico) como se pertencessem a famílias ligadas pela descendência genealógica (através da ação da variação e seleção natural) a partir dos quatro ou cinco protótipos postulados. Ele transformou os “fatos” de uma estrutura de particulares relacionados de maneira meramente contí- gua numa sinédoque sublimada. Mas Darwin chegou tão perto de uma doutrina da unidade orgânica quanto lho permitiu o respeito aos “fatos”. Só a sua aversão à “analogia”. e tratados como uma “série” que permite “imprimir. e em vez de “futuro seguro”. em vez da espacial. Mas tudo isto é apresentado. Vista desse ângulo. diz-nos ele. 473). mais interessante e abrangente) da natureza no lugar da visão dos seus oponentes vitalistas. segundo Darwin. os historiadores não estão de acordo quanto a um sistema terminológico para a descrição dos eventos que eles querem tratar como fatos e engastar nos seus discursos como dados auto- revela.talvez tenha exercido um efeito perturbador sobre os seus leitores. na sua codificação original no modo da contiguidade. Todos os seres orgânicos são então (gratuitamente. E isto a fim de colocar uma visão nova e mais confortadora (bem como.uma história da natureza que pretende ser entendida literalmente.cies. 477). pp. na sociedade) e o “normal” e o “monstruoso” na vida (e. portanto. Em vez de “cataclisma” podemos ler evidentemente “revolução”.cos “responsáveis” pelos dados e aqueles que não o são.'não como imagem. 179-182.dores. segundo ele. E se isso é verdadeiro para a Origin. Darwin só é irônico com respeito aos sistemas de classificação que desejavam fundamentar a “realidade” em ficções que ele não aprovava. 66). “status quo social”. rumo à crença de que todas as plantas e animais descendem de algum protótipo único” (p.de uma sucessão ininterrupta de gerações . de vez que eliminou a distinção entre o “superior” e o “inferior” na natureza (e. para uma imagem da coerência e ordenação que ela constrói apenas por meio de “desvios” linguísticos. na mente a ideia de uma passagem real” (p. A imagem que ele por fim oferece . essa summa da “literatura do fato” do século XIX.

ou o sentido da Revolução Russa. representadas pelas figuras de linguagem sem as quais o discurso em si é impos- sível. a ilusão de que é possível uma descrição de valor neutro dos fatos. Essa doutrina foi conhecida e elaborada muito antes de Darwin desenvolvê-la na Origin. o declínio e queda do Império Romano. da renúncia ao jargão. Estes últimos supõem que a linguagem comum é uma salvaguarda contra as deformações ideológicas dos “fatos”. . Não foi a doutrina da seleção natural desenvolvida por Darwin que o recomendou a outros estudiosos de história natural como o Copérnico da história natural. O que está em debate aqui não é a pergunta “O que são os fatos?”. mas. antes da sua interpretação ou análise. O que se exigiu foi uma nova descrição dos fatos a serem explicados numa linguagem que sancionasse a aplicação a eles da doutrina como a forma mais adequada de explicá-los. antes. “Como os fatos devem ser descritos a fim de sancionarem um modo de explicá-los em vez de outro?” Alguns historiadores insistirão em que a história não será uma ciência enquanto não encontrar a terminologia técnica adequada à correta caracterização dos seus objetos de estudo. cliometricistas e assim por diante. Outros continuarão a insistir em que a integridade da historiografia depende do seu uso da linguagem comum. Tal é a recomendação dos marxistas. AS FICÇÕES DA REPRESENTAÇÃO FACTUAL 155 aos eventos a fim de lhes revelar o sentido. Os historiadores continuam vítimas da mesma ilusão que acometeu Darwin. positivistas. O que não deixam de reconhecer é que a linguagem comum tem as suas próprias formas de determinismo terminológico. os efeitos da escravidão sobre a sociedade americana. do modo como a física fez no cálculo e a química nas tabelas periódicas. O mesmo vale para os historiadores que procuram “explicar” os “fatos” da Revolução Francesa.

que qualquer análise do pensamento histórico do século XVIII que parta da suposição de que o século XIX tinhas boas razões para fazer o tipo de crítica que fez ao século XVIII confia demasiadamente na concepção dos historiadores do século XIX do que deve ser uma sensibilidade histórica adequada. a dissolvê-lo e. porém. em toda discussão sobre o pensamento histórico do século XVIII. esta propensão a “aniquilar” o passado é tão perigosa em sua forma quanto a simpatia indiscriminada por coisas velhas pelo simples fato de . de que o Iluminismo carecia de sensibilidade histórica. em vez da variedade “monumental” e da “anti. das alegações concernentes à incapacidade do iluminista de encarar com simpatia qualquer manifestação do irracional em épocas ou culturas passadas cuja devoção à razão não tenha sido igual à sua própria.tórica que “super-histórica”. E parte do seu respeito pelo Iluminismo derivava da sua apreciação da boa vontade deste em praticar a história “crítica”. Para usar a terminologia de Nietzsche. inclinada que estava a submeter o passado ao crivo do julgamento. Momentos há.quária” que constituíam a ortodoxia historiográfica de sua própria época. em grande parte. formulada no século XIX. em que a sensibilidade histórica “adequada” é marcada mais por um esquecimento seletivo que por uma recordação indiscriminada. seja-nos permitido dizer que a atitude do Iluminismo para com o passado era menos a-histórica ou não-his. como até Nietzsche admitiu. pois a acusação do século XIX quanto à sensibilidade histórica da época decorre. é convencional fazer pelo menos um pequeno gesto no sentido de empreender um novo balanço da acusação. na vida das culturas tanto quanto na vida dos indivíduos.154 TRÓPICOS DO DISCURSO 0 IRRACIONAL E O PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO Nos dias de hoje. quando necessário. E parecia obrigatório fazer semelhante gesto num debate acerca do conceito de irracional no pensamento histórico do século XVIII. Quero crer. disse ele. Foi Nietzsche quem lembrou à sua época que há diversos tipos de sensibilidade histórica e que simpatia e tolerância não são necessariamente os atributos mais desejáveis para todos os historiadores em todas as situações. condená-lo no interesse das necessidades presentes e da esperança de uma vida melhor. Certamente.

mas que percepções criticas da natureza da existência histórica lhes proporcionou o seu fracasso em fazer adequadamente essa distinção. iria triunfar na forma de historicismo e que. que. Mõser e Herder. e especialmente nos registros da Idade Média e da Antigüidade remota. Mas. sendo um juízo que atribui uma limitação fundamental à consciência histórica dos racionalistas. a relação entre as capacidades de tolerância de uma pessoa e o interesse de alguém em interpretar e criticar . era a única forma possível que qualquer vida especificamente humana poderia assumir. seu instinto era por demais sadio. O importante não é saber se deixaram de distinguir entre não-razão e fé. Mas. tal como a fornecida pela tradição. é difícil impor-lhe um limite e recobrar a reverência pelas raízes e o respeito pelas virtudes conservadoras sem os quais o organismo humano não pode sobreviver. Hume e Gibbon embora não faça justiça aos representantes da convenção variante . os iluministas não te- riam sido capazes de praticar a sua obra de desmantelamento das instituições decadentes e de descrédito da autoridade de uma tradição que havia muito degenerara em rotina mecânica. pois. se não eram tolerantes para com o que nós já não consideramos irraci- onalidade. era um cânone inconteste de ortodoxia no pensamento . no caso. A principal acusação contra os iluministas é que seu racionalismo militante quebrou qualquer impulso para encarar com simpatia e tolerância as muitas manifestações do irracional com que depararam nos registros históricos. Voltaire. uma vez encetado o trabalho de aniquilação.Bayle. no século XIX. em sua época. Robertson.tis que. Não que o século XVIII não estivesse familiarizado com a forma men. Entretanto. ela suscita implicitamente a questão dos usos a cujo serviço devem ser postos o conhecimento em geral e o conhecimento histórico em particular. e especificamente ética.Leibniz. mas antes fé. a atitude super- histórica do Iluminis. ser adjudicada a partir do próprio pensamento histórico. eles foram culpados apenas de um juízo equivocado. Pois. e sua forte hostilidade à irracionalidade não deixou de produzir discernimentos históricos significativos. É verdade que os pensadores históricos do século XVIII tendiam a superestimar o irracional como fator causai no processo histórico e a subestimá-lo como possível fonte de força social criativa.tesquieu. Sem a sua abordagem exclusivamente “crítica” da história. racionais e irracionais. O modo de abordar o passado. era condição prévia do programa dos iluministas para cultivar uma segunda natureza em lugar da primeira. que constitui o indício da obsolescência de uma cultura. Esta questão é meía-historiográfica . A acusação é bastante exata e descreve a abordagem dos melhores pensadores históricos da época na corrente principal do racionalismo . legada pelos seus predecessores.e não pode. estabeleceria que tolerância e simpatia para com todas as coisas do passado. Mon. 0 IRRACIONAL E 0 PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO 155 serem velhas. no concernente aos usos a serviço dos quais deve ser posto o conhecimento de alguém. Vico. Uma abordagem crítica do registro histórico.ligada que está ao valor que se atribui ao estudo desinteressado do passado . a postura assumida diante dos dados da história.mo foi tão necessária quanto desejável.tudo isso é função de uma decisão metó- historiográfica. a voz com que se relatam as descobertas feitas sobre o passado.

em seu conceito de natureza humana. que esteve entre os primeiros a se opor à ideia de que o Iluminismo carecia de sensibilidade histórica. . Entre 1714.logia e de evolução na ontologia. refletindo mais uma falha de conhecimento ou de imaginação no conhecedor do que uma inadequação na coisa conhecida. diz Cassirer. para ele. mas igualmente na historiografia. com suas ideias cognatas de raciocínio analógico na epistemo. a evolução gradual. Assim como a própria noção de homem “monstruoso” era uma anomalia. entre diferentes tipos de homem ou entre diferentes estados espirituais dos homens. por exemplo. o conceito de evolução e o princípio do raciocínio analógico haviam passado por dias ruins. Para Herder. ressaltou a natureza revolucionária do ataque de Herder ao “pensamento analítico e ao princípio de identidade” que - na opinião de Cassirer . efetivamente. Semelhante transição só pode ser considerada como um progressus absoluto para aqueles que não acreditaram na distinção nietzschiana entre as diversas maneiras de abordar o campo histórico. Seu retorno à historiografia com Herder. a doutrina da continuidade. porquanto a noção de irracionalidade intrínseca teria indicado alguma inadequação na Criação e portanto.impedira o desenvolvimento de uma historiografia completamente tolerante ao longo da maior parte do século anterior. essa continuidade do processo histórico da qual o próprio cosmo era um equivalente espacial. A doutrina da continuidade de Leibniz. cujo Ideen zur Philosophie der Geschichte des Menschheits veio a lume entre 1784 e 1791. Do mesmo modo. não apenas na filosofia natural. nada retorna da mesma forma. mas também marca uma importante transição de uma forma de pensamento histórico para outra. o próprio conceito de irracional é descartado como categoria do ser histórico significativo. que. As implicações desse conceito de história só foram plenamente formuladas durante as duas últimas décadas do século XVIII. nenhuma coisa é realmente idêntica a qualquer outra. por implicação. da qual haviam sido banidos por Newton e Locke. assim também a noção de homem inerentemente “irracional” refletia uma falha de conhecimento ou uma concepção inadequada da natureza humana. no Criador. contínuo no tempo: tais eram os pressupostos da noção de processo histórico que Leibniz introduziu nas suas tentativas de escrita histórica. nega a adequação de qualquer caracterização do mundo em termos de oposições. particularmente por Herder. uma transição da historiografia “crítica” do Iluminismo para o “pietismo” histórico do século XIX. cria a concepção de transição gradual de uma localização espacial a outra e de um instante temporal a outro. Leibniz não vê qualquer descontinuidade entre os atributos físicos e espirituais dos homens. porém. Mesmo Cassirer. deparamos com atitudes que não só dotam o irracional de um valor específico. “desfaz a ilusão de identidade”.156 TRÓPICOS DO DISCURSO histórico. e a década de 1780. Contíguo no espaço. mas também suprimem simplesmente a distinção entre razão e irracionalidade como critério de avaliação. Na Monadologia (1714). o ano da Monadologia de Leibniz. Herder. a forma “analítica” de representação histórica que ele promoveu era mais que um artifício para organizar mecanicamente o campo histórico: refletia a ordem do ser no tempo. Na filosofia de Leibniz. não só assinala o renascimento de uma sensibilidade histórica genuína. Assim.

impotente com respeito à história. Não tem nem mais nem menos respeito pelos romanos do que pelos nativos desmazelados do Sul da Califórnia.. Este é o único método filosófico de contemplar a história e foi praticado. Herder conclui. é. Mas. 0 IRRACIONAL E 0 PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO 157 a história produz novas criaturas em sucessão ininterrupta. se não hoje. por revolucionária que possa ter sido esta aplicação da doutrina da continuidade. pois. é fortuito. é”. ajustamento. dos quais teve informação pelos missionários enviados àquelas praias exóticas.. Esta postura pietista diante do evento histórico particular . desenvolvimento ou adaptação. para Herder.diante do irracional como diante do racional na natureza humana . a própria existência é um valor.Ihe permitido advertir os seus leitores contra qualquer “consideração” sobre a história de um tipo “previdente ou retrospectivo”. E desnecessário dizer que. igualmente digno de ser encarado como apenas mais uma manifestação da maravilhosa capacidade humana de sobrevivência. sem a qual a historiografia “crítica” não pode ser prática de maneira nenhuma. será. e nada .estes humildes californianos não são nem melhores nem piores que os mais nobres dos romanos. amanhã. e tornarão a florescer quando o seu tempo chegar”. mas também suprimiu a distinção entre o racional e o irracional. Pois o tipo de pensamento de Herder não só dissolveu a distinção entre o “exótico” e o “familiar”. o que pode atuar. Para Herder. que mudam de moradia “umas cem vezes por ano”. Herder não se coloca acima do registro histórico. Toda generalização abstrata é. por todas as mentes pensantes”. ou nada.deixa de ter suas razões para ser exatamente o que foi na época e no lugar em que ocorreu. ocorre. Para Herder. E. nada é fortuito. nada é arbitrário. elas feneceram. “tudo o que pode vir a ser. como acreditava Cassirer. Assim. cada uma no seu próprio tempo e ambiente. acomodação. c a cada uma ela confere como direito inato uma forma única e um modo independente de existência. . e nem uma norma genérica nem qualquer norma universal podem abranger a sua riqueza. como ele diz especificamente dos romanos. Estes californianos. diz ele reiteradas vezes.difere radicalmente da atitude irônica vigente na principal linha do pensamento histórico do século XVIII . na história como na natureza. colhem com os dedos do próprio excremento” . “exatamente aquilo que eram capazes de se tornar: todas as coisas perecíveis que lhes pertenciam pereceram. “tudo.. a sensibilidade histórica da época seguinte foi absolutamente superior à dos racionalistas do século XVIII. é arbitrário. mesmo inconscientemente. “quando oprimidos pela miséria. Ele se encanta com o fato de que “o que pode ocorrer em alguma parte. ou nada. tudo na história é igualmente exótico ou igualmente familiar.] Todas as coisas que poderiam florescer sobre a terra o fizeram. vale dizer. que dormem a qualquer hora e em qualquer lugar “sem prestar a menor atenção à imundície do solo e sem tentar se proteger dos vermes nocivos”.nem mesmo o ato mais irracional . ela não autoriza a concluir que. “Tudo o que pode ser. e que se alimentam de sementes que.. [. e o que era suscetível de permanência permaneceu”. atua”. nem se arvora o direito de julgar o que for neste registro. com base neste fato. tudo. Ambos foram.

E possível que Voltaire se compraza em expor a estupidez assim do passado como do presente. tão amplamente exibida no registro histórico. o ceticismo dos iluministas os resguardou muito bem da tendência de contrapor a loucura dos homens do passado à pretensa sabedoria dos seus contemporâneos. Em geral. a História de Carlos XIí faz uma sutil distinção entre certo número de diferentes tipos de irracionalidade na carreira de Carlos. são irrepreensíveis. para o qual a razão e a loucura eram estados mentais opostos e mutuamente exclusivos. sentia um prazer perverso em catalogar a extensa gama de formas que a loucura poderia assumir. Hume. Gibbon tal maniqueísmo tem a função mais de um artifício retórico do que de uma concepção da relação entre razão e irracionalidade na humanidade de todos os tempos e de todos os lugares. Na sua História de Carlos XII. Os trechos em que Voltaire descreve a morte de Carlos nas trincheiras de Frederikshall e extrai a moralidade de uma vida dissipada na busca da glória militar são dignos de comparação com qualquer coisa produzida pelos historiadores do século seguinte. bem como dos seus êxitos como historiadores. sendo juízos especificamente históricos. mas. Voltaire.e. por conseguinte.na situação em que ela se manifesta. os seus juízos sobre ela . mas esta própria apreensão das formas que a irracionalidade poderia tomar o leva no final ao reconhecimento de que a loucura poderia predominar na natureza humana com o passar do tempo. que é marcada pela tendência a conceber o conflito entre razão e irracionalidade (ou entre charlatanismo e estupidez) em termos maniqueístas. entre os melhores historiadores na tradição racíonalísta . é encontrado entre racionalistas doutrinários como Turgot e Condorcet. porém essa epopeia do escárnio (como a chamou Lionel Gossman em sua brilhante análise desse trabalho como obra de arte) é entremeada de simpatia por um soberano cuja razão era insuficiente para orientá-lo no sentido de utilizar os seus talentos mais para fins pacíficos que militares. as causas dos fracassos dos iluministas. Esse tipo de maniqueísmo simplório. A meu ver. mas os juízos.Voítaire. por exemplo. os iluministas tendem em geral a fundamentar a sua apreensão da loucura . ou que eram totalmente incapazes de tolerância para com a irracionalidade do homem.158 TRÓPICOS DO DISCURSO de Bayle a Gibbon. ou mesmo de simpatizar com ele e de . O objetivo didático é patente. E se tornam mais convincentes graças ao melancólico reconhecimento de que nem o talento por si só nem a razão de um certo tipo constitui suficiente garantia contra o poder da loucurá. E o mesmo se pode dizer de Hume e Gibbon. Isto não significa que aos racionalistas faltava totalmente a simpatia pela humanidade irracional. Diferentemente da Filosofia da História. Voltaire distingue de maneira muito rigorosa e consistente entre o tipo de cálculo equivocado que levou Carlos a empreender a conquista da Rússia e a loucura mais profunda que se refletia nas suas tentativas de alcançar glória através de conquista. E o seu conhecimento do poder da loucura até mesmo sobre os homens dotados dos mais extraordinários talentos resguardou Voltaire do otimismo ingênuo que uma fé racionalista doutrinária no poder da razão fomentou em pensadores como Turgot. Como historiadores. não devem ser buscadas numa incapacidade qualquer de compreender o irracional na história. assim como Bayle.

& fábula. Mas. foi efetivamente demolido pelas realizações dos antiquários ao reconstruírem uma verdadeira. na Filosofia da História. nem mesmo eles avaliaram a dificuldade de escolher entre vários e diferentes relatos possíveis do passado. necessária para promover as capacidades humanas de reverência e respeito às raízes da cultura e da sociedade humana. Hume e Robertson. Os historiadores não se fazem. uma obra que critica extremamente o elemento irônico nas histórias de Voltaire. e que poderia ser utilizado parã justificar a escrita da histoire galante ou romanes. porém mera fábula ou conto. na sua incapacidade de conceber o conhecimento histórico em geral como um problema. homens como Muratori e Curne de la Sainte. de um lado. Os grandes “antiquários” da época. no direito da inteligência crítica de tratar as crenças passadas com o desprezo requerido pelas exigências do presente.crômca das épocas passadas. Dessa forma. no artigo “Talento Histórico” de seu Dictionnaire historique. No seu De la manière de 1’écrire Vhistoire (1782). se lhe faltar a verdade”. de sorte que. antes. Encontram-se. um ato necessário para a avaliação adequada das possibilidades presentes. Reconhecendo embora que a “história. 0 IRRACIONAL E 0 PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO 159 tolerá-lo. Mably afirma que o “caráter” é a base definitiva da boa historiografia. à luz da ciência corrente. Bayle afirma: “Observo que. Mas a tradução de uma crônica numa história requeria mais que erudição. de um lado. tanto Bayle quanto Voltaire tendem a traçar linhas divisórias com demasiada rigidez entre história. ela não será uma história. Bayle parece pensar que a principal exigência para escrever uma boa história é o desejo de dizer a verdade. de um modo geral. No entanto. Porém alguma coisa mais era requerida se o conhecimento histórico devesse contribuir para o esforço de “distanciar” o passado. já nascem . de outro. é a composição mais difícil que um autor pode empreender”. de outro. embora apresente todas as outras perfeições. Voltaire estava na pista certa quando. Mas a vontade de estabelecer a verdade é um princípio metodológico insuficiente para a criação de uma história adequada. epigráficos e numismáticos para a avaliação adequada dos registros documentários. O pirronismo histórico que floresceu no início do século XVIII. O insucesso desta época na avaliação da problemática do conhecimento histórico é mostrado claramente na obra do Abbé de Mably. é essencial para uma composição histórica livrar-se das mentiras. e requeria mais que conhecimento ampliado pelo senso comum. Quando escrevem sobre a questão do conhecimento histórico ou da escrita da história. traduzir uma apreensão do passado numa descrição plausível. O conhecimento por si só poderia produzir o que Nietzsche chamou de historiografia “antiquaria”. e aparentemente não tinham de modo algum uma ideia do problema de. e o senso comum poderia promover aquela historiografia “monumental” que inspirou ações heróicas no interesse de um futuro melhor. num relato narrativo.Palaye. sendo a verdade a alma da história. nem mesmo ele foi capaz de avaliar a ambiguidade das mensagens que o passado transmitiu ao presente na forma de documentos e registros históricos. e o que Bayle e Voltaire chamavam história satírica. insistia no direito da razão em submeter o registro histórico à crítica. parecem ter reconhecido esta verdade quando ressaltaram a necessidade de testemunhos filológicos.que.

160 TRÓPICOS DO DISCURSO feitos.gíveis da natureza humana. como a maioria dos seus contemporâneos parecem ter feito. diz ele. o que buscavam era um equilíbrio judicioso da razão e das emoções na criação de uma humanidade justa. A sabedoria era necessária para a escolha do modelo a ser usado num exemplo específico. escreve no seu Dicionário Filosófico: “Imaginação ardente. do bem e do mal. Os conselhos de Mably sobre o modo de escrever história revelam uma importante pressuposição latente na historiografia do Iluminismo. ou da razão e da loucura poderiam ser aproximadas e tecidas numa história edificante e de interesse humano geral pela aplicação dos princípios narrativos contidos nos modelos clássi- cos comprovados. na visão de Mably. no seu entender. e de uma suspeição simultânea da linguagem figurativa e do raciocínio analógico requeridos para a sua aplicação adequada. era escolher entre as estruturas de enredo da comédia e da tragédia para descrever os eventos do passado dignos de figurar numa história escrita. a serem contrapostos à razão como seus inimigos. E. Mably admite. Segundo Mably. Voltaire ainda vê a historiografia em termos clássicos. A linguagem figurativa só pode ser utilizada com propriedade na poesia. Assim. já se nascia sábio ou não. paixão. pois metáforas em demasia são danosas. uma vez consumada sua investigação do relato histórico. uma contradição que obstruiu o empenho dos seus melhores historiadores em lidar com os principais problemas da representação histórica. mas.criam o estilo figurativo. ele exclui explicitamente a linguagem figurativa dos instrumentos apropriados para transmitir o sentido de um relato histórico. Os iluministas não consideraram as paixões ou a imaginação como elementos expun. diz ele. E na sua análise dos tropos poéticos ele critica os Padres da Igreja pelo uso excessivo que delas fazem. Não o admitimos na história. quer de qualquer outra coisa. leva mais à fabulação que a uma representação da verdade. Todas as manifestações históricas de heroísmo e vilania. na sua análise desse problema. lendas e mitos que chegaram até eles como sendo as verdades pelas quais os homens das épocas passadas tinham vivido. Ao mesmo tempo. A habilidade era o requisito básico para saber como “narrar” os eventos de maneira apropriada. . desejo . Esta contradição decorre da sujeição dos historiadores do Iluminismo às regras da retórica e poética clássicas como metodologia da representação histórica. o principal problema do historiador. ela é a filosofia que ensina pelo exemplo. quer do irracional. por assim dizer. por dizerem mais ou menos do que a própria coisa”. e cita Ovídio como um poeta que se vale das figuras e dos tropos de maneira a não “frustrar” ninguém. não só à clareza mas também à verdade. porém. mais imageticamente. o que. O que Voltaire e a maioria dos iluministas não viram foi que a linguagem figurativa é justamente um meio que tanto pode exprimir uma verdade apreendida de maneira incompleta quanto dissimular um erro ou uma falsidade reconhecidos de modo incompleto. que as normas da retórica e da poética clássicas são suficientes para a sua resolução. que pela lógica discursiva. ao contrário.por vezes frustrados . A distinção rígida entre a linguagem figurativa para efeitos poéticos e a representação em prosa discursiva para relatar a verdade das coisas impediu os iluministas de considerar seriamente as fábulas.

quando tratada como um princípio da psicologia. e a fábula na verdade. imaginar que o fabuloso era o oposto do verdadeiro era bastante legítimo enquanto princípio para caracterizar as diferenças entre uma apreensão estética da realidade e uma compreensão científica ou filosófica desta mesma realidade. era tão antiga quanto a filosofia grega e serviu de esteio até para a teologia cristã durante o período patrístico. jamais obteriam acesso àquelas culturas e estados mentais em que a distinção entre o verdadeiro e o falso não haviam sido feita da maneira tão clara como esperavam fazer. Uma vez estabelecida a distinção entre pensamento mítico e pensamento científico. e o domínio adequado da razão. quaisquer que tenham sido as li- mitações da sensibilidade histórica dos iluministas. o fracasso dos iluministas residiu na sua incapacidade de ver que estes poderiam entrelaçar-se como fases da história de uma cultura. Na Ciência Nova. de um lado. Seja como for. na distinção que fizeram entre pensamento mítico e pensamento científico eles anteciparam as modernas histórias científicas da cultura produzidas por nossa época. oferecer um método histórico em que o princípio da distinção suplantasse as tendências reducionistas nas abordagens leibnizianas e lockianas do estudo da consciência humana. Vico critica Bayle por promover a crença de que as nações poderiam desenvolver-se e prosperar sem nenhuma crença em Deus. não viram que a verdade poderia estar contida na fábula. Em outras palavras. na Ciência Nova (primeira edição. em civilizações cujos compromissos com a razão não eram tão plenamente desenvolvidos quanto o deles próprios. e transformar o verdadeiro e o fabuloso nas categorias de um método histórico é tão perigoso quanto a oposição da razão à imaginação numa teoria psicológica ou numa teoria do conhecimento. 1725.talizar a psique de um modo que os levava a fazer severas distinções entre a área de expressão legítima da imaginação. Mas. Por isso. as modernas teorias científicas da cultura dependem tanto do conceito das semelhanças funcionais entre pensamento mítico e pensamento científico quanto das diferenças formais reconhecíveis entre eles. ou um adorno dela. ou da epistemologia. de outro. E a marca de gênio de Vico foi perceber as falácias contidas nessas oposições e tentar. 1744). Peter Gay afirmou recentemente que. E esta compartimentalização da psique obstou-lhes a compreensão dos modos pelos quais a razão e a imaginação poderiam funcionar parelhas como guias da atividade prática e instrumentos da compreen- são. sociedade ou consciência individual únicas. fomentado pelo . edição definitiva. Enquanto identificassem o “fabuloso” com o “irreal” e não vissem que a própria fabulação poderia servir de meio para a apreensão da verdade acerca da realidade e que não era apenas uma alternativa para semelhante apreensão. Mas essa distinção não era exclusiva do pensamento iluminista. 0 IRRACIONAL E 0 PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO 161 Mas tendiam a compartimen. tal oposição anulava qualquer esforço no sentido de buscar a base em que as mediações entre elas poderiam ser realizadas. A verdade e a fábula não são mais opostas do que a ciência e a poesia. mas é o tipo de ceticismo sobre as crenças dos povos primitivos em geral. em sua contemplação dos testemunhos do passado remoto.

a “poesia” figura a realidade. Esta terceira ordem de conhecimento. geralmente descritivo da consciência. que constitui o alvo principal do livro de Vico.geria para a de civilização.acerca do estilo de vida dos povos antigos. que é explicar de que forma a humanidade poderia ter vivido com base em princípios diferentes dos reverenciados no presente. Vico argumenta era favor de uma continuidade entre elas. Em vez de contrapor a imaginação à razão como um modo oposto de apreender a realidade. Deve ter havido alguma adequação da crença mítica à realidade. poderemos então considerar o verdadeiro e o fabuloso como maneiras apenas diferentes de significar a relação da consciência humana com o mundo com que ela depara em diferentes graus de certeza e compreensão. E isto sugeria a possibilidade de um terceiro tipo de conhecimento entre o literalmente verdadeiro e o fabuloso. fora formada por concepções equívocas acerca dos primitivos que produziram duas presünções: a dos “eruditos”. do contrário a humanidade pagã não poderia ter-se elevado da condição de selva. tal suposição ofendia a própria razão. testemunhos que eram uniformemente “fabulosos”. Para Vico. que os homens modernos. gerou a convicção de que todos os testemunhos originais . Se admitirmos o uso da noção do fictício como um meio de designar a natureza geral da consciência humana. Esta conceituação da consciência lhe proporciona um meio de reconceber a relação entre o irracional e o racional na vida da cultura. e a das “nações”. e pelos mesmos meios. uma meia-verdade tratada como verdade certa para propósitos práticos. pela simples negação de que o problema existisse: pela simples afirmação de que o homem primitivo devia ter solucionado os seus problemas da mesma forma.162 TRÓPICOS DO DISCURSO racionalismo de Bayle. que ensinava não poderem a humanidade em geral e a sociedade em particular ter sobrevivido se tivessem os seus fundamentos apenas no erro e no engano. preferentemente. escritos ou monumentais . por sua vez. A consciência histórica da sua própria época. Estas duas presünções permitiram aos filósofos solucionar o problema histórico. e a poesia à prosa como um modo oposto de repre. o fictício é a criação inconsciente de hipóteses do tipo atribuído por Aristóteles aos poetas. Permite-lhe também ver na filosofia não uma . Isso. afirmava Vico. O que Vico faz é transformar a noção do fabuloso num conceito genérico. constitui uma espécie do que chamaríamos de fictício num sentido preciso. E sua conceituação da noção de “sabedoria poética” do homem primitivo como forma de protociência lhe permite suprimir a distinção entre o verdadeiro e o fabuloso que obstou aos racionalistas a compreensão das épocas não-dotadas de um compromisso com a racionalidade compatível com o deles próprios. com base no qual a relação entre a consciência primitiva e o mundo poderia ser mediada e a adequação de uma ao outro progressivamente compreendida. acreditava Vico. que admitia que os povos primitivos devem ter conduzido os seus negócios da forma como o fazem os povos plenamente civilizados. que tendiam a admitir que os primeiros povos devem ter possuído o mesmo conhecimento que possuíam os eruditos.sentá-Ia.orais. Entretanto. do qual o literalmente verdadeiro e o poético são espécies. que é uma combinação da verdade e do erro ou. eram produtos de erro ou de duplicidade.

com isso.mediante a metonímia e a sinédoque. depois. que o homem primitivo conseguiu humanizá-lo progressivamente. A diferença mais significativa entre a primeira edição da Ciência Nova (1725) e a última (1744) foi a ampliação do debate dos aspectos criativos da linguagem. Foi pela projeção metafórica da sua própria natureza nesse mundo. Por meio das progressivas reduções tro. Dessa forma. teoriza Vico. Invertendo a relação entre a imaginação e a razão. Dessa forma. de Leibniz. 0 IRRACIONAL E 0 PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO 163 alternativa às verdades originariamente apreendidas em formas poéticas. principalmente . feita pelo homem primitivo. pelo tropo da ironia.pológicas dessas forças . explica de que modo a linguagem poética poderia ter servido de base para o confinamento do homem primitivo a um mundo natural que lhe deve ter parecido estranho e ameaçador em todos os seus aspectos. Diferentemente. racional nem irracional de per si. o homem primitivo inventou a religião. de um mundo em que ele possa se sentir em casa.os homens primitivos chegaram pouco a pouco à compreensão da sua natureza divina. estando uma contida na outra em vez de se lhe opor. Foi esta a base do seu ataque ao método filológico da historiografia antiquária dessa . mas antes como produtos da consciência poética e especificamente tropológica. de um lado. Então. chegaram a uma percepção da possibilidade de distinguir entre verdade e erro na conceituação do mundo natural e da sociedade. de outro. pois. Este agente mediador era a fala. exclusivo do homem. Nas edições posteriores. Na primeira edição. que tendia a situar todas as coisas no mesmo plano ontológico e. Essas intuições da linguagem e da consciência não só permitiram a Vico eliminar a oposição entre verdade e fábula e julgar o fictício um terceiro plano entre elas. porém. uni-las no tempo como se fossem estágios de um único processo evolutivo. que servia de agente mediador entre a mente e o corpo. na relação entre a imaginação e a razão pode-se conceber tanto uma relação temporal quanto uma relação ontológi. Vico consegue abrir caminho para um entendimento dos mitos e fábulas em que as culturas mais antigas exprimiram as suas experiências vividas dos mundos que habitaram.ca. Vico fornece um meio de ao mesmo tempo distinguir entre as manifestações irracionais e as racionais da consciência e. e vendo na primeira a base necessária da segunda. e entre a consciência humana e o seu ambiente. elas não deviam ser consideradas como criações da razão. segundo ele. fornece o modelo para a compreensão da evolução humana em geral. mas apenas um modo diferente de falar dessas verdades. O mecanismo que dirigia este processo evolutivo não era. mas um fator pré-racional. Identificando as forças da natureza como espíritos semelhantes ao homem. que. mas também lhe permitiu conceber a teoria da linguagem como a metodologia para compreender a função do mito e da fábula nas culturas primitivas e arcaicas. eliminar a distinção entre o racional e o irracional na vida. a ciência e a filosofia se tornaram possíveis mediante uma percepção da natureza da relação entre a consciência e a realidade ditada pela poesia. na relação dialética entre as suas capacidades de articulação poética e de representação prosaica. Vico faz pouco mais que asseverar que a lin- guagem é a chave para o entendimento da construção.

Foi isto o que eu quis dizer quando afirmei que a história como tal não era um problema para os iluministas. em vez de tentar compreender-lhes as funções em mundos diferentes do deles próprios. pois.164 TRÓPICOS DO DISCURSO época. Enquanto se ocupavam de culturas não muito dessemelhantes da sua própria. Prova disso é que a linguagem não era um problema para eles. Robertson com a América e Hume com a Idade Média. ou demonstrar tolerância quando o que se requer é uma afirmação dos direitos do presente sobre as reivindicações do passado. Quando tentavam ocupar-se de épocas e culturas radicalmente diferentes. uma habilidade louvável. nem sempre é uma decisão criativa procurar compreender quando a situação exige a critica. inclinavam-se simplesmente a censurá- las. que era tão boa quanto qualquer coisa criada pelos historiadores que viveram depois. Seu fracasso residia na relutância em acreditar plenamente na sua capacidade prodigiosa de identificação poética com o diferente e o estranho.não a questão do que aconteceu nem o sentido do processo histórico. inclinavam-se a moderar sua admiração com benigna ironia. refletia. mas antes que não consideravam a linguagem em si. qual seja. dada a tarefa que se haviam imposto.tentemente. a de desacreditar qualquer instituição ou ideia que dificultasse a construção de uma sociedade justa na sua própria época. segundo a qual era suficiente conhecer a história das palavras e as suas etimologias. A preferência dos iluministas pela história recente. produziam uma historiografia como a História de Carlos XII. Vico permaneceu ignorado durante todo o século XVIII. em oposição à remota. não apenas porque . O Século de Luís XIV ou Declínio e Queda do Império Romano. mas a questão de saber de que forma é possível o conhecimento histórico. Porém. Não quer dizer que não estudassem as línguas nem reconhecessem a importância da linguagem na evolução da cultura. a mente das épocas passadas tinha de continuar inacessível a qualquer coisa que se aproximasse da plena compreensão das suas operações. Winckelmann com a Grécia. Na medida em que se considerava suficiente para o historiador apenas aprender a língua em que os documentos do passado haviam sido escritos. Quando deparavam com coisas que desprezavam. tendiam a superestimar ou a subestimar a sua originalidade e singularidade. como um problema. A indiferença dos iluministas para com os tipos de questão que Vico trouxe à baila ajuda a iluminar alguns pressupostos significativos do pensamento deles. Um modo de caracterizar o pensamento de uma época é identificar as questões que os seus pensadores representativos levantam consis. como fez Gibbon com Bizâncio. com o seu poder de iluminar ou de obscurecer. Não confiavam em seus próprios poderes oníricos. E isto limitou de modo fundamental sua capacidade de compreender os modos de expressão de culturas radicalmente distintas da deles. Pois. esta era uma decisão legítima. Quando descobriram coisas admiráveis nessas épocas e culturas remotas. Uma questão levantada pelo Iluminismo foi a da natureza do conhecimento histórico . como disse Nietzsche. em vez de penetrar os modos de pensamento refletidos em convenções linguísticas distintas. sem investigar o problema mais fundamental da função da linguagem no processo da civilização.

ceticismo que existiu paralelamente a uma devoção consciente à razão. o ceticismo radical da época. Sua obra mais criativa era mais crítica que construtiva. Poder-se- ia reconhecer que seu sistema fazia mais justiça aos fatos da história. As implicações essencialmente conservadoras do sistema de Vico entraram em conflito com os interesses conscientes dos filósofos racionalistas da história e dos seus congêneres na historiografia. Mas. dirigida contra o irracionalismo fosse qual fosse a forma que ele assumisse. Hume foi forçado a concluir que a relação da loucura com a razão em sua própria época não se havia alterado de modo significativo em relação ao que fora em diferentes épocas no passado. emoção. destruía. Vico havia de ser ignorado ou descartado pelas mesmas razões por que Leibniz havia de ser rejeitado e satirizado. cria e dissolve a convicção que originariamente a inspirou de que os homens da época presente progrediram de maneira absoluta para além da irracionalidade característica dos seus ancestrais remotos. em última análise. cujos produtos eram essencialmente idênticos aos criados pela irracionalidade.estavam empenhados numa operação de limpeza do terreno em nome de um ideal que requeria~forçosamente que as relações culturais fundamentais fossem concebidas mais em função de oposições que de continuidades ou de sutis gradações. Voltaire. Estavam interessados em ver no passado (e principalmente o passado remoto) o oposto daquilo que valorizavam no seu próprio presente. De fato. A justiça era o que se procurava para os homens vivos. em vista de seu objetivo. Hume e Gibbon . porém nada mais que isso. Entretanto. mito ou paixão. Montesquieu. um crescente reconhecimento das limitações de uma visão histórica cujo principal objetivo era o desmascaramento da loucura do passado. mas porque os pensadores mais progressistas da época não poderiam. A abordagem irônica da história por Hume produz o ennui. se fossem expostas suas bases irracionais e a irracionalidade acarretada pela fidelidade prolongada a elas e fossem relegadas a um passado que estava efetivamente morto. um objeto apropriado ao interesse de antiquários. e a justiça para os homens vivos poderia ser provida em parte se aqueles resíduos do passado ainda vivos no presente fossem submetidos ao crivo do julgamento. mas o que os iluministas procuravam não era tanto a justiça quanto a verdade. A própria razão. a fé na razão que ele originariamente promovera na sua função exclusivamente critica perante a tradição e o costume. e especialmente em Hume. torná-la uma forma aprimorada da irracionalidade. se os philosophes tivessem alimentado seriamente a ideia da identidade da razão com a irracionalidade na consciência em qualquer nível. que a única mudança ocorrera nas . dar-se ao luxo de conceber o conhecimento histórico em geral um problema. Podemos observar no melhor pensamento histórico da época. sua obra crítica teria sido solapada desde o início. a razão hipostatiza. 0 IRRACIONAL E 0 PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO 165 o seu pensamento era particularmente complexo. quer como tirania. quer como superstição ou ignorância.da. e não a base dele. Vico parecia subordinar a razão à irracionalidade. Os pensadores históricos da linha de frente do racionalismo — Bayle. não poderia continuar por muito tempo isenta de segundas intenções sobre a irracionalidade de sua própria hipostatização que o ceticismo inevitavelmente inspirava.

foi obrigado a admitir que as melhores razões para acreditar no progresso eram morais e não científicas. O modo como encarava o passado da raça condicionava e. A concepção de alguém acerca do sentido da história dependia. remove o fardo de ter de julgar o presente. bem como toda a responsabilidade de prever o curso que a sociedade humana deve tomar no futuro. O próprio Kant. porém. num ensaio tardio. com o correr do tempo. O testemunho histórico por si só. neste processo. e todas manifestam na sua especificidade a mesma mescla de razão e irracionalidade. A fé ingênua de Herder no poder da história de cuidar de si própria. para que não sejamos proibidos de acreditar que o futuro será melhor do que o presente e não esmoreçamos. Este desejo crescente de acreditar no progresso em face do ensino do ceticismo. é responsável pela acolhida entusiasta à filosofia da história perfilhada por Herder no final do século XVIII. observou Kant. viveria a vida de modo a realizar a condição de degeneração ou de estase que lhe parecia refletida no registro do passado. Ao mesmo tempo. no declínio e na estase. A insistência de Herder em afirmar que a reflexão sobre a história não é inspirada por nenhuma “preocupação” de um tipo “previdente ou retrospectivo” tira dos ombros do historiador o fardo de ter de julgar o passado. o empenho humano em concretizar esse futuro melhor. mas isto era em grande parte uma preferência estética. e não uma conclusão deduzida mediante um raciocínio ponderado. Para Herder. ainda que de molde a eliminar a distinção como critério de avaliação da natureza da relação entre o passado.166 TRÓPICOS DO DISCURSO formas que a razão e a irracionalidade assumiram com o tempo. do tipo de homem que queria ser e do tipo de humanidade que desejava ver desenvolvido no futuro. porque as outras duas visões promoviam atitudes indignas de um homem moralmente responsável. Porém insistia em dizer que não nos é permitido acreditar que não houve qualquer progresso na transição do passado para o presente. Kant continuou acreditando até o fim da vida que a história do passado não ensinava coisa alguma acerca da natureza humana que não pudesse ser aprendida com o estudo da humanidade nas suas encarnações presentes. do tipo de homem que ele era. Gibbon ainda era capaz de acalentar a ficção de que a sua própria época era superior à Idade das Trevas. o problema da relação entre a razão e a irracionalidade é colocado num outro plano. Era dever moral acreditar na visão progressista. realmente determinava a forma que o futuro deveria assumir. “Uma Velha Questão Novamente Suscitada: Estará a Raça Humana em Constante Progresso? ”. terrorista e abde. de produzir o que é necessário para o conjunto da humanidade no tempo e no lugar . todas as coisas existem num presente intemporal. a consequência de uma decisão de tratar sua própria época com mais simpatia do que a que poderia dispensar à Idade Média.rítica. insistia Kant. a história é uma totalidade de individualidades. segundo o qual não temos fundamentos racionais para acreditar nele. autorizava a crença em qualquer uma de três visões da história: eudemonístíca. Se escolhesse acreditar que a humanidade estava em declínio ou continuava essencialmente a mesma. que refletiam a crença respectivamente no progresso histórico. o presente e o futuro. cada uma das quais é igualmente valiosa como indivíduo. Aqui.

é a antítese perfeita daquele ceticismo. e na adequação das partes individuais do todo à totalidade. mas o quadro geral daí resultante era o mesmo. 0 IRRACIONAL E 0 PROBLEMA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO NO ILUMINISMO 167 requeridos. que Hume levou à perfeição como sistema de pensamento. .tante. tão efetivamente quanto o fez o ceticismo de Hume. No entanto. para Kant era o dogmatismo que ele de fato era. o segundo promovia um otimismo infundado que não era sancionado nem pela razão nem pela moral Isto fez a reflexão histórica retroceder ao domínio da sensibilidade estética. A crença herderiana na adequação do todo. A principal diferença entre o ceticismo de Hume e o dogmatismo de Herder radicava no fato de que. O tom era diferente. enquanto o primeiro levava ao desespero em face do sem-sentido da história. na riqueza e variedade das suas formas e no incessante vir-a-ser e passar das coisas cada qual a seu próprio tempo. com a sua ironia debili. negava por completo a problemática da existência histórica. tornou-a nada mais que a interminável discussão sobre as coisas na sua coerência formal. o que Herder sentia ser um renascimento da capacidade humana da fé na adequação essencial da existência individuada.

precisarei dividir a história cultural da civilização ocidental em fatias relativamente grandes. res- pectivamente. Estes termos são utilizados não só para designar uma condição ou estado de ser específico.ximamente a “le hon sauvage” francês. manteve-se aqui e no capítulo seguinte o Nobre Selvagem pelos motivos que o próprio autor se encarregará de expor no próximo capítulo. então. ou? na sua forma latiniza. Neste ensaio eu gostaria de dizer algo sobre a linhagem deste Homem Selvagem. “selvageria”. quanto ditam uma atitude particular que comanda uma relação entre uma realidade vivida e alguma área problemática da existência que não pode ser conciliada facilmente com as concepções convencionais do normal ou familiar. No entanto. lugar ou condição específicos.cas que um relato das suas variações* combinações e permutações durante o final da Idade Média e o início da Era Moderna. e talvez indigeríveis. mas também para confirmar o valor das suas antíteses dialéticas. O que oferecerei afinal. não se referem tanto a uma coisa. é traduzir Noblc Wild por Bom Selvagem. Durante a sua época de triunfo. o apóstolo Paulo contrapõe 82 Nós da cultura brasileira estamos mais familiarizados com a expressão “Bom Selvagem”. dispô-las em grupos de possível significação e servi-las numa forma tão crua que obscureça completamente a grande variedade de opiniões concernentes à noção de estado selvagem que será encontrada na literatura antiga e medieval. (N.da. Assim. de reconstruir a genealogia do mito do Homem Selvagem e indicar a função da noção de estado selvagem no pensamento pré-moderno. A noção de “estado selvagem” (wildness). faz parte de um conjunto de instrumentos culturalmente autolegitimadores que inclui. “civilização”. A tendência. parecerá'mais o depósito de artefatos de um arqueólogo do que a narrativa fluente do historiador. mais reflexões sobre uma busca de formas arquetfpi. “sanidade” e “ortodoxia”. entre muitas outras. o Homem Selvagem era visto como “o Nobre Selvagem82” e servia de modelo de tudo o que era admirável e não- corrompido na natureza humana. os séculos XVII e XVIII. e provavelmente chegaremos ao fim mais com um senso de estase estrutural que com um sentido do processo evolutivo pelo qual várias ideias se uniram e se aglutinaram para produzir o Nobre Selvagem do século XVIII. Por exemplo. SANTO AGOSTINHO. do T. também as ideias de “loucura” e de “heresia”. A Cidade de Deus 1. Para fornecer o pano de fundo necessário. ligada mais pro. portanto. 170 TRÓPICOS DO DISCURSO AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM ARQUEOLOGIA DE UMA IDEIA Mas as coisas que não são significativas por si próprias se combinam em benefício das coisas significativas. O que ofereço aqui é pouca coisa mais que eqüivaleriam para o historiador as notas tomadas por um arqueólogo de campo.) .

Isto poderia cha. trad. selvageria. Do mesmo modo. classes e partidos políticos. Os termos civilização e humanidade poderiam ser caracterizados de modo semelhante. B. no herético. distingue os assuntos na sua história que são significativos por si mesmos daqueles que não têm qualquer significação. podemos ao menos identificar a loucura quando a vemos. . no passado. noções como “democracia”. Do mesmo modo que. quando se afirma a necessidade de autodefinição positiva mas não aparece qualquer critério irretor. 157-191. no insano e no maldito a fim de delinear a área da virtude ocupada pelo puro. 11:19). no pensamento e na literatura das civilizações antigas mais avançadas. salvo talvez as estipulações a priori. 1934). in IVÍvrfa. Em épocas de tensão sócio-cultural. que apenas diferem deles próprios. mas certamente não sou assim”. sempre podemos encontrar um exemplo do que ela não é. Santo Agostinho julgou necessário insistir nos fenômenos do pecado a fim de revelar as ações numênicas da graça. é sempre possível dizer alguma coisa como esta: “Talvez eu não conheça o conteúdo exato da minha própria humanidade. Philosophy and the Historical Understanding (London. Sucede o mesmo com a função cultural geral dos conceitos que surgem da necessidade que têm os homens de dignificar o seu modo específico de existência comparando-o com os de outros homens. Assim. É uma técnica particularmente útil para os grupos nos quais é mais fácil reconhecer as insatisfações que justificar os seus projetos. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 171 heresia a ortodoxia (ou divisão a unidade) como a condição não-desejáveí à desejável da comunidade cristã. heresia etc. Santo Agostinho achava que uma forma de estabelecer o “sentido” de sua própria vida era negar sentido a qualquer coisa radicalmente diferente dela. E Santo Agostinho. na passagem de A Cidade de Deus que serve de epígrafe a este ensaio. 1964). 84 W. salvo como antítipo ou exemplo negativo. e não é desconhecida entre eruditos e intelectuais que procuram estabelecer as suas reivindicações do status de elite contra o vulgus mobile. quando os homens não tinham certeza da qualidade exata do seu senso de humanidade. mas existem apenas como contra-exemplos ilustrativos da obra da graça no meio do pecado83. ele escreve: “É necessário que haja heresias entre vós a fim de que possam manifestar-se os de provada virtude em vosso meio” (I Cor. Apresenta-se na forma de um tipo de ação reflexa nos conflitos entre nações. Para o filósofo W. Gallie. loucura. Tal como os puritanos que lhe sucederam. 2:108. Diz respeito à carreira histórica de conceitos como estado selvagem. E o mesmo se pode dizer das suas antíteses conceituais estado selvagem e animalidade. “arte” e o “modo de vida cristão” são “conceitos essencialmente contestados”.mar-se a técnica de autodefinição aparente por negação. Gallie. no pensamento e na literatura ocidentais. e simplesmente apontar para algo na paisagem que seja manifestamente diferente de si próprio..quível de auto- identificação. e certamente é praticada de modo muito mais geral na polêmica cultural do que qualquer outra forma de definição. Quando. também na sua “história profética” da humanidade ele foi compelido a se concentrar no pecaminoso. recorriam ao conceito de estado selvagem para designar uma área de subumanidade que se caracterizava por tudo o que esperavam que não fossem. como quando os elementos descontentes da nossa própria sociedade usam o termo pig [porco] para assinalar uma atitude específica com respeito aos símbolos de autoridade convencional. pp. Marcus Dods (Edintmrgh. pelo são e pelo eleito. Se não temos certeza do que é a sanidade. estes conceitos aparecem de um modo culturalmente significativo. porque a sua definição implica não apenas a clareza mas também a auto-estima dos grupos que os utilizam em polêmicas culturais84. reais ou imaginários. Se não sabemos o que é a “civilização”. pelo ortodoxo. Prestam-se à definição mais por estipulação que por observação empírica e por indução. The City of God. mas de tal maneira que faz a condição não-desejável ser proveitosa às necessidades da desejável. B. funcionam como signos que indicam supostas essências encarnadas em grupos 83 Augustine. nas suas Confissões. Há outro ponto que cabe registrar aqui antes de prosseguirmos.

a vitalidade de qualquer cultura depende do seu poder de convencer a maioria dos seus partidários de que é a única maneira possível de satisfazer- lhes as necessidades e realizar-lhes as aspirações. Pois a dissolução. para a categoria do fictício. a noção de Homem Selva- gem esteve associada à ideia de região selvagem . depois Deus e por último o próprio homem foram submetidos ao escrutínio desmitologizador da ciência. cujos referentes se alteram e se modificam em resposta a padrões mutáveis do comportamento humano que eles pretensamente sustêm. Não são tratados como designadores provisórios .isto é. Isto é particularmente verdadeiro com relação às formas de insanidade que a ciência médica é incapaz de analisar adequadamente. O desmascaramento de mitos como o do Homem Selvagem nem sempre foram seguidos do banimento dos seus conceitos constituintes. a floresta. no dizer de Hegel. The Politics of Experience (New York.o deserto. Primeiro a natureza. como mostrou Michel Foucault no seu estudo do conceito de loucura durante a Idade da Razão. ou pelo menos se referem a elas. a ideia é também utilizada para privar dos seus direitos civis e humanos. aquelas pessoas que presumidamente sofrem dessa doença86. o modo como a sociedade trata aqueles denominados insanos e o lugar e a natureza da sua reclusão e tratamento variam de acordo com as formas mais gerais de práxis social na esfera pública. 5. foram identificados como manifestações de neurose cultural e não raro relegados ao status de meros preconceitos. de um conteúdo político durante os tempos de integração política intensa e de um conteúdo econômico durante épocas de tensão ou expansão econômicas85. antes. hipóteses destinadas a comandar a investigação ulterior em áreas específicas da experiência humana . ainda assim. serviram originariamente de estágios físicos em que a imaginação “civilizada” poderia projetar as suas fantasias e ansiedades. então. “selvageria” e “barbárie” tem sido decorrência da extensão do conhecimento àquelas partes do mundo que. por exemplo. na realidade o conceito de esquizofrenia é utilizado de um modo político. nos tribunais de justiça. Em parte. um após outro. embora passe por termo médico. com designadores conceituais que afirmem seus próprios valores e normas planejados existencialmente. trad. da ignorância que levou os primeiros homens a situar os seus homens selvagens em épocas e lugares específicos não atinge necessariamente os níveis de ansiedade psíquica em que essas imagens têm a sua origem. Foucault mostrou que. Dos tempos bíblicos aos dias de hoje. o termo insanidade impregnou-se de um conteúdo religioso durante os períodos de devoção religiosa. E. Laing afirmou que. tornam-se “uma forma de vida obsoleta”. D.nem como ficções de utilidade heurística limitada para gerar possíveis maneiras de conceber o mundo humano. o que é mais importante. Tudo isto sinaliza o fato de que as sociedades sentem a necessidade de preencher áreas da consciência ainda não ocupadas pelo conhecimento científico. Laing. D. embora relativamente conhecidas (mas não realmente conhecidas). Madness und Civilization: A Ilislory of Insanily in lhe Age of Reason. São. 86 R. Assim. cujas consequência s foram por vezes tão destrutivas quanto benéfi- cas. Uma dada cultura só é vigorosa na medida do seu poder de persuadir o seu membro menos dedicado de que as suas ficções são verdades. . a despeito das ambiguidades da ciência médica em torno da natureza e causas da esquizofrenia. 172 TRÓPICOS DO DISCURSO humanos específicos. A consequência foi que aqueles conceitos que numa época anterior tinham a função de componentes de mitos culturais de sustentação e de partes do jogo de identificação civilizacional por definição negativa. cap. complexos de símbolos. Acode-nos à mente o caso da esquizofrenia em nossa época. mas antes da sua interiorização. 1967). Nenhuma dotação cultural é totalmente adequada à solução de todos os problemas com que ela poderia deparar. a desmitologização gradativa de conceitos como “estado selvagem”. passaram. graças ao conhecimento científico. 1965). Richard Howard (New York. R. qualquer que seja a definição especificamente médica de insanidade. Quando os mitos são revelados como as ficções que são. a selva e as 85 Michel Foucault.

The Savage Mind (Chicago. 88 Paul Tillich. de um exemplo de um modo do pensamento em que foi eliminada a distinção entre o mundo físico e o mental e em que ficções (como o estado selvagem. como Lévi-Strauss. 1966). clama por sua libertação dentro de todos nós e só será negado ao preço da própria vida. que seria um ego que ocupa uma fortaleza assediada por um duplo inimigo. A.cas”88. 5 e 6.pacializada. Jung e de muitos pós-freudianos. a distinção 87 Tenho em mente aqui especificamente o famoso mapa da psique traçado por Freud em The Ego und thc Id. nem como símbolos que representam uma relação entre duas áreas da experiência. inclusive Melanie Klein e seu discípulo americano Norman O. De tal sorte que. o Homem Selvagem. 1963). C. quero explicar. insiste em dizer que encerram. The Protesmnt Era. o que entendo pelo processo de desmistificação original do mito do Homem Selvagem. 4. de remitificação. . 2. trad. cap. Estender-me-ei sobre este processo de remitificação no final deste ensaio. seja qual for a concepção que tenhamos do mundo. o superego e o id. Brown. Ver também Claude Lévi-Strauss. Brown. As teorias de C. mas como signos que designam a exisiência de coisas ou entidades cujos atributos encerram justamente aquelas qualidades que a imaginação. Chamo essa interiorização da região selvagem e de seu ocupante tradicional. e Norman O. 9. a de uma projeção dos desejos e ansiedades reprimidos. porque ela tem exatamente a mesma função que o mito do Homem Selvagem teve em culturas antigas. Freud and the Pasl- Freudians (London. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 173 montanhas aquelas partes do mundo físico que ainda não haviam sido domesticadas ou demarcadas para domesticação de algum modo significativo. é talvez o exemplo pseudocientífico mais conhecido deste processo de remitificação87. ver J. em vez do pensamento relativamente reconfortante de que o Homem Selvagem pode existir fora de lá e pode ser contido por algum tipo de ação física. Brown. ou provisória. 1948). Sem a secularização ou humanização da própria cultura. não como instrumentos conceituais para designar uma área de investigação ou para construir um catálogo das possibilidades humanas. admite-se hoje (salvo aqueles ideólogos contemporâneos de ambos os lados da Cortina de Ferro que julgam poder salvar a “civilização” se apenas conseguirem destruir bastantes seres humanos “selvagens”) que o Homem Selvagem está oculto no interior de cada homem. seja lá por que razão. Joan Riviere (London. Para uma exposição da revisão deste mapa. a selvageria) são tratadas. a ideia do Homem Selvagem configura uma transição do mito para a ficção e desta para o mito novamente. A caracterização fictícia. na história do pensamento ocidental. a barbárie. em prelúdio à minha caracterização da sua história na Idade Média. A proporção que uma após outra dessas regiões selvagens foi sendo dominada. os quais representam as pressões dos mecanismos dotados de forças motrizes basicamente agressivas. a ideia do Homem Selvagem foi progressivamente deses. e sua utilização como tal. O que estou sugerindo é que. representam o mesmo processo. James Lulher Adams (Chicago. 1950). caps. sem um profundo sentimento de que. de diferenças radicais entre o que é apenas uma humanidade superficialmente diversa parece ser estranha ao que Paul Tillich chamou convenientemente de civilizações “teonômi. irad. ou seja. lamentam o triunfo da tecnologia sobre o homem civilizado e sonham com a libertação da criança perdida ou do Nobre Selvagem dentro de nós. O modelo freudiano da psique. Mas não é o único. G. cap. assumindo a forma moderna do mito um aspecto pseudocientífico nas várias teorias da psique que -atualmente solicitam à nossa atenção. 2 e 3. E a consequência foi que a moderna antropologia cultural conceituou a ideia de estado selvagem como o conteúdo reprimido tanto da humanidade civilizada quanto da primitiva. Love's Bndy (New York. e não algum poder ou Divindade transcendental que confere sentido em lugar de nós. Esta desespacialização acompanhou-se de um processo compensatório de interiorização psíquica. Por ora. sua tradução numa ficção nos tem- pos modernos. cap. tal como o fazem outros críticos contemporâneos da cultura que. caps. 1966). é a mente humana que atua no processo de dotação de sentido.

E na teologia cristã do Medievo. o monoteísmo ético e a doutrina da criação única tendiam a forçar o pensamento a considerar a reunificação potencial de uma humanidade que se tornara dilacerada e fragmentada no tempo em consequência de ações humanas e como parte do propósito da Divindade em primeiro criar a totalidade da humanidade e depois permitir que ela se desintegrasse em facções conflitantes. Mesmo na lei romana. como no mundo do pensamento da maioria das tribos primitivas. 1936). a não ser pela suposição de que o diferente era. assim como os gregos tendiam a diversificar os seus deuses com base em atributos. ela é concebida como propriedade de um único grupo. Mass. se harmonizava com a noção de um movimento horizontal potencial no tempo rumo a uma unificação final no fim dos tempos. funções e poderes exteriores. . quando os que se salvassem voltariam à comunhão direta com Deus a que Adão havia renunciado na Queda89. nas suas relações essenciais.de classe ou de gênero . em virtude de sua concepção do poder e justiça de Deus. No pensamento teonômico do antigo Egito. que abarcasse não só o próprio Criador como a totalidade da sua criação. a ideia de uma divisão histórica da humanidade prevalece como força cultural. 89 Arlhur O. 9. porém. Já que os homens pareciam diferentes entre si. Os escritores e pensadores gregos “humanistas”. sem dúvida em resposta às exigências do império. uma humanidade que no final será integrada mediante a hebraização do mundo.tinha de ser tomada como prova da corrupção da espécie. os cristãos medievais vivenciavam uma divisão da humanidade e. inferior ao que passava por normal. acharam fácil dividir o mundo nos seus próprios equivalentes dos “salvos” e “condenados"’ cristãos. embora sua concepção do poder do amor divino os impelisse constantemente à contemplação de uma época em que a divisão histórica desapareceria no fogo cegan. uma variação .de molde a sugerir uma distinção entre um homem total e um parcial. estava ausente naqueles setores das civilizações pagas clássicas em que se consumara em pensamento um secularismo genuíno e o concomitante pluralismo humanista. como se poderia explicar as diferenças radicais entre os homens. se havia um Deus todo-poderoso e justo que ordenava a totalidade. num modo teonômico. Lovejoy.te da unificação final do homem consigo mesmo. mesmo que sejam obrigados a imaginar. em virtude das suas inclinações neoplatônicas. especialmente na sua variedade agostiniana predominante. na verdade. num universo que se julgava ordenado. cap. preferia incluir o eleito na comunidade a excluí-lo dela. sua divisão em formas superiores e inferiores de humanidade tinha de ser admitida. e de uma humanidade em que a condição de diferença refletia mais uma variação qualitativa que uma variação meramente quantitativa. De modo análogo. pois. vale dizer. The Gteu! Chain of Being: A Study of the History of an Idea (Cambridge.. Na medida em que é imaginável uma humanidade unificada. as características do grupo no qual ocorria a percepção da diferença? Isto não quer dizer que o conceito de humanidade dividida. a não ser por algum princípio que postulasse uma aproximação mais perfeita e uma menos perfeita da forma ideal de humanidade que na mente de Deus representava o paradigma da espécie? De maneira similar. como se poderia explicar as diferenças entre os homens. tanto quanto os seus congêneres modernos. por exemplo. 174 TRÓPICOS DO DISCURSO entre ficção e mito seria literalmente impensável. Mesmo aqui. tendiam também à concepção de uma humanidade interiormente diversificada. Os hebreus vi venciam uma divisão da humanidade em judeus e gentios. em certo sentido. mais por normas morais que por forças causais físicas imanentes. Mas. que principia por uma rígida distinção entre romano e não-romano . a diferença percebida entre os “nós” e o “eles” é traduzida numa diferença entre uma humanidade acabada e uma humanidade imperfeita. a ideia de uma unificação vertical da totalidade da criação numa cadeia abrangente do ser. com o seu semelhante e com Deus. Entre os antigos hebreus. do próprio cosmo em hierarquias da graça.e mesmo na própria comunidade romana entre patrícios e plebeus . que se traduzia numa divisão entre os salvos e os condenados. Pois. a tendência geral. evidentemente. secularizados.

por fim. E mais adiante falarei da ideia do “bárbaro” como um conceito em que essas duas linhagens convergem numa imagem única em tempos de tensão cultural e declínio. respectivamente 90. conquanto radicalmente dividida de fato. é vivenciada como se fosse unificável em princípio. E nestas bases que radicam os diferentes arquétipos do estado selvagem com que deparamos na cultura ocidental medieval. The Chrysanthemum and the Sword: Patterns of Japanese Culture (Boston. era moral e metafísica. 90 Ruth Benedict. entre o que é estado ontológico e o que é estágio histórico do desenvolvimento humano.. Antecipando o meu julgamento final sobre o assunto. no folclore e na arte medievais. para os segundos. Estes representam os aspectos gerais (e. descobriu na fábula. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 175 Há. . predominantes) do mito do Homem Selvagem antes de sua identificação como mito e de sua tradução em ficção no início da Era Moderna. Por conseguinte. de um lado. a condição de diferença era física e cultural. Para os primeiros. 1946). A consequência é que a imagem do Homem Selvagem transmitida pela Idade Média ao começo da Era Moderna tende a transformá-lo na encarnação do “desejo”. vivencia-se a humanidade como se fosse diversificada de fato. na segunda. entre o que é condição moral e o que é categoria analítica da antropologia cultural e. entretanto. seja-me permitido dizer que as duas tradições refletem em geral as preocupações emocionais com padrões culturais que podem ser convenientemente chamados . de outro. Por ora. E a dissolução destas bases através do moderno estudo científico e humanista que nos permite distinguir entre o estado selvagem que é mito e o que é ficção. estou apenas tentando delinear as razões que inspiraram as diferentes concepções de estado selva. uma diferença significativa entre a forma pela qual os pensadores gregos e romanos imaginam a humanidade total e a forma como a imaginam os pensadores hebreus e cristãos. suponho. as ideias de diferença nas duas tradições culturais definem os dois arquétipos que convergem na civilização ocidental medieval para formar o mito do Homem Selvagem. pois. como na época heíênica tardia e no final da época romana.segundo Ruth Benedict — de “orientados pela vergonha” e “orientados pela culpa”. Certamente.. assim como há uma linhagem de “culpa” no paganismo clássico. embora unificável em princípio. Para dizê-lo em termos mais simples: na primeira. há uma linhagem de “vergonha” na cultura judaico-cristã. no seu excelente livro WildMen in the Middle Ages:y. e da “ansiedade”. Isto significa que diferenças percebidas entre homens apresentavam menos significado para gregos e romanos que para hebreus e cristãos. reconhecer na noção de Homem Selvagem um instrumento de projeção cultural que é tão anômalo na concepção quanto vicioso na aplicação.gem que Richard Bernheimer.

cada qual perfeito na sua espécie. O ponto importante é que.mente a reduzir os atributos exteriores ao status de manifestações de uma condição espiritual. contudo. a fim de elucidar as atitudes morais diferentes com que os homens assim designados eram considerados nas diferentes culturas. no grego e no cristão antigo. de outro. a sintaxe descritiva utilizada para representar estados humanos em geral tendia a subordinar o que reconheceríamos como fatores interiores a fatores exteriores no pensamento grego. R. no centro moral do mundo. 2 e 5. concebidos como o que chamaríamos de loucos. são totalmente semelhantes nas duas culturas. No estado edênico. O pensamento hebraico tende consistente. Johannes Pedersen. R. As implicações literárias e antropológicas destas diferenças fundamentais e a dinâmica da sua fusão no pensamento e na literatura ocidental mais tardios são plenamente exploradas no livro Mimesis. Quero. As bases histórico-culturais destas diferentes tendências são analisadas em duas obras com que estou particularmente em dívida: The Greeks and the Irrational de E. The Greekx and the Irrational (Berkeley. No mito hebraico da criação. Dodds. Ademais. A natureza problemática de uma humanidade selvagem surge no pensamento hebraico em grande parte em função do conceito hebraico de um Deus único. Esta diferença talvez tenha tido sua origem numa tendência do pensamento hebraico a dissolver os estados físicos em estados morais. cumpre notar que a diferença entre a concepção hebraica e a grega do estado selvagem reflete tendências dessemelhantes nos pressupostos antropológicos que servem de base às suas respectivas tradições de comentário social. onisciente e perfeitamente justa cria o mundo natural e povoa-o com as várias espécies dos reinos físicos. no grego e no cristão antigo. de Erich Auerbach. Isso explica em parte os diferentes papéis desempenhados pelas imagens do Homem Selvagem derivadas da Bíblia. 92 E. gregos e cristãos enfrentaram a imagem do estado selvagem podemos lograr uma impressão do modo como a ideia de estado selvagem era utilizada na polêmica cultural no fim da Idade Média e chegar a alguma compreensão do modo como o mito do selvagem se traduziu numa ficção no começo do período moderno. merecidamente famoso91. 1951). A teoria antropológica grega tende a objetivar. Estou bem consciente. Dodds e o magistral Israel de Johannes Pedersen. respectivamente. 1954). trad. não é o meu intuito tentar caracterizar as complexas diferenças entre os vários tipos de sub-homens que existiriam em cada uma das tradições abordadas. a grega e a cristã antiga presumiam existir e que contrastam entre si como artefatos culturais distintos. Mimesis: The Representation of Reality in Western Literatura. identificar as bases ontológicas que fundamentam as designações de homens selvagens no pensamento hebraico. Estes exemplos não esgotam nem mesmo os tipos de estado selvagem concebidos pela imaginação pré-moderna. Israel: Its Life and Ctdture (London. e do paganismo clássico. principalmente o brilhante capitulo sobre a alma no antigo pensamento hebraico92. ao passo que se dava o inverso no pensamento hebraico. 1:182-2 f 2. insanos ou depravados. Para começar. vegetal e animal . . Voltarei agora a alguns exemplos do conceito de estado selvagem no modo como figuram no pensamento hebraico. Willard R. sobretudo no seu primeiro capítulo. Meu objetivo é antes ressaltar os componentes do estado selvagem que a imaginação hebraica. caps. e em seguida Ele coloca o homem. conquanto a distinção entre um estado espiritual ou psicológico interior e uma condição exterior ou física fosse uma distinção muito difícil de estabelecer tanto no pensamento grego quanto no hebraico. em contraste com a tendência grega a fazer o inverso. Somente distinguindo entre as posturas morais com que judeus. e de que as descrições dos atributos mentais dos homens selvagens. 1953). o universo é concebido 91 Erich Auerbach. o que chamaríamos estados interio- res. espirituais ou psicológicos. por exemplo. uma Divindade onipotente. de que as imagens do Homem Selvagem que o pensamento hebraico considera encarnações do estado de maldição têm a sua contraparte nas projeções do medo de possessão demoníaca patentes no pensamento grego. ou materializar. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 176 2. de um lado. na plena perfeição da sua espécie. Trask (Princeton. a fim de governá-lo.

é indiscriminadamente . . um lugar e uma coisa em todos aqueles exemplos na Bíblia em que aparecem palavras que poderiam ser traduzidas 93 Outra palavra. a causa de uma espécie de mácula do tipo que é transmitido de Adão a toda a humanidade e que impede que todos os homens vivam em conformidade com a lei de Deus sem a ajuda propiciada por uma graça especial. A Queda é simplesmente o acontecimento que explica a condição humana apesar de o homem ter sido criado por um Deus perfeitamente justo e todo-poderoso. mesmo na sua condição natural. Em resumo. Confusão e pecado se introduzem neste estado mediante o pecado de Adão. florescer diante de Deus. é apenas não-humana. Permitam-me ser mais específico. Estes estados e lugares de corrupção ou violação se distinguem do “vazio” (bôhuw)93 que existe antes de Deus criar o céu e a terra e que é o único estado moralmente neutro mencionado na Bíblia. A natureza animal não é selvagem em si mesma. Por exemplo. Evidentemente. receber a bênção (Berâkâh) e alcançar um tipo de paz e segurança na terra não muito diferente das usufruídas por Adão e Eva no Éden. o resultado é uma queda num estado de degenerescên. poderia. o “homem selvagem”.um lugar. para caracterizar uma cidade devastada. Ao lado do homem natural e do superhomem. A natureza assume o aspecto de um inimigo caótico e violento contra o qual o homem tem de lutar para recuperar sua humanidade própria ou sua natureza divina. é não só o quê de um pecado. é menos significativa do que a distinção entre as coisas que desfrutam a bênção e as que não a desfrutam. como quando o profeta fala de Nínive: “Ela está abandonada. ao mesmo tempo. A distinção entre homem e animal. ela não cria uma imperfeição ontológica no seio da humanidade. mas também o onde. embora alguns fossem escolhidos e outros não. o homem de quem não dimana bênção alguma. mas o lugar da maldição (o ermo. posto que fundamental para o pensamento hebraico. uma causa e. Assim. um estado peculiarmente horrível em que a possibilidade de redenção é quase completamente obstada.os descendentes de Adão através de Abraão . os gentios servem realmente de paradigma da humanidade “natural”. O estado selvagem é uma condição peculiarmente moral. antes.ou. uma consequência de estar sob a maldição divina. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 177 perfeitamente ordenado e harmonioso em suas partes. Quando Deus retira a bênção de um homem. há uma terceira alternativa. ou seja. uma relação. um tipo de super-humanidade potencial. a manifestação de uma relação específica com Deus. Da mesma forma. E o povo hebraico . o Antigo Testamento não diz que todos os homens se tornaram “selvagens” pela queda de Adão. o povo da aliança. o lugar dos mortos (sheôl) é descrito em Jó 17:14 como um lugar de corrupção e decadência. Com efeito. parece bastante difícil distinguir entre uma condição moral. Todos os outros estados ou são de bem-aventurança ou de maldição. serve de paradigma de uma humanidade moralmente redimivel. aparece em 2 Sam. de um animal. contudo. nem mesmo todos os gentios. mesmo os escolhidos ainda tinham de trabalhar arduamente para ganhar a sua recompensa. a queda de Adão não desempenha no pensamento hebraico o mesmo papel que desempenha no cristão. o vazio. vazia e desolada”. assim como os hebreus. Mas é também . os índices doutrinais da Bíblia nos dizem que a palavra hebraica para “deserto” (shemâmâh). o mito da Queda tinha uma função essencialmente etiológica: explicava como os homens haviam chegado à sua condição geral no mundo e por que. Para os antigos hebreus. como mais tarde veio a ser para o apóstolo Paulo. para caracterizar a condição da mulher violentada Tamar. usada no sentido de “desolação”.cia inferior ao próprio estado de “natureza”. 13:20. A Queda não era. de um povo ou da terra em geral. a terra inculta) é também descrito como uma região selvagem. aderindo aos termos da aliança. é utilizada em justaposição a waste (desolado) (bâlug) em Nahum 2:10. que é traduzida em inglês por void (vazio) (nfhüwgâh). porque Deus retirou dele a bên- ção.considerava-se a si próprio uma linhagem da humanidade que. e o homem é expulso do Éden e enviado a um mundo que de repente se afigura hostil e cruel.

No seu sofrimento.aventurados prosperam. é o lugar onde o poder destruidor de Deus se manifesta de maneira mais dramática. uma progênie conhecida por sua conspurcação. ou ali se recolheu para não colaborar com um Israel pervertido. no número de filhos. os gigantes e os nômades - homens como Caim. na mitologia e na lenda gregas. 2:453-96. e dias de aflição vêm ao meu encontro. e sua terribilidade. A relação entre a condição de bem-aventurança e a de selvageria é.como “estado selvagem” ou “região selvagem” 94. como Amós. como Jeremias. caracterizando a sua aflição. na congregação levanto-me a pedir socorro. . semeadores de confusão. Jó degradou-se à condição que antes (Jó 30:3) atribuíra aos seus inimigos (“eles eram solitários. e meus ossos são consumidos pela febre. e sua bem-aventurança se reflete na sua riqueza e na sua saúde.no próprio coração de um ser humano. E. poderiam ter ocupado um lugar de honra ao lado de Prometeu. um lugar estéril do qual poucos retornam. nem por isso seu castigo é menos severo. ele se refere à dissolução que Deus opera em sua “substância” e diz (em Jó 30:26-31): Esperava a felicidade e veio a desgraça. diríamos nós . de Sodoma e Gomorra. os verdadeiros tipos de “heróis” que. 94 Pedersen. sobretudo como caçadores. Minha citara só dá acordes lúgubres. Minhas entranhas se abrasatn sem nenhum descanso. O deserto é o caos que jaz no âmago das trevas. ou ninguém. malditos e geradores de raças que vivem na ignorância irre. As condições que designaríamos pelos termos estado selvagem. o deserto fica no lado oposto do ser. Esta fusão 178 de uma condição física com uma DO TRÓPICOS condição DISCURSO moral é uma das fontes de poder dos Profetas. Mas o campo é uma coisa. os que desafiaram a Deus.compul si vãmente. São descritos como homens selvagens que habitam uma terra selvagem. São homens que desceram abaixo da própria condição de animalidade. Os malditos secam e erram a esmo pela terra — terríveis. e minha flauta sons queixosos. sob a forma de insanidade. Sua descendência são os filhos de Babel. sem sol. pecado ou mal . Israel. na sua longevidade e na sua capacidade de fazer as coisas crescerem. feiúra e violência são prova da sua maldição. o profeta é retratado como alguém que veio do campo. Certamente. Tornei-me irmão dos chacais e companheiro dos avestruzes. feios. deserto. estes homens rebeldes contra o Senhor continuam . o rosto de todos os homens se volta contra eles. Ulisses e Edipo. o deserto é outra bem diversa. um vazio ao qual a alma é enviada na sua degradação. Os homens selvagens arquetípicos do Antigo Testamento são os grandes rebeldes contra o Senhor. insanidade ou selvageria eram todas concebidas pelos antigos hebreus como aspectos da mesma condição maligna. a retirada do profeta para o campo é um tema comum no Antigo Testamento. Vez por outra.a cometer o pecado de Adão. pois. Como os anjos que se rebelaram contra o Senhor e foram arremessados do céu. Cam e Ismael. mesmo que às vezes pequem por ignorância. e em geral (Caim é uma notável exceção) podem ser assassinados impunemente.qualquer condição que reflita o afastamento do homem de Deus. O campo ainda é o lugar da bem- aventurança. fugiam para o deserto desolado e devastado”).missível ou na violação completa das leis estabelecidas por Deus para o governo do cosmo. Minha pele se enegrece e cai. violentos. os antiprofetas. É por isso que o deserto pode aparecer. Caminho no luto. perfeitamente simétrica: os bem. esperava a luz e vieram as trevas. Ela repousa no âmago do terror transmitido por Jó no seu lamento quando.

AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 178

Ora, a forma que o estado selvagem desta raça degradada assume é descrita em função
da corrupção da espécie. Uma vez que na Criação Deus formou o mundo e colocou nele as
várias espécies, cada uma perfeita no seu tipo, a ordem natural ideal seria, pois, caracterizada
por uma perfeita pureza da espécie. Em contrapartida, a desordem natural tem sua forma
extrema na corrupção da espécie, na mistura dos tipos (myn) - na união daquilo que Deus
em sua sabedoria tinha decretado, no princípio, que deveria permanecer separado. A mistura
das espécies é, portanto, muito pior do que qualquer luta, mesmo mortal, entre dois ou mais
homens. A luta é natural; a mistura é inatural e destrói uma condição de isolamento da
espécie, que é tanto uma necessidade moral quanto natural. Misturar as espécies é tabu.
Desse modo, os homens que haviam copulado com animais deviam ser exilados da comu-
nidade, exatamente como os animais de diferentes espécies que se haviam associado
sexualmente deviam ser abatidos (Lev. 18:23-30). O horror da conspurcação da espécie é
levado a tais extremos no Código Deuteronômico que lá se proíbe não apenas jungir animais
diferentes ao mesmo arado (Deut. 22:10), mas até semear tipos diversos de semente no
mesmo campo (Lev. 19:19)95.
Um exemplo de uma humanidade que se tornou selvagem pela mistura das espécies
é dado no livro do Gênesis, na passagem famosa, mas ambígua, que registra os efeitos do
acasalamento dos “filhos de Deus” com as “filhas dos homens” (Gên. 6). Este exemplo da
mistura das espécies gerou uma raça de homens dotados de um atributo de selvagem quase
universalmente reconhecido: o gigantismo. A natureza desses gigantes é ainda menos clara
do que a sua linhagem. Os filólogos bíblicos associam a palavra que designa gigante (nephiyl
ou nephíl), que conota as ideias de provocador e tirano, com a raiz do verbo nâphal, que
significa cair, ser arremessado, mas que tem associações secundárias com as noções de
morrer, divisão, imperfeição, ser julgado, perecer, corromper e ser assassinado. É sugerido
que o aparecimento desses gigantes constitui a causa imediata da decisão de Deus de destruir
o mundo no Dilúvio, com exceção, obviamente, de Noé, da sua família e de um casal de
cada espécie animal.
Depois do Dilúvio, porém, o mal e (portanto) o estado selvagem retornaram ao
mundo, sobretudo nos descendentes do filho caçula de Noé, Cam, que foi amaldiçoado por
revelar a nudez do pai. Os genealogistas bíblicos mais recentes determinaram que de Cam
descendeu aquela raça de “homens selvagens” que aliava a rebeldia de Caim à estatura dos
primeiros gigantes. E provável que também tenham sido negros, já que, através de fusão
etimológica, os hebreus fundiam as raízes de palavra utilizadas para indicar a cor negra, a
terra do Egito (isto é, de servidão), a terra de Canaã (isto é, de idolatria paga), a condição
da maldição (e, de maneira irônica, aparentemente a noção de fertilidade), com o próprio
nome de Cam e as suas varia

95 Pedersen, ísrucl, pp. 485-486.

182 TRÓPICOS DO DISCURSO

ções adjetivas. Posteriormente, os comentadores cristãos da Bíblia insistiram em dizer
que Nemrod, o filho de Cush, deve ter descendido de Cam, e isso teria significado que ele
não só era negro, mas também partilhava os atributos dos primeiros gigantes: rudeza e
rebeldia.
Em A Cidade de Deus, por exemplo, Santo Agostinho insiste, na passagem que
descreve Nemrod como “um poderoso caçador diante do Senhor”, em ler “um poderoso
caçador contra o Senhor ”96. E chega a identificar Nemrod com o fundador da cidade de
Babel, cujo povo tentou erguer uma torre aos céus e acarretou para a humanidade a confusão
de línguas que desde então a afligiu. Na associação de Nemrod a Babel (ou Babilônia) e na
associação posterior destas ao relato de como se formaram as diferentes raças e se
constituíram as diferentes famílias de língua, quase completamos o nosso rol dos principais
componentes do mito do Homem Selvagem quando passa da Bíblia para o pensamento
medieval. O estado de maldição, ou selvagem, é identificado com a vida errante do caçador
(em comparação com a vida estável do pastor e do agricultor), com o deserto (que é o hábitat
do Homem Selvagem), com a confusão linguística (que é o atributo principal tanto do
Homem Selvagem quanto do bárbaro), com o pecado e a aberração física tanto na cor (a
preta) quanto no tamanho. Como diz Santo Agostinho: “O que se entende pelo termo
‘caçador’ senão enganador, opressor e destruidor dos animais da terra?”97. Quanto à
incapacidade de falar do Homem Selvagem, que faz parte do mito do Homem Selvagem
onde quer que o encontremos em toda a Idade Média, diz Santo Agostinho: “Como a língua
é o instrumento da dominação, nela o orgulho foi punido”98. A equação está quase completa:
num mundo ordenado moralmente, ser selvagem é ser incoerente ou mudo; falaz, opressivo
e destrutivo; pecador e amaldiçoado; e, por fim, monstro, alguém cujos atributos físicos são
por si próprios uma prova da sua natureza maligna.
Tudo isto sugere os modos pelos quais a concepção de estado selvagem encontrada
no Antigo Testamento se transforma, na esteira da progressiva espiritualização da
concepção hebraica de Deus através da obra dos Profetas e através da simultânea
materialização da natureza em consequência da união do pensamento grego com o
pensamento judaico em épocas bíblicas tardias. No antigo pensamento hebraico, quando um
homem ou uma mulher ou um lugar ou um grupo perdiam a bênção e caíam numa condição
de maldição, essa condição espiritual se manifestava na forma e atributos do estado
selvagem. A essa altura, a relação da comunidade com a coisa amaldiçoada era inambígua:
ela devia ser exilada, isolada e evitada a todo custo, pelo menos até a época em que fosse
retirada a maldição e restaurado o estado de beatitude99. Mas somente Deus poderia retirar
a maldição que lançara sobre uma coisa. E já que, pelo menos na parte mais arcaica do
Antigo Testamento, no pensamento sobre Ele se ressaltava mais a justiça de Deus que a sua
misericórdia, a tendência era considerar o estado de maldição (e, portanto, o estado
selvagem ou de desolação) uma condição quase insuperável depois que alguém havia caído
nela.
A doutrina cristã da redenção pela graça, e da graça como um remédio que poderia
ser dispensado através da administração dos Sacramentos pela Igreja, estimulava uma
atitude muito mais caridosa por parte dos fiéis para com o pecador que decaíra do estado de
graça num estado de selvageria do que o permitia a concepção originariamente puritana da
Divindade no Antigo Testamento. Pelo menos, era essa a teoria. Na realidade, o
universalismo cristão não era menos notavelmente egocêntrico, num sentido confessional,
do que o seu antigo protótipo hebraico. Universalista em princípio, na prática a Igreja reunia
apenas aqueles que aceitavam a qualidade de membros segundo os seus próprios termos.

96 Augustine, City of God, 2:112.
97 Idem, pp. 112-113.
! 7. Idem, p. 113.
99 Pedersen, Israel, 2:455.

AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 183

Isso queria dizer que, embora em princípio qualquer um pudesse ser admitido na-Igreja, o
membro potencial da Igreja tinha de estar pronto a despir-se do homem antigo e revestir o
novo. E, conquanto se admitisse que a queda da graça pudesse ser perdoada, o pecador
decaído que buscasse readmissão na comunidade dos fiéis tinha de exibir prova de sua
intenção de aceitar no futuro a autoridade e a disciplina da Igreja e não tentar introduzir na
comunidade doutrinas e práticas estranhas, importadas do estado de pecado em que, no seu
orgulho, havia caído. Tudo isto esteve envolvido nas lutas contra as heresias de Donato, de
um lado, e de Pelágio, de outro, durante os séculos IV e V 100.
Todavia, os pensadores cristãos insistiam em que um homem poderia pecar e não cair
numa condição da qual não havia absolutamente qualquer redenção. Depois da Encarnação,
todos os homens eram em princípio passíveis de salvação, e isto significava que, qualquer
que fosse o estado de de- generação física em que um homem caísse, a alma permanecia
num estado de graça potencial. O pecado, insiste Santo Agostinho, é menos uma condição
positiva do que uma negação de uma bondade original, uma condição de afastamento da
comunhão com Deus, que é, a um só tempo, a causa e a consequência do orgulho101. E pode
ou não vir acompanhado de sinais de degradação física. Já que somente Deus conhece com
exatidão quem pertence e quem não pertence à sua cidade, resta aos fiéis trabalhar para a
inclusão de todos na comunidade da Igreja. Isto significava que mesmo os homens mais
repugnantes - bárbaros, gentios, pagãos e hereges - tinham de ser considerados objetos de
proselitismo cristão, ser vistos como possíveis convertidos e não como inimigos ou fontes
de corrupção, a serem exilados, isolados e destruídos. Em última análise, diz Santo
Agostinho, mesmo os homens mais monstruosos ainda eram homens, e mesmo aquelas raças
de homens selvagens descritas por viajantes antigos e contemporâneos tinham de ser consi-
deradas potencialmente capazes de partilhar da graça que concedia a qualidade de membro
da Cidade de Deus.
Comentando os diferentes tipos de raças monstruosas relatados pelos antigos
viajantes - raças de homens com um olho no meio da testa, pés voltados para trás, de duplo
sexo, homens sem boca, pigmeus, homens sem cabeça com olhos nos ombros, e homens
com aspecto de cão que ladram em vez de falar (todos os quais, incidentalmente, figuram
na iconografia medieval como representações dos homens selvagens) - Santo Agostinho
insiste em que a estes não se deveria negar a posse de uma humanidade essencial. Todos
devem ser concebidos originários do “protoplasta único”, diz ele; e argumenta que “não nos
deve parecer absurdo que, havendo nas raças individuais partos monstruosos, assim também
na raça total haja raças monstruosas”2'. Certamente, ele acredita que tais raças monstruosas
devem ter descendido de Cam e de Jafé, filhos de Noé, o primeiro considerado pelos teó-
logos medievais o Herege arquetípico, e o segundo o Gentio arquetípico, em contraposição
a Sem, que se acreditava ser o Hebreu arquetípico, o ancestral de Abraão e do próprio Cristo.
Sua descendência do Pecador arquetípico — em contraste com a descendência das raças
gentias do Herege arquetípico - explica a incapacidade destas raças monstruosas de falar
(visto que a confusão da linguagem é considerada reflexo da confusão de pensamento) e a
sua devoção a deuses monstruosos. Não obstante isso, insiste Santo Agostinho, elas são
potencialmente passíveis de salvação, tanto quanto qualquer criança cristã que possa ter
nascido com quatro dedos nas mãos em vez de cinco. A diferença entre estes monstros e a
humanidade cristã normal ou a variante (paga) normal é mais de grau que de tipo, é mais de
mera aparência física que de substância moral manifestada na aparência física.
O acréscimo excessivo de conceitos gregos, e especialmente neoplatô- nicos, a ideias
judaicas no cristianismo tendeu a estimular mais a distinção que a fusão entre essências e

100 Ver Charles Norris Cochrane, Chri.uianity anâ Classical Culture; A Study ofThou^ht and Actionfrom Augustus to Augustine
(London, 1957), pp. 206, 209, 452.
101 Augustine, Of True Religion, vi, 21 -xv, 29, em Augustine: Earlier Writings, trad. J. H. S. Burleigh (London, 1953), pp.
235-239.

103 Dante. do começo ao fim dos seus dias. de vontade sem direção. que oferecia a salvação a quem quer que fosse dotado de uma alma humana. porque ela sugeria uma falha do poder de criação de Deus ou um tipo de malevolência para com o homem da parte de Deus. bárbaro. 1948). ou dar a um animal a alma de um homem. gentios e homens selvagens. e de compreender que o seu único propósito na vida era buscar a união com o seu Criador e trabalhar por ela. 2-4. A alma animal. aqueles que “sujeitam a razão à luxúria”. não teriam sido punidos no inferno. faltos de uma alma humana. no segundo círculo do inferno. um homem tão degradado que não poderia ser salvo nem mesmo pela própria graça de Deus. assim como os hebreus distinguiam entre judeus. o homem poderia fazer dos animais o que quisesse: domesticá-los e utilizá-los ou. os escritores antigos tendiam a atribuir selvageria e barbárie a quem quer que nutrisse concepções diferentes das suas próprias. como em muitos escritores antigos. porque possuíam uma alma como essa. in Introducüon to St. em geral. A alma animal dá vida a uma busca incessante. que a doutrina da caridade cristã negava expressamente. . de uma natureza mergulhada na corrupção e na decadência. 102 ‘The Sutnma Theologica”. Era lícito falar de uma natureza degradada. como os monstros pagãos no poema de Dante. do único poder pelo qual se poderia exercer a vida política e alcançar uma verdadeira humanidade. uma perambulação que só cessa com a morte. com a ajuda de Deus e da Igreja. portanto. somos inclinados a usar para indicar o estado selvagem) era alguém que não falava grego. Mas. ela deseja. Não surpreende que as imagens do bárbaro e do Homem Selvagem se combinem entre si em muitos escritores medievais. mas não sabe que deseja. Em A Divina Comédia. também os gregos e os romanos faziam distinção entre homens civilizados. homens dotados de alma animal. diz ele. alguém que balbuciava e que carecia. O estado de selvageria em que a lenda popular insistia em dizer que um homem poderia cair expressava uma profunda ansiedade. Dante coloca a coisa o mais próxima possível dos possuidores de uma alma animal que ele pode imaginar pecadores carnais. Se esse era o destino dos animais. qualquer que fosse a sua condição física. para muitos pensadores gregos. Mas falar de um Homem Selvagem era falar de um homem com a alma de um animal. o estado do qual Cristo viera libertar os escravizados pelo pecado de Adão. E poder-se-ia falar de uma humanidade decaída. Mas isto era contrário à mensagem dos Evangelhos. estabelecidos como guardiães do inferno ou torturadores dos pecadores consignados ao inferno. Pcgis (New York. Se esses pecadores tivessem sido homens selvagens. bárbaros e ho- mens selvagens. canto V. arls. mas. 6. O castigo deles é serem eternamente açoitados por um vento escuro e tempestuoso103. ed. se necessário. E porque possuíam uma alma assim. pp. Thomux Aquinas. destruí-los sem cometer pecado102. O pensamento cristão medieval não permitia a contemplação dessa contingência. menos sobre o meio de salvação do que sobre a possibilidade de alguém poder regressar a uma condição em que pudesse perder a própria oportunidade de salvação. São Tomás de Aquino analisa longamente as diferenças entre a alma animal e a alma humana. 184 TRÓPICOS DO DISCURSO atributos. A suposta mudez do Homem Selvagem nos lembra que. Anlon C. um barbaros (termo cujo derivado. então os homens selvagens. uma vida de luxúria sem satisfação. Era por possuir uma alma humana que o homem era capaz de elevar-se acima do desejo sem objetivo que caracterizava o estado meramente animal. 4S3-486. os animais foram destinados ao serviço do homem e ao seu governo. tinham de ser tratados de maneira semelhante pelos homens normais. “O Inferno”. mas em função da possibilidade de Deus dar a um homem a alma de um animal. Os teólogos medievais analisavam o problema do Homem Selvagem não em função de características físicas que podiam ser manifestações de degradação espiritual.nado pela razão. E. é puro desejo não-discipli. Principalmente em tempos de guerra ou revolução. em A Divina Comédia. ques. Era difícil encarar a noção de Homem Selvagem.

se tribos bárbaras honravam pelo menos a instituição da família. confusos. eram passionais. Wild Men. Este reconhecimento é provavelmente um meio de indicar uma percepção do fato incômodo de que as tribos bárbaras eram capazes de se organizar. E é tam- bém matreiro: rouba as ovelhas do redil. deviam viver segundo algum tipo de lei e. trata-se de uma obra indispensável a quem quer que esteja buscando relacionar o pensamento oficial sobre o tema do selvagem com os seus equivalentes populares. tendo decaído da graça ou tendo sido levado da sua cidade. 107 Ver Denis Sinor. debaixo de grandes árvores. no deserto. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 185 A distinção. a maioria dos escritores clássicos reconheciam que. Dorme em grotas. inconstantes./crtu (feroz). . em grupos suficientemente grandes para constituir uma ameaça à própria “civilização”. cruel). ela os abandona no local do nascimento para que sobrevivam ou pereçam106. Diogenes 18 (Summer 1957): 47-60. além do horizonte. eram. numa famosa passagem da Política. tudo aquilo de que o orgulho do grupo fechado se julgava investido o Homem Selvagem representava uma ameaça ao indivíduo. escravos do desejo e incapazes de dominar as suas paixões. poderia degenerar. representa-se convencionalmente o Homem Selvagem como sempre presente. em ambos os casos. Política. como inimigo e como representante de uma condição em que um homem individual. como os animais. indomilus (não-domado). prega partidas ao pastor e embriaga o guarda-caça. concebiam que os bárbaros e os homens selvagens eram escravizados à natureza. com uma parceira. Quando surgem as hordas bárbaras. 1. Embora Aristóteles. rudis (rude). se a sua parceira tem filhos. incultus (i ncul to). A obra de Bernheimer é a fonte da maior parte das informações oferecidas neste ensaio sobre a doutrina do Homem Selvagem. à excelência moral. sem lei e sem coração”. No mito medieval principalmente. mas também xihfsicr (que habita os bosques). Enquanto o bárbaro constituía uma ameaça à sociedade em geral . e. portanto. e tenha concordado com Homero em que “é justo que os gregos devam governar os bárbaros” 104. o Homem Selvagem é concebido coberto de pêlos. insanux (louco). ver Bernheimer. livro I. “The Barbarians”. nas montanhas ou nas colinas. pp. 2. tenha caracterizado os bárbaros como “proscritos naturais”. estava ligada à diferença entre os homens que viviam segundo alguma lei (mesmo uma lei falsa) e os que viviam sob nenhuma lei. a relação temporal e espacial do Homem Selvagem com a humanidade normal difere da do bárbaro com o homem civilizado. Apenas está longe da vista. lascivus (lascivo). ou simplesmente alguém horrivelmente desfigurado. de autodisciplina e de trabalho sistemático. irnrnunis (gigantesco.tudo o que é sugerido nas palavras latinas que designam “selvagem” e “selvageria”105. eram volúveis. quando muito. os alicerces do mundo parecem ruir e os profetas anunciam a morte da era antiga e o advento da nova107. eram incapazes de vida sedentária. Pode ser um gigante ou um anão. como nêmese e como um possível destino. e que o tempo que leva para chegar às fronteiras da civilização é repleto de possibilidades apocalípticas para o conjunto da humanidade civilizada. a exemplo dos romanos antigos. à pureza da raça. cap. ou nas cavernas de animais selvagens. perplexos e hostis à humanidade “normal” . saevus (feroz). o Homem Selvagem é incapaz de assumir as responsabilidades de pai. Em contrapartida. Os pensadores medievais. caóticos. as galinhas do galinheiro. como Charles Laughton na versão 104 Aristóteles. 105 A palavra latina para wild (selvagem) éferux (que tem a conotação daquilo que cresce num campo). habitando os limites imediatos da comunidade. os etimologistas sugerem que ferus tem a mesma raiz de/e/rum (ferro). 45-46. como seres “sem tribo. Concebe-se convencionalmente que o lar do bárbaro se localiza bem longe no espaço. negro e deformado. Isto significava que o Homem Selvagem e o bárbaro representavam diferentes tipos de ameaça aos homens “normais”. Embora os bárbaros e os homens selvagens supostamente compartilhassem estas qualidades. para onde carrega à força crianças ou mulheres indefesas para ali fazer-lhes coisas indizíveis. uma importante diferença continuava sem solução entre eles: o Homem Selvagem sempre viveu sozinho. Wild Men in the Middle Ages. 106 Bernheimer. Por conseguinte. pelo menos temporariamente. na floresta próxima. ou. cap. eram capazes de algum tipo de ordem.à civilização. Segundo o mito que se desenvolve na Idade Média.

servos de Satã. e não uma força positiva que se possuía. rápido como o vento.não a 108 Bernheimer. Isto quer dizer que ele possuía. Esta posição era reservada a Satã e aos anjos decaídos. Na Idade Média cristã. sagacidade e astúcia que dá plena expressão a toda a sua lascívia. dotado da força. Portanto. o Homem Selvagem era objeto de náusea e aversão. é preciso ressaltar. nem mesmo que pecava ou nem mesmo o que poderia ser um “pecado”. Em algumas histórias. de medo e ansiedade religiosa. Evidentemente. o Homem Selvagem era alguém que perdera a razão e que. É o desejo personificado. não poderia realizar de maneira consciente uma ação maléfica. portanto. do sustento (proporcionado pelas instituições políticas. juntamente com a degradação. na sua loucura. obviamente privado dos prazeres dos vícios mais requintados). contudo. Mas. o homem em quem os impulsos libidinosos lograram predominância total. um tipo de inocência . A fim de seduzir o cavaleiro ou o pastor incauto. Mas é possível que o tenha moderado um pouco. o diabo e a feiticeira são espíritos malignos ou seres humanos dotados de poderes espirituais malignos. que lançava sobre os ombros quando corria. poderia aparecer na forma da mais atraente dás mulheres. Uma vez mais. Diferentemente dos anjos rebeldes. o demônio. 109 Ibiá. sua vida é instável. revelando a sua feiúra permanente apenas durante o ato sexual109. Isto valia particularmente para a mulher selvagem da lenda medieval: supunha-se que fosse incomparavelmente feia. sociais e econômicas) e da salvação (propiciada pela Igreja). Como o Homem Selvagem não tinha faculdades racionais. pecava ininterruptamente contra Deus. Acreditava-se geralmente que o Homem Selvagem (ou a mulher) fosse um exemplo de regressão humana ao estado animal. então. come à saciedade num dia e passa fome no outro: é lascivo e promíscuo. E seu poder e agilidade físicos aumentam na razão direta da diminuição da sua consciência.. 33. porém. 186 TRÓPICOS DO DISCURSO americana do filme O Corcunda de Notre-Dame. Na maioria dos relatos sobre o Homem Selvagem na Idade Média-. 38 e s. a quintessência da possível degradação humana. Analogamente.qualquer das restrições impostas pelo fato de pertencer a essas instituições. Ele é glutão. tal como o Homem Selvagem mágico. sem qualquer consciência de pecado ou perversão (e. ele é forte como Hércules. A incapacidade do pensamento oficial de conceber uma humanidade selvagem por certo não destruía o poder que tal concepção exercia sobre a imaginação popular. Wild Men. ele tampouco sofre — na imaginação do homem medieval . como o era o poder do diabo. principia a fundir-se com as noções medievais de demônio. durante a Idade Média. aqui. era supostamente obcecada pelo desejo de homens normais. diabo e feiticeira. coberta de pêlos à exceção dos seios volumosos e pendentes. a ideia da mulher selvagem sedutora. astuto como o lobo e trapaceiro como a raposa. o Homem Selvagem é a destilação das ansiedades específicas subjacentes às três garantias supostamente fornecidas pelas instituições especificamente cristãs da vida civilizada: as garantias do sexo (na forma organizada pela instituição da família). Pois se. o Homem Selvagem quase sempre representa a imagem do homem liberto do controle social. da existência social regularizada ou da graça institucionalizada. p. . No entanto. pp. o pensamento formal distingue entre o Homem Selvagem e o demônio. Esta mulher selvagem. o Homem Selvagem não sabia que vivia em estado de pecado. seria isento de todo sentimento de culpa ou consciência. esta astúcia se transforma numa espécie de sabedoria natural que o torna um mágico ou pelo menos um mestre do disfarce108. O Homem Selvagem não usufrui nenhuma das vantagens do sexo civilizado. Apesar de tudo. qualquer que seja o modo de encará- lo. O estado selvagem é o que um ser humano normal assume em consequência da perda da sua humanidade. em geral não era tido como exemplo de corrupção espiritual. cujas capacidades para o mal jamais poderiam ser igualadas pelo Homem Selvagem.

o surgimento do Homem Selvagem benéfico. Deste modo. Não admira. Esta concepção do Homem Selvagem talvez reflita uma visão mais bucólica da natureza. durante o século XII os homens selvagens começaram a aparecer no folclore como protetores dos animais e das florestas. novas ferramentas e técnicas agrícolas estavam trazendo vastas áreas da Europa ao cultivo. e principalmente do aristotelismo. que estavam reassumindo a tarefa da Europa cristianizadora. mas pecava por ignorância e não propositadamente. haviam vivido um tipo de existência secreta entre os intelectuais. e como mestres de uma sabedoria que se mostrava mais útil ao camponês que a “mágica” do padre cristão3'1. E esta identificação complementa. se transformasse no ideal ou modelo de uma humanidade livre. os faunos. e não uma essência ou uma substância que poderia distinguir definitivamente os homens dos deuses.pelo menos. um reflexo de uma nova experiência campesina. a ordem (cosmos) da cidade à perturbação (caos) do campo. ela própria. de um lado. Em suma. Já observei que os pensadores clássicos consideravam o Homem Selvagem de um modo diferente do de seus congêneres hebraicos. Por volta do século XII. violência. numa época de revolução cultural geral. Ele pecava. o Homem Selvagem tenha passado pouco a pouco de objeto de abominação e medo (e de inveja apenas velada) a objeto de inveja declarada e até de admiração. ele. Segundo Bernheimer. conquanto dividissem a humanidade em civilizados e bárbaros. de outro . os gregos não defendiam obsessivamente uma distinção rígida entre natureza animal e natureza . iniciada em tempos anteriores mas interrompida pelas invasões viquingues. pelas investidas muçulmanas e pelo estado de guerra feudal. num nível popular. até o século XII. é acompanhado de sua identificação com os sátiros. que. e o campesinato incompletamente cristianizado. insistia Aristóteles. que ocorria na mesma época. o protetor e mentor dos camponeses. a reivindicação de natureza pelos intelectuais através do renascimento do pensamento clássico. o antítipo popular da humanidade oficialmente definida como “normal”. mas antes uma posição “além do bem e do mal”. Qualquer que seja a razão. de um lado. tinham de ser animais ou deuses. as ninfas e os silenos dos tempos antigos. além da norma da lei. certamente. 5. e dos animais. Ou talvez essa concepção reflita um tipo de resistência campesina pagã aos missionários cristãos. nos séculos XIV e XV. e o sertão transformado em pastos de carneiros. como a maioria dos pensadores gregos. em parte. Os que eram capazes de viver fora da cidade. os seus supostos atributos se tornassem a essência de uma humanidade perdida e a sua imagem idealizada fosse usada para justificar a revolta contra a própria civilização. perversão e logro um tipo de liberdade que poderia ser invejada pelos homens normais. Mas. homens presos na rede da repressão e da sublimação que constituía a base da vida comum. Esta redenção da imagem do Homem Selvagem começou simultaneamente com a recuperação da cultura clássica. os gregos contrapunham a vida dos homens que viviam segundo alguma lei à dos homens sem a lei. o Homem Selvagem. E salientei que isto não se devia ao fato de gregos ou romanos recearem menos a região selvagem que os hebreus. pois. concebia basicamente que a humanidade designava um tipo especial de relação que poderia existir entre os homens. com o renascimento dos valores humanistas e a improvisação de uma nova concepção da natureza. de outro. Não surpreende que. As ideias clássicas sobre as lendas da natureza e da natureza paga sobreviveram por toda a Idade Média. Isto conferia às expressões que dava à luxúria. Como os judeus. à proporção que as florestas eram desbravadas e derrubadas. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 187 neutralidade moral da fera. essa é a opinião de Aristóteles em suas análises de problemas sociais e culturais quando contrapostos aos problemas metafísicos. de inspiração mais clássica que judaico- cristã. quando os laços sociais da cultura medieval principiaram a afrouxar-se.

promíscuas. o tanatótico. vívem em geral nos prados ou nos lagos das montanhas. 1945). Se. um animal político. 86-101.buscam unicamente o prazer: o objeto do seu desejo é o prazer físico em si. Estas criaturas desempenhavam para a imaginação clássica quase o mesmo papel que o Homem Selvagem representava para o cristão medieval. Aqui. Nem todos dentro da cidade poderiam esperar tornar-se plenamente humanos: na sua Ética. Mas nenhuma pessoa de fora da cidade tinha a mínima chance de realizar plenamente a sua humanidade: as condições de uma vida não-regida pela lei o impediam. que só diferiam dos homens comuns pela magnitude de seu poder ou talento. da qual todas as coisas eram feitas. de animais com deuses e assim por diante 112. pp. 190 e s. a conspurcação da espécie era um temor tão intenso a seu próprio modo quanto qualquer coisa que os hebreus sentiam acerca disto. G. representações imagéticas daqueles impulsos libidinosos que. viviam quase que apenas para o intercurso sexual . pp. fantasias do homem pagão. livro 1. São tão indisciplinadas quanto os malditos da doutrina hebraica. Collingwood. por razões sociais mais que puramente religiosas. posteriormente. monstros benéficos como os centauros. como no caso do Minotauro. Eram. havia criaturas como os sátiros. o Labirinto. ou. Somente os homens que haviam alcançado o estado político poderiam esperar realizar uma humanidade plena. Pasífae. 1957). possuindo ambos os conjuntos de atributos sexuais. diz Aristóteles. Assim. Sua imaginação povoava o universo inteiro de grande número de misturas de espécies. ou. Para uma história da imagem do Labirinto na arte e na literatura mo* dcrnas. Deste modo. ou possuindo os seios e nádegas excessivos do eterno feminino. e ma- lignos como o Minotauro. pp. De fato. 1957). 110 Ver Harold Cherniss. o homem “normal”. Os monstros nascidos da união de um ser humano com um animal são os que habitam os lugares desertos. as ninfas e os silenos. em oposição ao erótico. isto acontecia porque a maioria dos gregos perfilhava a noção de uma substância simples. e. os faunos. livro X. Die Welt ais Ltthyrinth: Mcinier und Munie in der europüischai Kunst (Hamburg. Ética u Nicômuco. Aristóteles negava especificamente às mulheres. relativamente mais pacíficos. autoconsciência ou remorso. o estado selvagem. Estes monstros representam o lado escuro da imaginação clássica paga. a imaginação grega ainda tinha um certo prazer na contemplação das possíveis consequência s dessa conspurcação. sobretudo. “Archetypal Criticism: Theory of Myths”. como no caso do Hermafrodita. com um touro. ver Gustav René Hocke. em Anutomy of Criticism: Four Essays (Princeton. touros e garanhões. é a representação arquetípica de uma cidade selvagem ou agreste113. entre os antigos gregos. estas criaturas eróticas não habitam o ermo nem o deserto. . Em parte. produtos da união sexual de deuses com homens. mas buscam algum lugar onde possam satisfazer suas capacidades eróticas (geralmente invejáveis). 29 e s. 111 Ver Aristóteles.sem consciência. Caracteristicamente. JHI12 (1951): 319. ou a noção de um princípio universal do qual todas as coisas eram manifestações110.sp. aos escravos e aos comerciantes tal possibilidade 111. para os teólogos cristãos. é zoon politikon. estas criaturas só podem ser caracterizadas adequadamente se recorrermos ao vernáculo.faunos. como já foi sugerido. mas jamais poderia servir de modelo daquilo que os homens devem esforçar-se para ser. O homem “normal” era apenas alguém que tivera a sorte de nascer numa cidade-estado. nascido da união de uma mulher. e são pouco mais que genitálias ambulantes. “The Chara:terisücs and Effects of Pre-Socratic Philosophy”. e como que contrabalançando-as. os gregos não tinham necessidade do conceito que via no Homem Selvagem uma imagem projetiva de sua vida de fantasia. 8. o que um grego teria entendido pela nossa noção de Homem Selvagem poderia parecer quase uma contradição de termos quanto. de homens com animais. Sensuais. Algumas destas criaturas . no seu aspecto maligno. não poderiam ser expressos nem liberados diretamente. lascivas. Política. em contraposição às vidas dos deuses e heróis. ocupam um ambiente artificial. que. Quem quer que vivesse fora do mundo humano poderia tornar-se um objeto de curiosidade ou um tema de estudo. The Idea of Niiiure (Oxford. Com dotes naturais iguais aos dos carneiros. 188 TRÓPICOS DO DISCURSO humana. 113 Ver Northrop Frye. e R. cap. sátiros e silenos .345. universal. Wild Men. 112 Bernheimer relaciona os tipos de sub-homem encontrados na literatura clássica e no folclore.

da representação erótica da libido que busca o prazer. selvagens ou civilizados. visto que é possívei recorrer a ele tanto segundo maneiras socialmente consolidadoras quanto de maneiras socialmente disruptivas. apontado como a monstruosidade máxima para o cristão crente.traparte do medo hebraico da perda da bênção de Deus. A noção de que “era uma vez” um homem não-corrompido pela cobiça. desse modo. pela inveja etc. criou as reservas imaginativas necessárias para o cultivo de um primitivismo socialmente revolucionário no começo da Era Moderna. quando apenas a força prevalecia. da concepção clássica de estado selvagem. o arcaísmo tende à idealização de ancestrais remotos reais ou lendários. mas sem consciência. pp. quando os homens viviam em harmonia com a natureza e entre si. Hesíodo. 459-475. quando o momento era propício. pelo egoísmo. que analisa “A Organização da Opinião” seguindo o triunfo de Augusto sobre Marco Antônio e a contribuição dada a ela por Virgílio e Tito Lívio. mas. possivelmente na esperança de inspirar os homens a empreender a reforma social. bem como o abandono do comportamento convencional. The Roman Revolution (Oxford. Seja-me permitido aqui abrir um parêntese para estabelecer uma distinção entre primitivismo e arcaísmo. a evocação de uma idade do ouro no passado pode servir frequentemente tanto para reconciliar os homens com as privações do presente quanto para inspirar revolta a bem de um futuro melhor. representando um desejo. Pois para ele o fundamental é a convicção de que os homens são realmente os mesmos através do tempo e do espaço. O que ele necessitava. o arcaísmo parece ser o mais constante. o homem medieval não tinha qualquer necessidade de reviver o lado escuro. tanto do passado como do presente. a fim de ajudar a esclarecer a relação entre a imagem do Homem Selvagem e o radicalismo social na cultura moderna. Porém . a idade do ferro. mas se tornaram maus em certas épocas e lugares devido à imposição de limites sociais. uma diferença mais em grau de 114 Para um exemplo da ambivalência política do arcaísmo. O primitivismo busca idealizar algum grupo ainda não-violado pela disciplina civilizacional. ao homem civilizado como o modelo e ideal. E assim. o primitivismo é quintessencialmente uma doutrina radical. . Ambos os tipos de idealização parecem ser momentos eternos na cultura humana. ver Sir Ronald Syme. de que eram feitos de um estofo mais refinado114. ou ser utilizados na sociedade tradicional para promover uma revolução (como a de Lutero) mais no sentido de um renascimento ou reforma que no de uma inovação. Entre os gregos. Entretanto. O arcaísmo cria mitos de capacitação que podem servir para despertar o orgulho do grupo (como na Eneida de Virgílio ou na História de Roma de Tito Lívio). o homem ocidental inconscientemente começou a libertar igualmente as suas emoções. de escapar às obrigações impostas pelo envolvimento em empreendimentos sociais comuns. em vez de salientar as diferenças qualitativas entre eles.pode servir tanto a forças sociais conservadoras quanto a radicais. . Esta associação do Homem Selvagem com as imagens pagãs da liberdade libidinosa. Embora utilizado como instrumento de critica social quase da mesma forma que o arcaísmo. Os primitivistas contrapõem o homem selvagem. este lado já estava presente na própria concepção do Homem Selvagem. Isto pelo menos pode ter o significado da atribuição ao Homem Selvagem das características dos sátiros. ninfas e alguns dos monstros benfazejos.como se dá no caso de Hesíodo — o arcaísmo não raro traz em si mesmo o reconhecimento de que os homens da antiga era idealizada eram inerentemente superiores aos homens do presente. Coisa inteiramente diversa sucede com o primitivismo. e principalmente da erótica. como uma antítese de sua própria época.uma condição da qual decaíram as gerações atuais . Pode ser utilizada para justificar valores convencionais. como os mestres centauros. E. 1939). fazem destas diferenças uma questão meramente quantitativa. faunos. sentido de tempos em tempos por todos nós. o lado dos Ciclopes ou do Minotauro. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 189 parecia ser a con. era do outro lado. quando os impulsos que levavam os homens a arejar a sua mente pela exposição ao pensamento clássico começaram a dar sinais de vida no século XII. em contrapartida. usou o mito de uma idade áurea no passado remoto. Ora.

The of the Middle Ages: A Study of the Forms of Life. como um antítipo do mundo corrompido da corte e da cidade. de Maquiavel. durante essa época. ver Bernheimer. um local onde o leão dorme junto com o cordeiro. e relaciona ambos os desenvolvimentos com os fenômenos de crise cultural. diferentemente do arcaísmo. 1967). 144 e s.mo que aparece simultanemante a ele) ao fato de a cultura oficial. a natureza animal. and An in France and the Netherlands in the XlVih and XVth Centuries. 1949). pelo antigo e pelo familiar. Hopman (London. a darem vazão aos seus desejos originais. no pensamento primitivista. Wild Men. tanto secular quanto religiosa. A consequência é que. naturais. a natureza dos primitivistas é arcádica. onde as pastoras se deitam com os pastores. Outro aspecto desta diferença: os arcaístas por vezes diferem dos primitivistas no modo de conceber aquela natureza-em-geral que funciona como o pano de fundo para as ações dos seus heróis imaginados ou como o antagonista contra o qual os seus heróis agem para construir uma dotação humana preciosa. 113 e s. a penetrarem um domínio que é naturalmente seu. insiste em que este mundo perdido ainda está presente de maneira latente no homem moderno. 116 Sobre a imagem do Homem Selvagem em Spenser e Sachs. Somente neste segundo tipo de natureza pode o Homem Selvagem assumir o aspecto do Nobre Selvagem . Durante épocas de colapso cultural. cujo grande livro sobre o declínio da civilização medieval parece ter-lhe inspirado o estudo. Bernheimer data do século XIV o aparecimento do Homem Selvagem como Nobre Selvagem e o renovado interesse numa suposta idade áurea perdida na Europa Ocidental. o radicalismo residia na adoção de qualquer antítipo 115 Para uma análise das imagens divergentes do mundo natura! tal como se manifestaram no início da arte moderna. 117 Comparar Bernheimer. pp. como em Leonardo da Vinci115. onde só os mais fortes sobrevivem. pp. de conflito e luta. sem qualquer mácula de pecado original. ingênua e frivolamente. . é a natureza da selva. O primitivismo apenas exorta os homens a serem eles próprios. portanto. diz ele. Escritores e artistas começaram a encarar a história. Daí o recurso à natureza primitiva de Piero di Cosimo. haver-se tornado excessivamente opressiva. caps. e Johann Huizinga. do que chamei primitivismo (para diferenciá-lo do arcadis. E o “bosque escuro” de Lucrécio. ou do mistério. antiquada e psicótica 117. a natureza “de dentes e garras rubros”.e está ali para ser recapturado. trad. 1-4. os homens sentem a necessidade de voltar a modos mais simples de vida. a reforma é encarada mais como a libertação de um fardo que se tornou pesado demais do que como uma reconstituição ou reconstrução de uma perfeição humana original e subsequentemente perdida. mas. 17 e 18. Thought. corrupto e civilizado . Wild Men. escrito no século XVI. visto que as formas disponíveis de sublimação haviam sido açambarcadas por uma nobreza cavalheiresca. Lundxcupe intoArt (London. mas posteriormente reprimidos.o gentil selvagem da Faerie Queen de Spenser e do Lamento dos Homens Selvagens sobre o Mundo Desleal de Hans Sachs116. Em contrapartida. a medonha e informe floresta que para Dante é a linha de partida da jornada do seu peregrino cristão. uma necessidade de recomeçar a construção da humanidade. os apóstolos populares de Lutero. 190 TRÓPICOS DO DISCURSO corrupção que em tipo. os loucos de Erasmo e os gigantes grosseiros e glutões de Rabelais.. a abolirem as restrições da civilização e. é o mundo do jardim fechado. caps. Bernheimer atribui o florescimento. os romanos simples de Maquiavel. No poema de Sachs. É a natureza da caça. de Hobbes e de Vico. o Homem Selvagem vive num estado de pureza edênica. Clark. tranqüila. onde a virgem doma o unicórnio . o primitivismo expõe a visão de um mundo perdido. as paisagens oníricas de Leonardo. Na esteira de Huizinga. a épocas mais sagradas. Gargântua e Pantagruel. ver Kenneth M.o mundo do piquenique. F. o mito e a lenda como figuras que exprimiriam ao mesmo tempo os seus desejos mais íntimos de libertação e dariam expressão ao seu respeito pela tradição. A imagem que os arcaístas têm da natureza é permeada de violência e turbulência. Como o arcaísmo. na forma como foi retratada por Piero di Cosimo. Numa época de rejeição universal da imagem convencional de humanidade “normal”. uma noção de humanidade permeada de contradi- ções entre seu ideal e sua realidade.

Próspero joga fora a sua varinha mágica. Cada um consegue. De modo significativo. “Of Cannibals”. no começo da peça. Shakespeare. como a maioria dos seus contemporâneos. trad. cada qual consonante com uma das possíveis atitudes que os homens poderiam assumir em relação à sociedade e à natureza. o Homem Selvagem tornou-se dotado de duas personalidades distintas. todo ego e superego. ainda era preferível ao estado natural. 144-145. Frame (Stanford. que talvez seja um tipo superior de inocência120. para minar as convenções irrefletida. Wild Men. 1958). trad. ele havia valorizado mais sumamente. Donaid M. e tem defensores recentes em Albert Camus e Claude Lévi-Strauss. “Prospero’s SíafF”. A primeira atitude predomina numa tradição de pensamento que se estende de Maquiavel. e assumindo alguns dos atributos do seu inimigo. em The Complete Works of Montaigne. Mas. Y. em Shakespeare: Our Contemporary. abandona a ilha e resolve viver como um homem entre os homens. E a luta entre eles se resolve de uma forma que definitivamente não aproveita a nenhum dos dois ideais. ainda é o poeta da ordem e 118 Bernheimer. BoJesíaw Taborski (Garden City. mesmo naquela que é considerada a sua peça mais pessimista. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 191 daquela imagem que mostrasse que a sua dedicação esquizóide a conceitos mutuamente exclusivos da natureza do homem era a doença que era. Shakespeare contrapõe Calibã. uma natureza animal. Montaigne utiliza relatos de povos primitivos no Brasil mais ou menos da mesma forma que o historiador romano Tácito utilizou relatos sobre as tribos germânicas: para atacar o provincianismo e etnocentrismo do seu próprio povo. mas apenas desistindo de algo que. N. Se alguém considerasse a natureza um mundo horrível de lutas. então continuaria a ver no Homem Selvagem o antítipo da humanidade desejável. uma degradação da perfeição natural. ao mesmo tempo sobre a desejabilidade de idealizar o Homem Selvagem e sobre a possibilidade de escapar da civilização. a quintessência do homem civilizado. nem nos seus momentos mais deprimidos. sapiente e poderoso. uma advertência do estado em que cairiam os homens se rejeitassem definitivamente a sociedade e as suas normas. Se.mente reverenciadas pela sua própria geração. A segunda atitude é representada por Locke e Spenser. como disse Bernheimer. continua ambíguo quanto ao valor relativo do mundo natural e social. e se visse na sociedade. porém cansado e escravo de seu próprio requinte. com toda a sua luta. 120 Ver Jan Kott. muitos pensadores tomaram uma posição mais ambivalente. o mago. então ele poderia estar inclinado a povoar esta natureza com homens selvagens cuja função era servir de antítipos da existência social. durante o período de transição da época medieval para a moderna. a Freud e Jean-Paul Sartre. Similarmente. e a sociedade uma condição que. apesar das suas imperfeições. a encarnação da libido e senhor de um desejo insaciável de liberdade. A Tempestade. O grifo é nosso. cujo modo de vida era o repúdio de todos os valores acumulados da civilização”118. 152. do que se poderia chamar natureza her. passando por Hobbes e Vico. sem a vantagem sobre-humana.. a sua visão da natureza fosse a da zona rural cultivada. 4. Assim. no fim. Calibã é restaurado no reino de sua ilha. . Montesquieu e Rousseau. o que deseja.bática. 119 Michel de Montaigne. 237-285. pp. mas ao preço da sua inocência selvagem. por outro lado. E. p. Shakespeare. “nada poderia ter sido mais radical do que a atitude de simpatizar ou identificar-se com o Homem Selvagem. Montaigne não sugere aos seus leitores que libertem a fera ou o canibal que têm dentro de si119. mas também sem a ilusão. por volta do final da Idade Média. No seu famoso ensaio sobre o canibalismo. 1964). a Próspero. para explodir preconceitos e ridicularizar as barbaridades de sua própria época4'1. Dessa forma. pp.

Relatos de viajantes e exploradores sobre a natureza dos selvagens que encontraram em locais longínquos poderiam ser lidos da forma que o leitor. 1967). de impor-lhe uma forma oriunda mais de impulsos estéticos que morais. Manuel (Boston. ou danaçao. Esta espacialização do mito do Homem Selvagem vinha acompanhada da sua temporalização no pensamento histórico mais complexo da época. “Archetypal Criticism”. uma narração poética das origens. seria apontado pelos românticos como uma alternativa para o homem civilizado. Em todo caso. como nos diz Northrop Frye. em Giambattista Vico: An International Symposium. ed. entre o prazer e a dor. o sonho do desejo saciado. pp. Além disso. ed. entre a vida e a morte. uma projeção das últimas coisas possíveis ele é também.não o Nobre Selvagem do philosophe (o selvagem como guardião da razão natural incontaminada e do senso comum). de outro. eram tecnicamente avançadas porém moralmente corruptas. 131-162. Por conseguinte. 122 Ver Frye. 1969). pp. Sendo os homens obrigados a viver a sua vida num ponto qualquer entre a ordem perfeita e a desordem total. em Utopias and Uto. 192 TRÓPICOS DO DISCURSO da civilização. . o ancestral do homem moderno que começara vivendo poesia e terminara tornando-se totalmente prosa. pp. Giorgio Tagliacozzo e Hayden V. É que. numa revivescência dos poderes poéticos do selvagem . evidentemente. “Vico and Lcvi-Strauss on the Origins of Humanity". ele relutava em ver nas forças que se opunham à ordem e à civilização a manipulação de um poder distintamente inumano. insistia em que a selvageria era tanto o estágio original quanto necessário de toda forma de humanidade consumada. originariamente publicada em 1725. Foi a capacidade do homem primitivo de poetizar a sua existência. posteriormente. Para Vico. desembarcado em lugares suficientemente obscuros para lhe permitir que aparecesse como tudo quanto os pensadores queriam fazer dele. e “Varietíes of Litemry Utopias". Vico. embora ainda o situando em algum lugar além dos limites da civilização. Frank E. no conforto do lar. Vico retratava o selvagem como um poeta natural. outros fatores estavam em ação na reabilitação do Homem Selvagem. as duas situações extremas em que estas condições poderiam imaginavelmente ter triunfado são uma fonte de contínua especulação em todas as culturas. o selvagem era alguém que sentia naturalmente e pensava poeticamente. O que quer que seja o mito . 309-318. os mitos são orientados no sentido do ideal da liberdade perfeita. Na sua Ciência Nova. civilizado. como o detentor de uma capacidade estética ou formadora na qual a civilização tinha as suas origens . a quem admirava.pian Thought.pelo menos entre os pagãos121. arcaicas e modernas: daí o fascínio universal pelas especulações utópicas do tipo apocalíptico e do tipo demoníaco. de outro. ou redenção. um exemplo de pensamento que opera nos extremos da possibilidade humana. qualquer que seja o seu discernimento sobre a natureza repressora e opressiva de ambas. e o pesadelo da frustração completa. Os mitos fornecem justificativas imaginativas dos nossos desejos e ao mesmo tempo 121 Ver Edmund Leach. Vico sustentava que a bárbarie original do estado selvagem era menos inumana que a bárbarie requintada de civilizações que. desejasse. o Homem Selvagem estava sendo distanciado. o filósofo napolitano que transpôs a lacuna entre Barroco e civilização iluminista. como Montaigne. que permitiu aos povos pagãos construir um mundo social unicamente humano em oposição aos seus próprios instintos animais que sentiam mais profundamente. 5. uma projeção de uma visão da realização humana e dos obstáculos que se interpõem no caminho dessa realização122. White (Baitimore.um equivalente verbal de um ritual. de um lado. como a fonte de faculdades imaginativas ainda presentes no homem moderno. nos seus estágios finais. entre a liberdade e a necessidade. mas o possuidor da pura vontade que. 25-49. de um lado. E. e da possibilidade de total opressão. afirmava que a única cura para civilizações que haviam entrado em declínio residia talvez no retorno a uma condição de bárbarie.

decerto como parte de um movimento geral de secularização e como uma função do humanismo. No seu ensaio “Dos Canibais”. Seja-me permitido exemplificar o que entendo pela tradução do mito do selvagem numa ficção por referência a Montaigne. ou seja. Montaigne joga aqui com a noção de estado selvagem a fim de chamar a atenção para 123 Bernheimer. se as provas que Bernheimer apresenta da sobrevivência dos motivos do Homem Selvagem medieval no folclore contemporâneo podem ser consideradas em seu significado manifesto. e os escritores e pensadores começaram a reconhecer os usos fecundos na crítica da cultura que uma versão desmitologizada da imagética benigna. WildMen. p. observa que só devemos chamar esses povos de “selvagens” do mesmo modo que “chamamos de selvagens os frutos que a Natureza produziu por si própria e no seu curso normal”.uma de desejo. a imagem do estado selvagem foi “ficcionalizada”. O esforço foi inútil no campesinato. criando assim aquela concepção anômala do estado selvagem que encontramos na iconografia dos séculos XIIÍ e XIV. “Of Cannibals”. tal como são descritas nos relatos dos viajantes antigos e modernos. 120. “deveríamos chamar selvagens aqueles que alteramos artificialmente e tiramos do caminho da ordem comum”.. de recalque e sublimação.poderia proporcionar. Mas as tensões que se refletem nas concepções medievais do Homem Selvagem são compreensíveis como fenômeno distintivamente medieval pelo fato de que as duas imagens do estado selvagem . tanto em função dos prazeres que tal liberação poderia proporcionar como em função da dor que dela poderia resultar. Montaigne observa que “todo homem chama de barbárie tudo o que não é a sua própria prática”. depois de comentar algumas das práticas mais chocantes dos povos primitivos. De fato. e isto porque “os superamos em todo tipo de barbárie” 126. O pensamento formal cristão procurou difundir o conceito anômalo de estado selvagem recorrendo à filosofia cristã da natureza contida na Esco.derivam de tradições culturais diferentes e essencialmente incompatíveis. Em suma. enquanto podemos chamar legitimamente os povos selvagens de bárbaros “com respeito às regras da razão”. durante algum tempo no começo do período moderno. O mito do Homem Selvagem serviu a uma dupla função no final da Idade Média. p. na linguagem freudiana. 126 Montaigne. invejado e temido. bem como de fatores culturais mais gerais. 152-153. Como demonstrou Bernheimer. separada de uma “essência” imaginada do estado selvagem. Mas logrou êxito na esfera da alta cultura. O próprio Bernheimer se- gue a imagética benigna do estado selvagem até os arquétipos clássicos e a imagética maligna até os arquétipos bíblicos125. Em seguida. e sem dúvida tem justificativa para fazê-lo124. diz ele. admirado e caluniado. 124 Ibid. O mito do Homem Selvagem é o que a imaginação medieval concebe que seria a vida se os homens dessem expressão imediata aos impulsos libidinosos. em alguma época durante o século XV a concepção benigna do Homem Selvagem se livrou da concepção maligna. nos dá uma clara indicação da maneira como irá se desenvolver uma atitude distintamente moderna. na Idade Média a noção de estado selvagem é projetada de maneira consistente nas imagens do desejo liberto das peias de toda convenção e ao mesmo tempo nas imagens do castigo que a sujeição ao desejo atrai sobre nós123. Pois. e passou ao uso limitado de instrumento de crítica intracultural. Em consequência desta redenção teórica da natureza.lástica. 125 Ibid. pp. outra de castigo . não estamos autorizados a chamá-los assim “com respeito a nós mesmos”. de um Homem Selvagem que é ao mesmo tempo bom e mau. 2. como em tantos outros assuntos. . Bernheimer fala. que aqui. AS FORMAS DO ESTADO SELVAGEM 193 exibem aos nossos olhos imagens das forças cósmicas que excluem a possibilidade de qualquer satisfação perfeita deles. Onde a ideia da natureza era progressivamente purgada de todas as imputações teóricas do mal. Os dois conjuntos de imagens aparentemente se fundiram (e confundiram) durante a Alta Idade Média.

Montaigne equipara o mito da ci . mas em torno da antítese natural-artificial. preparando-os assim para a libertação. Usando o conceito de selvagem como uma ficção. Montaigne quer que os seus leitores identifiquem a artificialidade em si próprios. mas dos seus corpos e mentes para a natureza. mas decerto é preferível ao artificial. não das suas almas para céu. Para ele. não em torno da antítese divino-natural. que reconheçam o grau em que a sua civilização superficial mascara uma barbárie mais profunda. principalmente porque a barbárie induzida artificialmente é muito mais repreensível aos seus olhos que o seu equivalente natural entre os selvagens. o natural não é necessariamente o que é bom. a distinção que gira. 194 TRÓPICOS DO DISCURSO uma distinção que reside no coração do seu ceticismo. como na teologia cristã.

somos levados ao meio-termo. The Sense of an Ending: Studies in the Theory of Fiction (New York.a metáfora que equiparava literalmente a vida humana a uma busca de redenção transcendental. somos levados. Durante a Idade Média cristã. Seu propósito não é tornar selvagens todos os homens nem destruir a civilização. é o produto de um tipo único de relação com o cosmo que exterminamos ao risco da nossa própria humanidade. p. seja um romance ou um poema.te “civilizada”. distorcendo um conceito com a sua antítese. uma tática crítica semelhante era utilizada para distinguir as doutrinas religiosas “falsas” das “verdadeiras”. a incapacidade de “jogar” com imagens e ideias como instrumentos para investigar o mundo das aparências. ou no primitivo dominado pela natureza. somos levados a dar uma atenção mais rigorosa às nossas próprias percepções. ressaltando conscientemente as presumidas virtudes das tribos selvagens do norte. A falta desta aptidão fictícia. é tomada literalmente. mas com esta diferença em relação à crítica moderna: lá. o conceito de Homem Selvagem tinha pouquíssimas chances de ser exposto como a ficção útil em que desde então se converteu nas mãos de céticos e radicais. para o centro da nossa própria existência complexa enquanto membros de comunidades civilizadas. Quando uma ficção. desde Montaigne e 127 Frank Kermode. o historiador Tácito usou o conceito de bárbaro. afirma ele. Todavia. A mesma tática aparece em grande parte da obra do moderno antropólogo da cultura Claude Lévi-Strauss sobre os povos pri- mitivos e “o pensamento selvagem”. eles sinalizam à sua consciência que as antíteses que estabeleceram entre uma humanidade ‘‘natural” e uma humanidade “artificial” não devem ser tomadas literalmente. porém fornecer-lhes um distanciamento crítico sobre a sua artificialidade. a “natural” e a “artificial”. na sua Germânia. ela se torna mitologizada. o que Frank Kermode chama de degeneração das ficções em mitos127 só é discernível a partir da posição vantajosa de uma cultura cuja operação crítica característica é expor o mito que jaz no coração de toda ficção. exatamente da mesma forma. que tanto proíbe a consecução da verdadeira civilização quanto frustra a expressão dos seus impulsos naturais legítimos. sempre se inclina a tomar os signos e os símbolos pelas coisas que representam. que. 1967). pela dialética do próprio pensamento. Dentro dos limites dessa estratégia mitológica de capacitação. estado selvagem e selvageria. o que quer que ela possa ser. Lévi-Strauss sugere que aquilo que os homens civilizados chamam convencionalmente de “o pensamento selvagem” é o repositório de uma faculdade imaginativa particularmente poderosa que sob o impacto da modernização quase desapareceu da sua contrapar. caracteriza a mente simples onde quer que ela se apresente. vilização que a fundamenta a um provincianismo debilitante. Montaigne e Lévi-Strauss estão ligados pelos usos fictícios que fazem dos conceitos de barbárie. manipulando as ficções artificialidade e condição natural. Tácito. Nas suas obras. quer no camponês supersticioso. de modo a forçar os seus leitores a contemplar os vícios dos romanos civilizados no sul. . Ela é sem dúvida uma característica distintiva do pensamento mítico. mas usadas apenas como os limites conceituais necessários para focalizar criticamente as condições da nossa própria existência civilizada. Jogando com os extremos. O uso fictício que Montaigne faz da noção de estado selvagem é uma tática caracteristicamente irônica. quer no burguês preso a convenções. 39. aos poucos nos aproximamos de uma verdade sobre um mundo que é tão complexo e mutável quanto os nossos possíveis meios de compreender esse mundo. a tomar as metáforas literalmente e a fazer com que o mundo fluido indicado pelo uso da analogia e do símile escape do seu controle. O pensamento selvagem. posta em duas classes mutuamente exclusivas. Juntando-nos a eles ao agir como se acreditássemos que a humanidade poderia ser diferenciada tão radicalmente. o pensamento permanecia encerrado dentro dos limites da metáfora fundamental que referia o verdadeiro sentido de todas as coisas à sua origem e meta transcendentais . mais como um relato da realidade que uma estrutura verbal com uma referência mais ou menos direta ao mundo da experiência. Nos tempos romanos.

conforme o caso. a condição que tinha de ser evitada a todo custo. para eles. Selvageria e barbárie são hoje usados basicamente para designar as áreas da paisagem psicológica do indivíduo. DISCURSO permanecia o fato de que.Rousseau até Marx e Lévi-Strauss. quando aplicado a um grupo humano ou a um ser humano individual. os povos primitivos eram encarados com aquela mistura de fascínio e aversão que Conrad examina em O Coração das Trevas — como exemplos do que o homem ocidental poderia ter sido numa época e do que poderia ter-se tornado uma vez maisse deixasse de cultivar as virtudes que lhe haviam permitido escapar da natureza. Nos tempos modernos. 6. conquanto os pensadores e escritores cristãos por expor o caráter “mitológico” primassem 196 deDOtoda TRÓPICOS ideia pagã. o homem primitivo veio a ser considerado menos como um ideal do que como um exemplo de humanidade interrompida. a nova ciência da antropologia já se empenhava em abrandar este severo julgamento. certamente. não às científicas. o conceito de selvagem. Para a maioria dos modernos cientistas sociais. Desse modo. o pensamento se destinava mais a aj-udar os homens a escapar do tempo e da história que a compreendê-los e aplicá-los em usos terrenos. quero delinear alguns aspectos da carreira do Homem Selvagem depois do século XVIII e sugerir algumas das implicações de sua carreira para a nossa época. que . salvo no sentido sócio-psicológico. ao cristianismo e à excelência da raça. devia continuar a ser aquele sub-homem que a imaginação construiu com os seus próprios desejos reprimidos e ao qual o pensamento conferira. são incapazes de participar da vida de qualquer sociedade. mais que antropológica. Para terminar. nos tempos clássicos e do Antigo Testamento. Assim. Na imaginação vitoriana. e no século XX ela trabalhou com afinco para o destruir. não-cristã ou herética. ou diferenciação on- tológica da espécie. à indústria. Durante o século XIX e a despeito do Romantismo. juntamente com o preconceito racial que invariavelmente o acompanhava. como no caso dos nazistas. exceto num sentido sócio-psicológico. Já que o ideal continuava sendo um tipo de super-homem sagrado em quem não estivesse presente qualquer das imperfeições da humanidade real. um estado pré-social ou supersocial. em nossa época. Ao contrário. se havia elevado finalmente (e definitivamente). as culturas primitivas são vistas como manifestações diferentes do poder do homem de reagir de maneira diferente aos desafios do ambiente. como primitivo. estou-me referindo às categorias psicológicas populares. Assim como não há mais bárbaros. portanto.) O que uma vez se pensou que representasse uma forma de humanidade peculiar. Os termos de valor neutro. quer civilizada. graças à ciência. desordeiros ou coisa parecida. mais como uma forma de doença e refletir mais uma disfunção da personalidade na relação do indivíduo com a sociedade do que como uma variação. como quando empregamos o termo para caracterizar gangues de rua. também não há mais homens selvagens. quer primitiva. (Obviamente. como atavismo. Durante o final do século XIX. por razões psicológicas ou puramente físicas. tende a se confundir com a noção popular de psicose. a concepção de um “homem selvagem” tornou-se quase que exclusivamente uma categoria psicológica. o conceito de estado selvagem teve um destino semelhante ao do conceito de barbárie. como aquela parte da espécie que não se elevara acima da dependência da natureza. Pois. como aquela da qual o homem civilizado. a denominação de “selvagem”. como um controle sobre os louvados conceitos da suposta eleição cósmica do homem ocidental e como uma negação das várias formas de provincianismo cultural. e não culturas totais ou espécies de humanidade. nos tempos modernos. como nos séculos XVII e XVIII. então o horror máximo. a ser visto. nem uma lembrança do que nos poderíamos tornar se traíssemos a nossa humanidade consumada. tornou-se uma categoria para designar aqueles que. o homem primitivo não é mais um ideal pelo qual nos devemos moldar.

em geral. mas sempre como uma crítica de toda segurança e tranqüilidade que um grupo de homens na sociedade adquirira ao preço do sofrimento de outro grupo. não devem ser considerados assim. como Rousseau. cada um destes pensadores interpreta o homem primitivo como o detentor de uma liberdade invejável.a fim de conquistar o seu reino. pois. o sexo e a salvação. para eles. Pelo menos. como a sua possível incapacidade de conciliar-se com o mundo que lhe é socialmente oferecido.Marx. necessária ao mito de que um fragmento da humanidade poderia encarar a essência de toda a humanidade. alienada ou reprimida da humanidade que continuava a reaparecer na imaginação do homem ocidental ~ na forma do Homem Selvagem. às vezes. Cada um deles argumenta que a “queda” do homem na sociedade foi necessária. Estado selvagem e barbárie são encarados. o resultado de uma escassez fundamental (de bens de consumo. primitiva ou civilizada. outras vezes. como um abismo dentro do qual a humanidade poderia cair. Era a parte oprimida. Do mesmo modo. Freud e Nietzsche. ou auto-ali. Como Rousseau. tomaram o seu lugar. Cada um deles é. . cuja solução reside exclusivamente num reexame das formas criativas de vitalidade humana. como potencialidades ocultas no coração de toda pessoa. impelido a recorrer a épocas primitivas da melhor maneira possível a fim de imaginar como poderia ter sido o homem primitivo. o Homem Selvagem que existiu antes da história . outras vezes como um pico a ser escalado. o homem tinha de transcender o estado selva- gem primitivo que lhe era inerente . mais especificamente. Acredito que não é por acaso que os três pensadores mais revolucionários do século XIX . Para cada um destes grandes radicais. o problema da salvação é um problema humano. Afirmei anteriormente que o pensamento sobre o Homem Selvagem sempre e concentrou em três problemas difíceis e permanentes que a socie-dade e a civilização pretendem ter solucionado: os relacionados com o sustento. o radicalismo de cada um deles é em parte função de um ateísmo completo e.usam estes temas como sua matéria principal. conforme o caso). que a existência do homem primitivo deve ter sido inerentemente imperfeita. do monstro e do demônio . da hostilidade à religiosidade judaico-cristã.para o assombrar ou engodar depois disso. Não são vistos como essências ou substâncias peculiares a uma porção particular da humanidade fora no espaço. respectivamente . ou atrás no tempo. Os primitivos coletores de alimento de Marx. Algumas vezes esta humanidade oprimida ou reprimida surgia como uma ameaça e um pesadelo. Freud e Nietzsche reconheciam. todos a encaram como uma contribuição essencialmente providencial para a construção dessa humanidade total que a história almeja realizar. Em suma. explorada. fora do estado social. Marx. E embora cada um diga que a queda produziu uma forma de opressão exclusivamente humana. porém.enação. como um objetivo e um sonho. Todos os três viam na história uma luta para libertar os homens da opressão de uma sociedade criada originariamente como um meio de libertar o homem da natureza.isto é.o qual é tanto uma relação quanto um estado . o homem pré-civilizado. a horda primitiva de Freud e os bárbaros de Nietzsche solucionam o problema da escassez de um modo essencialmente idêntico: por meio da alienação e da opressão dos outros homens. 0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 197 designam um estágio tecnológico ou uma estrutura social particular. diferentemente daqueles seguidores de Rousseau que o interpretaram mal e que insistiram em tratar o homem primitivo como um ideal. de mulheres ou de poder. E todos eles vêem que este processo e alienação resultam na criação de uma falsa consciência.

chamo a isso um exemplo de fetichismo. examinando a literatura relativa ao tema.. 0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 198 TRÓPICOS DO DISCURSO O tema do Nobre Selvagem é talvez um dos poucos tópicos históricos sobre o qual nada mais resta dizer. E esse o sentido etnológico tradicional do termo. 129 Três sentidos não-téenicos. Novak (Pittsburgh. E. Burke. como aconteceu nos mitos do Homem Selvagem na Idade Média. Um dos pontos que tento ressaltar é que tal reducionismo é inevitável no uso de conceitos como “humanidade” ou “civilização”. devo acrescentar. Se esses poderes mágicos ou sobrenaturais forem considerados desejáveis para todos os homens. do qual ele deriva e contra o qual se levantou ostensivamente. Nash. com efeito. foi estabelecida com precisão pelos historiadores das ideias128. então. imperfeitas. haverá. Thorslev. John G. e dele deriva seu emprego figurativo convencional para designar algum objeto material encarado com confiança ou reverência supersticiosa ou extravagante. o Nobre Selvagem. Desse uso figurativo. inclusive os europeus. e Hayden White. Earl Miner. Quando uma dada parte da humanidade se define compulsivãmente como o tipo perfeito da humanidade em geral e define todas as outras partes da espécie humana como inferiores. degeneradas ou “selvagens”.Edward Dudley e Maximillian E. deriva o sentido psicológico. suas origens remotas foram razoavelmente identificadas e a sua '‘linhagem”. Poucos dos topoi do pensamento do século XVIII foram estudados mais completamente. Em estudos futuros da história cultural do século XVIII. em The Wild Man Within: An Image in Western Tkought from the Renaissancc to Romanticism. Peter L. Jr. a ideia do Nobre Selvagem poderia sér elucidada de modo significativo se a concebêssemos como um momento na história geral do fetichismo do qual participaram desde o começo da humanidade tanto o homem civilizado quanto o primitivo. Pois. Burke. é provável que o tema do Nobre Selvagem fique confinado àquelas notas de rodapé reservadas a assuntos a respeito dos quais os eruditos já não discordam. Um fetiche é todo objeto natural que se acredita dotado de um poder mágico ou espiritual. poderíamos obter uma percepção relativamente nova de sua função no pensamento do século XVIII se enfatizássemos o seu caráter fetichista. . No entanto. assim como o conceito de Homem Selvagem. e até sobrenaturais. As funções do tema do Nobre Selvagem nos debates ideológicos da época são bastante conhecidas. aquelas partes da humanidade às quais. se isso for verdade. como uma fixação mais na forma de uma coisa que no seu conteúdo. a tendência é dotar de poderes mágicos. se está negando qualquer direito ao título de humano. na expressão de John G. aqui. Maximillian E. por sua vez. Novak. Defino o fetichismo. ou mais na parte de uma coisa que no seu todo. uma tendência a fetichizar os supostos detentores desses poderes. que se aplica a todo objeto ou parte do corpo tomados 128 Ver os ensaios de Gary B. Em tal situação. utilizarei o termo fetiche em três sentidos129. visto que esses conceitos são inerentemente instáveis e não apresentam qualquer referente in» contestável. o conceito de Nobre Selvagem tem todos os atributos de um fetiche. As pesquisas de arquivo com certeza não exumarão novos exemplos do uso do tema na literatura imaginativa e política desde a Renascença até o período romântico e além. 1972). ed. por exemplo. mas as chances de ampliar de algum modo historicamente significativo o nosso entendimento do conceito poderiam parecer remotas. Na minha análise do caráter fetichista do tema do Nobre Selvagem.

por exemplo. falaciosas. Todavia. ou grupo. E é aqui que a própria noção de absurdo deve ser associada ao conceito de tabu.. que lhes confere 130 Os filósofos gastam um bom tempo em expor as expressões metafóricas tomadas literalmente e hipostatizadas como bases de sistemas metafísicos. em afirmar que a metáfora que reside no coração da metafísica mecanicista é tanto um “engano” crucial quanto o gerador de um conjunto de “mitos”. num equívoco (a confusão dos “meios” de troca [dinheiro] com as coisas a serem trocadas [mercadorias com um determinado valor de uso]) e. porque se baseia. que está preocupado. Columbia. ambos os tipos de fetichismo estão por demais difundidos para que os conside- remos patológicos em si mesmos. Pois. com o antropólogo e o psicólogo. no fim. uma falácia da lógica ou uma falha da razão. Por isso. . em segundo lugar. C. devoção extravagante ou irracional e deslocamento patológico do interesse e satisfação libidinosos para um fetiche. ou das qualidades de um todo às suas partes. a crença na ideia de um Nobre Selvagem era mágica. revelava o tipo de deslocamento patológico do interesse libidinoso que normalmente associamos às formas de racismo que. na medida em que foram alguma vez tomadas literalmente. repressoras. dado o contexto histórico em que foi elaborada como uma suposta descrição de um tipo de humanidade. nenhuma crença é inerentemente absurda se fornecer a base para um funcionamento adequado das práticas que nela se baseiam. no âmbito da economia total da cultura em que é aceita. Marx chama de absurda a “forma de valor dinheiro”. 1970). indivíduo. rev. espero mostrar que a própria noção de Nobre Selvagem era fetichista.. The Myth of Metapkor (New Haven e London. dependem da ideia de uma “humanidade selvagem”. Ver. “desarrazoada”. nocivas. e são por demais consentâneos com os modos sensatos de pensamento para que os reputemos inerentemente viciosos ou perniciosos. o fetichismo é ao mesmo tempo um tipo de crença. se é opressiva ou terapeuticamente eficaz. na confusão de uma “forma” de troca (mercadorias) com o “conteúdo” das coisas trocadas (seu valor-trabalho.. desumanizadoras etc. pode ser um equívoco. Uma prática cultural ou uma crença só pode ser declarada absurda dentro do horizonte de expectativas demarcado por aquelas práticas e crenças que a tornariam “impensável” ou. Assim considerado. do que em expor o erro de lógica ou de racionalidade que lhe é subjacente. Colin M. expressões como “Homem Selvagem” e “Nobre Selvagem” são metáforas. Do ponto de vista de uma ciência social verdadeiramente objetiva. Mas o fato é que a cultura humana não pode prescindir dessas metáforas. embora muitas práticas culturais possam revelar-se errôneas. quando pensável. ineficazes. elas se revelam não só funcionalmente úteis como também necessárias para o bem-estar de grupos sociais. que em verdade não há nada de inerentemente “absurdo” em cada um desses tipos de fetichismo. podem ser consideradas simplesmente erros. 0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 199 obsessivamente (catexados) como uma fonte exclusiva de satisfação libidinosa. O cientista social está muito interessado em saber como uma determinada prática fetichista funciona numa dada cultura. para se justificarem. Por exemplo. que assume o aspecto de um “fetichismo do ouro”. e quando precisamos identificar coisas que não se enquadram nos sistemas convencionais de classificação. era extravagante e irracional no tipo de devoção que pretensamente despertava. em primeiro lugar. e. devemos concluir. enganos ou falácias130. S. só podem ser consideradas absurdas na medida em que violam algum tabu sobre o que é pensável ou viável dentro de um dado quadro de referência moral. e. Ao examinar o tema do Nobre Selvagem como fetiche. a atribuição de poderes espirituais a objetos inanimados. Turbayne. ed. Desses três usos extraímos os três sentidos do termo fetichismo aqui utilizados: crença em fetiches mágicos. Do ponto de vista científico. entre outras coisas. As metáforas são fundamentalmente necessárias quando uma cultura ou grupo social depara com fenômenos que fraudam expectativas normais ou experiências cotidianas ou colidem com elas. um tipo de devoção e um tipo de posição ou postura psicológica. Certamente. 1962. Quer dizer.

mas que eu chamaria lógica da metáfora. a alienação implícita na estrutura desse uso e a identificação. Freud e Lévi- Strauss quanto deve a Marx. transformados ou destruídos) do modo que seus conquistadores (ou proprietários) desejassem. simplesmente no fato de que ela reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios produtos de trabalho. como propriedades naturais sociais dessas coisas e. O fetichismo do ouro é absurdo porque leva a uma busca interminável da mais “inútil200das mercadorias” e à negaçãoTRÓPICOS do “valor” inerente à mais nobre faculdade do DO DISCURSO homem. Marx expôs uma lógica do pensamento dos homens sobre a mercadoria. o mesmo acontece com os produtos da mão humana. o misterioso da forma mercadoria consiste. o capitalismo 131. dos nativos do Novo Mundo com objetos naturais (ou seja. . No processo dessa explicação. No mundo das mercadorias. aos seus olhos... dotadas de vida própria. A isso denomino o fetichismo cue adere aos produtos do trabalho”. Antes de analisar a lógica da troca de mercadorias. que este não é um exercício especificamente marxista. Estamos preocupados apenas com uma determinada relação sociai entre os próprios homens. que. Hegel. assume aqui a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas.edição alemã por Eden Paul e Cedar Pau! (New York. Proponho tentar quase a mesma coisa com a ideia do tema do Nobre Selvagem. por isso. os produtos do cérebro humano parecem formas independentes. portanto. coisas transcendentais ou sociais que são ao mesmo tempo perceptíveis por nossos sentidos. intitulado “Mercadorias”. entre objetos. pp. reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles. que abre O Capital. sua Jesumanização) a serem usados (consumidos. Marx escreve: “Assim. . mas um exercício dialético em geral. afinal de contas. ainda podemos ver na sua explicação do fetichismo do ouro um modelo particularmente apropriado para a nossa própria explicação da concepção do Homem Selvagem na forma como se desenvolveu no período barroco. os moralistas têm feito corriqueiramente desde a época de Hesíodo e os Profetas) do que em explicar a lógica dessa crença “absurda” e as práticas “viciosas” que ela engendrou ou justificou. entretanto. Marx aplicou nada menos que uma lógica que denominou “dialética”. Apenas este aplicou com mais constância a lógica da metáfora às estruturas materiais da sociedade. ! 929). 45*46. que para ele era a chave para o entendimento de todas as formas de fetichismo e daquele processo de alienação pelo qual os homens se distanciaram psicologicamente das coisas que lhes estavam ontologicamente mais próximas e transformaram em ídolos as que estavam mais afastadas da sua própria natureza de homens. escondida ou reprimida. temos de penetrar no mundo nebuloso da religião. Também não nos deveria surpreender a idolatração dos nativos implícita no conceito de Nobre Selvagem. de modo a demonstrar como aquilo que começara na forma de uma equação perfeitamente compreensível e razoável de uma coisa com outra terminou no fetichismo do ouro. trad. sua caracterização pressupõe a validade absoluta da teoria do valor trabalho). estava menos preocupado em exprobrar o fetichismo do ouro (o que. porém. Marx. capazes de manter relações entre si e com os homens. Nesse mundo. Por isso. a sua capacidade de produzir por seu próprio trabalho mercadorias com valores de uso específicos. E quer aceitemos ou não como absurda a sua caracterização da teoria do valor dinheiro (de fato.seu valor de uso). Idem. Graças a essa transferência de qualidades. os produtos do trabalho se tornam mercadorias. do modo como se desenvolveu no período entre o final do século XV e o começo do século XVIII. 131 Ver o famoso capítulo. característico do sistema de troca mais superiormente avançado. A aplicação desse modelo requer apenas que reconheçamos os elementos de paradoxo presentes no uso do conceito. e que ele deve tanto a Vico. para encontrar uma analogia. da 4. Nietzsche. Quero ressaltar.

mente anômalas. o conceito de uma natureza especificamente humana só pode ser definido de maneira negativa. um cálculo para a 132 Citado em Lewis Hanke. no nível manifesto. a meu ver. o Sphera mundi de João de Holywood (1498) descreve os nativos da América como “de cor azulada e com cabeças quadradas”132. pelo menos. e raramente adoecem133. tanto os homens quanto as mulheres. Dentro dessa caracterização metafórica original dos nativos. O homem é o que o animal e o divino não são. ou cadeia. ela não mais poderia impedir a exploração dos últimos pelos primeiros. Essa lógica. por obra da graça divina sobre uma “alma” específica da espécie. semelhantes a Deus). pp. a atribuição a ele de poderes sobre-humanos (isto é. mas possuem todas as coisas em comum.. repr. Conco. Da mesma forma.. Mesmo que tenha estendido a esperança de redenção a qualquer humanidade degradada como essa. 1959. sem rei e sein governo.. Isso pode ser. e cada qual é o seu próprio senhor. E comem uns aos outros. nos comentadores europeus. desenvolve a relação entre desejo e a acessibilidade dos objetos desejados. . É significativo. é um desejo maculado de horror e visto com desprazer. e ein tudo isso não há norma alguma.. Por exemplo. uma projeção de desejos reprimidos na vida dos nativos (como sugerem as referências à saúde e à longevidade). Pois a descrição contém nada menos que cinco referências a transgressões de tabus considerados invioláveis pelos europeus da época: nudez. supostamente presente mesmo no mais depravado dos seres humanos. que essa idolatração dos nativos do Novo Mundo tenha ocorrido somente depois que fora decidido o conflito entre os europeus e os nativos e quando. p.. Ind. por seu turno. temos os dois momentos necessários para a projeção dos pólos negativo e positivo da dialética do feti- chismo que nos anos posteriores se separarão em ideais conflitantes: o Homem Selvagem e o Nobre Selvagem. Desse ângulo. mas. a imprecisão da definição de “humanidade” que gerou a ambiguidade na avaliação original da “natureza” dos habitantes das Américas. se essa descrição dos americanos nativos é. por sua vez. Tal é. a legenda de uma gravura de 1505 descreve os nativos em termos que Hanke chama “fantásticos”: Eles andam nus. o cristianismo forneceu a base da crença na possibilidade de uma humanidade asselvajada quando sugeriu que os homens poderiam degradar ao estado animal neste mundo por meio do pecado.. O cristianismo consolidou essa ideia da natureza “mediana” do homem com a doutrina da possibilidade de os homens se tornarem deuses (ou. mesmo que tenha restringido a realização desta possibilidade ao mundo que está por vir. um sonho. tomista e neoplatônica do homem enquanto ocupante dos degraus intermediários da escala. se for assim. Sustento que essa dialética pode ser descrita em função da lógica da própria metáfora. essa descrição dos americanos nativos poderia ser considerada uma distorção causada pela projeção de um sonho de inocência edênica no conhecimento fragmentário do Novo Mundo disponível na época. Foi. 133 Idem. 0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 201 Essa noção representa tão-somente o retorno tardio da humanidade reprimida na caracterização oximorônica original do nativo como um Homem Selvagem. respectivamente. ainda assim o cristianismo pouco fez para encorajar a ideia de que uma verdadeira humanidade era viável fora do âmbito da Igreja ou de uma “civilização” geralmente definida como cristã. a meu ver.. portanto. pelo menos. a fetichização do Homem Selvagem. .. Vivem todos juntos. Tomam por esposa a quem primeiro encontram. promiscuidade sexual e canibalismo. Mas. antes de tudo.mitantemente. nobres) constitui apenas o estágio final da elaboração do paradoxo implícito na concepção de uma humanidade que é também selvagem. a qual requer. Vivem até cento e cinqüenta anos. Não têm propriedade particular. Ora. Essa fetichização do Homem Selvagem era inevitável porque. a síntese e substância das concepções aristotélica. 4-5. Bloomington. 1970). do ser. Aristotle and lhe American Indiunx: A Study in Race Prejudica in the Modcrn World (Chicago. . 4. As primeiras descrições dos nativos americanos são caracteristica. anomia. comunhão da propriedade. no nível latente ou figurativo ela tem todos os elementos de um pesadelo.

7. ed. ou eram uma raça de homens degenerados (descendentes das tribos perdidas de Israel. O fato de certas tribos do 134 Ver Cap. promiscuidade sexual. “The Wild Man’s Pedigree: Scientific Method and Racial Antropology”. de outro. Juan Ginés de Sepúlveda. Segundo Lineu. ao criticar a política imperial espanhola em 1519. A invocação da autoridade de Aristóteles pelo opositor de Las Casas. TRÓPICOS canibalismo. acima. numa “coisa” a ser tratada conforme o exigisse a necessidade. Nash. 266-67. 17. e se algum deles morresse na estrada pouca coisa se perderia” 136. alegre.. 27. The Wild Man Within. conseqüentemente. entre os quais ponteavam o canibalismo e o incesto137. acusava que os nativos estavam sendo tratados “exatamente como se. . pp. preguiçoso. saúde. passividade. antes. arrogante e ganancioso” e. foi desde o começo uma justificativa ideológica para as práticas terroristas supostamente necessárias à pacificação do Novo Mundo.um “outro” ontológico ou “oposto” aos homens “normais” . rev. e dos “monstros". desmazelado" e. tudo isso combinado com uma preo. Aristotle and the American Indians.46-47. The Wild Man Within. para justificar o status de um “escravo natural” dado ao índio. ou uma raça de homens destituídos de razão e de senso moral graças aos efeitos de um clima rigoroso) 134. que o antecede tanto no tempo quanto na lógica da dialética.cupação compulsiva com as almas dos nativos . entre uma humanidade normal (gentil.e. era que se explodisse o mito de uma super-hu. livre e de cor vermelha)135. havia a “gravidade dos pecados que os índios haviam cometido.. acreditava-se antes.nidade física. 135 Ver John G. num “objeto” . Burke. Jeremy Moyle (Pittsburgh. o asiático é “austero. Registramos as anomalias contidas nos primeiros relatos dos nativos e os paradoxos implícitos nas primeiras descrições de suas vidas: embora violem todos os tabus que deveriam tê-los tornado “imundos” e degenerados. evidentemente. 71. Estamos interessados. em Dudley e Novak. na dialética ideológica que gerou o Nobre Selvagem idealizado com base no mito do Homem Selvagem. 137 Ibid. 136 Citado em Hanke. contudo. ursos ou macacos). para que a teoria acompanhasse a prática e a crença. fossem pedaços de madeira que poderiam ser cortados das árvores e transportados para fins de construção.determinação do seu sentido. dos nativos da América (e de outros lugares). incesto. em Dudley e Novak. As quatro raças assim diferenciadas são. O estudo definitivo das atitudes européias para com o Novo Mundo e os seus habitantes deve ser encontrado em Antonello Gerhi. DO DISCURSO violência. Gary B. “negro”. p. 41. 1973). Em primeiro lugar. decorosa e de cor branca) e uma anormal (obstinada. Ouro. “The Image of the Indian in the Southern Colonial Mind”. Essa oposição é suficiente para transformar o nativo. e mais importante. Las Casas o percebeu muito bem quando. ao passo que o africano é “matreiro. e ampl. com o caráter de oposição. “amarelo”. mas a prova que este aduzia na defesa das suas ideias é instrutiva. 77. inteligente.são esses os temas daqueles debates do Homem Selvagem que interagem com o tratamento real dos nativos para produzir o fetiche do Nobre Selvagem. 56-57. pp. poder-se-ia aventar uma destas duas possibilidades: ou os selvagens eram uma raça de superanimais (semelhantes a cães. Já é bastante conhecida. Qualquer que fosse o caminho tomado pelo argumento. ou como rebanhos de carneiros ou qualquer outra espécie de animais que poderiam ser deslocados de um lugar para outro indiscriminadamente. longevidade. doença. o que explicaria sua transgressão dos tabus humanos e sua suposta superioridade física em relação aos homens.manidade física. p. de um lado. A combinação aqui é entre depravação moral e um tipo de super- huma. evidentemente. a consciência ou o desejo. A coroa espanhola depois do debate de Valladolid em 1550- 1551 negou apoio oficial às opiniões de Sepúlveda. Aristotle and the American Indianx. O que se requeria antes de tudo. tinha como efeito estabelecer uma distinção. por parte do europeu. Para tanto. e Hanke. designadas com o título de “Homens” no sistema de Lineu e se distinguem dos homens “selvagens”. 1750-1900. Não precisamos recapitular neste ensaio a saga das espoliações.. pp. sobretudo sua idolatria e seus pecados contra a natureza”. trad. de um ser meramente exótico descrito nas caracterizações mais antigas. The Dispute of the New World: The History ofa Polemic. os nativos aparentemente desfrutam dos atributos que.202 terra. só possuíam os patriarcas do Antigo Testamento: saúde robusta e longevidade.

a imagem de uma escala ordenada verticalmente. uma alma humana reconhecível. O retorno da suspeita reprimida de que os nativos que estavam sendo brutalizados compartilhavam de fato a humanidade com os seus brutalizadores é a motivação dos longos debates sobre a questão de saber se os nativos possuem. está subentendido). uma distinção que apenas justapõe dois modos de vida encontrados universalmente. O debate. Contudo. O argumento do “escravo natural” gira em torno do problema dos talentos. Essa instabilidade conceituai é o outro lado do panteísmo implícito em todas essas doutrinas neoplatônicas. apenas exacerbava as ansiedades manifestamente sexuais dos europeus. a distinção implícita é entre bárbaros e habitantes da cidade. ou alguma fonte comum da qual derivam todas as criaturas assim dispersas. hierárquica. elas não são determináveis exclusivamente pelo que se poderia chamar prova “empírica”. zonas fixas e nômades). A ambiguidade do conceito de uma essência espiritual e a instabilidade de qualquer tentativa de estabelecer distinções definitivas com base na . capazes de estar presentes por trás ou dentro de aparências). Mas a distinção estabelecida entre “alma humana” e “alma animal” é uma distinção vertical. ou uma causa única da qual todas elas são efeitos. são aspectos idênticos do idílio de posse irrestrita (quer de pessoas quer da propriedade) e pressupõem uma desejabilidade da coisa a possuir. não entre dois modos de vida que poderiam existir lado a lado. Alguém poderia dizer que tal distinção é horizontal. a necessidade de destruir o que não se pode consumir. inclusive pelo homem. então todas elas devem participar de algum modo da essência divina. ou seja. Aqui. dever-se-ia observar que o problema em debate se relaciona mais com essências ou qualidades que com atributos ou comportamento. Isso quer dizer que todas as criaturas são regidas e protegidas pela lei adequada à plena realização dos seus atributos específicos da espécie . que essas essências ou qualidades são consideradas espirituais (portanto. evidentemente. portanto. esclarece muito mais a confusão reinante na mente dos europeus sobre a natureza da sua própria humanidade do que a natureza dos nativos (o que. são sublimações de um idílio de consumo irrestrito. ou hierarquia. O consumo e a destruição. a suposição de que a coisa desejada se ainolde à satisfação da pessoa que a deseja. e a sua alternativa. uma distinção definitiva entre nativos e homens “normais”. Antes de tudo. e que. E essa suposição da desejabilidade da coisa desejada é a base da relação dialética entre senhor e servo que permeia a patologia psicossocial de todos os sistemas opressores. em última análise. reveladas do modo mais imediato no terror que tinham (ou nas fantasias que faziam) das práticas incestuosas e canibalísticas. com base nela. habilidades ou suposta capacidade dos nativos para agirem de maneira autônoma no mundo. Essas fantasias. em seus aspectos e comportamento supostamente animais. podemos supor. uma meta comum para a qual todas elas tendem. por conseguinte. para a per- cepção das qualidades comuns partilhadas não apenas por nativos e europeus mas também pela natureza animal e humana em geral". somente para propósitos consoantes com a lei que governa o todo e as suas partes. terras semeadas e de estepe. 0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 203 Novo Mundo estarem organizadas segundo linhas matrilineares. coloca o indivíduo numa situação de escolha entre esses dois modos de vida e aceita a força como a forma definitiva de mediação nos casos em que os dois modos entram em conflito. pois pressupõe uma matéria ou essência comum compartilhada pelas várias criaturas dispersas ao longo de suas categorias. por sua vez.e podem ser usadas por outras criaturas. A metafísica da ideia de cadeia-do-ser torna instável qualquer tentativa de estabelecer. é inerentemente ambígua. se for executada rigorosamente. mas entre dois estados de ser que ocupam uma posição superior e inferior numa escala vertical ou cadeia do ser. é de fato dirigida. Toda tentativa de estabelecer tal distinção. em vez de patrilineares. na medida em que distingue. uma vez que distingue entre “pessoas internas” e “externas” a um plano lateral de ser (a cidade e a floresta. ou as atitudes para com os nativos e as crenças a seu respeito que os europeus mantinham. sem destruir ou ameaçar a existência dos homens “civilizados”. Se todas as criaturas derivam de Deus e aspiram a retornar a Ele. oral e genital.

A teoria do monstro criada por essa tese teve o seu defensor mais entusiasta em Cornelius de Pauw139. nem a maneira como poderiam antecipar teorias científicas posteriores. Ora.TRÓPICOS muito DOtempo depois que a teoria aristotélica do DISCURSO escravo natural e a teoria neoplatônica da inferioridade ontológica haviam cumprido o seu curso138. De Pauw transforma a degeneração em monstruosidade. Tanto as concepções aristotélicas quanto as ideias neo.noção de realidade de uma cadeia-do-ser podem explicar a duradoura popularidade da tese de degeneração 204 mais puramente fisicalista. Buffon se limita a caracterizar os nativos da América como degenerados. Entretanto. o que significa que as combinações genéticas podem ser classificadas de acordo com a capacidade de sobrevivência das raças resultantes. Com base na estatura. é o produto de uma mistura de tipos diferentes em relação à espécie. porque significa o advento de um quarto140 momento na história das relações das raças no período entre a Renascença e o final do século XVIII. O uso do termo pacificação para designar políticas e práticas de genocídio é importante. cujos argumentos partiam da pressuposição dos efeitos deletérios do ambiente do Novo Mundo sobre os seus habitantes. enquanto as coisas podem ser associadas nessas duas modalidades de relação. . cujas partes permanecem distinguíveis quanto à espécie e cuja totalidade constitui uma anomalia. por referir-se não aos nativos. Segue-se naturalmente a transição do conceito de degeneração para o de monstruosidade . Esse novo momento é assinalado pela aceitação geral da ideia do Nobre Selvagem. 56-57.co. pp. 139 Ibid. a ideia do Nobre Selvagem estava presente tanto no pensamento clássico quanto no 138 Ver Getbi. em contrapartida. Obviamente. de outro. A tese da degeneração recebeu sua afirmação mais benigna . a meu ver. diria eu. Tanto a tese da degeneração quanto a do monstro recorrem a um critério/m. a guerra e o extermínio. de sorte que em qualquer sistema de relações imaginadas é necessário determinar qual modo deve ser considerado estrutural e qual modo deve ser funcional. para diferenciar entre os tipos de humanidade a serem classificados. De Pauw e até de Lineu concebem essa relação no modo da contiguidade. contínuo e contíguo. ele coloca todas elas na categoria dos “degenerados”. no vigor.platônicas sobre a relação entre o mundo animal e o humano se estabelecem no modo da continuidade. Buffon. nenhum dos dois modos é concebível sem o outro. Como mostraram Boas e outros. são inerentemente inferiores às suas equivalentes do Velho Mundo.e de maior autoridade - na obra de Buffon.. na configuração etc. a da continuidade gera decerto mais aceitação e mediação em grau do que a da contiguidade. mas os modos das relações que postulam entre o normal e o anormal. As teorias fisicalistas de Sepúlveda. e especificamente quantitativo.ou seja. Para Buffon. o monstro. e se o seu desejo é enfatizar as possibilidades conflituais ou conciliadoras da situação que está descrevendo. o momento da sua elevação por Las Casas e outros como espécies de homens infantis e hi. sobretudo na Europa. se ele deseja construir um sistema em que devam ser acentuadas ou as diferenças ou as semelhanças.. Os dois modos de relação. aos quais o título de humanidade plena fora negado pelos defensores da aristocracia como espécimes dessa humanidade “plena”.persensíveis. 5. mas à suposta “nobreza” dos seres humanos. inclusive a humana. o que se deve ressaltar aqui não é a validade ou a não-validade dessas diversas teorias.a ideia de que os atributos de determinada espécie resultam de uma mistura “inatural” de linhagens associada à forma incestuosa. de um lado. o momento das caracterizações originariam ente “anômalas” dos nativos. as espécies são geradas por fecundação cruzada de linhagens genéticas. o “irônico”. O advento do conceito de Nobre Selvagem e a sua elevação a um ideal para o conjunto da humanidade durante a segunda metade do século XVIII é o quarto momento do debate. Dispute of the New World. Geralmente. cap. 140 Os outros três “momentos” são. o degenerado é apenas um tipo inferior em relação à espécie. e o momento da sua degradação como “degenerados” e “monstros”. tanto animais quanto seres humanos. Buffon não tem dúvida de que todas as espécies da América. Evidentemente. essa determinação será ditada pelos interesses do classificador . também engendram possibilidades diferentes para a práxis: a atividade missionária e a conversão.

não do Homem Selvagem. considerando a teoria das classes que predominava na época. . A ideia de selvagem ignóbil é usada para justificar o comércio de escravos. Trata-se de uma ideia “absurda”. Diderot e Rousseau utilizam a ideia do Nobre Selvagem para criticar o sistema social europeu de privilégio. Não há contradição em “selvagem rude”. Certamente. ela não exerce efeito algum sobre o tratamento dos nativos ou sobre o modo pelo qual os nativos são vistos pelos seus opressores. a ideia do No^ bre Selvagem traz ao primeiro plano (ou cria) o seu oposto: isto é. Afigura-se em toda parte que a nobreza está sendo atacada. Palmer. o que nos revela alguma coisa sobre os interesses essencialmente nacionais dos seus adversários mais radicais. com base nas crenças da época. como Diderot e Rousseau. embora nunca com o entusiasmo que ca- racterizou o seu uso durante a segunda metade do século XVIII . assim como “civilidade” se opõe a “barbárie”141. que discute . de um lado. pelo menos sua dessemelhança essencial em relação aos povos europeus. Se o objetivo dos que esposavam a ideia de nobreza dos selvagens foi 141 Ver Robert R. o conceito assevera a nobreza do selvagem. porquanto se trata das mesmas palavras. a noção. é a função reprimida da ideia do Nobre Selvagem nos debates sociais do século XVIII que lhe confere o seu caráter fetichista. como o atestam os exemplos de Goldsmith. já que a ideia de nobreza (ou aristocracia) se opõe ao suposto estado selvagem e selvageria de outras ordens sociais. e dos seus efeitos. em relação à qual a própria noção de “nobreza” é uma contradição. vol. Desse ponto de vista. sobretudo à luz do fato de que a época da sua popularidade é posterior à solução da luta contra os nativos e surge numa época em que a contenda entre os europeus e os nativos já havia sido decidida em favor dos primeiros? Essa popularidade poderia ser atribuída certamente a sentimentos de culpa. pois o seu verdadeiro referente não são os selvagens do novo ou de qualquer outro mundo. Encarada dessa forma. 1760-1800. 66 e ss. porém todos eram conservadores políticos.e principalmente depois de Rousseau.i natureza problemática dos termos nobreza e aristocracia às vesperas da Revolução Francesa. De que modo explicaremos a popularidade dessa ideia na Europa. No entanto. mas antes para minar a ideia da nobreza em si. O Nobre Selvagem era um conceito destinado a ridicularizar a nobreza. Isto é. Isso é coerente com a lógica da concepção de um Homem Selvagem que. e foi revivida durante o Renascimento. a noção de Nobre Selvagem representa o estágio irônico na evolução do motivo do Homem Selvagem no pensamento europeu. Essa nobreza é afirmada em face das informações cada vez mais exatas acerca dos nativos do Novo Mundo (como as fornecidas não só pelos colonizadores na América mas também por exploradores como Cook). tão em voga nos círculos literários da Europa quanto o seu oposto142. The A#e of the Democrutic Revolulion: A Political History of Europe and America. não para dignificar o nativo. era diante das circunstâncias uma contradictio in adiectis. tanto para os que a esposam como ideal quanto para os que a rejeitam como ficção. 2 vols. nem todos os adversários da ideia do Nobre Selvagem eram racistas. mas quero sugerir outra possibilidade: a ideia do Nobre Selvagem é utilizada. o Nobre Selvagem é uma anomalia. 142 Dispute of the New World. (Princeton. 1-3. mas do “homem nobre”. cuja natureza fetichista é óbvia. 1959-64). ]. a noção de selvagem ignóbil. Johnson e Vòltaire. o que sugere. Que isto ocorre é fácil depreender da sua utilização. se não seu atraso. A anomalia do conceito está contida na ambiguidade do seu referente. de outro. mas a humanidade em geral. o conceito do Nobre Selvagem contraria. 0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 205 cristão. No nível literal. caps. e solapa. A própria noção de “homem” só é compreensível na medida em que se opõe a “selvagem” e aos vários sinônimos e cognatos desse termo. Porém. poder herdado e opressão política. Demais. e não a redimir o selvagem. a ideia do Nobre Selvagem representa não tanto uma elevação da ideia do nativo quanto um rebaixamento da ideia de nobreza. de modo que “selvagem rude” é um pleonasmo. os defensores da ideia do Nobre Selvagem. pp.

em suma. dado o testemunho escrito do atraso dos povos nativos. M. e trans- formados em grotescos objetos de medo e angústia. e o seu uso no debate social fetichista. De um lado. . 1973). De outro lado. de classificar. 150.obter um tratamento mais humano para os povos nativos. Classes Trabalhadoras e Classes Perigosas em Paris durante a Primeira Metade do Século X I X . eles são vistos como animais. Esse conceito de nobreza se acha implicitamente caracterizado como “selvagem” no nível figurativo da frase. o da própria nobreza143.ou. O referente oculto ou reprimido do conceito de Nobre Selvagem é. T. No entanto. pp. 0 recurso a critérios qualitativos como “bondade” e “nobreza” deve ser construído ironicamente. por seu turno. tem origem numa identificação da verdadeira humanidade com vinculação a uma classe social específica. à liberdade e à propriedade”. liegel‘s Philoxophy ofRight. o efeito do uso é estabelecer uma distinção entre os supostos iipos de humanidace cm bases visivelmente qualitativas. da divisibilidade da humanidade em partes qualitativamente diferentes. compreender e controlar as massas urbanas criadas pela industrialização se caracterizam pelo mesmo sentido de anomalia e pela mesma tendência ao fetichismo observados nas tentativas anteriores de compreender os nativos do Novo Mundo. Frank Jellinek (New York. Mas a melhoria do tratamento dos nativos não era uma consideração basilar daqueles que promoviam a ideia da sua nobreza. Poderiam imaginar que tal hierarquia se baseava no talento e na riqueza. ferozes e selvagens. 144 Louis Chevalier. compartilhada por ambos os lados dos debates sociais da época. trad. Chevalier mostra que as tentativas. pelo menos. e só é compreensível no contexto de um sistema social em que uma classe que reivindicou o privilégio aristocrático deixou de exibir as qualidades de liderança e de governo que originariamente justificavam a sua reivindicação do status de nobre. pois na basé da ideia do Nobre Selvagem estava a hipótese. do conservador e do radical. e não no nascimento. de aviltar a própria ideia de nobreza. a dotá-los de atributos divinos. do que o de “nobreza”? Por mais que as classes médias da Europa se indignassem com a aristocracia. deve-se conceber que a ideia de uma raça de selvagens que são nobres tinha o fito. há a tendência. mais sujeito a sentimentos de ambivalência. E não poderia ser de outra maneira. Em ambos os casos. no final do século XVIII. a ideia de nobreza ligada à noção de herança genética. Laboring Classes and Dangerous Classes in Paris during lhe First Half of the Nineteemh Century. por parte daqueles qüe queriam ver neles o tipo da humanidade do futuro. havia a tendência geral a negar o status de humanidade a essas novas classes de indigentes urbanos. uma tendência que alcança o seu apogeu na designação que Marx atribui ao proletariado. 1965). Na base da discussão da natureza das novas “classes perigosas” da sociedade de massa avulta uma angústia profunda e permanente quanto ao próprio conceito de humanidade. O objetivo principal dos radicais sociais da época era minar o próprio conceito de nobreza . um conceito que. por parte das classes superiores europeias (aristocráticas e burguesas). 362-372. Por mais que se ressentissem das prerrogativas herdadas pelos nobres. a ideia de herança genética estava implícita no conceito de uma “raça” de “selvagens nobres”. o que elas desejavam era antes compartilhar seus privilégios que destruir a distinção entre as partes “melhores” e “piores” da raça humana. e não em bases superficiais como a cor da pele. a do verdadeiro tipo de humanidade que ganhará o seu reino no final da história144. reivindicados parà as classes médias europeias da época. E havia conceito mais problemático. da parte do aristocrata e do burguês. Aquela parte das massas urbanas que Hegel chamou a “turba de indigentes”145 desempenha no pensamento europeu 143 Cabe notar que o “k bon souvage” francês tem as mesmas implicações ideológicas que o “noble savage" inglês analisado neste ensaio. 145 Georg Wilhelm Friedrich Hegel. trad. é claro. § 244. então teriam feito melhor se tivessem enfatizado 206 os atributos que eles compartilham com os seus congêneres europeus TRÓPICOS DO DISCURSO e se tivessem insistido nos direitos do nativo à “vida. E tais pressupostos é que tornaram absurdo o conceito de Nobre Selvagem. Que esse era de fato o caso foi amplamente documentado por Louis Chevalier em sua obra pioneira. Knox (Oxford. mas ainda pressupunham uma humanidade dividida em “ricos” e “pobres”. em geral eles ainda reverenciavam a ideia de uma hierarquia social. a fisionomia ou o status social. p. Como explicar essa contradição? Obviamente.

Deixem-me resumir: afirmei inicialmente que o próprio conceito de uma “humanidade selvagem” constituía uma contradição em termos e que. por parte dos europeus. Assim. a anomalia original das primeiras caracterizações dos nativos do Novo Mundo cedeu lugar a dois modos opostos e. e era esse modo de rela- . dos colonizadores europeus do Novo Mundo bastava para situar essa ambiguidade no primeiro plano da consciência. as “classes perigosas” do Velho Mundo definem as limitações do conceito geral de “humanidade” que inspirou e justificou a espoliação. concebia-se que os nativos apresentavam uma continuidade em relação àquela humanidade de que se gabavam os europeus. essa contradição refletia uma ambiguidade acerca da natureza dessa “humanidade” de que tanto se orgulhavam os europeus do começo da era moderna. contraditórios de conceber a relação entre os europeus e os nativos. no aspecto exterior e no modo de vida. de qualquer grupo humano que surgisse no caminho de sua expansão e a sua necessidade de destruir aquilo que não poderiam consumir. 0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 207 do século XIX o mesmo papel que os nativos do Novo Mundo desempenhavam na sua congênere do século XVIII. Assim como os “homens ferozes” do Novo Mundo. em contrapartida. De um lado. A proximidade de povos inteiros que diferiam. em última análise.

nos séculos XVII e XVIII. tão logo as classes médias estabeleceram o seu direito a reivindicar uma humanidade idêntica à que antes era reivindicada somente pela nobreza. elevando a forma ou a parte ao status de um conteúdo ou de uma essência do todo. na consciência europeia dessa época era a tendência a fetichizar o tipo europeu de humanidade como a única forma possível que a humanidade em geral poderia assumir. Entretanto. Que as coisas eram assim vê-se no fato de que. essencialmente diferente da raça europeia. esse fetichismo de raça logo se transformou numa outra forma.voz das classes emergentes necessitava de um conceito para exprimir ao mesmo tempo a sua rejeição das reivindicações de um privilégio por parte da nobreza e o desejo de privilégios semelhantes para elas próprias. ou o ato de tomar a parte pelo todo. se os nativos eram concebidos em continuidade com relação à humanidade de que os europeus reivindicavam ser os únicos detentores. Nesse contexto. em todo caso. De fato. çao que fundamentava a política de proselitismo e conversão. de inveja e ressentimento. pois ao mesmo tempo minava a reivindicação da nobreza de um status humano especial e estendia esse status ao conjunto da humanidade. a simples dessemelhança dos modos de vida dos nativos era suficiente para exacerbar o sentimento de angústia gerado pela ambiguidade do conceito de humanidade. Todavia. considerando-os simultaneamente formas monstruosas de humanidade e objetos qüintessenciais de desejo. voltaram-se imediatamente para a tarefa de desu. Ainda mais fundamental. o porta. DO DISCURSO representavam uma raça inferior da humanidade ou uma superior. era a pretensão da nobreza de representar o tipo mais elevado de humanidade. . Uma ambiguidade semelhante às relações subjacentes entre colonizador e nativo também estava presente nas discussões europeias acerca das relações da classe social. ou como apenas contíguos a essa humanidade. que forneceu as bases da maioria dos conflitos sociais verificados na Europa a partir da Revolução Francesa. e mais virulenta: o fetichismo de classe. Mas a atitude das classes emergentes da Europa do século XVIII para com as classes nobres era um misto de amor e ódio. e foi esse modo de relação que fundamentou e justificou as políticas de guerra e extermínio adotadas pelos europeus em todo o século XVII e na maior parte do século XVIII. essa extensão foi feita apenas em princípio. poder- se-ia conceber 208 que os nativos existiamTRÓPICOS apenas em contiguidade com os europeus. a reivindicação da nobreza não pretendia chegar aos nativos do Novo Mundo nem às classes mais baixas da Europa. Afirmei que o fetichismo é o ato de confundir a forma de uma coisa com o seu conteúdo. os europeus em geral haviam feito com os nativos do Novo Mundo. mas. Queriam para si mesmas o que a aristocracia afirmava ser o seu direito “natural”. O que a burguesia e o seu porta-voz atacavam. na sua crítica à nobreza. porém. os europeus tenderam a fetichizar os povos nativos com que entraram em contato. Daí os impulsos alternados para exterminar e redimir os povos nativos. Porém. onde o conceito de nobreza desempenhava o mesmo papel que desempenhava o conceito de humanidade nas discussões acerca das relações entre colonizador e nativo. O conceito do Nobre Selvagem servia perfeitamente às suas necessidades ideológicas.manizar as classes inferiores a elas da mesma forma que. Desde a Renascença até o final do século XVIII. mas apenas à burguesia. De outro lado.

0 TEMA DO NOBRE SELVAGEM COMO FETICHE 209 .

É a esta que os estudiosos normalmente se referem quando falam da obra de Vico e das maneiras pelas quais ele antecipou as teorias sociais de pensadores tão diversos quanto Hegel. De acordo com esse princípio. A fórmula em que esse princípio se expressou asseverava a “conversibilidade” do “verdadeiro” e do “fabricado”. 4 OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA A ESTRUTURA PROFUNDA D~E A CIÊNCIA NOVA A primeira edição de A Ciência Nova. Afirma ele que. não dispõem de qualquer meio para confirmar de forma definitiva as suas reivindicações com respeito ao conhecimento das suas estruturas e processos mais fundamentais. jamais poderão aspirar legitimamente ao total conhecimento dele. sendo incapazes de criar o mundo físico como Deus o criou. em princípio. os homens só podem conhecer aquilo que eles próprios fizeram ou que. Freud e Lévi-Strauss. foi publicada em 1725. de um lado. Nietzsche. a segunda e a terceira edições da obra. dadas à luz em 1730 e 1744. A reivindicação de originalidade por parte de Vico não pode ser posta seriamente em dúvida. Portanto. Na sua própria época. Dilthey. que veio a ser conhecida como a Segunda Ciência Nova. embora o grau em que ele antecipou e influenciou pensadores subsequentes provavelmente continuará a ser um tema de debate por algum tempo no futuro. ou o princípio do verum ipsum factum. ele fornece a Vico os meios de distinguir entre a potencialidade heurística das ciências da natureza física. da cultura e da sociedade. e as projetadas ciências da natureza humana. Contudo. pois. contrariamente aos carte- sianos e a alguns dos jusnaturalistas. são capazes de fazer. o conhecimento produzido pelos estudiosos dos fenômenos sociais . Como postulado auxiliar. na necessidade de um aparato conceituai distinto para a análise de fenômenos sociais e culturais a partir do que se poderia usar legitimamente para analisar os processos e estruturas da natureza física. respectivamente. de outro. essa originalidade consistia principalmente em sua insistência. embora os cientistas físicos possam aspirar a um tipo de conhecimento sobre o cosmo físico. de Giambattista Vico. Apenas Deus que fez o cosmo é capaz de ter o conhecimento perfeito das suas ações. o conhecimento gerado pelas ciências físicas sempre será mais ou menos provável e sempre in- completo enquanto verdade sobre o cosmo. eram tão diferentes da primeira que na verdade constituíam uma nova obra. Marx.

tanto social quanto natural. vem expressa no seu aforismo (Axioma LXIV da sua lista de princípios). “A ordem das ideias deve seguir a ordem das instituições” (Ciência Nova. a “ideologia”) fosse tão-só um reflexo dos modos de produção e das relações que mantêm com eles as diferentes classes . de autonomia em face das ciências físicas. Vico não acreditava que a atmosfera intelectual de uma época (ou. pois. por parte destas. é por sua vez determinada pelos modos de produção e pelos interesses do grupo que os controla). Mas as diferenças entre Vico e Marx são tão significativas para uma compreensão adequada do pensamento de Vico quanto as semelhanças entre eles. é em princípio totalmente passível de ser conhecido pelos homens. Esse aforismo e sua aplicação. Apesar de nosso conhecimento do mundo físico não nos permitir reproduzir esse mundo. como Durkheim e Weber. na religião. por Vico. de escrever poesia ou dramas do modo como eles o fizeram. pois. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 211 e culturais é um problema diferente. filosofia e até da ciência pouco mais que racionalizações retrospectivas das formas de mediação dos homens com o seu meio. de criar as ciências da sociedade e da cultura.ções suas próprias leis relacionais e proféticas. Ele considerava a cultura antes um produto da interação da consciência com o seu meio. Dessa forma. de ir buscar junto a eles as nossas leis e aplicá-las ao governo das nossas próprias vidas. o mundo dos artefatos sociais e culturais é uma criação dos próprios homens e. mais especificamente. diferentemente de muitos dos seus contemporâneos. e do seu direito de buscar nas suas próprias conceitua. à sua teoria da evolução cultural parecem antecipar o conceito marxista da relação entre a superestrutura de uma cultura (as formas publicamente sancionadas de consciência encarnadas na arte. para dizê-lo em termos marxistas. Uma segunda realização. na jurisprudência. climáticas. na filosofia e na literatura de uma época) e a práxis social dessa cultura (que. tentativas que resultaram afinal na fundação da antropologia. Mais importante ainda. métodos de análise e objetivos únicos. § 238). Vico não acreditava que a cultura fosse basicamente uma função das condições ambientais e. nas situações específicas em que eles se achavam. e de modo a fazer das principais formas de arte. O critério de conhecimento é a capacidade do conhecedor de produzir aquilo de que tem conhecimento. portanto. Há mais do que uma pequena justificativa para essa concepção da an- tecipação por Vico das teorias de Marx. com seus próprios objetos de estudo. pela qual Vico é alternadamente elogiado e condenado. da psicologia e da economia política como disciplinas autônomas. como quando demonstramos nossa capacidade de falar as línguas dos antigos gregos e romanos. Essa linha de pensamento parece fazer de Vico um precursor das tentativas de Hegel e de pensadores do final do século XIX. Vico parece merecer atenção como teórico das ciências sociais e como defensor das reivindicações. segundo Marx. nosso conhecimento dos artefatos sociais e culturais nos possibilita reproduzir aqueles artefatos. religião. diversamente do cosmo físico. da sociologia.

tal como as concebem. que não era. Aqui ele parece antecipar o conceito de transcendência por supressão que Hegel utilizou para explicar o fato de que. mais a Croce que a Paine. de falsa consciência. mas um poder reprodutivo e criador. mais à tradição vitalista que à tradição mecanicista. ativo e inventivo. servindo a fala de contrapeso do impulso para transformar ou suster os modos de relacionamento efetivamente concretizados numa dada sociedade ou cultura. Vico os caracteriza como a idade dos deuses. era intermediado pela consciência de um modo essencial. e principalmente pela fala. Em cada uma dessas idades. No Livro 4.212 TRÓPICOS DO DISCURSO na sociedade em questão. do mundo das coisas e das relações reais entre elas. Vico define a natureza humana como composta de corpo. para Vico. a capacidade da mente de interpretar de maneira errônea as verdadeiras relações entre o homem e seu mundo e de fazer desse erro a base de um projeto destinado a mudar. Para Vico. O relacionamento dos homens com os seus mundos. mais à linhagem idealista do pensamento europeu do século XIX que à materialista. revisar e reformar o mundo real. Com efeito. continua a desenvolver-se a despeito da natureza cíclica das vidas dos indivíduos que a possuem. que mais tarde Georg Lukács identificou como o calcanhar-de-aquiles da teoria marxista. que gozam dos benefícios da iluminação divina nos princípios que as governam [§ 948]). o social e o natural.radas pelas verdades redentoras da revelação cristã devem reproduzir. Vico parece assemelhar-se mais a Hegel que a Marx. a cultura em geral é cada vez mais progressiva e evolucionária no decorrer de muitos retornos cíclicos como esses. numa consciência. em suma. intitulado “O Curso [ou Ciclo] que Seguem as Nações”. Esse aparente proto-idealismo é talvez confirmado pela “filosofia da história” que Vico sistematiza nos livros 4 e 5 da Ciência Nova. a cultura humana. como para Hegel. apenas uma representação verbal do mundo da práxis. Vico expõe o que chama a “história eterna ideal” que todas as nações (ou culturas) não-inspi. Vico antecipou a noção. os homens estabelecem uma relação específica com a natureza. passando por um período de maturidade. em cada época. intitulado “O Recurso [ou Reciclo] das Instituições Humanas que Tomam as Nações ao Ressurgir”. No Livro 5. baseada em seus conceitos de mundo natural e social em cada época e refletida nos tipos de instituições que constroem para satisfazer às suas necessidades. em oposição ao impulso natural do organismo humano para continuar satisfeito com qualquer parcela de segurança e bem-estar que ele usufrua em consequência daqueles modos de relacionamento concretizados. tal como a consciência humana. uma reprodução. Os estágios pelos quais todas as culturas devem passar (salvo a hebraica e a cristã. até a idade adulta e à dissolução. A esse respeito. mente e fala (§ 1045). a dos heróis e a dos homens (§ 173). A primeira idade de uma cultura se caracteriza pelos tipos de relação que as . embora as sociedades individuais possam ser governadas por uma lei de ascensão e queda semelhante à que rege qualquer organismo. à proporção que avançam do nascimento e adolescência. mais a Bergson que a Comte. Vico se ocupa dos problemas do progresso mediante uma recapitulação do ciclo original.

de outro. traz consigo as sementes de sua própria destruição. na terceira idade. Essa é a idade da razão na história de uma cultura ou sociedade. uma idade muito mais de reflexão e conciliação que de poder e luta.usufruem às custas dos membros mais frágeis das suas comunidades. no segundo. Entretanto. ou. todos os aspectos da natureza. a idade dos homens. e de maneira a justificar a posição privilegiada que certos homens ou uma certa classe de homens ~ usualmente os mais poderosos. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 213 crianças mantêm com os seus mundos. pelo menos. levaram os homens a impor limites aos seus desejos. argumenta Vico. e os modos de organização planejados nessas idades são sempre derivados da consciência essencialmente religiosa dessas épocas de fé ingênua na experiência imediata. considerados portanto os mais sábios. a saber. e todos são impelidos a buscar prazeres particulares às expensas do bem público. pelo fato mesmo da sua natureza racional. um mundo sem fim. a humanidade efeti- vamente compartilhada por classes superiores e inferiores é afirmada como um direito pelas classes inferiores e se torna a base de um novo tipo de Estado. regido por leis escritas. crianças. mais bárbara do que a selvageria primitiva. Vico isenta a civilização cristã da lei do corso e ricorso. de um lado. ou espírito. o que resulta numa “segunda barbárie”. dotaram de um animus. base de qualquer comunidade saudável. porque nela os homens começaram a se identificar com as forças espirituais de que dotaram a natureza. fornecendo assim as condições para o começo de um novo ciclo e um novo reciclo. pois idades de reflexão e conciliação. ou se torna presa de inimigos externos. todo cidadão se torna cada vez mais consciente das origens exclusivamente humanas das instituições. Essa isenção ocorre com base . e entre o indivíduo privado e o bem público. e conceberam- se a si próprios regidos por esses produtos de suas próprias imaginações febris e venerando-os. os guardiães da sabedoria da raça . As instituições dessa idade refletem a natureza dilacerada da sociedade que elas sustêm: divisão de classes. e é uma idade que. Com isso. estão sujeitos à mediação de juizes em nome do conceito abstrato de justiça. no primeiro caso. insiste ele. pois nela os homens supostamente projetaram no mundo natural suas concepções de suas próprias naturezas passionais e sensuais. leis e costumes que ele supostamente reverencia como mentores da sua consciência. E a cultura mergulha espontaneamente na decadência. A segunda idade de uma cultura Vico chama de idade dos heróis. Daí ele chamar de idade dos deuses a primeira idade de uma cultura. que. é o destino inelutável de toda cultura (salvo a hebraica) que não é ajudada pela verdadeira fé. tendem inerentemente ao relativismo na moralidade e ao ceticismo na fé. A devoção. em épocas primitivas. Os conflitos entre as classes. visto que não é contida pelo medo e ignorância que. é minada. mulheres e estrangeiros. Em todas as suas obras. a sociedade ou a cultura passa para a sua fase de declínio e dissolução. disparidade de privilégios e responsabilidades entre fortes e fracos. a religião cristã. e uma ideologia que imputa às classes superiores os atributos dos deuses (dos quais os heróis supostamente descendem) e às inferiores os atributos das feras (das quais supostamente se originaram).

Vico resolveu os dois problemas de maneira semelhante a Hegel. A história desses povos não apresenta os problemas de interpretação que têm as histórias dos povos gentios (ou pagãos). Por terem o benefício do conhecimento direto do que Deus proibia aos homens. Assim como em Hegel. é apresentada como uma consequência do império da lei divina parcialmente conhecida. a “prosa” do mundo dos povos pagãos. A cultura grega é caracterizada como excepcional em virtude do brilhantismo de sua realização cultural. ou seja. E a cultura cristã é considerada uma consequência de uma revelação definitiva de Deus ao homem. se aproximaram bastante daquele a que chegaram os povos cristãos. e aos cristãos através de Jesus. A cultura hebraica. Assim. que. Vico é bastante explícito e bastante coerente na defesa dessa concepção da história dos povos eleitos do mundo. mas que foi alcançado sem o benefício da revelação direta do tipo desfrutado pelos hebreus e cristãos. o que não apenas o manteve na senda da justiça como lhe permitiu expandir-se e . traduziu essa distinção em termos espaciais e temporais. de tal modo que os três primeiros pudessem ser tratados como componentes da síntese realizada no quarto. Seus problemas de filósofo da história são dois: (1) explicar o nível de civilização alcançado pelos povos pagãos.214 TRÓPICOS DO DISCURSO numa distinção entre a revelação direta das relações apropriadas do homem com Deus. romano. os antigos hebreus e os cristãos possuíam regras pelas quais se pautarem na construção de comunidades que talvez escapassem ao destino dos gentios e realizassem a pouco e pouco a communiías ideal que prefiguraria. hebraica e cristã. em comparação. e a romana é considerada excepcional em virtude de sua longa duração e de suas realizações no âmbito da política e da lei. como um conjunto de proibições (especificamente contra a impureza e a divinação). Vico se viu forçado a criar dois tipos de leis históricas: o tipo intra- social (que governa a dinâmica dos diferentes tipos de sociedades) e o inter-social (que rege as relações estruturais entre os diferentes tipos de sociedades). cristão) convergente no tempo. a Grécia é a “poesia” e Roma. depois. o que a tornou mais justa do que qualquer coisa realizada pelos povos pagãos. de Moisés e dos Profetas. Esses dois problemas o conduzem a investigações em dois níveis de existência histórica: o das sociedades pagãs específicas e o do gênero global das sociedades. e (2) determinar a relação entre os ciclos de crescimento e declínio manifestados na história dos povos pagãos (e principalmente dos gregos e romanos) e a história progressiva dos hebreus e cristãos. a Cidade de Deus prometida aos eleitos no Céu (§ 948). para resolver os dois problemas acima discriminados. ou seja. ainda que não a representasse perfeitamente. hebraico. com a natureza e com o homem (outorgada aos hebreus através de Abraão. pagã. estabeleceu uma distinção qualitativa entre diferentes tipos de ordens sociais (pagã e cristã) e. pois os princípios que permitem interpretar a história das sociedades hebraica e cristã estão contidos nas mesmas Sagradas Escrituras que fornecem as bases e os princípios norteadores do seu governo. dos Apóstolos e da Igreja) e a revelação indireta da própria Criação. nos exemplos mais eminentes (os gregos e os romanos). sobre a qual se funda a sabedoria dos gentios. tornando o que era contíguo no espaço (grego.

sua utilidade como recurso heurístico é assaz questionável. entre os séculos V e XII. a verdadeira originalidade das reflexões históricas de Vico é totalmente obscurecida. Uma vez . de que a própria fala fornece a chave para a interpretação dos fenômenos culturais e das categorias pelas quais podem ser caracterizados os estágios evolutivos de uma dada cultura. Pois no âmago do pensamento de Vico reside um princípio de interpretação. no começo do Livro 2 da Ciência Nova. são significadas (§ 400). da qual se supõe algumas vezes tenha o próprio Hegel derivado. deve. na qual a relação verdadeira e correta entre poder e justiça não somente será conhecida mas também posta em prática para criar um Céu virtual na terra. Além disso. Aqui. Esse princípio deriva da percepção. uma imagem da Nova Jerusalém prometida nas Escrituras. e representação em prosa discursiva. as condições para o exercício da sua liberdade essencial. de outro. do final da Idade Média. após o quê o conjunto da história humana é assentado numa nova base.se unem e se fundem numa ordem social nova e definitivamente progressiva na Europa Ocidental depois da queda do império Romano. ou milenarista. Essas quatro correntes culturais . uma operação receptiva e passiva na qual se refletem “as coisas como elas são”. No tratamento de Vico. a lógica poética designa as formas pelas quais as coisas. antes. Mas. a distinção básica se dá entre expressão poética. que permite a antecipação de uma época na qual o mundo todo será regido por princípios cristãos de governo. para fazer uso de um termo revivido recentemente. a ponto de na própria época de Vico (graças às suas luzes) acenar com a promessa de abarcar o globo. Tendo em vista as semelhanças superficiais entre as tradições viquiana (e hegeliana) e joaquita (ou milenarista) da especulação meta-histórica. reduzida a um grau em que tem de receber menos crédito do que merece. de um lado. a primeira é uma força criativa e ativa graças à qual a consciência apreende o seu mundo. pelo menos. a segunda. do qual pensador algum na Europa antes de Hegel sequer vislumbrou a possibilidade. tal como são apreendidas pelo homem primitivo.grega. a significação dessa semelhança é obscura. original em Vico na forma que ele lhe deu. Na sua concepção. como Karl Lõwith observou em Mean. um “princípio hermenêutico”. ou. a partir da notória inadequação da linguagem ao seu objeto. a admitir uma semelhança com Hegel e com as concepções milenaristas do sentido da história humana. hebraica e cristã . tudo isso lembra Hegel e. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 215 florescer. A teoria da metáfora criada por Vico é desenvolvida no contexto de sua discussão da “lógica poética” e funciona como uma chave para essa discussão. ou. estimular e sancionar a fé [§ 376]). indica uma possível filiação do pensamento de Vico à tradição joaquita.ing of History. Qual é a natureza do poder criativo da linguagem? A resposta a essa pergunta não pode ser encontrada nas observações gerais de Vico sobre as funções da imaginação poética (como quando afirma que a função da grande poesia é inventar fábulas convenientes ao entendimento popular. Ora. O efeito desses dois aspectos do discurso sobre a consciência estabelece na própria consciência uma tensão que gera uma tendência do pensamento a transcender-se e a criar. romana. ser procurada na sua análise da natureza da metáfora.

era a sua “poesia”. Projetando as imagens das suas próprias naturezas sobre o mundo inanimado mais amplo . o céu e o mar fizeram “de toda a natureza um vasto corpo animado que sente paixão e efeitos” (§ 377). diz Vico. ou. e principalmente dos sentidos e paixões. assim como a poesia foi por nós considerada acima uma metafísica poética. é explicada na filosofia da linguagem que Vico desenvolve nesse capítulo de seu livro. assim também essa mesma poesia é considerada como lógica poética. como ele os chamou. difere da lógica dos homens modernos (ou. insensatas e horríveis”. devido à sua capacidade poética eles criaram. A primeira linguagem.uma consciência da natureza das coisas {ibid. pela qual as significa (§ 400). e afortiori da sociedade e da cultura do homem. o poder de “dar nomes” aos objetos. Essas identificações primitivas do mundo não-familiar e ameaçador de coisas naturais com os atributos familiares da natureza humana. Daí a identificação de Vico do sentido do logos grego com palavra e lógica. A lógica poética. lógica do homem primitivo. a ciência das coisas em todas as formas do seu ser. e o conhecimento modos de ação provê os princípios pelos quais devem ser interpreiaua. A sua “metafísica”. de dotá-los de atributos específicos. os meios mediante os quais ela atua. os verdadeiros conteúdos e sentidos dos mitos e fábulas legados a nós pelos povos primitivos. de distingui-los de outros objetos e. uma metafísica . Nos tempos primitivos. afirma Vico. na medida em que contempla as coisas em todas as formas do seu ser. Porém não basta interpretar esses mitos e fábulas como simples alegorias. Ora. nesse processo. . de modo que as “formas pelas quais as coisas são significadas” nos tempos primitivos devem ser sempre interpretadas como a projeção no não-familiar de atributos que parecem caracterizar o familiar. : asoes dessa consciência primitiva. A conexão entre metafísica. supõe Vico..a terra. Vico inicia o exame da lógica poética com uma distinção: O que é metafísica. Do mesmo modo.. o pensamento vai do familiar para o não-familiar e do concreto para o que chamaríamos abstrato. “não era uma linguagem de acordo com a natureza das coisas com as quais lidava. a ciência das formas pelas quais elas podem ser significadas. diz ele. mas um discurso fantástico [no sentido de imaginativo] que fazia uso de substâncias físicas dotadas de vida e em sua maioria imaginadas como divinas” (§ 401). é lógica na medida em que considera as coisas em todas as formas pelas quais podem ser significadas. homens reflexivos) pela direção que o pensamento adota na sua atribuição de características às coisas.216 TRÓPICOS DO DISCURSO que os primeiros homens eram “feras estúpidas. ou intuíram. e lógica. mas apenas “sentido e imaginado” (§ 375). As origens do conhecimento humano. portanto. “compreendiam” os objetos e processos desenvolvidos no mundo circundante e dentro de si mesmos. visto que a lógica dos homens primitivos não era outra coisa senão a operação mediante a qual eles “nomeavam” e. Desse modo. o seu conhecimento das coisas não era “racional e abstrato”.).v . serão encontradas nos poderes onomatéticos dos homens primitivos. na qual os poetas teológicos imaginavam que os corpos eram na maioria dos casos substâncias divinas. em outras palavras. a “lógica poética” é o termo de Vico que designa os modos de ação dessa consciência primitiva. é que são.

a identificação. as duas concepções da cadeia de raciocínio que Vico conhecia a partir de fontes clássicas. para o discurso literal e denotativo. não a uma estória. por parte do homem primitivo. Foi por esse tipo de projeção metafórica que “os primeiros poetas atribuíram aos corpos o ser de substâncias animadas. os “tópicos sensoriais” do homem primitivo (§§ 495-98). A diferença no . faz da metáfora um tipo de tropo primário (genérico). a fuga da linguagem metafórica e a transição para o uso de uma linguagem conscientemente figurativa (e. que não é a do silogismo nem a do sorites (§ 499). Dessa maneira. portanto. Pois as identificações metafóricas têm a sua própria lógica. a relação entre a linguagem e o mundo das coisas não é simplesmente reflexiva. metonímia e ironia (§ 404-9). O modo como Vico desenvolveu uma visão como essa só pode ser exposto depois que tivermos considerado a sua teoria dos tropos. mas a metáfora de um tipo específico. de modo que a sinédoque e a metonímia são consideradas refinamentos dela. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 217 pois a lógica poética. e a ironia é vista como seu oposto. dada a natureza metafórica original de seus conteúdos. É assim que a dialética do discurso figurativo (tropológico) em si se torna concebível como o modelo por meio do qual se pode explicar a evolução do homem da bestialidade à humanidade. o tropo “mais luminoso e. As representações linguísticas primitivas do mundo das coisas não são apenas imagens invertidas do mundo dadas na percepção sensorial. o termo “fábula” se refere. do trovão com a raiva. o mais necessário e frequente” é a metáfora. e o seu reconhecimento dela como o estado emocional que ele associava naturalmente a esse som pressupõem uma semelhança entre tipos de ruídos (o emitido por um homem furioso e o ouvido no trovão) e uma diferença entre eles (baseada no fato de que os seus volumes são desiguais). ou em prosa) se tornam possíveis pelo surgimento de uma sensibilidade irônica. baseadas na identificação do mundo exterior com os estados emocionais interiores. Assim. para dizer de outra forma. e desse modo as converteram em fábulas” (§ 404). sentido e paixão. Vico argumenta que todas as figuras de linguagem podem ser reduzidas a quatro modos ou tropos: metáfora. Segundo Vico. sinédoque. tem a sua própria dinâmica interior ou. desse modo. mas com uma diferença: Vico limita o sentido da operação mental indicada por cada tropo. mas. de modo a constituir um campo de percepção povoado de seres particulares (fantásticos). isto é. a teoria da transformação metafórica serve de modelo para uma teoria da autotransformação da consciência humana em história. como o seriam se fossem apenas um produto do pensamento que reflete sobre o mundo das coisas numa linguagem restrita a metáforas. Essa asserção baseia-se em Aristóteles. aquela em que “sentido e paixão” são atribuídos a “coisas insensíveis”. como poderíamos dizer. Ademais. a lógica das figuras de linguagem ou tropos. É preciso lembrar que. com capacidades medidas pelas suas próprias. Dessa forma. provocada pelo medo que tinha do som. por exemplo. dialética. a saber. já que a metáfora constitui a base de toda fábula (ou mito). mas a um tipo de operação nomeativa na qual o não-familiar é identificado com o familiar. antes. aqui. Ou. cada um dos quais está relacionado com algum aspecto de um eu apreendido por semelhança e por diferença.

então a própria noção de raiva na forma excepcional em que é apreendida torna-se um objeto ao qual outras qualidades podem ser atribuídas.). é uma fábula resumida” (§ 404) e de que as “mitologias são as linguagens adequadas das fábulas” (§ 403). que pode. cujos modos o próprio Vico classifica em função dos tropos da metonímia e da sinédoque. de outro. Aquilo que é mais proeminente no campo perceptual. A mais importante asserção de Vico é que essa classificação primitiva dos fenômenos por simples identificação metafórica do não-familiar cria uma tensão entre as coisas e as palavras usadas para as caracterizar que torna necessária a especificação adicional da natureza das coisas e torna possível o aperfeiçoamento adicional da linguagem por variação tropológica. ou seja. O aspecto desconhecido da coisa particular assim classificada provisoriamente como um estado emocional requer tentativas adicionais de classificação. aquilo que é experimentado mais vividamente. Tal é o sentido das afirmações de Vico de que “toda metáfora. isto é. Dessa forma. como o trovão. A raiva do trovão se torna particula. torna-se o sujeito de especificação adicional por dois tipos de redução tropológica: metoní- mia e sinédoque. bem como as bases para a atribuição a um processo natural. Vico supõe que se tenha formado a partir das ideias “mais particulares” e “mais sensíveis”. servir como sujeito de outros atributos do mundo natural similarmente apavorantes no seu aspecto.rizada em virtude tanto de sua identificação como um estado emocional quanto do reconhecimento nele de um grau excepcional de poder. A identificação do som com a raiva ao mesmo tempo o familiariza e desfamiliariza. torna o som reconhecível como um tipo específico de som e converte-o numa manifestação de um tipo especial de ação geradora de som. e as emoções e os seus vários estados. que é observado de maneira mais imediata tem particularidade. desconhecido na medida em que o nome dado a ele não explica alguns dos seus aspectos. fornecendo nesse caso a base para a presunção de que ele é criado por uma ação sobre-humana. .218 TRÓPICOS DO DISCURSO volume é tão decisiva quanto a semelhança no tom. O cabedal de nomes de que o homem primitivo dispunha para a carac- terização de coisas desconhecidas. Quando o trovão é partícularizado como raiva. por sua vez. Aquilo que é experimentado mais vividamente é o corpo e as suas várias partes. das qualidades do estado emocional que se lhe assemelham numa experiência humana. Uma vez que o trovão é identificado com a raiva. ou é uma manifestação dela. ou daqueles aspectos de coisas conhecidas que requeriam caracterização adicional. de um lado. Eles fornecem as referências para o tipo mais primitivo de identificação metafórica. o ato de dar nome ao trovão cria implicitamente o que Vico chama um conceito de classe imaginativo (genere fantastico).. Torna-se conhecido e desconhecido. conhecido na medida em que possui um nome. extensões alegóricas das características dos conceitos de classe (construídos por fabulação) às “diversas espécies ou aos diversos indivíduos compreendidos nos gêneros” (ibid. pois a diferença se faz necessária para que o homem primitivo identifique o som. especificamente o poder ou volume do som..

como num gênero filosófico. Vico dá vários exemplos: Assim. Mediante a metonímia do agente pelo ato. e a percebida .fornecem-lhe as bases de uma teoria da dinâmica linguística. o corpo e todas as suas partes. presume-se que o homem primitivo era capaz a princípio de falar apenas figurativamente e de pensar em alegorias. tão frequente no latim vulgar. o trovão se reveste de todas as características necessárias à sua conceituação como um ser poderoso. Pelas reduções metonímicas. se pode tratar. transformado numa particularidade com atributos específicos torna-se mais tarde passível de caracterização. um grande espírito com o qual. A ironia representa um estágio na evolução da consciência no qual a própria linguagem se tornou objeto de reflexão. obstinado e propositado. Os três tropos e as relações estruturais entre eles esboçadas acima são para Vico as categorias do que ele chama lógica poética. se deveu ao fato de que nas florestas só a cabeça de um homem pode ser vista à distância. uma ação causai. do mundo exterior. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 219 Mediante a metonímia da causa pelo efeito. assim também Vico entende que a sinédoque se move da ideia mais particular para a mais geral. criando assim as condições para a institucionalização da religião primitiva: a divinação (o esforço de determinar a vontade dos deuses) e o culto (a tentativa de apaziguá-los). Uma vez constituído esse ser . o espírito e todas as suas inclinações (§ 407). como uma unidade conceituai. O próprio termo “homem” é abstrato.ou seja. em si mesmo. O uso de “cabeça” em lugar de homem ou pessoa. ou representações denotativas. e as partes ao todo. como os únicos seres cuja mortalidade era sempre notória. “é formada de falsidade por força de uma reflexão que veste a máscara da verdade”. compreendendo. a mente e todas as suas faculdades. e que se pode servir e apaziguar. essa ação é personalizada. mas com a diferença de que. ele é dotado mais tarde dos atributos da atividade intencional. o que resulta em “elevar” os particulares a universais. exatamente de acordo com os mesmos princípios da linguagem figurativa (ou poética). afirma Vico. a ironia. diz Vico. só depois de reconhecer as disparidades entre essas representações figurativas da realidade e os objetos que elas pretendiam literalmente caracterizar é que se tornou possível o quarto tropo principal. O pensamento primitivo opera. o termo “mortais” era originária e propriamente aplicado apenas aos homens. os aspectos mais sensíveis da raiva do trovão se revestem dos atributos da ação. e de tomar essas figuras e alegorias como verdades literais. Assim como a metonímia representa um movimento de pensamento da ideia mais sensível para a menos sensível. Os três tropos até aqui distinguidos por Vico . segundo ele. enquanto o poeta moderno é capaz de distinguir entre linguagem figurativa e literal. por sua semelhança com o homem em alguns de seus atributos. a metonímia e a sinédoque . e de utilizar a primeira de maneira autoconsciente para lograr tipos específicos de efeitos poéticos. E. sendo o ato ele próprio o aspecto mais sensível dessa suposta ação causai. O que chamaríamos o efeito do trovão é apreendido pelo homem primitivo como sendo. de sorte que o abstrato é experimentado como uma realidade tangível ou concreta.a metáfora. A ironia. por sinédoque. E mediante a metonímia do sujeito pela forma e acidente (ou das características primárias pelas secundárias).

mas pressupõe pelo menos uma percepção tácita da disparidade entre uma afirmação e a realidade que ela supostamente representa. diz Vico. heróica e humana) e uma repetição do ciclo com a volta da barbárie quando essas culturas atingem o seu termo. constituindo assim a base de todas aquelas ciências que. as primeiras fábulas não poderiam fingir uma coisa falsa” (§ 408). a sua concepção tropológica do que ele chama lógica poética lhe serve não só como base de um método para interpretar os mitos. Eles se tornaram as bases da linguagem figurativa somente quando. ou mesmo se a sua caracterização dos tropos principais e da relação entre eles é válida. o tropo da ironia. O discurso irônico invoca implicitamente a distinção entre a elocução verdadeira e a falsa e. fábulas e lendas dos gregos e romanos. “com o desenvolvimento ulte. do primitivismo à civilização avançada . Dessa maneira. pois um enunciado irônico não é simplesmente uma afirmação sobre a realidade. foram inventadas palavras para significar formas ou gêneros abstratos que compreendem as suas espécies ou relacionam as partes com o seu todo” (ibid. Ora. poético e prosaico cada um com sua própria forma distintiva da natureza humana (religiosa. afirma Vico. constitui o limite das caracterizações figurativas da realidade. indica a distinção entre representação literal e figurativa. os tropos não devem ser considerados as “invenções engenhosas” de eras mais complexas da civilização avançada. Vale dizer. de fato. Convém lembrar que Vico postula três estágios pelos quais todas as culturas passam nos seus ciclos. que são sinceras por natureza. Desse modo. Pois. A ironia pressupõe a percepção da distinção entre verdade e falsidade. o ponto importante não é saber se a teoria da linguagem inventiva de Vico é correta. da possibilidade de representar erroneamente a realidade na linguagem e da diferença entre uma representação literal e uma figurativa. O discurso irônico pressupõe uma percepção da possibilidade de fingir. a metonímia e a sinédoque. como o são a metáfora. de mentir ou de dissimular.). na sua discussão dos corsi. e para relacioná-los com as instituições sociais das quais são reflexões ou racionalizações. esses três estágios . no qual a falsidade é apresentada como a verdade. “a ironia não poderia certamente ter começado antes do período da reflexão”. buscam conscientemente não apenas fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo mas também revelar o erro ou inadequação de qualquer caracterização figurativa dele. mas conhecer o papel que os tropos desempenham na sua teoria da consciência primitiva. as fábulas do homem primitivo deviam representar um relato verdadeiro da realidade. assim.rior da mente humana. pois. Portanto. De fato.religioso.220 TRÓPICOS DO DISCURSO inadequação da linguagem à plena representação do seu objeto veio a ser considerada como um problema. mas antes “os modos de expressão necessários” dos homens primitivos (§ 409). “já que os primeiros homens do mundo gentio tinham a simplicidade das crianças. mas também como um modelo pelo qual se possa descrever as características estruturais das antigas sociedades e como um esquema para relacionar as fases que elas atravessam em sua evolução. graças ao emprego de sentidos estipulados.

O que ê original é o uso que ele faz da análise tropológica da linguagem figurativa para a construção de um modelo graças ao qual ambos os es- tágios evolutivos da consciência possam ser definidos e as transições de um para o outro explicadas em termos de “modificações da mente humana”.dade à civilização. ESTÁGIO: Transição da metáfora à da metonímia à da sinédoque à metonímia sinédoque ironia Subfase nascimento e maturidade declínio e crescimento dissolução Tipo de poética heróica humana (§§ 916-18) natureza humana Tipo de sociedade teocrática aristocrática democrática (§§ 925-27) Tipo de linguagem muda heráldica articulada (§5 928-31) Tipo de lei divina contratual forense (§§ 937-40) Tipo de razão divina natural civil (§§ 947-51) Tipo de escrita hieroglífica imaginativa vulgar (§§ 932-35) Como sistema de classificação de culturas e sociedades. crescimento. e as afirmações poéticas. o esquema de Vico não é nem mais nem menos original que os de Aristóteles e de São Tomás de Aquino. maturidade. Para simplificar. de outro. ou. e o seu meio social diferente. Tampouco sua concepção da natureza humana como mente e corpo mediados pelo discurso é particularmente nova. síntese). como também a distinção entre os dois tipos de “lógica” exigidos para as afirmações científicas. de outro. decadência e dissolução. Montesquieu. Hegel. de um lado. nem sua concepção da relação entre a consciência. O quadro na página ao lado ilustrará a questão. de um lado. antítese. Mesmo o tipo de distinção que ele faz entre linguagem poética e linguagem prosaica fora antecipado por Aristóteles. para dar exemplos modernos. mas antes a dialética do intercâmbio entre a linguagem e a realidade que ela busca abranger. Essa é a dialética de Vico. Marx. a analogia enuncia as seguintes semelhanças genéricas entre as transições nas sociedades e as transformações tropológicas do discurso: . a Ciência Nova sustenta uma analogia estrita entre a dinâmica das transformações metafóricas na linguagem e as transformações da consciência e da sociedade. Como teoria do desenvolvimento histórico da natureza humana da bestiali. Spengler ou Toynbee. que não é uma dialética do silogismo (tese. os de Maquiavel. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 221 são depois subdivididos em subfases: nascimento. analisados na RELIGIOSO HERÓICO HUMANO RECAPITULAÇÃO discussão dos tropos principais. Mas as subfases se relacionam com os estágios pelos equivalentes conceituais das relações entre o homem e o seu mundo.

o pai. os homens eram nada e os deuses tudo. imaginando-os deuses. Na família primeva. Os homens desses primeiros tempos encontram-se totalmente alheados de si próprios em virtude de sua capacidade (puramente humana) de projeção metafórica das próprias naturezas na natureza ambiente. No primeiro estágio. Julgam-se efetivamente criaturas inferiores. forçando assim a formação das primeiras famílias. A transição das construções sinedóquicas para a afirmação irônica é análoga à transição das democracias regidas pela lei para as sociedades decadentes cujos membros não têm qualquer respeito pela lei. A transição que vai das principais identificações metafóricas mediante a nominação da realidade exterior em termos tirados das ideias mais particulares e mais sensíveis das partes do corpo e dos estados emocionais. e a metonímia.222 TRÓPICOS DO DISCURSO 1. graças à sua força física. de um lado. o culto e a divinação. até as reduções metonímicas é análoga à transição. 2. as enchentes os expulsam para cavernas altas nas escarpas das montanhas. atribuindo-lhes o poder que vêem manifestado nas ocorrências naturais cataclísmicas. característicos dos quatro tropos principais. dos gêneros a partir das espécies. as relações são. e a necessidade. . determinadas pela lei do mais forte. as relações são regidas pela lei do mais forte. o medo de poderes mais fortes do que o mais forte dos homens lança os fundamentos das primeiras práticas religiosas. que explora a própria família e a protege de outros predadores . com efeito. os mantêm nas cavernas. é análoga à transição da norma aristocrática para a norma democrática. as erupções vulcânicas.dos predadores animais e humanos. A transição das reduções metonímicas para as construções sinedóquicas do todo a partir das partes. Assim também. a ameaça de destruição física. e 3. a lascívia os impele a arrastar consigo as mulheres para coabitarem nas cavernas. Como diz Vico. de outro. mesmo que os deuses fossem meros produtos de sua imaginação e nada mais que projeções de suas próprias capacidades animais e humanas. servos ou escravos desses poderes superiores. Essa relação de alienação total é mediada por mudanças na consciência análogas às que se refletem nas supostas diferenças entre a metáfora simples. Essa ideia é sustentada pela crença de Vico segundo a qual o modo de organização social de um dado estágio de desenvolvimento cultural é análogo aos modos de relacionar os aspectos desconhecidos ou problemáticos da experiência humana com seus aspectos conhecidos ou cognitivamente seguros. O medo encerra os homens em cavernas. e assim por diante. como o trovão. o relâmpago. eles viviam com medo de si mesmos. o medo e a força são os princípios regentes (o medo que as crianças têm dos pais e o medo que os pais têm dos mortos). na sociedade. exatamente como entre as famílias e os deuses de cuja ira estão fugindo. dos aspectos de sua própria natureza que haviam projetado no mundo físico. da norma dos deuses para a norma das aristocracias. Em sua consciência. Dentro das famílias. ou seja. os homens projetam nos deuses as qualidades que percebem em si mesmos. e organizam a vida segundo essas funções. nas concepções dos primeiros homens sobre as relações entre as gerações. as enchentes e assim por diante.

E o mesmo se dá com as leis desse período. por seu tumo. da mesma forma que os primeiros homens trabalhavam como escravos para os deuses. Esse modo de práxis social. privilégios e responsabilidade dentro da família com base na força é acompanhada da extensão do poder dos patriarcas aos forasteiros expulsos das florestas e planícies abaixo. a forma e acidente da soberania são confundidos com a sua essência ou sujeito. a ordem social é mantida mediante a aceitação do fato de que é da natureza das coisas a ordem social dividida. o ato de governar é confundido com o governo. mas com os homens animais de cujo trabalho passam a depender cada vez mais. Isso cria uma divisão na humanidade socializada. são definidos como feras e tratados como tais. em troca da proteção dos patriarcas. E tudo isso de acordo com o princípio segundo o qual os mais vividos objetos da experiência. Isto é. Pois entre os mais fortes e mais poderosos e entre os mais fracos e mais servis. porque o estilo grandioso das epopeia s. de modo que. passem a exigir uma lei para regular as relações entre eles próprios e a nobreza. A consciência dessas sociedades heróicas é expressa no modo da iden- tificação metonímica. são identificados como capazes de exercer sobre os homens o mesmo tipo de poder que os pais exercem sobre as famílias. as diferenças radicais percebidas entre os deuses e os homens são conciliadas. do governo da . A transição da idade dos heróis para a idade dos homens. neste caso os homens mais fortes e aterradores do grupo. porque os membros da classe servil não têm o status de homens. são tratados como os dados primitivos da consciência a que todas as apreensões extrínsecas da existência humana se devem referir para a determinação de seu significado. não no modo da metáfora. Assim. característico da família. funções. onde a luta primeva de todos contra todos continua a eliminar os mais fracos ou a forçá-los a buscar a proteção das famílias estabelecidas nas cavernas acima. dá-se aos patriarcas uma oportunidade para a definição posterior de sua própria humanidade por exemplo negativo. Dessa forma. ao menos parcial e seletivamente. não em comparação com os deuses. Elas lidam em primeiro lugar com os privilégios da nobreza que as preservam com receio de que os plebeus. e ressalta as diferenças essenciais entre os heróis e os homens comuns. por analogia. a base para a atribuição de características específicas aos deuses. pela progressiva humanização dos deuses e pela progressiva divinização dos pais. tanto entre governantes quanto entre governados. graças à sua sabedoria religiosa e seu domínio da magia e do ritual. pressupõe a nobreza. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 223 e dos divinos e espirituais. simplesmente por saberem que existe uma lei. a descendência divina. as sociedades heróicas se formam das sociedades divinas. torna-se. É essencialmente redutiva. A diferenciação interna de condição. realizam tarefas servis para eles. mas principalmente no da metonímia. tanto na prática quanto na consciência. que têm como matéria os feitos dos “heróis” ou dos mais nobres dos homens. Os produtos culturais desse tipo de sociedade são similarmente metonímicos. e a idade dos deuses dá lugar à idade dos heróis (aristocracias). dos seus protagonistas. Esses refúgios formam a base dos socii que. e o efeito da soberania é confundido com a causa de ser ela o que é.

essa percepção investe a classe servil da humanidade que a nobreza originariamente reivindicara apenas para si. é efetivada. Quando se desviaram assim da ordem natural. Mas. afirma Vico. com o dever de liderar os outros e organizá-los em ordens que pudessem deter e intimidar os clientes que se rebelavam contra eles (§ 1100). a nobreza só poderia basear-se na reprodução. das qualidades originariamente atribuídas aos deuses e posteriormente reivindicadas pela nobreza. por uma mudança na consciência entre as ordens inferiores. que a instituição básica dessas comunidades deveria ser a religião salvaguardada dentro das ordens heróicas. assim. E entre os pais fez com que os mais animosos e mais robustos se erigissem em reis. e que através dessa religião todas as leis civis e instituições deveriam pertencer apenas aos heróis. na que foi a primeira lei agrária do mundo. de acordo com o estado da natureza de então. a providência levou os pais de famílias a se unirem naturalmente aos seus parentes em ordens contra os seus clientes. Vico descreve a transição da idade heróica para a idade humana da seguinte forma: Os pais de família. E a primeira de todas [as ordens civis]. tomando-se grandes pela religião e virtude dos seus ancestrais e mediante o labor dos seus clientes. os nobres deveriam reinar sobre os plebeus (que não contraíram matrimônio com tais solenidades) e. por parte dos plebeus. a que mais se aproximava da natureza: a de que por força da nobreza da espécie humana (pois. a plebe dos povos finalmente se deu conta das pretensões desse heroísmo e compreendeu que ela própria tinha a mesma natureza humana que os nobres. agora que terminaram os governos divinos (sob os quais as famílias haviam sido governadas por auspícios divinos) os heróis deviam governar em virtude da forma dos próprios governos heróicos. e. Essa longa passagem contém in nuce os princípios da filosofia da história de Vico. de conformidade com o princípio segundo o qual. E. Dessa forma [. a posse bonitária dos campos.. sexo. em que o surgimento da consciência sinedóquica é invocado explicitamente como a causa da luta de classes e como a base do governo popular que dela surge. usufruem leis que são justas porque são . desse modo. Para pacificara estes. Portanto. com o correr dos anos e cora o desenvolvimento muito maior da mente humana. a explicação da atribuição a si mesmos. a providência engendrou a ordem civil juntamente com as cidades. Mas. como sendo naturalmente mais digna por causa da idade. à maneira humana. apresentando imagens tanto das relações estruturais predominantes entre consciência e práticas sociais. igualmente representativa. a qual se baseara. nesse estado de coisas. começaram a violar as leis de proteção e a governar os clientes com dureza. Mas. a providência suscitou entre os nobres a ordem dos próprios país de famílias. quanto um esquema explicativo da transição de um estágio a outro. em razão de um heroísmo. É seguida por outra passagem. à proporção que declinava a ordem natural. Ela fornece. a identificação sempre é feita com respeito aos atributos apreendidos do modo mais sensível. Em tais repúblicas povos inteiros. na sinédoque primitiva. 224 TRÓPICOS DO DISCURSO aristocracia para o governo da lei que é concebida como mediadora entre as classes.. idade e virtude. mudança análoga à progressão do modo metonímico da percepção para o modo sinedóquico.. Surgiram assim as primeiras cidades baseadas nas ordens reinantes de nobres. A sinédoque primitiva toma a parte pelo todo ou a espécie pelo gênero. insistiu em entrar nas instituições civis das cidades. na [superioridade de] tipo. com esposas tomadas sob os auspícios divinos) e. visto que sem ordem (vale dizer. lhes concederam. conservando para si mesmos o domínio mais favorável ou soberano da família. que têm em comum o desejo de justiça. seus clientes se rebelaram..] nasceram as repúblicas populares. Pois a revolta da classe subserviente pressupõe a percepção da unidade do indivíduo com a espécie e da espécie com o gênero. que é a da justiça. portanto. como a nobreza se tomara agora uma dádiva da fortuna. sem Deus) a sociedade humana não pode subsistir nem por um instante.

afirma Vico. vivem como bestas selvagens numa funda solidão de espírito e de vontade. Quando essa condição se manifesta. para essa doença extrema. “no decorrer de longos séculos de barbárie. quais animais ferozes que ao menor desagrado se eriçam e vociferam. Os doutos estultos se punham a caluniar a verdade. Assim escreve Vico: Mas. da eloqüência para a erística. “Tudo isso foi ordenado pela providência”. o grifo é nosso). as cidades se transformam em “florestas e as florestas em antros e covis de homens”. e da oratória. da mesma forma esses cidadãos provocaram guerras civis nas suas repúblicas e as lançaram na desordem total. à medida que os Estados populares se corrompiam. assim também a visão de uma comunidade humana diferenciada internamente embora legalmente unificada é inerentemente destinada a promover um declínio da condição de virtude para a de vício. pronta a sustentar indiferentemente um ou outro dos lados opostos de um caso. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 225 boas para todos {§ 1101. A marca da corrupção aparece no “descenso” da filosofia para o ceticismo. concilia a justiça e a injustiça. como o dos tribunos da plebe em Roma. quando os cidadãos já não se contentavam em fazer da riqueza a base da ordem social.). Vico escreve: Mas se os povos estão apodrecendo nessa extrema doença civil. conclui Vico. de vez que cada qual segue o próprio prazer ou capricho (§ 1106). surge aquela consciência filosófica que busca conciliar a verdade e a falsidade. por abuso da eloqüência. e da mesma forma que a lei. “a fim de que. observa Vico. se os homens não tivessem virtude. assim como os ventos furiosos do sul agitavam o mar. que é a pior de todas as tiranias (§ 1102). O último “remédio” representa o caso em que a consciência irônica serve como lei reguladora das relações sociais. Dessa maneira. o seu remédio extremo. em que nem mesmo dois podem estar de acordo. o ócio eliminará as malnascidas sutilezas dos engenhos maliciosos que os transformaram em feras . a filosofia pudesse tornar as virtudes compreendidas na ideia delas. a Providência fornece um destes três tipos de remédio: convoca um homem forte (como Augusto). não sendo mais as ações virtuosas instigadas por sentimentos religiosos como antigamente. então a providência tem à mão. eles pelo menos pudessem envergonhar-se dos seus vícios” (ibid. lança sobre a sociedade decadente uma horda de conquistadores bárbaros. E. Daí surgir uma falsa eloqüência. caíram no vício de todo homem de pensar apenas nos seus interesses particulares e chegaram ao extremo da debilidade. Caíam no ceticismo. Mas esse tipo de consciência traz em si as sementes de sua própria dis- solução. esforçaram-se para transformá-la em instrumento de poder. não importa quantos sejam. e não podem concordar na escolha de um monarca interno. ou permite que a lógica interna da relação entre virtude e vício se resolva na autodestruição. Assim. Devido a “facções obstinadas” e a “guerras civis desesperadas”. como tantas feras. nem são conquistados e preservados por melhores nações externas. Pois esses povos. e por força de reflexão sobre isso. Dessa forma. corruptas também se tomavam as filosofias. ou melhor do orgulho. fizeram com que as comunidades decaíssem da perfeita liberdade para a perfeita tirania da anarquia desenfreada dos povos livres. resume Vico. “Dessa forma”. Sucedeu então que. Somente nessas comunidades “humanas”. explicitamente. Da mesma forma que a ironia pressupõe a consciência da distinção entre verdade e falsidade.

exposta no Livro 5 da Ciência Nova. no início da Idade Média. por um tipo de poesis divina adequada ao entendimento de naturezas infantis reduzidas ao temor e angústia pela anarquia da sua condição. Isso cria condições para a volta à “devoção. era o mesmo que o homem primitivo mantinha com a natureza. Mas o modo de relação da religião cristã com os povos pagãos. e sua verdade para a humanidade pagã foi estabelecida pelos mesmos meios. Todavia. como um ricorso. à vã sabedoria da Grécia” (§ 1047. Esse modo de relação social corresponde à consciência metonímica que floresceu durante os tempos heróicos originais. assevera Vico. ao invés da ordem única que Vico lhes atribui na idade bárbara original. oferecidos por “bispos e abades” que eram “comparativamente humanos em meio a semelhante barbárie”. juntamente com os milagres. diz Vico. A natureza excepcional desse exemplo único de ricorso é ressaltada na observação de Vico. Grécia e Roma. A implicação desse exemplo se torna ambígua pelo fato de que. E é transcendido. para “asilos” no campo. isto é. “por certos tempos heróicos. Dessa forma. diz Vico. e as transições de um estágio para outro são analisadas na mesma analogia com a transformação linguística.. das “cavernas” das cidades em ruínas os homens fugiram. os conteúdos de consciência são de duas ordens. dotado de novos conteúdos mas regido pelas mesmas leis de estrutura e processo. opondo a virtude dos mártires ao poder de Roma. em busca de proteção. cristã e pagã. à fé e à verdade” graças ao mesmo tipo de transformações da consciência descritas na análise dos tropos e na mesma ordem de transformação.226 TRÓPICOS DO DISCURSO mais desumanas pela barbárie da reflexão do que os primeiros homens pela barbárie do sentido” (§ 1106. de que. embora se ocupe de dois exemplos principais dos cursos.] revelou e confirmou a verdade da religião cristã. “Operando segundo meios sobre-humanos”. em consequência da volta de uma certa distinção entre naturezas quase opostas. formando assim a contrapartida cristã das primeiras famílias dos patriarcas nas idades divinas originais (§ 1056). dos ensinamentos dos Padres da Igreja e dos milagres realizados por Deus. é formulada de maneira menos clara do que a sua concepção do seu curso original. “Deus [. Esses “tempos divinos” foram seguidos. não por uma mudança nas próprias . a antiga Europa medieval. as relações estruturais entre a consciência e seus objetos são supostamente as mesmas que nos tempos primitivos originais. e o ensinamento dos Padres da Igreja. a verdade da religião cristã se estabeleceu primeiramente por meio dos atos dos mártires. com base no seu apelo às ideias mais particulares e mais sensíveis das coisas na consciência infantil. A concepção de Vico do “Recurso das Instituições Humanas que Tomam as Nações ao Ressurgir”. a heróica [ou seja. no caso da Europa medieval. de modo que o corso da transição original da barbárie para a civilização sobrevive uma vez mais. Em suma. o grifo é nosso). utiliza apenas um exemplo de recurso. o grifo é nosso). aristocrática] e a humana” (§ 1057). Deus “permitiu que uma nova ordem da humanidade nascesse entre as nações” para que a verdadeira religião “pudesse se estabelecer firmemente de acordo com o curso natural das próprias coisas (cose) humanas” (§ 1047).. no começo do Livro 5. E isso porque.

Essa imparcialidade. pois. que descreve uma evolução progressiva da consciência à luz da verdade revelada. A metáfora essencial da concepção que Vico teni da história deve. através da maturidade. e o pagão. o grifo é nosso). na sua própria mente. No entanto. que ele tomou por inteiro da poética clássica. os cursos que tomam as nações gentias na sua passagem do nascimento e do crescimento. ou do específico com o exemplo individual de humanidade.. segundo Vico. o Cristianismo se apresenta como um solvente. mas antes por uma mudança de consciência que corresponde à identificação sinedóquica do geral com o específico. e da civilização a partir da selvageria. até à ironia.. A trama que Vico elabora da história humana apresenta dois níveis: o cristão-hebraico.] Os plebeus. com a abertura de escolas nas universidades da Itália e com o ensino das leis romanas contidas nos livros de Justiniano. assevera Vico. é superior às verdades naturais alcançadas por meios naturais nas mentes não- inspiradas pela fé cristã. as mentes agora mais desenvolvidas e mais inteligentes se dedicaram ao cultivo da jurisprudência da eqüidade natural. A dinâmica interna do sistema representa uma projeção da teoria dos tropos e de suas inter-relações. para o declínio e a dissolução. ao discurso em lugar da mente ou do corpo. a nova sociedade que se desenvolveu na Europa Ocidental no começo da Idade Média está. mente e discurso. da consciência irônica. Dessa forma. como a medida de toda verdade. devido à circunstância de a religião dos europeus ser a verdadeira religião (§ 1094). resguardada de um modo especial contra a queda na consciência irônica que assediou os seus equivalentes pagãos. 1087. na constituição da própria natureza humana como corpo. como força mediadora. argumenta Vico: Mas finalmente. leis baseadas na lei natural das gentes humanas. Assim. cujas fases são descritas em termos tropológicos na analogia da evolução linguística da metáfora simples. com ironia autoconsciente. E do ponto de vista da verdade cristã que é permitido a Vico. E dando primazia. uma vez que sabem ter natureza igual à dos nobres. da mesma forma que são iguais na natureza humana. por sua vez. A atitude adotada por Vico diante dos seus dados é dupla: no que tange aos . lhe permitiu conceber as histórias dessas nações como processos puramente autônomos de desenvolvimento. naturalmente não consentirão em permanecer inferiores a eles nos direitos civis: e alcançarão a igualdade nas repúblicas livres ou sob as monarquias (§ 1086. e como o critério pelo qual toda crença meramente humana e todo conhecimento humano devem ser julgados. de origem divina. as três variáveis cujas interações as histórias pagãs representam. Pois a verdade que se opõe à falsidade nas sociedades cristãs. E essa ironia que lhe confere a imparcialidade necessária para a constituição das leis que regem o desenvolvimento das nações gentias. que descreve um padrão de recorrência cíclica. de um modo que ninguém antes dele conseguiu fazer. passando pela metonímia e pela sinédoque. [. da humanidade a partir da bestialidade. pôde afirmar que havia explicado a evolução da razão a partir da emoção. OS TRÓPICOS DA HISTÓRIA 227 relações sociais. governados pela Providência apenas na medida em que ela fornecia. que torna o povo comum e os seus nobres iguais em direitos civis. ver. ser encontrada na teoria da transformação linguística que ele utilizou como um modelo tanto da relação da consciência com os seus objetos quanto da dinâmica das transformações da consciência no tempo.

. A voz com que Vico fala dos acontecimentos históricos é a de um conhecedor da verdade por excelência que se reflete nas misturas de verdade e erro produzidas pelos pensadores pagãos. a voz com que se dirige aos contemporâneos é de dois tipos: uma produzida pela suposição de uma crença religiosa compartilhada. é irônica. e5 o que talvez seja mais importante. e do determinismo estrito. não em oposição ao verdadeiro. pois naquilo que todos os pensadores pagãos consideram a verdade por excelência. juntamente com todos os outros cristãos. Tal simpatia provém da sua convicção. Ela alcança esse efeito. mas contido nele como um estágio necessário ao alcance da verdade total. Seu orgulho nasce da sua convicção de que enfrentou os inimigos da fé crista no próprio terreno deles. Portanto. ela se mostra piedosa e inteiramente não-crítica. e de que derivou apenas da consideração da evidência uma justificativa para a crença nos atos da Providência mesmo entre povos não-conhecedores da verdade cristã. possuía. produto de sua fé cristã. E sua alegação é que sua nova ciência fornece um meio de dissolver a consciência irônica da qual os modernos filósofos do acaso. baseada no reconhecimento de que da mesma forma que a morte está contida na vida e a vida na morte. a outra usada para se dirigir àqueles que estão pri- vados da crença correta. a base e pressuposição da obtenção de racionalidade e saúde. baseada no reconhecimento de que o bestial existe no humano da mesma forma que o humano existe no bestial. de que aqueles pensadores eram inata. e louvor por alcançarem a distinção entre verdade e erro. de outro. mas com simpatia por suas tentativas de descobrir verdade. são representantes. Essa é a ironia superior.228 TRÓPICOS DO DISCURSO dados da história hebraico-cristã. elogiada e posta em prática por Erasmo. assim também a selvageria está contida na civilização e a civilização na selvageria. Assim. mas está dialeticamente relacionada a ela. de um lado. invertendo a relação entre os componentes da consciência irônica. com respeito a todas as histórias pagãs. o próprio Vico vê uma mistura de verdade e erro.mente incapazes de se elevar à verdade superior que ele. o qual percebeu que a loucura não é o oposto da razão ou sanidade. aos dualismos e monismos de sua época. na visão de Vico. Vico opôs uma terceira alternativa. de modo que o falso seja visto.

quase todo grande pensador e escritor europeu acabou instalado num lugar preciso de uma hierarquia de realizações onde a própria filosofia de Croce fornecia o teste final de ortodoxia. o bairrismo e um provável sentimento pessoal de posse quanto o respeito à filosofia de Vico. na história do pensamento europeu. bem como o elevado prestígio de que desfruta em tantas disciplinas diferentes. tinham de negar a legitimidade das tentativas de Vico de fundar uma ciência da sociedade e de elaborar uma filosofia da história. Assim. Na condição de árbitro autonomeado do gosto peio humanismo europeu na sua fase moderna. Ora. por parte deles. Mas o que os motivou foi tanto o orgulho nacional. a concepção que tinham de sua obra era tão tendenciosa quanto limitada. Negar isso seria impreciso e mesquinho. erudição e sagacidade polêmica. a estratégia de sua defesa era questionável. Secundado e apoiado pelo colega Fausto Nicolini. para isso. E a fama sólida de que Vico goza atualmente. Croce reiterava firmemente a sua crença na amplitude e fecundidade da obra de Vico. o falecido Benedetto Croce trabalhou para estabelecer o caráter de originalidade de Vico e o seu direito a um lugar proeminente. e. . Pois essas duas atividades eram anátemas para a visão de mundo crociana. 0 QUE ESTÁ VIVO E O QUE ESTÁ MORTO NA CRÍTICA DE CROCE A VICO Por mais de meio século. Dessa forma. para não dizer único. que ele executava com particular insistência. a determinação “do que está vivo e do que está morto” em sistemas filosóficos anteriores era uma operação crociana característica. Croce e Nicolini eram advogados formidáveis e donos de uma riqueza quase assustadora de conhecimento. pode ser atribuído em grande parte à incansável defesa que fizeram de sua causa. mesmo que Croce e Nicolini tenham trabalhado arduamente para consolidar a repu- tação de Vico no século XX. Croce se sentia compelido a demonstrar com frequência mais que normal as suas capacidades de analisador. Basicamente. Um dos seus objetivos era apresentar Vico como precursor da “filosofia do espírito” crociana. E boa parte da divergência atual em torno da natureza exata da contribuição de Vico ao pensamento moderno tem origem na estreita definição. “do que está vivo e do que está morto” na filosofia de Vico. Ademais.

Além disso. viii. a meu ver. p. . Goethe. portanto. se Vico era justificado em sua tentativa de fundar as ciências da sociedade e da história. p. o descobridor do princípio formador da hierarquia e o seu possível subversor. Croce confessava um sentimento de apego filial a Vico147. rev. o sentimento era de clara ambivalência. Se Vico representava a primeira antecipação visível da própria filosofia do espírito de Croce. The Philosophy of Giambattista Vico (New York. como ensi- navam as escolas de estética da época. apropriadamente. 1913). bem como a 146 Bencdetlo Croce. Todas as citações dessa obra serão dadas nas versões fornecidas por R. aparentemente. também. livrando-a assim da acusação de mera excentricidade. era também o primeiro praticante sofisticado das aberra- ções intelectuais que Croce mais odiava. XIII e XX. p. 1M Filosofia di GiambatlisUi Vico. onde a luz dificilmente penetrava. ed. Doravante citada no texto. 230 TRÓPICOS DO DISCURSO por exemplo.te. A posição de Vico era mais difícil de determinar. a sociologia e a filosofia da história. ou passatempo. o positivismo e o vitalismo. sua tendência a “anglicizar” o pensamento dc Croce obscureeeu o seu tom italiano distintivo. Nesse ensaio. 1953). e grande parte de sua atividade carecia de valor. pois. 392. narcótico. De Sanctis. e. Vico tinha de ser afirmado e contestado. 1962). não obstante. (Bari. mas. ed. 1956). Dante. então todo o sistema de Croce fora mal concebido. pois ele era. embora a “pensasse” ao mesmo tempo cosmopoliticamente146. cm sua Etica e Política (Bari. Essencialmente.. é. ao mesmo tempo. mudei as traduções de Collingwood nas passagens em que.e não mera ilusão. enquanto Freud foi relegado às regiões mais profundas. Mas não podia perdoar Vico por aparentemente fornecer justificativas semelhantes para os sistemas que ele queria rejeitar. 252. Aristóteles e Sócrates foram colocados de maneira apropriada para que pudessem entrevê-lo. XI. Croce afirmava que. ter um conteúdo cognitivo (como queria asseverar acerca das intuições históricas). ele não havia resolvido naquela época a questão para a sua própria satisfação. paradigma de um modo peculiar de “sentir” a filosofia italianamen. 5. Voltou ao estudo sistemático de toda a filosofia de Vico somente depois de 1893. e a sua solução. G. Para Croce. Hegel ficou junto do summum bonum. Collingwood em sua tradução. entre 1886 e 1892148. 147 Fausto Nicolini. exaltado e negado. Mas dentro em pouco ele o faria. A combinação de reverência e reserva que marcaram firmemente os comentários de Croce sobre Vico estava presente nas suas primeiras referências a ele. Kant. embora a história seja uma arte e não uma ciência. Croce leu pela primeira vez a Scienza Nuova seriamente. prefácio à 1. 148 Benedetto Croce. a Marx foi permitido apenas um vislumbre refletido. não forneci os números de páginas específicos da versão inglesa. não explicou de que modo uma intuição pura (que ele considerava ser a essência da arte) poderia ser imediata e. Croce (Torino. muito mais que os outros pensadores que Croce respeitava. durante o seu recolhimento de antiquário em Nápoles. uma forma de cognição . Como quase todas as citações são tiradas dos capítulos X. quando seu ensaio “A História Incluída sob o Conceito Geral de Arte” o envolveu no debate em curso sobre a natureza do conhecimento histórico e o transformou de antiquário em filósofo.o patriarca. o seu papel cultural fora definido de modo incorreto. Vico era (como Goethe o chamou) “der Altvater” . Era grato ao “patriarca” por lhe fornecer uma sanção clássica à sua própria revolta contra as ortodoxias predominantes de sua geração. Todavia. “Contributo alia Critica de Me Stesso”.

p. e uma com aprovação. uma filosofia do espírito”. durante os dez anos seguintes. uma “ciência do ideal. Doravante citada no texto. pp.. Na realidade. afirmava Croce. da verdadeira relação entre a poesia e a história151. De acordo com a análise inicial de Croce. A filosofia da história. Era a contrapartida da fantasia do filósofo nutrida pelo cientista social. que se ocupava das “modificações da mente humana” {ibid. 23. conquanto de maneira vaga. ele não havia compreendido a natureza dos outros momentos da vida do espírito . 258).). p.isto é. Vico fracassara em duas avaliações: sua investigação da vida do espírito não fora completa. Croce diz que. é assinalada nas referências de passagem que faz ao pensamento de Vico nesse ensaio inicial. . 392.uma com desdouro (juntamente com Herder). era impossível porque ela se fundamentava na crença de que a “história concreta poderia ser submetida à razão” e de que “épocas e eventos poderiam ser deduzidos conceitualmente” (ibid. o ético e o econômico. Vico havia formulado “novos princípios da poesia” e analisado corretamente o “momento poético ou imaginativo” na vida do espírito (Estética. antes.. gerando assim as falácias da filosofia da história. p. Era. então. se fosse desenvolvida corretamente. Em seu esboço autobiográfico escrito alguns anos depois. Vico passou a ocupar pouco a pouco o centro do pensamento de Croce. na época do ensaio. que se desenvolve no tempo”. “Contributo”. 0 QUE ESTÁ VIVO E O QUE ESTÁ MORTO NA CRÍTICA DE CROCE A VICO 231 sua atitude com relação a Vico (que se reduzia ao mesmo problema). O gênio 149 Benedetto Croce. poderia ser desembaraçada da aplicação errônea delas à história concreta. Cita Vico duas vezes . rev. e Vico poderia ser elogiado por tê-la descoberto.nada tinha a ver com a “história concreta e particular. 246. 255-56). Na verdade. 1.. a crença de que se poderia derivar do estudo dos acontecimentos individuais leis universais do processo social. a aguda visão de Vico da “autonomia do mundo estético” e sua descoberta do elemento cognitivo na poesia forneciam um antídoto tanto para a filosofia da história quanto para o sociologismo (ibid. asseverava Croce. ed. 151 Benedetto Croce. 242. como uma autoridade na verdadeira natureza da faculdade poética149. 256). como um representante da “filosofia da história”. em seus Primi Saggi (Bari. 9. 1951).. e ele confundira história concreta com filosofia do espírito. Mais especificamente. Desse modo. Felizmente. ciência e filosofia. Por conseguinte. 211 ep. lançando-se desse modo nos abismos da “filosofia da história” (ibid. isto é. sugerindo os postulados de capacitação da embrionária filosofia do espírito e dos meios de finalmente distinguir de maneira precisa entre história. Entretanto. quando Croce publicou a sua Estética. pp. Vico era apenas um fator entre muitos (junto com De Sanctis. mas criticado por tê-la utilizado de maneira imprópria. p. Labriola e os estéticos alemães) na economia da sua vida intelectual150. 150 Croce. 1950). (Bari. havia creditado a Vico não apenas a descoberta da ciência da estética mas também a percepção. a “ciência nova” de Vico . “La Storia Ridotta sotto il Concetto Genemle dell’Arte”. 255). contudo. n. a sua epistemologia . Estética come Scienza deWEspressione e Linguística.o momento lógico. o que gerava as falácias do sociologismo. arte. se bem que imprecisa. e essa falta de entendimento das outras dimensões da atividade do espírito levara-o a fundir “história concreta” com “filosofia do espírito”. p. por volta de 1902.

A década que se segue à publicação da Estética foi um período de prodigiosa criatividade para Croce. pois. “intuitivo” e não “conceituai” (ibid. a ciência se ocupava do “universal.}). que foi publicado no mesmo ano que a Estética. 184)... “Les Etudes relatives à la théorie de 1’histoire en Italie durant íes quinze dernières années”. Num ensaio escrito para a Revue de synthèse historique. 1902) e reproduzido em Primi Saggí. só se se admitisse que a história operava dentro dos limites da arte152. a história ainda não era o “método” da filosofia. para o Croce desse período. fundou e editou o jornal La Critica e produziu uma série de 152 Benedetto Croce. 186).qualquer tentativa de “estabelecer leis históricas” tinha de ser severamente reprimida (ibid. de um lado. sustentava Croce. a segunda buscava descobrir as supostas leis pelas quais as ações humanas assumiam necessariamente as formas que haviam assumido em épocas e lugares diferentes. representacional e não abstrato”. Cabe notar que. A história. unidade e conteúdo apropriados. E tinha de se manter livre do impulso do cientista em ver que os seus objetos ocupavam um campo de relações causalmente determinadas. argumentava ele. a estética constitui uma teoria da historiografia” (“Etudes”. originariamente publicado na Revue de synthèse historique (Paris. Era possível. o destino de Vico era ser considerado deficiente. Croce dístinguia entre “teoria da história” e “filosofia da história”. não só em questões específicas. . A busca de leis era uma iniciativa científica. Com efeito. e não em torno do imaginário. se ocupava do individual. mas apenas se ela procedesse por meio de uma lógica das intuíções. diferentemente dos artistas “puros”. uma ciência do objeto individual e da intuição pura. então.. “filosofar” sobre os modos pelos quais os historiadores.a arte girava em torno da representação do individualmente real. Doravante citado no texto. estava preocupada em estabelecer os critérios pelos quais os historiadores davam às suas narrativas uma forma. pp. a sua tentativa de fazer da história uma ciência. nada menos . Seguia-se. distinguiam em meio às intuições “entre o factualmente real (réel de fait) e o idealmente possível” (ibid. contudo. por ser uma teoria de um grupo especial de intuições (intuições que têm por objeto o indivíduo real).e aqui está o ponto fundamental da questão para Croce naquela época . p. a cura para a doença à qual ele próprio sucumbira. 184- 85). a estética constitui uma filosofia da arte. 184. ele não era contrário ao que chamava “teoria da história”.vale dizer. A luz dessas distinções rígidas. Porém . era a estética . era uma forma de arte de segunda ordem. 232 TRÓPICOS DO DISCURSO de Vico era comprovado pelo fato de haver fornecido. do empírico e do transitório (“aquilo que aparecia e desaparecia no tempo e no espaço” {ibid. 186). p. Uma teoria da história era admissível. que o conhecimento histórico era “por natureza estético e não lógico. 185). de outro (ibid. a única teoria da história concebível. por sua vez. como viria a ser mais tarde. não de uma lógica dos conceitos . p. Durante essa época ele completou a articulação da sua “filosofia do espírito”.. p. p. mas também no sentido do seu empreendimento principal. do necessário e do essencial”. “Por ser uma ciência da intuição pura. A primeira. embora Croce repudiasse qualquer tentativa de construir uma filosofia da história. nada mais. embora inconscientemente. e da tendência do metafísico a considerar tais objetos como funções de processos espirituais transcendentais ou imanentes. Obviamente.

mito. histórica e empírica. expõe os princípios críticos que orientaram Croce na sua leitura final de Vico. intitulado “A Estrutura Interna da Ciência Nova”. Tendia a “converter” uma na outra (ibid. da língua e das constituições políticas. dos dogmas da filosofia acabada de Croce.. como no começo da Idade Média na Europa. tratava a “filosofia do espírito” primeiramente como ciência empírica. as paixões. Croce. da família patriarcal. A Filosofia de Giambattista Vico (1911). Da segunda classe fazem parte o esboço que Vico traça da história universal do homem após o Dilúvio e o das origens das diferentes civilizações. afirma ele.. ou. uma história (ou congérie de histórias) e uma ciência social”. filosófica. e no todo contém uma filosofia do espírito. a terceira classe de investigação relaciona-se com a tentativa de Vico de “estabelecer um curso (corso) uniforme da história nacional” e se ocupa da sucessão de formas políticas e mudanças correlativas tanto na vida teórica quanto na vida prática.] determinações que afetam o curso ou desenvolvimento necessário da mente ou espírito humano”. dos quais os ensaios sobre Hegel e Vico foram os mais importantes*.. da “obscuridade das suas [de Vico] ideias. de um conhecimento deficiente de certas conexões. 0 QUE ESTÁ VIVO E O QUE ESTÁ MORTO NA CRÍTICA DE CROCE A VICO 233 estudos importantes na história da filosofia.. Todo o sistema de Vico. da lei simbólica. de erros evidentes” (ibid. tal como aparece em sua obra magistral. fundiu-os em seus relatos e cometeu um grande número de erros de categoria no processo de expô-los na Ciência Nova. 39). bem como da poesia primitiva. a descrição das idades heróicas na Grécia em Roma. vale dizer. abrange efetivamente três diferentes “classes de investigação. ou afastamento. Croce argumenta que Vico confundiu irremediavelmente esses três tipos de investigação. 37-38)153. Vico não percebera corretamente a “relação entre filosofia. história e ciência empírica". 254-255. o certo e o verdadeiro. religião. . embora com as reservas habituais acerca de sua incompletude e da inadequação de seu sistema total. depois como história. p. Realmente. a sua leitura de Vico. Decerto. Nos quatro volumes que compõem a “filosofia do espírito”. das lutas das classes sociais e do colapso de civilizações e de seu retorno a uma segunda barbárie. Nicolini. A primeira classe de investigação se ocupa das “ideias” sobre fantasia. a Providência. da escrita hieroglífica e assim por diante (Filosofia. pp. força e lei. tratava a ciência empírica ora como filosofia. dos plebeus. “todas as [. 40). Assim. Por fim. O Capítulo III de A Filosofia de Giambattista Vico. moral. pp. da lei. explica Croce. juízo. A obscuridade da Ciência Nova resulta. mas de uma confusão intrínseca. um completamento e uma correção do sistema de Vico à luz da sua crítica original desse sistema. de um elemento de arbitrariedade que Vico introduz em seu pensamento. Vico figura eminentemente como guia e autoridade. é pouco mais que uma avaliação da “nova ciência” à luz da sua aproximação. para dizê-lo de maneira mais simples. a atividade de Croce durante esse tempo poderia ser caracterizada como um preenchimento. ora como 153 Cf. e a análise do costume. da linguagem metafórica. isto é. bem como das suas generalizações acerca do patriciado. não da profundidade da percepção básica. e assim por diante - em outras palavras. p.

conquanto significativamente metamorfoseado. Poderia perdoar a Vico os numerosos erros factuais que lhe povoam a obra. se é que se aplicava.mas. quando deparava com um fato duvidoso. da escória pseudocientífica e pseudo-histórica que o recobria (ibid. ou seja. e vice-versa.. 41-42. da existência. pp. confirmava-o ou invalidava-o apelando para alguma lei empírica. Por exemplo. uma cuidadosa separação do “ouro” filosófico. ou nível de autoconsciêncía. ao contrário. onde é examinada a lei de Vico referente à mudança da civilização.como se espera do verdadeiro historiador . costumava recorrer a um princípio filosófico geral para imaginar o que rezaria o documento se o possuísse realmente. com uma sinceridade só excedida pela certeza de que com sua própria filosofia ele estava de posse da pedra filosofal que permitia a determinação correta do “que está vivo e do que está morto” em qualquer sistema. pp. e não raro atribuía a simples afirmações históricas a universalidade dos conceitos filosóficos ou a generalidade dos esquemas empíricos (ibid. se não foram aniquilados.do método crítico de Croce aparece no capítulo XI de A Filosofia de Giambattista Vico. 157). ou [. Resumida rapidamente. Croce afirma que essa lei nada mais é que uma forma generalizada do padrão que Vico acreditava ter descoberto na história romana (Filosofia. Uma leitura adequada de Vico requeria. observa Croce. Um exemplo perfeito .ta aos empreendimentos filosóficos de Vico. A confusão dos conceitos com os fatos. E mesmo quando dispunha de documentos e fatos. Ora. nos capítulos que se seguiam. 158)..] confusão de tendências” foi fatal à pretensão de Vico ao papel de cientista social e constituiu a causa da sua queda na filosofia da história. Contudo. Pronto a julgar e mesmo a perdoar Vico à luz dos padrões eruditos predominantes no século XVIII. que atravessará o curso na mesma sequência dos estágios e até o mesmo fim. Vico compensou a falha com a abrangência de sua visão e com sua compreensão do modo pelo qual o espírito agia para criar um mundo especificamente humano (ibid.. 43-44)... Croce não estava disposto a estender essa condescendência historicis. encontrado em sua obra.). Croce declarava preferir a crônica mais banal a essa manipulação intencional do registro histórico. E a essa tarefa de separação (ou transmutação. foi desastrosa para a historiografia de Vico e para a sua ciência social. Se forem destruídos ao final do ciclo. 129). impreciso em questões sem importância. a chamada lei dos ricorsi. pois é isso o que ela realmente era) Croce procedeu. por vezes não os deixava contar a sua própria história . Essa “tendência à confusão. ou. a causa de sua confusão. de sua identificação da filosofia com a ciência e a história.e um teste decisivo . ao exemplo . isso Croce não poderia perdoar. essa lei afirma que todos os povos pagãos devem passar por um “curso” específico de relações sociais com instituições políticas e culturais correspondentes e que. seguir novamente esse curso num plano semelhante. serão substituídos por outro povo. Vico estendeu infundadamente essa lei a todas as sociedades pagãs. eles devem. quando Vico não tinha um documento. interpretava-os de acordo com os seus próprios objetivos. p. terminado o curso. pois. 234 TRÓPICOS DO DISCURSO história. acomodava-os às suas próprias generalizações sociológicas intencionalmente ideadas (ibid. p. o que o obrigou a submeter os fatos a um padrão que só se aplicava.

. idear uma descrição sumária dos atributos partilhados por todos os exemplos do con- junto. diz ele. a teoria só descreve o que acontece em geral em todas as sociedades. Vico poderia ter logrado aplicar às suas diversas histórias a verdade contida na teoria dos ricorsi. Se Vico não se tivesse extraviado por lealdade à sua interpretação tendenciosa da história romana. p... De outro lado. espontâneos e reflexivos. E.por exemplo. da violência à eqüidade. 139-131). Vico continua apegado. observa ele. liberto da necessidade de submeter outras sociedades ao modelo fornecido pelo exem- plo romano. em conformidade com sua natureza eterna. poder-se-ia afirmar . contra a qual poderiam ser delineadas as diferenças entre os exemplos. poder-se-ia argumentar que Vico explica as exceções à sua lei. p.. as existentes entre “períodos predominantemente imaginativos e predominantemente intelectuais [. e não do corso da sociedade ou da cultura. uma vez que a lei realmente se ocupa do corso do espírito. 133-134). Croce descarta sumariamente a segunda objeção. portanto. nem prescreve o que deve acontecer em determinadas épocas e locais. 0 QUE ESTÁ VIVO E O QUE ESTÁ MORTO NA CRÍTICA DE CROCE A VICO 235 romano. Entretanto. p. “A questão em pauta”.. essa verdade atenta para a “conexão entre períodos predominantemente imaginativos e predominantemente intelectuais. a um erro e a uma ilusão. cuja existência até Vico tinha de admitir (ibid. Distinções como as sancionadas por Croce . A verdade contida nessa teoria era uma verdade filosófica. recomeçar o seu curso” (ibid. Essa “rarefação” da história de Roma numa teoria geral da dinâmica social revelava a interpretação errônea de Vico do modo como são geradas as leis empíricas. a saber. Em todo caso. 133). p. nem prediz o resultado de uma tendência particular. “em grande parte. tendo atravessado seus estágios progressivos. deve. quantitativas e são feitas em benefício da conveniência” (ibid. Como um guia geral para o estudo das sociedades históricas específicas. 134). os segundos se originando dos primeiros por um aumento de energia e a eles retornando por degeneração e decomposição” (ibid. Em vez de generalizar a partir de casos concretos e. Vico procura estender as características gerais do conjunto romano de modo a incluir todos os conjuntos que se assemelham aos romanos em seu caráter pagão. .com base na própria interpretação de Croce do verdadeiro valor da “lei” . reincidir na violência e na sensação e daí renovar o seu movimento ascendente.são. Não têm nenhuma força de lei. seguir de novo o seu curso.se elevado sucessivamente da sensação ao universal imaginativo e racional. ou fundir-se com o corso de outro povo e se tornar uma parte dele. referindo-se às influências externas ou às contingências que fizeram um determinado povo deter-se antes do fim. diz ele. a de que “o espírito. depois de ter. afirmava Croce.]” .que. pp. dessa maneira. nenhuma quantidade de provas empíricas pode servir para desafiá-la. Croce considera duas possíveis objeções à sua critica de Vico: de um lado. em todas as épocas e lugares.. a “teoria empírica dos ricorsi" jamais seria forçada a admitir tantas exceções (ibid. errou quando tentou estender uma generalização empírica a todas as classes que se assemelham superficialmente àquela a que se poderia aplicar legitimamente a generalização e foi iludido pela esperança de tratar um discernimento filosófico como um cânone de interpretação histórica válido para todas as sociedades. a inadequação da lei de Vico foi revelada pelo grande número de exceções a ela. 136).

(Bari.. que ele julgava produtos do espírito. 236 TRÓPICOS DO DISCURSO é [. como se fossem efeitos determinados de causas puramente físicas. deve também ser a verdadeira natureza de toda e qualquer lei que é possível nas ciências sociais. o único fenômeno “regular” na natureza era o da mente empenhada em compreender a natureza (ibid. apresentavam os fenômenos constantes da mente como ponto de partida para a generalização (ibid. p. 229-231). Ao tentar caracterizar as operações do espírito nas suas 154 Benedetto Croce. e. as quais. qualquer um que esteja estudando as várias fases da vida descreve as primeiras manifestações do desejo sexual intenso nas fantasias vagas e fenômenos semelhantes da puberdade. ideados por homens ou grupos de homens em resposta a necessidades geradas por projetos práticos em diferentes épocas e lugares. que objeção poderia haver para que Vico usasse a lei dos ricorsi a fim de caracterizar o processo evolutivo de todas as sociedades e estimular a pesquisa sobre elas no sentido de descobrir o grau do seu afastamento do modelo romano? A objeção pareceria residir unicamente na hostilidade de Croce a qualquer tentativa de considerar a sociedade e a cultura. pois. e a verdadeira resposta nos parece ser. 227). sendo esse o caso. visto que está planejando lidar não com as leis sociais da imitação. para lembrar um exemplo. Primi Saggi. Em suma. A desconfiança de Croce com relação a qualquer tentativa de tratar a sociedade como possível objeto da ciência é bem conhecida155. 1917). à duração dos próprios projetos (Lógica. 136).. Croce negava que as ciências naturais prognosticassem em qualquer sentido significativo. as ciências naturais dependiam muito mais de um conhecimento histórico da natureza do que as próprias ciências humanas. uma exceção basta para tirar-lhe a validade.. Entretanto. 204. a convicção de que o faziam representava o reaparecimento de um desejo primitivo de profetizar ou de predizer o futuro. p.. da mesma forma que.ou não. p. não o filosófico. para uma expressão antiga da desconfiança de Croce pelo próprio conceito de sociedade. na realidade. como já sugerimos. mas com as leis fisiológicas do desenvolvimento orgânico (ibid. p. pp. ed. Porém. . que Vico não poderia e não deveria ter levado em conta outras circunstâncias. Croce criticara os positivistas por não perceberem que a função das leis nas ciências era a de “serem úteis” e não “constitutivas”154. pelo menos. essa era uma linha curiosa a ser seguida por Croce. Tais crenças repousavam na suposição infundada de que a natureza era regular em todas as suas operações quando. longe de serem capazes de reivindicar uma condição de previsibilidade. Doravante citada no texto. se essa é a verdadeira natureza da lei nas ciências físicas. pp. cuja autoridade estava limitada. 190-191.] precisamente o aspecto empírico dessa lei.como as “leis fisiológicas do desenvolvimento orgânico” . 3.. As leis da ciência física. o que nunca pode ser feito. 155 Cf. 228). Especificamente. Com efeito. pois exigia que ele aplicasse à “lei” de Vico critérios de adequação mais semelhantes aos exigidos pelos positivistas do que aos requeridos pela própria concepção que tinha Croce das leis físicas e científicas como foram expostas na sua Lógica. Logica come Scienza dei Conceito Puro. rev. a “lei” de Vico ou predomina universalmente . dizia ele. não passam de ficções ou pseudoconceitos. As chamadas leis da natureza estavam sendo constantemente violadas e gerando exceções. e não leva em conta os meios mediante os quais os menos experientes podem ser iniciados no amor pelos mais experientes. seguindo-se daí que.

embaraçada pelo fato de um dado indivíduo não chegar à puberdade. e não ocupar-se das “leis sociais da imitação”. se o fracasso puder ser explicado pela invocação de outra lei. tendo optado por esse tratamento. morrer. e. A morte de uma pessoa antes da puberdade não invalida as “leis fisiológicas do desenvolvimento orgânico” que regem a fase pubertária. se quisermos explicar a inca- pacidade particular de chegar à puberdade. para esclarecer por que não se confirmou a prediçao de que a puberdade ocorreria normalmente. segundo a nossa previsão. Dessa forma. Isso se deve ao fato de ser a “lei dos ricorsi” menos uma “lei” que uma teoria ou uma interpretação. um neutralizando ou frustrando as ações do outro. nenhum número de sociedades que não conseguem completar o corso descrito pelo modelo romano. em termos de leis. cada um governado por leis semelhantes. Nossa caracterização do “curso” que. não há absolutamente nada de errado na opção de Vico a usar o exemplo romano como paradigma do desenvolvimento da civilização a partir do qual poderia ser avaliado o desenvolvimento de todas as outras civilizações que ele conhecia. elas deverão seguir não é invalidado por algum fracasso de dada civilização em completar semelhante curso. e realmente considerasse o processo como invariável. e Croce exigia dele que. fosse coerente. Veio daí o impulso de Croce para recorrer à analogia segundo a qual quem quer que esteja “estudando as várias fases da vida” deve limitar-se a uma consideração das “leis fisiológicas do desenvolvimento orgânico”. vale dizer. digamos. Dá-se o mesmo com as civilizações. privando-as da sua condição de criações do espírito. pode invalidar a “lei” de Vico. que abarcasse a desintegração das civilizações antes do seu termo normal. Trata-se de um procedimento sociocientífico perfeitamente . nas formas sociais que elas assumiram. Pois. dessa forma. Por exemplo. Vico tratava a sociedade e a cultura como produtos de um processo material invariável (traindo desse modo sua compreensão equivocada da verdadeira natureza desse processo). ela tão-somente requer. mas. à exceção da judaica e da cristã. Pelo menos era essa a opinião de Croce. o que está em questão no caso de Vico não é uma combinação de leis que operam num processo com leis que operam em outro. é a convergência de dois sistemas. mesmo uma pessoa que estude as várias fases da vida humana não se vê . Mas a analogia trai a tendência na crítica. es- pecificamente as que expliquem a morte do organismo. um conjunto de leis cuja utilidade para fins de previsão requer a especificação das condições-limite em que se aplicam aquelas leis. Vico parecia estar involuntariamente materializando-as ou naturalizando-as. 0 QUE ESTÁ VIVO E O QUE ESTÁ MORTO NA CRÍTICA DE CROCE A VICO 237 manifestações concretas. utilizado por Vico como arquétipo. Em princípio. para levar a analogia até o fim e de maneira correta. que invoquemos outras leis.como um cientista .

0 QUE ESTÁ VIVO E O QUE ESTÁ MORTO NA CRÍTfCA DE CROCE A VÍCO 25/ adequado. Croce dizia que. pois. a seu ver. impedira Vico de realizar a tarefa do historiador. escreveu que “a filosofia com que interpreto e critico o pensamento de Vico.padrão que ele próprio repudiaria especificamente na sua rejeição das exigências que os positivistas haviam feito às ciências físicas . a de “representar e narrar” (ibid. 149-150). 257).ao empenho de Vico em elaborar uma ciência das sociedades. Essa distinção era gratuita. de estarem seguindo até as últimas consequência s o programa de análise social de Vico. e Croce parece estar certo em descobrir a sua origem no conflito entre o devoto cristão que se ocultava no peito de Vico e o cientista social que triunfara em sua mente (Filosofia. quer excetuar o exemplo judaico e o cristão. negando ao mesmo tempo qualquer reivindicação. mesmo essa inconsistência não nega o esforço. De um lado. está “vivo” e o que está “morto” na avaliação feita por Croce da obra de Vico? A pista para a solução desse problema é fornecida por dois juízos de Croce. segundo afirmou. ele representava um esforço para tratar um produto do espírito “livre” como algo causalmente determinado. 156). e sob alguns aspectos a minha própria [. pois... p. por imperfeito que tenha sido o modo pelo qual foi levado a cabo no caso de Vico. 157). afinal de contas. Mas também aqui ele deplorava a procura de semelhanças como um fim em si. Vico “não era nada mais nada menos que o século XIX em estado embrionário” (ibid. “sem a percepção da semelhança. atribuindo-lhes. respectivamente. Essa inconsistência na utilização por Croce do conceito de “lei” só pode ser explicada pelo seu desejo de reivindicar a sanção de Vico para sua própria maneira de filosofar. comentando a tentativa de Vico de estabelecer semelhanças entre Homero e Dante. assim.. um sobre Vico. como ressaltaram quase todos os comentadores de Vico. outro sobre si mesmo. de outro. salienta Croce de maneira correta. Resumindo sua análise de Vico no último capítulo de La Filosofia di Giambattista Vico.] é. O que. p. em resposta à crítica “d’annunziana” que Borgese fez desse livro. apenas a filosofia idea . firmemente procurado no aspecto sociocientífico de sua obra. ou uma filosofia da história mundial. p. uma memória especial e uma capacidade particular de renovação. Pode-se dar um exemplo melhor da crítica de Croce aos esforços de Vico para elaborar uma história universal. O próprio Croce o admitia quando. A objeção de Croce era a qualquer tipo de procedimento sociocientífico. parece ter ocorrido uma mistura genuína de categorias. disse ele. Mas. considerava essas classificações a base necessária de qualquer história verdadeira. Vico quer utilizar a teoria dos ricorsi como o modelo para todo desenvolvimento da civilização. E alguns meses depois.. o que impediu o seu término antes do fim do mundo. E. pois. pp. o impulso de classificar. aplicou um padrão de adequação inviavelmente rigoroso . como conseguir estabelecer as diferenças? (ibid.. de elaborar uma filosofia universal da história. da parte dos modernos cientistas sociais. essencialmente. Aqui.

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. a crítica de Vico por Croce não aborda a principal contribuição da “ciência nova” de Vico. Croce afirmava ter purificado a filosofia idealista do século XIX. 1:333.12 De fato. tais horizontes não abrangiam de maneira adequada as operações das ciências físicas ou das ciências sociais fundadas em objetivos e métodos semelhantes. mas. Amplos como eram. “Pretese di Bella Letterntura nella Storia delia Filosofia”. continuava dentro dos seus horizontes. em suas Pagine Sparse (Napoli. 1 Ver Benedetto Croce. o esforço pelo qual o louvaram muitos dos principais teóricos sociocientífícos do século XIX. Por conseguinte. tornando-a mais “realista” e mais “crítica” de si própria. 1943). no fim. 252 TRÓPICOS DO DISCURSO lista do século XIX”.

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pela consideração da linguagem na qual o sonho é relatado pelo analisando ao analista. Os três pensadores perfilham a ideia de que a distinção entre a linguagem. mas. Os estruturalistas franceses. Michel Foucault costuma ser considerado o filósofo por excelência do movimento estruturalista francês. antes. o equivalente filosófico de Claude Lévi-Strauss na etnologia e de Jacques Lacan na psicologia. Entre o relato do sonho e o seu verdadeiro conteúdo encontra-se o protocolo linguístico em que é codifica . muito embora Jean Piaget tenha recentemente excluído Foucault do universo estruturalista e o próprio Foucault haja rejeitado qualquer filiação a esse movimento. a convicção de que o estudo dessas estruturas profundas deve começar por uma análise da linguagem e uma concepção da linguagem que tem sua origem na obra do pai reconhecido da linguística estrutural. começam tratando todos os fenômenos humanos como se fossem fenômenos linguísticos. Essa caracterização de Foucault é bastante justa. deve ser eliminada se se desejar compreender os fenômenos humanos como eles de fato são. em geral. 4 FOUCAULT DECODIFICADO NOTAS DO SUBTERRÂNEO i. Lacan insiste em dizer que a psicanálise deve começar. Ferdinand de Saussure. Desse modo. e o pensamento humano e a ação. de outro. como elementos de um sistema de comunicação. Foucault partilha com Lévi-Strauss e com Lacan um certo interesse pelas estruturas profundas da consciência humana. vale dizer. de um lado. não pelo exame do conteúdo dos sonhos.

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Esse “algo diferente” é dado na suposta relação existente entre as coisas significadas na fala ou no gesto e os signos usados para significá-las. como para Lacan. As duas principais disciplinas estruturalistas. animais etc. para se entender qualquer prática de uma sociedade primitiva. pode ser especificada pela identificação do modo linguístico em que foi vazado o sistema de signos. os homens sempre significam algo diferente do que dizem ou fazem. . mesmo nas suas formas estruturalis. devem ser referidos à modalidade de sua relação. não a coisas.. é a “estrutura profunda” que deve ser revelada antes que se possa realizar a interpretação daquilo que o signo quer dizer para a pessoa que o está utilizando. Mas o que o torna um pensador pós-estruturalista. e sempre dizem e fazem algo diferente do que significam. Ora. Essa relação. continuam presas aos protocolos linguísticos em que são vazadas as suas interpretações de seus objetos de estudo característicos. de maneiras diferentes. considerada como elemento de um sistema de comunicação e troca. cumpre também determinar a modalidade de relação entre o mundo humano e o não-humano em que é efetivada essa operação de nomeação e utilização. mas a formas linguísticas que não têm referentes específicos na realidade. é o fato de voltar essa estratégia interpretativa contra as ciências humanas em geral e contra o próprio estruturalismo em particular. impõe-se primeiramente determinar o modo linguístico em que foi vazada a prática. e todos os sistemas de gestos. Para Lévi-Strauss. a etnologia e a psicanálise. a descoberta. Para ele. Na realidade. assim como qualquer sistema de sinais. “sociedade” e “cultura”. essa teoria deve preceder a teoria mais abrangente da psique. as ciências humanas têm permanecido presas aos modos figurativos do discurso em que constituíram (em vez de simplesmente significarem) os objetos com que simulam tratar. Lévi- Strauss insiste igualmente em afirmar que. as várias espécies de pássaros. Para Lévi-Strauss. por seu turno. Insiste em afirmar que disciplinas como a etnologia e a psicanálise. Dessa maneira. isso implica que as ciências humanas. E essa relação. elas indicam igualmente a dissolução da crença na “positividade” de conceitos como “homem”. ele o toma como prova de que as ciências humanas chegam à consciência de estarem elas mesmas encarceradas nos seus modos particulares de discurso. na opinião de Foucault. por exemplo.tas. propõe Foucault. Já que a decodificação do sonho requer uma teoria geral da lin- guagem. todos os gestos devem ser tratados primeiramente como signos. do modo como se desenvolveram no período moderno. por fim. Assim. não passam de jogos jogados com as linguagens em que foram formulados os seus conceitos básicos. em última análise. E o propósito dos vários estudos de Foucault acerca da evolução das ciências humanas é revelar as estratégias figurativas (e. não apenas abarcam as outras ciências humanas. se se quiser entender o seu conteúdo simbólico. O estruturalismo assinala. “sociedade” e “cultura”. Foucault quase sempre concorda com tudo isso. míticas) que sancionam os rituais de conceituação em que essas ciências caracíeristicamente se comprazem. plantas. 254 TRÓPICOS DO DISCURSO do o relato. não basta saber como o homem primitivo nomeia e utiliza. a descoberta de que esses conceitos dizem respeito. por parte do pensamento ocidental. no sentido de as transcender e explicar. para não dizer antiestruturalista. das bases linguísticas de conceitos como “homem”. O movimento estruturalista em geral.

Pois sugere que Foucault é mais um daqueles racionalistas franceses para os quais o mundo das coisas tem uma ordem e que a desordem é introduzida no mundo somente pela incapacidade da mente de apreender essa ordem de modo apropriado. todos os conceitos estabelecidos por essas "ciências” para o estudo do homem. E suas “leis” não passam de projeções do campo semântico pressuposto pelos modos do discurso em que “nomearam” os objetos que habitam os seus respectivos domínios de análise. se se pudesse achar a ordem correta das palavras. quando o pensamento ocidental foi presa da ilusão de que “a ordem das coisas” poderia ser representada de maneira adequada numa “ordem das palavras”. A atribuição às palavras de uma condição ontologicamente privilegiada como essa na ordem das coisas é um erro que a moderna teoria linguística permitiu por fim identificar. Ao contrário. é Les Mots et les choses: Une Archéologie des sciences humaines. da sociedade e da cultura são pouco mais que abstrações das regras dos jogos de linguagem que eles representam. Foucault não é racionalista. Para ele. todo sistema de pensamento elaborado com a esperança de idear um sistema de representação de valor neutro está fadado à dissolução quando a área das coisas que ele remete à obscuridade emerge para insistir em seu próprio reconhecimento. e provavelmente a mais interessante para os historiadores e filósofos da história. O que a moderna teoria linguística demonstra é que as palavras não passam de coisas entre outras coisas no mundo. se Foucault é ironicamente indulgente com o movimento estruturalista. Embora tenha recentemente revelado uma afinidade com o pensamento do falecido Ernst Cassirer. como instrumentos de representação de valor neutro. Foucault nem sequer louva a coisa chamada ordem. é mais que indulgentemente irônico com respeito a todas as chamadas ciências humanas que o antecederam: a ciência política. e que. como indiquei acima. A obra mais importante de Foucault. Longe de acreditar que as coisas têm uma ordem intrínseca. FOUCAULT DECODIFICADO 255 Dessa forma. mas que é simplesmente o que parece ser. portanto. como a última fase de um desenvolvimento nas ciências humanas que principiou no século XVI. A ilusão em que todas as ciências modernas se basearam é a de que as palavras gozam de uma condição privilegiada na ordem das coisas. a filologia. Foucault vê na capacidade da mente de ordenar os dados da experiência um obstáculo . a psicologia. Foucault vê o movimento estruturalista ironicamente. como ícones transparentes. que elas sempre haverão de obscurecer tanto quanto aclarar objetos que pretendem significar. Suas “teorias” são apenas “formalizações” das estratégias sintáticas de que se valem para nomear as “relações” supostamente existentes entre seus objetos de estudo. seu objetivo é forçar a consciência a uma apreensão do mundo na forma como este poderia ter existido antes de aparecer nele a consciência humana. Esse título foi escolhido indubitavelmente dentro daquele espírito de ironia que permeia o conjunto da oeuvre de Foucault. Porém. Na tradução para o inglês recebeu o título de The Order ofThings. Dessa forma. 2. a economia e sobretudo a história. a sociologia. um mundo de coisas que não é ordenado nem desordenado.

mático e como Robbe-Grillet é um romancista anti-romanesco. que teve origem na descoberta da temporalidade de todas as coisas. da üíesestruturação. 256 TRÓPICOS DO DISCURSO à apreciação correta do modo como as coisas realmente são. afirmam explicar a verdadeira natureza da relação entre “as palavras e as coisas”. e principalmente a morte da coisa chamada homem. a de nossa própria época) nada mais é que a formalização de um mito. um relato do desenvolvimento da consciência humana com a exclusão do Phanomen e do Geist. Com efeito. e.chiana. desse modo. quando a forma apolínea de ciência. Em contrapartida. Mas Foucault nega explicitamente que esteja interessado em escrever uma história do tipo convencional. enquanto modo de consciência e enquanto modo de existência (social). Com este termo. Todo o seu esforço como historiador pode ser caracterizado como uma promoção constante da “í/e?lembrança das coisas passadas”. Obviamente.prima da história convencional das ideias: as continuidades. pretende ressaltar seu total desinteresse pela matéria. não dos filósofos. da desnomeação criativas. Foucault escreve a “história” a fim de destruí-la enquanto disciplina. como Artaud era um dramaturgo antidra.ção-reação contra a descoberta da serialidade da existência.dificada na rigidez egípcia” (como disse Nietzsche). Desse ângulo. uma espécie de Phãnomenologie des Geistes pós-nietzs. Tanto Les Mots et les choses quanto o mais recente UArchéologie du savoir são ataques a todas aquelas histórias de representação realista que. Foucault parece anunciar a morte das coisas em geral. “so. com Mallarmé. A louvada “consciência histórica” do século XIX (e. podemos ver em Les Mots et les choses. um o profeta da palavra feita carne. mas dos poetas. E por isso que suas “histórias” <J'' pensamento e da prática ocidentais são exercícios de desmascaramento. sobretudo. as influências. ele considera a história menos um método ou um modo do pensamento que um sintoma do mal-estar peculiar ao século XIX. Foucault. Mas. Certamente. Foucault celebra o espírito da efesordenação. Ele é um historiador anti- histórico. d «^mistificação e desmembramento. principalmente para Nietzsche e Mallarmé. as tradições. o outro o profeta da carne feita palavra.v ao dionisíaca de uma “orgia de formas”. Cassirer via na linguagem um agente de mediação entre as categorias da mente e o mundo dado ao pensamento na percepção. as . acredita que “as coisas” só existem afinal para viver nos livros. um relato das diferentes teorias da vida. ou como Robbe-Griííet encara a obra de todos os romancistas. de Hegel a Gombrich. Les Mots et les choses parece ser uma história das ideias. E por essa razão que apela para a autoridade. encara as obras dos historiadores profissionais quase com a mesma atitude de desprezo com que Artaud encarava as obras de todos os dramaturgos modernos. afortiori. para Foucault a linguagem constitui tanto as categorias quanto as percepções a serem ordenadas por elas. Foucault propõe substituir a história pelo que ele chama “arqueologia”. ou seja. ele próprio uma forma. na realidade. da riqueza e da linguagem que surgiram na Europa Ocidental entre o século XVI e o século XX. se dissipará na cele. Por conseguinte. as causas. Com Nietzsche. numa “ordem de palavras”. Foucault insiste em que a dinâmica da linguagem deve ser buscada numa “fisiologia” da consciência. aguarda com ansiedade um tempo em que a coisa denominada ciência desaparecerá.

o surgimento de uma nova “ciência humana” não representa uma “revolução” no pensamento ou na consciência. que sancionam os “discours” (modos do discurso) diferentes dentro dos quais podem ser elaboradas “sciences humaines” diferentes. Uma nova ciência da vida.es” (que funcionam mais ou menos como os “paradigmas” de Kuhn) não se sucedem umas às outras dialeticamente. O que temos. como a manifestação de algum modo de entendimento inerente à consciência. Tampouco uma nova ciência se de- senvolve da forma que supunham Hegel ou os neokantianos. chamar a “crônica” das ciências humanas: a primeira começa no final da Idade Média e termina no fim do século XVI. conquanto Les Mots et les choses verse sobre as mudanças que ocorreram nas ciências humanas entre o século XVI e o século XX. pouca coisa há no livro que possa ser pensada como uma “estória”. Dessa forma. Segundo nos diz. das formas de expressão assumidas pela consciência na sua tentativa de compreender o seu mistério essencial. FOUCAULT DECODIFICADO 257 comparações. Ele se recusa a ver nessas quatro épocas atos de um drama do desenvolvimento. da riqueza ou da linguagem não se insurge contra as suas predecessoras. as ciências humanas são pouco mais do que produtos de cartadas diferentes jogadas pelos homens no tocante à possibilidade de apreender o segredo da vida humana na linguagem. segundo ele. uma obsessão pelos espaços intelectuais preenchidos. Foucault tenta. antes. muito mais nas diferenças entre as várias épocas na história da consciência que nas semelhanças. ela simplesmente se cristaliza ao lado delas. Cada uma dessas ciências é concebida dotada de seus próprios objetos de estudo peculiares (“empiricités”) e sua própria estratégia única para determinar as relações (“positivités”) que existem entre os obje- tos que habitam o seu domínio. Em vez de tentar captar a evolução diacrônica das ciências humanas. e a quarta está surgindo. ou cenas de uma narrativa. as tipologias etc. ou seja. no seu entender.mes” (domínios epistêmicos). Elas simplesmente surgem uma ao lado da outra . sem pé nem cabeça. ressaltar as descontinuidades no pensamento do homem ocidental acerca do seu próprio estar-no- mundo. rejeita-a também para a consciência em geral. Mas essas “epistem. é uma série de “diagnósticos” do que Foucault chama “episte. preenchendo o “espaço” deixado pelo “discurso” das ciências anteriores. Desse modo. As chamadas ciências humanas não passam. porém inadequadamente representada no espectro das ciências de uma dada época. a segunda abarca os séculos XVII e XVIII. mas antes . então. apreender-lhes toda a história sincronicamente.de maneira catastrófica. Foucault identifica quatro grandes “épocas” de coerência epistêmica naquilo que devemos. As transições que marcam o começo e o fim das épocas não são transformações de um tema duradouro. está interessado apenas nas “rupturas”. a terceira começa por volta de 1785 e se estende até o início do século XX. O interesse do historiador convencional pelas continuidades. por assim dizer. Encaradas dessa forma. nem se agregam. é apenas um sintoma do que ele chama “agorafobia temporal”. E igualmente legíti- mo. e terapeuticamente mais salutar para o futuro das ciências humanas. e virtualmente nada que possa ser identificado como uma linha narrativa. isto é. Dessa forma. Foucault não rejeita qualquer continuidade apenas para as ciências. nas “descontinuidades” e nas “disjunções” verificadas na história da consciência. vale dizer. como uma totalidade cuja soma é menos do que as partes que a constituem. afirma Foucault.

258 TRÓPICOS DO DISCURSO rupturas na consciência ocidental. ou “progredindo”. o livro de Foucault parece ter um tema. é possível dizer que o livro de Foucault tem um “enredo”. uma cadeia de ilhas epistêmicas. os vários modos de representação que surgem nos agrupamentos das ciências humanas entre os séculos XVI e XX representam apenas o lado fenomênico do ágon por que passa a própria linguagem no caminho da sua atual ressurreição e retorno à “vida”. por parte da consciência ocidental. Se ele fala de alguma coisa. a partir do século XVI. “evoluindo”. tão misteriosa quanto todas as outras “coisas” no mundo. No melhor dos casos.e tão opaca. que abordava o “desaparecimento” e o “reaparecimento” da loucura na economia psíquica do homem moderno. é da “representação” em si. cujas conexões mais profundas são desconhecidas . Com efeito. Em Les Mots et les choses. considera um fracasso total todo o esforço do homem moderno para representar a realidade de maneira realista. e Der Aufbau der geschichtlichen Welt in den Geis. mas o enredo está envolvido com o seu protagonista oculto.e desconhecíveis. assim também em Les Mots et les choses Foucault faz a crônica do desaparecimento e do reaparecimento da linguagem . e esse protagonista oculto é a linguagem. disjunções ou descontinuidades tão extremas que chegam efetivamente a isolar as épocas umas das outras.sentation of Reality in Western Literature de Auerbach. e pela sua negação do “realismo” essencial de qualquer das ciências humanas. As imagens utilizadas para caracterizar as épocas não são a de um “rio do tempo” ou “fluxo da consciência”. Foucault vê em todo esforço de representação a consequência de uma interpretação fundamentalmente equivocada da natureza da linguagem. Seu tema é a representação da ordem das coisas na ordem das palavras nas ciências humanas. a linguagem. Na nossa própria época. a linguagem finalmente regressou de sua descida órfica à “representação” e se nos apresentou mais uma vez como fora desde o princípio: apenas uma coisa entre as muitas coisas que se apresentam à percepção . Lembramo-nos imediatamente das histórias da representação oferecidas em formatos mais convencionais: Art and lllusion: A Study in the Psychology of Pictorial Representation de Gombrich. . Assim como em seu íivro anterior acerca da loucura. Philosophy ofSym. Folie etdéraison.teswissenschaften de Dilthey. o efeito foi negativo. Mas há um protagonista oculto nessa “satura” com que Foucault nos brindou. Assim. Apesar de tudo. quando esta última acabou finalmente no reconhecimento. Mimesis: The Repre.bolic Forms de Cassirer. para representar a realidade “realisticamente”. E.o seu desaparecimento na “representação” e o seu reaparecimento no lugar da representação. longe de se orgu- lhar dos esforços do homem ocidental. A explicação que Foucault nos dá do conjunto dessas épocas se assemelha a uma dessas peças absurdas que surtem efeito quando frustram toda expectativa de unificação sinóptica que temos da fruição das suas cenas individuais. mas não tem um enredo. longe de ver qualquer progresso no “realismo” durante a era moderna. mas a de um arquipélago. de seu fracasso em criar as ciências humanas com algo parecido com o poder possuído pelos seus equivalentes nas ciências físicas. Mas a obra de Foucault difere dessas por sua recusa resoluta a pensar a representação como algo que está “se desenvolvendo”. diz ele com o que parece ser um suspiro de alívio.

E o mesmo ocorre com as ciências da linguagem e da economia desenvolvidas durante o século XVIII e o século XIX. econômico e político. Talvez haja meios de traduzir os “sentidos” de um universo do discurso para outro. As ciências humanas daquele tempo tinham de dar sentido à Revolução. na opinião de Foucault. de um lado. Entre a busca de uma “gramática geral” do período anterior e a “filologia” do período posterior. Por exemplo. tradições e coisas parecidas). Ele recusa todas as estratégias “reducionistas” que passam por explicações nos relatos históricos e científicos tradicionais. Pelo contrário. já que para ele toda “tradução” é sempre uma “redução” (em que algum conteúdo fundamental é perdido ou suprimido). ao fato de o conteúdo oculto de toda suposta ciência humana ser o modo de representação que ela dignificava como o único meio possível de relacionar os palavras com as coisas. codificá-la e decodificá-la segundo as estratégias sintáticas disponíveis na época e no lugar. as diferentes ciências humanas produzidas pelas quatro épocas não apenas empregam técnicas distintas para apreender os objetos que habitam o campo do humano. elas nem sequer se aplicam ao estudo dos mesmos objetos. E isso porque os analistas da vida. não parece estar muito preocupado com essa dúvida. A suspeição. FOUCAULT DECODIFICADO 259 É por querer destruir o mito do progresso das ciências humanas que Foucault abre mão das estratégias explicativas convencionais da história intelectual. influências. sem o qual teria sido impossível o seu “discurso” acerca do mundo “humano”. Pois o que chamamos de “Revolução Francesa” foi na verdade um complexo de eventos que ocorreram extrinsecamente à “consciência formalizada” da época. mas Foucault parece duvidar disso. por parte de Foucault. de reducionismo em toda a sua forma se evidencia em sua declarada falta de interesse na relação de uma obra ou de um corpus de obras com o seu contexto social. para ele. de outro. uma forma de petitio príncipii. E. cultivavam modos de representação diferentes e permaneciam presos a concepções diferentes da natureza das relações predominantes entre as coisas. Mas um acontecimento como a “Revolução” só tem sentido na medida em que é traduzido num “fato” pela aplicação das modalidades de representação predominantes na época de sua ocorrência. há tão pouca continuidade quanto entre a “análise da riqueza” levada a cabo durante o Iluminismo e a “ciência da economia” cultivada em nossa época. Isso tem importantes implicações metodológicas para a abordagem foucaultiana do estudo das ideias. Foucault afirma que. as diferenças entre as “sintaxes” da história natural do século XVIII e da biologia do século XIX são tão grandes que tornam todas as similaridades léxicas entre elas triviais como prova. mostra-se satisfeito com o que chama de “transcrições” do “discurso” sobre a humanidade produzidas durante as diferentes épocas. ò que é mais interessante. Para a consciência . respectivamente. Isso se deve. digamos. de qualquer que seja a escola ou gênero. dos historiadores naturais do século XVIII e dos biólogos do século XIX contenham os mesmos elementos léxicos (o que pareceria justificar a busca de analogias. tentar “explicar” as transformações da consciência entre o século XVIII e o século XIX pelo recurso ao “impacto” da Revolução Francesa sobre o pensamento social seria. e as palavras. mesmo que a terminologia. do trabalho e da linguagem das duas épocas habitavam “universos do discurso” diferentes. Para ele.

As modalidades de enunciação. Mas os textos a que se refere não são analisados. Mas “vida”. que a consciência formalizada de uma época não se altera em resposta aos “eventos” que ocorrem na sua vizinhança ou nos domínios delimitados pelas suas diversas ciências humanas. “Lê” um texto do mesmo modo como um cancerologista “lê” um raio X. E isso significa. e os textos são. ou um corpus de obras. É o caso especialmente quando se trata de tentar localizar com precisão. Ao contrário. E fala desse nível como se ele lhe permitisse contemplar uma atividade peculiarmente humana que ele chama “enunciar” (1’énoncer). Se Foucault não está interessado em relacionar uma obra científica específica. Ele está em busca de uma síndrome e procurando provas das formações metastáticas que indicarão um novo desenvolvimento da doença. escolhidas para constituir um dado campo de investigação. Em UArchéologie du savoir. 260 TRÓPICOS DO DISCURSO formalizada de qualquer época. para Foucault. do trabalho e da linguagem. do “enunciado” ou do “expresso em palavras”. Não há qualquer informação biográfica sobre as figuras mencionadas como representantes das ciências e das disciplinas analisadas por ele. pelas estratégias sintáticas sancionadas pelos modos de representação predominantes numa dada época e lugar. assim também Foucault prefigura uma história das ciências humanas sem nomes. “trabalho” e “linguagem” . um evento como esse não poderia sequer configurar um “fato”. Foucault procede à maneira do patologista. geram aquelas ciências humanas diferentes que se oferecem como . menos interessado ainda se mostra em relacioná-la com a vida de seu autor. que consiste no impulso para usar a linguagem a fim de “representar” a ordem das coisas na ordem das palavras. Os nomes dos indivíduos que aparecem são meros recursos taqui- gráficos para designar os textos. Foucault designa a área entre consciência e não- consciência como o domínio do “ênoncé”. com o seu contexto social. isto é. “trabalho” e “linguagem” nada mais são que aquilo que a relação porventura existente entre as palavras e as coisas lhes permite parecer ser numa dada época. A doença descoberta neles é sempre de caráter linguístico. os eventos adquirem a condição de “fatos” em virtude da sua suscetibilidade à inclusão no conjunto das relações léxicas e da análise. 3. menos importantes que as configurações macroscópicas da consciência formalizada que representam. identificar e analisar os dados primários de categorias gerais da existência como “vida”. a história dos estilos artísticos da qual fossem eliminadas todas as referências aos artistas. E transcritos com um propósito específico: devem ser “diagnosticados” para que se determine a natureza da doença da qual são sintomáticos. por sua vez. são simplesmente “transcritos”.as três áreas da investigação que se diz ser o refúgio das ciências especificamente “humanas”. UArchéologie pergunta: Como é possível o exprimir em palavras? Les Mots et les choses trata desse tipo de enunciação que toma por objetos os mistérios da vida. econômico e político. Da mesma forma que antigamente o objetivo de um certo tipo de historiador da arte era escrever uma “história da arte sem nome”. isto é.

Wittgenstein e Sartre acreditavam . o gênero e as características da espécie dos objetos que presumida. rejeita a explicação causai dos fenômenos da “história das ideias”. como a própria linguagem não passa de uma coisa entre outras. FOUCAULT DECODIFICADO 261 explicações da condição humana. Surge. Esse desequilíbrio se reflete nas áreas de qualquer discurso em que prevalece o silêncio. entretanto. A crença de que o homem é qualita- tivamente distinto de todas as outras coisas se reforça. que recorre a métodos analógicos para definir as similaridades que parecem existir entre formas de pensamento diferentes. todas as explicações causais. em todo esforço . Em terceiro lugar. à coisa denominada linguagem. “Devemos guardar silêncio a respeito do que não podemos falar”: Foucault leva a sério a injunção de Wittgenstein. na ordem das coisas. É da natureza das ciências humanas tentar a elaboração de protocolos linguísticos ontologicamente neutros com os quais possam representar a ordem das coisas para a consciência com vistas à reflexão e análise. argumenta Foucault. que procura estabelecer a ordem. Ao negar todas as categorias convencionais da descrição e explicação históricas. O “Unbehagen der Kultur” fundamental não é . Pois é possível dizer tudo. rejeita o método tipológico. Em seguida.mente diacrônica das fases pelas quais a consciência formalizada passou desde a queda da linguagem no limbo criado pela exigência não-realista de que ela represente a ordem das coisas. a questão: se Foucault não quer “explicar” coisa alguma. Mas. a atribuição a qualquer protocolo linguístico dessa condição privilegiada de instrumento de representação está fadada a provocar uma disparidade fundamental entre o ser do mundo e o conhecimento que poderíamos ter dele. Não é possível uma ciência do humano. Foucault rejeita explicitamente quatro tipos de explicação dos eventos que ele relatou em Les Mots et les choses. a classe. Por fim. O motivo real por que devemos guardar silêncio acerca de aigumas coisas é que. rejeita qualquer explicação que apele para a noção de Zeitgeist ou de mentalité de uma era. mas porque é precisamente igual a tudo o mais.mente habitam o campo de estudo. porém. Foucault espera encontrar o “limiar” da própria consciência histórica. mas que na verdade são pouco mais que os mitos pelos quais são retroativamente justificados os rituais epistêmicos requeridos pela suposição de uma dada postura diante das palavras e das coisas. Em primeiro lugar.a própria linguagem. então por que se dá ao trabalho de escrever? Qual o propósito de simplesmente “transcrever” as ilusões de uma época? As respostas a essas perguntas devem ser procuradas na concepção que tem Foucault da função da anti-história. Mas de que modo essas diferentes épocas na crônica das ciências humanas se relacionam umas com as outras? Em UArchéologie du savoir.como Russell. E a forma que esse “descontentamento” assume em qualquer era ou época não é outra coisa senão as próprias ciências humanas. A “arqueologia” das ideias forma um contraponto fugal para a “história” das ideias. é a antítese sincrônica da representação compulsiva. não porque o homem seja qualitativamente diferente de tudo o mais no cosmo. de qualquer tipo. que atribui à linguagem um grau de transparência que ela jamais poderia alcançar. pela atribuição de um lugar privilegiado. rejeita o chamado método comparativo. é a tarefa da representação. mas não porque haja algumas palavras que podem ser ditas legitimamente e outras não podem.

262 TRÓPICOS DO DISCURSO

para encerrar a ordem das coisas na linguagem, condenamos à obscuridade um certo
aspecto dessa ordem. Visto que a linguagem é uma “coisa” como qualquer outra, ela
é opaca por sua própria natureza. Atribuir, portanto, à linguagem a tarefa de “represen-
tar” o mundo das coisas, como se ela pudesse cumpri-la de maneira apropriada, é um
erro crasso. Então, qualquer modo do discurso é passível de identificação, não pelo
que ele permite à consciência dizer acerca do mundo, mas pelo que a proíbe de dizer,
a área da experiência que o próprio ato linguístico elimina da representação na
linguagem. Falar é um ato repressivo, identificável como uma forma específica de
repressão pela área da experiência que ele condena ao silêncio.
O objetivo da “arqueologia das ideias” é penetrar o interior de qualquer modo
de discurso a fim de determinar o ponto em que ele condena certa área da experiência
ao limbo das coisas que não se podem dizer. Assim encarada, a “crônica” das ciências
humanas compreende uma série de atos violentos praticados contra o mundo das
coisas em prol de um ideal impossível de transparência linguística. As quatro épocas
que Foucault discerne na crônica das ciências humanas, do século XVI ao século XX,
representam discretas colonizações da ordem das coisas por protocolos linguísticos
fundamentalmente diferentes, cada um dos quais continuava encerrado em sua própria
cartada no tocante à pertinência de sua estratégia de “enunciar”. Essas cartadas
linguísticas, todavia, permitiram a constituição de “campos epistêmicos” diferentes
em que grupos diferentes das ciências humanas se poderiam desenvolver em cada uma
das quatro épocas discernidas. Esses grupos, então, atravessam um tipo de ciclo
semelhante ao da planta, ou imitam o curso de uma doença. Trazem em si uma certa
potencialidade para apreender corpos particulares de dados (“empiricidades”) e para
constituí- los em possíveis objetos de estudo (“positividades”) sobre os quais as ciên-
cias humanas de uma época podem ser formuladas. Mas, depois que um determinado
grupo de ciências humanas completou seu ciclo, ele não é tanto derrubado quanto
simplesmente substituído por outro, que vive uma existência similarmente parasitária
fora do mesmo campo primevo da linguagem e da consciência. Como certas espécies
de fungos, um grupo dado de ciências humanas é deliqüescente num sentido exato:
alimenta-se de ar e se liqüefaz pela absorção da umidade atmosférica. No caso de um
grupo dado das ciências humanas, esse “ar” é a linguagem e essa “atmosfera” a área
da experiência excluída do exame pela cartada original sobre a adequação de um modo
específico do discurso para representar a ordem das coisas na ordem das palavras.
Para o arqueólogo das ideias, então, uma dada época da história intelectual deve
ser tratada como um sítio de escavação. Tem por objeto de estudo não sua fisiografia
aparente, representada pelas ciências humanas surgidas dentro de suas fronteiras, mas
antes as estruturas da cartada linguística e dos compromissos epistemológicos que
originariamente a constituíram. Começa-se com um exame das “formalizações” de
pensamento predominantes acerca da vida, do trabalho e da linguagem numa dada
época e daí se passa para uma consideração das estratégias léxicas e sintáticas por
meio das quais os objetos de estudo são identificados e a relação entre eles explica-
das. Essa análise permite, pois, perceber os “modos de discurso” predomi-/ nantes
numa dada época, o que, por sua vez, possibilita a derivação do “campo
epistemológico” e da atividade de “enunciação” que fundamenta e sanciona um

FOUCAULT DECODIFICADO 263

dado modo de discurso.

4.
Nas chamadas ciências humanas, os objetos de percepção são os fenômenos
da vida (o homem na sua essência biológica), do' trabalho (o homem na sua essência
social) e da linguagem (o homem na sua essência cultural). Mas não há objetos
perenes que correspondam às palavras vida, trabalho e linguagem. O que esses
termos significam nas diferentes épocas da história da consciência, do século XVI
ao século XX, muda constantemente, e o faz, além disso, em conformidade com as
transformações que ocorrem num nível metalinguístico de apercepção, um nível
em que modos de discurso diferentes geram categorias diferentes para a
constituição dos elementos e relacionamentos que supostamente habitam o mundo
“humano”.
Cada uma das épocas da história cultural ocidental, então, parece aprisionada
num modo específico de discurso, o que ao mesmo tempo possibilita o seu acesso
à “realidade” e delimita o horizonte daquilo que pode possivelmente parecer real.
Por exemplo, argumenta Foucault, no século XVI o modo predominante de
discurso era inspirado pelo desejo de encontrar o Mesmo no Diferente, de
determinar o grau em que um dado objeto se parecia com outro; em suma, as
ciências do século XVI eram obcecadas pela noção de Similitude. Sua busca das
Semelhanças abrangia não apenas as relações entre as coisas, mas também a relação
entre as coisas e as palavras destinadas a significá-las. As categorias predominantes
da ciência da época eram, então, as da emulação, da analogia, da concordância, da
simpatia etc. E era o testar dessas categorias que fundamentava, de um lado, a
elaboração de listas de palavras floreadas e, de outro, as várias formas de “mágica
verbal” em que o século XVI se comprazia. A “ciência” da época pressupunha que
o domínio das palavras poderia fornecer a base de um domínio das coisas que “se
pareciam” com elas. A atitude dos eruditos do século XVI para com as palavras
era, dessa forma, essencialmente edênica, ou, antes, tinha o projeto de recuperar
aquela onomatéia divina que Adão possuía antes da Queda. E a natureza
aparentemente bizarra das obras produzidas pelos eruditos e cientistas do século
XVI só é compreensível, assevera Foucault, se posta no contexto da crença de que
a essência de uma coisa poderia ser revelada pela descoberta da palavra que a
significasse verdadeiramente.
Mas a busca das similitudes continha as sementes de sua própria frustração
final. Pois a extensão das listas de similitudes e a desvirtuada constru- ção-de-ponte
necessária para demonstrar que se poderia mostrar, numa análise final, que uma
dada coisa se assemelha de alguma maneira a tudo o mais,
essencialmente só lograram revelar à consciência o fato das dessemelhanças
fundamentais entre todas as coisas particulares. E essa apreensão da dessemelhança
essencial entre as coisas levou a um abandono do modo de discurso fundado no
paradigma da semelhança. Em consequência , o século XVII apresentou à consciência

264 TRÓPICOS DO DISCURSO

essa apreensão da Dessemelhança como o problema a ser resolvido. E propôs resolvê-
lo dispondo o mundo das coisas no modo, não da continuidade, mas da contiguidade.
Em lugar da simpatia, da emulação, da concordância etc., o século XVII optou pelas
categorias da ordem e da mensuração, concebidas em termos essencialmente
especiais. E o problema fundamental para a ciência da época era o de “determinar de
que modo o signo poderia estar ligado ao que ele significava”156. Foucault descreve a
situação do século XVII nos seguintes termos:

A atividade da mente [...] não mais consistirá em aproximar as coisas entre si, na busca de todas as
coisas que poderiam revelar algum tipo de parentesco, atração ou uma natureza secretamente partilhada
dentro delas, mas, ao contrário, em discriminá-las, ou seja, estabelecer as suas identidades e depois a
inevitabilidade das conexões com todos os graus sucessivos de uma série. Nesse sentido, a discriminação impõe
à comparação a primeira e fundamental investigação da diferença: prover-se, por meio da intuição, de uma
representação distinta das coisas e apreender claramente a conexão inevitável entre um elemento da série e
aquele que lhe é imediatamente posterior. Por fim, como consequência final, já que conhecer é discriminar, a
história e a ciência deverão se separar uma da outra (p. 55).

Dessa forma, do começo ao fim dos séculos XVII e XVIII, encontramos, de um
lado, a erudição, que fornece os materiais das ciências humanas da vida, do trabalho e
da linguagem; e, de outro, a ciência, que fornece os materiais suscetíveis de análise
por via da mensuração e do arranjo serial, passíveis de representação em símbolos
matemáticos. E o próprio êxito das ciências físicas sugeriria a conveniência de reduzir
os dados das ciências humanas à representação numa “linguagem universal dos
signos”. Essa linguagem universal dos signos forneceria um instrumento para a
representação da ordem essencial das coisas à consciência com vistas à análise. A or-
dem das coisas poderia, então, ser representada num quadro de relações essenciais no
qual seria exposto sem ambiguidade um “conhecimento baseado na identidade e na
diferença”.
As ciências humanas fundamentais da âge classique eram, na visão de Foucault,
as da gramática geral, da história natural e da análise da riqueza. Cada qual se
caracterizava por uma busca da origem genética do seu objeto peculiar de estudo: a
linguagem, a vida e a riqueza, respectivamente. A análise, nessas ciências, se
desenvolve na esperança de confirmar a crença de que, se se pudesse descobrir o
sistema de signos pelo qual pode ser representada a verdadeira natureza da linguagem,
do organismo e da riqueza, tor- nar-se-ia possível elaborar uma ars combinatoria que
permitisse o controle de cada um deles (pp. 203-204). A âge classique esperava que,
se fosse descoberto o quadro correto de relações, seria possível manobrar a “vida”, a
“riqueza” e a “linguagem” pela manipulação dos signos que os significavam.
Para Foucault, o aspecto importante é que o século XVIII se mostrava mais forte
ali onde estava metafisicamente mais seguro, e não onde se achava empiricamente
pleno, e mais frágil ali onde se encontrava metafisicamente inseguro, e não onde se
achava empiricamente vazio. Os limites da história natural no século XVIII residiam em

156 Les Mots et les choses, traduzido para o inglês com o título de The Order ofThings: íntroduction to the Archeology of
the Human Sciences (New York, 1970), pp. 42-43. Daqui por diante, todas as citações são dessa edição.

FOUCAULT DECODIFICADO 265

sua incapacidade até de pensar a categoria da “vida”; ela só poderia cogitar da
realidade de organismos distintos, que ela classificava interminavelmente na esperança
de encontrar a “rede de relações” que une o que chamamos “vida” num conünuum de
intercâmbios de sustentação mutua entre a vida e a morte. Portanto, ver na biologia do
século XIX uma continuação da história natural do século XVIII representa um profundo
erro para Foucault. Diga-se o mesmo da relação entre a gramática geral do século XVIII
e a filologia do século XIX, ou da relação entre a análise da riqueza do século XVIII e a
economia política do século XIX. Como diz Foucault:

A filologia, a biologia e a economia política foram estabelecidas, não nos lugares anteriormente
ocupados pela gramática gerai, pela história natural e pela análise da riqueza, mas numa área onde aquelas
formas de conhecimento não existiam, no espaço que deixaram em branco, nas profundas lacunas que
separavam os seus amplos segmentos teóricos e que foram preenchidas com o murmúrio do cantinuum
ontoldgico. O objeto do conhecimento no século XIX é formado no próprio lugar onde a plenitude clássica do
ser silenciou (p. 207).

Em vez de procurar a “linguagem original”, como fizeram os gramáticos gerais do
século XVIII, os filólogos do século XIX se ocuparam das afiliações e parentescos entre
as famílias de línguas supostamente irredutíveis ao mesmo campo. Em vez da
identificação da ordem, classe, gênero e espécie a que pertencia o organismo
individual, os biólogos do século XIX ponderaram o problema da evolução do Diferente
a partir do Mesmo. E, em lugar da análise da riqueza, os economistas políticos do
século XIX se voltaram para a anáiise dos modos de produção. Assim, contra as
categorias da Mensuração e da Ordem, que haviam dominado o pensamento na âge
classique, testemunhamos agora o surgimento das categorias da Analogia e da
Sucessão como sendo as modalidades dominantes de análise da nova era (p. 218). Esse
advento assinalou a crescente consciência do significado do Tempo para a
compreensão da vida, do trabalho e da linguagem, e atesta a historici- zação das
ciências humanas:

A partir do século XIX, a História devia distribuir, numa série temporal, as analogias que relacionam
entre si as diferentes estruturas orgânicas. Essa mesma história também deverá impor progressivamente suas
leis à análise da produção, à análise dos seres organicamente estruturados e, finalmente, à análise dos grupos
linguísticos. A História cede lugar a estruturas orgânicas analógicas, da mesma forma que a Ordem abriu
caminho para sucessivas identidades e diferenças [na âge classique] (p. 219).

Pelo termo “História”, obviamente, Foucault não se refere de modo algum ao
que é representado pela historiografia acadêmica, essa “compilação das sucessões
factuais e sequência s do modo como possam ter ocorrido”, apresentada numa linha
narrativa fracamente definida (p. 219). Por “História” ele entende o “modo
fundamental de ser das empiricidades” de tal modo que as coisas sejam concebidas
existindo exteriormente umas às outras de um modo essencial, de um modo diferente
do sugerido pelo quadro espaciaiizado da âge classique. Pois, na verdade, a
contiguidade espacial sugere a possibilidade de uma rede de relações por meio da qual
é possível reunir as coisas enquanto habitantes do mesmo campo “intemporal”. Não
há, porém, na ordem da serialidade temporal, nenhum modo legítimo de conceber um

266 TRÓPICOS DO DISCURSO

território em que se possa dizer que os elementos particulares da série têm origem
comum. Quando os seres são lançados no oceano ondu- lante do tempo, no modo da
Sucessão, só se podem relacionar uns com os outros pela Analogia. E quanto mais
longa se imagina a série temporal, mais dispersas aparecem as coisas que algum dia
estiveram ordenadas no campo espaciaiizado fechado do quadro clássico.
A pergunta que as ciências humanas tinham de enfrentar no século XIX era: O
que significa ter uma história? Essa pergunta, afirma Foucault, registra uma “grande
mudança” na consciência do homem ocidental, uma mudança que diz respeito
essencialmente à “nossa modernidade”, a qual, por seu turno, é a noção que temos de
ser completamente diferentes de todas as formas de humanidade conhecidas na
história com h minúsculo (pp. 219-220).
O novo interesse pela história, que é convencionalmente creditado ao século
XIX, é - segundo Foucault - não a causa, mas o efeito de uma mudança que ocorreu
num nível estrutural profundo, da apreensão dos objetos em termos da relação
Contiguidade-Continuidade à apreensão dos objetos em termos da relação Sucessão-
Analogia. O que as ciências humanas do século XVIII levaram a cabo foi a revelação
das diferenças fundamentais entre dois objetos quaisquer que habitam o campo
perceptual. A própria inteireza da busca dos quadros pelos quais se poderia criar coisas
contíguas no espaço a fim de que refletissem a sua pertença a uma “rede de relações”
contínua que, em essência, era intemporal, só conseguiu demonstrar que as coisas de
fato não comprovavam a sua localização dentro dessa rede intemporal. A resposta dos
pensadores do século XIX a essa falência do pensamento do século XVIII foi elevar a
categoria da temporalidade à condição de dado irredutível, cuja significação era
calcular em que medida as coisas se poderiam relacionar entre si como membros de
famílias específicas de espécies orgânicas (Cuvier), de modos de produção (Ricardo)
e de usos linguísticos (Bopp). Mas os grandes criadores de sistemas do século XIX -
Hegel, Comte, Marx, Mill e outros - apenas conseguiram demonstrar, segundo
Foucault, a inutilidade de tentar captar a variedade de coisas numa ordem de palavras
que as colocasse com precisão numa série temporal que seja ao mesmo tempo
completa e esclarecedora do modo como todo o processo temporal avança em seu
longo curso.
A falência da investigação da “série temporal” no século XIX foi assinalada por
Nietzsche, que percebeu corretamente que o verdadeiro problema que o pensamento
moderno ocultara de si mesmo era o da opacidade da linguagem, sua incapacidade de
servir ao propósito de representação que lhe fora impingido, de modo totalmente
inconsiderado, no final do século XVI. As duas grandes “contraciências” do século
XX, que uma visão similarmente nietzschiana da opacidade da linguagem criou - a
psicanálise e a etnologia - confirmam, segundo Foucault, a justeza da crescente
compreensão do homem ocidental quanto à impossibilidade de elaborar algum dia
uma verdadeira ciência do homem. Pois, de acordo com Foucault, o que essas duas
contraciências representam é uma tendência a rebaixar a análise do fenômeno
“homem” a um nível em que desapareça sua “humanidade” e fazê-la recuar ao tempo
anterior à aparição do “humano”. Diferentemente dos filósofos da história do século
XIX, Freud e Lévi-Strauss procedem, não com base nas categorias da Sucessão e da

Foucault identificou quatro períodos principais na história da loucura: o final da Idade Média. em afirmar que não se poderia lograr qualquer noção válida da concepção do homem ocidental acerca do racional mediante o estudo das várias teorias da racionalidade e da loucura desenvolvidas pelos escritores sobre esses temas durante o período em questão. não os representantes de alguma forma obscura de anti-humanidade. ou do tratamento dos insanos. Foucault se concentrou nas questões: Quem era considerado insano? Como se identificava a insanidade dessas pessoas? Quais os modos do seu confinamento? De que forma eram tratadas? E que critérios eram utilizados para determinar quando e se tais pessoas haviam sido curadas? Ele afirmava que a história da loucura não revelava nenhum progresso consistente na sua conceituação teórica de uma doença. a obra era menos uma história das teorias da insanidade. mas nas da Finitude e da Infinidade. tanto a psicanálise quanto a etnologia. Nesse livro. Foucault forneceu o que parecia ser uma história das ideias da insensatez e da loucura do século XVI ao final do século XIX. FOUCAULT DECODIFICADO 267 Analogia. Foucault como que ideou um verdadeiro registro do “lado inferior” do pensamento acerca da razão e da loucura e expôs a angústia subjacente à obsessão do homem ocidental pelo problema de sua própria sanidade. Afirmava que. A partir da consideração de um corpo de dados bastante limitado. uma variante humana peculiarmente abençoada. ao fim da Idade Média. nos seus aspectos mais criativos e radicais. considerado uma contribuição à história das ideias. que. como vários críticos salientaram. via-se nos insanos. mas. era a insistência. da coisidade da linguagem. 5. cuja inocência e natureza infantil se mantinham como lembretes aos homens “comuns” de sua dependência da graça e beneficência de Deus. percebem que o obstáculo à plena realização da obra das ciências humanas é a própria linguagem. os séculos XVII e XVIII (l’âge classique). Ao contrário. Demais. por parte de Foucault. ao contrário. o século XIX e o século XX. e de tal maneira que tornam suspeita aos seus seguidores a adequação de suas próprias caracterizações linguísticas da “humanidade” que eles estudam. Eles procedem com pleno reconhecimento da opacidade. E óbvio que Les Mots et les choses tem a mesma estrutura de enredo que a obra anterior de Foucault. Mas. do que um discurso digressivo sobre a loucura que se acha no âmago da própria razão. Folie et déraison. A coisa mais original no livro. a história do tratamento dos insanos revelava uma tendência consistente a projetar preconceitos e angústias sociais muito gerais em sistemas teóricos que justificavam o confinamento de todo grupo social ou tipo de personalidade que parecesse ameaçar a sociedade durante um dado período. ao contrário. a sua história da loucura no Ocidente do século XVI ao século XX. o verdadeiro teor do conceito de “racionalidade” tinha de ser procurado nos modos como foram considerados os indivíduos designados “insanos”. Os “insensatos” do mundo eram tidos como possuidores de uma sabedoria mais .

a transformação dos insanos de “sujeitos” em “objetos”. exibidos como objetos de lucro e diversão. Essa mudança foi marcada pelo surgimento de um medo generalizado dos insanos e se manifestou no impulso para excluí-los do convívio com os homens “comuns”. alternadamente manipulados como animais. a desrazão ou a loucura. mas com a consequência de retirar dos homens comuns as vantagens da percepção de suas próprias naturezas potencialmente insanas que o convívio íntimo com os insanos lhes poderia ter propiciado. a insanidade deixou de ser considerada um sinal de beatitude e passou a ser encarada. Por exemplo. Esse tratamento dos insanos não refletia apenas a noção insegura que tinham os homens daquilo em que consistia a sua própria humanidade. antes. 268 TRÓPICOS DO DISCURSO profunda que a “insensatez dos sábios mundanos”. Foucault ressalta que o conceito de loucura algumas vezes era identificado como regressão ao estado infantil e. Para alguns. os criminosos e os doentes mentais . Os insanos. como criminosos ou como crianças. a atitude do homem ocidental para com os insanos começou a mudar radicalmente. Todo o discurso acerca e em louvor da razão que caracterizou o século XVII e o século XVIII foi levado adiante. sevícias. por seu turno. E a consequência foi que o conhecimento que o homem ocidental tinha da razão e da desrazão tendeu a cair sob a influência de uma natureza social mais prática. entretanto. maltratados) da mesma forma. aos loucos não só era permitido viver entre os supostamente sãos.simplesmente prendendo-os. ao passo que para outros não havia distinção entre o modo como os pobres e os insanos deviam ser tratados. sem o benefício de uma compreensão imediata e simpática de sua . a ser “tratada” pela excomunhão e confinamento físico dos chamados insanos nos “hospitais” anteriormente utilizados para abrigar leprosos. portanto. refletia também a percepção que a sociedade tinha de sua incapacidade de lidar com as baixas do seu sistema de práxis da época. antes. tratados (ou. mas sempre de maneira desumana. Uma segunda mudança fundamental de atitude para com os insanos ocorreu no final do século XVIII e no começo do século XIX. como regressão ao estado animal. Por baixo ou por trás do tratamento de quantos eram designados merecedores da reclusão estava a profunda angústia quanto aos modos da organização e do comportamento social característicos daqueles que continuavam “livres” e quanto à natureza da “sanidade” que estes se haviam arrogado. mas também eram até tratados com respeito e reverenciados como modelos da simplicidade a que todos os cristãos deveriam aspirar na busca da salvação. conforme ensinavam os Evange- lhos.os pobres. Essa exclusão e confinamento assinalaram. Por volta do final do século XVI. A louvada “idade da razão” se ocupava dos produtos de seus fracassos . Em suma. e foi representada pelas . antítese. a criminalidade e a insanidade eram uma coisa só. em vez de se desenvolver na forma de um exame científico rigoroso daquilo em que uma ou outra poderia ter consistido. os criminosos e os pobres eram todos arrebanhados nos mesmos locais de confinamento. confinando-os nos ieprosários recém-esvaziados em consequência da diminuição da lepra durante aquele século. Por conseguinte. Daí por diante. são tratados como objetos de derrisão. zombaria e divertimento. como um sintoma de doença. outras vezes.

Pois a categoria do “criminoso” se confundia com a do elemento subversivo. representava pouco mais que a aplicação de concepções ideológicas da natureza do homem vigentes entre as classes dominantes de uma dada sociedade num dado tempo. Vista desse ângulo. se houve de fato algum avanço. Maladie mentale et personnalité e La Naissance de la clinique. a distinção entre o criminoso e o doente mental se dava principalmente em função de considerações políticas. onde haviam sido lançados tanto em companhia dos criminosos como dos doentes mentais. a mudança tinha muito pouco a ver com o avanço do conhecimento teórico acerca da verdadeira natureza da doença mental. E escusado dizer que essa concepção do “progresso” da medicina não granjeava para Foucault a simpatia dos que viam em sua evolução um triunfo prometéico. Qual a causa dessa mudança? Segundo Foucault. “revolucionário”. foi a resposta à necessidade de aumentar a força de trabalho durante um período de industrialização. Nessa época. Isso não significava que os pobres fossem mais bem tratados. a tentar apreender a natureza da loucura . A revolução de Freud . e não especificamente científicas. como o fizera em seus primeiros dois livros. longe de representar uma compreensão crescente das necessidades do paciente. e tal era em especial o caso daquele ramo da medicina que pretendia ocupar-se dos doentes mentais. estava intimamente ligado muito mais à práxis permanente da sociedade que a uma compreensão mais profunda do animal humano. Ao contrário. e modos distintos de tratamento eram prescritos para cada uma dessas categorias. E no contexto de considerações como essas que Foucault avaliava a importância de Freud para a história cultural do Ocidente. da sociedade.ção entre os doentes mentais e os criminosos refletia uma nova atitude soei- a! para com o segundo. A clínica e o hospital eram microcosmos das atitudes para com o homem que prevaleciam no mundo macrocósmico da sociedade em geral. a medicina era mais uma disciplina política que científica. A libertação dos pobres dos locais de confinamento.consistia simplesmente numa disposição a ouvir os doentes mentais. mas a base dela consistia em transformações mais genericamente sociais. Assim também. pois aqui os preconceitos que motivaram o mau tratamento de todo transviado social se refletiam em sua brutalidade. Foucault estava sugerindo. Em suma. Nessa época. a doença mental passou a ser definida como uma enfermidade eminentemente física. O doente mental talvez se tenha beneficiado dessa distinção. e não um avanço teórico na compreensão do primeiro. a diferenciâ. incompreensão e falta de conhecimento científico.que representa uma terceira mudança em nossa atitude para com os loucos . A prática médica. pois eram liberados dos hospitais apenas para serem entregues às leis cruéis da oferta e da procura de trabalho e à “disciplina” das fábricas. que a burguesia passava a temer ainda mais do que ao insano. ressalta Foucault. FOUCAULT DECODIFICADO 269 reformas introduzidas no tratamento dos insanos por Tuke e Pinei. a ser tratada por meios especificamente médicos. e não científicas. argumentava ele. os doentes mentais eram diferenciados dos criminosos e dos pobres. que a medicina não era absolutamente uma ciência e que o seu desenvolvimento. ele se deu em consequência de transformações mais fundamentais ocorridas na sociedade. análogo ao curso do desenvolvimento manifestado nas histórias da física e da química.

pois. de um lado. havia muita conversa acerca do que seriam tanto a “razão” quanto a “loucura”. do ponto de vista de Foucault. estende a acusação de irracionalidade a todas as ciências da vida. seu escopo exageradamente ideológico e assim por diante) e. Freud abriu caminho para um restabelecimento de comunicações não apenas entre os doentes mentais e os “sãos”. Assim. Entretanto. como deixou bem claro em Les Mots et les choses. fora lançar luzes sobre uma modalidade específica de relacionamento na sociedade entre os que nela ocupavam lugares privilegiados e os que eram considerados dignos de ser excluídos dela. Seu interesse principal. de outro.o estabelecimento de uma ciência genuína da mente humana. A resposta dos historiadores da medicina ao Folie et déraison de Foucault era previsível (seus dados eram por demais limitados. Além do mais.a exemplo de seus congêneres “psicofísicos”. mas a estrutura mutável de relações entre os que eram tratados como insanos e os que se haviam arrogado a condição de pessoas sãs. mas absolutamente nenhum esforço para decodificar as mensagens que emanavam das profundezas da loucura no “balbuciar” dos loucos. a história da loucura era uma história do que não se conhecia e do que não se dizia acerca do assunto e dos modos mutáveis da relação entre os sãos e os insanos tal como eram representados na linguagem gestual do tra- tamento. previsivelmente irrelevante. e a natureza irracional do tratamento dos insanos. mas. 270 TRÓPICOS DO DISCURSO de dentro da experiência dos próprios insanos e a usar a perspectiva deles sobre o mundo para entender as distorções presentes nas percepções do mundo por parte dos notoriamente “sãos”. era a natureza não-científica das ciências humanas em geral. Encarada desse ângulo. segundo Foucault. Nos termos de Foucault. nesse livro. o diálogo foi eliminado. isso fez do livro a história de um silêncio. que tem a aparência de um levantamento da evolução das ciências humanas desde o século XVI até o século XX. em vez de sistemática ou “científica”. o êxito da técnica psicoterapêuti. esclarecer a natureza contraditória das teorias da loucura. interpretativa ou “artística”. Freud não representa . com base em certa quantidade de elementos acessíveis. a técnica terapêutica utilizada por Freud em seu tratamento dos pacientes indica a necessidade de uma abordagem do estudo do homem que seja essencialmente hermenêutica. E o problema do diálogo. Em comparação com o formalismo abstrato e mecanicista da teoria freudiana. Pois seu propósito. o exame de um vácuo que se abriu entre os insanos e os sãos na esteira da dissolução do diálogo que predominara entre eles durante a fase final da Idade Média. Les Mots et les choses. o problema de como o homem representa para si mesmo a sua própria natureza e os produtos dessa natureza passa a ocupar o centro das atenções do autor. O tema real de Folie et déraison não era a loucura nem a razão. é ampliado agora para incluir . Entre o fim do século XVI e a época de Freud. do trabalho e da linguagem que se originaram nesse período.câ de Freud fornece a Foucault a prova da necessidade de descartar todas as tentativas de uma teoria formalista da psique humana. como Wundt. seu método demasiadamente apriorístico. De fato. do tipo que o próprio Freud desenvolveu nas suas obras ulteriores. que fora o tema de seu estudo das relações entre os sãos e os insanos em Folie et déraison. como vimos. mas também entre os aspectos “insanos” e “sadios” da “personalidade bem-ajustada” aparentemente. Não pretendera apresentar “dados” novos. como ele dissera.

a economia. argumenta ele. resgatada do reino do silêncio a que fora exilada pela decisão de utilizá-la para a “representação”. Foi simultaneamente afirmada como uma presença para a consciência e negada como um problema da consciência. do trabalho e da linguagem que foi praticado do século XVI ao século XX representa pouco mais do que um balbuciar sobre a racionalidade no qual o discurso sobre a loucura foi desenvolvido durante o mesmo período. Os homens não conhecem mais sobre a vida. aqui. a filologia e assim por diante . Wittgenstein e Chomsky) e da Interpretação (como em Sartre. a antropologia.se tornam. a condição de desunião e de ineficácia das ciências humanas para a nossa época é. toda a problemática das ciências humanas transferiu-se para um nível de contemplação novo e radicalmente diverso. Mas. a linguagem foi tratada da mesma forma que o foi a loucura na Idade da Razão. quando a possibilidade de semelhante discurso tinha origem na questão: Como podemos estar certos de que as palavras designam realmente as coisas que devem significar? Nas ciências humanas da idade moderna. a psicologia. a fenomenologia e o estruturalismo. Para Foucault. Vale dizer. FOUCAULT DECODIFICADO 271 o problema da linguagem em geral. há uma mudança de ênfase. A consequência da . o mesmo tipo de melhoria que Nietzsche. disciplinada pelo seu exílio da palavra e libertada pela sua volta ao poder da palavra. Assim. a ciência política. pouco mais que reificaçÕes dos protocolos linguísticos diferentes em que os seus “fenôme- nos” são constituídos. da matriz social em que vêm à luz concepções distintas da “natureza humana” para a matriz linguística em que essas concepções têm sua origem. No entanto. como a biologia.temas atribuídos às ciências humanas. a história. Freud e Heidegger). não se trata da palavra sagrada. denunciada pela natureza das filosofias que elas geram: o atomismo lógico e a análise linguística. a sociologia. no final da Genealogia. perseguiram concomitantemente a ideia da neutralidade de valor. a palavra a que se refere não é a da Escritura. As ciências humanas de nossa própria época. que voltou à ordem das coisas onde ocupa lugar como uma coisa entre muitas. tem havido certa melhoria nesse encarceramento secular da linguagem dentro da tarefa da representação. Analogamente. e a da redenção social. É por essa razão. argumenta Foucault. Foi tratada ao mesmo tempo como o instrumento de análise pelo qual se deve descobrir o sentido de “humanidade” e como o instrumento transparente da representação pelo qual essa “humanidade” deve ser oferecida ao pensamento com vistas à análise. todos sintomáticos da falta de confiança que os homens têm no seu próprio pensamento e da descoberta da opacidade da linguagem que obsta à construção do sistema total que cada um imagina ser no final o fruto dos seus esforços. na avaliação de Foucault. o existencialismo e o neokantismo. o trabalho e a linguagem atualmente do que conheciam durante o século XVI. de um lado. que as principais sistematizações do pensamento a respeito do humano se têm inclinado para os pólos da Formalização (como em Russell. todo discurso sobre a natureza e o sentido da vida. tenderam a ser tanto positivistas quanto escatológicas. A vontade foi disciplinada e libertada. trabalho e linguagem diferentes . de outro. considerava o resultado de dois milênios de ascetismo. então. Concepções de vida. mas da palavra dessacraíizada. E agora que a linguagem finalmente se viu liberada de seu cárcere.

6. 385). Mas Piaget tomou pelo seu sentido aparente as asserções de Foucault sobre suas intenções. ao se libertarem da tirania que a palavra reprimida exercia sobre elas.e uma vez mais Nietzsche se antecipou na determinação do ponto crítico . quer dialeticamen. o homem desaparecerá.. este mundo se dispõe diante da consciência exatamente como aquilo que foi desde o princípio: um espaço repleto de meras coisas. Foucault anuncia o renascimento dos deuses quando o que tenciona anunciar é o renascimento de uma imaginação pré- religiosa. Aquilo de que Piaget mais sente falta na obra de Foucault é de um sistema de transformação pelo qual se possa justificar a substituição de um “campo epistêmico” por outro. E é inteiramente compreensível que Foucault tenha sido alvo do ataque de quase todos aqueles que não se sentiram apenas perplexos com ele. mas não uma à outra.ção da palavra é destruir o impulso para perceber hierarquias eternas na ordem das coisas. Uma vez que a linguagem se vê livre da tarefa de representar o mundo das coisas. . é a identidade do Rclorno do Mesmo com a absoluta dispersão do homem (p. E o homem é solto num reino em que tudo é possível porque nada está excluído da categoria do real. não têm absolutamente qualquer necessidade de reivindicar o status de “ciências”. em vez de submeter à análise o que fez Foucault em Les Mots et les choses.não é tanto a ausência ou a morte de Deus que se afirma. 272 TRÓPICOS DO DISCURSO dessacraliza. na esteira dessa morte. em suma. Em vez da morte de Deus . A história da razão é. O que temos aqui não é tanto metáfora quanto uma vontade de retornar a um mundo anterior à própria metáfora.. o que o pensamento de Nietzsche anuncia é o fim do seu assassino. Jean Piaget descartou as ideias de Foucault por serem um misto de “sagacidade [. antes. Uma episteme não se filia a outra. Como Foucault escreve no final de Les Mots et les choses: Em nossos dias . anterior à linguagem.. e suas estruturas aparecem e desaparecem mediante transformações fortuitas e como resultado de ressurgências momentâneas. ou genética ou historicamente.te. nenhuma das quais pode reivindicar a condição privilegiada em relação a qualquer outra. quase a história das espécies tal qual ela foi concebida pelos biólogos antes de entrar em cena o estruturalismo cibernético157. é a dispersão do profundo escoar do tempo pelo qual ele se sentia transportado e cuja pressão suspeitava no próprio ser das coisas.ou. em outras palavras.. Como a própria sanidade. mesmo que 157 Jean Piaget. A mensagem dessa “arqueologia” da razão é. é o esfacelamento do rosto do homem no riso e a volta das máscaras. os mesmos deuses. mas o fim do homem. quer formalmente. Deuses novos. a de que as autotransformações da razão não têm nenhuma razão. Coisa temerária.] afirmações vazias e omissões”. as ciências humanas. certamente. Como diz Piaget: Suas epistemes se seguem. e em profunda correlação com ela -. já avolumam o fuíuro oceano. um “estruturalismo sem estruturas”. pois estamos diante de um sistema transformacional elaborado na concepção que Foucault tem da sucessão de formas das ciências humanas. 1970). Stritcturulism (New York.

a afirmação principal de Les Mots et les choses é correta e esclarecedora. E isso acarretava um efeito importante sobre o desenvolvimento das atitudes dentro do campo das ciências humanas com respeito ao problema da linguagem em geral. As ciências humanas. preso à linguagem em que representava os seus objetos para si mesmo com vistas à análise. Tinha o efeito de ocultar aos praticantes das ciências humanas o grau em que a própria constituição do seu campo de estudo era um ato poético. em suma. E a afirmação “A = B” ou “A é B” assinala a apreensão. à proporção que se desenvolvem entre o século XVI e o século XX. uma genuína “criação” ou “invenção” de um domínio da investigação no qual não apenas são sancionados modos específicos de representação e outros excluídos. De um lado. seja ela o que for. pela lógica da . se caracteriza pela afirmação de uma semelhança entre dois objetos que se oferecem à percepção como manifestamente distintos. da mesma forma que um gênero dado representa um compromisso com uma estrutura de representação pela qual se possa figurar os conteúdos e relações predominantes num campo finito da ocorrência ficcional. tanto de uma semelhança quanto de uma diferença entre os dois objetos representados pelos símbolos em cada lado da cópula.ou por disciplinas estabelecidas. àquelas ciências.tal como as ciências humanas no século XVI estavam. podem ser caracterizadas em função da sua incapacidade de reconhecer até que ponto cada uma é cativa da própria linguagem.é levada necessariamente. sob certo aspecto. numa caracterização metafórica de algo supostamente desconhecido em função de algo supostamente conhecido. Todavia. elas não poderiam deixar de perceber que o pensamento se achava. ou pelo menos familiar. o sonho de uma linguagem de valor neutro para as ciências humanas inspirava-se no êxito das ciências físicas em aplicar linguagens estipuladas e protocolos matemáticos à análise de seus dados. Em parte. no relato de Foucault. A meu ver. Todos os sistemas de conhecimento principiam. sua incapacidade de ver na linguagem um problema. Isso não significa que elas não estudaram as linguagens. FOUCAULT DECODIFICADO 273 Foucault não pareça saber que ele se encontra ali. mas também são determinados os próprios conteúdos da percepção. nem se ocuparam do problema mais geral da representação. Mas Foucault parece estar correto em sua afirmação de que a atitude delas em face da própria linguagem era ambígua. A caracterização que Foucault faz das ciências humanas do século XVI representa nada mais que sua atribuição. ou pelo “senso comum” da cultura na qual é tentada a criação. As ciências são criadas pelo empenho em reduzir alguma área de experiência cognitivamente problemática para a compreensão em função de alguma área de experiência que seja considerada cognitivamente segura . Uma disciplina científica dada representa um compromisso com um “estilo” de representação. comprometidas a fazer . do modo da metáfora como método por elas utilizado para mapear ou codificar o mundo da experiência da época. como ressalta Foucault. pela pessoa que a faz. todas elas queriam elaborar linguagens de valor neutro pelas quais pudessem libertar o pensamento das constrições das linguagens comuns. de outro lado. ou naturais. qualquer “ciência” comprometida com a constituição de uma lista completa de todas as semelhanças que se poderia pensar entre as coisas no mundo . A metáfora.

Quanto mais longa for a lista. é buscar as essências dos objetos de estudo em uma ou outra das partes das totalidades que investigam. em meio às quais a única relação aparente seria sua existência no modo de contiguidade . está. como na Taxonomia universalis de Lineu. Daí as elaborações intermináveis daquelas tabelas de atributos. relações espaciais. que é a verdadeira base da natureza meca. A metonímia é a estratégia poética pela qual as entidades contíguas podem ser reduzidas à condição de funções uma da outra. como quando o nome que designa a parte de uma coisa é tomado por toda a coisa .como. As ciências humanas do século XVIII. toda a operação se decomporia. mais o fato da dessemelhança se impõe à reflexão. maior o número de “partes” que poderiam ser utilizadas para representar a natureza do todo. a “ciência” teria de encarregar-se de uma tarefa inteiramente diversa. O tropo dominante das ciências projetadas nessa base seria o da metonímia. mas que também tem a conotação de modo de utilização linguística pelo qual o mundo das aparências se decompõe em duas ordens de ser. O que os praticantes de cada uma dessas ciências fazem. A esta altura. a saber. então o mundo se oferece como um espaço cheio de particulares que não só . ou no ouro ou em outro elemento semelhante de produção ou troca. e a busca pelos historiadores naturais das essências das espécies orgânicas na contemplação de seus atributos externos. representam pouco mais que projeções epistemológi. destinadas a revelar finalmente a “rede de relações” que congrega as entidades numa “ordem das coisas”.nicista do pensamento da época. e o fato da aparente dessemelhança de todas as coisas com relação a todas as outras coisas assumiria a condição de um dado primário da percepção. na forma como foram descritas por Foucault. A multiplicação dos dados nessas ciências aumentaria inevitavelmente o número de coisas aparentemente diferentes entre si. tão fadado ao fracasso quanto o estudo das coisas sob o aspecto de sua semelhança e dessemelhança mútuas. como nas relações de causa e efeito ou de agente c ato. a busca pelos economistas da “verdadeira base da riqueza” ou na terra. 274 TRÓPICOS DO DISCURSO própria operação de elaborar uma lista. isto é. a uma. Uma vez que a própria busca das similitudes é inconcebível na ausência de qualquer senso de dessemelhança. O estudo das coisas sob o aspecto de sua existência como totalidades constituídas de partes separadas. Quanto mais próximo o exame. a categoria da dessemelhança é implicitamente dotada da mesma autoridade que tem a categoria da semelhança na ciência construída como a solução para o problema das relações predominantes entre as coisas.cas do tropo da metonímia. e desse modo deformaria a capacidade dos observadores de discernir as semelhanças supostamente existentes entre elas. Quando uma tabela de atributos é tão plausível quanto outra qualquer. por exemplo. E fatalmente tem início o debate acerca de qual parte é o aspecto verdadeiramente distintivo do todo e por referência à qual a natureza do todo deve ser significada. a de elaborar as relações presumivelmente existentes entre as coisas diferentes.apreensão de todas as diferenças que poderiam existir entre as coisas. Quando a lista de coisas semelhantes umas às outras alcançasse certo limite. em última análise. na expressão “cinqüenta velas” utilizada para significar “cinqüenta barcos”. uma palavra que significa literalmente apenas “deslocamento do nome”. segundo o relato que Foucault nos fornece delas. São essas projeções que justificam a busca pelos gramáticos da “gramática universal”.

Os quatro tropos e as suas idades correspondentes no ciclo vital de uma civilização eram a metáfora (a idade dos deuses). Tanto o sistema quanto a teoria pertencem a uma tradição do historicismo linguístico que remonta a Vico. O aspecto importante é que o discurso de Foucault sobre as ciências humanas do século XIX. e entre as partes diferentes de uma entidade única. dos quais derivavam todas as figuras de linguagem. o grau em que ela não apenas “representa” o mundo das coisas mas também constitui a modalidade das relações entre as coisas pelo ato mesmo de assumir uma postura diante delas. obscurecendo desse modo para a própria ciência a percepção da sua própria natureza “poética”. desde a “idade dos deuses”. não só numa única espécie mas também em qualquer organismo. Mas essa “apreensão conjunta” das partes de uma coisa como aspectos de um todo que é maior que a soma das partes. através da “idade dos heróis”. é exatamente a modalidade de relações que é dada na linguagem pelo tropo da sinédoque. a sinédoque (a idade dos homens) e a ironia (a idade da decadência e do ricorso)1. no uso poético. do trabalho e da linguagem do século XIX procedem com base na descoberta da diferenciação funcional das partes dentro da totalidade e na apreensão do modo da Sucessão como a modalidade da relação entre as entidades. Foi esse aspecto da linguagem que se perdeu quando a “ciência” se desvinculou da “retórica” no século XVII. Foucault tem ao mesmo tempo um sistema de explicação e uma teoria da transformação da razão. até a idade da decadência e da dissolução. tal como se desenvolveram nos limites impostos pelas categorias da Sucessão e da Analogia. Em outras palavras. de um lado. e cuja análise fornecia a base para uma compreensão adequada dos ciclos por que passa a consciência nas suas tentativas de conhecer um mundo que sempre ultrapassou nossa capacidade de o conhecer plenamente. é a base para a temporalização da ordem das coisas que Foucault atribuiu à consciência do século XIX. a idade do famoso ricorso. sugere a seguinte relação entre as ciências desse século e as do século anterior: a linguagem metonímica está para a linguagem sinedóquica assim como as ciências humanas do século XVIII estão para as ciências humanas do século XIX. de outro. da relação entre as coisas que os filósofos que falam de relações microcosmo- macrocosmo presumem existir. as ciências da vida. Vico afirmava que havia quatro tropos principais. antes dele aos filósofos linguistas da Renascença e antes ainda aos oradores e retóricos da Grécia e da Roma clássicas. essa atribuição da totalidade e da unidade orgânica a uma congérie de elementos num sistema. Esses quatro tropos serviam de base para a sua própria teoria do ciclo de quatro estágios pelos quais todas as civilizações passaram. finalmente. ou da consciência. O que Foucault fez foi redescobrir a importância do aspecto projetivo ou gerativo da linguagem. . quer saiba disso ou o admita ou não. ao longo do percurso dos seus ciclos vitais. A descoberta de que as coisas não apenas diferem umas das outras mas diferem internamente dentro de si próprias. mas também parecem existir exteriormente uns aos outros. Segundo ele. Esse tropo é o equivalente. FOUCAULT DECODIFICADO 275 são diferentes uns dos outros. a metonímia (a idade dos heróis). ou da ciência. até a “idade dos homens” e daí. e pelas categorias secundárias da interdependência funcional e da evolução.

Foucault atua nessa tradição. 276 TRÓPICOS DO DISCURSO Um tipo semelhante de redução tropológica fundamenta e apóia a análise de Foucault do curso das ciências humanas desde o século XVI até o século XX. 1966). 400-410. o seu Savage Minei (London. lismo. 1968). o sistema binário de interpretação utilizado por Lévi-Strauss é manifestamente tropológico. representam algum tipo de resolução dialética do pólo metafórico e do metonímico do comportamento linguístico. Aliás. por mais que enfatize sua filiação à convenção positivista. Mas é precisamente esse aspecto sistemático da obra de Foucault que o poderia recomendar à atenção dos historiadores. das dimensões tropológicas da linguagem. na medida em que deseja fazer que o pensamento se perca mais uma vez no mito. Comte. A natureza tropológica do pensamento estruturalista parece ter sido desprezada pelos comentadores. A Grammur of Motives (Berkc)cy e Los Angeles. embora a primeira edição do livro de Burke tenha aparecido em 1945. 350-377. Sem dúvid. na própria terminologia de Hegel. Ela é utilizada como base de análise para os estilos literários por Roman Jakobxon em “Linguistics and Poetics”. De fato. Não estou sugerindo uma influência de Vico ou de Burke em Foucault. D. ele é um metafísico. empregada por Vico na sua Ciência Nova e posteriormente aperfeiçoada por modernos teóricos da literatura. pp. ed. Afirmei que Foucault simplesmente expandiu o número de tropos até a classificação quaternária convencional efetivada pelos retóricos da Renascença. como Kenneth Burke. 503-517. permitindo-lhes utilizar u própria linguagem como base para a caracterização de modos diferentes de consciência. a Lógica de Hegel representa pouco mais que uma formalização. Ou pelo menos assim ele os caracterizaria se compreendesse corretamente aquilo de que se ocupara. pp. é pós- irônica. The New Science. Parece seguro vaticinar que a obra de Michel Foucault não conquistará o interesse apaixonado da comunidade filosófica anglo-americana. o atomismo lógico. A. 205-244. que ele define como pós-moderna. Ver o seu “Insistence of the Letter in the Unconscious”. 443-446. Sebeok (New York e London. E sua própria postura. cm Style en lutnguage. Ver. e não ao esclarecimento de problemas técnicos levantados pela lógica formal ou pelos usos da linguagem comum. Ver. a fenomenologia. o uso dos tropos como base para a análise dos modos dc consciência é examinado por Emile Benvenisie no seu “Remarks on the Function of Language in Freudian Theory”. pp. O resultado é uma teoria binária da consciência que ameaça dissolver-se num dualismo. 101-136. poderíamos dizer que.os principais sistemas da nossa época . Foucault trabalha na grande tradição da filosofia europeia continental. Giambaitista Vico. a tradição de Leibniz. o estruturalismo e assim por diante . do ponto de vista de Lévi-Strauss. por exemplo. cm Pntblvms of Gvnsrul Lingitixiics (Coral Gables. Eu poderia acrescentar que geralmente não se reconhece quão penetrante tem sido a percepção dos tropos como base de modos não-cicntíficos do discurso na filosofia “dialética”. E é possível mostrar que de fato ele vê em filosofias e sistemas de pensamento como a psicanálise. Hegel. pp. mesma díade é utilizada por Jacques Lacan para decodificar os sonhos. Jacques Lhrmann (New York. e a famosa segunda metade do capítulo de Marx sobre as mercadorias cm O Capitai pode ser compreendida como uma aplicação da teoria dos tropos à “linguagem” das mercadorias. Foucault visa a um sistema capaz de explicar quase tudo. em Structumíism. “Four Master Tropes”. apenas uma similaridade de abordagem. para Foucault. pp. por exemplo. cd.i. 7. 75-76. 1966). A meu ver. o existencia- 3. Thomus Goddard Bergin e Max Harold Fisch (Itbaca.projeções do tropo da ironia. Todos os sistemas de nomeação. ap. a análise linguística. Bergson e Heidegger. as ciências humanas do século XX podem ser caracterizadas precisamente pela relação Irônica que elas mantêm com os seus objetos. 1969). 1960). vale dizer. Os tropos da metáfora e da metonímia são utilizados por esses pensadores para distinguir entre o eixo diacrônico e o sincrônico do uso linguístico. trad. Thomus A. 1971). sobretudo os da .

interpretações e sobredeter. “tornar familiar o estranho” é apenas um lado dessa dupla operação que Novalis. as ciências físicas. Foucault representa a continuidade de uma tradição do pensamento histórico que se origina no Romantismo e que foi retomada. acessível ao entendimento mediante o senso comum esclarecido. mesmo por aqueles historiadores que concebem a historiografia uma arte essencialmente literária. que Foucault não trabalha na vertente principal da historiografia ocidental. Foucault traz à baila a questão de saber se há mesmo uma lógica interna na evolução das ciências humanas. portanto. Todavia. supõe-se que uma “natureza humana” vagamente imaginada deve ser capaz de reconhecer algo de si própria nos resíduos desse pensamento e dessa prática.viam a questão de maneira diferente. não se devia confundir ressurreição com reconstrução. em geral não tem sido encarado como uma das principais tarefas do historiador. dotado de razões suficientes para sua ocorrência e. Os grandes historiadores românticos - Chateaubriand. Já que estão sempre lidando com um assunto estranho. Foucault tenta desfamiliarizar os fenômenos do homem. Foucault se firmou como um filósofo da história à maneira “especulativa” de Vico. com a sucessiva publicação de seis livros. ou segundo as convenções de sua ramificação. por Nietzsche no último quartel do século XIX. os historiadores não raro admitem que seu objetivo principal deveria ser tornar esse assunto “familiar” aos seus leitores. e por vezes exótico.o credo do humanista e a hipótese de trabalho do historiador convergem para uma simples fé na transparência de todos os fenômenos históricos. Ele pelo menos oferece uma interpretação importante da evolução da consciência “formalizada” do homem ocidental desde o fim da Idade Média. o historiador converte o mundo humano do mistério em que ele está envolvido em virtude da sua antiguidade e sua procedência numa forma de vida diferente daquela aceita como “normal” pelos seus leitores. FOUCAULT DECODIFICADO 277 cultura ou das ideias. restituir às “vozes esquecidas” o seu poder de falar aos homens vivos. Nesse aspecto. em sua famosa definição do Romantismo. refamiliarizar seus leitores com os artefatos de culturas e épocas passadas. O outro lado. preocupado em esclarecer e. de imediato. Nessas obras. no decorrer da narrativa. semelhante àquela que os historiadores pretenderam encontrar no desenvolvimento das suas contrapartidas. Hegel e Spengler. Michelet dizia que o objetivo da historiografia era a “ressurreição”.Folie et déraison. argumentava Michelet. Pois. atribuía à poesia. dessa forma. o tipo de coisa feita pelo arqueólogo quando junta os fragmentos . Diferentemente do historiador convencional. Como todas as coisas históricas presumivelmente tiveram sua origem no pensamento e na prática humanos.minações conceituais. Ao tornar familiar o estranho. Cumpre notar. Nihil humanum mihi alienum puto . Les Mots et les choses e UArchéologie du savoir - fornecem uma reconceituação fundamental da história intelectual europeia. da sociedade e da cultura que se tornaram demasiado transparentes depois de um século de estudos. Carlyle eMichelet . a história das ideias. O que à primeira vista parece estranho deve-se apresentar. que surgem como artefatos no registro histórico. Daí o efeito essencialmente domesticador da maior parte da escrita histórica. Por certo. “tornar estranho o familiar”. Três de suas obras . numa forma peculiarmente autoconsciente.

elevar um “tema provavelmente banal” à grandeza de uma melodia universal . alguns historiadores modernos têm trabalhado nesse sentido nas suas descrições do . imprimir no cotidiano o selo da eternidade. Ele tentou mostrar como estamos isolados dentro das nossas modalidades peculiares de experiência. Joyce e mesmo Eliot - buscavam reconduzir a percepção a uma consciência da estranheza das coisas comuns. entretanto. o provedor arrogante de uma “sabedoria secreta” que mais intensifica que elimina as angústias da existência social do momento. despertando assim nos vivos uma humildade adequada diante dos seus predecessores e reverência para com eles. Ela questiona a própria noção de uma humanitas universal em que se baseia a cartada do historiador no tocante à sua capacidade de “entender” qualquer coisa humana. asseverando que o seu Declínio do Ocidente pretendia revelar muito mais as diferenças fundamentais entre as formas da civilização que as similaridades que as tornavam exemplos de formas genéricas de civilização (uma afirmação amiúde negligenciada pelos que classificaram Spengler como um historiador positivista na mesma tradição de Toynbee). Diante deste. Nietzsche falava num estado de espírito semelhante em O Uso e o Abuso da História. e de molde a lembrar aos homens a variedade irredutível da vida humana. um receptor de mensagens em sintonia mais com os seus conteúdos simbólicos que com os seus conteúdos significativos. será um conhecedor de mistérios e obscuridades. punindo o efeito domesticador da historiografia acadêmica e insistindo em que a historiografia poética constituía um antídoto para a “ironia” debilitante diante de todas as coisas humanas que a “erudição” engendrou. Benn. Semelhante concepção da historiografia é coerente com os objetivos de grande parte da poesia contemporânea. mas até que ponto se afastara dela. pelo menos. E ela apresenta implicações interessantes para o modo como os historiadores poderiam pensar a tarefa da representação narrativa.Hopkins. Spengler levou Nietzsche a sério nesse aspecto. Tornar estranho o familiar. desse modo. Essa concepção da historiografia tem profundas implicações na avaliação da crença humanista numa “natureza humana” que está em toda parte e que é sempre a mesma. tanto que não poderíamos esperar encontrar análogos e modelos para a solução do problema que nos defronta e. daqueles aspectos do seu conteúdo poético perdidos na tradução. 278 TRÓPICOS DO DISCURSO dispersos de um vaso a fim de lhe restituir a forma original. Se o escopo do historiador é a desfamiliarização e não a refamiliarização. Stevens. esclarecer-nos quanto aos elementos peculiares em nossa própria “situação” atual. aparecerá como o crítico perverso do senso comum. sua postura diante de sua platéia deve ser fundamentalmente diferente da que ele adotará em face de seu tema. Yeats.eram esses os mais altos objetivos a que poderia aspirar o historiador na condição de poeta. Da mesma forma que os poetas modernos . Diante de sua platéia. ou. O que Spengler queria demonstrar não era a maneira pela qual a moderna civilização ocidental dava continuidade à sua predecessora grega. Ressurreição significa penetrar até os mais fundos recessos das vidas passadas a fim de as reconstituir em toda a sua estranheza e mistério como forças vitais. ele se mostrará inteiramente simpático e tolerante. Kafka. o subversor da ciência e da razão. recente. por diferentes que sejam as suas manifestações em épocas e lugares distintos.

hardt. grotesco e exótico. cujo “sentido” se supõe residir na sua auto-referência anaclástica. Tal era a recomendação da brilhante (e negligenciada) Geschichte ais Sinngebung der Sinnlõsen de Theodor Lessing e de toda a tentativa historiográfica daquele produto aparentemente incompreensível da Schlachkultur vienense. O interesse de Huizinga pelas manifestações mais bizarras. a que pertencem Lacan. deveríamos distinguir duas vertentes do movimento estruturalista: a positivista. O grupo positivista tem-se ocupado da determinação científica das estruturas de consciência pelas quais os homens formam uma concepção do mundo que habitam e em cuja base idealizam modos de práxis para chegar a um acordo com esse mundo. da natureza humana na vida religiosa do final da Idade Média tem por efeito nos distanciar da humanitas numênica que supostamente partilhamos com os seus agentes humanos representativos.nante pode ser identificado na obra do modelo de Hui2inga. Diferentemente de seus congêneres mais domesticadores em seu cam.po de estudo. as próprias palavras que costumeiramente utilizávamos para apreender a experiência com vistas à reflexão se tornam suspeitas de serem possíveis portadoras de “sentido” genuíno. Nesse processo. Um efeito similarmente alie. Sua concepção de estrutura é. Barthes e o próprio Foucault. para não dizer grotescas. da humanidade. FOUCAULT DECODIFICADO 279 passado.liarizador num duplo sentido. bizarro. De um lado. não a fim de reduzi-lo pelos “desmascaramentos” psicológicos ou sociológicos dos seus conteúdos aparentemente corriqueiros. Estamos simultaneamente distanciados de nossa base selvagem e alienados de nossa superestrutura civilizada. como Althusser e o falecido Lucien Sebag. Jacob Burck. Lévi-Strauss. O interesse pelo singular. ele nos transmite a sensação de quão tragicamente afastado está o homem civilizado do seu congênere selvagem e presumivelmente mais “humano”. Em resumo. de outro. como sucede com Mallarmé. exerce o mesmo efeito na historiografia realizada por Lévi-Strauss em suas reflexões mandarinescas acerca das formas do pensamento e da ação “selvagens”. uma concepção . secundado pela afirmação de que o “selvagem” é a mais humana das opções. E esse interesse na desfamiliarização que permite classificar Foucault entre os estruturalistas. Aliás. Ao contrário. não se imagina mais que as palavras denotem uma realidade exterior ao âmbito de seu uso. antes de tudo. Ao contrário. a despeito de sua negação de não fazer causa comum com eles. a linguagem se torna uma música. Egon Friedell. O método de análise e de explicação das sociedades primitivas de Lévi-Strauss é desfami. Piaget. Orientação semelhante se pode ver num clássico da historiografia supostamente humanista como o Waning ofthe Middle Ages de Johann Huizinga. Goldmann e os marxistas. as palavras são concebidas conotativas de um universo de símbolos multiestratificado. Lévi-Strauss não introduz a distinção entre o pensamento “selvagem” e o “civilizado” para finalmente afirmar as continuidades entre eles. ele nos aliena dos modos de pensamento e comportamento que antes valorizávamos como provas de nossa “civilidade”. propõe sua distinção entre eles a fim de os oferecer como formas alternativas. e a escatológica. mutuamente exclusivas. a que podemos vincular Saussure. cuja estrutura é mais significativa que qualquer conteúdo proposicional que se poderia extrair dela por análise lógica. Nas complexas análises das fórmulas verbais que Lévi-Strauss realiza em seu processo desfamiliarizador.

cujo sentido não é outra coisa senão o que é. do pensamento e da ação diferentes. porquanto conduz o pensamento ao interior de um dado modo de consciência no qual todo o seu mistério essencial. a totalidade da vida humana deve ser tratada como um “texto”. para não dizer mutuamente exclusivos. Ela significa. e dessa maneira ele está interessado. sua opacidade e particularidade são celebrados como prova da variedade irredutível da natureza humana. ou pragmática. A segunda vertente é essencialmente dispersiva. Lacan. . Interpretar esse texto é o seu objetivo. porém. e não com as “coisas” que elas parecem representar e explicar. tal como foi ensinada no Evangelho segundo Santo Stéphane Mallarmé. desde São Joao Evangelista até Karl Barth.não aquela epifania do Verbo feito Carne que é a suprema concepção dos seus congêneres cristãos. de modo a revelar a dinâmica interna dos processos do pensamento por meio dos quais uma dada representação do mundo em palavras se fundamenta na poesis. a da “Carne tornada Verbo”. Mas essa concepção alternativa da ciência como poesis os expõe aos perigos do sectarismo. Para eles. Aqui. A primeira vertente é. Eles levam a sério a convicção de Mallarmé de que as coisas existem para que possam viver nos livros. ao qual opõem sua própria concepção. trabalham com epifanias . em mostrar de que modo todos os sistemas de pensamento nas ciências humanas podem ser considerados pouco mais que formaliza- ções terminológicas dos fechos poéticos com o mundo das palavras. Na verdade. integrativa no seu escopo. a interpretação não leva à descoberta da relação entre as palavras do texto e o universo das coisas imaginado fora do texto e ao qual se referem as palavras do texto. 280 TRÓPICOS DO DISCURSO funcionalista. Já a vertente escatológica se concentra nas formas pelas quais as estruturas de consciência realmente ocultam a realidade do mundo e. na medida em que considera uma “estrutura das estruturas” pela qual se poderia ver que os diferentes modos do pensamento e da prática manifestam um nível unificado de consciência humana partilhado por todos os homens em todos os lugares. de uma ciência do concreto e do particular na forma de uma alternativa humanamente benéfica. como que a chave para o entendimento do seu método. Os estruturalistas escatológicos. É por essa razão que o ramo escatológico do movimento estruturalista por vezes parece ser profundamente anticientífico em suas implicações. sobretudo. como Foucault sugeriu. e obstinadamente obscurantista em seus métodos. fundamentalmente “poética”. antes. ou “transcrição”. Lévi-Strauss e Foucault consideram a forma positivista da “ciência” pouco mais que um mito. Transformar a prosa em poesia é o objetivo de Foucault. como o rótulo que lhes dei pretende implicar. efetivamente isolam os homens dentro de universos do discurso. mas. mediante esse ocultamento. podemos dizer. Cada um dos principais representantes do ramo escatológico alcançou a condição de guru. fossem quais fossem as diferenças culturais que pudessem revelar. com o seu estilo particular e tom oracular e com o seu próprio bando dedicado de seguidores que vêem nas doutrinas que recebem dos seus lideres as portadoras de uma “sabedoria secreta” subtraída aos olhos profanos dos não-iniciados.

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Essa ciência de regras não tem regras. Como forma de prática intelectual.ciplinares. quer no tocante ao assunto.e isso porque a moderna crítica lite- rária não tem uma ideia segura do que representa a “literatura” ou do que parece ser um artefato especificamente “literário”. Ela não sabe onde traçar a linha que separa a “literatura”. Nem mesmo se pode dizer que tem um objeto de estudo preferido. portanto. Os contornos da crítica não são claros. Os criti. e a “linguagem”.cos literários modernos se assemelham aos seus protótipos históricos devido ao interesse que demonstram pela literatura e à concentração no artefato literário que convertem no ponto de partida para a composição de seus discursos. 0 MOMENTO ABSURDISTA 4 NA TEORIA LITERÁRIA CONTEMPORÂNEA Qualquer tentativa de caracterizar o estado atual da crítica literária deve primeiramente lidar com o fato de que a crítica literária contemporânea não constitui um campo coerente de teoria e prática. A moderna crítica literária não reconhece obstáculos dis. Mas isso só é verdadeiro num sentido geral. Mas esse interesse e essa concentração são para muitos críticos modernos apenas possibilidades teóricas . Na crítica literária. tudo é admitido. Nem mesmo está certa de que seja necessário. sua geografia não é especificada e sua topografia. Poder-se-ia pensar a priori que a crítica literária é distinguível de outros tipos de atividade intelectual em virtude de seu interesse no artefato especificamente literário. . de outro. desejável ou mesmo possível traçar essa linha. é incerta. de um lado. nenhum campo é mais imperialista. quer no que respeita aos métodos.

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Blanchot. mas o impulso da crítica literária não é mais casual do que o da cultura ocidental em geral. Foucault e Jacques Derrida. Ao contrário. Não reconhecem a atividade crítica. considerada um dado de história cultural? Por que deveria o historiador da cultura considerar a crítica Absurdista um dado privilegiado em qualquer apreciação da condição da crítica literária em nossa época? Diferentemente da Nova Crítica. Não é apenas na crítica literária que o balbuciar deixa de ser um problema para tornar-se uma norma. e chegam a recomendar reformas metodológicas específicas que lhe permitirão fazer melhor o que ela sempre havia feito de maneira adequada. continuam a acreditar que a crítica é ao mesmo tempo necessária e possível. que põe em dúvida as práticas da crítica Normal. como também confere sentido à experiência. os Absurdistas atacam todo o empreendimento crítico. do formalismo.pois a crítica Absurdista trata mais da crítica que da literatura. Por conseguinte. Mas para o crítico Normal é difícil ignorar o crítico Absurdista. testemunhamos a emergência de um movimento na crítica literária que suscita a questão fundamental apenas para obter uma satisfação cruel na contemplação da impossibilidade de resolvê- la algum dia. O propósito da crítica era penetrar de um lado ao outro do meio. a linguagem em si não era um problema. Derrida . esse é um problema doméstico. é mais vulnerável: na teoria da linguagem. os Absurdistas não representam um movimento de reforma na comunidade crítica. como o fazem numa extensão interminável e alta voce. por . A linguagem era apenas o meio de corporificar a mensagem literária. O problema deles é a crítica Absurdista. A literatura é reduzida à escrita. em todas as suas formas. e a principal tarefa da moderna crítica literária (se a questão for levada às últimas consequência s) é comandar a sua própria dissolução. pois os críticos que defendem esse ponto de vista não só continuam a escrever sobre as virtudes do silêncio. e o fazem onde a crítica Normal. A crítica Normal não é um problema.pelo menos para os críticos Normais. seria bom para os críticos Normais que ignorassem os seus críticos Absurdistas. da crítica prática. Para as convenções críticas mais antigas. Quando o crítico Absurdista - Foucault. Mas em nenhum lugar essa norma é mais reverenciada do que na obra daqueles críticos Absurdistas que fazem críticas intermináveis em defesa da ideia de que a crítica é impossível. Certamente. ou. ao palavreado oco sobre o silêncio. Obviamente. ou antes os seus metacríticos Absurdistas . de sequer formulá-la. Essa apoteose do “silêncio” é o destino inevitável de um campo de estudo que se libertou das suas amarras culturais. num paroxismo final de frustração. pois este sempre dá mostras de levar mais seriamente o empreendimento crítico do que aquele: ele está disposto a questionar o próprio empreendimento crítico. ou. A posição é manifestamente Absurda.embora de maneira nenhuma para todos ou mesmo para286a maioria deles já que tudo é potencialmente TRÓPICOS DO DISCURSOin. E de que modo pode um crítico Normal negar a legitimidade do impulso para criticar a crítica? Depois que a crítica se lançou em seu curso de questionamento. na crítica. a escrita à linguagem e a linguagem. Por que deveria o historiador da cultura levar a sério a crítica Absurdista? Qual é o status da crítica Absurdista. pois . a “literatura” como tal não existe. No pensamento de Bataille. Barthes.terpretável como linguagem. e mesmo da crítica fenomenológica. então tudo é potencialmente interpretável como literatura.que deveríamos chamar críticos Normais - continuam a acreditar que a literatura não só tem um sentido. se a linguagem é considerada tão-somente um caso particular do campo mais abrangente da semiótica. a maioria dos críticos . de que modo pode deter-se antes de questionar-se a si própria? Mas. é sempre com o intuito de ressaltar um aspecto metacrítico. nada é interpretável como fenômeno especificamente “literário”. Para muitos críticos modernos . no extremo limite do pensamento.fala sobre um artefato literário.

ela era vulnerável a uma estratégia crítica segundo a qual o problema da interpretação estaria na superfície do discurso. ao “sentido”. localiza um ponto de tensão da crítica convencional e expõe uma presunção não- reconhecida de todas as formas de crítica anteriores. antes mesmo de ter início o que normalmente se pensava ser “interpretação”. Para o crítico Absurdista. o mal que tornou possível a “civilização” e engendrou os seus “descontentamentos” mutiladores. a presunção da transparência do texto. a fim de chegar mensagem. com bastante erudição e agudeza. de encantar o entendimento mediante um jogo infinito de signos. em última aná- lise. conceba-se ou não que o tex . ao nível semântico que está por baixo dele. nos níveis superficiais do texto. na contemplação do poder da linguagem de ocultar ou difundir o sentido. A crítica Absurdista. seu empreendimento é completamente diferente. na própria linguagem em que o discurso ao mesmo tempo revelava e escondia a sua própria falta de sentido. o texto pode ser compreendido no tocante ao “sentido” (mais ou menos ambíguo) que subjaz à sua textura superficial. a noção do texto se torna uma categoria abrangente do empreendimento interpretativo. O problema da interpretação emergiu tão logo foi alcançado esse nível mais profundo. em contrapartida. a textualidade em si. trata a linguagem em si como um problema e se demora indefinidamente na superfície do texto.0 MOMENTO ABSURDISTA tradução. NA TEORIAgramatical explicação LITERÁRIA CONTEMPORÂNEA 287 à e sintática. que viam na linguagem o problema humano por excelência. Isso não quer dizer que os críticos Absurdistas participam da tentativa de Chomsky e outros linguistas técnicos de criar uma ciência da linguagem. Exatamente pelo fato de a crítica Normal não ter visto na linguagem em si um problema (apenas um quebra-cabeça a resolver antes de abordar o problema real: a revelação do sentido oculto na linguagem). de opor-se à decodificação ou à tradução e.análise filológica. Eles buscam inspiração em Nietzsche. de molde a lhe conferir certa qualidade técnica e a colocar os críticos convencionais na defensiva no local onde são mais vulneráveis. Mallarmé e Heidegger. Ao contrário. Ao fazê-lo. a presunção de que. Mas revestem seu ataque à linguagem de uma terminologia tirada de Saussure. A crítica Absurdista questiona o status do texto.

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Simon (ed. o produto de um impulso estranho à crítica convencional. 1974). As antologias consideradas foram: Mcrton W. p. a conceber o texto como o verdadeiro paradigma da experiência e a conceber o ato de ler como um análogo privilegiado do modo pelo qual damos sentido a todas as coisas. 1973). The Structuralist Controversy (Baltimore. Esse fascínio pela noção do leitor privilegiado é em si mesmo sintomático da possibilidade absurdista contida dentro do campo geral da crítica 1.. para o es- truturalista. Polietta (ed. 1973).. leitores dotados da autoridade para estender-se sobre os mistérios dos textos e leitores carentes dessa autoridade. 285 no jogo dos signos. é fácil entender de que modo “o ato de ler” pôde tornar-se fetichiza. dedicada a uma avaliação do panorama atual da crítica literária. em Simon.todos os modos da expressão possível. considerar o texto ou como um significante que é o seu próprio significado (Derrida) ou como uma mera “coleção de signos dados sem relação com ideias. em Simon.isto é. Daí o âmbito relativamente limitado de alusões neste ensaio. Richard Macksey c Eugênio Donato (eds. Mas qual é a condição do texto numa cultura que não acredita mais em Deus. John K. nada”. Vemon W. o crítico Beguin da Escola de Genebra o vê: como um sacramento que traz em si “o precioso testemunho . Sempre houve na crítica um impulso para ver o texto como.. 1972).. da presença de Deus na criação” (“The Geneva School”. então. . ou mesmo na “literatura”? Torna-se possível. de acordo com Hillis Miller.de não é. O professor Krieger convidou diversos críticos e historiadores da literatura a refletirem sobre esse panorama mediante uma análise de inúmeras antologias de crítica recém-publicadas. Veloci/iex of Ckange: Criticai Essuys from MLN (Baltimore. que desaparece no fluxo da linguagem.). a solidão da linguagem ritual” (Barthes. Gregory T. to não existe absolutamente em parte alguma. transformado num mistério que é uma atividade ao mesmo tempo fascinante e cruelmente mutiladora. Sempre houve na crítica uma tendência a deificar o texto.). contudo. Bloomfield (ed. Said. Modern French Criticism: From Proust and Valéry to Structuralism (Chicago. 1970). dada a noção do texto como “tudo.. The Languages of Criticism and lhe Sciences of Man. que grande parte da critica contemporânea gire em torno da tentativa de estabelecer os critérios para determinar as técnicas e a autoridade do leitor privilegiado.). Esle ensaio foi escrito a convite de Murray Krieger.do. na densidade de . Richard Macksey (ed. “tudo é um texto. In Search of Literary Theory (Itliaca. European Literary Theory and Pratica: From Existentia! Phenomenology lo Structuralism (New York. Desse modo. Absence. p. 1972). Em ambos os casos. in Simon. p. Como diz Edward W. Tal é particularmente o caso da abordagem estruturalista do texto.. 289)'. para uma ediçüo especial de Contemporary Literatura (Summer 1976). na cultura. então. Writing”. 379). E pode-se compreender de que modo.). com tais visões encabeçando a lista dos postulados que possibilitam a crítica. citado por Velan. 332). ou..). Não é de surpreender... Gras (cd. a critica seria levada a tentar distinguir rigorosamente entre o que se poderia chamar “leitores senhores” e “leitores servos” . na tradição.. linguagem ou estilo e que intentava definir. ou. Essa fetichização TRÓPICOS DO DISCURSO do texto ou da textualida. o texto se torna um análogo do Ser ou a sua antítese. nada é um texto” (“Abecedarium Culturae: Structuralism. Issues in Contemporary Literary Criticism (Boston.).

0 MOMENTO
literária numa sociedade ABSURDISTA NA TEORIA
pós-industrial. EleLITERÁRIA
refleteCONTEMPORÂNEA 289
uma falta de confiança generalizada
em nossa capacidade de localizar a realidade ou os centros de poder na sociedade pós-
industrial e de compreendê-los quando são localizados. Numa sociedade em que são
indetermináveis tanto as estruturas quanto os processos, todas as atividades se tornam
questionáveis, mesmo a crítica, mesmo a leitura. Mas, porque essas atividades continuam
a ser praticadas, continuam a reivindicar uma autoridade sem fundamentos teóricos
adequados para tanto, torna-se imperativo determinar quem é responsável por elas e por
que deveriam ser praticadas. A leitura torna-se tão problemática quanto a escrita, a
política ou o comércio e, como eles, converte-se na prerrogativa de uns poucos
privilegiados.
Evidentemente, a leitura sempre fora considerada um precioso dote humano, um
artigo de luxo, o sinal e a base da civilização, e a prerrogativa de uns poucos. Mas era
também tradicionalmente considerada um talento que em princípio todos os homens
possuíam, era vista como uma atividade humana comum cuja conquista exigia apenas
talentos humanos normais. Mas, sob o imperativo de mistificar o texto, ele próprio uma
função de um imperativo anterior de mistificar a linguagem, a leitura se reveste de quali-
dades mágicas, é vista como um privilégio de algumas inteligências excepcionais. Não
admira, portanto, que alguns dos críticos modernos mais Absurdistas vejam na leitura,
assim como na escrita, atividades “perigosas”, que só devem ser encetadas sob condições
cuidadosamente reguladas ou sob a direção daqueles leitores profissionais que compõem
a elite da comunidade crítica.
Dessa maneira, por exemplo, Heidegger define a linguagem como a mais perigosa
posse do homem (“Hõlderlin and the Essence of Poetry”, em Gras, p. 31), enquanto Jean
Paulhan concebe a linguagem como “traição” (Alvin Eustis, “The Paradoxes of
Language: Jean Paulhan”, em Simon, p. 110). Segundo Beaujour, Bataille vê na literatura
o paradigma da “transgressão” (“Eros and Nonsense: Georges Bataille”, em Simon, p.
149), enquanto Maurice Blanchot, como nos diz de Man, concebe o “processo de leitura”
situado “antes ou além do ato de entendimento” (“Maurice Blanchot”, em Simon, p. 257).
E Said escreve que Derrida acredita que a escrita “participa constantemente da violência
de cada traço que faz” (“Abecedarium Cul- turaé'’, em Simon, p. 385). A mistificação
do texto resulta no fetichismo da escrita e no narcisismo do leitor. O leitor privilegiado
olha em derredor e só encontra textos e, nos textos, apenas a si próprio.
Essa não é de modo nenhum uma atitude encontrada apenas nos críticos
Absurdistas, que Eustis chama de “Terroristas” (“The Paradoxes of Language”, em
Simon, pp. 111-112). Ela estava desde o início potencialmente presente na própria
atividade da crítica. Tomemos um exemplo menos extremado. Georges Poulet
dificilmente pode ser considerado um Terrorista. Em sua prática crítica, ele se acha muito
mais próximo das escolas críticas convencionais, como as representadas pelos Novos
Críticos da América, pe~ los críticos práticos da Grã-Bretanha e pela tradição da história-
das-ideias representada pelo falecido A. O. Lovejoy, ou da tradição filológica de Spitzer
- a velha guarda da crítica contemporânea. Entretanto, numa notável celebração da sua
própria experiência de leitura como um paradigma da prática crítica, Poulet, no famoso
ensaio “A Fenomenologia da Leitura”, termina dizendo: “Parece então que a crítica, a
fim de acompanhar a mente na sua tentativa de desprender-se de si mesma, precisa
aniquilar, ou pelo menos esquecer momentaneamente, os elementos objetivos da obra e
elevar-se à apreensão de uma subjetividade sem objetividade” (em Polletta, p. 118).
O leitor ingênuo perguntará: O que pode significar isso? Em que poderia consistir
uma “subjetividade sem objetividade”? Poulet continua acreditando na realidade da obra
literária e considerando-a o produto de uma atividade humana reconhecível. “Há”,
escreve ele, “na obra [literária] uma atividade mental profundamente comprometida com

formas objetivas”. Ao mesmo tempo, porém, ele postula “um outro nível” da obra onde,
“abandonando
290 todas as formas, umTRÓPICOS
assunto [...] se revela a si mesmo (e a mim) na sua
DO DISCURSO
transcendência sobre tudo o que se reflete nele”. Quando o leitor, ou antes Poulet (pois
ele é um leitor solitário), atinge esse ponto, “nenhum objeto pode mais exprimi-lo,
nenhuma estrutura pode mais defini-lo; ele está exposto na sua inefabilidade e na sua
indeterminação fundamental” (ibid.).
Assim caracterizado, o texto literário tem todos os atributos da divindade, do
espírito ou do nume; é um efeito que é a sua própria causa, e uma causa que é o seu
próprio efeito. Tal é, precisamente, o ponto de vista do Terrorista Blanchot, que insiste,
juntamente com Mallarmé, em que o livro “vem a ser por si próprio; é feito, e existe, por
si mesmo” (De Man, em Simon, p. 263). Mas, diferentemente de Blanchot, que insiste
em dizer que nem mesmo o autor é capaz de ler sua obra (ibid., p. 260), Poulet sugere
que a obra lê-se a si própria por meio dele. Como ele diz:

Não devo hesitar crn reconhecer qus, enquanto é animada por essa inspiração vital sugerida pelo ato de
leitura, uma obra literária se toma (às custas do leitor cuja própria vida ela suspende) uma espécie de ser humano;
que ela é uma mente consciente de si própria e se constitui em mim como o sujeito dos seus próprios objetos.
A obra vive sua própria vida dentro de mim; em certo sentido, ela se pensa, e mesmo confere a si mesma
um sentido em mim (“Phenomenology of Reading”, em Polletta, p. 109).

O que poderia ser mais órfico! Não se trata de tomar esse trecho como uma aproximação
figurativa do que Poulet literalmente experimenta no ato de leitura. Quando falamos
teoricamente, somos tão responsáveis pelas figuras de linguagem que utilizamos para
ilustrar um problema quanto pelas palavras que escolhemos para denotar o seu conteúdo.
Aqui a obra é personificada no modo do espírito; o ato de leitura se torna constitutivo de
sentido; e a troca entre obra e leitor é construída à maneira de uma invasão da consciência
por uma presença fantasmagórica (embora sempre benigna). Não é de surpreender que
Poulet use a linguagem da análise esquizofrênica para glosar essa ideia:

Ocorre uma defasagem, uma espécie de distinção esquizóide entre o que sinto e o que o outro sente; uma
percepção confusa de dilação, de modo que a obra parece primeiramente pensar por si própria, e, depois,
informar-me o que ela pensou. Assim, tenho às vezes a impressão, enquanto leio, de simplesmente testemunhar
uma ação que ao mesmo tempo concerne e no entanto não concerne a mim. Isso provoca em mim um certo
sentimento de espanto. Sou uma consciência atônita com uma existência que não é minha, mas que experimento
como se fosse minha.
Essa consciência atônita é, com efeito, a consciência do crítico {ibid., p. 110).

O que é espantoso na identificação que Poulet faz do espanto com a consciência
critica é que ele se recusa a continuar emudecido, aturdido; ao invés disso, escreve
ininterruptamente sobre o seu próprio espanto diante (ou dentro) do texto. Nesse aspecto,
ele não difere absolutamente do crítico Absurdista que nega de modo geral a
possibilidade de crítica, e o faz repetidas vezes numa celebração de uma capacidade de
interpretar mal, que, no extremo, nega a sua própria autenticidade. Isso se torna ainda
mais interessante no fato de que a celebração que Poulet faz da leitura como um rito de
iniciação órfica se desenvolve no interesse de defender a “literatura” contra a sua
assimilação a mera escrita, de um lado, e ao domínio dos artefatos meramente materiais,
de outro. Mas o efeito sobre a conceituação da natureza da leitura e sobre as tarefas da
crítica é o mesmo. Poulet faz da leitura um sacramento e da crítica a disciplina das
disciplinas, como a teologia o era (ou reivindicava sê-lo) na Idade Média, mesmo que,
enquanto disciplina, aquilo a que ela mais aspira seja, não o entendimento, mas o
“espanto”.
De que modo podemos explicar a tendência, manifestada por inúmeros críticos de

0 MOMENTO
nossa época, a mistificar a ABSURDISTA
literaturaNAe TEORIA LITERÁRIA aCONTEMPORÂNEA
transformar 291
leitura num mistério do qual apenas
os mais profundamente iniciados podem tomar parte autorizadamente? Em The Fate of
Reading, Geoffrey Hartman encontra a causa da tagarelice crítica atual num “novo mal
du sièclé”. As palavras perderam o seu valor, juntamente com todos os outros signos,
porque foram superproduzidas através do “fluxo de estímulo” da mídia. “Sabemos” de-
mais; ou, antes, temos “informações” em demasia. E a consequência é “a impaciência:
[...] Parecemos incapazes de concluir um tema, ou qualquer investigação. O remate é a
morte” (Hartman, pp. 250-251). O desaparecimento da literatura na linguagem e desta
nos signos inflaciona, inevitavelmente, o valor do desempenho crítico embora, ao mesmo
tempo, revestindo esse desempenho do aspecto de um mistério. O crítico já não sabe
exatamente por que está fazendo o que faz ou como o faz; no entanto, ele não pode parar.
Acha-se sob domínio de uma vis interpretativa cujo poder compulsivo o impele a refletir
mais sobre crítica do que sobre “leitura”. A metacrítica torna-se o modo. “A literatura é
hoje tão facilmente assimilada ou cooptada que muitas vezes a função da crítica deve ser
desfamiliarizá-ía.” Assim escreve Hartman. O mesmo se pode dizer da própria crítica.
Nesse estado de coisas, o crítico se vê tentado a desfamiliarizar a crítica. E um dos meios
de fazê-lo é reivindicar para ela a mesma autoridade que os críticos anteriormente
reivindicavam somente para a literatura. Hartman, com excessiva cautela, considera a
possibilidade de que a crítica seja em si mesma “uma forma de arte”, mas parece relutante
em tirar todas as consequência s desse ponto de vista. Em vez disso, ele se refugia por
trás da alegação de que a leitura deve ser restaurada como “a forma consciente e
escrupulosa daquilo que chamamos crítica literária” (ibid., p. 272).
A aflição de Hartman pode ser interpretada como um sintoma do mal du siècle que
ele procura transcender. A mensagem dos críticos Absurdistas é clara: numa sociedade
em que o trabalho humano deixou de ser um valor ou aquilo que confere valor aos seus
produtos, nem os textos literários nem qualquer outra coisa podem reivindicar uma
condição ontologicamente privilegiada. Os textos literários são mercadorias, assim como
todas as outras entidades que habitam o reino da cultura, diferindo dos objetos naturais
exclusivamente pela quantidade de dinheiro que podem exigir numa economia de troca
ou de mercado. E, enquanto o valor do trabalho humano permanecer não-reconhecido ou
indeterminado, ou calculado em termos do seu valor de troca por um equivalente em
dinheiro, o artefato artístico continuará sujeito ao tipo de fetichização a que o próprio
dinheiro está sujeito. O empenho da parte de Poulet, e de Hartman, em devolver
dignidade ao ato de ler continuará sujeito à tendência à mistificação, enquanto todas as
outras formas especificamente humanas de trabalho permanecerem desvalorizadas,
subvalorizadas ou valorizadas exclusivamente em termos de dinheiro.
Não é de surpreender que a crítica esteja em crise. Visto que ela é, apesar de tudo,
quintessencialmente uma atividade valorativa, está sujeita aos mistérios da valorização
que predominam no setor determinante da moderna vida social: o econômico.
Obviamente, os críticos - leitores profissionais de textos - têm interesse em aumentar o
valor tanto da sua própria atividade quanto dos objetos, os textos, que são a razão dessa
atividade. Um dos modos de promover esse aumento é dotar a obra literária de todos os
atributos de um “espírito” cujo desaparecimento na esteira de uma profunda
materialização da cultura é sinalizado apenas por aquelas “esteiras de vapor” que
Nietzsche divisava no horizonte remoto da “civilização”. Esse é o caminho tomado por
Poulet e por outros representantes da crítica Normal desde os Novos Críticos e os críticos
práticos do período entre as guerras, passando pela crítica arquetípica de Northrop Frye
e pelos representantes da Escola de Yale em nossa própria época.
Outra maneira de aumentar o valor da literatura e da crítica é a adotada pela
linhagem de críticos que vêm de Heidegger e de Sartre em sua fase inicial, passando pela

fenomenologia e pelo estruturalismo. Essa maneira enfatiza a natureza “demoníaca” da
literatura,
292 da linguagem e da cultura em geral.
TRÓPICOS Esse processo de demonização prepara o
DO DISCURSO
terreno para a recepção do discurso Absurdista de Bataille, Blanchot e outros, e culmina
em Barthes, Foucault e Derrida. Negando a condição privilegiada da literatura e do arte-
fato literário, os críticos Absurdistas simplesmente exacerbam o impulso de acomodar
tudo à sua conclusão lógica - e absurda.
Assim, quando Foucault diz que as palavras ou a linguagem são apenas “coisas”
entre as outras coisas que habitam o mundo, está menos interessado em rebaixar
ontologicamente as palavras e a linguagem do que em desafiar as convenções culturais
que opõem “cultura” a “natureza” no modo da oposição qualitativa, identificando
“cultura” com “espírito” e “natureza” com “matéria” em teoria, mas na prática tratando
todo o artefato cultural como mera mercadoria. Foucault está menos interessado em
desespirituali- zar a cultura do que em renaturalizá-la; ou, antes, apenas em naturalizá-la,
uma vez que, do seu ponto de vista, a cultura desde a fundação da sociedade esteve
vivendo a ilusão de sua espiritualidade. É esse interesse na de- sespiritualização dos
artefatos culturais da sociedade moderna que integra a ele e a Barthes no projeto
grandioso e anticivilizacional de Lévi-Strauss. Como Lévi-Strauss, Foucault e Barthes
vêem na função da crítica a desmitologização da moderna sociedade industrial.
Desmitologizar, insiste Barthes, é mostrar de que forma todo artefato cultural que
reivindique a condição de natural é, na realidade, artificial e, afinal de contas, um simples
produto humano. Revelar a origem humana dessas ideias e práticas que a sociedade
considera naturais é mostrar quão antinaturais elas são e é voltar a atenção para uma
ordem social genuinamente humana em que a busca da espiritualidade terá sido
definitivamente sepultada porque a cultura haverá de ser considerada contínua com a
natureza, em vez de separada dela.
É no contexto desse empreendimento mais amplo e socialmente utópico que devem
ser compreendidas as atitudes Absurdistas para com a crítica enquanto atividade e para
com outros críticos, os Normais. Para o Absurdista, o papel da crítica é tomar o partido
da natureza contra a cultura. Daí a celebração, por parte desses críticos, de fenômenos
anti-sociais como a barbárie, a criminalidade, a insanidade, a infantilidade - qualquer
coisa que em geral seja violenta e irracional. O lado sombrio da existência civilizada -
aquele que, como disse Nietzsche, tinha de ser abandonado, reprimido, confinado ou
apenas ignorado, se se quisesse que a civilização fosse fundada - foi simplesmente
evitado pelos críticos Normais, que definem a sua tarefa principal como a defesa da
civilização contra todas essas coisas. Assim também, na medida em que a crítica Normal
julga que a “literatura” ou a “arte” consiste apenas naquelas criações do homem que lhe
reforçam as capacidades para a repressão, a má fé ou a violência requintada, ela deve ser
encarada como cúmplice dos próprios processos de autonegação que caracterizam as
modernas sociedades de consumo.
A crítica Absurdista realiza o seu distanciamento crítico da cultura, da arte e da
literatura modernas invertendo a suposição, até agora não-questio- nada, de que a
“civilização” vale o preço pago em sofrimento humano, an~ gústia e dor pelos “não-
civilizados” do mundo (os povos primitivos, as culturas tradicionais, as mulheres, as
crianças, os proscritos ou párias da história mundial) e afirmando os direitos dos “não-
civilizados” contra os “civilizadores”. A crítica Absurdista inspira-se na intuição de que
a arte e a literatura não constituem atividades inocentes que, mesmo nos seus melhores
representantes, são totalmente destituídas de cumplicidade na exploração da maioria pela
minoria. Ao contrário, pela sua própria natureza de produtos sociais, a arte e a literatura
não apenas são cúmplices na violência que mantém uma dada forma de sociedade, como
têm o seu próprio lado inferior sombrio e a sua origem na criminalidade, na barbárie e no

mas todas essencialmente normativas na prática. Taine ou Dilthey. Essas formas de crítica eram variadas. tendiam a ver na existência da crítica literária um dado. mas não era misteriosa. mas. Em primeiro lugar. sua habilidade em sondar as profundezas do sentido de um texto. Nietzsche e Freud são os quatro luminares dessa tradição crítica porque ensinaram. E o faz insistindo na anormalidade daqueles valores que a crítica Normal admite. Descobrir quais são os limites da liberdade que esse clichê autoriza é o principal objetivo da crítica Absurdista. o que Dostoiévski exprimiu em palavras que se tornaram o clichê sancionador de tantos movimentos culturais modernos: se Deus está morto. em segundo lugar. de re- velar seus significados. E. conquanto apresentassem diferentes teorias sobre o artefato literário. humanidade ou vida. a fim de interpretá-lo. mas não pode fazê-lo de modo consistente. como cultura. não apenas elevar como rebaixar . positivamente. na avaliação Absurdista. com efeito. mas não reconhecidos. porque a crítica Absurdista é simplesmente uma extensão lógica dos princípios predominantes. ainda fascinados pelo arrojo dos seus postulados de capacitação. inspiradas por filósofos tão diferentes quanto Arnold. Isto é. Cumpre indagar. . proceder à demonstração de como a literatura “boa” fazia de maneira satisfatória o que a literatura “ruim” fazia imperfeitamente. mas essas noções eram alimentadas “ingenuamente” na medida em que eram tidas como justificativas para criticar. não julgavam a crítica em si um problema. portanto: O que é a crítica Normal? Negativamente. não apenas unir como dividir.e. Concebida dessa forma. e passavam diretamente da pergunta “Por que fazer crítica?” para o problema teoricamente posterior de “Como fazer crítica?”. 0 MOMENTO ABSURDISTA NA TEORIA LITERÁRIA CONTEMPORÂNEA desejo de destruição. de situar um texto nos seus contextos históricos e de comunicar as características da estrutura do texto e do conteúdo ao leitor comum. embora exibissem vários graus de consciência teórica. por assim dizer. Podemos chamar de Elementar esse modo de discurso crítico. não apenas podem curar como ferir. a literatura era “valiosa”. ela é qualquer coisa que não é Absurdista. de uma forma ou de outra. Sade. tudo é permitido. Croce. pois. 293 A arte e a literatura. pode ser definida por certos atributos reconhecíveis. Ela questiona os próprios conceitos de normal e de normativo na sociedade moderna. é o que fazem ininterruptamente no interesse dos que detêm o poder e os privilégios das classes dominantes em todas as sociedades conhecidas da história. o objetivo do crítico era distinguir a literatura “boa” da “ruim” ou “imperfeita” e. programaticamente “anormal”. Marx. e ainda mais importante. A crítica que predominou nas universidades durante o período entre as guerras pode ter sido inspirada por várias noções gerais das tarefas da crítica. de situá-lo nos seus diversos conteúdos históricos e assim por diante. não se caracterizavam por um grau muito elevado de autoconsciência teórica. primeiro porque a crítica Absurdista continua a se desenvolver entre os críticos mais jovens. no sentido de que ele não questionava a possibilidade do serviço prestado pelo crítico à literatura. à civilização e à própria humanidade. depois. Esta procura ignorar ou desprezar a acusação de anormal que se lança contra ela. civilização. um fato da vida. à arte. julgava-se que servisse inequivocamente às causas de valores mais elevados. e não como razões para a consideração problemática da natureza da crítica em geral. A crítica Absurdista é. Ao contrário. que têm habitado o cerne da própria crítica Normal desde a sua cristalização no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial. a critica Normal toma forma contra o pano de fundo das várias formas de critica praticadas nas universidades antes da Segunda Guerra Mundial. É por isso que o marquês de Sade é a presença predominante da crítica que se desenvolve sob o aspecto de ataques Absurdistas à literatura.

Entretanto. Essas escolas buscavam fornecer uma base teórica para as práticas críticas da academia de um modo que pudesse rebater a acusação dos Reducionistas de que tais práticas eram. O que os Reducionistas combatiam era sobretudo o “falso reducionismo” dos críticos. da psique ou da ideologia que inspirava a consciência de seu criador.era inimigo da literatura ou da crítica. necessidades ou desejos mais fundamentais. nacherleben. da Alemanha e da Itália promoveram durante os anos entre as guerras. ou claramente “estética”. a sua distorção e a revelação do seu conteúdo oculto. Ademais. E julgavam que a função do crítico era fomentar a causa das forças progressistas na vida humana. Todos tinham uma fé comum na possibilidade de um “método” que favorecesse a mediação entre o conteúdo humano da obra de arte que analisavam e as necessidades humanas daqueles que as liam. E os inimigos diretos dos praticantes liberais e radicais do Reducionismo eram os intelectuais e os artistas “lacaios” desses regimes totalitários. Hauser. O modo Reducionista surgiu concomitantemente à franca politização da crítica. DO DISCURSO mas perifericamente). assim. mas. Contudo. Caudwell. Eles poderiam revelar como sendo o verdadeiro conteúdo de uma determinada obra de arte as ações das relações sociais de produção. para não dizer outra coisa. se não . mas todas as formas de arte sublimavam. à crítica predominante na academia que se pode compreender os movimentos teóricos da Crítica Nova. da crítica prática e. Brecht.mesmo que a sua concepção do que era culturalmente “saudável” e do que não o era diferisse do toto caelo de Arnold. O novo modo era representado pelo marxismo. E à luz desse ataque. em virtude. escritores e intelectuais fascistas. Esse outro modo constituía uma ameaça tanto ao conceito de literatura quanto às noções das tarefas da crítica que o modo Elementar partilhava com os seus progenitores do século XIX. do formalismo . de sua incapacidade de perceber as implicações ideológicas de uma crítica geralmente “ética”. ou celebração. Trótski. Essas convenções críticas eram. porém sempre especificamente pré-estéticos e pré-morais. mais essencial. mais ou menos como fizera Arnold . Mannheim. Reducionistas. e não os acadêmicos que faziam crítica no modo Elementar. que os regimes totalitários da Rússia. nenhum dos representantes dessas convenções — nem Lukács. devido ao fato de tenderem a encarar a crítica acadêmica como uma aliada pelo menos tácita do fascismo. pela psicanálise e pelas várias formas de sociologia do conhecimento geradas pela era da ideologia. necessidades e desejos como produtos universalmente hu- manos da condição social da humanidade. Benjamin. e pré-literário. Uma característica de todas essas escolas antiacadêmicas de crítica era desafiar a “inocência” da cultura em geral. “reduzindo” desse modo os aspectos especificamente estéticos da obra de arte à condição de manifestação de impulsos. contra esse modo Elementar da crítica levantou-se nos anos entre as guerras um 294 modo alternativo cujo centro deTRÓPICOS atividade estava fora da universidade (ou dentro dela. considerar a literatura como um epifenômeno de impulsos e necessidades humanas ou sociais mais básicas e definir a tarefa da crítica como o desmascaramento da subestrutura ideológica do texto e a descoberta dos meios pelos quais não somente a literatura. Porém.as escolas que passaram à linha de frente da crítica acadêmica durante a Segunda Guerra Mundial e depois dela. eles também combatiam a crítica acadêmica. a efetivação do distanciamento na obra de arte. Adorno. antes. em certa medida. Todavia. encaravam esses impulsos. obscureciam ou reforçavam impulsos humanos mais ou menos “sociais” na natureza. Freud. imaginando que o objetivo da crítica não era a união com a obra de arte no modo da empatia. com base em cujo conhecimento poderiam avaliar e classificar as obras de arte em progressistas ou retrógradas. nem os outros psicanalistas . Reich. todos compartilhavam a crença na possibilidade de comunicação com as diversas comunidades de críticos e de traduções entre elas. por parte dos Reducionistas.

mas não para ameaçar o que o pensamento humanista tradicional considerava ser o aspecto especificamente “estético” da “obra de arte”. CONTEMPORÂNEA 295 uma dessas escolas de crítica procurava obter um distanciamento teórico da obra de arte de um modo semelhante ao dos marxistas. isto é. em última análise. não apenas contra a tradicional distinção humanista entre “literatura” e “vida”. Diferentemente da crítica acadêmica mais antiga. Os três foram elaborados levando em conta os serviços que o crítico poderia prestar à literatura e os benefícios que a literatura poderia trazer à civilização. os críticos Reducionistas lançaram um ataque. representada por. de molde a deixar sem questionamento a “literariedade” da literatura. na extensão com que a obra de arte se colocava ao lado da vida ou contra ela. esses valores eram dignos de “testemunho” somente na medida em que representavam uma transcendência dos valores da existência humana corriqueira. de. existia por si só . diferindo do modo Elementar por sua autoconsciência teórica.finiam- na por sua diferença dos elementos cotidianos da cultura. Contra a naiveté do modo Elementar. Os Críticos Novos poderiam insistir em que a tarefa do crítico era demonstrar o que “fazia” a obra. moral e epistemológico da obra de arte literária. forças que conferiam à vida humana as suas várias formas. a despeito de todas essas convenções críticas. Spitzer e pela escola filológica. psicanalistas e sociólogos do conhecimento. A Crítica Nova. No final da Segunda Guerra Mundial.execráveis. no entanto. porém. digamos. no significado estético. mas também contra a concepção do estudo humanista em que estava baseada a crítica Elementar.] e recriar o organismo artístico”. respectivamente. contudo. que pairava acima de outros setores da cultura e tinha pouca responsabilidade para com eles e que. Mas o tipo de serviços que a crítica poderia prestar à literatura e os métodos a serem utilizados nessa tarefa eram interpretados de modo diferente. ou mesmo a revelar as formas de arte populares ou folclóricas que lhes forneceram seus atributos distintivos e seu poder de persuasão. pode-se dizer que o cenário crítico era colonizado por representantes de três modos distintivos de crítica: o Elementar. e chegavam a admitir que esse domínio literário poderia ser penetrado pelo crítico e. embasado na “história” da cultura da qual originalmente nascera.como uma ideia platônica ou uma forma autotélica de Aristóteles. os críticos práticos e os formalistas tentaram manter a obra de arte a certa distância do crítico (e do leitor) de modo que pudesse tornar-se manifesta a sua integridade como arte. ou uma alternativa a eles.. o Reducionista e o Inflacionário. os Críticos Novos. sugeria que o mundo literário era fechado e se gerava a si mesmo. que procuravam colocar o crítico “no centro criativo do artista [. A tarefa do crítico. Para eles a literatura não era a antítese da vida. Mas a integridade da obra como arte consistia. Críticos práticos como Trilling e Leavis poderiam achar que a tarefa do crítico era “dar testemunho pessoal” aos valores estéticos e morais presentes nas obras estudadas. pelo menos0 MOMENTOteoricamente ABSURDISTA NA TEORIA LITERÁRIACada ingênuas. Assim.. Os críticos formalis. e não o que ela “significava”. e do modo Reducionista pelo seu desejo de salvar a esfera da arte de um embasamento teórico na “mera” vida. Os Reducionistas fundamentavam a literatura na vida com grande fúria. a crítica nesse modo pode ser chamada de Inflacionária. no que se afirmava ser um meio não-reducionista. finalmente.tas poderiam incitar os seus colegas a empreender a nova descrição da obra de arte de modo a mostrar as suas similaridades genéricas com outras obras de arte de uma dada tradição. Os representantes do modo Elementar simplesmente reconheciam a existência da “literatura”. a crítica prática e o formalismo se concentravam. Isso. mas uma sublimação de forças mais essenciais. mas isso devido ao fato de as obras de arte fazerem coisas que nenhum outro artefato cultural (e pouquíssimos seres humanos) seriam capazes de fazer. do modo .

a crítica prática continuava sujeita ao ataque ao seu elitismo e provincianismo que o marxismo. esse modo Reducionista constituía uma ameaça à literatura tão perigosa quanto o tipo de crítica promovido pelos regimes totalitários contra o qual os Reducionistas haviam lançado o seu desafio. porque era inerentemente suspeita de todas as formas de especulação metateórica. Mas. Pouco a pouco eles cortaram. Não se pode dizer. aos seus diversos contextos históricos.como a viam os Reducionistas. mas foi mais longe na tentativa de separar a literatura da vida e a arte do processo histórico de que se originou.como Northrop Frye o faria posteriormente no seu Anatomy of Criticism. Os críticos Inflacionários partilhavam um desejo comum de assentar o estudo e a crítica literária numa base “obje